Cirurgia GeralProcedimentos e Vias de Acesso

Acesso venoso periférico

Escolher o acesso, reconhecer dificuldade e complicações e acompanhar sua necessidade, com execução supervisionada e plano de escalonamento.

Fontes deste capítulo

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 04/2022 — Práticas seguras para a prevenção de incidentes envolvendo cateter intravenoso periférico em serviços de saúde. Brasília: Anvisa, 26 de julho de 2022

Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, caderno 4, 2ª edição. Brasília: Anvisa, 2017 — Capítulo 3, Medidas de Prevenção de Infecção da Corrente Sanguínea

Urbanetto JS, Peixoto CG, May TA. Incidência de flebites durante o uso e após a retirada de cateter intravenoso periférico. Revista Latino-Americana de Enfermagem. 2016;24:e2746

Braga LM, Salgueiro-Oliveira AS, Henriques MAP, Arreguy-Sena C, Parreira PMSD. Adaptação transcultural da Infiltration Scale para o português. Acta Paulista de Enfermagem. 2016;29(1)

Hansel LA. Assertividade da punção venosa periférica orientada por ultrassom versus punção venosa periférica convencional: ensaio clínico randomizado [dissertação de mestrado]. Porto Alegre: Escola de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande do Sul; 2022

01

Responda antes de ler

Mulher de 71 anos, internada por pneumonia, no terceiro dia de ceftriaxona intravenosa, com previsão de mais cinco dias de tratamento por essa via. Antecedente de mastectomia radical à direita, com esvaziamento axilar, há doze anos. O acesso anterior infiltrou durante a madrugada. À inspeção do membro esquerdo: dois hematomas recentes no dorso da mão, equimose antiga em fossa cubital, pele fina. À palpação, identifica-se uma veia retilínea e elástica na face ventral do antebraço esquerdo, com cerca de cinco centímetros de trajeto livre. Qual é a conduta mais adequada para o novo acesso?

02

O paciente que você vai ver

São 6h40 da enfermaria de clínica médica. Dona Marlene tem 71 anos, está no terceiro dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade, e o acesso venoso que veio do pronto-socorro infiltrou em algum momento da madrugada. A dose das seis da manhã de ceftriaxona está pendurada no suporte, ainda fechada. A técnica de enfermagem já tentou duas vezes — uma no dorso da mão esquerda, outra no punho — e as duas tentativas viraram hematoma. Ela chamou você.

Você chega com um cateter 22 na mão, porque era o que estava na bandeja. Antes de furar qualquer coisa, olhe o que está diante de você. O braço direito de dona Marlene exige avaliação da história e das condições locais: ela fez mastectomia com esvaziamento axilar há doze anos, e está escrito na primeira folha da evolução, três linhas depois do nome. O braço esquerdo tem dois hematomas frescos no dorso da mão e um roxo antigo na fossa cubital, de coleta. A pele é fina, translúcida, com aquele aspecto de papel de seda que a idade e o corticoide deixam. Sob a luz oblíqua da janela dá para ver o desenho azulado de uma veia no antebraço, e ela é retilínea.

Do lado de fora do quadro há mais gente do que se costuma contar. A técnica está segurando o garrote e o esparadrapo, esperando você decidir. A filha de dona Marlene está sentada na poltrona e viu as duas tentativas anteriores. Dona Marlene, que passou a noite mal, olha o próprio braço e diz a frase que todo mundo já ouviu na enfermaria: minha veia é ruim, doutor, sempre foi. E há o antibiótico atrasado — quatro horas até agora, em uma senhora com saturação de 91% em ar ambiente.

O reflexo do interno nesse ponto é pegar a agulha e procurar veia. É o reflexo errado, e ele não é errado por falta de habilidade manual: é errado porque pula três decisões que já estavam disponíveis antes de tocar no paciente. Quais veias sobraram, depois de excluir o membro com restrição relevante após avaliação e os segmentos já comprometidos. Qual calibre a terapia exige — e a resposta muda se o plano é antibiótico intermitente por mais cinco dias ou se o plano é reposição volêmica agora. E se o que vai correr por ali pode correr por uma veia periférica, o que no caso dela é sim, mas não é sempre.

O acesso venoso periférico é o procedimento invasivo mais realizado em pacientes hospitalizados. É também o único procedimento invasivo que quase todo mundo aprende olhando alguém fazer, sem nunca ter lido uma linha de norma sobre ele. A consequência é previsível: a técnica manual costuma estar razoável no fim do quarto ano, e as decisões em volta — sítio, calibre, fixação, tempo de permanência, momento de tirar — continuam sendo tomadas por hábito de plantão. É onde mora a maior parte do dano.

Este capítulo trata o acesso periférico como o procedimento que ele é: com indicação, escolha, técnica, prazo e complicação. Ao fim dele, diante de dona Marlene, você vai ter escolhido a veia antes de pegar o cateter, vai ter escolhido o calibre a partir do que vai correr por ali, vai saber por que a fossa cubital seria péssima ideia para os cinco dias que faltam, e vai reconhecer, no dia seguinte, a diferença entre um sítio que dói e um sítio que precisa sair agora.

03

Quem adoece disso

A primeira coisa a entender sobre acesso periférico é que a estatística relevante não é a da doença — é a do erro. A Anvisa registra que cerca de 90% dos pacientes internados recebem soluções e medicamentos por via intravenosa, e que entre 50% e 75% dos que estão em terapia intravenosa periférica desenvolvem alguma complicação local ou sistêmica. Não é uma taxa de evento raro. É a expectativa média de que, em qualquer enfermaria de dezesseis leitos, boa parte dos acessos vá dar algum tipo de problema antes de sair.

O tamanho disso no sistema brasileiro está medido. Entre junho de 2021 e maio de 2022, os serviços de saúde notificaram ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária 39.994 incidentes envolvendo cateteres intravenosos — 16% de todas as notificações de incidentes do período, o terceiro incidente mais reportado no país. A consequência clínica dessa posição no ranking é direta: o acesso venoso não é um detalhe de enfermagem que corre em paralelo ao tratamento. Ele é, em volume, um dos maiores geradores de dano evitável do hospital, e a maior parte desse dano é assinada por decisão médica — quem prescreve o antibiótico, quem pede o contraste, quem manda repor volume.

A flebite é a complicação que se mede. Uma coorte brasileira acompanhou 361 punções em 171 adultos de uma enfermaria clínica de hospital universitário em Porto Alegre e encontrou sinais de flebite em 10,0% dos cateteres durante o uso e em 11,1% depois da retirada — a chamada flebite pós-infusional, que se manifesta de 48 a 96 horas após o cateter sair. Calculada do jeito que a Anvisa manda calcular, por paciente-dia com acesso, a incidência ficou em 1,25% durante o uso e 1,38% pós-infusional. A régua internacional de qualidade que essa mesma coorte usa como referência é manter a incidência abaixo de 5%; ali ela foi cumprida. Os dois números — dez por cento dos cateteres, um por cento dos pacientes-dia — não se contradizem: medem coisas diferentes, e é bom saber qual está sendo citado quando alguém disser que a flebite do serviço está alta.

Dentro dessa mesma coorte está o achado que mais muda comportamento no dia a dia: cateteres que ficaram mais de 72 horas tiveram flebite durante o uso em 14,4% dos casos, contra 6,2% dos que saíram antes disso. É a única variável de manejo que apareceu associada de forma estatisticamente significativa. Tempo de permanência não é uma métrica burocrática de comissão de infecção — é o fator sob seu controle que mais empurra a curva.

O segundo número que descalibra a autoimagem do interno é a taxa de sucesso na primeira punção. Um ensaio clínico randomizado brasileiro, com 166 adultos internados em unidades clínicas, comparou a punção convencional com a punção orientada por ultrassom. No braço convencional, a assertividade na primeira tentativa foi de 35,7%. Com ultrassom, 90,2%. Duas leituras saem disso, e as duas importam. A primeira é que acertar de primeira, sem tecnologia, em paciente de enfermaria, é minoria — a sensação de fracasso pessoal que o interno tem depois de errar uma punção é estatisticamente infundada. A segunda é que, se dois terços das punções convencionais falham na primeira tentativa, o custo agregado disso em veia gasta, dor e atraso de dose é enorme, e é por isso que existe um teto formal de tentativas.

Falta o número que não existe, e a ausência dele é informação clínica. A régua nacional de infecção da corrente sanguínea foi construída em torno do cateter central: é de lá que vêm a mortalidade atribuível acima de 10% descrita nos Estados Unidos e os 40% de mortalidade encontrados entre pacientes com infecção da corrente sanguínea na coorte brasileira do estudo scope. O cateter periférico entrou nessa mesma publicação como um conjunto de recomendações de prevenção, mas os indicadores que a Anvisa manda o serviço monitorar no periférico são outros três — perda do acesso, avaliação de risco de flebite e incidência de flebite. Bacteremia associada a cateter periférico não está entre eles.

Isso tem uma consequência prática que vale mais do que qualquer taxa: o periférico infectado não aparece em painel de indicador nenhum. Ele aparece como febre no quarto dia de internação em paciente que já estava melhorando, e a busca de foco começa pelo pulmão, passa pela urina, pede hemocultura, e só chega ao punho do paciente quando alguém levanta a atadura. Como a colonização da face externa do dispositivo predomina justamente nas duas primeiras semanas, esse é exatamente o período de internação da maioria dos pacientes de enfermaria. Vale ainda saber que uma revisão sistemática citada pela própria Anvisa estima que 65% a 70% das infecções da corrente sanguínea seriam preveníveis com adesão às boas práticas de inserção e manutenção — ou seja, a maior parte do dano que se vê aqui foi construída, não sorteada.

04

Por que acontece o que acontece

Duas coisas explicam quase tudo que dá certo e quase tudo que dá errado num acesso periférico: por onde a veia passa, e o que a física do tubo permite. Nenhuma das duas é decorável em tabela — as duas são raciocináveis, e é isso que faz o conhecimento transferir para o paciente que não é igual ao do livro.

A rede venosa superficial do membro superior começa no arco venoso dorsal da mão e sobe por dois troncos. Lateralmente, a veia cefálica: nasce no lado radial do arco dorsal, cruza a tabaqueira anatômica, sobe pela face lateral do antebraço e chega à fossa cubital pelo lado de fora. Medialmente, a veia basílica: nasce no lado ulnar, sobe pela face medial e chega à fossa cubital por dentro. Entre as duas, na face anterior do antebraço, corre a rede das veias medianas — mediana do antebraço e suas tributárias —, e na fossa cubital a mediana cubital faz a ponte entre cefálica e basílica, formando o M venoso que todo mundo aprende a desenhar e quase ninguém aprende a respeitar.

Essa anatomia já contém a hierarquia dos sítios. As veias das superfícies dorsal e ventral do antebraço são as de escolha em adultos porque acomodam cateteres de maior dimensão, correm sobre um plano ósseo relativamente estável, ficam longe de articulação e permitem que o paciente use a mão. O dorso da mão funciona, mas as veias são de menor calibre, mais móveis sob uma pele fina, e ficam num segmento que dobra o tempo todo — é o sítio que mais dói e o que mais perde acesso por tração. A fossa cubital é tentadora porque é onde a veia é mais fácil de achar, e é ruim justamente pelo motivo que a torna fácil: é articulação. Cada flexão de cotovelo angula a cânula contra a íntima, e o resultado é alarme de bomba, refluxo interrompido e flebite mecânica. Como acesso de coleta ou de infusão única e rápida, a fossa cubital é legítima. Como acesso de manutenção por dias, é uma escolha que se paga.

Mais acima, no braço, a basílica é calibrosa e superficial no terço distal, mas perde essa hospitalidade rápido: no terço médio ela perfura a fáscia e passa a correr junto do feixe neurovascular, com a artéria braquial e o nervo mediano por perto, e o nervo cutâneo medial do antebraço acompanhando-a em superfície. Punção às cegas ali não é técnica de enfermaria — é o território onde entra o ultrassom, com um cateter mais longo, porque a veia está profunda demais para um dispositivo curto se sustentar dentro dela.

Dentro das veias há válvulas, e elas explicam dois fenômenos cotidianos. Primeiro, o cateter que entra com refluxo bonito e para de progredir depois de um centímetro: bateu numa cúspide valvar. Forçar ali dilacera a íntima, cria o ponto de partida de um trombo e às vezes rompe o vaso — a manobra correta é infundir um pouco de solução enquanto se progride, para abrir a válvula, ou recomeçar acima. Segundo, o hematoma que aparece na retirada: as válvulas mantêm a coluna de sangue e o segmento puncionado continua sob pressão até a compressão adequada, que é local, firme e por tempo suficiente, e não a dobra do braço que o paciente faz sozinho.

A flebite tem quatro mecanismos, e distingui-los é o que decide a conduta. A flebite mecânica é atrito: a cânula se movimenta dentro do vaso e irrita a parede. Ela é função da relação entre o diâmetro do cateter e o diâmetro da veia, e da mobilidade do segmento — quanto mais o cateter ocupa a luz e quanto mais o membro se mexe, mais atrito. A flebite química é a droga: o pH e a osmolaridade da solução agridem o endotélio. A flebite bacteriana começa como resposta inflamatória à inserção e evolui com colonização do sítio; é a que pode terminar em infecção sistêmica. E a flebite pós-infusional é a que aparece depois de o cateter já ter saído, tipicamente entre 48 e 96 horas, ligada ao material do dispositivo e ao tempo que ele ficou.

Aqui está a peça que quase ninguém junta: a escolha do calibre governa dois mecanismos ao mesmo tempo, e em direções opostas ao senso comum. Cateter de menor calibre causa menos flebite mecânica, porque ocupa menos a luz e se movimenta com menos atrito relativo. E cateter de menor calibre também causa menos flebite química, porque deixa mais espaço para o sangue correr em volta dele — e é esse fluxo sanguíneo periférico que dilui a droga e distribui o fármaco. É por isso que a norma manda escolher o menor calibre e o menor comprimento que atendam à terapia, e não o maior que couber. O cateter grosso enfiado numa veia fina é a receita das duas flebites de uma vez: raspa a parede e ainda impede que o sangue dilua o que está entrando.

A osmolaridade é o outro lado dessa mesma conta, e ela tem um corte numérico nacional. Soluções acima de 900 mOsm/L não devem correr por cateter periférico — nem nutrição parenteral com mais de 10% de dextrose, nem qualquer aditivo que leve a osmolaridade final acima desse valor, nem produto vesicante em infusão contínua. O raciocínio é o mesmo: a diluição que protege o endotélio depende de um volume de sangue que a veia periférica simplesmente não tem. Na veia cava superior, com fluxo de litros por minuto, a mesma solução é diluída em segundos; na cefálica do antebraço, ela banha o endotélio quase pura. Não é uma regra de burocracia de farmácia — é a diferença entre uma veia que sobrevive e um cordão fibroso.

Falta a física, e ela cabe em duas frases. O fluxo por um tubo cresce com a quarta potência do raio e cai com o comprimento: dobrar o diâmetro multiplica a vazão por cerca de dezesseis, e dobrar o comprimento corta a vazão pela metade. Disso saem duas conclusões que mudam decisão de plantão. A primeira é que a diferença de vazão entre calibres vizinhos é muito maior do que a diferença de números sugere — a tabela mais adiante mostra o tamanho real do salto. A segunda é contraintuitiva e salva vida em sala de emergência: um cateter venoso central, longo e de lúmen estreito, corre menos que um cateter periférico curto e grosso. Quem precisa de volume rápido não precisa de acesso central; precisa de dois periféricos curtos e calibrosos, e precisa deles em veias do antebraço, que aguentam o calibre. O acesso central resolve outros problemas — solução hiperosmolar, droga vasoativa contínua, medida de pressão venosa central, veia periférica esgotada —, e é por esses motivos que se paga o preço dele, não por vazão.

Vista anterior do membro superior com veias cefálica, basílica e conexão antecubital, além de vista separada da rede dorsal da mão.
A rede superficial varia entre pessoas. Cefálica e basílica se relacionam aos lados radial e ulnar, respectivamente. A escolha do acesso depende da terapia, urgência, condições locais e avaliação do vaso; o esquema não estabelece uma ordem universal de sítios.
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Como se apresenta de verdade

Se o capítulo tivesse uma única frase, seria esta: o acesso periférico não se escolhe pela veia que aparece, e sim pela terapia que vai correr por ele. A veia é a última decisão da sequência, não a primeira. O que vem antes são quatro perguntas — o que vai passar por aqui, por quanto tempo, com que urgência, e o que esta pessoa ainda tem de rede venosa. Responder às quatro leva menos de um minuto e reorganiza tudo o que vem depois.

Pergunta 1 — o que vai correr por aqui

A norma brasileira é explícita sobre o que governa a escolha do cateter: o objetivo pretendido, a duração da terapia, a viscosidade do fluido, os componentes do fluido e as condições de acesso venoso do paciente. Em outras palavras, a prescrição escolhe o cateter — não a bandeja.

Na prática de enfermaria isso se resolve olhando três coisas na prescrição. A primeira é se há hemocomponente. Concentrado de hemácias é viscoso e não passa confortavelmente por calibre pequeno; o acesso tem de ser dimensionado antes, e não descoberto no meio da transfusão com a bolsa parada. A segunda é se há solução hiperosmolar ou irritante — nutrição parenteral, glicose concentrada, potássio em concentração alta, alguns antimicrobianos. A terceira é se há produto vesicante em infusão contínua, o que muda a rota inteira.

Vale lembrar que o rótulo de irritante não é exclusividade da oncologia. Na coorte brasileira de flebite, três antimicrobianos comuníssimos de enfermaria mostraram associação estatística com flebite pós-infusional: ceftriaxona, claritromicina e oxacilina. Nenhum deles é vesicante e nenhum deles é contraindicado em periférico — mas o paciente que vai receber uma semana de oxacilina merece uma veia de antebraço bem escolhida no dia um, não a terceira tentativa no dorso da mão no dia quatro.

Pergunta 2 — por quanto tempo

A duração prevista da terapia é a variável que o interno mais esquece e que mais economiza sofrimento. Um acesso periférico bem cuidado em adulto costuma durar poucos dias — na coorte brasileira, o tempo médio de permanência ficou em 3,4 dias, com mediana de três e máximo de seis. Se o plano terapêutico é de dez ou catorze dias de antibiótico intravenoso, isso significa que o paciente será puncionado de novo três ou quatro vezes, e cada punção consome um segmento de veia que não volta.

Essa conta muda decisões concretas. Ela argumenta a favor de começar pelo sítio mais distal aceitável e ir subindo, preservando o território proximal para as punções seguintes — puncionar acima de um sítio já usado funciona; puncionar abaixo, não, porque a solução vai desembocar num segmento lesado. Ela argumenta a favor de discutir cedo, e não no quinto acesso perdido, se a terapia não pediria outro tipo de dispositivo. E ela argumenta contra o hábito de manter o acesso 'por garantia' em quem já está tomando tudo por via oral: acesso sem indicação é risco sem benefício, e a norma manda remover assim que não houver medicamento intravenoso prescrito, ou se ele não for usado nas últimas 24 horas.

Pergunta 3 — qual calibre, e por que o maior costuma ser o errado

O reflexo de pegar o cateter mais grosso que couber vem da sala de emergência e não sobrevive fora dela. A regra nacional é a inversa: para atender à necessidade da terapia intravenosa devem ser selecionados cateteres de menor calibre e menor comprimento de cânula. O motivo já foi construído no bloco anterior — cateter fino irrita menos a parede e deixa mais sangue correr em volta para diluir a droga.

A exceção é onde a vazão é o objetivo, e não um efeito colateral. Reposição volêmica rápida, transfusão em paciente instável, contraste em bolus para angiotomografia: aqui o calibre é a terapia. A tabela de calibres no bloco seguinte traz a vazão medida de cada gauge e, mais útil do que ela, o tempo que cada calibre leva para infundir meio litro por gravidade — é o número que mostra, sem discussão, por que um cateter fino não repõe volume.

Duas notas de bandeja. A agulha de aço, aquele dispositivo com asas que ainda circula em muito serviço, só deve ser usada para coleta de amostra de sangue e para administração de medicamento em dose única, sem manter o dispositivo no sítio — porque a cânula metálica rígida infiltra e extravasa com facilidade. E cateter é produto de reprocessamento proibido: em caso de insucesso na punção, aquele cateter não pode ser usado numa nova tentativa. Cada tentativa consome um cateter novo, e isso é norma, não zelo.

Pergunta 4 — qual veia, e o mapa dos sítios

Em adultos, as veias de escolha para canulação periférica são as das superfícies dorsal e ventral dos antebraços — cefálica, basílica, medianas do antebraço —, porque acomodam cateteres de maior dimensão. O dorso da mão é sítio aceitável e frequentemente o único disponível, com o preço da mobilidade e do calibre menor. Veias de membros inferiores não devem ser utilizadas em adultos a menos que seja absolutamente necessário, pelo risco de embolia e de tromboflebite; quando são a única saída, o registro tem de dizer por quê, e o acesso é provisório por definição.

A fossa cubital merece um parágrafo próprio, porque é onde o hábito e a norma mais se chocam. Ela é o sítio mais fácil de puncionar e é região de flexão — e a orientação nacional é evitar região de flexão. A tradução prática não é proibição: é diferenciar finalidade. Para coleta, para contraste em bolus, para uma dose única e rápida com o cateter saindo em seguida, a fossa cubital é a escolha certa. Para infusão contínua ou para manutenção por dias, ela entrega alarme de bomba, refluxo intermitente, cateter dobrado e um paciente que não pode dobrar o braço.

No paciente pediátrico a hierarquia muda. Seleciona-se o vaso com maior probabilidade de durar toda a terapia prescrita, considerando veias da mão, do antebraço e do braço, na região abaixo da axila, e evitando a área antecubital. Em crianças menores de três anos também podem ser consideradas as veias da cabeça, e, se a criança ainda não caminha, as veias do pé. E, em qualquer idade, a preferência do paciente entra na escolha do membro, com a recomendação de usar o lado não dominante — o que parece cortesia e é aderência: acesso no braço com que a pessoa come e escreve é acesso que sai antes da hora.

Os membros que estão fora — e por quê

As condições do membro mudam o risco e precisam ser verificadas antes de puncionar. Proteja o braço com fístula funcionante para hemodiálise e evite sítios com infecção, trombose ou lesão relevante. Cirurgia axilar prévia, linfedema e história de complicações entram numa avaliação individual, considerando alternativas e urgência. Não usar uma lista indiferenciada para impedir qualquer acesso quando a terapia é necessária.

A norma acrescenta os membros comprometidos por lesões como feridas abertas e infecções nas extremidades, as veias já comprometidas por infiltração, flebite ou necrose prévia, as áreas com infiltração ou extravasamento anteriores, e as áreas onde há outro procedimento planejado — não adianta puncionar exatamente onde a cirurgia vascular vai operar amanhã.

A esses somam-se dois que a prática impõe e que o raciocínio sustenta. O membro parético, no paciente com sequela de acidente vascular cerebral, tem sensibilidade alterada: o paciente não vai avisar que dói, que é o sinal mais precoce de infiltração, e o edema pode ser atribuído à própria paresia. E o membro edemaciado, seja por insuficiência cardíaca, seja por trombose, seja por linfedema: a veia está deslocada e comprimida, o cateter fica instável e a absorção do que se infunde é imprevisível.

Marca-passo definitivo, por si só, não equivale a proibição de acesso periférico homolateral. Confira a razão de qualquer restrição: fístula, trombose, infecção, edema, lesão e história cirúrgica têm implicações diferentes. Ouça o paciente, examine e confronte com o prontuário antes de decidir com o supervisor.

Quando o periférico simplesmente não serve

Há um conjunto de situações em que insistir no periférico é o erro, e reconhecê-las cedo é parte da técnica. Solução com osmolaridade final acima do teto periférico, nutrição parenteral com concentração de dextrose acima da faixa que a veia periférica tolera, e produto vesicante em infusão contínua estão fora — os cortes numéricos estão no bloco de mecanismo, e eles são categóricos. Droga vasoativa em infusão contínua prolongada, necessidade de medida de pressão venosa central, terapia dialítica e administração simultânea de fármacos incompatíveis entre si são indicações de acesso central por natureza, não por dificuldade de punção.

Há também a situação inversa: o paciente em parada ou em choque profundo em que nenhum acesso vascular se consegue em tempo. Aí a rota deixa de ser venosa periférica e passa a ser intraóssea, que é rápida, tem alta taxa de sucesso e aceita quase tudo que o periférico aceita. Central e intraósseo são outra técnica, outra indicação e outro conjunto de complicações; o que interessa neste capítulo é reconhecer a fronteira e não gastar quinze minutos e seis cateteres antes de atravessá-la.

E há a fronteira silenciosa, a que aparece na visita: o paciente com rede venosa exaurida — quimioterapia prévia, uso crônico de drogas injetáveis, internações repetidas, obesidade com veias profundas — em quem cada acesso dura menos de 24 horas e cada punção custa quatro tentativas. Esse paciente não precisa de mais insistência; precisa de avaliação formal e de uma discussão sobre dispositivo de permanência mais longa. A norma diz isso com todas as letras: pacientes com dificuldade de acesso requerem avaliação minuciosa multidisciplinar para discussão das opções apropriadas.

O acesso do pronto-socorro é outro animal

Tudo o que se disse até aqui pressupõe tempo. Na sala de emergência não há. Ali o acesso é escolhido pela vazão, a fossa cubital é aceitável, o calibre é o maior que a veia aceita, e a assepsia é a possível — com o paciente se debatendo, o macacão sujo e três pessoas trabalhando no mesmo braço.

Isso não é falha: é a decisão certa naquele momento. O que é falha é esquecer a segunda metade da regra. Cateter periférico instalado em situação de emergência, com comprometimento da técnica asséptica, deve ser trocado tão logo quanto possível — e 'tão logo quanto possível' significa quando o paciente estabilizar e subir para a enfermaria, não quando alguém lembrar no terceiro dia. Esse é, na prática, o acesso mais infectado do hospital, e ele chega à enfermaria sem nada escrito que o distinga de um acesso puncionado com calma.

Daí uma consequência de rotina que cabe ao interno: ao receber paciente do pronto-socorro, pergunte quando e onde o acesso foi puncionado, e escreva a resposta na evolução. Se a resposta for 'na sala vermelha, na madrugada', o acesso tem data de validade curta e ela começa hoje.

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Como fechar o diagnóstico

Nenhum exame precede uma punção venosa. A investigação, aqui, é feita com os olhos, com a mão e com o prontuário — e é justamente por não pedir exame nenhum que ela é pulada. Este bloco é o roteiro do que se examina antes de abrir o pacote do cateter, na ordem em que se examina.

1. Ler o prontuário antes de ler o braço

Antes de escolher o acesso, conheça a terapia e sua duração, as condições e restrições de cada membro e as tentativas anteriores. Fístula, trombose, infecção, edema, paresia, drenos e cirurgia prévia não devem ser tratados como situações idênticas: examine, justifique a escolha e escale a dificuldade cedo.

O histórico de acessos costuma não estar em lugar nenhum, e essa é uma falha que o interno pode corrigir sozinho: a norma manda identificar o curativo do cateter com data, hora, calibre e nome do profissional que puncionou, e manda registrar diariamente no prontuário os achados do sítio de inserção e da região adjacente. Onde isso é feito, você sabe em cinco segundos que o acesso do punho esquerdo é de anteontem e que a mão direita já teve infiltração. Onde não é feito, você repete o erro de outra pessoa.

2. Inspecionar o membro — a olho, antes do garrote

A inspeção vem antes de garrotear, porque o garrote esconde metade do que interessa. Procure: equimoses e hematomas de punções anteriores, que marcam segmentos gastos; pontos de punção recentes, com ou sem crosta; edema, que desloca e comprime a veia; sinais flogísticos e feridas; e o trofismo da pele, porque pele fina de idoso ou de usuário crônico de corticoide rompe com o adesivo e sangra com o garrote.

Repare também no que o paciente já está usando: oxímetro, manguito de pressão, pulseira apertada. O manguito de pressão não invasiva no mesmo membro do acesso é uma fonte silenciosa de oclusão e de alarme de bomba — a cada insuflação, a infusão para.

Por fim, escolha a luz. Punção em quarto escuro, contra a luz da janela, é meia punção. Luz oblíqua, de lado, revela relevo; luz de frente, apaga.

3. Palpar — a veia boa se sente, não se vê

A regra que separa quem punciona bem de quem punciona por sorte: escolha a veia pelo tato, não pela cor. Veia azulada e visível pode ser fina, tortuosa, superficial demais e móvel; veia palpável, elástica, que 'devolve' o dedo e corre reta por dois ou três centímetros, aceita cateter mesmo quando não aparece.

O que se procura ao palpar: um trajeto retilíneo com pelo menos o comprimento da cânula, ausência de bifurcação e de válvula no ponto de entrada — a válvula às vezes se palpa como um pequeno nódulo —, e ausência de pulso, porque artéria pulsa e veia não. Em idoso magro, a artéria radial superficial e as anomalias arteriais do antebraço já foram puncionadas por muita gente com pressa.

As manobras que enchem a veia, em ordem de custo: garrote de 10 a 15 centímetros acima do sítio escolhido, apertado o bastante para ocluir o retorno venoso e não o pulso arterial; membro pendente abaixo do nível do coração; abertura e fechamento da mão algumas vezes, sem bombear com força, porque contração vigorosa esvazia; e calor local com compressa morna por alguns minutos, que é a manobra mais subutilizada e a que mais rende em idoso e em paciente hipotérmico. Percussão leve sobre o trajeto ajuda; tapa não ajuda e machuca.

Uma cautela sobre o garrote: ele não deve ficar apertado por mais de um ou dois minutos enquanto você procura. Garrote prolongado produz hemoconcentração, dor, e um paciente que retira o braço no momento da punção.

4. Cruzar o achado com a terapia — e decidir se cabe

Agora as duas metades se encontram. Você tem a veia que sobrou e tem o calibre que a terapia exige. Quando os dois combinam, punciona. Quando não combinam — a terapia pede calibre que a veia disponível não comporta —, a decisão não é forçar o cateter grosso na veia fina, que produz as duas flebites de uma vez, e sim mudar de sítio, mudar de rota ou renegociar a terapia com quem prescreveu.

Renegociar a terapia é uma opção real e pouco usada. Aquele antibiótico pode ser dado por via oral com biodisponibilidade equivalente? Aquela reposição precisa correr em uma hora ou pode correr em quatro? Aquela transfusão está indicada agora? A resposta muda o calibre necessário, e às vezes elimina a punção.

5. Quando chamar o ultrassom

A recomendação nacional é direta e tem o nível de evidência mais alto do documento: usar metodologia de visualização para instalação de cateteres em adultos e crianças com rede venosa difícil e/ou após tentativas de punção sem sucesso. Ou seja, o ultrassom não é recurso de exceção nem privilégio de UTI — é a conduta indicada quando a rede é difícil, e a rede é difícil antes de você falhar, não depois.

O que caracteriza rede venosa difícil, na prática: nenhuma veia visível nem palpável após garrote e manobras de enchimento; história de acesso difícil relatada pelo paciente ou registrada; duas ou mais tentativas falhas nesta internação; obesidade; edema de membro; quimioterapia prévia; uso crônico de drogas injetáveis; e o idoso com pele frágil e veias móveis, em que o problema não é achar, e sim manter.

O ultrassom muda o resultado, mas não faz milagre, e isso é importante para calibrar expectativa. Num estudo brasileiro em unidade de pronto atendimento, com enfermeiras capacitadas em uma aula de sessenta minutos seguida de quatro horas de prática em simulador, o sucesso na primeira tentativa guiada por ultrassom foi de 64,95%. E o que governou o desfecho não foi o aparelho: a prevalência de sucesso foi 43% maior em veia visível e 128% maior em veia retilínea. A leitura correta é que o ultrassom amplia o mapa, e a escolha da veia continua sendo sua — uma veia tortuosa e profunda continua sendo uma veia ruim, agora visível.

Há um erro técnico específico da punção guiada que vale antecipar: veia profunda com cateter curto falha cedo. Se o ultrassom mostra a veia a mais de um centímetro de profundidade, o comprimento de cânula que sobra dentro do vaso é pequeno, e o cateter desloca com o primeiro movimento do braço. Punção profunda pede cateter mais longo; sem ele, o acesso conquistado com esforço dura menos de um turno.

6. O teto de tentativas — e o que fazer ao bater nele

A norma brasileira estabelece um limite que quase ninguém conhece e que deveria estar escrito na parede da enfermaria: no máximo duas tentativas de punção periférica por profissional e no máximo quatro no total. A justificativa é explícita — múltiplas tentativas causam dor, atrasam o início do tratamento, comprometem o vaso, aumentam custos e aumentam os riscos de complicações.

O teto muda o comportamento de plantão de um jeito específico: depois da sua segunda tentativa, você não tenta a terceira. Você chama outra pessoa. E, se o teto de quatro foi atingido, a conduta deixa de ser puncionar e passa a ser reavaliar — o que exatamente precisa correr, com que urgência, e se há rota alternativa. Insistir depois disso não é persistência; é o mecanismo pelo qual um paciente perde a rede venosa dos dois braços em uma internação.

Duas regras de higiene técnica fecham o bloco. Um cateter novo é usado a cada tentativa de punção no mesmo paciente. E a agulha nunca é reinserida na cânula que já está dentro do vaso — a manobra de recuar e reavançar o mandril é contraindicada porque pode cortar a cânula e produzir embolia de fragmento de cateter, que é uma complicação rara, grave e inteiramente iatrogênica.

07

A técnica passo a passo, os calibres e as escalas

O acesso só tem sentido se permite administrar a terapia com segurança. Aprenda a escolher, executar sob supervisão, conferir, vigiar e retirar; consulte os materiais e as comparações de protocolos quando precisar.

  1. 1Confirmar indicação, terapia, urgência, alergias e restrições reais do membro; explicar o procedimento.
  2. 2Planejar veia, calibre e ajuda diante de acesso difícil; limitar tentativas e escalar precocemente conforme protocolo.
  3. 3Higienizar mãos, realizar antissepsia apropriada e aguardar secagem; manter técnica asséptica.
  4. 4Executar sob supervisão, fixar e avaliar função e sítio sem forçar lavagem; refluxo isolado não comprova segurança.
  5. 5Vigiar dor, edema, resistência e vazamento durante a terapia; interromper e tratar a suspeita de complicação.
  6. 6Rever necessidade diariamente, comunicar problemas e retirar quando indicado, documentando o resultado.

Flebite grau 1 — eritema no sítio, com ou sem dor

A pele avermelhou em torno do ponto de entrada e não há edema nem endurecimento. Ainda é reversível sem perder o acesso: reavalie a indicação, confira se o calibre não está grande para a veia, aumente a frequência de inspeção para de hora em hora e considere trocar de sítio se a terapia tiver vários dias pela frente. Se o eritema progredir em um turno, o acesso sai.

Flebite grau 2 — dor no sítio, com eritema e/ou edema

Agora dói e o segmento incha. O acesso é retirado — não se negocia grau 2 até o fim do plantão. Puncione novo sítio em outro membro ou proximal ao anterior, nunca distal a ele. Registre o grau, notifique conforme a rotina do serviço e reavalie o que estava correndo por ali: droga irritante em veia pequena é a causa mais comum.

Flebite grau 3 — dor, eritema e/ou edema, com endurecimento e cordão fibroso palpável

O trajeto da veia virou um cordão duro que se palpa acima do sítio. Retire o acesso imediatamente, eleve o membro, aplique compressa morna e analgesia, e não puncione mais nada naquele trajeto — o segmento está trombosado. Examine o paciente por inteiro: cordão extenso com febre ou calafrio muda a pergunta de flebite para tromboflebite séptica, e aí entram hemocultura e antibiótico.

Flebite grau 4 — cordão fibroso palpável maior que 2,54 cm, com drenagem purulenta

Deixou de ser complicação local. Retire o acesso, colha cultura da secreção, colha hemoculturas de dois sítios periféricos, examine à procura de sinais sistêmicos e trate como infecção de partes moles com porta de entrada vascular. É o grau em que o acesso periférico produz bacteremia, e é o cenário que faz alguém procurar foco de febre no pulmão enquanto ele está no punho.

Calibre e comprimentoVazão por gravidadeTempo para infundir 500 mLCor da conexãoOnde este calibre é a escolha certa
24G × 19 mm20 mL/min25 minutosAmareloNeonato, lactente e idoso com rede venosa mínima. Medicação intermitente e infusão lenta.
22G × 25 mm35 a 37 mL/min13 a 14 minutosAzulA maior parte da medicação e do soro de manutenção do adulto de enfermaria. É o calibre padrão de internação.
20G × 25 a 48 mm54 a 65 mL/min7 min 40 s a 9 min 20 sRosaHemocomponente sem urgência, contraste iodado, adulto com previsão de volume ou de deterioração.
18G × 30 a 48 mm87 a 105 mL/mincerca de 5 minutosVerdeReposição volêmica, transfusão rápida, contraste em bolus para angiotomografia.
16G × 30 a 45 mm185 a 220 mL/min2 min 15 s a 2 min 45 sCinzaChoque, politrauma, reposição maciça. Dois deles correm mais que qualquer cateter central.

Onde puncionar, onde pensar duas vezes e onde não puncionar

Sítio ou situaçãoQuando é a escolha certaO preçoVeredito
Antebraço, faces dorsal e ventral — cefálica, basílica distal, medianasPraticamente sempre, em adulto, para terapia de diasExige palpar e escolher com calma; nem sempre é a veia mais aparentePrimeira escolha, e é o que a norma nacional determina para o adulto
Dorso da mão, arco venoso dorsalQuando o antebraço não oferece trajeto retilíneo; e como sítio inicial em terapia curta, preservando o antebraçoVeias finas e móveis, pele delgada, segmento que dobra o tempo todo; é o sítio que mais dóiAceitável, com calibre pequeno e vigilância maior
Fossa cubital — mediana cubital, cefálica, basílicaColeta de sangue, contraste em bolus, dose única e rápida com retirada em seguidaÉ articulação: a flexão angula a cânula, interrompe o fluxo e produz flebite mecânicaSim para o que é rápido; não para manutenção por dias
Braço, terço médio — basílica sob a fáscia, guiada por ultrassomRede venosa difícil documentada, com operador treinado e cateter mais longoFeixe neurovascular próximo; cateter curto em veia profunda desloca no primeiro movimentoSó com visualização e com dispositivo de comprimento adequado
Dorso do pé e safenas, no adultoQuando os membros superiores estão esgotados e a terapia não pode esperarRisco de embolia e de tromboflebite; mobilidade do paciente comprometidaSó se absolutamente necessário, provisório, com o motivo registrado
Veias da cabeça, na criança menor de três anos, e do pé, na criança que ainda não andaQuando mão, antebraço e braço não oferecem vaso que dure a terapia prescritaFixação difícil e sítio exposto à manipulação da própria criançaPrevisto pela norma para pediatria, evitando a área antecubital
Membro com fístula arteriovenosa funcionanteNuncaFlebite ou trombose ali custam o acesso vascular de que o paciente depende para dialisarProibido
História de cirurgia com esvaziamento axilarAvaliar individualmente e preferir alternativa adequada quando possívelConferir linfedema, infecção, condições locais, urgência e acessos disponíveisDiscutir e documentar a escolha com o supervisor; não confundir com a proteção de uma fístula de hemodiálise
Membro parético ou com sensibilidade alteradaApenas se for o único disponível e com vigilância intensificadaO paciente não avisa a dor, que é o sinal mais precoce de infiltração; o edema se confunde com o da paresiaEvitar; se usar, inspeção horária
Membro edemaciado, com ferida aberta, infecção de extremidade ou tromboseNãoVeia deslocada e comprimida, cateter instável, absorção imprevisível, porta de entrada em pele doenteExcluído pela norma
Segmento distal a punção anterior, a flebite ou a infiltração préviaNãoA solução desemboca justamente no segmento já lesadoPuncione acima do sítio anterior, nunca abaixo

Escala de infiltração — do que se vê ao que se faz

GrauO que se encontraO que fazer
0Sem sintomasNada além da inspeção de rotina. Registre a avaliação.
1Pele pálida, edema menor que 2,5 cm em qualquer direção, frio ao toque, com ou sem dorPare a infusão e retire o cateter. Eleve o membro. Puncione novo sítio em outro segmento e reavalie em uma hora.
2Edema entre 2,5 e 15 cm em qualquer direção, podendo somar pele pálida, frio ao toque, com ou sem dorPare, aspire o que for possível pela cânula antes de retirar, retire, eleve, marque o contorno do edema com a hora, e reavalie a cada duas horas até regressão.
3Edema extenso, maior que 15 cm, com pele pálida e translúcida, frio ao toque, dor leve a moderada e possível diminuição da sensibilidadeMesma sequência, mais avaliação vascular e neurológica do membro. Diminuição de sensibilidade ou dor desproporcional pedem avaliação cirúrgica no mesmo turno.
4Infiltração de qualquer quantidade de hemoderivado, irritante ou vesicante, podendo somar pele tensa com perda de fluidos, hematoma, edema depressível, comprometimento circulatório e dor moderada a intensaEmergência. Pare, aspire, não comprima, eleve, marque, fotografe se o serviço permitir, acione o protocolo institucional de extravasamento e a farmácia clínica na mesma hora, e chame a cirurgia. A janela do antídoto, quando existe, é de horas.

Vazão nominal e vazão real. Os valores da tabela vêm de ensaio em bancada, com coluna de solução a um metro. Na prática, altura da bolsa, equipo, conectores e contrapressão modificam o fluxo. Use a tabela para comparar calibres, não para prometer um tempo exato de infusão.

Calibre e finalidade. O 14G ocupa o extremo de maior calibre descrito, relacionado à reposição maciça em emergência. A escolha deve acompanhar o que será administrado e a necessidade de fluxo; a presença de um cateter não demonstra, sozinha, que ele atende à situação.

Flebite. Descreva os achados locais e não apenas o grau. As traduções citadas diferem na extensão do cordão; a drenagem purulenta continua sendo um achado relevante na identificação do grau 4 descrito.

Infiltração e extravasamento. Registre o produto, além do tamanho do edema. Na escala apresentada, a natureza do fluido participa da graduação; um braço pouco edemaciado não encerra a avaliação.

Evolução do edema. Marque o contorno e anote a hora. A comparação entre avaliações permite descrever progressão ou regressão com mais precisão que “parece igual”.

08

A conduta, hora a hora

Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.

Num capítulo de doença, a conduta é a prescrição. Aqui a prescrição é o material e a técnica — e o registro, que é a parte que o interno costuma achar burocrática e que é, na verdade, o que permite ao turno seguinte tomar a decisão certa. O que segue é a linha do tempo de um acesso periférico, do momento em que se lê a prescrição até 96 horas depois de o cateter sair. Cada marco traz o que se pede, o que se faz e o que se escreve.

  1. Cinco minutos antes de abrir o primeiro pacote

    Antes de escolher a veia, confirme a indicação, o medicamento e a urgência. Examine ambos os membros e considere edema, infecção, fístula, procedimentos prévios e restrições documentadas. A história de esvaziamento axilar deve entrar na decisão com o supervisor, sem se tornar uma proibição automática desconectada do estado do braço e das alternativas. No lado esquerdo de Marlene, evite os hematomas e não repita tentativas sem um plano: peça ajuda experiente e considere acesso guiado por ultrassom se disponível. O interno deve combinar previamente quem supervisiona e quando interromperá as tentativas.

    Prescrição
    • Cateter sobre agulha de poliuretano, calibre definido pela terapia — 2 unidades (a segunda é reserva; cateter é produto de reprocessamento proibido e cada tentativa consome um novo)
    • Clorexidina alcoólica acima de 0,5% OU iodopovidona alcoólica a 10% OU álcool a 70% — 1 frasco
    • Gaze estéril — 2 pacotes; luvas de procedimento — 1 par; garrote — 1
    • Cobertura estéril: membrana transparente semipermeável (preferencial) ou gaze com fita adesiva estéril (apenas se a previsão de permanência for menor que 48 horas)
    • Seringa de 10 mL + cloreto de sódio a 0,9% sem conservante, em frasco de dose única ou seringa pré-preenchida — nunca aspirado de bolsa ou frasco de soro em uso
    • Extensor ou conector valvulado, previamente preenchido com solução salina
    • Coletor de perfurocortantes ao alcance da mão, antes de puncionar
  2. Hora zero — a punção

    Higienize as mãos, prepare o material e use técnica asséptica. Escolha antisséptico apropriado para pele íntegra, verificando formulação, contraindicações e instruções do fabricante. Respeite fricção, tempo de ação e secagem completa; não reúna tempos de produtos distintos numa regra única. Depois da antissepsia, não repalpe o sítio sem manter técnica asséptica. A lista de materiais e os detalhes de cada produto servem como consulta, enquanto a sequência principal deve ser compreendida antes de começar.

    Prescrição
    • Máximo de 2 tentativas por profissional e 4 no total, por norma nacional — atingido o limite, a conduta deixa de ser puncionar e passa a ser reavaliar a rota
    • Cateter novo a cada tentativa
    • A agulha jamais é reinserida na cânula já avançada — o risco é secção da cânula e embolia de fragmento de cateter
    • Mandril descartado imediatamente no coletor de perfurocortantes, sem reencape
    • Se houver sujidade visível no sítio, remoção prévia com água e sabão ou clorexidina degermante a 2%, antes do antisséptico alcoólico
    • Remoção de pelos, se necessária para a cobertura, apenas com tesoura ou tricotomizador elétrico — lâmina de barbear aumenta o risco de infecção
  3. Hora zero, ainda — fixação, cobertura e identificação

    A fixação tem duas funções que se contradizem se malfeitas: segurar o dispositivo e deixar ver o ponto de entrada. Cobertura estéril, com o sítio visível. Membrana transparente semipermeável é a escolha para permanência maior que dois dias, porque a gaze precisa ser trocada e é na troca que o acesso se perde. Esparadrapo comum e fita microporosa não estéril estão fora — os rolos se contaminam facilmente e o material não é estéril. Sutura para fixar cateter periférico também está fora: favorece biofilme, produz acidente percutâneo e aumenta o risco de infecção da corrente sanguínea. Dispositivo de restrição física para proteger o sítio não deve ser rotina e deve ser evitado sempre que possível. E identifique a cobertura: data, hora, calibre e nome de quem puncionou. Essa etiqueta de dez segundos é o que permite ao plantão seguinte saber a idade do acesso sem perguntar a ninguém.

    Prescrição
    • Cobertura estéril mantendo o ponto de entrada visível — membrana transparente semipermeável, ou gaze com fita estéril só se a previsão for menor que 48 horas
    • Estabilização com cateter de mecanismo integrado somado a curativo de bordas reforçadas, ou cateter tradicional somado a dispositivo adesivo específico de estabilização
    • Proibidos: esparadrapo comum, fita microporosa não estéril, sutura
    • Identificação da cobertura com data, hora, calibre e nome do profissional
    • Anotação no prontuário: sítio, calibre, número de tentativas, intercorrências e orientações dadas ao paciente
  4. Primeira infusão — o flush, a pressão positiva e o conector

    Antes de administrar, confira o sítio, a fixação, o trajeto e a função do cateter. Refluxo sanguíneo pode ajudar, mas não garante sozinho que a infusão será segura; sua ausência também precisa ser interpretada com o dispositivo e a terapia. Dor, edema, vazamento ou resistência exigem interromper e avaliar, sem forçar lavagem. Faça a lavagem conforme protocolo e compatibilidade, observando o membro durante a administração, especialmente com medicamentos que lesam tecidos.

    Prescrição
    • Flush com cloreto de sódio a 0,9% sem conservante, cerca de 5 mL, antes e imediatamente após cada medicação
    • Seringa de 10 mL para qualquer flush; nunca forçar contra resistência
    • Sequência de pressão positiva: infundir, fechar o clamp, desconectar
    • Considerar flush pulsátil, com breves pausas, para gerar fluxo turbilhonado e remover depósitos sólidos
    • Desinfecção da conexão, do injetor lateral e do oclusor com álcool a 70% ou clorexidina alcoólica a 0,5% antes de cada acesso ao sistema
    • Frascos de dose única ou seringas pré-preenchidas; seringa pré-preenchida não se usa para diluir medicamento
  5. Primeiras 24 horas — a vigilância que ninguém prescreve

    Aqui está o hábito que separa o serviço em que a flebite é baixa do serviço em que ela é alta. O sítio de inserção e a área adjacente são avaliados por inspeção visual e palpação sobre a cobertura íntegra, procurando rubor, calor, edema, dor, endurecimento e drenagem de secreção, e valorizando qualquer queixa de desconforto ou parestesia do paciente. A frequência ideal é a cada quatro horas, ajustada pela criticidade: em paciente de qualquer idade em terapia intensiva, sedado ou com déficit cognitivo, a cada uma a duas horas; em paciente pediátrico, no mínimo duas vezes por turno; em unidade de internação, uma vez por turno; e mais frequentemente em quem recebe infusão de vesicante. Como esse paciente não avisa a dor, ele é justamente o que precisa da inspeção mais curta. A cobertura não se troca em intervalo pré-estabelecido — troca-se imediatamente se estiver úmida, solta, suja, com integridade comprometida ou sob suspeita de contaminação. E o sítio e as conexões são protegidos com plástico durante o banho.

    Prescrição
    • Inspecionar o sítio de inserção e a região adjacente a cada 4 horas; a cada 1 a 2 horas em paciente crítico, sedado ou com déficit cognitivo; a cada 1 hora em neonato e criança; e com maior frequência durante infusão de vesicante
    • Registrar diariamente no prontuário os achados do sítio de inserção e da região adjacente
    • Trocar a cobertura imediatamente se úmida, solta, suja, com integridade comprometida ou sob suspeita de contaminação — nunca por rotina de calendário
    • Proteger sítio e conexões com plástico durante o banho
    • Orientar paciente e acompanhante a comunicar dor, ardência, inchaço, vazamento ou parada de gotejamento
  6. Dia 2 ao dia 4 — trocar, manter ou tirar

    Reavalie a indicação diariamente e retire o cateter quando não for mais necessário ou houver complicação que exija retirada. Suspeita de infiltração ou extravasamento começa por parar a infusão e chamar a equipe. Não lave o acesso suspeito. Em extravasamento de irritante ou vesicante, pode ser necessário manter inicialmente o cateter para aspirar o medicamento e aplicar medidas específicas antes de removê-lo; siga o protocolo do agente. Registre achados, produto, volume estimado e evolução, com plano de observação e orientação ao paciente.

    Prescrição
    • Avaliar diariamente, na visita, se o acesso ainda tem indicação — e retirar se não houver medicação intravenosa prescrita ou se ele não foi usado nas últimas 24 horas
    • Interromper infusão diante de dor, edema, vazamento ou suspeita de extravasamento; não forçar lavagem. Avaliar o medicamento e o protocolo de manejo antes de retirar o cateter quando ele ainda puder ser necessário para aspiração ou tratamento local.
    • Não trocar por rotina em período inferior a 96 horas; a extensão além disso é decisão institucional, condicionada à adesão comprovada às boas práticas de avaliação e manutenção
    • Trocar hoje o acesso puncionado em emergência sem assepsia adequada, e escrever na evolução quando e onde ele foi puncionado
    • Em neonato e paciente pediátrico, não trocar por rotina — trocar por indicação clínica, com vigilância mais frequente
  7. A retirada — e as 96 horas seguintes

    A retirada tem técnica. Interrompa a infusão, higienize as mãos, calce luvas, solte a cobertura na direção do trajeto do cateter para não tracionar, e retire a cânula em movimento único e paralelo à pele — não em ângulo, que rasga a íntima na saída. Comprima o ponto por tempo suficiente com gaze estéril, sem dobrar o braço do paciente, e mais tempo se ele usa anticoagulante. Inspecione a ponta do cateter: ela tem de sair íntegra, e cânula que sai incompleta é emergência vascular. Cubra com curativo estéril. E oriente o paciente sobre a parte que quase ninguém explica: a flebite pós-infusional se manifesta de 48 a 96 horas depois de o cateter sair, e nessa coorte brasileira ela foi mais frequente do que a flebite durante o uso. Ou seja, o paciente pode receber alta com o braço normal e apresentar dor, vermelhidão e um cordão endurecido dois ou três dias depois, em casa. Se ninguém avisou, ele volta ao pronto-socorro achando que é trombose — ou não volta.

    Prescrição
    • Retirar com a cânula paralela à pele, em movimento único, após soltar a cobertura no sentido do trajeto
    • Comprimir o sítio com gaze estéril até hemostasia, sem flexionar o membro; tempo maior em paciente anticoagulado ou plaquetopênico
    • Conferir a integridade da ponta do cateter retirado e registrar
    • Curativo estéril no sítio e inspeção do local nas 24 horas seguintes
    • Orientar por escrito, na alta: procurar avaliação se surgir dor, vermelhidão, endurecimento ou cordão palpável no trajeto da veia nos 4 dias seguintes
09

Como saber se está funcionando

Prescrever o acesso é a parte fácil. A pergunta do internato é a outra: como sei se está funcionando, e o que faço quando não está. No acesso periférico, isso se responde com quatro dados que qualquer pessoa colhe em vinte segundos à beira do leito — reflui, dói, incha, e o que está por baixo da cobertura —, e com duas escalas que transformam impressão em conduta.

A conduta diante de infiltração e de extravasamento merece ser decorada na ordem, porque a ordem importa e o instinto erra em dois pontos. A sequência é: primeiro, pare a infusão. Segundo — e é aqui que quase todo mundo erra —, não retire o cateter ainda. Desconecte o equipo, conecte uma seringa e aspire pela própria cânula o que for possível recuperar do que foi injetado no tecido; a cânula é a única via de acesso ao produto extravasado, e ela vai embora com ele lá dentro se você puxar antes. Terceiro, retire o cateter. Quarto, eleve o membro. Quinto, marque o contorno do edema na pele com caneta e anote a hora ao lado. Sexto, gradue pela escala de infiltração e registre o grau, não o adjetivo. Sétimo, notifique conforme a rotina do serviço.

O segundo erro de instinto é comprimir. Não se massageia nem se comprime área de extravasamento: a manobra espalha o produto por um plano tecidual maior e aumenta a área de necrose em vez de reduzi-la. A elevação do membro favorece a drenagem sem espalhar.

Extravasamento de vesicante é urgência com relógio, não incidente de enfermagem. Vesicante é o produto capaz de causar necrose tecidual quando extravasa, e a lista atravessa o hospital inteiro: antineoplásicos, drogas vasoativas em infusão, contraste iodado em bolus, soluções muito hipertônicas ou de pH extremo. Nesses casos, além da sequência acima, o protocolo institucional de extravasamento e a farmácia clínica são acionados na mesma hora, e a avaliação cirúrgica é pedida no mesmo turno — para algumas classes existe antídoto específico, e a janela dele se conta em horas, não em dias. Telefonar é parte do tratamento do membro, não desdobramento administrativo.

Por fim, os critérios de retirada imediata, que valem a qualquer hora e independem da idade do acesso: flebite de grau 2 ou maior; infiltração de grau 2 ou maior; qualquer extravasamento de vesicante ou de hemoderivado; drenagem purulenta no sítio; dor desproporcional ao que se vê; cateter que não reflui e resiste ao flush; suspeita de contaminação; acesso puncionado em emergência sem assepsia; e — o mais esquecido de todos — acesso sem indicação.

Refluxo e permeabilidade — aspirar antes de cada infusãoAntes de cada medicação, e sempre que houver alarme de bomba ou gotejamento lento

Esperado: Retorno de sangue franco na aspiração e flush que corre sem resistência. É o teste que confirma que a ponta continua dentro do vaso e que o lúmen está livre.

Se não melhora: Procure primeiro a causa mecânica: clamp fechado, extensor dobrado, manguito de pressão no mesmo membro, membro flexionado. Não force o flush com seringa alguma. Se persistir sem refluxo e com resistência, o acesso é perdido e sai — cateter ocluído que se force pode embolizar coágulo ou romper.

Dor no sítio, à infusão e em repousoEm toda inspeção, e ativamente perguntada, não esperada como queixa espontânea

Esperado: Ausência de dor. Ardência durante a infusão de um antimicrobiano é sinal de flebite química começando, não de 'medicação forte'.

Se não melhora: Ardência à infusão pede diluição maior e velocidade menor, dentro do que a bula do serviço permite, e reavaliação em uma hora. Se mantiver, troque de sítio para uma veia de maior calibre. Dor em repouso, ou dor desproporcional ao que se vê, é retirada imediata e exame do membro por inteiro.

Eritema e cordão — graduar pela escala de flebiteA cada 4 horas na enfermaria; a cada 1 a 2 horas em paciente crítico, sedado ou com déficit cognitivo

Esperado: Sítio sem rubor, sem calor, sem endurecimento e sem cordão palpável acima do ponto de entrada. Grau 0 registrado é registro, não silêncio.

Se não melhora: Grau 1 que progride em um turno, ou qualquer grau a partir de 2, retira o acesso. Cordão palpável extenso somado a febre ou calafrio muda a hipótese para tromboflebite séptica: hemoculturas de dois sítios, exame do membro e antibiótico.

Edema e temperatura da pele — graduar pela escala de infiltraçãoEm toda inspeção, comparando sempre com o membro contralateral

Esperado: Sem assimetria de volume, pele de cor e temperatura iguais às do outro braço. Pele fria e pálida em torno do sítio é infiltração até prova em contrário, mesmo sem dor.

Se não melhora: Aplique a sequência de infiltração — parar, aspirar antes de retirar, retirar, elevar, marcar o contorno com a hora, graduar, notificar. Edema que não regride em 24 horas, diminuição de sensibilidade ou dor crescente pedem avaliação cirúrgica, pela possibilidade de síndrome compartimental.

Integridade e visibilidade da coberturaEm toda inspeção e após o banho

Esperado: Cobertura seca, aderida, limpa, com o ponto de entrada visível e a identificação legível — data, hora, calibre e nome de quem puncionou.

Se não melhora: Cobertura úmida, solta, suja ou com integridade comprometida é trocada na hora, com técnica asséptica. Cobertura que esconde o sítio é refeita, mesmo íntegra: acesso que não se vê é acesso que não se avalia, e a flebite é descoberta pelo cheiro ou pela febre.

Indicação — o acesso ainda precisa existir?Todo dia, na visita, em voz alta

Esperado: Existe medicação intravenosa prescrita e ela foi usada nas últimas 24 horas. Se as duas respostas não forem sim, o acesso não tem indicação.

Se não melhora: Retire. A objeção clássica — 'e se ele piorar de madrugada?' — resolve-se com o mesmo cateter que se colocaria de madrugada. Manter um acesso ocioso por dias em troca de poupar uma punção futura é trocar um risco certo, crescente e diário por uma conveniência.

Febre ou calafrio a partir do terceiro dia, sem foco evidenteA cada pico febril em paciente internado com acesso periférico

Esperado: Que o acesso seja examinado como possível foco na mesma avaliação em que se pede radiografia de tórax e urina — e não depois delas.

Se não melhora: Levante a cobertura e olhe o sítio, dos dois lados se houver dois acessos. Sítio com secreção, eritema ou dor: retire, colha cultura da secreção e hemoculturas periféricas de dois sítios, e trate como infecção de corrente sanguínea com porta de entrada vascular. Calafrio que aparece durante a infusão, e não fora dela, é altamente sugestivo de foco no dispositivo.

O sítio, de 48 a 96 horas depois de o cateter sairDiariamente até o quarto dia após a retirada, inclusive se o paciente já teve alta — e aí por orientação escrita

Esperado: Local sem dor, sem eritema e sem endurecimento. Na coorte brasileira, a flebite que aparece depois da retirada foi mais frequente do que a que aparece durante o uso, e é a única complicação do acesso que costuma acontecer fora do hospital.

Se não melhora: Dor, eritema e cordão endurecido no trajeto pedem avaliação: compressa morna, elevação, analgesia e reavaliação em 48 horas. Cordão extenso, febre ou piora progressiva pedem investigação de tromboflebite. Orientar isso na alta é o que evita que o paciente atribua o quadro a uma trombose e chegue tarde — ou não chegue.

10

Onde o erro machuca

Puncionar sem avaliar a rede venosa nem a lateralidade — pegar o cateter que estava na bandeja e procurar veia

O dano: Escolher calibre inadequado pode causar trauma e flebite ou limitar a terapia. Ignorar condições do membro também causa dano: uma fístula para hemodiálise deve ser protegida; edema, infecção e trombose mudam a escolha. Cirurgia axilar prévia exige conhecer evolução, presença de linfedema e alternativas, sem equiparar todos esses contextos a uma mesma proibição absoluta.

Como pegar a tempo: Antes de garrotear, três perguntas com resposta obrigatória: o que vai correr por aqui e por quanto tempo; de que lado não pode; e o que já foi puncionado nesta internação. A terceira é respondida em segundos onde a cobertura vem identificada com data, hora, calibre e nome — e é por isso que essa etiqueta não é burocracia.

Cateter fino para reposição volêmica rápida — o 22G no choque, porque foi a veia que deu

O dano: O acesso existe no papel e não repõe. A vazão cai com a quarta potência do raio, de modo que a diferença entre um calibre fino e um calibre grosso não é de porcentagem, é de ordem de grandeza: o tempo para infundir meio litro por gravidade sai de poucos minutos para meia hora. Em choque hemorrágico, isso é a diferença entre reanimar e assistir. O agravante é que o acesso fino dá a impressão de problema resolvido e o paciente segue hipotenso enquanto todo mundo procura outra causa.

Como pegar a tempo: Em instabilidade hemodinâmica, o calibre é a terapia, e a meta é dois acessos periféricos curtos e calibrosos em veias de antebraço — não um acesso central, que é longo e estreito e corre menos. Se a veia não comporta o calibre necessário e o paciente está em choque, a rota muda para intraóssea em vez de virar quatro tentativas.

Fixação que esconde o sítio — enrolar esparadrapo comum em volta do punho, ou cobrir o ponto de entrada com gaze e fita

O dano: O que não se vê não se avalia. A flebite deixa de ser diagnosticada no grau 1, quando ainda é reversível sem perder o acesso, e passa a ser descoberta no grau 3, com cordão e endurecimento, ou pela febre. Some-se que fita adesiva não estéril, em rolo, contamina-se com facilidade, e que fixação circunferencial apertada faz garrote e produz edema distal que o plantão vai atribuir à infiltração.

Como pegar a tempo: Cobertura estéril com o ponto de entrada visível, membrana transparente quando a permanência prevista passar de dois dias. Esparadrapo comum, fita microporosa não estéril e sutura estão fora por norma. E vale o teste de dez segundos na visita: se você não consegue ver o ponto de entrada sem desmontar nada, o curativo é refeito hoje.

Manter o acesso 'por garantia' em quem já toma tudo por via oral

O dano: Risco puro, sem benefício, e crescente com o tempo. É por essa via que o paciente que já estava de alta desenvolve flebite no quinto dia, ou febre com foco no punho. O acesso ocioso ainda é manipulado — flush, checagem, banho — e cada manipulação é uma chance de contaminação do conector, que é justamente a via que passa a predominar conforme o dispositivo envelhece.

Como pegar a tempo: Faça a pergunta em voz alta todo dia, na visita: existe medicação intravenosa prescrita, e ela foi usada nas últimas 24 horas? Duas respostas negativas retiram o acesso. O medo de precisar puncionar de madrugada se resolve com o mesmo cateter que se colocaria de madrugada.

Não trocar o acesso puncionado na emergência sem assepsia adequada

O dano: É o acesso mais contaminado do hospital, e ele sobe para a enfermaria sem nenhuma marca que o distinga de um acesso puncionado com calma. Como a colonização da face externa do dispositivo predomina justamente nas primeiras semanas, esse cateter carrega uma inoculação inicial maior e um risco de infecção da corrente sanguínea desproporcional à sua idade em horas.

Como pegar a tempo: Ao receber paciente do pronto-socorro ou da sala vermelha, pergunte quando e onde o acesso foi puncionado, escreva a resposta na evolução e programe a troca para o mesmo dia. A norma diz 'tão logo quanto possível', e quem transforma isso em data é você.

Garrote esquecido no braço depois da punção

O dano: Parece anedota e é evento adverso com relato regular. O membro fica com estase venosa mantida sob a fixação, a infusão não corre ou corre com pressão, o paciente reclama de dor que é atribuída ao acesso recém-puncionado, e em algumas horas há edema, palidez e risco isquêmico. Em paciente sedado, com déficit cognitivo ou com paresia do membro, ninguém reclama — e a descoberta vem tarde.

Como pegar a tempo: Solte o garrote antes de conectar a extensão, não depois de fixar. Faça disso um passo fixo da sequência, e não um gesto que depende de lembrar. E ao terminar qualquer punção, olhe o membro inteiro, dos dedos até a axila, antes de sair do quarto.

Usar a fossa cubital como acesso de manutenção porque é onde a veia aparece

O dano: Cada flexão de cotovelo angula a cânula contra a íntima. O resultado é uma cascata previsível: alarme de bomba a cada movimento, doses de antibiótico infundidas pela metade sem ninguém perceber, flebite mecânica em dois ou três dias, e um paciente instruído a não dobrar o braço — que é uma instrução que ninguém cumpre dormindo. O acesso é reposto antes do prazo e a veia mais calibrosa do membro foi gasta em 48 horas.

Como pegar a tempo: Separe finalidade de facilidade. Fossa cubital para coleta, contraste em bolus e dose única com retirada em seguida. Manutenção por dias vai para o antebraço, ainda que a punção seja mais difícil — e a punção mais difícil de hoje é o acesso que dura até o fim do tratamento.

Forçar o flush num cateter que resiste, ou reinserir a agulha na cânula já avançada

O dano: São dois gestos reflexos com dano desproporcional. Forçar o flush pode deslocar um coágulo formado na ponta, romper o cateter ou romper a veia, e o produto vai para o tecido. Reintroduzir o mandril na cânula que já entrou pode seccioná-la e produzir embolia de fragmento de cateter — complicação rara, grave e inteiramente iatrogênica, que a norma nacional contraindica de forma explícita.

Como pegar a tempo: Resistência ao flush é problema a investigar, não a vencer: procure clamp fechado, extensor dobrado, membro flexionado, manguito de pressão no mesmo braço. Persistindo, o acesso sai. E quando a cânula não progride, o mandril não volta: retire o conjunto inteiro e recomece com um cateter novo, acima do sítio anterior.

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O que dizer ao paciente e à família

O acesso venoso é, para muitos pacientes, o momento mais desagradável da internação inteira — mais do que o diagnóstico, mais do que a cirurgia. E é o procedimento em que o interno mais mente, porque errar a punção dói no orgulho e a saída fácil é dizer que a veia é ruim. O que segue são as falas que resolvem, e o que cada uma delas evita.

Paciente com medo de agulha, tenso, olhando fixamente o braço

O senhor pode olhar para o outro lado, se preferir — não faz diferença nenhuma para mim e faz muita para o senhor. Vou avisar antes de furar, com uma contagem: vou dizer 'agora'. O que arde é o começo, e dura poucos segundos; depois fica só um incômodo de pressão. Se em algum momento ficar insuportável, o senhor me diz e eu paro. Só peço que não puxe o braço de repente, porque aí sim machuca.

Não diga: Prometer que não vai doer. Dizer 'é rapidinho' e demorar três minutos procurando veia. Puncionar sem avisar, para 'pegar de surpresa' — a surpresa produz o movimento brusco que rasga a veia, e destrói a confiança para todas as punções seguintes desta internação.

Você acabou de errar a punção, na frente do paciente e da família

Não consegui nessa. A veia é fina nesse ponto e eu não peguei o ângulo certo — vou comprimir aqui um minuto para não ficar roxo. Tenho mais uma tentativa e depois vou chamar uma colega que tem mais prática com veia difícil, porque não faz sentido eu insistir e machucar o seu braço. Isso não é sinal de que o senhor tem algum problema; é bem comum não pegar de primeira.

Não diga: Culpar o paciente — 'a sua veia é péssima', 'o senhor está desidratado', 'ninguém consegue nessa veia'. Também evitar o oposto: pedir desculpas cinco vezes e transformar o quarto num consolo do médico. E evitar a terceira, a quarta e a quinta tentativa: existe um teto de duas tentativas por profissional e quatro no total, e cumpri-lo em voz alta transmite competência, não fracasso.

Paciente pede para tirar o acesso — 'já estou tomando comprimido, doutor, tira isso'

Deixa eu conferir na prescrição… O senhor tem razão: o antibiótico passou para comprimido ontem e não há mais nada correndo por aqui. Vou tirar agora. Enquanto tira, uma orientação: nos próximos três ou quatro dias, o local pode ficar dolorido, vermelho ou endurecido, mesmo já sem o cateter. Se isso acontecer, é para procurar avaliação — não é normal e tem tratamento simples se for visto cedo.

Não diga: Manter o acesso 'por garantia' e explicar isso como cuidado. Também evitar tirar sem orientar sobre a flebite que aparece depois — o paciente vai atribuir a dor tardia a uma trombose, ou pior, vai achar que é esperado e não voltar.

Explicar a proteção do membro com fístula de hemodiálise; outras condições exigem avaliação própria

Nesse braço eu não vou puncionar, e nem outra pessoa deve. No seu caso é por causa da fístula: ela é o caminho pelo qual o senhor dialisa, e uma inflamação ali pode fechá-la de vez — perder a fístula é um problema muito maior do que uma punção difícil no outro braço. Vale o senhor avisar isso a toda equipe que chegar, inclusive na coleta de sangue. Não é excesso de cuidado; é a única coisa que protege esse acesso.

Não diga: Explicar a proibição como regra da instituição, sem motivo. Paciente que entende o porquê vira o guardião da própria fístula e avisa a equipe às três da manhã, quando ninguém leu o prontuário.

Houve infiltração com edema importante, e a família viu o braço inchar

O que aconteceu foi que o cateter saiu de dentro da veia e o soro passou a correr no tecido em volta, em vez de correr no sangue. Já parei a infusão, retirei o cateter e marquei com caneta o contorno do inchaço, com a hora — assim conseguimos saber daqui a pouco se está diminuindo. O braço vai ficar elevado. Na maior parte das vezes isso se resolve sozinho em um ou dois dias. Vou reavaliar de duas em duas horas, e se a área aumentar, doer mais ou ficar dormente, eu chamo a cirurgia. Não vou deixar sem acompanhar.

Não diga: Chamar de 'só um inchacinho' e sair do quarto. Massagear ou comprimir na frente da família — além de espalhar o produto, ensina a família a fazer o mesmo. E prometer que não vai deixar marca: em extravasamento de produto agressivo, pode deixar.

O paciente já perdeu vários acessos e vai precisar de um dispositivo diferente

O senhor já foi puncionado seis vezes em três dias, e não é por falta de habilidade de quem puncionou — as suas veias de superfície estão gastas, e isso acontece com quem faz tratamento longo. Insistir mais só machuca e atrasa a medicação. Vou discutir hoje com a equipe um acesso de permanência maior, que se coloca uma vez e dura o tratamento inteiro. É um procedimento a mais agora para evitar dez punções depois.

Não diga: Continuar puncionando por inércia até esgotar os dois braços. E apresentar o dispositivo de longa permanência como derrota ou como sinal de piora clínica — é decisão técnica de rota, e formulá-la assim evita que o paciente recuse por medo do que aquilo 'significa'.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Trocar o cateter periférico por prazo fixo ou trocar apenas quando houver indicação clínica

Piso de prazo com extensão condicionada, posição da Anvisa nos documentos nacionais de 2017 e 2022

A régua brasileira estabelece que, rotineiramente, o cateter periférico não deve ser trocado em período inferior a 96 horas — ou seja, proíbe a troca precoce por calendário, que era prática comum. E permite ir além desse prazo, ou passar a trocar apenas quando clinicamente indicado, desde que a instituição comprove adesão às boas práticas: avaliação rotineira e frequente do paciente e do sítio de inserção, integridade da pele e do vaso, duração e tipo de terapia prescrita, local de atendimento, integridade e permeabilidade do dispositivo, e integridade da cobertura e da estabilização estéreis. A troca por indicação clínica não é liberada de forma incondicional: ela é o prêmio de um serviço que vigia. Em neonato e em paciente pediátrico, a mesma régua determina não trocar por rotina.

Anvisa. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, caderno 4, 2ª edição, 2017, item 4.1.8; e Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 04/2022

Equivalência dos desfechos, posição sustentada pela revisão sistemática Cochrane de 2019

A revisão sistemática que comparou troca por indicação clínica com troca de rotina não encontrou diferença clara entre as duas estratégias em flebite, em infecção da corrente sanguínea relacionada a cateter, em infecção local, em mortalidade nem em dor. A leitura dessa posição é que o prazo em si não é o que protege: o que protege é a vigilância do sítio, e um cateter trocado a cada três dias sem ninguém olhar não é mais seguro do que um cateter de sete dias inspecionado a cada turno. O argumento acrescenta o custo do lado oposto — cada troca por calendário é uma punção, com sua dor, seu risco e seu consumo de uma veia que não volta.

Webster J, Osborne S, Rickard CM, Marsh N. Clinically-indicated replacement versus routine replacement of peripheral venous catheters. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019

Como decidir

A estratégia de troca depende da vigilância e do protocolo do serviço. Confira se o sítio é inspecionado e registrado a cada turno e se a cobertura permite essa avaliação. Acesso sem indicação deve ser retirado; o inserido em emergência sem assepsia exige revisão assim que possível. Registre a condição do sítio e a justificativa para manter o dispositivo.

Qual antisséptico usar na pele antes da punção periférica

Três opções equivalentes no periférico, posição da Anvisa para cateter intravenoso periférico

Para a punção periférica, a régua nacional aceita três antissépticos com a mesma força de recomendação: gliconato de clorexidina acima de 0,5% em solução alcoólica, iodopovidona alcoólica a 10%, ou álcool a 70%. O que muda entre eles é a técnica e o tempo: clorexidina em movimentos de vai e vem por 30 segundos; iodopovidona em movimentos circulares de dentro para fora por 1,5 a 2 minutos; álcool a 70% com gaze em movimento espiral centrífugo por três vezes. Em todos, a secagem espontânea é obrigatória antes de puncionar, e o sítio não é tocado depois de preparado. A equivalência tem lógica de disponibilidade: o álcool a 70% existe em todo serviço do país, e uma norma que exigisse antisséptico único produziria má adesão onde ele falta.

Anvisa. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, caderno 4, 2ª edição, 2017, item 4.1.3; e Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/Anvisa nº 04/2022

Clorexidina alcoólica como agente único, posição da mesma Anvisa para cateter central

No capítulo de cateter central do mesmo documento nacional, a orientação deixa de ser um leque e passa a ser uma só: realizar o preparo da pele com solução alcoólica de gliconato de clorexidina acima de 0,5%, em recomendação de nível de evidência I, com aplicação em movimentos de vai e vem por 30 segundos e secagem espontânea. Ou seja, quando o risco de infecção da corrente sanguínea sobe, o mesmo órgão abandona a equivalência e escolhe um agente. A leitura desta posição é que a hierarquia entre os antissépticos existe e está reconhecida; o que o item do periférico faz é aceitar alternativas onde o risco basal é menor.

Anvisa. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, caderno 4, 2ª edição, 2017, item 4.2.2

Como decidir

Escolha o antisséptico considerando o protocolo, a disponibilidade e alergias documentadas. Execute corretamente o tempo de contato e a secagem espontânea. Não sopre, abane ou enxugue a área para acelerar a punção; a técnica faz parte da proteção esperada do produto.

Usar ultrassom de rotina na punção difícil, ou reservá-lo para depois das tentativas às cegas

Visualização indicada na rede difícil, posição da Anvisa com o nível de evidência mais alto do documento, e ensaio randomizado brasileiro de 2022

A orientação nacional determina usar metodologia de visualização para instalação de cateteres em adultos e crianças com rede venosa difícil e/ou após tentativas de punção sem sucesso — recomendação de nível I. O 'e/ou' é o ponto: a indicação existe pela característica da rede, antes de qualquer tentativa. Um ensaio clínico randomizado brasileiro com 166 adultos internados encontrou assertividade na primeira tentativa muito superior no braço com ultrassom, com sucesso global maior, menor tempo de inserção e menos complicações, numa amostra em que a maior parte dos participantes do grupo intervenção tinha alto risco de falha na primeira tentativa.

Anvisa, caderno 4, 2ª edição, 2017, item 4.1.2, recomendação 10; e Hansel LA. Assertividade da punção venosa periférica orientada por ultrassom versus punção venosa periférica convencional: ensaio clínico randomizado. UFRGS, 2022

Ganho dependente de treinamento e da veia, posição sustentada por estudo transversal brasileiro em pronto atendimento

Em serviço de pronto atendimento, com enfermeiras capacitadas em uma aula curta seguida de prática em simulador, o sucesso na primeira tentativa guiada por ultrassom ficou em 64,95%, e o que determinou o desfecho não foi o equipamento: a prevalência de sucesso foi 43% maior em veia visível e 128% maior em veia retilínea. A leitura dessa posição é que o ultrassom amplia o campo de escolha, mas não substitui a escolha — e que transferir para o aparelho a decisão sobre qual veia puncionar troca um problema por outro, sobretudo quando o cateter disponível é curto e a veia encontrada é profunda.

Oliveira AM, Danski MTR, Pedrolo E. Punção venosa periférica guiada por ultrassonografia: prevalência de sucesso e fatores associados. Cogitare Enfermagem, 2017

Como decidir

Considere acesso difícil previsto, operador capacitado e material adequado à profundidade da veia. O ultrassom deve participar do planejamento quando indicado, sem ser reservado apenas ao fim de sucessivas tentativas. Se faltarem treinamento ou material, acione quem pode ajudar e reavalie a rota do dispositivo, em vez de insistir.

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O raciocínio, em voz alta

Homem de 62 anos, diabético, internado há seis dias por celulite extensa de perna direita, em uso de oxacilina intravenosa. Melhorou: a placa recuou, está afebril desde anteontem e já anda até o banheiro. Às 15h, a técnica de enfermagem chama você — o antibiótico das 14h não correu direito e ele está reclamando do braço. O acesso é um 20G no dorso da mão esquerda, puncionado há quatro dias, coberto com gaze e esparadrapo comum, sem identificação de data.

  1. o que penso antes de entrar no quarto

    Três coisas já estão decididas pelo enunciado. Primeira: quatro dias é um acesso maduro, e a coorte brasileira mostra que a flebite durante o uso mais que dobra depois de 72 horas. Segunda: oxacilina é um dos três antimicrobianos que apareceram associados a flebite pós-infusional naquele mesmo estudo — não é contraindicada em periférico, mas é veia gasta com mais rapidez. Terceira: o sítio é dorso da mão, com pele fina, veia pequena e um segmento que dobra o tempo todo, e o cateter é 20G, provavelmente grande demais para a veia que o recebeu. Ou seja, antes de olhar o braço eu já espero flebite mecânica somada a química.

  2. o que examino, e nesta ordem

    Descubro o sítio — e aqui já há um achado, porque a cobertura é gaze com esparadrapo comum, que a norma proíbe e que esconde exatamente o que eu preciso ver. Inspeciono o ponto de entrada e o trajeto da veia acima dele. Palpo procurando endurecimento e cordão, sempre comparando com o outro braço. Peço para ele mexer os dedos e pergunto se dói em repouso ou só quando corre o soro. Aspiro a extensão para ver se reflui. E olho o membro inteiro, dos dedos à axila, procurando garrote esquecido, edema distal e o manguito de pressão.

  3. o que encontro

    Eritema de cerca de três centímetros ao redor do ponto de entrada, dor à palpação, e, subindo pelo dorso da mão em direção ao punho, um cordão endurecido de aproximadamente quatro centímetros que se palpa com nitidez. Sem drenagem de secreção. Sem edema significativo do dorso da mão. Não há refluxo à aspiração, e o flush encontra resistência.

  4. como isso muda o que eu penso

    Dor com eritema e endurecimento com cordão fibroso palpável, sem drenagem purulenta, é flebite grau 3. Isso muda três coisas de uma vez. A primeira: o acesso não é discutível — sai agora, e não no fim do plantão. A segunda: aquele trajeto venoso está trombosado, então o próximo acesso não vai nem para o mesmo trajeto nem para um ponto distal a ele. A terceira: a ausência de refluxo com resistência ao flush significa que eu não vou forçar nada por ali — forçar poderia deslocar coágulo ou romper a veia.

  5. a pergunta que decide se o caso é local ou sistêmico

    Cordão extenso pede que eu descarte tromboflebite séptica antes de tratar como incidente local. Então eu meço temperatura agora, procuro calafrio nas últimas 24 horas, olho a frequência cardíaca das últimas medidas e examino o paciente por inteiro, inclusive a perna que motivou a internação. Neste caso: afebril, sem calafrio, sem taquicardia, sem linfangite ascendente, celulite da perna em franca melhora. É flebite grau 3 local.

  6. o que faço agora, na ordem

    Retiro o cateter com a cânula paralela à pele, conferindo se a ponta saiu íntegra. Comprimo o sítio com gaze estéril. Elevo o membro, prescrevo compressa morna e analgesia. Punciono um novo acesso — no antebraço, não no dorso da mão, e no membro contralateral, porque todo o trajeto ipsilateral acima do sítio anterior é território comprometido. Escolho o menor calibre que atenda ao que falta de oxacilina. Cubro com membrana transparente e identifico com data, hora, calibre e meu nome.

  7. a decisão que quase ninguém toma, e que este caso permite

    Antes de puncionar, eu reviso a prescrição, porque o melhor acesso é o que não precisa existir. Paciente afebril há 48 horas, com celulite em melhora franca, andando: há uma conversa a ter com a equipe sobre transição para via oral. Se ela for possível hoje, eu não punciono nada — e o segundo acesso que eu ia colocar deixa de existir, junto com o risco dele. Se não for, punciono e escrevo na evolução o grau de flebite, o sítio retirado, o novo sítio e a orientação de reavaliar o local anterior por quatro dias, inclusive se ele receber alta antes disso.

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Faça você

Mulher de 78 anos, internada há três dias por infecção do trato urinário, em uso de ceftriaxona intravenosa. Acesso 22G no dorso da mão direita, puncionado há três dias, coberto com membrana transparente identificada. Às 22h, a técnica avisa que o soro parou de correr. Você examina: o dorso da mão está aumentado de volume em relação ao lado oposto, com edema de aproximadamente 6 cm de extensão, pele pálida e mais fria que a do outro lado. A paciente refere pouco desconforto. Não há eritema, não há cordão palpável, não há secreção. A infusão de ceftriaxona está em curso, com cerca de 40 mL ainda na bolsa.

  1. achado

    Edema de 6 cm no dorso da mão, com pele pálida e fria, sem eritema e sem cordão, em acesso periférico com infusão em curso. Comparação com o membro contralateral confirma a assimetria.

  2. o que isso é, e o que não é

    Pele pálida e fria com edema é infiltração — a solução está correndo no tecido, não na veia. Não é flebite: flebite dá eritema, calor e cordão, e o quadro aqui é o oposto térmico. A distinção importa porque muda a sequência da conduta.

  3. graduação

    Pela escala de infiltração, edema nessa faixa de extensão, com pele pálida e fria e pouca dor, corresponde ao grau 2. A ceftriaxona não é produto vesicante nem hemoderivado, o que mantém o caso fora do grau 4.

  4. conduta

    — sua vez —

  5. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome Marlene e a dose de antibiótico perdida: comunique o atraso, viabilize a terapia com a equipe e registre a solução, sem repetir automaticamente toda a prescrição.

  6. Questão integrativa 1

    As duas tentativas anteriores de Marlene justificam continuar procurando às cegas?

  7. Questão integrativa 2

    Refluxo sanguíneo exclui infiltração?

  8. Questão integrativa 3

    O que fazer se o local aumentar enquanto entra medicamento?

  9. Questão integrativa 4

    Deve-se sempre retirar imediatamente um acesso com suspeita de extravasamento?

  10. Questão integrativa 5

    Um tempo de antissepsia serve para todas as apresentações?

  11. Questão integrativa 6

    Qual pergunta pertence à visita do dia seguinte?

Ver como fecharíamos

A sequência tem ordem e a ordem importa. Primeiro, parar a infusão — fechar o clamp e desconectar o equipo. Segundo, e antes de qualquer outra coisa, NÃO retirar o cateter ainda: conectar uma seringa à cânula e aspirar o que for possível recuperar do que foi para o tecido, porque a cânula é a única via de acesso ao produto infiltrado e ela vai embora com ele lá dentro se for puxada antes. Terceiro, retirar o cateter, conferindo a integridade da ponta, e comprimir o sítio. Quarto, elevar o membro — sem massagear e sem comprimir a área infiltrada, porque isso espalha o produto num plano tecidual maior. Quinto, marcar o contorno do edema na pele com caneta e anotar a hora ao lado, que é o único jeito de saber daqui a duas horas se está regredindo. Sexto, registrar o grau 2 no prontuário, não o adjetivo 'inchado', e notificar conforme a rotina do serviço. Sétimo, puncionar novo acesso em outro membro — ou, se for necessário usar o mesmo, sempre proximal ao sítio anterior, nunca distal a ele, porque a solução desembocaria justamente no segmento lesado. Oitavo, completar a dose interrompida de ceftriaxona pelo novo acesso e reavaliar o dorso da mão a cada duas horas até regressão; edema que não regride em 24 horas, dor crescente ou diminuição da sensibilidade pedem avaliação cirúrgica pela possibilidade de síndrome compartimental. E, na alta, orientar por escrito a procurar avaliação se surgir dor, vermelhidão ou endurecimento no local nos quatro dias seguintes. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Reavalie urgência e opções, peça operador experiente e considere ultrassom conforme recursos; repetir tentativas amplia lesão e atraso. 2. Não. A segurança depende também de exame do sítio, ausência de dor, resistência ou edema e observação durante a infusão. 3. Parar a infusão, não lavar e comunicar a equipe. Identificar o agente e seguir manejo de infiltração ou extravasamento. 4. Não antes de avaliar o protocolo: o cateter pode ser necessário inicialmente para aspirar o produto ou medidas específicas. 5. Não. Produto, formulação, sítio e instruções definem aplicação e secagem; não misturar tempos de protocolos distintos. 6. Se a terapia intravenosa ainda é necessária e se o acesso continua adequado. O dispositivo não deve permanecer só porque ainda funciona.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A régua nacional determina que, em adultos, as veias de escolha para canulação periférica são as das superfícies dorsal e ventral do antebraço, e que se selecione o menor calibre e o menor comprimento de cânula que atendam à terapia — cateter fino causa menos flebite mecânica e deixa mais sangue correr em volta para diluir a droga. A fossa cubital é região de flexão e não serve para manutenção por dias: a cada movimento do cotovelo a cânula angula contra a íntima, o que produz alarme, doses infundidas pela metade e flebite mecânica. O membro do lado do esvaziamento axilar permanece fora da conta independentemente do tempo decorrido, porque a drenagem linfática segue comprometida. Acesso central se indica por natureza da terapia — solução hiperosmolar, vesicante contínuo, droga vasoativa, medida de pressão venosa central — e não porque uma punção falhou, ainda mais quando há veia palpável e adequada disponível. Membro inferior no adulto só se absolutamente necessário, pelo risco de embolia e tromboflebite.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recite em voz alta a sequência da infiltração, na ordem: parar, aspirar antes de retirar, retirar, elevar, marcar com a hora, graduar, notificar. Depois responda de cabeça: qual é o teto de tentativas por profissional e no total; qual o sítio de escolha no adulto e por quê; e por que o menor calibre que atende à terapia é a escolha certa fora da emergência. Se travar em alguma, releia o bloco de mecanismo — as três respostas saem de lá.

Em 30 dias

Pegue três pacientes com acesso periférico na sua enfermaria e faça a auditoria completa em cada um, em cinco minutos: a cobertura está identificada com data, hora, calibre e nome? O ponto de entrada é visível sem desmontar nada? Existe medicação intravenosa prescrita e usada nas últimas 24 horas? Qual o grau de flebite e o grau de infiltração, agora, pelas escalas? Escreva o achado na evolução. Essa auditoria é o exercício que transforma o capítulo em hábito, e é a mesma que a comissão de infecção faz.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 47 anos, motorista de caminhão, trazido ao pronto atendimento duas horas depois de bater o caminhão de frente contra uma mureta de concreto, usando cinto de segurança. Ele se queixa de dor forte do lado direito da barriga e de tontura, com a vista escurecendo, quando tenta sentar. Conduza o exame abdominal e a decisão sobre imagem, mas garanta a via venosa logo no início: diga quantos acessos, em que veia e com que calibre, e justifique pelo fluxo de que ele pode precisar. Verbalize a técnica da punção até a fixação e diga o que vai vigiar nesses acessos nas próximas horas e o que faria você retirar um deles. Ao final, exponha seu plano de conduta e justifique.

Acesso venoso periférico — Internato | OsceLabs