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Sondagem vesical

Distinguir retenção de baixa produção de urina, indicar a sondagem e prevenir trauma e infecção durante a inserção e o acompanhamento.

Fontes deste capítulo

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Protocolo para a Prevenção de Infecção do Trato Urinário relacionada ao uso de Cateter Vesical de Demora (ITU-AC). Versão 1. Brasília: Anvisa, 2025.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, Caderno 4. 2ª edição. Brasília: Anvisa, 2017. Capítulo 2 — Medidas de Prevenção de Infecção do Trato Urinário.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2021-2025. Brasília: Anvisa, 2021.

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Relatório da Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente: hospitais com Unidade de Terapia Intensiva (UTI) — 2024 (ano IX). Brasília: Anvisa, 2025.

Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Resolução Cofen nº 450/2013 — Normatiza o procedimento de Sondagem Vesical no âmbito do Sistema Cofen/Conselhos Regionais de Enfermagem, e Parecer Normativo anexo. Brasília, 11 de dezembro de 2013.

01

Responda antes de ler

Homem de 34 anos chega ao pronto-socorro após colisão moto-carro, com fratura de bacia ao exame físico e à radiografia. Está consciente, estável após reposição inicial, com dor pélvica intensa e vontade de urinar sem conseguir. Ao exame: gotas de sangue no meato uretral e hematoma perineal em formação. A equipe de enfermagem prepara o material para sondagem vesical de demora e aguarda sua ordem. Qual a conduta correta?

02

O paciente que você vai ver

Onze e meia da noite, enfermaria de clínica cirúrgica. A técnica de enfermagem te encontra no posto: "o leito 7 não urina desde o meio da tarde. A enfermeira está em outra intercorrência e pediu para te avisar — provavelmente vai precisar sondar". O leito 7 é seu Waldir, 62 anos, operado de uma hérnia inguinal no fim da manhã, raquianestesia, primeira noite de pós-operatório. Recebeu tramadol às 20h. No balanço, a última micção registrada foi às 15h.

O caminho fácil está desenhado: pegar o kit, passar a sonda, voltar para o plantão. É o que a frase "ele não urina há oito horas" convida a fazer. Mas ela não diz o que você precisa saber. Não urinar há oito horas tem duas explicações que não se parecem em nada: a bexiga está cheia e ele não consegue esvaziar — retenção —, ou a bexiga está vazia porque o rim não está produzindo — oligúria. A sonda resolve a primeira. Na segunda, ela não trata nada: só mede o problema, e cobra o preço de qualquer sonda.

Ao lado do leito, a diferença se resolve em dois minutos. Seu Waldir está desconfortável, mexe-se no leito, refere peso no baixo ventre e vontade de urinar sem conseguir. O abdome inferior está globoso; a percussão suprapúbica é maciça e dolorida, e a palpação desperta urgência. É um globo vesical — retenção urinária aguda, o cenário clássico do pós-operatório de raquianestesia com opioide por cima. Agora sim, a sonda é tratamento, e alivia em minutos uma dor que analgésico nenhum resolve.

Restam as perguntas que separam quem executa de quem decide. Sonda de alívio ou de demora? Ele precisa esvaziar a bexiga agora — precisa continuar com um tubo na uretra depois? Que calibre? Com que técnica, se cada quebra de assepsia aqui semeia a infecção hospitalar mais comum do país? E a pergunta que quase ninguém faz na hora de passar e que este capítulo vai insistir em fazer: quando e como esta sonda sai?

A sondagem vesical é provavelmente o procedimento invasivo que o interno mais executa depois da punção venosa — e é o que mais produz dano evitável. O dano não costuma vir do gesto: vem da indicação que não existia e da permanência que ninguém revisou. A sonda que aliviou seu Waldir à meia-noite é a mesma que, esquecida até o quinto dia, vira febre, urocultura positiva, antibiótico de amplo espectro e três dias a mais de internação. Entre esses dois destinos não há nenhuma técnica nova — há alguém que pergunta, todos os dias, se ela ainda precisa estar ali.

O capítulo acompanha a decisão de sondar, a técnica, o cuidado diário e a retirada. O objetivo é reconhecer a indicação, proteger a uretra e reduzir o risco de infecção. A investigação da infecção já instalada é aprofundada no capítulo de febre no paciente internado.

03

Quem adoece disso

A infecção do trato urinário é a infecção relacionada à assistência à saúde mais frequente do Brasil, e a maioria dos casos está relacionada à cateterização vesical — é o que afirmam os dois documentos de referência da Anvisa, o Caderno 4 de prevenção de IRAS e o protocolo nacional de prevenção de ITU associada a cateter, de 2025. Nas contas nacionais, as ITU respondem por 35 a 45% das IRAS em adultos internados. Traduzindo para o plantão: o dispositivo que você instala com um kit simples à beira do leito é a porta de entrada da complicação infecciosa hospitalar mais comum com que você vai lidar na carreira.

O uso é onipresente: 15 a 25% de todos os pacientes hospitalizados recebem um cateter vesical em algum momento da internação. E uma fração enorme desse uso não se sustenta. Na coorte brasileira que seguiu 254 pacientes cateterizados num hospital universitário paulista, 29% das sondas dos pacientes clínicos tinham indicação inadequada, quase um quarto não tinha sequer prescrição ou registro em prontuário, e o tempo de permanência foi considerado inadequado em metade dos pacientes clínicos e em dois terços dos cirúrgicos. Quem teve uso inadequado teve mais infecção urinária e ficou, em média, três dias a mais internado. O problema nacional não é sonda mal passada — é sonda que não precisava existir, durando mais do que devia.

A densidade de incidência nacional de ITU associada a cateter fica entre 3,1 e 7,4 episódios por 1.000 cateteres-dia, e a meta 9 do programa nacional de prevenção de IRAS da Anvisa estabeleceu como alvo, até 2025, trazer o percentil 90 das UTIs adultas para no máximo 10 episódios por 1.000 cateteres-dia. Repare no denominador: cateteres-dia. A régua nacional já embute a lição central do capítulo — o risco é função do tempo de exposição, e quem reduz dias de sonda reduz infecção, sem nenhuma tecnologia nova.

O tamanho da lacuna assistencial apareceu na Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente de 2024, que reuniu mais de 1.500 hospitais com UTI: o protocolo de prevenção de ITU por cateter vesical foi um dos indicadores com maior número de não conformidades do país, com tendência de piora desde 2017. Ou seja: enquanto quase todo hospital tem protocolo de higiene de mãos e de identificação do paciente, uma parte relevante ainda não organizou a rotina mínima em torno da sonda vesical. Na prática, essa rotina vai se apoiar em quem está à beira do leito — e o interno que domina indicação, técnica e critério de retirada passa a ser parte da barreira, não do problema.

Vale dizer o que esses números significam para um paciente por vez. A cada dia de permanência, a chance de bacteriúria aumenta; uma parte dos que desenvolvem bacteriúria evolui para infecção sintomática e bacteremia; e a ITU associada a cateter é a principal origem de infecção secundária de corrente sanguínea no hospital, com mortalidade relevante nos casos que chegam lá — os números finos desse encadeamento estão no bloco de mecanismo, porque é ele que os explica. O que importa reter da epidemiologia é a assimetria: o benefício da sonda é frequentemente questionável, e o custo é a IRAS mais comum do país.

04

Por que acontece o que acontece

Uma bexiga saudável se esvazia por completo várias vezes ao dia, e esse esvaziamento é a principal defesa do trato urinário: bactéria que sobe é lavada para fora antes de aderir. A uretra, por sua vez, é um canal virtualmente fechado, com um filme de muco e uma microbiota de vizinhança que compete com patógenos. O cateter vesical sabota as duas defesas de uma vez. Ele mantém a uretra permanentemente aberta e ocupada por um corpo estranho, e transforma o esvaziamento completo em drenagem contínua com um lago residual — o balonete fica acima do orifício de drenagem, então sempre sobra um fundo de urina que nunca esvazia. Estase mais corpo estranho é o convite bacteriano perfeito.

O veículo da infecção é o biofilme. Horas depois da inserção, a superfície do cateter já está coberta por uma película de proteínas do hospedeiro; sobre ela, bactérias da região perineal e do meato aderem e formam comunidades envoltas em matriz polimérica, protegidas tanto do fluxo de urina quanto de antibiótico e de célula de defesa. O biofilme avança por duas rotas: a extraluminal, pela face externa do cateter, subindo do meato — a mais comum, e a mais precoce na mulher, cuja uretra de 3 a 4 centímetros é um corredor curto a partir de um períneo densamente colonizado —, e a intraluminal, pela face interna, quando o sistema coletor é aberto ou contaminado e a bactéria sobe pela coluna de urina. Cada rota explica uma regra de prevenção: a extraluminal é a razão da técnica asséptica na inserção e da higiene diária do meato; a intraluminal é a razão de o sistema fechado ser sagrado.

Esse processo é cumulativo e implacável: a incidência de bacteriúria cresce 3 a 8% a cada dia de cateter, e ao fim de 30 dias praticamente todos os pacientes cateterizados têm bactéria na urina. Não existe técnica de inserção, material de cateter ou cuidado de manutenção que zere essa progressão — silicone, revestimento de prata e cateter impregnado de antimicrobiano não mudaram desfecho em estudo, e é por isso que os documentos da Anvisa não os recomendam de rotina. A única variável que de fato comprime o risco é o número de dias de exposição. É daqui que sai a tese do capítulo: a medida de prevenção mais poderosa não está na bandeja de material, está na visita diária que pergunta se a sonda ainda precisa existir.

Bacteriúria não é doença — é colonização, na maioria absoluta silenciosa e sem consequência enquanto durar o equilíbrio. O problema é que uma fração dela atravessa a fronteira: cerca de 5% dos pacientes com bacteriúria evoluem para bacteremia, e a ITU associada a cateter é a principal causa de infecção secundária de corrente sanguínea no hospital — aproximadamente 17% das bacteremias hospitalares têm origem urinária, com mortalidade em torno de 10%. A cadeia inteira começa num dispositivo instalado, muitas vezes, por conveniência. Guarde também o outro lado desta moeda, que o capítulo de febre no paciente internado desenvolve: como quase todo sondado crônico tem bacteriúria, urocultura positiva em paciente com cateter e sem sintoma não é diagnóstico de nada — e tratá-la só seleciona resistência.

A anatomia explica o resto do capítulo — em particular, por que sondar homem é mais difícil e mais perigoso. A uretra masculina tem cerca de 16 a 20 centímetros e descreve duas curvas: uma curva peniana, móvel, que desaparece quando você posiciona o pênis perpendicular ao corpo — é para isso que serve o gesto clássico de erguer o pênis a 90 graus —, e uma curva bulbar, fixa, sob o púbis, que não se desfaz com manobra nenhuma e precisa ser vencida com lubrificação generosa e progressão suave. Depois da curva fixa, o cateter atravessa a uretra membranosa, cercada pelo esfíncter externo — músculo estriado que contrai involuntariamente na dor e na ansiedade, e que é a causa mais comum daquela resistência elástica no meio do caminho: não é estenose, é espasmo, e a resposta é pausa e paciência, não força — e por fim a uretra prostática, onde a próstata aumentada do homem idoso alonga e comprime o canal.

A uretra feminina, curta e retilínea, quase não oferece obstáculo mecânico — a dificuldade ali é outra: identificar o meato, que pode estar retraído no introito da mulher idosa. Essa assimetria anatômica tem uma consequência dupla que o capítulo repete sem constrangimento: no homem, a inserção exige respeito às curvas e ao esfíncter; na mulher, a facilidade de inserir convive com a colonização mais precoce.

Falta o vilão específico da técnica: o balonete. Ele é desenhado para ser insuflado dentro da bexiga, um reservatório complacente. Insuflado na uretra — tipicamente na prostática ou na bulbar, quando o cateter ainda não chegou ao destino —, os mesmos mililitros rasgam mucosa e corpo esponjoso, produzindo uretrorragia, falso trajeto e, meses depois, estenose. Como a ponta do cateter chega à bexiga vários centímetros antes de o balonete chegar, existe uma janela em que "já saiu urina" e o balonete ainda está na uretra prostática. Duas regras derivam disso e aparecem de novo na técnica: só insuflar depois de ver urina drenar, e — no homem — só depois de introduzir o cateter até quase o garfo, a bifurcação em Y. Urina na sonda diz que a ponta chegou; o garfo na glande diz que o balonete também.

Esquema do trato urinário masculino com sonda contínua pela uretra, balão e ponta inteiramente dentro da bexiga e próstata identificada.
O balão deve estar inteiramente no lúmen vesical antes de ser insuflado. Retorno de urina, isoladamente, não garante a posição do balão; seguir técnica e protocolo do dispositivo. Dor, resistência ou dúvida exigem interromper a manobra e reavaliar.
05

Como se apresenta de verdade

Não há doença a apresentar aqui: o que se apresenta ao interno é a decisão. E ela começa por distinguir três dispositivos que a rotina embola sob a palavra "sonda", cada um com lógica própria — e continua na pergunta que a maioria pula: existe indicação real? A lista de indicações legítimas de cateter de demora é curta e taxativa nos documentos da Anvisa; quase tudo o mais que se vê na prática é uso inadequado. As seções abaixo percorrem as duas metades: quando sim, e — mais longa e mais importante — quando não.

Três dispositivos, três lógicas

A sondagem de alívio esvazia a bexiga e sai na sequência: é procedimento, não dispositivo permanente. Usa cateter simples, sem balonete (tipo Nelaton), resolve a retenção do momento e devolve o paciente ao estado sem corpo estranho — com risco infeccioso próximo do basal. Sempre que a necessidade é esvaziar uma vez, ou poucas vezes ao dia, o alívio ganha da demora.

A sondagem de demora instala um cateter com balonete (tipo Foley) conectado a um sistema coletor fechado, e é dela que vem quase todo o custo infeccioso deste capítulo. Demora se justifica quando a drenagem precisa ser contínua ou a medida do débito precisa ser horária — situações listadas na seção seguinte — e deixa de se justificar no dia em que essa necessidade acaba.

O cateterismo intermitente é o alívio transformado em rotina programada: esvaziamentos periódicos, várias vezes ao dia, sem cateter residente. No hospital é feito com técnica estéril pela enfermagem; no domicílio, como cateterismo intermitente limpo, é o padrão de cuidado da bexiga neurogênica — o paciente ou cuidador aprende, e o risco de infecção é uma fração do da demora, porque não existe biofilme sem corpo estranho residente. Entre a demora e o intermitente na retenção crônica há uma divergência real de prática, tratada no bloco próprio.

Fora da uretra existem ainda o coletor externo (o condom masculino e os dispositivos femininos de superfície, que recolhem sem invadir — úteis na incontinência sem retenção) e a cistostomia suprapúbica, via cirúrgica da urologia para quando a uretra está interditada. O interno não instala cistostomia, mas precisa saber que ela existe para não insistir numa uretra impossível.

Indicação 1 — retenção urinária aguda: a inquestionável

Bexiga cheia que não esvazia é a única indicação em que a sonda é tratamento imediato de sofrimento. O quadro clássico combina dor ou peso suprapúbico, urgência sem micção e globo palpável — e os gatilhos do hospital são previsíveis: pós-operatório (raquianestesia e opioide à frente), anticolinérgicos e opioides em geral, constipação grave no idoso, hiperplasia prostática descompensando com qualquer um dos anteriores, e causas neurológicas agudas. Aqui a escolha padrão do interno é o alívio, não a demora: esvaziou, reavalia. A demora entra quando a causa da retenção não vai embora nas próximas horas — obstrução infravesical que aguarda urologia, lesão medular aguda — ou quando episódios repetidos em poucas horas mostram que o alívio isolado não sustenta.

A retenção crônica silenciosa é outra apresentação: o idoso com resíduo enorme e pouca queixa, bexiga de esforço de anos de próstata. Esse paciente não é emergência de sonda — é caso de avaliação urológica, e a decisão entre intermitente e demora é compartilhada, não de plantão.

Indicação 2 — medir débito em quem está grave de verdade

Monitorização rigorosa de débito urinário justifica demora quando a informação horária muda conduta: choque em uso de vasopressor, reposição volêmica guiada em queimado grande, pós-operatório de cirurgia de grande porte com instabilidade, oligúria em investigação ativa. A palavra que sustenta a indicação é horária. Balanço hídrico de enfermaria em paciente estável se faz com pesagem, coletor externo ou papagaio e comadre — "está com soro, então sonda para controlar diurese" não é indicação, é hábito. O teste honesto: se o débito pode ser conferido a cada turno em vez de a cada hora sem prejuízo da conduta, a sonda de demora não se justifica.

Na UTI a indicação costuma ser legítima na entrada e caducar no meio da internação: o paciente que desmamou vasopressor e acordou não precisa mais de débito horário — precisa de alguém que note isso na visita e retire a sonda antes que ela vire paisagem.

Indicação 3 — cirurgia selecionada, trauma e imobilização que impede tudo

No transoperatório, a sonda tem justificativas específicas: cirurgia urológica ou pélvica, operação prolongada, necessidade de bexiga vazia no campo, monitorização em grande porte. O documento nacional é explícito no que vem depois: removida precocemente, de preferência em até 24 horas do pós-operatório, salvo exceção justificada — cirurgia urológica com necessidade de moldar a uretra ou drenar coágulo, por exemplo. A sonda que "veio do centro cirúrgico" e segue no terceiro dia sem justificativa escrita é o caso mais comum de uso inadequado em enfermaria cirúrgica do país.

No trauma e na imobilização extrema — tórax instável, fratura de pelve, politrauma que não pode ser mobilizado —, a demora se justifica pelo binômio monitorização e impossibilidade física de usar alternativas. A mesma lógica vale para a cirurgia de emergência com paciente instável. O contraponto obrigatório: no trauma, antes de sondar, a uretra precisa estar comprovadamente íntegra — os sinais de alerta estão no bloco de investigação, e ignorá-los é um dos erros graves do capítulo.

Indicações 4 e 5 — pele que a urina impede de cicatrizar, e conforto no fim da vida

No incontinente com lesão por pressão sacral ou perineal profunda, ou com enxerto na região, o contato repetido da urina compromete a cicatrização — e a sonda de demora entra quando as alternativas falharam. A ordem tentada é essa: coletor externo adaptado, plano de fraldas com troca frequente e proteção de pele, cateterismo intermitente; a demora é o último degrau, não o primeiro, e a indicação é lesão profunda em cicatrização, não assadura. Incontinência com pele íntegra nunca é indicação.

No cuidado de fim de vida, a régua muda de eixo: o objetivo é conforto, e a sonda se justifica quando trocas e mobilizações doem mais do que o dispositivo, ou quando a retenção recorrente atormenta um paciente que já não deveria ser submetido a alívios repetidos. É uma decisão de conforto conversada com paciente e família — e é a única indicação em que "evitar troca de fralda" é argumento legítimo, porque o desfecho que importa deixou de ser infecção.

As não indicações — onde vive a maioria das sondas

Agora a lista que sustenta a epidemiologia do capítulo: as situações em que sonda de demora é instalada todos os dias, em todo hospital, sem indicação. Incontinência urinária por conveniência do cuidado — a mais comum de todas; a resposta certa é coletor externo, fralda com rotina de pele, e reabilitação quando couber. Coleta de urina para exame — urina se colhe por jato médio, saco coletor pediátrico ou, se imprescindível em quem não coopera, alívio que entra e sai; instalar demora para colher exame é trocar um frasco por uma infecção. Imobilidade, idade avançada, demência, "risco de queda no caminho do banheiro" — nada disso é indicação; é justamente a população que mais se machuca com a sonda, porque delirium, tração acidental e infecção se somam. Débito de rotina em paciente estável, já discutido. E a inércia institucional: "veio sondado da emergência", "veio da UTI com", "sempre teve". Sonda não é atributo do paciente, é dispositivo com indicação datada — quem recebe um paciente sondado herda a obrigação de perguntar por que, e a resposta "não sei" significa retirar.

Duas observações fecham o bloco. Primeira: obesidade, edema genital e agitação tornam o cuidado de fralda e coletor mais difícil — tornam a conversa mais longa, não a sonda indicada; o esforço de enfermagem não entra na conta do risco infeccioso do paciente. Segunda: toda exceção honesta existe por escrito. Se a equipe decide manter uma sonda fora da lista de indicações — e às vezes decide, por um conjunto de circunstâncias defensável —, isso é uma decisão clínica registrada em prontuário com justificativa e prazo de revisão, não um esquecimento com advogado.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da sondagem acontece antes dela — e dura minutos. São três perguntas em sequência: este paciente está mesmo em retenção, ou a bexiga está vazia? Esta uretra pode ser sondada por mim, agora? E o que eu preciso registrar para que a sonda tenha certidão de nascimento? Quem pula a primeira pergunta sonda bexiga vazia de paciente oligúrico e atrasa o diagnóstico de lesão renal; quem pula a segunda transforma trauma parcial de uretra em secção completa; quem pula a terceira instala o dispositivo órfão que ninguém vai lembrar de retirar.

Retenção ou rim parado? O exame que antecede o kit

"Não urinou" é um dado de balanço, não um diagnóstico. A bifurcação é binária: bexiga cheia sem esvaziar (retenção — a sonda trata) ou bexiga vazia sem produção (oligúria ou anúria — a sonda apenas mede, e o problema é renal ou pré-renal). O exame dirigido responde na maioria das vezes. A favor de retenção: desconforto ou dor suprapúbica, urgência sem conseguir urinar, agitação inexplicada no paciente que não comunica (o idoso com demência que "piorou da agitação" à noite tem globo até prova em contrário), massa suprapúbica arredondada, percussão maciça acima do púbis, dor à palpação que desperta vontade de urinar. A favor de oligúria: paciente hipovolêmico ou hipotenso, balanço muito negativo, abdome inferior plano e timpânico, sem desconforto vesical.

O exame tem armadilhas conhecidas — obesidade esconde globo, ascite e massa pélvica imitam, dor de outra origem confunde — e é aí que entra o ultrassom à beira do leito, da seção seguinte. Mas guarde a hierarquia: no quadro típico (pós-operatório, dor suprapúbica, globo maciço e doloroso), a clínica fecha sozinha e nenhum exame deve atrasar o alívio. Investigação que adia tratamento de retenção dolorosa é dano, não zelo.

Se a conclusão for bexiga vazia, o capítulo muda: procure lesão renal aguda — reavalie volemia, pressão, drogas nefrotóxicas, obstrução alta bilateral (rara, mas existe) — e resista à tentação de sondar "para monitorar": em paciente estável, pesagem e coleta por micção medem o mesmo débito sem custo infeccioso. A sonda de demora para monitorização entra se o paciente está grave a ponto de exigir débito horário, pelos critérios do bloco de apresentação.

O ultrassom à beira do leito e os números da decisão

O ultrassom point-of-care (ou o aparelho dedicado de bladder scan, onde existir) transforma a dúvida em número em menos de dois minutos, e os documentos da Anvisa o recomendam expressamente como parte do protocolo de retenção pós-operatória — estimar o volume antes de cateterizar evita sondagem desnecessária. A técnica é simples: transdutor convexo transverso e sagital acima do púbis; a bexiga cheia aparece como estrutura anecoica de paredes finas; o volume estimado é comprimento × largura × altura × 0,52, e os aparelhos dedicados calculam sozinhos.

Os cortes de decisão que este capítulo adota — os protocolos nacionais recomendam o uso do ultrassom sem fixar valores, e estes são os de uso corrente nos protocolos de retenção pós-operatória: acima de 500 mL com incapacidade de urinar, é retenção — esvazie por cateterismo de alívio. Entre 300 e 500 mL sem dor, ofereça condições de micção (privacidade, posição sentada ou de pé, analgesia, tratar constipação) e repita a medida em 1 a 2 horas; sondar de imediato só se houver dor ou impossibilidade óbvia. Abaixo de 300 mL, não há retenção que justifique cateter — volte à hipótese de oligúria. E o resíduo pós-miccional, medido logo após urinar, complementa: persistentemente acima de 100 mL indica esvaziamento incompleto que merece plano (intermitente, avaliação urológica), não sonda de demora reflexa.

Sem ultrassom disponível, a clínica decide — globo doloroso típico dispensa imagem — e a dúvida genuína sem imagem se resolve com o próprio cateterismo de alívio, que é diagnóstico e terapêutico: drenou volume grande, era retenção; saiu quase nada de uma bexiga vazia, o problema é renal, e o cateter sai na hora.

A uretra hostil: quando sondar está proibido ou é da urologia

A contraindicação clássica é a suspeita de lesão de uretra no trauma. O cenário: politrauma, fratura de pelve, queda a cavaleiro. Os sinais, na hierarquia da Sociedade Brasileira de Urologia: sangue no meato uretral — o sinal mais importante —, hematoma perineal ou escrotal (o clássico em asa de borboleta), globo com incapacidade de urinar após trauma, e próstata elevada ou não palpável no toque retal, quando ele for feito por outra indicação. Diante de qualquer um deles, a sondagem às cegas está proibida: o cateter pode converter uma lesão parcial em secção completa, e a diferença entre as duas é a diferença entre cicatrizar sobre um molde e reconstruir uma uretra meses depois. A conduta é uretrografia retrógrada antes de qualquer cateter, com a urologia acionada — que decidirá entre sondagem guiada, realinhamento ou cistostomia.

Fora do trauma, três situações mudam o executor, não a indicação: estenose de uretra conhecida ou sondagens difíceis prévias (o paciente costuma saber e avisar — pergunte sempre "já teve dificuldade para passar sonda?"); cirurgia urológica recente, em que a sonda é parte da reconstrução e a reinserção às cegas pode desfazer a anastomose — prostatectomia, uretroplastia, ressecção transuretral: sonda que sai ou entope nesse contexto é ligação para o urologista, nunca nova tentativa própria; e esfíncter urinário artificial ou próteses, em que sondar sem desativar o dispositivo o destrói. A regra operacional do interno cabe numa linha: duas tentativas gentis e atraumáticas são o limite — na terceira dificuldade, quem continua é alguém mais experiente, com outro plano.

Anticoagulação plena e plaquetopenia não contraindicam a sondagem indicada — pedem técnica especialmente gentil, lubrificação generosa e o menor calibre eficaz, porque o falso trajeto do paciente anticoagulado sangra o que o do outro não sangraria.

O que não pedir — e a certidão de nascimento da sonda

Antes de sondar, nenhum exame de urina é necessário — e dois são ativamente contraindicados como rotina. Urocultura "de base" no momento da sondagem não prediz nada e semeia tratamento de colonização. EAS de rotina do sondado, idem. A regra nacional, detalhada no capítulo de febre no paciente internado: urina de sondado só se examina quando há sintoma sem outra explicação, e bacteriúria assintomática não se trata (a exceção estreita — procedimento urológico invasivo programado — é decisão da urologia). Peça exame para responder pergunta, não para acompanhar dispositivo.

O registro, por fim, é parte do procedimento, não burocracia posterior: indicação nominal (qual item da lista curta justifica esta sonda), data e hora, calibre, volume do balonete, volume e aspecto do que drenou, e o executor. Sem indicação escrita, a sonda nasce órfã — e sonda órfã não tem data de retirada. Os protocolos nacionais mandam ainda contar em toda evolução os dias de cateter, porque número que aparece diariamente na frente da equipe é lembrete que funciona.

07

A técnica passo a passo — e as tabelas da decisão

Comece pela pergunta clínica: a bexiga está cheia ou o rim está produzindo pouca urina? História, exame e ultrassom vesical quando indicado ajudam a distinguir retenção de oligúria. Depois confira indicação, contraindicações, técnica e plano de retirada. A sondagem do interno exige supervisão e não deve ser usada apenas por conveniência para medir qualquer diurese.

  1. 1Confirme a indicação contra a tabela 1 e diga-a em voz alta na prescrição; separe o kit completo e um cateter reserva do mesmo calibre (a segunda tentativa não pode esperar alguém buscar material).
  2. 2Explique o procedimento ao paciente, garanta privacidade (biombo, porta) e posicione: decúbito dorsal — homem com pernas estendidas, mulher em posição ginecológica.
  3. 3Higienize as mãos; com luvas de procedimento, faça a higiene íntima com água e sabonete; despreze as luvas e higienize as mãos de novo.
  4. 4Monte o campo estéril fenestrado, disponha o material com técnica asséptica e calce as luvas estéreis; um segundo profissional apoia por fora (é o desenho previsto nos protocolos — sondagem segura é procedimento de duas pessoas).
  5. 5Conecte o cateter ao sistema coletor ainda no campo, antes de inserir: o sistema nasce fechado e assim permanece. Teste do balonete é opcional pelos protocolos atuais — se fizer, desinsufle por completo antes de passar.
  6. 6Preparar campo e técnica estéreis; usar no meato solução estéril ou antisséptico apropriado para mucosa conforme protocolo e fabricante, sem transportar automaticamente uma formulação de pele para a uretra.
  7. 7HOMEM: posicione o pênis perpendicular ao corpo (desfaz a curva peniana), retraia o prepúcio e injete o gel anestésico estéril lentamente na uretra — volume generoso, listado na conduta — e aguarde 2 a 3 minutos fazendo pressão suave na glande para o gel não refluir.
  8. 8MULHER: afaste os pequenos lábios com a mão não dominante (que fica ali até o fim), identifique o meato — na idosa ele pode estar retraído no introito; se necessário, peça flexão e abdução máxima dos joelhos — e lubrifique generosamente a ponta do cateter com o gel estéril.
  9. 9Introduza o cateter com movimento contínuo e suave. HOMEM: avance até quase o garfo (a bifurcação em Y), mesmo que a urina apareça antes. MULHER: avance até drenar urina e então mais cerca de 5 cm.
  10. 10Avançar com delicadeza e sob supervisão. Dor importante, sangramento ou resistência persistente exigem parar; não presumir apenas pelo tato que a resistência é o esfíncter nem forçar a passagem. Suspeita de lesão uretral demanda avaliação apropriada antes da sondagem.
  11. 11Só insuflar após confirmar posicionamento vesical adequado; urina drenando e, no homem, avanço até próximo da bifurcação são verificações importantes. Insuflar devagar com água e volume indicados pelo fabricante. Se houver dor, parar e desinsuflar completamente; reavaliar posição, resistência e sinais de trauma. Não repetir avanço ou insuflação às cegas; diante de dúvida, sangramento ou resistência, interromper e pedir ajuda.
  12. 12Tracione suavemente até sentir o balonete ancorar no colo vesical; no homem, devolva o prepúcio à posição — o passo cuja omissão causa parafimose.
  13. 13Fixe o cateter com folga na face interna da coxa (ou região suprapúbica no homem, alternando o lado nos dias seguintes); posicione a bolsa abaixo do nível da bexiga, no suporte, sem tocar o chão e sem alças pendentes do circuito.
  14. 14Identifique a bolsa (data, hora, calibre, volume do balonete, responsável) e marque o limite de 2/3 da capacidade; despreze perfurocortantes no coletor ao alcance da mão.
  15. 15Registre em prontuário: indicação nominal, data e hora, calibre, volume do balonete, volume e aspecto da urina drenada, intercorrências e executor.
  16. 16Se a sondagem era de alívio: drene por completo, retire o cateter e registre o volume — ele é o dado diagnóstico. Se de demora: a prescrição do dia seguinte já nasce com a pergunta da revisão diária.

Urina antes do balão

A ponta chega à bexiga centímetros antes do balonete. Urina drenando é pré-requisito para insuflar — nunca a autorização final no homem, que exige também o cateter no garfo. Balonete insuflado na uretra é uretrorragia hoje e estenose no ano que vem.

Garfo na glande

No homem, o cateter avança até quase a bifurcação em Y antes de qualquer insuflação. É a única garantia geométrica de que o balonete atravessou a uretra prostática. Custa dois segundos; a lesão que evita custa uma reconstrução.

Prepúcio de volta

Prepúcio retraído para a antissepsia e esquecido atrás da glande vira garrote: edema, dor e parafimose em poucas horas — urgência urológica. Devolver o prepúcio é o último gesto da inserção e o primeiro item da checagem de quem revisa.

Sistema fechado para sempre

Cateter e coletor são um circuito único, conectado no campo estéril e aberto nunca. Coleta de urina é pela porta própria, com desinfecção; desconectou, quebrou técnica ou vazou — troca-se o sistema inteiro, não o pedaço.

SituaçãoSonda de demora?Caminho preferido
Retenção urinária agudaSó se a causa persistir ou recorrerAlívio primeiro; demora se obstrução mantida ou retenções repetidas
Débito horário no paciente grave (choque, vasopressor, reposição guiada)Sim, enquanto durar a gravidadeRetirar no dia em que o débito horário deixar de mudar conduta
Cirurgia com justificativa (urológica, pélvica, grande porte, prolongada)Sim, no perioperatórioRetirada em até 24 h de pós-operatório, salvo exceção urológica escrita
Trauma/imobilização extrema (pelve, tórax instável, politrauma)Sim, com uretra comprovadamente íntegraReavaliar a cada dia conforme mobilização
Incontinente com lesão por pressão profunda ou enxerto sacral/perinealSe coletor, fralda e intermitente falharamColetor externo e cuidado de pele primeiro
Cuidado de fim de vidaSim, se confortoDecisão compartilhada com paciente e família
Incontinência sem lesão de peleNãoColetor externo; fralda com rotina de proteção de pele
Coleta de urina para exameNãoJato médio; alívio pontual se imprescindível
Imobilidade, demência, idade, risco de quedaNãoPlano de eliminação assistida; são os que mais se machucam com sonda
Balanço hídrico em paciente estávelNãoPesagem, papagaio/comadre, coletor externo, medida por turno
"Veio sondado" (emergência, UTI, outro serviço)Não é indicaçãoHerdou a sonda, herdou a pergunta: sem indicação atual, retirar

Calibre e material — escolha antes de abrir o kit

Paciente / situaçãoCalibre (French)Observação
Mulher adulta14–16 FrMenor calibre que drene bem: menos trauma e menos espasmo
Homem adulto16–18 FrCalibre muito fino no homem dobra na uretra longa; muito grosso machuca
Criança6–10 FrConforme idade e porte; balonete pediátrico com volume próprio
Hematúria com coágulos20–24 Fr, três viasIndicação e manejo da urologia; permite irrigação em sistema fechado
Permanência prevista longaSilicone, menor calibre eficazMenos incrustação que o látex; balonete com água destilada no volume do fabricante
Alívio / intermitente12–14 Fr (Nelaton, sem balonete)Entra, esvazia, sai; no domicílio, técnica limpa ensinada

Critérios de retirada — a pergunta diária respondida por indicação

Indicação que sustentava a sondaRetire quando
Retenção agudaCausa revertida (anestesia dissipada, opioide reduzido, constipação tratada): retire e aplique o protocolo de micção pós-retirada
Débito horário no graveSem vasopressor, hemodinâmica estável, débito pode ser medido por turno
PerioperatórioCompletadas 24 h de pós-operatório sem exceção urológica escrita
Trauma / imobilizaçãoPaciente mobilizável para alternativas (papagaio, coletor, fralda)
Lesão de pele em incontinenteCicatrização avançada ou alternativa viável adaptada
Nenhuma indicação identificável hojeHoje — sonda sem indicação nominal na evolução é sonda vencida

Dentro da equipe de enfermagem, a inserção é privativa do enfermeiro (Resolução Cofen 450/2013); ao técnico cabem monitorização, higiene, esvaziamento e registro. O interno executa sob supervisão — e aprende com quem mais faz: o enfermeiro experiente do andar.

Alívio usa cateter sem balonete e termina com a retirada; todo o rigor de assepsia é idêntico ao da demora — a uretra não sabe quanto tempo o cateter vai ficar.

O teste prévio do balonete deixou de ser obrigatório nos protocolos nacionais; se optar por testar, garanta desinsuflação completa e sem pregas antes de inserir.

Antisséptico: os documentos nacionais pedem solução padronizada, de preferência aquosa, do meato para a periferia; o que muda entre serviços é o produto, não o princípio.

Dificuldade não se resolve com força nem com repetição: duas tentativas atraumáticas são o teto antes de escalar para alguém mais experiente ou para a urologia — cada tentativa a mais multiplica falso trajeto, sangramento e estenose futura.

Registre indicação, data, calibre, volume do balonete e executor. Esse registro integra o procedimento e permite revisar diariamente a necessidade de manter a sonda.

08

A conduta, hora a hora

Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.

A linha do tempo abaixo cobre a sonda de demora da decisão à retirada — que é o marco mais importante dela. As listas de material seguem os documentos nacionais (protocolo de ITU-AC da Anvisa, 2025, e POP institucional da rede Ebserh) e valem como prescrição de procedimento; as etapas gestuais finas estão no fluxo do bloco anterior e os pontos sem retorno, nos cards. O pano de fundo de tudo: cada item de assepsia existe para atrasar o biofilme, e cada item de registro existe para encurtar os dias de exposição — as duas únicas alavancas que de fato previnem a infecção.

  1. Antes de abrir o kit — a decisão vira prescrição

    Nomeie a indicação contra a lista curta e escreva-a; escolha alívio, demora ou intermitente pela tabela; defina o calibre pela tabela de material. Verifique alergias (látex e lidocaína à frente), pergunte por sondagens difíceis, estenose e cirurgia urológica prévia, e olhe o meato antes de montar campo — sangue no meato em contexto de trauma encerra o procedimento e aciona a investigação. Combine o apoio de um segundo profissional e só então abra material. Sondagem segura começa com a bandeja completa: interromper no meio para buscar seringa é quebrar assepsia com a uretra ocupada.

    Prescrição
    • Kit estéril de cateterismo (campo fenestrado, cuba, gazes, pinça) — 1
    • Cateter no calibre definido pela tabela — 2 unidades (a segunda é reserva na bandeja; Foley para demora, Nelaton para alívio)
    • Sistema coletor fechado com válvula antirrefluxo e porta de coleta — 1 (somente na demora)
    • Higiene e preparo periuretral com produto apropriado para mucosa ou solução estéril, conforme protocolo validado. Conferir a apresentação; não aplicar clorexidina alcoólica, produto degermante ou concentração cutânea por simples substituição de nome.
    • Lidocaína gel a 2% estéril, embalagem de uso único — 1 bisnaga/seringa (proibido pote multiuso)
    • Seringa de 20 mL para o gel (homem) e seringa de 10 mL com ampola de água destilada de 10 mL para o balonete — insuflar com o volume gravado no cateter pelo fabricante
    • Luvas de procedimento (higiene íntima) + luvas estéreis (inserção); avental, máscara e óculos se risco de respingo
    • Material de higiene íntima (água e sabonete) e biombo
    • Fita/dispositivo de fixação hipoalergênico e etiqueta de identificação da bolsa
  2. Hora zero — a passagem

    Execute o fluxo do bloco anterior com as três âncoras de segurança sempre à vista. Anestesia de verdade: no homem, o protocolo nacional manda no mínimo 10 mL de gel intrauretral — na prática, 10 a 20 mL lentos, com 2 a 3 minutos de espera; é o passo que separa a sondagem tolerável da traumática, e a pressa aqui é o começo do falso trajeto. Progressão até o ponto certo: garfo no homem, urina mais cerca de 5 cm na mulher. E balonete só com urina drenando, devagar, parando ao primeiro sinal de dor. Espasmo do esfíncter se vence com pausa e respiração; resistência dura, sangramento ou dor desproporcional se vencem desistindo — duas tentativas atraumáticas são o teto antes de chamar alguém mais experiente ou a urologia.

    Prescrição
    • Lidocaína gel a 2%: homem — 10 a 20 mL intrauretrais lentos, aguardar 2 a 3 minutos (mínimo de 10 mL pelo protocolo nacional de 2025); mulher — lubrificação generosa da ponta do cateter
    • Balonete: água destilada estéril no volume gravado pelo fabricante — nunca soro fisiológico (cristaliza a válvula) nem ar
    • Se alívio: drenar por completo, retirar e registrar o volume drenado — ele é o dado diagnóstico do episódio
  3. Primeiros 30 minutos — esvaziamento, ancoragem e certidão

    Deixe drenar sem clampear: a metanálise disponível não encontrou diferença de hematúria ou colapso entre esvaziamento rápido e fracionado, e o fracionamento de rotina só prolonga o desconforto — a divergência detalha as posições. O que os primeiros minutos pedem é observação: hematúria leve ex-vácuo é comum e autolimitada; hipotensão sintomática é rara e transitória. Ancore: tração suave até o balonete sentar, prepúcio devolvido, fixação com folga na coxa (ou suprapúbica no homem), bolsa no suporte abaixo da bexiga, circuito sem alças pendentes. Etiquete a bolsa e escreva a certidão de nascimento no prontuário — indicação nominal, data e hora, calibre, volume do balonete, volume e aspecto drenados, executor. Sonda sem essa certidão é a que ninguém vai lembrar de retirar.

    Prescrição
    • Esvaziamento contínuo sem clampeamento, com paciente observado nos primeiros minutos
    • Registrar o volume drenado inicial — retenções de grande volume (acima de 1 litro) sinalizam bexiga cronicamente distendida: risco de diurese pós-obstrutiva, vigiar débito e eletrólitos nas 24 h seguintes
    • Fixação alternando o lado a cada dia; etiqueta com data, hora, calibre, volume do balonete e responsável; marca de 2/3 na bolsa
  4. Primeiras 24 horas — o sistema em regime

    O circuito trabalha sozinho se ninguém o sabotar: fechado, contínuo, declive livre, bolsa abaixo da bexiga sem tocar o chão, esvaziada a cada turno ou aos 2/3 pelo registro inferior, com recipiente individual. Higiene do meato é água e sabonete no banho — sem antisséptico tópico, sem pomada antibiótica, práticas que os documentos nacionais listam entre as que não devem ser usadas. Nada de antimicrobiano profilático pela sonda ou sistêmico: não previne infecção e seleciona resistência. No paciente monitorado, o débito esperado é de pelo menos 0,5 mL/kg/h — e débito que cai com sonda no lugar obriga a perguntar primeiro se o problema é o tubo (dobra, clampe esquecido, bexiga vazia) antes de ser o rim. No pós-operatório, a prescrição do dia zero já carrega a ordem de retirada em até 24 horas, salvo exceção urológica escrita — é a recomendação nacional, e transformá-la em texto de prescrição é o que a faz acontecer.

    Prescrição
    • Manter sistema coletor fechado; abrir somente pela porta de coleta, com desinfecção prévia (álcool a 70%)
    • Higiene do meato com água e sabonete no banho diário e após evacuações — sem antisséptico ou antimicrobiano tópico
    • Vetado: irrigação de rotina, instilação de antisséptico na bolsa, antimicrobiano profilático, troca programada por calendário
    • Pós-operatório: retirar o cateter em até 24 h, salvo justificativa urológica escrita na prescrição
  5. Todo dia, na visita — a revisão que é a conduta

    Este é o marco que reduz infecção mais do que qualquer detalhe de técnica: a pergunta diária, feita em voz alta na visita, "este paciente ainda tem indicação nominal de sonda?". A evolução conta os dias de cateter ("SVD dia 4") e responde à pergunta por escrito; lembretes no prontuário e a conferência do enfermeiro fecham o cerco. O critério objetivo por indicação está na tabela de retirada — e a resposta "não sei por que está sondado" tem uma única tradução: retirar hoje. Lembre a régua da vigilância nacional, detalhada no capítulo de febre: a partir de mais de dois dias de calendário com o cateter, qualquer infecção urinária sintomática conta como ITU associada a cateter — cada dia a menos de sonda é literalmente um dia a menos de exposição contada.

    Prescrição
    • Evolução diária com contagem explícita: "cateter vesical — dia N; indicação atual: ___"
    • Sem indicação sustentável na visita: prescrever a retirada para o mesmo turno, não "amanhã"
  6. A retirada — e as seis horas seguintes

    Retire assim que a indicação terminar. Explique o gesto e desinsufle o balão lentamente, conforme as instruções do dispositivo, verificando a recuperação do líquido e a ausência de resistência. Não tracionar com balão insuflado nem insistir se ele não esvaziar. Não é necessário clampear rotineiramente para treinar a bexiga. Registre a retirada e acompanhe micção, sintomas e, quando indicado, resíduo pós-miccional.

    Prescrição
    • Desinsuflar o balão completamente e conforme fabricante antes da retirada; se houver resistência ou falha de desinsuflação, interromper e solicitar ajuda, sem tração forçada.
    • Protocolo pós-retirada: oferta de micção assistida; sem diurese em 6 h ou dor — ultrassom de bexiga; acima de 500 mL, cateterismo de alívio
    • Retenção recorrente pós-retirada: acionar urologia (cateterismo intermitente e investigação da causa; não reinstalar demora por rotina)
09

Como saber se está funcionando

A sonda de demora é um dispositivo de manutenção diária, e a reavaliação tem dois andares. O primeiro é a pergunta existencial — ainda precisa? — feita todos os dias, na visita, com resposta escrita; ela está detalhada na conduta e na tabela de retirada, e é o parâmetro que mais muda desfecho. O segundo andar é a vigilância do sistema: um circuito fechado funcionando bem é silencioso — urina clara fluindo, bolsa no lugar, paciente sem dor. Todo ruído (débito que cai, vazamento, dor, sangue, febre) tem árvore diagnóstica própria, e quase todas começam pela mesma pergunta: o problema é o tubo, a bexiga ou o rim?

Uma advertência transversal antes dos parâmetros: urina de sondado envelhece mal aos olhos. Fica turva, cheira forte, forma grumos — e nada disso, isolado, é doença. O gatilho de investigação é sintoma (febre sem outro foco, dor suprapúbica ou lombar, calafrio), nunca o aspecto; a régua completa de quando colher e como interpretar é do capítulo de febre no paciente internado. O sondado que "está com a urina feia" precisa de reavaliação da indicação da sonda, não de urocultura.

Os parâmetros abaixo são a ronda estruturada — o que olhar, quando, o que esperar e o que fazer quando a resposta vem errada.

Indicação da sonda — a revisão diáriaToda visita, com resposta escrita na evolução ("cateter dia N; indicação: ___")

Esperado: Indicação nominal da lista curta, viva hoje — não a de três dias atrás

Se não melhora: Não há segunda pergunta: prescreva a retirada para o mesmo turno. "Vamos ver amanhã" é como toda sonda esquecida começa; a tabela de retirada dá o critério objetivo por indicação.

Débito urinário no paciente monitoradoDe hora em hora no grave; por turno nos demais

Esperado: Pelo menos 0,5 mL/kg/h, com tendência estável

Se não melhora: Antes de tratar o rim, inocente o tubo: dobra no circuito, clampe esquecido, alça pendente, bexiga vazia por obstrução acima. Palpe o hipogástrio e, na dúvida, ultrassom — bexiga cheia com sonda "funcionante" é obstrução do cateter até prova em contrário. Só depois disso o débito baixo vira investigação de oligúria (volemia, drogas, sepse).

Permeabilidade e obstrução do cateterTodo turno e sempre que o débito cair abruptamente

Esperado: Fluxo contínuo, urina na extensão, sem esforço de bypass

Se não melhora: Corrigida a mecânica externa e persistindo a obstrução (coágulo, muco, incrustação), a primeira medida é irrigação pontual em técnica asséptica com seringa de 60 mL e solução fisiológica estéril, mantendo o conceito de sistema fechado. Obstrução recorrente: trocar o sistema completo — cateter e coletor —, avaliando calibre maior ou três vias se houver coágulos (com a urologia). Nunca desconectar o coletor para "lavar" nem irrigar como rotina programada.

Aspecto da urina — sangueTodo turno; imediatamente se o paciente notar

Esperado: Urina clara a amarelo-escura; rosada leve e transitória pode ocorrer após esvaziamento de grande volume ou pequeno trauma de inserção

Se não melhora: Hematúria franca ou com coágulos: não observe — coágulo entope sonda e obstrução retroalimenta sangramento. Acione a urologia para cateter de três vias e irrigação contínua; revise anticoagulação e plaquetas; hematúria persistente após trauma de sondagem é lesão de uretra até avaliação especializada.

Meato, fixação e prepúcioDiariamente, no banho

Esperado: Meato sem erosão nem secreção purulenta, fixação com folga e sem tração, prepúcio na posição anatômica, lado da fixação alternado

Se não melhora: Erosão ou secreção: intensificar higiene simples, refixar sem tração e antecipar a discussão de retirada — meato lesado é porta dupla (infecção e estenose). Prepúcio retraído esquecido: reduzir imediatamente; edema que impede a redução é parafimose — urgência urológica, não "observar até amanhã".

Dor vesical e vazamento ao redor da sonda (bypass)A cada queixa; ativamente uma vez por turno no paciente que não comunica

Esperado: Dispositivo esquecível: sem dor, sem urgência, sem urina pela borda

Se não melhora: Bypass com sonda pérvia costuma ser espasmo vesical — o balonete irritando o trigono — e a resposta reflexa errada é subir o calibre, que piora o espasmo. Cheque obstrução primeiro; depois trate os irritantes (constipação, infecção sintomática, balonete hiperinsuflado além do volume do fabricante); persiste — discuta com a urologia calibre menor e, caso a caso, antiespasmódico vesical prescrito por quem seguirá o paciente. Dor uretral contínua fora do espasmo pede inspeção do meato e da fixação.

Temperatura e sinais sistêmicosConforme a rotina do andar; imediatamente se calafrio ou queda do estado geral

Esperado: Afebril; sondado estável não colhe urina de vigilância

Se não melhora: Febre no sondado dispara a busca estruturada de foco do capítulo de febre no paciente internado — lá estão o critério de mais de dois dias de calendário, a regra de não tratar bacteriúria assintomática e o manejo da ITU associada a cateter (que inclui trocar o cateter quando se decide tratar). Deste lado, a contribuição é preventiva: quanto menos dias de sonda, menos vezes esse parâmetro dispara.

Micção após a retiradaVigilância ativa nas 6 horas seguintes à retirada

Esperado: Micção espontânea em até 6 horas, com ardência leve tolerável nas primeiras

Se não melhora: Sem micção em 6 horas ou dor suprapúbica: ultrassom de bexiga; acima de 500 mL, cateterismo de alívio — não reinstalar demora por rotina. Segunda falha: urologia para plano de intermitente e tratamento da causa (próstata, medicações retentivas, constipação). O objetivo é sair do ciclo, não voltar confortavelmente para ele.

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Onde o erro machuca

Insuflar o balonete sem urina drenando — ou, no homem, antes de o cateter chegar ao garfo

O dano: O balonete abre dentro da uretra prostática ou bulbar: laceração de mucosa e corpo esponjoso, uretrorragia, dor intensa, falso trajeto — e, meses depois, estenose de uretra, uma doença crônica cirúrgica criada por um gesto de dez segundos. É o dano iatrogênico clássico da sondagem, e o mais evitável de todos.

Como pegar a tempo: Confirmar posicionamento antes de insuflar; a ponta pode atingir a bexiga antes do balonete. Usar urina visível e avanço adequado como verificações, sem insuflar no escuro quando não houver confirmação. Dor exige parar, desinsuflar totalmente e avaliar posição e possível trauma; não prova sozinha balonete uretral. Reposicionamento suave só quando apropriado e seguro, com ajuda diante de resistência, sangramento ou dúvida, sem tentativas cegas repetidas.

Vencer resistência com força — e transformar dificuldade em série de tentativas

O dano: Falso trajeto submucoso que sangra e desorienta todas as tentativas seguintes, espasmo cada vez mais rígido, uretrorragia, bacteremia por translocação em uretra traumatizada e, no longo prazo, estenose. Cada investida às cegas em uretra já machucada multiplica o estrago — e adia o tratamento correto.

Como pegar a tempo: Resistência elástica na altura do esfíncter é espasmo: pausa, respiração lenta, tração suave do pênis, retomada delicada. Resistência dura, dor franca ou sangue: pare. O teto institucional de duas tentativas atraumáticas existe para proteger o paciente do viés de "agora vai" — a terceira abordagem é de alguém mais experiente, com plano diferente (calibre menor, guia, cistoscopia, cistostomia — decisões da urologia).

Sondar às cegas o trauma com sinais de lesão uretral

O dano: A ponta do cateter encontra a laceração e a completa: lesão parcial que cicatrizaria sobre molde vira secção total, com hematoma pélvico contaminado, e o paciente ganha meses de cistostomia e uma uretroplastia no futuro — além de risco permanente de estenose, incontinência e disfunção erétil. É o erro de maior dano unitário do capítulo.

Como pegar a tempo: No trauma (pelve fraturada, queda a cavaleiro, períneo agredido), inspecione o meato antes de qualquer sonda. Sangue no meato, hematoma perineal ou escrotal, globo pós-trauma, próstata deslocada ao toque: sondagem suspensa, uretrografia retrógrada, urologia. A pressa não se justifica — a bexiga do politrauma se drena por punção ou cistostomia se preciso; a uretra rasgada não se recupera da mesma forma.

Instalar demora sem indicação — incontinência, conveniência, "veio sondado"

O dano: É o erro que sustenta a estatística do capítulo: quase um terço das sondas de pacientes clínicos brasileiros sem indicação adequada, e o paciente idoso — o alvo preferencial — somando ITU, delirium, tração acidental, imobilidade e dias a mais de internação. Dano difuso, silencioso, epidemiologicamente enorme: a IRAS mais comum do país nasce majoritariamente aqui, de sondas que não precisavam existir.

Como pegar a tempo: A lista curta de indicações na frente da prescrição, e as alternativas na frente da rotina: coletor externo, fralda com proteção de pele, papagaio e comadre com assistência, pesagem para balanço, alívio pontual quando preciso. Quem herda paciente sondado pergunta "por quê?" no primeiro contato — e retira quando a resposta não existe. Conveniência do cuidado não entra na conta do risco de quem corre o risco.

Abrir o sistema fechado — desconectar para coletar, transportar ou "lavar"

O dano: A via intraluminal escancarada: a coluna de urina vira escada rolante bacteriana, e o benefício de toda a assepsia da inserção é desfeito num gesto. Desconexões repetidas são o caminho mais curto entre uma sonda bem passada e uma ITU precoce — com o agravante de serem invisíveis: ninguém registra "abri o circuito hoje".

Como pegar a tempo: O circuito conectado no campo estéril não se separa nunca: coleta de urina é pela porta própria, com desinfecção com álcool a 70% e volume pequeno; exames de grande volume saem pelo registro da bolsa, assepticamente. Transporte e deambulação vão com bolsa fechada abaixo da bexiga — clampear a extensão para transportar é proibido pelos protocolos. Desconexão acidental, quebra de técnica ou vazamento têm resposta única: trocar o sistema inteiro, cateter e coletor.

Irrigar de rotina, aplicar antisséptico no meato ou dar antimicrobiano profilático

O dano: Trio sem benefício e com custo: a irrigação programada abre o sistema e macera o urotélio; antisséptico e pomada no meato irritam sem reduzir infecção; o antimicrobiano profilático — sistêmico, instilado ou impregnado no cateter — não previne ITU sintomática e cultiva a flora resistente que vai causar a próxima infecção do andar, mais difícil de tratar.

Como pegar a tempo: As três práticas estão nominalmente na lista do que não fazer dos documentos da Anvisa, com o grau mais forte de recomendação. Higiene do meato é água e sabonete no banho. Irrigação é pontual, para obstrução constituída, em técnica asséptica — ou contínua em três vias por indicação urológica (hematúria com coágulos). Profilaxia antimicrobiana da sondagem tem uma única fresta, discutida na divergência — e ela não pertence ao plantão.

Tratar a urina e não o paciente — urocultura de vigilância e bacteriúria assintomática tratada

O dano: O sondado crônico tem bacteriúria como condição de existência; colher urina sem sintoma fabrica "infecções" que não existem, e tratá-las troca colonização sensível por colonização resistente, expõe a efeitos adversos e mascara o foco verdadeiro da febre quando ela vier. É o erro que transforma um número de laboratório em cascata de dano.

Como pegar a tempo: Urina de sondado só se examina com sintoma sem outra explicação — febre, dor suprapúbica ou lombar, calafrio — e a decisão de tratar segue o capítulo de febre no paciente internado (que inclui trocar o cateter ao tratar). Urina turva ou com odor não é sintoma. A resposta certa para "urocultura positiva de rotina" começa por perguntar por que a cultura foi colhida — e termina revisando a indicação da sonda, não prescrevendo antibiótico.

Terminar a inserção sem terminar — prepúcio retraído e fixação em tração

O dano: O prepúcio esquecido atrás da glande estrangula em horas: edema, dor, parafimose — urgência urológica com risco de isquemia da glande. A fixação tensionada, por sua vez, faz o balonete serrar o colo vesical e o cateter cortar o meato: erosão, sangramento, dor crônica e estenose de meato — dano lento que ninguém atribui ao dia da inserção.

Como pegar a tempo: Dois gestos finais inegociáveis do fluxo: prepúcio devolvido à posição anatômica (e conferido na ronda — é o primeiro item da checagem de quem assume o plantão), e fixação com folga franca, testada com o movimento da perna, alternando o lado diariamente. No agitado que traciona, a resposta é reavaliar a necessidade da sonda e proteger o trajeto — nunca fixar mais apertado.

11

O que dizer ao paciente e à família

Poucos procedimentos de enfermaria invadem tanto a intimidade quanto a sondagem vesical — e quase nenhum é explicado tão mal. O paciente típico recebe a notícia já com o kit aberto, entende que "vão colocar uma sonda" como castigo ou como sinal de gravidade, e enfrenta dor que ninguém anunciou e vergonha que ninguém amorteceu. As falas abaixo são as que mudam a experiência: a explicação que relaxa o esfíncter que a ansiedade contrai, o enquadramento que preserva dignidade, e as duas conversas difíceis do tema — dizer não à sonda de conveniência e explicar por que ela vai sair.

Antes de sondar um homem tenso, com dor de retenção e medo do procedimento

Seu Waldir, sua bexiga está muito cheia e não está conseguindo esvaziar — é isso que está doendo tanto. Vou passar uma sonda fininha pelo canal da urina para esvaziar, e o alívio é imediato, em um ou dois minutos. Vou usar um gel anestésico antes e esperar ele fazer efeito. O senhor vai sentir uma ardência e uma pressão desconfortável num trecho do caminho, por alguns segundos — nessa hora, respire fundo e solte o ar devagar, que o canal relaxa e passa mais fácil. Eu aviso cada coisa antes de fazer. Se doer forte, me diga que eu paro.

Não diga: Prometer que não dói nada — dói um pouco, e a promessa quebrada custa a confiança do resto. Sondar em silêncio, "para não assustar": o susto é justamente o que contrai o esfíncter e machuca. E não diga "relaxa" como ordem — ensine como: soltar o ar devagar relaxa; a palavra sozinha, não.

Mulher idosa, lúcida e visivelmente constrangida com a exposição

Dona Cecília, eu sei que é um exame íntimo e desconfortável de passar. Vamos fazer do jeito mais reservado possível: biombo fechado, só eu e a enfermeira, e a senhora coberta o tempo todo — só descubro o mínimo, na hora exata. Se quiser alguém da família do lado de fora ou segurando sua mão, pode. A senhora me avisa se quiser que eu pare em qualquer momento. Vai ser rápido, e eu vou falando o que estou fazendo para a senhora não ser pega de surpresa.

Não diga: Conversas paralelas da equipe durante o procedimento — para quem está exposto, é a diferença entre cuidado e plateia. Descobrir a paciente inteira antes da hora. E não infantilizar ("vou dar um jeitinho na xixizinha") — idosa lúcida se informa como qualquer adulto.

Paciente lúcido que recusa a sondagem indicada (retenção dolorosa)

O senhor tem todo o direito de recusar, e eu não vou fazer nada contra a sua vontade. Deixa eu só garantir que o senhor está decidindo com a informação completa: a bexiga está muito cheia e não vai esvaziar sozinha — sem a sonda, a dor vai aumentar, e a bexiga muito distendida pode machucar o rim. A sonda entra, esvazia, e dependendo do caso já sai em seguida; não é definitiva. O que exatamente mais te preocupa nela? Se for a dor, eu explico o que fazemos para doer o mínimo; se for outra coisa, me conta que a gente resolve junto.

Não diga: Transformar a recusa em queda de braço ou em ameaça ("então o rim vai parar"). Aceitar o primeiro "não" sem explorar o motivo — na maioria das vezes é medo endereçável de dor, de exposição ou uma experiência prévia ruim. E não sondar "rapidinho" sem consentimento no paciente lúcido: além de indefensável, é a receita do trauma físico e da quebra definitiva de confiança.

Família pedindo sonda por conveniência ("ele molha a cama toda hora, coitado — não dá para colocar a sondinha?")

Entendo o cansaço de vocês, e a intenção é boa — mas nesse caso a sonda ajudaria a rotina e prejudicaria ele. Pelo canal da urina, ela é a porta de entrada da infecção hospitalar mais comum que existe, e no paciente idoso ainda aumenta confusão mental e o risco de machucar o canal se ele puxar. Como ele urina, mas não segura, existem opções mais seguras: o coletor externo, que veste por fora como um preservativo e leva a urina para a bolsa sem nada por dentro, e a rotina de troca com proteção da pele. Vamos ajustar isso com a enfermagem hoje — e se a pele começar a sofrer mesmo assim, aí reavaliamos juntos.

Não diga: Ceder "só por uns dias" — não existe sonda provisória sem data de retirada escrita. Desqualificar o pedido ("isso é preguiça de trocar fralda") — a família está exausta, não mal-intencionada. E não esconder que a recusa é por segurança dele: sem a explicação do risco, vira capricho da equipe.

Na retirada — o que esperar das próximas horas

Vou tirar a sonda agora — é rápido e bem mais fácil que colocar: desencho o balãozinho e ela desliza para fora enquanto o senhor solta o ar. Nas primeiras vezes que urinar, pode arder um pouco e vir uma urgência repentina — isso é o canal se recuperando, melhora em um ou dois dias. O combinado importante é: o senhor precisa urinar nas próximas seis horas. Pode beber água normalmente, e quando vier a vontade, me chame ou vá ao banheiro com calma. Se não urinar até o fim da tarde, ou se vier dor forte no pé da barriga, avise na hora — a gente tem um plano para isso, e quanto antes agir, mais simples é.

Não diga: Retirar e sumir: a vigilância das 6 horas é parte do procedimento, e o paciente precisa saber que participa dela. Não assuste com a lista completa de complicações — dê os dois sinais que importam (não urinar, dor). E não minimize a ardência a ponto de o paciente achar que ela é infecção e pedir antibiótico.

Paciente confuso puxando a sonda; família pergunta se "não é melhor amarrar a mão"

Amarrar é a última coisa que a gente quer — contenção piora a confusão e machuca. O que o comportamento dele está me dizendo é outra coisa: a sonda está incomodando, e a primeira pergunta certa é se ele ainda precisa dela. Vou revisar isso agora com a equipe — se não precisar, tiramos hoje e o problema acaba pela raiz. Se precisar mesmo, vamos esconder o trajeto da vista dele, fixar de um jeito que não repuxe, tratar o que está piorando a confusão e pedir a ajuda de vocês para distrair e acompanhar mais de perto nos horários difíceis.

Não diga: Prometer contenção como solução ou aceitá-la como primeira resposta — tração de sonda por agitação é sinal de dispositivo desnecessário ou desconfortável até prova em contrário. E não responsabilizar a família pela vigilância ("vocês precisam segurar ele") — ela ajuda, não substitui o cuidado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Retenção de grande volume: esvaziar tudo de uma vez ou fracionar (clampear a intervalos)?

Esvaziamento completo imediato — a leitura da evidência agregada

A metanálise disponível (4 estudos, 435 pacientes, todos homens) não encontrou diferença de hematúria entre esvaziamento rápido e gradual (risco relativo 0,91, intervalo de confiança de 0,62 a 1,35) e não registrou nenhum colapso circulatório em nenhum dos grupos. A hematúria ex-vácuo existe, mas é infrequente, em geral microscópica e autolimitada; a hipotensão pós-descompressão é transitória. Sob essa leitura, fracionar prolonga a dor e o tempo de procedimento para prevenir uma complicação que raramente precisa de prevenção.

Wu MY et al. Systematic review and meta-analysis, Medicina (Kaunas), 2022

Descompressão gradual — a tradição registrada em protocolos

A recomendação de esvaziar em etapas (clampear a cada 300 a 750 mL, com pausas) atravessou gerações de manuais e permanece escrita em parte dos POPs institucionais brasileiros e do ensino à beira do leito, apoiada no raciocínio fisiológico da descompressão lenta de uma parede cronicamente distendida e no receio de hematúria ex-vácuo e hipotensão em pacientes frágeis — cenários (idosos com retenção crônica volumosa, cardiopatas) que os poucos estudos comparativos representam mal.

Prática documentada na literatura clássica que a descreve (Nyman et al., Mayo Clinic Proceedings, 1997) e em procedimentos operacionais institucionais vigentes

Como decidir

Na retenção aguda típica, o percurso descrito permite drenagem contínua sem clampe. Acompanhe queixa, pressão e aspecto da urina nos primeiros minutos. Grandes volumes, especialmente acima de 1 litro, também exigem atenção à diurese pós-obstrutiva nas horas seguintes. Clampear não substitui essa vigilância.

Antimicrobiano profilático em torno da sondagem: nunca, ou há janelas seletivas?

Sem profilaxia — a regra dos documentos nacionais

Os dois documentos da Anvisa vetam antimicrobiano profilático de rotina em torno do cateter — sistêmico, tópico no meato, instilado na bolsa ou impregnado no dispositivo — com o grau mais forte de recomendação, pelo binômio ausência de benefício clínico demonstrado e seleção de resistência. A mesma régua sustenta não tratar bacteriúria assintomática. A exceção que os próprios documentos preservam é estreita e alheia ao plantão: preparo de procedimento urológico invasivo, decidido pela urologia.

Anvisa — Caderno 4 (2017), recomendações A-I e A-II; Protocolo de Prevenção de ITU-AC (2025)

Benefício possível em nichos — a leitura de metanálises internacionais

Metanálises de ensaios randomizados encontraram redução de ITU sintomática com profilaxia antibiótica em janelas específicas — em particular na retirada do cateter em pacientes cirúrgicos de curta permanência (metanálise no BMJ, 2013) e em subgrupos cirúrgicos com cateter por até duas semanas (revisão Cochrane, 2013). Quem sustenta essa posição argumenta que, em populações selecionadas de alto risco, o número necessário para tratar é competitivo — e que a recusa generalizada joga fora um benefício demonstrável.

Marschall J et al., meta-analysis, BMJ, 2013; Lusardi G et al., Cochrane Database of Systematic Reviews, 2013

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a decisão não é individual: profilaxia peri-sondagem é política de instituição, escrita pela CCIH, porque o custo (resistência) é coletivo e o benefício, quando existe, está restrito a nichos cirúrgicos definidos por protocolo. Na ausência de protocolo local que a preveja, a régua nacional vale integralmente — nenhum antimicrobiano pela sonda, pelo meato ou "para proteger a troca". O interno que identifica um cenário possivelmente elegível (retirada pós-operatória em serviço com alta taxa de ITU) leva a pergunta à rotina da equipe e à CCIH — não à prescrição do plantão.

Retenção crônica e bexiga neurogênica: cateterismo intermitente ou cateter de demora?

Intermitente como padrão — a posição dos documentos de prevenção

O Caderno 4 manda dar preferência, sempre que possível, ao cateterismo intermitente, à drenagem suprapúbica ou ao coletor externo antes da demora, e o protocolo de 2025 repete a hierarquia. A razão é o mecanismo do capítulo: sem corpo estranho residente não há biofilme estável, e o risco infeccioso do intermitente é uma fração do risco da demora. Na bexiga neurogênica, o intermitente limpo é também o caminho da reabilitação — preserva a continência, a imagem corporal e a independência.

Anvisa — Caderno 4 (2017) e Protocolo de Prevenção de ITU-AC (2025)

Demora (ou cistostomia) quando o intermitente não se sustenta na vida real

O próprio documento nacional condiciona as alternativas à sua viabilidade — a indicação de demora existe "na impossibilidade ou ineficácia" delas — e lista o conforto de fim de vida como indicação plena. Quatro a seis passagens diárias exigem destreza ou cuidador treinado e disponível, uretra que tolere passagens repetidas e logística de insumos; onde isso falha de forma persistente, a demora bem cuidada (ou a cistostomia, pela urologia) produz menos dano real que um intermitente teórico executado mal e abandonado.

Anvisa — Protocolo de Prevenção de ITU-AC (2025), critérios de indicação de CVD; prática consolidada de cuidados paliativos

Como decidir

A decisão é ambulatorial e compartilhada — do paciente, da família e da urologia —, e o papel do plantão é não a atropelar: retenção crônica descoberta na internação sai do hospital com plano, não com demora por inércia. Os eixos que decidem: capacidade real de execução (destreza, cognição, cuidador, insumos), frequência exigida versus rotina de vida, tolerância uretral, objetivo do cuidado (reabilitar e proteger o trato superior, ou confortar no fim da vida — no segundo, a demora ganha legitimidade plena) e a preferência informada de quem vai viver com o dispositivo.

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O raciocínio, em voz alta

23h40, enfermaria cirúrgica. Seu Waldir, 62 anos, hérnia inguinal operada pela manhã sob raquianestesia, tramadol às 20h. Sem micção desde as 15h, desconfortável, com peso hipogástrico e vontade de urinar sem conseguir. A enfermagem pergunta se pode passar a sonda.

  1. O que penso antes de tocar no paciente

    "Não urina há 8 horas" tem dois diagnósticos que não se parecem: bexiga cheia que não esvazia (retenção — sonda trata) ou bexiga vazia que não produz (oligúria — sonda só mede). O contexto puxa forte para retenção: raquianestesia mais opioide é a receita clássica. Mas contexto não fecha diagnóstico — o exame fecha, e custa dois minutos.

  2. O que procuro no exame

    Hipogástrio globoso, percussão suprapúbica maciça e dolorida, palpação que dispara urgência: globo vesical. Está feita a bifurcação — é retenção. Se o abdome inferior estivesse plano e timpânico num paciente seco e hipotenso, o capítulo seria outro (volemia, rim), e a sonda seria no máximo instrumento de medida, com outra conversa.

  3. A decisão que a maioria pula

    Sonda sim — mas qual? A necessidade é esvaziar agora; a causa (anestésico e opioide) se dissipa em horas. Logo: cateterismo de alívio, não demora. Instalar Foley aqui é assinar um dispositivo de dias para um problema de horas — e é assim que nascem as sondas que a epidemiologia do capítulo conta. Prescrevo alívio, explico ao paciente, separo material com cateter reserva.

  4. A execução com as âncoras

    Higiene íntima, campo, antissepsia do meato para fora. Pênis a 90 graus, gel anestésico intrauretral generoso, três minutos de espera conversando com ele. Progressão suave; na altura do esfíncter, resistência elástica — pausa, respiração lenta, retomada. Urina franca no cateter. Drenagem contínua, sem clampe, observando: 850 mL de urina clara, dor derretendo em minutos. Retiro o cateter, prepúcio conferido, registro: volume, aspecto, horário, técnica.

  5. O que 850 mL me dizem

    Volume compatível com retenção aguda estabelecida — e abaixo da faixa que preocupa para diurese pós-obstrutiva. Conduta pós-alívio: criar condições de micção (analgesia adequada sem escalar opioide, privacidade, posição de pé assim que seguro, função intestinal), e vigiar ativamente a próxima diurese. Anoto no plano: se novo episódio, reavaliar pessoalmente.

  6. Cinco horas depois — a segunda retenção

    4h50, novo desconforto; ultrassom à beira do leito: 600 mL e crescendo, sem conseguir urinar. Segunda retenção com fator causal ainda ativo (dor pós-operatória, opioide mantido, madrugada). Aqui a demora se torna defensável: retenções repetidas com causa persistente são exatamente a exceção que a régua prevê. Instalo Foley — mesma técnica, urina antes do balão, garfo antes da insuflação — e a sonda já nasce com certidão: indicação escrita ("retenção urinária recorrente pós-raquianestesia"), e plano de retirada em 24 a 48 horas conforme desmame de opioide.

  7. A prescrição da manhã seguinte

    "SVD dia 1 — indicação: retenção recorrente; plano: retirada amanhã cedo com protocolo de micção de 6 horas." Na visita, reduzo tramadol, prescrevo laxativo, combino com a enfermagem a vigilância pós-retirada. A sonda de seu Waldir vai durar 30 horas e não 5 dias — e essa diferença, multiplicada pelos leitos do país, é a diferença entre a estatística que temos e a que a meta nacional persegue.

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Faça você

Enfermaria de clínica médica, 9h. Dona Marta, 81 anos, sequela de AVC, internada há 6 dias por pneumonia — em desmame de oxigênio, sem vasopressor, afebril há 72 horas. Tem sonda vesical de demora instalada na emergência, no dia da entrada, "para controle de diurese". A urina no coletor está turva, e a técnica de enfermagem sugere colher urocultura. A evolução de ontem não menciona a sonda.

  1. achado

    Sonda de demora no 6º dia sem indicação nominal em nenhuma evolução; paciente estável, sem necessidade de débito horário; urina turva sem febre, sem dor suprapúbica ou lombar, sem alteração do estado basal.

  2. interpretação

    Duas conclusões independentes: (1) a sonda perdeu (ou nunca teve) indicação — "controle de diurese" em paciente estável não sustenta demora; (2) urina turva isolada em sondada de 6 dias é o esperado da bacteriúria progressiva, não sinal de infecção — colher urocultura sem sintoma fabricaria um falso diagnóstico e um antibiótico desnecessário.

  3. conduta

    — sua vez —

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Volte ao horário da última micção de Waldir. Separe o alívio imediato da retenção do plano que impede a sonda de permanecer por inércia.

  5. Questão integrativa 1

    Por que a ausência de urina de Waldir não prova lesão renal?

  6. Questão integrativa 2

    E se a bexiga estiver vazia apesar de várias horas sem diurese?

  7. Questão integrativa 3

    Sangue no meato após trauma permite tentativa cuidadosa para testar a uretra?

  8. Questão integrativa 4

    O nome clorexidina basta para escolher o produto do meato?

  9. Questão integrativa 5

    Dor e resistência durante a progressão autorizam força adicional?

  10. Questão integrativa 6

    Qual é o plano depois de aliviar a retenção?

Ver como fecharíamos

Não colher urocultura — sem sintoma, exame de urina não está indicado (a régua completa é do capítulo de febre no paciente internado). Prescrever a retirada da sonda hoje, no mesmo turno, com protocolo pós-retirada: oferta assistida de micção, vigilância de 6 horas e ultrassom de bexiga se não urinar (acima de 500 mL, cateterismo de alívio). Organizar o plano de continência com a enfermagem (assistência programada ao banheiro ou comadre; fralda com rotina de proteção de pele se necessário — nunca nova demora por conveniência). Registrar em evolução a retirada e o motivo, e orientar a equipe a comunicar febre, dor suprapúbica ou queda do estado geral — que aí sim disparariam a busca estruturada de foco. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Ele pode estar retendo urina após raquianestesia e analgesia. Avalie distensão e volume vesical; retenção e lesão renal também podem coexistir. 2. Investigue baixa produção, perfusão, perdas, medicamentos e função renal com a equipe; uma sonda não corrige a causa. 3. Não. Suspeita de lesão uretral exige avaliação específica antes de instrumentação às cegas. 4. Não. Formulação e indicação para mucosa importam; não substituir por solução alcoólica ou degermante de pele. 5. Não. Interrompa, reavalie técnica e peça ajuda; insistência pode criar falso trajeto. 6. Rever causa e necessidade de permanência, manter drenagem fechada sem obstrução e definir retirada e acompanhamento da micção.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sangue no meato é o sinal mais importante de lesão de uretra — e, somado à fratura de pelve, ao hematoma perineal e à retenção pós-trauma, monta o quadro clássico em que a sondagem às cegas está proibida: o cateter pode encontrar a laceração e convertê-la de parcial em completa, trocando uma cicatrização sobre molde por meses de cistostomia e uretroplastia futura. A sequência correta é imagem antes de cateter — uretrografia retrógrada — com a urologia decidindo entre sondagem guiada, realinhamento ou cistostomia. Calibre menor, mais gel ou mais experiência não mudam a física do problema: a ponta continua indo às cegas ao encontro da lesão. A punção suprapúbica é recurso da urologia em cenários selecionados, não substituto imediato da investigação. E aguardar com globo doloroso só soma sofrimento e distensão a uma bexiga que precisará ser drenada pela via segura definida pela imagem.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo: (1) recite as seis indicações legítimas de sonda de demora — e as cinco não indicações mais comuns do hospital; (2) descreva os quatro pontos sem retorno da técnica (urina antes do balão, garfo na glande, prepúcio de volta, sistema fechado para sempre) e o que cada um previne; (3) no seu próximo plantão, para cada paciente sondado do andar, responda: qual a indicação nominal viva hoje, e quantos dias de cateter ele tem? Se alguma resposta for "não sei", você acabou de encontrar a sonda que este capítulo mandou retirar.

Em 30 dias

Teste de retenção de longo prazo: (1) monte de memória a árvore do "paciente que não urina" — retenção versus oligúria, o exame e os cortes de ultrassom que decidem, e o papel do cateterismo de alívio como diagnóstico e tratamento; (2) explique a um colega por que o risco de infecção é função dos dias de cateter (biofilme, 3 a 8% ao dia, via extra e intraluminal) e por que isso faz da revisão diária a principal medida de prevenção; (3) liste os sinais que proíbem a sondagem às cegas no trauma e diga qual exame vem antes do cateter; (4) descreva o protocolo pós-retirada completo, incluindo os dois gatilhos de ação nas 6 horas.

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Agora atenda

Você é o interno da enfermaria cirúrgica no plantão noturno. Homem de 66 anos, pós-operatório de herniorrafia inguinal sob raquianestesia, recebeu opioide às 20h e não urina há 7 horas. Está inquieto, com dor hipogástrica crescente. A enfermagem pergunta se pode passar a sonda de demora. Examine, decida se — e o que — sondar, execute com segurança e defina o plano das próximas horas.

Sondagem vesical — Internato | OsceLabs