Cirurgia Geral › Pré e Pós-operatório
Sepse com endereço
Choque séptico e manejo da sepse cirúrgica (Surviving Sepsis)
Reconhecer sepse de foco cirúrgico, tratar e controlar a fonte em paralelo e revisar antimicrobianos pela evolução e microbiologia.
Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de protocolo gerenciado de sepse — Protocolo clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse/choque séptico. Revisado em julho de 2026. São Paulo: ILAS, 2026. 18 páginas.
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Pfizer. MERONEM IV — informações do produto. [Acessar fonte](https://labeling.pfizer.com/ShowLabeling.aspx?id=15281)
Responda antes de ler
Mulher de 63 anos foi reabordada há nove dias por vazamento de anastomose, melhorou, saiu da unidade de terapia intensiva e voltou a comer. Há dois dias voltou a ter febre, e o plantonista trocou piperacilina-tazobactam por meropeném; ontem acrescentou vancomicina. Hoje continua com febre, frequência cardíaca de 114 e lactato de 2,5 mmol/L, sem choque, e nenhum exame de imagem foi pedido. Qual é o próximo passo?
O paciente que você vai ver
Uma e quarenta da madrugada de um sábado. O hospital é regional, tem cento e sessenta leitos, um tomógrafo que funciona a noite inteira e uma sala de radiologia intervencionista que fecha às sete da noite e só volta a abrir às sete da manhã. Você é o interno da escala noturna da cirurgia. O residente de segundo ano, Jônatas Athayde, está no centro cirúrgico desde a meia-noite com um ferimento por arma branca, e a cirurgiã de sobreaviso está em casa, a doze minutos de carro. A enfermeira do quarto andar liga para o seu celular e dispensa o cumprimento: “O seu Dionísio do 412 está diferente. Já abri o protocolo de sepse.”
Dionísio Serqueira tem 67 anos e 72 quilos, é mestre de obras aposentado, hipertenso com a pressão bem controlada, e foi operado na segunda-feira: hemicolectomia direita por adenocarcinoma de ceco, com anastomose entre o íleo terminal e o cólon transverso. Hoje é o quinto dia. A evolução da manhã de sexta registra “íleo, aguardar”; a da tarde, “distensão, náusea, frequência de 104, mantida a conduta”. Às 01h40 ele tem frequência cardíaca de 128, pressão de 86 por 50, frequência respiratória de 26, temperatura axilar de 38,6 °C e saturação de 93% em ar ambiente. Não sabe dizer em que dia da semana está. A bolsa coletora tem 60 mL de urina desde as 21h40.
O abdome conta o resto, mas conta em voz baixa, porque é o abdome de quem foi aberto há cinco dias: a incisão dói por conta própria, a analgesia amortece, e a distensão já estava lá desde a tarde. O que mudou é que a dor agora está em toda parte, a descompressão dói longe da ferida e os ruídos intestinais sumiram. O curativo está seco. Não há dreno. A enfermeira colheu o lactato, que vai voltar às 02h05 em 4,6 mmol/L, e separou os frascos das hemoculturas, que serão colhidas antes da primeira dose. O pacote da primeira hora está andando, e andando no prazo.
É neste ponto que muito plantão se engana de problema. O pacote é necessário e está sendo feito, e mesmo assim não vai resolver, porque a sepse de seu Dionísio não vem de um pulmão nem de uma urina: ela tem endereço. Muito provavelmente há uma linha de sutura que abriu dentro do abdome, e por ela sai conteúdo intestinal neste momento, enquanto você lê a prescrição. O antimicrobiano que vai correr nos próximos trinta minutos compra horas. O volume e a noradrenalina compram minutos. O que devolve a chance a esse homem é alguém tirar aquilo de lá de dentro — e a pergunta que este capítulo responde é quem tira, por qual caminho e em quantas horas.
São quatro tarefas, dispostas na sequência em que a madrugada as cobra. Ensina a reconhecer que a sepse do operado tem endereço cirúrgico e a separar o abdome que se resolve com uma agulha do abdome que precisa ser aberto de novo. Fixa o relógio: a partir de quando se contam as horas até o foco sair, e quantas são. Acompanha o que acontece depois da sala — como se sabe que o controle funcionou, por que a reabordagem se faz por sinal e não por calendário, de que dia se conta a duração do antimicrobiano. E termina onde o plantão mais erra: no foco que não fecha, em que trocar de antibiótico parece conduta e é adiamento.
Quem adoece disso
Os dois documentos brasileiros que organizam o atendimento da sepse nos hospitais — o protocolo clínico do Instituto Latino Americano de Sepse, revisado em julho de 2026, e o guia prático de terapia antimicrobiana do mesmo instituto, de 2024 — tratam a sepse como síndrome e não trazem número próprio para a sepse de foco abdominal no paciente operado. Os números nacionais da sepse, com a letalidade e a adesão ao pacote, estão em Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, e este capítulo não os repete. O que ele reúne são os números que mudam a decisão diante de um operado séptico, e quase todos medem a mesma coisa: horas.
A diretriz internacional de sepse publicada em março de 2026 reuniu onze estudos observacionais sobre o tempo até o controle do foco; na maioria deles, precoce queria dizer em até seis horas. A metanálise aponta mortalidade de curto prazo cerca de 30% menor com o controle precoce — risco relativo de 0,70, com intervalo de confiança de 0,51 a 0,95 — e o painel classificou a certeza como muito baixa, porque estudo observacional está sujeito ao viés de quem vai primeiro para a sala ser justamente quem estava menos grave. O que a certeza baixa não autoriza é a conclusão contrária: nenhum dos dados sugere que esperar proteja. A recomendação saiu condicional, a favor do controle precoce, e com a frase que interessa a quem está de plantão: esforço prolongado para estabilizar clinicamente, sem retirar o foco, um paciente em choque séptico dificilmente dá certo.
Os números mais duros vêm do paciente em choque por perfuração do tubo digestivo. Um estudo prospectivo sobre o tempo até a operação nesses pacientes, citado tanto pela diretriz de 2023 da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência quanto pela atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica, encontrou sobrevida que caía a cada hora de atraso e chegava a zero quando o atraso passava de seis horas. Na perfuração digestiva alta, outro estudo citado pela diretriz de 2023 associou cada hora adicional até a operação a aumento de 6% na mortalidade. Nenhum dos dois é de paciente operado cuja anastomose vazou, e a transposição é leitura deste capítulo: o mecanismo que mata — conteúdo intestinal na cavidade enquanto o relógio corre — é o mesmo.
A infecção intra-abdominal do operado já nasce classificada. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica inclui, entre os critérios de alto risco, ter uma infecção intra-abdominal pós-operatória — ao lado de sepse ou choque, controle inicial do foco atrasado ou inadequado, peritonite difusa e comorbidades importantes. A razão é microbiológica: quem está internado e já recebeu antimicrobiano carrega mais germes resistentes e uma variedade maior de invasores, com estafilococos, enterococos e Candida entre eles, do que quem adoeceu em casa. Na prática, isso quer dizer que seu Dionísio, antes de qualquer cultura, já não é o paciente da ceftriaxona com metronidazol, que a mesma diretriz reserva para a infecção comunitária de menor risco.
Há uma segunda epidemiologia, a do acesso, e essa é brasileira. Os esquemas intravenosos que a diretriz de 2024 recomenda ou reserva para o paciente de alto risco — piperacilina com tazobactam, meropeném ou imipeném, cefepima associada a metronidazol e as combinações mais novas para germe resistente — estão todos fora da Rename 2024, e o metronidazol só consta ali em comprimido. O que o elenco nacional garante, entre os antimicrobianos que servem a esse doente, é a ceftriaxona injetável e, no componente estratégico, a anidulafungina e o fluconazol injetável. Estar fora do elenco não quer dizer estar fora da farmácia do seu hospital, porque antimicrobiano de uso hospitalar costuma ser comprado pelo próprio serviço; quer dizer que a disponibilidade muda de um hospital para outro, e que a lista da farmácia precisa ser conhecida antes da madrugada em que vai ser usada.
Existe também o que não se mede. O protocolo do ILAS de julho de 2026 recomenda que o controle do foco seja feito o mais rapidamente possível, idealmente nas primeiras seis horas, conforme a viabilidade clínica, a logística e a disponibilidade do serviço. Os indicadores de qualidade que o mesmo documento nomeia são outros: o segundo lactato em até quatro horas e a reavaliação das seis horas. O tempo até o controle do foco tem prazo recomendado e não tem indicador. Para o plantão, a consequência cabe numa linha: ninguém vai auditar a hora em que o abdome de seu Dionísio foi aberto, e é exatamente por isso que alguém precisa anotá-la.
O último número é o do excesso. Cada dia a mais de antimicrobiano cobra seu preço: o guia do ILAS de 2024 cita uma revisão de 2022 segundo a qual as chances de evento adverso crescem 4% por dia adicional de terapia, e as de evento adverso grave, 9%. Na infecção intra-abdominal, um ensaio clínico multicêntrico e aberto, com 518 pacientes, sustenta a recomendação da diretriz de 2024 de não passar de quatro dias depois de um controle adequado do foco. A sepse cirúrgica mata pelo foco que fica; quem sobrevive a ela paga pelo antimicrobiano que sobra.
Por que acontece o que acontece
Uma coleção infectada é uma cavidade que o organismo conseguiu cercar. Em volta dela forma-se uma parede de fibrina e de tecido inflamado, pouco irrigada; dentro, há pus — neutrófilos mortos, bactérias em número muito maior do que em qualquer tecido vivo, restos de tecido digerido —, o pH é baixo e o oxigênio quase não chega. Cada um desses fatos trabalha contra o antimicrobiano. A droga entra mal numa cavidade sem vaso, os betalactâmicos perdem eficácia quando a carga bacteriana é enorme, os aminoglicosídeos perdem atividade no meio ácido e sem oxigênio, e as bactérias que param de se dividir deixam de ser alvo das drogas que agem sobre a divisão. É por isso que uma coleção pode receber o esquema certo, na dose certa, por dias, e continuar ali.

O vazamento de uma anastomose é outro problema, e a diferença decide o caminho. Uma coleção é um reservatório; uma linha de sutura aberta é uma torneira. A cada onda de peristaltismo, conteúdo intestinal atravessa a falha e cai numa cavidade que absorve depressa: o peritônio é uma superfície enorme, e os linfáticos do diafragma levam bactérias e produtos bacterianos para a circulação em pouco tempo. O organismo reage do jeito que sabe, exsudando fibrina, colando alças e omento em volta da falha. Se consegue, o vazamento fica contido e vira coleção — e uma agulha pode resolver. Se não consegue, o conteúdo se espalha, a peritonite é difusa, e nenhuma punção fecha a torneira. As duas evoluções saem do mesmo defeito, e reconhecer qual delas está diante de você é metade da decisão.
O abdome recém-operado esconde as duas. A incisão dói e justifica a dor; o opioide e a analgesia peridural amortecem a defesa da parede; o íleo do pós-operatório é esperado nos primeiros dias; a própria operação produz febre, leucocitose e um pouco de ar livre na cavidade. O paciente da unidade de terapia intensiva, sedado e ventilado, não conta dor nenhuma. Por isso, no operado, o foco costuma se anunciar antes pela fisiologia do que pelo exame: a frequência cardíaca que não desce, a diurese que cai, a confusão nova, o íleo que deixa de melhorar, a dieta que deixa de ser tolerada, a noradrenalina que precisa subir. Ler essa curva dia após dia é o que ensina Cento e vinte, sem febre, dono do reconhecimento das complicações nesta apostila, e aqui ela se aplica sem mudança.
Do lado sistêmico, o foco que continua aberto continua liberando bactérias, toxinas e fragmentos de tecido morto, e o organismo continua respondendo com vasodilatação e com vazamento capilar. A pressão cai porque o vaso se abriu, não porque faltou volume, e o volume dado para sustentar a pressão sai do vaso para o interstício, para a parede das alças e para o mesentério. O intestino edemaciado ocupa mais espaço num abdome que não cresce, a pressão dentro dele sobe, e essa pressão comprime rins, veia cava e diafragma — um segundo mecanismo de falência somado ao primeiro. Medir essa pressão e conduzir as primeiras horas da hipertensão intra-abdominal é de Frio, e não é a sala, o capítulo anterior desta apostila; o que importa aqui é a direção da causa: é o foco que alimenta o ciclo, e enquanto ele ficar lá cada litro de cristaloide compra menos pressão e mais edema.
O tempo pesa por uma razão fisiológica e não só estatística. Nas primeiras horas, a disfunção dos órgãos ainda depende do estímulo: tirado o foco, a vasodilatação cede, a noradrenalina desce e o rim volta a filtrar. Com o passar das horas, a disfunção passa a se sustentar sozinha — o endotélio lesado, a microcirculação obstruída, o intestino isquêmico que também libera mediadores —, e retirar o foco já não reverte o quadro com a mesma velocidade. A ressuscitação é o que mantém o paciente vivo até a sala; ela não substitui a sala, e quanto mais tempo ela precisa sustentar sozinha a pressão de alguém com o abdome contaminado, menor o que sobra para recuperar depois.
A microbiologia do abdome operado é diferente da do abdome que adoeceu em casa. Numa perfuração do cólon que chega pelo pronto-socorro, os agentes esperados são as enterobactérias, como a Escherichia coli, e os anaeróbios, como o Bacteroides fragilis, quase sempre sensíveis aos esquemas comunitários. Depois de dias de internação e de exposição a antimicrobianos, a flora do intestino e da pele muda: crescem enterococos, bacilos gram-negativos resistentes, bactérias não fermentadoras e Candida. Quando o controle falha e a infecção persiste ou volta, essa troca se acentua, e a diretriz de 2023 da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência descreve o deslocamento de germes entéricos para populações hospitalares. Na leitura deste capítulo, são em geral germes menos agressivos, num hospedeiro que perdeu a capacidade de eliminá-los e selecionados pelos antimicrobianos que se acumularam — e é essa combinação, mais do que a virulência, que faz o terreno da chamada peritonite terciária.
Controle do foco, então, não é sinônimo de cirurgia. É um conjunto de quatro ações sobre a origem da infecção: drenar o que está coletado, desbridar o tecido necrosado, interromper a contaminação que continua — fechando, excluindo ou exteriorizando o segmento que vaza — e retirar o dispositivo ou o corpo estranho infectado. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda o caminho menos invasivo que alcance o controle definitivo (grau 1-B) e define o sucesso pelo resultado: resolução da resposta inflamatória e da disfunção orgânica. Um procedimento que foi feito e não produziu esse resultado não controlou o foco, por mais bem executado que tenha sido.
Esse mesmo raciocínio explica de onde se conta a duração do antimicrobiano. Retirado o reservatório, o que resta para a droga fazer é limpar a contaminação residual dos tecidos em volta e do sangue, e isso leva poucos dias. Enquanto o reservatório continua lá, nenhuma duração basta, e prolongar o esquema não substitui um novo controle. Por isso o relógio da duração começa no dia do controle do foco que funcionou, e não no dia da primeira dose — e volta ao zero cada vez que um foco novo precisa ser drenado.
Como se apresenta de verdade
As fronteiras deste capítulo precisam vir antes das seções, porque ele nasce entre vizinhos que já existem e só se sustenta se cada um ficar com o que é seu. A primeira é com a apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica, e se diz com a mesma frase que abre a fronteira do capítulo sobre peritonite secundária e abscesso intra-abdominal daquela apostila: o abdome que ainda não foi operado é da Urgência; o abdome operado que infecta é do Pré e Pós-operatório. A peritonite de quem chega pela porta do pronto-socorro, o abscesso que se formou antes de qualquer operação e a primeira cirurgia feita para controlá-los são de lá. Tudo o que infecta depois de uma operação — inclusive depois dessa primeira — é daqui. Pela mesma régua, a drenagem da via biliar na colangite, que é de Bile sob pressão, fica naquela apostila, e a necrose pancreática infectada de quem não foi operado fica do mesmo lado da fronteira — Pancreatite aguda trata do momento de intervir sobre ela.
Três vizinhos são donos do que vem antes da decisão sobre o foco, e este capítulo cede a eles sem reescrever. Identificar a sepse e as disfunções que a definem, colher lactato e hemoculturas, repor volume, iniciar noradrenalina e dar a primeira dose de antimicrobiano são tarefas de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências. A investigação da febre que ainda não tem endereço — quando cada causa aparece ao longo dos dias, quais dispositivos revisar, como colher hemocultura, que esquema empírico cabe a cada sítio e por que o antimicrobiano se revisa entre 48 e 72 horas — pertence a Febre no paciente internado, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. E o diagnóstico da complicação cirúrgica — o vazamento de anastomose reconhecido pela curva do pulso, o íleo que deixou de ser esperado, a fístula e a leitura do dreno — é de Cento e vinte, sem febre, nesta apostila. Este capítulo começa quando esses três terminaram: há sepse, há endereço cirúrgico provável, e alguém precisa decidir o que sai, por onde e quando.
Três outros vizinhos ficam com partes do mesmo paciente. A ferida — os três planos da infecção de sítio cirúrgico, a deiscência de aponeurose, a evisceração e a infecção necrosante da incisão — é de Abrir antes que abra sozinha, nesta apostila, que também traz a classificação nacional de vigilância da infecção de órgão ou cavidade; aqui se decide como o foco dessa infecção sai, não como ela se notifica. Separar os tipos de choque, medir a pressão intra-abdominal e conduzir as primeiras horas da hipertensão intra-abdominal são de Frio, e não é a sala, o capítulo anterior desta apostila; a escolha entre drenar por punção e reabrir, que ele anuncia, é conduzida por inteiro neste. E a técnica de fechar temporariamente um abdome, de manter a cavidade aberta e de fechar a parede em definitivo é de Cirurgia de controle de danos e tríade letal, na apostila de Trauma; a decisão de deixar aberto um abdome séptico que não é de trauma fica aqui.
O que sobra, e que este capítulo assume e declara que assumiu, é o roteiro do controle do foco no paciente operado: reconhecer que a sepse tem endereço cirúrgico; escolher entre punção guiada por imagem, reabordagem e abdome deixado aberto; fixar em quantas horas isso acontece e a partir de quando se contam; preparar o paciente para o procedimento; decidir entre reabordagem por sinal e reabordagem marcada; escolher o espectro do antimicrobiano na infecção intra-abdominal pós-operatória, que é infecção relacionada à assistência e não se trata como a comunitária; pedir a cultura que vale; descalonar sem perder a cobertura de anaeróbios; contar a duração a partir do controle; e reconhecer quando o controle falhou. As seções abaixo percorrem esse roteiro na ordem em que o paciente o apresenta.
O abdome operado que infecta: as três formas de se apresentar
A primeira forma é a coleção pós-operatória. Costuma aparecer no fim da primeira semana ou depois dela, quando o organismo já teve tempo de cercar a contaminação. A febre vem em picos, o íleo que parecia estar resolvendo volta ou não termina, a dor fica localizada, a dieta deixa de ser tolerada. O lugar da coleção muda o sintoma: a coleção pélvica dá diarreia com muco, tenesmo e urgência para urinar, e o toque retal encontra abaulamento doloroso; a coleção abaixo do diafragma dá soluço, dor que irradia para o ombro e derrame pleural do mesmo lado; a coleção entre alças dá distensão e vômito. O paciente pode estar em sepse sem choque, e com frequência está apenas infectado, sem disfunção. Nesse doente, o tempo permite a imagem, permite planejar e quase sempre permite a agulha.
A segunda forma é o vazamento com peritonite difusa. Costuma aparecer antes da coleção e evolui mais rápido. O abdome que já doía por causa da incisão passa a doer inteiro, a descompressão dói longe da ferida, os ruídos somem, a distensão cresce, e a disfunção orgânica aparece em horas — hipotensão, oligúria, confusão, taquipneia, lactato alto. Quando existe dreno, o conteúdo pode mudar de aspecto; quando não existe, como no caso de seu Dionísio, o dreno não avisa nada. Este é o doente da sala: não há coleção a puncionar, há uma cavidade inteira contaminada e uma falha que continua aberta.
A terceira forma é a do paciente em que só a fisiologia fala. O operado sedado na unidade de terapia intensiva não relata dor e não contrai a parede; o idoso apresenta confusão e queda funcional antes de qualquer outro sinal; o imunossuprimido — por corticoide, quimioterapia ou transplante — faz pouca febre e pouca defesa; o obeso tem exame abdominal que quase não informa; o paciente com analgesia peridural sente pouco. Nesses doentes, o foco se anuncia pela noradrenalina que precisa subir, pela diurese que cai sem explicação, pela dieta enteral que volta pela sonda, pela glicemia que dispara, pelas plaquetas que caem. O limiar para a imagem precisa ser baixo, e o pedido precisa trazer a pergunta escrita, porque um exame pedido como controle volta com alterações pós-operatórias esperadas.
Há ainda o operado cuja sepse não vem do abdome: o cateter central infectado, a pneumonia do acamado, a infecção urinária da sonda, a colite por Clostridioides difficile de quem recebeu antimicrobiano. A investigação desses focos é de Febre no paciente internado. O que este capítulo acrescenta é uma ordem de perguntas: no operado de víscera oca a partir do terceiro dia, a pergunta sobre o abdome precisa ser respondida — com exame e, se preciso, com imagem — antes de a sepse ser atribuída a outro sítio. Uma urocultura positiva num paciente sondado explica menos do que parece, e o vazamento que ganhou o rótulo de infecção urinária continua vazando.
O dia do pós-operatório muda o caminho, e não só a suspeita
A cronologia das complicações por dia de pós-operatório já está montada em Cento e vinte, sem febre e, para o choque, em Frio, e não é a sala. O que ela acrescenta a este capítulo é outra coisa: o dia muda a via pela qual o foco vai sair, porque muda o estado do abdome por dentro.
Nos primeiros dias, a cavidade ainda não se organizou. As alças soltas e o omento que ainda não aderiu deixam o conteúdo que vaza se espalhar, e o vazamento precoce tende a produzir peritonite difusa, que só a reabordagem controla. Em compensação, reabrir um abdome de poucos dias é tecnicamente menos hostil: as aderências são frouxas, os planos se reconhecem, a anastomose pode ser vista inteira. Essa é uma leitura deste capítulo, e ela ajuda a entender por que a decisão costuma ser mais rápida no terceiro dia do que no décimo.
Do fim da primeira semana em diante, o omento e as alças já colaram em volta de qualquer falha, o vazamento tende a ficar contido e a coleção tende a ter parede e janela para a agulha. É também quando reoperar fica mais perigoso, porque o tecido está inflamado, friável e aderido, e a lesão inadvertida de uma alça durante a dissecção pode criar a fístula que a operação queria evitar. A discussão entre punção e reoperação no vazamento contido em paciente estável está em Cento e vinte, sem febre, com as três informações que o interno entrega ao cirurgião; este capítulo parte dela e segue adiante.
Dois extremos pedem atenção à parte. A infecção que aparece nas primeiras 24 a 48 horas é rara e grave: pede que se pense em lesão de alça não percebida na operação, em isquemia do segmento anastomosado ou em infecção necrosante da ferida, que é de Abrir antes que abra sozinha — e nenhuma delas se resolve com agulha. No outro extremo, a coleção que aparece depois de um curso de antimicrobiano, na segunda ou terceira semana, costuma ser a falha de um controle anterior, e o raciocínio muda para o da última seção deste bloco.
Contida ou difusa: os achados que escolhem entre a agulha e a sala
A decisão sobre a via é do cirurgião e, quando há punção, do radiologista intervencionista. A parte do interno é chegar com a informação completa, e a lista do que decide é um pouco mais longa do que as três perguntas que servem ao vazamento contido. Os achados abaixo são a síntese deste capítulo a partir das diretrizes que ele usa; os documentos brasileiros em uso para sepse e para antimicrobianos — o protocolo e o guia do ILAS e a diretriz de gerenciamento de antimicrobianos da Anvisa — não trazem critério para escolher entre drenagem percutânea e reoperação, e a escolha, no Brasil, apoia-se em diretriz internacional e na estrutura do serviço.
Favorecem a agulha: uma coleção única, bem delimitada, com parede; uma janela segura para o trajeto, sem alça, vaso ou órgão no caminho; um paciente que responde à ressuscitação; e ausência de peritonite difusa ao exame. Favorecem a sala: peritonite difusa ao exame ou à tomografia, com líquido livre em vários quadrantes e gás fora das alças espalhado pela cavidade; múltiplas coleções entre as alças, sem janela; suspeita de isquemia ou necrose, como alça que não capta contraste ou gás na parede intestinal; falha de uma drenagem bem posicionada; e o paciente em choque que não responde, que não tem horas para esperar um procedimento que talvez não resolva. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica resume o princípio: o caminho menos invasivo que alcance o controle definitivo — e o peso está na segunda metade da frase.
O tamanho da coleção entra na conta, mas sem um número mágico. Coleção pequena, sem repercussão sistêmica, pode ser acompanhada com antimicrobiano e imagem de controle. Os cortes de quatro a cinco centímetros que circulam para indicar punção vêm do abscesso da diverticulite, que é o doente não operado da outra apostila; para a coleção pós-operatória, os documentos que este capítulo usa não fixam tamanho de corte, e o que decide é a repercussão clínica, a resposta ao esquema e a acessibilidade.
A diretriz de 2023 da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência, escrita com as sociedades europeia e americana de infecção cirúrgica, acrescenta um critério que não está no abdome e sim no paciente. Ela classifica o doente em três classes — o hígido ou com comorbidades controladas; o que tem comorbidade importante ou imunossupressão moderada, estável; e o que tem doença avançada ou imunossupressão grave — e defende que, quanto menos robusto o paciente, mais a estratégia escolhida precisa tolerar a própria falha. A tradução prática, dada pela própria diretriz, é aceitar a colostomia no lugar de uma nova anastomose no paciente frágil que não sobreviveria a um segundo vazamento.
Existem ainda vias endoscópicas para vazamentos altos, como os de esôfago e estômago, e alguns serviços usam próteses e sistemas de vácuo por endoscopia. São decisões de centros com essa estrutura e não mudam o que cabe ao interno: reconhecer, preparar, informar e não deixar a noite passar sem que alguém com poder de decisão tenha visto o paciente.
O paciente que responde, o que não responde, e o serviço que você tem
Responder à ressuscitação não é a pressão subir com noradrenalina. É o conjunto que o capítulo da sepse ensina a medir: o lactato que cai, a diurese que volta, o enchimento capilar que encurta, a consciência que clareia, a dose de noradrenalina que para de subir. O paciente que responde nas primeiras horas compra tempo — para a tomografia, para esperar uma sala, às vezes para a punção da manhã. O que não responde não compra, e cada hora de espera é hora de foco aberto.
O protocolo do ILAS de julho de 2026 amarra o prazo do controle do foco a três condições: o mais rapidamente possível, idealmente nas primeiras seis horas, conforme a viabilidade clínica, a logística e a disponibilidade do serviço. A frase é honesta, porque reconhece que o hospital real tem limites, e é perigosa se for lida como licença para esperar o dia amanhecer. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica é mais estreita no doente mais grave: no paciente de alto risco em choque séptico, controle do foco em até seis horas, com recomendação de grau 1-B.
É aqui que a estrutura do seu hospital entra na decisão clínica. Às três da manhã, com a sala de radiologia intervencionista fechada até as sete, a pergunta deixa de ser qual via é a melhor em tese e passa a ser qual via cabe no prazo deste paciente. Para quem está em choque e não responde, esperar quatro horas por uma punção que talvez não resolva costuma estourar a janela, e a reabordagem de madrugada é a via possível. Para quem está estável, infectado e sem disfunção, com uma coleção única e acessível, esperar a manhã com o antimicrobiano correndo cabe na posição que este capítulo adota para essa faixa, que as diretrizes deixam sem prazo — desde que alguém reavalie a cada poucas horas e que a piora antecipe a decisão.
Quando o hospital não tem cirurgião disponível, não tem tomografia ou não tem leito de terapia intensiva, a decisão vira de transferência, e ela também tem relógio. O paciente séptico com endereço cirúrgico que espera a regulação precisa continuar ressuscitado, com antimicrobiano correndo e com a pergunta escrita na solicitação — sepse de foco abdominal em operado, com necessidade de controle do foco —, porque é essa frase que muda a prioridade da vaga. A forma de acionar e de escalonar quando a ajuda não vem é de Chamar antes de ter certeza, na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.
Quando o primeiro controle não basta: persistência, recaída e peritonite terciária
O controle do foco se define pelo resultado, e por isso ele pode falhar mesmo quando o procedimento foi feito. Falha é a resposta inflamatória e a disfunção orgânica que não resolvem depois do procedimento, ou que resolvem e voltam. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda usar as medidas de inflamação sistêmica e de disfunção orgânica, contínuas ou progressivas, para prever a falha do controle (grau 1-B), e não fixa um número: o que conta é a tendência, e ela se lê em série, com a mesma régua, nos dias seguintes.
Os sinais de falha são os mesmos da primeira vez, com uma diferença de contexto. A febre que volta depois de dois dias sem ela, a leucocitose que para de cair, a noradrenalina que tinha sido suspensa e volta, o íleo que retorna, a coleção que reaparece na imagem, o dreno que muda de conteúdo. No paciente que já recebeu dias de antimicrobiano, cada um desses sinais pede primeiro uma pergunta anatômica — há uma nova coleção, uma nova falha, uma alça isquêmica, um foco fora do abdome? — e só depois uma pergunta farmacológica.
O nome peritonite terciária recebeu em 2005 a definição que a diretriz de 2023 da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência cita: a peritonite que persiste ou reaparece 48 horas ou mais depois de um tratamento aparentemente bem-sucedido de uma peritonite primária ou secundária. A mesma diretriz chama o conceito de mal definido, mal compreendido e possivelmente histórico, e prefere pensar nesse doente como portador de uma peritonite em curso, num intestino cuja flora foi desorganizada pela doença crítica e pelos antimicrobianos. Para a beira do leito, o rótulo importa menos do que as três consequências: os germes esperados passam a ser os hospitalares, com enterococos, bacilos resistentes e Candida; a cultura que vale é a do novo foco, colhida no novo procedimento; e o próximo passo raramente é um antimicrobiano mais largo.
Existe o paciente cujo abdome não se controla — o de várias reabordagens, com a cavidade congelada por aderências, fístula aberta para a ferida e disfunção que não cede. A decisão de continuar intervindo passa a ser também uma decisão sobre objetivos de cuidado, e ela precisa ser conversada com a família antes da madrugada em que for tomada. As palavras dessa conversa são de Comunicação de más notícias, e o cuidado das últimas horas é de Ninguém disse que era hoje, ambos na apostila de Comunicação, Ética e Segurança na Prática.
O abdome que se deixa aberto, e a reabordagem que se marca
Ao fim de uma reabordagem por peritonite, o cirurgião decide duas coisas que mudam os dias seguintes: se fecha o abdome e se marca uma nova abertura. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda, no paciente de alto risco com peritonite grave, a reabordagem sob demanda — feita quando os sinais pedem, e não por calendário — sempre que o controle adequado do foco foi obtido na operação (grau 1-B).
A mesma diretriz recomenda deixar o abdome temporariamente aberto, com técnica de fechamento provisório, no paciente crítico em quatro situações: quando fechar a parede puder produzir hipertensão intra-abdominal; quando a reserva fisiológica estiver gravemente comprometida; quando a primeira operação não conseguir controlar o foco de forma adequada; e quando uma nova abertura já estiver planejada por isquemia mesentérica (grau 1-B). Fora dessas situações, deixar aberto não é conduta de segurança, é um segundo problema.
A diretriz de 2023 da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência lembra o que o abdome aberto oferece nesses casos: além de encurtar a operação no paciente sem fisiologia para uma cirurgia longa, ele facilita as lavagens e as revisões seguintes e permite adiar uma anastomose para quando o terreno a sustentar. A técnica de fechamento temporário, o manejo da cavidade aberta e o fechamento definitivo da parede são de Cirurgia de controle de danos e tríade letal, na apostila de Trauma, que é o dono deles.
Para o interno, o paciente de abdome aberto muda a rotina da unidade: o balanço hídrico precisa somar o que sai pelo curativo de pressão negativa, a perda de proteína por essa via é grande, a pressão intra-abdominal continua sendo medida — pelo método de Frio, e não é a sala —, a estomia, quando existe, precisa ser olhada a cada turno quanto à cor e à viabilidade, e a família precisa ouvir, antes de entrar no leito, que o abdome foi deixado aberto de propósito.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do operado séptico tem uma pergunta só, e todo exame precisa responder a ela ou sair do pedido: onde está o foco, e ele sai por agulha ou por sala? O pacote da primeira hora — lactato, hemoculturas, painel de disfunções — corre em paralelo e é de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora. A busca do foco quando a febre ainda não tem endereço é de Febre no paciente internado. O que fica aqui é a investigação que escolhe a via e, depois do procedimento, a que diz se o controle funcionou.
Há um princípio que atravessa as seis seções: exame que não muda a via não pode atrasar a via. No paciente em choque com peritonite difusa, cada exame pedido precisa ser pesado contra as horas que custa, e o interno que chega ao telefone com o paciente examinado, o lactato na mão e a pergunta formulada economiza mais tempo do que qualquer exame.
O que a beira do leito já decide antes da imagem
Antes de qualquer imagem, cinco dados de beira de leito precisam estar anotados com hora, porque são eles que o cirurgião vai perguntar primeiro. O dia do pós-operatório e a operação feita, com o tipo de anastomose e onde ela está. A curva da frequência cardíaca, da pressão, da temperatura e da diurese nas últimas 24 horas, e não só o valor de agora. O exame do abdome inteiro, e não só da ferida: onde dói, se a descompressão dói longe da incisão, se há distensão nova, se os ruídos sumiram. O que saiu por drenos, sondas e estomias, com volume e aspecto. E a resposta às primeiras medidas do pacote: o que aconteceu com a pressão, a diurese e a consciência depois do volume.
Com esses dados, parte das decisões já está tomada. Peritonite difusa ao exame num paciente em choque que não responde é indicação de sala, e a tomografia só entra se não atrasar a sala e se puder mudar o que se vai fazer lá dentro — por exemplo, mostrando uma segunda coleção longe da anastomose. Um paciente estável, com dor localizada e febre em picos no fim da primeira semana, tem tempo para a imagem e quase certamente vai precisar dela para a punção. Entre os dois extremos, a regra de Frio, e não é a sala vale também aqui: antes de pedir, pergunte o que muda na conduta com cada resultado possível.
Os exames de laboratório que acompanham a decisão são os do pacote e mais três que o procedimento exige: contagem de plaquetas e coagulograma, porque a punção e a sala precisam deles; tipagem sanguínea com reserva, porque a reabordagem pode sangrar; e a hora da última dose de anticoagulante profilático, que entra no pedido de punção e na conversa com o anestesista. Quanto tempo suspender a profilaxia antes de um procedimento, e quando reintroduzi-la, é de Duas contas que não se somam, nesta apostila.
A tomografia que responde à pergunta certa
O exame que escolhe a via no abdome operado é a tomografia de abdome e pelve com contraste venoso. Com o contraste, a parede de uma coleção aparece como um anel que realça, a alça isquêmica aparece como segmento que não capta, e o líquido livre se distribui de um jeito que separa o contido do difuso. O uso de contraste pela boca, pela sonda, pela estomia ou pelo reto, para mostrar se ele escapa pela linha de sutura, depende de onde está a anastomose e é combinado entre o radiologista e o cirurgião; o interno garante que a pergunta chegue escrita.
O pedido faz metade do laudo. “Dor abdominal, pós-operatório” volta com a frase alterações pós-operatórias esperadas. “Quinto dia de hemicolectomia direita com anastomose ileocólica, choque séptico, suspeita de vazamento — há gás ou contraste fora das alças junto à anastomose, há coleção drenável, há peritonite difusa?” volta com as três respostas. Escreva também o que o radiologista não tem como saber: se houve drenos, onde estavam, e se a operação deixou algum material na cavidade.
A leitura exige separar o esperado do anormal. Um pouco de ar livre e um pouco de líquido são esperados nos primeiros dias depois de uma laparotomia e, sozinhos, não provam vazamento. O que pesa é outra coisa: gás junto à linha de anastomose, gás que aumenta de um exame para o seguinte, extravasamento de contraste, coleção com parede que realça, alça que não capta, líquido espalhado por vários quadrantes num paciente que piora. Quem responde se aquilo é drenável é o radiologista; quem decide a via é o cirurgião; quem leva o laudo lido, e não só impresso, é você.
Dois cuidados cercam o exame. O primeiro é o transporte: o paciente séptico instável vai à tomografia monitorizado, com a noradrenalina correndo em bomba, com acesso venoso que funcione, com sonda nasogástrica aberta se há distensão e vômito, e acompanhado por quem saiba agir se ele piorar no caminho. O segundo é a função renal. A creatinina alta de seu Dionísio não é motivo para adiar a tomografia quando a pergunta é o controle do foco, porque o dano de manter um abdome contaminado é maior e mais rápido do que o risco atribuído ao contraste; essa ponderação é leitura deste capítulo, e a forma de conduzir a função renal no séptico é de Injúria renal aguda, na apostila de Nefrologia.
O ultrassom à beira do leito, e quando ele basta
O ultrassom feito à beira do leito tem dois usos neste doente. O primeiro é responder rápido, sem transporte, se há líquido livre em quantidade e se há uma coleção grande e superficial. O segundo é guiar a punção de uma coleção acessível, e muitas drenagens pélvicas e subfrênicas se fazem assim.
Os limites são os do abdome operado: gás das alças distendidas, curativo e incisão no caminho do transdutor, drenos, estomia, obesidade. Um ultrassom que não mostra coleção não exclui coleção nesse paciente, e ele não substitui a tomografia quando a pergunta é se existe vazamento ou coleção entre as alças. Use o ultrassom para ganhar tempo e para guiar; não use para descartar.
A cultura que vale: o líquido, e não o dreno
Na infecção intra-abdominal comunitária de menor risco, a atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda não colher cultura do líquido peritoneal de rotina (grau 1-B), porque os germes são previsíveis e o esquema empírico os cobre. No operado, que é de alto risco por definição, a lógica se inverte: os germes são menos previsíveis, a resistência é mais provável, e a mesma diretriz recomenda descalonar o esquema pela cultura definitiva (grau 1-B) — o que só é possível se a cultura tiver sido colhida.
A amostra que vale é o líquido ou o pus colhido no momento do controle do foco: aspirado na punção, antes de lavar a cavidade, ou colhido pelo cirurgião ao abrir o abdome. Vai em seringa tampada ou em frasco estéril, com pedido de coloração de Gram, cultura para aeróbios e anaeróbios e, no paciente com fatores de risco para fungos, pesquisa de fungos. O swab colhe pouco material, resseca e perde os anaeróbios, que são justamente parte da flora da peritonite de origem intestinal.
A amostra que engana é a da bolsa do dreno ou a da ponta do dreno retirado. Depois de alguns dias, o trajeto do dreno é colonizado pela pele e pelos germes do hospital, e a cultura dessa bolsa devolve o que colonizou o caminho, não o que infecta a cavidade. Candida isolada de bolsa de dreno, em particular, é com frequência colonização, e tratar esse resultado como infecção expõe o paciente a antifúngico sem ganho.
A coloração de Gram do líquido chega em horas e já muda decisão: leveduras num paciente de alto risco em choque sustentam a discussão do antifúngico antes da cultura; a mistura de bacilos gram-negativos e cocos gram-positivos confirma a origem intestinal. As hemoculturas continuam sendo colhidas antes da primeira dose, pela técnica de Febre no paciente internado.
Os números que dizem se o foco fechou
Depois do procedimento, a investigação muda de pergunta: o controle funcionou? Não existe um exame que responda sozinho, e a atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda justamente usar as medidas de inflamação sistêmica e de disfunção orgânica, em série, para prever a falha (grau 1-B). Os números a seguir se leem como curva, com a mesma régua, nas primeiras 24, 48 e 72 horas.
A dose de noradrenalina é o primeiro sinal e o mais rápido: no controle que funcionou, ela para de subir nas primeiras horas e começa a descer. O lactato segue a mesma direção; o protocolo do ILAS de julho de 2026 lembra que a meta é a queda e não necessariamente a normalização, e que a hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais de má perfusão, não precisa ser perseguida. A diurese e a creatinina contam a recuperação do rim, com atraso de um ou dois dias. As plaquetas, a bilirrubina e a relação entre oxigênio arterial e fração inspirada completam o painel de disfunções.
Temperatura, leucócitos e proteína C reativa são úteis como tendência e enganam como ponto isolado, porque a própria reabordagem produz febre, leucocitose e inflamação nos primeiros dias. A procalcitonina, onde existe, tem papel definido pela diretriz internacional de sepse de 2026: não serve para decidir iniciar antimicrobiano (recomendação condicional contra), e serve, somada à avaliação clínica, para decidir quando suspendê-lo no paciente com controle adequado do foco em que a duração ideal não está clara (recomendação condicional a favor, certeza baixa).
O exame físico diário completa a série e às vezes a antecipa: o abdome que amolece, o íleo que resolve, a estomia que volta a funcionar, a ferida que não drena, a dieta que é aceita. A melhora que para no terceiro dia, ou a piora depois de uma melhora, pede de volta a pergunta anatômica e, com frequência, uma nova imagem.
O que não pedir, e por quê
Cultura de bolsa de dreno e de ponta de dreno retirado, pelo motivo da seção anterior: devolve colonização, e colonização tratada é antimicrobiano sem indicação. Pelo mesmo motivo, cultura de estomia não diz nada sobre a cavidade.
Tomografia diária de controle num paciente que está melhorando. A imagem se repete quando a clínica pergunta — melhora que parou, piora, sinal novo —, e cada transporte de um paciente em recuperação tem custo. Uma coleção residual pequena num paciente sem febre e sem disfunção, no quinto dia depois de uma reabordagem, costuma ser achado sem consequência, e ter sido procurada sem pergunta cria a tentação de puncioná-la.
Marcadores de Candida — a betaglucana e a manana — para decidir iniciar ou suspender antifúngico de rotina. A diretriz internacional de sepse de 2026 sugere não usá-los para iniciar (recomendação condicional, certeza baixa) nem para suspender (recomendação condicional, certeza baixa) em todos os pacientes, e admite o uso caso a caso no doente de alto risco para candidíase invasiva, em que a origem intra-abdominal está entre os fatores listados. Pedir por hábito produz resultado difícil de interpretar e antifúngico mantido por inércia.
Procalcitonina para decidir se começa o antimicrobiano no operado séptico, pela recomendação contrária da mesma diretriz. E hemoculturas diárias de controle sem pergunta clínica, cuja indicação e cuja repetição são de Febre no paciente internado.
O roteiro do controle do foco, e as réguas que o sustentam
Sepse cirúrgica exige suporte e resolução anatômica coordenados. O antibiótico não substitui drenagem, desbridamento ou operação quando necessários.
- 1Reconhecer infecção provável e disfunção, sem depender de febre, dia pós-operatório fixo ou um escore isolado; acionar equipe imediatamente.
- 2Obter culturas e lactato quando indicados, sem atrasar antimicrobianos urgentes; escolher cobertura pela fonte, gravidade, exposição prévia, colonização e resistência local.
- 3Ressuscitar com fluidos individualizados e reavaliados, acrescentando vasopressor quando necessário; evitar tanto espera prolongada por acesso central quanto volume repetido sem benefício.
- 4Avaliar prontamente necessidade de controle de foco. A SSC 2026 favorece controle precoce, idealmente em até seis horas quando indicado; isso é meta de organização, não autorização para esperar em deterioração.
- 5Escolher imagem apenas se segura e útil à decisão. Instabilidade com indicação operatória não deve aguardar TC.
- 6Amostras representativas do foco, descrição da anatomia e efetividade do procedimento orientam tratamento; reavaliar diariamente se a fonte foi controlada.
- 7Conferir dose de ataque, infusão, função renal e manutenção com farmácia e equipe. Uma infusão de 30 minutos não é bolus intravenoso rápido.
- 8Descalonar quando possível e planejar duração conforme controle de foco, gravidade e resposta. Piora exige reavaliar fonte, cobertura e diagnósticos em paralelo, sem obrigação de esperar imagem para tratar.
O dia zero da duração é o dia do controle que funcionou
Conte os dias de antimicrobiano a partir do dia em que o foco foi controlado — a punção que drenou, a reabordagem que fechou a falha —, e não do dia da primeira dose. Escreva essa data na prescrição e na evolução, com as palavras: dia zero do controle do foco. Se um foco novo precisar ser drenado, a conta recomeça no dia desse novo controle. Se o controle não foi obtido, não há conta a fazer: há um foco a procurar. Seu Dionísio recebeu a primeira dose às 01h52 de sábado e teve o foco controlado na sala que terminou às 06h30 do mesmo sábado; o dia zero é o sábado, e o oitavo dia depois dele cai no domingo da semana seguinte.
Por onde o foco sai: o achado que domina e a via que ele pede
| Achado que domina | Via adequada | O que a sustenta | O que faz trocar de via |
|---|---|---|---|
| Coleção única, com parede e janela segura para a agulha, em paciente que responde à ressuscitação, sem peritonite difusa | Punção guiada por imagem, com dreno deixado na cavidade | Caminho menos invasivo que alcance o controle definitivo (SIS 2024, grau 1-B); antimicrobiano por quatro dias depois da drenagem (SIS 2024, grau 1-B) | Dreno bem posicionado sem melhora da curva em 48 a 72 horas; coleção nova; peritonite que se instala; choque que aparece ou não cede |
| Coleção pequena, sem repercussão sistêmica | Antimicrobiano com imagem de controle | Nenhum documento usado aqui fixa tamanho de corte para a coleção pós-operatória; os cortes de quatro a cinco centímetros são do abscesso diverticular, no paciente não operado | Febre ou disfunção que persistem; coleção que cresce entre dois exames |
| Peritonite difusa ao exame ou à tomografia, com gás ou contraste fora das alças junto à anastomose | Reabordagem: controlar a falha, lavar a cavidade, colher o líquido | Controle em até seis horas no alto risco com choque séptico (SIS 2024, grau 1-B); idealmente seis horas na sepse (SSC 2026; ILAS 2026) | Não se troca: a punção não fecha uma falha aberta |
| Várias coleções entre as alças, sem janela para a agulha | Reabordagem | Ausência de trajeto percutâneo seguro | Coleção residual única e acessível depois da operação pode ser puncionada |
| Suspeita de isquemia ou necrose: alça que não capta contraste, gás na parede, lactato que não cai | Reabordagem; abdome deixado aberto quando nova abertura já está planejada por isquemia mesentérica | Laparotomia abreviada com fechamento temporário nessa situação (SIS 2024, grau 1-B) | Viabilidade confirmada na nova abertura permite fechar |
| Choque sem resposta, reserva fisiológica esgotada, foco que a primeira operação não controlou ou parede que produziria hipertensão abdominal ao fechar | Laparotomia abreviada com fechamento temporário do abdome | As quatro situações em que a SIS 2024 recomenda deixar o abdome aberto no paciente crítico (grau 1-B) | Fisiologia recuperada e foco controlado: fechamento, com técnica de Cirurgia de controle de danos e tríade letal |
| Controle adequado do foco obtido na reabordagem | Fechar o abdome e reabordar sob demanda | Reabordagem sob demanda, e não por calendário, no alto risco com peritonite grave (SIS 2024, grau 1-B) | Inflamação ou disfunção que persistem ou voltam: nova imagem e, se indicada, nova abertura |
O relógio do controle do foco e da duração: o prazo, a régua e de onde se conta
| Momento | Prazo e régua | De onde se conta | O que o interno entrega |
|---|---|---|---|
| Reconhecer que a sepse pede controle do foco | Avaliação rápida de todo séptico à procura de foco que exija controle (SSC 2026, boa prática) | Da abertura do protocolo de sepse | Abdome examinado inteiro, hora anotada, telefonema ao cirurgião com os cinco dados |
| Primeira dose do antimicrobiano | Na urgência infecciosa indicada, iniciar prontamente dose adequada. Para betalactâmicos selecionados, dose inicial em infusão intermitente apropriada ao produto, seguida de manutenção prolongada conforme protocolo; não confundir com injeção IV rápida. | Da identificação da sepse | Hora de cada dose anotada, porque ela vai ser perguntada antes da incisão |
| Controle do foco no choque séptico | Até seis horas no alto risco com choque (SIS 2024, grau 1-B); idealmente seis horas (SSC 2026, condicional; ILAS 2026) | Do diagnóstico da sepse que exige controle do foco | Hora do diagnóstico escrita; sala, leito e família preparados em paralelo, não em sequência |
| Controle do foco sem choque | Até doze horas no menor risco (SIS 2024, grau 1-B); o operado estável, de alto risco sem choque, fica fora das duas frases (ver notas) | Do diagnóstico da coleção | Reavaliação a cada poucas horas; disfunção nova transforma o prazo em seis horas a partir dela |
| Nova dose antes da incisão | Na hora que antecede a incisão, se passaram duas meias-vidas ou mais desde a dose anterior (SIS 2024, grau 1-B) | Da última dose administrada | A hora exata da última dose dita ao anestesista, que faz a conta da meia-vida |
| Revisão do esquema com a cultura | Entre 48 e 72 horas, como indicador de qualidade (Anvisa 2023); descalonar pela cultura definitiva (SIS 2024, grau 1-B) mantendo cobertura de anaeróbios (grau 2-C) | Do início do esquema | Resultado da cultura do líquido lido e levado à visita, com o antibiograma |
| Duração depois do controle adequado | Quatro dias (SIS 2024, graus 1-A e 1-B); oito dias no paciente crítico (SIS 2024, grau 2-B); individualizar pela resposta e pela adequação do controle (ILAS 2026) | Do dia do controle do foco que funcionou | O dia zero escrito na prescrição e na evolução |
| Falha do controle | Peritonite que persiste ou volta 48 horas ou mais depois de tratamento aparentemente bem-sucedido (definição de 2005, citada pela WSES 2023) | Do procedimento de controle | Nova imagem antes de novo antimicrobiano; a conta da duração recomeça no novo controle |
As drogas do capítulo em frascos, mililitros e velocidade — adulto de 72 quilos
| Droga e apresentação | Dose usada e fonte | Frascos ou bolsas | Volume e tempo | A conta do plantão |
|---|---|---|---|---|
| Piperacilina-tazobactam, frasco de 4 g + 0,5 g — fora da Rename 2024 | Exemplo de piperacilina-tazobactam 4,5 g IV a cada 6 horas quando indicado: primeira infusão em 30 minutos, manutenção estendida conforme protocolo, função renal e terapia substitutiva. | 1 frasco por dose; 4 por dia, ou 3 se a cada 8 horas | Primeira dose em 50 mL em 30 minutos; manutenção em 100 mL em 4 horas | 100 mL/h na primeira dose e 25 mL/h na manutenção; 45 mg/mL na bolsa de 100 mL; 350 mL de diluente no primeiro dia e 400 mL nos seguintes; com clearance entre 20 e 40 mL/min, 3,375 g equivalem a 0,75 do frasco |
| Meropeném, frasco de 1 g — fora da Rename 2024 | Meropeném 1–2 g IV a cada 8 horas em situações selecionadas, com dose e intervalo por foco, gravidade, função renal e protocolo. Administrar dose inicial por infusão compatível com o produto e manutenção prolongada quando indicada. | 2 frascos por dose de 2 g; 6 por dia | Conferir bula, estabilidade, diluente e concentração com farmácia. Não prescrever 2 g em injeção IV rápida por extrapolação de uma concentração de reconstituição; infusão inicial usual em 15–30 minutos conforme produto e protocolo, com manutenção em 3 horas quando apropriada. | Se a manutenção de 2 g for preparada em 100 mL para 3 horas, a velocidade é 33,3 mL/h e a concentração 20 mg/mL. Conferir estabilidade durante toda a infusão e ajustar preparo às condições locais; a conta não define sozinha a prescrição. |
| Anidulafungina, frasco de 100 mg — Rename 2024, componente estratégico | 200 mg no primeiro dia e 100 mg a cada 24 horas, sem ajuste renal (guia ILAS 2024) | 2 frascos no primeiro dia; 1 por dia depois | 200 mg em 200 mL em 180 minutos; 100 mg em 100 mL em 90 minutos | As duas doses correm a 66,7 mL/h, com 1 mg/mL e 1,11 mg/min; se o volume mudar, preserve a velocidade em mg/min, e não o tempo |
| Fluconazol, solução injetável de 2 mg/mL — Rename 2024, componente estratégico | Ataque de 400 a 800 mg e manutenção de 100 a 400 mg a cada 24 horas; metade da dose com clearance de 50 mL/min ou menos (guia ILAS 2024) | Bolsa pronta | Infusão em 60 minutos (guia ILAS 2024) | 800 mg são 400 mL e 400 mg são 200 mL: volume que entra no balanço de quem já está com sobrecarga hídrica |
| Ceftriaxona, frasco de 1 g — Rename 2024, componente básico; metronidazol, bolsa de 5 mg/mL — injetável fora da Rename 2024 | Descalonamento de seu Dionísio: ceftriaxona 2 g EV a cada 24 horas e metronidazol 500 mg EV a cada 8 horas (guia ILAS 2024: ceftriaxona 1 a 2 g a cada 12 a 24 horas; metronidazol 500 mg a cada 6 a 8 horas) | 2 frascos de ceftriaxona por dia; 3 bolsas de metronidazol por dia | Metronidazol em 30 minutos (guia ILAS 2024), com teto de 5 mL/min no adulto (tabela de preparo da RioSaúde) | 500 mg de metronidazol são 100 mL; 100 mL em 30 minutos dão 3,3 mL/min, abaixo do teto; 300 mL por dia |
O capítulo usa a revisão de julho de 2026 do protocolo ILAS apresentada nas fontes. Ela destaca controle do foco o mais rapidamente possível, idealmente nas primeiras 6 horas, inclui enchimento capilar na avaliação de perfusão e admite metas pressóricas individualizadas. As decisões sobre antimicrobianos, ajuste renal e corticoide devem seguir o percurso específico e a resposta do paciente.
No trecho transfusional do protocolo, a unidade pretendida para hemoglobina é g/dL, apesar da grafia mg/dL. O limiar restritivo citado é 7 g/dL. A decisão no operado instável depende da situação clínica e é desenvolvida no capítulo de choque pós-operatório; não se resume ao resultado laboratorial.
A revisão citada apresenta redação ambígua ao relacionar Sepse-3, SOFA e critérios operacionais de reconhecimento. Use a lista clínica e o fluxo apresentados no capítulo, sem esperar completar um escore para acionar a equipe. Identifique e acompanhe disfunções e perfusão em série.
O valor de PAM de 65 mmHg aparece com sinais de inclusão diferentes na tabela e no texto do protocolo. Na prática, registre a tendência, a necessidade de vasopressor e os demais sinais de perfusão. Um valor isolado exatamente no limite não resolve a avaliação da resposta nem define sozinho a meta individual.
Lactato de 2 mmol/L corresponde a aproximadamente 18 mg/dL; 4 mmol/L, a 36 mg/dL. Confira a unidade antes de comparar resultados ou calcular a variação. A tendência deve ser interpretada junto à perfusão e às intervenções realizadas.
O guia ILAS 2024 e o protocolo de 2026 descrevem janelas iniciais diferentes para ajuste renal de antimicrobianos. A comparação não autoriza manter qualquer fármaco sem ajuste por um prazo fixo. Confira o agente, a dose inicial, a função renal e sua trajetória e planeje revisão precoce com a equipe.
Na tabela de piperacilina-tazobactam, há lacuna no limite de depuração de 20 mL/min e erros tipográficos de unidade. Escreva doses em gramas e esclareça a faixa renal aplicável antes de prescrever. Em terapia renal substitutiva, confirme também modalidade e intervalo; não complete a tabela por suposição.
As tabelas citadas atribuem estabilidades diferentes ao meropeném após diluição. A estabilidade depende do produto, diluente, concentração e temperatura. Confira a orientação da apresentação disponível, incluindo o tempo entre preparo e início da bomba. Uma infusão de 3 horas exige que toda a dose permaneça dentro do prazo válido.
Os estudos citados sobre controle precoce do foco, antifúngico e descalonamento têm estimativas e intervalos próprios. Evite recalcular uma estimativa pontual apenas pela média dos limites do intervalo ou comparar percentuais de desenhos distintos. A leitura útil considera população, método, precisão e aplicabilidade ao paciente.
Na diretriz de infecção cirúrgica citada, o APACHE-II de 10 pontos recebe redação diferente na introdução e na recomendação graduada. Consulte a recomendação completa e os demais fatores de risco. A infecção pós-operatória já é um dos elementos de alto risco apresentados, independentemente dessa fronteira numérica.
Os prazos de 4 e 8 dias após controle do foco derivam de populações diferentes na diretriz de 2024. A análise que fundamenta 4 dias usou critérios de sepse distintos dos empregados em estudos de pacientes críticos. O capítulo separa essas populações e exige avaliar se o controle foi adequado antes de contar o prazo.
No operado estável com coleção, o percurso organiza controle na primeira janela segura, com antimicrobiano e reavaliação. Sepse, choque ou nova disfunção exigem acelerar essa organização conforme a urgência descrita. Os prazos das fontes são referências para evitar demora; não são períodos durante os quais seja necessário esperar.
O parágrafo da diretriz de 2023 reúne percentuais de estudos e comparações que não permitem uma conversão simples de atraso em risco individual. Não transforme a associação por hora em previsão para o paciente. A mensagem operacional é reconhecer o foco e reduzir atrasos evitáveis no tratamento indicado.
A Rename citada não reúne todas as apresentações hospitalares dos esquemas de infecção intra-abdominal grave. Confirme disponibilidade com a farmácia e o protocolo local de antimicrobianos, incluindo alternativas e antifúngicos quando indicados. A aquisição hospitalar e eventuais incorporações posteriores limitam inferências feitas apenas a partir do elenco de 2024.
Os documentos brasileiros consultados orientam individualizar duração por sítio, agente, resposta e adequação do controle do foco. Os prazos específicos de 4 e 8 dias apresentados neste capítulo vêm da diretriz estrangeira de 2024. Programe revisão da prescrição em 48–72 horas e identifique a população à qual a recomendação se aplica.
As fontes diferem no ponto de partida para antifúngico empírico. A abordagem adotada exige selecionar pacientes por risco e evidência, sem prescrever apenas pelo rótulo de sepse. Origem intra-abdominal, choque, imunossupressão, exposição antimicrobiana e resultados microbiológicos entram na avaliação conjunta descrita a seguir.
A conduta, hora a hora
O que segue é a trajetória de seu Dionísio, do telefonema da madrugada de sábado à enfermaria da semana seguinte, com o que se decide em cada hora e o que se escreve na prescrição. As doses de antimicrobiano e os tempos de infusão vêm do guia prático de terapia antimicrobiana do ILAS de 2024 e do protocolo clínico do ILAS de julho de 2026; os prazos do controle do foco e da duração vêm da diretriz internacional de sepse de 2026 e da atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica, que são ditas como tal. A escolha final do esquema é sempre do serviço de controle de infecção do seu hospital, que conhece a resistência local e a lista da farmácia.
Três partes da conduta correm em paralelo e não são reescritas aqui. O pacote da primeira hora — hemoculturas, lactato, cristaloide, noradrenalina e alvo de pressão — segue Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora. A conversão da noradrenalina em mililitros por hora e a leitura do tipo de choque seguem Frio, e não é a sala. E o ajuste de doses pela função renal, depois da janela inicial, segue o guia do serviço e Ajuste de dose na disfunção renal e hepática, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.
Sábado, 01h44 a 01h55 — o endereço e o espectro
Você chega ao 412 quatro minutos depois do telefonema, confere os sinais vitais com a sua própria medida e examina o abdome inteiro: dor difusa, descompressão dolorosa nos quatro quadrantes, distensão, silêncio. O pacote já está andando e as hemoculturas saíram às 01h50. Sobram duas decisões que são suas neste bloco, e as duas têm pressa. A primeira é o espectro. Seu Dionísio tem uma infecção intra-abdominal pós-operatória, que é infecção relacionada à assistência e de alto risco por definição; a ceftriaxona com metronidazol, que serviria ao abdome agudo que chega de casa, não serve a ele. O esquema do protocolo gerenciado do seu hospital para esse doente é piperacilina-tazobactam, e ele não tem alergia registrada. Vancomicina não entra de rotina — não há colonização conhecida por estafilococo resistente —, e antifúngico empírico também não, nesta hora: é o primeiro vazamento, baixo, num paciente sem imunossupressão, sem nutrição parenteral e sem curso prévio de antimicrobiano terapêutico. A segunda decisão é não esperar o residente sair da sala para telefonar para a cirurgiã.
Prescrição- Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV, primeira dose em infusão de 30 minutos conforme preparo e protocolo, administrada prontamente após culturas quando estas não atrasarem. Trata-se de infusão intermitente, não bolus rápido. Conferir alergias e dose inicial com a equipe.
- Manutenção exemplificada de piperacilina-tazobactam 4,5 g IV a cada seis horas em infusão estendida de quatro horas, condicionada à indicação e ao protocolo. Conferir função renal, terapia renal substitutiva, compatibilidade e estabilidade da preparação; registrar horário real e revisar após doses perioperatórias adicionais.
- Pacote da primeira hora pela régua de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora — lactato, cristaloide e noradrenalina conforme o alvo
- Sem vancomicina empírica: sem fator de risco para estafilococo resistente (SIS 2024 recomenda contra vancomicina empírica no baixo e no alto risco, grau 1-B)
- Sem antifúngico empírico nesta hora; pesquisa de fungos pedida para o líquido que vier a ser colhido
- Jejum absoluto, sonda nasogástrica aberta em frasco, cabeceira a 30 graus
- Hora de cada dose e hora do exame do abdome anotadas na folha do protocolo
01h55 a 02h45 — o telefonema e a passagem para a tomografia
Ao telefone, a cirurgiã de sobreaviso ouve os cinco dados em menos de um minuto, diz que está saindo de casa e pede tomografia com contraste venoso se o paciente aguentar o transporte. Às 02h10, depois de 1.500 mL de cristaloide, a pressão média está em 60 mmHg e a mão continua fria; a noradrenalina começa às 02h20 em veia periférica, como o protocolo do ILAS admite enquanto o acesso central não sai. Às 02h40 a pressão média é 68 mmHg, a frequência caiu para 118 e a bolsa recebeu 25 mL em quarenta minutos: ele responde, parcialmente, e isso compra o transporte. A creatinina volta em 1,9 mg/dL, com basal de 0,9 — e ela não adia a tomografia, porque a pergunta é o controle do foco. Você escreve o pedido com a pergunta inteira e desce junto.
Prescrição- Tomografia de abdome e pelve com contraste venoso, agora: quinto dia de hemicolectomia direita com anastomose ileocólica, choque séptico, suspeita de vazamento — há gás ou contraste fora das alças junto à anastomose, há coleção drenável, há peritonite difusa?
- Contraste por via enteral a critério do radiologista com a cirurgiã
- Transporte monitorizado, noradrenalina em bomba, acesso venoso calibroso funcionando, sonda nasogástrica aberta, acompanhado por médico e enfermeira
- Plaquetas, coagulograma, tipagem sanguínea e reserva de hemocomponentes pela rotina da sala
- Segundo lactato até as 05h45, quatro horas depois da abertura do protocolo (indicador do ILAS 2026)
- Hora da última dose de heparina profilática informada à cirurgiã e ao anestesista; suspensão e reintrodução pela régua de Duas contas que não se somam
02h55 a 03h30 — o laudo escolhe a via, e o relógio começa
O laudo sai às 02h55: líquido livre nas goteiras, entre as alças e na pelve; gás fora das alças junto à linha da anastomose ileocólica; nenhuma coleção organizada; alças com captação preservada. O radiologista diz o que você já suspeitava — não há o que puncionar. A cirurgiã, que vê as imagens ao chegar, às 03h05, decide a reabordagem. Agora o relógio tem dois começos possíveis, e vale escrever os dois. Contado da abertura do protocolo, 01h45, o prazo de seis horas termina às 07h45; contado do laudo que confirmou a necessidade de controle do foco, termina às 08h55. A sala de seu Dionísio vai começar às 04h40, dentro das duas contas. Tudo o que falta se faz em paralelo: o residente termina o caso do trauma e desce, o anestesista é chamado, o intensivista Belmiro Lucena reserva o leito, e a cirurgiã conversa com a filha pelo telefone, com você ao lado.
Prescrição- Reabordagem de urgência: sala pedida às 03h05, anestesista avisado
- Leito de terapia intensiva reservado para o pós-operatório imediato
- Conversa da cirurgiã com a filha às 03h15, com você presente, registrando a possibilidade de estomia e de abdome deixado aberto; a forma do consentimento segue A assinatura não é o consentimento
- Noradrenalina mantida pelo alvo de pressão média; cristaloide guiado por resposta, sem litros por hábito
- Na evolução, três horas escritas: abertura do protocolo às 01h45, laudo às 02h55, decisão às 03h05
04h15 a 06h30 — antes da incisão e dentro da sala
Na pausa antes da incisão, o anestesista pergunta a hora da última dose do antimicrobiano, e você tem a resposta anotada: infusão inicial iniciada às 01h52, e a manutenção só começaria às 07h52. A incisão está prevista para 04h40, quase três horas depois do início da infusão inicial. A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda repetir a dose na hora que antecede o procedimento quando se passaram duas meias-vidas ou mais da dose anterior, e a piperacilina é betalactâmico de meia-vida curta; o anestesista faz a conta e repete às 04h20. Na cavidade, a cirurgiã encontra peritonite de conteúdo entérico, com fibrina entre as alças e falha de cerca de um terço da circunferência da anastomose. Colhe o líquido antes de lavar, desfaz a anastomose, exterioriza o íleo como ileostomia terminal, fecha o coto do cólon, lava a cavidade e fecha a aponeurose sem tensão, com as alças bem perfundidas. Na descrição cirúrgica, escreve que considera o controle do foco adequado e que a estratégia é de reabordagem sob demanda.
Prescrição- Hora da última dose (01h52) informada ao anestesista; piperacilina-tazobactam 4,5 g EV na hora que antecede a incisão, com duas meias-vidas decorridas (SIS 2024, grau 1-B)
- Farmácia avisada para refazer os horários da manutenção a partir da dose das 04h20 — próxima às 10h20
- Líquido peritoneal colhido antes da lavagem, em seringa tampada: Gram, cultura para aeróbios e anaeróbios, pesquisa de fungos
- Descrição cirúrgica com três registros que a unidade de terapia intensiva vai usar: o que foi feito com a anastomose, se o controle foi considerado adequado, e a estratégia de reabordagem
Sábado, 07h às 20h — o foco fechou?
Na unidade de terapia intensiva, a pergunta das próximas horas é uma só, e ela se responde com curva. A dose de noradrenalina, que chegou ao pico durante a sala, cai à metade até as 14h. O lactato, que era 4,6 mmol/L às 02h05, está em 3,4 às 05h30 e em 2,1 às 14h — queda, como o protocolo do ILAS pede, sem necessidade de persegui-lo até o normal. A diurese passa de 0,3 para 0,7 mL/kg/h à tarde. A temperatura ainda chega a 38,1 °C, o que a reabordagem explica sozinha. A ileostomia está rósea e ainda não funciona, o que é esperado. Tudo isso é compatível com controle adequado, e é por isso que a reabordagem fica sob demanda: ela só acontece se a curva mudar de direção. O que muda a direção fica escrito na prescrição, para o plantão da noite não precisar adivinhar.
Prescrição- Reavaliar diariamente — e antes se houver mudança — dose e intervalo de piperacilina-tazobactam conforme função renal dinâmica, terapia renal substitutiva, gravidade e protocolo de infusão. Não adiar essa revisão até segunda-feira nem manter dose plena por 72 horas como regra universal.
- Lactato às 14h e às 20h; creatinina, plaquetas, bilirrubina e gasometria arterial pela manhã
- Estomia avaliada a cada turno quanto à cor e ao débito; pressão intra-abdominal medida pelo método de Frio, e não é a sala
- Chamar a cirurgia se: noradrenalina voltar a subir, lactato voltar a subir, estomia escurecer, distensão aumentar com pressão intra-abdominal em alta, ou surgir disfunção orgânica nova
- Evolução com a curva das últimas 12 horas, e não só com o valor da hora
Domingo e segunda — a cultura e o descalonamento
No domingo, às 20h, a noradrenalina é suspensa. O Gram do líquido, liberado ainda no sábado, mostrou bacilos gram-negativos numerosos e nenhuma levedura. Na segunda às 10h chega a cultura: Escherichia coli sensível a ceftriaxona, a amoxicilina com clavulanato e a piperacilina-tazobactam; Bacteroides fragilis no meio anaeróbio, sem antibiograma de rotina; pesquisa de fungos negativa; hemoculturas sem crescimento. A creatinina está em 1,4 mg/dL. Na visita com o controle de infecção, o esquema desce para o espectro mais estreito que cobre o que cresceu, mantendo a cobertura de anaeróbios, como a diretriz de 2024 recomenda. O metronidazol injetável não consta da Rename, mas está na farmácia deste hospital. Antifúngico continua sem indicação: Gram sem leveduras, pesquisa de fungos negativa e nenhum fator de risco além da própria origem abdominal.
Prescrição- Suspender piperacilina-tazobactam com a chegada da cultura
- Ceftriaxona 2 g EV a cada 24 horas (guia ILAS 2024: 1 a 2 g a cada 12 a 24 horas)
- Metronidazol 500 mg EV a cada 8 horas, em 30 minutos (guia ILAS 2024)
- Descalonamento pela cultura definitiva mantendo anaerobicida (SIS 2024, graus 1-B e 2-C)
- Sem antifúngico: Gram sem leveduras e pesquisa de fungos negativa
- Na prescrição: dia zero do controle do foco — sábado; data prevista para a suspensão escrita ao lado
Terça ao domingo seguinte — a conta dos dias
Seu Dionísio sai da unidade de terapia intensiva na terça, afebril desde a véspera, com a ileostomia funcionando e a dieta sendo aceita. Resta decidir quando o antimicrobiano para, e aqui há duas réguas da mesma diretriz. A de quatro dias depois do controle do foco terminaria na quarta. A de oito dias no paciente crítico termina no domingo seguinte. Seu Dionísio esteve em choque séptico, com vasopressor e disfunção renal, depois de uma peritonite pós-operatória — é o doente do ensaio que sustenta os oito dias, e é essa a régua que este capítulo adota para ele, pelas razões do bloco de divergências. A procalcitonina, que o hospital tem, é colhida em série e lida junto com a clínica, como a diretriz internacional de 2026 sugere quando a duração ideal não está clara. O que não decide a suspensão: o leucograma perfeito, a temperatura de um dia e a retirada de um dreno que ele não tem. Esse é o plano escolhido para o caso e deve ser revisto com a evolução. Ter apresentado choque não obriga oito dias para todo paciente: adequação do controle do foco, infecção residual, resposta e populações dos estudos orientam a duração; deterioração pede procurar foco, não apenas prorrogar o antibiótico.
Prescrição- Manter ceftriaxona 2 g EV a cada 24 horas e metronidazol 500 mg EV a cada 8 horas até completar oito dias do controle do foco — última dose no domingo seguinte (SIS 2024, grau 2-B, no paciente crítico)
- Procalcitonina seriada, lida junto com a avaliação clínica para confirmar a suspensão (SSC 2026, recomendação condicional, certeza baixa)
- Suspender no dia previsto se afebril, sem disfunção orgânica, com abdome em melhora e dieta aceita — sem esperar leucócitos normais
- Débito da ileostomia medido por turno; reposição e dieta pelas réguas de Cento e vinte, sem febre e de A linha que ninguém revisa
- Troca para via oral admitida quando o intestino funciona (SIS 2024, grau 1-B), com agente de boa biodisponibilidade escolhido pelo controle de infecção
Enfermaria, do nono dia em diante — a vigilância da recaída
O antimicrobiano parou no domingo, e os três dias seguintes são os de maior risco de a sepse voltar pelo mesmo endereço: a coleção residual que se forma onde a anastomose vazou. A vigilância é simples e precisa ser escrita, porque é na enfermaria, com menos olhos por paciente, que a febre de uma quarta-feira vira dipirona. Se a febre e a dor voltarem, a primeira resposta não é reiniciar o mesmo esquema: é examinar, pedir a imagem com a pergunta da coleção residual e, havendo uma coleção única e acessível, puncioná-la — com antimicrobiano por quatro dias depois da drenagem, pela diretriz de 2024, e com a conta da duração recomeçando no dia da punção. Se houver diarreia nova, a pergunta é a colite por Clostridioides difficile. E, se a instabilidade voltar, o antimicrobiano recomeça na hora, sem esperar a imagem, e a cirurgia é chamada no mesmo telefonema. A alta leva a orientação da estomia, os sinais de alarme por escrito e o retorno marcado; o seguimento oncológico é de Câncer colorretal, na apostila de Coloproctologia.
Prescrição- Temperatura, frequência cardíaca, dor e aspecto do abdome a cada 6 horas nos três dias seguintes à suspensão
- Febre com dor nova: exame e hemograma no mesmo turno e tomografia com contraste com a pergunta coleção residual — sem reiniciar antimicrobiano por reflexo antes da imagem se o paciente estiver estável
- Coleção única e acessível: punção com cultura do aspirado; antimicrobiano por quatro dias depois da drenagem (SIS 2024, grau 1-B), com novo dia zero
- Instabilidade: antimicrobiano reiniciado de imediato e cirurgia chamada no mesmo telefonema
- Diarreia nova: pesquisa de Clostridioides difficile pela régua de Febre no paciente internado
- Alta com orientação de cuidados da ileostomia, sinais de alarme por escrito e retorno no ambulatório de cirurgia
Como saber se está funcionando
Reavaliar depois do controle do foco é responder a uma pergunta que nenhum exame responde sozinho: o procedimento controlou o foco? A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda usar as medidas de inflamação sistêmica e de disfunção orgânica, em série, para prever a falha, e não fixa um número. Os sete parâmetros abaixo são lidos como curva, com a mesma régua, e anotados com hora, porque o plantão que chega não viu o que aconteceu antes.
A regra que atravessa a tabela é de direção, e não de valor. O primeiro sinal de falha raramente é um número ruim; é um número que parou de melhorar, ou que melhorou e voltou. Quando isso acontece, a primeira resposta é anatômica — examinar, pedir imagem, chamar quem opera — e só depois farmacológica. Antimicrobiano novo antes de imagem nova é a forma mais comum de perder o segundo prazo do mesmo paciente.
Esperado: Para de subir nas primeiras horas e cai de forma sustentada ao longo do primeiro dia, até ser suspensa
Se não melhora: Dose que volta a subir ou que não desce pede três perguntas na ordem: falta volume, o choque é de outro tipo pela régua de Frio, e não é a sala, ou o foco não foi controlado. A terceira se responde com exame, imagem e telefonema para a cirurgia, e não com antimicrobiano mais largo.
Esperado: Queda, e não necessariamente normalização; a hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais de má perfusão, não precisa ser perseguida (protocolo ILAS 2026)
Se não melhora: Lactato que para de cair ou sobe com clínica ruim: reexamine a perfusão, olhe a estomia e o abdome à procura de isquemia, e trate a hipótese de foco não controlado como a primeira da lista.
Esperado: A diurese volta antes; a creatinina pode subir por um ou dois dias e depois cai
Se não melhora: Reavaliar perfusão, balanço, obstrução e lesão renal. Dose inicial e manutenção dos antimicrobianos são decisões diferentes; ajustar pela função renal em evolução, foco, terapia renal substitutiva e farmacocinética com a equipe, sem regra automática de manter dose plena por 72 horas.
Esperado: Febre e leucocitose podem persistir nos dois primeiros dias depois de uma reabordagem, e caem a seguir
Se não melhora: Febre que volta depois de 48 horas sem febre, ou leucocitose que sobe de novo, é falha do controle até prova em contrário: nova imagem antes de novo esquema, e procura de focos fora do abdome pela régua de Febre no paciente internado.
Esperado: Dor que se concentra na incisão, distensão que diminui, estomia rósea que passa a funcionar, ferida sem secreção entérica
Se não melhora: Estomia escurecida é isquemia e chamada imediata da cirurgia. Distensão com pressão intra-abdominal em alta segue Frio, e não é a sala. Secreção de aspecto entérico pela ferida é fístula, pela régua de Cento e vinte, sem febre.
Esperado: Dieta que progride à medida que o íleo resolve e a estomia elimina
Se não melhora: Intolerância nova depois de uma fase de boa aceitação — vômito, distensão, parada de eliminação — é sinal de coleção residual ou de nova complicação: examine e peça imagem com a pergunta escrita.
Esperado: Queda paralela à melhora clínica, confirmando a suspensão no dia previsto (SSC 2026, recomendação condicional)
Se não melhora: Procalcitonina que não cai num paciente clinicamente resolvido não obriga, sozinha, a prolongar o esquema; procalcitonina que sobe com piora clínica pede nova imagem, e não novo antimicrobiano.
Onde o erro machuca
O dano: A peritonite pós-operatória é infecção relacionada à assistência, com mais germes resistentes e maior variedade de agentes. O esquema que serve ao abdome agudo que chega de casa — ceftriaxona com metronidazol — deixa descobertos os germes que o hospital e o antimicrobiano anterior selecionaram, e a primeira dose, que é a mais importante, é gasta no alvo errado. O paciente em choque não tem margem para descobrir isso na cultura de 48 horas.
Como pegar a tempo: Classifique antes de prescrever: operado com infecção intra-abdominal é de alto risco por definição. Use o esquema de infecção relacionada à assistência do protocolo do seu hospital, colha o líquido no controle do foco e deixe o descalonamento para quando a cultura chegar.
O dano: Enquanto o foco continua aberto, cada litro de cristaloide compra menos pressão e mais edema, a noradrenalina sobe e a disfunção passa a se sustentar sozinha. A diretriz internacional de sepse de 2026 registra que o esforço prolongado de estabilização sem retirar o foco dificilmente dá certo no paciente em choque — e o paciente que chega à sala depois de horas de ressuscitação chega com menos reserva do que tinha.
Como pegar a tempo: Ressuscite para chegar à sala, e não para dispensar a sala. Prepare o controle do foco em paralelo com o volume e a noradrenalina: sala, leito, família e exames correm juntos, e o paciente que responde parcialmente vai ao procedimento com a ressuscitação em curso.
O dano: O prazo de seis horas no alto risco com choque séptico é o que a diretriz de 2024 recomenda, e a sobrevida no choque por perfuração cai a cada hora de atraso. A tomografia que não muda a via custa transporte e tempo; a espera pela sala de radiologia intervencionista que abre às sete da manhã custa a janela inteira, e ainda pode terminar numa punção que não resolve.
Como pegar a tempo: Pergunte antes de pedir: com peritonite difusa ao exame e choque sem resposta, algum resultado da imagem tira este paciente da sala? Se não tira, o exame não entra. Escreva a hora do diagnóstico e a hora prevista da sala, e se o hospital não tem o que o paciente precisa, a solicitação de transferência sai na mesma hora.
O dano: A bolsa do dreno, depois de alguns dias, contém o que colonizou o trajeto, e a cultura dela devolve germes que não estão infectando a cavidade; tratar esse resultado expõe o paciente a antimicrobiano e a antifúngico sem ganho. No outro extremo, sem cultura do líquido não há descalonamento possível, e o esquema largo da primeira hora vira o esquema de todos os dias.
Como pegar a tempo: Garanta, antes de o procedimento começar, que o líquido será colhido na punção ou na abertura da cavidade, antes de qualquer lavagem, em seringa tampada ou frasco estéril, com pedido de Gram, aeróbios, anaeróbios e, havendo risco, fungos. Deixe escrito na prescrição que cultura de bolsa de dreno não se pede.
O dano: Contada da primeira dose, a duração ignora as horas ou dias em que o foco ainda estava aberto e o esquema não tinha como resolver; mantida até o leucograma normalizar ou até o dreno sair, ela se estende por dias sem benefício, com o custo que o guia do ILAS de 2024 mede — mais eventos adversos a cada dia de terapia — e com seleção de resistência para a próxima infecção do mesmo paciente.
Como pegar a tempo: Escreva o dia zero, que é o dia do controle do foco que funcionou, e a data prevista da suspensão ao lado. Decida a régua pelo paciente — quatro dias depois do controle adequado, oito no paciente crítico — e suspenda pela curva clínica, com a procalcitonina onde houver, e não pelo leucograma de um dia.
O dano: A recaída depois de um controle aparentemente adequado é, na maioria das vezes, uma coleção residual, uma nova falha ou uma alça isquêmica, e nenhuma delas responde ao carbapenêmico ou à vancomicina acrescentados por reflexo. A escalada adia a imagem por dois ou três dias, seleciona germes resistentes e Candida, e entrega à reabordagem um paciente mais grave, com flora mais difícil.
Como pegar a tempo: Diante de febre, leucocitose ou disfunção que voltam, faça a pergunta anatômica antes da farmacológica: examine, peça tomografia com a pergunta escrita e chame quem opera. Se o paciente estiver instável, reinicie ou ajuste o antimicrobiano na hora — mas com a imagem pedida no mesmo turno, e com a cultura do novo foco colhida no novo procedimento.
O que dizer ao paciente e à família
Sete conversas, e quase todas são curtas. As três primeiras acontecem na madrugada e decidem o prazo: o telefonema para quem opera, o pedido ao radiologista e a espera da família no corredor. As outras acompanham os dias seguintes, em que a palavra certa evita que uma ileostomia, uma troca de antibiótico ou uma nova punção sejam entendidas como erro ou como piora.
A forma de estruturar a chamada, de escalonar quando a ajuda não vem e de dar uma notícia difícil tem donos em outra apostila — Chamar antes de ter certeza e Comunicação de más notícias, em Comunicação, Ética e Segurança na Prática — e este bloco não os reescreve. O que fica aqui é o conteúdo que a sepse cirúrgica obriga a dizer, com as palavras.
À cirurgiã de sobreaviso, ao telefone, às 01h55
“Doutora, é o interno da cirurgia. Seu Dionísio, 412, 67 anos, quinto dia de hemicolectomia direita com anastomose ileocólica. Sepse com hipotensão desde 01h40: pressão de 86 por 50, frequência de 128, confuso e com 15 mL de urina por hora; o lactato foi colhido e sai em minutos. O abdome está com dor difusa e descompressão dolorosa nos quatro quadrantes, sem dreno. Pacote em andamento, hemoculturas colhidas e piperacilina-tazobactam correndo desde 01h52. Minha hipótese é vazamento da anastomose com peritonite difusa. Preciso que a senhora veja o paciente agora; a tomografia pode ser feita em quarenta minutos se ele responder ao volume.”
Não diga: Evite abrir com o paciente está febril e meio hipotenso, e evite deixar o pedido implícito. A cirurgiã precisa ouvir o dia, a operação, a palavra choque, o exame do abdome e o que você quer que ela faça, nessa ordem.
Ao radiologista, ao pedir a tomografia
“Paciente em quinto dia de hemicolectomia direita, com anastomose ileocólica, em choque séptico. A pergunta é tripla: há gás ou contraste fora das alças junto à anastomose, há coleção drenável por punção, há peritonite difusa? Ele está com noradrenalina, tem creatinina de 1,9, e a cirurgiã vai decidir entre punção e reabordagem pelo seu laudo.”
Não diga: Evite pedir tomografia de abdome para controle. Evite também omitir a creatinina ou a noradrenalina — o radiologista precisa delas para planejar o contraste e o tempo do exame.
À filha, no corredor, enquanto a sala é preparada
“Dona Urbana, eu sou o interno que está com o seu pai desde a madrugada. A doutora explicou ao telefone, e eu repito com calma: a costura que ligou o intestino abriu por dentro, e o que está dentro do intestino vazou para a barriga. Isso causa uma infecção grave, e o remédio sozinho não resolve, porque a infecção tem um lugar. Por isso ele vai ser operado de novo agora. É possível que ele saia com uma bolsa na barriga, que pode ser temporária, e que precise ficar na terapia intensiva. A senhora pode me perguntar qualquer coisa, e alguém vai vir falar com a senhora assim que a cirurgia terminar.”
Não diga: Evite dizer que é uma cirurgia pequena ou uma limpeza, e evite prometer que não haverá bolsa. Evite também explicar como se a complicação fosse culpa de alguém — vazamento de anastomose acontece mesmo em operação bem feita, e a conversa sobre isso é da cirurgiã.
Ao próprio paciente, confuso, antes de descer para a sala
“Seu Dionísio, sou o doutor que está cuidando do senhor esta noite. A sua barriga está com uma infecção por dentro, e a gente vai levar o senhor para a sala de cirurgia para limpar. A sua filha já sabe e está vindo. O senhor vai dormir com a anestesia, e quando acordar vai ter gente do seu lado.”
Não diga: Evite deixar de falar com ele porque está confuso. Frases curtas, o nome dele e a notícia de que a família sabe reduzem a agitação no transporte — e ele pode lembrar depois do que ouviu.
À família, no domingo, sobre a ileostomia
“A bolsa que o seu pai está usando se chama ileostomia. A doutora tirou a parte do intestino que tinha aberto e trouxe a ponta até a pele, para que nada vaze de novo por dentro enquanto a barriga se recupera. Hoje ela está rosada, que é a cor que a gente quer ver. A decisão de refazer a ligação do intestino fica para daqui a alguns meses, com ele recuperado, e é a equipe da cirurgia que vai conversar sobre isso.”
Não diga: Evite chamar a estomia de coisa para sempre ou de coisa temporária com certeza — quem define é a cirurgia, e prometer data cria uma quebra de confiança quando a data não se cumpre.
À enfermagem e à família, na segunda, sobre a troca do antibiótico
“O exame do líquido da barriga mostrou quais bactérias estavam causando a infecção, e elas são sensíveis a remédios mais simples. Por isso trocamos o antibiótico por um mais direcionado. Não é porque ele piorou; é porque agora sabemos exatamente o que tratar, e usar o remédio mais forte do que o necessário faz mal a ele e às próximas infecções.”
Não diga: Evite trocar sem explicar. Família e enfermagem que veem o antibiótico forte ser suspenso costumam entender como piora ou como economia, e passam a desconfiar da conduta.
Ao intensivista, na passagem do plantão da manhã de sábado
“Seu Dionísio, reabordagem às 04h40 por vazamento de anastomose ileocólica, com peritonite difusa; anastomose desfeita, ileostomia terminal, aponeurose fechada, controle do foco considerado adequado e reabordagem sob demanda. Líquido colhido para Gram, aeróbios, anaeróbios e fungos. Piperacilina-tazobactam com última dose às 04h20 e próxima às 10h20, em infusão estendida. Lactato de 4,6 às 02h05 e 3,4 às 05h30. Os gatilhos para chamar a cirurgia estão escritos na prescrição: noradrenalina ou lactato que voltem a subir, estomia escura, distensão com pressão intra-abdominal em alta, disfunção nova. O dia zero da duração é hoje.”
Não diga: Evite passar o paciente como pós-operatório de relaparotomia, estável, sem dizer o que foi feito com a anastomose, se o controle foi adequado e qual é a estratégia de reabordagem — são as três informações que decidem o que o próximo plantão faz com uma febre.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Quatro dias depois do controle adequado, inclusive no alto risco com sepse — Sociedade de Infecção Cirúrgica, atualização de agosto de 2024 (graus 1-A e 1-B)
A diretriz mantém, da versão de 2017, a recomendação de não passar de quatro dias, ou 96 horas, de antimicrobiano depois de um controle adequado do foco (grau 1-A), apoiada no ensaio STOP-IT, multicêntrico e aberto, de 518 pacientes, que comparou o curso curto com o longo. A atualização de 2024 estende a regra a três grupos, cada um com grau 1-B, a partir de análises de subgrupo do mesmo ensaio: os pacientes cujo foco foi controlado por drenagem percutânea, os pacientes de alto risco com sepse e os pacientes com diabetes, obesidade ou maior gravidade da doença. Nos três subgrupos, o curso curto não teve mais infecção intra-abdominal recorrente do que o longo. Quem sustenta essa posição lembra que cada dia a mais expõe a eventos adversos e seleciona resistência, e que o foco já foi retirado.
Huston JM, Barie PS, Dellinger EP et al. The Surgical Infection Society Guidelines on the Management of Intra-Abdominal Infection: 2024 Update. Surgical Infections, volume 25, número 6, páginas 419 a 435, 2024 — recomendações de duração e tabela das recomendações mantidas de 2017
Oito dias no paciente crítico com infecção intra-abdominal pós-operatória — a mesma diretriz de 2024, duas recomendações adiante (grau 2-B)
A mesma atualização sugere limitar o antimicrobiano a oito dias no paciente crítico depois do controle adequado. A base é um ensaio clínico aberto e multicêntrico e uma metanálise que o inclui, somando 489 doentes críticos com infecção intra-abdominal pós-operatória, que compararam oito com quinze dias, ou cinco com dez: os cursos mais curtos tiveram mortalidade, tempo de internação, emergência de germes multirresistentes e taxa de reoperação semelhantes, e o grupo de oito dias teve mais dias livres de antimicrobiano. Quem sustenta essa posição argumenta que o doente crítico com peritonite pós-operatória é outro doente — com flora hospitalar, com disfunção orgânica, frequentemente reabordado — e que a evidência dos quatro dias veio de uma população mais leve.
Huston JM et al. Surgical Infections, 2024;25(6):419-435 — recomendação de duração no paciente crítico, com base no ensaio de Montravers e colaboradores de 2018 e em metanálise
Sem número: individualizar pela resposta, pelo sítio, pelo agente e pela adequação do controle — protocolo clínico do ILAS, revisão de julho de 2026; duração mais curta com foco controlado — guia do ILAS, 2024
Os documentos brasileiros em uso não fixam dias. O protocolo do ILAS de julho de 2026 manda individualizar a duração pela resposta clínica, pelo sítio da infecção, pelo agente e pela adequação do controle do foco, para reduzir o uso desnecessário e a resistência. O guia de terapia antimicrobiana do mesmo instituto, de 2024, reproduz a sugestão internacional de duração mais curta quando o foco foi controlado, lista entre as situações que podem exigir duração maior a resposta protraída, a imunodeficiência e o foco não controlado, e propõe a suspensão guiada por resposta clínica e biomarcadores.
Instituto Latino Americano de Sepse. Protocolo clínico — atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico, revisão de julho de 2026, seção de manejo racional da terapia antimicrobiana; Guia prático de terapia antimicrobiana na sepse, 3ª edição, 2024, quarto passo
O percurso distingue o operado não crítico após controle eficaz, para quem apresenta 4 dias, do paciente crítico com peritonite pós-operatória, para quem apresenta 8 dias. A contagem começa no controle que funcionou. Reavalie resposta, culturas e necessidade de cada agente; ausência de melhora exige procurar falha do foco ou outra causa. Prolongamento precisa de justificativa clínica, e marcadores, quando usados, complementam a avaliação.
Tratar empiricamente quem tem alto risco de infecção fúngica — guia prático do ILAS, 3ª edição, 2024, adaptando a diretriz internacional de 2021
O guia brasileiro traz, entre as recomendações para o adulto com sepse ou choque séptico, a sugestão de usar terapia antifúngica empírica, e não nenhuma, no paciente com alto risco de infecção fúngica. Para a suspeita de candidemia relacionada a cateter no paciente hemodinamicamente instável, o mesmo guia lista como situações de risco a nutrição parenteral total, o uso prolongado de antimicrobianos de amplo espectro, a doença maligna, o cateter femoral, a colonização por Candida em vários sítios e a terapia anaerobicida prévia.
Instituto Latino Americano de Sepse. Guia prático de terapia antimicrobiana na sepse, 3ª edição, São Paulo, 2024, ISBN 978-65-992258-3-3 — quadro das recomendações sobre terapia combinada no adulto
Não usar de rotina; considerar caso a caso nos selecionados, com a origem intra-abdominal entre os fatores — diretriz internacional de sepse, março de 2026 (condicional, certeza baixa)
A diretriz de 2026 sugere não usar antifúngico empírico no adulto com sepse ou choque séptico. Na metanálise de sete ensaios, a mortalidade de curto prazo não caiu de forma importante: o risco relativo foi 0,93, e o intervalo de confiança foi de 0,66 a 1,32. A ressalva que acompanha a recomendação manda considerar o antifúngico caso a caso nos pacientes selecionados com fatores de risco — imunossupressão, uso prolongado de antimicrobianos, internação prolongada e origem intra-abdominal da infecção —, porque neles o risco absoluto é alto o bastante para que o benefício provável apareça. A mesma diretriz sugere não usar os marcadores de Candida para iniciar nem para suspender o antifúngico de rotina.
Prescott HC, Antonelli M, Alhazzani W et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026. Intensive Care Medicine, volume 52, páginas 863 a 936, 2026 — recomendações 27, 32 e 38
Equinocandina no paciente de alto risco com infecção intra-abdominal por Candida; não no de menor risco nem na comunitária — Sociedade de Infecção Cirúrgica, 2024 (graus 1-B, 2-B e 1-B)
A diretriz norte-americana de infecção intra-abdominal recomenda anidulafungina na terapia do paciente de alto risco com infecção por Candida (grau 1-B), sugere não usar antifúngico empírico no paciente de menor risco (grau 2-B) e recomenda não usar antifúngico empírico na infecção comunitária do paciente de alto risco (grau 1-B). A lógica é separar a infecção relacionada à assistência, em que Candida é agente esperado, da comunitária, em que não é.
Huston JM et al. Surgical Infections, 2024;25(6):419-435 — terapia antifúngica
No controle da peritonite pós-operatória, obtenha amostra adequada para investigação microbiológica, incluindo fungos conforme o percurso. A decisão sobre anidulafungina considera leveduras no material, cultura de Candida ou combinação de choque com fatores adicionais de risco. Candida em bolsa de dreno não equivale a amostra do foco. Reavalie a necessidade com culturas e evolução clínica; o capítulo não indica antifúngico automático para todo vazamento.
Sob demanda, quando o controle do foco foi adequado na operação — Sociedade de Infecção Cirúrgica, atualização de 2024 (grau 1-B)
No paciente de alto risco com peritonite grave, a diretriz recomenda a reabordagem sob demanda, e não a rotineira ou programada, sempre que o controle adequado do foco tenha sido obtido na operação índice. Quem sustenta essa posição argumenta que a reabordagem programada expõe a novas aberturas pacientes que não precisariam delas, com o custo de cada anestesia, de cada manipulação de alças inflamadas e do risco de fístula, e que os sinais de inflamação e disfunção em série identificam quem precisa voltar à sala.
Huston JM et al. Surgical Infections, 2024;25(6):419-435 — tabela das recomendações de controle do foco mantidas de 2017
Abdome deixado aberto, com revisões planejadas, quando a primeira operação não fechou o foco ou a fisiologia não permite — a mesma diretriz de 2024 (grau 1-B) e a diretriz de 2023 da Sociedade Mundial de Cirurgia de Emergência
A diretriz de 2024 recomenda laparotomia abreviada com fechamento temporário no paciente crítico quando fechar pode causar hipertensão intra-abdominal, quando a reserva fisiológica está gravemente comprometida, quando a operação não conseguiu controle adequado do foco e quando uma nova abertura já está planejada por isquemia mesentérica. A diretriz de 2023, escrita com as sociedades europeia e americana de infecção cirúrgica, registra que o abdome aberto encurta a operação no paciente sem fisiologia, controla melhor o tecido necrosado e simplifica as lavagens e revisões seguintes, inclusive a anastomose adiada, e afirma que a reabordagem precoce é o meio mais eficaz de tratar a peritonite pós-operatória.
Huston JM et al. Surgical Infections, 2024;25(6):419-435; Coccolini F, Sartelli M, Sawyer R et al. Source control in emergency general surgery: WSES, GAIS, SIS-E, SIS-A guidelines. World Journal of Emergency Surgery, 2023;18:41
Registre ao final da operação se o foco foi controlado e se o abdome pôde ser fechado sem tensão. Controle adequado permite reabordagem sob demanda, com sinais de alarme definidos. As situações específicas apresentadas para abdome aberto exigem revisão planejada e reavaliação da possibilidade de fechamento. Suspeita de peritonite pós-operatória ou deterioração pode antecipar a abordagem, independentemente do calendário.
O raciocínio, em voz alta
Donato Belchior, 41 anos, 80 quilos, motorista de aplicativo, sem doenças prévias e sem alergias. Foi operado há seis dias: apendicectomia por videolaparoscopia por apendicite perfurada, com pus na fossa ilíaca direita e na pelve. Recebeu ceftriaxona com metronidazol por três dias e teve alta no quarto dia. Volta ao pronto-socorro do mesmo hospital numa sexta-feira, às 17h, com febre de 38,7 °C desde a véspera, dor no baixo ventre, evacuações amolecidas com muco e vontade de urinar a toda hora. Frequência cardíaca de 108, pressão de 128 por 76, frequência respiratória de 18, saturação de 97% em ar ambiente, lúcido e orientado. O toque retal encontra abaulamento doloroso na parede anterior. Leucócitos de 16.900, lactato de 1,4 mmol/L, creatinina de 0,9 mg/dL, plaquetas e coagulograma normais. A tomografia com contraste venoso, feita às 18h40, mostra uma coleção pélvica de 6 por 5 cm, com parede que realça, sem gás fora das alças em outros pontos e sem líquido livre difuso. A sala de radiologia intervencionista fecha às 19h.
Passo 1 — De quem é este abdome
Donato foi operado e o abdome infectou depois: pela fronteira escrita com a Urgência, o abdome operado que infecta é do Pré e Pós-operatório, e o roteiro é deste capítulo. A apendicite e o curso curto de antimicrobiano depois da apendicectomia foram de Apendicite aguda; a coleção que aparece depois da operação é daqui. Para a vigilância do hospital, é infecção de sítio cirúrgico de órgão ou cavidade, e a classificação está em Abrir antes que abra sozinha — o que não muda nada do que se faz com ele esta noite.
Passo 2 — Sepse ou infecção sem disfunção
Você procura as disfunções da lista do protocolo do ILAS e não acha nenhuma: pressão normal, lactato abaixo da referência, consciência preservada, creatinina e plaquetas normais, saturação boa. Donato tem infecção sem disfunção, com resposta inflamatória. Isso tira dele o prazo de seis horas da sepse e do choque, e o coloca na faixa que as diretrizes deixam sem número — o operado de alto risco sem choque. A posição deste capítulo para essa faixa é a primeira janela logística segura, com o antimicrobiano correndo e reavaliação a cada poucas horas, e qualquer disfunção nova transforma o prazo em seis horas a partir dela.
Passo 3 — O espectro
Donato tem infecção intra-abdominal pós-operatória e exposição recente a ceftriaxona com metronidazol. Essas informações aumentam a preocupação com resistência e orientam a escolha empírica com a microbiologia local; a formação de coleção não prova, sozinha, resistência ao esquema anterior. Com o responsável, colho amostras indicadas e inicio cobertura adequada, neste exemplo piperacilina-tazobactam, com dose inicial infundida em 30 minutos e manutenção conferida quanto à função renal e protocolo. Vancomicina e antifúngico dependem de riscos específicos, não entram automaticamente em toda infecção pós-operatória.
Passo 4 — A via
Os achados apontam todos para a agulha: coleção única, com parede, em paciente estável que responde, sem peritonite difusa e sem outra coleção. Reoperar um abdome de seis dias para drenar o que uma punção drena seria trocar o caminho menos invasivo que alcança o controle — que é o que a diretriz de 2024 recomenda — por uma operação em tecido inflamado. A cirurgia de plantão examina Donato, concorda e conversa com o radiologista intervencionista, que avalia a janela pelas imagens e marca a drenagem guiada por tomografia para as 7h30 de sábado.
Passo 5 — A noite entre o laudo e a punção
A espera de doze horas é compatível com a situação de Donato, e só é segura se for vigiada. Você escreve na prescrição sinais vitais a cada 4 horas, diurese anotada, e os gatilhos que antecipam a decisão: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg ou média abaixo de 65, diurese de 0,5 mL/kg/h ou menos, necessidade de oxigênio para manter a saturação acima de 90%, confusão ou lactato acima da referência — as disfunções da lista do protocolo do ILAS — qualquer um deles faz a cirurgia rever a via na hora, sem esperar a manhã. Jejum a partir da meia-noite para o procedimento. Às 2h e às 6h, a enfermagem registra sinais estáveis e febre de 38,2 °C em queda com antitérmico.
Passo 6 — O que se colhe na punção
Às 7h30, o radiologista aspira 80 mL de pus espesso e deixa um dreno na cavidade. Você garante que o primeiro aspirado vá para o laboratório em seringa tampada, antes de qualquer lavagem, com pedido de Gram e cultura para aeróbios e anaeróbios. O dreno fica em sistema fechado, com o débito anotado por turno e o aspecto descrito, e a lavagem do dreno segue a orientação do radiologista. A cultura da bolsa, nos dias seguintes, não se pede.
Passo 7 — A resposta, o descalonamento e a conta
No domingo, Donato está afebril, com dor bem menor e o dreno com débito caindo. Na segunda, a cultura cresce Escherichia coli sensível a ceftriaxona e Bacteroides fragilis. O esquema desce para ceftriaxona 2 g EV a cada 24 horas com metronidazol 500 mg EV a cada 8 horas, mantendo a cobertura de anaeróbios. O dia zero é o sábado da punção; a diretriz de 2024 recomenda quatro dias de antimicrobiano depois de controle do foco por drenagem percutânea (grau 1-B), e Donato, que nunca teve disfunção orgânica, é exatamente essa população. A última dose é na quarta-feira, com a curva clínica confirmando.
Passo 8 — O dreno, a alta e a conversa
A retirada do dreno é decisão do radiologista e da cirurgia, pela combinação de débito baixo e claro, paciente sem febre e, havendo dúvida, imagem de controle — e ela não prolonga o antimicrobiano. Na alta, você explica a Donato, com as palavras dele: a infecção fez um bolsão de pus perto de onde estava o apêndice, o bolsão foi esvaziado por um tubo, e o remédio parou porque o bolsão acabou, não porque o dreno saiu. Febre, dor que volta ou diarreia com muco nos próximos dias são motivo para voltar no mesmo dia, sem esperar o retorno marcado.
Faça você
Bernabé Domingues, 72 anos, 64 quilos, diabético em uso de insulina e com doença renal crônica leve. Há doze dias foi operado de urgência por diverticulite perfurada com peritonite purulenta difusa: sigmoidectomia com colostomia terminal. Ficou três dias na unidade de terapia intensiva, recebeu piperacilina-tazobactam por sete dias, melhorou, foi para a enfermaria no quinto dia e voltou a comer. No décimo dia teve febre de 38,2 °C, e o plantonista trocou o esquema por meropeném sem pedir imagem. No décimo primeiro, com a febre mantida, acrescentou vancomicina. Hoje, décimo segundo dia, às 10h: temperatura de 38,4 °C, frequência cardíaca de 116, pressão de 104 por 62, frequência respiratória de 24, lúcido mas lentificado. Lactato de 2,6 mmol/L, leucócitos de 18.300, plaquetas de 142.000 (eram 260.000 na semana passada), creatinina de 1,9 mg/dL (era 1,2). Abdome com dor difusa leve, sem descompressão dolorosa; colostomia funcionando; ferida com secreção serosa. A tomografia com contraste mostra uma coleção de 7 por 5 cm abaixo da cúpula diafragmática esquerda, com parede que realça e janela para punção, e três coleções pequenas entre alças no mesogástrio, sem janela. A sala de radiologia intervencionista está aberta.
Passo 1 — Dê nome ao que está acontecendo
Antes de qualquer conduta, escreva o que é este quadro: há quanto tempo depois do controle do foco a infecção voltou, se ele preenche a definição de peritonite terciária que a diretriz de 2023 cita, e se Bernabé tem sepse pela lista de disfunções do protocolo do ILAS — e quais disfunções são.
Passo 2 — Reveja o que já foi feito
Olhe para os dias 10 e 11 e diga o que faltou e o que sobrou: qual pergunta deveria ter vindo antes do meropeném, e se existe indicação para a vancomicina que foi acrescentada.
Passo 3 — Escolha a via, e o que faria você mudar de ideia
Com uma coleção grande, acessível, e três pequenas sem janela, num paciente em sepse sem choque, diga qual via vem primeiro, por quê, e o que nas próximas 24 a 48 horas levaria à reabordagem.
Passo 4 — O que colher, e o que o Gram pode mudar
A punção aspira 120 mL de líquido purulento. Diga para onde vai a amostra e com quais pedidos. Às 16h, o Gram mostra bacilos gram-negativos e leveduras: diga o que isso muda.
Passo 5 — Antimicrobiano e antifúngico
Decida o que acontece com o meropeném, com a vancomicina e com o antifúngico, com as doses e a apresentação de que o seu hospital dispõe, e de onde vem cada decisão.
Passo 6 — A conta e a conversa
Diga de que dia se conta a duração a partir de agora e o que você diz ao filho de Bernabé, que pergunta se o pai pegou uma infecção do hospital porque alguém errou.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare Dionísio e Donato pela fisiologia e pela necessidade de controle anatômico. Explicite as decisões que precisam acontecer juntas, com horários e responsáveis.
Questão integrativa 1
Antibiótico adequado resolve toda coleção pós-operatória?
Questão integrativa 2
A meta de até seis horas permite esperar num paciente que piora?
Questão integrativa 3
Piperacilina-tazobactam em 30 minutos é bolus rápido?
Questão integrativa 4
Toda infecção pós-operatória exige vancomicina e antifúngico?
Questão integrativa 5
A função renal só precisa ser revista depois de três dias?
Questão integrativa 6
Piora depois de uma melhora exige apenas trocar antibiótico?
Ver como fecharíamos
Bernabé tem uma infecção intra-abdominal que voltou mais de 48 horas depois de um controle do foco aparentemente bem-sucedido — ele melhorou, foi para a enfermaria e comeu —, o que preenche a definição de 2005 de peritonite terciária, citada pela diretriz de 2023, que prefere chamá-la de peritonite em curso. Tem sepse pelo protocolo do ILAS, com lactato acima da referência e alteração do nível de consciência; as plaquetas caíram 45% e a creatinina subiu, sem cruzar ainda os cortes da lista, e esses dois números entram na curva. Não está em choque. O que faltou nos dias 10 e 11 foi a pergunta anatômica: febre que volta depois de um controle é falha do controle até prova em contrário, e a tomografia devia ter vindo antes do meropeném. A vancomicina não tem indicação — sem colonização por estafilococo resistente, e a diretriz de 2024 recomenda contra vancomicina empírica na infecção intra-abdominal (grau 1-B). A via primeiro é a punção da coleção subfrênica, que é o caminho menos invasivo capaz de retirar o maior volume do foco; a reabordagem entra se, em 24 a 48 horas, a curva — lactato, noradrenalina se vier a ser necessária, diurese, plaquetas, febre — não virar, se as coleções entre as alças crescerem, ou se aparecer choque. O aspirado vai em seringa tampada, sem lavagem prévia, com Gram, cultura para aeróbios e anaeróbios e pesquisa de fungos. Leveduras no Gram de um paciente de alto risco, com antimicrobiano de amplo espectro prolongado e internação prolongada, sustentam o antifúngico agora, sem esperar a cultura: anidulafungina 200 mg EV no primeiro dia, em 200 mL de SF 0,9% em 180 minutos, e depois 100 mg a cada 24 horas, em 100 mL em 90 minutos, sem ajuste renal (guia do ILAS de 2024; Rename 2024, componente estratégico). A vancomicina é suspensa. O meropeném é mantido até a cultura, porque o paciente recebeu sete dias de piperacilina-tazobactam e a flora esperada é a hospitalar, e desce assim que o antibiograma permitir, mantendo anaerobicida. A duração recomeça no dia desta punção, e a do antifúngico é definida com o controle de infecção pela identificação da levedura, pela resposta e pelo controle do foco. Ao filho, as palavras são: o que aconteceu com o seu pai é uma complicação conhecida de uma infecção muito grave como a que ele teve; ela formou novos bolsões de pus, que precisam ser esvaziados, e o tratamento mudou para atingir os germes que costumam aparecer depois de muitos dias de hospital. Se ele não melhorar com o tubo, pode precisar ser operado de novo, e nós vamos avisar antes. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Muitas exigem drenagem ou operação para controlar a fonte. 2. Não. Organizar controle precoce e antecipar diante da necessidade clínica. 3. Não. É infusão intermitente; preparo, compatibilidade e velocidade devem estar claros. 4. Não. Escolher cobertura por riscos específicos, fonte, gravidade e microbiologia local. 5. Não. Deve ser acompanhada dinamicamente para ajustar manutenção, especialmente em disfunção ou terapia renal substitutiva. 6. Não. Reavaliar controle de foco, resistência, dose e diagnósticos alternativos em paralelo ao suporte.
Febre e disfunção que voltam depois de um controle do foco aparentemente bem-sucedido são falha do controle até prova em contrário, e a primeira pergunta é anatômica: há coleção residual, nova falha, alça isquêmica ou foco fora do abdome? A atualização de 2024 da Sociedade de Infecção Cirúrgica recomenda usar as medidas de inflamação e de disfunção orgânica para prever a falha do controle (grau 1-B), e a resposta à falha é imagem e, se preciso, novo procedimento, com cultura do novo foco. Escalar para carbapenêmico, vancomicina, polimixina ou tigeciclina sem imagem seleciona resistência e Candida e entrega à próxima intervenção um paciente mais grave. A diretriz de 2024 recomenda contra vancomicina empírica e contra tigeciclina como empírico.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sete dias depois, responda sem consultar. Por que uma coleção pode receber o antimicrobiano certo por dias e continuar lá, e por que um vazamento é torneira e não reservatório? Quais achados levam à punção e quais levam à sala? Por que todo operado com infecção intra-abdominal é de alto risco, e o que isso muda no espectro da primeira dose? Em quantas horas o foco precisa sair no paciente em choque, e a partir de quando se contam? De que dia se conta a duração do antimicrobiano, e em que paciente a régua é de quatro dias e em qual é de oito? Qual amostra de cultura vale e qual engana?
Em 30 dias
Trinta dias depois, reconstrua em voz alta a madrugada de seu Dionísio, cronometrando: da chamada da enfermagem ao laudo, do laudo à incisão, da incisão à primeira curva de lactato, dizendo em cada faixa o que se decide e por quê. Refaça a conta dos dois começos possíveis do prazo de seis horas. Explique por que a anastomose foi desfeita e a reabordagem ficou sob demanda, e quais sinais escritos na prescrição mudariam essa estratégia. Refaça a conversão da piperacilina-tazobactam em mililitros por hora na primeira dose e na manutenção, e diga quanto volume de diluente ela acrescenta ao balanço do primeiro dia. Explique por que a recomendação de quatro dias com sepse não se estende automaticamente ao paciente em choque, e em que a definição de sepse do estudo que a sustenta difere da atual. Diga quando a anidulafungina entra e quando não entra, e onde ela está no elenco nacional. E responda, com suas palavras, o que você faz no décimo segundo dia de um operado que volta a ter febre depois de ter melhorado — e o que você não faz.
Agora atenda
Agora atenda. Vai chegar uma paciente operada há poucos dias, com febre, taquicardia e um abdome que conta pouco porque dói desde a cirurgia. O que se cobra de você é o roteiro deste capítulo, na ordem: examinar o abdome inteiro antes de atribuir a febre à urina ou ao pulmão, reconhecer que a infecção do operado é relacionada à assistência e prescrever o espectro certo, perguntar a hora de cada dose, pedir a imagem com a pergunta escrita, e decidir com a cirurgia se o foco sai por agulha ou por sala — e em quantas horas. A paciente virtual só entrega o que você pergunta e só revela o que você examina: se você não fizer o toque, não vai saber do abaulamento; se não perguntar pelo antimicrobiano que ela recebeu, vai repetir o que não funcionou. Repare na curva dos sinais vitais desde a véspera, na diurese somada com a hora, no que a dieta fez nos últimos dois dias e no que o laudo diz sobre janela para punção. E, antes de encerrar, escreva duas coisas que o próximo plantão vai precisar: o dia zero da duração, se o foco foi controlado, e os gatilhos que fazem alguém chamar a cirurgia de volta.
