Cirurgia Geral › Procedimentos e Vias de Acesso
O que confirma, e o que só parece confirmar
Sondagem nasogástrica e nasoentérica
Escolher drenagem ou alimentação, definir destino gástrico ou pós-pilórico e confirmar posição antes do uso e diante de suspeita de deslocamento.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 503, de 27 de maio de 2021 — dispõe sobre os requisitos mínimos exigidos para a Terapia de Nutrição Enteral. Publicada no DOU nº 101, de 31 de maio de 2021; republicada no DOU nº 136, de 21 de julho de 2021.
Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 619, de 4 de novembro de 2019, e seu anexo — Normas para atuação da equipe de enfermagem na sondagem oro/nasogástrica e nasoentérica.
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA nº 09/2025 — Orientações gerais para a notificação de incidentes relacionados à assistência à saúde.
Brasil. Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária; Fiocruz; Fhemig. Protocolo de Segurança na Prescrição, Uso e Administração de Medicamentos (Anexo 03 da Portaria GM/MS nº 2.095, de 24 de setembro de 2013).
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Responda antes de ler
Domingo, 21h50, hospital municipal sem radiologista. Mulher de 78 anos, 54 kg, sexto dia de internação por AVC isquêmico com disfagia documentada, recebeu há uma hora uma sonda nasoentérica passada pela enfermeira. A anotação diz: sonda introduzida 55 cm, prova do ar positiva em epigástrio, paciente tolerou bem, sem tosse ou cianose. A dieta enteral está prescrita para as 22h e a técnica está com o frasco na mão. O técnico de radiologia deixa o hospital em dez minutos. Qual a conduta?
O paciente que você vai ver
Domingo, vinte e uma e quarenta. Hospital municipal de noventa leitos que atende uma cidade de sessenta mil pessoas e recebe encaminhamento de outras quatro. Você cobre a noite como interno na enfermaria de clínica e cirurgia, que dividem o mesmo corredor e a mesma equipe de enfermagem à noite: uma enfermeira, Hilarina Curimata, e duas técnicas para vinte e dois leitos ocupados. O técnico de radiologia sai às vinte e duas. Depois disso, exame só com chamado, autorização do plantonista e uma hora de espera, e o aparelho móvel tem uma bateria que não segura mais de três disparos seguidos.
No leito 12 está o senhor Jarbas Espinharas, 63 anos, 78 quilos, quarto dia de pós-operatório de laparotomia por brida. Parou de eliminar flatos ontem à tarde, vomitou duas vezes desde o almoço — a segunda, verde e em jato —, e o abdome está distendido e timpânico. O cirurgião de plantão atendeu o telefone dentro do carro: manda passar sonda nasogástrica calibrosa, deixar aberta em drenagem, medir o débito, e diz que chega em uma hora. A indicação é dele e está certa. O que ele não disse é qual sonda, de que calibre, quem passa, e o que se faz se não descer.
No leito 7 está a senhora Miquelina Tupanatinga, 78 anos, 54 quilos, hemiparesia à direita depois de um acidente vascular cerebral isquêmico que a internou há seis dias, com disfagia documentada pela fonoaudiologia na sexta-feira. Ela recebeu uma sonda nasoentérica às vinte e cinquenta, passada pela Hilarina enquanto você resolvia o vômito do leito 12. A anotação de enfermagem está escrita, correta na forma e assinada: sonda nasoenteral introduzida 55 cm, prova do ar positiva em epigástrio, paciente tolerou bem, sem tosse ou cianose.
A prescrição da dieta enteral saiu impressa às seis da manhã e diz para começar às vinte e duas. A técnica do turno da noite passa no posto com o frasco na mão e pergunta se pode pendurar. São vinte e uma e cinquenta. Se você quiser radiografia, o pedido tem de sair agora — daqui a dez minutos o técnico vai embora e o exame vira chamado noturno, com o plantonista tendo de autorizar e a família perguntando por que a mãe não está comendo.
A anotação de Miquelina registra a passagem, mas não demonstra posição segura. Prova do ar e ausência de tosse não liberam a dieta. É preciso confirmar o destino da sonda, interpretar o resultado e comunicar a liberação antes do primeiro uso.
São duas sondas, duas finalidades e dois erros de natureza diferente. No leito 12, o erro possível é barato: a sonda fica no esôfago, drena pouco, você lê débito baixo e conclui que o paciente está melhorando quando ele está piorando. No leito 7, o erro possível é o que mata: mil mililitros de dieta industrializada correndo por gravidade dentro de um brônquio, ao longo de uma noite, em uma senhora de 54 quilos que não vai tossir porque o reflexo dela não está lá.
O atendimento acompanha escolha, passagem supervisionada, confirmação, fixação, manutenção e retirada. A indicação na obstrução está em “A pergunta não é se obstruiu”; a leitura da imagem, em Radiografia de tórax; e o plano nutricional, em “A linha que ninguém revisa”. Aqui, essas decisões se conectam à segurança do tubo e de seu uso.
Quem adoece disso
A sondagem gástrica é um dos procedimentos invasivos mais executados no hospital brasileiro e um dos menos medidos. Não há registro nacional de quantas sondas se passam por ano, quantas terminam na via aérea nem quantas são retiradas antes do tempo — e a revisão integrativa brasileira que reuniu a literatura sobre o tema afirma isso com todas as letras: no Brasil não há dados disponíveis sobre eventos adversos relacionados à sonda nasogástrica e nasoentérica, embora o uso dessas sondas seja comum na maioria das instituições de saúde do país. O que existe de brasileiro sobre o dano, segundo a mesma revisão, veio pela imprensa: eventos graves e fatais causados principalmente por conexão errada, com dieta enteral infundida em veia.
Como não há denominador nacional, o tamanho do problema se estima por fora. O sistema de notificação do Reino Unido registra cerca de 170 mil sondas nasogástricas e nasoentéricas inseridas por ano para nutrição e medicação; entre 2005 e 2010, foram notificadas ali 21 mortes e 79 eventos adversos graves causados por deslocamento dessas sondas. Nos Estados Unidos, entre janeiro de 2012 e julho de 2017, a agência reguladora recebeu 51 notificações de pneumotórax relacionadas à inserção de sonda nasogástrica ou nasoentérica, a maioria exigindo intervenção urgente — punção de alívio ou drenagem torácica —, e várias associadas a parada cardiorrespiratória e morte.
A fração que erra o caminho não é pequena. Um levantamento norte-americano encontrou até 3,2% das sondas inseridas na via aérea. Um estudo observacional de inserção às cegas somou 1.822 sondas nasoentéricas em 729 pacientes: em 23 deles a sonda estava em posição pulmonar e nove tiveram pneumotórax — três posicionamentos inadvertidos a cada cem pacientes, uma conta que fecha com o número que os autores publicaram. Guarde a ordem de grandeza: em uma enfermaria que passa uma sonda por dia, isso é um tubo na árvore respiratória por mês.
A revisão integrativa reuniu 69 estudos primários, quase todos em inglês e publicados nos Estados Unidos e no Reino Unido, e classificou 67 deles no menor nível de evidência — são relatos e séries de caso, não ensaios. Isso importa para ler os números com honestidade: eles descrevem bem o que acontece quando dá errado e mal a frequência com que dá. Dentro dessa amostra, a morte foi relatada em 16 artigos, e a causa principal foi o manuseio incorreto da sonda.
O grupo de complicações mais numeroso foi o respiratório, com 44 dos 69 artigos. Em dez estudos houve morte por inserção da sonda no pulmão. O evento respiratório mais frequente foi o pneumotórax, seguido de derrame pleural e de broncoaspiração relacionada à nutrição enteral. Em boa parte dos casos foi preciso drenar o tórax, e os autores relatam a drenagem de volumes consideráveis de dieta enteral, entre 300 e 900 mililitros. Esse último número é o que descreve o dano melhor do que qualquer taxa: não é uma gota que passa; é meio litro de fórmula dentro da pleura.
A revisão também é explícita sobre a causa próxima desses eventos: eles ocorreram principalmente pelo deslocamento indevido da sonda para o trato respiratório e pelos resultados inconclusivos dos métodos usados para confirmar o posicionamento. A frase é a tese deste capítulo escrita por outra pessoa. O dano não vem de um gesto difícil; vem de um teste que não testa nada e de uma equipe que confia nele.
A prevenção exige acompanhar o trajeto da sonda e sua utilização, além de reconhecer a complicação. Um incidente deve ser comunicado à equipe e ao núcleo de segurança, mesmo que não esteja nomeado de forma específica numa lista de eventos.
Quando uma radiografia é feita, alguém deve lê-la e comunicar o resultado antes de liberar a sonda. Falha nesse acompanhamento pode permitir a infusão em posição inadequada; registre quem conferiu e o que foi decidido.
O dever de notificar existe e é seu também. Pela resolução que criou os núcleos de segurança do paciente, todo serviço de saúde — público, privado, filantrópico, civil ou militar, incluindo os de ensino e pesquisa — deve ter núcleo constituído e notificar os incidentes; ficam de fora apenas consultórios individualizados, laboratórios clínicos e serviços móveis e de atenção domiciliar. Nas notificações comuns, quatro etapas do formulário são obrigatórias. Em óbito causado por evento adverso e em never event, as etapas 5 a 10 — fatores contribuintes, detecção, ações de melhoria, ações para reduzir o risco — passam a ser obrigatórias, e o serviço tem 60 dias corridos, contados da notificação inicial, para completá-las.
Do lado das complicações que não matam mas consomem o plantão, a mesma revisão organiza o que se vê na enfermaria: complicações esofágicas e faríngeas, obstrução da sonda, perfuração intestinal, perfuração intracraniana, remoção acidental, lesão por pressão relacionada à fixação e conexão incorreta. Repare que remoção acidental e obstrução aparecem como categorias próprias — não são acidente de percurso, são o comportamento esperado do dispositivo. E repare em conexão incorreta, que é a categoria brasileira: é ela que aparece nos casos graves do país.
Por fim, uma epidemiologia de processo que vale mais para você que qualquer taxa: a sonda é o dispositivo que o hospital mais esquece instalado. O capítulo de febre no paciente internado ensina o inventário diário de dispositivos justamente porque cada um deles precisa de justificativa nova a cada visita, e a sonda nasoentérica está nessa lista ao lado do cateter central e da sonda vesical. Sonda que está lá há três semanas raramente foi decidida três semanas seguidas; foi decidida uma vez e herdada vinte.
Por que acontece o que acontece
Tudo neste capítulo decorre de um fato anatômico: a faringe é um cruzamento, e o tubo que você empurra pelo nariz chega nele sem saber para que lado ir. A sonda percorre o assoalho da fossa nasal, contorna a coana, desce pela parede posterior da nasofaringe e chega à hipofaringe, onde existem duas portas quase coplanares. À frente, a laringe, aberta, sustentada por cartilagem e mantida pérvia o tempo todo porque é por ali que o ar entra. Atrás, o esôfago, fechado, um tubo muscular colabado que só se abre quando alguém deglute. Entre um destino que está sempre aberto e outro que está sempre fechado, o objeto empurrado às cegas tende ao primeiro.
Isso explica por que a posição do pescoço é técnica, e não conforto. Com o queixo fletido na direção do esterno, a parede posterior da faringe se aproxima da laringe, a epiglote bascula sobre a via aérea e o espaço que resta é o retrofaríngeo — o caminho do esôfago. Com a cabeça em extensão, o eixo se retifica e a porta que fica alinhada com a sonda é a da traqueia. A mesma posição que a intubação orotraqueal procura para achar a laringe é a que a sondagem procura evitar. Quando o paciente coopera, o gole de água somado à flexão faz melhor ainda: a deglutição fecha a laringe e abre o esfíncter esofágico superior no exato momento em que você avança.
O reflexo de tosse é o alarme desse sistema, e ele funciona bem em quem o tem: o paciente alerta tosse, fica vermelho, tira a mão da cama, e a sonda volta. O problema é que quem mais recebe sonda é justamente aquele em quem esse alarme não existe — o rebaixado, o sedado, o com sequela de acidente vascular cerebral, o idoso com demência, o intubado, o traqueostomizado. O anexo do Cofen registra isso: nos pacientes com distúrbios neurológicos, inconscientes, idosos ou traqueostomizados, o risco de mau posicionamento é maior. Daí a inversão que o interno precisa carregar para o resto da carreira: quanto menos o paciente reage, mais a sonda é indicada e menos o exame à beira do leito informa. A ausência de tosse não é sinal de que a sonda foi bem; é a ausência do único sinal espontâneo que existiria. Em quem está intubado some até a última barreira intuitiva, porque o balonete do tubo traqueal não veda o suficiente para impedir que uma sonda fina deslize ao lado dele.
O segundo mecanismo é o da prova do ar, e ele é acústico, não anatômico. Quando você injeta 20 ou 30 mililitros de ar por uma sonda e ausculta o epigástrio, o que chega ao seu ouvido é som transmitido pelos tecidos. Ar injetado no esôfago distal produz borborigmo audível no epigástrio; ar injetado num brônquio principal também, porque a distância entre o brônquio e o epigástrio é de poucos centímetros e o pulmão insuflado transmite som muito bem; ar injetado numa pleura que a sonda perfurou, também. O teste tem, portanto, a característica que o inutiliza: é positivo em todas as posições erradas que importam. Um teste que não sabe dar negativo quando a coisa está errada não separa nada. Compare com o mecanismo do que de fato confirma: a radiografia responde por geometria e não por som — a sonda é radiopaca por construção, e o que se lê é o trajeto, se ele desce pela linha média, se cruza o diafragma e onde a ponta para. Trajeto projetado sobre a árvore brônquica não tem interpretação alternativa.
O terceiro mecanismo explica o pneumotórax, e ele surpreende quem imagina a sonda como objeto mole. A sonda de alimentação é fina — 8 a 12 French — e maleável, mas é passada com um fio-guia metálico dentro, exatamente porque sem ele não desceria. Com o guia, o conjunto ganha rigidez suficiente para atravessar brônquio segmentar, romper pleura visceral e sair no espaço pleural. É por isso que a sonda fina de alimentação, que parece a mais inofensiva, é a que aparece nos relatos de pneumotórax, e a nasogástrica calibrosa de drenagem, que parece agressiva, quase nunca aparece: a calibrosa não passa da carina, e a fina com guia passa. Daí decorre uma regra que vale como física: enquanto o guia está dentro, a sonda pode furar; depois que ele sai, ela não fura mais, mas também não volta a ser dirigível. Reintroduzir um guia numa sonda já posicionada é empurrar uma ponta metálica dentro de um tubo que pode ter dobrado sobre si mesmo, e a ponta sai pela parede lateral da sonda dentro do paciente.
O quarto mecanismo é o da lesão que aparece depois, e ele é de pressão mantida. Uma sonda apoiada contra a asa do nariz por dias transmite ali pressão pequena e constante sobre pele que recobre cartilagem sem coxim de gordura: é o mesmo mecanismo da lesão por pressão em proeminência óssea, com a diferença de que a proeminência é o próprio dispositivo. Chama-se lesão por pressão relacionada a dispositivo médico, é uma das categorias que a revisão brasileira lista, e é integralmente evitável por fixação que não tracione e por inspeção diária da narina. Ao lado dela corre um mecanismo obstrutivo: o tubo que atravessa o meato médio bloqueia a drenagem dos seios paranasais do lado em que passa; secreção que não drena coloniza, e colonizada infecta. É por isso que a sinusite entra na lista curta de focos ocultos de febre no paciente com sonda há dias, e é por isso que trocar o lado da narina, quando a sonda precisa continuar, tem racional próprio.
O quinto mecanismo desmonta a ilusão mais comum a respeito deste dispositivo. O tubo cruza o esfíncter esofágico inferior e impede que ele feche por completo — é, literalmente, uma vela deixada dentro do esfíncter. O caderno de prevenção de infecção da Anvisa registra a presença da sonda nasogástrica entre os fatores que facilitam o refluxo de bactérias do estômago, ao lado do uso de bloqueadores de secreção ácida, na cadeia que termina em pneumonia. Sonda não protege da aspiração: é fator de risco para ela. O que reduz o risco é o decúbito elevado, que o mesmo caderno recomenda entre 30 e 45 graus registrando com honestidade que a evidência de impacto em mortalidade é fraca e que a medida entra por ser simples, barata, de baixo risco e de benefício potencial — e que a eficácia em crianças não está estabelecida.
O sexto mecanismo é o do entupimento, que é químico antes de ser mecânico. A fórmula enteral é uma suspensão proteica; em contato com pH ácido, a proteína precipita e adere à parede interna do tubo, e cada hora de infusão sem lavagem deposita uma camada. Medicamento triturado acrescenta partícula sólida; comprimido de liberação prolongada ou de revestimento entérico acrescenta polímero que não dissolve e nunca deveria ter sido triturado. A soma disso, num tubo de 8 French — pouco menos de 2,7 milímetros de diâmetro externo e luz bem menor —, entope em horas. É por esse motivo que a lavagem com água em volume medido é a única manutenção que funciona, e que ela é preventiva: sonda entupida raramente desentope.

Como se apresenta de verdade
Sonda é palavra que o hospital usa para objetos diferentes, e a confusão entre eles produz a maior parte dos erros pequenos e alguns dos grandes. As seções abaixo separam os dois tubos que este capítulo trata, dizem quem faz o quê no Brasil, e descrevem as quatro situações em que o interno é chamado: o paciente em quem não se passa pelo nariz, o que engasga no meio, o que fica com a sonda entupida ou fora, e o que está com sonda há semanas sem que ninguém tenha decidido isso de novo.
Em nenhuma delas o gesto é o difícil. O difícil é a decisão que vem antes e a conferência que vem depois.
As duas sondas não são o mesmo objeto
A sonda nasogástrica de drenagem é um tubo de polivinil ou polietileno, relativamente rígido, calibroso — em geral 14 a 18 French no adulto —, com orifícios laterais na porção distal e uma marcação radiopaca. Ela existe para tirar coisa de dentro do estômago: conteúdo gástrico e ar. Fica no corpo gástrico, aberta em drenagem, e o que ela produz é um número que a reavaliação usa, o débito. Não trata doença nenhuma; alivia sintoma, previne vômito e, portanto, broncoaspiração, e mede.
A sonda nasoentérica de alimentação é outro objeto. É fina — 8 a 12 French —, de poliuretano ou silicone, macia a ponto de não descer sozinha, e por isso vem com um fio-guia metálico removível. Tem ogiva de peso na ponta, marcações centimétricas ao longo do corpo e uma linha radiopaca. Ela existe para pôr coisa dentro do tubo digestivo: dieta e medicamento. Fica no estômago ou depois do piloro, e o que ela produz é oferta calórica.
As diferenças não são de grau. A calibrosa aspira secreção espessa e não colaba; a fina colaba se você tentar aspirar e entope se você não lavar. A calibrosa machuca mais nariz e esôfago quando fica dias; a fina fica semanas com menos dano local. A calibrosa raramente vai parar no pulmão, porque não passa da carina; a fina, com o guia, vai — e é por isso que a exigência de confirmação é maior justamente na que parece mais inofensiva.
Uma consequência prática que quase todo interno erra na primeira semana: não se alimenta por sonda de drenagem calibrosa mantida aberta, e não se drena por sonda fina de alimentação. Quando a prescrição diz sonda sem dizer qual, a pergunta ao prescritor não é preciosismo — é a diferença entre pedir o material certo e refazer o procedimento em uma hora.
Uma segunda consequência, esta com respaldo normativo explícito: a resolução da Anvisa sobre terapia nutricional enteral registra, no art. 53, que a sonda de administração da nutrição enteral não é de uso exclusivo, podendo ser empregada para medicamentos e outras soluções quando necessário. Ou seja, medicar pela sonda de dieta é previsto — o que não é previsto é fazê-lo sem saber onde está a ponta e sem lavar antes e depois.
Quem indica, quem passa, quem confirma
No Brasil, três textos repartem esse procedimento, e vale conhecê-los pelo nome porque eles não dizem exatamente a mesma coisa. A resolução da Anvisa sobre terapia de nutrição enteral, de 2021, diz no art. 52 que a via de administração deve ser estabelecida pelo médico ou enfermeiro, por técnica padronizada e conforme protocolo previamente estabelecido, e no art. 259 que é responsabilidade do enfermeiro estabelecer o acesso enteral, por via oro/nasogástrica ou transpilórica. No rol de atribuições do enfermeiro dentro da equipe multiprofissional, ela usa uma fórmula mais aberta: proceder ou assegurar a colocação da sonda.
A resolução do Cofen de 2019 é mais fechada, e é o texto que a enfermagem cita à beira do leito: no âmbito da equipe de enfermagem, a inserção de sonda oro/nasogástrica e nasoentérica é privativa do enfermeiro. Leia a expressão inteira. Privativa do enfermeiro no âmbito da equipe de enfermagem significa que o técnico e o auxiliar não passam — a eles compete auxiliar, monitorar, registrar e comunicar. Não significa que o médico não passa; conselho profissional regula os seus, não os de outra profissão.
O terceiro texto é o protocolo federal de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos, de 2013, que nomeia a sonda em dois pontos: manda identificar no paciente qual a conexão correta para a via prescrita, no caso de administração por sonda nasogástrica, nasoentérica ou parenteral; e manda a farmácia disponibilizar o medicamento em dose unitária ou um manual de diluição, preparo e administração, quando for necessário triturar e suspender o medicamento para administrar por sonda.
Na prática de plantão, isso se traduz em quatro linhas. A indicação é médica e é sua responsabilidade escrever para que serve a sonda. A passagem, na enfermagem, é do enfermeiro; você pode passar, e em muitos plantões vai passar, mas isso é decisão do serviço e não improviso individual. A confirmação da posição antes do uso é obrigação de quem vai usar — e quem libera dieta ou medicamento é você. E o registro é dos dois, com nomes e horários.
Repare no que nenhum dos três textos diz: como se confirma. A resolução da Anvisa manda, no art. 274, confirmar a localização da sonda e sua permeabilidade antes de iniciar a administração da nutrição enteral, e manda, no art. 260, encaminhar o paciente para exame radiológico visando a confirmação da localização. Não diz que a radiografia é o método obrigatório, não define o que basta, e não distingue a sonda gástrica da entérica. O texto do Cofen distingue: manda solicitar e encaminhar para exame radiológico no caso da sondagem nasoentérica, e para as demais fala em proceder os testes para confirmação do trajeto, sem nomear teste nenhum. É esse vazio que mantém viva a prova do ar.
O paciente em quem não se passa pelo nariz
Existe uma situação em que o caminho nasal é proibido, e ela é de trauma. Diante de fratura de face ou de suspeita de fratura de base de crânio, a sonda gástrica vai pela boca. O motivo é geométrico e o desfecho é catastrófico: com a lâmina crivosa rota, o trajeto nasal pode conduzir a sonda para dentro da cavidade craniana. O capítulo Via aérea no trauma é o dono dessa regra e a escreve na forma que se decora — no traumatizado de face, tudo entra pela boca, tubo e sonda gástrica —, e os capítulos de trauma abdominal e de trauma de pelve repetem a mesma instrução ao prescrever a descompressão gástrica. Aqui ela é assumida, não reescrita: as pistas de exame que abrem essa proibição — equimose periorbitária bilateral, equimose retroauricular, hemotímpano, rinorreia ou otorreia clara — são do capítulo de trauma cranioencefálico.
O que este capítulo acrescenta é o gesto: a via orogástrica não é a mesma sondagem com outra porta de entrada. A sonda entra pela comissura labial, corre sobre a língua e é menos tolerada por quem está acordado, porque provoca náusea com muito mais facilidade; é praticamente restrita ao paciente rebaixado ou com via aérea protegida, e é por isso que ela aparece quase sempre no doente de sala de emergência e quase nunca na enfermaria. A confirmação é a mesma, e a medida também.
Fora do trauma, quatro situações mudam a conduta e nenhuma delas é proibição absoluta. Cirurgia recente de esôfago ou estômago: a sonda cruza a linha de sutura ou de anastomose, e quem decide passar, com que sonda e até onde, é a equipe que operou — passe o telefone, não a sonda. Estenose ou obstrução alta conhecida: sonda que encontra resistência em estenose perfura, e a passagem passa a exigir visão, isto é, endoscopia. Varizes esofágicas conhecidas: o receio clássico é de laceração e sangramento, e este capítulo assume a decisão porque nenhum documento brasileiro em uso a fixa — a régua prática é que a sonda fina, lubrificada, passada sem resistência e sem forçar, é aceitável quando há indicação real, e que a ausência de indicação real é o argumento mais forte contra passar. Hemorragia digestiva alta como doença, a decisão de tamponamento com balão e a endoscopia são do capítulo Hemorragia digestiva alta.
A quarta situação é a que mais aparece na enfermaria e é a menos lembrada: o paciente sem via aérea protegida e com rebaixamento importante. Passar sonda em quem tem Glasgow baixo, sem tosse e sem proteção de via aérea aumenta o risco de a sonda ir para o lugar errado e o de vomitar e aspirar durante a passagem. Não é contraindicação formal — é a situação em que a sonda deve ser passada por quem tem mais experiência, com aspirador montado e testado ao lado, e com a decisão sobre a via aérea tomada antes, e não depois.
Anticoagulação plena e plaquetopenia grave não proíbem a sondagem, mas mudam a preparação: escolha a narina mais pérvia, lubrifique generosamente, não force, e tenha à mão o material de tamponamento nasal anterior. Epistaxe durante a passagem em paciente anticoagulado é a complicação que transforma um procedimento de cinco minutos numa noite inteira.
O paciente que engasga no meio da passagem
É o momento em que a maioria dos internos aprende o hábito errado, porque a reação instintiva — insistir mais um pouco, já que falta pouco — é exatamente a que produz o dano. O que fazer é o contrário, e cabe em uma frase: tosse, engasgo, estridor, mudança de voz, dispneia, queda de saturação ou agitação súbita durante a passagem significam recuar a sonda até a nasofaringe, deixar o paciente se recompor, e só então recomeçar.
Recuar não é retirar tudo obrigatoriamente. Recue até a marca de cerca de 15 centímetros, que é a região da orofaringe alta, espere o paciente parar de tossir e a saturação voltar, reoriente a cabeça em flexão e recomece com um gole de água se ele puder deglutir. A maior parte das passagens que engasgaram uma vez completa bem na segunda tentativa, com a cabeça mais fletida.
Há um sinal que exige mais que recuar: sonda que enrola e volta pela boca. Isso quase sempre significa que a ponta bateu na parede posterior da faringe e dobrou, e insistir só empurra a dobra. Retire inteira, cheque se a sonda não está deformada, resfrie-a se for macia demais — sonda gelada fica mais rígida e desce melhor —, e recomece pela outra narina.
E há um sinal que manda parar de vez naquela tentativa: resistência franca que não cede com pequenos movimentos de rotação. Sonda que encontra resistência real está apoiada em alguma coisa, e alguma coisa apoiada por um tubo empurrado às cegas se rompe. O anexo do Cofen lista, entre as complicações associadas a erros na introdução, exatamente esse conjunto: lesões nasais e orofaríngeas, estenose e perfuração do esôfago, pneumotórax e inserção em brônquio.
Duas coisas que o interno faz e não deveria. A primeira é passar sonda em paciente acordado sem avisar o que vai acontecer e sem combinar um sinal de parada — a mão levantada. A segunda é continuar tentando pela quarta e quinta vez. Depois de duas tentativas malsucedidas por profissional, chame outra pessoa, e depois disso considere que o caminho não é o cego: passagem sob visão, endoscópica ou com fluoroscopia, existe para esses pacientes e não é derrota.
A sonda que entope e a que sai sozinha
As duas categorias aparecem como itens próprios na revisão brasileira de eventos adversos, ao lado das complicações respiratórias, e as duas caem sempre no plantão da noite. A sonda entupida interrompe dieta e medicação; a sonda que saiu interrompe as duas e ainda cobra um procedimento novo, com todo o risco de novo.
Na sonda que entope, a sequência é fixa e a primeira medida é a que mais funciona. Água morna em seringa de 20 mililitros, com pressão suave e alternando aspiração e injeção — o movimento de vaivém desfaz o tampão melhor que a pressão contínua. Não use seringa pequena: quanto menor o êmbolo, maior a pressão gerada, e sonda fina rompe. Não use refrigerante, suco de fruta, bicarbonato caseiro nem enzima improvisada; nenhum desses tem respaldo e alguns pioram a precipitação. E não passe fio-guia por sonda posicionada, pelo motivo já descrito: a ponta metálica sai pela parede lateral do tubo dentro do paciente.
Se não desobstruir, a sonda é trocada, e a troca é o momento de perguntar por que ela entupiu. Quase sempre a resposta é uma destas três: não se lavou depois da dieta, triturou-se comprimido que não podia ser triturado, ou administrou-se medicamento sem lavar entre um e outro. As três se corrigem por prescrição, não por técnica de desobstrução.
Na sonda que saiu, a primeira pergunta não é como recolocar: é se ela ainda é necessária. Sonda que saiu no quarto dia de um paciente que já aceita dieta por boca é uma pergunta respondida pelo acaso. Se ainda é necessária, ela é passada de novo do começo, com medida nova e confirmação nova — e é aqui que muita gente erra, empurrando de volta a sonda que saiu pela metade. Sonda tracionada e reintroduzida sem ser retirada não tem posição conhecida: a ponta que estava no estômago pode estar no esôfago, e a que estava no esôfago pode ter ido para a laringe na hora em que o paciente tossiu.
Sonda que sai sozinha com frequência é um problema de fixação ou de delirium, não de sorte. Se for fixação, troque o método e inspecione a narina. Se for delirium, o capítulo de delirium no paciente internado é o dono do manejo, e ele ensina o que este capítulo apenas repete: reavaliar se o dispositivo que o paciente está puxando ainda precisa estar ali é a primeira medida, antes de qualquer contenção.
A sonda que virou paisagem
Uma sonda com três semanas raramente foi decidida três semanas seguidas. Ela foi decidida uma vez, num dia em que a decisão fazia sentido, e depois foi herdada por vinte plantões que leram a prescrição anterior e a copiaram. É por isso que o inventário diário de dispositivos, que o capítulo de febre no paciente internado ensina para caçar foco de infecção, vale também aqui e por outro motivo: cada dispositivo precisa de justificativa de hoje, não da semana passada.
Três perguntas resolvem a revisão, e elas levam menos de um minuto por leito. Primeira: qual era a indicação, e ela ainda existe? A sonda de drenagem do íleo pós-operatório perde a indicação quando o paciente elimina flatos, o débito cai e o abdome desinsufla — e continuar drenando um estômago que voltou a funcionar remove suco gástrico e produz alcalose e perda de potássio de graça. A sonda de alimentação perde a indicação quando a deglutição volta a ser segura, e quem responde isso é a avaliação de deglutição, não a impressão de que ele está comendo melhor.
Segunda: o paciente está pior por causa dela? Sonda que causou epistaxe de repetição, lesão de asa de nariz, sinusite, ou que o paciente arranca todo dia é uma sonda que está cobrando preço. Terceira: existe caminho melhor? Quando a necessidade de via alternativa passa de semanas e a deglutição não vai voltar, a conversa que precisa acontecer é a de gastrostomia — e ela é conversa de equipe, com a família dentro, não decisão de plantão.
A retirada em si não tem mistério e tem duas travas. Antes de retirar sonda de drenagem, feche-a por algumas horas e observe se o paciente vomita ou distende de novo; retirar direto de aberta em drenagem para nada é uma forma de descobrir que a indicação ainda existia. E na retirada, peça ao paciente que prenda a respiração ou expire durante o movimento, e retire de uma vez, com a sonda pinçada ou fechada, para que o conteúdo que está dentro dela não escorra para a faringe no caminho.
Uma última linha, que é de registro e é a que sobra no prontuário: escreva por que a sonda saiu. Retirada por resolução do íleo, retirada por deglutição segura documentada, retirada porque a família e a equipe decidiram não escalar para gastrostomia. Sonda que some do prontuário sem frase é sonda que alguém vai repassar amanhã, sem saber por que a primeira saiu.
Como fechar o diagnóstico
Investigar, aqui, não é pedir exame: é conferir. Seis conferências separam uma sonda bem passada de uma sonda que vai matar alguém, e cinco delas acontecem antes de a sonda entrar. A sexta é a que fecha a trava — a que decide se aquele tubo pode receber dieta ou medicamento — e é a única em que este capítulo não aceita atalho.
Elas estão na ordem em que o plantão as encontra, e não na do livro.
A pergunta que vem antes do material: para que serve esta sonda?
Antes de pedir o kit, escreva em uma linha o que a sonda vai fazer. Drenar estômago em obstrução ou íleo. Descomprimir antes de laparotomia. Alimentar quem não pode deglutir com segurança. Medicar quem não engole comprimido. Cada uma dessas respostas escolhe um tubo diferente, um calibre diferente, uma posição de ponta diferente e um nível de exigência de confirmação diferente.
A resposta também decide quem confirma o quê. Sonda de drenagem que ficou no esôfago produz um erro de leitura — débito baixo interpretado como melhora. Sonda de alimentação que ficou no brônquio produz um erro de dano. As duas precisam de confirmação; a segunda não admite que a confirmação seja feita de ouvido.
E a resposta decide se a sonda deve existir. Duas indicações frequentes não se sustentam sozinhas: passar sonda porque o paciente vomitou uma vez, e passar sonda de alimentação para prevenir aspiração em quem tem disfagia. A primeira é reflexo; a segunda é engano, porque a sonda enteral é fator de risco de aspiração e não proteção contra ela — o capítulo As três profilaxias diz isso com essas palavras ao listar os fatores de risco de broncoaspiração, e a presença de sonda nasogástrica, orogástrica ou enteral está na lista dele.
Se a sonda for de alimentação, a decisão sobre quando começar a terapia nutricional, com que fórmula, em que volume e por quanto tempo não é deste capítulo: é de A linha que ninguém revisa, que é o dono da dieta hospitalar, do jejum, da progressão e da via alternativa, e que fixa o relógio de 24 a 48 horas para iniciar a enteral quando a via oral é inviável. Aqui fica o tubo.
O que se pergunta e o que se examina antes de passar
São seis perguntas e um exame de trinta segundos, e juntos eles mudam a conduta em mais casos do que qualquer outra parte deste capítulo. Houve trauma de face ou há suspeita de fratura de base de crânio? Há cirurgia recente de esôfago, estômago ou nariz? Há estenose, tumor ou obstrução alta conhecida? Há varizes esofágicas conhecidas? O paciente está anticoagulado ou com plaquetopenia? E qual é o nível de consciência e o estado da via aérea agora?
O exame é a inspeção das duas narinas. Peça ao paciente para ocluir uma e respirar pela outra, e escolha a mais pérvia. Olhe o septo, olhe se há desvio evidente, e pergunte se ele já teve sangramento nasal ou cirurgia. Em paciente rebaixado, olhe com lanterna e escolha pela que não tem crosta nem coágulo. Esse minuto é a diferença entre uma passagem em dois minutos e uma epistaxe às onze da noite.
Depois vem o preparo, e ele é curto. Explique o que vai acontecer, com a frase inteira: vai entrar um tubo fino pelo nariz, vai incomodar, vai dar vontade de engasgar, e se você levantar a mão eu paro. Combine o sinal de parada e cumpra-o — paciente que descobre que o sinal funciona colabora com a segunda tentativa; paciente que descobre que não funciona luta.
Sente o paciente, ou eleve a cabeceira a pelo menos 45 graus se ele não senta. Deixe ao alcance da mão: a sonda, gel lubrificante, seringa de 20 mililitros, copo de água com canudo se ele puder deglutir, luvas, toalha, cuba rim, fita de fixação e — isto não é opcional — aspirador montado e testado. Aspirador que se vai buscar depois do vômito não é aspirador.
Sobre lubrificante e anestésico tópico, vale saber o que a farmácia pública de fato entrega. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 traz lidocaína em gel a 2%, que é 20 miligramas por grama, e em solução spray a 10%, que é 100 miligramas por mililitro, ambas no Componente Básico. Isso significa que dá para lubrificar e anestesiar com o que existe na farmácia da unidade, e significa também que a dose se conta em miligramas, não em jatos: a conversão está na tabela do bloco seguinte, e quem administra anestésico tópico sem saber quantos miligramas colocou está administrando um número que desconhece.
Os materiais da sondagem — a sonda em si, o fio-guia, a seringa, a fita — não constam da Rename por escopo, e não por ausência: aquela é uma relação de medicamentos, não de produtos para a saúde. Dizer que a sonda não está na Rename seria tão útil quanto dizer que o estetoscópio não está.
A medida: o que o estudo brasileiro mediu, e o que ele não mediu
A medida externa clássica se chama nariz-orelha-xifoide: da ponta do nariz ao lóbulo da orelha, e do lóbulo ao apêndice xifoide, somando os dois segmentos. Ela é velha e é fraca. O estudo que a consagrou mediu 105 pessoas, das quais 95,1% eram cadáveres e 4,9% voluntários vivos, e obteve correlação de 0,522 com a distância até o esfíncter esofágico inferior. Outro trabalho mostrou que essa medida falhou em posicionar a sonda dentro do estômago em 28% da amostra de cadáveres adultos.
O Brasil tem um estudo próprio sobre isso, e ele é justamente uma das referências do anexo do Cofen — o que faz dele a melhor coisa disponível para o interno brasileiro que quer um número com procedência. Publicado em 2013, mediu 140 pacientes submetidos a endoscopia digestiva alta e comparou medidas externas com a distância interna dos incisivos superiores até a linha zeta, a transição do epitélio do esôfago para o do estômago.
Os números que interessam. A distância interna teve média de 40,83 centímetros, com desvio-padrão de 3,16, mínimo de 32,50 e máximo de 51,00 — repare na amplitude de quase 19 centímetros entre a menor e a maior pessoa da amostra, que é o argumento definitivo contra usar um número fixo para todo mundo. A medida do lóbulo da orelha ao apêndice xifoide teve média de 36,88 e foi a que melhor previu a distância interna, com coeficiente de correlação de 0,750. A da ponta do nariz ao lóbulo da orelha teve média de 15,13 e desvio-padrão de apenas 0,90 — é o segmento mais constante do corpo humano nesse trajeto. A altura em pé previu quase tão bem quanto, com 0,727.
Agora a leitura que muda o gesto, e ela é minha e não do artigo, por isso vai declarada como leitura. Tudo o que esse estudo prevê é uma distância interna, contada a partir da boca. O que você faz à beira do leito é medir um comprimento externo a partir da narina. Os dois números diferem pelo segmento nariz-orelha, que nessa mesma amostra vale 15,13 centímetros em média. Quem tomar a medida do lóbulo ao xifoide — 36,88 na média — como profundidade de introdução pela narina vai parar cerca de 15 centímetros antes do estômago, isto é, no esôfago. Some os dois segmentos e a média da amostra vira 52,01 centímetros até a transição esofagogástrica, que é exatamente a faixa de introdução que a prática usa no adulto.
Os próprios autores acrescentam uma correção, e ela existe para afastar a ponta da transição: sugerem somar à medida do lóbulo ao xifoide a distância do xifoide ao ponto médio do umbigo, para que a extremidade fique no antro e não junto ao esfíncter. Nessa amostra o segmento xifoide-umbigo vale 17,73 centímetros; somado ao trajeto medido da narina, o alvo antral fica em torno de 69,7 centímetros. Esses valores descrevem a amostra e a proposta dos autores; não definem comprimento universal nem confirmam posição em cada paciente.
A medida externa estima o comprimento inicial conforme técnica e dispositivo, mas não comprova posição. Registre a marca e confirme o destino por método validado. Médias de uma amostra não autorizam fixar todos os adultos em 65–75 cm nem somar um segmento para garantir antro ou passagem pelo piloro.
E guarde a limitação com a mesma clareza com que guardou o número: nenhuma medida externa confirma posição. Ela dita até onde ir; ela não diz onde você chegou.
O que confirma a posição — e o que só parece confirmar
Esta é a trava do capítulo, e ela se escreve como regra e não como recomendação: nada entra por uma sonda nova antes de a posição estar confirmada por imagem. Nada significa nada — nem dieta, nem medicamento diluído, nem água, nem contraste, nem a primeira dose do anticonvulsivante que atrasou.
A prova do ar não confirma. Injetar 20 ou 30 mililitros de ar e auscultar borborigmo no epigástrio produz som audível com a ponta no esôfago, no brônquio principal e na pleura, porque o som é transmitido pelos tecidos e não localizado por eles. Um teste que dá positivo em todas as posições erradas que importam não separa a certa das erradas. A revisão brasileira de eventos adversos atribui os danos respiratórios, com essas palavras, ao deslocamento indevido da sonda e aos resultados inconclusivos dos métodos usados para confirmar o posicionamento.
O paciente não ter tossido não confirma. É o argumento mais frequente e o mais frágil, porque ele confunde ausência de alarme com ausência de fogo. Em quem está rebaixado, sedado, com sequela neurológica ou intubado, o reflexo que produziria a tosse não está lá; o próprio anexo do Cofen registra que é nesses pacientes que o risco de mau posicionamento é maior. A frase paciente tolerou bem, sem tosse é uma anotação verdadeira sobre o conforto do procedimento e uma informação nula sobre a posição da ponta.
A aparência do aspirado não basta para liberar uso. Para destino gástrico, pH de 1 a 5,5, medido com fita apropriada e por equipe treinada em protocolo validado, é um método aceito. Supressores de ácido e alimentação podem elevar o pH: resultado fora da faixa não prova posição pulmonar, mas impede essa confirmação e exige outro método. Não usar pH para afirmar que a ponta está além do piloro.
A radiografia confirma. Ela responde por geometria: o trajeto desce pela linha média, cruza o diafragma, e a ponta para em algum lugar que se descreve com uma medida e não com um adjetivo. A leitura dela é do capítulo Radiografia de tórax, que é o dono da conferência de dispositivos e que escreve a régua que este capítulo apenas obedece — antes de liberar dieta ou medicação por sonda nova, confirmar na imagem que a extremidade cruzou o diafragma e está no estômago, no caso da gástrica, ou além do piloro e à direita da linha média, no caso da entérica; trajeto ou ponta projetados sobre brônquio ou campo pulmonar mandam suspender, retirar e reavaliar; trajeto ambíguo pede segunda incidência antes de liberar.
As duas normas brasileiras em vigor mandam confirmar, e divergem sobre quando a imagem é exigida. A resolução da Anvisa de 2021 manda, no art. 274, confirmar a localização e a permeabilidade da sonda antes de iniciar a nutrição enteral, e atribui ao enfermeiro, no art. 260, encaminhar o paciente para exame radiológico visando a confirmação da localização, sem restringir isso a um tipo de sonda. A resolução do Cofen de 2019 atribui ao enfermeiro solicitar e encaminhar para exame radiológico no caso da sondagem nasoentérica e, para as demais, proceder os testes para confirmação do trajeto — sem nomear teste algum. Esse é o vazio dentro do qual a prova do ar sobreviveu, e é a divergência que o bloco de divergências desenvolve.
Uma última confirmação, que não é da sonda e sim do sistema: a radiografia só confirma se alguém a olhar. A lista brasileira de eventos que nunca deveriam acontecer não contém a sonda mal posicionada, mas contém óbito ou lesão grave resultante de falha no acompanhamento ou na comunicação dos resultados de exames radiológicos. Uma imagem feita às vinte e duas horas, com a sonda no brônquio, e uma dieta iniciada às vinte e duas e dez porque ninguém abriu o exame, é um evento sentinela notificável no Brasil.
A radiografia: o que o pedido precisa dizer
O pedido de imagem é ato médico e a justificativa é sua. Escreva no campo de indicação clínica a pergunta que o exame deve responder, e não o motivo da internação: conferir posicionamento de sonda nasoentérica antes do início da dieta responde alguma coisa; controle não responde nada. A norma sanitária que rege isso — a mesma que o capítulo de radiografia de tórax detalha — exige justificação, otimização e limitação de dose, e proíbe procedimento radiológico sem solicitação de profissional habilitado. Pedido verbal no corredor não é pedido.
A incidência é tórax, e não abdome, porque a pergunta central é excluir trajeto respiratório; ela precisa incluir o diafragma e o andar superior do abdome, e por isso vale escrever no pedido que a região de interesse vai da laringe ao epigástrio. Em aparelho móvel, registre a postura em que a imagem foi obtida, porque isso muda a leitura de tudo o que não é a sonda.
Quando a imagem não sai agora — e no hospital pequeno ela frequentemente não sai —, a decisão não é liberar a dieta com a prova do ar. É esperar. Dieta enteral não é medicamento de horário crítico: adiar oito horas o início de uma nutrição que já esperou seis dias não muda desfecho nenhum, e o capítulo que é dono do relógio da terapia nutricional trabalha com uma janela de 24 a 48 horas, não de minutos. Escreva na prescrição, com todas as letras, que a dieta está suspensa até confirmação radiológica, e escreva o horário previsto do exame — porque prescrição sem prazo vira dieta liberada pelo turno seguinte.
O que muda essa conta é o medicamento que não pode esperar. Anticonvulsivante em quem já convulsionou, antibiótico na primeira dose de uma sepse, antirretroviral em esquema que não admite falha: nenhum desses espera oito horas por uma radiografia. E nenhum deles justifica usar uma sonda não confirmada. A saída é outra: converta para a via intravenosa, que existe para quase tudo o que é urgente, e deixe a sonda para depois do exame. Trocar de via é decisão de dois minutos; dieta no brônquio é decisão de uma vida.
Depois que a posição estiver confirmada, anote no prontuário a medida externa que ficou e a data do exame. Toda checagem posterior — antes de cada dieta, antes de cada medicamento, depois de cada episódio de tosse, vômito ou agitação — passa a ser a comparação entre a marca de hoje e a marca registrada. Marca que mudou é sonda que migrou até prova em contrário, e sonda que migrou volta à fila da imagem.
O que se registra
O registro deste procedimento é curto e é o que sobra quando alguma coisa der errado. Ele tem sete campos e cabe em três linhas de evolução: indicação, tipo e calibre da sonda, narina utilizada, comprimento introduzido em centímetros, intercorrências durante a passagem, método de confirmação com data e hora, e a decisão sobre liberação de dieta ou medicamento.
A obrigação de registrar não é editorial. A resolução do Cofen atribui ao enfermeiro registrar em prontuário todas as ocorrências e dados referentes ao procedimento, e ao técnico proceder o registro das ações de forma clara, precisa e pontual. A resolução da Anvisa manda garantir o registro claro e preciso das informações relacionadas à administração e à evolução do paciente — peso, sinais vitais, tolerância digestiva — e manda detectar, registrar e comunicar as intercorrências de qualquer ordem à equipe multiprofissional e ao médico responsável. Se você libera a dieta, a linha que diz por que você liberou é sua.
Duas frases que não devem entrar no prontuário porque não informam nada, e uma que deve. Não escreva sonda bem posicionada sem dizer como se soube; não escreva prova do ar positiva como se fosse confirmação. Escreva: sonda nasoentérica 12 French, narina direita, introduzidos 70 cm, sem intercorrências, posição confirmada em radiografia de tórax de 21/09 às 22h35 com extremidade abaixo do diafragma à direita da linha média; dieta liberada às 22h50.
E registre o que não foi feito. Radiografia indisponível no turno, dieta suspensa até confirmação, exame solicitado para as 7h — essa linha protege o paciente do plantão seguinte melhor do que qualquer outra, porque ela transforma uma omissão em uma tarefa com dono e horário.
A trava, as tabelas e o que não fecha nos documentos
Separe três decisões: para que serve a sonda, onde sua ponta deve ficar e como isso será confirmado. Medida externa, boa tolerância e prova do ar não demonstram posição segura. Após a liberação, mantenha cuidados e reavalie sempre que houver suspeita de deslocamento.
- 1Passo 0 — Escreva em uma linha para que serve esta sonda. Drenar, descomprimir, alimentar, medicar. Se a linha não sai, a sonda não tem indicação; um vômito isolado não é indicação, e prevenir aspiração não é indicação porque a sonda aumenta esse risco em vez de reduzi-lo.
- 2Passo 1 — Escolha o tubo pela finalidade, não pelo que sobrou no carrinho. Drenagem pede calibrosa de polivinil, 14 a 18 French no adulto. Alimentação pede fina de poliuretano ou silicone com fio-guia, 8 a 12 French. Alimentar por sonda de drenagem aberta e drenar por sonda fina são os dois erros de material mais comuns.
- 3Passo 2 — Faça as seis perguntas que proíbem ou mudam o caminho: trauma de face ou suspeita de fratura de base de crânio; cirurgia recente de esôfago, estômago ou nariz; estenose, tumor ou obstrução alta; varizes esofágicas conhecidas; anticoagulação ou plaquetopenia; nível de consciência e estado da via aérea. A primeira, quando positiva, muda a via para a boca — e a regra é do capítulo Via aérea no trauma.
- 4Passo 3 — Inspecione as duas narinas e escolha a mais pérvia. Trinta segundos aqui evitam a epistaxe da meia-noite.
- 5Passo 4 — Explique, combine o sinal de parada e cumpra-o. Sente o paciente ou eleve a cabeceira a pelo menos 45 graus. Monte a mesa e teste o aspirador antes de abrir a sonda.
- 6Passo 5 — Meça e marque antes de introduzir. Da narina ao lóbulo da orelha, do lóbulo ao apêndice xifoide. Para sonda de alimentação com alvo antral, acrescente do xifoide ao ponto médio do umbigo. Marque com fita e anote o número.
- 7Passo 6 — Lubrifique bem. Se usar anestésico tópico, conte a dose em miligramas pela tabela de conversão, não em jatos.
- 8Passo 7 — Introduza com o queixo fletido em direção ao esterno, avançando devagar e pedindo goles de água a quem pode deglutir. Extensão do pescoço alinha a sonda com a traqueia; flexão alinha com o esôfago.
- 9Passo 8 — Ao primeiro sinal de tosse, engasgo, estridor, mudança de voz, dispneia, queda de saturação ou agitação súbita: recue até cerca de 15 centímetros, espere, reoriente a cabeça e recomece. Sonda que enrola e volta pela boca sai inteira e recomeça pela outra narina. Resistência franca não se vence empurrando.
- 10Passo 9 — Depois de duas tentativas malsucedidas por profissional, chame outra pessoa. Depois disso, o caminho deixa de ser o cego: passagem sob visão endoscópica ou fluoroscópica existe para esses pacientes.
- 11Passo 10 — Retire o fio-guia assim que a sonda estiver na marca, e não o reintroduza nunca com a sonda dentro do paciente.
- 12Passo 11 — Fixe sem tracionar, com a sonda apoiada de forma que não pressione a asa do nariz, e de modo que a marca externa fique visível. A fixação é o que impede a lesão por pressão e o que permite ver a migração.
- 13Não administrar dieta, água ou medicamentos antes de confirmação validada. Para destino gástrico, pH do aspirado entre 1 e 5,5 pode confirmar em protocolo treinado; pH fora da faixa, ausência de aspirado, dúvida ou destino pós-pilórico exige o método apropriado, frequentemente radiografia. Neste caso, aguardar leitura e liberação documentada.
- 14Na radiografia, avaliar todo o trajeto e a posição compatível com o destino definido, sem decidir só pela ponta abaixo do diafragma ou à direita da linha média. Imagem ambígua exige revisão qualificada e exame adequado antes do uso. Posição respiratória exige suspender uso, retirar com a equipe e avaliar complicações.
- 15Passo 14 — Registre em três linhas: indicação, tipo e calibre, narina, centímetros introduzidos, intercorrências, método de confirmação com data e hora, e a decisão sobre liberar dieta ou medicamento.
- 16Passo 15 — Mantenha: cabeceira elevada de forma contínua, lavagem com água em volume medido antes e depois de cada dieta e de cada medicamento, e conferência da marca externa antes de cada uso e depois de cada episódio de tosse, vômito ou agitação.
- 17Passo 16 — Reveja a indicação todos os dias, no mesmo momento em que revê os outros dispositivos. Sonda que não tem indicação de hoje sai hoje — fechada e observada antes, se for de drenagem.
Quando o nariz não é a via, e o que se faz então
Fratura de face ou suspeita de fratura de base de crânio: a sonda gástrica vai pela boca, porque com a lâmina crivosa rota o trajeto nasal pode alcançar a cavidade craniana. As pistas de exame são do capítulo de trauma cranioencefálico — equimose periorbitária bilateral, equimose retroauricular, hemotímpano, rinorreia ou otorreia clara — e a regra é do capítulo Via aérea no trauma: no traumatizado de face, tudo entra pela boca, tubo e sonda gástrica. Cirurgia recente de esôfago ou estômago: quem decide é a equipe que operou. Estenose ou obstrução alta conhecida: a passagem passa a exigir visão endoscópica. Varizes esofágicas conhecidas: nenhum documento brasileiro em uso fixa regra, e este capítulo assume a decisão — sonda fina, bem lubrificada, sem forçar, e só com indicação real. Paciente rebaixado sem via aérea protegida: não é proibição, é a situação em que a sonda é passada por quem tem mais experiência, com aspirador testado ao lado, e depois de a via aérea ter sido decidida.
Os dois tubos: para que serve, onde para, e o que exige antes de ser usado
| Finalidade | Tubo e calibre no adulto | Onde a ponta fica | O que libera o uso |
|---|---|---|---|
| Drenar estômago em obstrução, íleo ou vômito incoercível | Nasogástrica de polivinil, 14 a 18 French | Corpo gástrico, aberta em drenagem | Radiografia mostrando a extremidade abaixo do diafragma; débito e permeabilidade conferidos |
| Descomprimir antes de laparotomia ou de transporte | Nasogástrica de polivinil, 14 a 18 French | Corpo gástrico | Radiografia; na sala de emergência, a conferência entra junto com a do tubo traqueal |
| Alimentar quem não pode deglutir com segurança | Nasoentérica de poliuretano ou silicone com fio-guia, 8 a 12 French | Destino definido pela indicação: gástrico ou pós-pilórico, confirmado por método apropriado; lateralidade da ponta isolada não basta. | Radiografia lida antes da primeira dieta; nenhuma outra prova substitui |
| Medicar quem não engole comprimido | A mesma sonda da dieta, que não é de uso exclusivo | A mesma posição | Radiografia lida antes da primeira dose; lavagem com água antes e depois de cada medicamento |
| Administrar contraste hidrossolúvel no teste da obstrução | Nasogástrica já posicionada | Corpo gástrico | Posição já confirmada por imagem; a indicação e o protocolo são do capítulo de obstrução intestinal |
| Descontaminação gástrica em intoxicação | Fora do escopo deste capítulo | — | A indicação, a janela de 60 minutos e a exigência de via aérea protegida são dos capítulos de intoxicação exógena |
O que cada teste responde, e o que ele não responde
| Método | O que ele responde | O que ele não responde | Libera dieta ou medicamento? |
|---|---|---|---|
| Ausculta do epigástrio após injetar ar (prova do ar) | Que há ar em algum lugar do tórax ou do abdome alto e que o som chega ao epigástrio | Onde a ponta está: é positivo com a sonda no esôfago, no brônquio principal e na pleura | Não, em nenhuma circunstância |
| Ausência de tosse durante a passagem | Que o procedimento foi confortável | Nada sobre a posição, e menos ainda em quem está rebaixado, sedado, com sequela neurológica ou intubado | Não |
| Aspiração de conteúdo pela sonda | Que há líquido de aspecto digestivo ao alcance da ponta, quando vem | Nada quando não vem: a sonda fina colaba e o estômago vazio não devolve líquido | Não isoladamente; secreção clara ou espumosa é sinal de alarme |
| pH do aspirado para destino gástrico | Faixa de 1 a 5,5, fita apropriada e protocolo validado | Supressão ácida ou dieta pode elevar o pH; ausência de aspirado ou resultado fora da faixa exige outro método | Pode confirmar posição gástrica nas condições do protocolo; não confirma posição pós-pilórica |
| Marca externa conferida contra a marca registrada | Se a sonda migrou desde a última confirmação | Onde ela estava na primeira vez | Não em sonda nova; serve para checagem antes de cada uso depois da confirmação inicial |
| Radiografia com o trajeto e a ponta visíveis | O trajeto, se cruza o diafragma, e onde a extremidade para | O que aconteceu depois do exame, se a sonda foi tracionada | Sim, e é o único que sim |
Conversões desta sondagem, recalculadas contra a apresentação real
| Item | Apresentação | Conta | Onde entra |
|---|---|---|---|
| Calibre 8 French | Escala francesa: 1 French vale um terço de milímetro de diâmetro externo | 8 ÷ 3 = 2,67 mm | Sonda de alimentação mais fina; luz interna bem menor que isso, o que explica o entupimento |
| Calibre 12 French | Mesma escala | 12 ÷ 3 = 4,00 mm | Sonda de alimentação de calibre médio; melhor tolerância à trituração de medicamento |
| Calibre 16 French | Mesma escala | 16 ÷ 3 = 5,33 mm | Sonda de drenagem no adulto; aspira secreção espessa sem colabar |
| Lidocaína gel 2% | 20 mg/g, tubo de uso tópico, Componente Básico da Rename 2024 | 1 g de gel = 20 mg; 2 g = 40 mg | Lubrificação e anestesia da narina; a dose se conta em miligramas, não em porções |
| Lidocaína solução spray 10% | 100 mg/mL, Componente Básico da Rename 2024 | 1 mL = 100 mg; 0,5 mL = 50 mg | Anestesia da orofaringe no paciente colaborativo; é a apresentação em que se perde a conta mais rápido |
| Metoclopramida injetável | 5 mg/mL, Componente Básico da Rename 2024 | 10 mg = 2 mL = uma ampola de 2 mL | Procinético na intolerância à dieta gástrica; a dose citada pela diretriz brasileira é 10 mg três vezes ao dia |
| Eritromicina intravenosa | Não consta da Rename 2024 em nenhuma apresentação injetável | — | É o procinético de primeira linha da diretriz brasileira do paciente grave, e não existe no elenco do Sistema Único de Saúde |
| Água de lavagem da sonda | Água potável ou filtrada, medida em seringa | 20 a 30 mL antes e depois de cada dieta e de cada medicamento; entra no balanço hídrico | Única manutenção que previne entupimento; o volume é prescrição, não gesto |
| Clorexidina solução bucal 0,12% | Componente Básico da Rename 2024 | — | Higiene oral do paciente com sonda; a colonização da orofaringe é a via de onde vem a pneumonia |
Procinético e via. Eritromicina oral não substitui automaticamente a apresentação intravenosa descrita para intolerância alimentar do paciente grave. Confirme formulação, disponibilidade e alternativa com a equipe; metoclopramida aparece como opção na referência citada, conforme o contexto clínico.
Comparação de regimes. Eritromicina 100–250 mg três vezes ao dia equivale a 300–750 mg/dia. Um esquema de 3–7 mg/kg/dia resulta em 234–546 mg/dia para 78 kg e 162–378 mg/dia para 54 kg. Os regimes não são equivalentes: não combine seus limites e defina qual foi prescrito.
Leitura de percentuais. No estudo com 140 pacientes, 80 correspondem a 57,14% e 60 a 42,86%. Uma inconsistência percentual não muda os totais da amostra; use esses totais ao interpretar sua composição.
Correlação e confirmação. Correlação entre medida externa e distância interna descreve associação numa amostra. Mesmo uma associação forte não demonstra o trajeto nem a posição segura da sonda de um paciente; é necessário o método de confirmação definido.
Distância estudada. Verifique de onde até onde uma medida foi feita antes de aplicá-la. Valores dos incisivos à transição esofagogástrica não representam, diretamente, o comprimento a introduzir pela narina.
Trajeto oral e nasal. A medida externa começa na narina; a endoscópica descrita começa nos incisivos. O segmento nariz-orelha não pode ser trocado pelo segmento orelha-xifoide ao converter a referência. Meça o paciente e mantenha a confirmação como etapa separada.
Medida composta. No exemplo do estudo, 36,88 + 17,73 − 15,13 = 39,48 cm, praticamente os 39,47 cm publicados por arredondamento. A fórmula deve ser entendida pelos segmentos que soma e subtrai; o resultado não é, por si só, uma marca de inserção.
Comprimento individual. As médias de 52,01 cm e 69,74 cm ilustram trajetos e alvos diferentes na amostra descrita. Não são comprimentos universais nem prova de posição gástrica ou pós-pilórica. Defina o destino, meça conforme a técnica e confirme antes do uso.
Rotina de sondagem. Defina indicação, executor, destino e método de confirmação no protocolo do serviço. Uma referência antiga ajuda a compreender o procedimento, mas não substitui a sequência assistencial adotada pela equipe.
Comunicação antes do uso. A passagem da sonda deve ser seguida de informação explícita sobre sua confirmação e liberação. Uma anotação de boa tolerância não informa que a posição foi demonstrada.
Confirmação. Dieta, água e medicamentos aguardam método validado para o destino. No protocolo treinado descrito, pH do aspirado de 1–5,5 pode confirmar posição gástrica; ausência de aspirado, valor fora da faixa, dúvida ou destino pós-pilórico requerem avaliação apropriada, frequentemente radiografia.
Registro da liberação. Anote método, resultado, data, hora e responsável. Se a imagem for necessária, obter a radiografia e interpretá-la são etapas diferentes; a sonda permanece sem uso enquanto a posição não estiver esclarecida.
Incidente com a sonda. Suspeita de posição respiratória ou infusão indevida exige suspender o uso, acionar a equipe e avaliar o paciente. A assistência e a comunicação ao núcleo de segurança têm prioridade sobre a classificação administrativa do evento.
Denominador dos eventos. Estudos podem contar pacientes, sondas ou relatos. No exemplo de 23 posições pulmonares entre 729 pacientes, a proporção é 3,155%; o mesmo estudo descreve 1.822 sondas. Não transporte a proporção para outro denominador ou para uma frequência local sem essa distinção.
Calibre French. 1 Fr corresponde a um terço de milímetro de diâmetro externo: 8 Fr = 2,67 mm; 12 Fr = 4 mm; 16 Fr = 5,33 mm; 18 Fr = 6 mm. A luz interna é menor por causa da parede, o que ajuda a entender a obstrução das sondas finas.
Apresentações tópicas. Lidocaína gel a 2% contém 20 mg/g e spray a 10%, 100 mg/mL. Confira a dose total e as instruções do produto. Sonda, fio-guia, seringa e fixação devem ser conferidos separadamente como materiais, não como medicamentos.
Contexto dos números. Os eventos internacionais citados pela revisão brasileira descrevem danos possíveis e condições de notificação. Não representam uma taxa brasileira nem dispensam a vigilância do próprio serviço sobre passagem, confirmação, uso e deslocamento.
A conduta, hora a hora
Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.
A noite abaixo é a da cena, com os dois leitos correndo em paralelo, e ela é escrita do ponto de vista de quem tem de decidir sem radiologista, sem plantonista na casa e com o técnico de raios indo embora em dez minutos. As prescrições são as linhas que efetivamente entram na folha; o que está fora delas é conversa, e conversa também é conduta.
21h50 — a dieta que ia começar em dez minutos
A anotação de 55 cm, ausculta epigástrica e ausência de tosse descreve a passagem, mas não confirma posição segura. Suspenda o uso e explique à equipe a pendência. No caso, organize radiografia que permita avaliar todo o trajeto e o destino pretendido, com interpretação por profissional habilitado e registro de liberação. Para sonda destinada ao estômago, um protocolo validado pode usar pH de aspirado na faixa segura; isso não confirma localização pós-pilórica. Ausculta após insuflar ar nunca substitui esses métodos.
Prescrição- Suspender a dieta enteral até confirmação radiológica da posição da sonda — registrar o motivo na prescrição e na evolução, com horário.
- Radiografia de tórax, incidência única, no leito, com indicação clínica escrita: conferir posicionamento de sonda nasoentérica antes do início da dieta; região de interesse da laringe ao epigástrio.
- Manter cabeceira elevada entre 30 e 45 graus de forma contínua.
- Nada por sonda até a leitura do exame — inclui água, medicamento e a lavagem de rotina.
- Rever a prescrição das 22h à procura de medicamento que não pode esperar e converter para via intravenosa o que houver.
21h55 — o leito 12, antes de abrir o pacote
O senhor Jarbas precisa de sonda de drenagem, e a indicação é do cirurgião e está certa. O que é seu aqui é a escolha do material e a preparação. Sonda calibrosa, de polivinil, 16 French — que são 5,33 milímetros de diâmetro externo —, porque ela vai aspirar conteúdo espesso e não pode colabar. Antes de abrir qualquer coisa, as seis perguntas: sem trauma de face, sem cirurgia de esôfago ou estômago além da laparotomia por brida, sem estenose conhecida, sem varizes, sem anticoagulação plena, consciente e orientado com via aérea própria. Inspeciona as duas narinas; a esquerda está mais pérvia. Mede da narina ao lóbulo da orelha e do lóbulo ao xifoide, e marca com fita. Explica, combina o sinal de parada, senta o paciente e testa o aspirador.
Prescrição- Sonda nasogástrica 16 French, narina esquerda, aberta em drenagem — não em aspiração contínua por rotina.
- Medir e registrar o débito a cada 6 horas; somar o débito ao balanço hídrico como perda.
- Dieta zero, incluindo água, até reavaliação do cirurgião.
- Cabeceira elevada a 30 graus pelo risco de broncoaspiração.
- Aspirador montado e testado à beira do leito antes de iniciar o procedimento.
22h05 — a passagem, e o engasgo
Jarbas tosse e pede para parar durante a introdução: interrompa imediatamente e avalie respiração, saturação e possível passagem para via aérea. Recuar ou retirar depende do achado e da avaliação supervisionada; não manter progressão enquanto há sinais respiratórios. Nova tentativa só após recuperação e revisão do plano. Goles de água são uma ajuda apenas para quem pode deglutir com segurança e tem autorização para isso — não para paciente disfágico ou com contraindicação à oferta oral. Não force resistência e não use flexão da cabeça como garantia de trajeto esofágico.
Prescrição- Fixar a sonda sem tracionar, de modo que não haja apoio contra a asa do nariz e que a marca externa fique visível.
- Registrar: sonda nasogástrica 16 French, narina esquerda, introduzidos 58 cm, um episódio de tosse com recuo e reintrodução bem-sucedida.
- Radiografia de tórax para confirmação de posição antes de qualquer uso da sonda — mesma ida do aparelho do leito 7.
- Não conectar a sonda a aspiração nem instilar nada até a leitura do exame.
22h20 — as duas radiografias, no mesmo deslocamento do aparelho
Duas coisas se resolvem aqui e as duas são de logística, que é metade da medicina de hospital pequeno. A primeira: pedir os dois exames juntos economiza uma ida do aparelho, que tem bateria para três disparos, e mantém o técnico dentro do horário. A segunda: escrever nos dois pedidos a pergunta que o exame responde. O capítulo Radiografia de tórax é o dono da leitura e escreve a régua que você vai aplicar — comece a leitura pelos aparatos, descreva-os no início, e escreva a medida em vez do adjetivo.
Prescrição- Radiografia de tórax no leito para o leito 12 e para o leito 7, na mesma ida do aparelho.
- Indicação clínica escrita em cada pedido: conferir posicionamento de sonda antes do uso.
- Registrar em cada evolução o horário do exame e o horário da leitura, porque são coisas diferentes e a lista nacional de eventos sentinela mira exatamente a distância entre as duas.
22h40 — o que a imagem disse, e o que mudou
Leia a imagem inteira com a equipe: trajeto esofágico, passagem pelo diafragma e posição final, incluindo orifícios laterais quando pertinentes. No leito 12, a equipe confirma que a sonda está adequadamente no estômago antes de liberar drenagem. Em Miquelina, a ponta junto à transição esofagogástrica é insuficiente para liberar alimentação. Primeiro defina se o plano é alimentação gástrica ou pós-pilórica; uma sonda fina chamada nasoentérica pode ser usada em posição gástrica se esse for o objetivo. O ajuste do comprimento é individual, pelo achado e pelo dispositivo, sem acrescentar automaticamente 12–15 cm. Após reposicionar, repetir confirmação apropriada e documentar a liberação; se o destino for pós-pilórico, demonstrar esse posicionamento por método adequado.
Prescrição- Liberar a drenagem do leito 12; registrar a marca externa e o método de confirmação com data e hora.
- Progredir a sonda do leito 7 até a nova marca calculada pela medida externa; manter a paciente em decúbito lateral direito por 20 a 30 minutos.
- Nova radiografia de confirmação antes de liberar a dieta; não liberar com base na progressão.
- Depois da confirmação, iniciar a dieta conforme prescrição da nutrição, com cabeceira elevada de 30 a 45 graus.
- Registrar na evolução a marca externa final em centímetros, que passa a ser a referência de todas as checagens seguintes.
23h20 — a manutenção que decide as próximas 48 horas
Confirmadas as duas sondas, o que decide o resto da internação não é mais o procedimento: é a rotina. Lavagem com água em volume medido antes e depois de cada dieta e de cada medicamento, um medicamento de cada vez com lavagem entre eles, nenhum comprimido de liberação prolongada ou revestimento entérico triturado, cabeceira elevada de forma contínua, higiene oral, inspeção diária da narina e conferência da marca externa antes de cada uso. Nenhuma dessas linhas é opcional e todas cabem na prescrição — porque o que não está escrito é feito por hábito, e hábito muda de turno.
Prescrição- Lavar a sonda com 20 a 30 mL de água antes e depois de cada dieta e de cada medicamento; registrar esses volumes no balanço hídrico.
- Administrar um medicamento de cada vez, com lavagem entre eles; não triturar comprimido de liberação prolongada nem de revestimento entérico — consultar a farmácia sobre a forma disponível.
- Manter cabeceira elevada de 30 a 45 graus de forma contínua, inclusive durante a higiene e o banho no leito.
- Higiene oral com clorexidina solução bucal 0,12%, conforme o protocolo da unidade.
- Inspecionar a narina e a fixação uma vez por turno, procurando hiperemia ou lesão na asa do nariz; trocar a fixação sem tracionar.
- Conferir a marca externa antes de cada dieta e depois de cada episódio de tosse, vômito ou agitação; marca diferente da registrada suspende o uso e devolve à imagem.
Dia seguinte, 7h — a visita, e as três perguntas de cada sonda
Na visita, as duas sondas entram no mesmo inventário de dispositivos que se faz para o cateter e para a sonda vesical, e a pergunta é a de hoje e não a de ontem. No leito 12, o senhor Jarbas eliminou flatos às cinco da manhã, o débito da sonda caiu de 900 para 200 mililitros e o abdome desinsuflou: a indicação está terminando, e insistir na drenagem passa a custar suco gástrico, potássio e alcalose de graça. No leito 7, a dona Miquelina tolerou a dieta e a marca externa está igual à registrada: a sonda continua indicada e continua conferida.
Prescrição- Leito 12: fechar a sonda e observar por 4 a 6 horas, com o paciente atento a náusea e distensão; se tolerar, retirar e liberar dieta líquida conforme decisão do cirurgião.
- Leito 12: manter o registro do débito das últimas 24 horas na evolução, porque é o número que sustenta a decisão de fechar.
- Leito 7: manter a dieta e reavaliar a deglutição com a fonoaudiologia, porque quem decide se a sonda ainda é necessária é essa avaliação e não a impressão de melhora.
- Leito 7: escrever na evolução a data prevista de reavaliação da indicação, para que o plantão seguinte herde uma tarefa e não um dispositivo.
Terceiro dia — a retirada, e a frase que fica
A sonda do senhor Jarbas sai no fim da manhã, depois de fechada e tolerada. Você pede que ele expire e retira de uma vez, com a sonda pinçada, para que o conteúdo de dentro dela não escorra para a faringe no caminho. A da dona Miquelina fica, porque a fonoaudiologia manteve a disfagia — e é aqui que este capítulo passa o bastão: quando começa a terapia nutricional, com que fórmula, em que volume, com que progressão e quando ela para é do capítulo de dieta hospitalar; a água livre pela sonda, quando o sódio subir, é do capítulo de hipernatremia; e a conversa sobre gastrostomia, se a disfagia não voltar atrás em semanas, é de equipe com a família dentro.
Prescrição- Retirar a sonda do leito 12 com a sonda fechada, pedindo expiração ou apneia durante o movimento.
- Registrar por que a sonda saiu: resolução do íleo, com débito e eliminação de flatos documentados.
- Leito 7: manter sonda com indicação escrita de hoje e data da próxima reavaliação da deglutição.
- Leito 7: registrar a marca externa conferida e a data da última confirmação por imagem.
Como saber se está funcionando
Sonda é dispositivo, e dispositivo não tem evolução própria: quem evolui é o paciente com ele dentro. Os parâmetros abaixo são os que efetivamente mudam conduta na enfermaria e que cabem no relógio de quem tem vinte leitos.
Dois deles merecem uma advertência antes da tabela. A marca externa só vale contra a marca registrada — se ninguém anotou o número na passagem, a conferência de amanhã não tem com o que comparar, e a sonda passa a ser inconferível pelo resto da internação. E a indicação é um parâmetro como qualquer outro: ela se reavalia todo dia, no mesmo momento em que se reavaliam o cateter e a sonda vesical.
Esperado: Igual ao número registrado no momento da confirmação por imagem
Se não melhora: Marca diferente da registrada significa sonda migrada até prova em contrário: suspenda o uso, não empurre de volta o que saiu, e devolva à imagem. Sonda tracionada e reintroduzida sem ser retirada não tem posição conhecida.
Esperado: Queda progressiva à medida que o íleo ou a obstrução resolve, acompanhada de eliminação de flatos e desinsuflação do abdome
Se não melhora: Queda abrupta do débito sem melhora clínica não é boa notícia: pense primeiro em sonda obstruída ou deslocada e cheque permeabilidade e marca antes de comemorar. Débito que sobe, ou vômito com a sonda aberta, manda reavaliar a indicação cirúrgica com o capítulo de obstrução intestinal.
Esperado: Ausência desses sintomas com a dieta correndo no volume prescrito
Se não melhora: A diretriz brasileira do paciente grave sugere que a medida do volume residual gástrico não seja usada como cuidado de rotina, e que a dieta não seja interrompida automaticamente por diarreia — investiga-se a causa enquanto a infusão continua. Quando o resíduo for aferido por decisão do serviço, a mesma diretriz manda manter a infusão abaixo de 500 mL na ausência de outros sinais de intolerância. A conduta na intolerância que persiste é procinético e, se persistir, discutir posição pós-pilórica.
Esperado: Pele íntegra, sem hiperemia que não desaparece à digitopressão, sonda apoiada sem tração
Se não melhora: Hiperemia persistente é o primeiro estágio de lesão por pressão relacionada a dispositivo: mude o ponto de apoio hoje, refaça a fixação e considere trocar o lado da narina. Lesão instalada exige reavaliar se a sonda ainda é necessária, porque a única prevenção definitiva é a retirada do dispositivo.
Esperado: Sem tosse durante ou após a dieta, sem queda de saturação, sem febre nova
Se não melhora: Dessaturação, tosse produtiva nova ou febre em quem começou dieta ontem obriga a reconsiderar a posição da sonda, mesmo confirmada, e a pedir imagem. A investigação da febre é do capítulo Febre no paciente internado, que lista sinusite em paciente com sonda entre os focos ocultos; a da dessaturação aguda é do capítulo próprio.
Esperado: Água passa com pressão suave em seringa de 20 mL
Se não melhora: Resistência à lavagem é entupimento começando. Alterne aspiração e injeção suave com água morna e seringa de 20 mL; nunca use seringa pequena, que gera pressão alta e rompe a sonda, nem refrigerante, suco ou enzima improvisada, e nunca reintroduza fio-guia. Se não desobstruir, troque a sonda e corrija a causa por prescrição.
Esperado: Uma frase de hoje dizendo por que esta sonda continua
Se não melhora: Sem frase de hoje, a sonda sai. Na de drenagem, feche e observe por 4 a 6 horas antes de retirar. Na de alimentação, quem responde é a avaliação formal de deglutição, e a decisão de escalar para gastrostomia quando a disfagia não vai ceder é de equipe, com a família presente.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mata neste capítulo, e ele mata devagar: a dieta corre por horas antes de alguém desconfiar. O som que você ouve no epigástrio aparece com a ponta no esôfago, no brônquio principal e na pleura, porque é som transmitido pelos tecidos. A revisão brasileira de eventos adversos atribui os danos respiratórios ao deslocamento indevido da sonda e aos resultados inconclusivos dos métodos usados para confirmar o posicionamento, e relata drenagem de 300 a 900 mililitros de dieta enteral de dentro da pleura.
Como pegar a tempo: Trate a prova do ar como o que ela é: um teste que não sabe dar negativo quando a coisa está errada. Nada entra por sonda nova antes da imagem lida — nem dieta, nem medicamento, nem água. Se a imagem não sai neste turno, prescreva a dieta suspensa até confirmação, escreva o horário previsto do exame e converta para via intravenosa o que não pode esperar.
O dano: Confunde ausência de alarme com ausência de fogo, e falha exatamente no paciente em que a sonda é mais indicada. O anexo do Cofen registra que o risco de mau posicionamento é maior em pacientes com distúrbios neurológicos, inconscientes, idosos ou traqueostomizados — que são os mesmos em quem o reflexo de tosse não existe. Em quem está intubado, o balonete do tubo traqueal não impede que uma sonda fina deslize ao lado dele.
Como pegar a tempo: Escreva paciente tolerou bem no campo do conforto, onde a frase é verdadeira, e nunca no campo da posição. Quanto menos o paciente reage, menos o exame à beira do leito informa e mais a imagem é obrigatória — a lógica é inversa à intuição e precisa ser dita em voz alta na passagem de plantão.
O dano: Sonda tracionada e reintroduzida sem ser retirada não tem posição conhecida: a ponta que estava no estômago pode estar no esôfago, e a que estava no esôfago pode ter entrado na laringe no momento em que o paciente tossiu ou puxou. O gesto parece econômico e é o que transforma um deslocamento sem consequência em uma dieta na via aérea.
Como pegar a tempo: Sonda que se moveu sai inteira e recomeça do começo: medida nova, passagem nova, confirmação nova. Antes disso, pergunte se ela ainda é necessária — sonda que saiu no quarto dia de quem já aceita dieta por boca é uma pergunta que o acaso respondeu. E se ela sai sozinha com frequência, o problema é a fixação ou o delirium, não a sorte.
O dano: A sonda dentro do paciente pode ter dobrado sobre si mesma, e o guia metálico empurrado sobre a dobra sai pela parede lateral do tubo — dentro do esôfago, do estômago ou do brônquio. É o mesmo guia que dá à sonda fina a rigidez com que ela atravessa brônquio segmentar e rompe pleura, e é por isso que a sonda de alimentação, que parece a mais inofensiva, é a que aparece nos relatos de pneumotórax.
Como pegar a tempo: Retire o guia assim que a sonda chegar à marca e não o devolva nunca com a sonda dentro. Se a sonda precisa ser reposicionada com guia, ela é retirada primeiro e reintroduzida inteira, fora do paciente e sob visão do que se está fazendo.
O dano: Inverte o efeito do dispositivo. A sonda atravessa o esfíncter esofágico inferior e o mantém entreaberto, e o caderno de prevenção de infecção da Anvisa registra a presença da sonda nasogástrica entre os fatores que facilitam o refluxo de bactérias do estômago na cadeia que termina em pneumonia. O capítulo As três profilaxias lista a presença de sonda nasogástrica, orogástrica ou enteral entre os fatores de risco de broncoaspiração — e não entre as proteções.
Como pegar a tempo: Indique a sonda pelo que ela faz: alimentar quem não consegue deglutir com segurança, medicar quem não engole, drenar quem precisa ser descomprimido. A proteção contra aspiração vem de outro lugar — cabeceira elevada de forma contínua, avaliação de deglutição, higiene oral e revisão da sedação —, e o momento de começar a nutrição é do capítulo de dieta hospitalar.
O dano: É o erro mais silencioso e o mais frequente: uma sonda com três semanas raramente foi decidida três semanas seguidas. Sonda de drenagem mantida além do íleo remove suco gástrico e produz alcalose e perda de potássio de graça; sonda de alimentação mantida além da disfagia cobra lesão de asa de nariz, sinusite, epistaxe e o risco de aspiração que ela mesma aumenta. E cada dia a mais é um dia em que ninguém fez a conversa sobre gastrostomia.
Como pegar a tempo: Ponha a sonda no inventário diário de dispositivos, ao lado do cateter e da sonda vesical, e exija dela uma frase de hoje. Três perguntas resolvem: a indicação ainda existe, o paciente está pior por causa dela, existe caminho melhor. Sem frase de hoje, a sonda sai — fechada e observada por 4 a 6 horas antes, quando for de drenagem.
O que dizer ao paciente e à família
Metade deste capítulo se resolve com frases, e quase todas elas são ditas para colegas e não para o paciente. Suspender uma dieta que outra pessoa liberou, pedir um exame às dez da noite num hospital sem radiologista, dizer a uma família que a mãe vai passar mais oito horas sem comer — nenhuma dessas conversas é difícil pelo conteúdo. São difíceis porque parecem desautorizar alguém, e a saída é sempre a mesma: falar do exame, e não da pessoa.
Para a enfermeira que passou a sonda e anotou a prova do ar, quando você vai suspender a dieta
“Hilarina, a sua anotação está certa e completa, e obrigado por ter descrito o que fez. Só que a prova do ar não distingue estômago de brônquio — ela dá o mesmo som nos dois. Eu vou suspender a dieta e pedir a radiografia agora, enquanto o técnico ainda está aqui. Não é sobre a passagem, que foi bem; é que essa checagem eu não consigo fazer de ouvido.”
Não diga: Vocês não podem liberar dieta com prova do ar. A frase põe a conversa no terreno de quem pode o quê, quando o problema é físico e não hierárquico — e queima o único aliado que você tem para as próximas onze horas de plantão.
Para o técnico de radiologia que está indo embora
“Preciso de duas radiografias de tórax no leito antes de você sair — leito 7 e leito 12, as duas para conferir posição de sonda antes de liberar dieta. É a mesma ida do aparelho e são dois disparos. Se eu não fizer agora, vira chamado noturno e a dieta fica parada até de manhã.”
Não diga: Dá para fazer uma rapidinha? Pedido sem indicação escrita não é pedido, e a norma sanitária obriga a justificar. Além disso, a versão vaga é a que o serviço de radiologia tem obrigação de recusar.
Para a família que espera a dieta começar às dez da noite
“A sonda da senhora Miquelina foi passada e ela tolerou bem. Antes de começar a alimentação, eu preciso de uma radiografia para ter certeza de que a ponta está no lugar certo. É o exame que separa o caminho do estômago do caminho do pulmão, e é meia hora. Se ela começar agora e a sonda estiver fora do lugar, o problema é grave e não tem volta; esperar meia hora não tira nada dela.”
Não diga: É protocolo do hospital. Empurra a decisão para uma entidade abstrata, e quando a espera passar de meia hora para oito horas a família vai cobrar do protocolo, não de você — que é quem pode explicar.
Para o paciente acordado, antes de introduzir a sonda
“Vai entrar um tubo fino pelo nariz e ele vai até o estômago. Incomoda, e no meio do caminho vai dar vontade de engasgar — isso é normal e passa. Combinamos assim: se você levantar a mão, eu paro na hora. Quando eu disser, encoste o queixo no peito e engula a água pelo canudo, porque é engolindo que a sonda encontra o caminho certo.”
Não diga: É rapidinho, não dói nada. É falso, ele vai descobrir em vinte segundos, e a partir daí você perdeu a colaboração de que depende a segunda tentativa.
Para o cirurgião de plantão, ao telefone, quando a sonda não desce
“Passei duas vezes no senhor Jarbas e nas duas ela enrolou e voltou pela boca. Ele está estável, abdome distendido, sem vômito nos últimos vinte minutos, e eu parei porque a terceira tentativa cega não me parece diferente das duas primeiras. Quero que outra pessoa tente, ou que a gente considere passagem sob visão. O que você prefere?”
Não diga: Não estou conseguindo passar. Descreve o seu desempenho e não o problema, e não dá ao outro nada com que decidir. Diga quantas tentativas, o que aconteceu em cada uma, como está o paciente agora e qual é a sua proposta.
Para a técnica que vai administrar medicamento pela sonda
“Esses três remédios vão um de cada vez, com 20 mililitros de água entre eles e depois do último. O comprimido de liberação prolongada não pode ser triturado — já falei com a farmácia e eles vão mandar outra apresentação. E antes de cada um, confere a marca: tem de estar em 70 centímetros, que é o que ficou registrado ontem.”
Não diga: Dilui tudo junto e passa. É a receita do entupimento e, no caso do comprimido de liberação prolongada, é uma dose inteira caindo de uma vez em vez de ao longo de doze horas.
Para o plantonista que assume a enfermaria, na passagem
“Leito 7 com sonda nasoentérica confirmada por radiografia às 23h10, marca externa em 70 centímetros, dieta correndo. Leito 12 com nasogástrica 16 French em drenagem, confirmada às 22h45, débito de 900 nas últimas 24 horas. As duas com indicação escrita de hoje e as duas com marca registrada — se a marca mudar, suspende o uso e repete a imagem.”
Não diga: As duas sondas estão ok. A passagem de plantão que não transmite a marca externa nem a data da confirmação entrega ao próximo uma sonda inconferível, e a partir daí ninguém mais sabe se ela migrou.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A norma sanitária não distingue o tipo de sonda
A resolução que fixa os requisitos mínimos da terapia de nutrição enteral atribui ao enfermeiro, no art. 260, encaminhar o paciente para exame radiológico visando a confirmação da localização da sonda, sem restringir o dispositivo, e manda no art. 274 confirmar a localização e a permeabilidade antes de iniciar a administração da nutrição enteral. Lida assim, toda sonda que vai receber dieta passa por imagem, seja ela gástrica ou entérica.
Anvisa, RDC nº 503, de 27 de maio de 2021, arts. 260 e 274 — em vigor desde 1º de julho de 2021
A norma profissional exige a imagem só na nasoentérica
A resolução do conselho de enfermagem atribui ao enfermeiro solicitar e encaminhar o paciente para exame radiológico visando a confirmação da localização da sonda no caso da sondagem nasoentérica, e, para a sondagem oro/nasogástrica, apenas proceder os testes para confirmação do trajeto — sem nomear que testes são esses. Lida assim, a sonda gástrica pode ser liberada por testes de beira de leito não especificados.
Cofen, Resolução nº 619, de 4 de novembro de 2019, anexo, competências do enfermeiro, itens c e d
Defina destino e método de confirmação antes de usar. Para posição gástrica, o protocolo treinado descrito admite pH do aspirado entre 1 e 5,5; ausência de aspirado, pH fora da faixa ou dúvida exigem avaliação apropriada, frequentemente radiografia. A posição pós-pilórica precisa de confirmação correspondente. No caso de Miquelina, aguarde leitura e liberação documentadas. Prova do ar, marca externa e boa tolerância não bastam.
Privativa do enfermeiro, dentro da equipe de enfermagem
O conselho de enfermagem afirma que, no âmbito da equipe de enfermagem, a inserção de sonda oro/nasogástrica e nasoentérica é privativa do enfermeiro, que deve imprimir rigor técnico-científico ao procedimento; ao técnico e ao auxiliar cabe auxiliar na execução, monitorar, manter técnica limpa, comunicar intercorrências e registrar. O argumento é de complexidade: o procedimento é invasivo, sujeito a complicações graves e exige decisão imediata.
Cofen, Resolução nº 619/2019, anexo, item IV
A norma sanitária reparte entre médico e enfermeiro e usa fórmula mais aberta
A resolução da Anvisa diz, no art. 52, que a via de administração deve ser estabelecida pelo médico ou enfermeiro, por técnica padronizada e conforme protocolo previamente estabelecido; no art. 259, que é responsabilidade do enfermeiro estabelecer o acesso enteral; e, no rol de atribuições do enfermeiro dentro da equipe multiprofissional, que cabe a ele proceder ou assegurar a colocação da sonda — verbo que admite que o procedimento seja executado por outro profissional sob a sua garantia.
Anvisa, RDC nº 503/2021, arts. 52 e 259 e rol de atribuições do enfermeiro na equipe multidisciplinar
Combine quem executa e quem supervisiona conforme a rotina do serviço. Rebaixamento de consciência, trauma de face, cirurgia digestiva recente e tentativas malsucedidas exigem reavaliar via e técnica com profissional experiente. No internato, a passagem é supervisionada; a definição de atribuições não substitui competência para aquele paciente.
Considerar a via pós-pilórica no alto risco
A diretriz brasileira do paciente grave recomenda a posição gástrica como padrão e diz, na mesma lista de recomendações, que se deve considerar o posicionamento pós-pilórico em pacientes com alto risco para aspiração, na intolerância à dieta não resolvida com procinéticos ou quando a alimentação gástrica estiver clinicamente contraindicada; e acrescenta que, em pacientes considerados de alto risco para aspiração, a alimentação pós-pilórica, principalmente jejunal, pode ser utilizada.
BRASPEN, Diretriz de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023, recomendações 2.3 e 4.1
O uso rotineiro da via pós-pilórica não se justifica
A discussão do mesmo documento sustenta o contrário do racional que apoia a recomendação acima: registra que o posicionamento pós-pilórico se associa a atraso no início da dieta, é menos fisiológico que a via gástrica, e que a pneumonia e a colonização das vias aéreas superiores estão mais relacionadas à aspiração de secreções da orofaringe do que à regurgitação de conteúdo gástrico — concluindo, com essas palavras, que o uso rotineiro da via pós-pilórica atualmente não se justifica.
BRASPEN, Diretriz de Terapia Nutricional no Paciente Grave, 2023, capítulo 2, discussão do item 2.3
Não há contradição entre evitar uso pós-pilórico rotineiro e indicá-lo em pacientes selecionados. A via gástrica costuma ser inicial; risco elevado de aspiração, contraindicação gástrica ou intolerância persistente pode justificar posição pós-pilórica com a equipe. Nenhuma delas elimina aspiração de secreção orofaríngea, portanto cuidados de postura, boca e vigilância continuam necessários.
O raciocínio, em voz alta
Quarta-feira, seis e vinte da manhã, enfermaria de clínica médica de dezesseis leitos num hospital geral de porte médio. O senhor Esmerino Guaramiranga tem 71 anos, 68 quilos, doença pulmonar obstrutiva crônica, e completa hoje três dias internado por uma pneumonia da comunidade. Ontem à noite rebaixou — Glasgow 11, sonolento, responde a chamado — e a fonoaudiologia não avaliou ainda porque o serviço só atende de dia. A enfermeira do turno da noite passou uma sonda nasoentérica às cinco da manhã, anotou 60 cm introduzidos e prova do ar positiva, e a dieta foi pendurada às cinco e vinte, correndo em bomba a 25 mililitros por hora. Às seis, a técnica pediu a radiografia de rotina do pedido da véspera; às seis e quinze a imagem apareceu na tela do posto. Não há radiologista na casa e o laudo da telerradiologia sai à tarde. Você abre o exame por hábito, antes de começar a visita. A sonda desce pela linha média até a altura da carina, desvia para a direita, e a extremidade se projeta sobre o terço médio do campo pulmonar direito. Já correram quarenta minutos de dieta, cerca de 17 mililitros. Ele está com saturação de 91% em cateter nasal a 2 litros, o que é o basal dele, e não tossiu.
Passo 1 — o que a imagem responde, e por que ela basta
O trajeto é a resposta e ele não tem leitura alternativa: sonda que desce pela linha média, desvia lateralmente na altura da carina e termina projetada sobre campo pulmonar está na árvore brônquica. Não é preciso laudo, não é preciso segunda opinião e não é preciso repetir o exame para confirmar o óbvio — segunda incidência existe para trajeto ambíguo, e este não é. A régua de leitura é do capítulo Radiografia de tórax, que manda começar pelos aparatos, descrevê-los no início e escrever a medida em vez do adjetivo. Repare também no que a imagem desmente: a prova do ar tinha sido positiva, o paciente não tossiu, e a sonda estava em 60 centímetros, número que para uma sonda entérica soa razoável. Nenhum dos três sinais viu o que a imagem viu.
Passo 2 — a primeira ordem não é retirar a sonda
A primeira ordem é parar a infusão, e ela é dita da porta do quarto, antes de qualquer outra coisa: desligue a bomba agora. Cada minuto a mais são mais mililitros dentro do pulmão, e essa é a única variável que ainda está sob o seu controle. Só depois vem o exame do paciente: saturação, frequência respiratória, ausculta comparativa dos dois hemitórax, nível de consciência. Ele está no basal, e isso é boa notícia e não alta da preocupação — o volume infundido foi pequeno e o dano pode aparecer nas horas seguintes.
Passo 3 — retirar, e o que se observa depois de retirar
A sonda sai, inteira, sem fio-guia e sem manobra. Retirar é seguro e é obrigatório, mas o momento imediatamente posterior é o de vigilância: se a sonda perfurou pleura no caminho, o pneumotórax pode se manifestar na retirada ou nas horas seguintes, e o sinal é queda de saturação, dor pleurítica, taquipneia ou assimetria à ausculta. Monitorize com oximetria contínua, mantenha o oxigênio, reexamine em quinze minutos e peça nova imagem diante de qualquer deterioração. Se houver pneumotórax, a decisão sobre drenagem é da equipe cirúrgica e o manejo da entidade é do capítulo O ar que entrou e não sai, que trata das formas espontâneas — o pneumotórax causado por procedimento é reconhecido aqui e conduzido lá, com a equipe.
Passo 4 — o que se escreve, e por que a redação importa
A evolução descreve fatos com horário, sem adjetivo e sem culpado. Radiografia de tórax de hoje, 6h15, mostrando sonda nasoentérica com trajeto desviado à direita na altura da carina e extremidade projetada sobre o terço médio do campo pulmonar direito. Dieta enteral suspensa às 6h18, cerca de 17 mL infundidos desde 5h20. Sonda retirada às 6h22 sem intercorrência. Paciente em saturação de 91% em cateter nasal a 2 L, basal, sem dispneia, ausculta simétrica. Monitorização contínua e reexame em 15 minutos. Essa é a redação que protege o paciente, porque ela permite que o plantão seguinte saiba exatamente o que aconteceu e a que horas.
Passo 5 — a notificação, e o que o Brasil de fato exige
O evento é notificável ao núcleo de segurança do paciente da instituição, que toda unidade de saúde é obrigada a ter — ficam de fora apenas consultórios individualizados, laboratórios clínicos e serviços móveis e de atenção domiciliar. Vale saber o desenho da lista nacional para citar sem errar: entre os trinta eventos que nunca deveriam acontecer, a sonda mal posicionada com infusão de dieta não está. O que está, no item 21, é óbito ou lesão grave resultante de falha no acompanhamento ou na comunicação de resultados de exames radiológicos — e é por essa porta que este caso entraria, se a imagem tivesse ficado sem leitura e o desfecho fosse grave. Em never event e em óbito por evento adverso, o serviço tem sessenta dias corridos para completar a investigação no sistema.
Passo 6 — a conversa com a filha, que chega às sete
Diga o que aconteceu, em ordem e sem jargão: a sonda que foi passada de madrugada não estava no lugar certo; a radiografia mostrou isso; a alimentação correu por quarenta minutos e foi interrompida; a sonda foi retirada; ele está bem agora e vai ficar sendo observado de perto por causa do risco de complicação no pulmão. Depois diga o que vem: uma nova sonda vai ser passada mais tarde, com exame de imagem antes de qualquer alimento. Não use a conversa para atribuir responsabilidade a quem passou a sonda — a confirmação por imagem é a barreira que faltou, e ela é do sistema, não de uma pessoa.
Passo 7 — a segunda sonda, e quem a passa
A segunda tentativa não é uma repetição da primeira. Este paciente tem rebaixamento de consciência, ausência de tosse eficaz e já teve uma sonda em via aérea: é um caso de alta complexidade, e a passagem deve ser feita pelo profissional mais experiente disponível, com aspirador testado, cabeceira elevada, queixo fletido e medida marcada antes de introduzir — da narina ao lóbulo da orelha, do lóbulo ao xifoide, mais o segmento do xifoide ao umbigo se o alvo for antral. E a trava fica escrita na prescrição em letra grande: nada por sonda até radiografia confirmando a posição. Se a nova tentativa falhar de novo, o caminho deixa de ser o cego — passagem sob visão endoscópica existe para pacientes assim e não é derrota. Enquanto isso, a nutrição espera: o relógio da terapia nutricional trabalha em janela de 24 a 48 horas, e a decisão sobre ela é do capítulo de dieta hospitalar.
Faça você
Sexta-feira, dez e quarenta da manhã, enfermaria de clínica médica. Dona Eponina Varjota tem 84 anos, 48 quilos, demência avançada, e está no vigésimo terceiro dia de internação por infecção urinária complicada, já tratada e resolvida. Ela tem uma sonda nasoentérica passada no terceiro dia de internação, quando estava séptica e não aceitava dieta por boca; a marca externa registrada na época era 68 centímetros e a confirmação por imagem está anotada. Desde então a prescrição vem sendo copiada. Hoje a técnica te chama por dois motivos. Primeiro: a sonda entupiu na madrugada e a dieta está parada desde as duas da manhã; a colega da noite tentou lavar com seringa de 5 mililitros e não passou. Segundo: a asa do nariz esquerda está com uma área avermelhada de cerca de um centímetro que não desaparece à digitopressão, e o esparadrapo está esticado, puxando a sonda para cima. Na beira do leito, você vê que a marca externa hoje está em 74 centímetros. A neta, que é a cuidadora, pergunta se a avó vai poder comer de boca algum dia, porque ela ficou boa da infecção há mais de uma semana.
A sonda entupida
Decida o que fazer com a obstrução, e diga por que a tentativa da madrugada tinha um problema técnico além de não ter funcionado. Diga também o que não se faz — três coisas que a enfermaria costuma tentar — e o que a obstrução informa sobre a prescrição dos últimos dias.
A marca em 74 centímetros
O número registrado era 68 e hoje são 74. Diga o que isso significa, o que muda imediatamente na prescrição, e qual é o único jeito de responder onde a ponta está agora. Diga também por que ajustar a sonda de volta para 68 e continuar a dieta é a resposta errada.
A asa do nariz e a pergunta da neta
Escreva a conduta para a lesão da narina e a resposta para a neta. A resposta à pergunta dela não é sim nem não: é o nome de uma avaliação, o de uma conversa e o de uma decisão que tem dono. Diga quem responde o quê, e o que você escreve hoje no prontuário para que essa conversa aconteça na semana que vem e não no mês que vem.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare Jarbas, que precisa drenar, com Miquelina, que precisa de acesso nutricional. A finalidade e o destino de cada tubo devem aparecer na prescrição e na conferência.
Questão integrativa 1
A prova do ar positiva de Miquelina libera dieta?
Questão integrativa 2
Toda sonda fina denominada nasoentérica precisa estar além do piloro?
Questão integrativa 3
pH ácido do aspirado comprova posição jejunal?
Questão integrativa 4
Pode oferecer água durante a passagem em paciente com disfagia?
Questão integrativa 5
Ponta junto à cárdia pede avançar sempre quinze centímetros?
Questão integrativa 6
Marca externa mudou depois de vômito: basta recolocar a fita?
Ver como fecharíamos
A sonda entupida primeiro, porque é o que está parando a dieta. A tentativa da madrugada tinha um problema técnico real: seringa de 5 mililitros gera pressão muito mais alta que a de 20 sobre a mesma força de polegar, e sonda fina rompe com isso. A manobra correta é água morna em seringa de 20 mililitros, alternando aspiração e injeção suave — o vaivém desfaz o tampão melhor que a pressão contínua. Não se usa refrigerante, suco de fruta nem enzima improvisada, e não se passa fio-guia por sonda posicionada, porque a ponta metálica sai pela parede lateral do tubo dentro da paciente. Se não desobstruir, a sonda é trocada. E a obstrução informa a prescrição: numa sonda fina, ela quase sempre vem de lavagem que não foi feita, de medicamento triturado que não podia ser triturado, ou de dois medicamentos administrados em sequência sem água entre eles. Isso se corrige escrevendo na folha — 20 a 30 mililitros de água antes e depois de cada dieta e de cada medicamento, um medicamento de cada vez, com lavagem entre eles — e falando com a farmácia sobre apresentação alternativa do que não pode ser esmagado. A marca em 74 significa que a sonda migrou seis centímetros desde a última posição conhecida, e não há como saber para onde: pode ter avançado enrolando no estômago, pode ter escorregado para fora e a diferença ser de tração no sentido oposto ao que o número sugere, e pode ter mudado de compartimento. O que muda imediatamente é que nada entra por essa sonda até nova confirmação — nem dieta, nem medicamento, nem a água da lavagem. Ajustar de volta para 68 e continuar é a resposta errada por dois motivos: empurrar de volta uma sonda que se moveu não devolve a ponta ao lugar de onde ela saiu, e o número externo nunca foi um método de confirmação, apenas de comparação. A resposta é radiografia, com indicação clínica escrita, e a decisão sobre desobstruir ou trocar pode ser tomada junto — se a sonda for trocada, ela é passada do começo, com medida nova, e a nova imagem confirma a sonda nova. A asa do nariz tem hiperemia que não desaparece à digitopressão, que é o primeiro estágio de lesão por pressão relacionada a dispositivo médico, e aqui a causa está visível: a fixação esticada puxa a sonda para cima e apoia o tubo contra a cartilagem. A conduta é refazer a fixação hoje, sem tração e com o ponto de apoio mudado, inspecionar a narina uma vez por turno, e considerar trocar o lado da narina quando a sonda for trocada — o que, neste caso, provavelmente será hoje. A única prevenção definitiva de lesão por dispositivo é a retirada do dispositivo, e isso liga a lesão à pergunta da neta. A resposta para a neta não é sim nem não, e não é sua sozinha. É o nome de três coisas. Primeiro, uma avaliação: a deglutição precisa ser reavaliada formalmente pela fonoaudiologia, porque a indicação da sonda foi tomada há vinte dias, num dia em que ela estava séptica, e ninguém a decidiu de novo desde então — sonda com três semanas raramente foi decidida três semanas seguidas. Segundo, uma conversa: se a disfagia se confirmar como definitiva em quem tem demência avançada, a decisão entre manter sonda nasoentérica, escalar para gastrostomia ou seguir com alimentação de conforto é de equipe, com a família dentro, e leva em conta o que a paciente teria querido — o capítulo O que continua quando se decide parar é o dono desse tipo de decisão. Terceiro, um dono e uma data: o que você escreve hoje no prontuário é o pedido de avaliação de deglutição com prioridade, a data prevista da reunião com a família, e a frase que falta há vinte dias — por que esta sonda continua hoje. Sem essa frase e sem essa data, a conversa acontece no mês que vem, e a resposta para a neta continua sendo a mesma de ontem. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. O som pode ocorrer com posição inadequada; é preciso confirmação por método validado para o destino pretendido. 2. Não. O tipo do tubo não define sozinho o destino; alimentação gástrica pode ser apropriada, desde que planejada e confirmada. 3. Não. O teste validado se refere a destino gástrico, não à confirmação pós-pilórica. 4. Não como rotina. Goles só para quem pode engolir com segurança e tem autorização para oferta oral. 5. Não. O ajuste depende da imagem, do destino e do dispositivo; depois é necessária nova confirmação. 6. Não. Suspenda o uso e avalie possível deslocamento, com reconfirmação antes de dieta ou medicamentos.
A confirmação da posição antes do primeiro uso é a trava deste tema: para a posição entérica pretendida neste caso, é necessária confirmação por imagem. Isso não deve ser generalizado a toda sonda gástrica: protocolos validados podem admitir pH do aspirado em situações apropriadas, recorrendo à radiografia quando o resultado não confirma com segurança. A prova do ar não separa nada: o borborigmo audível no epigástrio aparece também com a ponta no esôfago, no brônquio principal e na pleura, porque o som é transmitido pelos tecidos. A ausência de tosse descreve o conforto do procedimento e não a posição da ponta — e falha justamente em quem tem sequela neurológica, que é o perfil de maior risco de mau posicionamento segundo o próprio anexo do Cofen. Aspirado com aspecto gástrico aumenta a confiança e não confirma, e a ausência de aspirado não significa nada, porque a sonda fina colaba e estômago vazio não devolve líquido. Progredir a sonda é uma correção plausível de comprimento, mas ela pressupõe que a ponta já esteja no tubo digestivo — o que é exatamente o que ainda não se sabe — e qualquer progressão exige nova imagem antes do uso. Adiar a radiografia para o dia seguinte enquanto a dieta corre inverte a ordem: quem espera é a dieta, não a conferência, e a janela para iniciar terapia nutricional é de 24 a 48 horas, não de minutos.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua as três decisões: indicação, destino e método de confirmação. Explique por que prova do ar, comprimento e ausência de tosse não liberam uso; descreva quando pH validado serve para destino gástrico e quando é necessária imagem. Depois organize a resposta à tosse durante a passagem e à mudança de marca externa após o uso.
Em 30 dias
Pegue a última sonda que você viu passar na enfermaria e responda por escrito, em cinco linhas: qual era a indicação escrita, qual o calibre e por quê, qual o método de confirmação registrado no prontuário e a que horas, qual a marca externa anotada, e qual foi a frase de hoje que justifica ela continuar aí. Se alguma dessas cinco respostas não estiver no prontuário, essa é a lacuna que você aprendeu a fechar — e fechar significa escrever a linha que falta, hoje, no paciente de verdade.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 63 anos, pedreiro aposentado, internado na enfermaria de cirurgia com a barriga estufada e dura há dois dias, cólicas que vêm e vão, vômitos repetidos e sem conseguir soltar gases nem evacuar. Faça a anamnese e o exame e verbalize sua hipótese e os diferenciais. Depois decida se ele precisa de sonda, qual e com que finalidade, e descreva a passagem: como mede o comprimento, como confirma a posição antes de usar e como fixa. Diga o que entra e o que não entra por essa sonda, o que a enfermagem deve anotar do que sair por ela e o que você explica a ele antes de começar.
