Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

A linha que ninguém revisa

Dieta hospitalar: escolha, jejum, progressão e via alternativa

É a primeira linha da folha, decide se as outras existem, e é a que mais causa dano por omissão. Este capítulo é sobre escolher a dieta, decidir o jejum com prazo, saber o que autoriza avançar, e responder cedo a pergunta que precede tudo: este paciente vai poder comer nos próximos dias?

Fontes deste capítulo

BRASPEN/SBNPE — Dieta oral no ambiente hospitalar: posicionamento da BRASPEN. Dock-Nascimento DB, Campos LF, Dias MCG, Fabre MES, Lopes NLA, Oliveira Junior PA, Orlandi SP, Piovacari SMF, Toso TP, van Aanholt DPJ. BRASPEN J 2022;37(3):207-227. DOI 10.37111/braspenj.2022.BRASPEN_dietaoral

ANVISA — Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 503, de 27 de maio de 2021, que fixa os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Enteral (publicada no Diário Oficial da União nº 101, de 31 de maio de 2021; republicada no DOU nº 136, de 21 de julho de 2021; em vigor desde 1º de julho de 2021)

Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância Sanitária — Portaria MS/SNVS nº 272, de 8 de abril de 1998, que aprova o Regulamento Técnico para fixar os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Parenteral

BRASPEN/SBNPE — Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. Castro MG, Ribeiro PC, Matos LBN, Abreu HB, Assis T, Barreto PA, Ceniccola GD, Cunha HFR, Gonçalves RC, Gonçalves TJM, Loss SH, Nunes DSL, Alves JTM, Toledo DO. BRASPEN J 2023;38(2º Supl 2):2-46. ISSN online 2764-1546, impresso 2525-7374

BRASPEN/SBNPE — Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento. Gonçalves TJM, Horie LM, Gonçalves SEAB e colaboradores. BRASPEN J 2019;34(3º Supl):2-58. ISSN 2525-7374

01

Responda antes de ler

Homem de 79 anos, 58 kg, com doença pulmonar obstrutiva crônica exacerbada, hipertensão e doença renal crônica em tratamento conservador. A dieta prescrita desde a admissão é "branda, hipossódica, para diabético, pobre em potássio, sem lactose". Ele não tem diabetes nem intolerância à lactose, e o potássio de hoje é 4,2 mEq/L. Ele deixa quase toda a bandeja e diz que a comida não tem gosto. Qual é a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

São 8h05 e a folha do leito 7 está aberta na sua frente. Ela tem doze itens, e você sabe onze. O que trava é o primeiro: a linha da dieta. O senhor Vitalino Trigueiro tem 71 anos, 62 quilos, e está no quarto dia de internação por erisipela extensa em perna direita. Ontem alguém escreveu "dieta branda" na folha. Antes de ontem estava "dieta livre". Anteontem, "dieta zero para tomografia". Ninguém explicou nenhuma das três, e a de hoje vai sair copiada de uma delas.

Você levanta os olhos e olha para a mesa de apoio, que fica atrás da cabeceira, encostada na parede. Em cima dela há uma bandeja de café da manhã fechada, do jeito que chegou às 7h. Ao lado, a bandeja do jantar de ontem, também fechada. Ninguém retirou, ninguém anotou, e na evolução de ontem à tarde está escrito, com todas as letras, "aceitando bem a dieta".

A tomografia de anteontem foi remarcada para hoje. Você descobre isso porque a técnica de enfermagem passa e pergunta se pode liberar o café — e o café já estava frio na mesa havia uma hora, porque ninguém tinha dito a ela que a dieta estava suspensa. Então, na verdade, o senhor Vitalino não está em jejum: está sem comer. As duas coisas se parecem na folha e são completamente diferentes no paciente.

Essa linha tem uma propriedade que nenhuma outra da prescrição tem: quem a executa não é você, e não é uma pessoa só. O que você escreve chega ao serviço de nutrição, que escolhe alimentos e prepara a bandeja; chega à enfermagem, que decide se aquele paciente consegue comer sozinho e se alguém vai ajudá-lo; e chega ao próprio paciente, que aceita ou não. Entre a sua caneta e a boca dele existem três decisões que não são suas — e nenhuma das três vai voltar para você perguntando o que você quis dizer.

O capítulo é sobre as quatro decisões que cabem na sua metade dessa cadeia. Escolher a dieta, o que é bem mais do que escolher uma palavra. Decidir o jejum, que é onde mora quase todo o dano. Reconhecer o sinal que autoriza avançar. E decidir a via, quando a boca deixa de servir — decisão que começa com uma pergunta única, feita cedo demais para ser confortável: este paciente vai poder comer nos próximos dias, ou não?

03

Quem adoece disso

Comece pelo tamanho do problema de base, porque ele explica por que a linha da dieta é levada menos a sério do que merece. A desnutrição está presente em 30% a 50% dos pacientes internados, e o dado incômodo é que esse número não mudou nos últimos vinte anos. Não se trata de uma população que chega desnutrida e piora um pouco: em levantamento latino-americano de risco nutricional, o risco de óbito foi 3,63 vezes maior nos pacientes que comeram 25% da refeição servida em comparação com os que comeram a refeição inteira, subindo para 6,6 vezes entre os que não comeram nada. A quantidade de comida que entra no paciente é, portanto, um marcador de desfecho com força comparável à de variáveis que você mede todo dia — e é a única delas que ninguém anota.

A ingestão baixa não é rara nem excepcional. Menos de 10% dos pacientes de um estudo europeu consideraram as refeições hospitalares aceitáveis, e mais de 85% não comeram tudo o que foi fornecido. Uma ingestão em torno de 50% da dieta oral está associada à desnutrição e é fator de risco independente para maior tempo de internação. Em pacientes internados por mais de uma semana, apenas 25% consumiram entre 75% e 99% da necessidade calórico-proteica, quando o mínimo para não perder peso é 75%. A conta desses três números junta é simples e desagradável: numa enfermaria de vinte leitos, a maioria dos pacientes está comendo menos do que precisa, e o prontuário de quase todos diz aceitação boa.

Parte disso não é doença, é logística — e a parte logística é a que a sua prescrição alcança. Cerca de 70% dos pacientes relatam alguma barreira física ou organizacional na hora da refeição, e os idosos e desnutridos são os mais atingidos. Numa auditoria de dezoito hospitais, 41,8% dos pacientes eram interrompidos pela equipe no momento da refeição. E há um número que é o eixo deste capítulo: 69,2% dos pacientes não recebiam a refeição substituta quando ela era perdida por jejum para exame. Ou seja, na regra, o jejum para exame não custa uma refeição adiada; custa uma refeição eliminada do dia.

O jejum longo, medido diretamente, aparece em escala. Num hospital privado terciário de Campinas, entre dezembro de 2018 e junho de 2019, 3.469 pacientes estiveram em jejum, com média de 496 por mês, e 15% deles ficaram mais de 24 horas sem comer. Os motivos desse jejum longo, em ordem: cirúrgico 49%, terapêutico 33%, terminalidade 10%, sonolência ou disfagia 7%, endoscopia ou colonoscopia 1%. Repare na aritmética: pouco mais da metade dos jejuns longos não tem nada a ver com centro cirúrgico. São decisões clínicas de enfermaria, tomadas por alguém que escreveu uma linha e não voltou nela.

E o jejum se estica sozinho. Num hospital público terciário de referência em trauma e acidente vascular cerebral, uma auditoria de dieta zero encontrou o exame — e não a cirurgia — como principal motivo de suspensão da dieta, e registrou médias mensais de tempo de dieta zero que chegaram a 122 horas em maio de 2015 e a 46 horas e 20 minutos no mês seguinte. Cento e vinte e duas horas são cinco dias e duas horas. Nenhuma dessas suspensões foi escrita para durar cinco dias; elas duraram porque ninguém revisou a linha, e porque não havia prazo escrito nela.

Fecha o quadro a lista de justificativas do jejum sem conduta compensatória levantada no estudo de Campinas, que é a fotografia mais fiel do que de fato acontece numa enfermaria: aguardando liberação ou prescrição de dieta pelo médico; aguardando avaliação da fonoaudiologia; atraso na entrega da dieta; náusea e vômito; ausência de registro da liberação do jejum; e — a mais eloquente de todas — paciente com prescrição de dieta, mas em jejum. Nenhuma delas é uma decisão clínica. Todas são a mesma coisa: uma linha que ficou sem dono.

04

Por que acontece o que acontece

Um adulto internado por doença aguda não está em jejum fisiológico: está em jejum sob resposta inflamatória, e as duas coisas se comportam de forma diferente. No jejum simples, o glicogênio hepático sustenta a glicemia por menos de 24 horas; depois disso a gliconeogênese assume, e a matéria-prima dela é aminoácido — que vem do músculo. A doença aguda acelera esse relógio: cortisol, catecolaminas, glucagon e citocinas aumentam a degradação proteica e reduzem a síntese ao mesmo tempo, de modo que o paciente febril em jejum perde músculo mais rápido do que a pessoa saudável que pulou o almoço. É por isso que o cálculo de "ele ficou só um dia sem comer" subestima o custo: um dia de jejum na enfermaria não é um dia de jejum.

Esse custo se paga em tecidos que você vê na visita. A massa muscular perdida é a mesma que sustenta o desmame do ventilador, a tosse eficaz, o levantar da cama e a marcha até o banheiro. A proteína que falta é a mesma que fecha ferida operatória e cicatriza lesão por pressão. E a barreira intestinal, que depende de nutriente no lúmen para manter trofismo, afina quando o intestino fica vazio — motivo pelo qual o intestino que não recebe comida não é um intestino em repouso, e sim um intestino em desuso.

A segunda peça do mecanismo é a que quase ninguém calcula: a consistência da dieta carrega caloria e proteína dentro dela. Não se trata de textura apenas. Descer um degrau de consistência é reduzir densidade nutricional, porque o que se retira para amolecer é justamente carne em pedaço, leguminosa inteira, pão e cereal. Nos números que a própria sociedade brasileira publica, a dieta normal entrega de 2.200 a 2.500 kcal e de 85 a 105 g de proteína; a pastosa homogênea entrega de 1.350 a 1.500 kcal e de 50 a 60 g; a líquida completa, de 1.000 a 1.300 kcal e de 50 a 60 g; e a líquida restrita, de 300 a 500 kcal, com proteína registrada como não aplicável. Escrever uma consistência é, portanto, prescrever um valor calórico — e quem escreve costuma achar que está prescrevendo apenas uma textura.

A terceira peça é a que explica por que a linha erra tanto: a dieta é a única prescrição da folha cujo cumprimento depende do apetite, da posição no leito, da dentição, da companhia e de alguém abrir a embalagem. Um comprimido prescrito é um comprimido administrado, e o técnico registra. Uma bandeja prescrita é uma bandeja entregue — e a distância entre entregue e comida não aparece em lugar nenhum, a menos que alguém a meça. As barreiras conhecidas são banais e somam: porção grande demais, embalagem que o paciente não consegue abrir, comida fora do alcance na mesa de apoio, procedimento marcado na hora da refeição, ostomia e acesso venoso atrapalhando, ausência de ajuda para comer. Setenta por cento dos pacientes esbarram em pelo menos uma delas.

Quando a boca deixa de servir, o mecanismo muda de eixo e passa a ser de risco. A deglutição segura depende da coordenação entre respiração e passagem do bolo, e ela se degrada com rebaixamento de consciência, com lesão de via cortical ou de tronco, com sedação residual e com o próprio envelhecimento — que, mesmo sem doença, atrasa o disparo do reflexo, reduz a sensibilidade faríngea e prolonga a propulsão. Na demência a disfagia chega a 57%, e a pneumonia aspirativa é causa comum de morte nesse grupo. O ponto operacional é que a aspiração de maior consequência costuma ser silenciosa: não há tosse, não há engasgo, e o primeiro sinal aparece 48 horas depois, como febre e infiltrado.

A via alternativa resolve o problema da boca e cria dois novos. O primeiro é que a fórmula enteral não é comida nem é água: é uma suspensão que carrega uma densidade calórica, e a água dentro dela pesa menos que o total infundido — de 80% a 86% numa fórmula de 0,9 a 1,2 kcal/mL, caindo para 76% a 78% a 1,5 kcal/mL e para 69% a 71% a 2,0. Quanto mais concentrada a fórmula, menos água ela entrega no mesmo volume, e o paciente que depende inteiramente da sonda depende de alguém prescrever essa diferença como água livre. O segundo é o refluxo do que foi infundido, que devolve o risco de aspiração pela outra ponta — daí a cabeceira elevada durante e depois da administração.

O terceiro cenário é o intestino que não está disponível: obstrução, isquemia, fístula de alto débito, síndrome compartimental abdominal, instabilidade hemodinâmica com choque não controlado. Aqui a nutrição sai do trato digestivo e vai para a veia, e junto com ela vai um risco de outra natureza. A bolsa parenteral é meio de cultura em cateter central, o que faz da infecção de corrente sanguínea a complicação assinatura; a carga de glicose direto na veia produz hiperglicemia previsível; e a norma sanitária exige exclusividade da via de acesso, porque o que se injeta junto pode precipitar na bolsa. É a única prescrição da folha cuja via não se compartilha.

Fecha o mecanismo o fenômeno que transforma a boa intenção em dano: a síndrome de realimentação. No jejum prolongado, o organismo desloca-se para catabolismo, a insulina cai e os estoques intracelulares de fósforo, potássio e magnésio se esvaziam mesmo com dosagem sérica normal, porque o sérico é sustentado pela saída do intracelular. Quando entra carboidrato — pela boca, pela sonda ou pela veia, tanto faz —, a insulina sobe e empurra os três eletrólitos para dentro da célula de uma vez. A queda é abrupta, e a hipofosfatemia grave é a que mata: sem fosfato não há trifosfato de adenosina, e o que falha primeiro é o que consome mais energia — músculo respiratório, miocárdio, sistema nervoso. Some-se a isso a tiamina, cofator obrigatório para metabolizar a glicose que acaba de chegar, e cujo estoque no desnutrido dura poucas semanas.

Dois quadros independentes, segurança da alimentação e quantidade recebida, convergem para reavaliação da oferta e da necessidade de suporte nutricional.
Consistência e adequação nutricional são dimensões diferentes. Dieta pastosa pode ser completa e dieta sólida pode ser insuficiente. A via de suporte depende da ingestão efetiva, da segurança, das necessidades e da função gastrointestinal.
05

Como se apresenta de verdade

A linha da dieta responde à mesma pergunta em seis situações diferentes, e o erro característico é escrever a mesma palavra nas seis. O que segue é o que muda em cada uma, na ordem em que elas aparecem numa enfermaria de clínica médica.

Percurso de aprendizagem

Reveja restrições, consistência, jejum, ajuda para comer e acesso à bandeja. Dieta livre e aceitação de 100% não definem aporte nutricional.

Calcule energia, proteína e água separadamente. Na progressão enteral, a água da fórmula do primeiro dia é menor que a da meta final.

Identifique risco de realimentação e ajuste oferta à trajetória de eletrólitos. Na DRC, equilibre necessidade aguda e função renal, sem pisos ou tetos universais.

O paciente que come — e por que dieta livre não é ausência de decisão

É o caso mais comum e o menos examinado. O paciente está lúcido, deglute, não tem náusea e vai comer o que chegar. Escreve-se "dieta livre" e passa-se ao próximo item. O problema é que a bandeja livre é uma bandeja padronizada, e a padronização vale para um corpo médio que não é o do seu paciente. A régua nacional da dieta padrão é de 25 a 30 kcal por quilo e de 0,8 a 1,0 g de proteína por quilo de peso atual. A bandeja livre entrega de 2.200 a 2.500 kcal e de 85 a 105 g de proteína. Faça a divisão com o peso à sua frente antes de aceitar o rótulo.

Num homem de 62 quilos, essa bandeja entrega de 35 a 40 kcal por quilo — acima da régua. Numa mulher de 95 quilos, entrega de 23 a 26 — no piso. A palavra é a mesma; o que ela entrega, não. E o caso que mais importa é o idoso: a diretriz brasileira de terapia nutricional no envelhecimento pede de 30 a 35 kcal por quilo e, no idoso com doença aguda, de 1,2 a 1,5 g de proteína por quilo. Um idoso de 60 quilos precisa, por essa régua, de 72 a 90 g de proteína por dia. A dieta padrão calculada pela régua de 0,8 a 1,0 g entrega de 48 a 60 g. A palavra "livre" cobre uma diferença de 12 a 42 g de proteína por dia, e não avisa.

A decisão que a linha esconde, portanto, é esta: dieta livre é adequada para quem cabe na régua média e não tem doença que aumente a demanda. Para o idoso, para o paciente com ferida aberta ou lesão por pressão, para o pós-operatório e para quem já entrou perdendo peso, o rótulo correto não é livre — é hiperproteica, com pelo menos 1,2 g de proteína por quilo, e isso vai escrito.

O paciente que come pouco — a aceitação que ninguém soma

É o cenário em que a enfermaria mais perde tempo. Ele tem dieta prescrita, a bandeja chega, e ele come um terço. Ninguém registra o terço. No dia seguinte a evolução diz "aceitando", que é verdade em sentido literal e falsa em sentido nutricional. A diferença entre esses dois sentidos é o assunto inteiro da avaliação de ingestão.

A régua brasileira é escalonada por percentual e por tempo, e vale decorá-la porque ela transforma uma impressão em conduta. Ingestão abaixo de 70% a 80% das necessidades é o gatilho do suplemento nutricional oral. Ingestão abaixo de 60% das necessidades por três dias consecutivos, em paciente que internou em risco nutricional ou desnutrido, é o gatilho da terapia enteral associada à via oral. E ingestão igual ou inferior a 50% das necessidades ao longo de três dias, num paciente em risco nutricional, é critério de intervenção imediata pela iniciativa global de diagnóstico de desnutrição.

Duas armadilhas moram aqui. A primeira é que percentual da bandeja não é percentual da necessidade: comer 100% de uma bandeja que entrega 60% da meta é ingestão de 60%, registrada como aceitação total. A segunda é que a queda de aceitação sem causa clínica evidente é sintoma, e não teimosia. Náusea, boca seca, mucosite, dor, depressão, constipação, prótese dentária que não serve mais, e a própria dieta restrita que ninguém tornou palatável — cada uma tem conduta própria, e nenhuma delas melhora com insistência.

O paciente em jejum para exame — o jejum que ninguém escreveu para durar

Aqui a linha é escrita por reflexo, quase sempre na forma "dieta zero a partir das 24h", e quase sempre sem prazo de término, sem motivo escrito e sem nome de quem pediu. O reflexo vem do centro cirúrgico e é aplicado ao exame por analogia, sem que ninguém confira as horas. A régua brasileira para exame endoscópico sob sedação, com grau de recomendação A, é de seis horas para sólidos, com refeição de véspera hipogordurosa e de baixo volume, e duas horas para líquidos límpidos sem resíduo em baixo volume, no paciente de baixo risco para broncoaspiração. Para colonoscopia, o jejum contado depois do fim do catártico é de ao menos três horas, no paciente sem sinal obstrutivo e sem diabetes.

Compare com o que se pratica. Jejum a partir da meia-noite para um exame das 10h da manhã são dez horas, quando a régua pede seis. E como a refeição perdida quase nunca é reposta — em 69,2% dos casos ela não é —, o paciente não perde duas horas de espera: perde o café da manhã inteiro. Some ao longo de uma internação com três exames em dias diferentes e você tem três refeições eliminadas sem que nenhuma decisão clínica tenha sido tomada.

E existe o jejum que se prolonga sozinho, que é o dano característico deste bloco. O exame é remarcado, a linha da folha não é. O paciente entra em jejum às 24h de domingo para um exame de segunda que foi transferido para quarta, e ninguém desfaz a linha porque desfazê-la exige que alguém decida — enquanto mantê-la não exige nada. Auditorias brasileiras de dieta zero registraram médias mensais de tempo de jejum de 122 horas e de 46 horas e 20 minutos. Ninguém prescreveu cinco dias de jejum; cinco dias de jejum aconteceram.

O paciente que não engole com segurança

É o cenário em que a decisão sai da esfera da nutrição e entra na de segurança. Rebaixamento de consciência, lesão neurológica aguda, doença neurodegenerativa avançada, sedação residual e demência avançada são as portas de entrada; e o exame de cabeceira que abre a discussão é ver o paciente beber, não perguntar se ele engole bem.

O ponto que muda conduta é que a aspiração perigosa costuma ser silenciosa. Ausência de tosse durante a refeição não é prova de deglutição segura. Voz molhada depois de engolir, escape de saliva, tempo de refeição que triplicou, recusa progressiva de líquidos ralos e febre sem foco 48 horas depois de uma refeição são os sinais que valem — e o último deles chega tarde demais para servir de triagem.

A conduta aqui tem duas metades, e o interno costuma executar só uma. A primeira é suspender a via oral até avaliação formal de deglutição. A segunda, que é a esquecida, é escrever o que acontece com o paciente durante a espera. Uma linha "dieta zero, aguardando fonoaudiologia" sem nada abaixo dela é a receita documentada do jejum de três dias — e "aguardando avaliação da fonoaudiologia" aparece nominalmente na lista de justificativas de jejum sem conduta compensatória. Suspender a boca sem abrir outra via, ou sem prazo para reavaliar, não é cautela: é a decisão de não alimentar, tomada sem ser dita.

O paciente que não tem trato digestivo utilizável

Obstrução intestinal, isquemia mesentérica, fístula de alto débito, síndrome compartimental abdominal, hemorragia digestiva alta ativa, choque não controlado. São situações em que o intestino não pode receber, e nelas a pergunta muda: não é mais qual dieta, é por quanto tempo esse intestino vai ficar indisponível e o que o paciente era antes disso.

A resposta brasileira separa dois pacientes. No desnutrido ou de alto risco nutricional impossibilitado de usar o trato digestivo, a nutrição parenteral começa logo depois de vencida a ressuscitação e a estabilização inicial. No bem nutrido com contraindicação ao uso da via digestiva, espera-se sete dias antes de iniciar a parenteral. Não é uma diferença de gravidade — é uma diferença de reserva: quem tem reserva atravessa uma semana sem custo mensurável; quem não tem, não.

A parenteral suplementar, aquela que se acrescenta à enteral que não atinge a meta, tem uma régua própria e mais restritiva: não deve ser usada sistematicamente na primeira semana no paciente grave, com nível de evidência alto. É a única recomendação de nível alto deste capítulo, e ela diz para esperar.

O paciente que está morrendo

Aqui a pergunta que o capítulo inteiro persegue — este paciente vai poder comer nos próximos dias? — deixa de ter a resposta que orienta as outras cinco situações, porque a finalidade da linha muda. Nutrição e hidratação artificiais não são obrigatórias em cuidados paliativos; a decisão se baseia na avaliação clínica, com comunicação eficiente com o paciente e a família e conduta compartilhada, respeitando autonomia e dignidade.

O que isso significa na folha é concreto e vale escrever: a dieta passa a ser prescrita por conforto e por prazer, sem meta calórica, sem restrição de consistência que não sirva à segurança, sem controle de aceitação e sem os rótulos de restrição que faziam sentido quando havia horizonte para eles — hipossódica, para diabético, pobre em potássio. Alimentar por prazer, na quantidade que o paciente quiser, é conduta, e vai escrita como tal.

A decisão de não introduzir via alternativa também é conduta, e é a que mais precisa de registro, porque é a que a família vai perguntar. Ela se escreve com o motivo — que não é falta de indicação técnica, e sim ausência de benefício no horizonte do paciente — e com o que entra no lugar: cuidado de boca, umidificação, oferta por prazer e controle de sintoma.

06

Como fechar o diagnóstico

Antes de escrever a linha existem seis coisas para levantar, e nenhuma delas é exame. Cinco levam cinco minutos à beira do leito, e a sexta se faz lendo a folha de ontem com a caneta na mão. A ordem importa, porque a primeira pergunta é a que decide se as outras cinco fazem sentido.

A pergunta que vem antes de todas: este paciente vai poder comer nos próximos dias?

Ela parece filosófica e é a mais operacional do capítulo, porque separa dois mundos. Se a resposta é sim — o paciente come hoje, ou vai voltar a comer em um ou dois dias —, tudo o que segue é ajuste de dieta oral: consistência, densidade, restrição, fracionamento, suplemento. Se a resposta é não, ou é "não sei", você está diante de uma decisão de via, e ela tem relógio próprio.

O relógio é este. A terapia enteral precoce, quando a via oral é inviável, é de 24 a 48 horas. A parenteral no paciente desnutrido ou de alto risco impossibilitado de usar o trato digestivo começa assim que vencida a fase de ressuscitação inicial; no bem nutrido com trato indisponível, espera-se sete dias. Ou seja: a decisão de via não é uma decisão do quinto dia, é uma decisão do primeiro. Quem espera para ver se melhora está tomando a decisão de não nutrir por omissão, e a está tomando exatamente no paciente cujo intestino demorou mais para voltar.

Três respostas honestas ajudam a fechar a pergunta, e é útil escrevê-las na evolução. Primeira: qual o mecanismo pelo qual ele não come — não engole, não quer, não pode, ou não tem intestino? São quatro problemas com quatro condutas. Segunda: em quantos dias esse mecanismo se resolve, pela história natural do que ele tem? Uma náusea de gastroenterite resolve em dois dias; uma disfagia de acidente vascular cerebral extenso, não. Terceira: ele tinha reserva quando chegou? Perda de peso não intencional nos três meses anteriores, ingestão reduzida na semana anterior à internação e massa muscular visivelmente consumida mudam a resposta de "podemos esperar" para "não podemos".

Uma quarta resposta, que quase ninguém levanta, é desde quando ele já não come. A contagem correta começa na última refeição de verdade, e não na admissão. O paciente que passou dois dias em casa sem comer por náusea, dormiu doze horas no corredor do pronto-socorro em jejum para tomografia e subiu para a enfermaria às 6h já está no terceiro dia — e a folha do primeiro dia de enfermaria dirá dia 1. É essa contagem, e não a data da internação, que decide se você está dentro ou fora da janela de 24 a 48 horas.

Repare no que a pergunta faz com a ordem das suas decisões. Enquanto a resposta é sim, a linha da dieta é uma decisão de nutrição, e o pior desfecho de errá-la é uma bandeja recusada. Quando a resposta vira não, a linha passa a ser uma decisão de via, com prazo, com procedimento associado, com risco de aspiração e com uma norma sanitária por trás — e o pior desfecho de errá-la é uma pneumonia ou uma semana de catabolismo. São duas linhas com a mesma aparência na folha e com pesos completamente diferentes.

As cinco coisas de beira de leito, antes da caneta

Peso, medido e não estimado, porque toda a aritmética deste capítulo é por quilo e o erro de peso propaga para caloria, proteína, volume e velocidade de infusão. Se não há balança, registre que o peso é referido e por quem, e refaça a conta quando houver.

A boca, olhada de verdade. Dentes que faltam, prótese que não serve depois da perda de peso, candidíase, mucosite, xerostomia por anticolinérgico. É a causa mais frequente e mais reversível de recusa de dieta sólida, e é o único achado deste capítulo que se resolve mudando a consistência sem perder caloria — desde que a mudança venha com densidade compensada.

A deglutição, testada e não perguntada. Peça um gole de água e olhe: tempo até engolir, elevação da laringe, tosse, e a voz depois do gole. Voz molhada é achado. Perguntar "o senhor engole bem?" para quem tem demência ou afasia não é anamnese, é formalidade.

Os sintomas que impedem comer, um por um e com conduta cada: náusea, vômito, dor, saciedade precoce, constipação, diarreia, disgeusia. Cada um deles tem tratamento próprio, e nenhum melhora porque a dieta foi mantida na folha.

E o hábito, que é a variável que ninguém pergunta e que decide aceitação: o que ele come em casa, quantas refeições faz, o que ele não come por religião, por preferência ou por trauma, e o que ele comeu de verdade nas últimas 24 horas antes de internar. A régua nacional é explícita ao registrar que crenças religiosas devem ser atendidas mesmo sem justificativa médica, e que a opção de escolher preparações aumenta a ingestão medida.

A posição, por último, porque é a única desta lista que você resolve na hora. Comer deitado ou semi-sentado é difícil, é desagradável e é inseguro. A cabeceira elevada durante a refeição e nas duas horas seguintes é medida de prevenção de aspiração, e a mesa de apoio ao alcance da mão é medida de ingestão — a comida fora do alcance figura, nominalmente, entre as barreiras conhecidas da hora da refeição.

Ler a folha de ontem: quantas refeições ele de fato recebeu

Esta é a parte que separa a visita rápida da visita útil, e se faz com a prescrição dos últimos três dias lado a lado, marcando três colunas. Primeira coluna: qual dieta estava prescrita em cada dia, com a palavra exata. Segunda: quantas refeições daquele dia foram efetivamente servidas — desconte jejum para exame, exame que atrasou, paciente que estava no raio-X na hora do almoço, procedimento marcado às 12h. Terceira: quanto ele comeu do que recebeu, em percentual grosseiro, perguntando a ele, ao acompanhante e à técnica que retirou a bandeja.

Some as três colunas e você tem o número que decide a conduta de hoje: o percentual da necessidade que entrou. É comum a conta dar metade do que o prontuário sugere, e é comum a causa não ser o paciente. No estudo de dezoito hospitais, 41,8% dos pacientes eram interrompidos pela equipe na hora da refeição, e apenas 30,8% recebiam refeição substituta quando a perdiam por jejum para exame.

Se o hospital tiver um instrumento formal, use — e se não tiver, a escala visual e analógica de dez pontos serve e é rápida: o paciente aponta quanto comeu em relação ao que come em casa quando está bem, e escore abaixo de 7, ou ingestão igual ou inferior a 50% da porção oferecida, marca risco. A recomendação é aplicá-la depois de 48 horas de internação, e repeti-la diariamente em quem tem risco nutricional ou já está desnutrido, e ao menos semanalmente nos demais.

O jejum que está na folha: quem pediu, para quê, até quando

Todo jejum escrito precisa responder a quatro perguntas dentro da própria linha, e a ausência de qualquer uma delas é o que produz o jejum que se estica. Qual o motivo — exame, procedimento, sintoma, risco de aspiração. Qual o horário de início. Qual o horário previsto de término, com a palavra "até" e uma hora. E o que acontece se o motivo desaparecer: se o exame for cancelado ou remarcado, a dieta volta imediatamente, sem nova ordem.

Essa última cláusula é a mais importante e a menos escrita. Ela transfere para a enfermagem uma autorização que hoje não existe, e é por causa da ausência dela que "aguardando liberação de dieta pelo médico" figura como justificativa de jejum sem conduta compensatória em auditoria de hospital terciário. Quem escreve "dieta zero para tomografia amanhã às 8h; retornar dieta branda imediatamente após o exame, ou imediatamente se o exame for cancelado" resolve o problema na origem, e a linha custa a mesma tinta.

Duas conferências de horas fecham o item, e as duas costumam mostrar excesso. A primeira: o jejum que está escrito corresponde ao exame que está marcado? Endoscopia sob sedação pede seis horas de sólido e duas de líquido límpido, não doze. A segunda: o exame ainda existe? Confirme no sistema, todo dia, para todo paciente em jejum. É a checagem de trinta segundos com maior rendimento da visita.

Vale saber onde existe régua brasileira e onde não existe, porque a ausência é o que autoriza a rotina do serviço a ocupar o lugar da evidência. Para o exame endoscópico sob sedação e para o preparo de cólon há diretriz nacional, com número de horas e grau de recomendação. Para o jejum antes de cirurgia, a régua é do ato anestésico e tem capítulo próprio na apostila de Pré e Pós-operatório. Fora dessas três situações — exame de imagem sem sedação, coleta laboratorial de rotina, ultrassonografia abdominal — não há diretriz brasileira de sociedade fixando tempo de jejum para o paciente internado, e o número praticado vem do protocolo interno de cada serviço, quando existe. Onde não há régua, escrever o prazo na própria linha deixa de ser boa prática e passa a ser a única barreira.

E a conta que fecha o item: some as horas. Um paciente com coleta de sangue às 6h, ultrassonografia às 11h e endoscopia às 15h, todas com jejum prescrito por reflexo, atravessa o dia inteiro sem comer por causa de três exames que, encadeados com intervalo, permitiriam ao menos duas refeições. Encadear exames e agrupá-los num turno único é decisão clínica, não de agenda — e é sua, porque só você tem a lista completa do que pediu.

A triagem nutricional que ninguém fez — e que muda a janela

A triagem nutricional é a etapa que a enfermaria pula e que, por isso, deixa duas condutas diferentes em cima da mesma observação. A recomendação é que ela seja aplicada nas primeiras 48 horas de internação, preferencialmente nas primeiras 24, e a norma sanitária vai além: a indicação de terapia enteral deve ser precedida de avaliação nutricional, repetida no máximo a cada dez dias.

O motivo pelo qual isso importa para você, e não só para a nutrição, é aritmético. A janela de tolerância para uma ingestão de 60% da meta é de três dias consecutivos em quem internou em risco nutricional ou desnutrido, e de mais de dez dias em quem internou bem nutrido. É o mesmo percentual, com um tempo três vezes maior. Sem triagem, você não sabe em qual das duas janelas o seu paciente está — e, numa enfermaria de idosos, a suposição segura é a curta.

Enquanto a triagem formal não sai, três perguntas de anamnese fazem a maior parte do trabalho e cabem na visita: perdeu peso sem querer nos últimos três meses, e quanto? Comeu menos que o habitual na última semana antes de internar? A roupa ficou larga, o anel gira, a prótese soltou? Resposta afirmativa em qualquer uma coloca o paciente na janela curta até prova em contrário.

O laboratório: o que pedir, o que ler e o que não interpretar

Antes de começar qualquer via alternativa em paciente que comeu pouco, peça fósforo, potássio e magnésio, e leia os três juntos. São os eletrólitos que despencam quando a comida entra, e o valor que interessa é o de antes — não o de depois. A régua brasileira para o paciente grave é explícita ao pedir monitorização frequente de fósforo sérico e reposição quando apropriado; num paciente que ficou dias sem comer, essa monitorização é diária nas primeiras 72 horas de realimentação.

Peça também glicemia capilar seriada quando abrir dieta enteral contínua ou parenteral, porque as duas entregam carboidrato de maneira diferente da refeição e reorganizam o esquema de insulina — assunto que tem capítulo próprio nesta apostila, e a leitura do horário da capilar em dieta contínua é dele.

E o item negativo, que é o mais útil: albumina não mede estado nutricional no internado. Proteínas viscerais — albumina, pré-albumina, transferrina — não devem ser usadas como marcadores de desnutrição, e sim como marcadores inflamatórios. Uma albumina de 2,4 g/dL num paciente com erisipela extensa informa sobre a inflamação dele, não sobre o que ele comeu; e tratar esse número com dieta hiperproteica na expectativa de vê-lo subir é perseguir um marcador que responde a outra coisa.

Fecha a lista o que quase nunca está disponível e convém não fingir que está: calorimetria indireta, que é o método recomendado para estimar gasto energético e que é considerado impreciso substituir por equação preditiva. Fora de terapia intensiva com aparelho, a conta é por quilo — e é por isso que este capítulo insiste tanto no peso medido.

Peça sódio e função renal antes de escolher entre uma fórmula concentrada e uma diluída, e potássio e fósforo antes de escolher a fórmula do paciente renal. E vale a advertência de escala: a dosagem sérica normal de fósforo no paciente que passou dias sem comer não descarta depleção — o sérico é sustentado pela saída do intracelular, e o buraco só aparece quando a insulina sobe e empurra o íon de volta para dentro. O exame que informa é o seriado, feito depois que a comida começou.

07

As quatro decisões, as contas e as prescrições prontas

Aprenda a avaliar o que o paciente efetivamente recebe de energia, proteína e água e por que não consegue atingir suas necessidades.

  1. 1Passo 0 — Pergunte se este paciente vai poder comer nos próximos dias. Se a resposta é não, ou é incerta, o relógio da via alternativa já está correndo: 24 a 48 horas para a enteral quando a via oral é inviável. Conte os dias a partir da última refeição de verdade, não da admissão.
  2. 2Passo 1 — Meça o peso. Toda a aritmética que segue é por quilo, e peso estimado propaga erro para caloria, proteína, volume e velocidade de infusão.
  3. 3Passo 2 — Calcule a meta calórica e a meta proteica, e escreva as duas na evolução em números absolutos. Meta que não vira número não vira conduta.
  4. 4Passo 3 — Escolha o rótulo no manual de dietas do seu hospital, e não no seu vocabulário. A mesma palavra designa consistências diferentes em serviços diferentes; o que vale é o que o manual daquele serviço define.
  5. 5Passo 4 — Confira se o rótulo escolhido entrega a meta calculada. Se não entrega, o rótulo vem acompanhado de suplemento oral, de aumento de fracionamento ou de densidade compensada — e isso vai escrito, não é obviedade.
  6. 6Passo 5 — Some as restrições que você escreveu. Restrições não se combinam: cada uma reduz aceitação, e a soma delas produz uma bandeja que ninguém come. Só restrinja o que tem diagnóstico confirmado por trás.
  7. 7Passo 6 — Se houver jejum, escreva motivo, hora de início, hora prevista de término e a cláusula de retorno automático se o motivo desaparecer. Jejum sem prazo é jejum indeterminado.
  8. 8Passo 7 — Amanhã, leia a coluna do que foi administrado antes de reler a sua própria linha. O número que decide a conduta do dia é o percentual da necessidade que entrou, não o percentual da bandeja.
DecisãoO que precisa estar escrito na linhaO que acontece se faltar
Qual dietaConsistência, restrições com o motivo, fracionamento, e a meta calórico-proteica registrada na evoluçãoO serviço de nutrição escolhe por você, dentro do padrão da casa, sem conhecer a meta do seu paciente
JejumMotivo, hora de início, hora prevista de término, e a cláusula de retorno automático se o exame for cancelado ou remarcadoO jejum se estica sozinho: auditorias brasileiras registram médias mensais de 122 horas e de 46 horas e 20 minutos
ProgressãoQual sinal autoriza avançar de degrau, e quem pode reconhecê-lo sem chamar o médicoO paciente estaciona no degrau mais seguro e mais pobre, porque avançar exige decisão e manter não exige nada
Via alternativaIndicação, via e posição da sonda, meta em mL por dia, velocidade, e a data em que a indicação será reavaliadaSem indicação escrita não há prescrição dietética possível: a norma exige indicação médica antes da prescrição do nutricionista
Água livreVolume por dia e horários, calculado à parte do volume da fórmulaA fórmula entrega de 69% a 86% do volume infundido em água, conforme a densidade — o resto ninguém repõe
Suspensão da via oralSe é definitiva ou temporária, o que entra no lugar durante a espera, e quando reavaliar"Dieta zero aguardando avaliação" vira jejum de três dias, e a espera aparece como justificativa em auditoria

O que cada consistência entrega, e onde a escada cruza a necessidade (paciente de 70 kg)

Consistência (nomenclatura BRASPEN 2022)kcal/diaProteína/diaEm kcal/kg num paciente de 70 kgPercentual do piso de 25 kcal/kg
Normal, geral ou livre2.200 a 2.50085 a 105 g31,4 a 35,7126% a 143%
Branda2.000 a 2.30075 a 100 g28,6 a 32,9114% a 131%
Pastosa ou semissólida1.800 a 2.10070 a 95 g25,7 a 30,0103% a 120%
Pastosa homogênea ou cremosa1.350 a 1.50050 a 60 g19,3 a 21,477% a 86%
Semilíquida ou cremosa1.200 a 1.50050 a 75 g17,1 a 21,469% a 86%
Líquida ou líquida completa1.000 a 1.30050 a 60 g14,3 a 18,657% a 74%
Líquida restrita300 a 500não aplicável4,3 a 7,117% a 29%

Meta calórica, meta proteica e o gatilho de cada via

SituaçãoCaloriaProteínaO que abre a próxima via
Dieta oral padrão, adulto sem estresse25 a 30 kcal/kg/dia de peso atual0,8 a 1,0 g/kg/diaIngestão abaixo de 70% a 80% da necessidade abre suplemento nutricional oral
Idoso, régua da diretriz do envelhecimento30 a 35 kcal/kg/dia1,0 a 1,2 g/kg no saudável; 1,2 a 1,5 g/kg na doença aguda ou crônica; até 2,0 na doença graveA bandeja padrão calculada pela régua do adulto não alcança esta meta proteica
Manutenção de peso, fórmula de bolso25 a 30 kcal/kg/dia1,3 a 1,5 g/kg no estresse moderadoIngestão abaixo de 60% da meta por três dias, em quem internou em risco ou desnutrido, abre terapia enteral
Ganho de peso ou recuperação30 a 35 kcal/kg/dia1,25 a 2,0 g/kg no cirúrgicoIngestão abaixo de 60% da meta por mais de dez dias, em quem internou bem nutrido, abre terapia enteral
Paciente grave, fase inicial até o quarto dia15 a 20 kcal/kg, progredindo a 25 a 30 entre o quarto e o sétimo diaaté 1,2 g/kg até o quarto dia; 1,3 a 2,0 depoisVia enteral em 24 a 48 horas quando a via oral é inviável; posição gástrica como padrão
Obeso crítico, índice de massa corporal de 30 a 5011 a 14 kcal/kg de peso atual2,0 g/kg de peso ideal com índice de 30 a 40; até 2,5 acima de 40Meta calórica não deve ultrapassar 60% a 70% do alvo medido
Trato digestivo indisponível, paciente desnutridomesma régua, por via venosamesma réguaParenteral assim que vencida a ressuscitação e a estabilização iniciais
Trato digestivo indisponível, paciente bem nutridomesma régua, por via venosamesma réguaParenteral após sete dias; parenteral suplementar não deve ser rotina na primeira semana

A conta completa da dieta enteral, do quilo ao frasco — senhor Vitalino, 71 anos, 62 kg

PassoContaResultado
1. Meta calórica62 kg × 25 a 30 kcal/kg (manutenção de peso)1.550 a 1.860 kcal/dia; adota-se 1.550 como meta inicial
2. Meta proteica62 kg × 1,3 a 1,5 g/kg (estresse moderado)80,6 a 93,0 g de proteína/dia
3. Volume da fórmula1.550 kcal ÷ densidade calórica1.550 mL a 1,0 kcal/mL; 1.292 mL a 1,2; 1.033 mL a 1,5; 775 mL a 2,0
4. Velocidade em bomba, contínua1.550 mL ÷ 24 h64,6 mL/h; com pausa de 2 h para banho ou exame, 1.550 ÷ 22 = 70,5 mL/h
5. Volume por etapa, intermitente de 4 em 4 horas1.550 mL ÷ 6 etapas (2h, 6h, 10h, 14h, 18h, 22h)258 mL por etapa
6. Frascos por dia1.550 mL ÷ volume do frasco6 frascos de 300 mL; 4 frascos de 500 mL; 2 frascos de 1.000 mL
7. Proteína efetivamente entregue1.550 kcal × 16% ÷ 4 kcal por grama62,0 g, ou 1,00 g/kg — abaixo da meta de 80,6 g
8. Caloria necessária para atingir 1,3 g/kg com fórmula a 16%80,6 g × 4 ÷ 0,162.015 kcal, ou 32,5 kcal/kg — acima do teto de 30 kcal/kg
9. Água contida na fórmula1.550 mL × 83% (densidade de 0,9 a 1,2 kcal/mL)1.286 mL
10. Necessidade hídrica pela faixa etária62 kg × 30 mL/kg (55 a 75 anos)1.860 mL; déficit de 574 mL/dia a repor como água livre
11. Progressão em três diasum terço, dois terços, meta plena, a cada 24 horasdia 1: 517 mL, 21,5 mL/h; dia 2: 1.033 mL, 43,1 mL/h; dia 3: 1.550 mL, 64,6 mL/h

A tabela das consistências contém o achado que mais muda conduta neste capítulo, e ele aparece quando se divide a coluna de calorias pelo peso do paciente. A própria régua nacional define a dieta padrão como 25 a 30 kcal por quilo. Num paciente de 70 quilos, isso são 1.750 a 2.100 kcal. As três primeiras consistências entregam isso ou mais. A partir da pastosa homogênea, não entregam mais: 1.350 a 1.500 kcal são 19,3 a 21,4 kcal por quilo, ou 77% a 86% do piso. A líquida completa fica em 57% a 74%. A líquida restrita, em 17% a 29%, com proteína registrada como não aplicável. A escada de consistências cruza a necessidade do paciente entre o terceiro e o quarto degrau, e o cruzamento não está escrito em lugar nenhum do documento — ele só aparece quando alguém faz a divisão.

A consequência prática é aritmética e vale escrever com o paciente do capítulo. Num homem de 62 quilos, a meta é 1.550 kcal e o gatilho de terapia enteral é ingestão abaixo de 60% dela, ou seja, abaixo de 930 kcal. A dieta líquida restrita entrega de 300 a 500 kcal. Portanto, um paciente em dieta líquida restrita que come 100% da bandeja está recebendo 19% a 32% da meta — bem abaixo do gatilho. Três dias assim, com aceitação registrada como total em todos eles, já preenchem o critério de abrir a via enteral, e ninguém percebe, porque o número que a equipe olha é o da bandeja e não o da necessidade.

Segundo achado na mesma tabela, e este é de nomenclatura dentro de um documento cuja finalidade declarada é padronizar nomenclatura. A palavra "cremosa" nomeia dois degraus diferentes da mesma escada: "pastosa homogênea ou cremosa", de 1.350 a 1.500 kcal e 50 a 60 g de proteína, e "semilíquida ou cremosa", de 1.200 a 1.500 kcal e 50 a 75 g. Escrever "dieta cremosa" numa folha não identifica qual dos dois degraus se quis, e os dois diferem em até 150 kcal e 15 g de proteína. E há uma inversão dentro da escada: o degrau mais fluido admite mais proteína (até 75 g) do que o degrau mais espesso imediatamente acima dele (até 60 g), numa sequência que deveria descer de forma monótona.

Terceiro achado, e é entre dois documentos da mesma sociedade. A régua da dieta oral padrão, de 2022, é 25 a 30 kcal por quilo e 0,8 a 1,0 g de proteína por quilo. A régua do envelhecimento, de 2019, é 30 a 35 kcal por quilo e, no idoso com doença aguda ou crônica, 1,2 a 1,5 g de proteína por quilo. Num idoso de 60 quilos, a primeira entrega 1.500 a 1.800 kcal e 48 a 60 g de proteína; a segunda pede 1.800 a 2.100 kcal e 72 a 90 g. A dieta padrão entrega, portanto, de 53% a 83% da proteína que a mesma sociedade recomenda ao idoso doente. Os documentos não se contradizem em texto — o de 2022 fala do paciente que não precisa de modificação —, mas a leitura correta da aritmética é dura e prática: o idoso doente nunca é o paciente que não precisa de modificação, e escrever "dieta livre" para ele é escrever uma dieta que a própria régua considera insuficiente.

Quarto achado, e é uma troca de unidade que muda a escala por 2,54. A régua nacional recomenda não restringir sódio abaixo de 6 g de sal por dia, e sugere 2,8 g de sal por dia apenas na falência cardíaca aguda descompensada. O estudo que ela cita para sustentar a recomendação mediu sódio, não sal: nele, a baixa ingestão foi definida como menos de 2.500 mg de sódio por dia. As duas grandezas se convertem pela razão entre a massa do sódio e a do cloreto de sódio, 22,99 sobre 58,44, ou 0,3934. Então 6 g de sal são 2.360 mg de sódio, e 2.500 mg de sódio são 6,35 g de sal. Ou seja: o piso que o documento recomenda (6 g de sal) é praticamente idêntico à ingestão que o estudo citado classificou como baixa; e a sugestão de 2,8 g de sal para a falência cardíaca corresponde a 1.102 mg de sódio, bem abaixo do braço que, naquele estudo, se associou a mais hospitalização por insuficiência cardíaca. Quem lê a recomendação sem converter a unidade acha que os dois números conversam, e eles não conversam.

Quinto achado, e é o número que mais aparece neste capítulo com janelas diferentes. O gatilho de 60% da meta aparece em três documentos brasileiros com três prazos: três dias consecutivos, em quem internou em risco nutricional ou desnutrido; sete dias, para decidir escalar da enteral para a parenteral no pós-operatório e na pancreatite; e mais de dez dias, em quem internou bem nutrido. Não são contradições — são populações e decisões distintas —, mas o intervalo entre a janela mais curta e a mais longa é de um fator de 3,3, e o que define em qual delas o seu paciente está é a triagem nutricional das primeiras 48 horas. Sem triagem, o número 60% não decide nada sozinho.

Sexto achado, e é de denominador. O estudo brasileiro que mediu jejum acima de 24 horas relata 3.469 pacientes em jejum, média de 496 por mês e 15% acima de 24 horas. Somando a série mensal publicada, chegam-se aos mesmos 3.469 pacientes e a 525 com jejum longo, o que dá 15,13% — a conta fecha. Em seguida o texto informa "39 pacientes (7,8%)" fora do protocolo institucional. Mas 39 sobre 3.469 são 1,12%, e 39 sobre 525 são 7,43%. O único denominador que produz exatamente 7,8% é 500, número que não aparece em lugar nenhum do artigo. O achado central — 15% dos jejuns passam de 24 horas, e metade deles não tem origem cirúrgica — não é afetado; o que não se pode fazer é usar o 7,8% como percentual dos pacientes em jejum longo sem dizer que o denominador não está declarado.

Sétimo achado, e é o que obriga a mudar a fórmula na prática. As duas metas do paciente do capítulo são incompatíveis com uma fórmula normoproteica, e a incompatibilidade se demonstra em duas linhas. A régua de macronutrientes entrega 15% a 20% do valor energético total como proteína, e a bandeja padrão do documento nacional fica em 15,5% a 16,8%. A 16%, os 1.550 kcal da meta calórica do senhor Vitalino entregam 62 g de proteína, ou 1,00 g por quilo — abaixo dos 1,3 g por quilo que a régua de estresse moderado pede. Para chegar aos 80,6 g mantendo os 16%, seriam necessários 2.015 kcal, ou 32,5 kcal por quilo, acima do teto de 30. Conclusão que vai para a prescrição: quando a meta proteica é de estresse moderado ou maior, a fórmula tem de ser hiperproteica, ou é preciso módulo de proteína à parte — subir o volume não resolve, porque estoura a caloria antes de fechar a proteína. A fração proteica aplicada aqui é a da dieta oral, porque não há documento brasileiro que declare a fração proteica padrão da fórmula enteral; confira o rótulo da fórmula que o seu hospital usa antes de fechar a conta.

Oitavo item, e é sobre o que o Sistema Único de Saúde fornece do que este capítulo prescreve. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, lida integralmente com busca normalizada para hifenização e espaçamento, não tem nenhuma ocorrência de fórmula enteral, suplemento nutricional oral, bolsa de nutrição parenteral ou sonda. Isso é coerente com a definição da própria norma sanitária, que classifica a nutrição enteral como alimento para fins especiais e não como medicamento: ela não entra pela assistência farmacêutica, e sim pelo financiamento da terapia nutricional hospitalar. A consequência prática aparece na alta, quando a família pergunta onde comprar — e a resposta não está na farmácia do posto. Constam do elenco, e servem ao capítulo: fosfato de potássio monobásico mais dibásico injetável a 2 mEq/mL, sulfato de magnésio, cloreto de potássio, glicose a 5%, 10% e 50%, e cloridrato de tiamina 300 mg comprimido. Não consta tiamina injetável — o que importa porque a tiamina da realimentação precisa entrar antes da primeira caloria, e o paciente com risco de realimentação é justamente o que costuma não ter via oral.

Nono item, sobre a palavra que você escreve. Três documentos brasileiros de nomenclatura de dieta oral, lidos lado a lado, não coincidem. A sociedade nacional propõe sete consistências, entre elas "pastosa ou semissólida" e "pastosa homogênea ou cremosa". Um hospital universitário federal usa sete outras — geral, branda, pastosa, cremosa, líquida completa, líquida restrita e líquida sem resíduo — e mantém em uso o termo "assódica", que a própria sociedade cita como exemplo de rótulo impossível de cumprir. Um terceiro hospital público aposentou o termo "pastosa" e o substituiu por "macia picada", e fundiu as antigas hiperproteica, hipercalórica, gestante e puerpério numa dieta padrão única. A regra que sai daí é simples e vale mais que qualquer tabela: a palavra que você escreve na linha da dieta significa o que o manual de dietas daquele hospital diz que ela significa. Abrir esse manual uma vez, no primeiro dia de estágio, é o investimento de maior retorno deste capítulo.

Décimo item, uma descontinuidade na régua do obeso crítico. A recomendação usa peso atual de 11 a 14 kcal por quilo para índice de massa corporal entre 30 e 50, e peso ideal de 22 a 25 kcal por quilo acima de 50. Num paciente de 1,70 m, o índice de 50 corresponde a 144,5 kg: pela primeira faixa, 1.590 a 2.023 kcal. Com índice de 50,1, o mesmo paciente passa para a segunda regra, calculada sobre o peso ideal de 63,6 kg: 1.399 a 1.590 kcal. As duas faixas só se tocam num ponto — 1.590 kcal —, e no limite superior a diferença chega a 433 kcal por dia entre dois pacientes que diferem em 300 gramas. Não é erro de transcrição; é o efeito de trocar a base de cálculo num ponto de corte. Na prática significa que, perto do índice 50, vale calcular pelas duas regras e escolher com critério clínico declarado, em vez de deixar a decisão para o arredondamento da altura.

Décimo primeiro item, e é uma fronteira. A linha 10 da tabela de conversão mostra um déficit de 574 mL de água por dia no paciente em dieta enteral exclusiva — resultado de a fórmula entregar 83% do volume infundido em água enquanto a necessidade é calculada sobre 30 mL por quilo. Esse déficit é o mecanismo número um da hipernatremia adquirida na enfermaria, e o cálculo de reposição de água livre, a fórmula de correção e o teto de queda de sódio pertencem ao capítulo de hipernatremia desta mesma apostila. O que pertence a este: a água livre é uma linha própria da prescrição, com volume e horários, e não uma consequência automática de ter prescrito a dieta.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a semana do senhor Vitalino Trigueiro — 71 anos, 62 quilos medidos, quarto dia de internação por erisipela extensa em perna direita, sem diabetes, creatinina 1,0 mg/dL, morando sozinho e comendo mal desde antes de internar. Cada marco traz as linhas como elas vão para a folha, com a régua que as sustenta entre parênteses. A meta calculada uma vez, no dia 4, atravessa a semana inteira: 1.550 kcal e 80,6 g de proteína por dia.

  1. Dia 4, 8h05 — os cinco minutos antes de escrever a linha

    Duas bandejas fechadas na mesa de apoio, e a evolução de ontem dizendo aceitação boa. Antes de qualquer coisa, três perguntas e uma conta. Ele vai poder comer nos próximos dias? Sim — está lúcido, deglute, não tem náusea, e o que o impede é apetite e dentição. Quanto ele precisa? Peso 62 kg, manutenção de 25 kcal/kg: 1.550 kcal, e proteína de 1,3 g/kg: 80,6 g. Quanto entrou nos últimos três dias? Perguntando a ele, à filha e à técnica que retira as bandejas, cerca de um terço de cada refeição — em torno de 500 kcal por dia, ou 32% da meta. A tomografia de anteontem foi remarcada para hoje e a linha de jejum ficou na folha por dois dias. O quarto dia da folha não é o quarto dia sem comer: contando a partir da última refeição de verdade, ele já soma seis dias de ingestão baixa, porque comia mal em casa antes de internar. É essa contagem, e não a data da internação, que decide o relógio.

    Prescrição
    • Peso diário em balança, no mesmo horário e com a mesma roupa, anotado na evolução
    • Registro do percentual ingerido em cada uma das seis refeições, por escala visual, com anotação na evolução (a avaliação da ingestão é diária em paciente com risco nutricional)
    • Meta registrada na evolução: 1.550 kcal e 80,6 g de proteína por dia, calculadas sobre 62 kg
    • Cabeceira elevada durante a refeição e nas duas horas seguintes; mesa de apoio ao alcance da mão
  2. Dia 4, 8h20 — a linha da dieta, com o rótulo conferido no manual da casa

    A dentição é o achado: ele perdeu peso, a prótese superior não fixa mais e ele está evitando carne. A consistência precisa descer, e descer custa caloria e proteína — pela tabela, a pastosa entrega de 1.800 a 2.100 kcal e de 70 a 95 g, o que ainda cobre a meta, e a cremosa já não cobriria. Antes de escrever a palavra, confira no manual de dietas do hospital o que ela designa ali: em três manuais brasileiros lidos lado a lado, "pastosa" designa três coisas diferentes, e num deles ela foi aposentada e substituída por "macia picada".

    Prescrição
    • Dieta oral pastosa, hiperproteica, fracionada em seis refeições, com no mínimo 1,2 g de proteína por quilo (régua do idoso com doença aguda: 1,2 a 1,5 g/kg/dia)
    • Sem restrição de sódio, de açúcar ou de lactose — nenhuma tem diagnóstico por trás neste paciente (restrições não confirmadas reduzem aceitação e aumentam desnutrição)
    • Solicitar avaliação da odontologia para a prótese
    • Solicitar avaliação da nutrição para prescrição dietética, com a meta calórico-proteica informada por escrito
  3. Dia 4, 8h35 — a linha do jejum, escrita para terminar

    Conferir se o exame realmente exige jejum. Contraste iodado IV sem sedação não impõe jejum rotineiro pela recomendação ACR; situações com sedação, via digestiva ou risco de aspiração podem pedir orientação específica. Se indicado, escrever motivo, início, término e plano de retomada, evitando prolongamento por remarcação.

    Prescrição
    • Servir o café da manhã agora, e o almoço às 11h
    • Para TC apenas com contraste IV e sem sedação, não instituir dieta zero automaticamente. Confirmar protocolo e particularidades; se houver necessidade real de jejum, delimitar sua duração e restabelecer alimentação assim que seguro.
    • Retornar dieta pastosa hiperproteica imediatamente após o exame; retornar imediatamente também se o exame for cancelado ou remarcado, sem necessidade de nova ordem médica
    • Repor por lanche qualquer refeição perdida por exame (69,2% das refeições perdidas por jejum para exame não são repostas)
  4. Dia 5, 9h — o número que decide, e o suplemento

    Ingestão de 45% está abaixo de 60%, não acima. Em quem já tinha perda de peso e baixa ingestão, corrigir barreiras e iniciar suporte nutricional prontamente, sem reiniciar um prazo de três dias a cada mudança de dieta. Comparar calorias e proteína efetivamente ingeridas com a meta, reavaliando diariamente e discutindo via enteral se o aporte continuar insuficiente.

    Prescrição
    • Suplemento nutricional oral hiperproteico e hipercalórico, duas vezes ao dia, entre as refeições e nunca no lugar delas (gatilho: ingestão abaixo de 70% a 80% da necessidade)
    • Proteger a hora da refeição: não realizar coleta, curativo, banho ou visita de rotina entre 7h e 8h, 11h30 e 12h30, e 18h e 19h
    • Solicitar acompanhamento da filha nas refeições principais, e auxílio da equipe para abrir embalagens e cortar alimentos quando não houver acompanhante
    • Manter registro diário do percentual ingerido; reavaliar em 72 horas se a ingestão permanece abaixo de 60% da meta
  5. Dia 6, 6h40 — ele rebaixou, e a decisão muda de natureza

    Sonolento, responde a chamado mas volta a dormir, com febre de 38,4 ºC e piora da perna. A técnica avisa que ele tossiu bebendo água na madrugada. A partir daqui a linha da dieta deixa de ser sobre nutrição e passa a ser sobre segurança, e a suspensão da via oral é imediata. O erro típico deste ponto é parar aqui — suspender e esperar. Suspender sem abrir alternativa, e sem prazo, é a decisão de não alimentar tomada sem ser dita, e "aguardando avaliação da fonoaudiologia" figura nominalmente entre as justificativas de jejum sem conduta em auditoria de hospital terciário. Duas coisas mudam de estatuto neste momento. A dieta deixa de ser assunto de nutrição e passa a ser de segurança de via aérea, e por isso a suspensão não espera avaliação nenhuma. E o relógio da via alternativa começa a correr agora, não quando a fonoaudiologia responder: a régua é de 24 a 48 horas para iniciar a terapia enteral quando a via oral é inviável, e esse prazo se conta a partir de hoje.

    Prescrição
    • Suspender dieta e medicação por via oral por risco de aspiração (rebaixamento de consciência com tosse à ingestão de líquido)
    • Cabeceira elevada a 30 a 45 graus de forma contínua
    • Solicitar avaliação de deglutição pela fonoaudiologia, com prioridade, hoje
    • Rebaixamento novo com febre e piora da perna exige avaliação médica imediata, ABC e investigação da deterioração; não apenas controle de consciência de quatro em quatro horas. Suspender oferta oral insegura e planejar hidratação, medicações e nutrição conforme estabilidade.
    • Se a via oral permanecer indisponível em 24 horas, iniciar terapia nutricional enteral — prazo escrito na folha (início precoce de 24 a 48 horas quando a via oral é inviável)
  6. Dia 7, 10h — a sonda, e a conta que vai escrita

    A fonoaudiologia documentou disfagia com risco de aspiração para todas as consistências; ele segue sonolento e a perna piorou. Trato digestivo funcionante, sem obstrução, sem instabilidade hemodinâmica. A via é a enteral, a posição é gástrica — a pós-pilórica fica para alto risco de aspiração comprovado ou intolerância gástrica não resolvida com procinético. Contando da última refeição de verdade, ele está no terceiro dia com ingestão quase nula, o que o coloca em risco de síndrome de realimentação: a comida entra devagar, e os eletrólitos vêm antes dela. Repare no que a norma sanitária exige antes que qualquer fórmula seja preparada: a indicação e a prescrição médica vêm primeiro, e é sobre elas que o nutricionista elabora a prescrição dietética, com composição, volume e horários. Enquanto a sua linha não existir escrita, a fórmula não pode ser prescrita por ninguém — e essa é uma das razões pelas quais "aguardando liberação de dieta pelo médico" aparece nominalmente em auditoria de jejum sem conduta.

    Prescrição
    • Passagem de sonda nasogástrica para nutrição; confirmar posição por radiografia antes da primeira infusão
    • Dosar fósforo, potássio e magnésio AGORA, antes de iniciar a dieta, e repetir a cada 12 horas nas primeiras 72 horas (monitorização frequente de fósforo sérico com reposição quando apropriado)
    • Tiamina antes da primeira caloria, e mantida enquanto durar a realimentação (não há apresentação injetável de tiamina no elenco nacional de medicamentos essenciais; verificar a padronização da farmácia do hospital)
    • Dieta enteral polimérica hiperproteica, 1,0 kcal/mL, em bomba de infusão contínua. Dia 1: 517 mL em 24 horas, a 21,5 mL/h (um terço da meta de 1.550 kcal)
    • Progredir a dieta conforme tolerância, risco de realimentação e controles. O esquema de um terço, dois terços e meta em três dias é exemplo, não calendário obrigatório; queda de eletrólitos ou instabilidade exige ajuste antes do aumento.
    • Fórmula hiperproteica ou módulo de proteína à parte: a 16% do valor energético, 1.550 kcal entregariam 62 g de proteína, contra a meta de 80,6 g
    • Recalcular água suplementar pelo volume de dieta realmente infundido, outras soluções e perdas. Se a fórmula contém 83% de água e a necessidade ilustrativa é 1.860 mL/dia, 517 mL de dieta fornecem 429 mL, deixando cerca de 1.431 mL antes das demais entradas; 1.033 mL fornecem 857 mL, deixando cerca de 1.003 mL; só na meta de 1.550 mL a lacuna é aproximadamente 574 mL. Portanto 580 mL não cobrem automaticamente o primeiro dia. Individualizar por rim, congestão, Na e balanço, contando lavagens.
    • Cabeceira a 30 a 45 graus durante e após a infusão; higiene bucal duas vezes ao dia
    • Não medir resíduo gástrico de rotina; se medido por indicação, manter a infusão com resíduo abaixo de 500 mL na ausência de outros sinais de intolerância
  7. Dia 8, 7h — a realimentação sob vigilância, e a diarreia que não suspende nada

    Queda de fósforo, K e Mg após realimentação exige avaliar síndrome de realimentação e outras causas, repor deficiências, administrar tiamina e monitorar clínica/eletrólitos. Não progredir automaticamente. Queda acentuada ou dificuldade de correção pode exigir reduzir calorias/carboidrato, frequentemente em cerca de 50% conforme protocolo; alterações graves ou ameaça à vida podem justificar pausa temporária. Manter a mesma oferta por exatamente 48 horas não serve para toda gravidade. Considerar também glicose IV e outras calorias no total. Diarreia isolada não exige suspensão automática da nutrição, mas investigar intensidade, causa, perfusão e perdas antes de manter a mesma velocidade.

    Prescrição
    • Repor fósforo, K e Mg conforme déficit e função renal, conferindo a composição exata do fosfato: mmol de fósforo e mEq de K não são intercambiáveis. Redosar de perto, por exemplo a cada 12 horas no início de alto risco, antecipando em gravidade.
    • Queda de fósforo, K e Mg após realimentação exige avaliar síndrome de realimentação e outras causas, repor deficiências, administrar tiamina e monitorar clínica/eletrólitos. Não progredir automaticamente. Queda acentuada ou dificuldade de correção pode exigir reduzir calorias/carboidrato, frequentemente em cerca de 50% conforme protocolo; alterações graves ou ameaça à vida podem justificar pausa temporária. Manter a mesma oferta por exatamente 48 horas não serve para toda gravidade. Considerar também glicose IV e outras calorias no total.
    • Reiniciar a dieta enteral suspensa na madrugada; diarreia não é motivo de suspensão automática
    • Investigar a causa da diarreia: revisar medicamentos com sorbitol como excipiente, antibiótico em uso, osmolalidade da fórmula e contaminação em sistema aberto
    • Anotar na evolução o volume efetivamente infundido nas últimas 24 horas, e não o prescrito
  8. Dia 11, 9h — a via oral volta, e o desmame tem critério

    Afebril há três dias, lúcido, orientado. A reavaliação da fonoaudiologia libera consistência pastosa com líquido espessado. O erro deste ponto é retirar a sonda no mesmo dia em que a boca volta: a via oral leva dias para cobrir a meta, e a sonda retirada cedo demais volta a ser passada em 48 horas. A régua institucional é manter a via enteral até que a alimentação oral atinja dois terços das necessidades por pelo menos três dias consecutivos — e é por isso que o registro do percentual ingerido volta a ser o exame mais importante da folha.

    Prescrição
    • Dieta oral pastosa hiperproteica, seis refeições, com líquido espessado conforme orientação da fonoaudiologia; supervisão nas refeições
    • Manter a dieta enteral, agora noturna, reduzindo o volume na proporção do que for ingerido por via oral
    • Registrar o percentual ingerido em cada refeição; retirar a sonda quando a via oral cobrir dois terços da meta por três dias consecutivos
    • Suplemento nutricional oral duas vezes ao dia durante a transição
    • Antes de interromper a terapia nutricional, avaliar formalmente a capacidade de atender às necessidades por alimentação convencional e registrar essa avaliação (exigência da norma sanitária antes da interrupção)
    • Na alta: prescrição da consistência, do fracionamento e do suplemento por escrito, com quem reavalia e quando — e a informação de que fórmula enteral e suplemento não são fornecidos pela assistência farmacêutica básica
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Como saber se está funcionando

A dieta é a única prescrição da folha cujo efeito você pode medir sem pedir exame nenhum, e é a única que quase ninguém mede. Sete parâmetros bastam, e cinco deles já existem no prontuário — só não estão somados.

Percentual da necessidade que entrou — não percentual da bandejaDiariamente em paciente com risco nutricional ou desnutrido; ao menos semanalmente nos demais. A avaliação por escala visual é recomendada a partir de 48 horas de internação.

Esperado: Igual ou acima de 75% da necessidade calórico-proteica. Abaixo disso o paciente perde peso, ainda que a bandeja pareça bem aceita.

Se não melhora: Entre 60% e 80%: suplemento nutricional oral duas vezes ao dia, entre as refeições. Abaixo de 60% por três dias consecutivos em quem internou em risco ou desnutrido: terapia enteral associada à via oral. Igual ou abaixo de 50% por três dias em paciente com risco nutricional: intervenção imediata. Antes de escalar, confira se o percentual baixo não é da bandeja — comer 100% de uma dieta líquida completa já é 57% a 74% da meta num paciente de 70 kg.

Peso, na mesma balança e no mesmo horárioDiariamente enquanto houver terapia nutricional; duas vezes por semana nos demais.

Esperado: Estável no paciente sem edema. Perda superior a 2% em uma semana, ou 5% em um mês, é perda relevante e independe do que a bandeja diz.

Se não melhora: Perda de peso com ingestão registrada como boa significa que a meta está subestimada, que a bandeja entrega menos do que o rótulo sugere, ou que o registro é otimista. Refaça a conta por quilo com o peso de hoje e confira a caloria do rótulo prescrito na tabela de consistências. Ganho rápido de peso durante realimentação costuma ser retenção hídrica, não recuperação de massa.

Volume de fórmula efetivamente infundido nas últimas 24 horasDiariamente, em todo paciente com dieta enteral. O número que vale é o do balanço da enfermagem, não o da prescrição.

Esperado: Igual ou acima de 80% do volume prescrito.

Se não melhora: Some as pausas: banho, exame, fisioterapia, procedimento, sonda obstruída, bomba que apitou e ninguém religou. É a causa mais comum de meta não atingida em paciente que tolera bem a dieta. Duas condutas simples resolvem a maior parte: prescrever a velocidade sobre 22 horas em vez de 24, deixando margem para as pausas previstas, e escrever na folha que a infusão deve ser retomada após qualquer interrupção sem necessidade de nova ordem.

Fósforo, potássio e magnésio na realimentaçãoAntes da primeira caloria e a cada 12 horas nas primeiras 72 horas em quem passou dias com ingestão muito baixa, é desnutrido, é etilista ou vem de jejum prolongado.

Esperado: Estáveis. Fósforo é o que cai primeiro e o que mais importa.

Se não melhora: Queda de fósforo após iniciar alimentação exige avaliar síndrome de realimentação e outras causas. Repor fósforo, K e Mg conforme deficiência e oferecer tiamina; dificuldade de corrigir ou queda acentuada pode exigir redução de calorias/carboidrato, frequentemente em cerca de 50%, e casos graves podem justificar pausa temporária. Não manter automaticamente a mesma oferta por 48 horas. Monitorar eletrólitos e estado clínico, contando também glicose intravenosa no aporte.

Sinais de intolerância digestivaA cada turno, em todo paciente com dieta enteral: distensão abdominal, vômito, náusea, ausência de eliminação de fezes e flatos, dor.

Esperado: Ausentes. Ruído hidroaéreo não é critério para iniciar nem para manter — ruído indica contratilidade, não absorção.

Se não melhora: Distensão com vômito: reduza a velocidade, considere procinético, e só então considere posição pós-pilórica. Diarreia: mantenha a infusão e investigue a causa — medicamento com sorbitol, antibiótico, osmolalidade da fórmula, contaminação de sistema aberto. Resíduo gástrico não deve ser medido de rotina; quando medido por indicação, mantém-se a infusão abaixo de 500 mL na ausência de outros sinais.

A via oral: o teste que autoriza voltarDiariamente em todo paciente com via oral suspensa. É o parâmetro que ninguém reavalia porque a suspensão não incomoda ninguém.

Esperado: Nível de consciência recuperado, sem vômito, e avaliação de deglutição liberando alguma consistência.

Se não melhora: Via oral indisponível por mais de 24 a 48 horas obriga a decidir a via alternativa, e não a esperar mais. Quando a boca volta, o desmame tem critério: mantenha a via enteral até que a alimentação oral cubra dois terços das necessidades por pelo menos três dias consecutivos, e registre a avaliação formal exigida antes de interromper a terapia.

A linha do jejum: o motivo ainda existe?Todo dia, em todo paciente com dieta suspensa. Leva trinta segundos e é a checagem de maior rendimento da visita.

Esperado: Nenhum paciente em jejum sem motivo ativo, com hora de término escrita.

Se não melhora: Exame remarcado, exame cancelado, procedimento adiado e cirurgia transferida são as quatro causas do jejum que se estica. Nenhuma delas gera um aviso automático para a enfermaria: alguém precisa ir olhar. Registre o horário em que o jejum começou, some as horas, e trate qualquer jejum acima de 12 horas sem justificativa como evento a ser corrigido no mesmo turno.

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Onde o erro machuca

Escrever "dieta zero" sem motivo, sem prazo e sem cláusula de retorno

O dano: É a origem documentada do jejum que se estica. Quinze por cento dos pacientes em jejum num hospital terciário passaram de 24 horas, e auditorias de dieta zero registraram médias mensais de 122 horas e de 46 horas e 20 minutos. Manter a linha não exige decisão de ninguém; desfazê-la exige — e por isso ela sobrevive ao exame que a motivou. Somado ao fato de que 69,2% das refeições perdidas por jejum não são repostas, cada dia de jejum indevido é um dia de catabolismo em paciente que já está inflamado.

Como pegar a tempo: Escreva os quatro elementos: motivo, hora de início, hora prevista de término e o que acontece se o motivo desaparecer. A cláusula que resolve o problema na origem é uma frase: retornar a dieta imediatamente após o exame, ou imediatamente se ele for cancelado ou remarcado, sem necessidade de nova ordem. E confira o número de horas contra a régua do exame: endoscopia sob sedação pede seis horas de sólido e duas de líquido límpido, não doze.

Descer de consistência sem compensar a densidade

O dano: É o erro silencioso deste capítulo, porque quem o comete acha que mudou a textura e não o aporte. Na tabela nacional, a queda de "pastosa" para "pastosa homogênea" custa de 450 a 600 kcal e de 20 a 35 g de proteína por dia; a queda para "líquida completa" leva o paciente de 70 kg de 103%-120% do piso calórico para 57%-74%. Três dias assim, com a bandeja inteiramente aceita, já preenchem o critério de abrir a via enteral sem que ninguém tenha notado queda de aceitação — porque não houve.

Como pegar a tempo: Sempre que descer um degrau, calcule o que o degrau novo entrega no peso do seu paciente e compare com a meta. Se não cobre, o degrau vem acompanhado: suplemento nutricional oral duas vezes ao dia, aumento do número de refeições, ou densidade calórica aumentada pela nutrição. Escreva isso na mesma linha da consistência, porque a consistência sozinha comunica textura e esconde caloria.

Empilhar restrições que não têm diagnóstico por trás

O dano: Hipossódica mais para diabético mais pobre em potássio mais sem lactose produz uma bandeja que ninguém come, e a régua nacional é explícita: dietas modificadas não devem ser prescritas em combinação, porque múltiplas restrições reduzem muito a aceitabilidade e aumentam o déficit calórico-proteico. As restrições específicas têm dono conhecido — dieta sem glúten só em doença celíaca comprovada, restrição de lactose só em intolerância comprovada, hipoproteica só em doença renal crônica em tratamento conservador, e explicitamente não indicada em lesão renal aguda nem em cirrose.

Como pegar a tempo: Para cada restrição na sua linha, responda: qual diagnóstico a sustenta e onde ele está registrado? Restrição sem diagnóstico sai. E quando a restrição é necessária, ela vem com a contrapartida escrita — a hipossódica não desce de 6 g de sal por dia, e a hipocalórica no obeso, quando indicada, mantém pelo menos 1 g de proteína por quilo de peso ajustado.

Registrar "aceitando bem a dieta" sem ter medido nada

O dano: É a frase que trava a conduta por dias, porque bloqueia a única variável que abriria a próxima via. O que ela costuma significar é que a bandeja foi entregue e retirada, e não que a comida entrou. Menos de 10% dos pacientes consideram as refeições hospitalares aceitáveis e mais de 85% não comem tudo o que recebem; e o risco de óbito é 3,63 vezes maior em quem come 25% da refeição, chegando a 6,6 vezes em quem não come nada.

Como pegar a tempo: Troque o adjetivo por um número, todo dia: percentual ingerido em cada refeição, obtido do paciente, do acompanhante e de quem retira a bandeja. Escala visual de dez pontos serve, e escore abaixo de 7 marca risco. E some as refeições que o hospital cancelou — jejum, exame, procedimento no horário — antes de atribuir ao paciente uma recusa que foi da instituição.

Iniciar dieta plena no paciente que passou dias sem comer

O dano: É o erro que transforma a conduta certa em dano agudo. No jejum prolongado, os estoques intracelulares de fósforo, potássio e magnésio estão vazios mesmo com sérico normal; a chegada de carboidrato eleva a insulina e empurra os três para dentro da célula de uma vez. A hipofosfatemia grave produz falência do músculo respiratório, arritmia e rebaixamento, e aparece em 24 a 72 horas. A tiamina, cofator obrigatório para metabolizar a glicose que acaba de chegar, esgota-se em semanas de jejum.

Como pegar a tempo: Identifique o risco antes: dias com ingestão muito baixa, desnutrição, etilismo, perda de peso importante, jejum prolongado. Dose fósforo, potássio e magnésio antes da primeira caloria e a cada 12 horas nas primeiras 72 horas. Dê tiamina antes de começar. E comece devagar — um terço da meta, progredindo a cada 24 horas conforme tolerância e conforme os eletrólitos; se o fósforo cair, mantenha a oferta onde está e reponha, em vez de suspender.

Suspender a via oral e não abrir nenhuma outra

O dano: É a decisão de não alimentar, tomada sem ser dita. "Dieta zero, aguardando avaliação da fonoaudiologia" sem nada abaixo produz três dias de jejum absoluto num paciente que já estava comendo mal, e a espera figura nominalmente entre as justificativas de jejum sem conduta compensatória em auditoria brasileira. Ao lado dela aparece uma justificativa ainda mais reveladora: paciente com dieta prescrita, mas em jejum.

Como pegar a tempo: Toda suspensão de via oral vem com três coisas na mesma linha: o que entra no lugar durante a espera, o prazo para reavaliar, e o gatilho que abre a via alternativa. A régua é de 24 a 48 horas para iniciar a terapia enteral quando a via oral é inviável; escreva essa data na folha no mesmo momento em que suspende, e não depois. E lembre que a norma sanitária exige indicação médica escrita antes de qualquer prescrição dietética — enquanto a sua linha não existe, o nutricionista não pode prescrever a fórmula.

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O que dizer ao paciente e à família

A dieta é a prescrição que o paciente mais comenta e a que a equipe menos explica. Ela chega três vezes por dia, tem gosto, tem cheiro e tem uma palavra escrita numa etiqueta que ninguém traduz. Quatro conversas resolvem quase tudo, e nenhuma delas leva mais de dois minutos.

"Doutor, por que eu não posso comer?"

O senhor vai fazer um exame às duas da tarde, e para esse exame o estômago precisa estar vazio, senão o conteúdo pode subir e ir para o pulmão enquanto o senhor estiver sedado. Mas o senhor não precisa ficar sem comer o dia inteiro: eu vou pedir o café agora e o almoço às onze, e o jejum só começa ao meio-dia. Se o exame for cancelado ou remarcado, a comida volta na mesma hora, sem precisar esperar médico nenhum — já está escrito assim na prescrição.

Não diga: "O senhor está em jejum." É informação sem prazo e sem motivo, e é exatamente o que faz o jejum durar até alguém lembrar. O paciente que sabe a hora do exame e a hora do retorno da dieta cobra as duas — e essa cobrança é uma barreira de segurança.

"Essa comida não desce. Minha filha pode trazer comida de casa?"

Pode, e eu prefiro que traga, desde que a gente combine o quê. O que o senhor precisa é comer, e comer o que gosta funciona melhor do que qualquer coisa que eu prescreva. O que eu preciso saber é a consistência: o senhor está com dificuldade de mastigar por causa da prótese, então nada muito duro nem seco. E preciso que alguém anote quanto o senhor comeu, porque essa é a informação que eu uso para decidir se o senhor precisa de outra coisa além da comida.

Não diga: "Não pode trazer comida de fora." A proibição genérica reduz ingestão e não protege ninguém; o que precisa ser combinado é consistência, quantidade e registro. Só é restrição de verdade quando existe indicação escrita para isso.

"Eu não estou com fome. Eu como amanhã."

Entendo, e não é preguiça nem falta de vontade — a doença tira a fome, isso é do quadro. O problema é que o corpo não para de gastar enquanto o senhor não come, e o que ele usa nesses dias é o músculo. É por isso que a gente perde força para levantar e para tossir. Não vou pedir que o senhor coma o prato inteiro. Vou pedir seis vezes pequenas em vez de três grandes, e vou acrescentar um suplemento entre as refeições, que é pouco volume e muita caloria. E eu quero saber, todo dia, quanto o senhor conseguiu.

Não diga: "Tem que comer." Insistir sem mudar nada é o caminho mais curto para o paciente parar de responder honestamente sobre o que comeu — e a partir daí você perde o único dado que tinha.

"Vocês vão colocar uma sonda? Ele não vai mais comer pela boca?"

A sonda é temporária, e ela não substitui a boca: ela sustenta o seu pai enquanto a deglutição dele não está segura. Hoje, quando ele bebe, parte do líquido vai para o pulmão sem que ele tussa — a gente não vê acontecer, e é justamente por isso que é perigoso. A sonda entrega o alimento direto no estômago e nos dá tempo. A fonoaudiologia vai reavaliar, e assim que ela liberar alguma consistência a gente recomeça pela boca, mantendo a sonda até ele conseguir comer sozinho a maior parte do que precisa. Aí ela sai.

Não diga: "É só uma sondinha para alimentar." Diminuir o procedimento produz duas coisas ruins: a família consente sem entender, e depois interpreta cada dia com sonda como piora. Diga o prazo e diga o critério de retirada — é o que transforma a sonda de sentença em etapa.

"Ele parou de comer. Vocês vão deixar ele morrer de fome?"

Não. E essa é uma pergunta que merece uma resposta inteira, não uma frase. Nesta fase da doença dele, o corpo já não usa o alimento como usava — colocar comida à força, por sonda ou por veia, não devolve força nem tempo, e traz desconforto próprio. O que a gente vai fazer é oferecer o que ele aceitar, na consistência que for segura, pelo prazer, sem meta e sem cobrança; cuidar da boca dele, que resseca e dói; e tratar náusea e dor, que são os motivos mais comuns de recusa. Se em algum momento a senhora quiser rever essa decisão, a gente revê junto.

Não diga: "Não adianta mais alimentar." É verdade técnica dita de um jeito que a família ouve como abandono. A frase que funciona nomeia o que entra no lugar — conforto, boca, sintoma — e devolve a decisão para dentro da conversa.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantos dias de ingestão abaixo de 60% da meta antes de abrir a via enteral

Três dias consecutivos, no paciente que internou em risco nutricional ou desnutrido — posicionamento de sociedade nacional, 2022

O documento nacional sobre dieta oral hospitalar fixa que, em pacientes que internam em risco nutricional ou já desnutridos, com ingestão menor que 60% das necessidades nutricionais diárias por três dias consecutivos, a terapia enteral está indicada em associação à via oral. E vai além do gatilho: registra que, independentemente da condição nutricional, para pacientes com ingestão em torno de 60% das necessidades, a terapia enteral em conjunto com a via oral é uma alternativa para prevenir o déficit. O raciocínio por trás é de déficit acumulado — cada dia abaixo da meta é uma dívida que não se paga depois, e o documento insiste que quanto mais rápida a intervenção, melhores os desfechos, com menor morbidade, menor tempo de internação e menor custo.

BRASPEN/SBNPE — Dieta oral no ambiente hospitalar: posicionamento da BRASPEN. BRASPEN J 2022;37(3):207-227.

Sete dias, quando a decisão é escalar da via digestiva para a veia — diretriz de sociedade nacional para o paciente grave, 2023

A diretriz do paciente grave usa o mesmo percentual com outro prazo, e para outra decisão. No pós-operatório, a nutrição enteral precoce é desejável desde que a via oral não consiga suprir pelo menos 60% da meta estipulada, e a parenteral é indicada apenas quando a enteral não for possível ou quando não conseguir suprir pelo menos 60% da meta por sete dias. Na pancreatite aguda, no paciente eutrófico, a via parenteral é indicada quando há contraindicação formal ao trato digestivo ou quando não se consegue atingir 60% das necessidades calóricas estimadas após sete dias de tentativa pela via enteral — e, no desnutrido, as necessidades devem ser atingidas o mais breve possível, sem respaldo para atraso.

BRASPEN/SBNPE — Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J 2023;38(2º Supl 2):2-46, itens 10.4 e 11.2.

Mais de dez dias, no paciente que internou bem nutrido — protocolo institucional de hospital universitário federal, 2024

O protocolo de equipe multiprofissional de terapia nutricional de um hospital universitário federal escreve o critério de inclusão em duas metades: aceitação da dieta por via oral abaixo de 60% da meta por mais de dez dias em pacientes bem nutridos; e, em paciente com evidência de desnutrição calórico-proteica, a terapia deve ser iniciada imediatamente. A janela longa, portanto, é explicitamente condicionada ao estado nutricional de entrada, e existe ao lado de uma janela de zero dia para o outro extremo. É o documento que traduz as diretrizes para a rotina, e é o que o interno de fato encontra no serviço.

EBSERH / Hospital Universitário da UFGD — Protocolo PRT.EMTN.001, versão 2, item 4, critérios de inclusão (Resolução nº 127, de 15 de agosto de 2024).

Como decidir

As três posições usam o mesmo número, 60%, e diferem no prazo por um fator de 3,3 entre a mais curta e a mais longa — mas elas não estão medindo a mesma coisa, e reconhecer isso resolve a decisão. A janela de três dias é para o paciente que já entrou com dívida: não há reserva para financiar a espera. A janela de dez dias é para quem entrou com reserva, e a espera é financiada por ela. A janela de sete dias não é sobre abrir a via enteral, e sim sobre trocar de via — é o prazo para desistir do intestino e ir para a veia, decisão de risco muito maior. Então a pergunta que decide não é quantos dias, é qual era o paciente no primeiro dia; e essa resposta vem da triagem nutricional das primeiras 48 horas, que a enfermaria costuma não fazer. Na ausência de triagem formal, três perguntas de anamnese resolvem: perdeu peso sem querer nos últimos três meses, comeu menos que o habitual na semana antes de internar, a roupa ficou larga. Qualquer resposta afirmativa coloca o paciente na janela curta até prova em contrário — e o custo do erro é assimétrico, porque abrir suplemento e reavaliar em três dias é barato, e chegar ao décimo dia com déficit acumulado num idoso não é. Uma trava adicional vale para os três documentos: nenhum dos prazos começa a contar no dia da internação. Eles contam a partir do dia em que a ingestão caiu, e o paciente que chegou depois de dois dias sem comer em casa já entra com dois dias no relógio.

Até onde restringir sódio na dieta do paciente internado

Piso de 6 g de sal por dia, com 2,8 g apenas na falência cardíaca aguda descompensada — posicionamento de sociedade nacional, 2022, alinhado à diretriz europeia que ele cita

O documento nacional recomenda que a dieta hipossódica forneça em torno de 6 g de sal por dia em pacientes com hipertensão arterial, insuficiência cardíaca congestiva, doença renal crônica e cirrose, e afirma que restrição maior que essa não apresenta benefícios e aumenta o risco de desnutrição. A justificativa declarada é tripla: baixa aceitabilidade da dieta mais restrita, evidência fraca de benefício, e prejuízo nutricional. Para a falência cardíaca aguda descompensada, e apenas para ela, sugere 2,8 g de sal por dia. Em nenhum dos dois casos a restrição deve vir combinada com outras restrições, porque a soma delas derruba a ingestão.

BRASPEN/SBNPE — Dieta oral no ambiente hospitalar: posicionamento da BRASPEN. BRASPEN J 2022;37(3):207-227, Quadro 2 e seção de restrições desnecessárias.

Sem piso definido, porque a evidência citada mede sódio e não sal — leitura do próprio estudo de 833 pacientes que o documento invoca

O estudo que o documento cita para sustentar a recomendação analisou o consumo em 833 pacientes com insuficiência cardíaca crônica e definiu baixa ingestão como menos de 2.500 mg de sódio por dia. O resultado foi que a baixa ingestão de sódio não reduziu o risco de morte ou hospitalização em comparação com a ingestão mais alta, e associou-se a aumento do risco de hospitalização por insuficiência cardíaca. A conversão entre as duas grandezas é fixa: 1 g de cloreto de sódio contém 393 mg de sódio. Logo, 2.500 mg de sódio equivalem a 6,35 g de sal — praticamente o mesmo número que a recomendação adota como piso, e não como teto. E a sugestão de 2,8 g de sal para a falência cardíaca corresponde a 1.102 mg de sódio, valor abaixo do braço que, no estudo citado, se associou a mais hospitalização.

Estudo de consumo de sódio em 833 pacientes com insuficiência cardíaca crônica, citado como referência 86 no posicionamento BRASPEN 2022; conversão pela razão de massas atômicas do sódio (22,99) e do cloreto de sódio (58,44).

Como decidir

Distinguir gramas de sódio de gramas de sal: 2 g de sódio equivalem aproximadamente a 5 g de sal. Não adotar piso universal de 6 g de sal para todo internado. DRC e hipertensão podem justificar restrição menor, conforme KDIGO 2024, enquanto congestão, perdas, ingestão e desnutrição exigem individualização. Evitar restrições acumuladas que tornem a dieta inaceitável; escolher meta clínica explícita e acompanhar ingestão, peso, volume e eletrólitos. A internação permite ajustar a orientação de longo prazo às necessidades presentes, não eliminá-la automaticamente.

Com o que recomeçar quando a via oral volta: líquidos claros ou já a consistência que o paciente tolera

Não começar por líquidos claros — diretriz de sociedade nacional para o paciente grave, 2023, opinião de especialista

A diretriz do paciente grave responde à pergunta de forma direta ao tratar do cirúrgico crítico no pós-operatório: a utilização de líquidos claros como dieta de partida não está indicada. O raciocínio é o mesmo que sustenta a abreviação do jejum: a dieta de líquidos claros entrega quase nada — de 300 a 500 kcal por dia na tabela nacional de consistências, com proteína registrada como não aplicável — e o degrau existe por tradição, não por evidência de tolerância. A mesma diretriz registra que o uso precoce de nutrição enteral ou oral no pós-operatório imediato não coloca em risco anastomose feita em condições adequadas, inclusive de estômago ou reto, e reduz a incidência de deiscência.

BRASPEN/SBNPE — Diretriz BRASPEN de Terapia Nutricional no Paciente Grave. BRASPEN J 2023;38(2º Supl 2):2-46, itens 11.4 e 11.6.

Manter a escada de progressão, com os degraus líquidos como transição — nomenclatura nacional de dieta oral, 2022, e os manuais institucionais que a operacionalizam

O posicionamento nacional sobre dieta oral organiza as sete consistências explicitamente como dieta hospitalar progressiva, e mantém a líquida restrita e a líquida completa como degraus dessa progressão. Reconhece que as consistências de transição — líquida, semilíquida, pastosa e pastosa cremosa — têm baixo valor calórico-proteico e por isso devem vir associadas a suplemento nutricional oral quando prescritas por longo tempo, mas não as retira da escada. Os manuais institucionais fazem o mesmo: um hospital universitário federal mantém líquida completa, líquida restrita e líquida sem resíduo como degraus separados, e outro hospital público mantém dietas de progressão em fases para condições específicas.

BRASPEN/SBNPE — Dieta oral no ambiente hospitalar, BRASPEN J 2022;37(3):207-227, Quadro 1; EBSERH/HC-UFTM, Manual MA.UNUT.001 v.2, Dietas hospitalares (2022); GHC/HNSC, Manual de dietas hospitalares (2023).

Como decidir

As duas posições estão respondendo a perguntas diferentes, e por isso podem coexistir na mesma enfermaria sem que nenhuma esteja errada. A primeira responde "o degrau líquido protege alguma coisa?", e a resposta é não: ele não testa tolerância de forma útil e custa caloria. A segunda responde "existe paciente para quem o degrau líquido é o degrau certo?", e a resposta é sim — quem tem disfagia com líquidos espessados liberados, quem está em preparo de exame, quem tem obstrução parcial. Na beira do leito, quem separa uma da outra é o motivo pelo qual aquele paciente está naquele degrau. Se o degrau é uma etapa de tempo — "amanhã sobe" —, ele não protege nada e o custo é real: no paciente de 70 kg, líquida completa entrega de 57% a 74% da meta e líquida restrita, de 17% a 29%. Nesse caso, suba direto para a consistência mais alta que o paciente tolera com segurança. Se o degrau é uma etapa de segurança — a fonoaudiologia liberou aquela consistência e não outra —, ele fica, e o que muda é o resto da prescrição: densidade calórica aumentada, fracionamento maior, suplemento associado desde o primeiro dia, e um prazo escrito para reavaliar a deglutição. A pergunta operacional, portanto, é uma só, e cabe na visita: quem autorizou este degrau, e o que precisa acontecer para subir? Degrau sem dono e sem critério de saída é o degrau onde o paciente estaciona.

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O raciocínio, em voz alta

Dona Aurelina Sanfelice, 76 anos, 51 quilos, 1,54 m. Sexto dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade, em antibiótico endovenoso, afebril há dois dias, lúcida e orientada. No terceiro dia foi solicitada endoscopia digestiva alta por anemia, e a dieta foi suspensa na véspera. O exame foi remarcado duas vezes. Desde então, a prescrição diz "dieta líquida restrita" — a que a nutrição serve enquanto o paciente aguarda exame. As três últimas evoluções de enfermagem registram "aceitação 100%". Ela não teve febre, não teve vômito, não teve diarreia, e a filha diz que a mãe "está comendo tudo o que trazem". A endoscopia está agora marcada para amanhã.

  1. o que eu leio antes de olhar para a paciente

    As três últimas prescrições, lado a lado, com três colunas. Qual dieta estava escrita: líquida restrita nos três dias. Quantas refeições foram servidas: seis por dia, todas. Quanto ela comeu: 100%, registrado. À primeira vista está tudo certo — dieta prescrita, dieta servida, dieta aceita. É exatamente por isso que este caso é o do capítulo: nada aqui aciona alarme, e o problema é grave.

  2. a conta que muda tudo

    Peso 51 quilos. Meta calórica pela régua de manutenção, 25 a 30 kcal por quilo: 1.275 a 1.530 kcal por dia. Pela régua do idoso, 30 a 35 kcal por quilo: 1.530 a 1.785. Meta proteica pela régua do idoso com doença aguda, 1,2 a 1,5 g por quilo: 61 a 77 g. Agora o que a bandeja entrega: dieta líquida restrita são 300 a 500 kcal por dia, com proteína registrada como não aplicável. Comendo 100% da bandeja, dona Aurelina recebeu entre 24% e 39% da meta calórica mais conservadora, e proteína praticamente zero, por três dias seguidos. A aceitação de 100% é verdadeira e irrelevante: o denominador está errado. Vale fazer também a conta que a equipe não fez: em três dias, o déficit acumulado é de cerca de 3.000 kcal e de praticamente toda a proteína que ela deveria ter recebido. Nenhuma refeição futura repõe isso, e é por esse motivo que os documentos nacionais tratam o gatilho por dias consecutivos, e não por média semanal.

  3. o gatilho que já foi cruzado

    A régua nacional diz que ingestão abaixo de 60% das necessidades por três dias consecutivos, em paciente que internou em risco nutricional ou desnutrido, indica terapia enteral associada à via oral; e que ingestão igual ou inferior a 50% ao longo de três dias, em paciente com risco nutricional, exige intervenção imediata. Uma mulher de 76 anos com 51 quilos e índice de massa corporal de 21,5, internada por pneumonia, está em risco nutricional até prova em contrário. Ela cruzou os dois gatilhos há três dias, com aceitação registrada como total todos os dias.

  4. o que aconteceu com o jejum, e por que ninguém corrigiu

    A dieta líquida restrita entrou como preparo para um exame que foi remarcado duas vezes. A linha nunca foi reescrita porque manter não exige decisão de ninguém e desfazer exige. É o mesmo mecanismo que produz médias mensais de dieta zero de 122 horas em auditoria de hospital terciário, com o exame — e não a cirurgia — como principal motivo. E há um agravante próprio deste caso: a paciente não estava em jejum. Estava recebendo bandejas seis vezes por dia, o que faz a situação parecer alimentada tanto para a equipe quanto para a família.

  5. o que eu prescrevo hoje, antes do exame

    Primeiro, corrijo o degrau: a endoscopia é amanhã, e a régua brasileira para exame endoscópico sob sedação é de seis horas de jejum para sólidos com refeição de véspera hipogordurosa e de baixo volume, e duas horas para líquidos límpidos. Isso significa que ela pode comer normalmente hoje, com jantar leve, e o jejum começa às 2h da manhã para um exame das 8h. Dieta pastosa hiperproteica com seis refeições hoje, e não líquida restrita. Segundo, suplemento nutricional oral hiperproteico duas vezes ao dia, começando agora. Terceiro, escrevo a meta na evolução em números — 1.530 kcal e 61 g de proteína — e peço registro do percentual ingerido por refeição. Quarto, a linha do jejum sai com prazo e com cláusula: retornar dieta imediatamente após o exame, e imediatamente se ele for remarcado outra vez. Vale acrescentar uma linha de cuidado que muda a aceitação e não custa nada: proteger a hora da refeição, sem coleta, curativo ou banho nos horários das principais, e deixar a bandeja ao alcance da mão. Em auditoria de dezoito hospitais, 41,8% dos pacientes eram interrompidos pela equipe no momento da refeição.

  6. o que eu vigio nas próximas 72 horas

    Três dias com ingestão em torno de 30% da meta em uma idosa de 51 quilos é situação de risco para síndrome de realimentação, mesmo sem jejum absoluto. Dosarei fósforo, potássio e magnésio hoje, antes de aumentar a oferta, e repetirei em 24 e 48 horas. A oferta sobe por degraus, não de uma vez. E o parâmetro que decide a conduta de sexta-feira não é a temperatura nem o hemograma: é o percentual da necessidade que entrou — se continuar abaixo de 60% depois de corrigido o degrau e acrescentado o suplemento, a discussão passa a ser de via, e não mais de cardápio.

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Faça você

Seu Olegário Tourinho, 79 anos, 58 quilos, 1,70 m — índice de massa corporal de 20,1. Internado há cinco dias por exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica, em oxigênio por cateter nasal, corticoide sistêmico e antibiótico. Tem hipertensão e doença renal crônica em tratamento conservador, com creatinina de 1,8 mg/dL estável. A prescrição de dieta, copiada desde o primeiro dia, diz: "dieta oral branda, hipossódica, para diabético, pobre em potássio, sem lactose". Ele não tem diabetes — a glicemia subiu no segundo dia por causa do corticoide, e alguém acrescentou a restrição. Ele não tem intolerância à lactose. O potássio de hoje é 4,2 mEq/L. A filha conta que ele perdeu "umas roupas de tamanho" nos últimos meses e que em casa comia pouco. A técnica de enfermagem informa que ele deixa quase tudo na bandeja e que "reclama que não tem gosto". Nenhuma evolução registra percentual ingerido. Ele está cansado, tosse pouco e a fisioterapia anotou que ele não conseguiu sentar na poltrona hoje.

  1. quais restrições ficam e quais saem, uma por uma

    Retirar restrições sem benefício demonstrado e adequar carboidrato à hiperglicemia, sem reduzir calorias indevidamente. K normal hoje não exclui necessidade individual de orientação, mas tampouco justifica proibição indiscriminada de alimentos. Para sódio, não existe piso universal de 6 g de sal: DRC/hipertensão podem justificar menos de 5 g/dia de sal, ajustando aceitabilidade e estado nutricional.

  2. o que a soma das restrições produziu

    A régua nacional é explícita ao dizer que dietas modificadas não devem ser prescritas em combinação, porque múltiplas restrições reduzem muito a aceitabilidade e aumentam o déficit calórico-proteico. Quatro restrições empilhadas numa dieta branda produzem uma bandeja sem sal, sem açúcar, sem leite e sem os alimentos ricos em potássio — que são justamente a maior parte das frutas, das leguminosas e dos vegetais. É a bandeja que ele está deixando na mesa, e a queixa dele de que não tem gosto é um dado clínico correto.

  3. o que a doença dele acrescenta à meta, e não subtrai

    Exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica é trabalho respiratório aumentado somado a corticoide sistêmico, que é catabólico. A régua do idoso com doença aguda pede 30 a 35 kcal por quilo e 1,2 a 1,5 g de proteína por quilo. Sobre 58 quilos, são 1.740 a 2.030 kcal e 70 a 87 g de proteína. Existe uma armadilha específica que vale afastar: a diretriz nacional do paciente grave desaconselha usar fórmulas com alto teor de lipídio e baixo teor de carboidrato para manipular o coeficiente respiratório e reduzir produção de gás carbônico na disfunção pulmonar.

  4. a restrição proteica que parece indicada e não é

    A DRC estável e a doença aguda com risco nutricional pedem metas diferentes. Não usar automaticamente dieta hipoproteica ambulatorial em doença catabólica, mas também não prescrever proteína alta sem considerar estágio renal, ureia, catabolismo e necessidade de diálise. Definir meta com nutrição/nefromedida, com acompanhamento de tolerância e aporte efetivo.

  5. o dado que falta e que decide a via

    Nenhuma evolução registra quanto ele comeu, e é esse número que separa "ajustar a bandeja" de "abrir outra via". A conduta de hoje inclui, obrigatoriamente, começar a medir. E a triagem que ninguém fez tem consequência aritmética: perda de peso referida e ingestão reduzida antes de internar colocam este paciente na janela de três dias, não na de dez.

Ver como fecharíamos

Reavaliar hoje nutrição e doença aguda. Retirar restrições de lactose e de açúcar sem indicação e revisar a restrição de K pelo histórico e exames; não cortar calorias para tratar hiperglicemia do corticoide. Adequar carboidratos e insulinoterapia quando necessária. A restrição de sódio deve ser individual: não há piso obrigatório de 6 g de sal. DRC/hipertensão podem justificar alvo menor, desde que a alimentação continue aceitável. Definir textura por mastigação e deglutição, preferências e ajuda necessária. Fracionar refeições e oferecer apoio para alcançar a bandeja e comer. Meta energética inicial pode partir de aproximadamente 30 kcal/kg, cerca de 1.740 kcal, mas revisar risco de realimentação e tolerância. Proteína merece avaliação conjunta com nutrição e função renal: não aplicar automaticamente 0,6 g/kg da DRC estável nem exigir ≥1,2 g/kg para todo renal agudamente doente. Buscar aporte suficiente e acompanhar ureia, rim e catabolismo. Quantificar ingestão e investigar perda de peso, dentição, fadiga, sintomas digestivos, depressão e dificuldade de acesso à comida. Suplemento oral apropriado pode ser acrescentado entre refeições, sem substituir uma bandeja que poderia ser melhorada. Peso isolado não mede estado nutricional se há variação de fluidos; integrar exame, função e história. Como há baixa ingestão há dias e provável risco nutricional, avaliação pela equipe de nutrição deve ser imediata. Monitorar resposta diariamente; não esperar automaticamente mais 72 horas para discutir via enteral se a ingestão continuar muito insuficiente. Antes de aumentar calorias, avaliar fósforo, K, Mg e necessidade de tiamina. Se uma via alternativa for necessária, confirmar sua segurança e calcular a água pelo volume realmente infundido, não pelo volume da meta futura. Prescrever reavaliação, objetivos e plano de transição para a alta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Revisar cada restrição e a aceitação real. Ausência de diabetes ou intolerância à lactose torna essas restrições injustificadas no caso, mas hiperglicemia por corticoide pede distribuição adequada de carboidrato e tratamento, não abandono da nutrição. Não existe mínimo universal de 6 g de sal; DRC e hipertensão frequentemente pedem redução de sódio, equilibrada com ingestão e estado clínico. Proteína deve ser individualizada entre proteção renal e necessidade da doença aguda. Corrigir a oferta e medir resposta antes de impor outra via apenas por bandeja inadequada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Calcule água suplementar para 517, 1.033 e 1.550 mL de fórmula com 83% de água. Explique por que 580 mL não resolvem os três dias.

Em 30 dias

Reavalie Olegário com nutrição: escolha restrições justificadas, metas individualizadas, suporte à refeição e critérios para mudar a via.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 55 anos, vigilante noturno, na enfermaria no décimo segundo dia depois de ser operado de obstrução intestinal, com retirada de um trecho do intestino delgado, que reclama de comida saindo pela ferida, molhando o curativo e queimando a pele em volta. Levante o que precisa levantar — quanto sai por dia e com que aspecto, o que ele come e bebe, o peso de antes da cirurgia e o de hoje — e examine a ferida. Calcule a meta dele, decida se a dieta pela boca continua hoje, se ele precisa de outra via e o que precisa acontecer antes, e escreva a linha da dieta com o que ela precisa carregar. Explique a ele, em linguagem simples, o que vai acontecer com a comida dele e por quê.