Clínica Médica › Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
Hidratação venosa: manutenção e reposição
Hidratação de manutenção e reposição: cálculo e escolha da solução
É a prescrição que o interno mais faz e menos entende — copiada do leito ao lado sem que ninguém saiba de onde saiu. Este capítulo é sobre calcular o volume, escolher a solução e enxergar, no dia seguinte, que a conta estava errada.
National Institute for Health and Care Excellence — Intravenous fluid therapy in adults in hospital. Clinical guideline CG174, 2013 (atualizada em 2017)
Ministério da Saúde — Formulário Terapêutico Nacional 2010 (Rename 2010). Brasília: Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos
Rocha PN — Hiponatremia: conceitos básicos e abordagem prática. Jornal Brasileiro de Nefrologia (Sociedade Brasileira de Nefrologia), 2011;33(2)
Ávila MO, Rocha PN, Zanetta DMT, Yu L, Burdmann EA — Balanço hídrico, injúria renal aguda e mortalidade de pacientes em unidade de terapia intensiva. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2014;36(3)
Corrêa TD, Cavalcanti AB, Assunção MSC — Cristaloides balanceados para ressuscitação do choque séptico. Revista Brasileira de Terapia Intensiva (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), 2016;28(4)
Zampieri FG, Machado FR e cols. (BaSICS Investigators) — Effect of Intravenous Fluid Treatment With a Balanced Solution vs 0.9% Saline Solution on Mortality in Critically Ill Patients: The BaSICS Randomized Clinical Trial. JAMA, 2021
Alves JTL, Troster EJ, Oliveira CAC — Solução salina isotônica como fluidoterapia de manutenção intravenosa para prevenir hiponatremia adquirida em crianças hospitalizadas: uma revisão sistemática. Jornal de Pediatria, 2011;87(6)
Riella MC, Pachaly MA — Terapia parenteral: reposição hidroeletrolítica. Capítulo 15 de Princípios de Nefrologia e Distúrbios Hidroeletrolíticos (Riella MC, org.)
Boletim ISMP Brasil — Medicamentos potencialmente perigosos de uso hospitalar: lista atualizada 2019. Volume 8, número 1, fevereiro de 2019
Bula profissional da Solução de Glicose 5% e 10% (Fresenius Kabi), aprovada pela Anvisa
Overcorrection of severe hyponatremia, osmotic demyelination syndrome, and mortality: insights from two Brazilian centers. Brazilian Journal of Nephrology, 2026;48(1)
American Academy of Pediatrics — Clinical Practice Guideline: Maintenance Intravenous Fluids in Children. Pediatrics, 2018;142(6)
NICE. Intravenous fluid therapy in adults in hospital, CG174. https://www.nice.org.uk/guidance/cg174
Responda antes de ler
Homem de 105 kg, 1,75 m (índice de massa corporal de 34), 44 anos, sem comorbidades, será mantido em jejum por 24 horas para uma colonoscopia com preparo. Função renal normal. Qual o volume de manutenção mais adequado e qual o raciocínio?
O paciente que você vai ver
São 8h15 e a preceptora está de costas, escrevendo. "Prescreve a hidratação do 14 que eu já vou." O 14 é o senhor Osvaldo, 71 anos, 58 kg, internado ontem à noite com pneumonia e desidratação. Ele não come desde anteontem — diz que a comida não desce e que fica enjoado. A prescrição de ontem foi feita às pressas no pronto-socorro.
Você abre a folha do leito 15, do lado, e lá está: "SG 5% 500 mL + NaCl 20% 10 mL, EV, de 8/8 h". Três frascos, letra firme, ninguém reclamou. Você copia, troca o nome, assina. Levou quarenta segundos.
Ninguém vai dizer nada hoje. Nem amanhã. No terceiro dia, o sódio do senhor Osvaldo volta 128, ele está mais confuso do que ontem, e alguém pergunta na visita se a confusão é da pneumonia ou de outra coisa. A resposta está na folha que você copiou em quarenta segundos, e ninguém no quarto vai olhar para ela, porque prescrição de soro não parece prescrição de verdade.
Aquela linha tem três problemas simultâneos, e dá para provar cada um com uma conta de uma linha. Ela dá pouca água para um homem de 58 kg. Dá sódio demais para a água que dá — e ao mesmo tempo, por ser diluído em soro glicosado, entrega meio litro de água livre por dia a um paciente que está vomitando, com dor e com pneumonia, ou seja, com todos os estímulos que existem para segurar água. E não dá nenhum potássio a alguém em jejum há dois dias, que perde 40 mEq por dia pela urina, faça o que fizer.
Este capítulo é sobre essas contas. Não são difíceis: são três, e cabem numa folha de papel. O que é difícil é lembrar de fazê-las quando a prescrição do leito ao lado está ali, pronta, e ninguém nunca reclamou dela.
Quem adoece disso
A hiponatremia é o distúrbio hidroeletrolítico mais comum do paciente internado. Nos números reunidos pela revisão do Jornal Brasileiro de Nefrologia, a prevalência na admissão hospitalar varia de 14,5% em casuística de Boston a 17,7% em unidade de terapia intensiva austríaca — e quando o corte usado é sódio abaixo de 138 mEq/L, uma casuística canadense encontra 37,9% já na entrada e 38,2% adquirida durante a internação. Nenhum desses números é brasileiro; a fonte que os reúne é a Sociedade Brasileira de Nefrologia, mas os estudos primários são de fora, e vale ler com essa ressalva.
O que interessa nesses números é a segunda metade da frase canadense: a taxa de hiponatremia adquirida no hospital é praticamente igual à taxa que já entra pela porta. Metade do problema é doença; a outra metade é prescrição. E a prescrição é a parte que se conserta de graça.
O Formulário Terapêutico Nacional é explícito sobre o mecanismo dessa metade: misturas isotônicas de glicose e cloreto de sódio são preferidas em crianças, mas o uso não criterioso de tais fluidos pode causar hiponatremia por diluição, especialmente em condições que aumentam a secreção de hormônio antidiurético. O documento oficial brasileiro está, portanto, dizendo em uma frase o que o resto deste capítulo desenvolve: a hiponatremia hospitalar tem um causador identificado, e ele está pendurado no suporte.
O erro na direção oposta tem outro nome e outros números. O excesso de volume aparece como balanço acumulado positivo, e a revisão brasileira sobre balanço hídrico em terapia intensiva reúne os cortes: acúmulo acima de 10% do peso de admissão — sete litros num paciente de 70 kg — associou-se a razão de chances de morte de 2,07 entre os dialisados e de 3,14 entre os não dialisados numa casuística de 396 pacientes, e a 2,6 em 90 dias em outra de 296. São estudos de paciente grave, e a extrapolação para o leito da enfermaria é sua, não dos autores. Mas a direção é consistente e muda uma coisa concreta: o balanço acumulado não é burocracia de enfermagem, é variável de desfecho.
Somando as duas pontas: o interno que prescreve hidratação está manejando simultaneamente o eletrólito mais comumente alterado do hospital e uma variável associada a mortalidade. É a prescrição mais banalizada da enfermaria e uma das poucas em que o erro não aparece na hora — aparece três dias depois, num exame que outra pessoa vai pedir.
Por que acontece o que acontece
Um homem de 70 kg tem cerca de 42 litros de água corporal — 60% do peso. Dois terços disso, 28 litros, estão dentro das células. O terço restante, 14 litros, é extracelular, e desse extracelular só um quarto, 3,5 litros, está dentro dos vasos. O resto, 10,5 litros, é interstício. Guardar essas quatro caixas resolve metade das dúvidas sobre fluido: quando você pendura um litro, ele vai se distribuir entre elas, e a única coisa que decide a proporção é a composição do que você pendurou.
A membrana celular é livremente permeável à água e praticamente impermeável ao sódio — a bomba de sódio e potássio garante isso gastando energia o tempo todo. A consequência é direta: a água atravessa a membrana até que a concentração de partículas osmoticamente efetivas se iguale dos dois lados. Partícula efetiva é a que não atravessa: sódio e seus ânions do lado de fora, potássio e ânions orgânicos do lado de dentro, glicose enquanto não entra na célula. A ureia atravessa e por isso não conta — é osmol inefetivo, e é por isso que o urêmico não desidrata a célula pela ureia.
Daí sai a regra de ouro deste capítulo: o que decide para onde vai a água que você infunde é a tonicidade da solução, não o volume dela. E a tonicidade de uma solução de manutenção é, para efeito prático, a soma da concentração de sódio e de potássio que ela carrega, comparada com os 140 mEq/L do plasma.
A conta que decorre disso é simples e vale a pena fazer uma vez na vida. Uma solução com sódio mais potássio somando X mEq/L pode ser lida como a mistura de duas coisas: uma fração X/140 que se comporta como salina isotônica, e uma fração restante que é água pura — a chamada água livre de eletrólitos. A parte isotônica fica toda no extracelular. A parte de água livre se espalha por toda a água corporal, o que significa que dois terços dela entram na célula.
Aplique aos três frascos da enfermaria, num paciente de 70 kg. Um litro de soro fisiológico 0,9% tem sódio 154 mEq/L: fica inteiro no extracelular, e desses 1.000 mL apenas cerca de 250 mL ficam no vaso — os outros 750 mL vão para o interstício. Um litro de soro glicosado 5% é água livre pura depois que a glicose é metabolizada: 667 mL entram na célula, 333 mL ficam no extracelular, e só cerca de 83 mL chegam ao vaso. Um litro daquela mistura do leito 15 — soro glicosado com uma ampola de cloreto de sódio 20% em cada 500 mL, sódio 68 mEq/L — divide-se quase ao meio: cerca de 660 mL ficam no extracelular e 340 mL entram na célula.
Essa última linha é a explicação de duas coisas ao mesmo tempo. Explica por que solução hipotônica é ruim para expandir volume: metade do que você infunde some para dentro das células e nunca vê o vaso. E explica a hiponatremia iatrogênica: aqueles 340 mL que entraram na célula fizeram isso diluindo o sódio de fora antes de atravessar. Se o rim conseguir excretar a água livre, o sódio volta ao lugar em poucas horas e ninguém percebe nada. Se não conseguir, o sódio cai.
E aí entra o hormônio antidiurético, que é o personagem que falta. O rim saudável excreta água livre com uma folga enorme — vários litros por dia. Ele só perde essa capacidade quando o hormônio antidiurético está alto. O detalhe cruel é que a liberação de hormônio antidiurético não é só osmótica: dor e náusea, lembra a revisão da Sociedade Brasileira de Nefrologia, são estímulos potentes, e são fenômenos muito comuns no pós-operatório. Some a isso hipovolemia, opioides, náusea de quimioterapia, dor não controlada, estresse cirúrgico, náusea de qualquer origem — e você tem a lista dos pacientes internados. Quase todo mundo em enfermaria de clínica ou de cirurgia tem algum grau de hormônio antidiurético não osmótico circulando.
Por isso a mesma solução hipotônica que é inócua no voluntário sadio é perigosa no internado: não mudou a solução, mudou a capacidade do rim de se livrar do que ela traz. E por isso os dois erros — dar hipotônico demais e dar volume demais — costumam andar juntos no mesmo paciente: ambos dependem de um rim que consiga excretar, e é exatamente o rim do paciente internado que não consegue.
Falta o outro lado da moeda, que é o excesso de soro fisiológico. Aqui o problema não é a água, é o cloreto. No plasma o sódio está em torno de 140 mEq/L e o cloreto em torno de 104; somados os demais cátions fortes, a diferença de íons fortes fica perto de 40 mEq/L, e é esse espaço que o bicarbonato ocupa. O soro fisiológico tem sódio 154 e cloreto 154 — diferença zero. Infundir litros de uma solução com diferença de íons fortes igual a zero derruba a diferença do plasma, e o bicarbonato cai para manter a eletroneutralidade: é a acidose metabólica hiperclorêmica, de ânion-gap normal. O Formulário Terapêutico Nacional lista acidose hiperclorêmica entre os efeitos adversos do cloreto de sódio 0,9% em doses elevadas, e a revisão brasileira de terapia intensiva acrescenta o efeito renal: a hipercloremia estimula a mácula densa a liberar adenosina, que contrai a arteríola aferente e reduz a filtração glomerular. A leitura desse gasograma tem capítulo próprio nesta apostila; aqui basta saber que o soro que você prescreveu pode aparecer no gasograma de amanhã. O Ringer com lactato existe para fechar esse buraco: seu lactato é metabolizado a bicarbonato, de modo que a diferença de íons fortes efetiva da solução fica em cerca de 28 mEq/L, muito mais perto do plasma do que o zero da salina.

Como se apresenta de verdade
A régua de manutenção é uma só, mas o paciente à sua frente quase nunca é o adulto médio da régua. O que segue são os oito cenários que ocupam a enfermaria, com o que muda em cada um. Repare que a variável ajustada quase nunca é a mesma: às vezes é o volume, às vezes é a tonicidade, às vezes é o potássio, e às vezes a resposta certa é não prescrever soro nenhum.
Percurso de aprendizagem
Calcule uma estimativa inicial pelo peso e contexto, depois desconte ingestão, dieta e veículos de medicamentos. Volume e composição devem responder a necessidades diferentes.
Converta percentuais em mEq/mL, calcule concentração final e velocidade e use preparo seguro. Glicose de manutenção não substitui nutrição.
Reavalie peso, balanço, exame, diurese e eletrólitos. Congestão pede reduzir entradas e avaliar descongestão; sódio em queda pede rever água e antidiurese.
Jejum simples, rim bom, sem perdas
É o caso da régua limpa: o paciente que vai fazer uma endoscopia amanhã, ou que está esperando uma cirurgia eletiva, come normalmente, não vomita, não tem febre e urina bem. Aqui a manutenção é literalmente manutenção — repor o que sai pela urina e pela pele enquanto ele não bebe.
Vale a pergunta antes da conta: por quantas horas? Jejum de oito horas iniciado às 22h para uma endoscopia às 8h não precisa de veia nenhuma num adulto que jantou. O acesso e o soro entram quando o jejum vai atravessar um dia inteiro, ou quando o paciente já chegou desidratado.
Perda gastrintestinal: vômito, sonda, ostomia, diarreia
Aqui a manutenção deixa de ser o número principal. O que domina é a reposição, e ela tem duas metades: o volume perdido e a composição do que foi perdido. Volume se mede — débito de sonda, débito de bolsa, número de evacuações — e se repõe mililitro por mililitro, previsto a partir do dia anterior. Composição se deduz do tipo de perda.
Vômito e drenagem gástrica perdem ácido clorídrico e potássio: dá alcalose metabólica hipoclorêmica e hipocalêmica. A solução que serve é a que devolve cloreto e potássio, ou seja, soro fisiológico com potássio, e o Ringer com lactato é a escolha errada aqui — o Formulário Terapêutico Nacional o contraindica na alcalose metabólica, porque o lactato vira mais bicarbonato num paciente que já tem bicarbonato sobrando.
Diarreia e ostomia de alto débito perdem bicarbonato e potássio, e produzem o oposto: acidose metabólica de ânion-gap normal. Aí o Ringer com lactato cai bem, porque devolve o tampão que se foi, e o soro fisiológico em grande volume aprofunda a acidose que o paciente já tem.
Guarde a assimetria: o mesmo paciente com perda alta e com perda baixa pede soluções diferentes, e quem decide é o sinal acidobásico, não o hábito da enfermaria.
Febre e taquipneia
As duas aumentam a perda insensível, que é água praticamente sem eletrólito. O acréscimo é de água, não de sal. A régua clássica brasileira é a do capítulo de Riella: mais 100 mL de água para cada grau acima de 38 °C, e mais 100 a 200 mL para cada quatro incursões respiratórias por minuto acima de 20 no homem e 16 na mulher.
São números pequenos — um paciente com 39,5 °C e frequência respiratória de 28 ganha entre 300 e 500 mL a mais no dia — e a razão de citá-los não é a precisão, é a direção: o paciente febril e taquipneico está perdendo água livre, não salina. Repor a perda dele com soro fisiológico é repor a coisa errada, e ele terminará o dia com sódio subindo.
Pós-operatório: o cenário de maior risco
É onde a hiponatremia iatrogênica acontece. O paciente sai da sala incapaz de excretar água livre por 24 a 48 horas, e é exatamente nessa janela que costuma receber os maiores volumes de solução hipotônica. O Formulário Terapêutico Nacional traz a precaução espelhada, do lado do sal: cautela com a infusão de cloreto de sódio 0,9% durante ou imediatamente após cirurgia, porque pode resultar em retenção de sódio. As duas advertências juntas dizem a mesma coisa — no pós-operatório o rim não está regulando nada, nem água nem sal, e o que você prescreve fica.
O que muda na prática: reduza o volume, prefira base isotônica, e dose o sódio no dia seguinte mesmo que não haja sintoma. Nas primeiras 48 horas após uma cirurgia de porte, o sódio de controle não é excesso de zelo.
Cardiopata
A insuficiência cardíaca descompensada não tolera sódio nem volume, e a monografia do cloreto de sódio no Formulário Terapêutico Nacional lista insuficiência cardíaca, hipertensão e edema pulmonar e periférico entre as situações que exigem cautela e ajuste de dose. O Ringer com lactato tem a mesma advertência.
O que muda: use a faixa reduzida — 20 a 25 mL/kg/dia — e monitore com o exame físico, não só com o balanço. O documento é específico sobre o que olhar: pressão venosa jugular, crepitações em bases pulmonares e, em idosos, pressão venosa central. Um cardiopata que ganhou 2 kg em dois dias de soro está com dois litros a mais de extracelular, e esses dois litros não estão no vaso, estão no interstício e no pulmão.
Doente renal crônico
Dois problemas separados, e é importante não confundi-los. O primeiro é o potássio: o rim que não filtra também não excreta potássio, e o Formulário Terapêutico Nacional contraindica o cloreto de potássio na insuficiência renal grave e com potássio plasmático acima de 5 mmol/L. O segundo é o volume: o rim que não concentra nem dilui perde a margem de segurança nos dois sentidos — não protege da sobrecarga nem da hiponatremia.
O que muda: faixa reduzida de volume, potássio só depois de ver a diurese e a creatinina do dia, e reavaliação diária obrigatória em vez de reavaliação quando alguém lembrar. Se o paciente é dialítico e anúrico, a manutenção deixa de ser uma conta de necessidade e passa a ser uma conta de perdas: repõe-se o que sai, e nada além disso.
Cirrótico
O cirrótico com ascite tem sódio corporal total aumentado e sódio plasmático baixo ao mesmo tempo — o extracelular está cheio, mas o volume arterial efetivo está baixo, o que mantém o hormônio antidiurético ligado e retém água. É a armadilha perfeita: o paciente parece hipovolêmico ao exame superficial, tem hiponatremia no exame, e a resposta reflexa de dar soro piora as duas coisas.
A monografia do cloreto de sódio no Formulário Terapêutico Nacional inclui doença cirrótica entre as precauções, e não é sutileza: cada litro de salina infundida num cirrótico com ascite tende a virar ascite. O que muda: volume restrito, sódio restrito, e a hiponatremia dele quase nunca se trata com sal — trata-se restringindo água. Este é um dos pontos em que o interno deve chamar quem sabe mais em vez de resolver na prescrição.
Idoso
O idoso concentra tudo: menos água corporal proporcional, menor capacidade de concentrar e de diluir a urina, sede reduzida, e frequentemente medicamentos que atrapalham — diurético tiazídico e inibidor seletivo da recaptação de serotonina são causas clássicas de hiponatremia. O NICE o coloca explicitamente na faixa reduzida de 20 a 25 mL/kg/dia, ao lado do renal crônico, do cardiopata e do desnutrido em risco de síndrome de realimentação.
E o idoso é o paciente do erro que abre este capítulo por outro caminho: o que passa três dias em jejum recebendo apenas água e glicose. Dois litros de soro glicosado 5% por dia entregam 100 g de glicose, ou 340 kcal — menos do que ele gasta em repouso. Isso não é nutrição, e nem pretende ser: a função da glicose na solução de manutenção, segundo o NICE, é limitar a cetose de jejum, não alimentar. Se o jejum vai passar de dois ou três dias, a pergunta deixa de ser qual soro e passa a ser qual via de nutrição.
Como fechar o diagnóstico
Antes de escrever qualquer linha, existem sete coisas para saber e uma pergunta para fazer. As sete coisas levam três minutos porque cinco delas já estão no prontuário. A pergunta é a que quase ninguém faz, e é a que mais muda conduta.
A pergunta que vem antes de todas: este paciente precisa mesmo de veia?
A primeira recomendação do NICE sobre fluido intravenoso não é sobre qual fluido. É esta: forneça fluidoterapia intravenosa apenas a pacientes cuja necessidade não possa ser atendida pela via oral ou enteral, e suspenda assim que possível.
Parece óbvio e é violado todo dia. O paciente que come metade da bandeja, bebe água e urina bem não precisa de soro — precisa que alguém anote quanto ele bebeu. O paciente que está enjoado precisa de antiemético antes de precisar de veia. O paciente que não bebe porque ninguém colocou a jarra ao alcance dele precisa da jarra.
Manter um acesso venoso tem custo: flebite, infecção de corrente sanguínea, imobilidade, e a delegação silenciosa de uma decisão diária para o hábito. Toda visita deveria começar pela pergunta "a veia ainda serve para alguma coisa?" — e na maioria dos casos a resposta chega antes do que se imagina.
Peso: o número que a folha inteira depende e ninguém tem
A régua de manutenção é por quilo. Sem peso não há conta, e peso estimado a olho erra com facilidade 10 kg — o que muda a prescrição em 250 a 300 mL por dia. Peça o peso na balança na admissão e escreva-o na prescrição, do mesmo jeito que se escreve a depuração de creatinina.
Duas exceções importantes. No obeso, o NICE manda ajustar a prescrição ao peso ideal, não ao real, e adverte que raramente se ultrapassa 3 litros por dia; acima de índice de massa corporal 40, o próprio documento manda buscar ajuda especializada. E no paciente já edemaciado, o peso atual inclui o edema — usar o peso de admissão, ou o peso seco conhecido, evita prescrever fluido proporcional a um volume que já está sobrando.
O peso serve para uma segunda coisa, tão importante quanto: é a medida mais confiável de balanço que existe na enfermaria. Um quilo a mais é um litro retido. Nenhuma planilha de balanço hídrico chega perto dessa precisão, porque a planilha depende de alguém anotar cada copo de água e cada fralda.
Balanço hídrico e diurese: o que a folha da enfermagem vale de fato
O balanço de 24 horas é a soma do que entrou (soro, medicação diluída, líquidos ingeridos) menos o que saiu (diurese, drenos, sonda, vômito, perdas estimadas). Ele é sistematicamente otimista: a perda insensível — cerca de 1.000 mL por dia num adulto sem febre, sendo 400 mL pela pele — raramente entra na conta, e por isso um balanço "zerado" costuma ser um balanço negativo de um litro na vida real.
Ainda assim, é o que existe, e o valor dele é a tendência acumulada, não o número do dia. Três dias de +800 mL somam 2,4 litros, e é isso que se compara com o peso: se o peso subiu 2,4 kg, a planilha está certa e o paciente está acumulando. Se o peso não mudou, a planilha está errada em algum ponto e vale descobrir onde antes de tomar decisão baseada nela.
A diurese tem o corte que todo mundo conhece e poucos aplicam: 0,5 mL/kg/h. Num paciente de 70 kg, são 35 mL por hora, ou 840 mL por dia. Abaixo disso existe oligúria, e existe uma decisão a tomar antes de acrescentar potássio na próxima bolsa. Acima de 1.500 mL por dia num paciente que só recebe soro, existe a suspeita oposta: ou você está dando mais do que ele precisa, ou ele tem uma poliúria a investigar.
Sódio e potássio: quando pedir, e o que o resultado quer dizer
Sódio e potássio plasmáticos entram na admissão de qualquer paciente que vá receber fluido, e a partir daí a regra do NICE é reavaliação ao menos diária de estado clínico, balanço e laboratório (ureia, creatinina e eletrólitos) enquanto o paciente estiver em fluido intravenoso. Em quem está estável, com rim bom e sem perdas, dia sim dia não é defensável; em pós-operatório, cardiopata, renal e idoso, é diário.
O sódio plasmático não mede sódio corporal: mede a relação entre sódio e água. Hiponatremia quase sempre significa água em excesso, não sal em falta — e é por isso que a resposta reflexa de "repor sódio" costuma estar errada. A revisão da Sociedade Brasileira de Nefrologia é explícita: a administração de cloreto de sódio 0,9% não costuma aumentar o sódio sérico de pacientes com secreção inapropriada de hormônio antidiurético, podendo inclusive piorar a hiponatremia. Se você deu salina e o sódio caiu, não foi coincidência.
O potássio plasmático tem a limitação inversa: reflete mal o estoque corporal, porque 98% do potássio é intracelular e a fração de fora se move com o pH. Alcalose empurra potássio para dentro da célula e derruba o valor medido sem que se tenha perdido potássio; acidose faz o contrário. Num paciente com alcalose por vômito prolongado, um potássio de 3,2 parece a um passo de 3,5, mas a maior parte dessa queda é perda real pela urina, e o déficit por trás dela é bem maior do que a diferença sugere — o deslocamento explica só uma parte, e é o controle seriado durante a reposição que mostra o tamanho da falta.
Função renal: o que ela autoriza e o que ela proíbe
A creatinina e a depuração estimada respondem duas perguntas específicas da prescrição de hidratação. Primeira: posso colocar potássio? O Formulário Terapêutico Nacional contraindica o cloreto de potássio na insuficiência renal grave e com potássio plasmático acima de 5 mmol/L, e o capítulo de Riella traz a regra operacional para quando você ainda não sabe: em paciente oligúrico ou com retenção nitrogenada, é preferível não adicionar potássio ao primeiro frasco; se houver boa diurese em resposta à reposição, adiciona-se aos demais.
Segunda: quanto volume o rim tolera? O rim que não dilui não protege da hiponatremia, e o rim que não concentra não protege da desidratação. Nos dois casos, a margem de erro da sua prescrição encolheu, e a resposta é reavaliar com mais frequência, não prescrever com mais confiança.
O exame de volemia: o que cada achado vale de verdade
Nenhum sinal isolado decide volemia, e é honesto dizer isso antes de listá-los. O que existe é um conjunto que, quando concorda, orienta; e quando discorda, manda procurar outra coisa.
Turgor de pele e mucosa seca são os mais citados e os menos confiáveis no idoso — a pele perde elasticidade com a idade independentemente de volemia, e boca seca acompanha respiração bucal, oxigênio nasal e uma lista longa de anticolinérgicos. Servem como pista, não como prova. Valem mais a frequência cardíaca e a pressão arterial medidas deitado e sentado, em série e pela mesma pessoa: queda de pressão com aumento de frequência ao sentar ou levantar é o achado mais útil de depleção extracelular na enfermaria — e o exemplo clássico do capítulo de Riella é justamente esse paciente, pressão 100/60 deitado e 40 sentado, pulso de 100 para 140.
Do outro lado, os sinais de excesso: turgência jugular a 45 graus, crepitações em bases, edema de membros que deixa cacifo, terceira bulha. O Formulário Terapêutico Nacional manda observar exatamente pressão venosa jugular e crepitações em bases ao usar cloreto de sódio, e acrescenta pressão venosa central em idosos. Edema é sinal tardio: são precisos vários litros de excesso no interstício antes de aparecer cacifo, de modo que edema presente significa sobrecarga já estabelecida, não incipiente.
Perfusão periférica — enchimento capilar, temperatura de extremidades — pertence ao paciente instável, que não é o assunto deste capítulo. Se a avaliação levantar suspeita de choque ou hipoperfusão, o problema mudou de categoria: a expansão volêmica do paciente grave tem capítulo próprio nesta apostila, e a conduta de lá substitui a daqui.
As três contas, as tabelas e as prescrições prontas
Aprenda a prescrever água e eletrólitos distinguindo ressuscitação, reposição de perdas e manutenção. Estar em jejum não prova necessidade de soro, e oligúria não prova hipovolemia.
- 1Passo 0 — Decida se precisa de veia. Se o paciente come, bebe e urina, não prescreva soro: prescreva água por via oral e anote o volume ingerido.
- 2Passo 1 — Água. Peso (ideal, se obeso) vezes 25 a 30 mL/kg/dia. Se for idoso, cardiopata, renal crônico ou desnutrido em risco de realimentação, use 20 a 25.
- 3Passo 2 — Eletrólito. Cerca de 1 mmol/kg/dia de sódio e 1 mmol/kg/dia de potássio. Arredonde para o que as ampolas permitem; o NICE autoriza explicitamente esse arredondamento.
- 4Passo 3 — Glicose. De 50 a 100 g por dia, só para limitar a cetose de jejum. Um frasco de 500 mL de soro glicosado 5% traz 25 g.
- 5Passo 4 — Acrescente as perdas. Reposição mililitro por mililitro do que foi medido no dia anterior (sonda, dreno, ostomia, diarreia), com a composição do que se perdeu; mais 100 mL por grau acima de 38 °C e 100 a 200 mL a cada 4 incursões respiratórias acima de 20 no homem e 16 na mulher.
- 6Passo 5 — Escolha a base e monte a linha. Sódio vem do soro fisiológico ou de ampolas de cloreto de sódio 20%; água vem do soro glicosado 5%; potássio vem de ampolas de cloreto de potássio 19,1% distribuídas pelos frascos de glicosado. Confira a concentração de potássio por frasco antes de assinar.
- 7Passo 6 — Escreva a velocidade. Volume total dividido por 24 dá o mL/h; se não houver bomba, converta em gotas por minuto e registre.
| Item | Régua do NICE (2013/2017) | Régua clássica de Riella | Como fica num adulto de 70 kg |
|---|---|---|---|
| Água | 25 a 30 mL/kg/dia (20 a 25 no idoso, cardiopata, renal crônico ou desnutrido em risco de realimentação) | 1.500 mL de diurese + 1.000 mL de perda sensível e insensível = 2.500 mL/dia | NICE: 1.750 a 2.100 mL. Riella: 2.500 mL |
| Sódio | Cerca de 1 mmol/kg/dia | 75 mEq/dia | NICE: 70 mEq. Riella: 75 mEq |
| Potássio | Cerca de 1 mmol/kg/dia | 40 mEq/dia | NICE: 70 mEq. Riella: 40 mEq |
| Cloreto | Cerca de 1 mmol/kg/dia | 115 mEq/dia (soma de sódio e potássio) | Na prática, vem de carona com os dois sais e sempre excede o alvo |
| Glicose | 50 a 100 g/dia, para limitar cetose de jejum | Veículo da água, sob forma de soro glicosado 5% | 2 frascos de 500 mL = 50 g; 4 frascos = 100 g |
| Teto de segurança | Acima de 2,5 L/dia aumenta o risco de hiponatremia | Corrigir distúrbio nunca precisa ser completo nas primeiras 24 horas | Prescrição de manutenção pura acima de 2,5 L merece justificativa escrita |
Composição das soluções e ampolas disponíveis no Brasil
| Apresentação | Sódio | Potássio | Cloreto | Outros | Observação prática |
|---|---|---|---|---|---|
| Soro fisiológico 0,9% (1.000 mL) | 154 mEq | — | 154 mEq | 308 mOsm/L; sem calorias | Isotônico: fica todo no extracelular. Diferença de íons fortes zero — em grande volume, acidose hiperclorêmica |
| Soro glicosado 5% (1.000 mL) | — | — | — | 50 g de glicose anidra; 252 mOsm/L; 170 kcal/L | Depois de metabolizada a glicose, é água livre pura: dois terços entram na célula |
| Solução de Ringer com lactato (1.000 mL) | 130 mEq | 4 mEq | 109 mEq | Cálcio 2,7 mEq; lactato 27,7 mEq; cerca de 273 mOsm/L | Levemente hipotônico. Contraindicado na alcalose metabólica; incompatível com ceftriaxona |
| Cloreto de sódio 20% — ampola de 10 mL | 34,2 mEq | — | 34,2 mEq | 3,4 mEq de sódio por mL | Hipertônica: sempre diluir antes de infundir |
| Cloreto de sódio 10% — ampola de 10 mL | 17,1 mEq | — | 17,1 mEq | 1,7 mEq de sódio por mL | Metade da ampola de 20% — confira o rótulo |
| Cloreto de potássio 19,1% — ampola de 10 mL | — | 25,6 mEq | 25,6 mEq | 2,56 mEq de potássio por mL | Medicamento potencialmente perigoso: fatal se administrado sem diluir |
| Cloreto de potássio 10% — ampola de 10 mL | — | 13,4 mEq | 13,4 mEq | 1,34 mEq de potássio por mL | Pouco mais da metade da ampola de 19,1% — confira o rótulo |
Da necessidade em mEq para o volume da ampola: a conversão feita
| O que você precisa | Divida por | Volume da ampola | Arredondamento usual |
|---|---|---|---|
| 70 mEq de sódio | 3,4 mEq/mL (cloreto de sódio 20%) | 20,5 mL | 20 mL, ou 5 mL em cada um de 4 frascos = 68,4 mEq |
| 60 mEq de sódio | 3,4 mEq/mL | 17,5 mL | 18 mL, ou 6 mL em cada um de 3 frascos = 61,6 mEq |
| 154 mEq de sódio | — (usar soro fisiológico) | 1.000 mL de soro fisiológico | 1 litro de soro fisiológico cobre a necessidade média diária de sódio e cloreto do adulto |
| 70 mEq de potássio | 2,56 mEq/mL (cloreto de potássio 19,1%) | 27,3 mL | 24 mL, ou 6 mL em cada um de 4 frascos = 61,5 mEq |
| 40 mEq de potássio | 2,56 mEq/mL | 15,6 mL | 16 mL, ou 4 mL em cada um de 4 frascos = 41 mEq |
| Limite por frasco de 500 mL | — (não passar de 40 mEq/L) | Máximo 7,8 mL de cloreto de potássio 19,1% | Com 6 mL, o frasco fica em 30,7 mEq/L — dentro da faixa confortável para veia periférica |
Potássio na veia: os quatro limites a conferir antes de assinar
| Limite | Valor | De onde vem | O que acontece se ignorar |
|---|---|---|---|
| Concentração máxima da solução infundida | 43 mmol/L (3,2 g de cloreto de potássio por litro) | Formulário Terapêutico Nacional 2010 | Acima disso, risco cardiotóxico e necessidade de acesso e monitorização próprios |
| Concentração confortável em veia periférica | Até 30 mEq/L | Riella e Pachaly, cap. 15 | Acima disso, irritação e dor ao longo da veia — o paciente pede para fechar o soro e ninguém entende por quê |
| Velocidade usual de infusão no adulto | 5 a 10 mEq/hora | Formulário Terapêutico Nacional 2010 | Infusão rápida é cardiotóxica; acima de 10 mEq/hora exige monitorização cardíaca |
| Administração sem diluir | Proibida em qualquer velocidade | Boletim ISMP Brasil, lista de medicamentos potencialmente perigosos 2019 | Parada cardíaca. É por isso que a recomendação é recolher as ampolas do estoque das unidades assistenciais |
Três prescrições montadas, com a conta ao lado
| Paciente | A conta | A prescrição | O que ela entrega em 24 horas |
|---|---|---|---|
| Homem, 70 kg, jejum para exame, rim normal, sem perdas | Água 25 a 30 × 70 = 1.750 a 2.100 mL → 2.000 mL. Sódio 70 mEq. Potássio 70 mEq (arredondado para 60). Glicose 100 g. | Soro glicosado 5% 500 mL + cloreto de sódio 20% 5 mL + cloreto de potássio 19,1% 6 mL, EV, de 6 em 6 horas (4 frascos), cada frasco em 6 horas — 83 mL/h, ou 28 gotas/minuto | 2.000 mL; sódio 68 mEq; potássio 61 mEq; cloreto 130 mEq; glicose 100 g (340 kcal). Potássio por frasco: 30,7 mEq/L |
| Mulher, 60 kg, 78 anos, insuficiência cardíaca compensada, em jejum pré-operatório | Faixa reduzida: 20 a 25 × 60 = 1.200 a 1.500 mL → 1.500 mL. Sódio 60 mEq. Potássio arredondado para baixo até rever a creatinina. | Soro glicosado 5% 500 mL + cloreto de sódio 20% 6 mL + cloreto de potássio 19,1% 6 mL, EV, de 8 em 8 horas (3 frascos), cada frasco em 8 horas — 63 mL/h, ou 21 gotas/minuto | 1.500 mL; sódio 62 mEq; potássio 46 mEq; glicose 75 g. Potássio por frasco: 30,7 mEq/L |
| Homem, 100 kg, 1,72 m (índice de massa corporal 34), jejum simples | Peso ideal pela fórmula de Devine: 50 + 2,3 × 7,7 = 67,7 kg. Água 25 a 30 × 67,7 = 1.695 a 2.030 mL → 2.000 mL. Pelo peso real seriam 2.500 a 3.000 mL. | Mesma prescrição do primeiro caso: soro glicosado 5% 500 mL + cloreto de sódio 20% 5 mL + cloreto de potássio 19,1% 6 mL, EV, de 6 em 6 horas | 2.000 mL. O homem de 100 kg recebe o mesmo volume do de 70 kg — é o ponto inteiro de usar peso ideal |
Manutenção mais reposição: o caso com perda medida
| Componente | Volume | Sódio | Potássio | De onde saiu o número |
|---|---|---|---|---|
| Manutenção (homem, 70 kg) | 2.000 mL | 70 mEq | 70 mEq | 25 a 30 mL/kg/dia e 1 mmol/kg/dia (NICE) |
| Sonda nasogástrica, 1.200 mL no dia anterior, pH ácido | 1.200 mL | 120 mEq | 12 mEq | Suco gástrico com pH abaixo de 4: sódio 100, potássio 10, cloreto 100 mEq/L (Riella) |
| Febre de 39,2 °C | 100 mL | 0 | 0 | 100 mL de água por grau acima de 38 °C (Riella) |
| Frequência respiratória de 28 | 200 mL | 0 | 0 | 100 a 200 mL a cada 4 incursões acima de 20 no homem (Riella) |
| TOTAL do dia | 3.500 mL | 190 mEq | 82 mEq | Soma das linhas acima |
| Vira esta prescrição | Soro fisiológico 0,9% 1.000 mL (frascos 1 e 2) + soro glicosado 5% 2.500 mL (frascos 3 a 7) | 154 do soro fisiológico + 34,2 de 1 ampola de cloreto de sódio 20% no frasco 3 = 188 mEq | 6 mL de cloreto de potássio 19,1% em cada um dos frascos 3 a 7 = 77 mEq | 146 mL/h em bomba (3.500 ÷ 24), trocando os frascos na ordem — cada frasco em cerca de 3 horas e 25 minutos |
Por que a mesma paciente aparece com dois volumes conforme a régua: a régua clássica de 2.500 mL/dia foi construída para um adulto de porte médio e não escala com o peso. Aplicada a uma senhora de 50 kg, ela entrega 50 mL/kg/dia — quase o dobro dos 25 a 30 do NICE. É a origem silenciosa de muita sobrecarga em paciente pequeno e idoso.
A régua pediátrica de Holliday-Segar (100 mL/kg/dia até 10 kg, mais 50 dos 10 aos 20, mais 20 acima de 20) continua sendo ensinada e continua sendo usada em adulto por hábito. Num homem de 70 kg ela dá 2.500 mL — 36 mL/kg/dia. Ela nasceu de um estudo de 1957 sobre gasto calórico de crianças, e não foi feita para o adulto internado.
O cloreto sempre excede o alvo de 1 mmol/kg/dia porque tanto o sódio quanto o potássio entram como cloreto. Numa prescrição de manutenção de poucos dias isso não tem consequência clínica; em volumes grandes e por vários dias, tem — e aparece como acidose de ânion-gap normal no gasograma.
Cálcio, magnésio e fósforo não entram nas soluções de reposição hidroeletrolítica de poucos dias. São essenciais na nutrição parenteral, que é outro assunto e outra prescrição.
A conversão de gotas assume equipo macrogotas de 20 gotas por mL: gotas por minuto igual a volume em mL dividido por três vezes o número de horas. Confira o equipo da sua instituição antes de confiar na conta, e prefira bomba de infusão sempre que a solução tiver potássio.
A conduta, hora a hora
O que segue é o dia do senhor Osvaldo — 71 anos, 58 kg, pneumonia, dois dias sem comer, creatinina 1,1 mg/dL, sódio 137 e potássio 3,4 mEq/L na admissão, urina presente, sem edema, sem turgência jugular, temperatura 38,4 °C e frequência respiratória de 24 — feito na ordem em que ele acontece. Cada dose vem com a fonte que a sustenta.
8h20 do dia 1 — os três minutos antes da primeira linha
Cinco perguntas, e nenhuma delas é sobre qual soro. Ele consegue beber? (Não: náusea e tosse.) Quanto ele pesa? (58 kg, na balança, não estimado.) Qual a função renal? (Creatinina 1,1 — depuração estimada em torno de 50 mL/min.) Ele está urinando? (Sim, 900 mL nas últimas 24 horas.) Está seco, cheio, ou nem um nem outro? (Mucosa seca, sem turgência jugular, sem crepitações, sem edema — depletado, discretamente.) Só depois das cinco é que se calcula. Idoso entra na faixa reduzida: 20 a 25 mL/kg/dia.
Prescrição- Peso diário em balança, sempre no mesmo horário e com a mesma roupa — anotar na evolução (é a medida mais confiável de balanço que existe na enfermaria)
- Controle rigoroso de diurese e balanço hídrico de 24 horas (NICE: reavaliação ao menos diária de estado clínico e balanço enquanto houver fluido intravenoso)
- Registrar na própria prescrição: peso 58 kg; creatinina 1,1 mg/dL; diurese das últimas 24 horas 900 mL
- Ondansetrona 4 mg, EV, de 8 em 8 horas se náusea — porque o objetivo declarado é devolver a via oral, e náusea é a barreira que se remove primeiro
8h35 do dia 1 — a prescrição inicial, escrita por extenso
A conta: água 20 a 25 × 58 = 1.160 a 1.450 mL; escolho 1.500 mL, que é 26 mL/kg — um pouco acima da faixa reduzida, e de propósito, porque ele está discretamente depletado e febril. Sódio: cerca de 58 mEq. Potássio: cerca de 58 mEq, e aqui o potássio de 3,4 justifica ficar no alvo em vez de arredondar para baixo, porque ele já entra com déficit e vai perder mais pela urina. Febre de 38,4 °C não chega a um grau acima de 38, e a frequência de 24 rende um bloco de quatro acima de 20 — os acréscimos somariam cerca de 100 a 200 mL, que é a folga que já embuti ao escolher 1.500 em vez de 1.400.
Prescrição- Soro glicosado 5% 500 mL + cloreto de sódio 20% 6 mL + cloreto de potássio 19,1% 7 mL, EV, de 8 em 8 horas — frascos 1, 2 e 3; correr cada frasco em 8 horas, o que dá 63 mL/hora ou 21 gotas por minuto em equipo de 20 gotas/mL
- Totais do dia, para conferência: 1.500 mL; sódio 62 mEq (1,06 mmol/kg); potássio 54 mEq (0,93 mmol/kg); glicose 75 g, equivalente a 255 kcal (régua de 20 a 25 mL/kg/dia e cerca de 1 mmol/kg/dia — NICE CG174)
- Conferência de segurança do potássio: 7 mL por frasco = 17,9 mEq em 500 mL = 35,8 mEq/L, abaixo do teto de 43 mmol/L do Formulário Terapêutico Nacional; infundidos em 8 horas, são 2,2 mEq/hora, muito abaixo do limite de 5 a 10 mEq/hora do mesmo documento
- Preferir soluções prontas padronizadas contendo potássio. Quando preparação individual for necessária, realizá-la pelo processo institucional/farmácia, com homogeneização, identificação, conferência e bomba conforme indicação. Nunca injetar concentrado diretamente no paciente ou adicionar à bolsa já instalada.
- Dieta oral livre assim que a náusea ceder, com registro do volume ingerido — a via oral não espera o soro acabar
16h do dia 1 — a passagem da tarde, que ninguém faz e muda tudo
Na passagem da tarde, confira o volume efetivamente infundido, diurese, ingestão oral e sinais de congestão. Um frasco iniciado às 8h35 para correr em oito horas termina aproximadamente às 16h35; às 16h não deveria já haver metade do segundo frasco administrada. Diferença entre previsto e recebido pode indicar erro de velocidade ou de registro e muda a avaliação.
Prescrição- Reavaliar à beira do leito: diurese parcial, ausculta de bases, jugular a 45 graus, presença de edema novo (Formulário Terapêutico Nacional: observar pressão venosa jugular e crepitações em bases ao usar cloreto de sódio)
- Anotar na evolução o volume ingerido por via oral — sem isso, o balanço de 24 horas está errado por baixo e a prescrição de amanhã sai errada por cima
- Dor, ardor, edema ou vermelhidão no acesso durante potássio exige interromper a infusão e avaliar extravasamento/flebite imediatamente, seguindo o protocolo local. Não apenas reduzir a concentração mantendo uma veia potencialmente lesada.
6h do dia 2 — a coleta
Sódio, potássio, ureia e creatinina, coletados antes da visita para que o resultado esteja na tela quando você for reescrever a folha. Essa é a periodicidade que o NICE pede em quem está recebendo fluido intravenoso: reavaliação ao menos diária de estado clínico, balanço e laboratório. Coletar às 10h e discutir às 15h transforma o exame em documento histórico.
Prescrição- Sódio, potássio, ureia e creatinina séricos às 6h (NICE CG174: reavaliação diária de eletrólitos e função renal enquanto houver fluido intravenoso)
- Peso da manhã, em jejum, antes do café e na mesma balança
- Fechar e registrar o balanço hídrico das 24 horas, com o volume ingerido por via oral incluído
8h30 do dia 2 — a prescrição que corrige
A queda de sódio durante solução hipotônica sugere retenção de água, mas a nova prescrição depende de volemia, ingestão e estímulos de ADH. Reavalie primeiro se ainda há indicação de fluido IV e reduza ou suspenda água excedente. Trocar automaticamente por maior carga isotônica não resolve toda hiponatremia; em antidiurese importante, salina isotônica pode ser ineficaz ou agravar a queda. Recalcule água, sódio, potássio e glicose de todas as fontes e acompanhe o sódio conforme velocidade de mudança e sintomas.
Prescrição- Se houver indicação de reposição de volume extracelular, escolher cristaloide isotônico em volume individualizado, com reavaliação; não administrar dois frascos apenas para corrigir sódio de 134.
- Se ainda precisar de manutenção, selecionar solução e quantidade após contabilizar ingestão, medicamentos e eletrólitos. A combinação abaixo é uma análise aritmética, não prescrição obrigatória diante de sódio em queda.
- Totais do dia, para conferência: 1.500 mL; sódio 154 mEq; potássio 15 mEq; glicose 25 g. Sódio e potássio somados agora dão 113 mEq/L — a fração de água livre caiu de quase metade para 19%
- Potássio de 3,8 não elimina a necessidade de manutenção se persistir jejum. A dose de 15 mEq/dia precisa ser justificada pelo aporte oral, função renal e tendência; não reduzir de 54 para 15 apenas porque o valor normalizou.
- Repetir sódio em 24 horas — e antes disso se aparecer confusão, cefaleia, náusea nova ou sonolência
Dia 3 — a pergunta que encerra
Ele almoçou inteiro ontem e tomou três copos d'água. Sódio 136, potássio 4,0, peso estável, diurese de 1.400 mL. A partir daqui, manter o soro não é cuidado, é inércia — e o NICE é direto sobre isso: fluido intravenoso só para quem não pode ser atendido pela via oral ou enteral, e suspender assim que possível. A retirada da hidratação é uma decisão que se escreve, com justificativa, do mesmo jeito que a introdução.
Prescrição- Suspender a hidratação venosa — via oral aceita e diurese adequada (NICE CG174: fornecer fluido intravenoso apenas a quem não pode ser atendido pela via oral ou enteral, e suspender assim que possível)
- Retirar o acesso venoso periférico se não houver medicação endovenosa pendente — acesso mantido "por precaução" é porta de entrada de infecção e âncora de imobilidade
- Manter registro do volume ingerido por via oral e da diurese por mais 24 horas, para confirmar que a retirada se sustentou
- Anotar na evolução, em uma linha, o motivo da suspensão — é isso que impede que o soro volte no dia seguinte por hábito de plantão
Como saber se está funcionando
A prescrição de hidratação é a única da folha cujo efeito você consegue medir com quatro números que já existem na enfermaria — peso, balanço, diurese e sódio. Nenhum deles isolado decide nada. Juntos, eles dizem em 24 horas se a conta de ontem estava certa, e é essa correção diária que separa hidratar de pendurar soro.
Esperado: Estável, ou variando menos de meio quilo por dia. Um quilo a mais significa um litro retido, e é o dado mais confiável de balanço que existe — não depende de ninguém anotar copo por copo.
Se não melhora: Ganho de 1 a 2 kg em 48 horas com prescrição de manutenção pura significa que o volume está acima da necessidade ou que o rim parou de excretá-lo. Reduza o volume para a faixa inferior, cheque diurese e creatinina, e examine jugular e bases. Ganho acima de 10% do peso de admissão é o corte que se associou a razões de chances de morte entre 2 e 3 nas casuísticas reunidas pela revisão do Jornal Brasileiro de Nefrologia — sete quilos num paciente de 70 kg. Chegar perto disso em enfermaria é sinal de que a prescrição deixou de ser revista.
Esperado: Próximo de zero, ou levemente positivo no primeiro dia de um paciente que entrou depletado. Lembre que a folha é otimista: a perda insensível de cerca de 1.000 mL por dia raramente é contabilizada, de modo que balanço zerado na planilha costuma ser negativo na vida real.
Se não melhora: Positivo crescente por três dias, some com o peso: se o peso subiu proporcionalmente, a planilha está certa e o volume está errado. Se o peso não subiu, a planilha está errada — o volume ingerido por via oral não está sendo anotado, ou a diurese não está sendo medida. Corrija a medida antes de mudar a prescrição.
Esperado: Acima de 0,5 mL/kg/h — 35 mL por hora, ou cerca de 840 mL por dia, num paciente de 70 kg. Num paciente que estava depletado, o aumento da diurese nas primeiras 12 horas é o primeiro sinal de que a reposição funcionou.
Se não melhora: Se a diurese cai abaixo do corte, resolva três coisas nesta ordem antes de mexer no soro: bexiga (globo vesical, sonda dobrada ou obstruída), volemia (ele está seco ou cheio?) e rim (creatinina de hoje). E suspenda o potássio da próxima bolsa até saber a resposta — em paciente oligúrico ou com retenção nitrogenada, a regra clássica é não acrescentar potássio ao frasco e só reintroduzi-lo quando a diurese responder.
Esperado: Estável dentro de 2 a 3 mEq/L do valor de entrada.
Se não melhora: Se o sódio caiu, a pergunta certa não é quanto sal repor — é quanta água livre a sua prescrição está entregando. Some sódio e potássio da solução em mEq/L: se a soma for muito abaixo de 140, você tem a resposta. A correção é subir a tonicidade da mesma quantidade de líquido, não trocar por salina em volume maior. Queda abaixo de 130, ou qualquer sintoma neurológico novo — confusão, cefaleia, sonolência, náusea sem causa — muda a categoria do problema: pare o hipotônico e chame ajuda, porque a velocidade de correção passa a importar tanto quanto o valor. Se o sódio subiu, o paciente está recebendo água de menos para a perda insensível dele, e a correção é acrescentar água livre, não reduzir o sal.
Esperado: Potássio entre 3,5 e 5,0 mEq/L com creatinina estável. Numa reposição adequada, o potássio de entrada baixo sobe 0,3 a 0,5 por dia.
Se não melhora: Potássio que não sobe apesar da reposição pede duas verificações: magnésio (hipomagnesemia impede a correção da hipocalemia) e perda contínua não contabilizada (sonda, diarreia, diurético). Potássio acima de 5,0, ou creatinina subindo: suspenda o potássio da prescrição imediatamente — o Formulário Terapêutico Nacional contraindica o cloreto de potássio com potássio plasmático acima de 5 mmol/L e na insuficiência renal grave.
Esperado: Jugular não turgida a 45 graus, bases limpas, sem edema novo, mucosa úmida, sem queda postural de pressão.
Se não melhora: Crepitação nova em bases ou jugular turgida com prescrição de manutenção significa que você atravessou o alvo: reduza o volume no mesmo dia, não no dia seguinte. Edema de membros é sinal tardio — quando aparece cacifo, já há vários litros no interstício. Do outro lado, mucosa seca com queda postural persistente depois de 24 horas de reposição significa que a conta subestimou as perdas: reveja se há perda não medida (diarreia, dreno, sudorese) antes de simplesmente aumentar o volume.
Esperado: Que ela volte. O objetivo declarado da hidratação venosa é a própria extinção.
Se não melhora: Se o paciente já bebe e come, suspenda o soro no mesmo dia e retire o acesso se não houver medicação endovenosa pendente. Se ele não come há mais de dois ou três dias, o problema deixou de ser hidratação: dois litros de soro glicosado 5% entregam 340 kcal, e a glicose ali está para limitar cetose de jejum, não para nutrir. A conduta é discutir via de nutrição, não aumentar o soro.
Onde o erro machuca
O dano: É o mecanismo número um da hiponatremia adquirida no hospital. Dor e náusea liberam hormônio antidiurético por via não osmótica; o rim para de excretar água livre; e a água livre da solução hipotônica fica. Dois terços dela entram na célula — inclusive nos neurônios, dentro de uma caixa óssea que não expande. Daí a sequência cefaleia, náusea, confusão, convulsão. O Formulário Terapêutico Nacional descreve exatamente esse encadeamento ao advertir que o uso não criterioso de misturas de glicose e cloreto de sódio causa hiponatremia por diluição em condições que aumentam a secreção de hormônio antidiurético.
Como pegar a tempo: Some sódio e potássio da sua solução em mEq/L antes de assinar. Se a soma ficar muito abaixo de 140, você está prescrevendo água livre, e precisa ter certeza de que este rim consegue excretá-la. No pós-operatório de porte, nos primeiros dois dias, prefira base isotônica e volume reduzido, e dose o sódio no dia seguinte mesmo sem sintoma.
O dano: Hipercalemia iatrogênica em quem não excreta. O paciente com lesão renal aguda instalada, ou oligúrico por qualquer motivo, recebe 60 mEq de potássio por dia numa prescrição copiada e não elimina nada disso. O Formulário Terapêutico Nacional contraindica o cloreto de potássio na insuficiência renal grave, na desidratação aguda, no trauma tecidual extenso e com potássio plasmático acima de 5 mmol/L — quatro situações corriqueiras na enfermaria.
Como pegar a tempo: A regra operacional é antiga e continua boa: em paciente oligúrico ou com retenção nitrogenada, não coloque potássio no primeiro frasco; se houver boa diurese em resposta à reposição, acrescente nos demais. E lembre-se de que a prescrição de potássio é diária, não semanal: o rim de ontem não autoriza a bolsa de hoje.
O dano: Dois danos de gravidade muito diferente. O menor é dor e flebite ao longo da veia acima de 30 mEq/L — o paciente pede para fechar o soro, alguém fecha, e a reposição não acontece. O maior é cardiotoxicidade: o Formulário Terapêutico Nacional limita a concentração da solução infundida a 43 mmol/L, a velocidade usual a 5 a 10 mEq/hora, e afirma que a infusão rápida é cardiotóxica. Cloreto de potássio concentrado está na lista de medicamentos potencialmente perigosos do ISMP Brasil justamente porque pode ser fatal se administrado sem diluir.
Como pegar a tempo: Faça sempre as duas contas antes de assinar: quantos mEq no frasco dividido pelo volume do frasco em litros dá a concentração; quantos mEq no frasco dividido pelas horas de infusão dá a velocidade. Seis mililitros de cloreto de potássio 19,1% em 500 mL dão 30,7 mEq/L, e em 6 horas dão 2,6 mEq/hora — as duas dentro da faixa. Prefira bomba de infusão sempre que houver potássio, e nunca escreva "correr rápido" numa solução que o contenha.
O dano: Flebite, infecção de corrente sanguínea associada a cateter, imobilidade de um paciente que poderia estar andando, e sobrecarga de volume somada à ingestão oral que ninguém está contabilizando. O paciente que come a bandeja inteira e ainda recebe dois litros de soro está recebendo o dobro do que precisa, e ninguém percebe porque a folha da enfermagem só anota o que entra pela veia.
Como pegar a tempo: A primeira recomendação do NICE existe para isto: fluido intravenoso apenas a quem não pode ser atendido pela via oral ou enteral, e suspender assim que possível. Faça da pergunta "a veia ainda serve para alguma coisa?" um item fixo da visita, e anote o volume ingerido por via oral no balanço a partir do primeiro copo.
O dano: O reflexo existe nos dois sentidos e erra nos dois. De um lado, o automatismo de pendurar Ringer com lactato num paciente anúrico ou dialítico: são 4 mEq de potássio por litro, dois litros dão 8 mEq, e num rim que não excreta nada isso soma a uma carga que já não sai. Do outro lado, o automatismo oposto de trocar tudo por soro fisiológico "porque não tem potássio": a acidose hiperclorêmica que vários litros de salina produzem desloca potássio de dentro para fora da célula, e o potássio medido sobe sem que se tenha infundido um único mEq.
Como pegar a tempo: Faça a conta em vez de seguir a regra decorada. Quantos mEq de potássio há no que eu vou pendurar, e este rim excreta quanto? Depois olhe o gasograma: se já há acidose de ânion-gap normal com cloreto subindo, mais salina piora tanto o ácido quanto o potássio. Em hipercalemia com repercussão, o problema saiu da esfera da hidratação de manutenção e passa a ter conduta própria.
O dano: Síndrome de desmielinização osmótica. A hiponatremia crônica é compensada: a célula cerebral expulsou osmóis para não inchar, e uma subida rápida do sódio de fora a desidrata bruscamente, com desmielinização de tronco. O Formulário Terapêutico Nacional é objetivo sobre o teto: o aumento da concentração plasmática de sódio não deve exceder 10 mmol/L em 24 horas. A revisão da Sociedade Brasileira de Nefrologia refina — abaixo de 10 mEq/L nas primeiras 24 horas, com o ideal entre 6 e 8, e abaixo de 18 mEq/L em 48 horas.
Como pegar a tempo: Em todo paciente que entra com sódio baixo, o limite de subida vira parte da prescrição, não uma nota mental: escreva a meta de sódio de amanhã na folha e programe a coleta. E saiba que o tema está em movimento: uma coorte de 362 pacientes em dois centros brasileiros encontrou supercorreção em 38,7% dos casos com um único episódio de desmielinização, e os próprios autores pedem ensaios antes de afrouxar o limite. Enquanto isso, o número que vale na sua folha é o do documento nacional.
O dano: É o erro que gera todos os anteriores, e o único sem mecanismo fisiopatológico: tem mecanismo humano. A prescrição copiada carrega o peso, a função renal e as perdas de outro paciente, e carrega junto as réguas que não escalam — a fixa de 2.500 mL, que numa senhora de 50 kg vira 50 mL/kg/dia, e a pediátrica de Holliday-Segar, que num homem de 70 kg vira 36 mL/kg/dia. Nos dois casos o paciente recebe cerca de um terço a mais de volume do que precisa, todo dia, sem que nada apareça na hora.
Como pegar a tempo: Refaça as três contas todo dia, com o peso e a creatinina de hoje. Leva dois minutos e é a única defesa que existe. Escreva os totais do dia — volume, sódio, potássio — na própria prescrição, embaixo das linhas: isso permite que o farmacêutico e a enfermagem confiram a sua conta em vez de confiarem nela, e permite que você mesmo compare com a de amanhã.
O que dizer ao paciente e à família
Hidratação venosa é a prescrição que o paciente mais enxerga e menos entende: fica pendurada na frente dele o dia inteiro. Duas perguntas aparecem em quase todo leito, e vale ter as palavras prontas — porque a resposta apressada ("é só um soro") desliga a pessoa que está presente em todas as horas da infusão.
"Doutor, por que eu estou no soro?"
“O senhor está há dois dias sem conseguir comer e beber direito, e o corpo perde água e sal o tempo todo mesmo parado — pela urina, pela pele, pela respiração. O soro está repondo exatamente isso enquanto o senhor não consegue repor pela boca. Não é remédio para a pneumonia: o remédio é o antibiótico. O soro é para o senhor não desidratar enquanto o antibiótico trabalha. E ele sai assim que o senhor voltar a beber normalmente — esse é o objetivo.”
Não diga: "É só uma hidratação." Além de não explicar nada, essa frase ensina que aquilo é inofensivo — e o paciente que acha o soro inofensivo não avisa quando fica com falta de ar, não estranha o inchaço e não reclama da veia que dói.
"Eu posso beber água? Estou com sede."
“Pode, e é melhor que o soro. A boca é a via mais segura que existe: o seu corpo sabe quanto absorver e quanto deixar passar, coisa que o soro não sabe. Beba devagar, em goles pequenos por causa do enjoo, e me avise quanto o senhor conseguiu tomar — a gente anota, porque isso muda a quantidade de soro de amanhã. Se conseguir beber bem hoje, amanhã provavelmente tiramos o soro.”
Não diga: "Não, o senhor está no soro." É a resposta mais comum e quase sempre está errada: fora das poucas situações em que existe restrição hídrica ou jejum programado, negar água a quem tem sede é retirar justamente o mecanismo de regulação que funciona melhor que a sua prescrição.
A filha aponta os pés do pai e pergunta se o inchaço é do soro
“Pode ser, sim, e a senhora fez bem em mostrar. O soro repõe líquido, e quando é mais do que o corpo consegue eliminar, ele sobra e aparece primeiro nos pés e nas pernas. É por isso que a gente pesa o seu pai todo dia na mesma balança: um quilo a mais é um litro que ficou. Vou olhar o pulmão e a veia do pescoço dele agora e ajustar a quantidade hoje mesmo. Continue me avisando se notar o inchaço aumentar ou se ele ficar com o fôlego mais curto.”
Não diga: "É normal ficar um pouco inchado no hospital." Normaliza um sinal que é justamente o alarme, e ensina a família a não avisar da próxima vez.
"Está ardendo no braço onde está entrando o soro."
“Isso costuma acontecer quando a solução tem potássio, que irrita a veia — e tem solução, não precisa aguentar. Vou reduzir a concentração e, se continuar, a gente troca o lugar da veia. Não feche o soro por conta própria nem aguente calado: se ficar ardendo, chama a enfermagem na hora, porque ardor que aumenta pode ser sinal de que o líquido está saindo da veia.”
Não diga: "É normal, o soro arde mesmo." Aceita como inevitável uma coisa que tem correção de dois minutos na prescrição, e deixa passar um sinal precoce de extravasamento.
"Quando é que vocês vão tirar isso do meu braço?"
“Assim que o senhor estiver bebendo o suficiente, e isso depende mais do senhor do que de mim. Hoje o senhor tomou dois copos; se amanhã conseguir quatro ou cinco e continuar urinando bem, eu tiro o soro e tiro o acesso também. Manter o cateter no braço sem necessidade não é cuidado extra — é risco de infecção sem contrapartida.”
Não diga: "Quando o médico da manhã decidir." Empurra para outra pessoa uma decisão que é diária e é sua, e é exatamente assim que um soro atravessa uma semana.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Preferência pelo balanceado, sustentada pela composição e pelo mecanismo — revisão da Revista Brasileira de Terapia Intensiva (AMIB), 2016
A revisão brasileira parte da composição: o soro fisiológico tem sódio e cloreto ambos em 154 mEq/L, o que dá diferença de íons fortes igual a zero, contra cerca de 40 mEq/L do plasma. Infundido em volume, ele derruba a diferença de íons fortes plasmática e produz acidose metabólica hiperclorêmica. O documento acrescenta o mecanismo renal: a hipercloremia estimula a mácula densa a liberar adenosina, que contrai a arteríola aferente e reduz a filtração glomerular. O Ringer com lactato — sódio 130, cloreto 109, lactato 27,7 mEq/L segundo o Formulário Terapêutico Nacional — não tem esse efeito, porque o lactato vira bicarbonato. A mesma revisão, porém, encerra dizendo que não se pode fazer recomendação definitiva sobre qual cristaloide é o mais adequado, e pede ensaios de grande porte.
Corrêa TD, Cavalcanti AB, Assunção MSC — Cristaloides balanceados para ressuscitação do choque séptico. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2016;28(4)
Ausência de diferença de mortalidade no maior ensaio brasileiro — BaSICS, 2021
O ensaio pedido pela revisão de 2016 foi conduzido pela própria rede brasileira de pesquisa em terapia intensiva e publicado em 2021: 75 unidades de terapia intensiva no Brasil, 10.520 pacientes analisados, desenho duplo-cego e fatorial. A mortalidade em 90 dias foi de 26,4% com solução balanceada contra 27,2% com salina 0,9%, com razão de risco ajustada de 0,97 (intervalo de confiança de 95% de 0,90 a 1,05). Os autores concluem que o achado não sustenta o uso da solução balanceada em detrimento da salina em pacientes graves que precisam de expansão. O desfecho medido foi sobrevida — não cloreto, não bicarbonato.
Zampieri FG, Machado FR e cols. (BaSICS Investigators) — JAMA, 2021
As duas posições respondem a perguntas diferentes, e por isso podem estar certas ao mesmo tempo: a primeira mede cloreto e bicarbonato, a segunda mede sobrevida. Para o paciente estável da enfermaria, três coisas decidem. Primeira, o volume previsto: um ou dois frascos de soro fisiológico por dia não deslocam a diferença de íons fortes de ninguém, e a escolha do cristaloide é irrelevante nessa escala. A partir de três ou quatro litros por dia, ou de vários dias seguidos, o cloreto começa a contar. Segunda, o que o gasograma já mostra: se há acidose de ânion-gap normal com cloreto subindo, o cloreto é parte do problema e trocar por balanceado é intervenção de baixo risco e baixo custo. Terceira, o distúrbio de base: na alcalose metabólica por vômito ou sonda, o Ringer com lactato é o errado — o Formulário Terapêutico Nacional o contraindica na alcalose metabólica —, e é o soro fisiológico com potássio que devolve o que se perdeu. Some a isso a disponibilidade: nem toda enfermaria brasileira tem Ringer com lactato no carrinho, e uma escolha indisponível não é escolha.
Manutenção de rotina com solução hipotônica, com teto de volume e vigilância de sódio — NICE CG174, 2013 (atualizada em 2017)
O documento britânico mantém, para manutenção de rotina, uma solução hipotônica: 25 a 30 mL/kg/dia de cloreto de sódio 0,18% em glicose 4% com 27 mmol/L de potássio no primeiro dia, admitindo outros esquemas que atinjam os mesmos parâmetros — cerca de 1 mmol/kg/dia de sódio, potássio e cloreto e 50 a 100 g de glicose. O raciocínio é fisiológico: manutenção verdadeira repõe perda urinária mais perda insensível, e a perda insensível é água praticamente sem eletrólito, de modo que uma solução isotônica entregaria sódio muito acima da necessidade. O próprio documento embute as travas: acima de 2,5 litros por dia o risco de hiponatremia aumenta, e eletrólitos devem ser reavaliados ao menos diariamente.
NICE — Intravenous fluid therapy in adults in hospital, CG174, 2013, atualizada em 2017
Manutenção isotônica como padrão, pela redução consistente de hiponatremia — revisão do Jornal de Pediatria (2011) e diretriz da American Academy of Pediatrics (2018)
A revisão sistemática brasileira de 2011 reuniu os estudos que comparam solução hipotônica e isotônica em crianças hospitalizadas e concluiu que a recomendação tradicional derivada de Holliday e Segar merece ser reconsiderada: entre os resultados reunidos, razão de chances de 17,22 (intervalo de confiança de 95% de 8,67 a 34,2) para hiponatremia com solução hipotônica na metanálise citada, e 20,6% contra 5,1% de hiponatremia em 24 horas num ensaio randomizado. Em 2018, a diretriz norte-americana de pediatria passou a recomendar solução isotônica com cloreto de potássio e dextrose para pacientes de 28 dias a 18 anos que precisem de fluido de manutenção. O argumento central é que o rim do paciente doente não é o rim do voluntário sadio: com hormônio antidiurético elevado, a água livre não sai.
Alves JTL, Troster EJ, Oliveira CAC — Jornal de Pediatria, 2011;87(6); e American Academy of Pediatrics — Pediatrics, 2018;142(6)
Registre primeiro os anos, porque a divergência é em boa parte cronológica: a régua hipotônica nasce de um estudo de 1957 sobre gasto calórico de crianças, o alerta sistematizado é de 2011, o documento britânico é de 2013 com atualização em 2017, e a virada pediátrica formal é de 2018. Depois observe que existe uma aritmética que nenhuma das duas posições contorna: para entregar os 70 mEq de sódio de um adulto de 70 kg usando uma solução isotônica de 154 mEq/L, seriam necessários apenas 455 mL — de modo que manutenção isotônica em volume de manutenção sempre entrega duas a três vezes o sódio calculado. Não dá para ter as duas coisas. O que decide para o paciente à sua frente é o hormônio antidiurético dele. Se há motivo para suspeitá-lo alto — pós-operatório recente, dor, náusea, opioide, hipovolemia, insuficiência cardíaca, cirrose, idade avançada —, prefira base isotônica e reduza o volume, aceitando o excesso de sódio como o menor dos dois males, e dose o sódio em 24 horas. Se o paciente é jovem, com rim normal, sem dor e sem náusea, a solução hipotônica da régua clássica é fisiologicamente mais correta e razoavelmente segura — desde que com o teto de 2,5 litros e sódio de controle. A reversibilidade também pesa: perceber sobra de sódio em 24 horas custa reduzir uma ampola; perceber hiponatremia sintomática em 24 horas custa uma internação em terapia intensiva.
Necessidade básica fixa de 2.500 mL por dia, montada perda por perda — Riella e Pachaly, capítulo 15
A régua clássica brasileira não parte do peso: parte das perdas. Soma 1.500 mL de diurese, que carregam 75 mEq de sódio, 40 de potássio e 115 de cloreto, com 1.000 mL de perda sensível e insensível sem eletrólito — total de 2.500 mL, 75 mEq de sódio e 40 de potássio por dia. Sobre essa base acrescenta as perdas gastrintestinais medidas, os acréscimos por febre e taquipneia e um plano de correções para os déficits identificados. A vantagem do método é ser explícito: cada mililitro prescrito tem origem escrita na folha, e a conta pode ser auditada linha por linha.
Riella MC, Pachaly MA — Terapia parenteral: reposição hidroeletrolítica, capítulo 15 de Princípios de Nefrologia e Distúrbios Hidroeletrolíticos
Volume proporcional ao peso, com faixa reduzida para grupos de risco — NICE CG174, 2013 (atualizada em 2017)
O documento britânico prescreve 25 a 30 mL/kg/dia de água, e 20 a 25 mL/kg/dia em idosos e frágeis, em insuficiência renal ou cardíaca e em desnutridos sob risco de síndrome de realimentação. No obeso, o cálculo usa o peso ideal, raramente se ultrapassa 3 litros por dia, e acima de índice de massa corporal 40 o próprio documento manda buscar ajuda especializada. E fixa o alerta de que prescrever mais de 2,5 litros por dia aumenta o risco de hiponatremia. A vantagem do método é escalar com o tamanho do paciente: num homem de 70 kg dá 1.750 a 2.100 mL, e numa senhora de 50 kg dá 1.250 a 1.500 — onde a régua fixa daria 2.500 nos dois casos.
NICE — Intravenous fluid therapy in adults in hospital, CG174, 2013, atualizada em 2017
A diferença numérica não é sutil e vale calculá-la antes de escolher: numa paciente de 50 kg, a régua fixa entrega 50 mL/kg/dia, quase o dobro do teto da régua por peso; num homem de 90 kg, entrega 28 mL/kg/dia, praticamente igual. Ou seja, as duas convergem no adulto de porte médio e divergem justamente nos extremos — que são o idoso pequeno e o paciente grande, os dois grupos em que o erro custa mais caro. Para decidir, olhe quem está no leito: em paciente pequeno, idoso, cardiopata ou renal, a régua por peso protege da sobrecarga e é a que tem alerta explícito de hiponatremia acima de 2,5 litros. Em paciente com perdas grandes e mensuráveis — sonda de alto débito, ostomia, fístula —, o método clássico é superior, porque foi construído exatamente para somar perda por perda e não deixa nenhuma de fora. Na prática as duas se combinam bem: use a régua por peso para a manutenção e o método clássico para a reposição, mantendo-as em linhas separadas na prescrição, para que dê para suspender uma sem suspender a outra.
O raciocínio, em voz alta
Mulher de 64 anos, 68 kg, segundo dia de pós-operatório de histerectomia por miomatose. Está sem dieta desde a véspera da cirurgia por náusea persistente, em uso de dipirona e de morfina em bomba de analgesia. A prescrição de ontem, feita pelo plantão, foi soro glicosado 5% 500 mL com uma ampola de cloreto de sódio 20%, de 6 em 6 horas. Sódio na admissão: 140 mEq/L. Sódio de hoje: 131. Ela está lúcida, queixa-se de dor de cabeça e diz que enjoou de novo. Diurese de 1.100 mL, peso de 69,2 kg, balanço de +900 mL. Pressão 118/72, sem edema, sem turgência jugular, bases limpas.
o que penso antes de pedir qualquer coisa
Sódio caiu 9 pontos em pouco mais de 24 horas, e existe uma prescrição capaz de explicar isso sozinha. Antes de investigar causa exótica, faço a conta da folha: quatro frascos de 500 mL dão 2.000 mL, e quatro ampolas de cloreto de sódio 20% dão 137 mEq de sódio, sem nenhum potássio. Sódio mais potássio da solução: 137 dividido por 2 litros, ou seja, 68 mEq/L — menos da metade da tonicidade do plasma. Cerca de 51% do que ela recebeu era água livre, o que dá pouco mais de um litro de água livre em 24 horas. E ela é a paciente com o rim menos capaz de excretá-la que existe: pós-operatório de 48 horas, dor, morfina e náusea — quatro estímulos simultâneos para o hormônio antidiurético.
o que peço, e o que cada exame responde
Sódio de controle já está na mão. Peço potássio, ureia e creatinina, porque ela recebeu zero potássio em dois dias e perde 40 mEq por dia pela urina faça o que fizer — e porque preciso saber se posso repor. Peço osmolaridade plasmática e urinária e sódio urinário, que é o par que separa as hiponatremias: se a urina estiver concentrada e com sódio alto num paciente sem depleção evidente, o quadro é de excesso de água com hormônio antidiurético agindo, e não de falta de sal. Não peço tomografia de crânio: a cefaleia dela tem explicação metabólica na tela à minha frente, e a decisão que ela muda é a da prescrição.
como a resposta muda o que eu penso
Sódio urinário de 62 mEq/L, osmolaridade urinária de 480 mOsm/kg, osmolaridade plasmática de 271, potássio de 3,3, creatinina de 0,8. Urina concentrada com plasma diluído é a assinatura de hormônio antidiurético agindo quando não deveria. Não há hipovolemia (pressão boa, sem queda postural, diurese preservada) nem sobrecarga (sem edema, sem jugular, peso subiu menos de um quilo e meio). O diagnóstico é hiponatremia por água livre em excesso num pós-operatório com hormônio antidiurético alto — iatrogênica, e reversível interrompendo a causa.
por que a resposta reflexa está errada
O reflexo aqui é "repor sódio": trocar tudo por soro fisiológico e seguir em frente. Isso corrige devagar e por acidente. A revisão da Sociedade Brasileira de Nefrologia é explícita ao dizer que cloreto de sódio 0,9% não costuma aumentar o sódio sérico de quem tem secreção inapropriada de hormônio antidiurético, podendo inclusive piorar a hiponatremia — porque o rim, com hormônio antidiurético alto, excreta o sal e retém a água que veio junto. O que precisa parar é a entrada de água livre, e o que precisa ser tratado é o motivo do hormônio antidiurético: dor e náusea.
o que eu faço agora, escrito por extenso
Suspendo a solução hipotônica. Prescrevo soro fisiológico 0,9% 500 mL nos frascos 1 e 3, e soro glicosado 5% 500 mL com cloreto de potássio 19,1% 8 mL no frasco 2, correndo cada frasco em 8 horas — 63 mL/hora. São 1.500 mL no dia, ou 22 mL/kg, deliberadamente na faixa reduzida porque ela retém; sódio 154 mEq e potássio 20,5 mEq, o que leva a soma de sódio e potássio da solução a 116 mEq/L e derruba a fração de água livre de 51% para 17%. O potássio no frasco fica em 41 mEq/L, dentro do teto de 43 mmol/L do Formulário Terapêutico Nacional, e em 8 horas dá 2,6 mEq/hora, bem abaixo do limite de 5 a 10 mEq/hora do mesmo documento. Trato a causa do hormônio antidiurético: ondansetrona 4 mg de 8 em 8 horas para a náusea e revisão da analgesia com a equipe da dor, porque morfina e dor mal controlada mantêm o estímulo. E libero água por via oral em goles pequenos assim que a náusea ceder — hidratação por via oral não é o problema aqui; água livre por veia é.
e como eu saberei amanhã se acertei
Sódio em 12 e em 24 horas, com um alvo escrito na folha: subida de no máximo 8 a 10 mEq/L em 24 horas, porque o limite do Formulário Terapêutico Nacional é 10 mmol/L no período. Sódio subindo 3 a 5 pontos com a cefaleia melhorando é o sinal de que a hipótese estava certa. Sódio subindo mais rápido que isso, com a náusea já controlada, significa que o hormônio antidiurético desligou de repente e o rim começou a despejar água livre — e aí eu preciso frear, porque a velocidade passou a ser o risco. Sódio que não sobe apesar de eu ter cortado a água livre significa que eu errei o diagnóstico e há outra coisa em curso.
Faça você
Homem de 79 anos, 62 kg, 1,68 m, internado há quatro dias por infecção de partes moles em membro inferior. Tem insuficiência cardíaca com fração de ejeção de 38% e doença renal crônica estágio 3 (creatinina basal 1,7 mg/dL, depuração estimada de 38 mL/min). Está em jejum desde ontem à noite para desbridamento hoje à tarde. Prescrição atual, herdada do plantão: soro glicosado 5% 500 mL com uma ampola de cloreto de sódio 20% e uma ampola de cloreto de potássio 19,1%, de 6 em 6 horas. Exames de hoje: sódio 138, potássio 5,2, creatinina 2,1 mg/dL, ureia 96 mg/dL. Diurese das últimas 24 horas: 620 mL. Peso de admissão 62 kg; peso de hoje 64,5 kg. Ausculta com crepitações em ambas as bases; jugular turgida a 45 graus; cacifo até o terço médio da perna esquerda, que também é a perna infectada.
o que a prescrição herdada está entregando, em números
Quatro frascos de 500 mL dão 2.000 mL por dia, o que num homem de 62 kg é 32 mL/kg/dia. Quatro ampolas de cloreto de sódio 20% dão 137 mEq de sódio, e quatro ampolas de cloreto de potássio 19,1% dão 102 mEq de potássio — a 51 mEq/L por frasco. A régua que se aplica a este paciente é a reduzida, de 20 a 25 mL/kg/dia, ou seja, 1.240 a 1.550 mL. Ele está recebendo entre 30% e 60% a mais de volume do que a faixa dele, e uma carga diária de potássio de 1,65 mmol/kg.
o que os quatro números de reavaliação dizem quando lidos juntos
Peso subiu 2,5 kg desde a admissão, o que são dois litros e meio retidos. A diurese de 620 mL está abaixo de 0,5 mL/kg/h — o corte para 62 kg é de 744 mL por dia. A creatinina saiu de 1,7 para 2,1 e a ureia está em 96. E o exame confirma o que a balança diz: crepitações, jugular turgida, cacifo. Não é uma leitura ambígua: ele está sobrecarregado e a função renal piorou.
o que muda a categoria do problema
Potássio de 5,2 com diurese em queda e creatinina subindo tira a decisão do terreno da hidratação de rotina. O Formulário Terapêutico Nacional contraindica o cloreto de potássio com potássio plasmático acima de 5 mmol/L e na insuficiência renal grave, e a regra clássica manda não colocar potássio no frasco de paciente oligúrico ou com retenção nitrogenada. Cada frasco que está correndo agora carrega 25,6 mEq para um rim que não os elimina.
a pergunta de fundo, que o jejum não dispensa
Ele está em jejum para um procedimento na parte da tarde, com um extracelular já cheio, um rim que está piorando e um coração com fração de ejeção de 38%. A pergunta "quanta hidratação" é secundária diante de outra: este paciente precisa de fluido intravenoso de manutenção, ou precisa que alguém pare de dar? A recomendação de abertura do NICE — fluido intravenoso só a quem não pode ser atendido pela via oral ou enteral, e suspender assim que possível — vale também para quem já está com a veia instalada há quatro dias.
conduta: escreva a prescrição de hidratação deste paciente para as próximas 24 horas, item por item, com volume, aditivos em mL de ampola, velocidade e o que você vai reavaliar
Escreva o que deve ser interrompido agora e avalie se existe indicação de qualquer manutenção IV. Defina monitorização, necessidade de descongestão e momento de reavaliação; só então prescreva volume, se necessário.
Ver como fecharíamos
Primeiro, o que sai. Suspenda o cloreto de potássio de todos os frascos: potássio de 5,2 com diurese abaixo do corte e creatinina subindo é contraindicação formal segundo o Formulário Terapêutico Nacional, e a prescrição herdada estava entregando 102 mEq por dia a um rim que não os excreta. Suspenda também o volume herdado de 2.000 mL: num homem de 62 kg com insuficiência cardíaca e doença renal crônica, a faixa é a reduzida de 20 a 25 mL/kg/dia, ou seja, 1.240 a 1.550 mL. Segundo, quanto entra. Ele está congesto, sem evidência de hipovolemia: suspender a manutenção é a conduta inicial, não substituir obrigatoriamente por 500 mL de salina só porque há jejum. Contabilize o volume de medicamentos e outras infusões; se precisar de glicose ou veículo, use o menor volume apropriado ao caso. Avalie pressão, perfusão, oxigenação e indicação de diurético com o responsável desde já. Lesão renal associada à congestão não exige esperar a diurese melhorar espontaneamente antes de descongestionar. Terceiro, o que se prescreve junto. Peso diário na mesma balança e balanço hídrico rigoroso, que são os dois parâmetros que apontaram o problema. Sódio, potássio, ureia e creatinina em 12 horas, não em 24, porque a creatinina está em movimento e o potássio está no limite. Eletrocardiograma agora, para ver se o potássio de 5,2 já tem tradução elétrica. Revisão de toda a folha em busca de outras fontes de potássio e de agressão renal — inibidor da enzima conversora, antagonista do receptor de angiotensina, espironolactona, anti-inflamatório — e a dose do antimicrobiano ajustada à depuração de hoje. E conversa com quem opera sobre o horário, porque um paciente com potássio de 5,2 e função renal em piora tem risco anestésico diferente do que tinha ontem. Quarto, o que reavaliar: em 12 horas, potássio (alvo abaixo de 5,0 com a suspensão), creatinina e diurese acumulada; em 24 horas, peso e ausculta de bases. A indicação e a dose de diurético devem ser avaliadas com o responsável pela congestão atual; especialistas podem ajudar, mas não se deve atrasar suporte necessário apenas para aguardar parecer. O erro que este caso ensina é o mais comum de todos: o paciente estava em jejum, então alguém prescreveu manutenção. Mas manutenção pressupõe um paciente em equilíbrio, que precisa apenas repor o que perde. Este não estava em equilíbrio — estava dois litros e meio acima dele. Prescrever manutenção para quem já está sobrecarregado é somar ao problema, com a folha inteira parecendo correta.
O NICE CG174 determina que a prescrição de fluido em pacientes obesos seja ajustada ao peso ideal, não ao real, com volumes menores e raramente acima de 3 litros por dia; acima de índice de massa corporal 40 o documento manda buscar ajuda especializada. Pela fórmula de Devine, um homem de 1,75 m tem peso ideal em torno de 70 kg, o que dá 1.750 a 2.100 mL por dia — praticamente o mesmo volume de um paciente de 70 kg reais, que é exatamente o ponto de usar peso ideal. Aplicar a régua ao peso real entregaria até 3.150 mL, acima do limiar de 2,5 litros que o mesmo documento associa a risco aumentado de hiponatremia. A régua fixa de 2.500 mL ignora o peso nos dois sentidos. E a última opção confunde manutenção com reposição: perda gastrintestinal mensurável se repõe pelo volume medido, em linha separada, não dobrando a manutenção por antecipação.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Calcule água, sódio, potássio e glicose de uma prescrição e explique por que acertar os quatro totais não garante adequação à pessoa.
Em 30 dias
Reavalie um paciente oligúrico e congesto em jejum: diga o que suspender, quando dar volume, quando considerar diurético e como monitorar a resposta.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 76 anos, 54 kg, internada há dois dias por diverticulite aguda, em jejum e com sonda nasogástrica drenando 800 mL nas últimas 24 horas. Tem hipertensão em uso de hidroclorotiazida, creatinina de 1,3 mg/dL, sódio de 129 e potássio de 3,1 mEq/L. Está lúcida mas queixa-se de fraqueza e de cãibras. Prescreva a hidratação dela para as próximas 24 horas: calcule a manutenção pela régua que se aplica a esta paciente, some a reposição da sonda com a composição correta, escolha a solução justificando a tonicidade, converta tudo em mL de ampola conferindo os limites do potássio, e diga em voz alta a ela por que o soro está lá e quando ele sai.
