Clínica Médica › Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
As três profilaxias
Profilaxias da prescrição: TEV, lesão de estresse e broncoaspiração
São as três linhas que mais se copiam da folha de ontem — e as três são decisão clínica, tomada de novo a cada manhã.
Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.001: Tromboprofilaxia venosa em pacientes internados. Versão 02, emissão 06/09/2023 (Resolução nº 190, de 06/09/2023)
Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.002: Profilaxia de úlcera gástrica por estresse. Versão 01, emissão 06/09/2023 (Resolução nº 191, de 06/09/2023)
Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais / Ebserh — Protocolo Assistencial nº 360: Prevenção de broncoaspiração no adulto. Versão 01, 1ª versão de novembro de 2023
Hospital Sírio-Libanês — Protocolo para Avaliação de Risco de Tromboembolismo Venoso em Pacientes Internados (auxílio para avaliação de risco, baseado no protocolo assistencial e no comitê científico da instituição)
Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013
Bula profissional de Cutenox (enoxaparina sódica), Mylan Laboratórios, versão Bula_Profissional_Cutenox_AR.01.03.21
Bula profissional de Noxx (enoxaparina sódica), Blau Farmacêutica
Bula profissional de Sucrafilm (sucralfato), EMS Sigma Pharma — comprimido mastigável de 1 g
Lopes BAC, Teixeira IP, Souza TD, Tafarel JR — Sabemos prescrever profilaxia de tromboembolismo venoso nos pacientes internados? J Vasc Bras. 2017;16(3):199-204
Bischoff LM, Faraco LSM, Machado LV, Bialecki AVS, Almeida GM, Becker SCC — Inappropriate usage of intravenous proton pump inhibitors and associated factors in a high complexity hospital in Brazil. Arq Gastroenterol. 2021;58(1):32-38
Mourão AM, Lemos SMA, Almeida EO, Vicente LCC, Teixeira AL — Frequência e fatores associados à disfagia após acidente vascular cerebral. CoDAS. 2016;28(1):66-70
ASH. Guidelines for management of venous thromboembolism: heparin-induced thrombocytopenia, 2018. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6258919/
SCCM/ASHP. Prevention of stress-related gastrointestinal bleeding in critically ill adults, 2024. https://sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/sccm-ashp-guideline-prevention-of-ugib
Responda antes de ler
Homem de 64 anos internado com suspeita de meningite, alto risco de tromboembolismo pelo escore, sem sangramento e com coagulograma normal. São 14 horas e a punção lombar diagnóstica está programada para as 20 horas do mesmo dia. A prescrição traz enoxaparina 40 mg por via subcutânea às 20 horas. Qual é a conduta em relação à profilaxia farmacológica?
O paciente que você vai ver
Sete e vinte da manhã, enfermaria de clínica médica, doze leitos. A prescrição do dia ainda não foi escrita, e sobre o balcão do posto estão as folhas de ontem, impressas, com o carimbo da farmácia. O residente passa, olha o relógio e diz a frase que você vai ouvir todos os dias por dois anos: "repete as prescrições, depois a gente confere na visita".
Três leitos desta enfermaria têm, hoje, exatamente as mesmas três linhas no fim da folha. Enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia. Omeprazol 40 mg por via endovenosa uma vez ao dia. Cabeceira elevada. As três linhas estão idênticas nas três folhas, com a mesma dose, na mesma ordem, e nenhuma delas foi decidida hoje.
No leito 4 está dona Aparecida, 78 anos, 54 quilos, 1,52 m, internada há três dias por pneumonia com descompensação de insuficiência cardíaca. A creatinina dela é 1,3 mg/dL — um número que passa batido numa leitura rápida. Ela levanta para ir ao banheiro apoiada na filha, e por isso alguém escreveu na evolução de ontem que "está deambulando".
No leito 7 está seu Idalécio, 71 anos, com um acidente vascular cerebral isquêmico de quatro dias. Ele engasgou com a água ontem à tarde. A técnica de enfermagem anotou; a anotação não virou linha nenhuma na prescrição. A cabeceira dele está baixa desde o banho, e o café da manhã já subiu.
No leito 11 está seu Romualdo, 58 anos, internado há seis dias por celulite extensa em membro inferior. No primeiro dia ele estava em jejum para um procedimento que acabou não acontecendo, e o omeprazol endovenoso entrou na folha por causa disso. Hoje ele come de tudo, anda pelo corredor, e o omeprazol continua na veia. Amanhã ele tem alta — e vai levar a receita que você escrever.
Nenhum desses três pacientes tem "problema de profilaxia" escrito no prontuário. Os três têm decisões pendentes que ninguém tomou, porque as três linhas vieram prontas. Este capítulo é sobre tomar essas decisões, uma de cada vez, com os números na mão.
Quem adoece disso
O tromboembolismo venoso é a causa mais evitável de morte no paciente internado, e o tamanho do problema no Brasil se mede menos pela incidência da doença do que pela frequência com que a profilaxia deixa de ser prescrita. Num levantamento de prontuários feito em hospital de Curitiba, dos 70 pacientes elegíveis apenas 46 receberam alguma profilaxia — 65,7%. Quebrado por especialidade, o número diz onde mora o buraco: entre os pacientes clínicos, 29 de 31 receberam (93,5%); entre os cirúrgicos, 17 de 39 (43,6%). A consequência prática para quem está começando é que a lacuna quase nunca está na enfermaria de clínica médica, onde a linha vem copiada, e sim no pós-operatório, onde o cirurgião pensa em sangramento e o clínico não está por perto. O mesmo trabalho registra que cerca de um terço dos internados tem risco de trombose venosa profunda e que o tromboembolismo pulmonar responde por 5% a 10% das mortes hospitalares.
O erro na segunda profilaxia tem o sinal invertido: ela é prescrita demais. Num hospital de alta complexidade no Sul do país, 333 pacientes receberam omeprazol por via endovenosa em seis meses, e a prescrição foi julgada adequada em 23,4% delas. Ou seja, em cerca de três de cada quatro folhas, a ampola entrou sem indicação que a sustentasse — e as duas justificativas mais frequentes, suspeita de hemorragia digestiva alta (19,1%) e profilaxia em paciente de alto risco sem via oral (18,7%), somam menos de 40% dos casos. O custo estimado das ampolas prescritas sem indicação no período foi de 1.696 dólares em uma única instituição. O número financeiro é o menos importante: o que se paga em pneumonia hospitalar e em infecção por Clostridioides difficile não aparece nessa conta, e é ele que muda a decisão à beira do leito.
A terceira profilaxia não tem estatística de prescrição porque quase não é prescrita. O que existe é a estatística do risco. Em 100 pacientes admitidos com acidente vascular cerebral em um hospital público de Minas Gerais, avaliados na admissão com uma escala clínica de triagem de deglutição, metade tinha disfagia — e a maioria dos disfágicos tinha alteração grave. O mesmo estudo mostra que nem a localização nem a fisiopatologia do acidente vascular previram quem ia engasgar, e essa é a informação que muda conduta: não dá para escolher quem triar pela tomografia, então se tria todo mundo. O protocolo de prevenção de broncoaspiração de um hospital universitário federal vai na mesma direção e é radical na régua — um único fator de risco, entre dezesseis listados, já classifica o paciente como de alto risco.
Junte as três e você tem o retrato do problema: uma profilaxia que falta onde deveria estar, outra que sobra onde não deveria estar, e uma terceira que quase ninguém escreve. As três aparecem na mesma folha, no mesmo minuto da manhã, e as três dependem de você reabrir uma decisão que a impressora já tomou.
Por que acontece o que acontece
As três profilaxias existem porque a internação muda a fisiologia de três sistemas ao mesmo tempo, e sempre na mesma direção. Entender essa direção é o que permite decidir sem consultar tabela.
No leito, a bomba muscular da panturrilha para. É ela que empurra o sangue venoso contra a gravidade, e sem ela o fluxo nas veias profundas fica lento — a estase que abre o primeiro flanco. Ao mesmo tempo, a doença aguda que motivou a internação, seja infecção, insuficiência cardíaca ou neoplasia, produz um estado inflamatório que ativa a coagulação e reduz a fibrinólise. O terceiro flanco é a lesão endotelial, e ele geralmente entra pela nossa própria mão: o cateter venoso central, a punção, a cirurgia. Estase, hipercoagulabilidade e lesão endotelial não são três causas alternativas; no internado agudo, costumam ser simultâneas. É por isso que o escore de risco pergunta pela mobilidade, pela infecção e pelo cateter, e não pelo diagnóstico principal.
Isso também explica por que a heparina profilática funciona em dose pequena. Ela não dissolve trombo formado — potencializa a antitrombina e reduz a geração de trombina o suficiente para impedir que o trombo comece. Prevenção exige menos droga que tratamento, e por isso a dose profilática é fixa, não calculada por quilo, enquanto a dose terapêutica é 1 mg por quilo de doze em doze horas. Quando você confunde as duas na folha, o erro não é de 10% ou de 20%: para um paciente de 70 quilos, a dose terapêutica diária é três vezes e meia a profilática.
Hipoperfusão e falha da proteção da mucosa, em ambiente ácido, participam da lesão relacionada ao estresse no paciente crítico. A decisão de profilaxia depende do risco clínico, não apenas de estar em jejum ou intubado. Coagulopatia, choque e hepatopatia crônica merecem atenção; alimentação enteral pode reduzir risco, mas não elimina indicação quando fatores importantes persistem. Pressão normal e estar comendo, isoladamente, também não resolvem todas as indicações gastrointestinais.
O preço de suprimir o ácido em quem não precisa vem do mesmo mecanismo, visto pelo outro lado. O ácido gástrico é barreira antimicrobiana: ele esteriliza parcialmente o conteúdo que desce e o que eventualmente sobe. Elevar o pH gástrico permite que o estômago seja colonizado, e esse conteúdo colonizado é justamente o que microaspira à noite. Daí a associação, registrada em grandes estudos observacionais e em metanálises citadas pelo protocolo, entre supressão ácida desnecessária e pneumonia hospitalar e infecção por Clostridioides difficile. Repare no encaixe: a segunda profilaxia mal indicada piora exatamente o desfecho que a terceira tenta evitar.

Na via aérea, a defesa que se perde é mecânica antes de ser imunológica. Metade dos adultos saudáveis aspira pequenas quantidades durante o sono sem adoecer, porque a glote fecha, a tosse expulsa e o transporte mucociliar limpa. A internação derruba os três: o rebaixamento de consciência e a sedação abolem o reflexo de tosse, a doença neurológica desorganiza a deglutição, a sonda mantém o esfíncter esofágico inferior entreaberto, e o decúbito horizontal transforma refluxo em aspiração por simples geometria. A pneumonia aspirativa não acontece porque o paciente aspirou; acontece porque aspirou volume colonizado com as defesas desligadas.
Guarde a assimetria de tempo, porque ela governa tudo o que vem adiante. O risco de trombose se instala em dias e some quando a mobilidade volta. O risco de úlcera de estresse acompanha a gravidade e some quando a gravidade some. O risco de aspirar pode aparecer numa tarde, com um rebaixamento, e desaparecer na manhã seguinte. Nenhum dos três é propriedade do paciente: os três são propriedade do dia.
Como se apresenta de verdade
As três profilaxias não aparecem para você como "casos". Aparecem como linhas prontas, e o espectro que interessa aqui é o das situações em que a linha pronta está errada — por excesso, por falta ou por dose. São seis retratos, e você vai reconhecer todos eles antes do fim do primeiro mês de enfermaria.
Percurso de aprendizagem
Calcule risco trombótico e hemorrágico, mas considere AVC, procedimentos, rim e tendência plaquetária antes de escolher dose.
Diferencie profilaxia de estresse da gastroproteção por medicamentos. Jejum e antibiótico não justificam IBP por si.
Suspeita de HIT requer 4Ts e estratégia antitrombótica alternativa quando indicada. Tosse/voz molhada após deglutir exige suspender oferta insegura e avaliar antes da próxima refeição.
A folha que chega pronta
É a apresentação mais comum, e a mais silenciosa. As três linhas estão no rodapé da prescrição desde a admissão e atravessaram cinco impressões sem que ninguém as relesse. Elas não chamam atenção porque não geram queixa: não há sintoma de profilaxia mal indicada no dia em que ela é mal indicada.
O que muda no tempo é tudo o que está por baixo delas. O peso pode ter sido estimado no pronto-socorro e nunca aferido. A função renal de hoje pode não ser a de anteontem. O paciente que estava em jejum agora come. A plaqueta que era 180.000 agora é 78.000. A linha, no entanto, é sempre a mesma, porque a cópia carrega o texto e não carrega a premissa.
O sinal de que você está diante deste retrato é conseguir responder o que está prescrito, mas não conseguir responder por quê. Se a pergunta "qual foi o escore dele?" não tem resposta no prontuário, a profilaxia não foi indicada: foi herdada.
O clínico agudo que não parece de risco
É o retrato oposto ao do paciente grave: senhora de 78 anos internada por pneumonia, lúcida, conversando, sentada na poltrona parte do dia, com uma filha ao lado. Ninguém olha para ela e pensa em trombose, porque a imagem mental de risco trombótico é a de alguém imóvel na cama.
O escore não pensa em imagem, pensa em soma. Idade igual ou acima de 70 anos vale 1 ponto; infecção aguda vale 1; insuficiência cardíaca ou respiratória vale 1; mobilidade reduzida vale 3. A mesma senhora que parece bem soma 6 pontos e cai no grupo com risco de tromboembolismo de 11% em três meses sem profilaxia adequada, contra 0,3% abaixo do corte de 4 pontos.
Este retrato é a razão de o escore existir. A impressão clínica erra sistematicamente para baixo no paciente clínico que conversa, e erra para cima no paciente que parece grave mas está móvel. A conta corrige as duas.
O paciente que "está deambulando"
Esta é a frase que mais retira profilaxia indevidamente no Brasil, e ela erra porque usa uma palavra clínica num sentido leigo. Deambular, no sentido que dispensa profilaxia, é retomar a mobilidade habitual. Levantar-se para ir ao banheiro amparado por alguém não é isso.
A definição operacional que um protocolo institucional brasileiro usa é precisa e vale a pena decorar: há mobilidade reduzida quando o paciente permanece, durante a vigília, limitado a levantar-se para ir ao banheiro e a deambular com auxílio, com expectativa de que essa condição dure pelo menos 3 dias. A perda de mobilidade precisa ainda ser aguda, isto é, ter menos de 3 meses, e decorrer da doença que motivou a internação.
A ressalva do outro lado é igualmente importante e quase nunca ensinada: o acamado crônico, imóvel há mais de seis meses, não deve ser classificado como tendo mobilidade reduzida apenas por estar acamado — ele vive em outra homeostase de coagulação, adaptada ao imobilismo. O que reabre o risco nele é o evento agudo novo: a infecção, a fratura, a internação em si. Sem evento novo, o imobilismo antigo sozinho não é o gatilho.
O erro prático, então, tem duas caras. Escrever "deambulando" para quem anda amparado até o banheiro retira uma profilaxia indicada. Prescrever para todo acamado crônico sem evento agudo acrescenta uma que não é.
O paciente em que a heparina não pode entrar
Este retrato aparece com uma pergunta feita pelo enfermeiro no meio da tarde: "doutor, posso fazer a enoxaparina das 20 horas?". A resposta certa depende de coisas que mudaram desde a manhã.
As contraindicações absolutas são poucas e memorizáveis: hipersensibilidade às heparinas; história pregressa de plaquetopenia induzida por heparina; sangramento ativo, com a ressalva explícita de que epistaxe leve e sangramento menstrual fisiológico não contam; risco alto de sangramento; punção lombar nas últimas 4 horas ou prevista para as próximas 12 horas; procedimento cirúrgico previsto para as próximas 12 horas; e paciente que já está ou vai entrar em anticoagulação plena — nesse último caso a profilaxia não é contraindicada por risco, é redundante por definição.
As relativas exigem julgamento: contagem de plaquetas abaixo de 50.000, ou abaixo de 100.000 quando há outros fatores de risco de sangramento; hipertensão sistólica não controlada, para a qual o protocolo é honesto ao dizer que não existe um valor de corte e que a comparação deve ser com o habitual daquele paciente; e diáteses hemorrágicas adquiridas, como a uremia, ou hereditárias não tratadas.
O ponto que este retrato ensina é o que vem depois do "não pode". Contraindicação à heparina não é alta da profilaxia: é troca de método. E é aqui que a folha costuma ficar vazia, porque a alternativa mecânica não tem impresso pronto e precisa ser escrita à mão.
O inibidor de bomba que virou medicação crônica
Seu Romualdo, do leito 11, é o retrato inteiro. O omeprazol endovenoso entrou no primeiro dia por uma razão que existia naquele dia — jejum para um procedimento. O procedimento não aconteceu, o jejum acabou, e a linha ficou. Ninguém a manteve deliberadamente; ninguém a retirou.
O que torna este retrato perigoso é a alta. A prescrição de alta é escrita a partir da folha da enfermaria, e a folha da enfermaria tem o inibidor de bomba. Ele entra na receita, o paciente compra, a atenção básica renova, e dois anos depois há um medicamento de uso contínuo que nenhum médico jamais decidiu iniciar. A cadeia inteira é composta de gestos razoáveis.
Os critérios de descontinuação são explícitos no protocolo e valem para todo paciente acima de 18 anos: descontinue quando a indicação não é conhecida; quando houve tratamento completo de esofagite leve a moderada ou de doença do refluxo já tratada por 4 a 8 semanas; quando a úlcera péptica já foi tratada por 2 a 12 semanas; quando sintomas digestivos altos sem endoscopia completaram um curso mínimo de 4 semanas; e quando a profilaxia de úlcera de estresse iniciada na terapia intensiva já cumpriu seu papel.
A retirada pode ser abrupta ou gradual — de duas vezes ao dia para uma, de dose alta para baixa, de diário para dias alternados. Nas semanas seguintes, avalia-se o retorno de azia, regurgitação, dispepsia e dor epigástrica, e, em quem não fala, perda de apetite, perda de peso e agitação. Medidas não farmacológicas entram no lugar: evitar refeições 2 a 3 horas antes de deitar, elevar a cabeceira da cama, afastar os alimentos que disparam sintoma.
O risco de aspirar que ninguém identificou
Seu Idalécio engasgou com água na tarde de ontem, e a informação parou na folha de enfermagem. Este é o retrato mais frequente da terceira profilaxia: o risco é observado, é anotado, e não se converte em nenhuma linha de prescrição, porque a linha que ele exige não é um medicamento.
A lista de fatores de risco do protocolo hospitalar é longa de propósito, e vale ler devagar porque quase todo paciente da enfermaria toca em algum item: alterações neurológicas associadas à disfagia; doenças e cirurgias de cabeça e pescoço; doença do refluxo; paciente crítico acima de 65 anos; as primeiras 24 horas após extubação de quem ficou mais de 48 horas com prótese de via aérea; desconforto respiratório durante ou após a alimentação; engasgo, voz molhada ou alteração vocal; reflexo de tosse diminuído; tosse antes, durante ou depois da deglutição; rebaixamento do nível de consciência; presença de sonda nasogástrica, orogástrica ou enteral; sialorreia ou resíduo alimentar acumulado na boca; sensação de bolo parado na garganta ou dor ao engolir; prótese dentária mal adaptada; uso de drogas sedativas; e saída de saliva ou alimento pela traqueostomia.
Repare em dois itens que costumam surpreender. A própria sonda enteral é fator de risco de aspiração, e não proteção contra ela — quem passa sonda para "evitar que o paciente aspire" está trocando um risco por outro, não eliminando o primeiro. E a prótese dentária mal adaptada entra na mesma lista das doenças neurológicas, porque mastigação ruim produz bolo mal formado.
A régua de decisão é deliberadamente grosseira: um único fator já classifica o paciente como de alto risco, e alto risco aciona o conjunto inteiro de medidas preventivas. Não há escore com pontos aqui, e a ausência de escore é uma escolha — o custo de aplicar a medida a quem não precisava é praticamente nulo, e o custo de deixar de aplicar é uma pneumonia.
Como fechar o diagnóstico
Nenhuma das três profilaxias tem exame diagnóstico. O que existe é um conjunto pequeno de dados que precisa estar na folha antes de a primeira linha ser escrita — e a maior parte dos erros de profilaxia é erro de dado ausente, não de conduta desconhecida.
A ordem abaixo é a ordem em que se coleta: primeiro o que muda a dose, depois o que muda o método, por último o que muda a via.
Peso e altura medidos, não estimados
A dose profilática de enoxaparina é fixa em 40 mg por dia para a faixa de 50 a 90 quilos, e é justamente por ser fixa que ela engana: quem está fora da faixa recebe dose errada sem que nada na folha acuse.
Abaixo de 50 quilos, ou com índice de massa corporal abaixo de 18 kg/m², a dose sugerida cai para 20 mg por dia. De 91 a 130 quilos sobe para 60 mg; de 131 a 170, para 80 mg por dia ou 40 mg de doze em doze horas; acima de 170 quilos, passa a ser calculada, 0,6 mg por quilo por dia, podendo ser dividida em duas tomadas.
A altura entra porque o índice de massa corporal aciona regras próprias, e porque o mesmo protocolo adverte: avalie o peso total, e não apenas o índice, já que paciente de baixa estatura com índice elevado pode não se beneficiar de dose aumentada. Dois números na admissão — peso na balança, altura no estadiômetro — resolvem toda esta seção.
A depuração de creatinina, calculada e escrita
Creatinina não é função renal. Dona Aparecida, do leito 4, tem 78 anos, 54 quilos e creatinina de 1,3 mg/dL, um valor que muita gente leria como normal. Pela fórmula de Cockcroft e Gault, que multiplica a diferença entre 140 e a idade pelo peso, divide por 72 vezes a creatinina sérica e multiplica por 0,85 no sexo feminino, a depuração dela é de aproximadamente 30 mL/min.
Trinta é exatamente o número onde a conduta se parte em quatro caminhos, e a divergência entre as fontes está tratada em bloco próprio deste capítulo. O que interessa aqui é a técnica: calcule uma vez, escreva o valor no alto da folha e releia essa linha antes de acrescentar qualquer anticoagulante. Se a creatinina se mexer, recalcule e revise todas as doses dependentes de uma vez, e não apenas a que veio à cabeça.
A conta também muda o método, não só a dose. Com depuração abaixo de 30 mL/min, o protocolo institucional recomenda heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas, porque a heparina não fracionada tem depuração predominantemente extrarrenal e não acumula. Se a função renal piorar durante a internação, a orientação é descontinuar a heparina de baixo peso molecular e trocar por heparina não fracionada — troca, e não redução.
O escore de Pádua, e o que ele não responde
O escore de Pádua é a ferramenta recomendada para o paciente clínico. Câncer em atividade, tromboembolismo venoso prévio, mobilidade reduzida e trombofilia conhecida valem 3 pontos cada; trauma ou cirurgia no último mês vale 2; e valem 1 ponto cada um destes: idade igual ou acima de 70 anos, insuficiência cardíaca ou respiratória, infecção ou doença reumatológica, infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral, obesidade com índice de massa corporal igual ou acima de 30 kg/m², e terapia hormonal em uso.
Quatro pontos é o corte. Abaixo dele, o risco de evento sintomático em três meses é de 0,3% e a conduta é deambulação precoce, sem profilaxia química. Igual ou acima, o risco é de 11% sem profilaxia intra-hospitalar adequada e cai para 2,2% com profilaxia adequada — número que vale guardar, porque explica que a profilaxia reduz o risco, não o abole.
O que o escore não responde é se o paciente pode receber. Ele mede risco de trombose e nada mais. Um Pádua de 8 num paciente com sangramento digestivo ativo continua sendo 8, e continua não autorizando heparina. Por isso a sequência é sempre em duas etapas, e nunca em uma: primeiro o risco de trombose, depois o risco de sangramento.
O risco de sangramento, que decide o método
A ferramenta usada para a segunda etapa é o escore IMPROVE de sangramento, e ele tem pesos fracionados que denunciam sua origem estatística: úlcera gastroduodenal ativa vale 4,5 pontos; hemorragia nos três meses anteriores à internação, 4; plaquetas abaixo de 50 mil, 4; idade igual ou acima de 85 anos, 3,5; insuficiência hepática com razão normalizada internacional igual ou acima de 1,5, depuração abaixo de 30 mL/min e internação em terapia intensiva, 2,5 cada; cateter venoso central, doença reumatológica e câncer ativo, 2 cada; idade de 40 a 84 anos, 1,5; sexo masculino e depuração entre 30 e 59, 1 cada.
Abaixo de 7 pontos, profilaxia farmacológica. Igual ou acima de 7, profilaxia mecânica. É uma régua, não uma sentença, e o próprio protocolo instrui a reavaliar os dois riscos ao longo da internação — quando o risco hemorrágico cessa, troca-se o método mecânico pelo farmacológico.
Note o que este escore faz com a idade e com o rim: o paciente idoso com função renal reduzida acumula pontos nos dois escores ao mesmo tempo, subindo o risco de trombose e o de sangramento na mesma consulta. É o retrato mais comum da enfermaria de clínica médica, e é onde o julgamento clínico volta a ter peso.
Hemograma e coagulograma: o que muda decisão
Três números do laboratório de rotina governam as duas primeiras profilaxias, e vale saber para que serve cada um.
As plaquetas entram duas vezes. Abaixo de 50.000 são contraindicação relativa à heparina e, ao mesmo tempo, um dos critérios isolados que indicam profilaxia de lesão de mucosa gástrica. O mesmo número, portanto, tira uma linha da folha e coloca outra. Entre 50.000 e 100.000, o protocolo pede sinalização à equipe e decisão caso a caso.
A razão normalizada internacional acima de 1,5 e o tempo de tromboplastina parcial ativada acima de duas vezes o controle compõem, com a plaquetopenia, a definição de coagulopatia usada para indicar profilaxia gástrica; e a razão acima de 1,5 com insuficiência hepática também pontua no escore de sangramento. Um mesmo achado, de novo, empurrando as duas profilaxias em sentidos opostos.
Há um quarto uso do hemograma que não é diagnóstico e sim de vigilância: com heparina em curso, a contagem de plaquetas deve ser monitorada regularmente pelo risco de trombocitopenia induzida por heparina. A suspeita nasce da queda de plaquetas concomitante ao uso, sobretudo entre o sétimo e o décimo dia de exposição. Reconhecer isso a tempo importa porque a conduta é contraintuitiva: a plaquetopenia induzida por heparina é um estado protrombótico, e a resposta é suspender toda heparina, não transfundir plaqueta.
A triagem de deglutição, e o que existe no SUS
A terceira profilaxia tem um único procedimento diagnóstico, e ele é de beira de leito: a triagem clínica da deglutição. Não exige equipamento e pode ser aplicada por equipe treinada, com escalas de rastreio validadas em português. O que se procura é objetivo — tosse antes, durante ou depois de engolir; voz molhada; engasgo; desconforto respiratório na alimentação; resíduo alimentar na boca.
A regra prática que vale para o interno é o momento: a triagem vem antes da primeira oferta de dieta, e não depois do primeiro engasgo. Enquanto ela não é feita no paciente de risco, a prescrição correta de dieta é a que ainda não libera via oral.
Sobre disponibilidade, o quadro brasileiro é assimétrico e convém conhecê-lo. A heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL solução injetável está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 no Componente Básico, o de acesso mais capilarizado. A enoxaparina sódica 40 mg/0,4 mL e 60 mg/0,6 mL está na mesma relação, mas no Componente Especializado e vinculada ao protocolo de prevenção de tromboembolismo em gestantes com trombofilia — o que significa que a dispensação ambulatorial por essa via tem indicação restrita, e que a enoxaparina que você prescreve na enfermaria vem da compra do hospital, não desse componente.
Para a segunda profilaxia, a Rename 2024 traz omeprazol em cápsula de 10 mg e de 20 mg, no Componente Básico. Pantoprazol, esomeprazol e sucralfato não constam da lista de 2024 — e o próprio protocolo hospitalar que os descreve os marca como medicamentos não padronizados. A consequência prática é direta: quando houver indicação real, o esquema que se sustenta em qualquer serviço do país é omeprazol por via oral, e a via endovenosa se reserva a quem não tem via enteral disponível.
A terceira profilaxia é a mais igualitária das três, porque seus insumos são cabeceira, tempo e atenção. Isso não a torna automática: ela depende de estar escrita, e do aspirador funcionante e montado à beira do leito, exigência que o protocolo hospitalar faz questão de registrar.
As três decisões, na ordem em que se tomam
Aprenda a prevenir trombose, sangramento digestivo e aspiração de acordo com o risco atual, reavaliando indicação e duração.
- 1Peso medido, altura medida e depuração de creatinina calculada, escritos no alto da folha. Sem esses três números, nenhuma das linhas seguintes pode ser escrita com dose.
- 2Tromboembolismo, etapa 1: calcule o escore de Pádua. Abaixo de 4 pontos, sem profilaxia química — deambulação precoce, e escreva que o escore foi calculado.
- 3Tromboembolismo, etapa 2: com 4 pontos ou mais, avalie o risco de sangramento. Contraindicação absoluta ou escore de sangramento alto empurram para o método mecânico; nunca para linha nenhuma.
- 4Escolher profilaxia conforme risco, peso, função renal e bula/protocolo. Depuração <30 pode favorecer HNF, mas enoxaparina ajustada é opção em alguns protocolos; não é obrigatório trocar qualquer piora renal por HNF.
- 5Distinguir profilaxia de sangramento por estresse em doença crítica de gastroproteção por medicamentos e de tratamento de úlcera/refluxo. Jejum, antibiótico, AINE ou anticoagulante isolados não são indicação universal de IBP em qualquer internado. Na doença crítica, choque, coagulopatia e hepatopatia crônica ajudam a identificar maior risco; alimentação enteral reduz risco, sem dispensar profilaxia quando outros fatores relevantes persistem. Na enfermaria estável, avaliar indicação individual e suspender quando ela termina.
- 6Broncoaspiração: procure qualquer um dos fatores de risco. Um só já basta para acionar o conjunto de medidas, e elas se escrevem na seção de cuidados, não na de medicamentos.
- 7Confira a via: se o paciente come, o inibidor de bomba indicado é oral; se está com sonda, existe forma de preparo específica; se está sem via enteral, aí sim a endovenosa se justifica.
- 8Amanhã, releia as três linhas antes de imprimir a folha nova. As três têm data de validade que não está escrita nelas.
| Escore de Pádua — paciente clínico | Pontos |
|---|---|
| Câncer em atividade (metástase local ou a distância, ou tratamento oncológico nos últimos 6 meses) | 3 |
| Tromboembolismo venoso prévio (excluída trombose venosa superficial) | 3 |
| Mobilidade reduzida por pelo menos 3 dias, por limitação da doença, do tratamento ou por indicação médica | 3 |
| Trombofilia conhecida (deficiência de antitrombina III, proteína C ou S, fator V de Leiden, mutação G20210A da protrombina, síndrome antifosfolípide) | 3 |
| Trauma ou cirurgia no último mês | 2 |
| Idade igual ou acima de 70 anos | 1 |
| Insuficiência cardíaca e/ou respiratória | 1 |
| Infecção aguda e/ou doença reumatológica | 1 |
| Infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral | 1 |
| Obesidade (índice de massa corporal igual ou acima de 30 kg/m²) | 1 |
| Terapia hormonal em uso | 1 |
| Leitura: abaixo de 4 pontos, risco de 0,3% em 3 meses — sem profilaxia química. Igual ou acima de 4, risco de 11% sem profilaxia adequada e de 2,2% com profilaxia adequada. | Corte: 4 |
As três profilaxias: quem indica, com o quê, e o que se faz em quem não pode receber
| Profilaxia | Indica quando | Prescreve-se | Não recebe quando — e o que entra no lugar |
|---|---|---|---|
| Tromboembolismo venoso | Escore de Pádua igual ou acima de 4 no paciente clínico, com risco de sangramento baixo. No paciente crítico, uso rotineiro salvo se o risco de sangramento superar o benefício. | Enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia (dose ajustada por peso e por função renal), ou heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas. | Hipersensibilidade às heparinas, plaquetopenia induzida por heparina prévia, sangramento ativo, risco alto de sangramento, punção lombar ou cirurgia dentro das janelas, anticoagulação plena em curso. Entra profilaxia mecânica: compressão pneumática intermitente ou massageador plantar por 18 horas ao dia. |
| Lesão aguda de mucosa gástrica | Distinguir profilaxia de sangramento por estresse em doença crítica de gastroproteção por medicamentos e de tratamento de úlcera/refluxo. Jejum, antibiótico, AINE ou anticoagulante isolados não são indicação universal de IBP em qualquer internado. Na doença crítica, choque, coagulopatia e hepatopatia crônica ajudam a identificar maior risco; alimentação enteral reduz risco, sem dispensar profilaxia quando outros fatores relevantes persistem. Na enfermaria estável, avaliar indicação individual e suspender quando ela termina. | Omeprazol 20 mg em cápsula por via oral uma vez ao dia, com o estômago vazio. Sem via oral disponível, omeprazol 40 mg endovenoso uma vez ao dia, reconstituído no diluente próprio. | Paciente de enfermaria sem nenhum desses fatores: não se prescreve. O que entra no lugar é o registro em observações de que a profilaxia foi avaliada e não indicada, com o motivo. |
| Broncoaspiração | Qualquer um dos fatores de risco listados no protocolo, avaliados na admissão e diariamente. Um único fator já classifica como alto risco. | Cabeceira elevada de 30 a 45 graus no leito; dieta ofertada com o paciente sentado ou com angulação mínima de 60 graus; permanência sentado por cerca de 45 minutos após a refeição; triagem de deglutição antes da primeira oferta; higiene oral nos três períodos; aspirador montado e funcionante à beira do leito. | Não há contraindicação à profilaxia em si; há contraindicação à cabeceira elevada em situações específicas, e nesses casos ela é temporária e registrada. O que substitui a via oral, quando a deglutição não é segura, é a suspensão da oferta até a avaliação — não a sonda automática, que é ela própria fator de risco. |
Exemplos de protocolos de dose: conferir população, peso e função renal
| Situação | Conduta | Conta que sustenta |
|---|---|---|
| Peso abaixo de 50 kg, ou índice de massa corporal abaixo de 18 kg/m² | Enoxaparina 20 mg por via subcutânea uma vez ao dia | 20 mg equivalem a 2.000 unidades internacionais anti-Xa; a seringa de 20 mg/0,2 mL entrega a dose inteira |
| Peso de 50 a 90 kg | Enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia | 40 mg equivalem a 4.000 unidades internacionais anti-Xa (cerca de 100 unidades por miligrama); seringa de 40 mg/0,4 mL |
| Peso de 91 a 130 kg | Alguns protocolos por faixa de peso usam enoxaparina 60 mg SC/dia; não é aumento universal obrigatório entre 91 e 130 kg | Seringa de 60 mg/0,6 mL, dose inteira |
| Peso de 131 a 170 kg | Enoxaparina 80 mg por dia, em dose única ou 40 mg de 12 em 12 horas | Seringa de 80 mg/0,8 mL, ou duas seringas de 40 mg |
| Peso acima de 170 kg | Enoxaparina 0,6 mg por quilo por dia, podendo dividir em duas tomadas | Aos 180 kg, 0,6 × 180 = 108 mg por dia |
| Índice de massa corporal acima de 40 kg/m² | Heparina não fracionada 7.500 unidades internacionais de 8 em 8 horas é uma alternativa | 7.500 unidades a 20.000 unidades por mL correspondem a 0,375 mL, ou uma ampola e meia de 5.000 UI/0,25 mL — não é dose de ampola inteira, e precisa estar escrito |
| Depuração de creatinina abaixo de 30 mL/min | Preferir heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas | A heparina não fracionada tem depuração predominantemente extrarrenal; a de baixo peso molecular acumula, com aumento médio de 65% da área sob a curva anti-Xa a 40 mg por dia |
| Piora da função renal durante a internação | Recalcular função renal e revisar dose/alternativa; HNF ou enoxaparina ajustada conforme gravidade, estabilidade e protocolo | Piora renal exige reavaliação, não troca automática em qualquer magnitude. A enoxaparina tem ajuste para insuficiência renal importante conforme bula adotada. |
A janela da punção neuroaxial: três números, três documentos
| Momento | O que a fonte determina | Fonte |
|---|---|---|
| Antes de puncionar | A punção espinhal ou peridural só deve ser feita 10 a 12 horas depois da dose profilática de enoxaparina | Bula profissional de enoxaparina |
| Antes de puncionar | Não prescrever profilaxia farmacológica se há punção lombar prevista para as próximas 12 horas, ou cirurgia prevista para as próximas 12 horas | Protocolo Ebserh de tromboprofilaxia |
| Depois de puncionar | Contraindicação absoluta à profilaxia se houve punção lombar nas últimas 4 horas | Protocolo Ebserh de tromboprofilaxia |
| Depois de puncionar | Contraindicação relativa se houve coleta de líquor nas últimas 24 horas | Protocolo do Hospital Sírio-Libanês |
| Depois de retirar o cateter peridural | A dose seguinte deve ser administrada 2 horas após a retirada do cateter | Bula profissional de enoxaparina |
| Com dose terapêutica em curso | Introdução ou remoção do cateter apenas 24 horas após a administração | Bula profissional de enoxaparina |
Sobre o horário da enoxaparina: prescrever para as 20 horas tem uma razão operacional que o protocolo explicita — deixa o dia inteiro livre para que uma mudança de plano, um procedimento marcado ou uma queda de plaqueta suspendam a dose antes que ela seja feita. Administrar na região anterolateral do abdome, com rodízio do local. Quando a seringa preenchida entrega exatamente a dose, a bolha de ar não deve ser expulsa: ela empurra o resíduo e evita vazamento no ponto da injeção.
Sobre a heparina não fracionada: a ampola de 5.000 UI/0,25 mL corresponde a 20.000 unidades por mL. Três doses ao dia somam 15.000 unidades e 0,75 mL; duas doses somam 10.000 unidades e 0,50 mL. Escreva a unidade por extenso — a abreviatura da unidade internacional é uma das mais associadas a erro de medicação por leitura equivocada.
Sobre a duração: no paciente clínico, a profilaxia dura enquanto durar o imobilismo associado ao fator de risco, com mínimo sugerido de 6 dias, e não se estende depois da alta. Cirurgia de alto risco é outra história e tem prazos próprios, de 7 a 10 dias a 5 semanas conforme o procedimento — mas esse é assunto do capítulo de pré e pós-operatório.
Sobre o ácido acetilsalicílico: não serve como medida isolada de profilaxia de tromboembolismo venoso. O paciente que já usa antiagregante em casa continua precisando da avaliação de risco e, se indicado, da heparina.
Conferência de apresentação, feita item a item: o protocolo institucional de profilaxia gástrica lista, entre os esquemas alternativos, sucralfato com a apresentação de 1 mg por comprimido mastigável e dose de 1 grama duas vezes ao dia. A apresentação registrada em bula é de 1,0 g por comprimido mastigável. Tomada ao pé da letra, a linha do protocolo exigiria 1.000 comprimidos por dose e 2.000 por dia. É erro de digitação de unidade, e é exatamente o tipo de linha que atravessa uma folha copiada sem que ninguém refaça a conta.
Segunda conferência: o mesmo protocolo define coagulopatia como contagem de plaquetas abaixo de 50.000 por metro cúbico, em dois lugares diferentes do documento. A unidade correta é por milímetro cúbico. Como um metro cúbico contém um bilhão de milímetros cúbicos, o limiar impresso equivale a 0,00005 plaqueta por milímetro cúbico — um valor que nenhum ser humano vivo alcança, o que tornaria o critério de coagulopatia inacionável se fosse lido literalmente. Quem lê com olho clínico corrige sozinho; quem está no primeiro mês, não.
Esquemas de enoxaparina por faixa de peso e por obesidade não são universais nem automaticamente intercambiáveis. Não resolver conflito de dose apenas escolhendo a tabela que usa peso total; verificar protocolo validado, população e risco hemorrágico com a equipe/farmácia. IMC 32,4 ou 96 kg, isoladamente, não provam que 40 mg/dia estejam errados.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a de dona Aparecida, do leito 4, no dia em que a folha para de ser cópia. Cada marco traz o que se decide e a prescrição escrita por extenso, com a fonte que sustenta a dose.
Repare que quatro dos oito marcos acontecem antes das nove da manhã. As três profilaxias custam quinze minutos de conta na admissão e cinco minutos de releitura por dia, e é essa a economia real de tempo que ninguém conta ao interno.
7h30 — os números que autorizam qualquer linha
Antes de escrever, cinco dados. Peso aferido: 54 quilos. Altura: 1,52 m, o que dá índice de massa corporal de 23,4 kg/m². Creatinina de hoje: 1,3 mg/dL, e a depuração calculada pela fórmula de Cockcroft e Gault fica em torno de 30 mL/min. Plaquetas: 212.000 por milímetro cúbico. Medicações de casa: ela usa ácido acetilsalicílico 100 mg por dia, e isso importa nos dois sentidos, porque não substitui profilaxia e porque soma no risco de sangramento.
Prescrição- No cabeçalho da folha, antes de qualquer medicamento: peso 54 kg, altura 1,52 m, depuração de creatinina estimada em 30 mL/min, data do cálculo
- Registrar na evolução: sem sangramento ativo, sem punção lombar programada, sem procedimento nas próximas 12 horas
7h40 — o escore, calculado e escrito
Pádua de dona Aparecida: idade de 78 anos soma 1 ponto; infecção aguda, 1; insuficiência cardíaca, 1; mobilidade reduzida, 3. Total de 6, contra um corte de 4. A frase da evolução de ontem, de que ela estava deambulando, não sobrevive à definição operacional: ela se levanta apoiada para ir ao banheiro e a expectativa é de que isso dure mais de três dias, o que é mobilidade reduzida. O risco de sangramento pelo escore IMPROVE fica abaixo de 7 — idade entre 40 e 84 anos soma 1,5 e a depuração limítrofe soma 1 ou 2,5 conforme o valor exato, sem úlcera ativa, sem hemorragia recente, sem plaquetopenia.
Prescrição- Registrar na folha e na evolução: escore de Pádua igual a 6, alto risco; escore IMPROVE de sangramento abaixo de 7, sem contraindicação absoluta
- Deambulação assistida três vezes ao dia, com fisioterapia — medida geral que acompanha, e não substitui, a profilaxia química
7h50 — a droga escolhida pelo rim, a dose escolhida pelo peso
A depuração de 30 mL/min é o número mais desconfortável da manhã, porque é exatamente a fronteira. Com 54 quilos, ela está dentro da faixa de dose fixa de 40 mg. Com depuração no limite inferior e com o ácido acetilsalicílico em uso, a escolha aqui é a heparina não fracionada, que não depende da eliminação renal e cuja meia-vida curta permite suspender e puncionar no mesmo dia se algo mudar. Essa é uma decisão de julgamento, não de tabela, e por isso ela vai escrita com o motivo.
Prescrição- Heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL, ampola. Aplicar 5.000 unidades internacionais por via subcutânea, de 12 em 12 horas, às 8 e às 20 horas, com rodízio do local de aplicação (protocolo Ebserh de tromboprofilaxia, 2023)
- HNF 5.000 unidades SC a cada 8 ou 12 horas são esquemas profiláticos usuais; escolher segundo risco e protocolo. Não usar TTPa seis horas após a segunda dose para decidir automaticamente entre eles: TTPa não monitora de rotina a eficácia da HNF em dose profilática. Acompanhar sangramento, hemograma e função renal; a opção por HNF pode facilitar manejo na função renal limítrofe.
- Hemograma com contagem de plaquetas a cada 48 a 72 horas enquanto durar a heparina, pelo risco de plaquetopenia induzida (protocolo Ebserh de tromboprofilaxia, 2023)
8h00 — a bifurcação: o que se escreve quando a heparina não pode entrar
Se, em vez disso, dona Aparecida tivesse chegado com sangramento digestivo ativo, a linha acima sairia e outra entraria no lugar. O erro que este marco previne é o mais comum de todos: diante da contraindicação, a folha simplesmente fica sem nada. A profilaxia mecânica precisa ser escrita com a mesma precisão de uma dose, incluindo o número de horas por dia, porque quem executa não vai inferir.
Prescrição- Compressão pneumática intermitente em membros inferiores, por pelo menos 18 horas ao dia, retirando para higiene e inspeção da pele (protocolo Ebserh de tromboprofilaxia, 2023; protocolo do Hospital Sírio-Libanês)
- Na indisponibilidade da compressão pneumática: massageador plantar por pelo menos 18 horas ao dia. Meia elástica de compressão gradual é a última escolha, e não é recomendada como método de profilaxia de tromboembolismo no paciente clínico
- Em observações: profilaxia mecânica por contraindicação à farmacológica; reavaliar diariamente e trocar por heparina assim que o risco de sangramento ceder
- Verificar as contraindicações do método mecânico antes de prescrever: fratura exposta, infecção grave em membros inferiores, doença arterial periférica, enxerto de pele recente, alergia ao material
8h10 — a segunda profilaxia, e a decisão de não prescrever
Distinguir profilaxia de sangramento por estresse em doença crítica de gastroproteção por medicamentos e de tratamento de úlcera/refluxo. Jejum, antibiótico, AINE ou anticoagulante isolados não são indicação universal de IBP em qualquer internado. Na doença crítica, choque, coagulopatia e hepatopatia crônica ajudam a identificar maior risco; alimentação enteral reduz risco, sem dispensar profilaxia quando outros fatores relevantes persistem. Na enfermaria estável, avaliar indicação individual e suspender quando ela termina.
Prescrição- Sem indicação atual de IBP para esta paciente de enfermaria, após revisar história de úlcera, sangramento e risco gastrointestinal dos medicamentos; não iniciar só por internação ou jejum.
- Se, mais adiante, algum critério aparecer: omeprazol 20 mg em cápsula, 1 cápsula por via oral, uma vez ao dia, pela manhã, com o estômago vazio, 1 hora antes ou 2 horas após as refeições, engolida inteira (protocolo Ebserh de profilaxia de úlcera gástrica por estresse, 2023; Rename 2024)
8h20 — a terceira profilaxia, escrita nos cuidados
Dona Aparecida tem 78 anos, insuficiência cardíaca e pneumonia, e come sozinha. Ela não tem, hoje, nenhum dos fatores de risco de aspiração da lista. Ainda assim, a cabeceira elevada entra, porque é medida de custo nulo e porque a lista é dinâmica: um rebaixamento à noite, uma sedação para exame, uma sonda passada às pressas, e ela passa a ter. O que muda entre o paciente sem fator e o paciente com fator é o resto do conjunto — a triagem antes da dieta, o ângulo de 60 graus, o acompanhamento durante a refeição.
Prescrição- Cabeceira elevada de 30 a 45 graus, mantida também durante e após os procedimentos e ao reposicionar a paciente no leito (protocolo Ebserh de prevenção de broncoaspiração, 2023; Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013)
- Dieta oral ofertada com a paciente sentada, mantendo-se sentada por cerca de 45 minutos após a refeição
- Higiene oral regular com escovação e cuidados adaptados ao risco de aspiração. Clorexidina não deve ser componente automático de todo esquema hospitalar de higiene oral; seguir indicação específica e avaliação odontológica/protocolo atualizado.
- Comunicar imediatamente ao médico: tosse ou engasgo durante a alimentação, voz molhada, sudorese, cianose, queda de saturação
Dia 5, 7h30 — a releitura que muda uma linha e testa o reflexo na outra
No quinto dia de exposição a heparina, contando desde a enoxaparina da admissão, o hemograma da noite mostra plaquetas de 74.000 por milímetro cúbico, e havia 212.000 na entrada. A creatinina subiu para 1,9 mg/dL, o que leva a depuração para cerca de 21 mL/min. A queda de plaquetas, no intervalo típico entre o quinto e o décimo dia, obriga a considerar plaquetopenia induzida por heparina e a suspender toda heparina até esclarecer — e é aqui que o reflexo aparece: muita gente aproveita a plaquetopenia para acrescentar o inibidor de bomba. Não é o caso. A definição de coagulopatia que indica profilaxia de lesão de mucosa gástrica exige contagem abaixo de 50.000, razão normalizada internacional acima de 1,5 ou tempo de tromboplastina parcial ativada acima de duas vezes o controle. Setenta e quatro mil não é nenhuma das três, e o coagulograma está normal.
Prescrição- Calcular 4Ts considerando queda, tempo, trombose e outras causas. Na probabilidade intermediária/alta de HIT, suspender toda heparina, inclusive flush, colher imunoensaio anti-PF4/heparina e discutir anticoagulante não heparínico prontamente. A intensidade depende da probabilidade, risco de sangramento e indicação concomitante; alta probabilidade geralmente pede dose terapêutica. Compressão isolada não trata o estado protrombótico. Escolher fármaco conforme rim, fígado e disponibilidade; não trocar HNF por enoxaparina nem aguardar trombose aparecer. Baixa probabilidade não exige automaticamente suspensão e testes. Não transfundir plaquetas por rotina sem sangramento/procedimento relevante.
- Compressão pode ser adjuvante enquanto se define a estratégia, se não houver contraindicação, mas não substituir anticoagulação alternativa indicada na suspeita relevante de HIT. Com depuração próxima de 21, opções dependentes do rim exigem cuidado especial; discutir hematologia/farmácia.
- Sem inibidor de bomba de prótons: plaquetas de 74.000 não preenchem a definição de coagulopatia do protocolo, que exige contagem abaixo de 50.000, razão normalizada internacional acima de 1,5 ou tempo de tromboplastina parcial ativada acima de duas vezes o controle (protocolo Ebserh de profilaxia de úlcera gástrica por estresse, 2023)
- Repetir hemograma e investigar a queda com 4Ts e testes apropriados. Plaquetas abaixo de 50.000 mudam risco hemorrágico, mas não tornam IBP automaticamente indicado em qualquer paciente; avaliar gravidade e contexto. Evitar transfusão de plaquetas rotineira na suspeita de HIT sem indicação clínica.
Dia 8 — a alta, e o que não vai na receita
A pneumonia resolveu, a paciente voltou a andar pelo corredor sem apoio e as plaquetas subiram depois da retirada da heparina. A prescrição de alta se escreve a partir do zero, e não a partir da folha da enfermaria. Das três linhas que ela recebeu no primeiro dia desta história, nenhuma atravessa: a profilaxia de tromboembolismo do paciente clínico não se estende após a alta; o inibidor de bomba já havia saído no terceiro dia, por não ter indicação nenhuma, e não volta agora só porque a folha antiga o tinha; e a cabeceira elevada é orientação verbal, não receita.
Prescrição- Sem profilaxia de tromboembolismo venoso após a alta: no paciente clínico, ela não se estende além da internação (protocolo Ebserh de tromboprofilaxia, 2023)
- Sem inibidor de bomba de prótons na receita de alta: ele não teve indicação em nenhum momento da internação, e a plaquetopenia do quinto dia não chegou a preencher o critério. Conferir item a item se algum medicamento entrou na receita apenas por estar na folha da enfermaria (protocolo Ebserh de profilaxia de úlcera gástrica por estresse, 2023)
- Registrar no sumário de alta, em uma frase, por que cada profilaxia foi iniciada e por que cada uma foi encerrada — é o que impede a reintrodução automática no próximo serviço
- Orientação verbal e escrita à paciente e à filha: procurar atendimento se houver dor ou inchaço em uma das pernas, falta de ar súbita ou dor no peito ao respirar fundo
Como saber se está funcionando
Profilaxia não tem melhora para acompanhar: o desfecho que ela persegue é um evento que não acontece. Isso torna a reavaliação estranha para quem está acostumado a acompanhar febre ou creatinina — não há curva subindo nem descendo, e a tentação é presumir que a linha, uma vez escrita, funciona sozinha.
O que se acompanha, então, é outra coisa: se a indicação de hoje ainda é a de ontem, se a dose ainda cabe no peso e na função renal de hoje, e se o método ainda está sendo executado. Os três primeiros parâmetros abaixo levam menos de dois minutos por paciente. Os dois últimos são os que pegam o dano quando ele já começou.
Esperado: Cada linha com um motivo que você consegue dizer em voz alta hoje: o escore de Pádua e a data em que foi calculado; o critério isolado ou o par de critérios menores que sustenta o inibidor de bomba; o fator de risco de aspiração que aciona o conjunto de cuidados. Linha sem motivo dizível sai da folha, e a retirada se registra.
Se não melhora: Se você não consegue dizer o motivo, a pergunta não é "mantenho por precaução?" e sim "o que mudaria se eu retirasse hoje?". Para o inibidor de bomba sem critério, a resposta é: some um risco de pneumonia hospitalar e de infecção por Clostridioides difficile, e não se perde nada. Para a heparina em quem voltou a andar, a resposta é: some uma punção diária e um risco pequeno de sangramento. Para a cabeceira, nunca se retira, porque não custa.
Esperado: Dose compatível com a faixa de peso e método compatível com a depuração calculada hoje. Depuração acima de 30 mL/min autoriza a heparina de baixo peso molecular; abaixo, a escolha vira heparina não fracionada.
Se não melhora: Quando a creatinina sobe, recalcule a depuração e revise todas as doses dependentes de uma vez — anticoagulante, antimicrobiano, insulina, analgésico — e não só a que lembrou primeiro. Ajustar um item e esquecer os outros é o padrão de erro mais comum da enfermaria, e ele não aparece no mesmo dia.
Esperado: Contagem estável. Queda relevante em relação ao valor da admissão, e não apenas valor absoluto baixo, é o que levanta a suspeita de plaquetopenia induzida por heparina.
Se não melhora: Diante da suspeita, suspenda toda heparina, inclusive a de lavagem de cateter, e registre a data de início da exposição. A conduta é contraintuitiva de propósito: trata-se de um estado protrombótico, e transfundir plaqueta não corrige o mecanismo. A profilaxia não desaparece — vira mecânica no mesmo momento em que a química sai.
Esperado: Compressão pneumática instalada e ligada, com o mínimo de 18 horas por dia; pele dos membros inferiores inspecionada, sem bolha, sem lesão sobre proeminência óssea. Em paciente com mobilidade muito reduzida ou alteração sensorial, a inspeção é duas ou três vezes ao dia.
Se não melhora: Método mecânico prescrito e não instalado é a forma mais comum de o paciente ficar sem profilaxia nenhuma — a folha diz que ele está protegido e a perna diz que não. Se o equipamento não existe no setor, isso não é um detalhe logístico: é uma decisão clínica que precisa ser revista, com registro, e que devolve a discussão para o risco de sangramento e a possibilidade de reintroduzir a heparina.
Esperado: Refeição concluída sem tosse, sem engasgo, sem voz molhada, sem queda de saturação e sem resíduo acumulado na boca ao final. Paciente sentado durante e por cerca de 45 minutos depois.
Se não melhora: Tosse durante a alimentação não é o paciente "engasgando de bobeira": é o teste falhando na frente de todo mundo. Interrompa a oferta, mantenha a cabeceira elevada, comunique, e reveja a consistência e a necessidade de avaliação formal da deglutição antes da próxima refeição. Se houver vômito, a sequência é imediata: parar a dieta, lateralizar, elevar a cabeceira a 45 graus, aspirar cavidade oral e faríngea e procurar tosse, cianose, queda de saturação, dispneia, crepitações e hipotensão.
Esperado: Nenhuma das três profilaxias atravessando para a receita por inércia. A de tromboembolismo do paciente clínico não se estende após a alta. O inibidor de bomba só continua se houver indicação terapêutica própria, e não a profilática que acabou.
Se não melhora: Se o inibidor de bomba precisar mesmo continuar, escreva por quanto tempo e quem reavalia. Receita sem prazo é o mecanismo pelo qual uma decisão de enfermaria vira uso contínuo por anos, e o paciente que volta ao ambulatório com nove medicamentos costuma ter começado assim, um item por internação.
Onde o erro machuca
O dano: O dano não é o ato de copiar, é o que a cópia carrega intacto. A dose de enoxaparina que era certa com 90 quilos continua escrita depois que o paciente perdeu peso; a heparina de baixo peso molecular que era segura com depuração de 45 mL/min continua depois que a creatinina dobrou; o inibidor de bomba que fazia sentido no jejum continua depois que o paciente voltou a comer. Nenhuma dessas três situações produz sintoma no dia em que se instala, e por isso nenhuma delas é descoberta pelo exame do paciente.
Como pegar a tempo: Escreva peso e depuração no alto da folha e releia essas duas linhas antes de aceitar qualquer dose. Depois, faça a pergunta que expõe a cópia: qual foi o escore, em que dia foi calculado, e o que mudou desde então? Se o prontuário não responde, a profilaxia não foi indicada — foi herdada, e precisa ser reindicada hoje.
O dano: Retira uma profilaxia indicada no grupo em que ela mais rende. O paciente clínico com escore igual ou acima de 4 tem risco de tromboembolismo de 11% em três meses sem profilaxia adequada, contra 2,2% com profilaxia adequada e 0,3% abaixo do corte. A frase costuma nascer de um gesto simpático — o paciente levantou, a equipe comemorou — e vira registro clínico sem que ninguém tenha aplicado a definição.
Como pegar a tempo: Use a definição operacional em vez da impressão: há mobilidade reduzida quando o paciente fica limitado a levantar-se para ir ao banheiro e a deambular com auxílio, com expectativa de pelo menos 3 dias nessa condição, por perda aguda decorrente da doença atual. E aplique a ressalva do outro lado: o acamado crônico há mais de seis meses, sem evento agudo novo, não conta como mobilidade reduzida só por estar acamado.
O dano: Hematoma espinhal, que pode resultar em paralisia prolongada ou permanente. É um evento raro em doses iguais ou inferiores a 40 mg por dia de enoxaparina, e o risco cresce com dose maior, com cateter peridural mantido, com uso concomitante de anti-inflamatório e com punção traumática ou repetida. É o dano mais grave e mais evitável de toda a profilaxia de tromboembolismo, porque depende apenas de aritmética de horário.
Como pegar a tempo: Trate a punção como um evento com horário, não como um fato. Antes: a punção só depois de 10 a 12 horas da dose profilática, e não se prescreve profilaxia se há punção ou cirurgia prevista para as próximas 12 horas. Depois: a dose seguinte só 2 horas após a retirada do cateter, e o protocolo institucional contraindica a profilaxia se houve punção lombar nas últimas 4 horas. Quando o paciente tiver cateter peridural, escreva o plano de horários na prescrição, e não no papel de rascunho do plantão. E oriente a equipe a comunicar imediatamente dor lombar nova, perda de força ou de sensibilidade nos membros inferiores e alteração intestinal ou urinária.
O dano: O paciente com sangramento ativo ou risco alto de sangramento costuma ser também o de maior risco trombótico — grave, imóvel, com cateter. Retirar a química sem colocar a mecânica converte um risco em dois, e o registro fica ainda pior: a folha não mostra decisão, mostra ausência, e quem assume o plantão seguinte não sabe se foi escolha ou esquecimento.
Como pegar a tempo: Escreva a profilaxia mecânica com a mesma precisão de uma dose: compressão pneumática intermitente ou massageador plantar, por pelo menos 18 horas ao dia, com inspeção diária da pele. Confira antes as contraindicações do próprio método — fratura exposta, infecção grave em membro inferior, doença arterial periférica, enxerto recente, alergia ao material. E marque na evolução a condição de retorno: assim que o risco de sangramento ceder, a química volta.
O dano: Duplo. O primeiro dano é imediato e mecanístico: a supressão ácida em quem não precisa permite colonização gástrica e associa-se a pneumonia hospitalar e a infecção por Clostridioides difficile — piora exatamente o desfecho que a terceira profilaxia tenta prevenir. O segundo dano é de escala e vem por via endovenosa: num levantamento brasileiro de 333 pacientes que receberam omeprazol endovenoso, a prescrição foi julgada adequada em 23,4%, com custo estimado de 1.696 dólares em ampolas sem indicação num único semestre e numa única instituição.
Como pegar a tempo: Distinguir prevenção de sangramento relacionado ao estresse no paciente crítico de outras indicações de supressão ácida. A diretriz SCCM/ASHP 2024 destaca coagulopatia, choque e hepatopatia crônica como fatores relevantes no crítico; não estabelece ventilação mecânica isolada como indicação com evidência firme. Não aplicar uma soma universal de um maior ou dois menores a toda enfermaria. Avaliar indicação, via, dose e retirada quando cessar o risco.
O dano: A medida que não está escrita não é executada por ninguém em particular, e o dano aparece de uma vez. O paciente com risco de aspirar recebe a bandeja com a cabeceira baixa porque o banho terminou há pouco; a dieta corre por sonda durante a aspiração de vias aéreas; a refeição é dada por um acompanhante com a melhor das intenções e com o paciente meio deitado. A pneumonia aspirativa que resulta disso tem letalidade descrita entre 7,5% e 72%, faixa larga porque depende do volume aspirado e do estado do paciente — e é evitável na grande maioria dos casos.
Como pegar a tempo: Converta cada risco observado em linha de cuidado, com número. Cabeceira de 30 a 45 graus mantida também durante procedimentos e reposicionamentos; dieta oral com o paciente sentado, no mínimo a 60 graus, e sentado por cerca de 45 minutos depois; pausa da dieta enteral pelo menos 30 minutos antes de intubação, extubação, aspiração ou de qualquer situação que exija baixar a cabeceira; confirmação radiológica do posicionamento da sonda após a inserção, e nova radiografia se a fixação se soltar ou a sonda for tracionada. E lembre que a sonda é fator de risco, não escudo: passá-la para "evitar aspiração" troca um risco por outro.
O que dizer ao paciente e à família
Profilaxia é difícil de explicar porque o benefício é invisível e o incômodo é diário. A família vê a picada de todo dia, o aparelho apertando a perna, a comida que demora a ser liberada — e não vê a trombose que não houve. As frases abaixo funcionam porque nomeiam o que se está prevenindo, em vez de pedir confiança.
A filha pergunta por que a mãe leva uma injeção na barriga todo dia, se ela veio por pneumonia
“É uma dose pequena de um remédio que deixa o sangue um pouco menos propenso a coagular. Quando a gente fica muito tempo na cama, o sangue circula mais devagar nas veias das pernas, e pode se formar um coágulo ali. Se esse coágulo se solta, ele vai para o pulmão, e aí é grave. A injeção é justamente para isso não acontecer enquanto ela estiver menos ativa. Assim que ela voltar a andar como andava em casa, a gente tira.”
Não diga: É de rotina, todo mundo internado toma. Além de não informar, essa frase transforma uma decisão clínica em praxe, e retira da família a chance de perguntar depois por que a injeção continua quando a mãe já está andando pelo corredor.
O paciente que voltou a comer normalmente pergunta por que tiraram o remédio do estômago que ele vinha tomando na internação
“Aquele remédio entrou porque o senhor estava em jejum e mais debilitado, e nessa situação o estômago fica mais exposto. Agora que o senhor está comendo e melhorou, ele não protege mais nada — e usado sem necessidade ele tem um custo: reduz uma barreira natural contra bactéria e aumenta o risco de pneumonia e de uma infecção intestinal difícil de tratar. Por isso a gente retira agora, e não deixa na receita de casa.”
Não diga: Prometer que o remédio protege o estômago em geral, ou deixá-lo na receita "para não fazer mal". Essa é exatamente a frase que transforma um item de enfermaria em medicação de uso contínuo por anos.
A família insiste em dar comida ao paciente que engasgou ontem, dizendo que em casa ele comia de tudo
“Eu acredito na senhora, e é bem possível que ele volte a comer de tudo. O que mudou foi o derrame: ele pode ter perdido, por enquanto, parte da coordenação de engolir, e quando isso acontece a comida pode ir para o pulmão sem que ele nem tussa. A gente vai avaliar a deglutição dele hoje, e enquanto isso não sai comida nem água pela boca. Não é para deixá-lo com fome: ele vai receber alimentação por outra via até a gente saber o que é seguro.”
Não diga: Não pode comer, ordem médica. A proibição sem mecanismo é a que mais se descumpre no corredor, com a melhor das intenções, quando ninguém da equipe está por perto.
O paciente reclama do aparelho que aperta as pernas e pede para tirar à noite
“Esse aparelho está fazendo o trabalho que a panturrilha faria se o senhor estivesse andando: ele aperta e solta para empurrar o sangue de volta. No seu caso a gente não pode usar a injeção, por causa do sangramento, então ele é a nossa proteção contra coágulo — e ele precisa ficar a maior parte do dia para funcionar. Se estiver machucando ou incomodando demais em algum ponto, me chame que a gente ajusta e olha a pele, mas não deixe desligado a noite inteira sem avisar.”
Não diga: Deixar quieto, é rápido. Não é rápido: o método mecânico depende de horas de uso por dia, e o aparelho desligado no armário é a forma mais silenciosa de o paciente ficar sem profilaxia com a folha dizendo que ele tem.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não usar enoxaparina abaixo de 30 mL/min
Protocolo institucional brasileiro que orienta a avaliação de risco à beira do leito coloca a insuficiência renal com depuração abaixo de 30 mL/min entre as contraindicações relativas à profilaxia química e afirma, na seção de quimioprofilaxia, que não se recomenda profilaxia com enoxaparina para pacientes com depuração de creatinina inferior a 30 mL/min. O mesmo documento ensina a calcular a depuração pela fórmula de Cockcroft e Gault e a sinalizar o achado à equipe assistente.
Hospital Sírio-Libanês — Protocolo para Avaliação de Risco de Tromboembolismo Venoso em Pacientes Internados
Usar, com dose reduzida à metade e monitorização do fator anti-Xa
Protocolo de hospital universitário federal recomenda, com depuração abaixo de 30 mL/min, heparina não fracionada 5.000 unidades internacionais por via subcutânea a cada 8 ou 12 horas, mas registra expressamente que o uso da heparina de baixo peso molecular não é proibitivo: sugere reduzir a dose prescrita em 50% e monitorizar a anticoagulação pela atividade do fator anti-Xa para ajuste. O mesmo documento reserva a apresentação de 20 mg para injúria renal aguda e doença renal crônica em estágio avançado, e orienta descontinuar a heparina de baixo peso molecular e substituir por heparina não fracionada se a função renal piorar durante a internação.
Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.001, Tromboprofilaxia venosa em pacientes internados, versão 02, 2023
As duas posições concordam no essencial e divergem no que fazer com quem já está usando. Três perguntas resolvem à beira do leito. Primeira: existe heparina não fracionada disponível no serviço? Se existe, ela é a saída que as duas réguas aceitam, porque sua eliminação é predominantemente extrarrenal e sua meia-vida curta permite suspender e puncionar no mesmo dia. Segunda: existe dosagem de fator anti-Xa disponível e com resultado em tempo útil? A recomendação de reduzir 50% vem acompanhada da monitorização, e reduzir sem poder medir é ficar com o pior dos dois mundos — dose incerta e nenhuma verificação. Terceira: a depuração está caindo ou já está estável e baixa? Função renal em queda pede troca, não ajuste, porque o número de amanhã não é o de hoje. E vale saber a ordem de grandeza do que está em jogo: com 40 mg por dia e depuração abaixo de 30 mL/min, a exposição medida ao fator anti-Xa no estado de equilíbrio é em média 65% maior, o que não é uma diferença de estilo entre documentos.
Os dois intervalos servem
Protocolo de hospital universitário federal prescreve heparina sódica em ampola de 5.000 unidades internacionais por 0,25 mL, uma ampola por via subcutânea de 12 em 12 horas ou de 8 em 8 horas, e registra que, após revisão da literatura, os dois intervalos não parecem produzir diferenças significativas nas taxas de trombose venosa profunda, de tromboembolismo pulmonar e de sangramento.
Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados / Ebserh — Protocolo PRT.DCDT.001, Tromboprofilaxia venosa em pacientes internados, versão 02, 2023
O padrão é de 8 em 8 horas; de 12 em 12 é escolha sem evidência que a sustente
Protocolo institucional brasileiro define a dose profilática como 5.000 unidades internacionais por via subcutânea de 8 em 8 horas e afirma que não há evidências científicas que corroborem o uso na dose de 5.000 unidades a cada 12 horas, reconhecendo que existe uma tendência de utilizá-la em situações de maior risco de sangramento, como depuração abaixo de 30 mL/min e paciente idoso. Para esses casos, sugere coletar tempo de tromboplastina parcial ativada 6 horas após a segunda dose e, se o tempo estiver inalterado, considerar o aumento para de 8 em 8 horas.
Hospital Sírio-Libanês — Protocolo para Avaliação de Risco de Tromboembolismo Venoso em Pacientes Internados
Para profilaxia com HNF, os intervalos de 8 e 12 horas constam de protocolos diferentes; escolher conforme risco trombótico, sangramento e protocolo institucional. O TTPa não titula a dose profilática: um resultado normal não indica aumentar de duas para três doses. Idade e disfunção renal entram na avaliação global, sem impor automaticamente um intervalo. Reavaliar diariamente indicação, sangramento e plaquetas quando pertinente. Escrever a dose em unidades internacionais e distinguir claramente profilaxia de anticoagulação terapêutica.
Entre 30 e 45 graus, com preferência pelos 30
As diretrizes brasileiras de ventilação mecânica recomendam manter a cabeceira do paciente ventilado entre 30 e 45 graus e explicitam o conflito: as evidências divergem entre a aspiração de conteúdo gástrico, que favorece os 45 graus, e a úlcera por pressão, que favorece os 30. O documento declara preferência pela posição de 30 graus enquanto ela não representar risco ou conflito com procedimentos médicos e de enfermagem.
Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, 2013
Entre 30 e 45 graus no leito, e no mínimo 60 graus durante a alimentação
Protocolo de prevenção de broncoaspiração de hospital universitário federal mantém a faixa de 30 a 45 graus como posição de leito, inclusive durante procedimentos e reposicionamentos, mas separa o momento da dieta: o paciente deve estar bem acordado e sentado, ou com a cabeceira elevada o máximo possível e no mínimo a 60 graus, de preferência com a cabeça levemente fletida para a frente, permanecendo assim por cerca de 45 minutos após a refeição. Diante de vômito, a conduta imediata inclui elevar a cabeceira a 45 graus.
Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais / Ebserh — Protocolo Assistencial nº 360, Prevenção de broncoaspiração no adulto, 2023
Os dois documentos não discordam sobre física, discordam sobre qual dano é o mais provável naquele paciente naquele momento, e é isso que você decide. Pergunte primeiro qual é o risco dominante: paciente com pele frágil, desnutrido, com sensibilidade alterada e sem oferta de dieta por boca tem o dano de pressão como mais provável, e os 30 graus se justificam. Paciente com disfagia, com sonda em infusão contínua, com refluxo ou recém-extubado tem o dano de aspiração como mais provável, e a inclinação maior se justifica. Pergunte depois se o momento é de repouso ou de alimentação: durante e logo após a refeição, a decisão deixa de ser entre 30 e 45 e passa a ser sentar o paciente, o que as duas fontes admitem. E, escolhendo a inclinação maior por tempo prolongado, some a contramedida do outro risco — inspeção da pele sobre as proeminências ósseas duas a três vezes ao dia e mudança de decúbito programada. A escolha errada aqui é reversível em minutos; a omissão de escrever qualquer ângulo é o que não se corrige, porque deixa o leito no ângulo em que o último procedimento o deixou.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao leito 4. Dona Aparecida, 78 anos, 54 quilos, 1,52 m, terceiro dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade com descompensação de insuficiência cardíaca. Está afebril desde ontem, mantém saturação de 94% em ar ambiente, come a dieta oferecida e levanta-se para ir ao banheiro apoiada na filha. Creatinina de hoje: 1,3 mg/dL. Plaquetas: 212.000 por milímetro cúbico. Usa ácido acetilsalicílico 100 mg por dia em casa. A folha de ontem traz enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia, omeprazol 40 mg por via endovenosa uma vez ao dia e cabeceira elevada. A evolução de ontem diz, em três palavras: paciente deambulando bem.
primeiro eu recupero os números que a folha não mostra
Antes de discutir qualquer linha, preciso de peso, altura e função renal. Peso aferido de 54 quilos e altura de 1,52 m dão índice de massa corporal de 23,4 kg/m², que não aciona nenhuma regra especial de dose. A creatinina de 1,3 mg/dL, isolada, pareceria normal. Aplicada à fórmula de Cockcroft e Gault com 78 anos, 54 quilos e correção para o sexo feminino, ela dá uma depuração de aproximadamente 30 mL/min. Esse é o número que muda a manhã inteira, e ele não estava escrito em lugar nenhum.
leio a frase da evolução contra a definição, e não contra a impressão
Deambulando bem é a frase que dispensaria a profilaxia, e ela não sobrevive à régua. Mobilidade reduzida é permanecer, na vigília, limitado a levantar-se para ir ao banheiro e a deambular com auxílio, com expectativa de pelo menos três dias nessa condição e por perda aguda decorrente da doença atual. É exatamente o que dona Aparecida faz. O item vale 3 pontos no escore de Pádua, e some se eu aceitar a frase da evolução. Somando idade acima de 70 anos, infecção aguda e insuficiência cardíaca, o escore fica em 6, contra um corte de 4. Alto risco, com risco de evento em três meses de 11% sem profilaxia adequada e 2,2% com profilaxia adequada.
checo se ela pode receber antes de escolher o que dar
Risco de trombose alto não autoriza nada sozinho. Percorro as contraindicações absolutas: sem hipersensibilidade a heparinas, sem história de plaquetopenia induzida por heparina, sem sangramento ativo, sem punção lombar recente ou prevista, sem cirurgia nas próximas 12 horas, sem anticoagulação plena em curso. As relativas: plaquetas de 212.000 estão bem acima do limiar de 50.000, e a pressão está controlada. Pelo escore IMPROVE de sangramento ela soma pouco — a idade de 78 anos vale 1,5 e a depuração limítrofe soma 1 ou 2,5 conforme o valor exato, longe do corte de 7. O ácido acetilsalicílico de casa não é contraindicação, mas entra na balança como fator somado, e é bom lembrar que ele não substitui profilaxia nenhuma.
escolho a droga pelo rim, não pelo hábito
Aqui está a decisão fina do caso, e ela é de julgamento. A depuração de 30 mL/min é exatamente a fronteira em que as fontes brasileiras deixam de concordar: um protocolo institucional não recomenda enoxaparina abaixo desse valor, outro admite usá-la com dose reduzida à metade desde que se monitore o fator anti-Xa, e uma das bulas do medicamento reduz a dose profilática de 40 mg para 20 mg por dia nessa faixa. Como o serviço não dosa fator anti-Xa em tempo útil e a paciente está no limite inferior, escolho heparina não fracionada, cuja eliminação não depende do rim e cuja meia-vida curta me deixa suspender e puncionar no mesmo dia se algo mudar. Escrevo a escolha e o motivo, porque sem o motivo a linha parece dose errada para quem passar amanhã.
escrevo a ausência da segunda profilaxia com o mesmo cuidado de uma dose
Revejo se há indicação de supressão ácida: sangramento ou doença digestiva que exija tratamento, gastroproteção por fármacos conforme risco, ou profilaxia de estresse em contexto crítico relevante. Nesta paciente não foram identificados fatores que sustentem a profilaxia nem outra indicação. Retiro o omeprazol intravenoso e registro a decisão para evitar reinício automático. Não uso uma contagem universal de critérios maiores/menores nem considero que comer seja, sozinho, motivo para suspender um tratamento que estivesse indicado.
converto o risco de aspirar em linhas, mesmo sem fator de risco hoje
Dona Aparecida está lúcida, come sozinha e não tem, hoje, nenhum dos dezesseis fatores de risco da lista. A cabeceira elevada de 30 a 45 graus fica assim mesmo, porque não custa nada e porque a lista é dinâmica: basta uma sedação para exame, uma sonda passada às pressas ou um rebaixamento noturno para ela passar a ter. O que não prescrevo, porque não há indicação hoje, é o resto do conjunto — triagem formal de deglutição, ângulo de 60 graus durante a dieta, acompanhamento na refeição. Deixo escrito na evolução o gatilho: se aparecer tosse ao comer, voz molhada ou rebaixamento, o conjunto inteiro entra no mesmo dia.
Faça você
Agora é o leito 7. Seu Idalécio, 71 anos, 96 quilos, 1,72 m, quarto dia de internação por acidente vascular cerebral isquêmico em território de artéria cerebral média esquerda, sem trombólise porque chegou fora da janela. Tem hemiparesia à direita e não sai do leito sem duas pessoas. Ontem à tarde tossiu ao tomar água e a voz ficou molhada por alguns minutos; a técnica anotou na folha de enfermagem. Exames de hoje: creatinina 1,1 mg/dL, plaquetas 96.000 por milímetro cúbico, razão normalizada internacional de 1,1. Não usa anticoagulante nem anti-inflamatório, não está em ventilação mecânica, pressão arterial controlada, sem sangramento. A prescrição de ontem traz enoxaparina 40 mg por via subcutânea uma vez ao dia, omeprazol 20 mg por via oral uma vez ao dia e nenhuma linha sobre deglutição. Escreva as três profilaxias do dia, com dose e com justificativa.
os números que precisam ser calculados antes de qualquer linha
Com 96 quilos e 1,72 m, o índice de massa corporal fica em 32,4 kg/m². Com 71 anos, 96 quilos e creatinina de 1,1 mg/dL, a depuração pela fórmula de Cockcroft e Gault fica em torno de 84 mL/min. Guarde os dois: um deles decide a dose, o outro decide que não há decisão renal a tomar aqui.
o escore, item a item
Pádua: mobilidade reduzida 3, idade ≥70 anos 1, AVC agudo 1 e obesidade 1, total 6. Não omitir a idade. Isso indica alto risco trombótico, a ponderar com risco hemorrágico e particularidades do AVC.
a plaqueta de 96.000, que puxa para os dois lados
Esse número não é contraindicação absoluta e também não é irrelevante. Pergunte-se duas coisas: em que faixa ele entra na lista de contraindicações relativas à heparina, e se ele preenche ou não a definição de coagulopatia que indicaria a segunda profilaxia.
a dose que quase todo mundo erra neste paciente
Enoxaparina 40 mg SC/dia é um esquema usual. A faixa de 91–130 kg com 60 mg/dia pertence a alguns protocolos e não prova erro universal aos 96 kg. Conferir protocolo, plaquetas, risco de transformação hemorrágica e a decisão da equipe de AVC antes de aumentar.
a tosse de ontem, que ainda não virou linha nenhuma
A informação existe, está anotada e não foi convertida em conduta. Decida o que acontece com a dieta oral de hoje, o que precisa ser feito antes da próxima oferta, e qual ângulo de cabeceira vale no leito e qual vale na hora da refeição.
Ver como fecharíamos
Os três números primeiro: índice de massa corporal de 32,4 kg/m², depuração de creatinina em torno de 84 mL/min e plaquetas de 96.000 por milímetro cúbico. Pádua soma 6: mobilidade 3, idade ≥70 1, AVC 1 e obesidade 1. Verificar risco hemorrágico, transformação hemorrágica e tendência de plaquetas, pois 96.000 exige julgamento e não redução automática à metade. Enoxaparina 40 mg SC/dia é dose usual; a proposta de 60 mg aos 96 kg pertence a protocolos específicos e não é obrigação universal. A depuração calculada com peso real é aproximadamente 84 mL/min, mas em obesidade o peso apropriado para estimá-la precisa ser definido. A equipe de AVC deve decidir profilaxia farmacológica e acompanhar segurança; compressão pneumática é importante na imobilidade, sem exigir combinação automática em todos. Não pedir Doppler de rastreamento apenas por estar no quarto dia: investigar se houver suspeita clínica de trombose. A segunda profilaxia não está indicada: plaquetas de 96.000 não preenchem a definição de coagulopatia, que exige contagem abaixo de 50.000, razão normalizada internacional acima de 1,5 ou tempo de tromboplastina parcial ativada acima de duas vezes o controle; ele não está em ventilação mecânica, não tem lesão medular, queimadura, hepatopatia, dupla antiagregação, anticoagulação plena nem anti-inflamatório, e não reúne dois critérios menores. O omeprazol da folha de ontem sai, com o motivo escrito. A terceira profilaxia é a que muda mais coisas hoje: tosse ao ingerir líquido e voz molhada são dois dos fatores de risco listados, e um só já bastaria para classificá-lo como de alto risco. A dieta oral fica suspensa até a avaliação formal da deglutição, e a hidratação e as medicações passam a depender de via alternativa definida com a equipe. Enquanto isso, cabeceira de 30 a 45 graus no leito, mantida também durante procedimentos e reposicionamentos; se e quando a via oral for liberada, oferta com o paciente sentado ou com a cabeceira a no mínimo 60 graus, postura definida pela avaliação da deglutição, sem manobra de flexão obrigatória para todos, sem distrações no quarto, permanecendo sentado por cerca de 45 minutos após a refeição; higiene oral regular, incluindo escovação adaptada à segurança, sem clorexidina automática; sinalização do risco à beira do leito e na passagem de plantão; e aspirador montado e funcionante no quarto. Se for indicada sonda enteral, ela não é escudo contra aspiração e sim mais um fator de risco: exige confirmação radiológica do posicionamento após a inserção, fixação conferida, infusão preferencialmente contínua em bomba e pausa da dieta pelo menos 30 minutos antes de qualquer procedimento que estimule tosse ou vômito.
Não dar enoxaparina imediatamente antes da punção nem seis horas antes para cumprir uma janela maior. Para dose profilática usual, recomendações neuroaxiais usam pelo menos 12 horas antes; dose terapêutica exige intervalo maior, em geral 24 horas, ampliável conforme função renal. Reprogramar depois segundo punção atraumática/traumática, sangramento, presença de cateter e protocolo do procedimento. Não usar duas horas após retirada de cateter como regra universal atual; muitos protocolos exigem ao menos quatro, além do intervalo desde a punção. A proteção mecânica pode cobrir a pausa quando apropriada.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Some Pádua no paciente de 71 anos do caso e explique por que são 6 pontos. Discuta por que 96 kg não impõem universalmente enoxaparina 60 mg.
Em 30 dias
Diante de queda de plaquetas no sexto dia de heparina, calcule 4Ts, organize investigação e explique quando compressão isolada é insuficiente.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 67 anos, marceneiro aposentado, hipertenso e diabético, internado há três dias na enfermaria de clínica médica porque acordou sem conseguir mexer direito o braço e a perna do lado direito e com dificuldade para falar. Colha a história e examine-o em busca dos dados de que as profilaxias dependem: quanto ele sai do leito, como engole e qual é o risco de sangrar. Depois decida as três linhas da prescrição de hoje — tromboembolismo venoso, lesão de estresse e broncoaspiração — e diga, para cada uma, se entra, de que forma, ou por que fica de fora. Ao final, verbalize seus diagnósticos diferenciais e justifique a conduta.
