Cirurgia GeralProcedimentos e Vias de Acesso

Paracentese

Investigar ascite e infecção, escolher uma janela segura e planejar retirada de líquido, albumina e reavaliação conforme a indicação.

Fontes deste capítulo

Aithal GP, Palaniyappan N, China L, Härmälä S, Macken L, Ryan JM, et al. Guidelines on the management of ascites in cirrhosis. Gut. 2021;70(1):9-29. doi:10.1136/gutjnl-2020-321790.

Biggins SW, Angeli P, Garcia-Tsao G, Ginès P, Ling SC, Nadim MK, Wong F, Kim WR. Diagnosis, Evaluation, and Management of Ascites, Spontaneous Bacterial Peritonitis and Hepatorenal Syndrome: 2021 Practice Guidance by the American Association for the Study of Liver Diseases. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048. doi:10.1002/hep.31884.

European Association for the Study of the Liver. EASL Clinical Practice Guidelines for the management of patients with decompensated cirrhosis. J Hepatol. 2018;69(2):406-460. doi:10.1016/j.jhep.2018.03.024.

Terra C, Mattos ÂZ, Pereira G, Farias AQ, Kondo M, Mattos AA, et al. Recommendations of the Brazilian Society of Hepatology for the management of acute kidney injury in patients with cirrhosis. Arq Gastroenterol. 2018;55(3):314-320.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024.

01

Responda antes de ler

Homem de 56 anos, cirrótico, com ascite conhecida há um ano, internou de madrugada por sonolência e confusão iniciadas no dia anterior. O plantão noturno registrou encefalopatia hepática, presumiu constipação como gatilho e iniciou lactulose. Na visita da manhã ele está sonolento e despertável, com abdome globoso, tenso e indolor à palpação, sem defesa. Temperatura 36,1 °C, frequência cardíaca 88, pressão 102 por 62. O hemograma da admissão traz 8.400 leucócitos sem desvio. A creatinina é 1,4 mg/dL, acima da basal dele. Qual é a conduta mais adequada nesta manhã?

02

O paciente que você vai ver

Segunda-feira, 7h20, enfermaria de clínica médica de dezoito leitos. O leito 5 chegou às duas e dez da manhã, pela porta do pronto-socorro, e você o herda sem ter visto nada do que aconteceu. Hermelindo Sicupira tem 56 anos, 78 quilos, foi serralheiro até se aposentar por invalidez há quatro anos, e tem cirrose por álcool com ascite conhecida desde o ano passado. A esposa o trouxe porque ele passou o domingo inteiro dormindo e trocando o nome dos netos.

A evolução da noite tem quatro linhas e uma conduta: encefalopatia hepática grau II, provável gatilho constipação, iniciada lactulose, reavaliar de manhã. É uma evolução defensável. O plantonista viu um cirrótico confuso, achou a explicação mais comum, tratou a explicação mais comum e foi cuidar de outra coisa. Ninguém escreveu nada sobre a barriga.

A barriga está lá. Hermelindo está deitado, sonolento mas despertável, e o abdome é globoso, tenso, com a cicatriz umbilical apagada e uma rede de veias finas subindo pelos flancos. Você palpa: não há defesa, não há dor. Você pergunta se dói e ele diz que não. A temperatura da noite foi 36,4 e a de agora é 36,1. A frequência cardíaca é 88, a pressão 102 por 62. O hemograma da admissão tem 8.400 leucócitos, sem desvio.

Do ponto de vista de quem passa a visita às oito, esse paciente está resolvido. Tem um diagnóstico, tem um gatilho plausível, tem uma prescrição em curso e não tem febre nem dor abdominal. É exatamente esse paciente que morre por uma razão que ninguém procurou.

Porque a frase que este capítulo existe para instalar é uma só, e ela contraria o instinto de todo mundo na enfermaria: todo cirrótico que interna com ascite tem indicação de paracentese diagnóstica, mesmo sem febre, mesmo sem dor, mesmo quando o motivo da internação é outro. Não é uma punção para aliviar. É uma punção para contar células. A peritonite bacteriana espontânea costuma não doer — até um terço dos pacientes com infecção espontânea não tem sintoma nenhum, ou se manifesta apenas por encefalopatia e por queda da função renal, que é literalmente o que Hermelindo trouxe às duas da manhã.

E o preço do adiamento tem número. Num estudo observacional citado pela diretriz britânica de doença ascítica, cada hora de atraso da paracentese diagnóstica depois da admissão associou-se a um aumento de 3,3% na mortalidade hospitalar, ajustado pela gravidade da doença hepática. A visita das oito, a rotina da tarde, o pedido que fica para amanhã porque hoje o laboratório já fechou a coleta: cada uma dessas decisões razoáveis é medida na mesma escala.

Este capítulo é sobre pôr uma agulha na cavidade peritoneal com margem de segurança, mandar o líquido para os laboratórios certos na ordem certa, ler o que volta e decidir com isso. É barato, é rápido e o interno o executa sob supervisão com o material de qualquer enfermaria. A parte que raramente se ensina é outra: a indicação principal dele não é a barriga tensa que incomoda — é a barriga silenciosa que ninguém puncionou.

03

Quem adoece disso

A peritonite bacteriana espontânea é a infecção que define o risco desta punção, e a frequência dela depende inteiramente de onde o paciente está. Em ambulatório, a prevalência descrita fica entre 1,5% e 3,5%. Em pacientes internados, sobe para cerca de 10%, e um estudo europeu recente citado pela diretriz britânica encontrou 11,3% entre internados. A diferença entre 2% e 11% não é discordância de método: é a diferença entre um cirrótico que anda até o ambulatório e um cirrótico que precisou de um leito.

O prognóstico explica por que o capítulo insiste tanto no relógio. Quando a doença foi descrita, a mortalidade associada passava de 90%. Com diagnóstico precoce e tratamento imediato, a mortalidade hospitalar caiu para cerca de 20% — uma queda enorme, e ainda assim um em cada cinco. A sobrevida de longo prazo permanece ruim: num estudo britânico, a sobrevida em um ano depois de uma internação por peritonite espontânea foi de 34%. Quem sobrevive ao episódio precisa sair da internação com uma avaliação de transplante em curso, e essa parte quase sempre se perde.

A metade cirúrgica do problema é a peritonite bacteriana secundária, que aparece em cerca de 5% dos cirróticos com peritonite e é a razão pela qual a contagem de células sozinha não encerra a pergunta. Ali há uma víscera perfurada ou inflamada, o antibiótico isolado não resolve, e o paciente precisa de tomografia e de avaliação cirúrgica. O capítulo volta a ela na investigação, porque distingui-la é a única armadilha deste tema que mata por excesso de confiança no laboratório.

As frequências apresentadas vêm das séries reunidas pelas diretrizes citadas. Elas situam o risco do paciente com ascite, mas não estimam diretamente a frequência em todos os serviços brasileiros.

A recomendação brasileira sobre lesão renal na cirrose contribui sobretudo para a reposição de albumina. Indicação da punção, técnica, análise do líquido e antimicrobianos são desenvolvidos a seguir com as demais referências, compondo o atendimento de Hermelindo.

No planejamento da paracentese de alívio, explicite por que a albumina está indicada e como a dose será calculada. Esse registro permite à equipe conferir o plano e organizar o fornecimento antes da retirada.

O acesso aos medicamentos depende do serviço. Confirme a disponibilidade da albumina e da opção de profilaxia secundária escolhida, resolvendo eventuais faltas com a equipe responsável. A passagem do plantão deve incluir essas pendências.

Sobre a frequência de ascite, de peritonite espontânea e de paracentese no Brasil, não há cifra nacional publicada que este capítulo possa citar, e todos os números acima vêm de séries europeias, britânicas e norte-americanas reunidas pelos três documentos internacionais que ele usa. Vale dizer isso em voz alta antes de usá-los à beira do leito, porque a população brasileira de cirróticos tem outra distribuição etiológica e outro acesso — e nenhuma dessas séries foi medida aqui.

04

Por que acontece o que acontece

O peritônio é uma cavidade virtual, com poucos mililitros de líquido servindo de lubrificante entre as vísceras e a parede. Ascite é o que acontece quando esse volume vira litros, e na cirrose o motor tem duas engrenagens que giram juntas. A primeira é a hipertensão sinusoidal: o fígado fibrosado oferece resistência ao fluxo portal, a pressão sobe dentro do sinusoide e o líquido é empurrado para fora, através de uma barreira que continua retendo proteína. A segunda é a vasodilatação esplâncnica, mediada por óxido nítrico, que rouba volume da circulação efetiva e faz o rim ler hipovolemia num paciente que está encharcado.

O rim então faz o que sabe: ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, libera hormônio antidiurético e retém sódio e água com avidez. É por isso que o tratamento de base da ascite é restrição de sódio e diurético poupador de potássio, e é por isso que o cirrótico com ascite tende à hiponatremia mesmo estando com sódio corporal total aumentado. A ascite não é excesso de água na barriga: é sódio retido por um rim que acredita estar seco.

Essa mecânica explica de saída por que o gradiente de albumina responde a uma pergunta que a contagem de células não responde. A concentração de albumina no soro menos a concentração de albumina no líquido mede a força oncótica que ainda segura água dentro do vaso contra a pressão que a empurra para fora. Quando a pressão portal é alta, o líquido que atravessa é pobre em proteína e o gradiente fica alto. Quando o líquido vem de uma superfície peritoneal doente — carcinomatose, tuberculose peritoneal —, ele é rico em proteína e o gradiente fica baixo. O gradiente mede pressão portal, não doença do fígado, e é por isso que a insuficiência cardíaca direita também produz gradiente alto.

Agora a infecção. Na cirrose, a parede intestinal fica mais permeável, o trânsito lentifica e a flora cresce; bactérias entéricas atravessam a mucosa e chegam aos linfonodos mesentéricos e daí à ascite. É esse o sentido literal da palavra espontânea: não houve perfuração, não houve abscesso, não houve víscera rota. A infecção chega por translocação, e chega em um líquido que se defende mal — o líquido ascítico da cirrose é pobre em proteína, e portanto pobre em complemento e em atividade opsonizante. Concentração de proteína total abaixo de 1,5 g/dL é o marcador desse déficit e o principal fator de risco descrito para o primeiro episódio.

Daí decorre o fato que reorganiza o capítulo inteiro: a peritonite espontânea não dói como a peritonite cirúrgica dói. Não há conteúdo entérico irritando quimicamente a serosa, não há foco inflamatório localizado, não há a sequência de dor visceral que migra e vira dor somática bem localizada. Há bactérias e neutrófilos difusos num lago de líquido, num paciente cuja parede abdominal está distendida e cuja resposta inflamatória é ruim. O que aparece no lugar da dor é o que a cirrose descompensa primeiro: encefalopatia, queda da função renal, icterícia, hipotensão. Sintoma de barriga é a exceção, não a regra.

É por isso que quem decide é a contagem de polimorfonucleares, e não a cultura. A cultura demora dias e, mesmo bem colhida, deixa de crescer numa parte grande dos casos — a peritonite espontânea com cultura negativa é uma entidade descrita, com apresentação e tratamento iguais aos da forma com cultura positiva. A contagem, ao contrário, sai em horas, é feita por microscopia manual ou por citometria de fluxo, e é o único número que autoriza começar antibiótico hoje. A cultura serve para outra coisa, igualmente importante e posterior: dizer qual antibiótico manter.

Falta o mecanismo do dano iatrogênico, que é o que impõe a albumina. Retirar vários litros de uma vez derruba a pressão intra-abdominal, aumenta a capacitância venosa esplâncnica e agrava a hipovolemia efetiva que já existia. O eixo renina-angiotensina dispara, a vasoconstrição renal se aprofunda, e o resultado tem nome: disfunção circulatória pós-paracentese, que se manifesta como insuficiência renal, hiponatremia dilucional, encefalopatia e queda de sobrevida. A albumina é o único expansor que previne isso de forma consistente, e é essa a razão de ela entrar na conta — não é corrigir a albumina sérica baixa, é segurar o volume circulante efetivo depois que o abdome esvaziou.

E há a anatomia, que dita onde a agulha entra. Correndo dentro da bainha do músculo reto, de cada lado da linha média, está a artéria epigástrica inferior — o vaso da parede que produz o hematoma que exige embolização. Nos quadrantes superiores estão o fígado e o baço, e o baço do cirrótico é grande. Na linha média baixa está a bexiga, que sobe quando está cheia. No quadrante inferior direito costuma estar o ceco distendido e, em muita gente, a cicatriz de uma apendicectomia antiga, com alças aderidas por baixo. Sobra o quadrante inferior esquerdo, e não sobra por eliminação apenas: medido por ultrassom, é ali que a parede abdominal é mais fina e a lâmina de líquido é mais profunda.

Corte axial do abdome com ascite, vasos epigástricos junto aos retos e agulha anterolateral esquerda em janela livre de alças.
A escolha do ponto exige identificar líquido acessível e evitar vasos, alças e outros órgãos. O quadrante inferior esquerdo é uma opção frequente, mas não é universalmente o local mais fino ou com mais líquido. A ultrassonografia individualiza o trajeto; a imagem é um esquema anatômico.
05

Como se apresenta de verdade

Ascite não é uma doença: é um sinal, e o que ele significa muda com quem o traz. As seções abaixo separam os pacientes com ascite que chegam ao interno, descrevem como a infecção se apresenta quando não se apresenta como infecção, dizem o que o exame físico responde e o que ele não responde, nomeiam quem tem risco maior, mostram quando o líquido não vem do fígado, e terminam nas poucas situações em que a resposta hoje é não puncionar.

Os quatro pacientes com ascite que chegam ao interno

O primeiro é a ascite de início recente, em alguém que nunca teve. Aqui a punção é obrigatória e a pergunta principal ainda não é infecção: é de onde vem esse líquido. É o único cenário em que o gradiente de albumina precisa ser calculado, porque é o único em que a causa está em aberto. A lista do que pode ser inclui cirrose, mas também carcinomatose peritoneal, tuberculose peritoneal, insuficiência cardíaca direita e doença pancreática.

O segundo é o de Hermelindo, e é o mais frequente e o mais negligenciado: o cirrótico com ascite conhecida que interna por qualquer motivo. Encefalopatia, hemorragia digestiva, piora de função renal, icterícia nova, uma queda em casa, uma pneumonia. Aqui a causa da ascite já está estabelecida e a pergunta é uma só, sempre a mesma: há infecção neste líquido hoje? A punção é diagnóstica, precisa de poucos mililitros e não tem nada a ver com aliviar a barriga.

O terceiro é a ascite tensa, o paciente que não consegue deitar, não consegue comer o prato inteiro porque enche, e respira melhor sentado. Aqui a punção muda de natureza: deixa de ser exame e vira tratamento, e as perguntas passam a ser quanto retirar, em quanto tempo e o que repor. É a paracentese de alívio, e ela é a primeira linha para a ascite volumosa e para a ascite refratária.

O quarto é o paciente cuja ascite não é do fígado e ainda ninguém percebeu. Ele costuma chegar rotulado como cirrótico porque tem barriga d'água, e o que desmancha o rótulo é um número — o gradiente de albumina. Esse paciente aparece de novo mais adiante, porque a conduta dele sai inteira deste capítulo e vai para outro lugar.

A infecção que não dói, e o que ela faz no lugar de doer

Dor abdominal, dor à palpação com ou sem descompressão dolorosa e íleo são os sinais próprios da peritonite espontânea, e eles existem. O problema é a frequência: até um terço dos pacientes com infecção espontânea na cirrose é inteiramente assintomático, ou se apresenta apenas com encefalopatia e queda da função renal. Quem espera o abdome em tábua para puncionar vai puncionar tarde na maioria das vezes e nunca na parte dos casos que mais precisa.

O que ocupa o lugar da dor é uma lista de descompensações, e vale decorá-la porque é dela que sai o gatilho da punção na enfermaria. Encefalopatia hepática nova ou piorada, sem gatilho evidente ou até com gatilho evidente. Creatinina subindo. Icterícia nova. Hipotensão. Hipotermia, que engana mais que a febre porque ninguém liga para 35,8 graus. E a deterioração inespecífica que a técnica de enfermagem descreve melhor que o prontuário: ele está diferente hoje.

A regra operacional que sai daí é curta e cabe na visita: em cirrótico com ascite, qualquer piora inexplicada é indicação de paracentese até prova em contrário. Não é preciso ter uma hipótese de infecção; basta não ter uma explicação sólida para a piora. O custo de puncionar um paciente que não tinha nada é um curativo. O custo de não puncionar quem tinha é medido em pontos percentuais de mortalidade por hora.

Há uma armadilha de leitura no hemograma que confunde o interno todo ano. O cirrótico com hiperesplenismo tem leucócitos e plaquetas baixos de base; a ausência de leucocitose não afasta infecção nenhuma, e a plaquetopenia não é sinal de gravidade da infecção — é sinal de baço grande. O número que decide não está no sangue: está no líquido.

O que o exame físico responde, e o que ele não responde

A ascite é graduada em três degraus, e a graduação vale porque muda conduta. Grau 1 é a ascite leve, detectável somente por ultrassom, e não se trata nem se punciona. Grau 2 é a ascite moderada, com distensão simétrica evidente do abdome, tratada ambulatorialmente com restrição de sódio e diurético. Grau 3 é a ascite volumosa, com distensão marcada, e é ela que tem indicação de paracentese de alívio como primeira linha.

O que o exame físico faz bem é reconhecer o grau 2 e o grau 3. Abdome globoso com distensão de flancos, macicez móvel de decúbito, piparote positivo quando o volume é grande, cicatriz umbilical apagada ou hérnia umbilical protruída, circulação colateral na parede. Junto disso, o que localiza o paciente na doença: aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia, atrofia muscular, baço palpável.

O que o exame físico não faz é o principal. Ele não diz se há infecção — a barriga do cirrótico com peritonite espontânea costuma ser mole e indolor. Ele não mede a lâmina no ponto em que você vai furar. Ele não vê a alça que está aderida à parede sob uma cicatriz antiga. E, no obeso e no paciente com ascite de grau 2 e alças distendidas, ele erra com frequência sobre a existência do líquido.

Quem responde essas três perguntas é a ultrassonografia à beira do leito, e a diretriz britânica é econômica ao dizer isso: guiar a punção por imagem deve ser considerado quando houver aparelho disponível, com o objetivo de reduzir eventos adversos, numa recomendação classificada como fraca e apoiada em evidência de baixa qualidade. Não é uma exigência absoluta e não deve ser lida como tal; é a diferença entre furar sabendo a profundidade do líquido e furar estimando.

Quem corre mais risco de infectar o líquido

O fator de risco melhor estabelecido é bioquímico e sai da própria punção: concentração de proteína total no líquido abaixo de 1,5 g/dL — 15 g/L, quando o laboratório reporta assim. É a tradução laboratorial da defesa peritoneal ruim, e é o critério que abre a discussão de profilaxia primária. Por isso a proteína total é pedida sempre no primeiro episódio de ascite e, nos episódios seguintes, quando a profilaxia está sendo considerada.

O segundo grupo é o dos que já tiveram. Um episódio prévio de peritonite espontânea coloca o paciente numa faixa de recorrência alta, e é a indicação clássica de profilaxia secundária contínua. O terceiro é o do sangramento digestivo: cirrótico com ascite que sangra recebe antibiótico profilático, e essa é uma das recomendações mais fortes de todo o campo — mas a hemorragia em si, o esquema e a endoscopia pertencem ao capítulo Hemorragia digestiva alta.

Sobre o peso relativo desses fatores, os documentos convergem num ponto e divergem no resto: mesmo entre pacientes com proteína baixa no líquido, a probabilidade de peritonite em um ano varia entre 20% e 60% conforme a gravidade da disfunção hepática e renal. Ou seja, proteína baixa é um mostrador grosseiro, e quem calibra a leitura é a gravidade global do paciente.

Um detalhe de contexto que muda o antibiótico e não muda a punção: cerca de metade das infecções em cirróticos é comunitária, um quarto é associada a cuidados de saúde e um quarto é hospitalar, definida como a que aparece mais de 48 horas depois da admissão. Quanto mais para o lado hospitalar, maior a chance de germe multirresistente e menor a eficácia da cefalosporina isolada. Quem escolhe o esquema é a epidemiologia local; o capítulo O antibiótico que ninguém para trata dessa escolha, do descalonamento e da duração.

Quando o líquido não é do fígado

O gradiente de albumina soro-ascite separa dois mundos com uma acurácia em torno de 97%, e é a razão de a albumina ser pedida no soro e no líquido ao mesmo tempo. Gradiente igual ou maior que 1,1 g/dL significa hipertensão portal envolvida na formação da ascite. Abaixo de 1,1 g/dL, hipertensão portal está afastada, e a lista muda inteira: carcinomatose peritoneal, tuberculose peritoneal, e outras condições peritoneais.

Dentro do gradiente alto ainda há uma bifurcação, e ela é resolvida pela proteína total do líquido. Na cirrose o sinusoide está menos permeável pela fibrose, e o líquido sai pobre em proteína. Na insuficiência cardíaca o sinusoide continua permeável, e a linfa rica em proteína extravasa: proteína total acima de 2,5 g/dL com gradiente alto aponta para o coração, e nessa situação a dosagem do peptídeo natriurético no soro ajuda a decidir. É a diferença entre um paciente que vai para diurético e restrição de sódio e um paciente cujo problema é a bomba.

Quando a suspeita é neoplásica, a citologia oncótica entra — e entra apenas quando causas diferentes de cirrose estão sendo consideradas, não como rotina em cirrótico conhecido. A avaliação da carcinomatose e da ascite maligna não tem dono neste nível, e este capítulo assume o mínimo que a decisão de puncionar exige: reconhecer o gradiente baixo, pedir citologia junto com o restante na mesma punção para não furar duas vezes, e encaminhar. O manejo oncológico em si, incluindo o controle sintomático da ascite maligna de repetição, escapa daqui; a dor e o cuidado no fim da vida estão em Cuidados paliativos e manejo da dor oncológica.

Quando a suspeita é tuberculose peritoneal — mais provável em ascite com gradiente baixo, predomínio linfocitário e paciente com fatores de risco —, a adenosina deaminase do líquido é o exame que se pede na mesma coleta, e o diagnóstico e o esquema pertencem ao capítulo Tuberculose. E quando a suspeita é pancreática, a amilase do líquido é pedida, e só então: nenhum desses três exames é rotina de cirrótico conhecido.

Quando a resposta hoje é não puncionar, ou puncionar em outro lugar

A lista de contraindicações é curta e vale ser conhecida inteira, porque quase tudo o que se diz sobre este assunto na enfermaria não está nela. A diretriz europeia relaciona cinco situações: paciente não colaborativo, infecção de pele no ponto proposto, gravidez, coagulopatia grave no sentido estrito de fibrinólise acelerada ou coagulação intravascular disseminada, e distensão intestinal importante.

Paciente não colaborativo é a mais frequente e a que o interno pode resolver. Um encefalopata agitado que se move enquanto a agulha avança é uma alça perfurada à espera de acontecer. A saída raramente é desistir: é sedar minimamente com supervisão, ou esperar trinta minutos com a família ao lado, ou chamar quem consiga segurar a posição — e, no encefalopata, lembrar que a própria punção que se está adiando pode ser o que explica a agitação.

Infecção de pele no ponto proposto contraindica aquele ponto, não o procedimento: leva-se a punção para outro quadrante sob imagem. Distensão intestinal importante muda a geometria de tudo — alça distendida encosta na parede e a lâmina de líquido some —, e é a situação em que puncionar às cegas perfura. Gravidez pede outra equipe e outro planejamento.

E há a que não está na lista e é tratada todo dia como se estivesse: a alteração do coagulograma. Ela tem espaço próprio nos cards e nos erros deste capítulo, porque é a contraindicação inventada com mais frequência no internato — e porque a recomendação que a desmonta é uma das poucas de força alta em todo o campo.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da paracentese tem duas metades separadas por quinze minutos: uma acontece com a agulha ainda na bandeja, e a outra com o laudo na mão. A primeira responde onde entrar; a segunda responde o que fazer com o número. As duas erram por motivos diferentes — a primeira por escolher o ponto por hábito, a segunda por pedir exame demais no paciente errado e de menos no paciente certo. As seções abaixo seguem essa ordem.

O ponto: onde entrar, e o que cada centímetro evita

O ponto é o quadrante inferior esquerdo, e a escolha tem duas justificativas independentes. A primeira é de medida: num estudo com 52 pacientes com ascite por cirrose, 15% deles obesos, o ultrassom mostrou que ali a parede abdominal é mais fina e a lâmina de líquido é mais profunda que nos demais quadrantes. A segunda é de exclusão: à direita estão o fígado e, com frequência, o ceco distendido e as aderências de uma cirurgia antiga; na linha média está a bexiga; nos quadrantes superiores estão fígado e baço, e o baço do cirrótico é grande.

Dentro do quadrante inferior esquerdo, a régua britânica fixa duas distâncias que existem para evitar um vaso específico. O ponto de punção deve ficar a pelo menos 8 cm da linha média e 5 cm acima da sínfise púbica, para minimizar o risco de lesão da artéria epigástrica inferior — e, junto com isso, para se afastar do fígado e do baço. A artéria epigástrica inferior sobe dentro da bainha do músculo reto, de cada lado da linha média: entrar lateralmente ao reto é entrar onde ela não está.

Três coisas se conferem na pele antes de marcar, e nenhuma delas precisa de aparelho. Cicatriz cirúrgica: por baixo dela pode haver alça aderida à parede, e o ponto se afasta. Veia colateral visível: a circulação colateral da parede do cirrótico é um vaso de baixa pressão e alto volume, e furá-la sangra. Celulite ou lesão de pele: contraindica aquele sítio. E uma quarta que não é da pele: a bexiga precisa estar vazia, o que na prática significa pedir para o paciente urinar antes, ou esvaziar a sonda se houver.

O que o ultrassom acrescenta é uma lista curta e decisiva, e é por ela que ele mudou o procedimento nos serviços que o têm. Confirma que há líquido de verdade naquele ponto, e não alça distendida com conteúdo líquido. Mede a lâmina e a profundidade da parede, o que informa o comprimento de agulha necessário. Mostra se há alça encostada logo abaixo. E flagra a loculação, que na ascite é rara mas existe depois de peritonite prévia ou de cirurgia.

Vale registrar o que a recomendação de imagem é e o que ela não é, porque a diferença importa em hospital sem aparelho de plantão. O documento britânico de 2021 diz que a orientação por ultrassom deve ser considerada quando disponível, e classifica isso como recomendação fraca sobre evidência de baixa qualidade. Nem esse documento nem os americanos e europeus proíbem a punção sem imagem; nenhum deles, aliás, descreve o passo a passo do procedimento. A ausência do aparelho é motivo para redobrar a propedêutica e o cuidado com o ponto, não para adiar a punção do cirrótico que acabou de internar.

Uma nota de posição para fechar. O paciente fica em decúbito dorsal, com a cabeceira levemente elevada para o conforto e o tronco discretamente rodado para o lado esquerdo, o que desloca as alças para cima e para a direita e acumula líquido justamente onde a agulha vai entrar. Depois da punção de alívio, se houver extravasamento pelo orifício, deitar o paciente sobre o lado oposto por duas horas ajuda a fechar o trajeto; um ponto de sutura em bolsa no sítio resolve o resto.

O que se pede no líquido, e em que ordem

Há uma diferença entre o painel completo que existe e o painel que este paciente precisa, e confundir os dois produz os dois erros opostos: pedir citologia oncótica em todo cirrótico, o que gasta volume e tempo de laboratório, e não pedir cultura em quem está internado, o que custa o antibiótico dirigido. A régua americana de 2021 organiza isso por cenário — primeiro episódio ou ascite recorrente, internado ou ambulatorial — e é a organização mais útil que existe à beira do leito.

A contagem de polimorfonucleares é o único exame pedido em todos os cenários, sem exceção: primeiro episódio ou décimo, internado ou ambulatorial. É a pergunta que a punção sempre responde, e é ela que autoriza antibiótico hoje. Se você só puder mandar um tubo, mande esse.

A cultura é pedida em todo paciente internado, e não é rotina no ambulatorial. Ela não diagnostica — a peritonite espontânea com cultura negativa existe e se trata igual —, mas é ela que permite estreitar o esquema depois e é ela que revela o crescimento polimicrobiano que denuncia peritonite secundária.

O gradiente de albumina é pedido apenas no primeiro episódio de ascite, internado ou ambulatorial. Em ascite recorrente de cirrótico conhecido, ele não é repetido: a pergunta que ele responde — a hipertensão portal está envolvida? — já foi respondida e não muda. Este é o ponto que separa as duas perguntas deste capítulo: a contagem pergunta se há infecção agora, e a resposta muda toda semana; o gradiente pergunta de onde vem o líquido, e a resposta é uma vez na vida.

A proteína total do líquido é pedida no primeiro episódio e, na ascite recorrente, quando a profilaxia primária está clinicamente indicada ou quando se suspeita de peritonite secundária. Glicose e desidrogenase lática entram somente diante da suspeita de peritonite secundária. Citologia oncótica entra somente quando se considera causa diferente de cirrose. Amilase entra somente quando se suspeita de origem pancreática. Adenosina deaminase, quando a probabilidade pré-teste de tuberculose peritoneal justifica.

A ordem prática de execução, com a seringa ainda no lugar, inverte a ordem da lista: primeiro sai o que é frágil ou volumoso e não pode ser recuperado depois — os frascos de hemocultura inoculados na hora e o tubo de contagem —, e só então o resto. O que ficou de fora se resolve com uma segunda amostra do mesmo material se ainda houver alíquota no laboratório; o que não foi inoculado à beira do leito não se resolve de jeito nenhum.

A contagem que decide o antibiótico, e como se chega a ela

O diagnóstico de peritonite bacteriana espontânea se estabelece com contagem de polimorfonucleares no líquido ascítico acima de 250 por milímetro cúbico, na ausência de foco intra-abdominal cirurgicamente tratável. Os três documentos internacionais dizem a mesma coisa com as mesmas palavras, e o britânico acrescenta o método: microscopia manual ou contagem automatizada por citometria de fluxo, com desempenho equivalente.

A escolha de 250 é uma escolha declarada de sensibilidade. O corte de 250 é o que tem maior sensibilidade; o corte de 500 é o que tem maior especificidade. A régua americana explicita a razão de preferir o primeiro: escolher a maior sensibilidade evita que uma peritonite fique sem tratamento. É uma decisão de assimetria de dano, não uma descoberta de acurácia, e o capítulo volta a ela nas divergências.

A parte que trava o interno todo mês é aritmética, não conceitual. Muitos laboratórios devolvem a contagem global de leucócitos do líquido e o diferencial em percentual, e não o número absoluto de polimorfonucleares. O número que decide sai da multiplicação: leucócitos totais vezes o percentual de polimorfonucleares. Oitocentos leucócitos com 40% de polimorfonucleares dá 320 e é peritonite. Dois mil leucócitos com 12% dá 240 e não é. A tabela de conversão deste capítulo traz essa conta feita para os pares que mais aparecem.

Duas variantes precisam de nome próprio porque a conduta muda. Peritonite espontânea com cultura negativa é contagem acima de 250 com cultura que não cresceu: apresenta-se e se trata exatamente como a forma com cultura positiva. Bacterascite é o contrário — cultura positiva com contagem abaixo de 250. Nela, o paciente com sinais de inflamação sistêmica ou de infecção recebe antibiótico; o paciente sem sinais é puncionado de novo, e se a cultura vier positiva outra vez, trata-se independentemente da contagem.

Há um ajuste que aparece quando o líquido volta hemorrágico por punção traumática, e ele existe porque cada mililitro de sangue traz neutrófilos que não estavam na cavidade. A leitura correta é olhar a contagem de hemácias antes de olhar a de neutrófilos e desconfiar de qualquer contagem alta em líquido francamente sanguinolento colhido com dificuldade. É melhor repetir a punção num ponto limpo do que tratar uma contagem que veio do trajeto.

O frasco de hemocultura, e por que ele é a alíquota que morre

A cultura do líquido ascítico em frasco convencional positiva pouco. A cultura em frascos de hemocultura, inoculados à beira do leito, com pelo menos 10 mL em cada, aeróbio e anaeróbio, eleva a sensibilidade para mais de 90% no diagnóstico da peritonite espontânea. É a mesma diferença de duas ordens de grandeza que existe entre semear uma gota e semear um caldo: a bactéria está diluída em litros de líquido, e o que se ganha é volume amostrado e meio de cultura enriquecido.

As três diretrizes dizem isso em termos praticamente idênticos, e o detalhe que todas repetem é o mesmo: a inoculação é à beira do leito, antes da primeira dose de antibiótico. Mandar a seringa tampada para o laboratório e deixar que alguém transfira lá dentro, uma hora depois, é o caminho pelo qual a sensibilidade volta ao patamar antigo. E colher hemocultura periférica simultânea aumenta a chance de isolar o germe, porque a bacteremia espontânea acompanha a peritonite com frequência.

Vale entender por que essa é a alíquota que se perde. Dois frascos de hemocultura consomem 20 mL do que saiu, contra 5 a 7 mL da contagem e uma quantidade pequena da bioquímica. É de longe o maior pedido em volume, e é o único que exige um material que não vem no kit de punção e não está no carrinho de curativo: o frasco em si. Quando o frasco não foi separado antes de a agulha entrar, ninguém sai da beira do leito com a seringa na mão para ir buscá-lo — a amostra vai para o tubo seco e a cultura se perde por logística, não por esquecimento clínico.

A consequência prática é uma regra de sequência, e ela é a mais fácil de cumprir e a mais fácil de pular: os dois frascos de hemocultura entram na bandeja junto com as luvas, antes de qualquer embalagem ser aberta. Não é preocupação de laboratório; é o que decide se, daqui a 72 horas, alguém vai poder trocar um esquema empírico por um esquema dirigido em cima de um antibiograma.

O gradiente de albumina responde outra pergunta

A conta é uma subtração: albumina do soro menos albumina do líquido ascítico, nas duas amostras colhidas no mesmo momento. Simultaneidade não é preciosismo: a albumina sérica do cirrótico se move com hidratação, com infusão e com o próprio esvaziamento da ascite, e um soro do dia seguinte compara duas fotos de instantes diferentes.

O corte é 1,1 g/dL. Igual ou acima disso, a hipertensão portal está envolvida na formação da ascite, com acurácia descrita em torno de 97%. Abaixo disso, a hipertensão portal está afastada e a investigação vai para doença peritoneal. É importante notar o que o gradiente não diz: ele não diz cirrose. Insuficiência cardíaca direita, com o sinusoide ainda permeável, também produz gradiente alto — e é a proteína total do líquido, acima de 2,5 g/dL, que separa o coração do fígado dentro do gradiente alto.

Há uma armadilha de unidade que vale ser dita antes que o laboratório a produza. O corte é 1,1 grama por decilitro, e o mesmo número aparece na literatura como 11 gramas por litro. São o mesmo valor; quem trabalha em grama por litro e usa 1,1 como corte erra por um fator de dez e transforma quase toda ascite em gradiente baixo. Vale conferir a unidade do laudo antes de calcular, sempre.

A pergunta que o gradiente responde tem outra periodicidade que a da contagem, e é aí que os dois exames deixam de competir. O gradiente responde de onde vem o líquido, e essa resposta é estável: pedido uma vez, no primeiro episódio, ele vale para a vida do paciente enquanto a doença de base for a mesma. A contagem responde se há infecção agora, e essa resposta expira: vale para esta internação, e às vezes para hoje. Pedir gradiente em toda punção de cirrótico conhecido é gastar albumina sérica e tempo com uma pergunta já respondida; deixar de pedir contagem em qualquer punção é não fazer a pergunta que a punção existe para fazer.

Quando o número diz peritonite e não é peritonite espontânea

Cerca de 5% dos cirróticos com peritonite têm peritonite bacteriana secundária — perfuração ou inflamação de uma víscera abdominal —, e a contagem de polimorfonucleares nela também está acima de 250. Tratá-la como espontânea significa dar antibiótico e esperar por um paciente que precisa de tomografia e de cirurgião, e o erro se paga em dias.

Os sinais que levantam a suspeita são quatro e vêm dos três documentos. Sintomas ou sinais abdominais localizados, que na peritonite espontânea são a exceção. Crescimento de múltiplos organismos na cultura, quando a infecção espontânea é tipicamente monobacteriana. Contagem de polimorfonucleares muito alta e proteína do líquido alta. E resposta inadequada ao tratamento.

Nesse cenário, e só nele, a glicose e a desidrogenase lática do líquido são pedidas: elas fazem parte do conjunto que distingue as duas entidades, e é essa a razão de a régua americana as reservar para essa suspeita em vez de as incluir na rotina. O paciente com suspeita de peritonite secundária vai para tomografia sem demora e para avaliação cirúrgica precoce.

Há também um foco intra-abdominal que produz contagem alta e não é peritonite de nenhum dos dois tipos: diverticulite, colecistite, apendicite. Esses pacientes têm contagem acima de 250 e devem ser tratados pela doença que têm, com o parecer cirúrgico que ela exige, e não pelo protocolo da peritonite espontânea. A avaliação da dor abdominal que decide quem opera pertence ao capítulo Dor abdominal no pronto-socorro.

Por fim, a reavaliação que fecha o ciclo e que quase ninguém faz: uma segunda paracentese diagnóstica 48 horas depois do início do antibiótico. Queda da contagem de polimorfonucleares menor que 25% do valor inicial define falha de resposta e manda ampliar o espectro e investigar peritonite secundária com imagem abdominal. A régua americana admite dispensar essa segunda punção quando um germe foi isolado, é sensível ao esquema em uso e o paciente melhora clinicamente.

07

A punção passo a passo, a conversão da albumina em frascos, e o que não fecha nos documentos

Na cirrose com ascite, febre pode faltar: dor, encefalopatia, instabilidade ou piora renal podem ser a apresentação da infecção. O interno deve reconhecer a indicação, preparar e acompanhar a coleta supervisionada, calcular PMN e integrar o resultado à clínica. INR elevado isolado não justifica correção automática antes de paracentese; sangramento ativo, coagulação intravascular disseminada e outros riscos exigem avaliação individual.

  1. 1Nomeie a indicação por escrito antes de tocar no material. Ela é uma das três: ascite de início recente, cirrótico com ascite internando por qualquer motivo, ou ascite tensa com desconforto. Se o paciente é cirrótico e internou, a indicação já existe mesmo sem febre, sem dor e sem leucocitose.
  2. 2Confira as poucas contraindicações reais: paciente que não colabora, infecção de pele no ponto, gravidez, distensão intestinal importante, e coagulopatia grave no sentido estrito de fibrinólise acelerada ou coagulação intravascular disseminada. Coagulograma alargado e plaquetopenia do cirrótico não entram nesta lista.
  3. 3Explique o procedimento e obtenha consentimento, nomeando o sangramento e o extravasamento de líquido como o que pode dar errado, e combinando o sinal de parada. No encefalopata, explique também ao acompanhante.
  4. 4Peça ao paciente para urinar, ou esvazie a sonda vesical. Bexiga cheia é víscera na trajetória.
  5. 5Reúna o material completo antes que qualquer embalagem seja aberta, começando pelo que não vem no kit: luvas estéreis, gaze, clorexidina, campo, lidocaína a 2% sem vasoconstritor, agulha fina e agulha longa, seringas, cateter sobre agulha, equipo e frasco coletor para a punção de alívio, e — o que sempre falta — os dois frascos de hemocultura e os tubos de contagem e bioquímica.
  6. 6Posicione: decúbito dorsal, cabeceira levemente elevada, tronco discretamente rodado para a esquerda. Espere um minuto nessa posição antes de marcar, para o líquido acomodar.
  7. 7Escolha o ponto no quadrante inferior esquerdo, a pelo menos 8 cm da linha média e 5 cm acima da sínfise púbica. Inspecione a pele: sem cicatriz, sem veia colateral visível, sem lesão. Com aparelho disponível, confirme lâmina, profundidade e ausência de alça encostada, e marque com o paciente já na posição definitiva.
  8. 8Faça antissepsia ampla e posicione o campo estéril.
  9. 9Anestesie por planos com lidocaína a 2% sem vasoconstritor: botão intradérmico com agulha fina, depois subcutâneo, aponeurose e peritônio parietal, aspirando antes de cada injeção. O peritônio parietal é a camada que dói; pular essa camada produz o paciente que se mexe na hora errada.
  10. 10Progrida aspirando, perpendicular à pele, com a técnica em Z — tracione a pele lateralmente antes de entrar e solte ao final, para que os planos deslizem de volta e desalinhem o trajeto. Líquido na seringa confirma a cavidade e informa a profundidade.
  11. 11Troque o metal por plástico: retire o mandril e mantenha só o cateter dentro. Alça intestinal encosta em cateter flexível e é empurrada; encosta em ponta metálica e é perfurada.
  12. 12Colha para os exames com a tabela na frente, e comece pelo que não se recupera: inocule os dois frascos de hemocultura com pelo menos 10 mL cada, ali mesmo, antes de qualquer outra coisa. Depois o tubo da contagem. Colha ao mesmo tempo o sangue periférico se este for o primeiro episódio de ascite, porque o gradiente de albumina exige as duas amostras do mesmo momento.
  13. 13Na punção de alívio, conecte o equipo e drene. Retire todo o líquido numa única sessão, em uma a quatro horas, mobilizando delicadamente o cateter ou rodando o paciente de lado se o fluxo parar. Anote o volume total: ele é a base do cálculo da albumina.
  14. 14Reponha albumina se saíram mais de 5 litros, na proporção de 8 g por litro retirado. Abaixo de 5 litros, considere repor quando houver insuficiência hepática aguda sobre crônica, hipotensão, hiponatremia ou lesão renal aguda. A tabela de conversão traz gramas, mililitros e frascos.
  15. 15Retire o cateter, comprima e cubra com curativo oclusivo. Se houver extravasamento, deite o paciente sobre o lado oposto por duas horas e considere um ponto em bolsa.
  16. 16Registre: indicação, ponto, anestésico, aspecto e volume retirados, exames enviados, albumina reposta em gramas, intercorrências e como o paciente ficou.
  17. 17PMN ≥250 células/mm³, na ausência de fonte intra-abdominal tratável cirurgicamente, sustenta peritonite bacteriana espontânea e requer tratamento sem esperar cultura. Repetir punção conforme resposta e suspeita de falha ou peritonite secundária; não usar 500 como limiar para adiar tratamento.
  18. 18Antes de dar alta, decida a profilaxia e o encaminhamento: quem teve peritonite espontânea é candidato a profilaxia secundária e a avaliação de transplante, e as duas coisas se perdem se não saírem escritas no resumo de alta.

Quadrante inferior esquerdo, 8 e 5

A artéria epigástrica inferior sobe dentro da bainha do músculo reto, de cada lado da linha média — é o vaso da parede que sangra de verdade. O ponto fica no quadrante inferior esquerdo, a pelo menos 8 cm da linha média e 5 cm acima da sínfise, que é onde a parede é mais fina, a lâmina é mais profunda e o vaso não está. Cicatriz, veia colateral visível e lesão de pele deslocam o ponto; bexiga cheia se esvazia antes.

Coagulograma alargado não contraindica

A recomendação 5.3 do documento britânico é de força alta: não medir tempo de protrombina nem plaquetas de rotina antes da punção, e não transfundir hemoderivado para viabilizá-la. Numa série de 3.116 punções guiadas por ultrassom, com razão normalizada internacional média de 2,1 e sem plasma fresco, 0,19% dos pacientes sangraram a ponto de transfundir e nenhum morreu; noutra, de 1.100 punções com plaquetas médias de 50,4 mil, não houve complicação significativa. As exceções são coagulação intravascular disseminada e fibrinólise acelerada.

Do número do laboratório à conduta de hoje

O que voltou do líquidoO que isso éConduta imediataO que reavaliar, e quando
Polimorfonucleares acima de 250/mm³, cultura pendente ou negativaPeritonite bacteriana espontânea — a cultura não é pré-requisito do diagnósticoAntibiótico empírico agora, sem esperar a cultura; albumina conforme a divergência deste capítuloNova paracentese em 48 h: queda de polimorfonucleares menor que 25% é falha
Polimorfonucleares abaixo de 250/mm³, cultura positivaBacterasciteCom sinais de inflamação sistêmica ou infecção: tratar. Sem sinais: repuncionarSe a segunda cultura vier positiva de novo, tratar independentemente da contagem
Polimorfonucleares acima de 250/mm³, cultura polimicrobiana, proteína alta, contagem muito altaSuspeita de peritonite bacteriana secundáriaPedir glicose e desidrogenase lática do líquido, tomografia de abdome sem demora e avaliação cirúrgica precoceAntibiótico isolado não resolve víscera perfurada; a reavaliação é cirúrgica, não laboratorial
Gradiente de albumina soro-ascite igual ou maior que 1,1 g/dLHipertensão portal envolvida, com acurácia em torno de 97%Seguir a linha da cirrose: restrição de sódio, diurético, e este capítuloProteína do líquido acima de 2,5 g/dL no mesmo paciente aponta para causa cardíaca
Gradiente de albumina abaixo de 1,1 g/dLHipertensão portal afastada — doença peritonealCitologia oncótica e adenosina deaminase na mesma amostra; imagem abdominal; encaminharCarcinomatose e tuberculose peritoneal saem deste capítulo; não repetir o gradiente depois
Proteína total do líquido abaixo de 1,5 g/dL, sem infecção agoraMarcador de defesa peritoneal ruim e de risco do primeiro episódioDiscutir profilaxia primária com quem supervisiona, pesando gravidade hepática e renalA probabilidade de peritonite em um ano varia de 20% a 60% conforme a gravidade global
Líquido francamente hemorrágico numa punção difícilProvável contaminação do trajeto — a contagem fica infladaNão tratar pela contagem; repuncionar em ponto limpo, de preferência guiado por imagemContagem alta em líquido sanguinolento colhido com dificuldade se confirma antes de virar conduta

Albumina humana 20%: da dose escrita em gramas ao número de frascos, em adulto de 78 kg

Situação e regraGramasVolume de solução a 20%Frascos de 50 mL (10 g)
Paracentese de 3 L (abaixo do limiar; repor só se ACLF, hipotensão, hiponatremia ou LRA) — 8 g/L24 g120 mL2,4 frascos, arredondando para 3
Paracentese de 5 L (limiar da reposição) — 8 g/L40 g200 mL4 frascos exatos
Paracentese de 6 L — 8 g/L48 g240 mL4,8 frascos, arredondando para 5
Paracentese de 8 L (o degrau em que a régua americana vê o risco subir) — 8 g/L64 g320 mL6,4 frascos, arredondando para 7
A mesma paracentese de 8 L pelo piso da faixa americana — 6 g/L48 g240 mL4,8 frascos — 16 g e 2 frascos a menos que pelo teto
Peritonite espontânea, primeiro dia — 1,5 g/kg117 g585 mL11,7 frascos, arredondando para 12
Peritonite espontânea, terceiro dia — 1,0 g/kg78 g390 mL7,8 frascos, arredondando para 8
Expansão da lesão renal aguda na cirrose — 1 g/kg/dia por 48 h78 g por dia, 156 g no total390 mL por dia8 frascos por dia, 16 no total

Albumina após retirada de grande volume. As referências britânica e europeia usam 8 g por litro retirado; a americana descreve 6–8 g/L. Em 8 L, isso corresponde a 48–64 g. Defina o esquema com a equipe e registre o volume efetivamente retirado.

Cálculo pelo volume. Na dose de 8 g/L, 5 L correspondem a 40 g e 8 L a 64 g. Multiplique a dose por litro pelo volume total ao qual o esquema se aplica; exemplos numéricos ajudam a conferir a prescrição, sem substituir a indicação.

Indicações diferentes, esquemas diferentes. Na peritonite espontânea, a referência brasileira descreve 1,5 g/kg no primeiro dia e 1 g/kg no terceiro. O teto de 100 g/dia citado para expansão na investigação da lesão renal pertence a outro esquema. Não transfira limites entre indicações nem some prescrições sobrepostas sem revisão da equipe.

Albumina a 20% contém 0,2 g/mL. Frascos de 10, 50 e 100 mL contêm 2, 10 e 20 g. Para 78 kg, 1,5 g/kg corresponde a 117 g ou 585 mL: são necessários doze frascos de 50 mL para fornecer esse volume. Diferencie a quantidade dispensada da dose administrada.

Disponibilidade. Confira o estoque hospitalar de albumina antes de organizar a retirada de grande volume. A lista de financiamento não informa o estoque do plantão; eventual dificuldade de fornecimento deve ser discutida com a equipe antes do procedimento.

Prescrição de albumina. A dose em gramas por litro retirado e a velocidade de infusão respondem a perguntas diferentes. Registre quantidade total, concentração, volume e administração conforme o esquema escolhido; uma instrução em gotas por minuto não define a dose.

Tolerância à infusão. Avalie risco de hipervolemia e condições cardíacas, pulmonares e renais. A indicação de albumina na cirrose não elimina esses cuidados. A decisão e a reavaliação devem considerar o paciente, não uma leitura isolada da lista de indicações.

PMN e limiar de tratamento. O corte de 250 células/mm³ prioriza sensibilidade; 500 aumenta especificidade. Essa diferença não exige esperar a contagem atingir 500. A decisão clínica usa PMN ≥250, com avaliação de possível foco secundário e do conjunto do caso.

Velocidade de drenagem. Séries com volumes, tempos e uso de albumina diferentes não estabelecem, por comparação direta, um fluxo universalmente seguro. Acompanhe tolerância, circulação, função renal e reposição indicada; uma média publicada não deve virar meta do procedimento.

Cefotaxima: leitura da dose. 2 g a cada 12 horas equivalem a 4 g/dia. Compare regimes pela dose diária e pelo intervalo, além da duração, para não tratar duas formas de escrita como esquemas distintos.

Apresentação do antibiótico. Com frascos de cefotaxima de 500 mg, uma dose de 2 g exige quatro frascos e 4 g/dia exigem oito; em cinco dias, 40, e em sete, 56. A logística do fornecimento não substitui a escolha pelo contexto clínico e pela resistência local.

Profilaxia secundária. As referências descrevem norfloxacino 400 mg/dia e alternativas como ciprofloxacino 500 mg/dia ou sulfametoxazol-trimetoprima 800/160 mg/dia. A equipe define indicação e opção, considerando disponibilidade e contexto; a existência de um comprimido na farmácia não decide o regime.

Material para anestesia. Confira que a lidocaína é injetável e corresponde à concentração e associação previstas. Gel a 2% e spray a 10% são apresentações tópicas; não servem para infiltração. Leia também o rótulo do antisséptico antes de preparar o campo.

Albumina na peritonite espontânea. As referências divergem na seleção de pacientes, com maior benefício descrito na presença de disfunção renal ou icterícia. Leve creatinina, tendência renal, bilirrubina e condições de tolerância ao supervisor para definir o plano, conforme a comparação abaixo.

Janela de punção. Use a anatomia para compreender o trajeto, mas confirme uma janela segura e a ausência de estruturas no caminho. Coordenadas fixas não substituem a avaliação do paciente e o ultrassom descritos na técnica.

Aplicação das referências. Consulte separadamente indicação, técnica, interpretação do líquido e reposição: uma recomendação sobre ascite pode não descrever todos os passos. O plano assistencial deve reunir essas etapas, com supervisão e reavaliação.

08

A conduta, hora a hora

Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.

A linha do tempo acompanha Hermelindo Sicupira, 78 kg, da visita das oito à decisão após o laboratório. Diagnóstica e de alívio compartilham preparo e técnica; finalidade, volume retirado e reposição definem as diferenças no plano.

  1. 7h40 — antes do material: reconhecer que existe indicação

    A indicação já está escrita no prontuário e ninguém a leu como indicação. Cirrótico com ascite conhecida, internado. Não é preciso febre, não é preciso dor, não é preciso leucocitose — e nenhum dos três está presente. Escreva na evolução, com essas palavras, que a paracentese diagnóstica está indicada por internação de cirrótico com ascite, e não por suspeita clínica de infecção: quem escreve assim não é convencido a adiar. Depois confira as contraindicações reais, que são poucas, e inspecione a pele do quadrante inferior esquerdo. O paciente está sonolento e despertável, colabora com estímulo, e a esposa fica ao lado.

    Prescrição
    • Indicação registrada: paracentese diagnóstica por internação de cirrótico com ascite
    • Checagem das contraindicações reais: colaboração, pele do sítio, gravidez, distensão intestinal, coagulopatia grave no sentido estrito
    • Inspeção do quadrante inferior esquerdo: cicatriz, veia colateral visível, lesão de pele
    • Consentimento informado registrado, com o acompanhante presente pela encefalopatia
    • Esvaziamento da bexiga antes do procedimento
  2. 7h50 — separar o que não vem no kit

    Separe tudo antes de abrir a primeira embalagem, e comece pelo que ninguém traz: os dois frascos de hemocultura. Eles não estão no carrinho de curativo, não estão no kit de punção, e depois de a agulha entrar ninguém sai da beira do leito para buscá-los. Peça também os tubos da contagem e da bioquímica, e o tubo de sangue periférico — este é o primeiro episódio documentado de análise do líquido, então o gradiente de albumina entra e exige as duas amostras do mesmo momento. Confira o rótulo da lidocaína: a gaveta tem a apresentação com epinefrina e tem gel e spray, que são tópicos.

    Prescrição
    • Frascos de hemocultura para aeróbio e anaeróbio — 2 unidades, separados antes de abrir o kit
    • Tubo com ácido etilenodiaminotetracético para contagem global e diferencial de células
    • Tubo seco para proteína total e albumina do líquido
    • Tubo de sangue periférico para albumina sérica, colhido no mesmo momento
    • Cloridrato de lidocaína 2% solução injetável sem vasoconstritor — 1 frasco-ampola
    • Luvas estéreis, gaze, campos, digliconato de clorexidina tópico, agulha fina e agulha longa, seringas de 10 e 20 mL
    • Cateter sobre agulha, equipo e frasco coletor graduado, para o caso de a punção virar de alívio
  3. 8h00 — posicionar, marcar e entrar

    Decúbito dorsal, cabeceira a trinta graus, tronco discretamente rodado para a esquerda; espere um minuto antes de marcar. O ponto é o quadrante inferior esquerdo, a pelo menos 8 cm da linha média e 5 cm acima da sínfise. Com o aparelho da unidade, confirme lâmina, profundidade da parede e ausência de alça encostada, e marque com o paciente já na posição definitiva. Antissepsia ampla, campo, botão anestésico, anestesia por planos até o peritônio parietal. Progrida aspirando, perpendicular à pele, com a pele tracionada lateralmente para criar o trajeto em Z. Líquido claro e amarelo-citrino aos 4 cm.

    Prescrição
    • Ponto no quadrante inferior esquerdo, a pelo menos 8 cm da linha média e 5 cm acima da sínfise púbica
    • Usar ultrassom para avaliar líquido e escolher uma janela segura quando possível, especialmente se pequena quantidade, obesidade, cicatrizes ou dúvida anatômica. Não adotar coordenada fixa como garantia; o operador habilitado deve decidir a segurança e a necessidade de apoio por imagem.
    • Anestesia por planos com lidocaína 2%, incluindo o peritônio parietal, aspirando antes de cada injeção
    • Trajeto em Z: tração lateral da pele antes da entrada, liberada ao final
    • Troca do mandril pelo cateter plástico assim que houver retorno de líquido
  4. 8h10 — colher na ordem que não se recupera

    Com o cateter no lugar, o primeiro gesto é inocular os dois frascos de hemocultura com pelo menos 10 mL cada, ali mesmo, com técnica estéril, antes de qualquer dose de antibiótico e antes de qualquer outro tubo. Depois vem o tubo da contagem, que é o exame que decide hoje. Depois a bioquímica do líquido, e o sangue periférico do mesmo minuto para a albumina sérica. Culturas e citologia oncótica não entram aqui: este paciente é cirrótico conhecido, o gradiente já responde a origem e não há suspeita de causa peritoneal.

    Prescrição
    • Líquido ascítico: inoculação de 10 mL em cada frasco de hemocultura, à beira do leito, antes do antibiótico
    • Líquido ascítico: contagem global e diferencial de células — tubo com anticoagulante
    • Líquido ascítico: proteína total e albumina — tubo seco
    • Sangue periférico do mesmo momento: albumina sérica, para o gradiente
    • Hemocultura periférica de dois sítios, colhida junto
    • Aspecto e volume anotados na hora
  5. 8h25 — decidir se a punção também vira de alívio

    Hermelindo tem ascite volumosa e desconforto, e a punção diagnóstica já está feita pelo mesmo cateter. Aqui a decisão muda de natureza. Conecte o equipo, drene para frasco graduado e retire o líquido numa única sessão, em uma a quatro horas, mobilizando delicadamente o cateter ou rodando o paciente de lado se o fluxo parar. Anote o volume final, porque é dele que sai a conta da albumina. Saíram 6,4 litros. Não existe teto numérico declarado por nenhum dos três documentos; o que existe é o degrau de 8 litros em que a régua americana registra que o risco de disfunção circulatória sobe.

    Prescrição
    • Drenagem por equipo para frasco graduado, em uma a quatro horas
    • Registro do volume total retirado, em mililitros, para o cálculo da reposição
    • Interrupção diante de dor nova, hipotensão sintomática ou saída de líquido entérico
    • Retirada do cateter, compressão e curativo oclusivo
    • Se houver extravasamento pelo orifício: decúbito lateral direito por 2 horas, e considerar ponto em bolsa
  6. 8h50 — repor a albumina, em gramas e em frascos

    Foram retirados 6,4 litros. Na cirrose, após paracentese de mais de cinco litros, o esquema de 8 g de albumina por litro retirado corresponde a 51,2 g. Albumina 20% contém 0,2 g/mL: são 256 mL, ou 5,12 frascos de 50 mL. A prescrição deve explicitar gramas e apresentação; eventual arredondamento depende de protocolo e conferência com a farmácia, não de confundir gramas, mililitros e frascos. Monitorar hemodinâmica, sintomas e função renal conforme o contexto. Volumes menores também podem exigir albumina em situações de maior risco, por decisão da equipe.

    Prescrição
    • Albumina humana 20%, 8 g por litro retirado: 51,2 g para 6,4 L
    • Volume calculado de albumina 20%: 256 mL para 51,2 g. Cinco frascos de 50 mL fornecem 250 mL e 50 g, não 256 mL; eventual arredondamento deve ser explícito e conferido com protocolo e farmácia.
    • Infusão intravenosa lenta, com o paciente monitorado, após o término da drenagem
    • Dose registrada em gramas E em frascos na prescrição, para não ser reduzida na dispensação
    • Manutenção do diurético e da restrição de sódio: a punção esvazia, não trata a causa
  7. 14h10 — o número volta, e ele decide hoje

    A contagem chega: 1.100 leucócitos por milímetro cúbico no líquido, com 62% de polimorfonucleares. A conta que decide é a multiplicação — 1.100 vezes 0,62 dá 682 por milímetro cúbico, muito acima de 250. É peritonite bacteriana espontânea num paciente sem febre, sem dor e sem leucocitose no sangue, cujo diagnóstico da madrugada era encefalopatia por constipação. O antibiótico empírico começa agora, sem esperar a cultura, e a escolha segue o perfil de resistência do serviço e o contexto — comunitário, associado a cuidados de saúde ou hospitalar. Cefalosporina de terceira geração é a primeira linha onde germe multirresistente não é prevalente.

    Prescrição
    • Antibiótico empírico intravenoso iniciado imediatamente, sem aguardar cultura
    • Cefalosporina de terceira geração como primeira linha em infecção comunitária: cefotaxima 2 g de 12/12 h, ou ceftriaxona conforme o protocolo do serviço
    • Duração prevista de 5 a 7 dias, com descalonamento guiado pela cultura
    • Suspender anti-inflamatório não esteroidal e revisar nefrotóxicos e diuréticos
    • Betabloqueador não seletivo suspenso temporariamente se houver hipotensão ou lesão renal aguda
    • Albumina da peritonite espontânea conforme a divergência deste capítulo — creatinina e bilirrubina na mesa antes de decidir
  8. 48 horas depois — a punção que quase ninguém repete

    Acompanhe dor, estado mental, pressão, diurese, função renal e resposta ao tratamento. Repetir paracentese em torno de 48 horas é especialmente útil se houver resposta inadequada, contexto de resistência ou suspeita de peritonite secundária. Quando repetida, uma queda insuficiente dos PMN — por exemplo, inferior a 25% — exige revisão de antimicrobianos, culturas e possível foco secundário. Não aguarde 48 horas se houver deterioração. Investigue causa tratável cirurgicamente diante de achados sugestivos, pois antibiótico isolado não resolve esse cenário.

    Prescrição
    • Segunda paracentese diagnóstica em 48 h do início do antibiótico, agendada por escrito
    • Critério de falha registrado: queda de polimorfonucleares menor que 25% do valor inicial
    • Diante de falha: ampliar espectro e solicitar tomografia de abdome para peritonite secundária
    • Profilaxia secundária discutida antes da alta, com o que o elenco nacional oferece
    • Encaminhamento para avaliação de transplante hepático registrado no resumo de alta
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Como saber se está funcionando

Depois da punção correm dois relógios com velocidades diferentes. Um deles conta minutos e horas, e vigia o dano do próprio procedimento; o outro conta horas e dias, e vigia a infecção e o rim. Quem só olha o primeiro dá o caso por encerrado diante de um curativo seco e não volta ao leito quando o laboratório chega.

Os eventos adversos têm ordem de grandeza conhecida, e vale conhecê-la tanto para informar o paciente quanto para calibrar o aperto do seguimento. Uma revisão sistemática reunida pela régua britânica descreve sangramento significativo entre 0% e 2,7%, extravasamento de líquido ascítico entre 0% e 2,35%, perfuração em 0,83% e ponta de cateter retida em 0,41%, com séries heterogêneas. O preditor independente de hemoperitônio pós-punção identificado num dos estudos não foi o coagulograma nem a plaquetometria: foi a lesão renal aguda no momento do procedimento.

Pressão arterial e frequência cardíaca durante e após a drenagemAntes, a cada 30 minutos durante a drenagem, e ao término

Esperado: Estáveis; alívio do desconforto respiratório à medida que o abdome esvazia

Se não melhora: Hipotensão nova durante a drenagem manda interromper e reavaliar. Se persistir depois da reposição, o problema saiu deste capítulo e vai para Hipotensão na enfermaria e para Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora.

Sítio de punçãoAo término, com 2 horas, e a cada turno nas primeiras 24 horas

Esperado: Curativo seco, sem hematoma, sem extravasamento

Se não melhora: Extravasamento persistente: decúbito lateral sobre o lado oposto por 2 horas, curativo compressivo e ponto em bolsa. Hematoma que cresce, dor local intensa ou queda de hemoglobina pedem imagem — o vaso da parede é a fonte, e o tratamento pode ser embolização.

Volume retirado e albumina efetivamente infundidaNo fim da drenagem e na conferência da prescrição do dia seguinte

Esperado: Gramas prescritas iguais às gramas infundidas, na proporção do volume que saiu

Se não melhora: Reposição menor que a prescrita é a falha invisível deste procedimento, e ela costuma acontecer na farmácia e não no leito. Confira o aprazamento e o número de frascos dispensados contra o volume registrado, e recalcule.

Creatinina e sódio séricosNo dia seguinte e no terceiro dia após uma punção de grande volume

Esperado: Creatinina estável e sódio estável — a disfunção circulatória pós-paracentese se manifesta por insuficiência renal e hiponatremia dilucional

Se não melhora: Creatinina subindo depois da punção é disfunção circulatória até prova em contrário: revise a albumina reposta, suspenda diurético e nefrotóxico. A definição de estágio, a expansão e a síndrome hepatorrenal pertencem a Injúria renal aguda; o consenso brasileiro de 2018 é a régua de dose ali.

Nível de consciênciaA cada turno

Esperado: Melhora da encefalopatia junto com o tratamento da infecção e do gatilho

Se não melhora: Encefalopatia que não melhora com o antibiótico em curso reabre a pergunta: o gatilho identificado era o certo? A disfunção circulatória pós-paracentese também precipita encefalopatia, e nesse caso o que falta é volume, não lactulose.

Contagem de polimorfonucleares na segunda punção48 horas após o início do antibiótico

Esperado: Queda maior que 25% do valor inicial

Se não melhora: Queda menor que 25% é falha declarada: ampliar o espectro e investigar peritonite bacteriana secundária com tomografia de abdome. Cultura polimicrobiana no mesmo intervalo reforça a suspeita e antecipa o parecer cirúrgico.

As duas decisões de altaAntes de escrever o resumo de alta

Esperado: Profilaxia secundária definida e encaminhamento para avaliação de transplante registrado

Se não melhora: As duas se perdem quando não saem escritas. Quem teve um episódio de peritonite espontânea tem risco alto de recorrência e sobrevida em um ano descrita em torno de 34% — é a alta em que a linha do resumo vale tanto quanto a prescrição.

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Onde o erro machuca

Só puncionar o cirrótico que tem febre ou dor abdominal

O dano: É o erro que este capítulo existe para desfazer. Até um terço das infecções espontâneas é assintomático ou se apresenta apenas com encefalopatia e queda da função renal; a barriga do cirrótico com peritonite costuma ser mole e indolor, e o hiperesplenismo apaga a leucocitose que se estava esperando. Esperar o sinal clássico é adiar o diagnóstico exatamente na parcela dos pacientes que não vai produzi-lo — e cada hora de atraso da punção depois da admissão foi associada a um aumento de 3,3% na mortalidade hospitalar.

Como pegar a tempo: Troque o gatilho: não é suspeita de infecção, é internação. Cirrótico com ascite que interna por qualquer motivo tem indicação de paracentese diagnóstica, e qualquer piora inexplicada durante a internação reabre a indicação. Escreva a indicação nesses termos na evolução — quem escreve por internação não é convencido a esperar a febre.

Adiar a punção para corrigir o coagulograma ou as plaquetas

O dano: É a contraindicação inventada com mais frequência no internato, e ela custa tempo num paciente que não tem tempo, além de expor a transfusão desnecessária de hemoderivado. O documento britânico recomenda com força alta não medir tempo de protrombina nem plaquetas de rotina antes da punção e não transfundir para viabilizá-la; a régua americana afirma que tempo de protrombina alargado e plaquetopenia não contraindicam o procedimento. Numa série de 3.116 punções guiadas por imagem, com razão normalizada internacional média de 2,1 e sem plasma fresco, 0,19% sangraram a ponto de transfundir e ninguém morreu.

Como pegar a tempo: Guarde a lista curta e verdadeira de contraindicações: paciente que não colabora, infecção de pele no ponto, gravidez, distensão intestinal importante, e coagulopatia grave no sentido estrito de fibrinólise acelerada ou coagulação intravascular disseminada. Se o serviço exige coagulograma por rotina institucional, leve o número e a recomendação para a conversa com quem supervisiona, em vez de adiar em silêncio.

Não separar o frasco de hemocultura antes de furar

O dano: A cultura em frascos de hemocultura inoculados à beira do leito, com pelo menos 10 mL em cada, leva a sensibilidade a mais de 90%; a mesma amostra mandada tampada para o laboratório rende muito menos. Sem cultura, o esquema empírico não pode ser estreitado, o germe multirresistente não é identificado e o crescimento polimicrobiano que denunciaria peritonite secundária nunca aparece. É a maior alíquota em volume e a única que exige um material que não está no carrinho.

Como pegar a tempo: Os dois frascos entram na bandeja junto com as luvas, antes de a primeira embalagem ser aberta, e são o primeiro destino do líquido depois que o cateter está no lugar. Inocule antes da primeira dose de antibiótico e colha hemocultura periférica no mesmo momento.

Pedir o painel completo em todo mundo, ou pedir só a contagem em quem estreia

O dano: Os dois lados do mesmo erro. Pedir citologia oncótica, amilase e adenosina deaminase em cirrótico conhecido gasta volume e tempo de laboratório numa pergunta já respondida, e repetir o gradiente de albumina a cada punção é medir de novo uma resposta que não muda. Do outro lado, não pedir gradiente e proteína no primeiro episódio deixa passar a ascite que não é do fígado — e a conduta da carcinomatose, da tuberculose peritoneal e da ascite cardíaca não é nada do que este capítulo prescreve.

Como pegar a tempo: Use a régua por cenário: contagem sempre, em qualquer punção; cultura em todo internado; gradiente e proteína total no primeiro episódio; glicose e desidrogenase lática só na suspeita de peritonite secundária; citologia só quando se considera causa diferente de cirrose; amilase só na suspeita pancreática.

Retirar vários litros e não repor albumina, ou repor uma quantidade inventada

O dano: Acima de 5 litros retirados sem reposição adequada, a disfunção circulatória pós-paracentese se instala e se manifesta como insuficiência renal, hiponatremia dilucional, encefalopatia e queda de sobrevida — de modo que alguém entra desconfortável e sai em insuficiência renal, com a barriga vazia e o rim fechando. A reposição por estimativa, sem contar o volume retirado, erra sempre para menos, porque a conta é linear e o volume real quase sempre é maior do que a impressão.

Como pegar a tempo: Anote o volume retirado em mililitros no momento em que a drenagem termina, e calcule na hora: 8 gramas por litro. Escreva a dose em gramas e o número de frascos na mesma linha da prescrição, e confira depois quantos frascos foram efetivamente dispensados. Abaixo de 5 litros a reposição não é obrigatória, mas passa a ser considerada em quem tem insuficiência hepática aguda sobre crônica, hipotensão, hiponatremia ou lesão renal aguda.

Ler contagem acima de 250 e parar de pensar

O dano: Cerca de 5% dos cirróticos com peritonite têm peritonite bacteriana secundária, e nela a contagem também está acima de 250. Tratar como espontânea significa dar antibiótico e esperar por quem precisa de tomografia e de cirurgião. Do mesmo modo, um foco intra-abdominal como diverticulite ou colecistite eleva a contagem e exige o tratamento da doença que existe, não o protocolo da peritonite espontânea.

Como pegar a tempo: Diante de contagem alta, procure os quatro sinais que mudam a rota: sintomas abdominais localizados, cultura com múltiplos organismos, contagem muito alta com proteína alta, e resposta inadequada ao tratamento. Nessa suspeita, e só nela, peça glicose e desidrogenase lática do líquido, tomografia sem demora e parecer cirúrgico precoce. E repita a punção em 48 horas: queda de polimorfonucleares menor que 25% é a falha que reabre a pergunta.

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O que dizer ao paciente e à família

Explicar uma agulha na barriga a quem não tem dor nenhuma é mais difícil do que explicá-la a quem está sofrendo. O paciente que dói entende por que se está fazendo algo; o paciente que não dói ouve que vai ser furado por precaução, e precaução é a palavra que faz recusar. A conversa desta punção precisa, portanto, dizer o que ela busca e por que ela não pode esperar o sintoma aparecer — e precisa dizer isso sem transformar o paciente num caso grave que ele ainda não sabe que é.

Explicando a punção a um paciente sonolento que não tem dor e não entende por que vai ser furado

Seu Hermelindo, o senhor tem líquido na barriga, e isso o senhor já sabe. O que eu preciso saber hoje é se esse líquido está infectado, porque isso acontece com alguma frequência em quem tem líquido na barriga e — essa é a parte estranha — costuma não doer nada. A pessoa não tem febre, não sente dor, e a única coisa que aparece é justamente o que trouxe o senhor para cá: ficar confuso, dormir demais, o rim começar a funcionar pior. O único jeito de saber é tirar um pouquinho desse líquido e contar as células dentro dele. É uma agulha fina, do lado esquerdo da barriga, embaixo. Vou anestesiar antes; a anestesia arde por poucos segundos e passa. Daí em diante é pressão, e não dor. Se doer em algum momento, o senhor me avisa e eu paro.

Não diga: Dizer que é rotina, ou que é só para conferir. As duas frases são verdadeiras e as duas fazem o paciente recusar, porque descrevem um procedimento sem finalidade. E evite dizer que vai furar a barriga para tirar água: quem ouve isso imagina a agulha entrando no intestino, e é essa imagem que produz o paciente que enrijece a parede na hora errada.

Com o acompanhante que pergunta por que não esperar mais um dia, já que ele está melhorando

A senhora tem razão de achar que ele está um pouco melhor do que estava de madrugada, e isso é bom. Só que o remédio que ele começou trata uma das causas possíveis dessa confusão, e existe outra que esse remédio não trata: infecção do líquido da barriga. Ela não dá febre nem dor na maior parte das vezes, então esperar mais um dia não vai me dar nenhum sinal novo para olhar — o sinal só existe dentro do líquido. E existe um dado que eu preciso ser honesto em contar: quanto mais tempo se demora para fazer esse exame depois que a pessoa interna, pior é o resultado. Não é urgência de correr; é uma coisa para hoje de manhã, e não para amanhã.

Não diga: Prometer que provavelmente não é nada para acalmar a família. Se vier positivo, a promessa quebrada custa a confiança de toda a internação; e se vier negativo, o exame foi feito à toa aos olhos de quem ouviu a promessa. Diga o que se procura e por que se procura agora.

Quando a enfermagem ou o plantão dizem que não se punciona com o coagulograma daquele jeito

Eu vi o coagulograma, e ele está mesmo alargado — é o padrão de quem tem cirrose. Só que essa alteração não é a mesma coisa que risco de sangrar nesse procedimento. As diretrizes atuais recomendam explicitamente não pedir coagulograma e plaquetas de rotina antes de uma paracentese e não transfundir para poder fazê-la. Existem séries grandes de punções feitas em pacientes com o coagulograma pior que o dele, sem plasma, com taxa de sangramento abaixo de um por mil. O que de fato contraindica é coagulação intravascular disseminada, e não é o caso. Vou levar isso para o preceptor antes de furar, com o número na mão.

Não diga: Discutir por autoridade, dizendo que a diretriz manda. Numa enfermaria a frase que resolve é a que traz o número e o desfecho, e a que reconhece que o outro leu a mesma folha e leu direito. E evite furar em silêncio depois de ouvir a objeção: a decisão sobe para quem supervisiona, com a divergência nomeada.

Antes de começar a drenagem da punção de alívio, combinando o que é normal e o que não é

Agora vamos tirar o resto do líquido, e isso demora — pode levar de uma a quatro horas. O senhor vai sentir a barriga afrouxando aos poucos e vai respirar melhor. É normal sentir um pouco de cólica quando o líquido está acabando. O que não é normal e o que eu preciso que o senhor me avise na hora: dor forte, tontura ou sensação de desmaio. Quando terminar, vou passar um soro com uma proteína chamada albumina na veia. Não é para alimentar nem para engordar: é para segurar a pressão do sangue depois que a barriga esvaziar, porque quando sai muito líquido de uma vez o rim pode sofrer. Essa parte é tão importante quanto tirar o líquido.

Não diga: Chamar a albumina de suplemento ou de reforço, e deixar a impressão de que é opcional. É a frase que produz o paciente que dispensa a infusão porque quer ir embora, e a família que não estranha quando ela não é feita. Diga para que serve: segurar a circulação e proteger o rim.

Contando o resultado que muda o diagnóstico da internação

O exame do líquido voltou e mudou o que a gente achava. O líquido está infectado — havia quase setecentas células de defesa por milímetro cúbico, e acima de duzentos e cinquenta já é infecção. Isso explica a confusão de domingo melhor do que a prisão de ventre explicava. A boa notícia é que a gente descobriu no primeiro dia e o antibiótico já está começando agora, na veia. O senhor não tinha febre e não tinha dor, e é exatamente assim que essa infecção costuma se apresentar em quem tem cirrose — não foi nada que o senhor tenha deixado de contar.

Não diga: Apresentar o achado como se alguém tivesse errado antes. O plantão da madrugada fez uma leitura defensável, e transformar a conversa numa correção de rota destrói a confiança do paciente em toda a equipe. E não diga que era grave e passou: o tratamento começou, e o desfecho ainda vai ser acompanhado.

Passando o caso ao plantão da tarde

Leito 5, Hermelindo Sicupira, 56 anos, 78 quilos, cirrose alcoólica, internou às duas da manhã com encefalopatia grau II. Paracentese diagnóstica e de alívio às oito, quadrante inferior esquerdo, guiada por ultrassom, sem intercorrência. Saíram 6,4 litros e a dose calculada foi 51,2 gramas de albumina, 256 mL da solução a 20%; conferi e registrei com a equipe a dose efetivamente administrada. Contagem voltou às duas da tarde: 1.100 leucócitos com 62% de polimorfonucleares, dá 682 — é peritonite espontânea. Antibiótico começou às duas e meia, hemocultura e cultura do líquido inoculadas em frasco à beira do leito antes da primeira dose. O que eu preciso que aconteça: creatinina e sódio amanhã cedo, e a segunda paracentese está agendada para quinta às oito, com o critério de falha escrito na evolução — queda de polimorfonucleares menor que 25%.

Não diga: Passar como paracentese feita, aguardando resultado. É verdadeira e inútil: não diz qual número dispara qual conduta, nem que existe uma segunda punção marcada. É assim que a reavaliação de 48 horas some — ela não é esquecida, ela nunca teve dono.

Na alta, explicando as duas coisas que precisam continuar fora do hospital

O senhor teve uma infecção do líquido da barriga, e ela foi tratada. Duas coisas precisam continuar. A primeira é um antibiótico em comprimido, todo dia, por tempo indeterminado: quem teve uma vez tem chance alta de ter de novo, e esse comprimido reduz essa chance. Não é para tomar quando sentir algo — é justamente porque não se sente nada. A segunda é a consulta que eu marquei para avaliar transplante de fígado. Não quer dizer que o senhor vá transplantar amanhã; quer dizer que essa infecção mostrou que o fígado está num ponto em que essa avaliação precisa começar. E fica o combinado: qualquer confusão, sonolência diferente ou barriga aumentando, o senhor volta, mesmo sem febre e sem dor.

Não diga: Deixar a profilaxia e o encaminhamento apenas na receita, sem explicar por quê. O comprimido diário sem sintoma é o primeiro a ser abandonado em casa, e a consulta de transplante sem contexto é lida como má notícia escondida — as duas se perdem exatamente por não terem sido ditas em voz alta.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O corte de polimorfonucleares é 250 ou 500 por milímetro cúbico?

250 por milímetro cúbico — as três diretrizes, de 2018 a 2021

Os documentos europeu de 2018, americano de 2021 e britânico de 2021 fixam o diagnóstico de peritonite bacteriana espontânea em contagem acima de 250 polimorfonucleares por milímetro cúbico, na ausência de foco intra-abdominal cirurgicamente tratável. A régua americana explicita a razão da escolha, e ela não é acurácia: 250 é o corte de maior sensibilidade, escolhido para evitar que uma peritonite fique sem tratamento. É uma decisão declarada de assimetria de dano.

Biggins SW et al. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048; Aithal GP et al. Gut. 2021;70(1):9-29; EASL. J Hepatol. 2018;69(2):406-460

500 por milímetro cúbico — o que a evidência de acurácia citada pelos mesmos documentos favorece

O documento europeu registra que a maior especificidade se obtém com o corte de 500. O britânico vai além e cita, na mesma página em que recomenda 250, uma metanálise de dados primários de 14 estudos prospectivos segundo a qual leucócitos totais acima de 1.000 por microlitro ou polimorfonucleares iguais ou acima de 500 por microlitro são os parâmetros mais acurados, com razões de verossimilhança positivas de 9,1 e 10,6 respectivamente. O corte recomendado e o corte mais acurado, nesse documento, não são o mesmo número.

Aithal GP et al. Gut. 2021;70(1):9-29; EASL. J Hepatol. 2018;69(2):406-460

Como decidir

Adotar PMN ≥250 células/mm³ para a decisão clínica de tratar suspeita de peritonite bacteriana espontânea, enquanto se avalia possível fonte secundária. O limiar de 500 aumenta especificidade, mas não é motivo para observar sem antibiótico um resultado entre 250 e 500. Cultura negativa não exclui o diagnóstico. Nova punção pode esclarecer evolução, sobretudo resposta inadequada, sem substituir o tratamento oportuno.

Albumina na peritonite espontânea: para todos, ou só para quem já tem creatinina alterada?

Para todos os pacientes com peritonite espontânea — Sociedade Brasileira de Hepatologia, 2018

A recomendação B do único documento brasileiro próximo do tema diz que a administração de albumina intravenosa é recomendada para pacientes com peritonite bacteriana espontânea, como profilaxia de síndrome hepatorrenal, na dose de 1,5 g/kg no primeiro dia e 1,0 g/kg no terceiro dia de tratamento. A recomendação não qualifica por creatinina, por bilirrubina nem por gravidade. A régua americana de 2021 fica próxima disso: afirma que pacientes com peritonite devem ser tratados com albumina além do antibiótico, acrescentando que quem tem lesão renal aguda ou icterícia ao diagnóstico tem maior probabilidade de se beneficiar.

Terra C, Mattos ÂZ, Pereira G, et al. Arq Gastroenterol. 2018;55(3):314-320; Biggins SW et al. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048

Só para quem tem creatinina aumentada ou em elevação — diretriz britânica, 2021

A recomendação 6.3 do documento britânico restringe a infusão a pacientes com peritonite espontânea e creatinina sérica aumentada ou em elevação, exige a primeira dose de 1,5 g/kg dentro de 6 horas do diagnóstico, mantém 1 g/kg no terceiro dia, e classifica tudo isso como evidência de baixa qualidade e recomendação fraca. O ensaio randomizado de origem, citado pelos três documentos, mostrou benefício particularmente marcado em quem tinha bilirrubina igual ou acima de 4 mg/dL ou creatinina igual ou acima de 1 mg/dL, e incidência de síndrome hepatorrenal muito baixa nos dois braços entre quem não preenchia esses critérios.

Aithal GP et al. Gut. 2021;70(1):9-29

Como decidir

Leve ao preceptor a creatinina atual e sua tendência, a bilirrubina e o estado clínico. O benefício descrito é mais marcado com creatinina ≥1 mg/dL ou bilirrubina ≥4 mg/dL. Nos demais pacientes, discuta o esquema adotado e a tolerância à infusão. Registre a indicação, os dados que a sustentam e o plano de fornecimento e reavaliação.

Quanto de albumina por litro retirado — e com que confiança?

8 g por litro, evidência alta e recomendação forte — diretriz britânica, 2021, e diretriz europeia, 2018

A recomendação 6.1 do documento britânico manda infundir albumina, a 20% ou a 25%, após paracentese de mais de 5 litros, na dose de 8 gramas por litro de ascite retirado, classificando a qualidade da evidência como alta e a recomendação como forte. A recomendação 6.2 estende a mesma dose a paracenteses abaixo de 5 litros em pacientes com insuficiência hepática aguda sobre crônica ou alto risco de lesão renal aguda pós-paracentese, aí com evidência baixa e recomendação fraca. O documento europeu de 2018 recomenda os mesmos 8 gramas por litro acima de 5 litros, com grau equivalente de força, e registra que a albumina é superior a qualquer outro expansor.

Aithal GP et al. Gut. 2021;70(1):9-29; EASL. J Hepatol. 2018;69(2):406-460

6 a 8 g por litro, por opinião de especialistas — diretriz americana, 2021

A régua americana registra que nunca houve estudo de dose-resposta da albumina na paracentese e escreve que a dose recomendada, de 6 a 8 gramas por litro de ascite retirado, é baseada em opinião de especialistas. Ela também cita um estudo em que a limitação do volume a menos de 8 litros por sessão, com dose acima da recomendada — 9,0 mais ou menos 2,5 gramas por litro —, associou-se a melhor preservação de função renal e sobrevida ao longo de dois anos, ainda que 40% dos pacientes desenvolvessem disfunção circulatória.

Biggins SW et al. Hepatology. 2021;74(2):1014-1048

Como decidir

Defina com a equipe a dose por litro e o volume que se pretende retirar. Em 8 L, 6 g/L resultam em 48 g e 8 g/L em 64 g: a diferença é de 16 g. Risco renal, pressão, sódio e quadro hepático entram no planejamento. Se a quantidade disponível não cobrir a reposição indicada, reveja o procedimento antes da retirada, em vez de reduzir a dose silenciosamente depois.

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O raciocínio, em voz alta

Enfermaria de clínica médica, segunda-feira, 7h20. Leito 5: Hermelindo Sicupira, 56 anos, 78 quilos, cirrose alcoólica com ascite conhecida há um ano, em uso domiciliar de espironolactona e furosemida. Internou às 2h10 pelo pronto-socorro, trazido pela esposa por sonolência e confusão desde domingo de manhã. A evolução da noite registra encefalopatia hepática grau II, gatilho presumido de constipação, lactulose iniciada. Ao exame agora: sonolento e despertável, orientado parcialmente, abdome globoso e tenso, indolor à palpação, sem defesa, cicatriz umbilical apagada, circulação colateral em flancos. Temperatura 36,1 °C, frequência cardíaca 88, pressão arterial 102 por 62. Hemograma da admissão com 8.400 leucócitos sem desvio, plaquetas 74 mil, razão normalizada internacional 1,8, creatinina 1,4 mg/dL, bilirrubina total 3,6 mg/dL, albumina sérica 2,4 g/dL. A visita começa às oito.

  1. Reconheço a indicação onde ninguém a viu

    O prontuário tem um diagnóstico, um gatilho e uma conduta em curso, e nada disso é errado. O que falta não é um sinal novo: é a leitura de que cirrótico com ascite que interna já tem indicação de paracentese diagnóstica, independentemente do motivo da internação e da ausência de febre, de dor e de leucocitose. E a encefalopatia sem gatilho robusto, a creatinina de 1,4 e a temperatura de 36,1 são, os três, apresentações típicas da infecção que não dói. Escrevo a indicação na evolução nesses termos, antes de qualquer outra coisa.

  2. Descarto as contraindicações reais e ignoro a inventada

    Paciente sonolento mas colaborativo com estímulo e com a esposa ao lado: colabora. Pele do quadrante inferior esquerdo íntegra, sem cicatriz e sem veia colateral no ponto escolhido. Sem gravidez, sem distensão intestinal importante. Plaquetas de 74 mil e razão normalizada internacional de 1,8 não contraindicam nada: a recomendação britânica é de força alta em não medir esses exames de rotina e em não transfundir para viabilizar a punção, e as séries citadas incluem pacientes com números piores. Peço para esvaziar a bexiga.

  3. Separo o que não vem no kit, antes de abrir o kit

    Dois frascos de hemocultura, aeróbio e anaeróbio, na bandeja junto com as luvas. Tubo com anticoagulante para a contagem, tubo seco para proteína e albumina do líquido, tubo de sangue periférico para a albumina sérica do mesmo minuto — este é o primeiro registro de análise do líquido deste paciente, então o gradiente entra. Lidocaína a 2% sem vasoconstritor, conferindo o rótulo porque a gaveta tem a associação com epinefrina e tem gel e spray. Cateter sobre agulha, equipo e frasco graduado, porque a barriga tensa provavelmente vai transformar esta punção numa de alívio.

  4. Marco o ponto pela régua e não pelo hábito

    Decúbito dorsal, cabeceira a trinta graus, tronco levemente rodado para a esquerda, um minuto de espera. Quadrante inferior esquerdo, a pelo menos 8 cm da linha média e 5 cm acima da sínfise — as duas distâncias existem para escapar da artéria epigástrica inferior, que sobe dentro da bainha do reto. O ultrassom da unidade mostra lâmina ampla, parede de 3 cm e nenhuma alça encostada no ponto. Marco com o paciente já na posição definitiva. Antissepsia, campo, botão anestésico, anestesia por planos até o peritônio parietal. Progrido aspirando, com a pele tracionada lateralmente. Líquido claro e amarelo-citrino aos 4 centímetros; troco o mandril pelo cateter.

  5. Colho começando pelo que não se recupera

    Primeiro os dois frascos de hemocultura, 10 mL em cada, inoculados ali mesmo, antes de qualquer outro tubo e antes de qualquer antibiótico — é o gesto que leva a sensibilidade da cultura a mais de 90% e o único que não tem conserto depois. Depois o tubo da contagem, que é o exame que decide hoje. Depois proteína e albumina do líquido, e o sangue do braço no mesmo minuto. Não peço citologia oncótica, nem amilase, nem adenosina deaminase: cirrótico conhecido, sem suspeita de causa peritoneal, e cada um desses pedidos gastaria volume numa pergunta que ninguém fez.

  6. Transformo em punção de alívio e conto o volume

    Conecto o equipo e dreno para frasco graduado. Uma hora e cinquenta minutos depois, saíram 6,4 litros e o fluxo cessou. Não há teto numérico declarado; o degrau que a régua americana assinala é o de 8 litros, e ficamos abaixo dele. Retiro o cateter, comprimo, curativo oclusivo. Anoto o volume em mililitros na evolução no mesmo instante, porque é dele que sai a conta da albumina e porque volume estimado de memória erra sempre para menos.

  7. Reponho a albumina e escrevo a dose em duas unidades

    O cálculo após retirar 6,4 L é 8 × 6,4 = 51,2 g de albumina, equivalentes a 256 mL de solução 20%. Prescrevo em gramas e mililitros e confiro apresentação e administração com a farmácia. Se o serviço arredondar a dose para frascos inteiros, essa decisão deve estar explícita; não afirmo que cinco frascos de 50 mL somam 256 mL. Registro dose efetivamente administrada e acompanho pressão, sintomas, diurese e função renal.

  8. Leio o número e mudo o diagnóstico da internação

    Às 14h10 a contagem volta: 1.100 leucócitos por milímetro cúbico com 62% de polimorfonucleares. A multiplicação dá 682, muito acima de 250. É peritonite bacteriana espontânea num paciente que não teve febre, não teve dor e não teve leucocitose. O antibiótico empírico começa às 14h30, cefalosporina de terceira geração conforme o protocolo do serviço, sem esperar a cultura — que já está semeada desde as 8h10, antes da primeira dose. Suspendo o anti-inflamatório que veio da receita de casa, revejo o diurético diante da creatinina de 1,4, e deixo escrito na evolução: segunda paracentese na quinta-feira às oito, falha definida como queda de polimorfonucleares menor que 25%, e albumina da peritonite a discutir na visita com creatinina e bilirrubina na mesa.

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Faça você

Enfermaria de clínica médica, quinta-feira, 9h30. Diolinda Grigoletto tem 63 anos, 64 quilos, cirrose por doença hepática gordurosa, e está no terceiro dia de internação por peritonite bacteriana espontânea. A paracentese da admissão mostrou 1.480 polimorfonucleares por milímetro cúbico e ela começou ceftriaxona no mesmo dia. Melhorou pouco: mantém-se febril, com 38,1 °C hoje, e refere dor no andar inferior do abdome que começou ontem e que ela localiza com o dedo. A segunda paracentese, feita há uma hora, voltou com 1.320 polimorfonucleares — queda de 11% em relação ao valor inicial. O laboratório telefonou: a cultura do líquido da admissão cresceu Escherichia coli e Enterococcus faecalis, dois organismos. A proteína total do líquido daquela primeira punção era 3,2 g/dL. A residente está no ambulatório e pediu para você adiantar a conduta.

  1. achado

    Quatro sinais estão presentes ao mesmo tempo, e são exatamente os quatro que os documentos listam para suspeitar de peritonite bacteriana secundária: dor abdominal localizada, que a paciente aponta com o dedo; cultura com múltiplos organismos, quando a infecção espontânea é tipicamente monobacteriana; contagem muito alta com proteína do líquido alta, de 3,2 g/dL; e resposta inadequada ao tratamento. A conta da segunda punção confirma o quarto: 1.320 sobre 1.480 é uma queda de 10,8%, muito abaixo dos 25% que definem resposta.

  2. o que falta

    Faltam duas coisas, e nenhuma delas é um antibiótico melhor. Falta a bioquímica que compõe a distinção entre as duas peritonites e que não foi pedida na admissão porque, naquele momento, não havia suspeita: glicose e desidrogenase lática do líquido — a régua americana as reserva justamente para esta suspeita. E falta imagem: nenhuma tomografia de abdome foi solicitada em três dias de internação.

  3. a decisão

    O que se faz agora, nesta manhã, e o que se escreve na evolução para que a decisão não dependa de a residente voltar do ambulatório?

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Acompanhe Hermelindo desde a mudança de comportamento até a resposta ao tratamento. A punção deve resolver uma pergunta diagnóstica ou terapêutica e gerar um plano de reavaliação.

  5. Questão integrativa 1

    Confusão isolada em Hermelindo permite atribuir tudo à constipação?

  6. Questão integrativa 2

    Qual é o PMN com 1.100 leucócitos/mm³ e 62% de neutrófilos?

  7. Questão integrativa 3

    PMN de 320 com cultura pendente permite esperar até ultrapassar 500?

  8. Questão integrativa 4

    Quanto corresponde a 8 g/L após retirar 6,4 L?

  9. Questão integrativa 5

    INR elevado na cirrose exige plasma de rotina antes da punção?

  10. Questão integrativa 6

    Se o paciente piorar antes de 48 horas, deve esperar a punção de controle?

Ver como fecharíamos

Tratar como peritonite bacteriana secundária até prova em contrário, e agir por duas frentes ao mesmo tempo. A primeira é diagnóstica e é urgente: solicitar tomografia de abdome sem demora e pedir glicose e desidrogenase lática na alíquota do líquido que ainda estiver no laboratório, evitando uma terceira punção se houver material guardado. A segunda é o parecer cirúrgico precoce, solicitado agora e não depois do resultado da imagem — os documentos são explícitos em que a suspeita de peritonite secundária pede tomografia imediata e consideração cirúrgica precoce, e o cirurgião que chega junto com o exame decide mais rápido que o que é chamado depois. Em paralelo, ampliar o espectro antimicrobiano é o que a falha de resposta manda fazer, e a cobertura precisa contemplar o enterococo isolado e os anaeróbios que uma perfuração traria; a escolha do esquema pertence ao capítulo O antibiótico que ninguém para e é decidida com quem supervisiona e com o perfil de resistência do serviço. Na evolução, deixar escrito, com essas palavras, que a queda de polimorfonucleares foi de 10,8% em 48 horas, abaixo do limiar de 25%, e que a cultura é polimicrobiana — porque são esses dois fatos, e não a febre, que tiram a paciente do protocolo da peritonite espontânea. E registrar o aprendizado que evita a repetição: glicose e desidrogenase lática não são rotina de paracentese e passam a ser pedidas no instante em que a suspeita de foco cirúrgico aparece, e não três dias depois. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A infecção pode precipitar encefalopatia mesmo sem febre; a ascite deve ser investigada conforme o contexto. 2. 682 células/mm³: 1.100 × 0,62. O limiar é baseado no número absoluto, não na porcentagem isolada. 3. Não. ≥250 já sustenta tratar suspeita de peritonite bacteriana espontânea, investigando fonte secundária quando indicada. 4. 51,2 g; na apresentação de 20%, 256 mL. Conferir unidades e eventual arredondamento com protocolo e farmácia. 5. Não. O exame isolado não prediz adequadamente o risco; não corrigir automaticamente. Avaliar contexto clínico e riscos específicos. 6. Não. Reavaliar imediatamente, incluindo resistência, fonte secundária, perfusão e outras complicações, com a equipe.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A indicação de paracentese diagnóstica neste paciente não depende de suspeita clínica de infecção: ela decorre de ele ser cirrótico com ascite e ter internado, e vale mesmo sem febre, sem dor e sem leucocitose. Até um terço das infecções espontâneas na cirrose é assintomático ou se apresenta apenas por encefalopatia e queda da função renal, que é exatamente o que ele traz; o hiperesplenismo, por sua vez, apaga a leucocitose que se esperaria no sangue. Adiar tem custo medido: cada hora de atraso da punção após a admissão foi associada a um aumento de 3,3% na mortalidade hospitalar. A cultura precisa ser inoculada em frascos de hemocultura à beira do leito, com pelo menos 10 mL em cada, antes da primeira dose de antibiótico — depois dela a sensibilidade cai e o esquema empírico nunca poderá ser estreitado. Tomografia não precede a punção neste cenário; ela entra quando há suspeita de peritonite secundária. E coagulograma alargado e plaquetopenia do cirrótico não contraindicam o procedimento nem indicam transfusão.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo: (1) diga em que situações um cirrótico com ascite tem indicação de paracentese diagnóstica, e por que a febre e a dor não fazem parte da lista; (2) desenhe o abdome, marque o ponto de punção e diga que estrutura cada uma das duas distâncias evita; (3) diga qual exame é pedido em toda punção, qual só no primeiro episódio, e qual só diante de suspeita de foco cirúrgico; (4) calcule a contagem de polimorfonucleares a partir de 900 leucócitos com 35% de polimorfonucleares e diga se é peritonite; (5) diga a partir de que volume se repõe albumina, quanto por litro, e converta 7 litros em gramas e em frascos de 50 mL; (6) enuncie a lista completa de contraindicações à punção, e diga o que não está nela.

Em 30 dias

Teste de retenção longa: (1) reconstrua a tabela que leva do número do laboratório à conduta, incluindo bacterascite e peritonite secundária; (2) explique por que a peritonite espontânea não dói, usando as palavras translocação e proteína do líquido; (3) explique por que o gradiente de albumina e a contagem de polimorfonucleares respondem perguntas com periodicidades diferentes; (4) reconstrua a divergência sobre albumina na peritonite espontânea — quem sustenta o quê, com que data — e diga qual dado resolve o caso concreto; (5) diga o que o Brasil tem e o que não tem sobre este tema: régua de sociedade, norma federal e elenco de medicamentos; (6) diga qual é o mecanismo da disfunção circulatória pós-paracentese e por que a albumina, e não soro fisiológico, é o que a previne.

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Agora atenda

Segunda-feira de manhã, e você é o interno escalado para a enfermaria de clínica médica. Homem de 56 anos, cirrótico, com ascite conhecida, internou às duas da madrugada trazido pela esposa por sonolência e confusão desde o dia anterior. O plantão da noite registrou encefalopatia hepática, presumiu constipação como gatilho e iniciou lactulose. Ele não tem febre, não tem dor abdominal e o hemograma não mostra leucocitose. A visita começa às oito e o caso parece resolvido.