Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

O antibiótico que ninguém para

Antibioticoterapia na enfermaria: escolha, descalonamento e duração

Começar antibiótico é fácil e todo mundo começa. Este capítulo é sobre o resto: escolher com critério, ler a cultura que volta, estreitar o espectro com hora marcada, passar para a via oral e escrever a data em que o tratamento termina.

Fontes deste capítulo

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Saúde — Revisão 2023. Brasília: GVIMS/GGTES/Anvisa, 13 de junho de 2023.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2026-2030. Brasília: GVIMS/GGTES/Anvisa, 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 1ª edição, 2024, versão eletrônica.

Felix MMR, Aun MV, Menezes UP, Queiroz GRS, Rodrigues AT, D'Onofrio-Silva AC, Perelló MI, Camelo-Nunes IC, Malaman MF. Alergia a penicilina e antibióticos beta-lactâmicos. einstein (São Paulo). 2021;19:1-13. DOI 10.31744/einstein_journal/2021MD5703.

Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Colaborativo — Manejo da Infecção do Trato Urinário no Adulto e na Gestante. Belo Horizonte, 2022.

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos, sétimo dia de pós-operatório de laparotomia por úlcera perfurada, em uso de cefepima e metronidazol desde o centro cirúrgico. Está afebril há quatro dias, aceitando dieta, deambulando. A ferida operatória tem bordas aproximadas, sem eritema, sem calor e sem secreção. Persiste com dreno tubular de débito seroso. Uma cultura de secreção de ferida, amostra única, colhida no quarto dia, cresceu Staphylococcus coagulase-negativo resistente à oxacilina. O residente pergunta se deve acrescentar vancomicina. Qual é a resposta correta? O foco intra-abdominal foi adequadamente controlado, sem complicação residual, e a amostra foi um swab superficial, sem material profundo ou prótese infectada.

02

O paciente que você vai ver

Sete e dez da manhã de uma quarta-feira, enfermaria de clínica médica de dezesseis leitos. A visita começa às sete e meia e você chegou cedo para conferir as prescrições do dia. As folhas impressas estão empilhadas no posto, e três delas têm a mesma coisa em comum: uma linha de antimicrobiano que ninguém escreveu hoje. Foi copiada.

No leito 5 está o senhor Lourival Tancredo, 67 anos, 78 quilos, diabético, internado na madrugada de domingo por pielonefrite com calafrio e vômitos. Chegou taquicárdico, com 38,9 °C e creatinina de 1,6 mg/dL. O plantonista pediu urocultura e hemoculturas, colheu, e começou piperacilina com tazobactam — a escolha de quem não quer errar. Hoje é o terceiro dia. Ele está afebril desde ontem de manhã, comeu o café inteiro, a creatinina voltou para 1,0 mg/dL, e a urocultura está liberada no sistema desde as dez da noite de ontem: Escherichia coli, cem mil unidades formadoras de colônia por mililitro, sensível a tudo o que o antibiograma testou, inclusive à ampicilina e à cefalexina. A prescrição de hoje, impressa às seis da manhã, mantém a piperacilina com tazobactam.

No leito 9 está dona Iolanda Firmino, 74 anos, 61 quilos, quarto dia de internação por celulite de perna direita. Na ficha de admissão, no campo de alergias, alguém escreveu em letra de médico: alérgica a penicilina. Por causa daquela linha, ela recebe clindamicina e ciprofloxacino desde a entrada, teve três episódios de diarreia ontem, e a perna melhorou pouco. Quando você pergunta o que aconteceu quando ela tomou penicilina, dona Iolanda responde que não sabe, que foi criança, que quem contava a história era a mãe, e que a mãe morreu em 1998.

No leito 12 está o senhor Adelino Aparício, 58 anos, sétimo dia de pós-operatório de laparotomia por úlcera perfurada. Está bem: sem febre há quatro dias, comendo, andando pelo corredor com a mulher. Continua com cefepima e metronidazol, iniciados no centro cirúrgico e mantidos desde então porque, como está escrito na evolução de anteontem, o paciente ainda está com dreno. A cultura de secreção da ferida, colhida no quarto dia, cresceu Staphylococcus coagulase-negativo — uma amostra só, sem par.

Nenhum desses três antimicrobianos foi decidido hoje, e é isso que os une. Um foi escolhido às três da manhã por alguém que não tinha resultado nenhum na mão e escolheu largo, que é o que se faz quando não se sabe. Outro foi escolhido por uma frase de quatro palavras escrita no campo de alergias. O terceiro foi escolhido no centro cirúrgico e depois mantido por um dreno. Os três foram razoáveis no dia em que foram escritos. Nenhum dos três é razoável hoje.

A parte de começar antibiótico é a que você já viu cem vezes: a febre, a hemocultura, a primeira dose. A parte que ninguém mostra é esta, a das sete e dez da manhã do terceiro dia, quando a informação chegou e a prescrição não mudou. Este capítulo é sobre o que fazer com aquelas três folhas antes das sete e meia.

03

Quem adoece disso

O antimicrobiano é o medicamento mais prescrito e mais mal prescrito da enfermaria brasileira, e a fotografia oficial disso não é uma taxa de consumo: é uma lista de metas que o país ainda não bateu. O Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde para 2026 a 2030 fixa, como alvo a alcançar até 2030, reduzir a ocorrência de Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenêmicos em infecção primária de corrente sanguínea associada a cateter central para o teto de 25% nas unidades de terapia intensiva de adulto, e a de Acinetobacter resistente a carbapenêmicos para 29%. Leia essas metas ao contrário: elas são a admissão pública de que hoje os números estão acima disso. Uma meta de 2030 fixada em 25% descreve um país onde, quando cresce Klebsiella no sangue de um paciente grave, o carbapenêmico já é aposta e não garantia.

O terceiro alvo do mesmo programa é ainda mais direto para quem prescreve na enfermaria: reduzir para o teto de 40% a ocorrência de Staphylococcus aureus resistente a oxacilina nessas mesmas infecções de corrente sanguínea em terapia intensiva de adulto. Quatro em cada dez é a meta, não o problema. O que isso muda na sua conduta é a leitura do antibiograma que volta amanhã: em um ambiente assim, cobrir Gram-positivo empiricamente com vancomicina é prudência defensável, mas manter a vancomicina depois de saber que aquele Staphylococcus é sensível à oxacilina não é prudência — é tratar pior um paciente que já tem o resultado na mão.

O mapa que decide a sua escolha empírica, no entanto, não é o nacional; é o do seu serviço, e ele costuma ser mais duro que a média. O boletim municipal de Porto Alegre com os dados de 2024 notificou 552 microrganismos como agentes de infecção primária de corrente sanguínea em terapia intensiva de adulto: Staphylococcus coagulase-negativo em 24,5%, complexo Klebsiella pneumoniae em 12,9%, Acinetobacter em 8,5%, Staphylococcus aureus em 7,6%. Ao lado, o perfil de resistência confirmada nas mesmas unidades: 89% dos Acinetobacter resistentes a carbapenêmicos, 82% dos Staphylococcus coagulase-negativo resistentes a oxacilina, 77% do complexo Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenêmicos, 73% das Pseudomonas aeruginosa resistentes a carbapenêmicos. É uma tabela desse tipo, e não a lembrança do último plantão, que responde à pergunta que abre toda escolha empírica: se eu errar para menos, o que é que eu deixo de cobrir aqui dentro?

E existe um dado epidemiológico que não é sobre bactéria nenhuma e muda mais prescrições por semana do que qualquer perfil de resistência. Cerca de 10% das pessoas que frequentam serviços de saúde relatam alergia à penicilina, e o relato sobe para perto de 12,8% entre pacientes hospitalizados. Quando essas pessoas são investigadas corretamente, apenas 10% delas têm teste cutâneo positivo, e menos de 5% são de fato alérgicas — ou seja, mais de nove em cada dez toleram o betalactâmico que o prontuário declara proibido. Na enfermaria isso não é uma curiosidade imunológica: o rótulo empurra o paciente para clindamicina, vancomicina e quinolona, e está associado a mais resistência bacteriana, mais falha terapêutica, internação mais longa, mais readmissão e mais custo. Desfazer um rótulo errado é conduta clínica com efeito medido, e não custa nada.

04

Por que acontece o que acontece

Toda a lógica deste capítulo cabe numa frase de farmacologia: o antimicrobiano não trata o paciente, trata a bactéria que estiver no sítio da infecção, e só se chegar lá em concentração suficiente pelo tempo suficiente. Cada uma das três condições dessa frase corresponde a uma decisão que você vai tomar nos próximos dias. Que bactéria está lá decide o espectro. Chegar lá decide a via e a dose. Pelo tempo suficiente decide a duração — e é a terceira que quase ninguém decide, porque ninguém a escreve.

Comece pelo espectro. Espectro largo não é sinônimo de mais eficaz; é sinônimo de mais alvos possíveis. Se o alvo verdadeiro é uma Escherichia coli sensível à ampicilina, a piperacilina com tazobactam mata exatamente a mesma bactéria que a ampicilina mataria — não mata melhor nem mais rápido. A diferença entre as duas não está no efeito sobre o alvo; está no efeito sobre tudo o que não é o alvo. Esse é o custo escondido do espectro largo, e é um custo biológico, não moral.

O custo tem um mecanismo com nome: pressão seletiva. A microbiota do paciente — intestino, pele, orofaringe — é uma população mista de bilhões de bactérias, e dentro dela já existem, antes de qualquer antibiótico, linhagens portadoras de genes de resistência. Enquanto a população é diversa, essas linhagens são minoria e ficam contidas pela competição por espaço e por nutriente. Quando um antimicrobiano de largo espectro varre as sensíveis, o que sobra ganha comida e superfície para ocupar. Você não criou a bactéria resistente: removeu os competidores dela. É por isso que o paciente que passou dez dias com carbapenêmico volta, três semanas depois, com uma infecção por um germe que ninguém tinha visto nele antes.

O mesmo mecanismo explica a complicação mais evitável da enfermaria. O intestino saudável resiste à colonização por Clostridioides difficile porque a microbiota residente consome os nutrientes e mantém o ambiente hostil ao esporo. Antimicrobianos de amplo espectro, sobretudo os que atingem anaeróbios intestinais, derrubam essa barreira; o esporo germina, a bactéria produz toxinas e o paciente desenvolve uma colite que não existia. Repare no encaixe perverso: a diarreia que aparece no quinto dia costuma ser lida como sinal de que a infecção não está controlada, e a resposta reflexa é ampliar o antimicrobiano — que é exatamente o que a fabricou.

A segunda condição é chegar lá. Biodisponibilidade é a fração da dose oral que alcança a circulação, e a intuição do interno é que a via endovenosa é sempre superior. Para uma parte importante do arsenal isso é falso: há antimicrobianos cuja absorção oral é tão completa que a concentração sérica alcançada pela dose oral é praticamente a mesma da endovenosa. O protocolo de neutropenia febril do Grupo Hospitalar Conceição registra isso para a linezolida, ao recomendar a conversão da via endovenosa para a oral no paciente estável justamente pela excelente biodisponibilidade oral da droga. O que a via endovenosa garante e a oral não garante não é potência: é a certeza de que a dose entrou. Quando o trato gastrointestinal funciona e a absorção é previsível, manter o acesso venoso só por causa do antibiótico é manter uma porta de entrada aberta sem ganho farmacológico nenhum.

A terceira condição, tempo suficiente, é onde mora a crença mais persistente da enfermaria: a de que prolongar protege. A imagem mental é a de uma bactéria que vai sendo desgastada e que, se você parar cedo, se recupera. Não é assim. O antimicrobiano age enquanto há população bacteriana suscetível replicando no sítio; uma vez reduzida a carga ao ponto em que a resposta imune dá conta do resto, os dias adicionais não encontram mais alvo. Encontram a microbiota. Prolongar não aumenta a chance de cura: aumenta a chance de selecionar resistência, de lesar rim, de causar colite e de manter um cateter que já podia ter saído.

Dois campos de microrganismos mostram diversidade inicial com poucos bastonetes corais e posterior predomínio desses bastonetes após redução de outras populações.
A exposição a antibióticos pode selecionar organismos resistentes já presentes e alterar a comunidade microbiana. O esquema ilustra seleção e mudança de proporções; cor e forma não representam espécies específicas nem esgotam os mecanismos de resistência.

Falta uma peça, e é a que faz o interno achar que está indo bem quando está apenas atrasado. Febre e marcadores inflamatórios não medem a bactéria; medem a resposta do hospedeiro. Uma infecção adequadamente tratada continua produzindo febre por algum tempo, porque o material inflamatório já liberado segue circulando, e a proteína C reativa costuma continuar subindo por 24 a 48 horas depois do início do tratamento correto, pela cinética da própria proteína. O corolário é duro e vale para os dois lados: manter febre no primeiro dia não significa que o esquema está errado, e estar afebril no terceiro não significa que ele está certo — significa apenas que alguma coisa reduziu a inflamação. Quem diz se o esquema está certo é a cultura, e é dela que trata a metade seguinte deste capítulo.

Por fim, o mecanismo que faz do descalonamento uma obrigação e não uma gentileza. No dia zero você decide sem informação: escolhe pela probabilidade, e escolher pela probabilidade significa cobrir o pior cenário plausível. Em 48 a 72 horas a informação chega — a cultura identificou o agente, o antibiograma disse a que ele responde — e a decisão passa a poder ser tomada por certeza em vez de por aposta. Manter o esquema largo depois disso não é continuar tratando: é continuar apostando com a carta virada na mesa.

05

Como se apresenta de verdade

A decisão sobre antimicrobiano quase nunca chega à enfermaria como uma folha em branco. Ela chega como uma prescrição que já existe, escrita por outra pessoa, em outro turno, com menos informação do que você tem agora. Reconhecer em qual das formas abaixo o seu paciente se encaixa é o que separa revisar de simplesmente reimprimir.

Percurso de aprendizagem

Cultura informa o diagnóstico dentro do contexto: resultado negativo não exclui infecção e swab positivo não cria infecção sozinho.

Quando a resposta é inadequada, procurar fonte não controlada, diagnóstico alternativo, exposição insuficiente e resistência. Na instabilidade, investigação e tratamento ocorrem em paralelo.

Remover rótulos de alergia exige classificação apropriada; história vaga não é prova de tolerância. Em bacteremia por S. aureus, descalonar não libera automaticamente via oral ou curso curto.

O esquema herdado da emergência

É a forma mais comum e a mais legítima na origem. O paciente entrou grave, ou pelo menos incerto, e quem o recebeu fez a coisa certa: colheu cultura e começou cobertura larga. O protocolo brasileiro de sepse é explícito ao mandar colher hemocultura, de preferência antes da primeira dose, e, ao mesmo tempo, a não postergar a dose se a coleta não sair — porque o relógio da sepse é mais caro que a sensibilidade da cultura. Quem começou não errou.

O que muda quando o paciente sobe para a enfermaria é a informação disponível e o custo do erro. Na emergência, errar para menos pode matar em horas; na enfermaria do terceiro dia, com o paciente estável e a cultura na mão, errar para mais é que começa a cobrar. Esse deslocamento é o coração do capítulo: a escolha empírica é uma aposta feita sob incerteza, e a aposta tem prazo de validade.

A pista de que você está diante de um esquema herdado é o prontuário. Procure a evolução do dia em que a droga foi escrita e veja se existe uma frase dizendo por quê. Quando não existe — e frequentemente não existe —, o esquema virou órfão: ninguém sabe qual hipótese ele cobria, e por isso ninguém se sente autorizado a mexer. O antimicrobiano órfão é o que mais dura, porque só se retira com segurança aquilo cuja indicação se consegue nomear.

O paciente que melhorou, e por isso ninguém mexe

O senhor Lourival do leito 5 é o retrato disso. Ele está afebril, comendo, com a creatinina recuperada, e a piperacilina com tazobactam continua. A frase que sustenta essa manutenção é sempre a mesma e parece sensata: está melhorando, não mexe. Ela contém um erro lógico que vale a pena desmontar devagar, porque é o erro mais caro da enfermaria.

A frase supõe que a melhora prova que aquela droga específica era necessária. Não prova. A melhora prova apenas que a bactéria estava sendo coberta — e uma Escherichia coli sensível à ampicilina estava sendo coberta pela piperacilina com tazobactam do mesmo jeito que estaria por qualquer coisa mais estreita. O que melhorou o paciente foi a cobertura do agente, não a largura do espectro. Estreitar não retira nada do que produziu a melhora; retira apenas o que nunca participou dela.

Há uma variante desse raciocínio que merece nome próprio: o medo de ser o responsável pela piora. Quem estreita e vê o paciente piorar sente que causou; quem mantém e vê o paciente desenvolver colite sente que a doença aconteceu. É a mesma assimetria que faz o inibidor de bomba de prótons ficar na folha até a alta. A correção é escrever a decisão no prontuário com o motivo e com o parâmetro que dispara a volta atrás — decisão registrada é decisão que o plantonista seguinte consegue defender.

O paciente que não melhorou, e por isso alguém amplia

A forma espelhada da anterior, e igualmente automática. Quarenta e oito horas de antibiótico, febre ainda presente, e a conduta reflexa é trocar por algo mais largo. Isso resolve exatamente um dos quatro motivos possíveis de não melhora, e é o menos frequente deles.

Os quatro motivos são: o agente não está coberto pelo esquema; o agente está coberto, mas a droga não chega ao sítio em concentração útil; existe foco que precisa de drenagem, retirada de dispositivo ou desobstrução, e nenhum antimicrobiano substitui um procedimento; ou o diagnóstico está errado e a febre não é infecciosa. Ampliar o espectro só ataca o primeiro. Nos outros três, ampliar adiciona toxicidade e retarda a conduta que resolveria.

O protocolo municipal de manejo de infecção urinária no adulto usa exatamente a janela de 48 a 72 horas para caracterizar falha do tratamento empírico inicial, e é nesse ponto que ele indica colher os exames que não foram colhidos antes. Falha é um gatilho de investigação, não de escalonamento automático — a diferença entre as duas leituras é a diferença entre procurar o abscesso e prescrever o carbapenêmico.

O rótulo de alergia, que quase nunca é alergia

Dona Iolanda, do leito 9, apresenta a forma mais silenciosa. Ninguém tomou uma decisão ruim: cada pessoa que passou por aquele leito leu a linha do campo de alergias e obedeceu. O resultado agregado é que ela está no quarto dia recebendo clindamicina e ciprofloxacino para uma celulite, com diarreia começando, quando a droga de escolha para a maioria das celulites é justamente um betalactâmico.

O rótulo esconde quatro histórias que exigem condutas diferentes, e é a pergunta ao paciente que as separa. Primeira: separar intolerância claramente não alérgica, como náusea ou diarreia isoladas, de história desconhecida. A primeira pode permitir corrigir o rótulo com documentação; a segunda exige estratificação de risco e, quando indicada, provocação supervisionada, sem liberar automaticamente todo betalactâmico nem declarar a alergia excluída. Segunda: história compatível com reação imediata, ocorrida de minutos a poucas horas após a dose, com prurido, urticária, angioedema, broncoespasmo, edema de laringe ou hipotensão. Aí a avaliação por especialista com teste cutâneo e, se possível, teste de provocação é o caminho — e o teste de provocação é o padrão-ouro do diagnóstico —, mas o antibiótico não espera por ela: evitam-se o culpado e os betalactâmicos de cadeia lateral parecida, e a cefalosporina de cadeia diferente entra em dose plena — na anafilaxia, com a primeira dose onde ela se trata. Terceira: exantema tardio benigno — manchas leves na pele, urticária tardia, erupção fixa ou reação local, dias depois do início, sem febre, bolha, lesão de mucosa ou órgão acometido —, reação de baixo risco que libera o betalactâmico de cadeia diferente e deixa o culpado para a provocação. Quarta: reação cutânea grave ou reação de órgão documentada, como síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica, pustulose exantemática generalizada aguda, reação a fármaco com eosinofilia e sintomas sistêmicos, doença do soro-símile, citopenia imune, hepatite ou nefrite intersticial. Nessa última a exclusão do betalactâmico é necessária, e provocação e dessensibilização estão formalmente contraindicadas.

O que a enfermaria faz com essas quatro histórias é tratar todas como a última. O custo aparece na folha do dia seguinte, e o protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do hospital universitário de Dourados o escreve sem rodeios: diante de história de reação alérgica a betalactâmico, o paciente sai da cefazolina e entra em clindamicina, vancomicina, ciprofloxacino, gentamicina ou amicacina. Troca-se uma droga barata, de espectro adequado e toxicidade baixa por um conjunto com mais colite, mais nefrotoxicidade e mais pressão seletiva — para um risco que, na esmagadora maioria dos rotulados, não existe.

Vale guardar o tamanho da ponte que o rótulo pretende impedir. Entre pacientes com teste positivo para penicilina, hoje não mais que 2% reagem a cefalosporinas; a reatividade entre penicilinas e carbapenêmicos é menor que 1%; e não parece haver reatividade cruzada imunológica ou clínica entre penicilinas e o monobactâmico aztreonam, com a ressalva de que o paciente alérgico à ceftazidima pode reagir ao aztreonam por compartilharem cadeia lateral idêntica. A reatividade cruzada, quando existe, é governada pela semelhança da cadeia lateral, não pelo anel betalactâmico que todos compartilham. É por isso que os 2% não valem para a cefalexina: numa metanálise citada pela ASBAI em 2021, a reatividade cruzada chegou a 16,5% em algumas aminocefalosporinas de cadeia idêntica à das aminopenicilinas, entre alérgicos comprovados, e cefalexina e cefadroxila ficam fora depois de reação a amoxicilina ou ampicilina. Na cefalosporina de cadeia diferente, a revisão brasileira de 2021 lida por este capítulo declara obrigatória a avaliação do especialista na alergia já confirmada, para liberar opção da classe; esta apostila segue o parâmetro prático das sociedades norte-americanas de alergia, de 2022, mais novo, que manda dar a cefalosporina de cadeia lateral diferente sem teste prévio mesmo a quem teve anafilaxia à penicilina. A primeira dose, nesse caso, vai onde a anafilaxia se trata, como decide Reações de hipersensibilidade a drogas, na apostila de Imunologia.

A cultura que voltou e não é o que se esperava

A quarta forma é a que produz mais antibiótico desnecessário no país inteiro, e ela chega no formato mais convincente possível: um papel do laboratório com o nome de uma bactéria escrito nele. O senhor Adelino, do leito 12, tem um desses — Staphylococcus coagulase-negativo em uma cultura de secreção de ferida, amostra única.

Três coisas diferentes produzem um papel com nome de bactéria, e só uma delas é infecção. Contaminação é a bactéria que entrou na amostra durante a coleta, tipicamente da pele de quem colheu ou do próprio paciente. Colonização é a bactéria que vive de fato naquele sítio sem causar dano, o que é a regra em pele, ferida aberta, orofaringe, trato respiratório de quem tem via aérea artificial e bexiga de quem tem sonda. Infecção é a bactéria que está invadindo tecido e produzindo resposta do hospedeiro. O laboratório não distingue as três; quem distingue é você, com a clínica e com o modo como a amostra foi colhida.

A regra prática que resolve a maioria dos casos: cultura sem síndrome clínica correspondente não é diagnóstico. Ferida limpa, sem eritema, sem secreção purulenta, sem dor e sem febre, com cultura positiva, é ferida colonizada. Aspirado traqueal positivo em quem não tem febre, não tem infiltrado novo, não tem piora de troca gasosa e não tem aumento de secreção purulenta é via aérea colonizada. Urocultura positiva em quem não tem sintoma urinário é bacteriúria — e adiante você vai ver que, fora da gestação e de situações muito específicas, ela não se trata.

O caso do Staphylococcus coagulase-negativo merece destaque porque é o germe que mais engana. É o habitante mais comum da pele humana e, por isso, o contaminante mais comum de qualquer cultura. Uma amostra isolada positiva para ele, sem par e sem quadro clínico compatível, é a definição de resultado que não decide nada — e é o resultado que, no Brasil, mais frequentemente vira vancomicina.

O que muda conforme o hospedeiro

A mesma cultura, no mesmo sítio, autoriza condutas diferentes conforme quem é o paciente. No idoso, a bacteriúria assintomática é frequente e cresce com a institucionalização e com o tempo de sonda; nele, a tentação de atribuir qualquer confusão mental a uma urocultura positiva encerra a investigação cedo demais e deixa passar a causa verdadeira. No diabético com pé infectado, a cultura de swab superficial reflete colonização e não o agente profundo, e o esquema decidido por ela erra com frequência.

No renal crônico e no paciente com lesão renal aguda, o problema não é o espectro e sim a dose: a mesma escolha correta vira subdose ou toxicidade conforme o ajuste. A regra de ouro é que o ajuste acompanha a função de hoje, não a da admissão, e o ajuste de dose na disfunção renal e hepática é assunto do capítulo próprio desta apostila. O que interessa aqui é que ajustar não é descalonar: reduzir a dose de um carbapenêmico por causa da creatinina não estreita espectro nenhum.

No imunossuprimido a conta se inverte, e vale conhecer o exemplo mais bem documentado. No neutropênico febril, o protocolo do Grupo Hospitalar Conceição usa o escore MASCC para separar quem poderia ser tratado por via oral, mas registra a opção institucional de internar todos os neutropênicos febris por pelo menos 24 horas antes de considerar a via oral, e só então decidir com a equipe assistente. É o mesmo princípio de sempre lido do outro lado: quanto pior o hospedeiro, mais cara a subcobertura e mais tarde se pode estreitar. Quem tem neutrófilo suficiente para terminar o trabalho que o antibiótico começou é quem pode ter o espectro reduzido com segurança em 48 horas.

Na gestante, finalmente, muda o único cenário em que a bacteriúria assintomática deixa de ser um achado a ignorar. O protocolo municipal de infecção urinária registra que rastrear e tratar bacteriúria assintomática na gestante é considerado benéfico para reduzir a incidência de pielonefrite e o número de recém-nascidos de baixo peso, ainda que apoiado em evidência de baixa qualidade e com recomendação classificada como fraca. Fora dessa exceção, a mesma cultura, no mesmo laboratório, não vira prescrição.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui a palavra investigação significa outra coisa do que significa na emergência. Você não está procurando o diagnóstico da infecção — ele foi feito, certo ou errado, dois dias atrás. Você está lendo o que voltou e decidindo três coisas: se o esquema atual é o mais estreito que funciona, se ele pode sair da veia, e em que data ele termina.

A ordem importa, porque cada passo desqualifica exames do passo seguinte. Quem pergunta primeiro se a cultura é infecção não pede o exame que confirmaria uma colonização. Quem lê o antibiograma antes de trocar não troca por reflexo. E quem sabe o que o serviço tem na farmácia não prescreve o que não vai ser dispensado.

O exame que decide já foi colhido

No segundo dia em diante, o exame mais importante do seu paciente não é um que você vai pedir: é um que já está pronto e que ninguém abriu. A cultura colhida na admissão é o único exame do hospital capaz de transformar uma aposta em uma certeza, e ela tem uma janela de utilidade que se fecha — resultado lido no quinto dia serve para a estatística, não para a conduta.

Faça disso um hábito de horário, não de memória: toda manhã, antes de imprimir a prescrição, abra o resultado das culturas de quem está em antimicrobiano. É um gesto de trinta segundos por paciente. O motivo pelo qual ele quase nunca acontece é que a prescrição do dia é gerada por cópia da véspera, e a cópia não pergunta nada.

Cada material responde a uma pergunta diferente, e vale saber qual. A hemocultura responde se há bactéria na corrente sanguínea e qual é — é o exame que mais autoriza estreitar, porque identifica o agente e o sítio de invasão ao mesmo tempo. A urocultura responde qual bactéria está na bexiga, o que não é a mesma pergunta de se há infecção urinária. A cultura de secreção de ferida ou de aspirado traqueal responde o que cresce naquele sítio, e sítios abertos ao ambiente crescem coisas o tempo todo. O líquor, o líquido pleural e o líquido ascítico, por serem normalmente estéreis, respondem quase diretamente sobre infecção. Como colher hemocultura, com quantas amostras e com que volume, é assunto do capítulo de febre no paciente internado; o que é daqui começa quando o resultado chega.

Uma observação sobre o que a cultura negativa significa. Se ela foi colhida antes da primeira dose e o paciente tem foco plausível, negativa não exclui infecção — exclui apenas bacteremia detectável naquele volume, naquele momento. Se ela foi colhida depois de a droga já estar correndo, a negatividade perde quase todo o valor informativo. Saber em qual dos dois casos você está muda o peso que a negatividade tem na decisão de suspender.

Ler o antibiograma sem se enganar

As três letras do antibiograma parecem uma medida e são uma previsão. Sensível significa que, com a dose e o intervalo habituais, espera-se concentração suficiente no sítio para tratar aquele microrganismo. Resistente significa que essa expectativa não se sustenta. Intermediário, na leitura moderna, é o resultado que depende de a droga se concentrar naquele sítio ou de a dose ser maior — é o que faz uma bactéria intermediária a um antimicrobiano poder ser tratada com ele em infecção urinária, onde a concentração urinária é muitas vezes a sérica, e não poder em bacteremia.

Daí decorre a primeira regra de leitura: o antibiograma responde por microrganismo, não por paciente. Ele diz o que aquela bactéria tolera, e nada diz sobre se ela é o agente da doença que você está tratando. Um antibiograma lindo em uma cultura de colonização continua sendo o antibiograma de uma colonização.

A segunda regra é a que resolve o leito 5. Quando o antibiograma mostra sensibilidade a várias opções, escolhe-se a mais estreita entre as eficazes, e não a mais forte. A hierarquia prática, do mais estreito ao mais largo, para uma enterobactéria comunitária sensível, começa em ampicilina e cefalexina, passa por amoxicilina com clavulanato, cefuroxima e ceftriaxona, e só então chega a cefepima, piperacilina com tazobactam e carbapenêmico. Descer essa escada é descalonar; é o movimento que a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos chama de redução do espectro conforme os achados microbiológicos, e ela o lista como um dos itens obrigatórios da revisão da prescrição.

A terceira regra é sobre a concentração inibitória mínima, quando o laboratório a informa. Ela é a menor concentração da droga que impede o crescimento visível daquele isolado, medida em condições padronizadas. É útil para comparar isolados diante do mesmo antimicrobiano e para decidir dose em situações limítrofes. Não é útil para comparar antimicrobianos diferentes entre si: um valor numérico menor para a droga A não significa que A é melhor que B, porque cada droga tem pontos de corte próprios e concentrações alcançáveis diferentes. Comparar valores de drogas distintas é o erro de leitura mais comum de quem descobriu essa coluna.

Por fim, um resultado que o interno lê como boa notícia e que costuma ser o contrário: a cultura que cresce vários microrganismos ao mesmo tempo, sobretudo em material de sítio aberto. Crescimento polimicrobiano em swab de ferida, em ponta de dreno ou em aspirado traqueal aponta muito mais para a flora do sítio do que para uma infecção por todos aqueles agentes — e tratar todos eles é a receita da terapia mais larga possível a partir do exame menos informativo possível.

Contaminação, colonização e infecção

Esta é a distinção que o laboratório não faz e que decide se você prescreve. Vale um método de três perguntas, na ordem, aplicado a todo resultado positivo antes de qualquer mudança de conduta.

Primeira: o que foi colhido é de sítio normalmente estéril? Sangue, líquor, líquido pleural, líquido articular, líquido ascítico e urina obtida por técnica adequada são estéreis em quem não tem infecção; pele, ferida aberta, orofaringe, via aérea artificial, ponta de dreno e ponta de cateter sem par não são. Positividade em sítio não estéril tem valor informativo baixo por definição.

Segunda: o microrganismo que cresceu é habitante habitual da pele de quem colheu? Staphylococcus coagulase-negativo, Corynebacterium, Bacillus, Cutibacterium e estreptococos do grupo viridans em uma única amostra são, na maioria das vezes, o que estava no dedo, no braço ou no antisséptico. A dica que separa contaminação de infecção verdadeira nesses casos é o pareamento: o mesmo germe crescendo em duas amostras colhidas de sítios diferentes pesa muito mais do que um crescimento isolado.

Terceira: existe síndrome clínica compatível no órgão de onde veio a amostra? Sem sintoma urinário, urocultura positiva é bacteriúria. Sem febre, sem infiltrado novo, sem piora de oxigenação e sem mudança do aspecto da secreção, aspirado traqueal positivo é colonização de via aérea. Sem eritema, calor, dor ou secreção purulenta, cultura de ferida positiva é colonização de ferida. Sem sinal inflamatório no sítio de inserção, sem febre e sem hemocultura pareada, cultura de ponta de cateter positiva é colonização de dispositivo.

Quando as três perguntas apontam para infecção, trate e use o antibiograma. Quando apontam para colonização ou contaminação, o resultado tem uma única consequência legítima na conduta: nenhuma. Ele pode, no máximo, informar a escolha empírica futura daquele paciente, caso ele venha a ter uma infecção real naquele sítio — e é assim que o resultado deve ser registrado no prontuário, como dado de flora, para que o próximo plantonista não o leia como diagnóstico.

Bacteriúria assintomática, urina turva e o erro mais caro

Merece seção própria porque é, isoladamente, a maior fábrica de antibiótico desnecessário da enfermaria brasileira. A cena é sempre a mesma: alguém nota a urina turva ou com cheiro forte no coletor, pede um exame de urina, o exame vem com leucócitos e nitrito, sai uma urocultura e sai um antibiótico. Nenhum passo dessa cadeia começou com um sintoma.

Urina turva e urina malcheirosa não são achados de infecção. Turvação decorre com frequência de cristais, de fosfatos e de concentração; cheiro forte decorre de concentração, de dieta e de medicamento. Nenhum dos dois entra em nenhuma definição de infecção do trato urinário, e nenhum dos dois deveria disparar um exame.

O protocolo municipal de manejo da infecção do trato urinário no adulto é direto no ponto seguinte, e a recomendação é forte: na cistite não complicada, o diagnóstico é clínico e não se pede urocultura nem exame de urina de rotina. Cultura, exame de urina e bacterioscopia ficam reservados a dúvida diagnóstica, falha do tratamento empírico inicial, infecção urinária de repetição, gestação e casos complicados. A regra é útil de cabeça: exame que você não vai usar para decidir é exame que vai decidir por você.

E há a exceção, uma só, que confirma a regra e que já apareceu antes: o rastreamento e o tratamento da bacteriúria assintomática são considerados benéficos na gestante, para reduzir pielonefrite e baixo peso ao nascer — com evidência de baixa qualidade e recomendação classificada como fraca no próprio protocolo que a sustenta. Fora da gestação, e ressalvadas situações específicas como o preparo de procedimento urológico invasivo com previsão de sangramento de mucosa, bacteriúria sem sintoma não se trata.

O caso do paciente sondado é o que mais confunde, e a divisão de trabalho com o capítulo de febre no paciente internado é esta: lá está o critério de vigilância que define infecção urinária associada a cateter e o ritmo com que a colonização se instala; aqui está a consequência para a sua caneta. Se o paciente tem sonda e não tem sintoma atribuível ao trato urinário, a urocultura positiva não vira prescrição — vira, isto sim, a pergunta de por que a sonda ainda está lá.

O que não pedir, e o preço de pedir

Hemocultura de controle rotineira em paciente que melhorou, com foco não vascular, não muda conduta e cobra caro: cada par a mais é uma chance a mais de contaminação por Staphylococcus coagulase-negativo, e cada contaminação dessas tem alta probabilidade de virar vancomicina. Hemocultura de controle tem indicação bem definida — bacteremia por Staphylococcus aureus, candidemia, endocardite e infecção de dispositivo intravascular — e é justamente nesses casos que documentar a negativação decide a duração.

Cultura de ponta de dreno, de ponta de sonda ou de ponta de cateter enviada isoladamente, sem hemocultura pareada e sem quadro clínico, não distingue colonização de infecção e produz o resultado mais enganoso do laboratório. Se a suspeita é de infecção associada ao dispositivo, o que decide é o par de hemoculturas e a clínica, não a ponta.

Cultura de aspirado traqueal em quem tem via aérea artificial e não tem pneumonia é a versão respiratória da bacteriúria assintomática: vai crescer alguma coisa, porque a via aérea artificial coloniza. Pedir esse exame sem febre nova, sem infiltrado novo, sem piora de troca gasosa e sem mudança do aspecto da secreção é criar um resultado que depois vai exigir coragem para ignorar.

Proteína C reativa diária não é acompanhamento de infecção: é um número que sobe por 24 a 48 horas mesmo com tratamento correto e que responde a qualquer inflamação, inclusive à cirurgia, ao trauma, ao infarto e à doença reumatológica. Usada como gatilho isolado, ela prolonga esquema e amplia espectro em paciente que está bem. Se for medida, que seja para acompanhar tendência ao longo de dias, junto do quadro clínico, e nunca como razão única para mudar antimicrobiano.

Uma última recusa, essa vinda direto do protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias: não se prolonga antimicrobiano porque o paciente permanece com dreno, sonda vesical, cateter venoso ou cânula orotraqueal. O documento é explícito ao dizer que a profilaxia não é eficaz nessas situações. A leitura correta é que dispositivo não é indicação de antibiótico — dispositivo é indicação de retirar o dispositivo assim que ele deixar de ser necessário.

O que existe no SUS, e o que existe no seu hospital

Antimicrobiano que não se consegue não é conduta, e no Brasil essa frase tem duas listas por trás. A primeira é nacional. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz, no componente básico, amoxicilina em cápsula, comprimido e suspensão, amoxicilina com clavulanato em comprimido e suspensão, cefalexina em cápsula, comprimido e suspensão, sulfametoxazol com trimetoprima em comprimido, suspensão e solução injetável, metronidazol em comprimido, nitrofurantoína em cápsula e suspensão, ciprofloxacino em comprimido, e, nos injetáveis, cefotaxima e ceftriaxona nas apresentações de 250 mg, 500 mg e 1 g.

A mesma lista traz, ao lado de cada anti-infeccioso, a classificação AWaRe da Organização Mundial da Saúde, traduzida como Acesso, Alerta e Reservado. É a informação mais útil da tabela para quem prescreve na enfermaria, porque ela ordena o arsenal exatamente pelo eixo deste capítulo: amoxicilina, amoxicilina com clavulanato, cefalexina, sulfametoxazol com trimetoprima, metronidazol e nitrofurantoína aparecem como Acesso; cefotaxima, ceftriaxona e ciprofloxacino aparecem como Alerta. Descalonar, na prática, quase sempre significa andar de Alerta para Acesso.

A segunda lista é a do seu hospital, e é ela que decide a prescrição de enfermaria. Vale conhecer uma ausência que surpreende: cefazolina, ampicilina, oxacilina, vancomicina, piperacilina com tazobactam e os carbapenêmicos não constam da lista nacional de medicamentos essenciais de 2024. Isso não significa que não existam no país — significa que não são adquiridos por aquele caminho, e sim comprados pela instituição e regulados pela padronização local. Consequência direta: a lista que vale para o que você vai escrever hoje é a padronização da comissão de controle de infecção do seu serviço, e o antibiograma pode listar drogas que a sua farmácia não tem.

A própria diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos monta o sistema em cima disso. Ela pede que os protocolos clínicos sejam adaptados às condições epidemiológicas locais — prevalência de patógenos e perfil de resistência —, aos recursos diagnósticos e ao arsenal terapêutico da instituição, e observa que a epidemiologia pode variar entre setores de um mesmo hospital. Traduzido para o seu dia: existe um documento no seu serviço que diz o que se usa empiricamente em cada sítio, e conhecê-lo é parte do trabalho. Onde houver time de gerenciamento de antimicrobianos, farmacêutico clínico ou infectologista, a diretriz recomenda usá-los — inclusive para ajuste de posologia e para as adequações periódicas.

Onde não houver nada disso, e é a realidade de boa parte dos hospitais brasileiros, o sistema é você. As três perguntas continuam as mesmas e não dependem de estrutura: o esquema é o mais estreito que cobre o agente identificado? O paciente já pode receber por via oral? Qual é a data em que este tratamento acaba?

E há um último hábito a construir, que é conferir o protocolo antes de obedecer a ele. Protocolo institucional é documento humano, passa por diagramação e por revisões sucessivas, e erra. O protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do hospital universitário de Dourados, na versão 06 de 2026, traz no quadro de doses e intervalos de repique a piperacilina com tazobactam na dose padrão de 3,75 g. Essa dose não existe. A associação é formulada na proporção de oito partes de piperacilina para uma de tazobactam, e os frascos comercializados nessa proporção são de 2,25 g, de 3,375 g e de 4,5 g. Um total de 3,75 g corresponderia a 3,333 g de piperacilina com 0,417 g de tazobactam, combinação que nenhum frasco entrega; 3,375 g, por sua vez, fecha exatamente em 3 g mais 0,375 g. É um dígito perdido — 3,375 virou 3,75 —, e o próprio documento o confirma duas páginas adiante, quando o quadro de ajuste renal escreve as doses como 4 g mais 0,5 g e 2 g mais 0,25 g, ou seja, os frascos reais da proporção de oito para um.

O mesmo protocolo traz uma segunda inconsistência interna, menor mas do mesmo tipo: no quadro de doses e intervalos, a clindamicina aparece com dose padrão de 900 mg; no quadro de substituição para quem tem rótulo de alergia a betalactâmico, a mesma clindamicina, para a mesma finalidade de profilaxia cirúrgica, aparece com 600 mg. Nenhum dos dois valores é absurdo, e por isso mesmo a discrepância passa despercebida — mas quem prescreve a partir de um quadro e confere pelo outro encontra números diferentes para a mesma decisão. Nenhuma dessas duas observações desqualifica o documento, que é bom e é a melhor fonte brasileira aberta sobre o assunto. Elas ensinam a regra que vale para todo protocolo, inclusive o do seu serviço: confira a dose contra a apresentação que existe na farmácia antes de escrever. Dose que não fecha em nenhum frasco é dose que vai virar improviso na bancada do preparo, e improviso na bancada é erro de medicação.

07

A revisão de 48 a 72 horas, item por item

Aprenda a revisar necessidade, espectro, dose, via, duração e controle do foco em cada antibiótico.

  1. 11. Abra o resultado das culturas antes de imprimir a prescrição. Se não voltou, registre que não voltou e mantenha a revisão agendada para o dia seguinte.
  2. 22. Nomeie a indicação em uma frase: qual sítio, qual síndrome, qual hipótese. Se você não consegue escrever a frase, o antimicrobiano perdeu o dono e a pergunta passa a ser se ele ainda deve existir.
  3. 33. Decida se o que cresceu é infecção, colonização ou contaminação — sítio estéril, germe de pele, síndrome clínica compatível. Colonização e contaminação não mudam prescrição.
  4. 44. Se é infecção, desça a escada do espectro até a droga mais estreita eficaz contra o agente identificado, e escreva no prontuário o motivo da troca.
  5. 55. Se as culturas são negativas e o paciente melhorou, a pergunta não é qual droga usar, e sim se a infecção existia — culturas negativas em paciente estável autorizam suspender, não ampliar.
  6. 66. Se o paciente não melhorou, procure antes de ampliar: coleção a drenar, dispositivo a retirar, obstrução a desobstruir, diagnóstico a rever. Ampliar resolve só um dos quatro motivos de falha.
  7. 77. Esclareça a reação atribuída ao antibiótico. Intolerância claramente não alérgica pode permitir correção do registro; história desconhecida exige estratificação de risco, não retirada automática do alerta. Escolha a droga e necessidade de teste/provocação conforme reação e cadeia lateral.
  8. 88. Verifique a via: paciente afebril, hemodinamicamente estável, comendo e com trato gastrointestinal funcionante, com droga de boa absorção disponível, sai da veia.
  9. 99. Confira a dose contra a função renal de hoje, não contra a da admissão. Ajustar dose não é descalonar.
  10. 1010. Escreva a data de término na prescrição e na evolução. Tratamento sem data de término é tratamento que termina quando alguém se lembra.

Os quatro motivos de o paciente não melhorar em 72 horas — e por que só um deles pede espectro maior

Primeiro: o agente não está coberto pelo esquema. É o único motivo que ampliar resolve, e costuma ser o menos frequente. Segundo: o agente está coberto, mas a droga não alcança o sítio em concentração útil — abscesso, osso, próstata, sistema nervoso central, vegetação valvar, biofilme de dispositivo. Terceiro: há foco que exige procedimento, e nenhum antimicrobiano substitui uma drenagem, a retirada de um cateter ou a desobstrução de uma via. Quarto: o diagnóstico está errado e a febre não é infecciosa — trombose, medicamento, doença de base, transfusão, hematoma em reabsorção. Na dúvida entre os quatro, o exame que mais rende não é uma cultura nova: é reexaminar o paciente inteiro e olhar os sítios de dispositivo.

A escada do espectro para enterobactéria de foco urinário ou abdominal

DegrauAntimicrobianoQuando é a escolha certaClassificação AWaRe na Rename 2024
1 — mais estreitoAmoxicilina ou cefalexina, via oralIsolado comunitário sensível, paciente estável, sítio que a droga alcança, via oral disponívelAcesso
2Amoxicilina com clavulanato de potássio 500 mg + 125 mg, via oralIsolado sensível com necessidade de cobertura de produtor de betalactamase; alternativa oral em cistite e pielonefriteAcesso
3Ceftriaxona ou cefotaxima, intravenosaPielonefrite complicada, infecção comunitária que exige via parenteral, isolado sensível a cefalosporina de terceira geraçãoAlerta
4Ciprofloxacino, via oral ou intravenosaPielonefrite quando o betalactâmico não serve; reservar pelo impacto ecológico e pelo risco de mascarar tuberculoseAlerta
5CefepimaSuspeita de germe do grupo com betalactamase induzível, ou perfil local que exigeFora da Rename 2024 — padronização institucional
6Piperacilina com tazobactamInfecção associada à assistência, uso recente de antimicrobiano, gravidade com necessidade de cobertura de PseudomonasFora da Rename 2024 — padronização institucional
7 — mais largoCarbapenêmicoProdutor de betalactamase de espectro estendido documentado, ou perfil local que não deixa alternativaFora da Rename 2024 — padronização institucional

Rótulo de alergia a betalactâmico: o que a história decide

História que o paciente contaO que isso provavelmente éConduta na enfermaria
Distinguir sintomas claramente não alérgicos, como náusea/diarreia isoladas, de história desconhecida ou mal lembrada.Intolerância não alérgica documentada versus reação ainda não caracterizada.Na intolerância claramente não alérgica, corrigir o registro com história documentada. História vaga não prova ausência de alergia: estratificar risco e considerar provocação supervisionada quando indicada; o uso de outro betalactâmico depende do tipo de reação e da cadeia lateral.
Prurido, urticária, angioedema, broncoespasmo, edema de laringe, náusea com hipotensão, ocorridos de minutos a poucas horas depois da doseReação possivelmente mediada por imunoglobulina EEvite o culpado e os betalactâmicos de cadeia lateral idêntica ou semelhante à dele, e encaminhe para avaliação especializada com teste cutâneo e, se possível, teste de provocação, que é o padrão-ouro. Se a síndrome pede betalactâmico agora, a cefalosporina de cadeia lateral diferente entra em dose plena, sem esperar o especialista — na anafilaxia, com a primeira dose dada onde a anafilaxia se trata. Depois de reação a aminopenicilina, cefalexina e cefadroxila, que têm a cadeia da amoxicilina e da ampicilina, só entram por provocação graduada com especialista (Reações de hipersensibilidade a drogas, apostila de Imunologia)
Exantema maculopapular leve, urticária tardia, erupção fixa ou reação local à injeção, surgidos dias depois do início do antibiótico, em geral na primeira ou na segunda semana, sem febre, bolha, lesão de mucosa ou órgão acometidoReação tardia de baixo riscoEvite o culpado até a provocação direta, que é o que retira o rótulo; betalactâmico de cadeia lateral diferente pode ser prescrito agora. Cefalexina e cefadroxila, que têm a cadeia da amoxicilina e da ampicilina, ficam fora depois de reação a aminopenicilina (Reações de hipersensibilidade a drogas, apostila de Imunologia)
Síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica, pustulose exantemática generalizada aguda, reação a fármaco com eosinofilia e sintomas sistêmicos, doença do soro-símile, citopenia imune, hepatite ou nefrite intersticialReação grave documentada, não mediada por imunoglobulina EExclusão do betalactâmico é necessária. Provocação e dessensibilização estão formalmente contraindicadas. O rótulo aqui está certo e deve ser mantido com a descrição da reação

Durações com fonte brasileira, para não inventar o número

SituaçãoEsquema e duraçãoFonte
Cistite aguda não complicadaNitrofurantoína 100 mg por via oral, quatro vezes ao dia, por 5 dias; ou fosfomicina 3 g por via oral em dose únicaProtocolo Colaborativo de manejo da infecção do trato urinário no adulto e na gestante, Belo Horizonte, 2022 — recomendação forte
Cistite aguda complicadaAmoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg por via oral, três vezes ao dia, por 7 dias; alternativa, ciprofloxacino 500 mg por via oral duas vezes ao dia por 7 diasProtocolo Colaborativo de Belo Horizonte, 2022 — recomendação forte, com urocultura colhida no início e reavaliação em 72 horas
Pielonefrite aguda não complicadaCiprofloxacino 500 mg por via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias; ou levofloxacino 750 mg por via oral, uma vez ao dia, por 5 a 7 diasProtocolo Colaborativo de Belo Horizonte, 2022 — a maioria não exige internação e o tratamento inicial deve ser por via oral
Pielonefrite aguda complicadaCeftriaxona 1 g por via intravenosa a cada 12 horas, avaliando associação com gentamicina 5 mg/kg a cada 24 horas; duração de 7 a 14 diasProtocolo Colaborativo de Belo Horizonte, 2022 — internação, urocultura no início, e um ensaio de não inferioridade sustentando 7 dias quando há melhora sintomática
Profilaxia antimicrobiana em cirurgiaDose única é a regra, com repique intraoperatório conforme a meia-vida da droga; até 48 horas apenas em implante de prótese de grande porte, cirurgia cardíaca, cirurgia de cólon e cirurgia arterial de membros inferioresProtocolo PRT.CCIRAS.015 do hospital universitário de Dourados, versão 06, 2026 — profilaxia não se prolonga por dreno, sonda, cateter ou cânula

A escada do espectro é uma ordenação prática para enterobactérias, não uma classificação farmacológica completa: cobertura de Gram-positivo, de anaeróbio e de germe atípico segue lógica própria e o antibiograma manda em todos os casos.

A classificação AWaRe da Organização Mundial da Saúde, adotada pela Rename, ordena os antimicrobianos em Acesso, Alerta e Reservado. Descalonar geralmente significa andar de Alerta para Acesso.

Cefepima, piperacilina com tazobactam, carbapenêmicos, vancomicina, oxacilina, ampicilina e cefazolina não constam da Rename 2024: são compra institucional, governada pela padronização local.

As durações da tabela valem para o cenário descrito. Duração de pneumonia adquirida na comunidade e critérios de estabilidade clínica para alta são do capítulo de pneumonia na comunidade; o pacote da primeira hora da sepse é do capítulo de sepse; a busca de foco no paciente que faz febre internado é do capítulo de febre no paciente internado.

O ajuste de dose por função renal ou hepática segue o capítulo próprio desta apostila. Reduzir dose por creatinina não é descalonar: espectro e posologia são decisões separadas.

Onde houver time de gerenciamento de antimicrobianos, farmacêutico clínico ou infectologista, a diretriz nacional recomenda acioná-los para a escolha inicial e para as adequações periódicas.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo acompanha o senhor Lourival, do leito 5, porque ele é o caso mais comum da enfermaria brasileira: infecção urinária alta em diabético, esquema largo iniciado na madrugada, cultura sensível voltando no terceiro dia. Cada marco traz o que se faz e a prescrição por extenso, com a fonte que sustenta a dose.

Duas advertências antes de começar. As doses valem para adulto com função renal preenchida no próprio marco; o ajuste por clearance é assunto do capítulo de ajuste de dose desta apostila. E a padronização do seu serviço tem precedência sobre qualquer lista: o que está aqui é o raciocínio, não a padronização.

  1. Dia 0, madrugada — o esquema que você vai herdar

    Alguém colheu urocultura e duas hemoculturas e começou cobertura larga porque o paciente tinha calafrio, taquicardia, febre alta e creatinina subindo, e porque não havia resultado nenhum. Essa é a conduta certa, e o protocolo brasileiro de sepse reforça os dois lados dela: colha antes da primeira dose, e não postergue a dose por causa da coleta. O que faz esse marco importar para você, que recebe o paciente na enfermaria de manhã, é uma pergunta única: está registrado o que foi colhido, de onde, e a que horas a primeira dose correu? Sem isso, a leitura da cultura no terceiro dia perde metade do valor.

    Prescrição
    • Registro obrigatório na evolução de admissão: material colhido, sítio, horário da coleta e horário da primeira dose
    • Hipótese diagnóstica escrita por extenso, com sítio e síndrome — é ela que autoriza o descalonamento depois
    • Esquema empírico conforme a padronização do serviço e o perfil local de resistência (diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos, Anvisa, 2023)
  2. Dia 1, sete da manhã — a primeira revisão possível

    A cultura ainda não voltou, e ainda assim há três decisões a tomar. A primeira é nomear a indicação em uma frase, porque antimicrobiano sem indicação nomeada é o que mais dura. A segunda é conferir a dose contra a função renal de hoje: o senhor Lourival entrou com creatinina de 1,6 mg/dL e está melhorando, e uma dose reduzida na admissão pode virar subdose amanhã. A terceira é escrever uma data provável de término já agora, mesmo sabendo que ela pode mudar — a data escrita é o que faz alguém precisar justificar a mudança.

    Prescrição
    • Indicação escrita na prescrição e na evolução: pielonefrite aguda complicada em diabético, foco urinário, culturas pendentes
    • Reconferência de dose contra o clearance estimado de hoje, com o método e o peso usados registrados
    • Data provável de término anotada, com a observação de que será revista com o resultado da cultura
    • Revisão da prescrição agendada para o dia seguinte — a diretriz nacional recomenda revisão diária onde for viável
  3. Dia 2 a 3, com a cultura na mão — o marco do descalonamento

    É o marco que dá título ao capítulo, e ele tem hora: a diretriz nacional pede que o prescritor revise a prescrição depois de dois ou três dias de tratamento, quando há mais informação clínica e microbiológica disponível, avaliando a possibilidade de redução do espectro conforme os achados microbiológicos e a possibilidade de passagem para a via oral. No leito 5, a urocultura mostrou Escherichia coli sensível a tudo o que foi testado, inclusive a betalactâmicos estreitos, e o paciente está afebril há 24 horas. A piperacilina com tazobactam sai. Não sai porque falhou — sai porque nunca foi necessária contra esse isolado, e porque o que ela cobre a mais é exatamente o que ela seleciona a mais.

    Prescrição
    • Suspender piperacilina com tazobactam e iniciar ceftriaxona 1 g por via intravenosa a cada 12 horas (esquema de pielonefrite complicada do Protocolo Colaborativo de Belo Horizonte, 2022)
    • Registrar na evolução: agente identificado, perfil de sensibilidade, motivo do descalonamento e o parâmetro que faria voltar atrás
    • Manter a mesma data de término prevista — descalonar reduz espectro, não encurta tratamento
    • Se as culturas tivessem voltado negativas com o paciente estável, a decisão seria suspender e reavaliar o diagnóstico, não ampliar
  4. Dia 2 a 3, no leito ao lado — desfazer o rótulo de alergia

    Distinguir história claramente não alérgica, como náusea isolada ou alergia apenas familiar, de reação remota desconhecida. História vaga não prova ausência de alergia. Estratificar risco e documentar detalhes; em baixo risco, provocação oral direta supervisionada pode confirmar tolerância conforme protocolo. Cefalosporina apropriada pode ser usada em muitos relatos não anafiláticos não confirmados, sem declarar o rótulo inteiro removido. Anafilaxia e reações cutâneas/órgão graves exigem vias próprias de avaliação; não provocar nem dessensibilizar reações graves tardias por rotina.

    Prescrição
    • Anamnese dirigida da reação alérgica, registrada com as palavras do paciente na evolução
    • Se a história for claramente incompatível com alergia, corrigir o registro com a justificativa. Se for apenas vaga/remota, manter a incerteza documentada, estratificar e seguir via de avaliação/provocação supervisionada quando indicada. Escolher betalactâmico seguro para o perfil de reação e síndrome, sem exclusão indiscriminada nem liberação automática de qualquer agente.
    • Se a história sugerir reação imediata: não usar o culpado nem betalactâmico de cadeia lateral idêntica ou semelhante — cefalexina e cefadroxila, depois de reação a amoxicilina ou ampicilina —; se a síndrome pede betalactâmico, prescrever o de cadeia lateral diferente em dose plena, e, se houve anafilaxia, dar a primeira dose onde a anafilaxia se trata; e solicitar avaliação de alergista, com teste cutâneo e, se possível, teste de provocação, que é o método padrão-ouro
    • Se a história for de exantema tardio leve, sem febre, bolha, lesão de mucosa ou órgão acometido: evitar o culpado até a provocação direta e, se a síndrome pede betalactâmico, prescrever o de cadeia lateral diferente — cefalexina e cefadroxila ficam fora depois de reação a amoxicilina ou ampicilina
    • Se houve reação cutânea grave ou reação de órgão: manter a exclusão, escrever qual foi a reação no campo de alergias, e não solicitar provocação nem dessensibilização, que estão formalmente contraindicadas
  5. Dia 3 a 4 — a troca para a via oral

    A troca de via é o descalonamento que o paciente sente. Ela exige cinco condições ao mesmo tempo: paciente afebril por pelo menos 24 horas, hemodinamicamente estável, com trato gastrointestinal funcionante e aceitando dieta, sem sítio que exija concentração parenteral, e com uma droga oral eficaz contra o agente identificado. Preenchidas as cinco, o acesso venoso perde a razão de existir — e cada dia a mais de acesso é risco de flebite e de infecção de corrente sanguínea. O protocolo de infecção urinária de Belo Horizonte é explícito ao permitir uma primeira dose endovenosa seguida de antibioticoterapia sequencial por via oral na pielonefrite não complicada, e a via oral é ali a primeira escolha.

    Prescrição
    • Suspender ceftriaxona e iniciar amoxicilina com clavulanato de potássio 500 mg + 125 mg por via oral a cada 8 horas, completando a duração prevista (alternativa de pielonefrite do Protocolo Colaborativo de Belo Horizonte, 2022; apresentação em comprimido conforme Rename 2024, AWaRe Acesso)
    • Retirar o acesso venoso periférico se não houver outra medicação parenteral, e registrar a retirada
    • Registrar as cinco condições que autorizaram a troca, uma a uma, na evolução do dia
  6. Dia 3 a 4 — a data de término, escrita e justificada

    Definir duração pelo foco, controle da fonte, fármaco efetivo e evolução. IDSA 2025 admite, em ITU complicada com resposta adequada, 5–7 dias de fluoroquinolona ou sete dias de outro agente eficaz em muitos pacientes, com ressalvas sobre populações excluídas dos estudos. Contar da primeira terapia efetiva. Homem febril com suspeita de prostatite, abscesso, obstrução, imunossupressão ou resposta lenta pode requerer duração diferente; nem sete nem catorze são respostas universais.

    Prescrição
    • Definir data de término após confirmar agente, dose, início da terapia efetiva e ausência de fatores que peçam curso diferente. No caso com rápida resposta, sete dias pode ser apropriado; registrar a decisão e a revisão de possível acometimento prostático.
    • Justificativa por escrito: agente identificado e sensível, foco urinário sem obstrução nem coleção, afebril desde o segundo dia, função renal recuperada
    • Não colher urocultura de controle rotineira em paciente clinicamente resolvido, salvo indicação específica. Hemocultura de controle é outra decisão, importante em bacteremia por S. aureus, candidemia e situações selecionadas de persistência/foco endovascular; não confundir tipos de cultura.
  7. A qualquer momento, quando não melhora — reinvestigar antes de ampliar

    Se em 48 a 72 horas não houve melhora, a janela é de investigação e não de escalonamento automático: é assim que o protocolo de infecção urinária caracteriza falha do tratamento empírico inicial, indicando ali a coleta que não foi feita antes. Percorra os quatro motivos na ordem, porque três deles não se resolvem com droga maior: agente não coberto, droga que não alcança o sítio, foco que exige procedimento, diagnóstico errado. Reexaminar o paciente inteiro, incluindo todos os sítios de dispositivo, rende mais do que qualquer exame novo.

    Prescrição
    • Reexame físico completo com inspeção de todos os sítios de punção, dreno, sonda e ferida operatória
    • Imagem dirigida ao sítio suspeito quando houver hipótese de coleção, obstrução ou abscesso — o procedimento resolve o que o antimicrobiano não resolve
    • Colher cultura direcionada quando houver indicação, idealmente antes de mudar o esquema, sem atrasar tratamento de instabilidade. Evitar repetição indiscriminada de todas as culturas.
    • Reavaliar diagnóstico, fonte, dose/exposição e cobertura em paralelo. Se houver sepse/instabilidade ou hipótese plausível de agente resistente, ajustar tratamento prontamente enquanto se investiga e se busca controle de foco; não esperar terminar toda investigação para cobrir adequadamente.
  8. Dia do término — parar, e deixar registrado

    Parar antibiótico é um ato que precisa de tanta justificativa quanto começar, e por isso ele merece uma linha na evolução em vez de simplesmente sumir da folha. Escreva o que foi tratado, com o quê, por quantos dias, com que resposta, e o que fica pendente. Se ainda houver dispositivo no paciente, a data de término do antimicrobiano é também o momento de revisar se o dispositivo continua necessário — porque a profilaxia antimicrobiana não protege dispositivo, e o protocolo de profilaxia cirúrgica recusa explicitamente o prolongamento em quem persiste com dreno, sonda vesical, cateter venoso ou cânula orotraqueal.

    Prescrição
    • Suspensão do antimicrobiano na data prevista, com registro do curso completo: droga, dose, via, dias e desfecho
    • Revisão de todos os dispositivos: dreno, sonda vesical, acesso venoso — retirar o que não tiver indicação escrita para hoje
    • Orientação ao paciente sobre indicação, via, posologia, tempo de tratamento, efeitos adversos e sinais que devem fazê-lo procurar atendimento, incluindo os que podem aparecer depois da alta, conforme as ações de educação previstas na diretriz nacional
    • A receita de alta, o retorno e o relatório seguem o capítulo de alta hospitalar desta apostila
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Como saber se está funcionando

Antibiótico é das poucas condutas da enfermaria em que o parâmetro mais importante não é um número do paciente: é um resultado de laboratório que chega num horário que ninguém controla. Por isso a reavaliação aqui tem dois relógios — o do paciente, que corre em horas, e o do laboratório, que corre em dias.

Um alerta que atravessa todos os parâmetros abaixo: nenhum deles isolado autoriza mudar espectro. O que autoriza mudar é a leitura conjunta de resposta clínica e achado microbiológico, e é exatamente essa leitura conjunta que a revisão de 48 a 72 horas existe para forçar.

Curva térmica e frequência dos picosA cada aferição de rotina; a leitura que decide é a das 48 a 72 horas

Esperado: Redução da amplitude e do intervalo entre picos a partir das primeiras 24 a 48 horas, com tendência à normalização até o terceiro dia em infecção comunitária com foco controlado. Um pico isolado no segundo dia, em paciente que no conjunto melhorou, não é falha.

Se não melhora: Febre mantida em 72 horas é gatilho de investigação e não de escalonamento. Percorra os quatro motivos na ordem: agente não coberto, droga que não alcança o sítio, foco que pede procedimento, diagnóstico não infeccioso. Reexamine o paciente inteiro antes de pedir qualquer exame novo.

O resultado da cultura e do antibiogramaAbrir o sistema toda manhã, antes de imprimir a prescrição; o resultado convencional costuma sair entre 48 e 72 horas

Esperado: Agente identificado com perfil de sensibilidade, permitindo descer a escada do espectro até a droga mais estreita eficaz. É o único parâmetro capaz de transformar a aposta empírica em decisão informada.

Se não melhora: Culturas negativas com paciente que melhorou não pedem espectro maior: pedem que se pergunte se a infecção existia. Se ela existiu e as culturas foram colhidas depois da primeira dose, a negatividade quase não informa, e a duração passa a ser decidida pela clínica e pelo sítio. Se as culturas voltarem com germe que não bate com a síndrome, releia as três perguntas de contaminação, colonização e infecção antes de trocar.

Sinal local do sítio da infecçãoExame físico dirigido todo dia, no mesmo horário, com a marca do eritema desenhada quando houver

Esperado: Regressão do eritema para dentro da marca do dia anterior na celulite; redução da secreção e do endurecimento na ferida; desaparecimento da dor à percussão do ângulo costovertebral na pielonefrite. É o parâmetro que a curva térmica não substitui, porque ele responde à droga e ao controle do foco ao mesmo tempo.

Se não melhora: Sítio que não regride com paciente afebril aponta para coleção, corpo estranho, dispositivo infectado ou penetração insuficiente da droga naquele tecido. É indicação de imagem dirigida e de avaliação sobre procedimento, não de trocar a droga por outra do mesmo grupo.

Função renal e o marcador de toxicidade da droga escolhidaCreatinina diária enquanto houver droga nefrotóxica ou instabilidade; imediatamente se o débito urinário cair

Esperado: Creatinina estável ou em queda, com a dose recalculada contra o clearance de hoje. Em vancomicina e aminoglicosídeo, a vigilância de função renal é parte do tratamento, e onde houver dosagem sérica disponível ela orienta a dose.

Se não melhora: Creatinina subindo em paciente que melhorou clinicamente sugere toxicidade da própria terapia — e é mais um argumento para descalonar, não para manter. Reveja também volume, contraste, anti-inflamatório e diurético. O ajuste em si é do capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila; o que é daqui é lembrar que reduzir dose não reduz espectro.

Diarreia e o rastro que o antimicrobiano deixaPerguntar ativamente todo dia sobre número e consistência das evacuações, em todo paciente em uso de antimicrobiano

Esperado: Ausência de diarreia. Fezes amolecidas isoladas, sem febre, sem dor abdominal e sem leucocitose, costumam ser efeito osmótico ou de dieta e não exigem conduta além de observar.

Se não melhora: Diarreia aquosa com febre, dor abdominal ou leucocitose em paciente que está ou esteve recentemente em antimicrobiano de amplo espectro levanta colite por Clostridioides difficile. A armadilha é a interpretação inversa: ler a diarreia como sinal de infecção não controlada e ampliar o espectro é alimentar exatamente o mecanismo que a produziu. Suspenda o antimicrobiano desnecessário e investigue a colite; o diagnóstico e o tratamento da infecção por Clostridioides difficile estão no capítulo Diarreia aguda infecciosa e reidratação, na apostila de Gastroenterologia.

Os dias decorridos contra a data de término escritaTodo dia, na revisão da prescrição, contando a partir da primeira dose

Esperado: Número de dias decorridos e duração provável explícitos na prescrição — são dois dos itens que a diretriz nacional lista como conteúdo obrigatório da revisão, ao lado do diagnóstico atualizado, dos resultados laboratoriais, da possibilidade de redução de espectro e da possibilidade de passagem para a via oral.

Se não melhora: Se ninguém consegue dizer em que dia o tratamento termina, ele não termina. Escreva a data hoje e justifique. E se a data chegar com o paciente bem, pare: prorrogar sem motivo novo não é cautela, é omitir uma decisão. Prorrogação legítima tem nome — foco não controlado, bacteremia por agente que exige curso longo, endocardite, osteomielite, abscesso não drenado — e esse nome vai escrito na evolução.

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Onde o erro machuca

Tratar a cultura em vez de tratar o paciente

O dano: É o erro mais frequente e o mais caro da enfermaria. Uma urocultura positiva em paciente sem sintoma urinário, um aspirado traqueal positivo em quem não tem pneumonia, uma cultura de ferida positiva em ferida sem sinal inflamatório: cada um desses papéis vira, em média, um curso de antibiótico que não trata nada. O paciente ganha pressão seletiva, risco de colite por Clostridioides difficile, risco de lesão renal e uma segunda doença fabricada pelo hospital. Pior: o resultado positivo encerra a investigação, e o foco verdadeiro da febre segue sem ser procurado.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer mudança de conduta, faça as três perguntas na ordem: o sítio é normalmente estéril? o germe é habitante habitual da pele de quem colheu? existe síndrome clínica compatível naquele órgão? Se a resposta a alguma delas afasta infecção, registre o achado como dado de flora e não como diagnóstico, para que o plantonista seguinte não o leia como prescrição pendente.

Manter o esquema largo porque o paciente está melhorando

O dano: A frase 'está melhorando, não mexe' supõe que a melhora prova que aquela droga específica era necessária, e ela não prova nada disso: prova apenas que o agente estava coberto. Manter piperacilina com tazobactam em quem tem Escherichia coli sensível a betalactâmico estreito mantém, por vários dias, uma pressão seletiva que não contribuiu em nada para a melhora — e mantém o acesso venoso, a internação e o custo junto.

Como pegar a tempo: Trate a revisão de 48 a 72 horas como marco com hora marcada, do jeito que a diretriz nacional a descreve, e não como uma boa intenção. Escreva no prontuário o motivo do descalonamento e o parâmetro que faria voltar atrás: decisão registrada com critério de reversão é decisão que o próximo plantonista consegue sustentar.

Ampliar o espectro assim que o paciente não melhora

O dano: Ampliar ataca um dos quatro motivos de falha e costuma ser o menos frequente deles. Nos outros três — droga que não alcança o sítio, foco que exige procedimento, diagnóstico não infeccioso — ampliar adiciona toxicidade, adia a conduta que resolveria e transfere o paciente para um arsenal do qual é muito mais difícil descer depois. O abscesso que precisava de dreno continua lá, agora com o paciente em carbapenêmico.

Como pegar a tempo: Diante de não melhora em 48 a 72 horas, reexamine o paciente inteiro antes de mexer na prescrição, com inspeção de todos os sítios de dispositivo, e colha do sítio provável. Só amplie quando a hipótese explícita for agente não coberto, e escreva qual agente você passou a cobrir e por quê.

Aceitar o rótulo de alergia a penicilina sem perguntar o que aconteceu

O dano: O campo de alergias do prontuário se propaga por cópia e sobrevive a décadas sem que ninguém verifique a história. O custo é concreto: o paciente sai de um betalactâmico barato, eficaz e de toxicidade baixa e entra em clindamicina, vancomicina, ciprofloxacino ou aminoglicosídeo — mais colite, mais nefrotoxicidade, mais pressão seletiva, mais falha terapêutica, internação mais longa e mais readmissão. E o risco que essa troca pretende evitar não existe em mais de nove entre dez rotulados.

Como pegar a tempo: Pergunte três coisas em três minutos: o que aconteceu, quanto tempo depois da dose, e se precisou de atendimento. História vaga ou incompatível com reação alérgica dispensa teste cutâneo e libera o betalactâmico — corrija o campo do prontuário e registre a história que sustentou a correção. Reserve a exclusão definitiva para reação cutânea grave ou reação de órgão documentada, e nesses casos escreva no campo qual foi a reação, não apenas o nome da droga.

Prolongar o antimicrobiano porque o paciente ainda tem dreno, sonda ou cateter

O dano: É a racionalização mais comum do antimicrobiano que não acaba, e ela não se sustenta em fonte nenhuma. O protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do hospital universitário de Dourados recusa explicitamente o prolongamento quando o paciente persiste com dreno, sonda vesical, cateter venoso ou cânula orotraqueal, porque a profilaxia não é eficaz nessas situações. O que o antimicrobiano prolongado faz, nesses casos, é selecionar resistência dentro do biofilme do próprio dispositivo — ou seja, piora exatamente o problema que pretendia prevenir.

Como pegar a tempo: Separe as duas decisões: a duração do tratamento se decide pelo sítio, pelo agente e pela resposta; a permanência do dispositivo se decide pela indicação de hoje. Se o dispositivo preocupa, a conduta é retirá-lo assim que possível, não cobri-lo com antibiótico. E lembre que profilaxia e tratamento preventivo são coisas distintas: o segundo tem indicação própria, como a fratura exposta e a úlcera péptica perfurada sem peritonite.

Deixar o tratamento sem data de término, ou completar 14 dias por hábito

O dano: Tratamento sem data escrita acaba quando alguém se lembra, e o esquecimento sempre erra para mais. O 'completar 14 dias' que aparece nas evoluções raramente vem de uma fonte: vem de arredondamento. Cada dia adicional é pressão seletiva, risco de colite, risco de lesão renal e um dia a mais de acesso venoso, sem contrapartida de eficácia. Nos indicadores de consumo, a conta é literal: um tratamento de sete dias com dois antimicrobianos combinados soma catorze dias de terapia, contra sete da monoterapia pelo mesmo período.

Como pegar a tempo: Defina a duração no dia em que você tem o agente, o foco e a resposta, escreva a data do último dia na prescrição e na evolução, e justifique com uma frase. Quando existir fonte para a situação, use-a: na pielonefrite complicada, por exemplo, o protocolo de referência prevê de 7 a 14 dias e registra ensaio de não inferioridade sustentando 7 dias quando há melhora sintomática. Prorrogação legítima tem nome — foco não controlado, endocardite, osteomielite, abscesso não drenado — e esse nome vai escrito.

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O que dizer ao paciente e à família

Descalonar e parar antibiótico são condutas que exigem duas conversas que quase nenhuma outra conduta exige: uma com quem vai receber menos remédio do que recebia, e outra com quem prescreveu o remédio anterior. Fazer as duas bem é habilidade clínica, e a diretriz nacional inclui a orientação do paciente e do acompanhante entre as ações do programa — indicação, via, posologia, tempo de tratamento, efeitos adversos e os sinais que podem aparecer depois da alta e mesmo depois de o medicamento ter sido interrompido.

O paciente ou a família pede um antibiótico mais forte

"Eu entendo a preocupação, e ela é justa: o senhor quer o melhor tratamento. Deixa eu explicar o que é 'mais forte' aqui, porque a palavra engana. Antibiótico não tem força, tem alvo. O exame do senhor mostrou exatamente qual bactéria está causando isso, e mostrou também que ela morre com este remédio aqui. Um remédio de alcance maior não mataria essa bactéria melhor nem mais rápido — mataria, junto, as bactérias boas do intestino do senhor, e é assim que aparece diarreia grave no hospital. Então o que estou fazendo não é dar menos: é dar exatamente o que trata o que o senhor tem. Se em dois dias a febre voltar ou a dor piorar, eu revejo tudo de novo, e o senhor pode me chamar antes disso."

Não diga: Evite responder com autoridade sem explicação ('quem decide isso sou eu', 'não é assim que funciona'), e evite prometer que não haverá recaída. Também não use o argumento do custo ou do gasto do hospital: para quem está na cama, ele soa como racionamento e destrói a confiança na decisão clínica.

Explicar que o antibiótico vai ser trocado por um mais estreito, e isso parece uma piora

"O que aconteceu foi bom, e eu quero que a senhora entenda por quê. Quando a senhora chegou, na madrugada de domingo, a gente não sabia qual era a bactéria. Então usamos um remédio que cobre muitas possibilidades ao mesmo tempo — é o que se faz quando não se sabe. Ontem à noite o laboratório respondeu: é esta bactéria aqui, e ela é sensível a um remédio bem mais simples. Trocar agora não é recuar, é acertar a mira. E tem um ganho concreto: como esse remédio pode ser tomado pela boca, a senhora deixa de precisar da agulha no braço, o que já tira um risco de infecção. O tratamento continua com o mesmo tempo total que a gente combinou."

Não diga: Não diga que 'o outro era muito forte' nem 'estava exagerado', porque isso soa como acusação a quem prescreveu e assusta quem recebeu. Também não apresente a troca como economia. E não deixe de dizer que a duração total continua a mesma, senão a família entende que o tratamento foi encurtado.

Falar com o colega que prescreveu o esquema anterior

"Oi, tudo bem? Estou com o senhor Lourival, do 5, que você recebeu no domingo. Queria te alinhar antes de mudar a prescrição. A urocultura voltou ontem às dez da noite: Escherichia coli sensível a betalactâmico estreito, e ele está afebril desde ontem de manhã, com a creatinina normalizada. Vou descalonar a piperacilina com tazobactam e deixar registrada a duração total de sete dias. Estou te avisando porque a decisão da madrugada era a certa com a informação que existia naquela hora — só mudou o que a gente sabe. Alguma ressalva do teu lado, alguma coisa do exame dele que eu não vi?"

Não diga: Evite 'estava errado', 'não precisava disso' e qualquer versão de correção pública, inclusive na evolução escrita. Evite também o extremo oposto, que é não avisar e simplesmente trocar: o colega descobre pelo sistema e o próximo descalonamento fica mais difícil para todo mundo. E nunca use a diferença de opinião na frente do paciente ou da família.

Desfazer com o paciente um rótulo de alergia que ele carrega há décadas

"Dona Iolanda, eu quero entender melhor uma coisa que está escrita na sua ficha. Está escrito que a senhora é alérgica a penicilina. A senhora lembra o que aconteceu? Foi quanto tempo depois de tomar — foi na mesma hora, no mesmo dia? Apareceu mancha, inchaço no rosto, falta de ar? A senhora precisou ir ao pronto-socorro? ... Então a senhora não lembra, e quem contava era a sua mãe. Isso é muito comum, e eu vou te explicar por que importa: quando a gente carrega esse aviso sem saber o que houve, acaba usando remédios piores, que dão mais diarreia e funcionam menos, como está acontecendo com a sua perna. A maioria das pessoas com esse aviso na ficha não tem alergia nenhuma. Com a história que a senhora me contou, eu me sinto seguro para usar o remédio certo, e vou ficar de olho na senhora. Se a senhora preferir, posso pedir a avaliação de um especialista antes."

Não diga: Não diga 'a senhora não é alérgica' como afirmação categórica antes de ter a história inteira, e não desfaça o rótulo diante de história de reação imediata ou de reação cutânea grave. Não trate a crença do paciente como bobagem — ela veio de alguém que cuidava dele. E jamais retire o aviso do prontuário sem escrever a história que sustentou a retirada: o próximo médico precisa da razão, não só da conclusão.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando revisar a prescrição de antimicrobiano: marco de 48 a 72 horas ou revisão diária

O momento útil é o de dois a três dias de tratamento. É quando há mais informação clínica e microbiológica disponível, é quando a cultura convencional costuma ter voltado, e é um marco que uma equipe consegue sustentar como rotina, com lista de verificação no prontuário. Marcar um horário fixo transforma a revisão em obrigação verificável em vez de intenção.

Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, Anvisa, revisão 2023 — os prescritores devem ser encorajados a revisar a prescrição após dois ou três dias de tratamento

O momento ideal não está bem estabelecido na literatura disponível, e revisões diárias, até que o diagnóstico definitivo e a duração estejam estabelecidos, otimizam o uso do antimicrobiano e reduzem seu consumo. Onde for viável, a revisão deve ser diária — a decisão que espera até o terceiro dia perde as janelas do primeiro e do segundo, que são as de suspender o que nunca teve indicação.

Diretriz Nacional de Gerenciamento de Antimicrobianos, Anvisa, revisão 2023 — o próprio documento registra a ausência de definição na literatura e recomenda revisão diária onde for viável

Como decidir

Decida pela sua capacidade real de sustentar a rotina. Em enfermaria com equipe fixa, prontuário eletrônico e time de gerenciamento de antimicrobianos, a revisão diária é factível e rende mais, porque pega o antimicrobiano sem indicação já no primeiro dia. Em serviço com plantonistas rotativos e sem apoio, o marco de 48 a 72 horas é o que sobrevive, e um marco cumprido vale mais que uma revisão diária prometida e não feita. Seja qual for a escolha, o que a torna real é o registro: dias decorridos, duração provável e o motivo da manutenção escritos na evolução. E há um caso em que não se espera nenhum dos dois prazos — quando o diagnóstico de infecção cai, a suspensão é imediata.

Quando a via oral é liberada: por critério de estabilidade clínica ou depois de um piso de tempo endovenoso

A via se decide por critério clínico, não por relógio. Na pielonefrite aguda não complicada, a maioria dos pacientes não requer hospitalização e o tratamento inicial deve ser feito por via oral; quando há necessidade de parenteral, o paciente pode receber uma primeira dose endovenosa de antibiótico com boa penetração urinária e seguir com antibioticoterapia sequencial oral. Manter a veia além disso adiciona risco de flebite e de infecção de corrente sanguínea sem ganho farmacológico.

Protocolo Colaborativo de manejo da infecção do trato urinário no adulto e na gestante, Belo Horizonte, 2022 — recomendações fortes, com grau de evidência 1B

Em hospedeiro de risco, um piso de tempo endovenoso e de observação protege contra a deterioração que a estabilidade aparente esconde. Mesmo dispondo de um escore que separa quem poderia ser tratado por via oral, a opção institucional é internar todos os neutropênicos febris por pelo menos 24 horas e só então, com avaliação da equipe assistente e bom suporte social, decidir pela conversão para a via oral.

Protocolo de Neutropenia Febril do Grupo Hospitalar Conceição — opção explícita do serviço, declarada acima do escore de risco

Como decidir

O eixo é o hospedeiro, não a droga. Em paciente imunocompetente, afebril há 24 horas, estável, comendo, com trato gastrointestinal funcionante e agente sensível a uma droga oral eficaz, a via oral é a escolha e adiar não protege ninguém. Em neutropênico, transplantado, cirrótico descompensado ou paciente com absorção duvidosa — vômito, íleo, síndrome de intestino curto, dieta zero —, o piso de observação faz sentido, porque o custo de uma dose que não foi absorvida é assimétrico. Pergunte também pelo sítio: endocardite, meningite, osteomielite e abscesso não drenado têm exigências de concentração que a via oral nem sempre alcança. E pergunte pela logística — quem não tem como voltar ao serviço se piorar precisa de mais margem, não de menos.

O que fazer quando as culturas voltam negativas e o paciente melhorou

Sem achado microbiológico e com o paciente respondendo, a revisão deve caminhar para redução de espectro e, quando o diagnóstico de infecção não se sustenta, para suspensão. A revisão da prescrição existe para confrontar o esquema em curso com o diagnóstico atualizado e com os resultados laboratoriais, e manter amplo espectro sem patógeno documentado é justamente o alvo principal do gerenciamento de antimicrobianos.

Diretriz Nacional de Gerenciamento de Antimicrobianos, Anvisa, revisão 2023 — a revisão confronta esquema, diagnóstico atualizado e resultados, avaliando redução de espectro

Cultura negativa não é o mesmo que ausência de infecção, sobretudo quando colhida depois da primeira dose ou em volume insuficiente. Em infecção com síndrome clínica bem definida e sítio identificado, o curso se completa pela clínica: o protocolo de referência de infecção urinária prescreve durações fixas por cenário e define falha pela ausência de melhora sintomática em 48 a 72 horas, não pelo resultado da cultura.

Protocolo Colaborativo de manejo da infecção do trato urinário no adulto e na gestante, Belo Horizonte, 2022 — durações por cenário e critério clínico de falha

Como decidir

A pergunta que separa as duas posições é uma só: a cultura foi colhida antes da primeira dose? Se foi, e o paciente tem síndrome clínica bem definida com sítio identificado, a negatividade não desfaz o diagnóstico e o curso se completa pela clínica, com a duração da fonte que couber ao cenário. Se foi colhida depois da droga já correndo, a negatividade quase não informa, e a decisão volta inteira para a clínica. Agora, se a síndrome nunca esteve clara — febre isolada, marcador alterado, cultura pedida sem hipótese —, a negatividade é o argumento que faltava para suspender, e suspender é a conduta. Registre em qual dos três cenários você está, porque é isso que o plantonista seguinte precisa saber para não recomeçar do zero.

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O raciocínio, em voz alta

Senhor Adelino Aparício, 58 anos, 82 quilos, sétimo dia de pós-operatório de laparotomia por úlcera péptica perfurada. Recebe cefepima e metronidazol desde o centro cirúrgico. Está afebril há quatro dias, aceitando dieta branda, andando pelo corredor. A ferida operatória tem bordas aproximadas, sem eritema, sem calor, sem secreção. Tem um dreno tubular em flanco direito com débito seroso de 30 mL nas últimas 24 horas. No quarto dia, alguém colheu cultura de secreção da ferida — uma amostra, sem par — e o resultado saiu ontem: Staphylococcus coagulase-negativo, resistente a oxacilina, sensível a vancomicina. A prescrição de hoje mantém cefepima e metronidazol, e a evolução de anteontem diz que o paciente ainda está com dreno. O residente pergunta se você acha que precisa acrescentar vancomicina.

  1. O que penso antes de olhar qualquer exame

    Este paciente está bem. Afebril há quatro dias, comendo, deambulando, ferida com aspecto limpo. Antes de discutir droga nenhuma, preciso responder a uma pergunta que ninguém fez ainda: por que ele está tomando antibiótico hoje? A resposta que a evolução dá é 'ainda está com dreno', e isso não é uma indicação — é a descrição de um dispositivo. Se eu não consigo nomear a indicação em uma frase com sítio e síndrome, o antimicrobiano perdeu o dono, e o problema deixa de ser qual droga usar e passa a ser se alguma droga deve continuar.

  2. Reconstruo a história do esquema, porque ela explica tudo

    A cefepima com metronidazol foi iniciada no centro cirúrgico, e aí faz todo sentido: úlcera perfurada é peritonite estabelecida ou contaminação maciça, dependendo do tempo, e a cobertura de enterobactéria e anaeróbio é a certa. Só que essa foi uma decisão de tratamento, não de profilaxia, e todo tratamento tem duração. Sete dias depois, com controle cirúrgico do foco feito e o paciente respondendo, a pergunta é se o curso já cumpriu o que tinha de cumprir. E vale marcar a diferença que o protocolo de profilaxia cirúrgica faz questão de nomear: profilaxia é uma coisa, tratamento preventivo em contaminação grosseira é outra, e tratamento de infecção estabelecida é uma terceira. Confundir as três é o que produz esquemas que não terminam.

  3. Agora a cultura — e as três perguntas antes de acreditar nela

    Primeira: o sítio é normalmente estéril? Não. Secreção de ferida operatória aberta ao ambiente é sítio colonizável por definição. Segunda: o germe é habitante habitual da pele de quem colheu? Staphylococcus coagulase-negativo é o habitante mais comum da pele humana e o contaminante mais frequente de qualquer cultura; foi uma amostra só, sem par. Terceira: existe síndrome clínica compatível naquele sítio? A ferida não tem eritema, calor, dor nem secreção purulenta, e o paciente está afebril há quatro dias. As três respostas apontam para o mesmo lugar: isso é colonização ou contaminação, não infecção de sítio cirúrgico. O resultado é dado de flora, e vai registrado como tal.

  4. Respondo ao residente — e explico por que a pergunta estava invertida

    Não, não vamos acrescentar vancomicina. Acrescentar vancomicina aqui seria tratar um papel: expõe o paciente a nefrotoxicidade, exige monitorização, mantém acesso venoso e adiciona pressão seletiva, tudo para cobrir um germe que não está causando doença nenhuma. E note a direção do erro: a pergunta que ele fez foi sobre ampliar, quando o problema real do leito 12 é que o esquema deveria ter acabado. É o padrão que se repete na enfermaria inteira — diante de um resultado positivo, a atenção vai toda para o que adicionar, e ninguém percebe que a decisão pendente é a de subtrair.

  5. O dreno não muda a resposta, e vale dizer por quê

    A evolução usa o dreno como justificativa, e ela não se sustenta. O protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do hospital universitário de Dourados é explícito ao recusar o prolongamento do antimicrobiano quando o paciente persiste com dreno, sonda vesical, cateter venoso ou cânula orotraqueal, porque a profilaxia não é eficaz nessas situações. A lógica é direta: o antibiótico não esteriliza um corpo estranho, e o que ele faz dentro do biofilme é selecionar. Se o dreno preocupa, a conduta é reavaliar se ele ainda tem indicação e retirá-lo assim que possível — e é essa a conversa a ter com a equipe cirúrgica, não a de qual droga acrescentar.

  6. A conduta, escrita

    Suspendo cefepima e metronidazol hoje, sétimo dia, com o foco cirurgicamente controlado e o paciente afebril há quatro dias. Registro o curso completo na evolução: droga, dose, via, sete dias, desfecho. Registro a cultura de ferida como dado de flora, com a frase de que não há síndrome clínica correspondente e que ela não fundamenta prescrição. Aciono a equipe cirúrgica para reavaliar a indicação do dreno, com a pergunta objetiva do que mudaria se ele saísse hoje. E deixo escrito o que dispara reavaliação: febre nova, eritema ou secreção purulenta na ferida, dor abdominal, ou mudança no aspecto e no volume do débito do dreno. Quem vier amanhã não precisa refazer o raciocínio — precisa apenas conferir os gatilhos.

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Faça você

Senhor Firmino Quaresma, 71 anos, 74 quilos, hipertenso, internado há três dias por celulite extensa de perna esquerda com porta de entrada em fissura interdigital. Entrou com 38,6 °C e leucócitos de 16.400 por milímetro cúbico. O plantonista colheu duas hemoculturas de sítios distintos antes da primeira dose e iniciou vancomicina 1 g por via intravenosa a cada 12 horas, por causa do perfil local de Staphylococcus aureus resistente a oxacilina. Hoje é o terceiro dia: está afebril há 30 horas, o eritema recuou dois centímetros para dentro da marca desenhada anteontem, os leucócitos caíram para 9.800, come normalmente, anda até o banheiro sozinho. A creatinina, que era 0,9 mg/dL na entrada, está em 1,3 mg/dL hoje. As duas hemoculturas voltaram ontem à noite, ambas positivas para Staphylococcus aureus sensível a oxacilina. O campo de alergias do prontuário está vazio.

  1. Passo 1 — a cultura é infecção, colonização ou contaminação?

    Sangue é sítio normalmente estéril; Staphylococcus aureus não é contaminante habitual de pele como o coagulase-negativo; foram duas amostras de sítios distintos, ambas positivas para o mesmo agente; e existe síndrome clínica compatível — celulite extensa com febre e leucocitose. As três perguntas respondem juntas: isto é infecção verdadeira, com bacteremia documentada.

  2. Passo 2 — o paciente está respondendo?

    Sim, e com todos os parâmetros que interessam. Afebril há 30 horas, eritema regredindo para dentro da marca do dia anterior, leucocitose caindo, aceitação alimentar preservada, deambulando. É a fotografia de um esquema que está cobrindo o agente.

  3. Passo 3 — o que o antibiograma autoriza?

    O Staphylococcus aureus é sensível à oxacilina. Isso significa que existe, disponível e eficaz, uma droga mais estreita do que a vancomicina para esse isolado — e que a vancomicina foi uma aposta empírica correta feita antes de o resultado existir, não uma necessidade demonstrada.

  4. Passo 4 — o que a creatinina está dizendo?

    Subiu de 0,9 para 1,3 mg/dL em três dias, em paciente que melhorou clinicamente e não teve hipotensão nem contraste. Em vigência de vancomicina, esse movimento levanta toxicidade da própria terapia — e é um argumento a mais na mesma direção do antibiograma, não um motivo para manter tudo como está por precaução.

  5. Passo 5 — decida: o que você prescreve hoje, e o que escreve na evolução?

    Você tem tudo: agente identificado, perfil de sensibilidade, resposta clínica documentada, um sinal de toxicidade e uma via oral funcionante. Escreva a conduta completa — o que sai, o que entra, por qual via, o que você faz com a duração, o que você faz com o acesso, e qual é o parâmetro que faria você voltar atrás.

Ver como fecharíamos

Descalonar a vancomicina para o betalactâmico antiestafilocócico padronizado no seu serviço, guiado pelo antibiograma que mostra sensibilidade à oxacilina: manter vancomicina em quem tem Staphylococcus aureus sensível à oxacilina é tratar pior um paciente que já tem o resultado na mão, e a creatinina em ascensão é o preço sendo cobrado enquanto isso. Registre o motivo do descalonamento e reveja a dose contra o clearance de hoje, não contra o da admissão. Sobre a duração: há bacteremia por Staphylococcus aureus documentada, e essa é uma das poucas situações em que a hemocultura de controle tem indicação formal — a data de término se conta a partir da negativação, e o curso é mais longo do que o de uma celulite sem bacteremia. Por isso mesmo, este é um dos casos em que a via oral não se libera pelos cinco critérios habituais: bacteremia por Staphylococcus aureus exige avaliação de foco secundário, incluindo endocardite, e a conduta é discutir com a infectologia do serviço antes de qualquer troca de via. Anote na evolução os gatilhos de reavaliação: febre nova, eritema ultrapassando a marca, creatinina em nova elevação, ou hemocultura de controle ainda positiva. E repare no que este caso ensina por contraste com o do leito 5: descalonar é obrigatório sempre que o antibiograma permite, mas encurtar é uma decisão separada, que depende do sítio e da presença de bacteremia — reduzir espectro e reduzir tempo não são a mesma coisa. Tornar o plano concreto: oxacilina IV ou cefazolina IV são opções usuais para MSSA, com dose adequada ao sítio e ao rim; conferir alergias ativamente, pois campo vazio não significa ausência. Repetir hemoculturas até documentar clareamento, avaliar ecocardiografia e focos metastáticos, examinar dispositivos e controlar o foco. Bacteremia realmente não complicada costuma exigir pelo menos 14 dias de tratamento efetivo a partir do clareamento; casos complicados demandam cursos mais longos conforme foco. Não considerar negativação isoladamente suficiente sem excluir endocardite, próteses/focos secundários e persistência. A creatinina em ascensão sugere possível toxicidade, mas não prova causalidade exclusiva da vancomicina.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Swab superficial com estafilococo coagulase-negativo, sem síndrome de infecção local, não justifica vancomicina. O paciente já recebeu sete dias após controle adequado do foco e respondeu; rever encerramento do tratamento. Não chamar toda perfuração de mera profilaxia: peritonite é tratamento, com duração própria. Dreno isolado não exige continuar antibiótico. O mesmo agente pode causar infecção verdadeira em material profundo ou dispositivo, mas esse não é o contexto descrito.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reavalie uma cultura superficial positiva e uma hemocultura com MSSA: explique por que levam a decisões distintas. Conte duração desde a primeira terapia efetiva.

Em 30 dias

Construa o plano de Firmino, incluindo betalactâmico, hemoculturas de controle, avaliação de endocardite/focos secundários e critérios que definem duração.

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Agora atenda

Agora atenda. Você é o interno da visita das sete e meia numa enfermaria de clínica médica, e o paciente está no terceiro dia de antimicrobiano largo iniciado na emergência, com a cultura já liberada no sistema. Nomeie a indicação, classifique o que cresceu, decida se desce a escada do espectro, teste os cinco critérios da via oral e escreva a data de término. Depois converse com ele sobre a troca — e prepare-se para a frase que vem: doutor, mas esse novo não é mais fraco?

Antibioticoterapia na enfermaria – O antibiótico que ninguém para — Internato | OsceLabs