Clínica Médica › Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
A prescrição de internação
Alguém diz "faz a prescrição do leito 12" e você nunca viu isso escrito em lugar nenhum. Este capítulo é sobre o que entra em cada linha, por que a ordem das seções importa, e como saber na visita seguinte que a folha de ontem estava certa.
Ministério da Saúde / ANVISA / FIOCRUZ / FHEMIG — Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos (Programa Nacional de Segurança do Paciente, Anexo 03; Portaria GM/MS nº 2.095, de 24/09/2013)
ISMP Brasil — Erros de medicação associados a abreviaturas, siglas e símbolos. Boletim ISMP Brasil 2015;4(2):1-8
ISMP Brasil — Prevenção de erros de prescrição. Boletim ISMP Brasil 2021;10(2):1-11 (elaboração coordenada pelo ISMP Brasil com financiamento do Departamento de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde, por meio da OPAS)
Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo — Consenso e Atualização na Profilaxia e no Tratamento do Tromboembolismo Venoso. Burihan MC, Campos Júnior W (eds.). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019
Sociedade Brasileira de Diabetes — Posicionamento Oficial SBD nº 03/2015: Controle da Glicemia no Paciente Hospitalizado
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Recomendações para o manejo da pneumonia adquirida na comunidade 2018 (J Bras Pneumol. 2018;44(5):405-423)
Ministério da Saúde — Formulário Terapêutico Nacional 2010 (Rename 2010). Brasília: Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos
Organização Mundial da Saúde — Medication Without Harm: 3rd Global Patient Safety Challenge (2017)
Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.002: Profilaxia de Úlcera Gástrica por Estresse (2023)
Silva TG, et al. — Adesão a um protocolo de profilaxia de úlcera de estresse em pacientes críticos: estudo de coorte prospectiva (Revista Brasileira de Terapia Intensiva)
CLORIDRATO DE METOCLOPRAMIDA: bula profissional. Atualização de 6 de setembro de 2023.
ADA. Diabetes Care in the Hospital: Standards of Care in Diabetes—2026. https://diabetesjournals.org/care/article/49/Supplement_1/S339/163925/16-Diabetes-Care-in-the-Hospital-Standards-of-Care
Responda antes de ler
Mulher de 72 anos interna com infecção urinária e desidratação. Está acamada há cinco dias em casa, tem insuficiência cardíaca e índice de massa corporal de 31 kg/m². Sem sangramento ativo, sem coagulopatia, sem cirurgia recente. Plaquetas 240.000, RNI 1,0, depuração de creatinina estimada de 48 mL/min. Qual a conduta quanto à profilaxia de tromboembolismo venoso?
O paciente que você vai ver
São 8h10 do seu primeiro dia de enfermaria. O residente sai da sala com o telefone no ouvido e diz, de costas: "faz a prescrição do 12 que eu confiro antes da visita". O leito 12 é o senhor Antônio, 74 anos, 62 quilos, que passou a madrugada no pronto-socorro com pneumonia e subiu para a enfermaria há vinte minutos. Você tem o prontuário, a folha em branco e cerca de quarenta minutos.
O que trava não é o antibiótico. O antibiótico você sabe. Trava o resto: que dieta se escreve; se a losartana que ele toma em casa continua; o que fazer com a metformina; se ele precisa daquela injeção na barriga; o que se escreve na parte de baixo da folha, a que a enfermagem usa de madrugada; e como se escreve a dose de uma coisa subcutânea sem que ninguém entenda errado.
Vale saber para quem você está escrevendo, porque isso muda tudo o que vem a seguir. Essa folha vai passar por quatro pessoas que não vão te procurar: o farmacêutico que analisa e dispensa, o enfermeiro que apraza os horários, o técnico que administra às seis da manhã e o plantonista da madrugada, que vai decidir o que fazer com a febre dele às três da manhã lendo o que estiver ali. Nenhum deles vai te ligar. A prescrição é a única coisa sua que continua trabalhando depois que você vai embora — e, na mesma enfermaria, ela vai ser diferente no leito 9, que opera amanhã, e no leito 15, onde a senhora de 88 anos está em cuidado de conforto. Três folhas diferentes, uma estrutura só.
Quem adoece disso
Erro de prescrição não é evento raro nem exótico: estima-se que cerca de 7% das prescrições manuais elaboradas em ambiente hospitalar contenham erro, e os mais frequentes são dose incorreta, prescrição incompleta, ilegibilidade, intervalo de dose inadequado e erro de transcrição. Faça a aritmética da sua enfermaria: vinte leitos, oito a doze itens por folha, e você tem mais de duzentos itens escritos por dia numa única ala. Nessa escala, o erro deixa de ser acidente e passa a ser estatística — o que significa que a proteção não pode depender de você estar atento hoje. Ela precisa estar na forma de escrever.
Os dados brasileiros mostram onde a nossa prescrição é frágil. Em estudo realizado em quatro hospitais universitários do país, em três deles as abreviaturas foram usadas em mais de 80% das prescrições avaliadas. Em um hospital de Minas Gerais, 4.026 prescrições continham 70 tipos diferentes de abreviaturas, com 133.956 ocorrências — média de 33,3 abreviaturas por prescrição. A consequência prática é que a prescrição brasileira típica é um documento que precisa ser decodificado, e quem decodifica é quem administra, no corredor, com pressa. O boletim do ISMP Brasil sobre o tema abre com o desfecho disso: uma prescrição de "5U" de insulina lispro foi interpretada como 50 unidades; o paciente teve parada cardiorrespiratória após a sobredose e morreu uma semana depois. Uma letra.
A etapa seguinte também erra, e é bom saber disso antes de escrever. Em estudo conduzido em 2006 em quatro hospitais brasileiros, 1,7% dos medicamentos administrados foi diferente do prescrito; 4,8% das doses diferiam das prescritas; 1,5% foi por via diferente; 2,2% saíram mais de uma hora antes do horário e 7,4%, mais de uma hora depois. A administração é a última barreira antes do paciente, e tem furos conhecidos: sua prescrição não precisa ser elegante, precisa atravessar um corredor movimentado sem ser mal interpretada.
O dano não se distribui por igual entre os itens da folha. Em análise de eventos adversos relacionados a medicamentos ao longo de sete anos num hospital, mais da metade dos eventos preveníveis que provocaram dano envolvia três grupos: anticoagulantes, opiáceos e insulinas — o núcleo dos chamados medicamentos potencialmente perigosos, ou de alta vigilância. Isso dá uma regra de economia de atenção que serve para o resto da sua vida profissional: numa folha de dez itens, dois ou três merecem conferência dobrada (heparina, insulina, opioide, cloreto de potássio) e o resto merece conferência normal. Em escala global, a Organização Mundial da Saúde estima o custo dos erros de medicação em 42 bilhões de dólares por ano e, no desafio Medicação sem Danos, lançado em 2017, fixou a meta de reduzir pela metade o dano grave evitável, com três áreas prioritárias: polifarmácia, situações de alto risco e transições de cuidado. As três moram na enfermaria — o idoso com nove medicamentos é polifarmácia, a insulina é alto risco, e admissão e alta são transições. Falta o número que seria o mais eloquente de todos, e o protocolo nacional é explícito ao registrar que estatísticas brasileiras de óbito relacionado a erro de medicação não estão disponíveis. É por isso que a régua daqui é de processo, e não de desfecho: o que existe medido, no Brasil, é o que a prescrição contém e o que ela deixa de conter — e é também por isso que os documentos nacionais descrevem tão minuciosamente a forma de cada linha.
Por que acontece o que acontece
A prescrição parece um bilhete e não é. É um documento de comunicação assíncrona entre pessoas que não vão conversar: você escreve às 9h, o farmacêutico analisa às 10h, o técnico administra às 6h do dia seguinte, e o plantonista decide na madrugada. Toda regra de forma que parece burocracia existe porque a ausência daquele campo produziu dano documentado — você não está preenchendo um formulário, está montando uma sequência de barreiras. Começa no topo, que parece o mais dispensável: a identificação hospitalar exige nome completo, prontuário, leito, serviço e enfermaria, e o nome abreviado deve ser excluído da prática, porque quem administra confirma o paciente cruzando dois identificadores entre prescrição, pulseira e prontuário — nome incompleto quebra a checagem no exato momento em que ela deveria funcionar. Pelo mesmo motivo a data é imprescindível: suprimi-la associa-se a manter medicamento por tempo inadequado e a administrar droga sem indicação para a condição atual. Prescrição sem data é prescrição sem prazo de validade, e o que não vence não se revisa.
A ordem das seções não é hierarquia, é dependência. A dieta vem primeiro porque responde à pergunta que decide todas as linhas seguintes: existe via oral? Se o paciente está em jejum e metade da folha abaixo é por via oral, quem descobre isso é o técnico às seis da manhã — e aí ou o item é pulado, gerando omissão, ou alguém improvisa. Depois vêm cuidados e sinais vitais, que são o que a enfermagem executa e mede, e é dessa medição que sai a decisão de escalonar. Só então a medicação de horário fixo, e por último, em bloco separado, o "se necessário".
Essa separação entre fixo e condicional é a parte mais subestimada da folha. O item fixo é decidido por você e executado pelo relógio; o condicional é decidido por outra pessoa, à beira do leito, com base num gatilho que você escreveu. Quando os dois se misturam na mesma lista, aparecem dois erros simétricos: o condicional passa a ser dado de rotina, virando fixo por hábito, e o fixo passa a ser lido como opcional. É por isso que o protocolo nacional exige que todo "se necessário" traga quatro elementos — dose, posologia, dose máxima diária e a condição que determina o início e a interrupção do uso — e abole expressões como "a critério médico", "usar como de costume" e "uso contínuo". O documento é ainda mais duro na ponta: medicamentos com prescrição vaga do tipo "fazer se necessário" ou "conforme ordem médica" não devem ser administrados. Uma linha incompleta não é meia proteção; é um item que a enfermagem tem de devolver para você, no meio da noite, ou administrar por conta própria.
Por fim, o mecanismo do erro de leitura, que é o que transforma detalhe tipográfico em morte. A prescrição é lida sob pressa, sob interrupção, às vezes em papel pautado onde a linha impressa transforma um zero em oito. Nessas condições, a ambiguidade não é resolvida perguntando: é resolvida deduzindo. O ISMP Brasil orienta explicitamente que ninguém deve deduzir o significado de uma abreviatura, e sim perguntar ao prescritor — mas a barreira que de fato funciona está a montante, em escrever de forma que não haja o que deduzir. Repare no tipo de erro que as abreviaturas produzem: "U" e "UI" podem ser lidos como zero, de modo que 4U vira 40 e 4u vira 44; o zero à direita em número inteiro (1,0 mg) vira 10 mg quando a vírgula some; a omissão do zero à esquerda (",5 g") vira 5 g; a barra em "500 mL/2h" vira "500 mL em 12h"; "µg" vira "mg". Todos são erros de fator dez ou cem, e é aí que o dano mora — não na escolha do antibiótico, que é a parte em que o interno concentra o medo.

Como se apresenta de verdade
A estrutura é uma só, mas o documento muda conforme o momento do paciente. O erro típico de quem está começando é escrever sempre a mesma folha — e o dano de cada uma dessas cinco prescrições é diferente.
Percurso de aprendizagem
Antes da folha, confirme alimentação, peso, função renal/hepática, alergias e medicamentos realmente usados. Distinga risco de continuar de risco de retirar.
Separe tratamento, monitorização e profilaxias indicadas. Escreva dose, via, intervalo, limite e gatilho de uso quando necessário, sem converter exemplos em receitas universais.
Confira o que foi administrado e a evolução. Mudança de jejum, função renal ou condição clínica exige revisão no mesmo dia; a alta precisa reconciliar toda a lista.
A prescrição de admissão
É a mais longa e a mais perigosa, porque é nela que a medicação que o paciente usava em casa entra na folha — ou some sem que ninguém decida. O protocolo nacional é direto: na admissão devem ser relacionados os medicamentos que o paciente estava usando antes da internação, para avaliar a necessidade de continuidade ou suspensão. Isso é a conciliação medicamentosa, e é a tarefa mais desprezada e mais rentável do seu primeiro dia. Um detalhe operacional que evita dose dupla: o paciente deve ser orientado a não permanecer com os próprios medicamentos na unidade, porque a caixa na gaveta produz o mesmo comprimido administrado pela enfermagem e tomado por conta do acompanhante.
A prescrição diária
Não é cópia da de ontem, embora quase todo sistema eletrônico ofereça o botão que copia. O ISMP Brasil trata a automatização que reproduz a prescrição de dias anteriores como fonte reconhecida de erro e recomenda que a instituição torne identificável o que foi copiado. O que muda de um dia para o outro é justamente o que a cópia carrega intacto: função renal, peso, via disponível, dia de antibiótico, necessidade da profilaxia, a dor de ontem que já passou.
A prescrição pré-operatória
Jejum pede revisar via, necessidade e horário de cada medicamento; não invalida automaticamente todos os fármacos orais, pois alguns podem ser administrados com pequeno volume de água conforme anestesia. Sulfonilureias são suspensas no dia do procedimento; SGLT2 exigem interrupção antecipada, geralmente 3–4 dias, pelo risco de cetoacidose euglicêmica. GLP-1 exige decisão individual pelo risco gastrointestinal/aspiração e protocolo perioperatório. A basal é ajustada ao tipo de insulina e ao risco, sem retirada total no diabetes tipo 1. Monitorar glicemia e planejar glicose IV quando necessária; não prescrever 2 g/kg/dia indiscriminadamente a toda pessoa em jejum.
A prescrição de alta
É a segunda transição, e o protocolo nacional a trata como ponto crítico: na alta, o paciente deve receber uma prescrição contendo todos os medicamentos de que fará uso e as recomendações necessárias à continuidade do tratamento. Todos — não apenas o que foi introduzido no hospital; a prescrição que lista só o antibiótico novo transmite ao paciente que o resto foi cancelado. Duas regras de escrita mudam aqui: medicamento de uso crônico precisa de duração e de data para reavaliação, e a expressão "uso contínuo" sem prazo não deve ser usada; e cada suspensão feita na admissão volta a ser decidida — o que estava suspenso por jejum volta, o que estava suspenso por função renal só volta se a função voltou, e o que foi suspenso de propósito precisa estar escrito como suspenso de propósito.
A prescrição do paciente em cuidado de conforto
Muda a pergunta que a folha responde: ela deixa de perseguir número e passa a perseguir sintoma. Sai o que só faz sentido para prolongar (profilaxias, coletas de rotina, controle glicêmico apertado) e entra o que controla dor, dispneia, náusea e secreção — a própria sociedade nacional de diabetes reconhece o deslocamento ao registrar que, em doença incurável progressiva sob cuidados paliativos na fase final da vida, a meta glicêmica pode ser mais alta, de 108 a 270 mg/dL. A via também muda: quando a oral falha, a subcutânea costuma substituir a endovenosa, poupando punção. E vale dizer explicitamente, porque quase ninguém ensina: retirar um item da prescrição é decisão clínica igual à de acrescentar, e se escreve e se justifica do mesmo jeito — uma folha que encurta sem registro parece descuido, inclusive para a família, que a lê.
Como fechar o diagnóstico
O "exame" deste capítulo acontece antes da primeira linha. São seis perguntas, todas respondíveis em poucos minutos com o prontuário e o paciente na frente, e é a resposta delas que define metade das doses da folha. Prescrever antes de tê-las é escrever com dados de outra pessoa.
Uma observação que organiza o bloco: o protocolo nacional recomenda que, para medicamentos cujas doses dependem de peso, superfície corporal e clearance de creatinina, o prescritor anote essas informações na própria prescrição. Não é firula — é o que permite ao farmacêutico e à enfermagem conferirem sua conta em vez de confiarem nela.
Peso e altura, medidos
Enoxaparina em dose plena, insulina, aminoglicosídeo e praticamente toda droga endovenosa contínua são calculadas por quilo. Peso estimado a olho é dose estimada a olho, com o agravante de que o erro se propaga por todos os dias seguintes, porque ninguém repesa. O ISMP Brasil chega a recomendar que o registro do peso seja campo obrigatório no sistema, impedindo finalizar a prescrição sem ele. No senhor Antônio, do leito 12: 62 quilos, pesado na admissão e anotado no alto da folha — uma informação que decide a dose de insulina e serve de referência até a alta.
Função renal — a depuração, não a creatinina
Estime função renal com método apropriado ao medicamento, distinguindo depuração de creatinina de filtração indexada e reconhecendo imprecisão na lesão renal aguda. No paciente de 74 anos e 62 kg, creatinina de 1,4 corresponde a depuração aproximada de 40 mL/min. Isso aumenta cautela com insulina e alguns medicamentos, mas não determina a mesma redução para todos. Enoxaparina profilática costuma exigir ajuste na insuficiência renal grave conforme bula/protocolo; em comprometimento acentuado, considerar heparina não fracionada. Metformina tem critérios próprios e não é absolutamente contraindicada por todo grau de perda renal. Anote estimativa, data e tendência, reavaliando se o rim mudar.
Alergia — e a pergunta que a define
O registro de alergia deve constar com destaque na prescrição e, em sistemas eletrônicos, em todas as prescrições emitidas para aquele paciente. Mas o dado só vale se tiver sido colhido direito, e a pergunta certa não é "o senhor tem alergia a algum remédio?" e sim "o que aconteceu quando o senhor tomou?". Náusea com dipirona não é alergia, e rotular assim custa ao paciente um analgésico eficaz para o resto da vida; exantema com amoxicilina é alergia até prova em contrário, e precisa estar escrito onde a próxima pessoa vê. Duas armadilhas: medicamentos em associação exigem conhecer a composição inteira, e o registro deve usar nome genérico e comercial, sem abreviaturas, porque o alerta automático só dispara se o nome estiver escrito como o sistema o reconhece.
A medicação de casa — a conciliação
É a tarefa que separa a prescrição de admissão boa da perigosa. Liste o que o paciente usava, com dose e horário, e decida item por item: mantém, suspende, substitui ou ajusta. Três armadilhas conhecidas. O que o paciente diz que toma e o que ele toma são coisas diferentes — peça a caixa, a receita, o cuidador. A suspensão silenciosa é o mecanismo de dano mais elegante da enfermaria: anti-hipertensivo, antidepressivo, anticonvulsivante, colírio de glaucoma e levotiroxina somem da folha por esquecimento e cobram a conta dias depois, longe do gesto que a causou. E há o oposto, o que continua sem ser revisto — o benzodiazepínico crônico que agora convive com opioide, o anti-inflamatório em quem vai receber contraste. A regra que resolve as três é de escrita: nenhum item da lista domiciliar fica sem decisão explícita, e as decisões vão registradas, inclusive as suspensões. "Metformina suspensa por função renal" é informação; metformina ausente da folha é ruído.
A via — e o que ela exige por escrito
Antes de escrever um comprimido, confirme que existe via oral: nível de consciência, deglutição, vômitos, jejum programado, sonda. Se for sonda, nem todo comprimido pode ser triturado, e a instituição precisa disponibilizar guias de diluição e preparo — improvisar trituração é alterar a farmacocinética sem saber para onde. Para as vias parenterais, a prescrição tem obrigações que o interno costuma delegar mentalmente à enfermagem e que são dele: para medicamentos endovenosos, intramusculares, subcutâneos e em neuroeixo, a folha deve conter diluente (tipo e volume), velocidade e tempo de infusão. A velocidade não é detalhe estético — o exemplo que o próprio protocolo usa é a síndrome do homem vermelho, que aparece com infusão rápida de vancomicina. E há uma escolha de vocabulário com efeito medido: havendo padronização de abreviatura de via, prefira "EV" a "IV", porque "IV" com letra ruim vira "IM".
O resto que muda a régua, e o que não precisa ser pedido
Gestação e lactação mudam a lista inteira de drogas permitidas; idade e fragilidade mudam dose e escolha; corticoide sobe a glicemia e leva o cálculo da insulina de 0,4 para 0,5 unidade internacional por quilo. E há a categoria dos exames que a própria droga exige — o ISMP recomenda que o RNI mais recente apareça na tela quando se prescreve varfarina, e a versão em papel disso é abrir o exame antes de escrever a dose. Do lado do que não entra: exame de rotina diário que não muda a prescrição do dia seguinte não precisa ser colhido — hemograma diário em paciente estável produz anemia por espoliação e achados incidentais que puxam nova investigação. A pergunta que filtra é a mesma da prescrição: se este resultado vier alterado, o que eu faço?
O esqueleto da prescrição
Aprenda a transformar problemas clínicos em uma prescrição executável e revisável. Cada item precisa de indicação, dose apropriada, resposta esperada e condição de manutenção ou suspensão.
- 1Antes da primeira linha: peso, depuração de creatinina estimada, alergia, lista de medicamentos de casa e via disponível. Anote peso e depuração na própria prescrição — é o que permite conferirem a sua conta.
- 2Cabeçalho: nome completo (nunca abreviado), prontuário, leito, serviço e enfermaria; data; e a sua identificação com número do conselho e assinatura legível.
- 3Dieta: ela responde se existe via oral e governa metade das linhas seguintes. Jejum é decisão que vem com prazo e com o destino das drogas de via oral.
- 4Cuidados e monitorização: sinais vitais e frequência, oximetria, glicemia capilar com horários, balanço hídrico, posição, cuidados com dispositivos.
- 5Profilaxias: escreva as que este paciente indica, calculando o critério na hora. Profilaxia sem indicação é medicamento a mais, não zelo a mais.
- 6Medicação fixa: primeiro o que trata a doença atual, depois o que veio de casa e foi mantido — cada item com denominação comum brasileira, concentração, forma, dose, posologia, via e orientação.
- 7Bloco separado do "se necessário": dose, intervalo, dose máxima diária e a condição objetiva de início e interrupção. Faltando um dos quatro, o item não pode ser administrado.
- 8Releia procurando o que a leitura apressada estraga — abreviatura, unidade abreviada, zero à direita, vírgula solta, nome parecido, duplicidade — e confira duas vezes os dois ou três itens potencialmente perigosos da folha.
| Seção da folha | O que entra | O erro que ela previne |
|---|---|---|
| Identificação | Nome completo, prontuário, leito, serviço, enfermaria; data; prescritor com registro e assinatura legíveis | Administração ao paciente errado e uso de prescrição vencida |
| Dieta | Tipo, consistência, fracionamento, restrições; jejum com prazo e motivo | Item de via oral prescrito para quem não tem via oral — que vira omissão às seis da manhã |
| Cuidados e monitorização | Sinais vitais e frequência, oximetria, glicemia capilar com horários, balanço hídrico, cuidados com dispositivos | Decidir amanhã sem dado: o que não foi pedido não foi medido |
| Profilaxias | Tromboembolismo, lesão de mucosa gástrica e broncoaspiração, cada uma com o critério aplicado | As duas faces: esquecida em quem indica, automática em quem não indica |
| Medicação fixa | Droga da doença atual e medicação domiciliar mantida, com concentração, forma, dose, posologia, via e orientação | Suspensão silenciosa do que vinha de casa e duplicidade terapêutica |
| Se necessário | Dose, intervalo, dose máxima diária e condição objetiva de início e interrupção | Analgesia que não sai porque a linha está incompleta, e sintomático que vira fixo |
| Observações | Peso, depuração, alergias em destaque, dia de antibiótico, metas combinadas | Conta de dose que ninguém consegue conferir e antibiótico sem data de término |
Como se escreve um item, por via (estrutura do protocolo nacional)
| Via | Ordem dos elementos | Exemplo |
|---|---|---|
| Oral | Nome + concentração + forma farmacêutica + dose + posologia + via + orientações de uso | Captopril 25 mg comprimido. Administrar 50 mg de 8 em 8 horas por via oral, 1 hora antes ou 2 horas depois das refeições. |
| Endovenosa | Nome + concentração + forma + dose + diluente + volume + via + velocidade de infusão + posologia + orientações | Anfotericina B 50 mg frasco-ampola. Reconstituir em 10 mL de água destilada e rediluir para 500 mL de glicosada 5%. Uso endovenoso, 1 vez ao dia, administrar em 5 horas. |
| Intramuscular | Nome + concentração + forma + dose + diluente + volume + via + posologia + orientações | Ceftriaxona 1 g frasco-ampola. Diluir 1 g em 3,5 mL de lidocaína 1%. Fazer a solução obtida por via intramuscular profunda (região glútea), de 12 em 12 horas. |
| Subcutânea | Nome + concentração + forma + dose + volume + via + posologia + orientações | Heparina sódica 5.000 unidades internacionais/0,25 mL, ampola. Fazer 0,25 mL por via subcutânea de 12 em 12 horas. |
| Inalatória | Nome + concentração + forma + via + dose do medicamento e do diluente + posologia + orientação | Bromidrato de fenoterol 5 mg/mL solução para inalação. Fazer aerossol com 5 gotas diluídas em 3 mL de soro fisiológico 0,9% de 6 em 6 horas. |
Escore de Pádua — profilaxia de tromboembolismo no paciente clínico
| Pontos | Fator |
|---|---|
| 3 | Neoplasia em atividade |
| 3 | Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar prévias |
| 3 | Mobilidade reduzida |
| 3 | Trombofilia conhecida |
| 2 | Traumatismo ou cirurgia há menos de 30 dias |
| 1 | Idade acima de 70 anos |
| 1 | Insuficiência cardíaca ou insuficiência respiratória |
| 1 | Infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral isquêmico |
| 1 | Infecção aguda ou distúrbio reumatológico |
| 1 | Índice de massa corporal acima de 30 kg/m² |
| 1 | Em tratamento hormonal |
As profilaxias: quem indica e com o quê
| Profilaxia | Quem indica | O que se prescreve | Quando não |
|---|---|---|---|
| Tromboembolismo venoso | Escore de Pádua igual ou maior que 4 (risco de 11%, contra 0,3% abaixo disso), em paciente acima de 40 anos com mobilidade reduzida | Enoxaparina 40 mg por via subcutânea, 1 vez ao dia; ou heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais de 8 em 8 horas; ou fondaparinux 2,5 mg por dia | Sangramento ativo, coagulopatia com sangramento, acidente vascular hemorrágico, punção epidural há menos de 12 horas, insuficiência renal terminal — nesses casos, compressão pneumática intermitente por pelo menos 18 horas ao dia |
| Lesão aguda de mucosa gástrica | Coagulopatia (plaquetas abaixo de 50.000, RNI acima de 1,5 ou TTPa acima de 2 vezes o controle), ventilação mecânica prolongada, traumatismo cranioencefálico grave, lesão medular, queimadura extensa, hepatopatia crônica, dupla antiagregação ou anticoagulação, uso de anti-inflamatório | Inibidor de bomba de prótons, preferencialmente por via oral ou por sonda; via endovenosa quando a enteral está indisponível | Paciente de enfermaria sem nenhum desses fatores: a profilaxia não é rotina, e o uso desnecessário associa-se a pneumonia hospitalar e a infecção por Clostridioides difficile |
| Broncoaspiração | Rebaixamento de consciência, disfagia, vômitos, dieta por sonda, sedação residual | Cabeceira elevada durante e após a dieta, avaliação de deglutição antes da primeira oferta, ajuste de consistência | Aqui não há decisão de prescrever ou não: quando o risco existe, a medida é de cuidado — o que se evita é liberar dieta por via oral antes da avaliação |
Os "se necessário" mais usados — com os quatro elementos obrigatórios
| Item | Dose e via | Intervalo e teto diário | Condição que determina o uso |
|---|---|---|---|
| Paracetamol | 500 mg por via oral (comprimido de 500 mg) | De 6 em 6 horas; máximo de 2 g ao dia neste esquema (a faixa da monografia vai até 4 g ao dia) | Temperatura igual ou acima de 37,5 °C |
| Dipirona | 1 g por via endovenosa, em infusão lenta que não exceda 500 mg por minuto | De 6 em 6 horas; máximo de 4 g ao dia | Dor ou temperatura igual ou acima de 37,8 °C, se o paracetamol não estiver disponível ou tiver sido insuficiente |
| Metoclopramida | 10 mg por via endovenosa, em bolus lento de pelo menos 3 minutos | De 8 em 8 horas; máximo de 30 mg ao dia — ou 0,5 mg/kg ao dia, o que for menor — e por no máximo 5 dias | Náusea ou vômito |
| Morfina | 2 mg por via endovenosa lenta, com titulação | A cada 15 minutos até controle, com registro de cada dose; teto diário definido na prescrição conforme a resposta | Dor intensa não controlada pelo analgésico simples — com reavaliação médica se precisar de mais de duas doses |
| Insulina regular (correção) | Conforme a escala padronizada da instituição, por via subcutânea | Antes das refeições e às 22 horas | Glicemia capilar acima da meta — nunca como esquema isolado por mais de um dia |
Abreviaturas, símbolos e expressões de dose que não se escrevem
| O que se escreve errado | Como pode ser lido | O que escrever |
|---|---|---|
| U / u | "4U" vira 40; "4u" vira 44 | A palavra unidade por extenso |
| UI | Confusão com 0 e com 1 | Unidade internacional por extenso |
| µg | Miligrama — erro de mil vezes | Micrograma por extenso |
| IV | IM (intramuscular) ou IN (intranasal) | Endovenoso, ou a abreviatura EV se houver padronização |
| KCl, NaCl, MgSO4, MSO4 | Cloreto de sódio por cloreto de potássio; sulfato de morfina por sulfato de magnésio | O nome completo do medicamento |
| 1,0 mg (zero à direita) | 10 mg, se a vírgula não for notada | 1 mg |
| ,5 g (sem zero à esquerda) | 5 g | 0,5 g — ou, melhor ainda, mudar a unidade: 500 mg |
| 500 mL/2h (barra) | 500 mL em 12 horas | Escrever "por" ou "em", com o tempo por extenso |
| SC, BID, TID, QID, cc, amp, comp | SC lido como SL; confusão entre os intervalos; ampola por comprimido | Subcutâneo; a frequência por extenso; mililitro; ampola e comprimido por extenso |
| 100000 unidades | 10.000 ou 1.000.000 | 100.000, com ponto separando os milhares, ou o número por extenso |
Leitura do Pádua: entram na avaliação os pacientes acima de 40 anos com pelo menos um fator de risco e mobilidade reduzida há pelo menos 3 dias. Escore igual ou maior que 4 é alto risco, com incidência de tromboembolismo de 11%; abaixo de 4 o risco é de 0,3%, e a conduta é deambulação, sem profilaxia química. Em índice de massa corporal acima de 40 kg/m², a heparina de baixo peso molecular passa a 60 mg por dia ou 40 mg de 12 em 12 horas. Com clearance até 30 mL/min a dose é reduzida; abaixo de 10, a profilaxia medicamentosa é contraindicada. No paciente clínico ela não se estende além da internação.
O molde de um "se necessário" completo, que o protocolo nacional usa como exemplo: paracetamol comprimido de 500 mg, uso oral, administrar 500 mg de 6 em 6 horas se temperatura igual ou acima de 37,5 °C, dose máxima diária de 2 gramas. Sem os quatro elementos, a enfermagem não deve administrar o item. Medicamento potencialmente perigoso pede barreira extra: dupla checagem dos cálculos na prescrição, na análise farmacêutica e de novo antes de administrar; eletrólitos concentrados e bloqueadores neuromusculares não ficam estocados na unidade. E prescrição verbal é restrita à urgência: quem recebe repete de volta, o prescritor confirma antes da administração, e a ordem é escrita logo depois.
A metoclopramida mostra por que os quatro elementos não bastam sozinhos. O próprio protocolo nacional exige registrar a duração do tratamento e, na via parenteral, a velocidade e o tempo de infusão — e é aí que esta droga cobra. A bula brasileira fixa dose máxima de 30 mg ao dia por no máximo 5 dias, e a revisão europeia acrescenta o limite alternativo de 0,5 mg/kg ao dia, valendo o menor dos dois. Os dois tetos se cruzam em 60 kg: acima desse peso manda o teto fixo, e 10 mg de 8 em 8 horas o alcança exatamente; abaixo, manda o limite por quilo, e o mesmo esquema já o ultrapassa — num paciente de 50 kg o teto é 25 mg ao dia. A via endovenosa pede bolus lento de pelo menos 3 minutos, pelo risco de reação extrapiramidal. O paciente deste capítulo pesa 62 kg, então a linha escrita está no teto, e não acima dele.
A conduta, hora a hora
O relógio deste capítulo não é a hora, é o dia. A prescrição se escreve pela manhã, se corrige à tarde, se refaz no dia seguinte e se transforma na alta — e cada um desses momentos tem uma pergunta própria. O que segue é a folha do senhor Antônio, do leito 12: 74 anos, 62 quilos, pneumonia adquirida na comunidade sem critério de gravidade para terapia intensiva, hipertenso em uso domiciliar de losartana 50 mg por dia, diabético tipo 2 em uso de metformina, creatinina de 1,4 mg/dL com depuração estimada em torno de 40 mL/min, sem alergias relatadas, deambulando pouco desde o início do quadro.
As doses vêm com a fonte que as sustenta, e a forma de escrever cada linha segue a estrutura do protocolo nacional. Repare que quase toda decisão difícil já foi tomada antes da primeira linha, no bloco anterior.
8h15 — antes da primeira linha
Cinco minutos de conferência que definem a folha inteira: peso medido, depuração estimada, alergia perguntada da forma certa, lista de medicamentos de casa e a confirmação de que existe via oral. Peso e depuração vão escritos na própria prescrição — é o que permite ao farmacêutico e à enfermagem conferirem a sua conta em vez de confiarem nela.
Prescrição- Cabeçalho: nome completo, prontuário, leito 12, clínica médica, enfermaria — sem nome abreviado (Protocolo MS/ANVISA)
- Observações: peso 62 kg; depuração de creatinina estimada 40 mL/min; nega alergia; uso domiciliar de losartana 50 mg/dia e metformina 850 mg de 12 em 12 horas (Protocolo MS/ANVISA: anotar peso e clearance quando a dose depende deles, e alergias com destaque)
- Data e identificação do prescritor com nome completo, número do conselho e assinatura legível
8h20 — dieta, cuidados e monitorização
A dieta governa as demais linhas, e a monitorização vem logo abaixo porque produz o dado com que você vai decidir amanhã. Os horários da glicemia capilar precisam coincidir com os da insulina, ou o resultado chega tarde demais para servir de decisão.
Prescrição- Dieta oral para diabético, branda, fracionada em cinco refeições
- Cabeceira elevada durante a dieta e nas horas seguintes
- Sinais vitais com oximetria de 6 em 6 horas — comunicar saturação abaixo de 92% em ar ambiente (valor que a SBPT 2018 usa como marcador de gravidade)
- Glicemia capilar antes do café, do almoço e do jantar e às 22 horas (SBD 2015)
- Balanço hídrico e controle de diurese; deambulação assistida três vezes ao dia
8h30 — as profilaxias, calculadas e não presumidas
Pádua do senhor Antônio: idade acima de 70 anos (1), infecção aguda (1) e mobilidade reduzida (3) somam 5 — alto risco, sem contraindicação a anticoagulação, e a depuração de 40 mL/min não exige redução porque o ajuste começa em 30. Já a profilaxia de lesão de mucosa gástrica não tem indicação alguma aqui. Essa ausência é uma decisão, e é anotada como decisão.
Prescrição- Enoxaparina sódica 40 mg/0,4 mL, seringa preenchida. Aplicar 40 mg por via subcutânea, uma vez ao dia, às 18 horas (SBACV-SP 2019)
- Sem heparina de baixo peso molecular disponível: heparina sódica 5.000 unidades internacionais por via subcutânea, de 8 em 8 horas — a unidade por extenso (SBACV-SP 2019; ISMP Brasil 2015)
- Observações: sem indicação de profilaxia de lesão aguda de mucosa gástrica — sem ventilação mecânica, coagulopatia, anticoagulação plena ou anti-inflamatório (protocolo Ebserh 2023)
8h40 — a medicação de horário fixo
Trate o motivo da internação e revise cada medicamento domiciliar pela condição atual. Depuração em torno de 40 mL/min, isoladamente, não torna metformina absolutamente contraindicada; diferencie doença renal estável de lesão aguda, hipóxia, choque e risco de desidratação. A decisão em torno de contraste depende do tipo de procedimento, função renal e protocolo, não de sua mera possibilidade. Se suspensa temporariamente, defina controle glicêmico e reavaliação. Losartana pode ser mantida se pressão, potássio e função renal permitirem; não é manutenção automática em qualquer infecção.
Prescrição- Ceftriaxona 1 g, frasco-ampola. Reconstituir conforme o guia de diluição da instituição e administrar 1 g por via endovenosa em 2 a 4 minutos, uma vez ao dia, às 10 horas — dia 1 de 7 (dose: FTN 2010, 1 a 2 g a cada 12 ou 24 horas, máximo de 4 g ao dia; esquema e duração: SBPT 2018, cefalosporina de terceira geração em enfermaria, 7 a 10 dias, com ou sem macrolídeo associado)
- Losartana potássica 50 mg, comprimido. Administrar 50 mg por via oral, uma vez ao dia, às 9 horas — mantida a dose de uso domiciliar (conciliação; Protocolo MS/ANVISA)
- Metformina: reavaliar segurança no quadro agudo e a necessidade de suspensão temporária. Se suspender, registrar a razão clínica; não atribuir contraindicação absoluta apenas à depuração de 40 mL/min.
- Insulina NPH 100 unidades internacionais/mL. Aplicar 5 unidades internacionais por via subcutânea às 7 horas e 4 unidades internacionais às 22 horas (SBD 2015: total de 0,3 unidade internacional por quilo acima de 70 anos ou com filtração abaixo de 60 mL/min — 18 unidades para 62 kg —, metade como basal, fracionada quando se usa NPH)
- Insulina regular 100 unidades internacionais/mL. Aplicar 3 unidades internacionais por via subcutânea antes do café, do almoço e do jantar, somadas à escala de correção da instituição (SBD 2015: metade da dose total em doses prandiais divididas em três; suspender a prandial se o paciente não se alimentar)
8h50 — o bloco do "se necessário"
Bloco separado, cada linha com os quatro elementos. Escrever aqui é escrever para a madrugada: quem vai ler é o técnico às três da manhã, e o gatilho precisa ser objetivo o bastante para que ele não tenha de interpretar você. O teto diário existe para o item não virar fixo por repetição.
Prescrição- Paracetamol 500 mg, comprimido. Administrar 500 mg por via oral de 6 em 6 horas se temperatura igual ou acima de 37,5 °C. Dose máxima diária de 2 gramas (exemplo literal do Protocolo MS/ANVISA; faixa da monografia no FTN 2010: até 4 g ao dia)
- Dipirona sódica 500 mg/mL, solução injetável. Administrar 1 g por via endovenosa, em infusão lenta que não exceda 500 mg por minuto, de 6 em 6 horas se dor ou temperatura igual ou acima de 37,8 °C e a via oral estiver indisponível. Dose máxima diária de 4 gramas (FTN 2010)
- Metoclopramida 5 mg/mL, solução injetável. Administrar 10 mg por via endovenosa, em bolus lento de pelo menos 3 minutos, de 8 em 8 horas se náusea ou vômito. Dose máxima diária de 30 miligramas, por no máximo 5 dias (bula brasileira, atualização de 2023; a monografia do FTN 2010 é anterior à revisão que fixou esse teto e traz posologia que o ultrapassa)
- Glicose 50%, solução injetável. Administrar 20 mL por via endovenosa se glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL com incapacidade de ingestão oral, comunicando o médico; havendo deglutição, oferecer 15 gramas de glicose por via oral. Reavaliar em 5 a 15 minutos (SBD 2015)
14h — a checagem da tarde
Meio dia depois, a folha já não descreve o paciente. Releia o que foi executado, e não o que foi escrito: dois usos de dipirona em seis horas dizem que a febre não está controlada, e três recusas de dieta dizem que a via oral está em risco antes de qualquer exame apontar isso.
Prescrição- Revisar a folha checada: itens administrados, itens omitidos e o motivo de cada omissão
- Contar os usos de cada condicional nas últimas 12 horas — item usado três vezes ao dia não é condicional, é fixo mal classificado
- Registrar em evolução o que muda a prescrição de amanhã, com o dado que sustenta a mudança
Dias 2 e 3 — a folha que não se copia, e a via
O botão que copia a folha de ontem produz um documento perfeito para um paciente que mudou. Refazer não é reescrever do zero: é passar item por item com uma pergunta única — por que este item ainda está aqui hoje? Peso, depuração, via, dor, glicemia e o dia do antibiótico são as seis variáveis que mudam sem avisar. No terceiro dia a maioria das decisões se confirma ou se desmancha: se melhorou, troque a via endovenosa pela oral, porque o acesso que fica por hábito custa flebite, infecção de corrente sanguínea e dias de internação; se não melhorou, revise o diagnóstico antes de trocar o antibiótico — o que falha em 72 horas costuma estar tratando a doença errada, não o germe errado.
Prescrição- Ceftriaxona 1 g por via endovenosa, uma vez ao dia — dia 2 de 7 (numerar o dia dentro da linha é o que impede o tratamento de durar até alguém lembrar de conferir quando começou)
- Ajustar a insulina basal conforme as glicemias das últimas 24 horas: reduzir 20% se houve hipoglicemia, aumentar 20% se a hiperglicemia persistiu (SBD 2015)
- Havendo via oral e estabilidade clínica, passar o antibiótico para via oral e retirar o acesso venoso ocioso (SBPT 2018: 7 a 10 dias no total para o esquema de enfermaria)
- Sem melhora: revisar o diagnóstico, conferir na folha checada o que foi de fato administrado e reavaliar a proteína C reativa — queda menor que 50% até o terceiro dia com valor acima de 75 mg/L associa-se a maior risco de morte em 30 dias (SBPT 2018)
- Reavaliar risco trombótico e hemorrágico diariamente. Voltar a caminhar não elimina necessariamente todos os fatores de risco nem determina suspensão automática da profilaxia.
Alta — a prescrição que sai com ele
A alta é a segunda transição, e é onde a conciliação da admissão cobra a conta. A prescrição traz todos os medicamentos que ele vai usar, o que foi suspenso e por quê, duração e data de reavaliação do que é crônico, e o retorno marcado. Uma folha com dois itens depois de sete dias de internação deixa a família decidindo sozinha o que fazer com os outros cinco.
Prescrição- Losartana potássica 50 mg, comprimido. Administrar 50 mg por via oral, uma vez ao dia, pela manhã — mantida, com reavaliação no retorno
- Metformina: definir ainda na alta possibilidade de reinício, dose compatível com função renal estável e prazo de reavaliação. Não retomar automaticamente 850 mg a cada 12 horas se persistir comprometimento renal que exija dose menor.
- Antibiótico: completar o tempo total definido, com a data exata do último dia escrita na receita (SBPT 2018)
- Registrar por escrito, para o paciente: o que mudou, o que foi suspenso e por quanto tempo, o que voltou, a data do retorno e os sinais que trazem de volta antes dela
- Profilaxia de tromboembolismo não é mantida após a alta no paciente clínico (SBACV-SP 2019)
Como saber se está funcionando
Escrever a folha é a parte que se aprende em uma semana. Relê-la é a que separa o interno do quinto ano do médico que assume enfermaria — e é onde quase todo mundo trava, porque não existe fluxograma para "o paciente está do mesmo jeito".
A visita da manhã é uma releitura item por item, com duas perguntas por linha: por que este item ainda está aqui, e o que eu esperava dele até agora? Item que ninguém sabe responder por que está na folha sai. Item cuja data de início ninguém sabe é sinal de prescrição copiada, e não de tratamento longo.
Esperado: Cada linha com indicação ativa hoje, dose compatível com o peso e com a função renal de hoje, e data de início registrada. As profilaxias reavaliadas: a de tromboembolismo sai quando a mobilidade volta, a de mucosa gástrica sai quando o fator de risco sai.
Se não melhora: Linha sem dono — aquela que ninguém sabe explicar — sai da folha, com a retirada registrada. Se a lista cresceu sem que ninguém tenha decidido acrescentar, o que houve foi cópia da prescrição anterior, e a correção não é apagar um item: é refazer a folha conferindo contra a evolução.
Esperado: Troca da via endovenosa para a oral assim que houver deglutição segura e estabilidade clínica, com retirada do acesso venoso que deixou de ser necessário.
Se não melhora: Manter a via endovenosa por hábito tem dano próprio: prolonga a permanência do cateter, com flebite e infecção de corrente sanguínea, e prende o paciente ao leito. Se a via oral continua indisponível depois de alguns dias, a pergunta deixa de ser sobre a droga e passa a ser sobre a deglutição — avaliação formal, ajuste de consistência, via alternativa de nutrição.
Esperado: Melhora clínica sustentada, com a duração total já definida desde a prescrição inicial — 7 a 10 dias no esquema de enfermaria com cefalosporina de terceira geração, 5 a 7 dias com fluoroquinolona respiratória em monoterapia.
Se não melhora: Antes de trocar o antibiótico, revise três coisas nesta ordem: o diagnóstico (o que não responde costuma ser outra doença, não outro germe), o que foi de fato administrado segundo a folha checada, e a existência de foco não drenado. A proteína C reativa ajuda quando o exame físico está ambíguo: queda menor que 50% no terceiro dia com valor acima de 75 mg/L associa-se a maior risco de morte em 30 dias. Trocar de esquema sem revisar o diagnóstico troca de espectro e mantém o erro.
Esperado: Depuração estável e todas as doses dependentes dela compatíveis com o valor de hoje.
Se não melhora: Quando a creatinina se mexe, recalcule a depuração e reveja TODAS as doses dependentes, não apenas a que veio à cabeça: anticoagulante, antimicrobiano, insulina, analgésico. Nas heparinas, a redução de dose entra com clearance até 30 mL/min e a profilaxia medicamentosa é contraindicada abaixo de 10 mL/min. Ajustar um item e esquecer os outros é o padrão de erro mais comum da enfermaria, e ele não aparece no mesmo dia.
Esperado: Na maioria dos não críticos, alvo de 100–180 mg/dL se alcançável sem hipoglicemia significativa. Em críticos, em geral 140–180 mg/dL. Individualizar e intensificar diante de hiperglicemia persistente ≥180 mg/dL, integrando alimentação, função renal e tratamento.
Se não melhora: Ajuste a insulina basal em 20% no dia seguinte — para baixo se houve hipoglicemia, para cima se a hiperglicemia persistiu. Se o paciente parou de comer, suspenda as doses prandiais e mantenha a basal, ou você produz hipoglicemia por prescrição. Glicemia abaixo de 70 mg/dL é hipoglicemia (abaixo de 40, grave) e exige tratar, procurar a causa e revisar a prescrição inteira — a causa costuma estar no desajuste entre a dose e o que foi realmente oferecido de comida.
Esperado: Nível de consciência estável e comparável ao da admissão, com o paciente orientado no tempo e no espaço quando esse era o basal dele.
Se não melhora: Antes de pedir tomografia, releia a folha: opioide, benzodiazepínico, anti-histamínico, antipsicótico prescrito para agitação, acúmulo de droga por queda da função renal, hipoglicemia. A prescrição é a primeira causa a excluir diante de sonolência ou confusão nova, porque é a única que você resolve na mesma hora. O caminho inverso também vale: se a dor está descontrolada e o paciente está sonolento, o problema não é a dose do analgésico — é a droga errada para o tipo de dor.
Esperado: Dor controlada sem sedação, e uso do bloco condicional compatível com o que você imaginou ao escrevê-lo.
Se não melhora: Item condicional usado três ou quatro vezes ao dia não é condicional: passe-o para horário fixo, com dose e teto, e reavalie a causa da dor. Item condicional nunca usado tem dois significados opostos e é preciso descobrir qual: ou não era necessário, ou ninguém perguntou ao paciente se ele estava com dor. Pergunte antes de retirar.
Onde o erro machuca
O dano: Nos dois sentidos. Prescrever a droga a que o paciente é alérgico produz reação evitável — o registro do relato na prescrição existe para subsidiar a análise farmacêutica e os cuidados de enfermagem. Do outro lado, registrar como alergia o que foi náusea retira do paciente uma opção terapêutica para sempre, porque o rótulo viaja com ele nas internações seguintes.
Como pegar a tempo: Pergunte o que aconteceu, não se existe alergia. Registre o nome genérico e o comercial, sem abreviaturas, para que o alerta automático funcione. Em medicamentos em associação, confira a composição inteira. E anote com destaque na folha, não só na evolução — quem administra lê a folha.
O dano: É o erro que não dá sinal no dia em que acontece. Anticoagulante em dose plena sem ajuste sangra dois dias depois; antimicrobiano acumulado dá toxicidade no quarto dia; insulina em dose de gente com rim bom faz hipoglicemia noturna. A creatinina isolada engana especialmente no idoso magro, em quem 1,4 mg/dL já significa perda importante de função.
Como pegar a tempo: Estime a depuração na admissão, escreva o valor na folha e releia essa linha antes de acrescentar qualquer droga. Quando a creatinina se mexer, revise todas as doses dependentes de uma vez, e não só a que você lembrou. As faixas mais frequentes: heparina de baixo peso molecular reduzida com clearance até 30 mL/min e contraindicada abaixo de 10; insulina em 0,3 unidade internacional por quilo com filtração abaixo de 60 mL/min ou idade acima de 70 anos.
O dano: O dano acontece longe do gesto, e por isso ninguém o atribui à prescrição. Anti-hipertensivo suspenso produz pico pressórico dias depois; antidepressivo e benzodiazepínico produzem síndrome de retirada que vira "delirium"; anticonvulsivante produz crise; colírio de glaucoma produz perda de campo visual que não volta. Os pontos de transição concentram erros de medicação justamente por informação incompleta sobre o que o paciente usava.
Como pegar a tempo: Faça a lista com fonte externa — caixa, receita, cuidador — e decida item por item, escrevendo a decisão inclusive quando ela for suspender. "Metformina suspensa por função renal" é informação que a próxima pessoa usa; metformina ausente da folha é ruído que ninguém interpreta.
O dano: O paciente clínico acamado com Pádua igual ou maior que 4 tem risco de tromboembolismo de 11%, contra 0,3% abaixo do corte: não prescrever nesse grupo é aceitar evento evitável e potencialmente fatal. O contrário também custa: anticoagular quem tem sangramento ativo, coagulopatia com sangramento, acidente vascular hemorrágico recente ou punção epidural há menos de 12 horas é produzir hemorragia por reflexo de protocolo.
Como pegar a tempo: Calcule o escore na admissão, escreva o resultado na folha e reavalie todo dia. Havendo contraindicação, a profilaxia não desaparece: vira mecânica, com compressão pneumática intermitente por pelo menos 18 horas ao dia. E quando a mobilidade volta, o item sai — no paciente clínico ela não se estende além da internação.
O dano: Uma linha escrita como "dipirona se necessário" trava a assistência e cria risco. Sem os quatro elementos, a enfermagem não deve administrar, e o paciente com dor espera você ser localizado. Quando alguém administra mesmo assim, o item vira dose sem teto, com risco de sobredose acumulada ao longo do plantão e de mascarar a febre que era o dado que faltava.
Como pegar a tempo: Escreva os quatro elementos sempre, no molde do exemplo oficial: droga, concentração e forma, dose, via, intervalo, gatilho objetivo e dose máxima diária. Como controle de qualidade, leia a linha imaginando que quem vai executá-la é alguém que nunca viu o paciente, às três da manhã — porque é exatamente isso que vai acontecer.
O dano: É o erro com maior desproporção entre a causa e o desfecho: "5U" de insulina lido como 50 unidades levou um paciente a parada cardiorrespiratória e óbito. As abreviaturas de unidade são consideradas as mais perigosas de todas justamente porque podem produzir dose dez ou cem vezes maior. O mesmo vale para zero à direita (1,0 mg lido como 10 mg), omissão do zero à esquerda (",5 g" lido como 5 g), "µg" lido como "mg" e "IV" lido como "IM".
Como pegar a tempo: Escreva unidade e unidade internacional por extenso, sempre; nome completo do medicamento em vez de fórmula química ou sigla; sistema métrico com vírgula, nunca ponto, e sem zero à direita; espaço entre o nome e a dose e entre a dose e a unidade. Havendo padronização de via, use EV e não IV. E nada disso protege se o item for escrito à mão em papel pautado: a linha impressa transforma zero em oito.
O dano: O mesmo princípio ativo entra duas vezes por caminhos diferentes: o inibidor de bomba de prótons prescrito por via oral e endovenosa ao mesmo tempo para a equipe "escolher a melhor via", a dipirona fixa somada à condicional, o medicamento de casa mantido pelo nome comercial e reintroduzido pelo genérico. O resultado é dose dobrada sem que ninguém tenha prescrito dose dobrada.
Como pegar a tempo: Prescreva sempre pela denominação comum brasileira, e leia a folha inteira procurando o mesmo princípio ativo antes de assinar. Escolha a via e escreva uma via — deixar as duas para a equipe decidir na hora é transferir uma decisão sua para quem não pode tomá-la. E lembre que o item condicional soma com o fixo.
O que dizer ao paciente e à família
Explicar a prescrição não é gentileza opcional: o protocolo nacional trata o conhecimento do paciente sobre o que está recebendo como barreira de segurança, garantindo a ele o direito de saber o nome, a indicação, a frequência e até o aspecto do medicamento — porque paciente que sabe o que toma intercepta erro. As falas abaixo são para dizer em voz alta, do jeito que estão.
Ele aponta para o comprimido na cuia e pergunta o que é aquilo
“Esse branco é o remédio da sua pressão, o mesmo que o senhor já toma em casa, uma vez por dia de manhã. O outro é para o açúcar do sangue, e esse é diferente do que o senhor usava em casa — eu explico daqui a pouco por quê. Se em algum momento aparecer um comprimido que o senhor não reconhece, pode perguntar antes de tomar: essa pergunta ajuda a gente.”
Não diga: É o de sempre, pode tomar. Além de não informar, essa frase desliga a única pessoa que está presente em todas as administrações e que enxergaria o comprimido errado.
"Por que estão tirando o meu remédio?"
“O senhor toma metformina em casa e eu suspendi ela agora, durante a internação, por um motivo específico: o seu rim está funcionando abaixo do normal neste momento, e esse remédio pode fazer mal nessa situação. Não é para sempre e não é porque ele estava errado. Enquanto o senhor estiver aqui, o açúcar vai ser controlado com insulina, que é mais fácil de ajustar dia a dia. Na consulta de retorno a gente reavalia o rim e decide se ele volta.”
Não diga: Aqui no hospital a gente usa outro esquema. Sem motivo e sem prazo, o paciente entende que o remédio de casa foi cancelado — e ou não volta a tomá-lo nunca, ou volta a tomá-lo no dia seguinte à alta, por conta.
A família trouxe a sacola de remédios de casa e quer deixá-la na gaveta
“Essa lista é a coisa mais útil que vocês podiam ter trazido, e eu quero conferir caixa por caixa agora. Mas os remédios não ficam na gaveta: tudo o que ele precisa vai ser dado pela enfermagem, no horário certo. Se ele tomar também o da caixa, toma dose dobrada sem ninguém perceber. Levem a sacola hoje e tragam de volta no dia da alta, para a gente conferir junto o que continua e o que mudou.”
Não diga: Pode deixar aí que a gente vê depois. A sacola aberta na gaveta é o mecanismo clássico da dose duplicada, e o "depois" costuma ser o dia da alta.
Na alta, entregando a receita
“Aqui está a lista completa do que o senhor vai tomar em casa, e ela é diferente da que entrou. Três coisas mudaram: o antibiótico é novo e termina no dia 12, sem esticar nem parar antes; a metformina só volta depois que a doutora reavaliar o exame do rim, no retorno do dia 20; e a pressão continua igual ao que era. O que estava suspenso e não está nesta folha, não é para tomar por enquanto. Vou pedir para o senhor me repetir esses três pontos, para eu ter certeza de que eu expliquei direito.”
Não diga: Continua tudo como antes mais o antibiótico. É a frase que faz o paciente reintroduzir sozinho o que foi suspenso de propósito — e pedir que ele repita não é desconfiança, é a única forma de saber se a informação chegou.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Lista ampla de indicações, incluindo enfermaria clínica
Protocolo institucional brasileiro que abrange enfermarias clínicas e terapia intensiva indica profilaxia diante de qualquer uma destas condições isoladas: coagulopatia (plaquetas abaixo de 50.000, RNI acima de 1,5 ou TTPa acima de duas vezes o controle), ventilação mecânica por mais de 48 horas, traumatismo cranioencefálico com Glasgow igual ou menor que 8, lesão medular, queimadura acima de 35% da superfície corporal, hepatopatia crônica, dupla antiagregação ou anticoagulação e uso de anti-inflamatórios; e também quando dois ou mais critérios menores coexistem, como sepse, choque, diálise ou corticoide em dose alta. O mesmo documento afirma que a profilaxia não deve ser usada rotineiramente e exige reavaliação diária.
HU-UFGD/Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.002, Profilaxia de Úlcera Gástrica por Estresse, 2023
Lista restrita a fatores maiores do paciente crítico
Protocolo estudado em coorte prospectiva restringe a indicação a ventilação mecânica prevista por mais de 24 horas, choque com vasopressor, terapia de substituição renal, anticoagulação em dose plena, hepatopatia crônica com hipertensão portal e coagulopatia ativa. Fora dessas situações o uso é considerado inadequado — e foi o que ocorreu em 56% dos dias-paciente sem fator de risco. O argumento a favor da restrição é o dano competitivo: a supressão ácida desnecessária associa-se a pneumonia hospitalar e a infecção por Clostridioides difficile.
Adesão a um protocolo de profilaxia de úlcera de estresse em pacientes críticos — coorte prospectiva, Revista Brasileira de Terapia Intensiva
As duas listas divergem em coisas concretas: uma exige 48 horas de ventilação mecânica e a outra 24; uma admite anti-inflamatório isolado como indicação e a outra não. O efeito prático é que o mesmo paciente recebe ou não recebe inibidor de bomba dependendo do hospital em que internou. Duas perguntas resolvem a maioria dos casos na beira do leito. Existe fator maior inequívoco — coagulopatia, ventilação mecânica, choque, anticoagulação plena, hepatopatia com hipertensão portal? Se sim, as duas réguas concordam e o item entra. Existe apenas gravidade genérica, do tipo "está internado e está mal"? Esse é o território em que o uso é mais frequentemente inadequado, e o risco competitivo — pneumonia hospitalar e Clostridioides difficile — passa a pesar mais que um benefício que ninguém demonstrou nesse grupo. E a decisão de hoje tem prazo: o ponto em que os dois documentos concordam integralmente é a reavaliação diária, com o item saindo quando o fator de risco sai. Ser reversível em 24 horas é justamente o motivo para não cobrir por precaução vaga.
Decisão individual, item por item, com preferência pela continuidade
O protocolo nacional trata a conciliação como avaliação item a item: relacionar o que o paciente usava antes da internação e avaliar a necessidade de continuidade ou suspensão de cada um, evitando duplicidades, interações e doses inadequadas. A lógica é que a transição concentra erro, com omissão e duplicidade de dose como consequências mais frequentes — de modo que é a mudança que precisa ser justificada, não a manutenção.
MS/ANVISA — Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos, 2013
Suspensão por classe no internado, com a insulina assumindo o controle
Para os antidiabéticos orais, a régua da sociedade nacional da especialidade é de classe e não individual: recomenda-se, de modo geral, a interrupção dos antidiabéticos orais no internado, porque a insulina tem ação mais rápida, permite titulação e funciona em contextos variáveis de jejum, dieta e gravidade. As justificativas por classe são explícitas: metformina contraindicada em contraste e perda de função renal, sulfonilureia com risco de hipoglicemia em idoso e nefropata, tiazolidinediona com retenção hídrica.
SBD — Posicionamento Oficial nº 03/2015, Controle da Glicemia no Paciente Hospitalizado
O que separa as duas posições é o horizonte do benefício de cada droga contra o dano da retirada. Pergunte, item a item: em quanto tempo a suspensão cobra a conta? Betabloqueador crônico, anticonvulsivante, antidepressivo, corticoide crônico e colírio de glaucoma cobram em horas ou dias, e a retirada abrupta é evento adverso por si só — esses seguem, salvo contraindicação nova. Estatina, bisfosfonato e a maior parte do que trata risco de longo prazo não cobra nada em uma semana. No meio ficam os que mudam por causa do ambiente hospitalar, e os antidiabéticos orais são o exemplo mais claro: o que muda não é a doença, é a variabilidade de jejum, dieta e função renal dentro da internação, contra a qual a insulina é mais governável. Duas travas fecham a decisão: a suspensão vai escrita com o motivo, ou vira suspensão silenciosa; e é reavaliada na alta, ou a decisão temporária vira permanente por esquecimento.
A tecnologia como barreira mais eficaz
Revisão sistemática com 19 estudos observou redução de 71% dos erros de prescrição após a implantação de prescrição eletrônica com suporte de decisão clínica no hospital, e outra descreveu redução de 85% em terapia intensiva. A prescrição eletrônica resolve de saída a legibilidade e permite checagens automáticas de alergia, duplicidade, interação e dose máxima que nenhum prescritor faz de forma confiável em cada item, todo dia.
Revisões sistemáticas de prescrição eletrônica com suporte de decisão, reunidas no Boletim ISMP Brasil 2021;10(2)
A tecnologia cria erros próprios e depende de parametrização
Estudo brasileiro em dois hospitais de alta complexidade encontrou redução de 85% dos erros com medicamentos potencialmente perigosos num deles e aumento de 25% no outro, com a mesma tecnologia — a diferença foi atribuída à parametrização inadequada, que permitia abreviaturas perigosas e preenchimento incorreto de dose e via. Somam-se os erros induzidos pela interface (seleção errada em menu suspenso, cópia da prescrição anterior, prescrição fragmentada em várias telas) e a fadiga de alerta.
Estudo brasileiro em dois hospitais de alta complexidade e estudo em três hospitais do Reino Unido, reunidos no Boletim ISMP Brasil 2021;10(2)
Para o interno, a divergência não é sobre comprar sistema: é sobre como se comportar diante da tela. O sistema protege contra o erro que foi configurado para pegar, e nada mais — se ele aceita "U" e aceita campo aberto contradizendo o intervalo escolhido, a barreira dessas duas coisas continua sendo sua. Diante de um alerta existem dois destinos honestos, corrigir a prescrição ou registrar por que ele não se aplica a este paciente; fechar por reflexo é o mecanismo da fadiga de alerta, que faz o aviso relevante ser ignorado junto com o irrelevante. E os erros que a tela cria são de outra natureza: paciente errado selecionado na lista, medicamento vizinho no menu suspenso, prescrição de ontem copiada inteira. Por isso a leitura final da folha, do começo ao fim, continua sendo o último filtro — é ela que pega o que o sistema não vê, um paciente que não é o seu.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Antônio, leito 12: 74 anos, 62 quilos, pneumonia adquirida na comunidade, admitido na enfermaria às 8 da manhã. Hipertenso em uso de losartana 50 mg por dia, diabético tipo 2 em uso de metformina 850 mg de 12 em 12 horas, creatinina 1,4 mg/dL, saturação de 94% em ar ambiente, deambulando pouco há quatro dias. Acompanhe o raciocínio de quem escreve a folha em voz alta.
o que eu preciso saber antes de escrever qualquer linha
Peso: 62 quilos, medido, não estimado. Depuração de creatinina estimada: cerca de 40 mL/min — número que muda três decisões da folha e que a creatinina de 1,4 sozinha esconderia. Alergia: pergunto o que aconteceu quando ele tomou remédio alguma vez, e ele nega qualquer reação. Medicação de casa: peço a caixa; a filha mostra losartana e metformina, e confirma que ele não tomou nada hoje. Via oral: ele está lúcido, deglutindo, sem vômitos. Escrevo peso e depuração no alto da folha antes de qualquer outra coisa.
as duas primeiras seções, que governam o resto
Dieta oral para diabético, branda, fracionada em cinco refeições — existe via oral, e essa linha autoriza tudo o que vem por via oral abaixo. Cuidados: cabeceira elevada durante e após a dieta, sinais vitais com oximetria de 6 em 6 horas comunicando saturação abaixo de 92%, glicemia capilar antes das três refeições e às 22 horas, balanço hídrico e deambulação assistida três vezes ao dia. A última linha é ao mesmo tempo tratamento e critério de saída de uma profilaxia que ainda vou prescrever.
calculo as profilaxias em vez de decidir por impressão
Pádua: idade acima de 70 anos vale 1, infecção aguda vale 1, mobilidade reduzida vale 3. Total de 5, e o corte é 4 — alto risco, com incidência de tromboembolismo de 11% contra 0,3% abaixo do corte. Sem sangramento ativo, coagulopatia, acidente vascular hemorrágico ou punção epidural recente, a profilaxia é química: enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia, às 18 horas, e a depuração de 40 mL/min não obriga a reduzir, porque a redução começa em 30. Já o inibidor de bomba de prótons, que entra sozinho na folha de todo internado por hábito, não tem indicação nenhuma aqui: sem ventilação mecânica, sem coagulopatia, sem anticoagulante pleno, sem anti-inflamatório, sem hepatopatia, sem choque — e a supressão ácida desnecessária carrega risco próprio de pneumonia hospitalar e de infecção por Clostridioides difficile. Escrevo o escore na folha e anoto em observações que a profilaxia de mucosa não está indicada, com o motivo. Quem passar amanhã não vai achar que foi esquecimento.
o antibiótico, e o número do dia dentro da linha
Pneumonia adquirida na comunidade internada em enfermaria: ceftriaxona 1 g por via endovenosa uma vez ao dia, dentro da faixa da monografia nacional (1 a 2 g a cada 12 ou 24 horas, máximo de 4 g por dia) e do esquema da diretriz brasileira para esse cenário, com duração de 7 a 10 dias. Defino 7 dias agora, não depois, e escrevo "dia 1 de 7" na própria linha. Essa decisão de dez segundos é o que impede o antibiótico de durar até alguém lembrar de conferir quando ele começou.
o que vem de casa: um fica, um sai, e os dois ficam escritos
Revise losartana pela pressão, potássio e função renal. Se optar por suspender metformina durante o quadro agudo, explicite a razão e planeje reavaliação; 40 mL/min isoladamente não é contraindicação absoluta. Insulina programada pressupõe glicemias e alimentação: se houver hiperglicemia persistente e refeições regulares, 0,3 unidade/kg/dia é uma opção inicial conservadora, a ajustar. Para 62 kg são 18,6 unidades, arredondadas de forma prática a 18: 9 basais e 9 prandiais, por exemplo NPH 5 pela manhã e 4 à noite e regular 3 antes de cada refeição, com correção. Sem ingestão, suspender componente prandial e reavaliar basal. Escrever unidades por extenso e monitorar resposta.
o bloco de baixo, escrito para as três da manhã
Paracetamol 500 mg por via oral de 6 em 6 horas se temperatura igual ou acima de 37,5 °C, dose máxima diária de 2 gramas. Dipirona 1 g por via endovenosa em infusão lenta, de 6 em 6 horas, se dor ou temperatura igual ou acima de 37,8 °C e a via oral não estiver disponível, máximo de 4 gramas ao dia. Metoclopramida 10 mg por via endovenosa, em bolus lento de pelo menos 3 minutos, de 8 em 8 horas se náusea ou vômito, máximo de 30 miligramas ao dia e por no máximo 5 dias. Glicose 50%, 20 mL por via endovenosa se glicemia abaixo de 70 mg/dL com incapacidade de ingestão, comunicando o médico. Quatro linhas, quatro elementos em cada uma. Releio imaginando o técnico às três da manhã: ele consegue executar sem me procurar, e não consegue exceder o teto. Antes de assinar, passo os olhos procurando o que a leitura apressada estraga: nenhuma abreviatura de unidade, nenhum zero à direita, nenhuma barra, nomes completos, nada de nome comercial. Paracetamol e dipirona são drogas diferentes com gatilhos parecidos, então escrevo a hierarquia entre elas na condição de uso. Marco os dois itens potencialmente perigosos da folha — enoxaparina e insulina — e confiro a dose de ambos uma segunda vez. Assino com nome completo, número do conselho e data: doze linhas, cada uma com dono.
Faça você
Agora é o leito 9. Dona Marisa, 68 anos, 54 quilos, internada há dois dias para investigação de dor abdominal, agora com indicação de colecistectomia amanhã de manhã. Ela toma em casa: enalapril 10 mg de 12 em 12 horas, sinvastatina 20 mg à noite, glibenclamida 5 mg pela manhã, alendronato semanal e clonazepam 2 mg à noite há oito anos. Creatinina de 0,9 mg/dL, depuração estimada em torno de 55 mL/min. A cirurgia está marcada para as 7h30 e ela entra em jejum às 0h. O plantão da noite pediu para você deixar a prescrição do dia da cirurgia escrita.
o que o jejum invalida
O jejum a partir da meia-noite retira a via oral de toda a folha e obriga a decidir, item por item, o que suspende, o que passa para via endovenosa e o que fica. Não é uma decisão sobre cirurgia; é uma decisão sobre via.
o que a régua da especialidade define para o dia da cirurgia
Revisar o esquema pelo fármaco, tempo de jejum, função renal e procedimento. Suspender glibenclamida, monitorar glicemia e planejar correção. Nem toda pessoa com diabetes tipo 2 sem insulina domiciliar precisa de basal ou de glicose IV automática. Se houver basal em uso, ajustar ao tipo e risco; nunca omitir toda a basal no diabetes tipo 1.
o que tem risco próprio de retirada
Clonazepam de uso crônico há oito anos não é item de conveniência: a suspensão abrupta produz síndrome de retirada, que na enfermaria costuma ser lida como agitação ou delirium pós-operatório e tratada com antipsicótico. Anti-hipertensivo de uso crônico também tem efeito de rebote, com a ressalva de que a manhã da cirurgia tem regras próprias de hipotensão.
o que pode simplesmente esperar
Alendronato pode ser adiado no contexto do jejum e das exigências de administração. Estatina não precisa ser suspensa apenas porque houve internação ou cirurgia; geralmente pode ser mantida conforme indicação e via, revendo interações e contraindicações.
conduta: escreva a prescrição do dia da cirurgia, item por item
— sua vez —
Ver como fecharíamos
A folha do dia da cirurgia se organiza pelo jejum e pelo risco de retirada, com cada decisão escrita. Dieta: jejum a partir da meia-noite, com horário e motivo registrados. Glibenclamida: SUSPENSA — a régua nacional manda suspender antidiabéticos orais e injetáveis no dia da cirurgia, e a sulfonilureia é justamente a classe com maior risco de hipoglicemia em jejum, ainda mais aos 68 anos e com depuração de 55 mL/min. Alendronato pode ser adiado. Sinvastatina deve ser mantida quando viável, salvo contraindicação ou interação; não é necessário suspender toda terapia preventiva na cirurgia. Clonazepam: mantido, e essa é a decisão que separa a folha boa da perigosa — oito anos de uso contínuo tornam a retirada abrupta um evento adverso previsível, e a agitação que ela produz seria tratada como delirium pós-operatório em vez de ser reconhecida como abstinência; se a via oral ficar indisponível no pós-operatório, a equipe precisa ser avisada de que esse item exige alternativa, e não simples omissão. Enalapril: a conduta da manhã da cirurgia é combinada com a equipe de anestesia, e o que não pode acontecer é o item sumir sem registro. Aporte: fluido e glicose endovenosos somente conforme necessidade, duração do jejum, glicemia, eletrólitos e estado volêmico, glicemia capilar em intervalos curtos durante o jejum e a linha de correção disponível (glicose 50%, 20 mL por via endovenosa se glicemia abaixo de 70 mg/dL, reavaliando em 5 a 15 minutos). Profilaxia de tromboembolismo: o horário é reavaliado, porque a dose precisa respeitar a distância da punção em neuroeixo, e o combinado vai escrito. Por fim, o que faz essa prescrição valer alguma coisa: cada suspensão com o motivo e com a previsão de reintrodução, para que a alta não devolva a paciente para casa com três medicamentos crônicos silenciosamente cancelados.
O escore de Pádua dela soma mobilidade reduzida (3), idade acima de 70 anos (1), insuficiência cardíaca (1), infecção aguda (1) e índice de massa corporal acima de 30 kg/m² (1), chegando a 7 — bem acima do corte de 4, que separa alto risco (incidência de tromboembolismo de 11%) de baixo risco (0,3%). Sem contraindicação, a profilaxia é química: enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia, ou heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais de 8 em 8 horas, ou fondaparinux 2,5 mg por dia. A depuração de 48 mL/min não exige redução, que começa com clearance até 30 mL/min. Dose plena de 1 mg/kg a cada 12 horas é tratamento, não profilaxia, e expõe a sangramento sem indicação. A compressão pneumática intermitente é a alternativa quando há sangramento ativo ou risco alto de sangramento, e precisa ficar ligada por pelo menos 18 horas ao dia. E exame de imagem de rastreio não é pré-requisito para profilaxia em paciente assintomático.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Revise a prescrição de pneumonia item a item e diga quais dados faltam para insulina, metformina e profilaxia. Corrija uma ordem com unidade ambígua e uma condicional sem teto.
Em 30 dias
Planeje a prescrição perioperatória da paciente em glibenclamida e clonazepam crônico. Explique o risco de cada retirada e como ajustar jejum, monitorização e retomada.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 57 anos, diarista, internada há cinco dias na enfermaria de cirurgia, que segue com febre alta e calafrios todo dia, apesar do antibiótico venoso iniciado na admissão, e com a mesma dor no alto da barriga, do lado direito. Antes de mexer na prescrição, colha o que precisa ser colhido — remédios de casa, alergias, peso, se está comendo e urinando — e examine abdome e tórax. Depois reescreva a prescrição do dia item por item: o que vem de casa, o que fica e o que sai, o que a febre que não cede muda no plano, e cada profilaxia indicada ou descartada com o critério na mão. Diga a ela, em voz alta, o que está sendo dado e o que está sendo suspenso.
