Clínica MédicaPrescrição e Cuidado do Paciente Internado

O "se necessário" da madrugada

Prescrição do 'se necessário': antitérmico, antiemético, laxante

Antitérmico, antiemético e laxante são três linhas que você escreve em dez segundos e que outra pessoa executa às três da manhã, sozinha. Este capítulo é sobre o que cada uma precisa carregar — gatilho, dose, via, intervalo mínimo e teto em 24 horas — e sobre quem lê, no dia seguinte, o que foi administrado.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Ministério da Saúde e Anvisa, em parceria com Fiocruz e Fhemig — Anexo 03: Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos, 46 p.

Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde (Proadi-SUS) — Manual de Cuidados Paliativos, 2ª edição revisada e ampliada. São Paulo, 2023. ISBN 978-65-85051-58-3

Coordenação de Vigilância em Saúde, Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo — Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. 1ª edição. São Paulo, 2017. 465 p.

Bula profissional de paracetamol solução oral em gotas 200 mg/mL, Geolab Indústria Farmacêutica, versão V.06_05/2022

01

Responda antes de ler

Paciente idoso em uso de opioide ficará internado, tem mobilidade reduzida e disfagia. Como organizar a prevenção de constipação?

02

O paciente que você vai ver

Sete e dez da manhã, enfermaria de clínica médica de doze leitos. A técnica que sai do plantão noturno te entrega a folha do leito 9 antes de ir embora e resume a noite em duas frases: "ele passou mal de madrugada, dei o que estava prescrito, melhorou". Depois pega a mochila e vai. A folha fica com você, e é o único documento que sobrou daquelas oito horas.

O leito 9 é o senhor Ubirajara Prado, 66 anos, 74 quilos, 1,68 m, aposentado da manutenção de uma escola municipal. Está no quinto dia de internação por pancreatite aguda de origem biliar, forma leve. Ficou em jejum nas primeiras 48 horas, recebeu hidratação venosa e analgesia, e desde anteontem come uma dieta branda que ele descreve como "sopa". A amilase caiu, a dor diminuiu, o abdome está mais confortável, e a conversa da visita de ontem foi sobre a colecistectomia que ele vai fazer nesta internação ou logo depois. Do ponto de vista da doença que o trouxe, ele está melhorando.

A folha da noite conta outra história, mas só para quem a lê. No bloco do "se necessário" há três linhas, e as três foram usadas. Dipirona: quatro horários checados, à caneta, com as iniciais de quem administrou — 20h, 0h10, 3h40 e 5h50. Metoclopramida: dois horários, 22h e 4h. E uma terceira linha, escrita como "laxante se necessário", sem nenhuma marca ao lado, porque ninguém soube o que era laxante nem em que dose.

Ao lado, na folha de sinais vitais, um número solto: temperatura axilar de 38,1 graus às 3h30. Nenhuma anotação depois dele. A dipirona das 3h40 foi dada dez minutos depois daquela medida, e às 5h50 veio outra. Quem pediu a das 5h50 não sabe da das 3h40 — o registro está na folha, mas a folha estava no posto, e quem foi ao leito levou a bandeja, não o papel.

Você entra no quarto. Seu Ubirajara está acordado, sentado, e diz que a dor está melhor. Perguntado se sentiu febre, responde que não sabe, que "suou um pouco". Perguntado sobre enjoo, diz que na madrugada teve, mas que passou. Perguntado quando foi a última vez que evacuou, ele pensa, olha para o teto e responde a frase que abre o problema deste capítulo: "desde que eu cheguei aqui, doutor, acho que não". Faz cinco dias.

Nada disso é uma intercorrência. É a operação normal de uma enfermaria: três linhas condicionais escritas por alguém, executadas por outra pessoa, sem ninguém por perto, e lidas na manhã seguinte por um terceiro que só olha para elas se decidir olhar. Este capítulo é sobre escrever essas três linhas de um jeito que elas funcionem sozinhas — e sobre a leitura da manhã seguinte, que é a parte que quase nunca acontece.

03

Quem adoece disso

Comece pelo intestino, porque é o mais fácil de medir e o mais fácil de ignorar. Num estudo observacional brasileiro conduzido por Nassar e colaboradores, citado na revisão de Azevedo e colaboradores na Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 106 pacientes internados por 3 ou mais dias em terapia intensiva foram acompanhados com uma definição simples: constipação é não evacuar por 3 dias consecutivos. A incidência foi de 69,9%. Numa enfermaria a gravidade é menor, mas os fatores são os mesmos — imobilidade, jejum, dieta pobre em resíduo, desidratação, opioide, ferro, anticolinérgico. A consequência prática é direta: se sete em cada dez pacientes graves param de evacuar, esperar a queixa do paciente é esperar por algo que, na maioria das vezes, ele não vai trazer sozinho. A pergunta sobre a última evacuação entra na visita diária como parte do exame, não como curiosidade.

A mesma revisão traz um dado que explica por que isso passa em branco: num inquérito enviado a 143 unidades de terapia intensiva, 52% reconheciam a constipação como um problema, e apenas 3,5% tinham algum protocolo para diagnosticá-la e tratá-la. Quando não há protocolo, o item vira gosto pessoal de quem está de plantão, e a linha do laxante nasce com a redação mais vaga da folha inteira.

Agora a folha. Num hospital universitário federal de Fortaleza, com 243 leitos do Sistema Único de Saúde, Néri e colaboradores mediram a prevalência de erros de prescrição clinicamente significativos em dois momentos, 2003 e 2007: 29,25% e 24,20%. O que interessa aqui não é a queda, é o que ficou. A omissão de pelo menos uma informação relevante para a segurança da dispensação e da administração esteve presente em 75,35% dos medicamentos prescritos na primeira coleta e em 79,22% na segunda; o peso do paciente estava ausente do prontuário em 71,94% e 75,71% dos casos. Uma linha condicional é justamente aquela em que a informação que falta não será suprida por ninguém à beira do leito às três da manhã: quem lê é um técnico que não pode inventar dose nem teto.

E o registro do que foi feito. Gimenes e colaboradores analisaram 1.084 doses administradas em horário diferente do prescrito em unidades de clínica médica de cinco hospitais brasileiros. Havia sigla ou abreviatura em 96,2% delas; o registro do horário de administração estava incompleto em 7,8%, rasurado em 4,8%, e faltava horário ou frequência em 1,9% das prescrições. A consequência é a que fecha este capítulo: a dose que foi dada à noite é um dado clínico, e o único lugar onde ela existe é o registro da folha. Um registro incompleto ou rasurado não apaga só a burocracia — apaga a informação de que aquele paciente teve febre, teve náusea ou teve dor em uma hora determinada da madrugada.

04

Por que acontece o que acontece

Três sintomas, três mecanismos, e o mecanismo é o que decide a droga. Comece pela febre, que é o mais mal-entendido dos três, porque quase todo mundo trata a febre como se ela fosse a doença.

A febre não é o corpo perdendo o controle da temperatura: é o corpo mudando a temperatura que ele considera correta. Pirógenos deslocam para cima o ponto de ajuste hipotalâmico, e o organismo então trabalha para alcançar esse novo alvo — vasoconstrição periférica, tremor, sensação de frio. É por isso que o paciente febril se cobre. O antitérmico não esfria o paciente; ele devolve o ponto de ajuste para baixo, e o corpo, agora com uma meta menor, dissipa calor: vasodilatação, sudorese, queda da temperatura. A consequência clínica dessa distinção é grande. Se a temperatura sobe de novo quatro horas depois, isso não é falha do antitérmico. É o pirógeno ainda circulando, e a curva voltando ao que ela seria — o que é informação, não fracasso.

Daí vem a primeira regra do bloco condicional: a febre é um sinal, e um sinal tratado deixa de ser observável. Quando você prescreve um antitérmico de 6 em 6 horas sem gatilho, você não está tratando a febre; está impedindo que ela apareça, e junto com ela desaparece a única pista de que a antibioticoterapia não está funcionando, de que o cateter infectou, de que a coleção está se formando. A investigação da febre do paciente internado — o que procurar, em que ordem, quando colher cultura — pertence a outro capítulo desta apostila. O que pertence a este é a decisão anterior: se e quando a temperatura deve ser derrubada, e o que se perde quando ela é derrubada por reflexo.

Os dois antitérmicos que a Rename 2024 coloca em toda enfermaria brasileira agem por inibição da síntese de prostaglandinas no sistema nervoso central, reduzindo o ponto de ajuste. A dipirona é uma pró-droga: hidrolisa-se rapidamente em 4-N-metilaminoantipirina, que é o metabólito responsável pelo efeito, com meia-vida plasmática da molécula-mãe de cerca de 14 minutos após administração intravenosa. Efeito analgésico e antipirético em 30 a 60 minutos, duração aproximada de 4 horas. O paracetamol tem efeito antipirético e analgésico central com atividade anti-inflamatória periférica mínima, o que muda pouco na febre e muda muito no que ele não faz.

O paracetamol tem um mecanismo de dano que precisa ser entendido para que a soma da folha faça sentido. Em dose terapêutica, a maior parte é conjugada por glicuronidação e sulfatação e sai inerte na urina; uma fração de 5% a 15% passa pelo citocromo P450 e gera NAPQI, um metabólito reativo que a glutationa neutraliza. Em sobredose, as vias de conjugação saturam, a produção de NAPQI aumenta, e quando cerca de 70% da glutationa está esgotada o NAPQI se liga às proteínas do hepatócito e produz necrose. O detalhe que importa na enfermaria é temporal: a primeira fase, nas primeiras 24 horas, é assintomática ou traz apenas anorexia, náusea e vômito. Ou seja, o paciente que recebeu paracetamol demais hoje parece bem hoje, e aparece com transaminases alteradas depois de amanhã, quando ninguém mais está somando.

Segundo mecanismo, a náusea. O reflexo do vômito é coordenado no núcleo do trato solitário, no tronco encefálico, e chega ali por quatro caminhos diferentes. O primeiro é a zona quimiorreceptora do vômito, no assoalho do quarto ventrículo, uma região com barreira hematoencefálica incompleta que amostra sangue e liquor: toxinas bacterianas, uremia, cetose, fármacos e radioterapia disparam por aqui, e os mediadores principais são dopamina e serotonina, através de receptores D2 e 5-HT3. O segundo é o trato gastrintestinal, que sinaliza pelo vago quando a mucosa gástrica é irritada ou quando o estômago e a alça se distendem; na parede do estômago os receptores são D2, e a gastroparesia produzida por eles é ela própria emetogênica. O terceiro é o sistema vestibular, com receptores histamínicos e muscarínicos, que é a via do movimento e da tontura. O quarto é o córtex e o sistema límbico, que é a via do cheiro, da lembrança e da ansiedade — e a razão pela qual o paciente enjoa quando a bandeja entra no quarto.

Isso resolve o problema de escolha do antiemético sem decorar lista. Se a náusea é química, os receptores de vez são D2 e 5-HT3, e as drogas certas são as antidopaminérgicas e as antisserotoninérgicas. Se é estase gástrica, o que resolve é procinético, e o procinético existe porque a metoclopramida bloqueia D2 na parede do estômago. Se é vestibular, quem responde é anti-histamínico e anticolinérgico. Se é hipertensão intracraniana, o corticoide reduz o edema perilesional e o antiemético é adjuvante. Trocar de droga sem trocar de mecanismo é repetir a mesma tentativa com outro nome, e associar duas drogas do mesmo mecanismo é dobrar efeito adverso sem dobrar efeito.

A metoclopramida traz um custo embutido nesse mecanismo. Ela é antidopaminérgica e atravessa a barreira hematoencefálica, e o bloqueio de D2 no estriado produz sintomas extrapiramidais: inquietude, movimentos involuntários de membros e face, torcicolo, crise oculógira, protrusão rítmica da língua, trismo. A bula profissional é explícita em dois pontos que a prática ignora — esses sintomas podem ocorrer mesmo depois de dose única, e são mais frequentes em crianças e adultos jovens, exatamente a população em que a droga é dada com mais leveza. Ela é também a razão do intervalo mínimo de 6 horas entre administrações, que a bula manda respeitar mesmo quando o paciente vomitou a dose. Em tratamento prolongado o risco muda de natureza e vira discinesia tardia, e é por isso que o tratamento não deve exceder 3 meses.

A ondansetrona é o outro lado: antagonista de 5-HT3, sem ação dopaminérgica e, portanto, sem extrapiramidal. O preço dela é outro. Prolonga o intervalo QT de maneira dose-dependente — no estudo de voluntários da bula, em 58 adultos sadios, a diferença média máxima do QTcF em relação ao placebo foi de 5,8 milissegundos com 8 mg e de 19,6 milissegundos com 32 mg, ambas por via intravenosa em 15 minutos — e tem constipação entre os efeitos adversos comuns. Ou seja, no paciente que já tem as outras duas linhas do capítulo em aberto, a droga que resolve o vômito piora o intestino.

Terceiro mecanismo, a constipação. O opioide age em receptores da parede do trato gastrintestinal e faz três coisas ao mesmo tempo: reduz os movimentos peristálticos propulsivos, aumenta a absorção de água e eletrólitos no intestino e diminui o reflexo evacuatório. Esse efeito não sofre tolerância — enquanto o opioide estiver prescrito, ele continua acontecendo, no primeiro dia e no trigésimo, e independe da via, valendo para a via oral, a parenteral e a transdérmica. Sobre esse efeito o hospital empilha os seus: o paciente deitado, o jejum, a dieta líquida sem resíduo, a hidratação insuficiente, o sulfato ferroso, a escopolamina, o antidepressivo tricíclico, e a barreira física e social de ter de evacuar numa comadre, com cortina, na frente de outra pessoa.

As classes de laxante seguem esse mecanismo, e cada uma tem um tempo. O irritativo estimula diretamente o plexo mioentérico e aumenta a peristalse; é a classe que faz sentido contra o mecanismo do opioide, porque age exatamente sobre o que o opioide desligou. O osmótico cria um meio hiperosmolar na luz, atrai água, aumenta o bolo fecal e amolece as fezes. O lubrificante reduz o atrito. E a via retal, com supositório de glicerina ou lavagem, resolve o segmento final quando o problema é impactação, intolerância à via oral ou refratariedade. A escolha entre eles é uma escolha de mecanismo e de tempo de ação, e é aqui que o "se necessário" começa a não caber: o bisacodil leva de 6 a 12 horas para produzir efeito laxativo, o que torna a administração de madrugada inútil e a administração da noite anterior necessária.

Repare no encaixe entre os três mecanismos, porque ele é a razão de este capítulo tratar as três linhas juntas. O opioide prescrito para a dor causa náusea nos primeiros dias e constipação em todos os dias. O antiemético escolhido por hábito, a metoclopramida, é procinético — o que é acidentalmente útil no intestino parado, e inútil se a náusea for química. A ondansetrona, escolhida para fugir do extrapiramidal, constipa. E a dipirona e o paracetamol, dados como antitérmicos, são também analgésicos, e portanto entram na conta da analgesia sem que ninguém tenha decidido isso. As três linhas do bloco condicional não são três problemas independentes: são um sistema, e mexer numa muda as outras duas.

05

Como se apresenta de verdade

O bloco condicional não se apresenta como um problema. Ele se apresenta como uma folha que passou pela noite e voltou para o posto com algumas marcas de caneta. As seis formas abaixo são as maneiras como esse bloco chega até você — e as três primeiras aparecem no leito 9 desta manhã.

Percurso de aprendizagem

Para cada medicamento, defina indicação, dose, via, intervalo mínimo, limite total e critério de chamar a equipe. Some fontes e vias do mesmo princípio ativo.

Escolha antiemético pelo contexto e contraindicações; evacuação recente não exclui obstrução. Reconheça acatisia/distonia e trate a reação, além de suspender o agente.

Separe cálculo de gotas de dose medida em mL e alvo de constipação do alvo de encefalopatia hepática. Não usar a curva térmica isolada como medida de eficácia do antibiótico.

A folha que voltou marcada

A forma mais comum, e a que ninguém chama de apresentação clínica. A prescrição de ontem volta ao posto com horários checados à caneta ao lado dos itens condicionais. Cada marca dessas é um evento: alguém teve febre, dor, náusea ou insônia àquela hora, e alguém julgou que o gatilho escrito por você estava preenchido.

O que se vê no leito 9 é isto: dipirona checada às 20h, 0h10, 3h40 e 5h50; metoclopramida às 22h e às 4h. Seis administrações em dez horas. Nenhuma delas aparece na evolução de ninguém, porque a evolução foi escrita às 8h de ontem, antes de tudo acontecer. Se a folha for descartada quando a nova for impressa, essas seis informações deixam de existir.

O sinal de alarme não é a quantidade, é o padrão. Quatro doses de antitérmico e analgésico em uma noite, em intervalos que encurtam de quatro horas para duas, descrevem um paciente que não está confortável e cuja causa não foi tratada. Duas doses de antiemético em seis horas descrevem uma náusea que não cedeu. Essa leitura é gratuita e leva quinze segundos.

A febre que existiu e não deixou rastro

A segunda forma é a febre que aparece só como uma dose administrada. O gatilho funcionou, a temperatura foi aferida, o antitérmico foi dado, a temperatura caiu — e o único registro dessa sequência é a marca de caneta e um número na folha de sinais vitais que ninguém transcreveu para a evolução.

O senhor Ubirajara não sabe que teve febre. Ele diz que suou. Isso não é falha de memória: a sudorese é o que acontece quando o antitérmico devolve o ponto de ajuste hipotalâmico para baixo e o corpo dissipa o calor que estava retendo. O paciente sente o efeito da droga, não o pico.

Repare no que se perdeu. Quinto dia de internação, temperatura de 38,1 graus às 3h30, num paciente que estava melhorando. Isso pode ser o cateter venoso, uma coleção peripancreática se organizando, uma pneumonia por aspiração, uma infecção urinária associada a sonda, ou uma febre medicamentosa. A investigação dessa febre é assunto do capítulo de febre no paciente internado, desta mesma apostila. O que interessa aqui é anterior e mais simples: se aquela dose de dipirona não for lida, a pergunta nem chega a ser feita.

A soma que ninguém faz

A terceira forma é a duplicidade silenciosa do mesmo princípio ativo. Ela quase nunca aparece como erro na folha, porque cada linha, isolada, está correta.

O exemplo real do paracetamol: 500 mg de 6 em 6 horas na medicação de horário fixo — 2 g ao dia. Mais uma linha condicional de 500 mg a cada 6 horas se dor — até mais 2 g. Mais uma associação de codeína com paracetamol trazida de casa e mantida na conciliação, que carrega 500 mg de paracetamol por comprimido. Nenhuma linha ultrapassa a dose máxima diária por si. Somadas, passam.

A mesma soma acontece com a dipirona, com dois agravantes. O primeiro é que a dipirona costuma aparecer em duas linhas condicionais com gatilhos diferentes na mesma folha, uma "se dor" e outra "se temperatura acima de 37,8 graus", ambas de 6 em 6 horas: se o paciente tiver dor e febre em horários alternados, isso autoriza oito doses em 24 horas. O segundo é que os documentos brasileiros não concordam sobre o teto diário, o que se discute adiante.

O tempo do dano também colabora com o silêncio. Na sobredose de paracetamol, a primeira fase, nas primeiras 24 horas, é assintomática ou traz só anorexia, náusea e vômito — sintomas que na enfermaria são atribuídos à doença de base. As alterações de função hepática aparecem entre 24 e 72 horas, quando a folha de anteontem já foi para o arquivo.

A náusea que já tem nome antes de ser examinada

A quarta forma é o antiemético escolhido por hábito. O paciente enjoa, alguém escreve metoclopramida, e a partir daí a náusea passa a ter tratamento sem nunca ter tido causa.

As causas concorrentes no leito 9 são pelo menos quatro, e cada uma pediria uma droga diferente. O opioide da analgesia, que enjoa por dois mecanismos distintos — direto, na zona quimiorreceptora, e indireto, por retardo do esvaziamento gástrico. O íleo residual da própria pancreatite. O intestino parado há cinco dias, que é causa de náusea e não só consequência. E o retorno da dieta, que é o estímulo que revela qualquer um dos três anteriores.

Existe uma apresentação específica que precisa ser reconhecida de longe: a náusea que melhora quando o intestino funciona. O Manual de Cuidados Paliativos é direto ao dizer que o paciente que se queixa de náusea e está constipado deve ter as medidas de regularização do trânsito otimizadas antes de se acumular antiemético. Nessa situação, prescrever mais antiemético é tratar o alarme e deixar o incêndio.

O intestino sobre o qual ninguém pergunta

A quinta forma é a mais silenciosa das cinco, porque depende de uma pergunta que não faz parte da rotina de ninguém. O paciente não traz a queixa: ele acha que não evacuar é normal quando se come pouco, ou tem vergonha, ou já pediu a comadre uma vez e desistiu.

A constipação do hospital tem causas que o hospital produz. O opioide reduz a peristalse, aumenta a absorção de água e diminui o reflexo evacuatório, e esse efeito não desaparece com o tempo de uso. Some a isso o imobilismo, o jejum das primeiras 48 horas, a dieta líquida sem resíduo, a hidratação que foi suspensa quando a via oral voltou, o sulfato ferroso e a barreira concreta de evacuar deitado, atrás de uma cortina, com alguém do lado.

As apresentações de alerta valem ser reconhecidas: distensão com timpanismo e desconforto abdominal difuso; náusea e vômito que aparecem depois de dias sem evacuação; agitação e confusão em idoso, que às vezes é a única manifestação; retenção urinária por compressão; e a diarreia paradoxal, em que fezes líquidas escapam ao redor de um fecaloma e são anotadas na folha como "evacuou", encerrando a investigação exatamente quando ela deveria começar.

O condicional que virou item de horário

A sexta forma é o inverso das anteriores: a linha condicional que passou a ser administrada todo dia, no mesmo horário, sem que ninguém verifique o gatilho. Ela se reconhece no padrão de checagem — quando as marcas de caneta de vários dias seguidos caem sempre às 22h, aquilo não é mais uma condição, é uma rotina.

Isso acontece por três motivos que convivem. O gatilho era subjetivo demais para ser verificado ("se desconforto"), e virou hábito. A equipe aprendeu que o paciente pede sempre, e antecipa. Ou a linha foi copiada da folha de ontem por tantos dias que perdeu a origem — ninguém sabe mais quem indicou nem por quê.

O custo é duplo. O paciente recebe uma droga sem indicação atual, com os efeitos adversos que ela tem. E, do lado da informação, um item administrado todo dia deixa de ser um marcador de nada: a dose que era o sinal de que o paciente estava com dor passa a ser ruído.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar aqui não é pedir exame — é reunir os dados que fazem cada uma das três linhas ser decidível, e escrever essas linhas de um jeito que alguém possa executar sozinho às três da manhã. A ordem abaixo é a ordem em que se pensa.

Um lembrete de fronteira antes de começar: a anatomia da folha de prescrição, seção por seção, é assunto do primeiro capítulo desta apostila; o método geral de ajustar dose por função renal e hepática está no capítulo próprio; e a escada analgésica, o rodízio de opioide e o manejo da dor pertencem ao capítulo de analgesia. Aqui se trata do que esses capítulos não cobrem: a decisão condicional.

Os cinco elementos de uma linha condicional

O Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos, do Ministério da Saúde com a Anvisa, exige quatro elementos sempre que a expressão "se necessário" for usada: dose, posologia, dose máxima diária claramente descrita, e a condição que determina o uso ou a interrupção do uso. O mesmo documento abole "a critério médico", "usar como de costume" e "uso contínuo", e vai à ponta: medicamento com prescrição vaga do tipo "fazer se necessário" não deve ser administrado.

Na prática de enfermaria, esses quatro elementos precisam ser lidos como cinco, porque a posologia de um item condicional carrega duas informações diferentes que costumam ser escritas como uma só. O intervalo mínimo entre duas doses e o teto em 24 horas não são a mesma regra e não protegem contra a mesma coisa. "De 6 em 6 horas" limita a frequência; "máximo de 4 g ao dia" limita o acumulado. Uma folha que traz duas linhas do mesmo princípio ativo respeita o intervalo de cada uma e estoura o teto do dia.

Escreva, portanto, as cinco coisas: o gatilho objetivo; a dose com a concentração e a forma; a via; o intervalo mínimo entre duas doses; e o teto em 24 horas, com a conta explícita. O molde oficial do protocolo é curto e serve de gabarito de redação: paracetamol comprimido de 500 mg, uso oral, administrar 500 mg de 6 em 6 horas se temperatura igual ou acima de 37,5 graus, dose máxima diária de 2 gramas, o equivalente a quatro comprimidos de 500 mg.

O gatilho merece cuidado próprio. Ele precisa ser verificável por quem vai executar, sem interpretar você. "Se febre" não é gatilho, porque febre é um diagnóstico e não uma medida; "se temperatura axilar igual ou acima de 38 graus" é. "Se dor" é fraco; "se dor referida acima de 4 em 10" é verificável. "Se constipação" não é gatilho nenhum; "se não houver evacuação por 48 horas" é uma condição que a equipe consegue checar na folha.

Antitérmico: quem ganha em tratar, quem perde informação

A primeira decisão não é qual antitérmico, é se a temperatura deve ser derrubada. Trate a febre quando o desconforto dela é o problema — mialgia, calafrio, cefaleia, prostração que impede o paciente de comer, de dormir, de sair do leito, de fazer fisioterapia. Trate quando a taquicardia e o aumento do consumo de oxigênio que acompanham a febre são mal tolerados: coronariopata, insuficiência cardíaca limítrofe, hipoxêmico, gestante. Trate quando a temperatura em si está causando dano, o que é situação de emergência e não de bloco condicional.

Não trate por reflexo o paciente confortável cuja curva térmica é o parâmetro que você está usando para decidir alguma coisa: o quinto dia de antibiótico, a resposta à drenagem, a retirada do cateter. Nesse caso a febre é o seu instrumento de medida, e apagá-la é apagar o resultado do exame que você mesmo pediu.

Escolhida a decisão de tratar, escolha a droga pelo que ela faz além de baixar a temperatura. A dipirona é também analgésica e entra na conta da analgesia; por via parenteral, a bula exige paciente deitado e sob supervisão, infusão intravenosa a no máximo 1 mL, isto é, 500 mg, por minuto, e considera que dose única acima de 1 g por via parenteral deve ser cuidadosamente ponderada pelo risco de hipotensão dose-dependente. Nada disso vale para o comprimido, o que já responde à pergunta de por que a via endovenosa não é a via padrão de um antitérmico em paciente que come.

O paracetamol é a escolha quando se quer o efeito antitérmico sem interferir em coagulação e sem risco de agranulocitose, e é a escolha errada quando a folha já tem paracetamol em outro lugar. Ele não é anti-inflamatório em grau clinicamente relevante na periferia, o que significa que ele não vai substituir o anti-inflamatório de uma dor inflamatória, e também que ele não traz o risco renal e gástrico do anti-inflamatório.

Fixe uma regra de redação: em qualquer paciente, um único antitérmico condicional na folha. Duas drogas antitérmicas condicionais simultâneas com gatilhos parecidos produzem alternância aleatória decidida na madrugada, e nenhuma das duas termina o dia com uma conta legível.

A soma do dia: auditar a folha inteira antes de assinar

Esta é uma conta de trinta segundos, e é a que mais evita dano neste capítulo. Antes de assinar a prescrição, percorra a folha inteira procurando o mesmo princípio ativo em lugares diferentes: na medicação de horário fixo, nas linhas condicionais, e dentro das associações de nome comercial que vieram da conciliação medicamentosa.

Faça as duas somas, com o teto de cada linha, não com o que você espera que seja usado. Paracetamol: some o fixo mais o máximo autorizado pelas condicionais mais o que vem nas associações. O Manual de Toxicologia Clínica lista as apresentações que circulam no Brasil e que tornam essa soma traiçoeira — comprimidos de 500 mg, 650 mg e 750 mg, apresentações de liberação prolongada, e as associações com codeína que carregam 500 mg de paracetamol por comprimido. A dose tóxica no adulto, segundo o mesmo manual, começa em 7,5 g em ingestão aguda; a margem entre a dose máxima terapêutica e o dano não é confortável, e ela encolhe no desnutrido, no etilista e no hepatopata.

Dipirona: a apresentação em gotas é de 500 mg/mL, com 1 mL equivalente a 20 gotas e 1 gota a aproximadamente 25 mg — de modo que 40 gotas são 1 g, e o máximo do adulto na bula, 40 gotas quatro vezes ao dia, fecha em 4 g diários. A apresentação injetável é de 500 mg/mL, com ampolas de 2 mL, que são 1 g, e de 5 mL, que são 2,5 g; a bula injetável autoriza dose única de 2 a 5 mL e dose máxima diária de 10 mL, isto é, 5 g. Escreva o teto que você adotou, por extenso, em gramas e em unidades da apresentação, para que a conta possa ser conferida por quem administra.

Terceira soma, menos óbvia: a dos efeitos que se empilham. Ondansetrona constipa e prolonga QT; metoclopramida e haloperidol somam bloqueio dopaminérgico; a dipirona parenteral e o opioide somam hipotensão. Se três das quatro drogas da folha prolongam QT, o eletrocardiograma deixa de ser opcional.

Antiemético: as quatro perguntas que escolhem a droga

Não existe antiemético de primeira linha universal; existe origem da náusea. Quatro perguntas resolvem quase todos os casos de enfermaria, e elas são feitas à beira do leito, sem exame nenhum.

Primeira: é náusea química? Procure a exposição — opioide iniciado ou aumentado nos últimos dias, antibiótico, quimioterápico, uremia, cetose, hipercalcemia, infecção. A náusea química costuma ser contínua, pouco dependente do movimento, e mal aliviada por vomitar. O alvo são os receptores D2 e 5-HT3 da zona quimiorreceptora, e as opções são as antidopaminérgicas e as antisserotoninérgicas. No caso específico de náusea induzida por opioide, o Manual de Cuidados Paliativos aponta o haloperidol em baixas doses como droga de escolha, reservando o procinético para quando o mecanismo provável for o retardo de esvaziamento gástrico. E acrescenta um dado que muda a conduta: a náusea por opioide costuma ser autolimitada, cedendo em três a sete dias.

Quatro entradas, sanguínea, gastrointestinal, vestibular e cortical, convergem para uma rede de integração do vômito no tronco cerebral.
Náuseas e vômitos podem resultar de aferências diferentes que compartilham redes de integração. A escolha do antiemético exige considerar causa, mecanismos sobrepostos e riscos do medicamento, sem correspondência exclusiva entre um sintoma e um receptor.

Segunda: é estase gástrica? Procure a saciedade precoce, o empachamento, o vômito de grande volume com alimento reconhecível de horas antes, o soluço, o alívio depois de vomitar. Aqui o que resolve é procinético, e a metoclopramida é a droga que existe em toda enfermaria brasileira nas três apresentações da Rename 2024. O Manual de Cuidados Paliativos indica até 40 mg por dia por via endovenosa nessa situação.

Terceira: é vestibular ou posicional? Procure a relação com o movimento da cabeça, a piora ao sentar ou ao virar no leito, a tontura associada. O alvo são receptores histamínicos e muscarínicos, e o antidopaminérgico não vai funcionar aqui.

Quarta: é obstrução, hipertensão intracraniana ou causa cortical? Procure a parada de eliminação de gases e fezes, a distensão, o vômito em jato, a cefaleia, o déficit neurológico, a ansiedade antecipatória ligada ao ambiente. Cada uma pede uma conduta própria e nenhuma delas se resolve aumentando a dose do antiemético anterior. Vale reter uma regra de associação: pode-se combinar antieméticos quando os mecanismos são diferentes, mas não se deve associar drogas de mesmo mecanismo nem de mecanismos antagônicos — o Manual de Cuidados Paliativos aponta explicitamente a associação de ondansetrona com metoclopramida como uma combinação a evitar.

Duas travas de segurança fecham a escolha. A metoclopramida exige intervalo mínimo de 6 horas entre administrações, mesmo quando o paciente vomitou a dose — vomitar não autoriza repetir. E ela produz sintomas extrapiramidais que podem aparecer após dose única, com risco maior em crianças e adultos jovens; num paciente de 20 anos, esse risco pesa mais do que a conveniência de usar a droga que está sempre disponível.

Constipação: os dados que precisam estar escritos

A investigação da constipação no internado é quase toda de anamnese e exame, e depende de dados que só existem se alguém os escrever. São cinco.

A data da última evacuação, registrada na evolução e não só perguntada. O hábito prévio do paciente, porque três evacuações por semana pode ser o normal dele e uma por dia pode ser pouco para outro. A consistência, porque fezes endurecidas em cíbalas com esforço são um problema diferente da ausência de eliminação por íleo. O exame do abdome, procurando distensão, timpanismo, ruídos hidroaéreos e massas palpáveis no trajeto colônico. E o toque retal quando se suspeita de impactação, que é o exame que separa o fecaloma da constipação alta e que muda a conduta imediatamente: com ampola cheia de fezes endurecidas, laxante oral irritativo é a decisão errada.

Duas armadilhas de leitura. A primeira é a diarreia paradoxal: fezes líquidas escapando ao redor de um fecaloma, anotadas na folha como evacuação, com a conduta consequente de suspender o laxante — que é o oposto do necessário. A radiografia simples de abdome ajuda a identificar o fecaloma quando a suspeita existe. A segunda é a náusea atribuída à doença de base num paciente cujo intestino está parado há cinco dias, situação em que o antiemético novo é a resposta errada para a pergunta certa.

Sobre a decisão de prescrever: quando existe opioide na folha, a constipação é previsível, não é evento adverso raro, e não desenvolve tolerância — de modo que a medida preventiva acompanha o opioide desde o primeiro dia. Isso vale também para as medidas não farmacológicas, que não são detalhe: sair do leito, aumentar a oferta de líquidos, ajustar a dieta e garantir acesso a um vaso sanitário com privacidade. Numa coorte brasileira de terapia intensiva, o início precoce da nutrição enteral esteve associado a menor incidência de constipação; o mesmo estudo, aliás, não encontrou associação entre uso de opioide e constipação naquela população, o que reforça que a causa no hospital é multifatorial e não se resolve olhando só para o opioide.

O que existe no SUS, e o que a farmácia do hospital tem

Exame que não se consegue não é conduta, e droga que não existe na farmácia não é prescrição. Vale mapear as três classes na Rename 2024 antes de escrever, porque a lista muda o desenho da linha.

Antitérmicos e analgésicos simples: dipirona em comprimido de 500 mg e paracetamol em solução oral de 200 mg/mL e comprimido de 500 mg, ambos no Componente Básico. As apresentações injetáveis de dipirona circulam nos hospitais e têm bula profissional própria, e a decisão de usar a via parenteral deve ser tomada pela impossibilidade da via oral, não pela pressa.

Antieméticos: metoclopramida está no Componente Básico nas três formas — comprimido de 10 mg, solução oral de 4 mg/mL e solução injetável de 5 mg/mL. Ondansetrona está no Componente Básico em comprimido e comprimido orodispersível de 4 mg e de 8 mg; a apresentação injetável não consta do elenco da Rename 2024, embora exista registrada e seja rotina em ambiente hospitalar. Dexametasona 4 mg/mL injetável e haloperidol estão no Básico e ampliam bastante o repertório de quem escolhe pelo mecanismo. Bromoprida e domperidona, que aparecem nas rotinas, não constam do elenco.

Laxantes: a Rename 2024 traz lactulose xarope 667 mg/mL, óleo mineral para uso oral, glicerol em solução retal de 120 mg/mL e em supositório retal de 81 mg a 92 mg, todos no Componente Básico. Bisacodil, picossulfato de sódio, sene e polietilenoglicol não fazem parte do elenco. Isso cria uma tensão prática que vale conhecer: a classe indicada pelo mecanismo do opioide é a dos irritativos, e o único irritativo do elenco é a cáscara-sagrada, Rhamnus purshiana, em cápsula ou tintura, na dose diária de 20 a 30 mg de derivados hidroxiantracênicos expressos em cascarosídeo A, listada entre os doze fitoterápicos do Componente Básico — uma prateleira que a maioria dos internos nunca abriu.

Duas consequências de prescrição saem disso. Primeira: em muitos hospitais, o laxante disponível é o osmótico, e a lactulose de 15 a 30 mL por dia, ajustada para evacuação macia, confortável e regular, sem impor duas a três evacuações diárias na constipação, é o que vai ser executado — o que funciona, ainda que não seja a primeira escolha de mecanismo. Segunda: quando o bisacodil existe na farmácia, ele tem regras próprias que precisam entrar na linha. É comprimido revestido de liberação retardada, não pode ser macerado nem partido, não deve ser dado junto de leite, antiácido ou inibidor de bomba de prótons — porque o revestimento entérico se dissolve antes da hora — e leva de 6 a 12 horas para produzir efeito. Um paciente que recebe inibidor de bomba de prótons na profilaxia de lesão de mucosa gástrica, assunto do capítulo vizinho, precisa dessas duas administrações separadas no tempo.

07

As três linhas, decididas e escritas

Aprenda a escrever uma prescrição condicional que trate sintomas sem permitir duplicidade, repetição precoce ou atraso na avaliação.

  1. 1Pegue a folha de ontem antes de imprimir a de hoje e leia o bloco condicional: quantas doses de cada item foram checadas, em que horários, e em que intervalos.
  2. 2Cruze cada dose checada com a folha de sinais vitais e com a evolução de enfermagem: que temperatura, que dor, que náusea havia naquele horário. Escreva o que encontrar na sua evolução, porque é ali que essa informação sobrevive.
  3. 3Some o mesmo princípio ativo em todos os lugares da folha — horário fixo, condicionais e associações da medicação domiciliar — usando o teto de cada linha, e não o consumo esperado.
  4. 4Decida cada uma das três linhas por uma pergunta explícita: o antitérmico, por quem ganha em ter a temperatura derrubada; o antiemético, pela origem da náusea; o laxante, pelo tempo desde a última evacuação e pela presença de opioide na folha.
  5. 5Escreva cada linha com os cinco elementos: gatilho verificável, dose com concentração e forma, via, intervalo mínimo entre duas doses e teto em 24 horas com a conta explícita.
  6. 6Confira se a folha tem um único antitérmico condicional, um único antiemético condicional e nenhuma duplicidade de princípio ativo entre blocos.
  7. 7Retire do bloco condicional o item cujo motivo você não consegue dizer em voz alta hoje, e mova para o horário fixo o item cujo padrão de administração mostra que ele virou rotina, ou cujo tempo de ação torna o uso condicional inútil.
  8. 8Deixe combinado, por escrito, o que a equipe deve comunicar durante o plantão: temperatura acima do valor que você definiu, terceira dose de antitérmico na mesma noite, vômito persistente após duas doses, ausência de evacuação além do prazo.
Elemento da linhaO que ele impedeComo escrever, e o que não serve
Gatilho verificávelImpede que a equipe tenha de interpretar sua intenção às três da manhã, e impede que o item vire rotinaUma medida ou um fato que se checa: temperatura axilar igual ou acima de 38 graus; dor referida acima de 4 em 10; ausência de evacuação por 48 horas. Não serve: se febre, se dor, se desconforto, se constipação, a critério médico
Dose com concentração e formaImpede o erro de conversão entre a unidade que você pensou e a unidade que existe na farmáciaDipirona gotas 500 mg/mL, administrar 40 gotas, equivalentes a 1 g. Não serve: dipirona 1 ampola, dipirona VO, dipirona conforme necessidade
ViaImpede a improvisação quando o paciente está em jejum ou vomitando, e impede o uso parenteral sem indicaçãoA via escrita por extenso, com a condição de troca quando ela existir: por via oral; se vômito, por via intravenosa. Não serve: VO/EV, uso habitual
Intervalo mínimo entre duas dosesImpede a segunda dose antes que a primeira tenha agido, e impede a repetição da dose vomitadaDe 6 em 6 horas, respeitando intervalo mínimo de 6 horas mesmo se houver vômito da dose. Não serve: até 4 vezes ao dia, sem dizer o intervalo
Teto em 24 horasImpede a soma silenciosa entre linhas e blocos, e impede que o condicional vire dose sem limite ao longo do plantãoDose máxima diária de 4 g, o equivalente a quatro doses de 1 g, contando as doses da medicação de horário fixo. Não serve: máximo conforme bula, se necessário
Quem avisa, e quandoImpede que o item vire um substituto da comunicação: a equipe administra, o quadro persiste e ninguém é chamadoComunicar o plantonista na terceira dose em 24 horas, ou se a temperatura persistir acima de 38 graus após a segunda. Não serve: deixar a decisão de avisar sem critério escrito

Antiemético pela origem da náusea

OrigemO que a aponta à beira do leitoEscolha e doseO que vigiar
Química ou metabólica (opioide, antibiótico, uremia, cetose, infecção)Náusea contínua, pouco dependente do movimento, mal aliviada por vomitar; exposição recente identificávelHaloperidol 1 a 2 mg por via endovenosa ou subcutânea, de duas a três vezes ao dia, é a escolha do Manual de Cuidados Paliativos na náusea induzida por opioide; ondansetrona 4 a 8 mg por via endovenosa a cada 8 horas é alternativaExtrapiramidal e sedação com haloperidol; intervalo QT e constipação com ondansetrona. A náusea por opioide costuma ceder em três a sete dias, então a linha tem prazo
Estase gástrica ou retardo de esvaziamentoSaciedade precoce, empachamento, soluço, vômito de grande volume com alimento de horas antes, alívio depois de vomitarMetoclopramida 10 mg por via oral ou endovenosa a cada 8 horas; o Manual de Cuidados Paliativos admite até 40 mg por dia por via endovenosa nessa situaçãoIntervalo mínimo de 6 horas entre doses, inclusive quando a dose foi vomitada; extrapiramidal, que pode ocorrer após dose única e é mais frequente em jovens
Vestibular ou posicionalPiora ao virar no leito, ao sentar ou ao mover a cabeça; tontura associadaAnti-histamínico com ação anticolinérgica, como o dimenidrinato; a apresentação em gotas de 25 mg/mL fornece 1,25 mg por gotaSedação, boca seca, retenção urinária e confusão no idoso; não associar a metoclopramida, porque os mecanismos se opõem
Obstrução intestinal ou íleoParada de eliminação de gases e fezes, distensão, vômito de grande volume, ruídos alteradosHaloperidol é a escolha do Manual de Cuidados Paliativos, em geral 2 a 6 mg por dia, com dimenidrinato ou ondansetrona associados; procinético é evitadoNão iniciar procinético antes de excluir obstrução: acelerar peristalse contra obstáculo aumenta dor e risco
Hipertensão intracraniana ou causa corticalVômito em jato, cefaleia, déficit neurológico; ou náusea desencadeada por cheiro, ambiente e antecipaçãoCorticoide na hipertensão intracraniana, com dexametasona 4 mg/mL disponível no Componente Básico; benzodiazepínico tem lugar na náusea antecipatória, ao custo de sedaçãoAqui o antiemético é adjuvante: a conduta principal é a causa, e aumentar a dose do antiemético anterior não resolve

Laxantes: mecanismo, dose, tempo até o efeito e disponibilidade na Rename 2024

Classe e mecanismoDroga e dose do adultoTempo até o efeito e como prescreverNa Rename 2024
Irritativo: estimula diretamente o plexo mioentérico e aumenta a peristalse — é o mecanismo que se opõe ao do opioideBisacodil 5 a 10 mg, uma vez ao dia; picossulfato de sódio 10 a 20 gotas à noite; sene 1 a 2 cápsulas à noiteEfeito laxativo entre 6 e 12 horas após a administração: pertence ao horário fixo da noite, não ao bloco condicional da madrugada. Comprimido revestido de liberação retardada não pode ser macerado nem partido, e não se administra junto de leite, antiácido ou inibidor de bomba de prótonsBisacodil, picossulfato e sene não constam do elenco. O irritativo do elenco é a cáscara-sagrada (Rhamnus purshiana), cápsula ou tintura, 20 a 30 mg de derivados hidroxiantracênicos ao dia, entre os fitoterápicos do Componente Básico
Osmótico: cria meio hiperosmolar na luz, atrai água, aumenta o bolo fecal e amolece as fezesLactulose 667 mg/mL, usualmente 15–30 mL/dia, titulada para evacuação macia, confortável e regular; não exigir duas a três ao dia na constipação. Polietilenoglicol depende da apresentação e do protocolo.Efeito em um a dois dias; a dose se titula pelo resultado, e por isso o item precisa de reavaliação diária escrita. Pode causar distensão, flatulência e cólica, e o excesso produz diarreiaLactulose 667 mg/mL xarope no Componente Básico. Polietilenoglicol não consta do elenco
Lubrificante: reduz o atrito e facilita a progressão do boloÓleo mineral 15 a 30 mL, até duas vezes ao diaUso limitado no internado: risco de broncoaspiração e pneumonite química, e por isso se evita no idoso, no disfágico e em quem tem rebaixamento de consciênciaÓleo mineral para uso oral no Componente Básico
Via retal: ação osmótica local e amolecimento do bolo no segmento finalSupositório de glicerina, uma unidade ao dia ou conforme a necessidade; enema glicerinado quando o supositório não bastaEfeito em minutos a poucas horas: é a única modalidade que faz sentido como item condicional imediato. Indicada em impactação, intolerância à via oral e refratariedade ao laxante oralGlicerol em solução retal de 120 mg/mL e em supositório retal de 81 mg a 92 mg, ambos no Componente Básico

A aritmética de cada apresentação, conferida uma a uma

ApresentaçãoO que uma unidade entregaDose usual do adultoTeto diário impresso na fonte
Dipirona solução oral em gotas 500 mg/mL1 mL equivale a 20 gotas; 1 gota, a aproximadamente 25 mg; 40 gotas, a 1 g20 a 40 gotas por dose40 gotas quatro vezes ao dia, o que fecha em 4 g por dia (bula da solução em gotas)
Dipirona solução injetável 500 mg/mLAmpola de 2 mL entrega 1 g; ampola de 5 mL entrega 2,5 gDose única de 2 a 5 mL, por via intravenosa lenta a no máximo 1 mL por minuto, com o paciente deitado10 mL por dia, o que equivale a 5 g (bula da solução injetável)
Paracetamol comprimido 500 mg500 mg por comprimido500 a 1.000 mg por dose, a cada 4 a 6 horas2 g no molde oficial do protocolo do Ministério da Saúde (quatro comprimidos); a faixa da bula vai até 4 g
Paracetamol solução oral em gotas 200 mg/mL200 mg/mL: 1 g corresponde a 5 mL, medidos com seringa oral. Gotas por mL variam com o produto; não prescrever 75 gotas como equivalência universal.35 a 55 gotas por dose, 3 a 5 vezes ao dia4 g pela bula; as conversões em gotas impressas nessa mesma bula não fecham, e a conta está na nota abaixo
Metoclopramida solução injetável 5 mg/mLAmpola de 2 mL entrega 10 mgUma ampola a cada 8 horas, por via intramuscular ou intravenosa lenta30 mg por dia pela posologia da bula; o Manual de Cuidados Paliativos admite até 40 mg por dia na estase gástrica
Metoclopramida solução oral em gotas 4 mg/mL1 mL é declarado como 21 gotas; 1 gota entrega cerca de 0,19 mg, e 53 gotas entregam 10,1 mg53 gotas, três vezes ao dia, 10 minutos antes das refeiçõesCerca de 30 mg por dia; intervalo mínimo de 6 horas entre doses
Ondansetrona solução injetável 2 mg/mLAmpola de 2 mL entrega 4 mg4 mg em dose única por via intramuscular ou intravenosa lenta na náusea e no vômito do pós-operatório8 mg de dose total diária na disfunção hepática moderada ou grave; sem ajuste na disfunção renal
Lactulose xarope 667 mg/mL1 mL entrega 667 mg; 15 mL entregam cerca de 10 g15 a 30 mL por diaSem teto fixo: a dose se titula até duas a três evacuações diárias, e se reduz se houver diarreia
Bisacodil comprimido revestido de liberação retardada 5 mg5 mg por comprimido1 a 2 comprimidos, uma vez ao dia, à noite10 mg por dia; a bula recomenda começar pela menor dose

A conta que não fecha, e por que ela importa. A bula profissional do paracetamol em gotas declara, na composição, que cada mL contém 200 mg e corresponde a 14 a 16 gotas. Na posologia, a mesma bula escreve que a dose máxima diária é de 4.000 mg, e a glosa como 275 gotas, sem exceder 1.000 mg por dose, glosada como 55 gotas. As duas conversões discordam entre si: a 55 gotas por grama, 275 gotas seriam 5.000 mg, ou seja, 1 g acima do teto que a própria frase acabou de declarar. E nenhuma das duas bate com a composição: 55 gotas por grama implicaria 11 gotas por mL, e 275 gotas por 4 g implicaria 13,75 gotas por mL, ambas fora da faixa de 14 a 16 que a bula declara. Tomando o meio da faixa, 15 gotas por mL, 55 gotas entregam 733 mg, cerca de 27% menos do que os 1.000 mg anunciados, e 1 g exigiria 75 gotas. A conduta prática é uma só: em solução em gotas, prescreva em miligramas e faça você a conversão a partir da concentração declarada na composição, que é o dado confiável, em vez de copiar a contagem de gotas impressa na posologia.

A segunda discordância entre fontes é a do teto da dipirona, e ela não é erro de aritmética, é ausência de teto. A bula da solução em gotas fecha o dia em 4 g. A bula da solução injetável fecha em 5 g. O Manual de Cuidados Paliativos, ao listar analgésicos simples, escreve dipirona de 500 a 2.000 mg por via oral ou endovenosa a cada 6 horas, sem declarar dose máxima diária — e uma linha assim, executada no topo da própria faixa e no próprio intervalo, chega a 8 g em 24 horas, o dobro do teto impresso na bula da apresentação oral. Não se trata de dizer que o manual recomenda 8 g: trata-se de mostrar o que uma linha sem teto autoriza. É exatamente o mecanismo de erro que este capítulo combate, e ele aparece em documento oficial. Adote um teto, escreva-o na folha e conte nele as doses da medicação de horário fixo.

Haloperidol tem duas concentrações injetáveis na Rename 2024, 5 mg/mL e 50 mg/mL, ambas no Componente Básico, além do comprimido de 1 mg e de 5 mg e da solução oral de 2 mg/mL. O Manual de Cuidados Paliativos, na tabela de antieméticos disponíveis no elenco, marca explicitamente a advertência de não utilizar a formulação de haloperidol decanoato. Escrever haloperidol injetável sem a concentração, numa farmácia que dispensa as duas, é deixar uma diferença de dez vezes para ser resolvida por outra pessoa.

Ondansetrona não tem apresentação injetável no elenco da Rename 2024 — o elenco traz comprimido e comprimido orodispersível de 4 mg e de 8 mg. A apresentação injetável existe registrada e é rotina hospitalar, mas conferir a disponibilidade local antes de escrever evita a linha que a farmácia devolve.

O comprimido orodispersível de ondansetrona resolve um problema específico do bloco condicional: o paciente que vomita não retém comprimido comum, e a via endovenosa nem sempre está disponível. Quando o orodispersível existe, ele é a via que sobra sem puncionar ninguém às três da manhã.

Um item condicional pode ter mais de uma via na mesma linha, desde que a condição de troca esteja escrita e verificável: por via oral; se houver vômito ou impossibilidade da via oral, por via intravenosa. O que não se escreve é a barra dupla sem condição, porque ela transfere para quem administra uma decisão médica.

Toda dose administrada precisa voltar como informação. O protocolo do Ministério da Saúde inclui, entre os certos da administração, registrar na prescrição o horário em que o medicamento foi dado e checar esse horário a cada dose. Esse registro é o único traço documental de um sintoma que aconteceu quando ninguém da equipe médica estava presente, e é ele que você lê na manhã seguinte.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é uma manhã de enfermaria com o senhor Ubirajara, do leito 9: 66 anos, 74 quilos, quinto dia de pancreatite aguda biliar leve, dieta branda desde anteontem, sem evacuação desde a admissão. Toda dose vem com a fonte que a sustenta.

A folha que ele tem hoje, copiada da de ontem, é esta: paracetamol 500 mg por via oral de 6 em 6 horas, na medicação de horário fixo; e cinco itens condicionais — dipirona 1 g por via endovenosa de 6 em 6 horas se dor; dipirona 1 g por via endovenosa de 6 em 6 horas se temperatura acima de 37,8 graus; um comprimido da associação de codeína 30 mg com paracetamol 500 mg por via oral de 6 em 6 horas se dor forte; metoclopramida 10 mg por via endovenosa de 8 em 8 horas se náusea ou vômito; e a linha escrita como laxante se necessário.

  1. 7h10 — a folha de ontem, antes de imprimir a de hoje

    A folha mostra doses de dipirona em intervalos de 4h10, 3h30 e 2h10, menores que as seis horas prescritas. Há duplicidade de linhas e possível falha de aprazamento/administração; reconstruir qual dose foi efetivamente dada e qual linha foi checada, sem presumir que cada linha foi cumprida corretamente. Unificar princípio ativo, dose total, intervalo e critérios de comunicação. A linha vaga de laxante também precisa ser substituída por ordem executável.

    Prescrição
    • Registrar na evolução, com horário, o que a folha da noite mostra: quatro administrações de dipirona 1 g por via endovenosa entre 20h e 5h50, e duas de metoclopramida 10 mg por via endovenosa às 22h e às 4h
    • Anotar que a linha escrita como laxante se necessário não foi administrada por não conter droga, dose nem condição de uso, conforme o Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos, que determina que medicamento com prescrição vaga não seja administrado
  2. 7h20 — os dados que a folha esconde

    Três coisas precisam ser recuperadas antes de qualquer linha nova. A folha de sinais vitais: temperatura de 38,1 graus às 3h30, dez minutos antes da terceira dose de dipirona, e nenhuma aferição registrada depois das 5h50. O paciente: pergunte diretamente sobre febre, sobre náusea e sobre a última evacuação, porque as três respostas mudam três linhas. E a última evacuação: ele diz que não evacua desde que chegou, o que dá cinco dias — a definição operacional de constipação usada na coorte brasileira de terapia intensiva é ausência de evacuação por três dias consecutivos, e ele passou disso há dois.

    Prescrição
    • Aferir temperatura axilar agora e prescrever aferição de 6 em 6 horas, com registro na folha, para recuperar a curva térmica perdida
    • Examinar o abdome procurando distensão, timpanismo e massas no trajeto colônico; realizar toque retal, dada a suspeita de impactação após cinco dias sem evacuação
    • Registrar na evolução a data da última evacuação e o hábito intestinal prévio referido pelo paciente
  3. 7h30 — as duas somas, feitas com o teto e não com o consumo

    Some o mesmo princípio ativo em todos os lugares da folha. Paracetamol: 500 mg de 6 em 6 horas no horário fixo dão 2 g por dia; a associação condicional de codeína com paracetamol, um comprimido de 6 em 6 horas, autoriza mais 2 g. Total autorizado: 4 g em 24 horas, exatamente o teto da bula, com margem zero, num homem de 66 anos que ficou 48 horas em jejum. Dipirona: duas linhas de 1 g de 6 em 6 horas autorizam oito doses, isto é, 8 g por dia — o dobro do teto de 4 g impresso na bula da solução em gotas e 3 g acima do teto de 10 mL, ou 5 g, da bula da solução injetável. E a associação de codeína é opioide: ela explica ao mesmo tempo a náusea da madrugada e o intestino parado há cinco dias, e o nome dela na folha não diz nem uma coisa nem outra.

    Prescrição
    • Escrever no alto da folha, por extenso, o acumulado autorizado de cada princípio ativo: paracetamol, teto de 4 g em 24 horas, contando a associação com codeína; dipirona, teto de 4 g em 24 horas, contando todas as linhas
    • Registrar na evolução que a associação prescrita contém opioide, e que dela decorrem a profilaxia de constipação e a atenção à náusea
  4. 7h40 — o antitérmico, reescrito em uma linha só

    Unificar a dipirona e definir intervalo e teto somando todas as vias. Tratar dor e desconforto conforme necessidade; febre persistente no quinto dia pede avaliação clínica, independentemente de receber antitérmico. Registrar temperatura e horário das doses permite interpretar a evolução; não negar alívio para preservar a curva térmica como se ela fosse o único teste de eficácia.

    Prescrição
    • Suspender as duas linhas condicionais de dipirona e a associação de codeína com paracetamol
    • Dipirona comprimido de 500 mg, uso oral. Administrar 1 g, equivalente a dois comprimidos, se temperatura axilar igual ou acima de 38,3 graus ou se dor referida acima de 4 em 10, respeitando intervalo mínimo de 6 horas entre doses. Dose máxima diária de 4 g, equivalente a quatro administrações de 1 g (bula da dipirona em gotas: 40 gotas, isto é 1 g, até quatro vezes ao dia)
    • Se houver vômito ou impossibilidade da via oral: dipirona solução injetável 500 mg/mL, administrar 2 mL, equivalentes a 1 g, por via intravenosa lenta, a no máximo 1 mL por minuto, com o paciente deitado (bula da solução injetável)
    • Comunicar o plantonista se a temperatura persistir igual ou acima de 38,3 graus após a segunda dose, ou na terceira dose em 24 horas
    • Suspender o paracetamol de horário fixo: com a dipirona condicional escrita e a associação retirada, ele deixa de ter indicação e libera toda a margem hepática
  5. 7h50 — o antiemético, escolhido pelo mecanismo e não pelo hábito

    As quatro perguntas, à beira do leito. Náusea química? Sim, há exposição: a associação com codeína começou no primeiro dia. Estase gástrica? Ele não descreve saciedade precoce nem vômito de grande volume. Vestibular? Não piora com movimento. Obstrução? O abdome está distendido e ele não evacua há cinco dias, o que coloca o intestino no centro. A leitura mais provável é dupla: náusea de opioide somada a um intestino parado. E aqui o Manual de Cuidados Paliativos é direto — o paciente que se queixa de náusea e está constipado deve ter a regularização do trânsito otimizada antes de se empilhar antiemético. Com o opioide retirado no marco anterior, o gatilho químico some sozinho, e a náusea por opioide costuma ceder em três a sete dias.

    Prescrição
    • Antes de procinético, avaliar distensão, dor, flatos, vômitos e possibilidade de obstrução/íleo. Se metoclopramida for apropriada, usar menor dose eficaz, via disponível, intervalo mínimo de seis horas e limite conforme bula, peso e função renal; esquema usual adulto é 10 mg até três vezes/dia, por tempo curto. Não repetir porque houve vômito após dose IV, que já foi integralmente entregue.
    • Não empilhar antieméticos automaticamente. Metoclopramida e ondansetrona não são universalmente incompatíveis por mecanismos opostos; a combinação pode ser usada em situações selecionadas, considerando benefício, QT, eletrólitos e efeitos adversos. Sintoma persistente exige revisão da causa antes de acrescentar doses.
    • Se a náusea persistir após duas doses, comunicar o plantonista em vez de repetir: a persistência é indicação de rever a causa, não de aumentar a dose
  6. 8h00 — o laxante, que sai do bloco condicional

    Com opioide, avaliar prevenção e tratamento de constipação de forma regular. Laxante estimulante oral tem efeito tardio, em geral 6–12 horas; dose às 3h pode agir entre 9h e 15h, não oferece resgate imediato, mas não é farmacologicamente inútil. Investigar obstrução e impactação antes de intensificar laxantes; exame retal e intervenções dependem de segurança, especialmente em neutropenia ou trombocitopenia.

    Prescrição
    • Se o toque retal mostrar ampola cheia de fezes endurecidas: supositório de glicerina, uma unidade por via retal agora, repetindo conforme a necessidade, antes de qualquer laxante oral (Manual de Cuidados Paliativos; glicerol supositório retal de 81 mg a 92 mg está no Componente Básico da Rename 2024)
    • Lactulose 667 mg/mL, por exemplo 15 mL/dia, a titular pela resposta e tolerância conforme bula/protocolo. Na constipação, buscar evacuação macia, confortável e regular, sem exigir duas a três evacuações diárias; esse alvo é usado em encefalopatia hepática. Evitar diarreia e distensão e considerar associação/substituição por estimulante quando apropriado.
    • Se a farmácia dispensar bisacodil: comprimido revestido de 5 mg, uso oral, 1 comprimido às 21h, engolido inteiro, sem macerar e sem administrar junto de leite, antiácido ou inibidor de bomba de prótons (bula profissional)
    • Medidas não farmacológicas, prescritas por escrito: sair do leito com auxílio três vezes ao dia; oferta hídrica de acordo com a tolerância; dieta com resíduo assim que a evolução da pancreatite permitir; garantir privacidade e acesso ao vaso sanitário
    • Registrar diariamente na folha a presença ou ausência de evacuação, com data e consistência
  7. 14h — a checagem da tarde e o combinado com a equipe

    As linhas condicionais foram reescritas de manhã e serão executadas por pessoas que não estavam na visita. A tarde é o momento de fechar esse laço, e ele não se fecha por escrito apenas: se fecha conversando com quem vai administrar. Confirme com a enfermagem que os gatilhos são executáveis do jeito que foram escritos, pergunte se houve dose administrada desde a manhã, e deixe explícito o que dispara uma ligação.

    Prescrição
    • Conferir na folha impressa da tarde se cada item condicional saiu com gatilho, dose com concentração e forma, via, intervalo mínimo e teto diário; devolver à farmácia qualquer item incompleto
    • Confirmar com a equipe de enfermagem os três avisos combinados: temperatura igual ou acima de 38,3 graus após a segunda dose; náusea persistente após duas doses; ausência de evacuação até amanhã
    • Registrar na evolução da tarde as doses administradas desde a visita, com horário
  8. Dia 6 até a alta — o que continua, o que sai e o que não vai na receita

    No dia seguinte, a leitura recomeça pela folha da noite: quantas doses, em que horários, com que intervalo. A dipirona que não foi usada nenhuma vez em 24 horas indica que o gatilho está calibrado, e não que a linha é desnecessária — a linha de resgate serve justamente para não ser usada. O antiemético cujo gatilho não disparou por dois dias seguidos, com o opioide já retirado, sai. E o laxante permanece enquanto a causa permanecer: se o opioide saiu e o paciente voltou a comer e a andar, ele se retira com reavaliação, não de uma vez. Na alta, a regra é outra: item condicional hospitalar não vira receita automática, e a receita que sai com o paciente precisa do mesmo rigor da folha, com uma diferença — quem vai executar é ele, ou a filha dele, sem enfermagem por perto.

    Prescrição
    • Reavaliar diariamente cada item condicional e retirar o que você não consegue justificar em voz alta naquela manhã
    • Na alta, escrever a receita com os mesmos cinco elementos e em linguagem que o paciente execute: o nome, a dose em comprimidos, o gatilho em palavras dele, o intervalo mínimo e o número máximo de comprimidos por dia
    • Não levar para casa a associação de codeína com paracetamol sem indicação de dor persistente, e, se ela for mantida, dizer por escrito que ela contém paracetamol e que nenhum outro remédio com paracetamol pode ser somado a ela
    • Se mantiver laxante na alta, definir alvo de fezes macias e evacuação confortável, dose ajustável e o que fazer com diarreia, distensão ou ausência persistente de resposta. Duas a três evacuações/dia não é meta universal para constipação.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar o bloco condicional é diferente de reavaliar uma droga de horário fixo, porque o que se mede não é o efeito da dose: é a frequência com que o gatilho disparou. Cada item abaixo se lê na folha da noite, e cada um tem um prazo.

Uma advertência de leitura vale para os seis: item condicional que nunca foi usado não é item errado. A linha de resgate existe para estar disponível, e a ausência de uso é a evidência de que o tratamento de base está funcionando. O que se questiona é o item usado demais, o item usado sempre no mesmo horário e o item que não pôde ser usado porque estava incompleto.

Número de doses de antitérmico em 24 horas e os intervalos entre elasToda manhã, na folha da noite, antes de imprimir a folha nova

Esperado: Zero a duas doses, com intervalos iguais ou maiores que o intervalo mínimo escrito. Intervalos menores que o mínimo indicam duplicidade de linhas do mesmo princípio ativo, não paciente resistente

Se não melhora: Três ou mais doses em 24 horas mudam a pergunta: não é a dose que está baixa, é a causa que não foi tratada. Reveja o foco infeccioso, o cateter, a coleção, o antibiótico e a possibilidade de febre medicamentosa, e refaça a soma do princípio ativo na folha inteira

A curva térmica, com aferições em horários fixos e não apenas quando alguém suspeitaDe 6 em 6 horas enquanto a febre for um parâmetro de decisão

Esperado: Uma curva legível, com os picos registrados e os horários das doses de antitérmico anotados ao lado, de modo que se saiba qual queda é da droga e qual é da doença

Se não melhora: Se a curva estiver ilegível porque toda subida foi imediatamente tratada, considere suspender o antitérmico condicional por 24 horas, com o paciente confortável e informado, para recuperar a informação. Essa é uma decisão consciente, escrita na evolução, e não um esquecimento

Acumulado diário de paracetamol e de dipirona, somando todas as linhas e associaçõesToda manhã, ao reescrever a folha, e sempre que um item novo entrar

Esperado: Um número escrito, em gramas, com margem em relação ao teto — e não um teto tocado com margem zero

Se não melhora: Se o acumulado autorizado chega ao teto, retire a redundância antes de qualquer outra coisa. Se já houve consumo próximo ao teto por dias seguidos num paciente desnutrido, etilista ou hepatopata, peça transaminases e bilirrubinas: a primeira fase da lesão por paracetamol é assintomática e as alterações aparecem entre 24 e 72 horas

Número de doses de antiemético e a resposta a cada umaToda manhã, e a cada nova dose durante o dia

Esperado: Náusea que cede após a primeira dose e não retorna no mesmo padrão. Com o gatilho retirado, a náusea de opioide costuma desaparecer em três a sete dias

Se não melhora: Persistência após duas doses significa que o mecanismo escolhido está errado, não que a dose está baixa. Refaça as quatro perguntas, procure obstrução e distúrbio metabólico, e troque de mecanismo em vez de repetir a mesma classe. Se houve mais de uma dose por dia por vários dias, o item deixou de ser condicional e precisa ser reavaliado como tratamento contínuo

Presença ou ausência de evacuação, com data e consistência, registrada todo diaDiariamente, na visita, como parte do exame e não como pergunta ocasional

Esperado: Uma a três evacuações por dia, ou o retorno ao hábito prévio do paciente, com fezes de consistência confortável e sem esforço

Se não melhora: Sem evacuação após 48 horas de laxante em dose adequada, reavalie o diagnóstico antes de aumentar a dose: procure fecaloma pelo toque retal, considere radiografia simples de abdome, e distinga constipação de íleo e de obstrução. Fezes líquidas em paciente que estava constipado podem ser diarreia paradoxal ao redor de um fecaloma, e nesse caso suspender o laxante é o erro

A indicação de cada linha condicional, dita em voz altaToda manhã, antes de copiar a folha de ontem

Esperado: Para cada item, uma frase sua que explique por que ele está ali hoje: quem indicou, contra o quê, e o que faria você retirá-lo

Se não melhora: Se você não consegue dizer a frase, o item não fica por precaução — ele sai, e a retirada vai escrita na evolução, para que a próxima cópia não o traga de volta. Se o padrão de checagem mostra o item administrado sempre no mesmo horário, ele já não é condicional: ou vira horário fixo com indicação declarada, ou sai

10

Onde o erro machuca

Escrever a linha condicional sem teto em 24 horas

O dano: Sem teto, o item deixa de ser uma dose e vira uma permissão. Cada administração isolada respeita o intervalo, e o dia inteiro não respeita nada, porque ninguém está encarregado de somar: quem administra às 20h não é quem administra às 3h40. Com paracetamol, o acumulado que passa do teto produz uma lesão cuja primeira fase, nas primeiras 24 horas, é assintomática ou traz só náusea e vômito — sintomas que a enfermaria atribui à doença de base — e cujas alterações de transaminases aparecem entre 24 e 72 horas, quando a folha daquele dia já foi arquivada. Com dipirona, o acumulado sem limite se soma à hipotensão da via parenteral e ao efeito de outras drogas da folha. O dano tem ainda uma segunda face, oposta: quando a linha sai incompleta demais, ela não pode ser administrada, o protocolo do Ministério da Saúde determina que não seja, e o paciente com dor ou com febre espera que alguém localize o médico.

Como pegar a tempo: Escreva sempre os cinco elementos, e o teto com a conta explícita, em gramas e em unidades da apresentação: dose máxima diária de 4 g, equivalente a quatro administrações de 1 g. Antes de assinar, faça a soma do princípio ativo na folha inteira usando o teto de cada linha, e não o consumo que você espera.

Deixar duas linhas do mesmo princípio ativo com gatilhos diferentes

O dano: É o erro que produz a noite do leito 9. Uma linha de dipirona se dor e outra de dipirona se temperatura acima de 37,8 graus, ambas de 6 em 6 horas, parecem duas coisas porque têm gatilhos diferentes, e são a mesma droga. A equipe lê cada uma isoladamente, respeita o intervalo de cada uma, e o paciente recebe quatro doses em dez horas, com intervalos de até 2h10. O mesmo vale para o paracetamol escondido dentro de uma associação de nome comercial: a linha diz codeína com paracetamol, e ninguém soma esses 500 mg ao paracetamol de horário fixo.

Como pegar a tempo: Uma droga antitérmica condicional por folha, com gatilho único que reúna as duas condições. Percorra a folha procurando o princípio ativo em três lugares — horário fixo, condicionais e associações — e escreva o nome genérico ao lado de toda associação, para que a soma seja possível por quem lê depois de você.

Prescrever antitérmico de horário fixo, ou com gatilho baixo demais, no paciente em que a febre é o parâmetro

O dano: O antitérmico não esfria o paciente: ele devolve o ponto de ajuste hipotalâmico para baixo. Dado de horário, ele impede que a febre apareça — e com ela desaparece o dado que você estava usando para decidir alguma coisa. É assim que se perde o quinto dia de antibiótico que não está funcionando, a coleção que se organiza, o cateter que infectou. O paciente não ajuda a recuperar a informação: ele não sente o pico, sente a sudorese da queda, e vai dizer que suou, não que teve febre. Do lado do dano direto, a exposição diária desnecessária ao antitérmico consome margem hepática, no caso do paracetamol, e traz risco de hipotensão, no caso da dipirona parenteral.

Como pegar a tempo: Antitérmico é condicional, com gatilho numérico, e a decisão de tratar se toma por quem ganha em ter a temperatura derrubada: desconforto que impede comer, dormir ou levantar, ou má tolerância à taquicardia. Prescreva aferição de temperatura em horários fixos, anote na folha o horário de cada dose ao lado dos picos, e quando a curva estiver ilegível de tanto ser tratada, suspenda o antitérmico condicional por 24 horas de propósito, escrevendo isso na evolução.

Usar metoclopramida como reflexo, e repetir a dose porque o paciente vomitou

O dano: A metoclopramida é antidopaminérgica e atravessa a barreira hematoencefálica; sintomas extrapiramidais podem ocorrer mesmo após dose única e são mais frequentes em crianças e adultos jovens, exatamente a população em que a droga é dada com mais leveza. Um jovem com distonia aguda de face e pescoço às quatro da manhã costuma ser interpretado como crise conversiva antes de alguém abrir a prescrição. A repetição precoce agrava: a bula manda respeitar intervalo mínimo de 6 horas entre administrações, e diz isso justamente para o caso em que o paciente vomitou ou rejeitou a dose — vomitar não autoriza repetir, porque não se sabe quanto foi absorvido. Escolher pelo hábito também custa eficácia: náusea vestibular não responde a antidopaminérgico, e náusea de obstrução piora com procinético.

Como pegar a tempo: Faça as quatro perguntas de mecanismo antes de escrever a linha, e escreva o intervalo mínimo dentro dela, com a frase que resolve o caso da dose vomitada. Em paciente jovem, prefira o mecanismo que não seja dopaminérgico quando ele resolver o problema. Persistência após duas doses é indicação de rever a causa, não de repetir.

Prescrever opioide sem laxante, ou prescrever o laxante como item condicional de madrugada

O dano: São dois erros com o mesmo desfecho. O opioide reduz a peristalse, aumenta a absorção de água e diminui o reflexo evacuatório, e esse efeito não desenvolve tolerância: acontece no primeiro dia e continua no trigésimo, em qualquer via. Sem medida preventiva, o paciente chega a cinco dias sem evacuar, com distensão, náusea, retenção urinária e, no idoso, agitação e confusão — e há quem reduza a analgesia por medo da constipação, trocando o intestino pela dor. O segundo erro é mais sutil: escrever o laxante irritativo como condicional faz com que ele seja administrado quando o sintoma já está instalado, de madrugada, sendo que o efeito laxativo do bisacodil só aparece entre 6 e 12 horas depois. A droga certa na modalidade errada não funciona.

Como pegar a tempo: Opioide na folha, laxante na folha, de horário, desde o primeiro dia, com registro diário da evacuação. Reserve o bloco condicional para a via retal, que age em minutos a poucas horas e é a modalidade que faz sentido como resgate. E prescreva por escrito as medidas não farmacológicas: sair do leito, oferta hídrica, dieta com resíduo, privacidade para evacuar.

Não ler, na manhã seguinte, o que foi administrado à noite

O dano: Este é o erro que fecha o capítulo, e é o único que não aparece na folha como erro. A dose administrada às três da manhã é um dado clínico: ela diz que houve febre, dor ou náusea àquela hora, num paciente sobre quem ninguém escreveu nada desde as oito da manhã anterior. Quando essa marca de caneta não é lida, perde-se o pico febril do quinto dia, perde-se o padrão de intervalos que encurtam, perde-se a náusea que não cedeu com duas doses. E a informação é frágil por natureza: num estudo brasileiro com 1.084 doses administradas em horário diferente do prescrito em cinco hospitais, o registro do horário estava incompleto em 7,8% e rasurado em 4,8% dos casos. Se ninguém transcreve para a evolução, aquilo desaparece quando a folha nova é impressa.

Como pegar a tempo: Comece a visita pela folha de ontem, não pela folha de hoje. Conte as doses de cada item condicional, anote os horários e os intervalos, cruze com a folha de sinais vitais e escreva o achado na sua evolução, com horário. São quinze segundos por leito, e é a única forma de a madrugada existir no prontuário.

11

O que dizer ao paciente e à família

O bloco condicional é a parte da prescrição em que o paciente e a família participam da execução — são eles que pedem, que recusam, que perguntam por que não pode mais um. Quatro conversas que aparecem sempre.

O paciente pede mais um comprimido para a dor, três horas depois do último, e você precisa dizer não sem que ele ouça que a dor dele não importa

O senhor pode tomar de novo, mas não agora: esse remédio precisa de seis horas entre uma dose e outra, senão ele se acumula e machuca o fígado sem avisar. Faltam três horas. O que eu não quero é o senhor esperando três horas com dor, então vamos fazer diferente: eu vou rever a sua dor agora, porque se o senhor está precisando antes da hora, o problema não é a dose que faltou, é o remédio de base estar fraco. Me diga onde dói e o quanto dói, de zero a dez, que eu ajusto isso hoje e não amanhã.

Não diga: Não posso, já deu o limite. A frase fecha a conversa, deixa o paciente com dor e desperdiça a informação mais útil do dia — a de que o esquema de base está insuficiente. Também evite prometer que vai voltar depois sem dizer quando: quem pede analgesia antes da hora precisa de reavaliação, não de espera.

A filha pergunta por que o pai está tomando remédio para o intestino se ele nunca teve problema disso na vida

É por causa do remédio da dor. O tipo de analgésico que ele está recebendo diminui o movimento do intestino e faz o intestino absorver mais água, então as fezes ficam ressecadas e param. Isso não passa com o tempo de uso: enquanto ele estiver com esse analgésico, o efeito continua. Por isso o laxante não é para tratar uma constipação que apareceu, é para impedir que ela apareça — e a gente ajusta a dose olhando o resultado, procurando duas ou três evacuações por dia. Se der diarreia, a gente diminui. E vocês ajudam muito com três coisas: água, ele sair da cama com ajuda, e a gente conseguir privacidade para ele na hora que precisar.

Não diga: É de rotina, todo mundo internado toma. Além de não ser verdade, a frase transforma uma decisão em hábito e tira da família a chance de perceber quando o motivo acabou.

O paciente diz que teve febre à noite e que ninguém conversou com ele sobre isso

O senhor teve, sim: 38,1 graus às três e meia da manhã, e a equipe deu o remédio que estava prescrito, o que foi correto. O que eu não posso deixar passar é o motivo dessa febre. O senhor está no quinto dia, estava melhorando, e uma febre nova nesse momento é um aviso de que alguma coisa mudou. Então hoje eu vou examiná-lo de novo com calma, olhar o acesso do braço, e ver se preciso pedir algum exame. E vou pedir para medirem a sua temperatura em horários certos, para eu enxergar o desenho disso ao longo do dia, e não só quando o senhor se sentir mal.

Não diga: Foi uma febrinha, já passou. Encerra a investigação com uma palavra e ensina o paciente a não relatar o próximo episódio.

Você decide suspender o antitérmico condicional por 24 horas para recuperar a curva térmica, e precisa combinar isso com o paciente

Vou pedir uma coisa ao senhor por um dia. Toda vez que a temperatura sobe, a gente dá o remédio e ela cai, e com isso eu perdi a informação de como essa febre se comporta — e é essa informação que me diz se o tratamento está funcionando. Então, por 24 horas, eu queria não dar o antitérmico de imediato e medir a temperatura de seis em seis horas. Isso não é deixar o senhor sofrendo: se o senhor se sentir mal, com dor no corpo ou tremendo muito, é só avisar que a gente dá na hora, e eu não vou considerar isso um fracasso. O combinado é esse, e amanhã de manhã eu volto e explico o que a gente descobriu.

Não diga: Suspender em silêncio, deixando a equipe e o paciente pensarem que houve esquecimento. A decisão de não tratar uma febre precisa estar escrita na evolução, combinada com a enfermagem e com o paciente, e ter prazo — senão ela vira omissão.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Laxante junto do opioide: item de horário desde a primeira dose, ou item condicional com gatilho de dias sem evacuar

De horário, desde o primeiro dia de opioide

A constipação induzida por opioide é previsível e não sofre tolerância: o efeito sobre a peristalse, sobre a absorção de água e sobre o reflexo evacuatório permanece durante todo o tratamento, em qualquer via de administração. Um efeito que se sabe que vai acontecer não é evento a ser aguardado, é evento a ser prevenido, e a prevenção pertence ao horário fixo. Além disso, a alteração do hábito intestinal reduz a adesão ao tratamento da dor: há paciente que aceita menos analgesia por medo do intestino, e nesse caso a constipação não tratada custa também o controle da dor. O manual brasileiro que trata do assunto diz, com essas palavras, que o ideal é deixar laxante prescrito de horário.

Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde — Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., 2023, capítulos de dor e de sintomas gastrintestinais

Condicional, disparado pelo registro de dias sem evacuação

A constipação do paciente internado é multifatorial, e o opioide é só uma das causas. Numa coorte brasileira de 106 pacientes internados por três ou mais dias em terapia intensiva, com constipação definida como ausência de evacuação por três dias consecutivos, a incidência foi de 69,9%, e a análise multivariada não encontrou associação entre uso de opioide e maior incidência; encontrou, sim, associação entre início precoce da nutrição enteral e menor incidência. Prescrever laxante de horário para todo paciente com opioide trata uma causa que pode não ser a principal, expõe à diarreia, à distensão e ao distúrbio hidroeletrolítico, e desloca a atenção das medidas que mais mudaram o desfecho — alimentar cedo, mobilizar, hidratar. O gatilho objetivo, escrito na folha, faz a mesma proteção com menos exposição. O próprio manual que defende a prescrição de horário admite, na mesma frase, a alternativa condicional a depender da avaliação clínica.

Azevedo RP, Freitas FGR, Ferreira EM, Machado FR — Constipação intestinal em terapia intensiva. Rev Bras Ter Intensiva. 2009;21(3):324-331, com o estudo observacional de Nassar e colaboradores ali descrito

Como decidir

As duas posições concordam em duas coisas que resolvem a maior parte dos casos: o registro diário da evacuação é obrigatório, e as medidas não farmacológicas entram desde o primeiro dia em todo mundo. A divergência é sobre o que fazer antes do terceiro dia. Decida por quatro variáveis do paciente à sua frente. Quanto opioide e por quanto tempo: dose alta e previsão de dias, o laxante de horário sai ganhando, porque a probabilidade se aproxima da certeza. Reversibilidade do erro: prescrever laxante a mais custa diarreia e desconforto, ambos reversíveis em horas; deixar de prescrever custa fecaloma, náusea, retenção urinária e, no idoso frágil, delirium — que é dano mais caro. Fragilidade: no idoso acamado, no desidratado e em quem já tinha constipação prévia, a assimetria pesa para a prevenção. E capacidade de vigilância da sua enfermaria: onde a evacuação é registrada todo dia e a visita pergunta, o gatilho condicional funciona; onde esse registro não existe, o condicional não dispara nunca, e a escolha honesta é o horário fixo.

Náusea induzida por opioide no paciente internado: haloperidol em baixas doses ou metoclopramida

Haloperidol em baixas doses é a escolha

A náusea induzida por opioide é, na maior parte, uma náusea química: o opioide age na zona quimiorreceptora do vômito, onde a barreira hematoencefálica é incompleta e os mediadores principais são dopamina e serotonina. O antidopaminérgico com maior afinidade por essa zona e menor efeito periférico é o haloperidol, na dose de 1 a 2 mg por via endovenosa ou subcutânea, de duas a três vezes ao dia — e o manual brasileiro de cuidados paliativos o nomeia droga de escolha nessa situação, reservando o procinético para quando o mecanismo provável for o retardo do esvaziamento gástrico. Ele está no Componente Básico da Rename 2024 em comprimido de 1 mg e de 5 mg, solução oral de 2 mg/mL e solução injetável.

Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde — Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., 2023, capítulo de sintomas gastrintestinais, item de causas e tratamento farmacológico

Metoclopramida resolve os dois mecanismos que coexistem no internado

No paciente internado, a náusea do opioide raramente é só química: ela vem junto do retardo do esvaziamento gástrico e do intestino lento que o mesmo opioide produz, e nessa combinação o procinético age nos dois lugares — bloqueia D2 na zona quimiorreceptora e bloqueia D2 na parede gástrica, onde a gastroparesia é ela própria emetogênica. O mesmo manual, no capítulo de dor, lista metoclopramida entre as medicações de escolha para a náusea por opioide justamente por atuar também no peristaltismo. Some-se a disponibilidade: a metoclopramida é a única das duas presente na Rename 2024 nas três apresentações — comprimido de 10 mg, solução oral de 4 mg/mL e solução injetável de 5 mg/mL —, o que significa que a linha escrita será executável em qualquer turno e por qualquer via.

Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde — Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., 2023, capítulo de dor, item de efeitos colaterais dos opioides; e Ministério da Saúde — Rename 2024

Como decidir

A divergência é real e vem de duas leituras do mesmo mecanismo dentro do mesmo documento. Decida pela pergunta clínica que separa as duas: há sinal de estase gástrica? Saciedade precoce, empachamento, soluço, vômito de grande volume com alimento antigo, alívio ao vomitar apontam para o procinético, e aí a metoclopramida é a resposta pelo mecanismo, e não pela conveniência. Sem esses sinais, a náusea é predominantemente química, e o haloperidol em dose baixa entrega o mesmo efeito com menos exposição periférica. Duas variáveis do paciente pesam por cima disso. Idade: o extrapiramidal da metoclopramida é mais frequente em adultos jovens e pode ocorrer após dose única, o que desloca a escolha num paciente de vinte anos. E abdome: se há suspeita de obstrução, o procinético deixa de ser opção, porque acelerar peristalse contra obstáculo aumenta dor e risco. Por fim, lembre-se de que a náusea por opioide costuma ceder em três a sete dias — a linha que você escrever tem prazo, e o prazo entra escrito nela.

Qual teto diário adotar para a dipirona no paciente internado, quando as fontes brasileiras não coincidem

4 g em 24 horas

A bula profissional da solução oral em gotas fecha a posologia do adulto e do adolescente acima de 15 anos em 20 a 40 gotas por administração, com o máximo de 40 gotas quatro vezes ao dia. Como 1 mL equivale a 20 gotas e 1 gota a aproximadamente 25 mg, 40 gotas são 1 g e o teto do dia é 4 g. É o número mais baixo entre os documentos, e é o que se aplica à via que a maior parte dos pacientes de enfermaria usa. Adotar o menor teto entre as fontes é a escolha que sobrevive a um paciente que muda de via no meio do dia.

Bula profissional de dipirona monoidratada solução oral em gotas 500 mg/mL, Geolab Indústria Farmacêutica, versão V.04_10/2018

5 g em 24 horas na via parenteral

A bula profissional da solução injetável 500 mg/mL traz posologia própria para o adulto acima de 15 anos: dose única de 2 a 5 mL, isto é, de 1 g a 2,5 g, e dose máxima diária de 10 mL, isto é, 5 g. O documento não é omisso nem genérico: ele detalha ainda a velocidade máxima de infusão de 1 mL por minuto, a necessidade de o paciente estar deitado e sob supervisão, e a ponderação de que dose única acima de 1 g por via parenteral exige consideração cuidadosa pelo risco de hipotensão dose-dependente. Aplicar à via injetável um teto derivado da apresentação oral é substituir a fonte específica pela genérica.

Bula profissional de dipirona monoidratada solução injetável 500 mg/mL, Hypofarma — Instituto de Hypodermia e Farmácia

Como decidir

Este é um caso em que a divergência não se resolve por evidência, e sim por decisão de segurança escrita. Três critérios ajudam. Primeiro, a via que o paciente vai realmente usar: se ele come e a linha é oral, o teto de 4 g é o da própria fonte que você está seguindo, e não há motivo para importar o número maior. Segundo, o que mais acontece na enfermaria: pacientes mudam de via no meio do dia, e a soma de doses orais com doses parenterais é feita por ninguém — nessa situação, adotar o menor teto entre as fontes protege sem custo clínico relevante, porque a diferença entre 4 g e 5 g raramente é a diferença entre alívio e dor. Terceiro, o paciente: no idoso, no hepatopata, em quem já recebe outras drogas hipotensoras, e em quem a exposição vai durar dias, a margem extra não se justifica. Qualquer que seja o número escolhido, escreva-o na folha, com a conta, e conte nele todas as linhas — porque o erro que mata neste capítulo não é escolher 4 em vez de 5, é não ter escolhido nenhum.

13

O raciocínio, em voz alta

Volte ao leito 9. Senhor Ubirajara Prado, 66 anos, 74 quilos, quinto dia de internação por pancreatite aguda biliar leve, dieta branda desde anteontem. A folha da noite traz quatro doses de dipirona checadas às 20h, 0h10, 3h40 e 5h50, duas de metoclopramida às 22h e às 4h, e uma temperatura de 38,1 graus às 3h30. Ele não evacua desde a admissão. Acompanhe o raciocínio em voz alta, passo a passo.

  1. primeiro eu leio a noite, não a doença

    Antes de pensar em pancreatite, eu leio o que a noite executou. Quatro doses de 1 g de dipirona em dez horas, com intervalos de 4h10, 3h30 e 2h10 — todos menores do que as 6 horas que cada linha declara. Isso não é equipe descumprindo a prescrição: é a prescrição autorizando, porque há duas linhas do mesmo princípio ativo com gatilhos diferentes, e cada uma foi lida sozinha. Duas de metoclopramida com intervalo de exatamente 6 horas, no limite mínimo da bula. E uma linha de laxante que não pôde ser administrada porque não tem droga, dose nem condição. Três problemas na mesma folha, e nenhum deles é da doença dele.

  2. depois eu somo, com o teto e não com o consumo

    Paracetamol: 500 mg de 6 em 6 horas no horário fixo dão 2 g; a associação condicional de codeína com paracetamol, um comprimido de 6 em 6 horas, autoriza mais 2 g. Total autorizado, 4 g em 24 horas — exatamente o teto, com margem zero, num homem que passou 48 horas em jejum. Dipirona: duas linhas de 1 g de 6 em 6 horas autorizam 8 g por dia, o dobro do teto de 4 g da bula da apresentação oral. E a soma revela o que o nome da associação escondia: há opioide na folha desde o primeiro dia. Isso muda tudo o que vem a seguir, porque explica ao mesmo tempo a náusea da madrugada e o intestino parado há cinco dias.

  3. a febre de 38,1 graus é um achado, e eu quase não a teria

    O que eu penso agora: quinto dia de uma pancreatite que estava melhorando, com febre nova de madrugada. Isso é infecção de cateter, coleção peripancreática se organizando, pneumonia aspirativa ou infecção urinária, até prova em contrário — e a investigação disso pertence ao raciocínio de febre no internado. O que muda meu pensamento é perceber como essa informação quase se perdeu: o paciente não sabe que teve febre, porque ele sentiu a sudorese da queda e não o pico; a evolução de ontem foi escrita antes de tudo acontecer; e o único lugar onde isso existe é uma marca de caneta na folha que eu ia jogar fora. Eu peço: aferição de temperatura de 6 em 6 horas com registro, exame do acesso venoso, e reavaliação abdominal — e escrevo o achado na minha evolução com o horário.

  4. a náusea eu não trato, eu classifico

    Quatro perguntas. Química? Sim, há opioide desde o primeiro dia. Estase gástrica? Ele não descreve saciedade precoce, soluço nem vômito de grande volume com alimento antigo. Vestibular? Não piora ao virar no leito. Obstrução ou intestino parado? O abdome está distendido e ele não evacua há cinco dias. A leitura é dupla — náusea de opioide somada a intestino parado —, e a consequência é contraintuitiva: o que mais vai reduzir a náusea dele não é antiemético, é fazer o intestino andar. Como eu vou retirar a associação com codeína no mesmo movimento, o gatilho químico some sozinho; a náusea induzida por opioide costuma ceder em três a sete dias, e agora vai ceder antes disso.

  5. o laxante muda de bloco, e antes dele vem o toque retal

    Cinco dias sem evacuar em paciente que recebeu opioide desde o primeiro dia não é constipação a ser aguardada: é constipação instalada, e pode já ser impactação. Então a ordem é esta: toque retal primeiro, porque com ampola cheia de fezes endurecidas o laxante oral irritativo é a decisão errada e a conduta começa pela via retal. Depois, o laxante sai do bloco condicional e vai para o horário fixo, por dois motivos independentes — porque a causa é previsível e não desenvolve tolerância, e porque o irritativo leva de 6 a 12 horas para agir, o que torna a administração de madrugada inútil. O bloco condicional fica com a via retal, que é a única que age em tempo de resgate.

  6. por fim eu reescrevo as três linhas, e combino quem me liga

    Sai: as duas linhas de dipirona, a associação de codeína com paracetamol, o paracetamol de horário fixo e a linha vaga de laxante. Entra: uma única linha condicional de dipirona 1 g por via oral, com gatilho de temperatura axilar igual ou acima de 38,3 graus ou dor acima de 4 em 10, intervalo mínimo de 6 horas e teto de 4 g ao dia escrito com a conta; uma linha condicional de metoclopramida 10 mg por via endovenosa se náusea, com intervalo mínimo de 6 horas mesmo se a dose for vomitada e teto de 30 mg; lactulose 15 mL por dia no horário fixo, titulada para evacuação macia, confortável e regular, sem obrigar duas a três por dia; supositório de glicerina como resgate retal; e as medidas não farmacológicas por escrito. Fecho combinando três avisos com a enfermagem: temperatura ainda acima de 38,3 graus depois da segunda dose, náusea persistente depois de duas doses, e ausência de evacuação até amanhã. Amanhã de manhã, o primeiro papel que eu pego é o de hoje.

14

Faça você

Agora é o leito 4. Roseane Batista, 24 anos, 58 quilos, terceiro dia de internação em enfermaria de clínica médica por infecção de partes moles em antebraço direito, após ferimento com vidro. Recebe antibiótico endovenoso e está melhorando localmente. A folha de hoje foi copiada da de ontem e traz, na medicação de horário fixo, paracetamol 750 mg por via oral de 8 em 8 horas; e, no bloco condicional, dipirona 1 g por via endovenosa de 6 em 6 horas se dor ou febre, um comprimido de codeína 30 mg com paracetamol 500 mg de 6 em 6 horas se dor forte, e metoclopramida 10 mg por via endovenosa de 8 em 8 horas se náusea. A folha da noite mostra: dipirona às 21h e às 2h30, a associação com codeína às 23h, e metoclopramida às 3h. Às 3h40 a técnica anotou na folha que a paciente vomitou logo depois da dose e perguntou, por telefone, se repetia. O plantonista disse que sim, e a segunda dose de metoclopramida foi dada às 3h50. Às 5h a paciente começou a apresentar inquietude intensa, sensação de não conseguir ficar parada, e um episódio de desvio do olhar para cima que assustou a acompanhante.

  1. as duas somas, antes de qualquer outra coisa

    Paracetamol: 750 mg de 8 em 8 horas no horário fixo dão 2.250 mg por dia. A associação condicional carrega 500 mg por comprimido, de 6 em 6 horas, o que autoriza mais 2.000 mg. O total autorizado é de 4.250 mg em 24 horas, acima do teto de 4 g impresso na bula, numa mulher de 58 quilos. E o esquema fixo sozinho já entrega 750 mg a cada 8 horas, aos quais se somaram os 500 mg da associação administrada às 23h. Dipirona: uma linha de 1 g de 6 em 6 horas, com duas doses administradas, dentro do teto — mas com gatilho duplo escrito na mesma linha, dor ou febre, sem que nenhum dos dois esteja definido por medida.

  2. o que aconteceu às 5h

    Inquietude intensa com incapacidade de ficar parada é acatisia; desvio sustentado do olhar para cima é crise oculógira. Os dois são sintomas extrapiramidais agudos por bloqueio dopaminérgico, e a bula profissional da metoclopramida é explícita ao dizer que eles podem ocorrer mesmo após dose única e que são mais frequentes em crianças e adultos jovens. Ela tem 24 anos, recebeu duas doses de 10 mg com 50 minutos de intervalo, e a acompanhante está convencida de que a paciente teve uma crise nervosa.

  3. a decisão das 3h40 estava escrita, e ninguém leu

    A dose IV de metoclopramida não foi perdida no vômito. Repetir 50 minutos depois aumentou exposição, apesar da prescrição de oito em oito horas. Conferir intervalo mínimo, dose realmente administrada e motivo da repetição; não atribuir o erro à incerteza de absorção intestinal que não se aplica à via IV.

  4. e a náusea, afinal, era de quê

    Codeína pode contribuir à náusea, mas a relação temporal não confirma causa única. Reavaliar dor atual, necessidade de opioide, trânsito, abdome e demais medicamentos. Melhora da infecção não prova ausência de dor que justifique analgesia; reduzir ou retirar opioide quando o benefício já não compensar seus efeitos adversos.

  5. escreva agora a conduta imediata e a folha nova

    Com esses quatro passos na mão, resolva duas coisas. Primeiro, o que fazer agora, às 5h10, diante da acatisia e da crise oculógira. Segundo, como fica a folha nova: quais itens saem, quais ficam, e como você escreve cada linha condicional que permanece — com gatilho, dose, via, intervalo mínimo e teto em 24 horas, e com a conta do acumulado de paracetamol escrita por extenso.

Ver como fecharíamos

Avaliar a paciente presencialmente, interromper metoclopramida e procurar comprometimento de via aérea, respiração e outros diagnósticos. A exposição seguida de inquietude e crise oculógira favorece reação extrapiramidal aguda. Distonia sintomática pode exigir anticolinérgico parenteral conforme protocolo, com monitorização e observação de recorrência; não basta garantir que tudo reverte só com a retirada. Explicar o mecanismo e registrar como reação adversa, evitando reexposição inadvertida. Reconstruir doses efetivamente recebidas. O esquema autorizado de paracetamol soma 2.250 mg fixos + até 2.000 mg da associação, total de 4.250 mg/dia; isso excede 4 g e pode ultrapassar um limite individual ainda menor. O total autorizado não é necessariamente o total já ingerido: conferir horários antes de concluir intoxicação, e avaliar exposição acumulada se necessário. A dipirona dada às 21h e 2h30 também não respeitou seis horas. Reavaliar dor e necessidade de codeína. Se a dor já puder ser controlada sem opioide, retirar a associação, que pode contribuir à náusea e à constipação. Não afirmar que infecção em melhora nunca exige opioide. Escolher uma estratégia analgésica simples, com via oral se tolerada; dipirona 1 g VO até a cada seis horas, quando indicada, com teto conservador de 4 g/dia somando todas as vias, é uma possibilidade nesta adulta sem contraindicações. Se houver necessidade de via IV, respeitar diluição/velocidade da apresentação; não criar duas linhas independentes que permitam duplicidade. Se persistir náusea após reavaliação, ondansetrona pode ser alternativa não dopaminérgica, por exemplo 4 mg VO ou IV conforme via disponível, com intervalo e teto individualizados, considerando QT, eletrólitos e constipação. Limite de 8 mg/dia é exigência na disfunção hepática grave, não regra universal em pessoa com fígado normal; doses conservadoras ainda podem ser escolhidas por julgamento. A redação deve declarar via e não apenas apresentação disponível. Definir quando chamar a equipe: sintomas novos, vômitos persistentes, distensão, dor em piora, reação adversa ou necessidade repetida de resgate. Conferir entendimento com enfermagem e paciente. Na alta, informar a reação à metoclopramida, a analgesia vigente e a soma de paracetamol permitida. Se o paracetamol for retirado de todas as linhas, o total novo autorizado é zero; isso não apaga o que já foi administrado nas últimas 24 horas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Prevenção de constipação por opioide deve considerar trânsito, ingestão, mobilidade, obstrução/impactação e resposta. Estimulante e/ou osmótico podem ser necessários conforme disponibilidade e tolerância. Evitar óleo mineral no disfágico pelo risco de aspiração e pneumonite lipoídica. A Rename não demonstra estoque hospitalar nem substitui seleção clínica. Definir dose, horário, alvo e critério de revisão torna o plano executável.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Converta 1 g de paracetamol 200 mg/mL e explique por que 5 mL são preferíveis a uma média de gotas. Reconstrua os intervalos de dipirona da questão.

Em 30 dias

Reescreva a folha após crise oculógira, incluindo tratamento imediato, reação adversa, soma de doses e critérios de reavaliação.

17

Agora atenda

Agora atenda: mulher de 34 anos, na enfermaria, no pós-operatório imediato de uma colecistectomia videolaparoscópica eletiva, que já vomitou quatro vezes desde que voltou do centro cirúrgico, não consegue reter nem água e lembra que avisou a equipe que sempre passa mal com anestesia. Levante o que a predispõe a vomitar, procure sinais de alarme, examine e verbalize seus diferenciais antes de mexer na prescrição. Classifique a náusea pelo mecanismo e escolha a classe do antiemético por ele. Depois escreva o bloco do "se necessário" — antiemético, antitérmico e laxante — dizendo, para cada linha, se ela fica, passa para horário fixo ou sai, com gatilho, intervalo e teto do dia, e por quê.