Cirurgia Geral › Procedimentos e Vias de Acesso
O litro que não vira fração
Oxigenoterapia: dispositivos, fluxo e escolha
Prescrever uma meta, usar corretamente cada dispositivo e avaliar oxigenação, ventilação e esforço para ajustar ou escalar o suporte.
Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Orientações Práticas em Ventilação Mecânica, coordenação de Alexandre Marini Ísola — volume divulgado pelas duas sociedades em setembro de 2024, com o texto fechado em plenária de 20 e 21 de novembro de 2023, em Florianópolis. Artigo que relata o método e os destaques do volume: Ferreira JC, Vianna AOA, Pinheiro BV, Maia IS, Baldisserotto SV, Isola AM, em nome da AMIB e da SBPT. Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255, co-publicado em Crit Care Sci. 2025;37:e20250242pt. Tema 2 — Estratégias não invasivas na insuficiência respiratória aguda, seções A.1 a A.5 (oxigenoterapia convencional) e B (cânula nasal de alto fluxo).
Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro / HU Brasil. Procedimento Operacional Padrão POP.HC-UFTM-UMULTI.038 — Oxigenoterapia hospitalar em pacientes adultos e idosos, versão 4. Uberaba: HC-UFTM; 2026. 22 p.
Hospital Universitário Ana Bezerra, Universidade Federal do Rio Grande do Norte / Ebserh. Procedimento Operacional Padrão POP.UCIS.026 — Oxigenoterapia, versão 2. Santa Cruz: HUAB-UFRN; 2025. 13 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19 — Capítulo 1: uso de oxigênio, intubação orotraqueal e ventilação mecânica. Relatório de Recomendação nº 637. Brasília: Conitec; junho de 2021.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 29, de 27 de novembro de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. Item 7.1.3, oxigenoterapia domiciliar.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025 — altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4/2017 para estabelecer a Política Nacional de Doação e Transplantes e o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Republicada no Diário Oficial da União de 21 de janeiro de 2026, seção 1, página 78. Critérios de priorização em lista de transplante pulmonar.
British Thoracic Society. Guideline for oxygen use in adults in healthcare and emergency settings, 2017. [Acessar fonte](https://www.brit-thoracic.org.uk/document-library/guidelines/emergency-oxygen/bts-guideline-for-oxygen-use-in-adults-in-healthcare-and-emergency-settings/)
Responda antes de ler
Enfermaria de clínica médica, sete da manhã. Homem de 68 anos, quinto dia de pneumonia da comunidade, sem doença pulmonar crônica conhecida. Está sentado, alerta, falando frases com uma pausa, frequência respiratória de 26. Usa máscara com reservatório com o fluxômetro em 6 L/min, e a bolsa está murcha, colada em si mesma, movendo-se pouco a cada respiração. A saturação é de 88%. A prescrição diz apenas oxigênio suplementar se necessário. Qual é a conduta imediata?
O paciente que você vai ver
Sete e dez da manhã de uma quinta-feira. O prédio é um hospital geral do interior, com cento e dez leitos, numa cidade de setenta mil habitantes; a enfermaria de clínica médica ocupa dezoito deles e nenhum está vago. Você é o interno e a visita começa em vinte minutos, quando o residente descer. O que você faz nesses vinte minutos é a avaliação inicial que você discutirá com o residente: andar o corredor, olhar leito por leito e chegar à visita sabendo o que mudou desde ontem.
Quatro dos dezoito estão recebendo oxigênio. O leito 3 tem um cateter nasal com o fluxômetro em três litros por minuto. O leito 7 tem uma máscara facial simples com o fluxômetro em quatro. O leito 12 tem uma máscara com reservatório, o fluxômetro em seis, e a bolsa murcha, colada em si mesma, subindo e descendo só um dedo a cada respiração. O leito 15 tem um cateter nasal em dois litros com um copo umidificador cheio até a metade, com água que ninguém trocou.
Você abre a prescrição dos quatro. Nas quatro folhas está escrita a mesma linha, com a mesma caligrafia de plantões diferentes: oxigênio suplementar se necessário. Nenhuma diz o dispositivo. Nenhuma diz o fluxo. Nenhuma diz o alvo. Nenhuma diz quando reavaliar, nem quem pode mexer. A folha da enfermagem, do outro lado, registra saturação de seis em seis horas nos quatro, e nas seis colunas dos últimos dois dias há sempre um número, sempre entre 90 e 97, sem nenhuma anotação de qual dispositivo estava no rosto quando o número foi medido.
O leito 12 é o senhor Glicério Maracujá, 68 anos, 71 quilos, marceneiro aposentado, quinto dia de internação por pneumonia da comunidade, com consolidação em lobo inferior direito. Chegou pelo pronto-socorro numa sábado à noite com febre, tosse e falta de ar, e melhorou nos três primeiros dias: no terceiro, a folha registra saturação de 94% com cateter nasal a dois litros. Alguma coisa aconteceu na noite de ontem. A anotação da madrugada diz, em quatro palavras, dessaturou, colocada máscara com reservatório. Não diz para quanto dessaturou, nem em que fluxo a máscara foi aberta.
Agora ele está sentado, acordado, conversando, e o oxímetro do dedo marca 88%. Frequência respiratória de 26, contada por você com o relógio. Ele fala frases inteiras, com uma pausa no meio. Não usa musculatura acessória de forma franca, mas as asas do nariz abrem. A pele está morna. E a bolsa da máscara — a parte do dispositivo que o senhor Glicério não sabe que existe — continua murcha, enchendo mal entre uma respiração e outra.
A técnica de enfermagem, Dalila Limoeirinho, aparece no corredor com o carrinho de sinais vitais e vê você olhando para a máscara. Ela diz a frase que se ouve todo dia em toda enfermaria do país: doutor, ele já está no máximo. Ela não está errada sobre o que quis dizer. A máscara com reservatório é, para todo mundo que trabalha ali, o topo da escada — depois dela não há nada, e por isso um paciente com máscara e saturação de 88 é um paciente que esgotou o que a enfermaria tem.
A máscara está a 6 L/min e a bolsa permanece murcha: o dispositivo não está funcionando como previsto. Confira fluxo, conexão, válvulas e enchimento, corrija a montagem e reavalie Glicério. A presença de uma máscara com reservatório não demonstra que ele recebeu todo o suporte que ela pode oferecer.
O atendimento exige conectar o que está no rosto de Glicério à prescrição e à resposta clínica. Defina dispositivo, fluxo, alvo e reavaliação; confira também a autonomia antes do transporte. Corrigir o equipamento acompanha a investigação da dessaturação, sem encerrá-la.
Quem adoece disso
Este bloco não descreve a frequência de uma doença, e sim a de um gesto repetido: quantas vezes ele acontece, quantas vezes acontece errado, e o que o Brasil mede a respeito. A resposta curta é que o Brasil quase não mede, e a resposta longa é o resto deste bloco.
O oxigênio hospitalar chega pela rede ou por fonte portátil, com fornecimento e manutenção próprios. Para o cuidado, a informação essencial fica na prescrição: indicação, dispositivo, fluxo, alvo e acompanhamento. A disponibilidade do gás não substitui essa definição.
Segundo fato: não existe denominador nacional. Não há registro público de quantos pacientes recebem oxigênio por dia no país, de qual proporção das prescrições traz alvo escrito, nem de quantos episódios de hiperóxia ou de hipoxemia por dispositivo mal montado acontecem. Não há registro público que responda a essas perguntas. Quando um capítulo diz que um erro é comum sem ter denominador, ele está dizendo que o erro é reconhecível, não que ele foi contado — e é honesto separar as duas coisas.
O que existe, e vale como evidência indireta, é o que os hospitais brasileiros escreveram para si mesmos. O procedimento operacional do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em sua quarta versão, emitida em maio de 2026, dedica uma seção inteira à gestão segura do oxigênio hospitalar com um título que diz tudo: prevenção da hiperóxia. Ele institui auditoria periódica das saturações e do uso de fração inspirada pelo núcleo de segurança do paciente, e institui uma placa à cabeceira com a faixa-alvo escrita. Um hospital universitário não escreve procedimento, não cria auditoria e não pendura placa para um problema que não tem.
A placa merece um parágrafo, porque é a intervenção mais barata deste capítulo e a mais brasileira. A ideia é que a meta de saturação daquele paciente fique visível na cabeceira, com sugestão de código de cores, e que o médico ou o fisioterapeuta a atualize quando a meta mudar. Ela existe porque a informação que decide a dose do oxigênio mora na cabeça de quem prescreveu e precisa chegar à técnica que passa às três da manhã, olha 90% na tela e sente vontade de abrir o fluxômetro. A placa é a resposta institucional a um problema de transmissão, não de conhecimento.
As referências citadas tratam de populações diferentes. A recomendação federal de 2021 está ligada à COVID-19; o consenso das sociedades e o procedimento hospitalar do adulto descrevem outros contextos de hipoxemia. Identifique essa diferença ao escolher o alvo.
Esse consenso é as Orientações Práticas de Ventilação Mecânica, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira com a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, fechado em plenária de novembro de 2023 e divulgado em setembro de 2024. Vale conhecer o tamanho real da coisa: dentro de um volume grande sobre ventilação mecânica, a oxigenoterapia convencional ocupa cinco seções curtas — indicação, cuidados, monitorização, retirada e métodos de fornecimento —, e o catálogo inteiro dos dispositivos cabe numa tabela de quatro linhas. Tudo o que o interno faz todo dia com oxigênio no Brasil se apoia nessas cinco listas e nessa tabela.
É por isso que os procedimentos locais pesam tanto neste capítulo, e é por isso que este capítulo lê dois deles em vez de um. Além do procedimento de Uberaba, escrito para o adulto e o idoso, existe o procedimento de oxigenoterapia do Hospital Universitário Ana Bezerra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em sua segunda versão, de 2025, escrito para o recém-nascido, o lactente e a criança. São dois hospitais da mesma rede federal, dois textos correntes, e eles não dizem a mesma coisa sobre umidificação nem sobre o teto de fluxo do cateter nasal. Isso não é defeito de um deles: é o retrato de um assunto sem norma nacional.
O plano do serviço deve permitir localizar a orientação aplicada ao paciente. Quando houver dúvida sobre uma remissão, confira a rotina adotada com a equipe, especialmente alvo, dispositivo e monitorização.
Feche o bloco com a consequência clínica de tudo isso, que é o motivo de o capítulo existir. Quando não há norma nacional, cada hospital escreve a sua, e o interno que roda entre serviços encontra alvos diferentes, tetos de fluxo diferentes e regras de umidificação diferentes, sem que nenhum deles esteja errado. A saída não é decorar um número: é entender o que cada dispositivo faz, saber qual régua o seu serviço adotou, e escrever na prescrição a régua que você está usando — para que a próxima equipe saiba, e para que a discordância, quando existir, seja uma discussão e não uma surpresa.
Por que acontece o que acontece
O fluxômetro mostra litros por minuto. O alvéolo recebe uma fração. Entre os dois há um paciente respirando, e é o padrão respiratório dele que converte uma coisa na outra. Entender essa conversão é entender o capítulo inteiro, porque quase todo erro de oxigenoterapia é a suposição de que o número do fluxômetro é a dose.
A conta começa pela demanda. Um adulto tranquilo mobiliza cerca de meio litro por respiração, catorze vezes por minuto: sete litros por minuto de ventilação. Mas ele não inspira o minuto inteiro — inspira em cerca de um terço do ciclo. O fluxo de que ele precisa no pico da inspiração é, portanto, umas três vezes a ventilação por minuto: em torno de vinte litros por minuto em repouso. Num paciente dispneico, com volume corrente maior e frequência de 28 ou 30, a demanda de pico sobe facilmente para quarenta, cinquenta, sessenta litros por minuto. Compare com o fluxômetro aberto em três. Todo litro que o dispositivo não entrega, o paciente busca no ar do quarto — e o ar do quarto tem 21% de oxigênio.
É isso, e só isso, que separa baixo fluxo de alto fluxo. Não é o número de litros: é se o sistema acompanha ou não a demanda inspiratória daquele paciente. Sistema de alto fluxo é o que entrega fluxo igual ou maior que a demanda, e por isso entrega fração previsível; sistema de baixo fluxo é o que não entrega, e por isso a fração depende de quanto ar ambiente o paciente arrastou junto. É por essa definição que o procedimento de Uberaba classifica a máscara de Venturi como alto fluxo mesmo quando ela oferta 24%, e classifica a máscara com reservatório como baixo fluxo mesmo quando ela oferta 90%. Fração alta e alto fluxo são duas coisas diferentes, e o interno que confunde as duas escolhe errado quando o paciente cansa.
A consequência disso é contraintuitiva e vale carregar: num sistema de baixo fluxo, quanto pior o paciente, menor a fração que ele recebe do mesmo dispositivo no mesmo fluxo. O cateter a três litros que dava trinta e poucos por cento no paciente calmo dá bem menos quando ele passa a respirar 30 vezes por minuto, porque cada inspiração puxa mais ar do quarto para completar o volume. O paciente piora, a oferta real cai, e o fluxômetro continua marcando três. A regra de bolso que as Orientações Práticas registram — cada litro por minuto acrescenta de três a quatro pontos percentuais acima dos 21% do ar — só vale para o padrão respiratório médio de quem está tranquilo, e o próprio documento diz que a fração ofertada é imprecisa.
O cateter nasal funciona melhor do que a aritmética sugere por um motivo anatômico: a nasofaringe é um reservatório. Durante a pausa expiratória, o oxigênio que continua saindo pelo cateter enche o espaço morto anatômico do nariz e da faringe, e esse gás enriquecido é o primeiro a ser inalado na respiração seguinte. É por isso que dois litros por minuto fazem diferença clínica apesar de serem uma fração ínfima da demanda. E é também por isso que subir o fluxo para além de certo ponto para de acrescentar: o reservatório anatômico já está cheio, os litros extras vazam pelas narinas e pela boca, e o que sobra do aumento é o jato seco batendo na mucosa. As Orientações Práticas põem o limite do desconforto em quatro litros por minuto; o procedimento de Santa Cruz põe em seis; os dois dizem a mesma coisa sobre o que acontece acima do limite, que é ressecamento, desconforto e epistaxe.
A máscara com reservatório resolve o problema do fluxo de pico com um truque de armazenamento, e a bolsa é o dispositivo. O fluxômetro entrega gás continuamente, inclusive durante a expiração, quando o paciente não está consumindo nada; esse gás se acumula na bolsa e fica disponível para ser sugado no pico da inspiração seguinte. Faça a conta: quinze litros por minuto são duzentos e cinquenta mililitros por segundo, e uma pausa expiratória de dois segundos guarda quinhentos mililitros — aproximadamente um volume corrente inteiro esperando na bolsa. A seis litros por minuto, são cem mililitros por segundo, e os mesmos dois segundos guardam duzentos mililitros. A bolsa esvazia na primeira inspiração, colaba, e a partir daí o paciente inspira pelas bordas da máscara e pelo gás que ficou dentro do plástico. A bolsa colabada não é um detalhe estético: é o aviso de que o dispositivo parou de funcionar como reservatório.
As válvulas explicam a diferença entre as duas máscaras com bolsa. Na não reinalante há três: uma entre a bolsa e a máscara, que deixa o gás descer para o paciente e impede que o ar exalado suba de volta para a bolsa, e duas nas laterais, que deixam o gás exalado sair e impedem que o ar do quarto entre. Na de reinalação parcial não existe a válvula entre a bolsa e a máscara, e por isso o primeiro terço do gás exalado — que veio do espaço morto, ainda rico em oxigênio e pobre em gás carbônico — volta para a bolsa e é reaproveitado. Daí o nome, daí a fração menor, e daí a razão de a integridade das três válvulas ser condição para a máscara não reinalante fazer o que promete: a consulta pública do documento federal de 2021 recebeu, como contribuição, exatamente o pedido de que isso fosse salientado.
O Venturi troca armazenamento por arrastamento, e a aritmética dele é a mais bonita do capítulo. O oxigênio passa por um estreitamento e ganha velocidade; a queda de pressão ao redor do jato puxa ar ambiente por janelas laterais de tamanho fixo. Como o tamanho da janela é geométrico e não depende do fluxo, a proporção entre ar arrastado e oxigênio é constante — e é ela, não o fluxômetro, que fixa a fração. A proporção sai de uma conta simples: para uma fração desejada, a razão entre ar e oxigênio é a diferença entre 1,00 e a fração, dividida pela diferença entre a fração e 0,21. Duas consequências práticas caem daí, e a segunda quase ninguém sabe. A primeira: para reduzir a fração num Venturi troca-se a válvula, nunca só o fluxo — abaixar o fluxômetro não muda a proporção, só reduz o fluxo total e faz o paciente arrastar ar pelas bordas. A segunda está na tabela deste capítulo: quanto mais alta a fração da válvula, menor a razão de arrastamento e, portanto, menor o fluxo total entregue. A válvula de 24% multiplica o fluxo do oxigênio por cerca de vinte e seis; a de 60% multiplica por dois. O Venturi é altíssimo fluxo na ponta baixa e deixa de ser alto fluxo justamente na ponta alta, que é onde o paciente está pior.
Como se apresenta de verdade
A oxigenoterapia não chega ao interno como uma decisão. Chega como uma situação já montada por outra pessoa — um dispositivo que alguém pendurou, um fluxômetro que alguém abriu, uma linha de prescrição que alguém copiou do dia anterior. Estas seis situações dão conta de quase tudo o que aparece numa enfermaria de clínica médica, e o que separa uma da outra não é a doença do paciente: é a peça errada no arranjo. Saber em qual delas você está decide os dois minutos seguintes.
1. A prescrição que não tem dose
É a apresentação mais comum e a mais invisível, porque não produz sintoma nenhum. Na folha está escrito oxigênio suplementar se necessário, ou oxigênio a critério, ou apenas oxigenoterapia. Nenhuma dessas linhas diz o dispositivo, o fluxo, o alvo, o intervalo de reavaliação ou quem está autorizado a mexer. O paciente recebe o que a técnica do turno julgou razoável, e o julgamento muda com o turno.
Compare com qualquer outro medicamento da mesma folha. Ninguém escreve dipirona se necessário sem dose, sem via e sem intervalo mínimo — a prescrição seria devolvida antes de chegar à enfermagem. O oxigênio passa porque não vem da farmácia, não tem caixa, não tem etiqueta e não gera pedido. O procedimento de oxigenoterapia hospitalar do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro trata isso como falha de processo, e não de conhecimento: lista, entre as responsabilidades do médico, prescrever o alvo de saturação e rever a prescrição conforme a evolução, e cria auditoria periódica do núcleo de segurança do paciente para conferir se isso aconteceu.
O dano dessa apresentação é bidirecional, e por isso escapa. Para baixo, o paciente fica sem oferta quando precisa, porque ninguém tem um número a perseguir. Para cima, ele fica com oferta demais indefinidamente, porque também não há um número que autorize desligar. Nos dois casos a folha está preenchida e a conferência de prontuário passa.
O que você faz aqui não é clínico, é de escrita: reescrever a linha com as quatro informações que ela precisa ter. Elas estão no bloco de conduta, e são sempre as mesmas quatro.
2. O paciente que subiu de dispositivo sem subir de oferta
É a apresentação do leito 12 da abertura, e é a única deste capítulo que engana até quem sabe. O paciente piorou, alguém trocou o cateter nasal por uma máscara com reservatório — o dispositivo que todo mundo entende como o topo da escada — e o fluxômetro ficou onde estava, ou subiu pouco. O objeto no rosto passa a mensagem de gravidade máxima; o gás que sai dele, não.
O sinal está na bolsa, e só nela. Bolsa cheia, que esvazia parcialmente na inspiração e volta a encher antes da próxima, é dispositivo funcionando. Bolsa murcha, colada em si mesma, que sobe e desce um dedo, é dispositivo que parou de funcionar como reservatório — e a partir daí a máscara é uma peça de plástico com espaço morto na frente da boca do paciente. Os três documentos brasileiros lidos aqui convergem quanto ao risco: fluxo baixo dentro de máscara produz reinalação de gás carbônico.

Há um agravante que não se vê da porta. Quando a bolsa colaba, o paciente compensa puxando ar pelas bordas da máscara e forçando as válvulas laterais, que são unidirecionais e existem para deixar sair, não entrar. O trabalho respiratório sobe por causa do dispositivo, e o cansaço que se atribui à doença tem uma parcela que é do plástico.
A conduta é imediata e não precisa de exame: ou o fluxo sobe até a bolsa encher, ou o dispositivo desce um degrau para um que funcione no fluxo disponível. O que não se faz é deixar como está e anotar que o paciente está no máximo.
3. O paciente que está em 99% e ninguém acha isso ruim
Homem de 74 anos, quarto dia de pneumonia, cateter nasal a três litros por minuto, saturação de 99% desde ontem. A folha de sinais vitais registra o número, a visita passa, ninguém comenta. É a apresentação em que o erro está no excesso, e ela é silenciosa por construção: o monitor mostra o melhor número possível.
As Orientações Práticas das duas sociedades brasileiras fixam o teto da titulação em 96% e mandam reduzir a oferta assim que a saturação se mantiver acima disso de forma sustentada. O documento federal de 2021, escrito para o paciente com COVID-19, é mais estrito e manda reduzir acima de 94%. O procedimento de Uberaba dedica uma seção inteira ao assunto, com o título de prevenção da hiperóxia, e sugere que o monitor alarme quando a saturação passar de 98% a 99% em quem não tem indicação para estar ali.
O que a saturação alta demais custa não é abstrato. Os documentos brasileiros lidos aqui nomeiam atelectasia por absorção com fração inspirada acima de 0,6, vasoconstrição coronariana e cerebral, aumento de espécies reativas de oxigênio e, em quem retém gás carbônico, depressão do estímulo respiratório. As Orientações Práticas trazem uma tabela que põe hipoxemia e hiperoxemia lado a lado, sistema por sistema, e a coluna da hiperoxemia não é mais curta que a da hipoxemia.
Há duas doenças em que os documentos brasileiros são mais explícitos que a média. No infarto agudo do miocárdio, ofertar oxigênio só se houver hipoxemia — o procedimento de Uberaba usa o limiar de 90% e nomeia a vasoconstrição coronariana como o dano. No acidente vascular cerebral, o mesmo procedimento manda manter acima de 94%, enquanto as Orientações Práticas mandam não iniciar oxigênio em quem já está acima de 92%. As duas réguas discordam no valor exato, e a conferência dessa discordância está nas notas do bloco de critérios.
4. O paciente que vai sair do quarto
Tomografia, endoscopia, hemodiálise, centro cirúrgico, transferência. O paciente que recebe oxigênio na parede precisa continuar recebendo no corredor, e o corredor não tem parede. A apresentação é a maca parada na porta com um cilindro pendurado atrás, e a pergunta que ninguém fez é quantos minutos existem dentro dele.
O que torna essa situação perigosa é que ela não parece uma decisão clínica. Parece logística — e logística é sempre de outra pessoa. Mas a conta é do médico que prescreveu o fluxo, porque só ele sabe qual oferta aquele paciente não pode perder, e quanto tempo o exame realmente leva contando a espera, o retorno e o corredor onde a maca fica enquanto o técnico almoça.
As Orientações Práticas das duas sociedades dão a regra na seção de transporte, e ela é simples de aplicar: a autonomia dos equipamentos, em eletricidade e em gás medicinal, deve suportar no mínimo o dobro do tempo previsto de transporte, e os testes devem ficar registrados. O procedimento de Uberaba diz o mesmo em outra linguagem, ao exigir equipamento portátil com controle de fluxo adequado e monitorização durante o transporte intra-hospitalar.
O detalhe que transforma a regra em conta está gravado no próprio cilindro: a capacidade hídrica, em litros, vem estampada no ombro dele, e o manômetro dá a pressão. A tabela do bloco de critérios faz essa multiplicação, e o resultado tem uma surpresa que vale conhecer antes de precisar dela.
5. O paciente que já podia ter saído do oxigênio
Sexto dia de internação, pneumonia tratada, febre resolvida há três dias, cateter nasal a dois litros por minuto desde a admissão. Ninguém testou o que acontece se desligar. A linha de oxigênio atravessou a internação inteira porque foi copiada da prescrição da véspera, todos os dias, sem que ninguém a tenha reavaliado uma única vez.
É a apresentação de menor gravidade imediata e de maior custo acumulado. Ela ocupa um ponto da rede de gases que outro paciente pode precisar, mantém um objeto no rosto de alguém que já não precisa dele, resseca mucosa sem motivo e — o que mais importa para o interno — impede que a equipe saiba qual é a reserva respiratória real daquele paciente na véspera da alta. Um paciente que satura 95% com dois litros por minuto é um paciente cuja saturação em ar ambiente ninguém conhece.
A régua da retirada existe e é curta. As Orientações Práticas dizem que a oxigenoterapia pode ser retirada se a saturação em ar ambiente se mantiver acima de 92% de forma sustentada, ou acima de 88% em quem tem doença pulmonar crônica. O procedimento de Uberaba manda revisar a prescrição de oxigênio diariamente dentro da visita e reduzir ou suspender quando a meta for alcançada, e a lista de verificação dele dá até o passo: reduzir um litro por minuto a cada dez a quinze minutos, e observar por pelo menos dez minutos depois de desligar.
Repare no que essa régua exige e ninguém faz. Para saber se a saturação em ar ambiente está acima de 92%, é preciso desligar o oxigênio e medir. O número que autoriza a retirada não existe enquanto a retirada não for tentada.
6. O rosto que o dispositivo está machucando
Terceiro dia de máscara, e há uma marca avermelhada em cima da ponte nasal que não some quando se tira o dispositivo por dez minutos. Ou o cateter nasal deixou uma linha atrás do pavilhão auricular. Ou a narina está com crosta e sangrou de manhã, na hora do banho. A apresentação é a lesão que o tratamento produziu.
Os dois procedimentos brasileiros lidos aqui listam irritação de pele e lesão por pressão como desvantagem de todas as máscaras — simples, com reservatório e Venturi — quando usadas por períodos longos, e o de Uberaba põe a inspeção da pele nas áreas de contato dentro da lista de verificação de cuidados contínuos. A lesão por pressão relacionada a dispositivo médico tem dono neste nível, e é o capítulo Lesão por pressão no paciente internado, da apostila de Síndromes do Paciente Internado: o estadiamento, a prevenção e o curativo são dele, e este capítulo cede a ele o assunto.
O que fica deste lado da fronteira é a decisão sobre o dispositivo. Se a marca apareceu, a pergunta é se aquele paciente ainda precisa daquele dispositivo, se um de menor contato entrega o que ele precisa, e se a folga do arnês e o revezamento de apoio estão sendo feitos. Trocar máscara por cateter nasal quando a necessidade já caiu resolve a lesão e adianta o desmame no mesmo gesto.
O nariz seco é o parente pobre dessa família, e aparece antes. Ressecamento de mucosa, desconforto e epistaxe são o que os dois procedimentos nomeiam como consequência de fluxo alto sem umidificação — e é aí que mora uma das três divergências deste capítulo, porque dois hospitais da mesma rede federal, escrevendo para pacientes de idades diferentes, não umidificam nas mesmas condições.
Como fechar o diagnóstico
A investigação deste capítulo quase não usa o laboratório. O objeto de estudo é um arranjo de peças entre uma saída na parede e o rosto de um paciente, e a maior parte do que decide está visível a um metro de distância. As seções seguem a ordem em que se olha: primeiro o objeto, depois a fonte, depois o número, depois o exame que responde outra pergunta, depois a reserva de gás e, por último, o registro — que é o único desses seis que ainda existirá amanhã.
Uma advertência de fronteira antes de começar. Investigar por que este paciente dessaturou é assunto do capítulo Dessaturação aguda na enfermaria, da apostila de Síndromes do Paciente Internado: a pergunta sobre qual compartimento falhou, a leitura da ausculta, o eletrocardiograma e a radiografia pertencem a ele, e este capítulo cede a ele a causa. O que segue aqui é a outra metade do mesmo leito — o dispositivo, o fluxo e a escolha entre eles.
Primeiro: o objeto, antes do número
Há quatro coisas para olhar, e nenhuma delas está na tela. A primeira é o acoplamento: a máscara está encostada nas bochechas e no dorso do nariz ou está pendurada no queixo? O cateter nasal tem as duas prongas dentro das narinas ou uma delas escorregou? A pergunta parece boba até você contar quantas vezes por semana ela resolve uma dessaturação sozinha.
A segunda é a bolsa, quando há bolsa. O procedimento de Uberaba e as Orientações Práticas dizem a mesma coisa por caminhos diferentes: a fração inspirada da máscara com reservatório depende do ajuste à face e do padrão respiratório do paciente, e fluxo abaixo do necessário produz reinalação de gás carbônico. Isso vira uma inspeção de três segundos — a bolsa enche entre as respirações, ou não.
A terceira é a válvula, no Venturi. O número está impresso na peça e a cor muda por fabricante, o que significa que a cor não é dado e o número é. Os dois procedimentos brasileiros mandam conferir o que está escrito na válvula, e o de Santa Cruz é explícito ao dizer que a fração e o fluxo necessário para garanti-la variam conforme o fabricante.
A quarta é a boca. Paciente que respira pela boca com cateter nasal recebe muito menos do que a conta sugere, e paciente com obstrução nasal — desvio de septo, pólipo, congestão — recebe menos ainda; o procedimento de Uberaba lista as três como limitação do cateter nasal. Isso não contraindica o cateter: muda a expectativa do que ele entrega, e explica a saturação que não sobe apesar de o fluxômetro estar certo.
Segundo: a fonte — a parede, o fluxômetro e a saída que não é oxigênio
A régua de gases da cabeceira tem mais de uma saída, e elas não fazem a mesma coisa. Oxigênio medicinal e ar comprimido chegam por pontos distintos, com conexões distintas e cores distintas, e o procedimento de Santa Cruz descreve exatamente esse painel: fluxômetros de oxigênio e de ar comprimido lado a lado, cada um com sua válvula reguladora, ofertando de 1 a 15 litros por minuto. Ar comprimido é ar — vinte e um por cento de oxigênio, a mesma coisa que o paciente já respira.
O fluxômetro tem um detalhe que ninguém ensina e que muda a leitura. A esfera dentro do tubo marca o fluxo pelo seu ponto médio, não pela borda de cima nem pela de baixo, e o tubo é graduado com espaçamento desigual — os primeiros litros ocupam mais espaço que os últimos. Ler três onde estão dois, num paciente em cateter nasal, é um terço da dose.
Vale conferir se o gás está mesmo saindo, e a maneira de fazer isso não é olhar a esfera: é sentir o fluxo na palma da mão ou ouvir o borbulhar no copo umidificador, quando ele existe. Fluxômetro aberto com conexão frouxa, extensão dobrada sob a grade da cama ou traqueia desconectada atrás do travesseiro são achados de rotina, não de exceção.
E há a fonte que não é a parede. Em enfermaria de hospital pequeno, em UPA e em transporte, o oxigênio vem de cilindro com válvula redutora e fluxômetro acoplado. A diferença prática não é o gás: é que o cilindro acaba, e a parede não.
Terceiro: o número, e as duas coisas que ele muda na titulação
A oximetria de pulso é o instrumento que titula a oxigenoterapia no Brasil, e os documentos dizem isso com todas as letras: o procedimento de Uberaba registra que a indicação e a titulação devem ser feitas com base na saturação periférica sempre que a medida for confiável. A expressão que carrega o peso é sempre que a medida for confiável.
As armadilhas da oximetria — perfusão ruim, esmalte, pigmentação cutânea mais escura, atraso entre o pulmão e o dedo, carboxi-hemoglobina que o aparelho lê como oxigênio — são discutidas em detalhe no capítulo Dessaturação aguda na enfermaria, da apostila de Síndromes do Paciente Internado, que é dono da pergunta se este número é real. Este capítulo cede a ele essa discussão e fica com as duas consequências que mudam a titulação do dispositivo.
A primeira: número medido com perfusão ruim é otimista quando o paciente está piorando e pessimista quando está frio, e nos dois casos titular pelo número sozinho leva a subir ou descer o fluxo pelo motivo errado. Antes de mexer no fluxômetro, confirme que a curva do oxímetro tem morfologia de pulso e que a frequência exibida bate com o pulso palpado.
A segunda: em quem esteve exposto a monóxido de carbono — incêndio em ambiente fechado, motor ligado em garagem, aquecedor a gás sem exaustão — o oxímetro comum superestima a saturação real, porque lê a carboxi-hemoglobina como se fosse oxigênio. O manejo dessa intoxicação, inclusive a câmara hiperbárica, pertence ao capítulo O antídoto é a menor parte, da apostila de Toxicologia, e à via aérea do queimado, no capítulo A via aérea fecha enquanto você repõe, da apostila de Queimados. Aqui interessa só a consequência de dispositivo: nesse cenário a oferta não se titula pela saturação, e o dispositivo é o de maior fração disponível.
Uma nota de honestidade sobre o registro do número. Saturação anotada sem o dispositivo e o fluxo ao lado não se compara com a saturação de ontem, e é assim que a folha de sinais vitais da abertura deste capítulo acabou com seis colunas de números que não dizem nada.
Quarto: quando o exame é a gasometria — e o que ela responde
A gasometria arterial entra na oxigenoterapia por dois motivos, e nenhum dos dois é conferir a saturação. O primeiro é medir o que o oxímetro não mede: a pressão de gás carbônico e o pH, que dizem se o problema daquele paciente é de oxigenação ou de ventilação. O segundo é permitir ajuste fino da fração inspirada em quem tem doença pulmonar de base — é assim, com essas palavras, que o procedimento de Uberaba a indica.
Reavaliar oximetria, esforço respiratório e estado mental imediatamente após corrigir a oferta e nos primeiros minutos. Em paciente estável, gasometria cerca de 20 a 30 minutos após titulação pode avaliar o efeito do ajuste quando indicada. Sonolência, suspeita de hipercapnia aguda ou deterioração exigem avaliação e gasometria urgentes, sem esperar esse intervalo nem atrasar suporte.
Duas coisas práticas que a beira do leito esquece. A primeira: registre na requisição o dispositivo e o fluxo que estavam em uso no momento da coleta, senão o valor de oxigênio da gasometria não é interpretável por quem a lê depois. A segunda: em paciente que está mal, não se retira o oxigênio para colher em ar ambiente — colhe-se sob a oferta em curso, com o registro.
A leitura do resultado — o passo a passo do distúrbio acidobásico — é do capítulo Gasometria arterial, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. O gesto de puncionar a artéria, o sítio, o tempo de compressão e o que estraga a amostra são do capítulo Punção arterial para gasometria, desta mesma apostila. Este capítulo cede a leitura ao primeiro e o gesto ao segundo, e fica com a decisão de dispositivo que o resultado dispara.
Quinto: a reserva — o manômetro, o ombro do cilindro e a conta
O cilindro traz duas informações e as duas são legíveis sem ferramenta. No ombro dele, gravada no metal, está a capacidade hídrica em litros — o volume de água que o casco comporta. No manômetro da válvula reguladora está a pressão do gás lá dentro, em quilograma-força por centímetro quadrado, que é praticamente a mesma coisa que atmosferas.
Multiplicar as duas dá o volume de oxigênio disponível em litros, e dividir pelo fluxo prescrito dá os minutos. Um cilindro de transporte com capacidade hídrica de 3,4 litros, cheio a 200, guarda cerca de 680 litros: quatro horas a três litros por minuto, e quarenta e cinco minutos a quinze. Pela metade da pressão, metade de tudo isso. A tabela do bloco de critérios traz a conta feita, e ela é aritmética de física de gás, não citação de norma brasileira — nenhum dos documentos lidos aqui traz a fórmula.
O que os documentos trazem é a exigência de margem. As Orientações Práticas mandam que a autonomia dos equipamentos suporte no mínimo o dobro do tempo previsto de transporte. Aplicada com números reais, essa regra tem uma consequência desconfortável: um transporte de quarenta minutos a quinze litros por minuto exige 1.200 litros de reserva, e um cilindro de 3,4 litros de capacidade hídrica não guarda isso nem cheio. A regra do dobro, nesse caso, não pede que se confira o manômetro — pede um segundo cilindro.
Confira também o que está entre o cilindro e o paciente: a válvula reguladora rosqueada e apertada, o fluxômetro acoplado e testado, a extensão íntegra, e a chave que abre a válvula presa ao carrinho. Cilindro cheio com válvula fechada e chave perdida no posto tem autonomia zero.
Sexto: o registro — o que precisa estar escrito para a próxima equipe
Esta seção não parece investigação e é a mais decisiva das seis, porque tudo o que você conferiu nas cinco anteriores desaparece no fim do plantão se não for escrito. O procedimento de Uberaba põe o registro na lista de verificação com três itens: início, alteração e interrupção da terapia anotados no prontuário; resposta do paciente anotada; data e hora da checagem anotadas.
A folha de enfermagem precisa de duas colunas que muitas vezes não existem: qual dispositivo e qual fluxo estavam em uso quando cada saturação foi medida. O procedimento de Santa Cruz resolve isso com um apêndice — a lista de verificação da oxigenoterapia tem data, horário, dispositivo, fração inspirada, fluxo, saturação e o profissional responsável, em colunas, para o mesmo paciente ao longo do tempo.
E há uma intervenção de registro que é a mais barata deste capítulo inteiro. O procedimento de Uberaba institui uma placa visual à cabeceira com a faixa-alvo de saturação daquele paciente escrita, com sugestão de código de cores, que o médico ou o fisioterapeuta atualiza quando a meta muda e que a enfermagem consulta antes de mexer no fluxômetro. Ela existe porque a informação que decide a dose mora na cabeça de quem prescreveu e precisa chegar a quem passa às três da manhã.
O teste do registro é simples: se você sumir agora, a próxima equipe sabe qual alvo perseguir, com qual dispositivo, em qual fluxo, e quando reavaliar? Se a resposta for não, o que falta não é exame.
O que decide: o dispositivo, o fluxo, o alvo e a reserva
Prescreva alvo, dispositivo e ajustes, mas observe também esforço e ventilação. O caso mantém a meta de 92–96% do percurso adotado; pacientes com risco de hipercapnia costumam exigir 88–92% e gasometria conforme contexto. Outras diretrizes, como BTS 2017, usam 94–98% em muitos adultos: não misture faixas sem identificar o protocolo e o paciente. Corrigir montagem não dispensa investigar a causa da piora.
- 1Avaliar hipoxemia e gravidade; oxigênio não trata isoladamente a causa da dispneia, e pressão positiva também não é indicação automática para toda dispneia com SpO2 normal.
- 2Registrar SpO2 em ar ambiente quando disponível e seguro, sem atrasar oxigênio necessário nem retirar suporte de paciente instável só para obter medida basal.
- 33 · Escolha o alvo antes de escolher o dispositivo, e escolha-o pelo paciente: 92% a 96% para o adulto internado sem doença pulmonar crônica significativa, e 88% a 92% para quem retém ou pode reter gás carbônico — é a régua que esta apostila adota. A faixa de 90% a 94% da régua federal de 2021 foi escrita para o paciente com COVID-19 e não governa o paciente geral; a razão está na primeira divergência deste capítulo.
- 44 · Escolha o dispositivo pela fração de que ele precisa, não pela gravidade que você quer sinalizar. Necessidade baixa a intermediária, cateter nasal. Necessidade de fração intermediária e previsível, Venturi. Hipoxemia grave, máscara com reservatório não reinalante.
- 5Usar faixa própria do dispositivo: cateter nasal convencional frequentemente 1–6 L/min conforme produto e tolerância; máscara simples em geral 5–10; reservatório em geral 10–15, com bolsa funcional. Venturi: adaptador define FiO2 e fluxo deve respeitar mínimo e demanda, conforme instruções. Quatro litros não é teto universal do cateter.
- 66 · Escreva a linha inteira na prescrição: dispositivo, fluxo, alvo de saturação, intervalo de reavaliação e quem pode ajustar. Faltando qualquer um dos cinco, a linha não é uma prescrição — é uma sugestão.
- 77 · Confirme com os olhos que o dispositivo está funcionando: prongas dentro das narinas, máscara encostada na face, bolsa enchendo entre as respirações, válvula certa acoplada.
- 88 · Ponha o paciente sentado ou com a cabeceira elevada. O procedimento de Uberaba fixa 30 a 45 graus na lista de verificação, e essa é a única intervenção deste capítulo que não consome gás nenhum.
- 9Reavaliar imediatamente após a intervenção e a cada ajuste, com monitorização proporcional à gravidade. Observar SpO2, frequência, esforço, consciência, circulação e conforto; não esperar prazo fixo diante de piora.
- 1010 · Se o alvo não foi alcançado, suba de dispositivo — não abra mais o fluxômetro no dispositivo que já chegou ao próprio teto. Cateter nasal a 6 L/min não vira máscara.
- 1111 · Se a saturação passou do teto, reduza. Titular é para os dois lados, e a redução é a metade que ninguém faz.
- 1212 · Avalie continuamente a resposta clínica. Colha gasometria conforme indicação; após titulação no estável, pode ser repetida em cerca de 20 a 30 minutos. Deterioração ou sonolência exigem avaliação imediata, pois o oxímetro não mede ventilação.
- 13Não usar copo borbulhador por regra de fluxo ou duração. Definir necessidade e sistema de umidificação para dispositivo e paciente, incluindo exigências próprias de alto fluxo e via aérea artificial.
- 1414 · Reconheça o momento em que o oxigênio deixou de ser a resposta: consciência que desce, frequência respiratória que sobe apesar da saturação corrigida, musculatura acessória que não cede, ou alvo que não se alcança nem trocando de dispositivo. A partir daí o problema é de ventilação ou de trabalho respiratório, e a conduta é chamar quem instala suporte ventilatório.
- 1515 · Antes de o paciente sair do andar, faça a conta do cilindro: capacidade hídrica vezes pressão, dividido pelo fluxo, e o resultado precisa ser pelo menos o dobro do tempo previsto de transporte.
- 1616 · Na visita do dia seguinte, leia a linha de oxigênio em voz alta e pergunte se ela ainda serve. O procedimento de Uberaba põe essa revisão dentro do round diário; a prescrição copiada é o que a torna necessária.
- 1717 · Quando o alvo for alcançado em oferta baixa, teste a retirada em vez de esperar por ela: reduza um litro por minuto a cada dez a quinze minutos, desligue e observe por pelo menos dez minutos, com o paciente na mesma posição.
- 1818 · Registre tudo com hora: início, cada mudança e a interrupção, sempre com o dispositivo e o fluxo ao lado do número de saturação.
Tabela 1 — Os dispositivos da enfermaria: o que entregam e o que não entregam
| Dispositivo | Fluxo | Fração inspirada estimada | O que ele não faz, e o sinal de que parou de funcionar |
|---|---|---|---|
| Cateter nasal tipo óculos | Em geral 1–6 L/min no cateter nasal convencional, conforme fabricante, tolerância e resposta; 4 L/min não é limite universal. | 24% a 40%, imprecisa; cerca de 3 a 4 pontos percentuais por litro acima dos 21% do ar | Não entrega fração previsível e não acompanha a demanda de pico. Acima do teto, o acréscimo de fração é pequeno e o que sobra é jato seco: ressecamento, desconforto e epistaxe. Perde eficácia com obstrução nasal e com respiração bucal |
| Máscara facial simples | 5 a 10 L/min | 40% a 60% pelas Orientações Práticas; 36% a 60% pela ficha do procedimento de Uberaba | Não funciona abaixo de 5 L/min: aumenta a resistência à respiração e permite reinalação de gás carbônico dentro do próprio plástico. Precisa sair para o paciente comer, e sai da conta da oferta nesse intervalo |
| Máscara com reservatório de reinalação parcial | 6 a 10 L/min | 40% a 80% | Não tem válvula entre a bolsa e a máscara, então o primeiro terço do gás exalado volta para a bolsa. Entrega menos que a não reinalante no mesmo fluxo, e é frequentemente confundida com ela |
| Máscara com reservatório não reinalante | 10 a 15 L/min | 60% a 90% pelas Orientações Práticas; 60% a 95% pela ficha do procedimento de Uberaba | Não entrega fração alta se a bolsa não estiver cheia, e não protege de reinalação se qualquer uma das três válvulas estiver ausente ou emperrada. Bolsa murcha é o aviso de que o dispositivo deixou de ser reservatório |
| Máscara de Venturi | O fluxo de oxigênio exigido vem impresso na válvula e varia com o fabricante | Fixa, conforme a válvula: 24%, 28%, 31%, 35% e 60% no catálogo do procedimento de Uberaba | Não aumenta a fração se você abrir o fluxômetro, e não mantém a fração se a máscara vazar pelas bordas. Deixa de acompanhar a demanda justamente nas válvulas de fração mais alta, quando o paciente respira mais de 30 vezes por minuto |
| Cânula nasal de alto fluxo | Início entre 30 e 40 L/min, com aumento de 5 L/min por minuto até 60 L/min | 21% a 100%, precisa | Não é dispositivo de enfermaria comum: exige gerador de fluxo, misturador e umidificador aquecido. A condução, o índice de falha e o desmame dela não têm capítulo dono neste nível e pertencem à medicina intensiva — aqui ela entra só para o interno reconhecê-la e saber a quem entregá-la |
Tabela 2 — As três réguas brasileiras do alvo de saturação, com data
| Decisão | Conitec, relatório 637, junho de 2021 (federal, amarrado à COVID-19) | AMIB e SBPT, Orientações Práticas, setembro de 2024 (consenso de sociedades) | Procedimento de Uberaba, versão 4, maio de 2026 (local) |
|---|---|---|---|
| Quando iniciar oxigênio no adulto sem doença pulmonar crônica | Não fixa gatilho explícito fora da meta: descreve hipoxemia como saturação abaixo de 90% em ar ambiente, e a faixa a manter começa em 90% | Saturação abaixo de 92% em ar ambiente, com a ressalva expressa de que não há evidência do limiar inferior exato | Saturação abaixo de 92%, ou pressão de oxigênio abaixo de 60 mmHg, ou sinais de desconforto respiratório |
| Faixa-alvo do adulto internado | Igual ou acima de 90% até o máximo de 94% | 92% a 96% | 92% a 96% |
| Acima de que valor reduzir a oferta | Acima de 94% | Acima de 96% de forma sustentada | Acima de 96%, com alarme sugerido acima de 98% a 99% |
| Alvo em quem retém ou pode reter gás carbônico | Não trata do assunto fora da COVID-19 | 88% a 92%, com início da oferta abaixo de 88% | 88% a 92%, ou conforme protocolo local |
| Escalonamento do dispositivo | Cateter nasal de 1 a 6 L/min; acima de 6 L/min para manter saturação acima de 90%, máscara com reservatório não reinalante | Cateter nasal para necessidade baixa a intermediária; máscara com reservatório a 15 L/min na dispneia aguda com saturação abaixo de 85% sem risco de hipercapnia | Cateter nasal na hipóxia leve a moderada; máscara simples para fração de 35% a 60%; Venturi para ajuste preciso; reservatório na hipóxia grave |
| Quando retirar | Não fixa critério de retirada | Saturação em ar ambiente sustentada acima de 92%, ou acima de 88% na doença pulmonar crônica | Redução gradual do fluxo conforme melhora clínica e gasometria, em acordo com a equipe médica; revisão diária dentro da visita |
| Reavaliação depois de iniciar ou mexer na oferta | Não fixa intervalo para a oxigenoterapia convencional | Monitorização e reavaliação imediatas, conferindo resposta nos primeiros minutos; gasometria conforme indicação, sem esperar se houver deterioração. | Reavaliar imediatamente após cada mudança e nos primeiros minutos, com os sete itens; manter acompanhamento conforme gravidade. |
Tabela 3 — Venturi: razão de arrastamento e fluxo total das frações comerciais usuais, recalculados
| Fração da válvula | Razão ar arrastado : oxigênio | Fluxo de oxigênio (o valor real vem impresso na válvula) | Fluxo total entregue ao paciente |
|---|---|---|---|
| 24% | 25,3 para 1 | 3 L/min | cerca de 79 L/min |
| 28% | 10,3 para 1 | 6 L/min | cerca de 68 L/min |
| 31% | 6,9 para 1 | 8 L/min | cerca de 63 L/min |
| 35% | 4,6 para 1 | 12 L/min | cerca de 68 L/min |
| 50% (fração comercial fora do catálogo de Uberaba) | 1,7 para 1 | 15 L/min | cerca de 41 L/min |
| 60% | 1,0 para 1 | 15 L/min | cerca de 30 L/min |
Tabela 4 — O cilindro: volume disponível e minutos de autonomia
| Cilindro e pressão no manômetro | Volume de oxigênio disponível | A 3 L/min | A 10 L/min | A 15 L/min |
|---|---|---|---|---|
| Capacidade hídrica de 3,4 L, cheio a 200 kgf/cm² | cerca de 680 L | 3 h 47 min | 1 h 8 min | 45 min |
| Capacidade hídrica de 3,4 L, a 100 kgf/cm² | cerca de 340 L | 1 h 53 min | 34 min | 23 min |
| Capacidade hídrica de 3,4 L, a 50 kgf/cm² | cerca de 170 L | 57 min | 17 min | 11 min |
| Capacidade hídrica de 10 L, cheio a 200 kgf/cm² | cerca de 2.000 L | 11 h 7 min | 3 h 20 min | 2 h 13 min |
| Capacidade hídrica de 10 L, a 50 kgf/cm² | cerca de 500 L | 2 h 47 min | 50 min | 33 min |
Venturi: fluxo total. A razão ar arrastado/oxigênio é (1 − FiO₂)/(FiO₂ − 0,21). Para 24%, resulta em cerca de 25,3:1; para 60%, em 1:1. O fluxo total inclui o ar arrastado, por isso difere do número do fluxômetro.
Cateter nasal: FiO₂ aproximada. A regra de acrescentar três a quatro pontos percentuais por litro é uma estimativa. A 4 L/min, ela produziria aproximadamente 33–37%, mas o padrão respiratório e a entrada de ar ambiente modificam a oferta. Não registre a estimativa como medida.
Faixa do cateter convencional. Considere a faixa usual de 1–6 L/min conforme produto, tolerância e resposta, como no fluxo principal. Quatro litros não é teto universal. Se a oferta ou o conforto forem insuficientes, reavalie o dispositivo e o quadro clínico.
Identifique a máscara. Máscara simples e máscara com reservatório não reinalante são dispositivos diferentes: as faixas descritas são, respectivamente, 5–10 e 10–15 L/min. Confira montagem e funcionamento, especialmente o enchimento da bolsa.
Máscara simples. Faixas como 35–60%, 36–60% ou 40–60% são estimativas de oferta, não valores medidos no paciente. A decisão depende também do fluxo, ajuste e padrão respiratório, com titulação pela resposta.
Reservatório. Tetos estimados de 90% ou 95% não garantem essa FiO₂. Verifique vedação, válvulas, fluxo e bolsa funcional; o aspecto do equipamento faz parte da avaliação de sua eficácia.
Valores no limite. Iniciar, titular e retirar oxigênio são decisões distintas. Um valor exatamente igual ao limite de uma faixa exige leitura do alvo prescrito, tendência e quadro clínico; não deve ficar sem plano por uma desigualdade mal redigida.
Alvos por condição. No AVC, não combine o gatilho de início de uma referência com a meta de outra. Identifique a orientação específica e registre a faixa adotada, para que a equipe titule o mesmo paciente pelo mesmo plano.
Infarto. A referência citada reserva suplementação para hipoxemia e descreve SpO₂ abaixo de 90% como critério nesse contexto. O uso de oxigênio deve estar ligado à indicação; a presença de dor torácica não define, sozinha, a oferta.
Escopo da faixa-alvo. O percurso do adulto com hipoxemia aguda aqui mantém 92–96%; o documento citado para COVID-19 usa 90–94%. São contextos identificados. Não escolha o alvo apenas pela origem federal ou de sociedade da referência.
Bolsa e armazenamento. 15 L/min correspondem a 250 mL/s; em dois segundos, 500 mL. A 10 e 6 L/min, seriam 333 e 200 mL. O exemplo explica a função de reserva, mas não mede a FiO₂ nem estabelece, sozinho, o fluxo necessário de todo paciente.
Autonomia no transporte. A 15 L/min, quarenta minutos consomem 600 L; a margem do dobro exige 1.200 L. Um cilindro de 3,4 L a 200 de pressão, na aproximação usada, oferece cerca de 680 L antes das reservas operacionais. Ele não cobre esse planejamento: organize uma fonte suficiente antes de sair.
Leitura da referência. Para aplicar uma recomendação, identifique população, dispositivo, condição de uso e versão adotada. A ficha bibliográfica ajuda a localizar o texto; ela não substitui a avaliação do conteúdo que orienta o paciente.
Informação coerente. Prescrição, placa de cabeceira e passagem do plantão devem apresentar o mesmo alvo e dispositivo. Divergências entre registros precisam ser resolvidas pela equipe antes do próximo ajuste.
Fluxo e fração. Litros por minuto medem vazão; porcentagem ou fração expressam concentração de oxigênio. Não use essas unidades como sinônimos, especialmente ao trocar cateter por Venturi ou máscara com reservatório.
Após um ajuste. Reavalie SpO₂, esforço, frequência respiratória, consciência, circulação e conforto. A nova montagem deve produzir uma resposta clínica acompanhada, não apenas um novo número na prescrição.
Dispositivo e fabricante. Confira adaptador, faixa de fluxo e instruções do equipamento disponível. Um catálogo de outro serviço pode conter modelos diferentes e não define quais peças estão montadas no paciente.
Neonatologia. Faixas de oxigenação e retirada do suporte no prematuro pertencem ao protocolo específico. Uma linha com sinal de desigualdade inconsistente não deve ser aplicada por dedução nem transferida ao adulto.
PaO₂ e SpO₂ discordantes. Confira qualidade das medidas e contexto antes de reduzir ou suspender o suporte. Uma expressão “e/ou” numa tabela não resolve uma discrepância clinicamente relevante entre os resultados.
Fonte de oxigênio. Verifique a identificação do gás, a conexão, o fluxômetro e a disponibilidade. Na fonte portátil, confira a pressão e a autonomia; o acesso ao insumo depende da estrutura do hospital.
Prescrição completa. Registre dispositivo, fluxo, alvo, intervalo de reavaliação e quem pode ajustar. A oferta por rede ou cilindro continua sendo um tratamento que precisa de indicação, dose e acompanhamento.
Catálogo e gravidade. A necessidade de um dispositivo pode comunicar a intensidade do suporte, mas não substitui fluxo, FiO₂ quando definida, SpO₂ e exame. As válvulas disponíveis variam entre modelos; confira o adaptador efetivamente utilizado.
Comparação entre dispositivos. Uma máscara com bolsa murcha funciona inadequadamente, mas não permite calcular quanto oferece em comparação com um cateter. Corrija a montagem, acompanhe a resposta e investigue a piora; a comparação é explicativa, não uma medição.
Demanda inspiratória. Com volume corrente de 500 mL e frequência de 14/min, a ventilação-minuto é 7 L/min, enquanto a demanda durante a inspiração é maior. No exemplo de 600 mL e 28/min, ela aumenta ainda mais. Um sistema de baixo fluxo mistura ar ambiente, e a FiO₂ varia com essa demanda.
A conduta, hora a hora
Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.
O que segue é a manhã do senhor Glicério Maracujá, do leito 12, do momento em que você para na porta do quarto até a visita do dia seguinte. Os marcos estão na ordem do relógio e não na ordem do raciocínio, porque é assim que o plantão acontece: a decisão sobre o dispositivo vem antes de qualquer diagnóstico, e a decisão sobre o cilindro vem antes de a tomografia ser marcada.
Duas fronteiras valem lembrar antes de começar. Descobrir por que ele dessaturou na madrugada é do capítulo Dessaturação aguda na enfermaria, da apostila de Síndromes do Paciente Internado. Instalar ventilação não invasiva e decidir intubação em paciente que retém gás carbônico é do capítulo Duas doenças com a mesma sigla, da apostila de Pneumologia, que assumiu esse assunto no nível. O que está aqui é o objeto, o número e a linha da prescrição.
Minuto 0 — olhe o objeto antes de olhar a tela
Avalie o paciente e o sistema em paralelo: consciência, fala, esforço, frequência respiratória, perfusão e SpO2, enquanto confere fonte, conexões, fluxo, máscara e bolsa. Em Glicério, a bolsa murcha indica oferta inadequada pelo reservatório, mas não exclui progressão da pneumonia ou outra complicação. Corrija o dispositivo imediatamente, mantenha monitorização e comunique a equipe; não deixe a hipótese de erro de montagem encerrar a investigação da piora.
Prescrição- Registrar no prontuário, com a hora: saturação de 88% em máscara com reservatório a 6 L/min, frequência respiratória de 26, paciente alerta, falando frases com pausa, batimento de asa de nariz presente, sem musculatura acessória franca
- Elevar a cabeceira para 30 a 45 graus, ou sentar o paciente (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
- Não retirar a oferta de oxigênio para medir a saturação em ar ambiente neste momento: o paciente está fora do alvo e a medida basal já foi perdida na madrugada
Minutos 0 a 5 — conserte a oferta antes de escalar o dispositivo
Há duas saídas e as duas são defensáveis, mas uma delas é obviamente primeiro. A máscara com reservatório que ele já tem funciona entre 10 e 15 litros por minuto; a 6 ela é um plástico com espaço morto. Abrir o fluxômetro até a bolsa encher é uma intervenção de dez segundos que testa a hipótese de dispositivo mal ajustado antes de trocar de dispositivo. Abra para 15, olhe a bolsa por três ciclos respiratórios e confirme que ela esvazia parcialmente e volta a encher. Se encher, o dispositivo passou a existir. A segunda saída — descer para um dispositivo que funcione a 6 litros, como a máscara simples ou o cateter nasal — vale quando a hipoxemia é modesta e o objetivo é conforto, e não é o caso aqui.
Prescrição- Oxigênio por máscara com reservatório não reinalante a 15 L/min, verificando o enchimento da bolsa antes de deixar o leito (AMIB e SBPT, Orientações Práticas de Ventilação Mecânica, 2024; POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
- Conferir a integridade das três válvulas do dispositivo — a que separa a bolsa da máscara e as duas laterais — antes de considerar o arranjo montado
- Alvo de saturação escrito na prescrição: SpO2 de 92% a 96%, por não haver, neste paciente, doença pulmonar obstrutiva crônica nem história de retenção de gás carbônico
- Reavaliar imediatamente após corrigir o dispositivo e acompanhar continuamente enquanto houver instabilidade. Após resposta inicial, fazer avaliação completa em intervalo compatível com a gravidade; não aguardar 20–30 minutos se a hipoxemia ou o esforço persistirem.
Minutos 5 a 10 — reescreva a linha inteira
Esta é a intervenção mais duradoura da manhã, e ela é de caneta. A linha oxigênio suplementar se necessário sai da prescrição e entra uma que diz cinco coisas: qual dispositivo, qual fluxo, qual alvo de saturação, em quanto tempo reavaliar e quem pode ajustar. Escrever quem pode ajustar não é burocracia — é o que autoriza a técnica das três da manhã a mexer no fluxômetro dentro de uma faixa em vez de esperar por você ou de abrir por conta própria. Faça o mesmo com os outros três leitos da enfermaria antes da visita, porque a mesma linha vazia está nas quatro folhas.
Prescrição- Oxigênio por máscara com reservatório não reinalante a 15 L/min inicialmente, verificando bolsa e resposta; alvo de SpO2 de 92–96% adotado neste caso, com revisão imediata e seguimento conforme gravidade e protocolo.
- Enfermagem autorizada a titular o fluxo dentro da faixa de 10 a 15 L/min para manter o alvo, comunicando o médico se o alvo não for alcançado no teto da faixa ou se a saturação ultrapassar 96% de forma sustentada
- Registrar a saturação sempre acompanhada do dispositivo e do fluxo em uso no momento da medida
- Afixar à cabeceira a placa com a faixa-alvo de saturação deste paciente, atualizando-a quando a meta mudar (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
Reavaliação contínua desde a correção; consolidar resposta e titulação nos minutos 20 a 30 se estável
Trinta minutos depois, com a bolsa cheia, ele está em 96%, a frequência respiratória caiu para 22, a asa do nariz parou e ele diz que está melhor. É aqui que a maioria das equipes vai embora, e é aqui que falta a segunda metade do trabalho: 96% é o teto do alvo, não o meio, e a régua manda reduzir a oferta assim que a saturação se mantém acima disso. Reduzir não é tirar o tratamento do paciente: é acertar a dose de um fármaco cujo excesso tem dano nomeado. Comece descendo o fluxo dentro do mesmo dispositivo, até o limite inferior dele, e só então troque para um dispositivo de menor fração.
Prescrição- Se houver indicação de reduzir, titular a máscara com reservatório para 10 L/min, mantendo bolsa adequadamente inflada e alvo de 92% a 96%; reavaliar imediatamente e nos primeiros minutos após a mudança.
- Se a saturação permanecer dentro do alvo a 10 L/min, trocar para máscara de Venturi ou máscara facial simples conforme a fração necessária, e reavaliar de novo no mesmo intervalo
- Colher gasometria quando indicada e registrar dispositivo e fluxo. No estável, considerar avaliação após 20 a 30 minutos de titulação; em deterioração ou suspeita de falha ventilatória, colher e intervir imediatamente.
- Não interpretar a subida da saturação, isoladamente, como melhora: o parâmetro que confirma resposta é a queda da frequência respiratória junto com a redução do esforço
Quando o alvo não se alcança — suba de dispositivo, não de fluxômetro
Se a hipoxemia persistir com dispositivo montado corretamente e oferta adequada, peça avaliação para escalonar o suporte e investigar a causa, sem aguardar completar trinta minutos. Cateter, máscara simples, Venturi, reservatório e alto fluxo têm características próprias. No Venturi, o adaptador determina FiO2 e pode ser necessário elevar o fluxo acima do mínimo para atender à demanda, conforme o produto; isso não substitui mudar a concentração ou o suporte quando indicado.
Prescrição- Manter máscara com reservatório a 15 L/min enquanto se prepara a próxima estratégia; não reduzir o fluxo por não haver resposta
- No Venturi, a FiO2 é selecionada pelo adaptador. Respeitar o fluxo mínimo indicado e instruções; demanda inspiratória elevada pode exigir fluxo maior para manter a oferta total, sem que isso aumente automaticamente a FiO2 nominal.
- Reconhecer que a cânula nasal de alto fluxo é o degrau seguinte onde ela existe, e que a instalação, a titulação e o índice de falha dela são da equipe de terapia intensiva ou de fisioterapia do serviço
- Documentar a hora em que o teto do dispositivo foi atingido — é esse horário que a equipe seguinte vai usar para julgar se a escalada foi tardia
Quando o oxigênio deixou de ser a resposta — o que se faz e a quem se chama
Rebaixamento, exaustão, esforço persistente, piora gasométrica ou hipoxemia apesar de oferta adequada exigem avaliação imediata para suporte respiratório. Isso pode ocorrer mesmo com SpO2 aparentemente corrigida. Acione equipe habilitada, mantenha oferta e via aérea e avalie indicação de alto fluxo, ventilação não invasiva ou intubação conforme a causa e o estado clínico. A decisão não depende exclusivamente de pH e PaCO2 nem deve esperar gasometria diante de falha clínica evidente. Apneia ou ventilação ineficaz exige assistência ventilatória imediata por equipe treinada.
Prescrição- Manter a oferta de oxigênio em curso e não reduzi-la enquanto se aguarda a avaliação
- Obter gasometria quando indicada para oxigenação e ventilação, sem atrasar suporte urgente. Integrar pH e PaCO2 com hipoxemia, consciência, esforço, proteção de via aérea e evolução.
- Acionar quem instala suporte ventilatório no seu serviço e registrar a hora da chamada, a hipótese, o alvo em uso e o horário previsto de reavaliação
- Ventilar com bolsa-válvula-máscara com reservatório e oxigênio acoplado se a frequência respiratória cair muito ou se houver apneia, enquanto a ajuda não chega
Nas horas seguintes — umidade, mucosa, pele e boca
Reavalie conforto, mucosa e pele e planeje a oferta durante refeições e transporte. Não acrescentar copo borbulhador automaticamente porque o cateter ultrapassou 4 L/min ou porque o Venturi completou um dia: esse sistema não tem benefício clínico comprovado e pode aumentar risco de contaminação. Alto fluxo e via aérea artificial têm exigências próprias de umidificação, com equipamentos apropriados e cuidados específicos. Diante de ressecamento, avalie causas e escolha medidas compatíveis com dispositivo e protocolo, sem improvisar reservatórios de água.
Prescrição- Definir umidificação pelo dispositivo e pela situação clínica; não usar copo borbulhador rotineiro. Alto fluxo e via aérea artificial exigem sistemas apropriados e protocolo específico.
- Se houver umidificação indicada, conferir sistema, água e manutenção conforme fabricante e controle de infecção; não adaptar copo de baixo fluxo a dispositivos sem indicação.
- Inspecionar a pele nas áreas de contato do dispositivo a cada turno, com atenção ao dorso do nariz, às maçãs do rosto e ao pavilhão auricular (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
- Manter higiene oral e hidratação labial em quem usa máscara ou respira de boca aberta
- Nas refeições, planejar a substituição temporária da máscara por cateter nasal em vez de simplesmente retirá-la
Antes de sair do andar, e na visita do dia seguinte
A tomografia dele está marcada para as onze. Antes de a maca sair, a conta do cilindro: capacidade hídrica gravada no ombro, vezes a pressão do manômetro, dividido pelo fluxo que ele está recebendo, e o resultado precisa cobrir pelo menos o dobro do tempo previsto de ida, exame, espera e volta. Na visita do dia seguinte, a linha de oxigênio é lida em voz alta e enfrenta uma pergunta única: ela ainda serve? Se o alvo está sendo alcançado com oferta baixa, o passo não é manter — é testar a retirada, porque a saturação em ar ambiente que autoriza desligar só existe depois que alguém desliga.
Prescrição- Antes do transporte: conferir o manômetro, calcular a autonomia e garantir reserva de pelo menos o dobro do tempo previsto, providenciando segundo cilindro quando a conta não fechar (AMIB e SBPT, 2024, tema de transporte)
- Levar o dispositivo em uso, extensão íntegra, a chave da válvula e o oxímetro; registrar no prontuário a pressão do cilindro na saída e na volta
- Manter distância de fonte de calor e proibição de fumo próximo ao cilindro e ao paciente em uso de oxigênio: o gás em si não queima, e é justamente por isso que ele acelera qualquer chama que já exista
- Na visita: revisar diariamente a prescrição de oxigênio, reduzindo o fluxo ou suspendendo quando a meta for alcançada (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
- Teste de retirada quando o alvo estiver estável em oferta baixa: reduzir 1 L/min a cada 10 a 15 minutos, desligar, e observar a saturação por pelo menos 10 minutos com o paciente na mesma posição (POP.HC-UFTM-UMULTI.038, 2026)
- Registrar o resultado do teste de retirada com a saturação em ar ambiente e a hora — é esse número que decide a alta respiratória e que a próxima equipe vai procurar
Como saber se está funcionando
A primeira reavaliação começa imediatamente após iniciar ou alterar oxigênio: oximetria, esforço, frequência respiratória, estado mental e funcionamento do dispositivo, com conferência nos primeiros minutos. O intervalo de 20 a 30 minutos pode servir para gasometria após titulação em paciente estável, não para deixar hipoxemia sem acompanhamento. Por turno, inspecionar dispositivo, pele e mucosa; diariamente, revisar necessidade e plano de retirada. Deterioração antecipa qualquer rotina.
Vale carregar a advertência que atravessa os três. Melhora da saturação não é, sozinha, melhora do paciente. Ela é o parâmetro que sobe mais rápido, que engana melhor e que a equipe olha primeiro. O que confirma resposta é a saturação dentro do alvo junto com queda da frequência respiratória e redução do esforço; sem esses dois, um número bonito é só um número bonito.
Esperado: Entrar e permanecer na faixa-alvo escrita na prescrição — 92% a 96% na maioria dos internados, 88% a 92% em quem retém ou pode reter gás carbônico — com a menor oferta que a mantenha
Se não melhora: Antes de mexer no fluxômetro, confira a curva do oxímetro, o pulso palpado e o acoplamento do dispositivo. Medida boa com alvo não alcançado no teto do dispositivo pede troca de dispositivo, não mais litros. E saturação acima do teto do alvo pede redução da oferta, que é a metade da titulação que a enfermaria não faz.
Esperado: Cair junto com a correção da saturação, e ficar abaixo de 24 por minuto no paciente que respondeu
Se não melhora: Frequência que continua alta com a saturação corrigida diz que o trabalho respiratório não caiu, e oxigênio não vai fazê-la cair. Frequência que continua baixa em paciente sonolento diz que o fole não voltou. Nos dois casos, o próximo passo é gasometria e a chamada de quem instala suporte ventilatório, não mais fração inspirada.
Esperado: Paciente alerta, orientado, capaz de dizer se o dispositivo incomoda, e disposto a mantê-lo no lugar
Se não melhora: Consciência que desce com saturação normal sob oxigênio é o padrão da hipercapnia progressiva e é o achado mais perigoso desta lista, porque o monitor está tranquilo. Colha gasometria e escale o suporte. Desconforto que o paciente relata — máscara que aperta, jato que arde, boca seca — não é queixa menor: é a causa mais comum de o dispositivo amanhecer no travesseiro.
Esperado: Fonte e conexões íntegras, fluxo adequado, interface bem colocada, bolsa funcional quando houver e adaptador correto; se umidificação for indicada, sistema apropriado e manutenção conferidos.
Se não melhora: Bolsa murcha com fluxo no teto significa vazamento pelas bordas ou válvula ausente — troque o dispositivo em vez de aumentar o fluxo. Extensão dobrada sob a grade, conexão frouxa e traqueia desconectada atrás do travesseiro explicam boa parte das dessaturações que somem sozinhas quando alguém arruma o arranjo.
Esperado: Narinas úmidas, sem crosta e sem sangramento; pele do dorso do nariz, das maçãs do rosto e atrás das orelhas sem hiperemia que persista depois de dez minutos sem o dispositivo
Se não melhora: Ressecamento e epistaxe pedem revisão da régua de umidificação e do fluxo em uso, e são um argumento adicional para descer de dispositivo se a necessidade já caiu. Hiperemia que não some é lesão por pressão relacionada a dispositivo, cujo estadiamento e curativo pertencem ao capítulo Lesão por pressão no paciente internado — a decisão que fica com você é se aquele dispositivo ainda é necessário.
Esperado: Uma linha que diz dispositivo, fluxo, alvo, intervalo de reavaliação e quem pode ajustar — e que corresponde ao que está de fato no rosto do paciente
Se não melhora: Prescrição sem alvo é prescrição sem dose e precisa ser reescrita naquele momento, não anotada como pendência. Prescrição que não corresponde ao dispositivo em uso é pior: alguém trocou o objeto e ninguém trocou o papel, e a próxima equipe vai titular contra uma referência que não existe mais.
Esperado: Descer de fluxo e de dispositivo até o ar ambiente, com saturação sustentada acima de 92%, ou acima de 88% em quem tem doença pulmonar crônica
Se não melhora: Paciente que continua dependente de oxigênio depois de resolvida a causa da internação tem alguma coisa não resolvida — derrame, atelectasia persistente, congestão mantida, doença pulmonar não diagnosticada — e merece reinvestigação, não uma prescrição de oxigênio por inércia. E se a hipoxemia se confirmar como crônica, a avaliação de oxigenoterapia domiciliar prolongada é do capítulo Duas doenças com a mesma sigla, da apostila de Pneumologia, que é dono desse assunto: ela se faz com o paciente estável, fora da crise, com os critérios e a confirmação em duas ocasiões que o protocolo federal da doença exige.
Onde o erro machuca
O dano: Este erro é a raiz dos outros cinco. Sem alvo escrito, cada turno decide o próprio, e a variação entre turnos é maior do que a variação da doença. O paciente fica sem oferta quando precisa, porque ninguém tem número a perseguir, e fica com oferta a mais indefinidamente, porque também não há número que autorize desligar. A folha, nos dois casos, está preenchida — e é isso que faz o erro atravessar internações inteiras sem ser notado.
Como pegar a tempo: Escreva as cinco informações: dispositivo, fluxo, alvo de saturação, intervalo de reavaliação e quem pode ajustar. Trate a linha como qualquer outra prescrição: se você não escreveria dipirona se necessário sem dose, não escreva oxigênio se necessário. E pendure a placa com a faixa-alvo à cabeceira, que é como a informação chega a quem passa às três da manhã.
O dano: Cateter nasal acima do teto não acrescenta fração relevante: o reservatório anatômico do nariz e da faringe já está cheio, o excesso vaza pelas narinas e pela boca, e o que sobra é jato seco na mucosa — ressecamento, desconforto e epistaxe, que os dois procedimentos brasileiros nomeiam. O tempo gasto abrindo o fluxômetro é tempo em que o paciente segue abaixo do alvo, e a falsa impressão de estar fazendo alguma coisa atrasa a escalada real.
Como pegar a tempo: Trate o teto do dispositivo como um limite de projeto e não como uma sugestão. Alvo não alcançado no teto é motivo para trocar de dispositivo, e a troca é para um que entregue fração maior ou que acompanhe a demanda inspiratória — não para o mesmo com mais litros. Registre a hora em que o teto foi atingido.
O dano: É o erro do leito 12 e o mais perigoso da lista, porque o objeto sinaliza gravidade máxima enquanto entrega menos que o dispositivo mais simples da enfermaria. Abaixo de 10 litros por minuto a bolsa não repõe o que a inspiração consome; o paciente passa a inalar o gás que ficou dentro do plástico, força as válvulas laterais e aumenta o próprio trabalho respiratório. A saturação sobe pouco, a equipe conclui que o paciente esgotou o que a enfermaria tem, e o diagnóstico é do dispositivo.
Como pegar a tempo: Olhe a bolsa, sempre, antes de olhar a tela. Máscara com reservatório funciona entre 10 e 15 litros por minuto; abaixo disso, ou o fluxo sobe até a bolsa encher, ou o dispositivo desce um degrau. Confira as três válvulas: sem elas, a máscara não é não reinalante coisa nenhuma.
O dano: A fração de um Venturi é fixada pela geometria da janela de arrastamento, não pelo fluxômetro. Baixar o fluxo não reduz a fração: reduz o fluxo total entregue, faz o paciente arrastar ar pelas bordas da máscara e torna a fração impossível de estimar — que é justamente a única coisa que aquele dispositivo tinha de melhor que os outros. Você perde a previsibilidade e não ganha o ajuste que queria.
Como pegar a tempo: Para reduzir a fração num Venturi, troca-se a válvula; o procedimento de Santa Cruz diz jamais reduzir somente o fluxo. Ajuste o fluxômetro no valor impresso na válvula, e lembre-se de que subir o fluxo acima desse valor é legítimo quando o paciente tem demanda alta — aumenta o fluxo total sem mudar a fração.
O dano: Oxigênio não é ansiolítico e não é analgésico da falta de ar: ele corrige hipoxemia. Ofertado a quem já satura bem, produz os danos que os documentos brasileiros listam — atelectasia por absorção com fração acima de 0,6, vasoconstrição coronariana e cerebral, espécies reativas de oxigênio — e, no paciente que retém gás carbônico, hipoventilação com hipercapnia. Some a isso o custo de esconder a piora: a saturação em 99% não avisa quando a reserva do paciente começou a cair.
Como pegar a tempo: Indique pela hipoxemia e titule para os dois lados. Reduza quando a saturação passar do teto do alvo — acima de 96%, pela régua que esta apostila adota; a régua federal de 2021, escrita para a COVID-19, reduz já acima de 94% — e reduza no mesmo turno, não na visita de amanhã. Em infarto e em acidente vascular cerebral, os documentos brasileiros são ainda mais estritos, e a nota de auditoria deste capítulo mostra em que ponto exato eles discordam entre si.
O dano: É o erro que só aparece no corredor, longe da parede e longe da equipe. Um cilindro pela metade a 15 litros por minuto dá pouco mais de vinte minutos, e um exame que se previu em vinte minutos raramente termina em vinte. O paciente chega ao tomógrafo com o cilindro fechado ou vazio, dessatura no meio do exame, e o episódio entra no prontuário como piora clínica.
Como pegar a tempo: Faça a conta antes de a maca sair: capacidade hídrica gravada no ombro do cilindro, vezes a pressão do manômetro, dividido pelo fluxo, e o resultado tem de cobrir pelo menos o dobro do tempo previsto. Quando a conta não fechar, o que resolve é um segundo cilindro, não otimismo. Leve a chave da válvula, o oxímetro e o dispositivo em uso, e registre a pressão na saída e na volta.
O que dizer ao paciente e à família
Neste capítulo, a conversa não é sobre a doença — é sobre um objeto no rosto de alguém e sobre um número numa tela. Isso muda o tom de tudo o que se diz. O paciente sente o dispositivo e não sente a saturação; a família vê o número e não vê a fração inspirada; a enfermagem convive com os dois durante doze horas seguidas e você, durante dez minutos. As falas abaixo são as sete que mais se repetem, e a maior parte do trabalho delas é traduzir dose.
Ao paciente que arranca o cateter porque resseca e arde
“O senhor tem razão, isso resseca mesmo — é ar seco entrando o dia inteiro no nariz. Não vou pedir para o senhor aguentar calado. Vou fazer três coisas: ver se dá para baixar um pouco o fluxo sem tirar o senhor da meta, ver com a enfermagem a umidificação, e trocar o apoio de trás da orelha de lado. Se mesmo assim continuar ruim, a gente troca de aparelho. O que eu preciso é que o senhor me chame antes de tirar, e não depois.”
Não diga: Evite dizer que é só um pouquinho e que passa. O ressecamento é a razão número um de o dispositivo amanhecer no travesseiro, e tratar a queixa como frescura garante que ele não seja usado. Evite também prometer umidificação sem antes conferir a régua do serviço.
À técnica de enfermagem que diz que o paciente já está no máximo
“Você tem razão em me chamar, e o aparelho é o mais forte que temos aqui. Só que ele tem um jeito de funcionar: essa bolsa precisa estar cheia. Do jeito que está, murcha, ele está entregando bem menos do que parece. Vou abrir para quinze e vamos olhar juntas a bolsa por três respirações. Se ela encher, o aparelho passou a funcionar. Deixei escrito na prescrição a meta dele e a faixa em que você pode mexer sem me esperar.”
Não diga: Evite corrigir sem mostrar. A frase o paciente está no máximo é a leitura correta do objeto por quem nunca recebeu a informação de que a máscara tem fluxo mínimo. Evite também deixar a conversa sem a linha escrita: sem faixa autorizada na prescrição, a próxima decisão às três da manhã volta a ser adivinhação.
Ao familiar que pede para aumentar o oxigênio porque o paciente parece cansado
“Eu entendo, e é difícil ver assim. Só que oxigênio aqui funciona como remédio, e remédio tem dose certa. O aparelho no dedo está mostrando que o sangue dele está dentro da faixa que a gente quer. O cansaço que a senhora está vendo não é falta de oxigênio — é o esforço para respirar, e isso o oxigênio não melhora; melhora tratar a causa e a posição em que ele fica. Se eu aumentar sem ele precisar, faço mal. O que eu vou fazer é sentar ele melhor e voltar aqui em vinte minutos com o aparelho de novo.”
Não diga: Evite dizer que oxigênio faz mal, sem mais: isso assusta e cria recusa depois. Evite também explicar sem prometer vigilância — o que tranquiliza a família não é a fisiologia, é saber que alguém vai voltar com hora marcada.
Ao acompanhante que quer fumar no corredor, perto do cilindro ou do leito
“Preciso que o senhor não acenda nada nesta ala, e não é regra de placa: é segurança. O oxigênio em si não queima, mas transforma uma faísca pequena em fogo grande em segundos, e aqui tem oxigênio saindo pela parede e um cilindro no corredor. Isqueiro, cigarro, aparelho de barbear elétrico e carregador velho, longe daqui. Se o senhor quiser fumar, o lugar é fora do prédio, e eu fico com o seu pai enquanto isso.”
Não diga: Evite transformar a conversa em advertência disciplinar: o objetivo é que ele não acenda, não que ele se sinta repreendido. Evite também deixar de oferecer a alternativa concreta — quem sai para fumar sem combinar quem fica costuma acender ali mesmo.
Ao paciente a quem se vai retirar o oxigênio, e que tem medo disso
“Hoje eu vou testar o senhor sem o oxigênio, e quero explicar por quê. O senhor está com a taxa boa há dois dias com muito pouco, e eu preciso saber quanto o senhor faz sozinho — porque é isso que decide a alta. Vou baixar de pouquinho em pouquinho, desligar e ficar aqui olhando o aparelho por dez minutos. Se cair, eu ligo de novo na hora, e não é derrota nenhuma: é informação. Nada vai ser desligado e esquecido.”
Não diga: Evite anunciar a retirada como boa notícia sem dizer o que acontece se não der certo — o medo do paciente é justamente esse. Evite também retirar sem observar: desligar e sair da enfermaria transforma um teste em um evento adverso.
À equipe de transporte, entregando o paciente para a maca
“Ele vai com máscara com reservatório a dez litros, e a meta dele é ficar entre 92 e 96. O cilindro está com metade da pressão, e pela conta dá cerca de trinta e quatro minutos nesse fluxo — como o exame com a espera passa disso, vai um segundo cilindro junto. A chave da válvula está presa no carrinho e o oxímetro vai com vocês. Se a bolsa murchar, é o fluxo que caiu: subam e me liguem. Se ele dessaturar abaixo de 92 e não subir, voltem com ele.”
Não diga: Evite entregar só o fluxo, sem a meta e sem o critério de retorno — a equipe de transporte precisa saber o que fazer, não só o que carregar. Evite mandar sem oxímetro: sem ele, ninguém no corredor sabe se o arranjo continua funcionando.
Ao colega do plantão seguinte, na passagem
“Leito 12, Glicério, 68 anos, quinto dia de pneumonia. Dessaturou de madrugada e estava numa máscara com reservatório aberta a seis, com a bolsa murcha — abri para quinze às sete e meia, e às oito ele estava em 96 com frequência de 22. Já desci para dez. A meta escrita é 92 a 96, a enfermagem está autorizada entre dez e quinze, e a gasometria de controle está pendente. Se ele mantiver dentro da meta com dez, o plano é descer para Venturi hoje ainda. E a tomografia é às onze — o segundo cilindro já está separado.”
Não diga: Evite a passagem que diz dessaturou de madrugada e melhorou com oxigênio: ela não permite comparação nenhuma. Sem hora, número, dispositivo e fluxo, o plantão seguinte recomeça do zero e repete a titulação inteira.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Régua federal da COVID-19, Conitec, junho de 2021 — manter entre 90% e 94%, reduzindo acima de 94%
O único documento federal brasileiro que fixa alvo de saturação para o adulto hospitalizado — e que declara aplicar-se aos serviços que atendem pacientes com COVID-19 — manda manter a saturação periférica igual ou acima de 90% até o máximo de 94%, e reduzir a suplementação de oxigênio se ela passar de 94%. A escalada declarada é começar com cateter nasal a 1 litro por minuto, podendo ofertar até 6, e passar à máscara com reservatório não reinalante se for necessário mais que isso para manter a saturação acima de 90%. A faixa não é acidental: a consulta pública nº 36 de 2021 recebeu contribuições pedindo expressamente que o alvo fosse redefinido para 92% a 96%, e o relatório registra que a alteração não foi realizada, sustentando os parâmetros adotados em ensaio clínico de oxigenoterapia conservadora em pacientes sob ventilação mecânica.
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19 — Capítulo 1, relatório de recomendação nº 637, junho de 2021, seção 5.1.1 e quadro de análise da consulta pública nº 36/2021.
Adotada por esta apostila — AMIB e SBPT, setembro de 2024, e Uberaba, maio de 2026: manter entre 92% e 96%, reduzindo acima de 96%
O consenso das duas sociedades brasileiras adota alvo de 92% a 96% para o adulto com hipoxemia aguda, com limite superior de 96% para a titulação e ordem de reduzir a oferta assim que a saturação se mantiver acima disso de forma sustentada. Para quem retém ou pode reter gás carbônico, o alvo é de 88% a 92%. O documento também registra que não há evidência do limiar inferior exato para iniciar oxigenoterapia, sendo comum adotar-se 92%. O procedimento hospitalar de Uberaba, na sua quarta versão, adota essa mesma faixa e a leva para dentro do processo do hospital, com placa à cabeceira e auditoria do núcleo de segurança do paciente.
AMIB e SBPT. Orientações Práticas de Ventilação Mecânica, setembro de 2024, Tema 2, seções A.1, A.3 e A.4; e POP.HC-UFTM-UMULTI.038, versão 4, maio de 2026, seções 2.5.4, 4.1 e 4.3.
Mantenha explícita a faixa adotada para a condição clínica. Neste percurso, o adulto com hipoxemia aguda usa 92–96%; o paciente com risco de hipercapnia, 88–92%, com avaliação gasométrica conforme contexto. A referência de COVID-19 discutida usa 90–94% para aquela população. Registre o alvo e sua justificativa, evitando que profissionais titulem o mesmo paciente por referências diferentes.
Faixa de 1–4 L/min e alerta de desconforto — tabela das Orientações Práticas e ficha de Uberaba citadas
O consenso das duas sociedades descreve a cânula nasal de baixo fluxo com faixa de 1 a 4 litros por minuto e registra, na seção de efeitos adversos, que o cateter nasal pode causar desconforto com fluxos acima de 4 litros por minuto, e que fluxo acima de 4 gera maior desconforto e resseca a mucosa nasal. A ficha do dispositivo no procedimento hospitalar de Uberaba copia esse teto e a citação, escrevendo fluxo até 4 litros por minuto.
AMIB e SBPT. Orientações Práticas de Ventilação Mecânica, 2024, Tema 2, seções A.4 e A.5, tabela de métodos de fornecimento; e POP.HC-UFTM-UMULTI.038, versão 4, 2026, ficha do cateter nasal tipo óculos.
Conitec, COVID-19, junho de 2021, e Santa Cruz, pediatria, 2025: até 6 litros por minuto — o que se evita é passar disso
O documento federal de 2021 manda iniciar com cateter nasal de baixo fluxo a 1 litro por minuto, podendo ofertar até 6, e só passar à máscara com reservatório quando 6 litros por minuto não bastarem para manter a saturação acima de 90%. O procedimento de oxigenoterapia do Hospital Universitário Ana Bezerra, escrito para o recém-nascido, o lactente e a criança, orienta evitar fluxos superiores a 6 litros por minuto em cateteres nasais, pelo ressecamento e pelo sangramento. E o próprio procedimento de Uberaba, na seção de seleção do dispositivo, registra cateter nasal com oferta de 1 a 6 litros por minuto — contradizendo a ficha do mesmo documento.
Conitec, relatório nº 637, junho de 2021, seção 5.1.1, item 2; POP.UCIS.026, HUAB-UFRN, versão 2, 2025, seção 3.4; e POP.HC-UFTM-UMULTI.038, versão 4, 2026, seção 2.5.2.
Use a faixa própria do cateter convencional e avalie tolerância e resposta; no fluxo principal, a faixa usual é de 1–6 L/min conforme o produto. Quatro litros não representa um teto universal. Necessidade crescente, desconforto ou resposta insuficiente exigem revisar o dispositivo e o paciente, sem transformar uma estimativa de FiO₂ em dose garantida.
Procedimento pediátrico de Santa Cruz, 2025 — umidificar a partir de 1 litro por minuto, e às vezes abaixo disso
O procedimento de oxigenoterapia do Hospital Universitário Ana Bezerra, escrito para o recém-nascido, o lactente e a criança, registra que o umidificador deve ser utilizado em concentradores ou cilindros de oxigênio para evitar o ressecamento das vias aéreas superiores, e que é indicado para pacientes que utilizam fluxo acima de 1 litro por minuto — acrescentando que, em recém-nascidos e crianças com tendência à obstrução ou a sangramento nasal, pode-se considerar umidificar mesmo abaixo de 1 litro por minuto. A umidificação se faz com água bidestilada no copo acoplado ao fluxômetro.
POP.UCIS.026, HUAB-UFRN/Ebserh, versão 2, 2025, seção 3.3.
Adotada por esta apostila — Uberaba, adultos e idosos, maio de 2026: não umidificar cateteres nasais nem máscaras simples e com reservatório
O procedimento de oxigenoterapia hospitalar do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, escrito para o adulto e o idoso hospitalizados, traz a régua dispositivo por dispositivo, e nas fichas do cateter nasal tipo óculos, do cateter nasofaríngeo, da máscara facial simples e das duas máscaras com reservatório escreve que a umidificação não é necessária. Ele a declara necessária no Venturi quando usado por mais de 24 horas e na máscara de traqueostomia — dispensável por períodos curtos, como no transporte —, e essencial na tenda facial e na cânula de alto fluxo, pelas características do sistema. Nos critérios de prescrição, acrescenta que se inclua umidade se o fluxo for elevado ou se houver indicação clínica, sem definir nenhum dos dois.
POP.HC-UFTM-UMULTI.038, versão 4, 2026, seção 2.4, fichas dos dispositivos; e seção 4.2, critérios de prescrição, que manda incluir umidade se o fluxo for elevado ou se clinicamente indicado.
Contribuição à consulta pública federal de 2021, não julgada no mérito — usar o frasco sem água, porque o sistema não umidifica e pode virar meio de cultura
A consulta pública nº 36 de 2021, sobre o capítulo federal de uso de oxigênio, recebeu como contribuição formal a recomendação de usar o frasco de oxigenoterapia sem água, com o argumento de que o sistema de umidificação não é eficaz e pode ser um meio de cultura no ambiente hospitalar. O relatório registra que a alteração não foi realizada no texto das Diretrizes, com a justificativa de que o documento não tinha como objetivo contemplar essas questões e todos os dispositivos disponíveis — ou seja, a posição foi apresentada e não foi apreciada quanto ao mérito.
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Relatório de recomendação nº 637, junho de 2021, quadro I de análise das contribuições da consulta pública nº 36/2021.
Distinguir necessidade de umidificação da escolha do equipamento. Não adotar copo borbulhador de rotina nem por limiar arbitrário de 4 L/min: a BTS aponta ausência de benefício clínico e risco de infecção. Alto fluxo e via aérea artificial usam estratégias próprias. A decisão deve seguir o dispositivo, a condição clínica e o protocolo validado, com controle de infecção.
O raciocínio, em voz alta
Sete e dez da manhã, numa quinta-feira. A enfermaria de clínica médica tem dezoito leitos e fica num hospital geral de cento e dez, no interior. Glicério Maracujá tem 68 anos, 71 quilos, é marceneiro aposentado e está no quinto dia de internação por pneumonia da comunidade, com consolidação em lobo inferior direito. Nunca fumou, não tem diagnóstico de doença pulmonar crônica, não usa inalador. No terceiro dia a folha registra saturação de 94% com cateter nasal a 2 L/min. Na madrugada de ontem, a anotação de enfermagem diz, em quatro palavras, dessaturou, colocada máscara com reservatório — sem dizer para quanto dessaturou nem em que fluxo a máscara foi aberta. Agora ele está sentado, acordado, conversando, fala frases inteiras com uma pausa no meio, tem batimento de asa de nariz e não usa musculatura acessória de forma franca. O oxímetro marca 88%. A frequência respiratória, contada com relógio, é 26. A máscara com reservatório está no rosto, o fluxômetro em 6 L/min, e a bolsa está murcha, subindo e descendo um dedo a cada respiração. A prescrição diz oxigênio suplementar se necessário. A tomografia de tórax dele está marcada para as onze. Você é o interno e a visita começa em vinte minutos.
1 · O que está errado aqui não é o paciente, é o arranjo
Antes de qualquer hipótese sobre por que ele piorou, existe um problema de dispositivo à sua frente e ele é resolvível em dez segundos. A máscara com reservatório funciona entre 10 e 15 litros por minuto; a 6, a bolsa não repõe o que a inspiração consome, o paciente inala o gás que ficou dentro do plástico e força as válvulas laterais. A bolsa murcha é o mostrador do dispositivo dizendo que ele parou de funcionar como reservatório. Nenhum exame precisa ser pedido para saber disso, e nenhum diagnóstico muda essa correção.
2 · Corrija a oferta antes de escalar o dispositivo
Abra o fluxômetro para 15 litros por minuto e olhe a bolsa por três ciclos respiratórios. Se ela passar a esvaziar parcialmente na inspiração e voltar a encher antes da próxima, o dispositivo passou a existir e você acaba de testar a hipótese mais provável sem gastar nada. Confira as três válvulas — a que separa a bolsa da máscara e as duas laterais —, porque sem elas a máscara não é não reinalante. Sente o paciente ou eleve a cabeceira para 30 a 45 graus. Só então volte a olhar o número.
3 · Escolha o alvo pelo paciente, e escreva-o
Glicério não tem doença pulmonar obstrutiva crônica, não tem história de retenção de gás carbônico e não usa inalador: o alvo dele é o do adulto internado comum, de 92% a 96%, pelas Orientações Práticas das duas sociedades e pelo procedimento de Uberaba — a régua que esta apostila adota. A faixa de 90% a 94% da régua federal de 2021 existe, mas foi escrita para o paciente com COVID-19, e Glicério está internado por pneumonia da comunidade. O alvo vai escrito na prescrição, porque a discordância entre réguas brasileiras só vira problema quando ninguém diz qual está usando.
4 · Reescreva a linha inteira, e reescreva as outras três também
Sai oxigênio suplementar se necessário e entra a linha com cinco informações: máscara com reservatório não reinalante, 15 L/min, alvo de saturação entre 92% e 96%, monitorizar e reavaliar imediatamente e nos primeiros minutos após cada mudança, enfermagem autorizada a titular entre 10 e 15 L/min comunicando se o alvo não for alcançado no teto ou se a saturação passar de 96%. Pendure a placa com a faixa-alvo à cabeceira. E faça o mesmo nos leitos 3, 7 e 15 antes da visita: a mesma linha vazia está nas quatro folhas, e é ela, e não a doença de cada um, o que os quatro têm em comum.
5 · O que você não faz agora, e por que
Não retira o oxigênio para medir a saturação em ar ambiente: ele está fora do alvo, e essa medida se perdeu na madrugada. Não pede tomografia com pressa por causa da dessaturação — a investigação da causa é assunto do capítulo Dessaturação aguda na enfermaria, da apostila de Síndromes do Paciente Internado, e ela corre em paralelo, não antes do ajuste do dispositivo. E não chama ninguém ainda: nenhum dos quatro sinais que encerram a fase de titular oxigênio está presente. Ele está alerta, fala frases, o esforço é moderado e o dispositivo ainda não foi testado no fluxo correto.
6 · Trinta minutos depois — a metade da titulação que ninguém faz
A resposta foi acompanhada desde a correção inicial. Às 7h40, Glicério mantém SpO2 de 96%, frequência de 22 e menor esforço, com melhora do conforto. Como está estável, a equipe testa redução da oferta mantendo a meta e o funcionamento do dispositivo, conferindo a resposta logo após cada ajuste. Não é necessário retirar oxigênio abruptamente nem aguardar um prazo fixo diante de piora. Gasometria é solicitada conforme a pergunta clínica e sempre com dispositivo e fluxo registrados.
7 · Onze horas — a conta que decide se ele sai do andar
Ele mantém 94% com a máscara a 10 L/min. O cilindro que veio com a maca tem capacidade hídrica de 3,4 litros gravada no ombro e o manômetro marca 100: cerca de 340 litros disponíveis, que a 10 L/min dão 34 minutos. A tomografia com transporte, espera e volta não termina em 34 minutos, e a regra das Orientações Práticas exige autonomia de pelo menos o dobro do tempo previsto. A conduta não é otimismo, é um segundo cilindro — e vai junto o oxímetro, a chave da válvula e o critério escrito de retorno. Registre a pressão na saída e na volta.
8 · A visita de amanhã — a linha que sai da prescrição
No sexto dia ele está em Venturi de 28% com saturação de 95%, afebril, comendo. Aqui a pergunta muda: ele ainda precisa disso? O passo não é manter e ver, é testar. Reduza um litro por minuto a cada dez a quinze minutos, desligue, e observe por pelo menos dez minutos com ele na mesma posição, medindo a saturação em ar ambiente. Se ela se mantiver acima de 92% de forma sustentada, a oxigenoterapia pode ser retirada, e esse número entra no prontuário com a hora — porque é ele que vai decidir a alta e é ele que a próxima equipe vai procurar. Se cair, você religa na hora, e o teste não foi um fracasso: foi a única maneira de saber.
Faça você
Segunda-feira, 7h30, enfermaria de clínica médica de um hospital municipal de noventa leitos. Ciríaco Nazarezinho tem 74 anos, 62 quilos, é aposentado da prefeitura e está internado há oito dias por pneumonia da comunidade. Ele fumou até os sessenta anos, 40 maços-ano, nunca fez espirometria e não tem diagnóstico de doença pulmonar crônica registrado no prontuário. Está afebril há quatro dias, terminou o antibiótico ontem, come toda a bandeja e caminha até o banheiro sozinho. A prescrição traz, desde a admissão, a linha oxigênio suplementar se necessário; no rosto dele há um cateter nasal a 3 L/min, com copo umidificador cheio pela metade, e a técnica de enfermagem Anísia Xambioá diz que está assim desde que ela assumiu a ala, há duas semanas. A folha de sinais vitais registra, nos últimos cinco dias, saturações de 96%, 97%, 95%, 97% e 96%, sem qualquer anotação de dispositivo ou fluxo ao lado. A gasometria arterial do quinto dia, colhida sob oxigênio e sem registro do fluxo, mostra pH 7,38, pressão de gás carbônico de 49 mmHg e bicarbonato de 29 mEq/L. Ele tem hemodiálise de urgência marcada para hoje às 14h em outro hospital, a 25 minutos de ambulância, e a sessão dura quatro horas. O cilindro que a enfermagem separou tem capacidade hídrica de 3,4 litros gravada no ombro, e o manômetro marca 120.
1 · O número que não existe
Diga qual é a única medida que decide o desfecho respiratório deste paciente hoje e que não está em lugar nenhum do prontuário. Explique por que cinco dias de saturações entre 95% e 97% não respondem a pergunta, e diga exatamente o que precisa ser feito para que ela passe a existir — com o passo, o intervalo e o tempo de observação que o procedimento hospitalar brasileiro descreve.
2 · Qual alvo vale para este paciente, e por quê
Ciríaco tem 40 maços-ano, nunca fez espirometria, não tem diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica, e a gasometria do quinto dia mostra pH quase normal com gás carbônico de 49 mmHg e bicarbonato de 29 mEq/L. Diga que faixa-alvo você escreve na prescrição dele e o que na gasometria sustenta a sua escolha. Diga também o que essa gasometria não permite concluir e por quê.
3 · A linha da prescrição
Reescreva a linha de oxigênio dele com as cinco informações que uma prescrição de oxigênio precisa ter. Diga quem, na equipe, fica autorizado a mexer e dentro de que faixa, e o que a folha de enfermagem precisa passar a registrar ao lado de cada saturação para que a comparação entre turnos volte a significar alguma coisa.
4 · O copo de água
Decida se o copo umidificador continua ou sai, e sustente a decisão com a régua que esta apostila adota para o adulto, dizendo por que a outra régua que circula nos hospitais federais brasileiros não governa este paciente. Diga o que a régua adotada manda para este dispositivo e este fluxo, e o que precisa ficar escrito na prescrição para que a próxima equipe não desfaça a decisão por conta própria.
5 · O transporte das 14h
Faça a conta do cilindro com os números da vinheta, para o fluxo que ele está recebendo hoje. Diga quantos minutos existem lá dentro, qual é o tempo de transporte que precisa ser coberto pela regra brasileira de autonomia, se a reserva basta, e o que você faz com o resultado. Diga também o que vai junto com a maca além do cilindro, e qual é o critério escrito de retorno que a equipe de transporte leva na mão.
Continuidade do caso e prática do internato
Ao corrigir o leito 12, registre resposta e hipótese da piora. Depois revise as prescrições dos outros leitos, com metas e dispositivos próprios, sem copiar a solução de Glicério para todos.
Questão integrativa 1
A bolsa murcha explica toda a piora de Glicério?
Questão integrativa 2
Cateter nasal a 5 L/min é sempre uso fora do permitido?
Questão integrativa 3
Todo Venturi precisa de pelo menos 5 L/min por ser máscara?
Questão integrativa 4
Aumentar fluxo no mesmo adaptador Venturi aumenta necessariamente a FiO2?
Questão integrativa 5
SpO2 de 95% com rebaixamento e exaustão autoriza esperar trinta minutos?
Questão integrativa 6
Todo cateter acima de 4 L/min deve ganhar um copo com água?
Ver como fecharíamos
1 · O número que não existe é a saturação de Ciríaco em ar ambiente. Cinco dias de valores entre 95% e 97% não respondem à pergunta porque todos foram medidos sob oxigênio — e a folha nem sequer registra sob qual dispositivo e qual fluxo, o que impede até a comparação entre eles. Um paciente que satura 96% com cateter nasal a 3 L/min é um paciente cuja reserva respiratória ninguém conhece. Para que o número passe a existir, é preciso testar a retirada: pela lista de verificação do procedimento de oxigenoterapia hospitalar do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, reduzir 1 litro por minuto a cada 10 a 15 minutos, desligar, e monitorar a saturação por pelo menos 10 minutos após o desmame, com o paciente na mesma posição, observando queda de saturação, dispneia e taquicardia. Pelas Orientações Práticas das duas sociedades brasileiras, a oxigenoterapia pode ser retirada se a saturação em ar ambiente se mantiver acima de 92% de forma sustentada, ou acima de 88% em quem tem doença pulmonar crônica. Repare no que essa régua exige e ninguém faz: o número que autoriza a retirada não existe enquanto a retirada não for tentada. 2 · O alvo. A gasometria do quinto dia mostra pH 7,38 — dentro da faixa normal —, gás carbônico de 49 mmHg, que está acima do normal, e bicarbonato de 29 mEq/L, que também está acima. Esse é o padrão de retenção crônica de gás carbônico compensada pelo rim: o bicarbonato subiu ao longo de tempo suficiente para segurar o pH. Somado a 40 maços-ano, isso o coloca entre os potenciais retentores, e a régua das duas sociedades e do procedimento de Uberaba é explícita ao estender o alvo de 88% a 92% aos potenciais retentores, e não só aos retentores confirmados. Escreva 88% a 92% na prescrição, com a razão ao lado. O que a gasometria não permite concluir é o diagnóstico de doença pulmonar obstrutiva crônica: ele exige espirometria com relação entre volume expiratório forçado no primeiro segundo e capacidade vital forçada abaixo de 0,7 após broncodilatador, que este paciente nunca fez, e que não se faz na internação — o diagnóstico, a classificação e o tratamento dessa doença são do capítulo Duas doenças com a mesma sigla, da apostila de Pneumologia. E há uma segunda limitação: a amostra foi colhida sob oxigênio sem registro do fluxo, o que torna o valor de oxigênio dela não interpretável — o pH, o gás carbônico e o bicarbonato continuam válidos, mas a oxigenação, não. O encaminhamento que cabe a você é registrar a suspeita e programar espirometria ambulatorial após a alta. 3 · A linha. Cateter nasal tipo óculos, 2 L/min, alvo de saturação entre 88% e 92%, reavaliar imediatamente e nos primeiros minutos após cada mudança de oferta, além da revisão diária na visita, enfermagem autorizada a titular entre 1 e 3 L/min para manter o alvo, comunicando o médico se a saturação passar de 92% de forma sustentada ou não alcançar 88% no teto da faixa. Repare que a comunicação pedida inclui o excesso, e não só a falta: neste paciente, 97% é motivo de chamada. A folha de enfermagem precisa passar a registrar, ao lado de cada saturação, o dispositivo e o fluxo em uso no momento da medida — sem essas duas colunas, os números de dois turnos não são comparáveis. E a placa com a faixa-alvo vai para a cabeceira, porque é ela que chega à técnica que passa às três da manhã. 4 · O copo sai. As duas réguas brasileiras em circulação discordam, mas só uma foi escrita para este paciente. O procedimento do Hospital Universitário Ana Bezerra indica o umidificador para fluxo acima de 1 litro por minuto, o que incluiria Ciríaco — mas foi escrito para o recém-nascido, o lactente e a criança, e não governa um homem de 74 anos. O procedimento de Uberaba, escrito para o adulto e o idoso, diz na ficha do cateter nasal tipo óculos que a umidificação não é necessária, e é a régua que esta apostila adota. A 2 L/min, e sem queixa de ressecamento, crosta ou epistaxe, o copo sai; ele voltaria se o fluxo passasse de 4 L/min ou se a queixa aparecesse, que é a leitura desta apostila para o critério de umidade que o mesmo procedimento deixa sem definir. O que não era defensável em régua nenhuma é o estado atual — um copo pela metade, com água que ninguém trocou, que é exatamente o risco que a contribuição da consulta pública federal de 2021 apontou ao pedir o frasco sem água por poder virar meio de cultura. Escreva a retirada na prescrição, com a inspeção da mucosa nasal por turno e a ordem de avisar se aparecer ressecamento: o que a próxima equipe não pode encontrar é um copo sem decisão registrada. 5 · O transporte. O cilindro tem capacidade hídrica de 3,4 litros e o manômetro marca 120 kgf/cm², o que dá 3,4 vezes 120, ou cerca de 408 litros disponíveis. Ao fluxo de 2 L/min que ele passa a receber, são cerca de 204 minutos, pouco mais de três horas. O tempo a cobrir não é o dos 25 minutos de ambulância: é ida, quatro horas de sessão de hemodiálise e volta, algo em torno de cinco horas, ou 300 minutos — e as Orientações Práticas exigem autonomia de no mínimo o dobro do tempo previsto de transporte, o que aqui significaria 600 minutos, ou 1.200 litros. Um cilindro de 3,4 litros de capacidade hídrica não guarda 1.200 litros nem cheio a 200 kgf/cm², quando guarda cerca de 680. A conta, portanto, não fecha por dois caminhos, e a resposta não é sair assim: confirme se o serviço de destino tem rede de gases — hemodiálise costuma ter, e nesse caso o cilindro só precisa cobrir o trajeto e a espera — e, se tiver, calcule sobre esse tempo menor, levando ainda assim um segundo cilindro. Se não tiver, o transporte precisa de reserva adicional planejada com a equipe. Vão junto com a maca: o cilindro conferido com a válvula reguladora rosqueada e testada, a chave da válvula presa ao carrinho, a extensão íntegra, o dispositivo em uso e o oxímetro. O critério escrito que a equipe leva na mão é o alvo dele — manter entre 88% e 92% —, a instrução de não abrir o fluxo acima de 3 L/min sem contato médico, e a ordem de retornar se a saturação cair abaixo de 88% e não subir com o ajuste autorizado. Registre a pressão do manômetro na saída e na volta. Questões integrativas — respostas comentadas 1. É uma falha de oferta a corrigir imediatamente, mas não exclui progressão da doença ou outra complicação. 2. Não. Cateteres convencionais frequentemente trabalham até 6 L/min conforme fabricante; resposta e tolerância determinam adequação. 3. Não. O mínimo depende do adaptador; a regra de 5 L/min se refere à máscara simples. 4. Não. Pode ampliar fluxo total para a demanda; a concentração nominal é definida pelo adaptador, respeitadas suas condições de funcionamento. 5. Não. Saturação isolada não comprova ventilação adequada nem segurança da via aérea; acionar suporte imediatamente. 6. Não. Copo borbulhador não é rotina; umidificação exige indicação e sistema apropriado ao dispositivo.
A máscara com reservatório só entrega fração alta enquanto a bolsa funciona como reservatório, e para isso ela precisa acumular gás durante a pausa expiratória. A 6 L/min entram 100 mL por segundo, e dois segundos de pausa guardam 200 mL — bem menos que um volume corrente. A 15 L/min são 250 mL por segundo, e a mesma pausa guarda 500 mL. É por isso que os documentos brasileiros fixam a faixa de 10 a 15 L/min para esse dispositivo e alertam para reinalação de gás carbônico com fluxo baixo dentro de máscara. Corrigir a oferta deve ser imediato, com oximetria e avaliação clínica contínuas. Conferir resposta nos primeiros minutos, sem aguardar 20 a 30 minutos diante de SpO₂ de 88%. Se o alvo não for alcançado ou houver deterioração, acionar ajuda e escalar suporte em paralelo à investigação. Pedir exame primeiro não é errado como investigação da causa, mas não corrige o arranjo que está diante de você; descer para cânula nasal entrega menos ainda num paciente fora do alvo; e reduzir o fluxo agrava exatamente o problema.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar nada, escreva as cinco informações que uma linha de prescrição de oxigênio precisa ter, e diga o que acontece na enfermaria quando cada uma delas falta. Recite as faixas de fluxo e as frações estimadas dos quatro dispositivos da enfermaria — cateter nasal, máscara facial simples, máscara com reservatório e Venturi — e, para cada um, diga o que ele não faz. Explique em duas frases por que alto fluxo e fração alta são coisas diferentes, e dê o exemplo de um dispositivo que é alto fluxo com fração baixa e de outro que é baixo fluxo com fração alta. Diga o fluxo mínimo da máscara com reservatório e o motivo aritmético desse número. Diga o que se faz num Venturi para reduzir a fração inspirada, e o que acontece se você reduzir o fluxômetro. Recite as duas faixas-alvo de saturação em circulação no Brasil, com quem sustenta cada uma e desde quando, e a faixa do paciente que retém gás carbônico. Diga o intervalo de reavaliação depois de mexer na oferta e quantos itens se mede nele. E faça, de cabeça, a conta de autonomia de um cilindro de 3,4 litros de capacidade hídrica com o manômetro em 100, a 10 litros por minuto.
Em 30 dias
Retome a manhã de Glicério e explique como avaliaria cada leito com oxigênio. Compare os quatro dispositivos por fluxo, oferta estimada e sinais de funcionamento inadequado. Diferencie fluxo de FiO₂ e relacione a oferta à demanda inspiratória. Escreva uma prescrição com dispositivo, fluxo, alvo, reavaliação e responsável pelos ajustes. Mostre quando aumentar, reduzir ou escalar o suporte; descreva os sinais que exigem ajuda imediata. Calcule a autonomia de um transporte e planeje a margem necessária. Termine explicando como acompanha a retirada do oxigênio e por que alvo e umidificação devem corresponder ao paciente, ao dispositivo e ao protocolo adotado.
Agora atenda
Você é o interno da enfermaria de clínica médica às sete e dez da manhã, e tem vinte minutos antes de a visita começar. Quatro dos dezoito leitos estão recebendo oxigênio e as quatro prescrições trazem a mesma linha: oxigênio suplementar se necessário. No leito 12, um homem de 68 anos no quinto dia de pneumonia está com máscara com reservatório aberta a 6 litros por minuto, bolsa murcha, saturação de 88%, frequência respiratória de 26, falando frases com pausa. A técnica de enfermagem diz que ele já está no máximo. A tomografia dele está marcada para as onze. Atenda: decida o que fazer com o dispositivo agora, escreva a linha de prescrição que estava faltando, defina o alvo e o intervalo de reavaliação, e resolva se ele sai do andar às onze.
