Cirurgia Geral › Procedimentos e Vias de Acesso
O acesso que não se instala não infecta
Acesso venoso central: indicação, sítios e o que dá errado
Rever a indicação, escolher sítio com a equipe, garantir barreira e ultrassom e confirmar segurança antes de liberar e acompanhar o acesso.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, n. 4. 2ª edição. Brasília: Anvisa, 2017. Capítulo 3 — Medidas de Prevenção de Infecção da Corrente Sanguínea.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/ANVISA nº 03/2026 — Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória, ano 2026. Brasília, 2 de janeiro de 2026, versão de 14 de julho de 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.095, de 24 de setembro de 2013. Aprova os Protocolos Básicos de Segurança do Paciente — Anexo: Protocolo para Cirurgia Segura.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde. Diário Oficial da União nº 143, de 26 de julho de 2013, seção 1.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 09/2025 — Orientações gerais para a notificação de incidentes relacionados à assistência à saúde. Brasília, 29 de julho de 2025.
Bittencourt PL, Zollinger CC, Coelho HSM (editores). Manual de cuidados intensivos em hepatologia. Barueri, SP: Manole, 2014. Capítulo 48 — Acesso venoso central, por Joaquim Agatângelo de Sousa. ISBN 978-85-7868-125-8.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Cloridrato de lidocaína sem vasoconstritor, solução injetável 20 mg/mL. Bula do medicamento genérico, Hypofarma — Instituto de Hypodermia e Farmácia Ltda.
Porto Alegre. Secretaria Municipal de Saúde. Boletim de Monitoramento das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Porto Alegre, 2024.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/DIRE3/ANVISA nº 03/2025 — Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde, ano 2025.
CDC. Intravascular catheter-related infection: summary of recommendations. [Acessar fonte](https://www.cdc.gov/infection-control/hcp/intravascular-catheter-related-infections/summary-recommendations.html)
Responda antes de ler
Ao desconectar o equipo de um cateter em jugular interna para trocar a bomba, a paciente sentada na cama torna-se subitamente dispneica, agitada, hipotensa e dessatura. Qual é a sequência imediata?
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, seis e meia da tarde. A ala é a de clínica médica de um hospital geral do interior, vinte e dois leitos e um plantonista para todos eles. Você é o interno da escala da tarde e está terminando as evoluções quando a residente do segundo ano, a Dra. Setembrina Alecrim, encosta no balcão do posto com o celular na mão e diz que precisa de dois acessos centrais antes das nove. Dois. Ela nomeia os leitos e volta para o corredor, e você fica com a frase inteira na mão sem saber ainda que ela contém o capítulo todo.
O leito 4 é o senhor Redento Salgueirinho, 58 anos, 78 quilos, pedreiro aposentado por invalidez, doença renal crônica em acompanhamento ambulatorial e ainda sem diálise. Internou anteontem por náusea, fraqueza e queda do débito urinário. O potássio das dezesseis horas voltou 7,1, o eletrocardiograma de agora há pouco mostra onda T apiculada e alargamento do complexo, e o nefrologista de sobreaviso já respondeu ao telefone: hemodiálise hoje, e precisa de cateter. Aqui não há dúvida sobre a necessidade. A dúvida é outra, e é técnica: onde puncionar, e por quê não em qualquer lugar.
O leito 11 é o senhor Cassio Riachinho, 46 anos, motorista, internado há cinco dias por celulite extensa de perna direita, em antibiótico endovenoso, afebril desde ontem, comendo, andando até o banheiro. O pedido de central veio da passagem de plantão da manhã, com a justificativa que você já ouviu dezenas de vezes e nunca viu questionada: as veias dele são ruins, o acesso não dura, a enfermagem punciona três vezes por dia. É verdade. Tudo o que está escrito ali é verdade. E ainda assim a conclusão não decorre das premissas.
A técnica de enfermagem, Avelina Juparana, empurra o carro até o corredor e pergunta se pode separar dois kits. É a segunda pergunta administrativa da tarde que na verdade é uma pergunta clínica, e a resposta honesta é: separe um. O outro pedido precisa ser reaberto antes de virar um cateter, porque não existe complicação de acesso central que não se possa evitar por completo simplesmente não instalando o acesso. É a única prevenção com eficácia de cem por cento que este capítulo tem para oferecer, e ela é gratuita.
Vale dizer isso com todas as letras antes de qualquer coisa. Colocar um cateter venoso central não é procedimento para se aprender sozinho num plantão. Ele atravessa a pele com um bisturi, dilata o subcutâneo, entra num vaso que corre a centímetros da pleura e da artéria carótida ou subclávia, e deixa dentro do paciente um objeto que vai ficar dias. Quem passa é o médico credenciado para isso pelo serviço, sob supervisão até que o serviço o libere — e é o caderno da Anvisa de 2017 que escreve exatamente isso, ao exigir que o profissional que insere o cateter tenha passado por processo de credenciamento estabelecido pela própria instituição antes de atuar sem supervisão.
O que o interno faz é enorme e não é isso. É reabrir a indicação antes de o kit ser aberto. É colher e registrar o consentimento. É posicionar o paciente e monitorizá-lo. É montar a mesa e conferir o material peça por peça, antes e depois. É observar a técnica asséptica com a autoridade formal, escrita no mesmo caderno da Anvisa, de interromper o procedimento se ela for quebrada. É ler a radiografia depois e saber o que ela responde e o que não responde. E é reconhecer, na hora, a complicação que não pode esperar pelo residente descer do centro cirúrgico.
O percurso começa pela necessidade do acesso e pela escolha do sítio. Depois vêm preparo, execução supervisionada, reconhecimento de intercorrências, confirmação para uso e revisão diária da indicação.
Os capítulos de Antissepsia e Acesso venoso periférico completam o preparo e a comparação entre dispositivos. A leitura da radiografia e a interpretação do coagulograma estão em Interpretação de Exames à Beira do Leito; infecção associada ao cateter, em Febre no paciente internado e no pós-operatório. Aqui essas informações se conectam à segurança da inserção e ao acompanhamento do acesso.
Quem adoece disso
A infecção primária de corrente sanguínea é, segundo o próprio caderno da Anvisa, a infecção associada a cuidados em saúde com o maior potencial de prevenção que existe. O número que ele cita, de revisão sistemática, é que 65 a 70% dos casos poderiam ser evitados com adesão às boas práticas de inserção e à otimização das práticas de manutenção. Guarde a estrutura desse número: ele diz que a maior parte do problema não está na biologia do paciente nem na virulência do germe, mas em atos que alguém faz ou deixa de fazer, na inserção e depois dela.
O segundo número do mesmo caderno é o que dá o tamanho do problema brasileiro, e ele é desconfortável. As taxas nacionais de infecção primária de corrente sanguínea são descritas como cerca de cinco vezes maiores do que as observadas nos Estados Unidos, com predominância de bacilos Gram-negativos e mortalidade geral elevada. O documento é explícito ao tirar a conclusão que interessa ao plantão: com esse cenário, é improvável que a adesão apenas ao pacote de inserção baste. Ou seja, o país não vai resolver o problema fazendo bem a meia hora da punção e mal os dez dias seguintes.
O terceiro número é de resistência e explica por que a infecção de cateter não é uma infecção qualquer. O caderno registra que, no caso de Acinetobacter, a resistência aos carbapenêmicos já é encontrada em quase 80% dos pacientes brasileiros com infecção de corrente sanguínea por esse agente. Um cateter que infecta neste país tem chance real de infectar com uma bactéria para a qual sobraram poucos antimicrobianos, e isso muda o cálculo de risco de cada indicação frouxa.
As estimativas preliminares de custo citadas variam de US$ 7.906 a US$ 89.866 por episódio, uma amplitude de cerca de 11,4 vezes. Elas mostram impacto econômico importante, mas não servem como orçamento de um serviço sem considerar população, época e método.
Do lado brasileiro contemporâneo, o dado municipal que este capítulo abriu é o boletim de monitoramento das infecções relacionadas à assistência à saúde de Porto Alegre referente a 2024. Ele informa, em texto, que as taxas do município em terapia intensiva adulta e pediátrica ficaram abaixo das referências brasileiras, que nas unidades neonatais os valores foram semelhantes ou menores que as médias nacionais, e que foram notificados 552 microrganismos como agentes destas infecções no município naquele ano. É preciso ser exato sobre duas limitações: o boletim é municipal e não nacional, e as tabelas de densidade de incidência não foram extraídas do arquivo — por isso nenhuma taxa numérica dele é afirmada aqui.
Há um número que o capítulo procurou e não encontrou, e a ausência é informação. Não existe, entre os documentos brasileiros que este capítulo abriu, uma estatística nacional de complicação mecânica da punção central — quantos pneumotórax por mil punções, quantas punções arteriais, quantos fios-guia retidos por ano no país. A vigilância nacional obrigatória, descrita na nota técnica da Anvisa para 2026, monitora a infecção associada ao dispositivo, e monitora bem; a complicação mecânica da inserção não tem indicador nacional equivalente. O que existe de contagem no país entra por outra porta, a da notificação de evento adverso, que é voluntária quanto à identificação do caso e não gera denominador.
Por isso os percentuais de complicação mecânica que circulam no Brasil vêm de livro, e o livro que este capítulo abriu é o manual brasileiro de cuidados intensivos em hepatologia, de 2014, editado sob chancela da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Ele lista mau posicionamento em 4%, punção arterial em 5%, hematoma local em 1%, pneumotórax em 1% e hemotórax em 1%. São ordens de grandeza úteis e é assim que este capítulo as usa; a auditoria dessa lista, que tem dois problemas reais, está nas notas do bloco de critério.
Vale traduzir 5% de punção arterial para o plantão, porque o percentual esconde a frequência. Num serviço que passa dois cateteres centrais por dia, cinco por cento significa uma punção arterial a cada dez dias — três por mês, trinta e seis por ano. Não é um evento raro que você talvez veja na residência inteira: é um evento que a sua equipe vai encontrar, e a diferença entre um susto e uma catástrofe está inteiramente no que se faz nos trinta segundos seguintes. É por isso que o bloco de conduta deste capítulo dedica um marco só a isso.
Uma última observação epidemiológica, e ela é de tempo e não de taxa. O caderno da Anvisa descreve que, nas duas primeiras semanas, a colonização extraluminal predomina na gênese da infecção relacionada ao cateter: as bactérias da pele caminham pela face externa do dispositivo e formam biofilme. Depois desse período, e principalmente nos cateteres de longa permanência, passa a prevalecer a via intraluminal, porque o número de manipulações do conector aumenta com o tempo. A consequência prática é direta: a infecção do cateter de curta permanência que o interno acompanha é, quase sempre, uma infecção que entrou pela pele no dia da punção ou pelo curativo nos dias seguintes.
Por que acontece o que acontece
O mecanismo deste capítulo tem duas metades que quase nunca são contadas juntas, e a separação é a fonte de metade dos erros. A primeira metade é anatômica e explica o que dá errado durante a punção: o que existe em volta da veia que você não quer perfurar. A segunda é microbiológica e explica o que dá errado depois: por que um tubo de plástico que atravessa a pele vira porta de entrada. Um cateter bem indicado, bem posicionado e mal mantido mata pela segunda metade; um cateter mal puncionado mata pela primeira, e às vezes em minutos.
Comece pela primeira. As três veias de acesso central de curta permanência correm, cada uma, coladas a uma estrutura que não perdoa. A jugular interna corre dentro da bainha carotídea, lateralmente à artéria carótida, e é relativamente superficial — o manual brasileiro descreve exatamente essa relação, com a artéria justamedial e mais profunda que a veia. A subclávia corre sob a clavícula, num plano em que a cúpula pleural está logo abaixo e atrás. A femoral corre cerca de um centímetro medial à artéria femoral, abaixo do ligamento inguinal. Cada sítio herda o vizinho: quem punciona jugular arrisca carótida, quem punciona subclávia arrisca pleura, quem punciona femoral arrisca artéria femoral e, se subir demais, o compartimento abdominal.
A física da agulha explica por que o risco não é simétrico entre os sítios. A pleura é uma superfície, e a agulha que a atravessa cria uma comunicação entre o ar do pulmão e o espaço pleural; o dano cresce sozinho depois, com cada inspiração. A artéria é um tubo pressurizado, e a agulha fina que a perfura fecha sozinha na maioria das vezes, com compressão — mas o dilatador e o cateter, que têm calibre de vários milímetros, criam um buraco que a compressão não fecha. Daí a assimetria que governa toda a conduta de punção arterial: o que se faz depende inteiramente de o que já entrou ser a agulha ou o cateter.
A segunda metade do mecanismo começa numa pergunta simples: por que a pele. O caderno da Anvisa desenha quatro rotas de contaminação, e as duas primeiras são as que dominam o cateter de curta permanência. A microbiota da pele do paciente, empurrada para dentro pela própria passagem do dispositivo ou migrando ao longo da face externa dele nos dias seguintes, é a rota extraluminal. As mãos do profissional e a manipulação do conector são a rota intraluminal. As outras duas — contaminação do fluido infundido e disseminação hematogênica a partir de outro foco — existem, mas são a minoria.
É esse desenho que dá sentido a duas exigências que parecem excessivas até se entender o mecanismo. A antissepsia da pele com clorexidina alcoólica reduz a carga da microbiota que a agulha vai empurrar para dentro, e por isso o caderno lhe dá grau de recomendação I, o mais alto da escala do documento. A barreira máxima estéril — gorro, máscara, avental estéril de manga longa, luvas estéreis, óculos e campo que cobre o paciente da cabeça aos pés — não protege o operador: protege o fio-guia, que sai da agulha, fica pendurado meio metro fora do paciente e volta para dentro. O campo ampliado existe porque o fio é comprido e encosta em coisas.
O biofilme é a razão de o problema não se resolver com antibiótico. Uma vez que as bactérias se organizam em biofilme na superfície do cateter, elas ficam protegidas em uma matriz que reduz a penetração do antimicrobiano e a atividade dele sobre células em baixa taxa de divisão. Na prática do plantão isso significa uma frase que o capítulo de Febre no paciente internado e no pós-operatório desenvolve e que aqui só se enuncia: cateter infectado é foco não controlado, e foco não controlado não responde a antibiótico nenhum enquanto estiver ali.
Falta o mecanismo do ar, que é o mais contraintuitivo e o que mais gente sabe pela metade. A pressão dentro das veias centrais do tórax, em inspiração espontânea, é negativa em relação à atmosfera — é assim que o sangue volta ao coração. Enquanto houver uma comunicação aberta entre a atmosfera e o lúmen de uma veia central, e enquanto a pressão ali dentro for menor que a de fora, o ar entra. Não é preciso empurrar, nem injetar, nem que alguém erre: basta abrir e esperar. O gradiente que traz o sangue de volta é o mesmo que puxa o ar para dentro.
Disso saem, em cadeia, todas as manobras de prevenção da embolia gasosa, e é por isso que elas parecem arbitrárias quando decoradas soltas. Posicionar o paciente em Trendelenburg para puncionar jugular ou subclávia eleva a pressão dentro da veia acima da atmosférica e inverte o gradiente. Ocluir o canhão da agulha com o polegar entre retirar a seringa e passar o fio existe pela mesma razão. Fechar todas as vias do cateter antes de conectar o equipo, e pedir ao paciente que prenda a respiração ou expire contra resistência no momento de conectar ou desconectar, também. Uma vez entendido o gradiente, nenhuma dessas manobras precisa ser memorizada: todas são a mesma manobra.
Como se apresenta de verdade
Um capítulo de procedimento se apresenta pela decisão, não pelo sintoma. As seis seções abaixo respondem, nesta ordem, as seis perguntas que separam um acesso central bem colocado de um acesso central que não deveria existir: precisa mesmo, onde, o que no paciente muda o onde, com ou sem ultrassom, quem faz o quê, e o que este capítulo cede e o que assume.
A primeira pergunta é se precisa mesmo
O caderno da Anvisa de 2017 abre o item do cateter central de curta permanência com uma lista das principais indicações, e vale conhecê-la de cor porque ela é curta. Paciente sem reais condições de acesso venoso por punção periférica. Necessidade de monitorização hemodinâmica. Administração rápida de drogas, expansores de volume e hemoderivados em paciente com instabilidade hemodinâmica instalada ou previsível. Acesso imediato para terapia dialítica. Administração de soluções ou medicamentos que não podem ser dados por via periférica. Administração concomitante de drogas incompatíveis entre si, por meio de cateter de múltiplos lúmens.
A lista traz um sétimo item, e ele merece uma observação de leitura: quando o plano infusional previr necessidade de acesso central por mais de 21 dias, preferir cateteres de média a longa permanência. Isso não é uma indicação de cateter central de curta permanência — é o contrário, é a instrução de não usar este dispositivo e ir buscar outro. Uma lista intitulada principais indicações que termina com uma contraindicação relativa não está errada no conteúdo; está mal rotulada, e quem decora a lista inteira como indicação decora um item a mais do que deveria. São seis indicações e uma redireção.
O manual brasileiro de terapia intensiva de 2014 lista praticamente as mesmas, com duas adições que a Anvisa não traz: implante de marca-passo temporário transvenoso e infusão de quimioterápicos. Nenhuma das duas listas brasileiras contém, em nenhuma redação, a frase que mais frequentemente motiva o pedido no plantão: veia difícil, acesso que não dura, enfermagem puncionando várias vezes ao dia. Essa é uma descrição de sofrimento real e de trabalho real, e ela pede uma resposta — só que a resposta que as duas listas dão é outra.
Repare no que a primeira indicação da Anvisa diz de fato. Não é veia difícil: é ausência de reais condições de acesso venoso periférico. A diferença entre as duas formulações é a diferença entre o caso do senhor Cassio Riachinho e o do senhor Redento Salgueirinho. O senhor Cassio tem veias que dão trabalho e um antibiótico que pode correr por periférico; ele tem condições, e elas custam caro em punções. O senhor Redento tem hipercalemia com alteração eletrocardiográfica e indicação formal de hemodiálise hoje: nenhum acesso periférico serve para diálise, e a indicação não é do calibre, é do procedimento.
Para o paciente do tipo do senhor Cassio, a saída está no próprio item que a Anvisa mal rotulou. Se o plano de infusão vai durar semanas e a rede periférica está exaurida, o dispositivo certo é de média ou longa permanência — na prática brasileira, um cateter central de inserção periférica — e não um cateter central de curta permanência puncionado no pescoço numa terça-feira à noite. O capítulo Acesso venoso periférico: técnica, escolha e complicações chega ao mesmo ponto pelo outro lado, ao dizer que o paciente com rede venosa exaurida não precisa de mais insistência, e sim de avaliação formal e de discussão sobre dispositivo de permanência mais longa. Os dois capítulos, lidos juntos, fecham a resposta.
Fica uma regra de bolso que atravessa o capítulo inteiro, e ela não é retórica: o acesso que não se instala não infecta, não sangra, não faz pneumotórax e não perde fio-guia. A prevenção com maior eficácia disponível é a indicação recusada. Todas as outras — antisséptico, barreira, ultrassom, curativo — reduzem o risco; só essa o elimina.
Os três sítios e o que cada um cobra
Existe uma única recomendação brasileira de escolha de sítio com o grau mais alto de evidência, e ela é negativa: não realizar punção em veia femoral de rotina, porque a inserção nesse sítio está associada a maior risco de infecção relacionada ao cateter. É o item 2 da lista de inserção do caderno da Anvisa, com grau I. Repare no advérbio, porque ele carrega a regra inteira: de rotina. A femoral não está proibida; está fora da escolha automática, e continua sendo a escolha certa em situações que a própria clínica define.
A jugular interna é a via preferencial no paciente grave, e o manual brasileiro explica por quê em termos de troca: menor risco de complicações graves e maior risco de infecção quando comparada à subclávia. Ela é relativamente superficial, o que torna o controle cirúrgico de uma complicação mais fácil; é excelente terreno para ultrassom, porque é ali que a experiência com a técnica foi construída. Em compensação, é sítio muito móvel — pescoço que gira, curativo que descola —, com perda acidental do cateter mais frequente, e tende a colabar na hipovolemia, o que é uma ironia cruel, já que o paciente hipovolêmico é justamente quem mais precisa do acesso.
A subclávia oferece o oposto quase termo a termo. Sua anatomia é fixa, o que ajuda quando não há aparelho de ultrassom; ela não colaba no estado de choque, porque está ancorada às estruturas ósseas em volta; o curativo fica plano no tórax e adere melhor, com menor perda acidental e menor risco de infecção que a jugular. O preço está inteiro na vizinhança da pleura: maior risco de pneumotórax e de hemotórax, muito mais alto em quem tem doença pulmonar obstrutiva crônica, e — o item que decide sozinho em urgência — o sítio não é compressível. Se o vaso puncionado sangra atrás da clavícula, não há mão que aperte aquilo.
A femoral é o sítio de acesso mais fácil e mais superficial, permite passagem de cateteres calibrosos, e tem uma virtude que os outros dois não têm: é facilmente compressível. Isso muda a decisão no paciente que sangra, no paciente com coagulopatia grave e no paciente em que uma punção arterial acidental precisa ser resolvida com uma mão e quinze minutos, e não com uma equipe de cirurgia vascular. Em troca, cobra o maior risco infeccioso — que é o motivo do grau I contra o uso de rotina — e exige cateteres mais longos para alcançar a circulação central.
Há uma assimetria de lado que quase não se ensina e que o manual brasileiro registra em uma linha. Nos acessos por jugular e por subclávia, dê preferência ao lado direito sempre que possível: a cúpula pleural é mais baixa à direita, o ducto torácico desemboca na subclávia esquerda, e o trajeto até o átrio direito é mais retilíneo, o que facilita o posicionamento da ponta. Três motivos independentes apontando para o mesmo lado — e o terceiro é o que mais aparece na radiografia do dia seguinte, na forma de cateter que fez curva onde não devia.
Uma nota sobre o que o capítulo não vai fazer aqui, e por quê. Este bloco não traz a técnica passo a passo de cada punção — ângulo, ponto exato, profundidade da agulha. Ela existe, está no manual brasileiro citado nas fontes, e não é o que decide o desfecho do interno: o que decide é a escolha do sítio, o reconhecimento da complicação e a ordem do que se faz depois. Aprender ângulo de agulha lendo texto, sem supervisão e sem simulador, é justamente o modo de aprender que este capítulo desaconselha na primeira página.
O que no paciente muda a escolha do sítio
A escolha do sítio quase nunca é livre. Cinco características do paciente à sua frente inclinam a decisão, e vale conhecê-las porque três delas apontam para direções opostas ao mesmo tempo, o que é exatamente o que torna a decisão difícil.
Coagulopatia e plaquetopenia empurram para o sítio compressível. Um sangramento na femoral se resolve com compressão firme e tempo; o mesmo sangramento atrás da clavícula não se resolve com nada que exista no leito. Por isso, no paciente com distúrbio grave da hemostasia, a subclávia é o sítio a evitar mesmo quando é o mais confortável — e o raciocínio não depende de saber qual é o limiar exato de plaqueta, que é assunto de outro capítulo e está tratado na seção seguinte.
Choque e hipovolemia podem dificultar a visualização e a punção por redução do calibre venoso, mas não impõem a subclávia como escolha automática. Ponderar ultrassom, experiência, compressibilidade, risco de sangramento, doença renal, anatomia e urgência. Quando indicada, a droga vasoativa pode ser iniciada por acesso periférico adequado e monitorado conforme protocolo, enquanto a equipe organiza o acesso definitivo, sem atrasar tratamento apenas para obter um central.
Ventilação com pressão positiva muda a conta do pneumotórax em duas direções. De um lado, o paciente ventilado tolera pior um pneumotórax e pode tensioná-lo; de outro, é o paciente em que a punção sob visão direta é mais fácil de organizar, porque ele está sedado e imóvel. Já a doença pulmonar obstrutiva crônica é seta única e forte: o manual brasileiro registra maior risco de pneumotórax e hemotórax na subclávia justamente nesse doente, que é também o que menos tolera perder pulmão.
Obesidade e agitação são as duas que mais frequentemente decidem sozinhas, e por motivos práticos. No obeso, a jugular fica profunda e o pescoço curto some, o que é o cenário clássico de punção difícil descrito pelo manual brasileiro; na femoral, o panículo dificulta a assepsia e piora o risco infeccioso já elevado. No paciente agitado, nenhum sítio é seguro sem sedação ou contenção adequada, e a decisão honesta muitas vezes é adiar a punção até que o paciente esteja controlado — porque um fio-guia dentro de um paciente que se mexe é a situação em que mais coisas dão errado ao mesmo tempo.
Há um caso em que a escolha é ditada pela terapia e não pelo risco imediato, e é o do senhor Redento. O caderno da Anvisa manda considerar, na escolha do sítio, o risco de complicações não infecciosas, e dá o exemplo exato: evitar inserção em subclávia para cateteres de hemodiálise, pelo risco de estenose. A razão é de futuro, não de hoje. Uma estenose de subclávia inutiliza o braço daquele lado para a confecção de fístula arteriovenosa mais adiante, e o senhor Redento é um paciente renal crônico que vai precisar de uma fístula. A conta certa aqui atravessa anos, não o plantão — e é a mais fácil de perder de vista às sete da noite.
O ultrassom: o que ele muda e o que fazer sem ele
O caderno da Anvisa recomenda preferir a inserção guiada por ultrassom, e sustenta a recomendação em pelo menos duas metanálises que relacionaram a tecnologia a menores complicações mecânicas. Acrescenta duas precisões que interessam: prefira a ecografia bidimensional ao doppler, e saiba que a experiência com a técnica vem principalmente da jugular interna — na subclávia a punção guiada é possível, mas mais difícil de executar adequadamente.

O que o aparelho muda é mais simples do que a palavra tecnologia sugere. Ele responde, antes de a agulha entrar, quatro perguntas que a anatomia de superfície só responde por estatística: onde exatamente está a veia neste paciente, e não no paciente médio; se ela está pérvia ou trombosada; a que profundidade está; e qual é a relação dela com a artéria vizinha, que varia mais entre pessoas do que os desenhos de livro deixam supor. Depois disso, ele ainda permite ver a agulha entrar.
A manobra que mais rende, e a que o interno pode aprender em uma tarde mesmo sem passar cateter nenhum, é a compressão. Sob a pressão do transdutor, a veia achata até virar uma fenda; a artéria, pressurizada e de parede espessa, permanece redonda. É a distinção que o pulso palpado não faz com segurança no paciente hipotenso e que a cor do sangue na seringa faz tarde demais — depois de a agulha já ter entrado. É a figura deste bloco, e é literalmente tudo o que ela mostra.
E quando não há aparelho? Primeiro, diga isso em voz alta e registre no prontuário: a punção foi feita por referência anatômica porque não havia ultrassom disponível no serviço naquele momento. Isso não é defesa jurídica, é epidemiologia — o registro é o que faz alguém, algum dia, saber que o aparelho falta. Segundo, a técnica por referência anatômica continua sendo técnica válida e é como a maioria dos cateteres do país foi passada; ela apenas exige mais do operador e menos tolerância a improviso.
Sem aparelho, três compensações são obrigatórias e não custam nada. Escolha o sítio de anatomia mais previsível para a sua mão, e prefira o lado direito nos acessos torácicos. Limite o número de tentativas antes de chamar alguém — o número exato é do serviço, mas a existência do limite não é negociável, porque cada tentativa adicional multiplica hematoma, punção arterial e contaminação do campo. E lembre que o cateter que falhou não volta: o caderno da Anvisa registra que cateteres para punção venosa são produtos de reprocessamento proibido, e que por isso, em caso de insucesso, não podem ser usados para uma nova tentativa de punção. Material a mais separado desde o início não é excesso, é planejamento.
Quem passa o cateter, e o que o interno faz de verdade
Comece pela frase que este capítulo se recusa a suavizar: este não é procedimento para se aprender sozinho no plantão. A régua brasileira é explícita e é institucional, não moral. O caderno da Anvisa exige que o serviço garanta que o profissional que insere o cateter tenha sido submetido a um processo de credenciamento, estabelecido pelas diretrizes da própria instituição, para assegurar sua competência antes de realizar suas atividades sem supervisão. Quem define o credenciamento é o hospital; que ele precisa existir, é a norma que diz.
Do lado do interno, isso não significa assistir de longe. Significa uma lista de atos que são seus e que, se falharem, comprometem o procedimento inteiro por mais competente que seja quem punciona. O primeiro é reabrir a indicação, que é o que este capítulo vem fazendo desde a cena. O segundo é o consentimento: os dois documentos brasileiros que descrevem o procedimento colocam a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido como cuidado pré-procedimento, e o Protocolo para Cirurgia Segura, de 2013, manda confirmar verbalmente com o paciente a identificação, o procedimento e o consentimento antes de começar.
O terceiro é o preparo físico da cena, e ele decide desfecho. Posicionar o paciente — Trendelenburg para jugular e subclávia, decúbito dorsal com pernas levemente abduzidas para femoral — não é conforto: é a manobra antiembolia gasosa descrita no bloco de mecanismo. Monitorizar com oxímetro e monitor cardíaco não é formalidade: o eletrocardiograma é o que avisa que o fio-guia entrou fundo demais, no exato instante em que isso acontece. Garantir acesso periférico antes, quando possível, é o que permite tratar uma complicação sem depender do cateter que ainda não existe. E ter carro de parada disponível é a diferença entre uma arritmia e uma parada não assistida.
O quarto é a mesa e a contagem, e é o ato mais subestimado da lista. Conferir o material antes de abrir o primeiro pacote, em voz alta, com a técnica de enfermagem, custa trinta segundos; descobrir no meio do procedimento que falta o dilatador custa o procedimento. E contar o que entrou e o que saiu — em especial o fio-guia — é o único mecanismo que existe contra o evento que dá título à seção seguinte deste capítulo.
O quinto é o mais desconfortável e é o que a norma protege: interromper. O caderno da Anvisa determina que a inserção seja observada por um profissional com educação apropriada para assegurar a manutenção da técnica asséptica, e escreve, com todas as letras, que esses profissionais devem ser empoderados a interromper o procedimento se forem observadas quebras na técnica asséptica. Não é gentileza institucional, é atribuição. Se a luva encostou no carro, se o campo deslizou, se alguém passou a mão por cima da mesa, quem viu fala — e quem opera para.
O sexto é saber quando parar e chamar, e este capítulo prefere ser explícito a ser elegante. Chame quando a sua tentativa número dois falhou; quando saiu sangue vermelho vivo e pulsátil; quando o paciente ficou dispneico ou dessaturou durante a punção; quando o fio-guia não avança com resistência mínima; quando o fio-guia não volta; quando o paciente ficou hipotenso sem outra explicação nos minutos seguintes; e quando você não sabe. A última é a mais importante das sete, e é a única que não tem sinal clínico.
O que este capítulo assume e o que ele cede
Este capítulo assume o pneumotórax e o hemotórax como complicação de procedimento: o reconhecimento no leito, o que se faz nos primeiros minutos, o que a conferência radiológica responde, e a prevenção pela escolha do sítio e pela técnica. O capítulo Pneumotórax espontâneo (primário e secundário), na apostila de Cirurgia Torácica, é o dono do pneumotórax como doença — a classificação, a decisão de drenar, o critério de internação — e havia assumido provisoriamente a parte de procedimento por não existir, no nível, capítulo de acesso venoso central. Ele escreveu, e a frase está lá: enquanto ele não existir, o pneumotórax que aparece depois de uma punção de subclávia ou de jugular é assunto daquele capítulo. Este capítulo existe agora, e a fronteira se fecha assim, nos dois sentidos: procedimento e prevenção aqui; doença, drenagem e destino lá.
Vale registrar o que aquele capítulo decide e que este não repete, porque é o que o interno vai precisar depois de reconhecer o pneumotórax. A régua brasileira é mais dura com o iatrogênico do que com o espontâneo: internação obrigatória mesmo em pneumotórax diminuto e paciente estável; drenar quem vai ser transportado, sobretudo por via aérea; e drenagem sempre obrigatória se houver ventilação com pressão positiva. Reconhecer é deste capítulo. Decidir dreno e destino é daquele, e é para lá que você vai.
A antissepsia, a paramentação e o campo estéril são inteiramente do capítulo Antissepsia, paramentação e campo estéril, o oitavo desta apostila. Qual antisséptico, quanto tempo de fricção, por que a degermação prévia deixou de ser rotina, em que ordem se veste e se despe a paramentação, o que fazer quando falta a formulação certa — está tudo lá, e a cena daquele capítulo é justamente a montagem de um acesso central. Este capítulo usa os números que ele estabelece e não os reescreve.
O que o coagulograma decide antes de puncionar é do capítulo Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e ele é dono daquilo no sentido forte: ensina o limiar, a indicação de transfusão e a contraindicação formal de plasma para corrigir teste alterado sem sangramento. A leitura da radiografia de tórax, incluindo a conferência da ponta do cateter, é de Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, da mesma apostila. Este capítulo cede as duas e diz, em cada caso, o que a resposta delas muda na punção.
O diagnóstico e o tratamento da infecção de corrente sanguínea associada ao cateter são do capítulo Febre no paciente internado e no pós-operatório, na apostila de Síndromes do Paciente Internado — hemocultura pareada, quando o cateter sai sem negociação, por que a ponta de cateter isolada não faz diagnóstico. Este capítulo fica com o outro lado da mesma moeda: o que a inserção e a manutenção mudam na probabilidade de aquilo acontecer. A higiene das mãos e as precauções são de As mãos que circulam entre os leitos, e a conduta na hora seguinte a um evento adverso, incluindo a notificação e a revelação ao paciente, é de A hora seguinte, as duas na apostila de Comunicação. A indicação que vem do choque e da droga vasoativa é da apostila de Medicina Intensiva e do capítulo de hipotensão no internado.
Fica um assunto sem dono declarado em capítulo algum deste nível, e este capítulo assume em vez de remeter a uma porta fechada: o fio-guia retido. Nenhum capítulo do Internato o trata, e nenhum documento brasileiro que este capítulo abriu o nomeia — a lista de eventos que nunca deveriam ocorrer da Anvisa fala em retenção não intencional de corpo estranho após a cirurgia, e a punção central à beira do leito não é chamada de cirurgia em lugar nenhum. Enquanto não houver capítulo específico, a prevenção, o reconhecimento e a conduta imediata do fio-guia retido são deste capítulo, e estão nos blocos de conduta e de erros.
Como fechar o diagnóstico
Nenhum exame autoriza uma punção central e nenhum exame a proíbe sozinho. A investigação deste capítulo é, quase toda, feita com o prontuário, com os olhos, com a mão e com o aparelho de ultrassom — e é justamente por não terminar num número que ela é a parte mais pulada do procedimento. As seis seções abaixo são o roteiro do que se apura antes de abrir o primeiro pacote.
Uma advertência de método, antes de começar. A ordem importa: as três primeiras seções podem cancelar o procedimento, e por isso vêm antes das três que o preparam. Investigar na ordem inversa — separar material, paramentar e só então descobrir que a indicação não se sustenta — é o modo mais caro de chegar à mesma conclusão.
A indicação ainda existe agora?
O pedido de acesso central quase nunca é feito no momento em que o cateter é passado. Ele nasce numa passagem de plantão, atravessa um turno, e chega até você já com a forma de uma tarefa. Entre o nascimento do pedido e a agulha, o paciente mudou — e a primeira pergunta da investigação é se a razão que gerou o pedido continua de pé.
Três perguntas de prontuário resolvem a maior parte dos casos. Primeira: o que exatamente vai correr por este cateter, escrito com nome de medicamento e não com a palavra medicação? Se a resposta é droga vasoativa em infusão contínua, nutrição parenteral, solução hiperosmolar, quimioterápico vesicante ou hemodiálise, a indicação é do medicamento e está resolvida. Se a resposta é antibiótico e hidratação, a indicação precisa de outro argumento.
Segunda: por quanto tempo? A resposta muda o dispositivo, não apenas a decisão de puncionar. Plano de infusão previsto para mais de três semanas empurra para cateter de média ou longa permanência, e não para o cateter de curta permanência que se passa à beira do leito — é a instrução do sétimo item da lista da Anvisa, aquela que está mal rotulada como indicação e é, na verdade, uma redireção.
Terceira: já se tentou de verdade o periférico, e com que meios? Tentar de verdade inclui procurar veias no antebraço com garrote e tempo, considerar a visualização assistida que o próprio caderno da Anvisa recomenda para rede venosa difícil, e chamar quem punciona melhor no serviço. Três tentativas de uma pessoa cansada não é o mesmo que rede venosa exaurida, e a diferença entre as duas coisas é um cateter central.
Há uma quarta pergunta, e ela é a que muda mais indicações na prática: o paciente vai receber alta desta enfermaria nos próximos dias? Cateter central passado na véspera da alta é o pior negócio possível — todo o risco da inserção, quase nenhum do benefício, e um dispositivo que alguém vai ter de retirar.
Se as respostas sustentarem a indicação, escreva-a no prontuário antes de puncionar, nomeando qual das indicações da lista nacional se aplica. Isso tem duas funções. A imediata é obrigar você mesmo a passar pelo teste. A tardia é permitir que a visita de amanhã pergunte se aquela razão ainda existe — que é, como o bloco de reavaliação vai mostrar, a pergunta que faz cateter sair.
O que o coagulograma decide, e o vão que o documento federal deixou
O coagulograma antes da punção central é assunto do capítulo Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e é ele quem ensina o que cada teste mede, quando transfundir e quando não. Este capítulo não repete os limiares. O que ele precisa dizer é o que a resposta daquele exame muda na punção, e isso é bem mais simples do que parece.
O achado que aquele capítulo mediu e que interessa aqui é um vão. O quadro do guia federal de hemocomponentes que estabelece contagem mínima de plaquetas por procedimento cobre punção lombar, biópsia de medula, endoscopia, broncoscopia, biópsia hepática e cirurgias — e não nomeia cateter venoso central, conferido por busca exata sobre o documento inteiro. Ou seja: o Brasil não tem, em documento federal, um limiar de plaqueta para puncionar veia central.
Isso deixa a decisão onde ela é mais desconfortável, que é no julgamento clínico com registro. A conduta honesta, na formulação daquele capítulo, tem três partes: escolher o procedimento análogo mais próximo, aplicar o limiar dele e escrever no prontuário qual analogia foi usada e por quê. Este capítulo acrescenta um dado que muda a analogia: a punção central tem um sítio compressível disponível. Punção lombar não tem; punção femoral tem.
O manual brasileiro de 2014, por sua vez, lista entre as contraindicações do acesso central as discrasias sanguíneas graves, o uso de anticoagulantes orais e a plaquetopenia abaixo de 20.000 — e, na mesma linha das discrasias, registra a ressalva de que alterações da relação normatizada internacional no hepatopata não se correlacionam com risco de sangramento. As duas afirmações no mesmo item pedem leitura cuidadosa: a contraindicação que ele lista é de sangramento provável, não de exame alterado, e ele mesmo diz que naquele doente o exame não prevê o sangramento.
Na prática de plantão, a investigação da hemostasia antes da punção tem duas perguntas que valem mais que o painel. A primeira é de história: este paciente já sangrou de forma anormal em procedimento, extração dentária ou parto? A segunda é de exame: há petéquia, equimose espontânea, sangramento em sítio de punção prévia? Uma resposta positiva a qualquer das duas muda a conduta mesmo com coagulograma normal — e é o próprio capítulo do coagulograma que ensina por quê, ao mostrar tudo o que o painel não enxerga.
A síntese operacional é curta. Coagulopatia grave não proíbe o acesso central: ela escolhe o sítio compressível, exige o ultrassom, reduz o número de tentativas toleráveis e obriga a chamar mais cedo. E, seja qual for o limiar adotado, corrigir teste alterado com plasma em paciente que não sangra é contraindicação formal do guia federal — o que significa que a decisão de puncionar não pode ser comprada com hemocomponente.
O exame do paciente e do sítio, antes da agulha
Este é o exame que dura noventa segundos e decide o sítio. Ele tem cinco estações, e nenhuma delas exige aparelho.
A pele sobre os três sítios candidatos. O caderno da Anvisa nomeia infecção, queimadura ou ferida da pele no local como impedimento, e o manual brasileiro repete. Procure também curativo antigo, dermatite, cateter prévio recente no mesmo território e cicatriz de punção. Pelos: se a remoção for necessária, ela se faz com tricotomizador elétrico ou tesoura, nunca com lâmina de barbear, porque a lâmina aumenta o risco de infecção — é recomendação de grau II do mesmo caderno.
O pescoço e a clavícula. Pescoço curto, obesidade cervical e traqueostomia mudam a jugular; deformidade torácica, fratura de clavícula antiga e enfisema subcutâneo mudam a subclávia. Palpe a junção do terço medial com o terço médio da clavícula e o ápice do triângulo formado pelos ramos do esternocleidomastóideo: se você não encontra os pontos de referência com o paciente calmo e bem posicionado, não vai encontrá-los com ele agitado e o campo montado.
A tolerância à posição. Trendelenburg e decúbito dorsal plano são obrigatórios para os acessos torácicos e são exatamente o que o paciente com insuficiência cardíaca descompensada, ascite tensa ou dispneia grave não tolera. Teste antes: baixe a cabeceira com o paciente monitorizado e veja o que acontece com a saturação e com o conforto. Se ele não tolera, a decisão muda — femoral, ou estabilizar antes, ou pedir ajuda para fazer sob visão em posição menos rebaixada.
O estado mental e a capacidade de colaborar. Paciente confuso, agitado ou em delirium é a situação em que mais coisas dão errado ao mesmo tempo, e nenhuma barreira estéril sobrevive a um paciente que senta no meio do procedimento. O caminho é resolver a agitação primeiro, e não puncionar mais rápido.
E o lado. Procure na história e no prontuário: fístula arteriovenosa, mastectomia com esvaziamento axilar, marca-passo, cateter prévio, trombose conhecida. No caso do senhor Redento, renal crônico, o lado e o sítio carregam a decisão de futuro que já foi dita — evitar a subclávia, para não estenosá-la e inutilizar o braço para a fístula que ele ainda vai precisar.
O que o ultrassom responde antes de a agulha entrar
Se há aparelho, ele entra aqui, e não no meio do procedimento. Vale usá-lo antes de decidir o sítio, e não só para guiar a agulha no sítio já escolhido — é a diferença entre um exame e um instrumento de mira.
Quatro respostas em menos de dois minutos, com o transdutor no eixo curto. Onde está a veia neste paciente, e não no paciente médio. A que profundidade, o que já antecipa o comprimento de agulha necessário. Qual é a relação exata com a artéria, que varia bastante entre pessoas — a artéria pode estar posterior, medial ou parcialmente sob a veia. E se a veia está pérvia: uma jugular trombosada em paciente com cateter prévio é achado comum, silencioso e que cancela aquele sítio.
A manobra que responde à pergunta mais perigosa é a compressão, e ela custa dois segundos. Sob pressão suave do transdutor, a veia achata até virar uma fenda e a artéria continua redonda. É a única distinção confiável no paciente hipotenso, em quem o pulso é fraco e a cor do sangue na seringa engana — sangue arterial em choque profundo pode ser escuro, e sangue venoso em paciente com oxigenação alta pode ser vermelho. Se você precisa da cor para decidir, já é tarde: a agulha entrou.
Duas cautelas do próprio caderno da Anvisa, que o entusiasmo com o aparelho costuma atropelar. A primeira é que ele recomenda a ecografia bidimensional em preferência ao doppler — o que se vê vale mais que o que se ouve. A segunda é que a experiência acumulada com a técnica vem principalmente da jugular interna; na subclávia, a punção guiada é possível, mas a janela é ruim pela clavícula e a técnica é mais difícil de executar adequadamente. Guiar bem uma jugular não habilita ninguém a guiar uma subclávia.
O ultrassom que mostra a agulha ou o fio no vaso não confirma, por si só, a posição final de toda a via nem exclui todas as complicações. A confirmação final deve seguir método validado do serviço, que pode incluir radiografia e técnicas especializadas de ultrassom ou eletrocardiografia. Documente o que foi efetivamente demonstrado e quem liberou o acesso.
Se não há aparelho, este bloco não desaparece: ele vira exame de superfície mais cuidadoso, escolha de sítio mais conservadora, limite de tentativas mais curto e registro explícito no prontuário de que a punção foi por referência anatômica por indisponibilidade do equipamento. Registrar a falta é a única maneira de a falta virar dado.
O consentimento é parte da investigação, não papel
Os dois documentos brasileiros que descrevem este procedimento colocam a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido entre os cuidados pré-procedimento, e o Protocolo para Cirurgia Segura, de 2013, manda o condutor da lista de verificação confirmar verbalmente com o próprio paciente, sempre que possível, a identificação, o procedimento e o consentimento antes de começar. Quando a confirmação pelo paciente não é possível — inconsciência, sedação, incapacidade —, a norma prevê que um responsável ou familiar assuma essa função.
O consentimento é investigação porque a conversa apura coisas que o prontuário não tem. É durante ela que aparece a punção anterior que deu errado, a fístula que ninguém anotou, o medo específico que vai gerar agitação no meio do procedimento, e a alergia que não estava na ficha. Uma conversa de três minutos bem feita já mudou sítio de punção mais vezes do que qualquer exame.
O que se diz precisa caber em linguagem de conversa e cobrir quatro pontos: o que é, por que agora, o que pode dar errado e o que se faz nesse caso. Sobre o que pode dar errado, não se ganha nada omitindo: punção de artéria, pneumotórax, sangramento, infecção do cateter, arritmia durante a passagem do fio. Cada um desses termos tem uma tradução simples, e o bloco de conversa deste capítulo traz as falas.
Registre no prontuário o que foi conversado e com quem, e não apenas que o termo foi assinado. Em emergência com risco imediato de vida e sem responsável presente, o procedimento se faz e o registro descreve a circunstância — e essa é justamente a situação em que o caderno da Anvisa prevê o cateter inserido sem barreira máxima, com o prazo de troca de sítio que aparece no bloco de conduta.
A conferência do material e a contagem do que entra
A última estação da investigação é a mesa, e ela responde uma pergunta que ninguém faz em voz alta: o que exatamente vai entrar neste paciente, e como saberemos que tudo saiu? A resposta precisa ser dita antes, porque depois do campo montado ninguém conta nada.
Confira o material em voz alta com a técnica de enfermagem antes de abrir o primeiro pacote. A lista mínima do procedimento, na descrição do manual brasileiro, tem cateter em kit ou estéril, fio-guia, agulha de punção, três seringas, bisturi, dilatador, fio de sutura, agulha e seringa para o anestésico, lidocaína a 2% sem vasoconstritor, gaze, dois pares de luva estéril, capa, compressa, máscara, gorro, óculos, campo cirúrgico, antisséptico padronizado, material para oxigênio suplementar, oxímetro, monitor cardíaco e carro de parada disponível. Separe cateter e kit de reserva: o caderno da Anvisa registra que cateteres para punção venosa são produtos de reprocessamento proibido e que, em caso de insucesso, não podem ser reutilizados para nova tentativa.
Agora a parte que este capítulo assume por não ter dono no nível: a contagem do fio-guia. Diga em voz alta, antes de começar, quantos fios-guia há na mesa — normalmente um. Diga em voz alta, ao terminar, que o fio saiu inteiro, e mostre-o. Não é ritual: é a única barreira que existe contra o fio-guia retido, porque nenhum sinal clínico avisa que ele ficou, e a radiografia só avisa quem estiver procurando.
A norma brasileira que mais perto chega disso é o Protocolo para Cirurgia Segura de 2013, e ele chega perto por dois caminhos. O primeiro é a abrangência: o protocolo declara aplicar-se a todos os locais em que se realizem procedimentos terapêuticos ou diagnósticos que impliquem incisão no corpo humano, dentro ou fora do centro cirúrgico, por qualquer profissional de saúde — e a punção central pela técnica de Seldinger faz incisão com bisturi para passar o dilatador. O segundo é o conteúdo: entre os passos da fase final está a conclusão da contagem de compressas e instrumentais antes de o paciente deixar a sala.
Mas o instrumento não cabe no procedimento que a própria norma abrange, e é honesto dizer isso em vez de fingir que cabe. As três fases da lista de verificação são antes da indução anestésica, antes da incisão cirúrgica e antes de o paciente sair da sala de cirurgia; a primeira fase exige a presença do anestesiologista, e a segunda gira em torno de antimicrobiano profilático e lateralidade. Um acesso central à beira do leito não tem indução anestésica, não tem anestesiologista e não acontece em sala de cirurgia. A norma alcança o procedimento; a ferramenta que ela oferece foi desenhada para outro.
A conclusão prática é a que este capítulo assume: adapte, e adapte por escrito. Uma pausa de trinta segundos antes da punção, com paciente, sítio, lado, consentimento, material conferido e número de fios-guia dito em voz alta, e uma segunda pausa ao final, com fio-guia mostrado, contagem fechada e registro do que foi usado. Isso não é a lista de verificação da norma — é o que sobra dela quando se retira o que só existe no centro cirúrgico, e o serviço que padroniza isso por escrito está cumprindo o espírito do protocolo com o instrumento que ele deixou de oferecer.
As réguas do acesso central e o que elas não fecham
A indicação e a segurança vêm antes do gesto técnico. O interno prepara, confere e acompanha, com supervisão direta na execução. Use uma lista breve: necessidade, sítio, barreira máxima, ultrassom, confirmação venosa antes de dilatar, controle do fio, verificação final e plano de retirada.
- 11. A indicação existe e é de agora? Nomeie qual das seis indicações da lista nacional se aplica, com o nome do que vai correr pelo cateter. Se nenhuma se aplica, pare aqui — e essa é a decisão mais eficaz do capítulo.
- 22. Qual é a duração prevista e o tipo de infusão? Um plano que ultrapassa três semanas favorece avaliar dispositivo de média ou longa permanência, conforme a terapia e o acesso disponível. Esse prazo não é um corte absoluto nem deve atrasar um acesso central necessário agora.
- 33. Um acesso periférico adequado atende à necessidade? Se sim, otimize a tentativa com visualização assistida e operador experiente quando disponíveis. A tentativa periférica não é requisito universal antes do acesso central quando a indicação e a urgência já o justificam.
- 44. Escolha o sítio pelo que o paciente cobra, não pelo hábito da equipe. Femoral não é a escolha de rotina — é recomendação nacional de grau I.
- 55. Coagulopatia grave ou plaquetopenia importante empurram para o sítio compressível, aumentam a exigência de ultrassom e reduzem o número de tentativas toleráveis.
- 66. Hipovolemia pode reduzir o calibre jugular, e doença pulmonar pode aumentar o impacto de uma complicação pleural. Avalie anatomia ao ultrassom, risco de cada sítio, urgência e experiência do operador; nenhum desses diagnósticos, isoladamente, determina ou proíbe um sítio.
- 77. Cateter para hemodiálise: evite a subclávia, pelo risco de estenose que inutiliza o braço para a fístula futura. É recomendação expressa do caderno nacional.
- 88. Nos acessos torácicos, o lado direito pode oferecer vantagens de trajeto, conforme o vaso escolhido. A preferência depende da anatomia, da permeabilidade, dos riscos locais e da experiência do operador; não deve prevalecer sobre a avaliação de segurança do paciente.
- 99. Consentimento conversado e registrado; paciente identificado, sítio e lado ditos em voz alta.
- 1010. Material conferido em voz alta antes de abrir o primeiro pacote, com cateter e kit de reserva separados — o cateter que falhou não pode ser reutilizado.
- 1111. Diga em voz alta quantos fios-guia há na mesa. Um. Este é o passo que previne o único evento deste capítulo que não tem sinal clínico.
- 1212. Posicione e monitorize antes de paramentar: considere Trendelenburg nos acessos torácicos quando tolerado e sem contraindicação, ajustando a posição à condição respiratória e circulatória. Garanta oxímetro, monitor cardíaco, carro de parada disponível e, se possível, um acesso periférico já estabelecido.
- 1313. Barreira máxima estéril e antissepsia conforme o capítulo de Antissepsia, paramentação e campo estéril. Quem observa tem autoridade formal para interromper se a técnica for quebrada.
- 14Durante o fio-guia, manter controle da extremidade e não forçar resistência. Confirmar trajeto venoso antes de dilatar; se surgirem arritmias, interromper a progressão, avaliar e corrigir com o operador, tratando instabilidade quando presente.
- 1515. Aspire sangue em todos os lúmens e mantenha as vias fechadas até a conexão. O refluxo de sangue não confirma, sozinho, a posição da ponta. Antes do uso, confirme posição e avalie complicações por método validado, adequado ao acesso e ao protocolo do serviço; solicite radiografia quando indicada, sem torná-la obrigatória em todos os acessos.
- 16Ao terminar, mostrar o fio-guia inteiro e fechar a contagem. Registrar o método de confirmação, a posição verificada, a avaliação de complicações, o responsável e a liberação para uso. Se a confirmação for inconclusiva ou houver suspeita de complicação, manter o cateter sem uso até avaliação e esclarecimento pela equipe.
- 1717. Se qualquer coisa saiu do previsto — sangue pulsátil, dessaturação, hipotensão, dor torácica, fio que não volta —, pare, chame e trate pela tabela deste bloco antes de qualquer outra coisa.
66,7 kg — o peso a partir do qual o teto absoluto passa a mandar
A bula da lidocaína sem vasoconstritor declara dois tetos para o adulto e não diz qual prevalece: 4,5 mg por quilo e, em geral, não exceder 300 mg no total. Os dois se cruzam em 300 ÷ 4,5, que é 66,67 quilos. Abaixo disso manda o peso; acima disso manda o número fixo, e a conta por quilo passa a autorizar mais do que a própria bula permite. No senhor Redento, de 78 quilos, a conta por peso dá 351 mg e estoura o teto declarado em 51 mg. Como a infiltração de uma punção central raramente passa de 100 mg, a distância é confortável — mas ela some depressa em quem já recebeu anestésico local por outro motivo no mesmo dia, e é aí que a regra do menor dos dois deixa de ser acadêmica.
Os três sítios de curta permanência: o que cada um oferece e o que cobra
| Sítio | O que oferece | O que cobra | Evitar quando | Compressível? |
|---|---|---|---|---|
| Jugular interna | Via preferencial no paciente grave; superficial, com controle cirúrgico de complicação mais fácil; melhor terreno para ultrassom, que é onde a experiência com a técnica foi construída | Maior risco de infecção que a subclávia; sítio muito móvel, com curativo que descola e perda acidental mais frequente; colaba na hipovolemia | Pescoço curto ou obesidade cervical; traqueostomia próxima; trombose jugular conhecida ou vista ao ultrassom; hipovolemia grave sem ultrassom | Parcialmente — compressão possível, mas limitada pela profundidade e pelo trajeto |
| Subclávia | Anatomia fixa, o que ajuda sem ultrassom; não colaba no choque; curativo plano e aderente, com menor perda acidental e menor risco de infecção que a jugular | Maior risco de pneumotórax e de hemotórax; janela ruim para ultrassom pela clavícula; estenose tardia da veia | Doença pulmonar obstrutiva crônica; coagulopatia grave; deformidade torácica; e cateter para hemodiálise, pelo risco de estenose que inutiliza o braço para fístula futura | Não — é o único dos três em que o sangramento não se controla com a mão |
| Femoral | Acesso mais fácil e superficial; aceita cateteres calibrosos; não exige Trendelenburg nem decúbito plano; sítio facilmente compressível | Maior risco de infecção relacionada ao cateter, o que motiva a única recomendação de sítio com grau I no Brasil; exige cateter mais longo para alcançar a circulação central; limita a mobilização do paciente | Uso de rotina, por recomendação nacional de grau I; obesidade abdominal que dificulta a assepsia; lesão de pele ou infecção inguinal; suspeita de trombose ilíaco-femoral | Sim — é a vantagem que decide no paciente que sangra |
Lidocaína sem vasoconstritor na infiltração da punção: mg, mL e frasco num adulto de 78 quilos
| O que se calcula | A conta | A 10 mg/mL (1%) | A 20 mg/mL (2%) |
|---|---|---|---|
| Teto pelo peso | 4,5 mg/kg × 78 kg = 351 mg | 35,1 mL | 17,6 mL |
| Teto absoluto declarado pela bula | 300 mg, fixo, independentemente do peso | 30,0 mL | 15,0 mL |
| Qual dos dois vale neste paciente | o menor dos dois, isto é, 300 mg — porque 78 kg está acima do cruzamento de 66,7 kg | 30,0 mL | 15,0 mL |
| Infiltração habitual da punção, 50 mg | 50 mg ÷ concentração | 5,0 mL — 17% do teto | 2,5 mL |
| Infiltração generosa, 100 mg | 100 mg ÷ concentração | 10,0 mL — 33% do teto | 5,0 mL |
| Conteúdo de um frasco-ampola de 20 mL a 2% | 20 mL × 20 mg/mL = 400 mg | apresentação não corresponde | 400 mg, ou 1,33 vez o teto absoluto |
| Conteúdo de uma ampola de 5 mL a 2% | 5 mL × 20 mg/mL = 100 mg | apresentação não corresponde | 100 mg, ou um terço do teto |
O que dá errado durante a punção, o que se vê e o primeiro gesto
| O que aconteceu | O que se vê no leito | Primeiro gesto | O que não fazer |
|---|---|---|---|
| Punção arterial só com a agulha | Sangue vermelho vivo, pulsátil, que empurra o êmbolo sozinho; ao ultrassom, a estrutura puncionada não achata sob compressão | Retirar a agulha e comprimir com firmeza por 10 a 15 minutos sem espiar; reavaliar pescoço, via aérea e pulsos distais | Repuncionar imediatamente o mesmo lado; comprimir carótida e jugular ao mesmo tempo dos dois lados |
| Dilatador ou cateter já na artéria | O cateter pulsa, a coluna de sangue sobe no equipo, a curva de pressão é arterial se houver transdutor | Deixar o cateter onde está, sem tracionar, e chamar imediatamente a cirurgia vascular ou o serviço que faz o reparo | Puxar o cateter e comprimir — é o gesto que transforma um problema reparável em hemorragia não compressível |
| Pneumotórax | Dor pleurítica súbita, tosse, dispneia, queda de saturação, murmúrio reduzido do lado puncionado, timpanismo à percussão | Parar o procedimento, sentar o paciente se possível, oxigênio, monitorização, radiografia — e reavaliar ausculta antes da imagem | Insistir na punção do outro lado sem imagem: pneumotórax bilateral iatrogênico é o cenário que mata |
| Hemotórax | Dispneia com hipotensão, murmúrio reduzido com percussão maciça do lado puncionado, queda de hemoglobina nas horas seguintes | Parar, monitorizar, acesso e volume por outra via, radiografia, e chamar cirurgia torácica — a decisão de dreno não é deste capítulo | Atribuir a hipotensão à sedação ou ao jejum sem examinar o tórax puncionado |
| Embolia gasosa | Dispneia súbita, tosse, agitação, hipotensão, dessaturação, às vezes um ruído de sucção audível no momento em que algo foi aberto | Ocluir imediatamente a comunicação com o ar, deitar o paciente em decúbito lateral esquerdo com a cabeceira baixa, oxigênio a 100%, monitorizar e chamar | Sentar o paciente, que é o reflexo diante de dispneia e o gesto que mais favorece a progressão do ar |
| Arritmia pela passagem do fio-guia | Extrassístoles ventriculares no monitor no exato momento em que o fio avança; às vezes taquicardia ventricular não sustentada | Recuar o fio-guia alguns centímetros — o ritmo costuma voltar em segundos, porque a causa é mecânica e está na ponta do fio | Continuar avançando para terminar logo; ou tratar a arritmia com fármaco sem antes recuar o fio |
| Fio-guia que não volta | Nada. Não há sinal clínico, não há dor, não há alteração de sinal vital — só a contagem que não fecha | Não retirar o cateter, não mobilizar o paciente sem necessidade, radiografia imediata que inclua todo o trajeto, e chamar hemodinâmica ou cirurgia vascular | Tentar puxar o cateter esperando que o fio venha junto; adiar a radiografia para o dia seguinte; deixar de notificar |
Antisséptico disponível. Antes de preparar o acesso, confira a formulação: solução bucal ou degermante de clorexidina não equivale à solução alcoólica indicada para o sítio. Se o produto previsto faltar, organize a alternativa apropriada com a equipe; a lista nacional não informa o estoque do plantão.
Lidocaína. Solução a 1% contém 10 mg/mL; a 2%, 20 mg/mL. Confira que a apresentação é injetável, calcule a dose e organize a anestesia conforme o procedimento e o paciente.
Heparina. A apresentação de 5.000 UI em 0,25 mL tem 20.000 UI/mL e não pode ser confundida com solução para manutenção do cateter. Siga o protocolo de lavagem e selamento do dispositivo; não improvise diluição a partir da apresentação disponível.
Kit completo. Cateter, fio-guia, dilatador, bisturi, curativo e barreiras são materiais do procedimento. Confira existência, integridade e adequação de cada item antes de começar, incluindo a possibilidade de reposição se houver falha ou contaminação.
Prioridades de segurança. Uma recomendação sem grau impresso numa lista não é uma etapa dispensável. Indicação, sítio, ultrassom, barreira máxima e condições da inserção devem ser avaliados em conjunto.
Riscos mecânicos e infecciosos. O preparo da pele e a manutenção previnem infecção; escolha de sítio, ultrassom e execução segura reduzem riscos da inserção. A atenção a um grupo de complicações não substitui a prevenção do outro.
Tempo de uso previsto. A previsão de acesso central por mais de 21 dias, na referência citada, orienta considerar dispositivo de média ou longa permanência. Isso é uma escolha do tipo de acesso após definir a necessidade, não uma indicação adicional para cateter curto.
Complicações por sítio. Interprete taxas gerais conforme a anatomia da punção. Pneumotórax e hemotórax são riscos dos acessos torácicos; uma lista impressa após a técnica femoral não os transforma em complicações daquele trajeto.
Unidade de vigilância. Use episódios por 1.000 cateter-dia, somando o tempo de exposição ao dispositivo. Não confunda esse denominador com cateteres inseridos por dia. Taxas de épocas e populações diferentes precisam desse contexto antes da comparação.
Paramentação e campo. Prepare o operador e a barreira máxima antes da inserção. A sequência deve contemplar gorro, máscara, avental e luvas estéreis, proteção ocular e campo amplo, conforme o capítulo de antissepsia; uma lista abreviada não autoriza omitir um item.
Volume de anestésico. 60 mL de lidocaína a 1% contêm 600 mg; a 0,5%, 300 mg. O máximo de volume de uma tabela não pode ser combinado automaticamente com a maior concentração: confira a dose total e os limites do paciente.
Menor limite de dose. Para lidocaína simples, no esquema adotado, compare 4,5 mg/kg com o teto de 300 mg. Em 78 kg, a conta por peso seria 351 mg; portanto, o limite absoluto é o menor. Use apenas a quantidade necessária, dentro do limite aplicável.
Ponta e finalidade. A definição de cateter central para vigilância pode ser mais ampla que a descrição anatômica usada no ensino. Para o cuidado, confirme a posição adequada ao uso pretendido; para o indicador, aplique a definição do serviço de controle de infecção.
Contagem do dispositivo. Para vigilância, considere a localização da ponta e as regras de uso e migração descritas. Introdutores podem entrar na contagem; dispositivos sem lúmen e sem uso para infusão, coleta ou monitorização têm outro enquadramento. A classificação não substitui a verificação de segurança.
Dias de exposição. O dia da inserção é D1, independentemente da hora; uma inserção em 06/01 chega ao D3 em 08/01. A retirada e a instalação de novo dispositivo exigem aplicar a regra de associação temporal da vigilância, com datas registradas.
Fio-guia. Controle sua extremidade durante a execução e confira o fio inteiro ao terminar. Retenção exige reconhecimento e comunicação imediatos; a resposta assistencial não depende de discutir em qual categoria administrativa o evento será registrado.
Comunicação de evento adverso. Registre o ocorrido e acione prontamente o responsável assistencial e o núcleo de segurança. O setor encarregado conduz os prazos de notificação; uma dúvida sobre a contagem do prazo não deve atrasar o cuidado ou a comunicação interna.
Lista de verificação. Adapte a conferência ao acesso: identidade, indicação, sítio, material, barreira, funções da equipe, fio-guia, confirmação final e liberação. A lista precisa ser utilizável no procedimento de beira de leito.
Continuidade do cuidado. Defina quem avalia a inserção, quem confirma a segurança para uso e como serão acompanhados sítio, funcionamento e indicação. Reconhecer complicações mecânicas e rever a necessidade diariamente fazem parte do mesmo plano.
Indicação efetiva. Relacione o acesso à terapia, à monitorização ou à substituição renal necessárias. Dificuldade de punção periférica isolada exige reavaliar alternativas e o plano infusional, como no caso de Cassio, antes de abrir um kit central.
A conduta, hora a hora
Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.
Abaixo está a trajetória do senhor Redento Salgueirinho, do pedido da residente até a liberação da via, contada do lugar em que você está: o interno que reabre a indicação, monta a mesa, posiciona, monitoriza, observa e conta. O relógio é o de uma punção feita fora da terapia intensiva, à noite, com três pessoas na sala e nenhuma quarta para chamar sem telefone. A técnica da punção em si — ângulo, ponto, profundidade — não está aqui, e o motivo está na primeira página: não é procedimento para se aprender lendo.
O segundo pedido, o do senhor Cassio Riachinho, é resolvido no primeiro marco e não volta. Isso é de propósito: a maior parte do valor deste capítulo está nos primeiros vinte minutos, antes de qualquer pacote ser aberto.
18h40 — os dois pedidos, reabertos antes de qualquer pacote
Você abre os dois prontuários e faz, em cada um, as quatro perguntas da investigação. No senhor Redento: potássio 7,1 com onda T apiculada e alargamento de complexo, indicação formal de hemodiálise hoje pelo nefrologista de sobreaviso. A indicação nacional que se aplica é acesso imediato para terapia dialítica, e ela é do procedimento, não do calibre — nenhum acesso periférico dialisa. Está justificado, e você escreve isso no prontuário nomeando a indicação. No senhor Cassio: celulite em antibiótico endovenoso, afebril há um dia, comendo e andando; o que vai correr é antibiótico e hidratação, e o que motiva o pedido é dificuldade de punção. Nenhuma das seis indicações da lista nacional se aplica. Você leva os dois ao mesmo tempo para a Dra. Setembrina, e a conversa dura dois minutos porque você chega com a lista na mão e não com uma opinião.
Prescrição- Registrar no prontuário do senhor Redento a indicação nomeada: acesso imediato para terapia de substituição renal, com o potássio e o achado eletrocardiográfico que a sustentam
- Suspender o pedido de acesso central do senhor Cassio e registrar por escrito o motivo, com as três perguntas que foram feitas e as respostas
- Reencaminhar o senhor Cassio: nova tentativa de acesso periférico com garrote, tempo e visualização assistida; se a previsão de antibiótico passar de três semanas ou a rede estiver de fato exaurida, avaliação para dispositivo de média ou longa permanência
- Conferir, nos dois, se há previsão de alta nos próximos dias — cateter passado na véspera da alta é todo o risco e quase nenhum benefício
18h55 — sítio, lado e o que o paciente cobra
O senhor Redento é renal crônico e ainda não dialisa. Isso decide o sítio por uma razão que não é de hoje: o caderno da Anvisa manda considerar, na escolha, o risco de complicações não infecciosas, e dá exatamente este exemplo — evitar a subclávia para cateteres de hemodiálise, pelo risco de estenose. Uma estenose de subclávia inutiliza o braço daquele lado para a fístula arteriovenosa que ele vai precisar em alguns meses. Sobram jugular interna e femoral. Ele está hemodinamicamente estável, não tem coagulopatia conhecida, tolera decúbito, tem pescoço de conformação normal e não está agitado. A jugular interna direita é a escolha, e o lado direito tem três motivos independentes: cúpula pleural mais baixa, ducto torácico à esquerda e trajeto mais retilíneo até o átrio direito.
Prescrição- Evitar veia subclávia em paciente renal crônico candidato a fístula arteriovenosa — recomendação expressa do caderno nacional
- Preferir o lado direito nos acessos torácicos, salvo contraindicação local
- Conferir na história e no exame: fístula prévia, marca-passo, mastectomia com esvaziamento axilar, cateter anterior, trombose conhecida
- Pedir o coagulograma se ainda não houver um do dia, sabendo que ele escolhe o sítio e o número de tentativas toleráveis, e não autoriza nem proíbe sozinho
- Se houver ultrassom, examinar a jugular antes de decidir: patência, profundidade, relação com a carótida e resposta à compressão
19h10 — consentimento, e o que a conversa apura
Você senta ao lado do leito e explica em linguagem de conversa: um tubo fino num veia grossa do pescoço, para poder fazer a hemodiálise hoje; anestesia local na pele; o que pode dar errado e o que se faz em cada caso. O senhor Redento pergunta se dói e se vai poder virar a cabeça. As duas perguntas são boas e as duas têm resposta honesta. No meio da conversa ele conta que, há dois anos, tentaram um acesso no pescoço dele do lado esquerdo e não conseguiram, e que ficou roxo por uma semana. Isso não estava no prontuário e muda a sua avaliação do lado esquerdo caso o direito falhe. Foi a conversa, e não o exame, que apurou.
Prescrição- Registrar o consentimento com o que foi conversado e com quem, e não apenas que o termo foi assinado
- Confirmar verbalmente com o próprio paciente, sempre que possível, a identificação, o procedimento e o sítio — passo do Protocolo para Cirurgia Segura de 2013
- Nomear os riscos em linguagem simples: furar a artéria do lado, entrar ar no pulmão, sangramento, infecção do cateter, batimento descompassado quando o fio passa
- Perguntar diretamente sobre punção anterior, sangramento anormal em procedimento e alergia — a conversa apura o que a ficha não tem
19h25 — a cena: posição, monitorização e a rede de segurança
Antes de qualquer pacote aberto, a cena se monta. Monitor cardíaco ligado e visível para quem punciona — é o eletrocardiograma que vai avisar, no exato instante, que o fio-guia entrou fundo demais. Oxímetro no dedo. Oxigênio ao alcance. Carro de parada conferido e disponível na ala. Acesso periférico já garantido, se possível, porque toda complicação deste procedimento se trata por outra via que não a que está sendo instalada. E a posição: Trendelenburg, com a cabeça virada para o lado oposto ao da punção. O Trendelenburg não é conforto e não é tradição — é a manobra que eleva a pressão dentro da jugular acima da atmosférica e inverte o gradiente que puxaria ar para dentro.
Prescrição- Monitor cardíaco posicionado de modo que quem punciona veja a tela sem virar o corpo
- Oximetria de pulso contínua e oxigênio suplementar disponível
- Carro de parada conferido e na ala
- Acesso venoso periférico garantido antes, sempre que possível
- Trendelenburg para jugular e subclávia; decúbito dorsal com pernas levemente abduzidas para femoral
- Testar a tolerância à posição com o paciente monitorizado antes de paramentar — se ele não tolera, a decisão de sítio muda
19h35 — a mesa, a contagem e a pausa de trinta segundos
Com a Avelina, você diz a lista em voz alta enquanto ela separa: cateter em kit, fio-guia, agulha de punção, seringas, bisturi, dilatador, fio de sutura, anestésico, gaze, luvas, capa, campo ampliado, máscara, gorro, óculos, antisséptico e curativo. Cateter e kit de reserva separados à parte, porque o cateter que falhou não volta: o caderno da Anvisa registra que cateteres para punção venosa são produtos de reprocessamento proibido e não podem ser reutilizados após insucesso. Então vem a pausa, que é a parte sem dono declarado no nível e que este capítulo toma para si: paciente confirmado, sítio e lado ditos em voz alta, consentimento colhido, material conferido — e o número de fios-guia sobre a mesa dito em voz alta. Um. A frase parece boba na primeira vez e deixa de parecer quando você entende que ela é a única barreira que existe contra um evento sem sinal clínico.
Prescrição- Conferir todo o material em voz alta com a equipe de enfermagem antes de abrir o primeiro pacote
- Separar cateter e kit de reserva — cateter usado em tentativa sem sucesso não pode ser reaproveitado
- Pausa antes da punção: paciente, sítio, lado, consentimento, material, e o número de fios-guia dito em voz alta
- Quem abre pacotes de fora não passa a mão sobre o campo montado
19h45 — barreira, antissepsia e a punção sob observação
A paramentação e a antissepsia são do capítulo Antissepsia, paramentação e campo estéril, o oitavo desta apostila, e nada disso é reescrito aqui — o que este capítulo precisa dizer é o que a régua nacional exige especificamente para o cateter central e qual é o seu papel enquanto aquilo acontece. A exigência é barreira máxima estéril: gorro, máscara, avental estéril de manga longa, luvas estéreis e óculos em todos os envolvidos na inserção, com campo estéril ampliado cobrindo o paciente da cabeça aos pés. As mesmas medidas valem para a troca de cateter por fio-guia. E o seu papel, enquanto a Dra. Setembrina punciona, tem nome e respaldo: o caderno da Anvisa determina que a inserção seja observada por profissional preparado para assegurar a técnica asséptica, e escreve que esse profissional deve ser empoderado a interromper o procedimento se houver quebra. Se a luva encostou, você fala.
Prescrição- Barreira máxima estéril para todos os envolvidos na inserção, com campo ampliado da cabeça aos pés
- As mesmas medidas na troca de cateter por fio-guia — a troca não é procedimento menor
- Preparo da pele conforme o capítulo de antissepsia desta apostila, com secagem espontânea antes da punção
- Observar a técnica asséptica com autoridade formal para interromper, e dizer em voz alta quando houver quebra
- Se a punção foi feita em emergência ou sem barreira máxima, registrar isso agora — porque gera obrigação de trocar de sítio em até 48 horas
19h55 — o fio, a incisão e o que o monitor diz
A inserção deve ser realizada por profissional habilitado ou com supervisão direta. Use ultrassom conforme técnica e sítio, confirme acesso venoso e posição do fio antes de dilatar; cor do sangue e ausência de pulsação não bastam, sobretudo no choque. Mantenha controle contínuo do fio-guia, sem soltá-lo nem forçar diante de resistência. Arritmia durante progressão exige interromper, corrigir a posição com o operador e avaliar o paciente; arritmia persistente ou instabilidade requer tratamento próprio. Ao final, retire e mostre o fio inteiro. Suspeita de dilatador ou cateter calibroso em artéria exige mantê-lo no lugar e chamar avaliação vascular especializada, sem retirada cega seguida de compressão.
Prescrição- Ocluir o canhão da agulha entre a retirada da seringa e a passagem do fio
- Fio-guia deve avançar com resistência mínima; resistência é motivo de parar e recuar, nunca de forçar
- Extrassístole no monitor durante a passagem: recuar o fio alguns centímetros e observar — a causa é mecânica
- Nunca soltar o fio-guia enquanto ele estiver parcialmente dentro do paciente
- Ao retirar o fio, olhá-lo inteiro e dizer em voz alta que ele saiu completo
- Aspirar sangue em todas as vias do cateter antes de conectar qualquer equipo, e manter as vias fechadas até conectar
20h10 — fixação, imagem, liberação da via e o que fica para amanhã
Antes de liberar a via, a equipe deve confirmar localização venosa, posição apropriada da ponta e ausência de complicação relevante por métodos validados para o sítio e o contexto. Radiografia é uma opção frequente após acesso jugular ou subclávio; ultrassom direcionado, métodos eletrocardiográficos e outros recursos têm aplicações próprias conforme protocolo e competência. Ver o fio na veia durante a punção não encerra toda a conferência. Registre método, interpretação, responsável e liberação. Mostre o fio-guia retirado, feche a contagem e programe avaliação do sítio, funcionamento e necessidade diária.
Prescrição- Fixar o cateter sem dobras e cobrir com gaze e fita adesiva estéril ou cobertura transparente semipermeável estéril
- Radiografia de tórax nos acessos por jugular e por subclávia, lida por quem passou o cateter
- Não liberar nenhuma via para uso antes da confirmação do posicionamento
- Registrar no prontuário: indicação nomeada, sítio, lado, número de tentativas, se houve ultrassom, se houve barreira máxima, intercorrências, contagem do fio-guia fechada e a hora
- Prescrever a avaliação diária do sítio por inspeção e palpação sobre o curativo íntegro, e a pergunta diária sobre a necessidade do dispositivo
- Agendar a troca de cobertura: 48 horas para gaze e fita adesiva, sete dias para cobertura transparente, e imediatamente, a qualquer momento, se estiver suja, solta ou úmida
Como saber se está funcionando
A reavaliação deste procedimento tem duas janelas com naturezas diferentes, e confundi-las é o modo mais comum de perder uma complicação. A primeira janela é de minutos e procura o que a agulha fez: ar, sangue, artéria, arritmia. A segunda é de dias e procura o que o cateter está fazendo: infecção, trombose, e a pergunta que faz o dispositivo sair.
Uma regra estrutural vale para as duas janelas e é a que mais se descumpre: quem passou o cateter reavalia. A leitura da radiografia, a conferência do refluxo, a inspeção do sítio no primeiro dia — nada disso se delega ao laudo que chega amanhã nem à passagem de plantão. E toda deterioração respiratória ou hemodinâmica nas horas seguintes a uma punção torácica reabre, até prova em contrário, a hipótese de pneumotórax ou de hemotórax do lado puncionado.
Esperado: Sem mudança em relação ao basal. O paciente que estava confortável antes segue confortável, fala frases inteiras e mantém a saturação da entrada.
Se não melhora: Dispneia, tosse ou queda de saturação depois de punção torácica é pneumotórax até prova em contrário, e o exame vem antes da imagem: ausculte os dois hemitórax e percuta. Murmúrio reduzido com timpanismo do lado puncionado fecha clinicamente; com macicez, pense em hemotórax. Dispneia de instalação abrupta no exato momento em que algo foi aberto ou desconectado, com agitação e hipotensão, é embolia gasosa até prova em contrário — e nesse caso a conduta muda a posição do paciente e não pode esperar imagem.
Esperado: Estáveis em relação ao basal do paciente. Nem hipotensão nova, nem taquicardia nova, nem arritmia sustentada.
Se não melhora: Hipotensão nova nos minutos seguintes tem três explicações que precisam ser separadas na mesma passada: hemotórax, com percussão maciça e murmúrio reduzido do lado puncionado; pneumotórax que tensionou, com timpanismo; e embolia gasosa, com dispneia e agitação desproporcionais. Nenhuma das três se resolve com volume isolado, e atribuir a queda à sedação ou ao jejum sem examinar o tórax puncionado é o erro que custa tempo.
Esperado: Curativo seco, sem abaulamento, sem massa pulsátil, sem crescimento de volume. No pescoço, traqueia central e deglutição preservada.
Se não melhora: Hematoma cervical que cresce depois de punção jugular é urgência de via aérea, não de hemostasia: a compressão externa não alcança o sangramento profundo e o volume comprime a traqueia. Chame ajuda cedo, monitorize a voz e a deglutição, e não espere estridor para pedir avaliação de via aérea. Massa pulsátil ou sopro novo sobre o sítio sugere lesão arterial e exige avaliação vascular, mesmo que o sangramento externo tenha parado.
Esperado: Ponta do cateter em projeção da veia cava superior, abaixo da primeira costela anterior e logo acima do contorno do átrio direito; trajeto sem curva anômala; ausência de pneumotórax e de derrame novo. A régua da leitura e das medidas é do capítulo Radiografia de tórax: leitura sistemática à beira do leito, que manda começar a leitura pelos aparatos e escrever a medida, não o adjetivo.
Se não melhora: Ponta intra-atrial se recua antes de usar. Trajeto que sobe para o pescoço, cruza a linha média ou faz curva fechada indica cateter em veia colateral ou mal posicionado, e a via não se libera. Pneumotórax visível interrompe o restante e o manejo passa ao capítulo Pneumotórax espontâneo (primário e secundário), na apostila de Cirurgia Torácica, que é dono da decisão de dreno e do destino — lembrando que, para o iatrogênico, a régua brasileira é mais dura: internação obrigatória mesmo em pneumotórax diminuto, e drenagem sempre obrigatória se houver ventilação com pressão positiva.
Esperado: Nada. Este parâmetro existe para você não confiar numa resposta que a imagem não deu.
Se não melhora: A radiografia não distingue com segurança cateter venoso de cateter arterial, porque a projeção de um cateter em subclávia ou em carótida pode ser muito parecida com a de um cateter venoso bem posicionado — quem responde isso é o refluxo, a curva de pressão ou a gasometria colhida pelo cateter. Ela não exclui pneumotórax pequeno em incidência de leito, com o paciente deitado, porque o ar se acumula anteriormente e não faz a linha apical clássica. Ela não exclui hemotórax incipiente, que leva horas para dar velamento. E ela não procura fio-guia sozinha: um fio metálico fino, sobreposto à coluna ou à silhueta cardíaca, passa despercebido para quem não sabe que deve procurá-lo. Se a contagem não fechou, diga isso a quem lauda, e diga por escrito no pedido.
Esperado: Sangue aspirado com facilidade por todas as vias de um cateter multilúmen — é o que o manual brasileiro descreve como sinal de que a ponta está no lúmen do vaso.
Se não melhora: Via que infunde mas não reflui pode ser ponta encostada na parede, dobra, trombo de ponta ou bainha de fibrina, e não se resolve forçando. Via que não infunde nem reflui não se desobstrui com pressão: forçar um cateter obstruído embolizza o coágulo ou rompe o cateter. E lembre que a impossibilidade de refluir em um cateter recém-passado, antes da imagem, é motivo para não liberar a via nenhuma.
Esperado: Sítio sem dor, sem hiperemia, sem secreção, com curativo íntegro — avaliado por inspeção visual e palpação sobre o curativo intacto, como determina o caderno nacional. E uma resposta escrita à pergunta: a indicação que justificou este cateter ainda existe hoje?
Se não melhora: Curativo sujo, solto ou úmido se troca imediatamente, independentemente do prazo: o atraso na troca de cobertura que perdeu a integridade associa-se a 4 a 12 vezes o risco de infecção, e é número do próprio caderno. Sinal local de infecção, complicação ou instabilidade hemodinâmica em paciente com cateter suspeito manda o cateter sair — e o diagnóstico e o tratamento da infecção de corrente sanguínea são do capítulo Febre no paciente internado e no pós-operatório, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, que ensina a colher as hemoculturas antes de remover. Se a indicação não existe mais, o cateter sai hoje: remover cateteres desnecessários é recomendação de grau I.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais frequente do capítulo e o único que produz cem por cento das complicações de um procedimento que não precisava acontecer. O pedido nasce numa passagem de plantão, atravessa turnos e chega com forma de tarefa; ninguém o reabre porque reabrir parece insubordinação. O paciente recebe todo o risco da punção, mais os dias de risco infeccioso, para uma terapia que corria por veia periférica. E o custo é duplo: além do risco imposto, cria-se o precedente de que dificuldade de punção é indicação de central — que é como um serviço inteiro passa a puncionar mais do que precisa.
Como pegar a tempo: Faça as quatro perguntas antes de abrir o primeiro pacote e nomeie por escrito qual das seis indicações nacionais se aplica. Se nenhuma se aplicar, a conversa é curta porque você chega com a lista, e não com uma opinião. E ofereça o caminho alternativo junto com a recusa: nova tentativa de periférico com meios adequados, ou avaliação para dispositivo de média a longa permanência se o plano passar de três semanas.
O dano: É o erro do capítulo com maior distância entre gravidade do gesto e aparência de bom senso. Enquanto o que entrou foi só a agulha, retirar e comprimir é a conduta certa e resolve. Depois que o dilatador ou o cateter passaram, o orifício arterial tem vários milímetros e não fecha com compressão — e, na subclávia ou na carótida profunda, não há nada para comprimir contra. Puxar transforma um problema controlado, com o cateter tamponando o próprio orifício, em hemorragia não compressível, hematoma cervical com compressão de via aérea ou hemotórax maciço.
Como pegar a tempo: Separe mentalmente os dois cenários antes de puncionar, porque na hora não há tempo de raciocinar. Agulha só: retirar e comprimir de 10 a 15 minutos sem espiar. Dilatador ou cateter já passados: deixar onde está, não tracionar, e chamar a cirurgia vascular — é a conduta que o manual brasileiro registra, ao dizer que um cateter grande colocado inadvertidamente em artéria deve ser deixado como está enquanto se aguarda o especialista. E previna: compressão sob ultrassom antes de furar responde, em dois segundos, a pergunta que a cor do sangue responde tarde demais.
O dano: Diante de dispneia súbita, o reflexo treinado é sentar o paciente, e ele acerta em quase tudo — menos aqui. Sentado, o paciente eleva a coluna de ar em direção à via de saída do ventrículo direito e piora exatamente o mecanismo que está causando o quadro; além disso, a posição sentada torna a pressão intratorácica mais negativa e mantém aberta a porta por onde o ar continua entrando. O dano é que o gesto reflexo agrava, e como o quadro é raro ninguém percebe a relação.
Como pegar a tempo: Decore a exceção junto com a regra: dispneia súbita durante ou logo após manipulação de cateter central não senta. Feche imediatamente a comunicação com o ar — clampe, tampe, ocluda o sítio —, deite o paciente em decúbito lateral esquerdo com a cabeceira baixa, dê oxigênio a cem por cento, monitorize e chame. E previna com o que já está no fluxo: Trendelenburg na punção, oclusão do canhão da agulha, vias fechadas até conectar, e paciente instruído a prender a respiração ou expirar contra resistência na conexão e na desconexão.
O dano: O fio-guia retido é o único evento deste capítulo sem sinal clínico nenhum: o paciente não tem dor, não tem febre, não tem alteração de sinal vital, e o cateter funciona perfeitamente. Ele pode ficar meses. Quando aparece, aparece como arritmia, trombose, perfuração ou achado incidental de imagem feita por outro motivo — às vezes anos depois, em outro serviço, sem que ninguém saiba de onde veio. E a radiografia de controle não o encontra sozinha, porque um fio metálico fino sobreposto à coluna ou à silhueta cardíaca só é visto por quem está procurando.
Como pegar a tempo: A barreira é a contagem, dita em voz alta duas vezes: quantos fios há na mesa antes de começar, e o fio mostrado inteiro ao terminar. Custa dez segundos e é a única defesa que existe. Se a contagem não fechar, a conduta é imediata e tem ordem: não retirar o cateter, não mobilizar o paciente sem necessidade, radiografia agora incluindo todo o trajeto possível, dizer por escrito a quem lauda que se procura um fio-guia, e acionar hemodinâmica ou cirurgia vascular. E notifique — a régua nacional de notificação e a conversa com o paciente são de A hora seguinte, na apostila de Comunicação.
O dano: É o erro que transforma um mau posicionamento, que seria só um recuo de cateter, num dano de tecido. Vasopressor infundido por cateter cuja ponta está fora do vaso, ou em posição extravascular, produz necrose local; solução hiperosmolar ou nutrição parenteral no mediastino produz mediastinite química; e um cateter arterial não reconhecido que recebe droga vasoativa produz isquemia distal. O paciente que mais precisa da droga com urgência é justamente o que menos tolera a espera pela imagem, e é por isso que o atalho é tentador.
Como pegar a tempo: A regra do manual brasileiro é curta e vale como está: liberar o uso da via apenas após confirmação do adequado posicionamento. Antes disso, o refluxo fácil de sangue em todas as vias é o primeiro filtro e não substitui a imagem. Se a urgência da droga não admite espera, ela também não admite este cateter: use o acesso periférico que você garantiu antes de começar, ou o intraósseo, e trate a urgência por lá enquanto a imagem chega.
O dano: Os dois erros são espelhos e ambos vêm de olhar o cateter em vez de olhar a indicação. Manter porque funciona acumula dias de exposição sem contrapartida — e o risco de infecção é função do tempo, não do desempenho do dispositivo. Trocar por rotina de calendário, em cateter que funciona e não tem sinal de infecção, adiciona uma punção nova, com todo o risco mecânico dela, sem reduzir infecção: o caderno nacional é explícito e dá grau I à recomendação de não substituir cateteres centrais exclusivamente em virtude do tempo de permanência.
Como pegar a tempo: Troque a pergunta. Não é este cateter está bom, é a indicação que o justificou ainda existe hoje. Se não existe, ele sai — remover cateteres desnecessários também é grau I. E as duas exceções à regra de não trocar por tempo são conhecidas e específicas: o cateter inserido em emergência ou sem barreira máxima, que muda de sítio em até 48 horas, e a troca por fio-guia, que o caderno limita a complicações não infecciosas como ruptura e obstrução. Nenhuma delas autoriza a troca de calendário.
O que dizer ao paciente e à família
Sete falas deste procedimento, com o que se diz e o que se evita em cada uma. Quatro são com o paciente e três são com a equipe — e as três da equipe são as mais difíceis, porque exigem contrariar alguém mais graduado ou admitir em voz alta que algo saiu errado.
Explicar ao paciente por que este cateter é necessário
“Senhor Redento, o exame de sangue mostrou o potássio muito alto, e isso já está aparecendo no traçado do coração. O senhor precisa fazer hemodiálise hoje, e a máquina precisa de um tubo mais grosso do que qualquer veia do braço aguenta. Por isso vamos colocar um tubo fino numa veia grossa do pescoço, do lado direito, com anestesia na pele. Enquanto ele estiver aí, o senhor vai poder virar a cabeça, mas com cuidado, e vamos olhar o curativo todo dia.”
Não diga: Dizer que é um procedimento simples ou rápido para tranquilizar. Ele não é nenhum dos dois, e a frase se volta contra você na primeira intercorrência — além de tornar impossível explicar depois por que houve complicação num procedimento que você chamou de simples.
Dizer a um paciente que ele não vai receber o cateter que já lhe prometeram
“Senhor Cassio, sei que estão furando o seu braço várias vezes por dia e que isso está sendo horrível. Falaram com o senhor sobre colocar um acesso no pescoço, e eu revi hoje: o antibiótico que o senhor está tomando corre bem por veia do braço, e um tubo no pescoço tem risco de infecção que o remédio no braço não tem. Então o plano mudou: vamos tentar de novo com quem punciona melhor aqui e com um aparelho que ajuda a achar a veia, e se o tratamento for durar semanas eu vou pedir a avaliação para um cateter diferente, que entra pelo braço e dura mais.”
Não diga: Recusar sem oferecer nada. A dificuldade de punção é sofrimento real e o pedido nasceu de um problema verdadeiro; uma recusa seca faz o paciente e a enfermagem concluírem, corretamente, que ninguém resolveu o problema deles — e o pedido volta amanhã.
A pausa em voz alta, antes de a punção começar
“Antes de começar: senhor Redento Salgueirinho, leito 4, acesso venoso central em jugular interna direita para hemodiálise, consentimento colhido e assinado. Material conferido, cateter de reserva separado. Um fio-guia na mesa. Monitor ligado, oxímetro no dedo, carro de parada na ala. Alguma coisa que eu tenha esquecido?”
Não diga: Fazer a pausa em silêncio ou de cabeça. O valor dela não está em passar pelos itens — está em cada pessoa da sala ouvir o mesmo plano ao mesmo tempo, e ter a oportunidade de discordar antes, e não depois.
Interromper o procedimento porque a técnica asséptica foi quebrada
“Para um instante. A manga do avental encostou no carro quando você virou. Vou pedir uma luva e um avental novos — a gente perde um minuto agora e não perde o cateter na semana que vem.”
Não diga: Ficar calado por hierarquia, ou dizer depois em tom de comentário. O caderno nacional é explícito ao determinar que quem observa deve ser empoderado a interromper o procedimento diante de quebra na técnica asséptica; não é atrevimento, é a atribuição que a norma lhe deu. E dizer depois não serve para nada, porque o cateter já entrou.
Dizer em voz alta que a punção pegou a artéria
“Isso é arterial. Sangue vermelho vivo, pulsátil. Só a agulha entrou — vou retirar e comprimir por quinze minutos. Ninguém pontua no outro lado enquanto isso, e vamos reavaliar o pescoço e a via aérea antes de qualquer nova tentativa.”
Não diga: Retirar em silêncio e tentar de novo do outro lado para não constranger ninguém. Punção arterial não é vergonha pessoal, é um dado clínico que muda a próxima decisão de toda a sala — e a punção do lado contralateral logo após uma complicação é justamente o cenário do dano bilateral.
Contar ao paciente que houve uma complicação
“Senhor Redento, durante o procedimento aconteceu uma coisa que eu preciso contar ao senhor. Ao passar o tubo, entrou um pouco de ar no espaço em volta do pulmão direito. O senhor está estável e já estamos cuidando disso. Vou explicar o que vai acontecer nas próximas horas e o senhor pode me interromper a qualquer momento.”
Não diga: Adiar a conversa até saber o desfecho, ou terceirizá-la para o plantão seguinte. Como se conduz a revelação, o registro e a notificação de um evento adverso é assunto do capítulo A hora seguinte, na apostila de Comunicação, que é dono disso — e a única coisa que este capítulo acrescenta é que a conversa começa hoje, com quem estava lá.
Pedir ajuda, inclusive quando o motivo é não saber
“Doutora, é a segunda tentativa e eu não estou confortável para seguir. Prefiro que a senhora assuma daqui, ou que a gente chame quem tem mais experiência com este sítio. O paciente está estável e a diálise pode esperar quarenta minutos.”
Não diga: Continuar tentando porque parar parece fraqueza. Cada tentativa adicional multiplica hematoma, punção arterial e contaminação do campo, e o número de tentativas antes de chamar é a variável que o serviço deveria ter padronizado e que quase nunca padronizou. Chamar por não saber é o único dos motivos de chamar que não tem sinal clínico — e é o mais importante.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Não existe hierarquia entre jugular e subclávia em documento nacional — só a exclusão da femoral de rotina
A única recomendação brasileira de escolha de sítio com grau I é negativa e é sobre a femoral: não puncionar femoral de rotina, pelo maior risco de infecção. Entre jugular e subclávia, o documento não estabelece preferência; manda apenas considerar o risco de complicações não infecciosas na escolha, e dá como exemplo evitar a subclávia para cateteres de hemodiálise. Essa recomendação de considerar, aliás, é uma das quatro da lista que não recebeu grau de evidência nenhum. Quem lê o documento buscando a resposta encontra um silêncio deliberado.
Caderno da Anvisa, 2ª edição, 2017, itens 2 e 3 da lista de inserção
A jugular interna é a via preferencial no paciente grave, e a subclávia é a que menos infecta
O manual brasileiro afirma que a jugular interna é a via preferencial em pacientes graves, com menor risco de complicações graves e maior risco de infecção em comparação com a subclávia — e, na descrição da subclávia, afirma o inverso ponto a ponto: menor perda acidental, curativo fixo e menor risco de infecção quando comparada à jugular. As duas frases são coerentes entre si e descrevem uma troca real, mas a soma delas não produz uma escolha: quem prioriza infecção é empurrado para a subclávia, e quem prioriza complicação mecânica é empurrado para a jugular.
Manual de cuidados intensivos em hepatologia, Manole, 2014, capítulo 48
Escolha o sítio com a equipe, considerando anatomia acessível, trombose, hemostasia, risco pleuropulmonar, necessidade futura de acesso para diálise e experiência do operador. O ultrassom e a possibilidade de compressão entram no planejamento. Registre o motivo da escolha; uma preferência geral não substitui a avaliação do paciente.
Não há limiar brasileiro para este procedimento — o quadro federal não o nomeia
O quadro do guia federal que fixa contagem mínima de plaquetas por procedimento cobre punção lombar, biópsia de medula, endoscopia, broncoscopia, biópsia hepática e cirurgias, e não nomeia cateter venoso central — conferido por busca exata sobre o documento inteiro. Nessa posição, exigir um número específico é inventar régua onde a régua não existe, e a conduta defensável é escolher o procedimento análogo, aplicar o limiar dele e registrar a analogia usada. O mesmo guia lista, entre as contraindicações formais do plasma fresco congelado, a correção de testes anormais na ausência de sangramento — de modo que a decisão de puncionar não pode ser comprada com hemocomponente.
Guia federal de uso de hemocomponentes, conforme conferido no capítulo Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir
Há limiares publicados em texto brasileiro: plaquetas abaixo de 20.000 e uso de anticoagulante oral contraindicam
O manual brasileiro lista como contraindicações do acesso venoso central as discrasias sanguíneas graves, o uso de anticoagulantes orais e a plaquetopenia abaixo de 20.000. Nessa posição existe um número, e ele é operacional no leito. O próprio manual, porém, acrescenta na mesma linha das discrasias a ressalva de que alterações da relação normatizada internacional no hepatopata não se correlacionam com risco de sangramento — o que enfraquece, dentro do próprio texto, o uso do exame como critério e desloca o peso para a avaliação clínica de sangramento.
Manual de cuidados intensivos em hepatologia, Manole, 2014, capítulo 48
Avalie história de sangramento, exame, plaquetas, anticoagulantes e o sítio proposto. A possibilidade de compressão, o ultrassom e o número de tentativas modificam o planejamento. Leve os dados ao supervisor para decidir se é seguro proceder e com que estratégia; não transforme um teste alterado isolado em indicação automática de plasma.
Trocar de sítio em até 48 horas — item 12 da lista de inserção
O documento determina que cateteres inseridos em situação de emergência ou sem a utilização de barreira máxima devem ser trocados para outro sítio assim que possível, não ultrapassando 48 horas. A lógica é de contaminação presumida na inserção: se a barreira não existiu, o dispositivo entrou colonizado, e o relógio começa a correr no momento da punção e não no aparecimento de sinal. Registre-se que este é um dos quatro itens da lista de inserção que o documento deixou sem grau de evidência.
Caderno da Anvisa, 2ª edição, 2017, seção 4.2.2, item 12
Não substituir cateter central exclusivamente em virtude do tempo de permanência — recomendação de grau I
O mesmo documento, três páginas adiante, determina com grau I que não se realize troca pré-programada de cateteres centrais, isto é, que não se os substitua exclusivamente em virtude do tempo de permanência; e limita, com grau III, as trocas por fio-guia às complicações não infecciosas, como ruptura e obstrução. Um cateter que funciona, não tem sinal local e completa 48 horas é exatamente o objeto dessa proibição — e trocá-lo de sítio significa uma punção nova, com todo o risco mecânico dela, num paciente que já tem acesso funcionante.
Caderno da Anvisa, 2ª edição, 2017, seção 4.2.5, itens 2 e 3
Distinga troca por calendário de troca por condição inadequada de inserção. Quando a assepsia não foi assegurada, planeje a substituição assim que possível, dentro do prazo descrito de 48 horas. Se uma nova punção apresentar risco imediato relevante, a equipe deve registrar a decisão e a vigilância. Um cateter adequadamente inserido não deve ser trocado apenas porque atingiu esse tempo.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, dez e quarenta da noite, unidade de terapia intensiva de oito leitos num hospital de médio porte. O senhor Climaco Japaratuba tem 71 anos, 74 quilos, operou há dois dias uma úlcera perfurada e evoluiu com choque séptico. Está intubado, sedado, em noradrenalina por acesso periférico há três horas, e a indicação de acesso central é indiscutível. Você é o interno de plantão e monta a mesa. O plantonista opta por jugular interna direita; não há ultrassom disponível na unidade naquela noite, e ele registra isso. Na segunda tentativa, refluiu sangue escuro, o fio passou sem resistência e o monitor não mudou. Feita a incisão, passado o dilatador e avançado o cateter, você percebe que a coluna de sangue sobe sozinha pelo lúmen distal e pulsa. O plantonista para a mão no ar e olha para você.
Passo 1 — nomear o que está acontecendo, em voz alta
Isto é cateterização arterial, muito provavelmente da carótida comum, e precisa ser dito com essas palavras para que a sala pare de agir por reflexo. A confirmação não depende da cor: em choque profundo o sangue arterial pode ser escuro e a saturação baixa engana. O que confirma é o comportamento — coluna que sobe sozinha contra a gravidade e pulsa em sincronia com o monitor. Se houver transdutor de pressão disponível, conecte e leia a curva; se houver gasometria rápida, colha pelo lúmen. Mas nada disso precisa acontecer antes da decisão do passo 2, que é uma decisão de não fazer.
Passo 2 — a decisão que separa susto de catástrofe: não puxar
O cateter fica onde está. Não se traciona, não se comprime o pescoço, não se retira nada. A regra é a que o manual brasileiro registra: cateter grande colocado inadvertidamente em artéria deve ser deixado como está, aguardando o especialista. O motivo é aritmético — a agulha faz um furo que a compressão fecha; o dilatador e o cateter fazem um orifício de vários milímetros numa artéria de alta pressão, num plano profundo do pescoço que a mão não alcança. Enquanto o cateter estiver dentro, ele tampona o próprio orifício. Retirado, o sangramento passa a ser interno, para dentro do pescoço, e comprime a via aérea de um paciente que já está intubado mas cuja cânula pode se tornar impossível de trocar.
Passo 3 — proteger enquanto se espera
Fixe o cateter para que ele não saia acidentalmente com a movimentação — este é o único cateter deste capítulo que se fixa justamente para não sair. Marque na pele o limite do abaulamento cervical com caneta e registre a hora, para que o crescimento seja mensurável e não impressionista. Não infunda nada por ele: qualquer droga administrada ali vai para a circulação arterial cerebral. Deixe a cabeceira em posição neutra, mantenha a sedação e a monitorização, e coloque a via aérea em vigilância explícita — pressão de balonete, posição da cânula, e ninguém extuba este paciente sem avaliação.
Passo 4 — chamar, e chamar as pessoas certas
A ligação é para cirurgia vascular, e o conteúdo dela precisa ser específico: cateter de calibre de acesso central em provável carótida comum direita, dilatador e cateter já passados, cateter mantido in situ, paciente intubado e estável, sem sangramento externo. Se o hospital não tem cirurgia vascular, a ligação é para a regulação, e ela começa agora e não depois de tentar resolver. Em paralelo, avise a hemodinâmica se houver: o reparo endovascular é opção em vários desses casos e muda o destino do paciente. E não retire o cateter durante o transporte.
Passo 5 — resolver o problema que continua existindo
O senhor Climaco continua em noradrenalina por veia periférica e continua precisando de acesso central. A tentação é puncionar do outro lado agora; a decisão correta é não puncionar nada no pescoço enquanto a lesão arterial não estiver resolvida, porque uma complicação bilateral em pescoço é o cenário que não tem saída. O sítio que sobra e que resolve é a femoral: compressível, longe do problema, e a recomendação nacional que a desaconselha usa a palavra rotina — esta situação não é rotina. Registre a razão da escolha.
Passo 6 — o registro, que é ato clínico e não burocracia
Escreva agora, com a hora: indicação, sítio, número de tentativas, ausência de ultrassom no serviço naquele momento e o registro de que isso foi anotado antes do procedimento, o achado de cateterização arterial, a decisão de manter o cateter in situ com a justificativa, os horários das ligações, e o estado do paciente a cada reavaliação. O registro da falta do aparelho é o único mecanismo pelo qual a instituição fica sabendo que o aparelho falta — e a ausência de ultrassom é, neste caso, um fator contribuinte de sistema, não um detalhe.
Passo 7 — notificar e conversar
Este é um evento adverso e entra na notificação do Núcleo de Segurança do Paciente conforme a Resolução RDC nº 36/2013 — mensal, até o 15º dia útil do mês seguinte ao mês de vigilância, e em 72 horas se houver óbito decorrente. Não é evento que nunca deveria ocorrer pela lista da Anvisa: cateterização arterial acidental não está entre os trinta itens. A conversa com a família começa hoje e é conduzida pelo plantonista, com você presente; como se faz essa conversa, o que se diz e o que se registra é assunto do capítulo A hora seguinte, na apostila de Comunicação, que é dono da revelação de evento adverso ao paciente e à família.
Faça você
Sexta-feira, três e dez da madrugada, enfermaria de clínica médica. Dona Eugenia Ibiapaba tem 66 anos, 61 quilos, internada há nove dias por pancreatite aguda grave, em jejum, com indicação de nutrição parenteral que começa amanhã de manhã. O acesso central foi passado por você e pela residente às 23h40, jugular interna direita, sob ultrassom, sem intercorrência: uma tentativa, fio passou liso, sem extrassístole, cateter fixado, curativo transparente aplicado, radiografia pedida. Às três da manhã você está lançando a evolução quando abre a foto da radiografia no sistema. A ponta do cateter está em projeção da veia cava superior, abaixo da primeira costela anterior — está boa. Não há pneumotórax. Mas você fica olhando a imagem por um tempo que não sabe explicar, e então percebe: existe uma segunda linha metálica, muito fina, que acompanha o cateter e continua além dele, descendo em direção à silhueta cardíaca. Você tenta lembrar do fim do procedimento e não consegue. Ninguém disse em voz alta que o fio saiu.
Passo 1
Antes de qualquer coisa: qual é a hipótese, e por que ela não pode ser descartada pela ausência de sintomas? Dona Eugenia está bem, dormindo, com sinais vitais normais. Diga o que isso vale como argumento.
Passo 2
Liste, na ordem, os quatro primeiros atos — e diga explicitamente qual é o ato tentador que você não vai fazer, e por quê.
Passo 3
O que você escreve no pedido do exame de imagem, e por que a redação do pedido importa aqui mais do que em qualquer outro pedido deste capítulo?
Passo 4
Este evento entra na lista brasileira de eventos que nunca deveriam ocorrer? Responda pela letra e pelo espírito do documento, e diga o que se notifica e em que prazo.
Continuidade do caso e prática do internato
No caso de Redento, organize a passagem à equipe seguinte com o método de confirmação, o responsável pela liberação e a indicação que será revista na visita.
Questão integrativa 1
Choque determina automaticamente punção de subclávia?
Questão integrativa 2
Sangue escuro e não pulsátil garante posição venosa?
Questão integrativa 3
O fio-guia não progride: insistir com mais força resolve?
Questão integrativa 4
Extrassístoles na passagem dispensam avaliação se o fio for recuado?
Questão integrativa 5
Cateter calibroso inadvertidamente colocado em artéria deve ser arrancado e comprimido?
Questão integrativa 6
O que precisa ser confirmado antes de liberar o acesso e no dia seguinte?
Ver como fecharíamos
Passo 1. A hipótese é fio-guia retido, e ela é a única deste capítulo que a ausência de sintomas não enfraquece em nada. O fio-guia retido é assintomático por definição inicial: não dói, não dá febre, não altera sinal vital, e o cateter funciona perfeitamente porque o fio está ao lado dele, não obstruindo nada. Dizer que a paciente está bem é verdade e é irrelevante como argumento diagnóstico — o que decide é a imagem e a contagem, e a contagem ninguém fez. A ausência de registro de que o fio saiu não é prova de que ficou, mas na dúvida a conduta é a mesma, porque o custo de investigar é uma imagem e o custo de não investigar é um corpo estranho intravascular por tempo indeterminado. Passo 2. Quatro atos, nesta ordem. Primeiro, não retirar o cateter — se o fio estiver ao longo dele ou preso a ele, a tração pode embolizá-lo ou fragmentá-lo, e o cateter é, no momento, a referência de trajeto. Segundo, restringir a mobilização da paciente ao necessário e não sentá-la nem transportá-la sem avaliação. Terceiro, radiografia imediata em incidência que cubra todo o trajeto possível, do pescoço à pelve, porque o fio pode ter migrado além do campo de uma radiografia de tórax convencional; a tomografia entra se a radiografia não resolver. Quarto, acionar hemodinâmica ou cirurgia vascular na mesma hora, porque a retirada endovascular por laço é o procedimento que resolve e ele não é feito por quem passou o cateter. O ato tentador que não se faz é puxar o cateter esperando que o fio venha junto: é exatamente o gesto que transforma um corpo estranho recuperável num corpo estranho fragmentado ou migrado. Passo 3. Escreva, com essas palavras, que se investiga a permanência de fio-guia metálico após inserção de cateter venoso central, com a hora do procedimento e o sítio. A redação importa porque um fio-guia é fino, radiopaco e frequentemente sobreposto à coluna vertebral, ao próprio cateter ou à silhueta cardíaca — ele é visível para quem o procura e invisível para quem não sabe que deve procurá-lo. Um laudo que diz cateter em posição adequada e não menciona o fio não exclui o fio: ele apenas responde a pergunta que foi feita. Esta é uma das coisas que a radiografia não responde sozinha, e está no bloco de reavaliação. Passo 4. Pela letra, não entra: o item 28 da lista da Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 09/2025 fala em retenção não intencional de corpo estranho em um paciente após a cirurgia, e uma punção venosa central à beira do leito não é chamada de cirurgia em nenhum documento. Pelo espírito, entra sem esforço — é exatamente o evento que a categoria pretende capturar, e a mesma lista, no item 12, usa a expressão pós procedimento para delimitar território vizinho, o que mostra que a inconsistência é de redação e não de intenção. Some-se a isso que o Protocolo para Cirurgia Segura, de 2013, declara aplicar-se a procedimentos com incisão no corpo humano dentro ou fora do centro cirúrgico, e a punção de Seldinger tem incisão. A conduta prática, que este capítulo assume por não haver documento que a resolva: notifique como evento adverso ao Núcleo de Segurança do Paciente pela Resolução RDC nº 36/2013 — mensal, até o 15º dia útil do mês seguinte, e em 72 horas se houver óbito decorrente —, e classifique-o como evento que nunca deveria ocorrer se o seu serviço adota a lista da Anvisa por analogia, registrando que a classificação foi por analogia. Enquadrar a mais e explicar por escrito é reversível; enquadrar a menos e nunca investigar não é. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Considerar ultrassom, anatomia, sangramento, compressibilidade e experiência; não atrasar terapia enquanto se organiza o acesso. 2. Não. No choque, esses sinais são especialmente pouco confiáveis; confirmar por método adequado antes de dilatar. 3. Não. Interromper e reavaliar trajeto e dispositivo com o operador, sem forçar. 4. Não. Interromper e corrigir pode resolver irritação mecânica, mas arritmia persistente ou instabilidade requer abordagem própria. 5. Não. Mantê-lo no lugar e solicitar avaliação especializada urgente para retirada planejada. 6. Primeiro posição e segurança por método validado, fio retirado e documentação. Depois, funcionamento, sítio, complicações e necessidade de permanência.
O quadro descrito é embolia gasosa venosa, e o que o define é a cronologia: dispneia súbita no exato momento em que uma comunicação com a atmosfera foi aberta. A sequência correta fecha primeiro a porta por onde o ar entra, depois muda a posição da paciente para decúbito lateral esquerdo com a cabeceira baixa, oferece oxigênio a alta fração e chama ajuda. O erro reflexo é sentar quem está dispneico, que acerta em quase todas as outras situações e agrava esta em duas frentes: eleva a coluna de ar em direção à via de saída do ventrículo direito e torna a pressão intratorácica mais negativa, mantendo aberta a porta. Retirar o cateter não fecha a comunicação, abre outra. E expandir volume sem corrigir a posição e sem ocluir não trata o mecanismo, que é obstrutivo e não de volume.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva: (1) as seis indicações da lista nacional de cateter central de curta permanência, e diga por que o sétimo item daquela lista não é uma indicação; (2) os três sítios com, para cada um, o que ele oferece, o que ele cobra e se é compressível; (3) qual é a única recomendação brasileira de escolha de sítio com grau I, e qual é o advérbio que muda tudo nela; (4) a ordem exata do que se faz diante de punção arterial, separando o cenário da agulha do cenário do cateter já passado, e diga qual é o gesto proibido em cada um; (5) a posição de emergência da embolia gasosa e a posição reflexa que a agrava. Depois pegue um adulto de 60 quilos e refaça a conta do teto de lidocaína — e diga se, nesse peso, quem manda é o teto por quilo ou o teto absoluto.
Em 30 dias
Teste de retenção longa. (1) Reconstrua a linha do tempo do senhor Redento do pedido à liberação da via, dizendo em cada marco qual é o ato do interno e qual é o mecanismo que justifica aquele ato estar naquela posição — em especial por que a monitorização e o posicionamento vêm antes de a mesa ser montada. (2) Liste tudo o que a radiografia de controle não responde, e diga, para cada item, qual é o exame ou a manobra que responde. (3) Explique, do gradiente de pressão até a manobra, por que Trendelenburg, oclusão do canhão, vias fechadas e prender a respiração na conexão são todas a mesma manobra. (4) Reconstrua a divergência interna do caderno da Anvisa entre trocar de sítio em 48 horas e não trocar por tempo, diga qual é o gatilho de cada regra e decida para um paciente concreto. (5) Confira três coisas que dependem do seu serviço e que este capítulo não pode responder: existe aparelho de ultrassom disponível para punção no plantão da noite; existe kit completo de inserção padronizado; e existe alguma regra escrita sobre quantas tentativas antes de chamar.
Agora atenda
Um paciente internado com indicação de acesso venoso central, para você treinar a decisão que este capítulo abre: reabrir a indicação antes do procedimento, escolher o sítio pelo que o paciente cobra, e reconhecer no leito a complicação que não pode esperar.
