Cirurgia GeralProcedimentos e Vias de Acesso

A parte que decide não é o ponto

Sutura simples e cuidado da ferida

Avaliar lesão e perfusão, limpar e anestesiar com dose calculada, decidir o fechamento e orientar o cuidado até a retirada dos pontos.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica — Procedimentos. Série A. Normas e Manuais Técnicos; Cadernos de Atenção Primária, n. 30. Brasília, 2011. Seção 2.7 (Tratamento de feridas superficiais) e seção 3.3 (materiais para sutura, drenagem, desbridamento e tratamento de feridas)

Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, caderno 4. Brasília: Anvisa, 2017, 2ª edição. Itens 5.3.1.9 a 5.3.1.11 (limpeza da ferida e curativo), Anexo III (orientações gerais de curativo) e Anexo VII (conceito e classificação de ferida)

Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos — bula para o profissional de saúde do Xylestesin® com vasoconstritor (cloridrato de lidocaína monoidratado 1% e 2% com hemitartarato de epinefrina 1:200.000), solução injetável em frasco-ampola de 20 mL

Blau Farmacêutica — bula para o profissional de saúde do cloridrato de lidocaína solução injetável 20 mg/mL (2%) sem vasoconstritor

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Rename 2024. Brasília, 2024. Elenco do Componente Básico da Assistência Farmacêutica

01

Responda antes de ler

Quatro pacientes têm lacerações simples suturadas: no mento, no couro cabeludo parietal, no dorso da mão fora de articulações e na região pré-tibial. Considerando os prazos de referência do Caderno de Atenção Primária nº 30 — Procedimentos, do Ministério da Saúde (2011), e evolução sem complicações, qual orientação corresponde ao documento?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 22h40, num hospital municipal de oitenta e quatro leitos que atende uma cidade de cinquenta e cinco mil habitantes e mais três municípios em volta. O que ali se chama de sala de sutura é uma peça de três metros por três, encaixada entre o expurgo e a rouparia: maca de couro rachado, foco cuja rótula não trava mais, armário de três gavetas e uma pia com torneira de joelho que ninguém consertou. Nenhum outro procedimento invasivo se repete tanto no internato com tão pouca gente olhando: a sutura é a única coisa que você vai fazer centenas de vezes sem que ninguém, nenhuma vez, confira o resultado.

Duas pessoas esperam. Na cadeira do corredor está Rubinaldo Brandolim, 38 anos, noventa e seis quilos, cozinheiro de um restaurante do centro. Ele cortou a mão esquerda com uma faca de desossa às dezoito e quarenta, enrolou um pano de prato apertado e terminou o turno, porque sábado é o dia que paga. São quatro horas de ferimento. O corte fica na palma, na base do quinto dedo, tem uns cinco centímetros, bordas retas, e sangra pouco agora. Ele quer saber se dá para costurar rápido, porque a mulher está esperando no estacionamento.

Na maca, atrás da cortina, está Jovelina Cerqueiro, 74 anos, cinquenta e quatro quilos, aposentada, em prednisona há oito meses por polimialgia. Ela bateu a canela na quina da cama de manhã, por volta das onze, e a filha só conseguiu trazê-la agora. A perna direita tem, na face anterior, um retalho de pele de uns sete centímetros levantado como uma tampa, com a base voltada para baixo, para o pé. A borda do retalho está arroxeada. A pele em volta é fina como papel de seda e descola quando se puxa a fita do curativo que a filha improvisou. São onze horas de ferimento.

A técnica de enfermagem, Iolina, já separou o que costuma separar: pacote de curativo, gaze, soro fisiológico, um frasco-ampola de lidocaína, seringa, agulha, fio de náilon 3-0 e o degermante. A plantonista, a Dra. Rosicler Bitancourt, está na sala vermelha desde as nove e meia com uma descompensação de insuficiência cardíaca. Ela passou pela porta, olhou os dois de longe e disse a frase que abre este capítulo: "resolve os dois aí, qualquer coisa me chama".

O que um interno pensa nessa hora é: preciso lembrar como dá o ponto. É a pergunta errada, e ela é errada de um jeito específico. O ponto é a parte mais visível do procedimento, a que se ensaia em pele de porco no laboratório e a que se filma para mostrar aos colegas. Também é a parte que menos decide o que vai acontecer com essa mão e com essa perna nos próximos dez dias. O que decide vem antes e é invisível na foto: quanto soro passou pelo leito da ferida e com que força; se a anestesia foi feita na hora certa da sequência e com quanto anestésico; se este ferimento devia ser fechado hoje, fechado daqui a quatro dias, ou não fechado; e o que o paciente vai ouvir na porta sobre quando voltar.

As decisões centrais são limpeza e desbridamento, anestesia com dose calculada, escolha entre fechar agora ou manter a ferida aberta e plano de retorno. Em cada uma, os dois pacientes exigem avaliar mecanismo, perfusão, contaminação e condições de cicatrização.

Aqui se trabalha a técnica da ferida superficial e seu seguimento. A profilaxia antitetânica está em “O ferimento e o cartão”; a antirrábica, no capítulo de raiva. Ferimentos penetrantes e politrauma seguem os capítulos de Trauma; queimaduras e feridas crônicas têm percursos próprios. Essas conexões completam o atendimento sem substituir a avaliação da ferida antes da sutura.

03

Quem adoece disso

A epidemiologia deste capítulo é a de um procedimento, não a de uma doença, e ela começa por uma frase do próprio caderno 30 do Ministério da Saúde: o atendimento a portadores de traumatismos superficiais constitui a maior parte do movimento de cirurgia ambulatorial dos hospitais que dispõem de serviço de emergência. O documento diz isso para justificar o passo seguinte, que é empurrar boa parte desse volume para a unidade básica, com o argumento declarado de evitar estrangulamento dos serviços dos outros níveis de atenção. Ou seja: a sutura simples é, ao mesmo tempo, o procedimento cirúrgico mais frequente da porta de entrada e o que a política de saúde vem tentando descer de nível.

Essa descida tem consequência de formação, e ela é visível num documento que não é federal. Em 2024 a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro publicou um guia de sutura simples endereçado a enfermeiros da Atenção Primária, com quarenta e tantas páginas de técnica, dentro de um programa de residência em enfermagem. Um município escreveu, treinou e padronizou o procedimento porque ele mudou de mão. O interno que atravessa a sala de sutura hoje divide o gesto com outra categoria profissional que tem protocolo escrito — e frequentemente tem mais protocolo escrito do que ele.

Agora a parte que quase ninguém percebe, e que explica por que este capítulo não pode citar taxa nacional de infecção da ferida suturada no pronto-socorro: essa ferida não é contada. A nota técnica da Anvisa que define os critérios diagnósticos das infecções relacionadas à assistência para 2026 define procedimento cirúrgico como aquele em que há pelo menos uma incisão realizada em centro cirúrgico — sala de cirurgia, sala de cesariana ou sala de radiologia intervencionista —, feita através da pele, da mucosa, ou de uma incisão deixada aberta em procedimento anterior. A palavra traumático não aparece no documento.

É uma exclusão de definição, não um esquecimento, e ela tem lógica própria: a nota existe para comparar serviços entre si a partir de procedimentos padronizados, e a ferida que chega pela porta não é padronizável. Mas a consequência para quem trabalha na sala de sutura é a mesma seja qual for a intenção: o objeto do seu procedimento está fora do sistema que mede infecção relacionada à assistência no Brasil.

Some-se a isso o recorte da notificação. As infecções de sítio cirúrgico de notificação nacional obrigatória para 2026 são as que ocorrem após sete cirurgias nominadas: cesariana, implante de prótese mamária, implante primário de prótese de quadril, implante primário de prótese de joelho, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata. O período de vigilância é de 30 dias para a cesariana e de 90 dias para as outras seis. Uma laceração de mão suturada num sábado à noite não entra em nenhuma dessas listas, não tem denominador nacional e não gera número.

A consequência prática é direta e vale ser dita sem rodeio: o resultado do que você faz nessa sala não volta para você. Se a mão do Rubinaldo infectar na quarta-feira, ele vai a outra unidade, é atendido por outra pessoa, e o episódio vira uma consulta nova, não uma complicação da sua sutura. Não há sistema que ligue os dois eventos. Um interno pode passar o internato inteiro suturando com técnica ruim e sair com a impressão sincera de que corre tudo bem, porque o retorno que existiria para corrigi-lo não é coletado em lugar nenhum. É a definição operacional de trabalhar sem observação.

Isso não significa que a norma brasileira nada diga sobre a ferida traumática. Diz, e com detalhe: o caderno 30 do Ministério da Saúde descreve a sequência de limpeza, nomeia as contraindicações de fechamento primário e dá prazos de retirada de pontos; o caderno 4 da Anvisa descreve a irrigação e o curativo. O que não existe é o outro lado do circuito — a medida do desfecho. Régua há; termômetro não.

Uma última nota de calibragem, para não passar do ponto na direção oposta. Feridas superficiais suturadas em serviço de emergência infectam pouco, e o próprio guia municipal de 2024 abre a seção de complicações dizendo que elas são incomuns e geralmente relacionadas a comorbidades, a medicações em uso e a técnica inadequada. Isso muda o alvo: o interno não está tentando evitar um evento frequente, está tentando não ser a terceira dessas três causas na minoria de casos que dá errado — e essa minoria se concentra em quem já tem as outras duas.

04

Por que acontece o que acontece

Uma ferida traumática recente não é estéril e nunca vai ser, e a conduta inteira depende de entender que o alvo não é zero bactéria: é carga bacteriana abaixo do que a defesa local resolve. O caderno 30 do Ministério da Saúde escreve os números que quase todo mundo carrega de ouvido sem saber de onde vêm: para ser classificada como limpa, a contaminação deve estar em grau mínimo, e as defesas do organismo são normalmente efetivas quando o número de bactérias não excede 10³ por centímetro cúbico ou 10⁵ por grama de tecido; a ferida infectada, no mesmo documento, contém de 10⁷ a 10⁹ por centímetro cúbico. Entre esses dois patamares há quatro a seis ordens de grandeza, e é nesse intervalo que a sua limpeza opera.

Reduzir carga bacteriana em ordens de grandeza é um problema mecânico, não químico. O que retira bactéria de um leito de ferida é força de arrasto: líquido em movimento contra a superfície, com velocidade suficiente para vencer a adesão do microrganismo ao tecido, e volume suficiente para que o que se soltou vá embora em vez de circular. É por isso que os dois documentos brasileiros que descrevem a limpeza falam de hardware e não de produto: o caderno 4 da Anvisa manda usar soro fisiológico morno em jato, em frasco de 500 mL com ponteiras de irrigação, e diz que a limpeza deve ser exaustiva até a retirada de debris, crostas e exsudato; o caderno 30 do Ministério da Saúde manda irrigar com soro fisiológico usando seringa de 20 mL e agulha 40 × 12 mm. Nenhum dos dois cita antisséptico para o leito.

E não cita por um motivo que também é mecanismo. O antisséptico mata bactéria em superfície inerte, mas o leito de uma ferida não é superfície inerte: é tecido vivo com fibroblasto, queratinócito em migração e capilar em formação. O caderno 30 escreve a regra e a justificativa na mesma frase — o uso de antissépticos no leito das feridas não deve ser feito, não só pela citotoxicidade, contribuindo para o retardo na cicatrização, mas também por não consistir no mecanismo mais eficiente de reduzir a contagem bacteriana nas lesões. As duas metades importam: a primeira diz que faz mal, a segunda diz que nem funciona bem para o que se pretendia. O lugar do antisséptico é a pele íntegra ao redor.

Existe um segundo alvo mecânico, e ele é o que o desbridamento resolve. Tecido desvitalizado é meio de cultura e é barreira: não tem perfusão, então nem o leucócito nem o antibiótico chegam nele, e ao mesmo tempo ele oferece proteína e ambiente com pouco oxigênio. Corpo estranho faz o mesmo por outra via: reduz brutalmente a carga bacteriana necessária para produzir infecção, porque a bactéria aderida a um material inerte fica fora do alcance da fagocitose. Por isso o caderno 30 põe o desbridamento como passo próprio, com o objetivo declarado de remover tecidos desvitalizados ou impregnados com substâncias estranhas cuja remoção é impossível com a limpeza, e acrescenta um efeito secundário que o interno subestima: com o desbridamento também se acertam as bordas, preparando a ferida para a síntese.

A anestesia entra no meio de tudo isso, e a posição dela na sequência é mecanismo, não etiqueta. O caderno 30 diz que a anestesia local é aplicada após a limpeza da área traumatizada, e explica: caso contrário, pode aumentar a contaminação dos tecidos. Faz sentido — a agulha atravessa a pele suja em volta e leva o que estiver ali para o subcutâneo. Mas o mesmo documento, dois parágrafos adiante, diz que uma vez anestesiada a ferida deve receber limpeza rigorosa de seu leito. Não é contradição: são duas limpezas diferentes. Primeiro limpa-se a pele em volta, com água e sabão ou antisséptico; depois anestesia-se; depois irriga-se o leito, com força e volume, que é a limpeza que só é possível quando o paciente não sente. Quem inverte perde a segunda, porque irrigar de verdade um leito não anestesiado é insuportável.

O vasoconstritor é o ponto em que dois mecanismos verdadeiros brigam. A epinefrina associada ao anestésico reduz a absorção sistêmica — a própria bula registra que o índice de absorção depende da presença ou não de um agente vasoconstritor —, o que permite volume maior com menos risco de toxicidade, e reduz o sangramento no campo, o que faz enxergar melhor. Em troca, produz isquemia local, e é a isquemia que preocupa em dois cenários distintos: no tecido suprido por artérias finais, onde a consequência é necrose, e na ferida contaminada, onde a consequência alegada é infecção. A bula do produto brasileiro trata do primeiro cenário; o caderno 30 trata dos dois — veda o vasoconstritor no bloqueio digital, pelo risco de isquemia do dedo, e o evita na ferida traumática superficial, pelo risco de infecção. No dedo, portanto, os dois documentos concordam; é fora dele que a largura das recomendações se separa. Na ferida traumática, esta apostila adota o caderno 30 — anestésico sem vasoconstritor —, porque é o documento escrito para essa ferida, e a bula do produto com vasoconstritor nem traz a infiltração percutânea entre as indicações; a posição da bula fica no bloco de divergências, rotulada.

Fecha-se a lista com dois mecanismos de falha que dependem só da mão de quem costura. O primeiro é o espaço morto: se o subcutâneo espesso não for aproximado, sobra uma cavidade que se enche de soro e sangue, e coleção em ferida recente é cultura esperando. O caderno 30 resolve isso em uma frase operacional — o tecido celular subcutâneo, quando pouco espesso, é aproximado junto com a pele; quando não, é suturado separadamente, com fio absorvível em pontos separados. O segundo é a tensão do nó. Ponto apertado demais fecha a microcirculação da borda, e o resultado é o oposto do pretendido: bordas isquêmicas necrosam, o ponto corta a pele, e a cicatriz fica marcada pelos fios. A régua do documento é qualitativa e é boa: tensão suficiente para aproximar borda com borda, suavemente, sem esmagar.

O último mecanismo é estético e tem endereço anatômico. A pele tem direções de menor tensão, e uma cicatriz que corre paralela a elas alarga menos com o tempo. O caderno 30 imprime o mapa das linhas de Kraissl nas faces anterior e posterior do corpo justamente para isso, e a recomendação prática que dele decorre não é sobre a ferida traumática, que já veio na direção que veio, mas sobre qualquer incisão que você acrescente — a de drenagem, a de ampliação para explorar, a de exérese. Nessa você escolhe a direção, e escolher contra as linhas é comprar uma cicatriz pior de graça.

Frasco de solução salina, cuba e seringa de irrigação, com instrumentos de sutura organizados ao fundo.
Limpeza e irrigação integram o preparo da ferida antes do fechamento. O resultado também depende da avaliação de tecidos, contaminação, perfusão, corpos estranhos e técnica; o volume usado não é o único determinante.
05

Como se apresenta de verdade

Toda ferida que chega à sala de sutura obriga a mesma decisão em três camadas, e é útil vê-la assim antes de olhar caso a caso. A primeira camada pergunta o que há embaixo — se alguma estrutura que não cicatriza sozinha foi atingida, porque isso muda o endereço do paciente e não a técnica do ponto. A segunda pergunta quanta contaminação essa ferida tem e há quanto tempo, porque isso decide se ela fecha hoje. A terceira pergunta quem é o hospedeiro, porque a mesma ferida em duas pessoas diferentes tem dois riscos diferentes.

As seis apresentações a seguir são as que ocupam a sala de sutura de um pronto-socorro geral, e cada uma existe aqui porque troca a resposta de uma dessas três camadas.

A palma da mão — a ferida em que o exame vale mais que o ponto

Rubinaldo tem cinco centímetros de corte reto na palma esquerda, na base do quinto dedo, feito por faca de desossa há quatro horas. A tentação é enorme e tem nome: a ferida é linear, as bordas são regulares, sangra pouco, e parece o exemplo de manual de sutura simples. A palma da mão é justamente onde essa aparência engana.

Debaixo daqueles cinco centímetros passam o tendão flexor superficial e o profundo do quinto dedo, os nervos digitais próprios de cada lado do dedo e o arco palmar superficial. Um corte de faca com bom fio secciona qualquer um deles sem produzir sinal externo nenhum: o tendão parcialmente cortado ainda flete, o nervo digital seccionado não dói, e o arco palmar sangra e para. Nada disso aparece na inspeção da borda.

O que revela é função, e função se testa antes da anestesia — depois dela, metade do exame deixou de ser possível. Três manobras bastam para tomar a decisão de encaminhar ou não. Flexão contra resistência de cada articulação do dedo, isolando a interfalangiana distal e a proximal, porque tendão parcialmente seccionado tem força reduzida mesmo com movimento presente. Sensibilidade nas duas faces laterais da polpa digital, comparada com o dedo vizinho e com a mesma face do outro lado, porque o nervo digital é bilateral e a perda pode ser de um lado só. E perfusão: enchimento capilar da polpa e temperatura, comparados com o dedo ao lado.

Se qualquer uma das três estiver alterada, a conversa muda de assunto. O caderno 30 do Ministério da Saúde é explícito ao delimitar o que chama de ferida superficial: a que atinge pele, tecido celular subcutâneo, aponeuroses e músculos sem lesar estruturas profundas ou nobres como nervos, tendões, vasos de maior calibre, vísceras e ossos — e diz, na mesma página, que o estudo das feridas profundas foge aos objetivos do capítulo. Traduzindo para a sua sala: tendão, nervo digital e vaso de calibre saem do escopo deste procedimento e vão para avaliação cirúrgica. A pele pode ser aproximada, e frequentemente deve, para conter sangramento e proteger; mas o encaminhamento não muda por causa disso, e o papel que sai com o paciente precisa dizer o que foi encontrado.

Uma armadilha específica da palma: a ferida palmar costuma vir com corpo estranho que a inspeção não vê, porque a mão que se corta estava segurando alguma coisa. Vidro, esmalte de louça, fragmento de osso. Isso entra na investigação e muda a decisão sobre imagem.

O retalho pré-tibial da idosa — quando a pele não aguenta o ponto

Dona Jovelina tem setenta e quatro anos, cinquenta e quatro quilos, está em corticoide sistêmico há oito meses e tem, na face anterior da perna direita, um retalho de sete centímetros com a base voltada para o pé. São onze horas de evolução. Cada um desses dados puxa a decisão para um lado diferente, e é por isso que ela está no capítulo.

A região pré-tibial tem duas propriedades hostis. A pele é fina e pouco móvel, apoiada quase diretamente sobre o periósteo, então não há folga para aproximar bordas sem tensão. E a vascularização cutânea da perna corre de proximal para distal, o que faz um retalho de base distal — como o dela, com a base voltada para o pé — ter suprimento pior que um de base proximal do mesmo tamanho. A borda arroxeada é o sinal disso, e é informação, não estética.

O corticoide entra duas vezes. Está na lista nominada do caderno 30 de condições que aumentam o risco de resultado insatisfatório — junto com diabetes, obesidade, má nutrição, insuficiência renal crônica, corpo estranho retido, procura tardia por tratamento, vidro ou gelo como fator causal, predisposição a queloide, doenças do tecido conjuntivo, trauma tecidual associado e extensão da lesão. E produz a atrofia cutânea que fez a fita adesiva descolar epiderme quando a filha improvisou o curativo.

O ponto que atravessa pele fina sob tensão faz exatamente o que o mecanismo prevê: isquemia de borda, e a borda que já estava arroxeada necrosa. É a situação em que aproximar sem suturar — com fita adesiva de aproximação, sem tensão, deitando o retalho de volta no lugar — costuma render mais que o náilon. O caderno 30 abre essa porta de forma explícita ao definir síntese: aproximação dos tecidos separados, que pode ser feita com sutura, fitas adesivas, adesivos sintéticos ou biológicos, imobilização, ou qualquer outro método que produza bom afrontamento das bordas. Sutura é um item da lista, não a lista.

As onze horas puxam para o mesmo lado. Elas põem esta ferida fora da janela em que a régua nacional considera o fechamento primário indicado, e o critério — como o próprio documento avisa — é relativo. Como esse relativo se resolve está no bloco de critérios; o que importa aqui é que a idade, o corticoide, a região e o retalho de base distal empurram todos na mesma direção, e a direção é não apertar.

O supercílio da criança — o teto que muda de número

Guaraci tem seis anos e vinte e dois quilos, caiu do skate e tem um corte de dois centímetros na cauda do supercílio esquerdo. Ferida limpa, de uma hora, bordas regulares. É a ferida mais simples do capítulo e a que mais frequentemente é feita errado, por três motivos.

O primeiro é a dose. As bulas brasileiras de lidocaína — tanto a apresentação com vasoconstritor quanto a sem — trazem o mesmo parágrafo para a criança acima de três anos: a dose máxima é determinada pela idade e pelo peso, e o exemplo impresso é o de uma criança de cinco anos com cerca de vinte e cinco quilos, em que a dose não deve exceder 75 a 100 mg, isto é, 3,0 a 4,0 mg/kg. Esse teto pediátrico é mais baixo que o do adulto sem vasoconstritor e muito mais baixo que o do adulto com vasoconstritor. Em vinte e dois quilos, 4 mg/kg são 88 mg — quatro mililitros e meio de lidocaína a 2%, ou nove de 1%. É pouco, e é fácil passar disso infiltrando até ficar dormente numa criança que chora.

O segundo é o supercílio em si. O caderno 30 traz a instrução direta: algumas regiões, como supercílios e cílios, não devem ser raspadas, porque o crescimento dos pelos pode ser irregular, retardado ou ausente. E o supercílio é o próprio alinhamento — como o vermelhão do lábio, ele é uma linha que o olho humano confere sozinho. O primeiro ponto realinha; os outros só acompanham.

O terceiro é o fio e o prazo. Face pede o fio mais fino que a bandeja tiver e o prazo mais curto de retirada, porque a marca do ponto na pele é função do calibre e do tempo. A régua brasileira dá cinco dias na face, com a justificativa explícita da facilidade de cicatrização daquela região. Cinco dias numa criança significa marcar o retorno com a família de um jeito que ela consiga cumprir — e é aqui que um "volte no posto" sem data escrita costuma virar dez dias.

A alternativa que a bandeja quase sempre tem e o serviço quase nunca considera para a criança está na definição de síntese do próprio caderno: fitas adesivas de aproximação. Numa ferida superficial, limpa, sem tensão e de bordas regulares — que é exatamente esta —, elas dispensam a infiltração inteira, e a infiltração é a parte de que a criança vai lembrar.

Mordeduras: risco de infecção e decisão individual de fechamento

Nivardo Farrapo tem cinquenta e dois anos e chega com duas lacerações no antebraço direito, feitas pelo cão do vizinho há duas horas. As bordas são irregulares, há esmagamento, e a maior tem uns quatro centímetros.

O documento histórico lista tempo de evolução, suprimento sanguíneo, possibilidade de aproximar bordas e mordedura entre os fatores que desaconselham fechamento primário. Eles precisam ser interpretados no contexto: seis a oito horas não constituem contraindicação universal, e mordeduras admitem exceções selecionadas. Avaliar contaminação, profundidade, tecido desvitalizado, local, perfusão, hospedeiro, possibilidade de limpeza adequada e seguimento.

Na mesma frase, o documento abre a exceção, e ela é de julgamento: deve-se fazer exceção nos casos de feridas extensas com necessidade de recomposição estética ou funcional, em que pese o grande risco de infecções. O guia municipal de 2024 lê essa exceção com endereço anatômico — mordeduras em face, cabeça e pescoço, em que os resultados estéticos são mais importantes — e diz que nesses casos, após copiosa irrigação, faz-se sutura por planos buscando cicatrização por primeira intenção. Um antebraço de homem de cinquenta e dois anos não é face nem pescoço.

A conduta que sobra para o Nivardo, então, é a que a maioria dos serviços não faz porque parece pouco: irrigação copiosa, desbridamento das bordas esmagadas, ferida deixada aberta com curativo, e reavaliação diária com a possibilidade de fechar depois. É trabalhoso, e é o que a régua diz.

Onde este capítulo para: a decisão sobre profilaxia da raiva, o esquema de vacina e soro antirrábico e a conduta de observação do animal são do capítulo de raiva, na apostila de Infectologia — e a notificação do atendimento antirrábico também. A profilaxia antitetânica é de "O ferimento e o cartão", na mesma apostila. O que fica aqui é a decisão sobre a ferida — fechar ou não — e a irrigação, que é a única coisa comum às três condutas e a que precisa acontecer primeiro nas três.

O couro cabeludo — sangramento que a própria sutura resolve

Naldenice Petrolli tem sessenta e oito anos, usa varfarina por fibrilação atrial e chega com um corte de seis centímetros no couro cabeludo parietal, feito ao bater a cabeça na porta do armário há quarenta minutos. A gaze que ela segura está encharcada e o sangramento continua.

O couro cabeludo sangra muito por anatomia: as artérias correm presas ao tecido subcutâneo fibroso, que as mantém abertas quando seccionadas, em vez de deixá-las retrair e contrair como fazem em outros territórios. Isso assusta, inclusive o interno, e produz a sequência errada — pinçar às cegas dentro de um campo cheio de sangue à procura do vaso. O caderno 30 é direto: pinçar somente o vaso que sangra, evitando ligaduras em massa, que só servem para aumentar a área de necrose e contribuir para o aparecimento de infecções; e desaconselha cautério em ferida traumática, pelo mesmo motivo.

A resposta certa é quase contraintuitiva, e o próprio documento a escreve na seção de áreas anatômicas especiais: no couro cabeludo o sangramento habitualmente é intenso, porém pode ser adequadamente controlado com a sutura. O ponto que aproxima também comprime. Some-se a isso a recomendação de suturar a gálea com fio absorvível sempre que possível, que é o plano que de fato segura, e a de cortar o cabelo em vez de raspar, apenas o necessário para enxergar.

A varfarina não muda essa lógica e não é indicação para suspender anticoagulação por causa de uma laceração de couro cabeludo; muda a paciência com a compressão e o rigor do curativo. O que ela muda de verdade é outra coisa, e essa merece pergunta em voz alta: houve traumatismo craniano com mecanismo relevante? Paciente anticoagulado com trauma de crânio é assunto do capítulo de trauma cranioencefálico, na apostila de Trauma, e a laceração do couro cabeludo não pode ser a razão pela qual ninguém fez essa pergunta.

A terceira coisa do couro cabeludo é o que se procura com o dedo enluvado antes de fechar: degrau ósseo, afundamento e corpo estranho retido. O caderno 30 põe as duas primeiras como advertência nominal da região. Fechar por cima de um afundamento não é erro de sutura: é erro de exame.

A ferida que já não está limpa — quando o capítulo muda de assunto

A quinta hora do plantão traz o outro tipo de porta: a pessoa que se cortou há três dias, tratou em casa, e agora tem borda vermelha, quente, dolorida e alguma secreção. Não é uma ferida para suturar. É uma ferida infectada, e o erro grave aqui é fechar.

O caderno 30 chama isso de tratamento aberto e o descreve como o que se usa quando há contraindicação ao fechamento primário ou ao primário retardado, ou quando esses dois falham, com maior indicação nas feridas infectadas: colhe-se material, mantém-se a ferida aberta para drenar espontaneamente, recoberta apenas com gaze esterilizada umedecida em solução salina, e o fechamento se dá por tecido de granulação e epitelização — com resultado estético que o próprio documento admite não ser bom.

Há um limiar nesse parágrafo que o interno precisa saber ler. O mesmo documento diz que, se a infecção mostrar sinais de disseminação — linfangite, linfadenite, celulite —, com ou sem toxemia, entram antibióticos de largo espectro e o paciente deve ser encaminhado ao pronto-socorro mais próximo, para coleta de amostras e antibioticoterapia. Note o sujeito da frase: ela foi escrita para a equipe da unidade básica. Se você já está no pronto-socorro, o encaminhamento não existe — a decisão é sua e do plantonista.

A escolha e a duração do esquema antimicrobiano para infecção de partes moles não são deste capítulo: são de "O antibiótico que ninguém para", na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O reconhecimento de sepse é do capítulo de sepse. O que fica aqui é a fronteira: o momento em que a palavra sutura deixa de se aplicar, e a obrigação de escrever no papel o que se viu, porque quem receber o paciente vai precisar saber se aquilo estava aberto por escolha ou por acaso.

Uma nota útil para não errar na direção contrária, e ela vem de um documento de vigilância. A nota técnica da Anvisa, ao definir infecção incisional para fins de notificação, põe uma ressalva em rodapé: não considerar inflamação mínima e drenagem de secreção limitada aos pontos de sutura como infecção incisional. A regra foi escrita para contagem e não para o leito do paciente — mas o discriminador que ela usa é bom e vale carregar: hiperemia estreita e um pouco de secreção saindo pelo furo do ponto, no terceiro dia, é o esperado; hiperemia que se espalha, dor que aumenta em vez de diminuir e pus são outra coisa.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação de uma ferida traumática quase não usa exame complementar, e é por isso que ela é tão frequentemente pulada: não há resultado chegando para obrigar a parada. Ela é feita de seis perguntas que se respondem com relógio, mão, balança e conversa, e as seis acontecem antes de a primeira agulha entrar.

A ordem importa. Duas dessas perguntas — a do exame de função e a do peso — ficam impossíveis ou constrangedoras depois que o procedimento começou.

O relógio: três números brasileiros que respondem a três perguntas diferentes

A primeira pergunta é a hora do trauma, e ela é a que mais gera confusão, porque o Brasil tem três números em circulação e eles não são versões concorrentes da mesma regra: são respostas a perguntas diferentes.

O primeiro é seis horas, e ele vem do Anexo VII do caderno 4 da Anvisa. Ali, ferida produzida acidentalmente com arma branca e com menos de seis horas entre o trauma e o atendimento, sem contaminação significativa, é classificada como limpa-contaminada; passadas seis horas do ato que produziu a ferida, ela é considerada contaminada. Repare no verbo: classifica. Esse documento não diz o que fazer com a ferida — ele diz em que gaveta de contaminação ela cai.

O intervalo de seis a oito horas aparece no caderno 30 como critério relativo, acompanhado de exemplos que impedem seu uso como prazo rígido. Ferida limpa e bem perfundida pode ser candidata a fechamento após esse intervalo; ferida suja, perfurante ou desvitalizada pode não ser, mesmo muito recente. A decisão combina condições locais, hospedeiro e possibilidade de acompanhamento.

O terceiro é doze horas, e vem do guia municipal de 2024, que estende a janela para locais de maior vascularização, nominalmente face e couro cabeludo. O raciocínio por trás é o mesmo que faz a face cicatrizar em cinco dias: mais perfusão, mais defesa entregue no lugar.

Outros documentos usam dezoito horas ou intervalos distintos ao descrever procura tardia e risco. Esses números não devem ser somados nem tratados como limites universais de segurança. O tempo é uma informação clínica entre outras, e não substitui inspeção, irrigação, desbridamento e julgamento do risco.

O que o interno precisa registrar no prontuário não é a classificação: é a hora. Hora do trauma, hora da chegada, hora do início da limpeza. Quem escreve "ferida de algumas horas" transfere para o próximo leitor uma decisão que só podia ser tomada com o número.

O exame que precede o ponto — e que a anestesia apaga

A segunda pergunta é o que há embaixo, e ela tem um prazo de validade curto: assim que o anestésico age, sensibilidade não se testa mais e a dor deixa de sinalizar a manobra que machuca. Portanto o exame de função vem antes de tudo, inclusive antes da limpeza que dói.

Três domínios, na ordem em que mudam conduta. Motor: movimento ativo contra resistência de cada tendão que passa por baixo da ferida, testado isoladamente, porque tendão parcialmente seccionado mantém movimento e perde força — e porque um flexor profundo íntegro esconde a lesão do superficial se os dois forem testados juntos. Sensitivo: comparação lado a lado, preferencialmente com o mesmo território do membro contralateral, porque o paciente raramente percebe perda parcial sem comparação. Vascular: enchimento capilar, cor e temperatura distais à ferida.

O quarto domínio não é do paciente, é da ferida: exploração. Isso significa afastar as bordas com boa luz e olhar o fundo, depois de anestesiar e irrigar, procurando gordura, aponeurose aberta, cápsula articular, tendão com falha parcial e corpo estranho. Uma ferida que não foi vista até o fundo não foi examinada — foi inspecionada.

Duas situações mudam o destino do paciente e não a técnica do ponto: comunicação com articulação e lesão de estrutura nobre. As duas saem da definição de ferida superficial do caderno 30 e vão para avaliação cirúrgica. Vale dizer que aproximar a pele para conter sangramento e proteger, e então encaminhar, não é contraditório: o que não pode é a pele fechada virar o motivo pelo qual ninguém mais olhou.

Corpo estranho: quando pedir imagem e o que a imagem não mostra

A terceira pergunta é o que ficou dentro. Corpo estranho retido está na lista nominada de fatores de risco para resultado insatisfatório do caderno 30, e a lista traz um vizinho que explica por quê: vidro ou gelo como fator causal aparece como item próprio. Vidro é o corpo estranho que mais fica e o que mais engana, porque o ferimento por caco costuma ser pequeno e limpo na superfície.

A radiografia simples resolve parte do problema e cria uma ilusão sobre o resto. Vidro e metal são radiopacos e aparecem; madeira, espinho e plástico habitualmente não aparecem. Uma radiografia negativa numa ferida por farpa de madeira não exclui coisa nenhuma, e escrever no prontuário que a radiografia foi normal sem escrever qual era o material suspeito é fabricar uma falsa segurança para quem ler depois.

O que substitui a imagem, no material que não é radiopaco, é a exploração direta com boa luz depois da irrigação, e a informação da história — o que estava na mão, em que superfície a pessoa caiu, se o objeto quebrou. O caderno 30, na seção de corpos estranhos, faz o mesmo raciocínio pelo avesso ao instruir que se determine primeiro o local do objeto e se use o orifício de entrada, quando existente, como referência, porque o edema produzido pela própria anestesia faz perder os parâmetros de localização.

Há uma consequência de decisão aqui, e ela é a mais importante desta seção: suspeita não resolvida de corpo estranho é motivo para não fechar, ou para fechar frouxo e reavaliar. Um corpo estranho retido sob pele fechada reduz brutalmente a carga bacteriana necessária para infectar, e o custo de reabrir depois é maior que o de não fechar hoje.

O hospedeiro: a mesma ferida em duas pessoas diferentes

A quarta pergunta é quem é a pessoa. O caderno 30 traz uma lista de doze condições que aumentam o risco de infecção, cicatrização retardada e resultado estético ruim, e ela merece ser lida inteira porque três dos itens não são do paciente: diabetes melito, obesidade, má nutrição, insuficiência renal crônica, uso de esteroides ou outras drogas imunossupressoras, corpo estranho retido, procura tardia por tratamento com mais de dezoito horas, vidro ou gelo como fator causal, predisposição a formar queloide, doenças do tecido conjuntivo, presença ou associação de trauma tecidual, e extensão da lesão.

Repare que corpo estranho retido, procura tardia e mecanismo por vidro são propriedades do episódio, não do hospedeiro, e estão na mesma lista. Isso é útil na prática: significa que a decisão de fechar não se toma somando pontos de comorbidade, mas somando o que existe de desfavorável na ferida e na pessoa ao mesmo tempo. Uma ferida de nove horas em jovem hígido e uma ferida de quatro horas em idosa desnutrida em corticoide podem terminar com decisões opostas ao que o relógio sozinho diria.

Três perguntas curtas cobrem a maior parte disso na sala: usa algum remédio de uso contínuo, com atenção a corticoide, imunossupressor e anticoagulante; tem diabetes; e como a pessoa se alimenta e como está a perna ou a mão em termos de circulação. A quarta é sobre queloide, e ela é a única que costuma vir do próprio paciente sem que se pergunte.

Falta ainda o item do próprio caderno que a maioria não colhe: alergia. A lista de perguntas que ele manda fazer diante de qualquer traumatismo inclui eventos que antecederam e se seguiram ao trauma, história de enfermidades e traumas prévios, presença de alergias em geral, e uso de medicamentos, drogas e álcool. Alergia importa aqui por um motivo específico e imediato: você está prestes a injetar um anestésico.

O peso — o dado que a sala de sutura nunca colhe

A quinta pergunta é quanto a pessoa pesa, e é a mais negligenciada do capítulo inteiro. Não há balança na sala de sutura de quase nenhum pronto-socorro brasileiro, o peso não entra na ficha de um ferimento cortocontuso, e no entanto o peso é o denominador de todo o teto de anestésico local.

A razão de o teto importar é que ele é atingível com facilidade espantosa. Um frasco-ampola de lidocaína a 2% tem 20 mL, e 20 mL de solução a 2% contêm 400 mg — mais do que o teto absoluto de 300 mg que a bula da apresentação sem vasoconstritor declara para o adulto, seja qual for o peso. Isto é: o frasco inteiro, aquele frasco que fica em cima da bandeja e que a técnica abre por rotina, já estoura o teto. Se a lidocaína for a 1%, o mesmo frasco tem 200 mg e cabe.

Isso muda o gesto de duas formas. Primeiro, saber a concentração do que está na sua mão deixa de ser detalhe: 1% e 2% mudam o volume permitido por um fator de dois, e as duas apresentações estão no elenco do Componente Básico da Rename 2024, o que significa que as duas circulam. Segundo, o peso referido serve — não é preciso balança para saber que um homem de noventa e seis quilos e uma senhora de cinquenta e quatro têm tetos diferentes —, mas ele precisa ser perguntado e escrito.

Há uma sutileza aritmética nos tetos que muda quem manda, e ela está detalhada nas notas de auditoria: como a bula declara ao mesmo tempo um teto por quilo e um teto absoluto, existe um peso de cruzamento acima do qual o teto absoluto passa a governar sozinho e a conta por quilo deixa de ter uso. Para a lidocaína sem vasoconstritor esse cruzamento fica em torno de sessenta e sete quilos — ou seja, para boa parte dos adultos brasileiros a resposta é simplesmente o teto fixo.

O cartão, o animal e a cirurgia — onde a investigação sai deste capítulo

A sexta pergunta é a que fecha a investigação e é composta de três, todas com dono em outro capítulo. Elas entram aqui porque precisam ser feitas na mesma visita, e não porque se respondam aqui.

A primeira é o estado vacinal antitetânico. O caderno 30 diz que a profilaxia do tétano deve constituir medida de rotina no tratamento das feridas, e que atenção especial deve ser dada a indivíduos com feridas profundas, com corpo estranho, com grande quantidade de tecido desvitalizado e que vieram tardiamente. A grade que cruza tipo de ferimento com histórico vacinal, a decisão sobre imunoglobulina e o esquema de doses estão em "O ferimento e o cartão", na apostila de Infectologia. Aqui só a pergunta.

A segunda é o animal. Todo caso de mordedura e arranhadura por cães, gatos ou animais silvestres é atendimento antirrábico, com notificação compulsória, investigação e acompanhamento — e isso vale mesmo quando a decisão sobre a ferida é não suturar. O esquema antirrábico e a observação do animal são do capítulo de raiva, na apostila de Infectologia.

A terceira é se este paciente precisa de antibiótico sistêmico, e aqui há uma armadilha de nomenclatura que vale desfazer. A antibioticoprofilaxia cirúrgica, com a janela de sessenta minutos antes da incisão e o repique por tempo e por sangramento, é do capítulo "Sessenta minutos, e nem um dia a mais", na apostila de Pré e Pós-operatório, e ela foi escrita para a incisão que a equipe faz de propósito, em cirurgia programada. A ferida traumática que chega pela porta não é aquele objeto, e o caderno 30 tem uma frase que reorganiza a prioridade nessa hora: estudos recentes têm mostrado que os cuidados de limpeza são mais eficientes na profilaxia de infecções que o uso de antibióticos.

Isso não decide o antibiótico para você — é frase de 2011, ela está escrita de forma genérica, e a indicação em mordedura, em ferida de mão e em imunossuprimido é matéria de julgamento clínico e do capítulo de antibioticoterapia. Decide a ordem: a prescrição não substitui a irrigação, e o tempo gasto discutindo a droga é tempo que não se gastou lavando.

07

Três decisões com régua brasileira: quanto lavar, quanto anestesiar, e se fecha

Antes de suturar, defina profundidade, contaminação, perfusão e integridade de tendões, nervos e vasos. Decida se o fechamento primário é adequado; depois execute limpeza, anestesia e sutura sob supervisão. O cuidado só termina com revisão funcional, orientação, profilaxia antitetânica quando indicada e plano de retorno.

  1. 1Antes de tocar na ferida, teste função: movimento contra resistência de cada tendão sob a ferida, sensibilidade comparada lado a lado, e perfusão distal. Alterado significa avaliação cirúrgica, e o exame não existe mais depois da anestesia.
  2. 2Anote três horas: a do trauma, a da chegada e a do início da limpeza. Sem elas, nenhuma das réguas de tempo pode ser aplicada por quem ler depois.
  3. 3Limpe a pele em volta, com água e sabão ou antisséptico, antes de anestesiar — a agulha atravessa a pele que estiver ali.
  4. 4Pergunte o peso e a concentração do frasco. O teto do adulto é 4,5 mg/kg e no máximo 300 mg sem vasoconstritor, 7 mg/kg e no máximo 500 mg com vasoconstritor; na criança acima de três anos, 3 a 4 mg/kg. Converta em mililitros antes de aspirar, não depois.
  5. 5Anestesie. Só então irrigue o leito com força e volume — a irrigação de verdade não é possível sem anestesia, e é ela que decide o resultado.
  6. 6Desbride o tecido desvitalizado e retire corpo estranho. Explore o fundo com luz. Uma ferida que não foi vista até o fundo não foi examinada.
  7. 7Faça hemostasia pinçando o vaso que sangra, sem ligadura em massa e sem cautério em ferida traumática. Não suture ferimento com sangramento não controlado.
  8. 8Decida entre fechamento primário, fechamento primário retardado após reavaliação ou cicatrização aberta. Integrar contaminação, viabilidade e perfusão, tensão nas bordas, local, mecanismo, hospedeiro, tempo e seguimento. Não usar seis a oito horas como contraindicação absoluta. Mordeduras exigem avaliação específica, com fechamento apenas em situações selecionadas.
  9. 9Se fechar: pontos separados, tensão que aproxima sem esmagar, subcutâneo espesso suturado à parte para não deixar espaço morto, e curativo estéril, que fica até a retirada dos pontos.
  10. 10Antes de o paciente sair: data escrita da retirada dos pontos, como limpar a ferida em casa — soro uma vez ao dia, sem água corrente —, os quatro sinais que trazem de volta antes, e a pergunta do cartão de vacina — que se decide no capítulo de tétano.

Fechar hoje, fechar depois, ou não fechar — o que a régua nacional nomeia

SituaçãoO que a régua brasileira dizOnde está escritoO que continua sendo julgamento seu
Ferida limpa, bordas aproximáveis, dentro de 6 a 8 hFechamento primário, condicionado a limpeza rigorosa, desbridamento e hemostasiaCaderno 30, seção 2.7, TratamentoSe a limpeza foi de fato rigorosa — é a condição que o documento impõe e ninguém audita
Intervalo maior que 6 a 8 hContraindicação ao fechamento primário, declarada relativa pelo próprio documentoCaderno 30, seção 2.7, contraindicaçõesO peso do relógio contra o da ferida e o do hospedeiro; o documento dá os dois exemplos opostos e não a fórmula
Face e couro cabeludo, até 12 hJanela estendida por maior vascularizaçãoGuia municipal de sutura simples, 2024É régua de um município, não federal — e a estética da face pesa dos dois lados
Ferida por mordeduraNão fechar; exceção para feridas extensas com necessidade de recomposição estética ou funcionalCaderno 30, seção 2.7, contraindicaçõesO que conta como necessidade estética ou funcional; o guia de 2024 lê como face, cabeça e pescoço
Suprimento sanguíneo inadequado, ou bordas não aproximáveis por perda de peleNão fecharCaderno 30, seção 2.7, contraindicaçõesReconhecer o retalho de base distal e a pele atrófica antes de puxar o fio
Alta contaminação ou longo tempo, com bordas aproximáveisFechamento primário retardado: limpeza, desbridamento, gaze estéril, inspeção diária, e sutura no 3º ou 4º dia se não houver infecçãoCaderno 30, seção 2.7, TratamentoSe o paciente consegue voltar todo dia; a via só funciona com retorno garantido
Ferida já infectadaTratamento aberto: colher material, manter aberta drenando, gaze umedecida em salina; antibiótico se houver linfangite, linfadenite ou celuliteCaderno 30, seção 2.7, TratamentoA escolha e a duração do antimicrobiano, que são de outro capítulo
Projétil de arma de fogo retirado na unidadeNão suturar o ferimento; deixar cicatrizar por segunda intençãoCaderno 30, seção 2.5.1.4A indicação de retirar ou não o projétil, que é de Trauma

O teto do anestésico local em miligramas e em mililitros, pelas bulas brasileiras

ApresentaçãoTeto por pesoTeto absoluto54 kg70 kg96 kg
Lidocaína 1% sem vasoconstritor (10 mg/mL)4,5 mg/kg300 mg243 mg = 24,3 mL300 mg = 30 mL (teto manda)300 mg = 30 mL (teto manda)
Lidocaína 2% sem vasoconstritor (20 mg/mL)4,5 mg/kg300 mg243 mg = 12,2 mL300 mg = 15 mL (teto manda)300 mg = 15 mL (teto manda)
Lidocaína 1% com epinefrina 1:200.0007 mg/kg500 mg378 mg = 37,8 mL490 mg = 49 mL500 mg = 50 mL (teto manda)
Lidocaína 2% com epinefrina 1:200.0007 mg/kg500 mg378 mg = 18,9 mL490 mg = 24,5 mL500 mg = 25 mL (teto manda)
Criança acima de 3 anos, com ou sem vasoconstritor3 a 4 mg/kgNão declarado22 kg: 66 a 88 mg = 3,3 a 4,4 mL a 2%Faixa etária não coberta pelo exemplo da bulaFaixa etária não coberta pelo exemplo da bula

Quatro números brasileiros para a mesma dose, num adulto de 70 kg

DocumentoO que declaraEm 70 kgContra o teto de 300 mg da bula sem vasoconstritor
Bula da lidocaína sem vasoconstritor4,5 mg/kg, sem exceder 300 mg300 mg = 15 mL a 2%É o teto
Guia municipal de sutura simples, 2024 — dose recomendada5 mg/kg, declarada recomendada e segura, com lidocaína a 2% sem vasoconstritor350 mg = 17,5 mL a 2%1,17 vez o teto
Guia municipal de sutura simples, 2024 — dose máxima7 mg/kg sem vasoconstritor490 mg = 24,5 mL a 2%1,63 vez o teto
Caderno 30 do Ministério da Saúde — piso da faixa7 mg/kg, com lidocaína a 1% sem vasoconstritor490 mg = 49 mL a 1%1,63 vez o teto
Caderno 30 do Ministério da Saúde — topo da faixa10 mg/kg, com lidocaína a 1% sem vasoconstritor700 mg = 70 mL a 1%2,33 vezes o teto

Retirada de pontos e calibre do fio, por região

RegiãoRetirada de pontos (caderno 30)Calibre do fio (guia municipal, 2024)O que a régua não cobre
Face5 dias, pela facilidade de cicatrização6-0Pálpebra e margem palpebral, que o caderno 30 manda encaminhar a cirurgião ou oftalmologista
Couro cabeludo7 dias, por cair em outras regiões do corpo3-0Não tem linha própria de prazo, apesar de ter seção própria de técnica no mesmo documento
Tronco e membros superiores7 dias, por cair em outras regiões do corpo5-0 ou 4-0Não distingue dorso de parede abdominal, que têm tensões diferentes
Mãos, dedos e região plantar7 dias, por cair em outras regiões do corpo4-0 e 5-0 nos dedos; 3-0 na região plantarÁrea de carga e de flexão constante não recebe prazo próprio
Membros inferiores10 a 12 dias5-0 ou 4-0Não separa a região pré-tibial, de pele fina e pouca folga
Sobre articulações10 a 12 diasNão especificadoA expressão regiões de articulações não é definida — joelho e interfalangiana entram no mesmo prazo

Lidocaína sem vasoconstritor: aplique o menor limite entre 4,5 mg/kg e 300 mg, ajustado ao paciente e à formulação. Os limites se igualam em 66,67 kg. O teto é uma restrição de segurança, não a dose que precisa ser infiltrada.

Lidocaína com vasoconstritor: no esquema de referência, o menor limite é 7 mg/kg ou 500 mg. Eles se igualam em 71,43 kg. Não arredonde o peso de cruzamento para decidir a dose de um paciente próximo dele.

Conferência da dose. Não use a faixa de 7–10 mg/kg dos textos antigos como instrução para aspirar lidocaína sem vasoconstritor. Em 70 kg, ela produziria 490–700 mg, acima do teto de 300 mg adotado aqui.

Dose prescrita e teto máximo são conceitos diferentes. Calcule a quantidade necessária ao procedimento e confira os limites antes de aspirar. No exemplo anterior, 700 mg também ultrapassariam o teto de 500 mg da apresentação com vasoconstritor.

Presença de vasoconstritor. O valor de 7 mg/kg não pode migrar para a formulação simples. Em um adulto de 70 kg, até 5 mg/kg somam 350 mg e excedem o limite absoluto de 300 mg da apresentação sem vasoconstritor.

Conteúdo do frasco. Um frasco de 20 mL a 2% contém 400 mg; a 1%, contém 200 mg. Os 400 mg excedem o teto absoluto da formulação simples. Mesmo quando o total cabe no teto absoluto, ainda é preciso conferir peso, formulação e condições do paciente.

Epinefrina: razão e concentração. 1:200.000 corresponde a 5 mcg/mL; 20 mcg/mL corresponde a 1:50.000. A conversão é 1.000.000 dividido pelo denominador da razão. Confira o rótulo antes de usar uma concentração transcrita em tabela.

A razão 1:80.000 corresponde a 12,5 mcg/mL. Apresentações com razões distintas não são intercambiáveis sem essa conferência. Verifique o produto disponível, em vez de presumir que todo frasco contém a apresentação aprendida em aula.

Sal e base. Na apresentação descrita, 9,1 mcg de hemitartarato equivalem a 5 mcg de epinefrina base. A diferença expressa a massa do sal; não significa que a concentração de epinefrina seja quase duas vezes maior.

Indicação da formulação. Confira a técnica autorizada e a posologia do produto utilizado. Uma tabela de bloqueio nervoso não deve ser transportada automaticamente para infiltração percutânea; apresentações de um mesmo anestésico podem ter instruções diferentes.

Concentração e volume. Lidocaína a 2% entrega o dobro de miligramas por mililitro da solução a 1%. Para uma mesma dose, o volume permitido cai à metade. A infiltração deve respeitar a formulação e o limite calculado.

Formas de fechamento. Nomeie o estado da ferida e o plano: fechamento imediato, manutenção aberta para cicatrização ou reavaliação com possibilidade de fechamento retardado. Termos genéricos sobre intenção de cicatrização não substituem essa descrição.

Fechamento primário retardado. Após limpeza e desbridamento, a ferida permanece protegida e recebe inspeção diária. O esquema descrito considera fechamento no terceiro ou quarto dia se não houver infecção e a avaliação permitir; é um plano de cuidado com retorno definido.

Tempo desde o trauma. Intervalos de seis a oito ou dezoito horas pertencem a contextos distintos. Não há fronteira temporal universal para toda ferida. Integre mecanismo, contaminação, perfusão, viabilidade, hospedeiro e avaliação após limpeza e desbridamento.

Escolha do fio. Defina material e calibre pela região, tensão e plano a aproximar, usando a orientação técnica do serviço. Uma remissão para tabela ausente não permite deduzir o calibre nem escolher automaticamente o fio que já está na bandeja.

Irrigação. Os materiais descritos incluem salina a 0,9%, frasco de 500 mL e seringa de 20 mL. Um frasco corresponde a 25 enchimentos, mas isso não estabelece uma dose fixa de irrigação: o objetivo é retirar sujidade e avaliar adequadamente a ferida.

Identificação da agulha. A dimensão 40 × 12 usada na nomenclatura brasileira não equivale a 12 Gauge. Confira a embalagem e o dispositivo de irrigação previsto; uma abreviação ambígua pode levar à escolha de material diferente.

Retirada dos pontos. A referência citada indica cinco dias na face, dez a doze em membros inferiores e articulações e sete nas demais regiões. Registre a data e o local do retorno, considerando a ferida e sua evolução; o nome da região não dispensa reavaliação.

Janelas de vigilância. Os prazos de 30 e 90 dias citados para determinadas operações pertencem à vigilância de infecção de sítio cirúrgico. Não são prazos de retirada dos pontos nem períodos para esperar a ferida traumática melhorar.

Seguimento da ferida traumática. A classificação epidemiológica de uma incisão operatória tem outro escopo. Na sutura do pronto-socorro, acompanhe dor, eritema, drenagem, deiscência e função, documentando o retorno e as complicações do procedimento.

08

A conduta, hora a hora

Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.

O que segue é a sala de sutura do Rubinaldo, do minuto zero até a porta, com o relógio da parede. Ele tem trinta e oito anos, noventa e seis quilos, corte reto de cinco centímetros na palma esquerda, na base do quinto dedo, feito com faca de desossa às 18h40. São 22h50 quando ele senta na maca: quatro horas e dez minutos de ferimento.

A ordem dos marcos não é arbitrária e três inversões comuns quebram o resultado — examinar depois de anestesiar, anestesiar antes de limpar a pele em volta, e irrigar antes de anestesiar. Cada marco traz, quando cabe, as linhas do que se prescreve ou se escreve.

  1. 22h50 — a pergunta que antecede a bandeja: o que há embaixo

    Antes de abrir pacote, antes de calçar luva estéril, com o curativo improvisado ainda no lugar: teste função. Flexão contra resistência da interfalangiana distal e da proximal do quinto dedo, isoladamente. Sensibilidade das duas faces laterais da polpa do quinto dedo, comparada com o quarto e com a mão direita. Enchimento capilar e temperatura da polpa. Rubinaldo tem força simétrica, sensibilidade preservada nas duas faces e perfusão normal. Isso mantém a ferida dentro da definição de superficial e mantém o procedimento na sua mão. Se qualquer um dos três estivesse alterado, o marco seguinte seria um telefonema, não uma seringa.

    Prescrição
    • Registrar em prontuário: hora do trauma 18h40, chegada 22h30, início do atendimento 22h50
    • Registrar: mecanismo (faca de desossa), força e sensibilidade preservadas no quinto dedo, perfusão distal normal
    • Perguntar e registrar: peso 96 kg, alergias, uso contínuo de medicamentos, cartão de vacina
  2. 22h55 — a primeira limpeza, que é da pele e não da ferida

    A área ao redor da ferida é limpa com água e sabão ou com solução antisséptica não irritativa, e o antisséptico fica na pele íntegra adjacente — nunca no leito. Essa é a regra do caderno 30, e a razão de ela vir antes da anestesia está escrita no mesmo documento: anestesiar antes de limpar a pele pode aumentar a contaminação dos tecidos, porque a agulha atravessa o que estiver ali. Palma de cozinheiro que trabalhou quatro horas depois do corte é exatamente o caso em que isso importa.

    Prescrição
    • Limpeza da pele perilesional com água e sabão, seguida de antisséptico apenas na pele íntegra ao redor
    • Não aplicar antisséptico no leito da ferida
  3. 23h00 — a anestesia, com a conta feita antes de aspirar

    Leia o frasco: agente, concentração, presença de vasoconstritor e prazo de uso. No exemplo, lidocaína 2% sem vasoconstritor contém 20 mg/mL. Para Rubinaldo, 96 kg, a conta de 4,5 mg/kg dá 432 mg, mas prevalece o menor limite da bula adotada: 300 mg, equivalentes a 15 mL. Esse é teto, não volume a administrar; use a menor dose eficaz, com reduções quando indicadas e registro de doses já recebidas. Aspire e injete em frações, observando toxicidade. Sem vasoconstritor: é ferida traumática, e nela esta apostila adota o caderno 30, que o evita pelo risco de infecção em qualquer região; se o corte chegasse ao dedo, haveria um segundo motivo, em que a bula do produto com epinefrina e o caderno 30 concordam — o risco de isquemia. A epinefrina diluída que a cirurgia eletiva da mão usa no dedo, fora do Brasil, é evidência estrangeira, está rotulada no bloco de divergências e não muda a conduta desta sala.

    Prescrição
    • Lidocaína 2% sem vasoconstritor, teto de 300 mg = 15 mL para este paciente
    • Infiltração subcutânea pelas bordas da ferida, com aspiração antes de cada injeção
    • Registrar em prontuário o volume efetivamente infiltrado
  4. 23h05 — a irrigação, que é a parte que decide

    Agora, e só agora, o leito. Soro fisiológico 0,9% morno, seringa de 20 mL, agulha 40 × 12 mm, jato dirigido contra toda a superfície do leito, com o membro posicionado para que o líquido escorra para fora e não circule. A régua do caderno 4 da Anvisa diz frasco de 500 mL e limpeza exaustiva até sair o que houver de debris e crostas — o que, com seringa de 20 mL, são vinte e cinco enchimentos. Ninguém faz vinte e cinco. Mas a distância entre três seringadas e quinze é a distância entre um gesto simbólico e a intervenção que mais reduz risco nesta sala, e é a única parte do procedimento cujo custo é exclusivamente o seu tempo.

    Prescrição
    • Irrigação do leito com soro fisiológico 0,9% morno, seringa de 20 mL e agulha 40 × 12 mm, até o retorno sair limpo
    • Registrar o volume irrigado
  5. 23h15 — explorar, desbridar, e procurar o que a mão segurava

    Com a ferida anestesiada e lavada, afaste as bordas com pinça e olhe o fundo sob luz dirigida. Procura-se aponeurose palmar aberta, falha parcial de tendão, e corpo estranho — nesta ferida, fragmento de osso da desossa é o candidato mais provável, e fragmento ósseo pequeno pode não aparecer na radiografia. Desbride apenas o tecido desvitalizado e as bordas maceradas, sem ampliar a perda: o objetivo do caderno 30 é remover o que a limpeza não removeu e acertar as bordas para a síntese, não esculpir. Se a exploração deixar dúvida de corpo estranho retido, isso muda a decisão do marco seguinte.

    Prescrição
    • Exploração do leito sob luz dirigida, com afastamento das bordas
    • Desbridamento econômico do tecido desvitalizado e das bordas maceradas
    • Registrar em prontuário: fundo visualizado, ausência de exposição tendínea e de corpo estranho
  6. 23h25 — a decisão de fechar, dita em voz alta

    A ferida tem quatro horas e quarenta e cinco minutos, mas a decisão não depende apenas desse relógio. É incisa, com bordas regulares e perfundidas, sem perda de substância, corpo estranho ou tecido desvitalizado após limpeza e desbridamento; o hospedeiro não apresenta os fatores de risco identificados. Com aproximação sem tensão e seguimento viável, a equipe indica fechamento primário. Registrar esses motivos.

    Prescrição
    • Registrar a decisão e o motivo: fechamento primário, ferida incisa limpa de 4h45, sem contraindicação
  7. 23h30 — a síntese: pontos separados, tensão que aproxima

    Palma de mão, região de flexão constante e pele espessa: fio de náilon monofilamentar, 4-0 pelo guia municipal para mão e dedos. Pontos simples separados, que o caderno 30 prefere por serem seguros e permeáveis, o que importa numa ferida com contaminação possível. Tensão suficiente para aproximar borda com borda, suavemente, sem esmagar; distância entre pontos suficiente para não deixar borda solta e para não estrangular a circulação entre eles. O subcutâneo palmar não é espesso o bastante para exigir plano próprio aqui — mas se fosse, ele iria em fio absorvível, em pontos separados, para não deixar espaço morto.

    Prescrição
    • Náilon 4-0, pontos simples separados
    • Curativo estéril até a retirada dos pontos, trocado se molhar, sujar ou soltar
    • Imobilização funcional não indicada nesta ferida; orientar repouso relativo da mão
  8. 23h45 — a porta: o que sai escrito e o que sai dito

    A parte do procedimento que mais frequentemente falha é esta, e ela não usa instrumento nenhum. O paciente sai com uma data escrita de retirada de pontos — mão cai em outras regiões do corpo pela régua nacional, então sete dias, o que dá a sexta-feira seguinte —, com a instrução do curativo, com os quatro sinais que o trazem de volta antes, e com a informação de que a mão vai doer mais amanhã que hoje e menos depois de amanhã. Rubinaldo é cozinheiro e vai voltar a segurar faca: isso entra na conversa, não como conselho genérico de repouso, mas como o que ele vai fazer na segunda-feira.

    Prescrição
    • Retorno para retirada de pontos em 7 dias, com a data escrita no papel
    • Retornar antes se: vermelhidão que se espalha além da borda; dor que aumenta em vez de diminuir depois do segundo dia; secreção amarelada ou com cheiro; febre
    • Manter a ferida coberta até a retirada dos pontos, limpar com soro fisiológico uma vez ao dia, sem água corrente, e trocar o curativo se molhar, sujar ou soltar
    • Encaminhar ao capítulo de tétano do serviço: conferir cartão e decidir profilaxia antitetânica antes da saída
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Como saber se está funcionando

Reavaliar uma ferida suturada tem um problema estrutural que quase nenhum outro procedimento tem: quem reavalia costuma não ser quem suturou, e não existe registro que ligue as duas coisas. Isso muda o que o interno precisa fazer — não é acompanhar, é deixar o próximo leitor capaz de acompanhar.

Há uma assimetria útil de conhecer: os sinais que dizem que está indo bem são poucos e chatos, e os que dizem que algo mudou são específicos e aparecem em ordem. A dor muda antes da cor, a cor muda antes da secreção, e a febre é a última a chegar — quando ela aparece, as três anteriores já estavam lá havia um ou dois dias e ninguém olhou. Por isso a orientação de alta se organiza em torno de dor e vermelhidão, e não em torno de febre, que é o que o paciente naturalmente vigia.

Vale ainda uma advertência sobre a linha de base. Toda ferida suturada fica um pouco vermelha, um pouco endurecida e um pouco dolorida nas primeiras quarenta e oito horas: é a fase inflamatória, e ela é indistinguível do começo de uma infecção por uma foto isolada. O que distingue as duas é a derivada — para onde o achado está indo entre uma observação e a seguinte. É por isso que quase todos os parâmetros abaixo são escritos como trajetória e não como valor.

Os parâmetros valem tanto para o retorno programado quanto para a reavaliação que acontece porque o paciente voltou assustado. Os prazos são os da régua nacional.

Curativo e limpeza da feridaDa alta à retirada dos pontos

Esperado: Curativo estéril íntegro, trocado se molhar, sujar ou soltar, e ferida limpa com soro fisiológico uma vez ao dia, sem água corrente, até a retirada dos pontos — a orientação do guia de sutura simples de 2024, que esta apostila adota; expor a incisão sem exsudato é a régua pós-operatória do caderno 4 da Anvisa

Se não melhora: Curativo molhado, solto ou sujo se troca na hora, e a troca é oportunidade de olhar a ferida — não de repetir gaze por cima. Curativo que adere à linha de sutura se solta com soro fisiológico e não com tração, porque arrancar a crosta é reabrir a ferida

Borda: largura da hiperemiaDo segundo ao quinto dia

Esperado: Faixa estreita de hiperemia acompanhando a linha de sutura, estável ou diminuindo; a nota técnica da Anvisa não considera inflamação mínima como infecção

Se não melhora: Hiperemia que se alarga dia a dia, ultrapassa a borda e avança pela pele sã é celulite, e sai do escopo deste capítulo para o de antibioticoterapia. Marcar a borda do eritema com caneta e datar transforma uma impressão em medida, e é o que permite ao próximo profissional saber se piorou

Dor: trajetória, não intensidadeDiária, pela informação do paciente

Esperado: Pico nas primeiras 24 a 48 h e queda progressiva depois; é a trajetória, e não o número, que informa

Se não melhora: Dor que aumenta a partir do terceiro dia é o sinal mais precoce e mais confiável de que algo mudou, e precede a hiperemia; obriga reavaliação presencial

Secreção: quantidade e origemA cada troca de curativo

Esperado: Serosa, escassa, saindo pelos orifícios dos pontos, diminuindo ao longo dos dias

Se não melhora: Secreção purulenta, ou drenagem que aumenta, indica abrir a ferida — o que significa retirar pontos, não acrescentar curativo; ferida infectada volta ao tratamento aberto, com colheita de material antes de qualquer antimicrobiano e gaze umedecida em salina, como manda a régua nacional

Integridade da linha de suturaNa retirada dos pontos e antes dela, se houver queixa

Esperado: Bordas coaptadas, sem afastamento, sem necrose de borda e sem ponto cortando a pele

Se não melhora: Sinal de deiscência durante a retirada obriga a interromper: o caderno 30 manda deixar alguns pontos de ancoragem, reforçar com adesivo e reavaliar em dois a três dias para completar a retirada

Função da região suturadaNa retirada dos pontos, e antes se a ferida for de mão

Esperado: Recuperação progressiva de movimento e de sensibilidade; na ferida de mão, comparação com o mesmo dedo do lado oposto

Se não melhora: Déficit motor ou sensitivo que aparece ou persiste depois que a anestesia passou significa lesão não identificada na sala, e obriga avaliação cirúrgica — não obriga esperar a cicatriz

O retorno aconteceuNa data escrita

Esperado: Paciente com o papel na mão, na data marcada, sabendo o que vem a seguir

Se não melhora: Ausência ao retorno é o desfecho mais comum e o menos registrado; pontos esquecidos em membro inferior por três semanas epitelizam por cima e viram outro procedimento. Data escrita e não apenas dita é a única medida que muda isso na sua mão

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Onde o erro machuca

Suturar antes de examinar a função

O dano: É o erro que mais custa ao paciente e o mais fácil de cometer, porque a ferida bonita convida ao ponto. Uma vez anestesiada a região, sensibilidade não se testa mais e força perde parte do valor; uma vez fechada a pele, some o único acesso visual ao tendão. Lesão de nervo digital descoberta três semanas depois tem prognóstico pior que a mesma lesão reparada na primeira semana.

Como pegar a tempo: Movimento contra resistência, sensibilidade comparada lado a lado e perfusão distal são três manobras e levam noventa segundos. Elas vêm antes de abrir o pacote de curativo, não depois. E o achado — normal ou alterado — vai escrito, porque quem lê depois precisa saber que foi procurado.

Inverter a ordem das duas limpezas

O dano: Quem anestesia antes de limpar a pele em volta empurra contaminação de superfície para o subcutâneo com a agulha, que é o que o caderno 30 avisa. E quem irriga o leito antes de anestesiar irriga mal, porque dói: a irrigação vira três jatos tímidos, e a intervenção de maior efeito do procedimento é justamente a que fica pela metade.

Como pegar a tempo: A sequência é fixa e vale decorar como sequência, não como princípio: limpa a pele em volta, anestesia, irriga o leito com força, desbrida, decide, fecha.

Passar do teto do anestésico por não saber a concentração do frasco

O dano: É o erro silencioso do capítulo, porque a toxicidade sistêmica não aparece na hora nem tem sinal precoce óbvio — a bula lista agitação, zumbido, vertigem, visão nebulosa e sonolência como primeiras manifestações, todas atribuíveis ao nervosismo do paciente. Um frasco-ampola de 2% tem 400 mg e o teto do adulto sem vasoconstritor é 300 mg: o frasco inteiro já estoura.

Como pegar a tempo: Leia a concentração antes de aspirar e converta o teto em mililitros na hora: sem vasoconstritor, 300 mg são 30 mL a 1% ou 15 mL a 2%; com vasoconstritor, 500 mg são 50 mL a 1% ou 25 mL a 2%. Anote o volume infiltrado no prontuário, que é o único jeito de a segunda infiltração da noite saber quanto já foi.

Pôr antisséptico dentro da ferida

O dano: Iodopovidona ou clorexidina no leito atrasa a cicatrização por citotoxicidade sobre o tecido de granulação — e, segundo o próprio caderno 30, sequer é o mecanismo mais eficiente de reduzir a contagem bacteriana. Perde-se dos dois lados: o paciente recebe o dano e não recebe o benefício que se imaginava estar comprando.

Como pegar a tempo: Antisséptico na pele íntegra ao redor; soro fisiológico com volume e força dentro. Se a vontade de usar antisséptico no leito vier de a ferida estar suja, a resposta é mais soro e mais desbridamento, não outro produto.

Fechar a ferida que a régua manda não fechar

O dano: Fechar tecido desvitalizado, mal perfundido ou inadequadamente limpo, ou ignorar corpo estranho e risco do hospedeiro, aumenta a chance de infecção e falha. Mordeduras e apresentações tardias exigem avaliação cuidadosa, mas não equivalem a uma proibição sem exceções. Se houver infecção depois do fechamento, pode ser necessário retirar pontos, drenar e revisar a terapêutica.

Como pegar a tempo: Guarde as quatro contraindicações nominadas do caderno 30 e guarde sobretudo a terceira via, que quase ninguém usa: o fechamento primário retardado, com limpeza rigorosa, gaze estéril, inspeção diária e sutura no terceiro ou quarto dia se não houver infecção. Não fechar não é o mesmo que abandonar.

Mandar o paciente embora sem data escrita de retirada

O dano: Um ponto de náilon esquecido por três semanas em membro inferior epiteliza por cima e passa a exigir procedimento para sair, com marca definitiva; e a orientação verbal de voltar no posto tem adesão baixa exatamente na população que mais frequenta a sala de sutura. A régua nacional é curta e resolve a maior parte dos casos: cinco dias na face, dez a doze em membros inferiores e sobre articulações, sete no resto.

Como pegar a tempo: Escreva a data — não o número de dias — num papel que sai com o paciente, junto com os quatro sinais de retorno antecipado. Se a ferida cair numa das regiões que a régua joga em outras regiões do corpo, o prazo de sete dias é ponto de partida e a tensão local ajusta.

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O que dizer ao paciente e à família

Três das sete conversas abaixo não são com o paciente. Na sala de sutura, o interno negocia tempo com a técnica de enfermagem, negocia escopo com o plantonista, e negocia expectativa com o acompanhante — e nenhuma dessas três é ensinada.

As falas trazem o que dizer e, quando importa, o que a frase natural estraga.

O paciente com pressa, antes de você ter examinado nada

Seu Rubinaldo, a costura em si leva uns dez minutos. O que leva tempo é o antes, e é a parte que decide se o senhor vai voltar aqui na quarta-feira com a mão inchada. Vou testar a força e a sensibilidade dos dedos agora, porque depois da anestesia eu não consigo mais, e depois vou lavar essa ferida por dentro com bem mais soro do que o senhor imagina. Se a gente pular isso, termina mais rápido hoje e piora a chance de dar certo.

Não diga: Prometer que vai ser rápido para acalmar. A pressa do paciente é legítima e vai voltar dez minutos depois; o que resolve é ele entender por que a espera existe, não ouvir que não vai haver espera.

Explicando por que esta ferida não vai ser fechada hoje

Seu Nivardo, eu não vou costurar esse ferimento hoje, e não é porque ele é pequeno demais: é porque é mordida. Fechar a pele por cima de uma mordida é fechar bactéria dentro, e aí em vez de um machucado o senhor tem um abscesso na semana que vem. Vou lavar bem, tirar o que está machucado nas bordas, deixar aberto com curativo, e o senhor volta amanhã para eu olhar. Se em três ou quatro dias estiver limpo, aí sim a gente costura — e cicatriza bem do mesmo jeito.

Não diga: Dizer só "mordida não pode costurar". A frase é verdadeira e soa como recusa de atendimento; sem a segunda metade — que existe um plano com data — o paciente procura outro serviço, onde alguém costura.

A pergunta que todo paciente faz na porta: pode molhar?

O curativo fica em cima dos pontos até o dia de tirar; se molhar, sujar ou soltar, a senhora troca na hora. Uma vez por dia, tira o curativo, limpa devagar com soro fisiológico, seca com pano limpo sem esfregar em cima da linha dos pontos e põe outro. No banho, a água do chuveiro não pode cair em cima dos pontos: proteja a ferida. Se molhar sem querer, seca, limpa com soro e troca o curativo.

Não diga: Improvisar a resposta na hora, diferente a cada plantão. O paciente que ouve "pode molhar" de um e "não pode molhar" de outro deixa de acreditar nos dois, e a orientação seguinte — a dos sinais de alarme — perde valor junto.

As quatro coisas que fazem o paciente voltar antes do dia marcado

Dona Jovelina, a senhora volta na data que está escrita aqui. Mas volta antes se acontecer uma destas quatro coisas: se a vermelhidão passar da beirada e for espalhando pela perna; se a dor aumentar em vez de diminuir depois de amanhã; se sair secreção amarelada ou com cheiro; ou se a senhora tiver febre. Qualquer uma dessas, é vir — não é esperar a data.

Não diga: Dizer "qualquer coisa procure atendimento". É o conselho mais dado e o mais inútil da sala de sutura: transfere para o paciente a tarefa de decidir o que é qualquer coisa, que é exatamente o que ele não sabe fazer.

Com a técnica de enfermagem, sobre o tempo da irrigação

Iolina, antes de eu começar a costurar eu vou precisar de mais soro — pode deixar dois frascos de 500 aqui? Sei que demora, mas essa parte é a que muda o resultado, e prefiro gastar dez minutos aqui a ver ele voltar na quarta. Se aparecer alguém grave na sala vermelha, me chame que eu paro.

Não diga: Pedir material sem explicar, ou irrigar pouco por constrangimento de estar demorando. A sala de sutura tem uma pressão silenciosa de fila, e ela empurra sempre na direção de lavar menos.

Com a plantonista, quando o exame mudou o escopo

Doutora Rosicler, o corte da palma tem perda de sensibilidade na face medial da polpa do quinto dedo, comparada com o quarto e com a mão direita, e a força de flexão da interfalangiana distal está menor. Testei antes de anestesiar. Pela definição do manual isso sai de ferida superficial, então eu queria a senhora olhando antes de eu decidir se aproximo a pele e encaminho ou se seguro aqui até a cirurgia ver.

Não diga: Chamar dizendo "acho que é fundo". Chamar com os três achados nomeados e com a informação de que foram colhidos antes da anestesia é o que faz a plantonista sair da sala vermelha — e é o que ela não vai conseguir refazer depois.

Com a mãe da criança, sobre a alternativa ao ponto

O corte do Guaraci é superficial, as bordas encostam sozinhas e não tem tensão. Nesse caso a gente pode aproximar com fitinhas adesivas em vez de dar ponto: cicatriza igual, evita a injeção — que é a parte que ele vai lembrar — e a senhora não precisa voltar para tirar. Se ele coçar e soltar, a gente troca. Se a senhora preferir o ponto, também dá, e aí é anestesia e retorno em cinco dias.

Não diga: Apresentar a fita como o recurso de quem não tem material ou não sabe suturar. Ela está na definição de síntese do próprio manual do Ministério da Saúde, ao lado da sutura; oferecer como escolha informada é diferente de oferecer como consolo.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Pode molhar a ferida suturada no banho?

Pode, depois do curativo inicial — régua do pós-operatório da Anvisa (2017)

A régua federal de prevenção de infecção, nas medidas de controle pós-operatório, manda manter curativo estéril por 24 a 48 horas e, avaliada a incisão, se não houver exsudato, manter as incisões expostas até a remoção da sutura — recomendando, nesses casos, higienizar as incisões com água e sabão comum durante o banho e secar o local com toalhas limpas e secas.

Anvisa — Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, caderno 4, 2017, item 5.3.1.10

Não; limpar com soro uma vez ao dia e evitar água corrente — guia de sutura simples da atenção primária do Rio de Janeiro (2024)

O documento oficial brasileiro mais recente sobre sutura simples orienta manter a ferida limpa lavando suavemente com soro fisiológico uma vez ao dia e secando com cuidado, evitando o uso de água corrente, e proteger a ferida com curativo estéril, trocado quando necessário ou se estiver sujo ou úmido.

Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro — Guia de sutura simples para enfermeiros da Atenção Primária, 2024, seção de orientações e cuidados

Como decidir

No percurso adotado para a ferida traumática superficial, orientar limpeza suave com soro uma vez ao dia, secagem cuidadosa e curativo estéril, trocado se sujo ou úmido, até a retirada dos pontos; evitar água corrente conforme a referência selecionada. A orientação citada para incisão operatória tem outro contexto. Entregue o plano por escrito, com data de retorno e sinais de alarme.

Anestésico com vasoconstritor na ferida traumática

Evitar em ferida traumática, por risco de infecção

A régua nacional da ferida traumática superficial orienta evitar o uso de anestésicos associados a vasoconstritores porque a isquemia local favorece o aparecimento de infecções — recomendação ampla, que não distingue região do corpo. O mesmo documento reforça o ponto na anestesia digital: não se deve utilizar anestésico com vasoconstritor pelo risco de isquemia do dedo.

Ministério da Saúde — Procedimentos, Cadernos de Atenção Primária n. 30, 2011, seção 2.7, Anestesia

Contraindicado apenas em territórios de artérias finais; indicado quando o volume é grande

A bula brasileira do produto com vasoconstritor contraindica a epinefrina nas áreas supridas por artérias finais ou com suprimento sanguíneo comprometido — dedos, nariz, orelha externa, pênis — e não a proíbe fora delas; e a mesma bula instrui que, quando grandes volumes são necessários, somente soluções com vasoconstritor devem ser usadas, exceto onde as drogas vasopressoras sejam contraindicadas.

Cristália — bula profissional do Xylestesin® com vasoconstritor, seções de contraindicações e de posologia

Como decidir

O caso de ferida traumática segue o plano de anestesia sem vasoconstritor. Use o menor limite de dose por peso e dose total aplicável à formulação e ao paciente. O uso de epinefrina exige avaliar perfusão, técnica, bula e protocolo com o supervisor; resultados de cirurgia eletiva da mão não se transferem automaticamente a tecido traumatizado ou com perfusão comprometida. Se o volume necessário ultrapassar o limite seguro, mude o plano anestésico com profissional habilitado, sem exceder a dose.

Qual relógio governa o fechamento da ferida traumática

Seis horas, e o que ele muda é a classe da ferida

A régua federal de prevenção de infecção classifica como limpa-contaminada a ferida produzida acidentalmente com arma branca com menos de seis horas entre o trauma e o atendimento, sem contaminação significativa, e como contaminada a que já passou de seis horas do ato que a produziu. O documento atribui classe e risco estimado; não instrui sobre fechar ou não fechar.

Anvisa — caderno 4, 2017, Anexo VII (conceito e classificação de ferida)

Seis a oito horas, como contraindicação declaradamente relativa

A régua nacional da ferida traumática lista o intervalo maior que seis a oito horas entre o traumatismo e o início do tratamento como contraindicação ao fechamento primário, e imediatamente a relativiza com dois exemplos opostos: ferida limpa em jovem sadio pode ser fechada com evolução mais longa; ferida perfurante e suja em idoso debilitado não deve ser fechada mesmo abordada precocemente.

Ministério da Saúde — Procedimentos, Cadernos de Atenção Primária n. 30, 2011, seção 2.7, contraindicações do fechamento primário

Doze horas em face e couro cabeludo

O guia municipal de 2024 estende a janela de indicação de sutura simples para trauma ocorrido até seis a oito horas e até doze horas em locais de maior vascularização, nominalmente face e couro cabeludo, e repete a extensão na seção de contraindicações.

Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro — Guia de sutura simples para enfermeiros da Atenção Primária, 2024, seções 4 e 5

Como decidir

Os intervalos dos documentos descrevem contextos e riscos, sem estabelecer uma hora-limite universal. Para decidir, avaliar tempo, contaminação residual, viabilidade e perfusão dos tecidos, local, mecanismo e hospedeiro. Se o risco de fechar for excessivo, discutir fechamento retardado após reavaliação ou cicatrização aberta. Essa escolha exige curativos e retorno acessível; não significa deixar a ferida sem cuidado.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao Rubinaldo Brandolim: 38 anos, 96 kg, cozinheiro, corte reto de cinco centímetros na palma esquerda na base do quinto dedo, feito com faca de desossa às 18h40 de um sábado. Chega às 22h30 e é atendido às 22h50. Sem doenças conhecidas, sem medicação de uso contínuo, sem alergia. Na bandeja há um frasco-ampola de 20 mL de lidocaína a 2% sem vasoconstritor, fio de náilon 3-0 e 4-0, soro fisiológico em frascos de 500 mL, seringa de 20 mL e agulha 40 × 12.

  1. antes de qualquer coisa, testo função — e registro o resultado

    Flexão contra resistência da interfalangiana distal e da proximal do quinto dedo, isoladas; sensibilidade das duas faces laterais da polpa, comparada com o quarto dedo e com a mão direita; enchimento capilar e temperatura. Tudo normal. Isso mantém a ferida dentro da definição de superficial do caderno 30 — sem lesão de nervo, tendão ou vaso de calibre — e mantém o procedimento comigo. O achado normal vai escrito com o mesmo cuidado com que iria o alterado, porque é o que prova que foi procurado.

  2. anoto três horas, não uma

    Trauma às 18h40, chegada às 22h30, início do atendimento às 22h50. São quatro horas e dez minutos até a chegada e quatro horas e cinquenta minutos até a sutura. Escrever "ferida de algumas horas" tornaria impossível, para quem lesse depois, conferir qualquer uma das três réguas de tempo em circulação.

  3. limpo a pele em volta antes de anestesiar

    Água e sabão na palma e no dorso, depois antisséptico apenas na pele íntegra em torno da ferida. É a ordem que o caderno 30 impõe, com a justificativa explícita de que anestesiar antes pode aumentar a contaminação dos tecidos. E o antisséptico não entra no leito: a mesma seção proíbe, por citotoxicidade e por não ser o mecanismo mais eficiente de reduzir a contagem bacteriana.

  4. faço a conta do teto antes de aspirar, e ela é curta

    Lidocaína a 2% sem vasoconstritor: teto de 4,5 mg/kg e no máximo 300 mg. Em 96 kg, 4,5 × 96 = 432 mg, acima do teto absoluto — logo manda o teto: 300 mg, que a 20 mg/mL são 15 mL. Menos que o frasco inteiro, que tem 400 mg. Numa ferida de cinco centímetros vou usar bem menos que isso, e a conta serve para eu saber onde é o limite se a noite trouxer uma segunda ferida no mesmo paciente. E sem vasoconstritor, que é o que a bandeja tem e o que eu escolheria de qualquer forma: é ferida traumática, e esta apostila segue o caderno 30, que o evita pelo risco de infecção — o motivo é a ferida, não a mão.

  5. irrigo depois de anestesiado, e irrigo de verdade

    Soro fisiológico morno, seringa de 20 mL com agulha 40 × 12, jato dirigido ao leito com a mão posicionada para escorrer para fora. A régua da Anvisa fala em frasco de 500 mL e limpeza exaustiva; a do caderno 30, em seringa de 20 mL. Vinte e cinco seringadas é o que os dois documentos juntos descrevem, e é mais do que qualquer serviço faz — mas a diferença entre três e quinze é a diferença entre gesto e intervenção, e é a única parte do procedimento cujo custo é só o meu tempo.

  6. exploro o fundo procurando o que a mão segurava

    Bordas afastadas com pinça, luz dirigida, fundo visualizado em toda a extensão. Numa ferida de faca de desossa, o corpo estranho provável é fragmento ósseo — e fragmento pequeno pode não aparecer na radiografia, o que faz da exploração direta o exame, e não o complementar. Nada encontrado. Desbridamento econômico das bordas maceradas, apenas o necessário para acertá-las para a síntese.

  7. confiro as quatro contraindicações e digo a decisão em voz alta

    Após limpeza e avaliação, encontro bordas viáveis e aproximáveis sem tensão, suprimento sanguíneo adequado, ausência de corpo estranho e de contaminação relevante; não se trata de mordedura e o hospedeiro não apresenta fatores de risco identificados. O intervalo de quatro horas e cinquenta minutos integra essa avaliação, sem decidir sozinho. Indico fechamento primário com a equipe e registro os motivos e o retorno.

  8. fecho, e depois faço a parte que mais falha

    Náilon 4-0, pontos simples separados, tensão que aproxima borda com borda sem esmagar. Curativo estéril, que fica até a retirada dos pontos. E então o papel: data escrita de retirada em sete dias — mão cai em outras regiões do corpo na régua nacional —, os quatro sinais de retorno antecipado, a orientação de curativo — soro fisiológico uma vez ao dia, sem água corrente, e troca se molhar ou sujar —, e a conferência do cartão de vacina, que se decide pela grade do capítulo de tétano. Rubinaldo é cozinheiro e volta a segurar faca na segunda: isso entra na conversa com nome e data, não como recomendação genérica de repouso.

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Faça você

Agora é a dona Jovelina Cerqueiro, 74 anos, 54 quilos, aposentada, em prednisona 15 mg por dia há oito meses por polimialgia reumática. Bateu a canela direita na quina da cama às 11h da manhã e chega às 22h — onze horas de evolução. Na face anterior da perna direita há um retalho de pele de sete centímetros, com a base voltada para o pé, levantado como uma tampa; a borda livre do retalho está arroxeada. A pele em volta é atrófica e descolou epiderme quando a filha retirou a fita do curativo improvisado. Não há exposição óssea, não há corpo estranho visível, o pé está quente e com enchimento capilar normal. Ela mora sozinha, a filha trabalha, e as duas dizem que voltar todo dia vai ser difícil. Decida a conduta e escreva o que sai no papel.

  1. primeiro examino a função e a perfusão do retalho

    Movimento de tornozelo e dedos, sensibilidade do dorso do pé, enchimento capilar e temperatura distais — todos normais, o que é favorável, mas não exclui lesão parcial ou profunda sem exploração e avaliação apropriadas. Mas há um segundo exame, o do próprio retalho: cor, temperatura e sangramento da borda livre. A borda arroxeada de um retalho de base distal é sinal de suprimento marginal, e esse achado entra direto numa das quatro contraindicações nominadas.

  2. conto as horas e reconheço que o relógio sozinho não decide

    Onze horas de evolução não contraindicam, sozinhas, fechamento. Neste paciente, avaliar especialmente fragilidade, perfusão, contaminação e viabilidade das bordas após limpeza. A condição do hospedeiro e da ferida pode favorecer manejo aberto ou fechamento retardado; a decisão deve ser justificada por esses achados, sem usar o relógio como veto automático.

  3. somo o hospedeiro à ferida

    Da lista de doze condições que aumentam o risco de resultado insatisfatório, ela tem pelo menos três: uso de esteroides, procura tardia por tratamento — mais de dezoito horas é o corte declarado, e ela está em onze, portanto ainda fora deste item — e extensão da lesão. Some-se a atrofia cutânea do corticoide, que não é item da lista mas é o mecanismo pelo qual a pele não segura ponto.

  4. limpo na sequência certa, mesmo sabendo que talvez não vá suturar

    Pele em volta com água e sabão; anestesia local, com a conta feita — 4,5 × 54 = 243 mg, abaixo do teto absoluto, então aqui manda o peso, e a 2% isso são 12,2 mL; sem vasoconstritor, pela orientação do caderno 30 para ferida traumática e pelo suprimento marginal do retalho. Depois, irrigação abundante do leito e da face profunda do retalho, e desbridamento apenas do que estiver claramente inviável.

  5. escolho o método de síntese, que não é necessariamente o ponto

    A definição de síntese do caderno 30 inclui fitas adesivas e adesivos como métodos legítimos ao lado da sutura, e a pergunta aqui é qual deles aproxima sem tensão. Ponto de náilon em pele atrófica sob tensão faz isquemia de borda numa borda que já está arroxeada.

  6. resolvo o problema social antes de escolher a via

    A terceira via — fechamento primário retardado, com inspeção diária e sutura no terceiro ou quarto dia — depende inteiramente de ela conseguir voltar todos os dias, e as duas disseram que não. Isso não elimina a via: transfere a pergunta para onde a inspeção diária pode acontecer.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    A sutura de Rubinaldo deve preservar a função da mão. Conecte o exame anterior à anestesia com o exame final e com o que ele precisa saber para trabalhar e retornar com segurança.

  8. Questão integrativa 1

    O que examinar antes de anestesiar a mão de Rubinaldo?

  9. Questão integrativa 2

    Quinze mililitros de lidocaína 2% são a dose desejada?

  10. Questão integrativa 3

    Uma ferida de cinco centímetros exige fechamento imediato só pelo tamanho?

  11. Questão integrativa 4

    Epinefrina é proibida em toda mão independentemente da perfusão?

  12. Questão integrativa 5

    Como agir diante de zumbido, alteração neurológica ou arritmia durante a infiltração?

  13. Questão integrativa 6

    O que precisa constar da alta?

Ver como fecharíamos

A ferida não deve ser fechada com sutura sob tensão, e a razão mais forte não é o relógio: é a segunda contraindicação nominada do caderno 30, tecidos com suprimento sanguíneo inadequado. O retalho tem base distal numa região cuja vascularização cutânea corre de proximal para distal, e a borda arroxeada é o sinal clínico disso. Some-se a pele atrófica por oito meses de prednisona, que não segura ponto, e a região pré-tibial, onde não há folga de pele para aproximar sem tensão. As onze horas reforçam, mas sozinhas seriam critério relativo — o próprio documento avisa isso e dá o exemplo do idoso debilitado. A conduta é limpar na sequência completa — pele em volta, anestesia com a conta feita (243 mg de teto, 12,2 mL de lidocaína a 2% sem vasoconstritor), irrigação abundante do leito e da face profunda do retalho, desbridamento apenas do inviável — e então reposicionar o retalho na sua posição anatômica sem tensão, fixando com fitas adesivas de aproximação, que a definição de síntese do caderno 30 lista ao lado da sutura. Curativo estéril não aderente, e a perna elevada. O problema que decide o resto é social, e ele precisa ser resolvido antes de a paciente sair. O fechamento primário retardado exige inspeção diária em condições assépticas, e elas disseram que não conseguem voltar todo dia. As saídas reais são três, na ordem de preferência: acionar a unidade básica de referência para curativo domiciliar ou na própria unidade, que é o serviço que existe para isso; agendar retorno em 48 horas neste serviço, aceitando a inspeção menos frequente e compensando-a com orientação de alarme mais rigorosa; ou, se nem uma nem outra, considerar observação hospitalar breve, que é a única opção que não depende dela. Escolher a primeira e escrever a quem se falou, com nome, é parte da conduta — não é encaminhamento genérico. No papel saem: a data do retorno, escrita; os quatro sinais de retorno antecipado; a orientação de curativo do serviço; a informação de que não houve sutura e por quê, para que o próximo profissional não interprete a ferida aberta como abandono; e a conferência do cartão de vacina, que se decide pela grade do capítulo de tétano, na apostila de Infectologia. Uma observação de calibragem, que é julgamento clínico e não régua: corticoide em dose imunossupressora e idade avançada mudam a decisão sobre imunização passiva naquele capítulo, e vale conferir lá antes de ela sair. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Perfusão, sensibilidade e função tendínea e motora pertinentes; anestesia pode apagar parte do exame inicial. 2. Não. No exemplo, são o teto de 300 mg; administrar a menor dose eficaz, considerando reduções e doses prévias. 3. Não. Profundidade, contaminação, corpo estranho, lesão associada, tecido viável e contexto definem o plano. 4. A pergunta mistura dois motivos. Na ferida traumática, esta apostila não usa vasoconstritor em região nenhuma, mão incluída, pelo caderno 30 — o motivo é infecção, não anatomia. Como regra anatômica, a proibição vale para o dedo, onde bula e caderno 30 concordam pelo risco de isquemia, mesmo fora da ferida traumática; na palma, fora da ferida traumática, a bula não põe contraindicação anatômica, e decide-se pela perfusão, com supervisão — em tecido isquêmico, nunca. 5. Parar a administração, pedir ajuda imediatamente e iniciar a abordagem institucional de possível toxicidade sistêmica por anestésico local. 6. Cuidados com curativo e atividade, sinais de infecção ou déficit funcional, plano de revisão e retirada de pontos e situação da profilaxia antitetânica.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

No documento citado, os prazos de referência são cinco dias para face, dez a doze para membros inferiores e regiões articulares e sete para outras regiões. Assim, a alternativa A corresponde ao esquema solicitado. Esses intervalos não substituem a avaliação da cicatrização, tensão da ferida e condições individuais antes da retirada. A localização da ferida da mão fora de articulações foi explicitada para evitar enquadramentos diferentes. Se houver deiscência durante a retirada, o documento orienta conservar pontos de ancoragem, reforçar com adesivo e reavaliar em dois a três dias.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as quatro contraindicações nominadas ao fechamento primário e, ao lado de cada uma, o que você faria em vez de fechar. Depois escreva os dois tetos de lidocaína do adulto — com e sem vasoconstritor — em miligramas por quilo e em miligramas absolutos, e converta cada um em mililitros a 1% e a 2%. Confira contra a tabela do capítulo. Se errar o de 2%, é o erro que importa.

Em 30 dias

Pegue o Rubinaldo e mude um dado por vez, dizendo qual passo da conduta muda: se a ferida fosse no supercílio de uma criança de 22 kg; se tivesse doze horas em vez de cinco; se fosse mordedura de cão no mesmo lugar; se ele estivesse em corticoide; se o frasco na bandeja fosse de 1% em vez de 2%. Depois, do lado de fora do capítulo: no próximo plantão, cronometre a irrigação de uma ferida sua e anote quantos mililitros passaram. É a única medida deste capítulo que ninguém vai coletar por você.

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Agora atenda

Agora atenda: sábado, três da tarde, pronto-socorro. Um pedreiro de 40 anos chega trazido pela esposa, cinco horas depois de pisar num prego durante a reforma da própria casa, e a primeira pergunta dele é se vai ter de tomar a antitetânica. Antes de pensar em ponto, examine a ferida e o pé inteiro — sensibilidade, movimento, circulação e o que pode ter ficado lá dentro —, anote a hora do ferimento e a do atendimento e descubra o que a vacinação dele permite afirmar. Decida em voz alta se essa ferida se fecha ou fica aberta, e por quê, e combine o cuidado em casa e o que o faz voltar.