Cirurgia GeralProcedimentos e Vias de Acesso

O que estraga o exame não é a punção

Punção arterial para gasometria

Escolher a amostra pela pergunta clínica, obter sangue com segurança e controlar oxigênio, bolhas, anticoagulante e tempo até a análise.

Fontes deste capítulo

Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Orientações Práticas em Ventilação Mecânica, coordenação de Alexandre Marini Ísola — volume divulgado pelas duas sociedades em setembro de 2024, com o texto fechado em plenária de 20 e 21 de novembro de 2023, em Florianópolis. Artigo que relata o método e os destaques do volume: Ferreira JC, Vianna AOA, Pinheiro BV, Maia IS, Baldisserotto SV, Isola AM, em nome da AMIB e da SBPT. Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255, co-publicado em Crit Care Sci. 2025;37:e20250242pt. Tema 8 — Monitorização das trocas gasosas, item A (Gasometria arterial: indicações, contraindicações, cuidados na realização e interpretação), p. 99-101.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. Volume 2 — Intervenções comuns, icterícia e infecções. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Capítulo 10, itens 10.1 a 10.3.

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 703, de 14 de julho de 2022. Normatiza a execução, pelo Enfermeiro, da punção arterial tanto para fins de gasometria como para monitoração de pressão arterial invasiva.

World Health Organization. WHO guidelines on drawing blood: best practices in phlebotomy. Geneva: World Health Organization; 2010. Chapter 5 — Arterial blood sampling; Annex I — Modified Allen test.

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde, n. 4. 2. ed. Brasília: Anvisa, 2017. Item 4.8 — Recomendações para cateteres arteriais periféricos.

01

Responda antes de ler

Durante punção da artéria radial para gasometria com seringa própria de autoenchimento, o interno avança a agulha e não obtém refluxo de sangue. Se for realizar um redirecionamento, qual é a técnica adequada?

02

O paciente que você vai ver

Seis e quarenta de uma quarta-feira. A enfermaria é de clínica médica, tem dezoito leitos e fica no segundo andar de um hospital geral do interior. A passagem de plantão terminou há dez minutos e na bancada do posto há três folhas de pedido com a mesma frase escrita à mão, na mesma caneta, pela mesma pessoa: gasometria arterial. A enfermeira Gervasia Piquiri encostou as três em você porque a técnica da noite tentou uma e não conseguiu, e porque, neste hospital, quando a coleta arterial não sai na primeira tentativa, ela sobra para o interno.

A primeira folha é do leito 4. Marcondina Currais tem 71 anos, 54 quilos, é doente pulmonar obstrutiva crônica de longa data e chegou ontem à noite pior: fala em frases curtas, usa a musculatura do pescoço, está com saturação de 88% em cateter nasal a 2 litros e ficou sonolenta desde as cinco da manhã. Ninguém sabe dizer se o gás carbônico dela subiu, e ninguém vai saber pelo oxímetro. Nesta folha, a gasometria arterial é a decisão: o par pH e pressão de gás carbônico é o que separa manter o cateter de chamar a ventilação não invasiva agora.

A segunda é do leito 9. Baldomero Surubim tem 58 anos, 82 quilos, diabético, chegou de madrugada desidratado, com glicemia capilar acima do que a fita lê e cetonúria de três cruzes. A pergunta aqui é metabólica: ele está acidótico? quanto? o bicarbonato caiu? E essa pergunta inteira tem resposta numa amostra venosa, colhida junto com o resto do laboratório, sem furar artéria nenhuma. A folha pede arterial porque o modelo de pedido da casa tem um quadradinho impresso com esse nome, e ninguém parou para perguntar o que a arterial acrescentaria.

A terceira é do leito 12. Pedrolina Coribe tem 66 anos, está no quarto dia de uma pneumonia que melhorou, saturando 96% em ar ambiente, sentada na poltrona, comendo. O pedido diz gasometria de controle. Não há controle a fazer: nenhum número dessa gasometria mudaria uma linha da prescrição dela, e o que ela vai receber em troca do exame é uma agulha no punho, um hematoma provável e quinze minutos de compressão que a técnica não tem para dar.

Os três pedidos exigem primeiro definir a pergunta: oxigenação, ventilação ou equilíbrio acidobásico. A resposta determina se a amostra precisa ser arterial e se a coleta mudará a conduta. Só então se planejam sítio, material, técnica e limite de tentativas.

Um resultado incompatível com o paciente exige conferir a coleta: bolha, heparina em excesso, demora e demais condições pré-analíticas podem alterar a amostra. O procedimento só produz informação útil quando preparo, transporte e contexto de oxigênio acompanham o sangue.

A enfermeira Gervasia está esperando uma resposta às três folhas, não a uma. O residente Tito Araripe desceu para o centro cirúrgico e volta às oito. Você tem, portanto, cerca de uma hora e vinte para fazer o que precisa ser feito, desfazer o que não precisa, e escrever no prontuário por que desfez — porque cancelar exame pedido por outro médico é ato que se registra, não que se resolve rasgando o papel.

Ao final deste capítulo, você volta a esses três leitos e resolve os três. E vai resolver ainda um quarto, que não está na bancada e chega às nove e meia: uma senhora de 79 anos em uso de varfarina, com o punho direito edemaciado e o esquerdo com uma fístula arteriovenosa que a mantém viva três vezes por semana.

03

Quem adoece disso

A punção arterial é, junto com o acesso venoso periférico, um dos procedimentos invasivos mais repetidos de um hospital, e é o único deles que quase nunca tem indicação escrita. Ela entra na rotina por um caminho previsível: o paciente piora, alguém pede gasometria, o pedido vira impresso, o impresso vira hábito e o hábito vira coleta diária em quem já não tem pergunta em aberto. O custo dessa inércia não é financeiro — é uma agulha por dia num punho que dói, num paciente que muitas vezes já está com o antebraço marcado de tentativas anteriores.

A sequência técnica apresentada usa as Orientações Práticas de Ventilação Mecânica da AMIB e da SBPT, em conjunto com as referências de coleta. Ela organiza escolha da radial, posicionamento, volume, compressão e cuidados com a amostra.

Há uma segunda régua brasileira, e ela é de Estado — só que responde outra pergunta. A Resolução COFEN nº 703, de 14 de julho de 2022, que revogou a Resolução nº 390/2011, declara a punção arterial, tanto para gasometria quanto para instalação de cateter de pressão invasiva, privativa do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem. Ela também autoriza o enfermeiro a usar ultrassonografia à beira do leito para localizar a artéria, vedando expressamente a emissão de laudo e o uso do aparelho com finalidade de diagnóstico nosológico. O que isso significa na enfermaria é concreto: a técnica de enfermagem não punciona artéria, e quando ela diz que não pode, está certa. A coleta é do enfermeiro ou do médico.

O terceiro documento brasileiro que toca o assunto é o caderno 4 da série de segurança do paciente da Anvisa, de 2017, e ele fala de cateter arterial periférico, não de punção única. Dele vêm o preparo de pele com clorexidina alcoólica acima de 0,5% aplicada por trinta segundos em movimentos de vaivém, a espera pela secagem espontânea antes de puncionar, e a paramentação mínima da inserção. O mesmo caderno registra que os cateteres arteriais periféricos são inseridos em geral na radial ou na femoral e servem tanto à medida contínua de pressão quanto à coleta de gases — o que, na prática, é o argumento mais forte a favor de quem já tem linha arterial: o sangue sai pelo cateter e o punho não é furado de novo.

Sobre risco, o número que circula no Brasil vem de fora e vale conhecer pela origem. Uma coorte histórica dinamarquesa analisou 473.327 punções arteriais realizadas em três hospitais entre 1º de janeiro de 1993 e 25 de fevereiro de 2013 e encontrou 669 complicações maiores registradas em até sete dias — 0,14%, com intervalo de confiança de 95% entre 0,13% e 0,15%. Distribuídas: embolia ou trombose em 49,0% dos casos, aneurisma em 15,4%, lesão de nervo em 1,5%, fístula arteriovenosa em 0,6% e outras em 33,5%. É a maior série publicada sobre o assunto, e é a base do que o documento brasileiro afirma sobre segurança.

Traduzir esses percentuais para o plantão muda a leitura. Se 0,14% das punções dão complicação maior e 49% dessas complicações são embolia ou trombose, então há um evento tromboembólico registrado a cada 1.444 punções; um aneurisma a cada 4.594; uma lesão de nervo a cada 47.168; uma fístula arteriovenosa a cada 117.919. Num hospital que colhe vinte gasometrias por dia, 1.444 punções são setenta e dois dias. Isto é: o procedimento é seguro no agregado e, ainda assim, um serviço de porte médio produz um evento vascular registrado a cada dois meses e meio. Nenhuma dessas duas frases é mais verdadeira que a outra.

Três ressalvas fazem esse número menor do que parece, e é honesto dizê-las. A primeira: a coorte contou apenas o que virou código de diagnóstico ou de procedimento no registro nacional — hematoma que doeu por uma semana e não gerou consulta não está ali, e os próprios autores registram que complicação ocorrida após a alta, em paciente que não voltou ao hospital, escapou. A segunda: foram excluídas as punções pedidas pela terapia intensiva e pela anestesiologia, e menores de 18 anos. A terceira, que é a mais importante para quem lê: são punções de 1993 a 2013, feitas com o material daquele período.

A mesma coorte responde a pergunta que o interno faz na frente de um paciente anticoagulado, e responde de um jeito que costuma surpreender. Entre quem usava medicação antitrombótica, a taxa de complicação maior foi 0,17% (IC 95% 0,14 a 0,21) contra 0,14% (IC 95% 0,12 a 0,15) entre quem não usava — razão de chances ajustada de 1,31, com intervalo de 1,07 a 1,61. Em número absoluto, isso é três casos a mais por dez mil punções: seria preciso puncionar cerca de 3.333 pacientes anticoagulados a mais para produzir uma complicação maior adicional. Anticoagulação não é contraindicação à punção arterial; é motivo para comprimir mais tempo e olhar de novo.

O sexo masculino também apareceu associado a complicações maiores na coorte, com razão de chances ajustada de 1,41 (IC 95% 1,20–1,64). O estudo não oferece uma explicação mecanística nem um esquema diferente de punção por sexo; a decisão continua individual.

O que não existe é série brasileira. Nenhum dos documentos nacionais que governam este capítulo publica taxa própria de complicação da punção arterial, e a régua brasileira, ao falar de risco, cita a coorte dinamarquesa. Isso não invalida o número — invalida a ideia de que ele descreve a realidade de uma enfermaria brasileira com material e treinamento brasileiros. É a melhor informação disponível, e é informação estrangeira.

04

Por que acontece o que acontece

A pergunta que abre este capítulo tem resposta fisiológica, e ela é curta: o sangue venoso já passou pelo tecido. O que o tecido fez com aquele sangue foi consumir oxigênio e devolver gás carbônico, e o quanto ele fez disso depende do fluxo local, da temperatura da mão, do garrote que ficou apertado, de o paciente ter fechado o punho. Por isso a pressão parcial de oxigênio de uma amostra venosa periférica não informa oxigenação: ela informa o que aconteceu entre a artéria e aquela veia. Já o pH e o bicarbonato são propriedades do compartimento inteiro e atravessam o capilar quase sem mudar de valor — mudam pouco, e de forma previsível. É essa assimetria, e só ela, que decide quando furar artéria.

A consequência prática é uma trava, e vale escrevê-la como trava: pergunta metabólica se responde na veia; pergunta de ventilação e de oxigenação se responde na artéria. Cetoacidose, acidose por diarreia, suspeita de acidose lática, controle de bicarbonato em doente renal — tudo isso tem resposta venosa. O que a veia não responde é a pressão parcial de oxigênio e, portanto, a relação entre oxigênio arterial e fração inspirada. E o que ela responde mal, não podendo ser tratado como equivalente, é a pressão de gás carbônico quando a decisão é de suporte ventilatório. A leitura acidobásica em si — passo a passo, com fórmulas de compensação e ânion gap — é do capítulo "Gasometria arterial", na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e não se repete aqui.

A anatomia do punho explica por que a radial é a primeira escolha e por que a posição do paciente é metade da técnica. A artéria radial corre superficial no terço distal do antebraço, num sulco delimitado de um lado pelo processo estiloide do rádio e do outro pelo tendão flexor radial do carpo; é o que a régua brasileira usa como reparo, e é o reparo que funciona em punho magro e em punho edemaciado, porque osso e tendão continuam palpáveis quando o pulso não está. Estender o punho sobre um coxim afasta a artéria do plano ósseo profundo e a traz para junto da pele — não é conforto, é o que torna o vaso alcançável com agulha fina. Estender demais, ao contrário, estica e afina o vaso e o torna mais difícil de transfixar com o bisel.

Punho e palma com artéria radial entre reparo ósseo e tendão, artéria ulnar e representação simplificada dos arcos palmares.
A radial é superficial no lado do polegar, entre o reparo ósseo lateral e o tendão flexor radial do carpo. Radial e ulnar contribuem para arcos palmares com variação anatômica. As comunicações desenhadas não garantem circulação colateral suficiente em cada pessoa.

A palma é irrigada por dois troncos que se encontram em arcos, um vindo pelo lado do polegar e outro pelo lado do dedo mínimo. É desse desenho que nasce a segurança da radial: se ela trombosar, o outro tronco em princípio sustenta a mão. A palavra que carrega o peso aqui é "em princípio" — a comunicação entre os dois arcos varia de pessoa para pessoa, e é justamente para tentar medir essa variação, antes de furar, que se inventou o teste de Allen. Ele promete responder se a mão sobrevive sem a radial. O que a evidência sustenta é bem menos que isso, e o capítulo trata do assunto adiante, na seção de investigação: nenhum documento brasileiro em uso exige o teste, e a régua nacional do gesto não o menciona uma vez sequer.

Da agulha para dentro, começa a segunda metade do mecanismo — e é a que estraga mais exames. Sangue arterial recém-colhido é um sistema fechado que continua vivo: as hemácias, os leucócitos e as plaquetas seguem consumindo oxigênio e produzindo gás carbônico dentro da seringa. À temperatura ambiente, essa respiração da amostra faz a pressão de gás carbônico subir cerca de 1 mmHg por hora, a de oxigênio cair cerca de 2 mmHg por hora e o pH cair de 0,02 a 0,03 unidade por hora — números pequenos em cinco minutos, e não tão pequenos quando o exame de plantão do sábado é levado a pé até um laboratório do outro prédio. Em paciente com leucocitose ou plaquetose altas, o consumo é maior e a pressão de oxigênio despenca mais rápido: uma hipoxemia que só existe dentro da seringa.

A bolha de ar é o erro mais frequente e o de mecanismo mais direto. O ar ambiente tem pressão parcial de oxigênio em torno de 150 mmHg e praticamente nenhum gás carbônico. Uma bolha em contato com o sangue equilibra-se com ele: puxa a pressão de oxigênio da amostra na direção de 150, o que significa subir quando o paciente está hipoxêmico e descer quando ele está em oxigênio suplementar com valores altos; e arrasta a pressão de gás carbônico para baixo, o que sobe o pH. O resultado clássico é uma amostra que parece dizer alcalose respiratória com oxigenação melhor do que a real — exatamente o par de erros que faz reduzir oxigênio de quem precisava de mais. Expulsar a bolha imediatamente, sem puxar o êmbolo, é o gesto que evita isso; puxar o êmbolo suga ar novo e piora o problema que se queria resolver.

A heparina engana de duas maneiras e as duas são de volume, não de dose. Heparina líquida residual dilui a amostra: bicarbonato e pressão de gás carbônico caem proporcionalmente ao volume de líquido que sobrou na seringa e na agulha. Com 0,2 mL residuais numa amostra de 2 mL, a diluição é de 9,1% — um bicarbonato de 24 mEq/L vira 21,8 e uma pressão de gás carbônico de 40 mmHg vira 36,4; se só se conseguiu 1 mL de sangue, a mesma sobra dilui 16,7%, e os mesmos valores viram 20,0 e 33,3. Além disso, a heparina líquida traz consigo a pressão de oxigênio do ar em que foi aspirada. E a heparina, sendo um poliânion, liga cátions: a que não é balanceada em eletrólitos derruba o cálcio ionizado medido no mesmo cartucho. O erro, portanto, não é heparinizar demais — é deixar líquido demais.

Falta a permeabilidade do plástico, que é o mecanismo mais recente e o que menos chegou às enfermarias. As seringas plásticas de coleta são parcialmente permeáveis a gases, e essa permeabilidade aumenta quando o material esfria: a hipótese descrita é uma contração das moléculas do polímero que alarga os poros o suficiente para o oxigênio atravessar, mas não o suficiente para o gás carbônico, o que explica por que a pressão de gás carbônico praticamente não se altera em amostra plástica resfriada enquanto a de oxigênio é puxada para a do ar ambiente, perto de 150 mmHg — sobe quando a pressão verdadeira está abaixo disso, que é sempre o caso de quem respira ar ambiente, e cai quando está acima. É por isso que a prática de pôr a seringa no gelo — que faz todo o sentido na seringa de vidro, para frear o metabolismo da amostra, e que em vidro continua valendo, com análise em até 1 hora — deixou de ser recomendada para seringa plástica, e é por isso que a orientação que vale hoje para o plástico é transporte rápido em temperatura ambiente, com análise em 15 minutos quando o oxigênio importa e em 30 minutos nos demais casos.

05

Como se apresenta de verdade

A punção arterial quase nunca chega até você como uma decisão sua. Ela chega como uma folha, um pedido verbal na passagem de plantão ou uma frase da enfermagem — "não consegui colher a gasometria do 4". O que muda tudo é a pergunta que está por trás da folha, e ela raramente está escrita nela. As seis situações a seguir cobrem quase todos os pedidos de gasometria que um interno de enfermaria e de pronto-socorro recebe, e o que cada uma delas exige antes da agulha.

O pedido que já vem escrito

Três perguntas clínicas diferentes chegam com o mesmo nome. A primeira é a pergunta de ventilação: este paciente está retendo gás carbônico, e isso muda o suporte? A segunda é a pergunta de oxigenação: quanto oxigênio ele tem no sangue arterial, e como isso se compara com o que estou ofertando? A terceira é a pergunta metabólica: ele está acidótico, e de que tipo? Só as duas primeiras exigem artéria.

Reconhecer qual delas está em jogo não exige adivinhação: exige perguntar a quem pediu, ou ler o contexto. Paciente sonolento com pouco esforço respiratório, ou doente pulmonar obstrutivo em exacerbação, ou paciente que piora sob oxigênio — é ventilação, e é arterial. Paciente com hipoxemia que não fecha com o dispositivo em uso, ou candidato a cálculo da relação entre oxigênio arterial e fração inspirada — é oxigenação, e é arterial. Paciente com cetoacidose, com diarreia volumosa, com insuficiência renal descompensada, com intoxicação — é metabólica, e a veia responde.

Existe um quarto motivo, que não é pergunta e sim hábito: gasometria de controle diária em paciente estável, gasometria repetida a cada duas horas em quem não mudou de dispositivo nem de estado, gasometria "para completar o laboratório". Nenhum desses é indicação. A régua brasileira do gesto é explícita ao dizer quando repetir dentro da terapia intensiva — cerca de vinte minutos após ajuste dos parâmetros do ventilador e diariamente enquanto durar a fase aguda —, e essa formulação carrega uma condição em cada metade: houve ajuste, ou a fase é aguda. Fora disso, a repetição é custo sem informação.

Cancelar um pedido feito por outro médico não é insubordinação e não se faz rasgando papel. Faz-se anotando, no prontuário e na própria folha: qual era a pergunta, por que ela não exige sangue arterial, e o que foi colhido no lugar. A conversa com quem pediu vem depois, e vem com o número na mão — é muito mais fácil sustentar "a venosa mostrou pH 7,18 e bicarbonato 9" do que sustentar "achei que não precisava".

O punho que não deixa achar a artéria

Há quatro razões comuns para o pulso radial não se deixar palpar, e elas pedem coisas diferentes. Edema é a mais frequente na enfermaria: o vaso está no lugar de sempre, apenas mais fundo. Aqui o reparo anatômico vale mais que o pulso — encontrar o processo estiloide do rádio, deslizar medialmente até o tendão flexor radial do carpo, e trabalhar o sulco entre os dois. Comprimir o edema com o polegar por alguns segundos, deslocando o líquido, costuma devolver a pulsação por tempo suficiente.

A segunda é o vasoespasmo, e ele muitas vezes é iatrogênico: mão fria, paciente ansioso, punção anterior recente no mesmo ponto. Aquecer a mão, explicar o procedimento e esperar dois minutos resolve mais casos do que trocar de artéria. A terceira é hipotensão real — e aqui a ausência do pulso radial é informação clínica, não obstáculo técnico: paciente com pulso radial fino ou ausente tem um problema de circulação, e a conduta imediata deixa de ser colher gasometria e passa a ser tratar choque. Esse deslocamento é do capítulo "Hipotensão na enfermaria", na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

A quarta é obesidade ou antebraço muito musculoso, em que a distância entre pele e vaso aumenta e a agulha fina padrão pode não alcançar. A régua brasileira do gesto prevê explicitamente o recurso ao doppler vascular portátil para localizar a radial quando ela é difícil de palpar por edema ou vasoespasmo e a gasometria é absolutamente necessária. A norma do COFEN vai na mesma direção ao autorizar o enfermeiro a usar ultrassonografia à beira do leito para o procedimento. Onde há aparelho, procurar a artéria com imagem é melhor do que procurar com a agulha.

Quando a radial não se deixa puncionar dos dois lados, as alternativas descritas pela régua brasileira são a braquial e a femoral. Elas custam mais: são mais profundas, portanto mais difíceis de localizar e de comprimir; têm circulação colateral pior, o que faz de uma trombose ali um evento de outra gravidade; e são cercadas de estruturas que uma técnica malfeita alcança — o nervo mediano na fossa cubital, o feixe inteiro na virilha. A braquial e a femoral não são o passo seguinte automático do interno: são o momento de chamar.

O paciente que sangra, ou que se espera que sangre

Anticoagulação plena, antiagregação, plaquetopenia e hepatopatia chegam à beira do leito como uma pergunta única — "pode puncionar?" — e o que se deve ao paciente é uma resposta em dois tempos. Primeiro, a magnitude do risco, que é menor do que a intuição sugere: na maior série publicada, a taxa de complicação maior em quem usava antitrombótico foi 0,17% contra 0,14% em quem não usava, três casos a mais por dez mil punções. Depois, o que muda na prática: o tempo de compressão, que passa de dois a três minutos para cinco a dez, e a obrigação de olhar o sítio de novo depois.

A palavra que a régua brasileira usa ao descrever esse achado é "anticoagulantes", e a série original diz "antitrombóticos" — que inclui antiagregantes plaquetários. A diferença importa na enfermaria: o paciente em ácido acetilsalicílico ou clopidogrel entra na mesma categoria de cuidado que o paciente em varfarina, e um interno que leia apenas a palavra "anticoagulante" vai comprimir dois minutos num paciente antiagregado. Comprima mais, nos dois casos.

O que o coagulograma decide antes de um procedimento à beira do leito — qual número olhar, que limiar adotar quando o procedimento não está na lista da régua nacional, e por que transfundir plasma para "corrigir número" em paciente que não sangra costuma ser custo sem benefício — é do capítulo "Coagulograma", na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono desse assunto. Este capítulo assume apenas o que é seu: a punção arterial não figura na lista brasileira de procedimentos com corte de plaquetas definido, e a decisão sobre ela se toma por analogia declarada no prontuário, não por número inventado.

Coagulopatia grave e não corrigida é a situação em que a régua brasileira fala em cautela e não em proibição: ela diz que, sendo absolutamente necessária, a coleta pode ser feita com cuidado em coagulopatia, plaquetopenia e uso de anticoagulantes. O julgamento que fica de pé é o de sempre — o quanto a resposta da gasometria muda a conduta agora. Se a resposta é "muda o suporte ventilatório nos próximos vinte minutos", punciona-se e comprime-se longamente. Se a resposta é "confirma o que já sabemos", não se punciona.

O membro que não se oferece

Quatro situações tiram um membro inteiro da lista, e as quatro se descobrem olhando e perguntando, não no prontuário. A primeira é a fístula arteriovenosa de quem dialisa: aquele braço é o acesso vascular de que o paciente depende três vezes por semana, e nele não se punciona veia nem artéria, não se afere pressão e não se garrota. A proibição para o acesso venoso já está dita no capítulo "Acesso venoso periférico", primeiro desta apostila, e este capítulo a estende à punção arterial com as mesmas palavras: membro com fístula arteriovenosa funcionante não se punciona. A doença renal crônica que leva à fístula, o estadiamento e o momento de confeccioná-la são do capítulo "O rim que não volta", na apostila de Nefrologia.

A segunda é infecção ativa na pele do sítio — celulite, ferida, dermatite exsudativa. A régua brasileira do gesto a lista entre as situações a evitar, e a razão é direta: a agulha carrega para dentro do vaso o que estiver na pele, e não existe antissepsia que corrija pele infectada. Troca-se de punho, ou de artéria.

A terceira é o membro com risco de isquemia tecidual no território irrigado pela artéria que se pretende puncionar — também nomeada pela régua brasileira. Na prática: mão fria e mal perfundida, doença arterial periférica de membro superior conhecida, vasoconstrição intensa por droga vasoativa em dose alta, membro em uso de curativo compressivo. Não se acrescenta uma trombose potencial a uma mão que já está no limite.

A quarta é o membro comprometido por outra razão que não a circulação: esvaziamento axilar do mesmo lado, membro parético com sensibilidade alterada, membro imobilizado, queimadura. Aqui a proibição é relativa e negociável — o que não é negociável é examinar os dois braços antes de escolher, em vez de puncionar o que está mais perto da porta.

Quem já tem por onde colher

Antes de furar, olhe o que o paciente já tem instalado. Cateter arterial periférico — a linha de pressão invasiva — entrega sangue arterial sem nenhuma punção nova, e o caderno da Anvisa registra essa dupla função explicitamente. Em paciente de terapia intensiva com linha arterial, colher gasometria por punção é dor gratuita.

A ressalva de quem colhe por linha é o volume de descarte: o cateter está cheio de solução de manutenção, e a primeira porção aspirada é essa solução, não sangue do paciente. Amostra colhida sem descarte adequado vem diluída e produz exatamente o mesmo erro que a heparina líquida residual — bicarbonato e gás carbônico falsamente baixos. O volume de descarte é do protocolo do serviço.

Cateter venoso central não serve: o sangue que sai dele é venoso central, não arterial, e responde a outra pergunta. A única situação em que uma gasometria colhida por um cateter central importa é a inversa — a de confirmar se um cateter que se acaba de passar está na veia ou na artéria, quando o refluxo e a curva de pressão não resolveram. Essa é uma pergunta do capítulo "O acesso que não se instala não infecta", nono desta apostila, que é dono da punção arterial acidental durante o acesso central e do que se faz com ela; este capítulo cede o assunto inteiro a ele e trata apenas da punção arterial deliberada, feita para colher gás.

Vale ainda o inverso do reflexo: paciente cuja única pergunta em aberto é oxigenação, estável, em ar ambiente, com oxímetro de boa curva e frequência batendo com o pulso, muitas vezes não precisa de gasometria nenhuma. Quando pedir e quando não pedir diante de dessaturação aguda é do capítulo "Dessaturação aguda na enfermaria", na apostila de Síndromes do Paciente Internado.

A criança e o recém-nascido

No recém-nascido, a régua é outra e é federal: o guia do Ministério da Saúde para os profissionais de saúde, no volume de intervenções comuns, descreve punção arterial em unidade neonatal com indicações próprias — coleta de gasometria, ajuste de fração inspirada de oxigênio pela pressão de oxigênio medida, impossibilidade de cateterizar a artéria umbilical e teste de hiperóxia — e nomeia três artérias possíveis: radial, braquial e temporal.

Três parâmetros mudam em relação ao adulto e mudam a conduta. O dispositivo é um cateter intravenoso periférico fino, calibre 27 em recém-nascido abaixo de 1.500 g e 25 a partir daí, e não uma agulha de seringa de adulto. Cada tentativa tem um relógio: tentativas sem sucesso que durem mais de trinta segundos podem, segundo o próprio guia, alterar a pressão de oxigênio da amostra — de modo que insistir não só machuca como corrompe o exame. E a compressão é de cinco minutos a cada punção, não de dois a três.

Analgesia não é opcional no neonato: o guia insere intervenção não farmacológica para analgesia como passo do procedimento, antes da punção, e remete ao próprio capítulo de dor do recém-nascido. Na criança maior, a régua da OMS registra o detalhe que resolve metade dos casos difíceis — a criança deitada de costas sente perda de controle e luta mais, e costuma ser melhor mantê-la sentada no colo de quem a acompanha, com contenção suave. Convém saber que o creme de lidocaína com prilocaína, o anestésico tópico mais citado para punção em criança, não consta da Rename 2024.

Duas frases de fronteira, ditas de propósito com todas as letras. Este capítulo toma para si o mínimo pediátrico — a decisão de puncionar artéria numa criança ou num recém-nascido, e o que muda na técnica quando o paciente é esse. Nenhum capítulo das apostilas de Neonatologia e de Emergências Pediátricas é dono deste procedimento — os de Neonatologia tratam de punção lombar, hemocultura e cateter umbilical, e os de Emergências Pediátricas, de punção venosa e lombar. Quando existir um capítulo de procedimentos do recém-nascido, o cuidado da amostra e a analgesia neonatal serão dele; a decisão de puncionar continua aqui.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo não é de laboratório: é o que se confere entre receber o pedido e encostar a agulha. São cinco minutos de trabalho que determinam se a próxima meia hora produz um número confiável ou um número que vai ser tratado como se fosse do paciente.

A ordem importa, porque cada passo pode cancelar o seguinte. Confirmar a pergunta pode dispensar a artéria; olhar os dois braços pode mudar o sítio; conferir o material pode adiar a punção em dois minutos e poupar uma recoleta.

Primeiro: arterial mesmo?

A decisão deve ser orientada pelo que precisa ser medido e pela condição do paciente. A venosa frequentemente permite avaliar pH e bicarbonato; a arterial é necessária quando a oxigenação arterial ou a quantificação apropriada da ventilação precisam ser conhecidas. No choque e em mudanças de quadro, não presumir equivalência entre amostras. Sem pergunta clínica que altere o cuidado, reavaliar a indicação de qualquer coleta.

Diante de uma tentativa arterial malsucedida numa investigação metabólica, a conduta correta não é insistir — é colher a venosa e responder. O capítulo "Gasometria arterial", na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, é dono dessa leitura e registra que o critério diagnóstico brasileiro de cetoacidose diabética opera com pH venoso. Recusar-se a colher a venosa quando a arterial não sai, e por causa disso atrasar o diagnóstico, é o erro maior dos dois.

Existe uma situação em que a resposta muda no meio do caminho: o paciente que se pretendia investigar por pergunta metabólica piora e passa a ter pergunta ventilatória. Aí a arterial volta a ser necessária, e vale colher — mas com a anotação de que a indicação mudou, porque o próximo plantonista precisa entender por que houve duas coletas.

Registre a decisão. Uma linha no prontuário — qual era a pergunta, o que foi colhido e por quê — é o que separa "o interno não colheu a gasometria" de "a pergunta era metabólica e foi respondida na veia".

O teste de Allen: o que promete e o que sustenta

O teste de Allen modificado é descrito passo a passo pela diretriz da Organização Mundial da Saúde, num anexo dedicado. Comprimem-se as duas artérias do punho com os dedos, pede-se ao paciente que feche e abra a mão até a palma empalidecer, libera-se apenas a artéria do lado do dedo mínimo e observa-se a palma. Se ela reperfunde em 5 a 15 segundos, a circulação por aquele lado é considerada suficiente; se não reperfunde nessa janela, a diretriz orienta não puncionar a radial daquela mão.

A nomenclatura é uma armadilha real, e ela está dentro do próprio documento: a diretriz chama de "positivo" o resultado em que a mão reperfunde — isto é, o resultado normal, que autoriza a punção — e de "negativo" o resultado em que não reperfunde. Boa parte do que se ensina à beira do leito usa exatamente o contrário, chamando de positivo o achado anormal. Escrever no prontuário "Allen positivo" comunica coisas opostas a dois leitores. A conduta segura é registrar o que se observou: "palma reperfundiu em 6 segundos" ou "palma não reperfundiu em 15 segundos". Esta recomendação de escrita é leitura deste capítulo, não citação da diretriz.

O que a evidência sustenta é bem menor que a promessa. Uma revisão sistemática com metanálise reuniu 14 artigos: nove sobre a validade do teste como rastreio de deficiência de circulação colateral, quatro sobre a capacidade de prever isquemia e um sobre concordância entre observadores. A partir de três estudos de desenho comparável, com ultrassonografia doppler como padrão de referência, os autores calcularam sensibilidade de 77% e especificidade de 93%. Nos quatro estudos que avaliaram predição, nenhum evento isquêmico da mão após punção arterial ocorreu entre os pacientes com teste anormal. A concordância entre observadores, medida num único estudo, foi de 71,5%. A conclusão dos autores é que o teste não tem validade diagnóstica suficiente como rastreio, não é bom preditor de isquemia da mão após punção arterial, tem confiabilidade limitada, e que não há evidência suficiente para sustentar seu uso sistemático antes da punção arterial.

As razões de verossimilhança que saem daqueles dois números — 11,0 para o teste anormal e 0,25 para o normal — parecem boas no papel, e é justamente por isso que a distinção seguinte importa. Se a prevalência de deficiência real de colateral for de 5%, um teste anormal eleva a probabilidade para cerca de 37% e um teste normal a reduz para cerca de 1,3%; se a prevalência for de 3%, o teste anormal leva a 25%. Mas essas contas medem o que o teste diz sobre o fluxo colateral, não sobre o desfecho que interessa, que é a mão isquêmica — e é exatamente nesse desfecho que a revisão não encontrou eventos a prever.

No Brasil, o teste não é exigido por documento nenhum. A régua nacional do gesto não menciona o teste de Allen uma única vez em todo o documento; a norma do COFEN, que é quem regula a execução do procedimento, também não. O que a régua brasileira coloca no lugar é a contraindicação por conteúdo clínico: evitar a coleta em situação de risco de isquemia tecidual no território irrigado pela artéria a ser puncionada. Fazer ou não fazer o teste, portanto, é decisão de serviço e não obrigação normativa — e a decisão que o capítulo não toma pelo leitor está registrada no bloco de divergências.

O inventário dos dois braços

Examinar os dois membros superiores antes de escolher leva menos de um minuto e evita o erro que mais custa. Olhe: fístula arteriovenosa, cicatriz de esvaziamento axilar, curativo, acesso venoso em uso, lesão de pele, edema assimétrico, imobilização. Pergunte ao paciente, se ele responder: de que lado dialisa, de que lado operou, que braço dói.

Palpe os dois pulsos radiais e compare. Assimetria de pulso é informação — pode ser doença arterial, pode ser punção anterior com trombose, pode ser posição. Onde o pulso é mais amplo, a punção é mais fácil e o risco de tentativa repetida é menor.

Olhe também a pele do ponto exato onde a agulha entraria, não só do punho em geral. A régua da Anvisa manda esperar a secagem espontânea do antisséptico antes de puncionar, e o antisséptico só funciona sobre pele íntegra e limpa. Sujidade visível se lava antes.

Por fim, verifique o que o paciente já tem instalado — linha arterial, cateter central — e o que ele já sofreu nas últimas horas. Punção recente no mesmo ponto produz vasoespasmo e hematoma; escolher o outro punho custa nada.

O material, e o que o SUS fornece

A régua brasileira do gesto descreve o material como kit padronizado, ou seringa de 5 mL com heparina lítica ou sódica em quantidades mínimas e agulha fina de calibre 23 a 25, de preferência com mecanismo de proteção. A diretriz da OMS lista seringa pré-heparinizada, agulhas de calibre 20, 23 e 25 conforme o sítio, e uma seringa de segurança com dispositivo que permita tampar sem reencapar manualmente — que ela nomeia como a melhor prática para coleta radial.

O ponto que decide o resultado está na expressão "quantidades mínimas". Kit com heparina liofilizada, aderida à parede da seringa, não dilui a amostra. Heparina líquida aspirada à mão e expelida deixa resíduo, e é o resíduo que produz o erro descrito no bloco de mecanismo. Onde só existe heparina líquida, a diferença entre 0,05 mL e 0,2 mL de sobra é a diferença entre uma diluição de 2,4% e uma de 9,1% numa amostra de 2 mL.

Sobre o elenco: a heparina sódica consta da Rename 2024 no Componente Básico, na apresentação de 5.000 UI/0,25 mL solução injetável — o que dá 20.000 UI/mL, quatro vezes a concentração do frasco de 5.000 UI/mL que muita gente tem na memória. Para a gasometria isso não muda a dose, porque o que anticoagula a amostra é uma quantidade mínima; muda o cuidado, porque o volume residual da seringa passa a carregar quatro vezes mais unidades, e porque quem aspirar "meio mililitro como sempre" está aspirando outra coisa.

Cloridrato de lidocaína a 1% e a 2% em solução injetável consta do Componente Básico, e é o que existe para anestesiar a pele do ponto quando se decide anestesiar. O teto de dose do anestésico local, em miligramas e em mililitros, é do capítulo "A parte que decide não é o ponto", quinto desta apostila, que é dono desse assunto e mostra que quatro documentos brasileiros divergem sobre ele; aqui os volumes em jogo são pequenos demais para chegar perto de qualquer um desses tetos. A associação de lidocaína com prilocaína, o creme anestésico tópico, não consta da Rename 2024.

Seringa, agulha, gaze, luva e coxim não estão na Rename e não deveriam estar: a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais lista medicamentos, e material médico-hospitalar está fora do escopo dela. Ausência ali não significa que o SUS não forneça — significa que a pergunta sobre material se responde na padronização do serviço e nas listas de insumos, não na Rename.

A ficha que se preenche antes de furar

A régua brasileira do gesto é incomum aqui, e vale seguir: antes de iniciar o procedimento, quem colhe deve anotar em ficha própria como está a ventilação do paciente em todos os detalhes — fração inspirada de oxigênio, frequência respiratória espontânea e, sob ventilação artificial, volume corrente, modo ventilatório e ciclagem, pressão positiva ao final da expiração, oximetria de pulso e a pressão expirada final de gás carbônico se houver capnógrafo.

Fora da terapia intensiva, essa lista se traduz em três informações que precisam ir escritas no pedido: o dispositivo de oxigênio em uso, o fluxo em litros por minuto, e a hora exata da coleta. Uma pressão de oxigênio de 62 mmHg significa coisas opostas em ar ambiente e em máscara com reservatório a 12 litros; sem o dispositivo anotado, o número não é interpretável e a coleta foi perdida.

A hora tem duas funções. A primeira é permitir que o laboratório e o próximo leitor saibam quanto tempo a amostra levou até o aparelho, o que muda a confiança em cada número. A segunda é permitir comparação: a gasometria seguinte só é comparável se as duas tiverem hora e contexto registrados.

Anote também, quando for o caso, o que aconteceu na coleta: punção difícil, mais de uma tentativa, sangue que veio devagar, paciente chorando ou prendendo a respiração. A régua da OMS registra que punho cerrado, apneia voluntária e choro alteram a ventilação e, com ela, o resultado. Some-se a isso a dor: em quem está acordado, ela acelera a respiração durante a própria coleta, e o exame volta com uma alcalose respiratória que é do procedimento e não da doença.

Como se reconhece uma amostra ruim

A régua brasileira do gesto dá o sinal clássico de amostra venosa, e dá com a ressalva certa: é provável que a amostra seja venosa se não for pulsátil, se for de cor escura e se fluir lentamente; mas sangue extremamente desoxigenado, em paciente hipoxêmico, também pode parecer escuro sendo arterial. Ou seja: a cor sozinha não decide, e o critério que mais vale é o enchimento passivo e pulsátil da seringa, sem que ninguém puxe o êmbolo.

Depois que o resultado chega, há assinaturas que denunciam artefato. Alcalose respiratória isolada, com oxigênio alto demais para o dispositivo em uso, em paciente que não hiperventila: bolha de ar. Bicarbonato e gás carbônico ambos desproporcionalmente baixos, com pH quase normal, em amostra pequena: diluição por heparina líquida. Oxigênio baixo inexplicável em paciente com leucometria muito alta e amostra que demorou: consumo dentro da seringa. Oxigênio alto demais em amostra que ficou no gelo dentro de seringa plástica: permeabilidade do plástico.

Há uma assinatura menos conhecida e que engana o plantão inteiro: a amostra que parece arterial, veio pulsátil e ainda assim tem oxigênio incompatível com o quadro, porque foi colhida com o garrote esquecido no braço. Garrote não se usa em punção arterial — a artéria tem pressão própria e não precisa de estase — e, quando fica, produz estase venosa que contamina o campo e desconforta o paciente.

A regra que fecha o bloco é a mesma dos outros procedimentos desta apostila: um número que não bate com o paciente é para ser questionado antes de ser tratado. Repetir uma gasometria porque o resultado não fecha com o exame físico não é insegurança; é a única resposta correta quando as duas informações se contradizem — e a segunda coleta, feita com o cuidado que a primeira não teve, costuma resolver a contradição sem que ninguém precise mudar a prescrição.

07

O que decide: a pergunta, o sítio, o tempo de compressão e a amostra

Uma gasometria útil depende da pergunta, da amostra e do contexto de oxigênio. A execução pelo interno é supervisionada; o acompanhamento inclui hemostasia, perfusão distal e conferência da plausibilidade do resultado. As contas de heparina e comparações de materiais são consulta para entender erros, não uma prescrição artesanal.

  1. 11 · Leia o pedido e nomeie a pergunta: ventilação, oxigenação ou metabólica.
  2. 2Pergunta acidobásica pode ser respondida por amostra venosa em muitos contextos, incluindo cetoacidose; avaliar perfusão, gravidade e necessidade de PaO2 ou PaCO2 precisa antes de substituir automaticamente a arterial.
  3. 33 · Nenhuma decisão em aberto — não colha; registre a pergunta que não existia e converse com quem pediu.
  4. 44 · Pergunta ventilatória ou de oxigenação — siga.
  5. 55 · O paciente já tem linha arterial? Colha por ela, com o volume de descarte do protocolo do serviço, e não puncione.
  6. 66 · Examine os DOIS braços: fístula arteriovenosa, esvaziamento axilar, infecção de pele no sítio, membro isquêmico ou parético, curativo, acesso em uso.
  7. 77 · Escolha o punho com melhor pulso e sem nenhuma das proibições do passo 6.
  8. 88 · Anote ANTES de furar: dispositivo de oxigênio, fluxo em litros por minuto, hora exata; em ventilação mecânica, também fração inspirada, modo, volume corrente e pressão positiva ao final da expiração.
  9. 99 · Prepare o material: seringa com heparina em quantidade mínima, agulha fina de calibre 23 a 25, gaze, coxim; se houver heparina líquida, expulse o excesso até deixar apenas o filme que molha a parede.
  10. 1010 · Higienize as mãos, calce luvas, faça a antissepsia e ESPERE a secagem espontânea do antisséptico.
  11. 1111 · Estenda o punho sobre o coxim, palpe o sulco entre o processo estiloide do rádio e o tendão flexor radial do carpo, e entre a 30-45 graus, apontando a agulha para o cotovelo.
  12. 1212 · Deixe a seringa encher passiva e pulsátil, de 1 a 2 mL. NÃO puxe o êmbolo.
  13. 1313 · Não veio sangue: recue a agulha até logo abaixo da pele SEM sair, redirecione e avance de novo; não redirecione com a agulha profunda.
  14. 1414 · Duas tentativas sem sucesso no mesmo punho: pare, troque de punho ou chame. Quatro tentativas no total: pare e chame, sempre.
  15. 1515 · Retirada a agulha, comprima com gaze por 2-3 minutos; 5-10 minutos em hipertensão, distúrbio de coagulação, anticoagulante ou antiagregante. No recém-nascido, 5 minutos a cada punção.
  16. 1616 · Enquanto comprime com uma mão, expulse a bolha com a outra, sem puxar o êmbolo; tampe a seringa e homogeneíze rolando entre as mãos.
  17. 1717 · Identifique a amostra e envie AGORA, em temperatura ambiente. Não ponha seringa plástica no gelo.
  18. 1818 · Volte ao sítio: sangramento parado, sem hematoma em expansão, pulso distal presente, mão quente, sem parestesia.

Tabela 1 — O que a amostra venosa responde e o que ela não responde

Pergunta clínicaAmostra que respondePor quêOnde isso decide
Há acidose? De que tipo? Qual o bicarbonato?Venosa periféricapH e bicarbonato são propriedades do compartimento e atravessam o capilar com variação pequena e previsívelCetoacidose, diarreia volumosa, insuficiência renal, intoxicação
Qual a pressão parcial de oxigênio no sangue arterial?Arterial, e só elaA pressão de oxigênio venosa reflete o que o tecido consumiu, não o que o pulmão entregouHipoxemia, cálculo da relação entre oxigênio arterial e fração inspirada
Ele está retendo gás carbônico a ponto de mudar o suporte?ArterialÉ o par pH e pressão de gás carbônico que decide ventilação não invasiva ou via aérea definitivaExacerbação de doença pulmonar obstrutiva, rebaixamento com pouco esforço
O ajuste do ventilador funcionou?ArterialA régua nacional prevê coleta cerca de 20 minutos após ajuste dos parâmetrosTerapia intensiva, fase aguda
Gasometria de controle em paciente estável, sem mudança de dispositivoNenhumaNão há decisão em aberto para o exame mudarEnfermaria — é o pedido que mais se cancela
A punção arterial falhou duas vezes e a pergunta é metabólicaVenosa, agoraInsistir atrasa uma resposta que a veia já davaPronto-socorro, madrugada, paciente de rede difícil

Tabela 2 — Quando não puncionar aquele membro, e o que se faz então

SituaçãoForçaOrigemO que se faz
Risco de isquemia tecidual no território da artéria a puncionarEvitarRégua nacional do gesto (AMIB/SBPT)Outro membro; se os dois, discutir necessidade real do exame antes de escalar de artéria
Infecção ativa na pele do sítio de punçãoEvitarRégua nacional do gesto (AMIB/SBPT)Outro sítio; antissepsia não corrige pele infectada
Fístula arteriovenosa funcionante no membroNão puncionarFronteira herdada de 'Acesso venoso periférico', capítulo 1 desta apostilaMembro contralateral; não aferir pressão nem garrotear naquele braço
Coagulopatia, plaquetopenia ou anticoagulanteCautela, não proibiçãoRégua nacional do gesto (AMIB/SBPT)Puncionar se a resposta muda a conduta agora; comprimir 5-10 minutos e reexaminar o sítio
Antiagregante plaquetário (ácido acetilsalicílico, clopidogrel)Cautela, não proibiçãoCoorte de 473.327 punções, categoria 'antitrombóticos'Mesmo cuidado do anticoagulado; a régua nacional escreve 'anticoagulantes' e estreita a categoria
Esvaziamento axilar, membro parético, imobilizado ou queimadoRelativaPrática, sem norma brasileira específicaPreferir o outro membro; se não houver escolha, registrar a razão
Paciente já com cateter arterial periférico instaladoNão puncionarCaderno 4 da Anvisa, item 4.8Colher pelo cateter, com o volume de descarte do protocolo do serviço

Tabela 3 — Conversão para um adulto de 70 kg, recalculada contra a apresentação real

ItemApresentação realContaResultado e o que ele significa
Heparina sódica — apresentação da Rename 20245.000 UI/0,25 mL, solução injetável, Componente Básico5.000 ÷ 0,2520.000 UI/mL — quatro vezes a concentração do frasco de 5.000 UI/mL que muita gente tem na memória
Heparina residual — sobra pequena0,05 mL residuais em 2,0 mL de sangue0,05 ÷ (0,05 + 2,0)Diluição de 2,4%: bicarbonato 24 lido como 23,4; gás carbônico 40 lido como 39,0 — tolerável
Heparina residual — sobra típica de seringa montada à mão0,20 mL residuais em 2,0 mL de sangue0,20 ÷ (0,20 + 2,0)Diluição de 9,1%: bicarbonato 24 lido como 21,8; gás carbônico 40 lido como 36,4 — já parece alcalose respiratória
Heparina residual — mesma sobra, amostra pequena0,20 mL residuais em 1,0 mL de sangue0,20 ÷ (0,20 + 1,0)Diluição de 16,7%: bicarbonato 24 lido como 20,0; gás carbônico 40 lido como 33,3 — o exame virou outro paciente
Lidocaína 1% para botão intradérmico10 mg/mL, solução injetável, Componente Básico0,3 mL × 10 mg/mL3 mg — muito abaixo de qualquer teto discutido no capítulo de sutura desta apostila
Lidocaína 2% para botão intradérmico20 mg/mL, solução injetável, Componente Básico0,3 mL × 20 mg/mL6 mg — mesma conclusão; o volume do botão é que precisa ser pequeno, para não apagar o pulso
Deriva da amostra à temperatura ambiente, 30 minutos1 mmHg/h de gás carbônico; 2 mmHg/h de oxigênio; 0,02-0,03 de pH por horataxa × 0,5 hGás carbônico +0,5 mmHg; oxigênio −1,0 mmHg; pH −0,010 a −0,015 — irrelevante clinicamente em 30 minutos
Complicação maior por punção, traduzida em frequência0,14% de 473.327 punções = 669 eventos473.327 ÷ (669 × 0,49)Um evento tromboembólico registrado a cada 1.444 punções — cerca de setenta e dois dias num serviço que colhe vinte por dia

Tabela 4 — Assinaturas de amostra ruim: o que cada erro faz com qual número

ErroOxigênioGás carbônicopHComo se reconhece na beira do leito
Bolha de ar na seringaPuxa na direção de 150 mmHg: sobe se estava baixo, desce se estava altoCaiSobeAlcalose respiratória isolada com oxigênio incoerente com o dispositivo em uso
Heparina líquida residual em excessoSobe um pouco (a heparina traz oxigênio do ar)Cai proporcional ao volumeQuase inalteradoBicarbonato e gás carbônico ambos baixos, com pH perto do normal, em amostra pequena
Demora até a análise, temperatura ambienteCai cerca de 2 mmHg por horaSobe cerca de 1 mmHg por horaCai 0,02-0,03 por horaAmostra com hora de coleta muito anterior à hora do resultado
Leucocitose ou plaquetose altas com demoraCai muito mais rápidoSobe mais rápidoCai mais rápidoHipoxemia inexplicável em paciente séptico ou com leucemia que está confortável
Seringa plástica no geloPuxa na direção de 150 mmHg: sobe se estava baixo, desce se estava altoPraticamente inalteradoPraticamente inalteradoOxigênio alto demais para o quadro, em amostra que foi transportada resfriada
Amostra venosa colhida como arterialBaixoAltoBaixoSeringa que não encheu sozinha, sangue que fluiu devagar; a cor escura sozinha não decide
Dor e hiperventilação durante a punçãoSobeCaiSobeAlcalose respiratória isolada em paciente acordado que acabou de ser puncionado
Garrote esquecido no braçoCaiSobeCaiEstase visível; garrote não se usa em punção arterial

Risco absoluto. Na coorte citada, 669 complicações maiores em 473.327 punções correspondem a 0,14%. O dado contextualiza o risco, mas não inclui todos os desconfortos ou pequenos hematomas; indicação e técnica continuam necessárias em cada coleta.

Antitrombóticos. Pergunte tanto por anticoagulantes quanto por antiagregantes, como ácido acetilsalicílico e clopidogrel. A categoria estudada inclui ambos. Planeje compressão e reavaliação conforme o risco, até hemostasia confirmada, em vez de considerar apenas o nome “anticoagulante”.

População do estudo. A coorte excluiu menores de 18 anos e punções solicitadas pela terapia intensiva e anestesiologia. Sua taxa não deve ser apresentada como medida direta de risco para essas populações.

Origem da estimativa. Diferencie estudos que medem complicações de ferramentas que avaliam sua qualidade metodológica. A presença de uma referência ao lado de um número não amplia a população estudada nem a precisão da estimativa.

Transporte da amostra. Refrigeração e congelamento são condições diferentes. Não acrescente uma etapa de congelar ou descongelar por interpretação literal de uma palavra isolada; siga o preparo compatível com a seringa e o laboratório.

Tempo até a análise. A amostra continua consumindo oxigênio e produzindo gás carbônico. Velocidades de alteração descritas em condições diferentes não permitem corrigir o laudo por uma fórmula de bolso. Organize o transporte e registre a hora da coleta.

Material da seringa. No percurso adotado para seringa plástica, transporte em temperatura ambiente e análise rápida: até 15 minutos quando a pergunta envolve oxigenação e até 30 nos demais casos descritos. A orientação histórica de resfriar vidro não se transfere automaticamente ao plástico.

Localização e circulação colateral. Palpação ou ultrassom localizam a artéria; o teste de Allen avalia reperfusão pela circulação colateral. São perguntas diferentes, e uma não substitui a outra.

Registro do teste. Se o Allen for realizado, descreva o observado, por exemplo “palma reperfundiu em seis segundos”. Evite apenas “positivo” ou “negativo”, pois a convenção pode variar entre leitores.

Calibre Gauge. Número maior significa agulha mais fina. Registre o calibre e confira o dispositivo; a expressão “calibre menor” sem esclarecer se trata de número ou diâmetro é ambígua.

Populações e procedimentos. Punção única e cateterização arterial têm finalidades e técnicas diferentes. No recém-nascido, a escolha de acesso e as coletas repetidas exigem o protocolo específico e profissional treinado.

Compressão. As referências descrevem dois a três minutos no adulto, cinco a dez quando há fatores de sangramento e cinco no contexto neonatal citado. Esses tempos não substituem a inspeção: confirme hemostasia, ausência de hematoma em expansão e perfusão distal.

Concentrações disponíveis. Heparina 5.000 UI/0,25 mL contém 20.000 UI/mL. Lidocaína injetável a 1% e a 2% contém 10 e 20 mg/mL. A existência dessas apresentações não é instrução para preparar artesanalmente a seringa; use o sistema padronizado para a coleta.

Risco de sangramento. Avalie plaquetas, medicamentos, história, exame e sítio com a equipe quando pertinente. A ausência de um procedimento numa tabela não fornece um limiar seguro por analogia automática; registre o planejamento individual.

Leitura das associações. A diferença entre 0,17% e 0,14% é de 0,03 ponto percentual. Numa coorte observacional, esse cálculo descreve associação e não demonstra que a medicação causou o evento. Da mesma forma, cálculos do desempenho do Allen não garantem segurança de uma punção individual.

08

A conduta, hora a hora

Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.

O que segue é o procedimento completo, na ordem em que ele acontece, com os tempos de um interno que nunca puncionou artéria sozinho. Ele demora quinze a vinte minutos na primeira vez e cinco na décima, e a parte que encurta é a preparação, não a punção.

Duas coisas atravessam todos os marcos e vale dizê-las antes. A primeira é que este é um procedimento doloroso, mais doloroso que a punção venosa, e o paciente sabe disso melhor que você — a dor dele é motivo para explicar, não para apressar. A segunda é que, do começo ao fim, existe um limite de tentativas, e ele existe justamente porque quem está no meio do procedimento é a pessoa menos capaz de decidir parar.

  1. Minuto 0 — antes de tocar no paciente

    Defina qual decisão o exame vai orientar. Gasometria venosa frequentemente responde à avaliação acidobásica, como no caso de suspeita de cetoacidose de Baldomero, mas não fornece PaO2 e não substitui automaticamente a arterial em choque ou quando se precisa quantificar precisamente ventilação e oxigenação. Reavalie se a condição mudou e se o resultado mudará tratamento. Explique a punção, obtenha concordância e combine supervisão, analgesia e compressão. Não atrasar atendimento da insuficiência respiratória para colher uma amostra perfeita.

    Prescrição
    • Confirmar identidade pelo nome completo dito pelo paciente, não pela placa do leito
    • Explicar o procedimento e obter consentimento verbal; registrar no prontuário
    • Registrar a indicação em uma linha: qual pergunta clínica o exame responde
    • Se a pergunta acidobásica puder ser respondida por amostra venosa, colher essa amostra; reavaliar necessidade arterial conforme perfusão, gravidade e informação necessária.
  2. Minuto 2 — os dois braços, e a escolha do sítio

    Descubra os dois membros superiores até acima do cotovelo e olhe antes de palpar. Procure fístula arteriovenosa — um frêmito palpável e um sopro à ausculta na região do antebraço ou do braço —, cicatriz de esvaziamento axilar, curativo, acesso venoso em uso, lesão de pele, edema assimétrico e imobilização. Pergunte de que lado o paciente dialisa e de que lado operou, se ele puder responder. Depois palpe os dois pulsos radiais e compare amplitude. A radial é a primeira escolha por três razões que a régua brasileira e a diretriz da Organização Mundial da Saúde dão nas mesmas palavras: é superficial, é compressível contra o rádio, e a palma recebe sangue também pelo lado ulnar. Braquial e femoral são alternativas descritas, e são alternativas piores — mais profundas, portanto mais difíceis de localizar e de comprimir; com circulação colateral pior; e cercadas de estruturas que a agulha alcança quando o trajeto erra.

    Prescrição
    • Inspecionar e palpar os DOIS membros antes de escolher
    • Excluir do lado escolhido: fístula arteriovenosa, infecção de pele no sítio, membro isquêmico, esvaziamento axilar
    • Escolher o punho com pulso radial mais amplo
    • Se o paciente já tem cateter arterial periférico: colher por ele, com o descarte do protocolo, e não puncionar
  3. Minuto 4 — material, e o acerto da seringa

    Prefira kit próprio para gasometria com heparina seca balanceada, preenchido no volume indicado, e dispositivo de segurança. Heparina líquida residual pode diluir a amostra e alterar resultados; se for a única alternativa, siga preparo validado pelo laboratório, sem improvisar dose pela concentração de uma ampola. Separe gaze, tampa, identificação e descarte antes de começar. As contas de diluição ajudam a entender o erro pré-analítico, mas não substituem a especificação do kit.

    Prescrição
    • Seringa de 5 mL com heparina em quantidade mínima; agulha 23 a 25 gauge
    • Havendo apenas heparina líquida: molhar a parede e expulsar todo o excesso antes de puncionar
    • Coxim ou toalha enrolada para o punho
    • Caixa de perfurocortantes ao alcance, antes de começar — não depois
  4. Minuto 6 — posição, antissepsia e a espera

    Sente-se à beira do leito, na altura do punho: a régua brasileira do gesto começa por aí, e a razão é que punção arterial feita de pé, curvado, erra mais. Deite o paciente de costas, com o braço apoiado e a palma para cima, e ponha o coxim sob o punho de modo a deixá-lo em extensão moderada — o suficiente para trazer a artéria para junto da pele, não o suficiente para esticá-la e afiná-la. Palpe o processo estiloide do rádio, deslize medialmente até encontrar o tendão flexor radial do carpo, e trabalhe o sulco entre os dois: é ali que a artéria corre, e é esse reparo que continua funcionando quando o pulso não se deixa palpar. Faça a antissepsia e espere. A régua da Anvisa é específica quanto a isso para cateter arterial: clorexidina alcoólica acima de 0,5%, trinta segundos de aplicação em movimentos de vaivém, e secagem espontânea antes de puncionar. A pressa nesta espera é o erro mais silencioso do procedimento, porque não produz sintoma nenhum no dia.

    Prescrição
    • Sentar-se à beira do leito, na altura do punho
    • Punho em extensão moderada sobre coxim; palma para cima; braço apoiado
    • Palpar processo estiloide do rádio, depois tendão flexor radial do carpo, e trabalhar o sulco entre eles
    • Antissepsia com clorexidina alcoólica acima de 0,5%, 30 segundos, movimentos de vaivém
    • Aguardar a secagem espontânea do antisséptico antes de encostar a agulha
  5. Minuto 8 — a punção

    Segure a seringa com a mão dominante, como quem segura um dardo, e mantenha os dedos indicador e médio da outra mão sobre o pulso, marcando o trajeto. Aponte a agulha para longe da mão do paciente, na direção do cotovelo, e entre na pele num ângulo de 30 a 45 graus, num ponto logo abaixo dos seus dedos — a régua brasileira do gesto dá esse ângulo, e a diretriz da Organização Mundial da Saúde dá 45 graus, cerca de 1 cm distal ao dedo indicador. Avance devagar. Quando a agulha entra na artéria, a seringa enche sozinha, com sangue vermelho vivo e pulsátil: você não deve puxar o êmbolo. Colha de 1 a 2 mL, que é o volume que a régua brasileira pede. Se o sangue enche a seringa passivamente, é quase certo que a amostra é arterial; se ele vem devagar, escuro e sem pulsar, a suspeita é de amostra venosa — com a ressalva de que sangue muito desoxigenado, em paciente hipoxêmico, também parece escuro. Não use garrote: a artéria tem pressão própria e o garrote só produz estase venosa.

    Prescrição
    • Agulha apontada para o cotovelo, entrada em 30 a 45 graus, logo abaixo dos dedos que palpam
    • Avanço lento até o refluxo pulsátil
    • Deixar a seringa encher passivamente; não puxar o êmbolo
    • Volume de 1 a 2 mL
    • Sem garrote em nenhuma etapa
  6. Quando não vem sangue — e quantas vezes se tenta

    Não veio sangue significa quase sempre que a agulha passou ao lado ou atravessou a artéria. A conduta descrita pela régua brasileira do gesto é a mesma da diretriz internacional e é contraintuitiva para quem está com pressa: não puxe o êmbolo. Em vez disso, recue a agulha lentamente até que a ponta esteja logo abaixo da pele, sem sair, e tente de novo com o trajeto corrigido. Redirecionar com a agulha profunda é o que produz laceração de vaso, hematoma grande e a maior parte das lesões de nervo. Sobre o número de tentativas, nenhum documento brasileiro fixa um número — e é justamente por isso que o serviço precisa fixar o dele. A régua deste capítulo, declarada como decisão editorial e não como citação, é: duas tentativas no mesmo punho, quatro no total contando os dois lados, e então parar e chamar. Existe um dado que reforça o limite no recém-nascido: o guia federal registra que tentativas sem sucesso que durem mais de trinta segundos podem alterar a pressão de oxigênio da amostra. Insistir, ali, não só machuca como corrompe o exame que se queria colher.

    Prescrição
    • Sem refluxo: recuar a agulha até logo abaixo da pele, sem retirá-la, e redirecionar
    • Nunca redirecionar com a agulha profunda
    • Nunca puxar o êmbolo para 'ajudar' o sangue a vir
    • Limite: 2 tentativas por punho, 4 no total — depois disso, chamar
    • No recém-nascido: cada tentativa acima de 30 segundos já altera o resultado
  7. Minuto 10 — comprimir e cuidar da amostra ao mesmo tempo

    Retire a agulha com segurança e inicie compressão firme no sítio arterial por tempo suficiente para hemostasia. Confira após alguns minutos e prolongue conforme anticoagulação, hemostasia, pressão e tentativas; não liberar com sangramento só porque um tempo mínimo passou. Peça a profissional ou acompanhante capaz que mantenha compressão adequada enquanto você remove prontamente bolhas pelo método seguro do dispositivo, fecha e homogeneíza a amostra. Não recape agulha nem improvise duas tarefas que comprometam compressão ou segurança. Reexamine o membro depois.

    Prescrição
    • Compressão firme e contínua, sobre o ponto arterial, marcada no relógio
    • 2 a 3 minutos no adulto sem fator de risco de sangramento
    • 5 a 10 minutos em hipertensão, coagulopatia, anticoagulante ou antiagregante
    • 5 minutos a cada punção no recém-nascido
    • Com a outra mão: expulsar a bolha sem puxar o êmbolo, tampar e rolar a seringa entre as mãos
  8. Minuto 15 — envio, registro e o que se diz

    Identifique paciente, horário, tipo de amostra e oferta de oxigênio: dispositivo, fluxo e, quando conhecida, FiO2; em ventilação mecânica, anote os ajustes pertinentes. Registre intercorrências e encaminhe imediatamente no transporte validado pelo laboratório e fabricante. Para seringa plástica de uso habitual, priorize análise rápida sem gelo; não apresente resfriamento como solução universal para atrasos, pois material, difusão e metabolismo celular interferem nos gases. Se houver atraso, bolha ou resultado incompatível, discuta validade e possível recoleta. Antes de sair, confirme hemostasia, perfusão e ausência de parestesia ou hematoma crescente.

    Prescrição
    • Identificar com nome, setor e HORA da coleta
    • Enviar imediatamente, em temperatura ambiente; não usar gelo com seringa plástica
    • Registrar no pedido: dispositivo de oxigênio, fluxo em L/min, hora, e intercorrências da coleta
    • Reexaminar o sítio: sangramento, hematoma, pulso distal, temperatura e sensibilidade da mão
    • Descartar a agulha na caixa de perfurocortantes sem reencapar manualmente
    • Informar o paciente: quando sai o resultado e o que ele decide
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Como saber se está funcionando

A punção arterial tem duas reavaliações que acontecem em relógios diferentes. Uma é do punho, e vale minutos a horas: sangramento, hematoma, perfusão e nervo. A outra é do exame, e vale a hora seguinte: o número bate com o paciente, e o que ele decidiu de fato aconteceu.

As duas se perdem pelo mesmo motivo — o interno colhe, entrega a seringa, e o procedimento termina na cabeça dele ali. Não termina. O parâmetro que mais se deixa de verificar é o mais simples de todos, que é olhar o punho de novo dez minutos depois.

Sangramento no sítioAo soltar a compressão, e de novo 10 minutos depois

Esperado: Seco. Um ponto vermelho puntiforme, sem sangramento ativo ao movimentar o punho.

Se não melhora: Volte a comprimir por mais cinco minutos, com o punho em posição neutra, e conte no relógio. Sangramento que persiste depois de dez minutos de compressão bem feita em paciente sem coagulopatia conhecida é achado, não azar: pode significar que a compressão está no ponto errado — sobre a entrada na pele e não sobre a entrada na artéria, que fica mais proximal por causa do trajeto oblíquo. Se persistir com a compressão corrigida, é hora de revisar coagulograma e uso de antitrombótico e de comunicar quem assiste o paciente. Curativo compressivo circular apertado no punho não substitui compressão manual e cria o risco de comprimir também o retorno venoso.

Hematoma10 minutos, 1 hora e na visita seguinte

Esperado: Ausente ou pequeno, plano, sem expansão e sem tensão à palpação.

Se não melhora: Hematoma que cresce sob a mão que comprime é o único achado imediato deste procedimento que exige ação de outra ordem: mantenha a compressão firme e continuada, eleve o membro, marque o limite do hematoma na pele com caneta e chame. Hematoma tenso e expansivo em antebraço pode comprometer a perfusão do compartimento e a mão, e essa avaliação não é do interno sozinho. Hematoma pequeno e estável se trata com observação e frio local nas primeiras horas; ele demora dias a semanas para reabsorver e produz equimose que desce pelo antebraço, o que assusta o paciente e a família e merece ser antecipado em palavras.

Pulso distal e perfusão da mãoImediatamente após soltar a compressão, e na visita seguinte

Esperado: Pulso radial palpável, mão quente, enchimento capilar normal, cor igual à da outra mão.

Se não melhora: Mão fria, pálida ou com enchimento capilar lento depois de uma punção é a apresentação da complicação que a maior série publicada mostra ser a mais comum entre as graves: embolia ou trombose, 49,0% dos 669 eventos maiores. É rara em termos absolutos — um evento registrado a cada 1.444 punções — e é grave quando acontece. Solte imediatamente qualquer curativo compressivo, aqueça a mão, compare com o lado oposto, e chame. Não espere a próxima visita para reavaliar, e registre o horário do achado: a diferença entre uma mão que melhora em minutos com o curativo solto e uma que não melhora é a diferença entre compressão externa e oclusão do vaso.

Dor e sensibilidade da mãoAo final do procedimento e na visita seguinte

Esperado: Dor local que cede em minutos; sensibilidade e força preservadas nos dedos.

Se não melhora: Parestesia, dor em choque irradiada para os dedos durante a punção, ou fraqueza depois dela apontam para lesão de nervo — 1,5% das complicações maiores da série, o que dá um evento a cada 47.168 punções, e a via mais comum é o redirecionamento da agulha com ela profunda. O guia federal do recém-nascido lista, entre as complicações da punção radial e braquial, tanto a lesão do nervo mediano quanto a síndrome do túnel do carpo. Se houver dor em choque durante a punção, retire a agulha e não redirecione naquele trajeto. Se houver déficit persistente, registre em detalhe o que foi feito e comunique — é achado que precisa de avaliação, não de observação silenciosa.

Coerência do resultado com o pacienteNo momento em que o resultado chega

Esperado: Os números explicam o que você vê. O oxigênio combina com o dispositivo e o fluxo anotados; o gás carbônico combina com o esforço respiratório.

Se não melhora: Antes de mudar prescrição por um número que não bate, percorra a tabela de assinaturas de amostra ruim: alcalose respiratória isolada com oxigênio incoerente sugere bolha; bicarbonato e gás carbônico ambos baixos com pH quase normal em amostra pequena sugerem diluição por heparina líquida; oxigênio baixo inexplicável em paciente com leucometria muito alta e amostra que demorou sugere consumo dentro da seringa; oxigênio alto demais em amostra que foi resfriada em seringa plástica sugere permeabilidade do plástico. Recolher com o cuidado que faltou é mais barato — e mais seguro — do que tratar o artefato. Anote no pedido da recoleta o que se suspeita, porque isso é o que permite ao laboratório e ao próximo plantonista ler o segundo número corretamente.

A decisão que a gasometria deveria ter tomadoAté uma hora depois do resultado

Esperado: A conduta mudou, ou ficou registrado por que não mudou.

Se não melhora: Gasometria que volta, é lida e não muda nada é o sinal mais confiável de que a indicação não existia — e é a informação que fecha o ciclo deste capítulo. Se o par pH e gás carbônico indicava ventilação não invasiva e ela não foi iniciada, o problema não é do exame. Se o resultado só confirmou o que já se sabia, anote isso, porque é o que impede a repetição amanhã pelo mesmo motivo. A régua brasileira prevê repetição cerca de vinte minutos após ajuste de parâmetros do ventilador e diariamente na fase aguda; fora dessas duas situações, a próxima gasometria precisa de uma pergunta nova.

O punho ao longo da internaçãoA cada nova solicitação de gasometria no mesmo paciente

Esperado: Punho sem hematoma acumulado, com pulso preservado, e alternância de lado entre coletas.

Se não melhora: Paciente que já levou várias punções chega ao ponto em que os dois punhos estão marcados, doloridos e em vasoespasmo, e é nesse ponto que as tentativas se multiplicam e as complicações aparecem. Três condutas evitam esse desfecho e nenhuma delas é técnica: alternar o lado a cada coleta e registrar qual foi usado; considerar linha arterial em quem vai precisar de coletas repetidas, o que troca muitas punções por uma; e, sobretudo, reexaminar a indicação a cada pedido. Em paciente cuja pergunta virou metabólica, a coleta seguinte pode ser venosa. Em paciente estável, pode não haver coleta seguinte.

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Onde o erro machuca

Furar artéria para responder pergunta metabólica

O dano: Este é o que mais se repete numa enfermaria, e o mais difícil de flagrar, porque produz um exame correto. O paciente com cetoacidose, com acidose por diarreia ou com bicarbonato baixo de doença renal tem toda a sua pergunta respondida numa amostra venosa colhida junto com o restante do laboratório. Furar a artéria dele acrescenta dor, risco de hematoma, quinze minutos de trabalho de enfermagem e uma tentativa a mais no punho de alguém que pode precisar de várias coletas ao longo da internação — e não acrescenta um único número que mude a conduta. Quando a punção arterial falha duas vezes nesse cenário, o erro se agrava: o diagnóstico atrasa por falta de um número que a veia entregaria de imediato.

Como pegar a tempo: Nomeie a pergunta e escolha a amostra com a equipe. A venosa pode evitar punção desnecessária em avaliação acidobásica apropriada, mas PaO2 e situações que exigem medida arterial não podem ser substituídas sem julgamento clínico.

Puxar o êmbolo — para 'ajudar' o sangue a vir, ou para tirar a bolha

O dano: Puxar o êmbolo durante a punção é o que faz uma amostra venosa entrar numa seringa de gasometria: a sucção enche a seringa mesmo com a ponta da agulha fora da artéria, e o resultado vem com oxigênio baixo, gás carbônico alto e pH baixo, imitando exatamente uma insuficiência respiratória. Puxar o êmbolo depois da coleta, para expulsar bolhas, faz o oposto e é pior: suga ar ambiente para dentro da seringa, e o ar tem pressão parcial de oxigênio em torno de 150 mmHg e quase nenhum gás carbônico. Nos dois casos, o número tratado não é do paciente.

Como pegar a tempo: A seringa deve encher sozinha, passiva e pulsátil — é essa a confirmação de que a ponta está na artéria, e é o que a régua brasileira do gesto e a diretriz da Organização Mundial da Saúde dizem nas mesmas palavras. Não veio sangue: recue a agulha até logo abaixo da pele e redirecione, sem puxar o êmbolo em nenhum momento. Para expulsar bolhas, mantenha a seringa na vertical com a agulha ou a tampa para cima e empurre suavemente, nunca puxe.

Redirecionar a agulha com ela profunda

O dano: É a manobra que produz a maior parte do dano evitável do procedimento. Com a agulha dentro dos planos profundos, mudar a direção significa varrer o trajeto com o bisel: lacera a parede do vaso ao longo de vários milímetros, produz o hematoma grande, e é a via mais provável de lesão do nervo mediano e de dor em choque irradiada para os dedos. O guia federal do recém-nascido lista, entre as complicações desta punção, lesão do nervo mediano e síndrome do túnel do carpo — nenhuma das duas vem de uma entrada limpa, e as duas vêm de varredura.

Como pegar a tempo: Sem refluxo, recue a agulha lentamente até que a ponta esteja logo abaixo da pele, mantendo-a dentro, e só então corrija a direção e avance de novo. Se o paciente referir dor em choque irradiada durante a punção, retire a agulha e não insista naquele trajeto. E respeite o limite de tentativas: duas por punho, quatro no total, e então parar e chamar — quem está no meio do procedimento é a pessoa menos capaz de decidir parar.

Comprimir pouco, ou comprimir no lugar errado

O dano: A artéria tem pressão sistêmica, e um orifício nela não fecha com a mesma facilidade que um orifício de veia. Compressão insuficiente produz hematoma, que dói por dias, assusta o paciente, inviabiliza aquele punho para novas coletas e ocasionalmente comprime estruturas do antebraço. O erro tem duas formas. A primeira é de tempo: contar de cabeça em vez de olhar o relógio produz sistematicamente menos minutos do que se pensa, e o paciente anticoagulado ou antiagregado precisa de cinco a dez, não de dois a três. A segunda é de lugar: como o trajeto da agulha é oblíquo, o furo na artéria fica mais proximal que o furo na pele, e comprimir a pele deixa a artéria sangrando por baixo.

Como pegar a tempo: Marque o tempo no relógio. Dois a três minutos no adulto sem fator de risco; cinco a dez em hipertensão arterial sistêmica, distúrbio de coagulação, anticoagulante ou antiagregante plaquetário; cinco minutos a cada punção no recém-nascido. Comprima sobre o ponto de entrada na artéria, alguns milímetros proximal ao ponto de entrada na pele. E reexamine o sítio dez minutos depois de soltar — o hematoma que cresce aparece nesse intervalo, não na hora.

Mandar a amostra sem dizer em que oxigênio o paciente estava

O dano: Uma pressão parcial de oxigênio de 62 mmHg significa hipoxemia leve em ar ambiente e falência de troca grave em máscara com reservatório a 12 litros por minuto. Sem o dispositivo e o fluxo anotados, o número não é interpretável, e a coleta — com a dor, o risco e o trabalho que custou — foi perdida. O mesmo vale para a hora: sem ela, ninguém sabe quanto tempo a amostra levou até o aparelho, e a gasometria seguinte não é comparável com esta. A régua brasileira do gesto é incomumente detalhista nesse ponto, exigindo o registro da ventilação em todos os detalhes antes de iniciar o procedimento.

Como pegar a tempo: Anote antes de furar, não depois: dispositivo, fluxo em litros por minuto e hora exata; em ventilação mecânica, também fração inspirada de oxigênio, modo, volume corrente e pressão positiva ao final da expiração. Acrescente o que houve de anormal na coleta — punção difícil, mais de uma tentativa, sangue lento, paciente que chorou ou prendeu a respiração —, porque é isso que permite ao próximo leitor decidir se acredita no número.

Pôr a seringa plástica no gelo, ou deixá-la esperando alguém que passe

O dano: São dois erros com o mesmo desfecho, um número que não é do paciente. Deixar a amostra esperando permite que a respiração da própria amostra desloque os gases: à temperatura ambiente, gás carbônico sobe cerca de 1 mmHg por hora, oxigênio cai cerca de 2 mmHg por hora e o pH cai 0,02 a 0,03 unidade por hora — e muito mais rápido em paciente com leucocitose ou plaquetose altas, o que produz uma hipoxemia que existe só dentro da seringa. Resfriar parecia a solução, e continua sendo na seringa de vidro; na plástica, que é o material de hoje, é a solução errada: o plástico das seringas de coleta é parcialmente permeável a gases, e a troca de gases com o ambiente pode alterar o resultado durante o armazenamento, de modo que a pressão de oxigênio é puxada para a do ar ambiente, perto de 150 mmHg, e sobe falsamente sempre que a verdadeira estiver abaixo disso.

Como pegar a tempo: Envie imediatamente, em temperatura ambiente, com a seringa tampada e homogeneizada. Para a seringa plástica, o prazo pré-analítico em vigor é de 15 minutos quando a pressão de oxigênio ou a saturação importam e de 30 minutos nos demais casos. Quando o laboratório é longe, o que resolve é combinar transporte antes de colher — não resfriar. Vale saber que tanto a diretriz da Organização Mundial da Saúde quanto a régua brasileira ainda orientam gelo ou refrigeração, sem dizer o material da seringa, e que as duas orientações vêm da época da seringa de vidro, para a qual o resfriamento continua certo: em vidro, gelo e análise em até 1 hora.

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O que dizer ao paciente e à família

Punção arterial é um dos poucos procedimentos em que o que se diz antes muda o resultado do exame, e não só o conforto do paciente: quem entende o que vem prende menos a respiração, cerra menos o punho e chora menos, e as três coisas alteram a gasometria. As falas abaixo são as sete conversas que este procedimento produz numa enfermaria.

Explicando o procedimento a um paciente acordado

"Dona Marcondina, eu preciso colher um exame de sangue diferente do de sempre. Em vez de tirar da veia do braço, vou tirar da artéria aqui do punho, porque é o único jeito de saber se o gás carbônico está subindo no seu sangue — e é isso que decide se a gente aumenta o suporte agora ou não. Vou avisar antes de furar. Dói mais que a picada comum, é uma dor curta, e depois eu vou precisar apertar o local por uns três minutos, com o relógio na mão. A senhora pode ficar deitada, com o braço apoiado aqui, e respirar normal. O importante é não prender a respiração — se prender, o exame muda."

Não diga: Evite 'é rapidinho' e 'quase não dói'. Punção arterial dói mais que a venosa, e o paciente vai descobrir isso três segundos depois de você dizer o contrário — o que custa a confiança dele para a próxima coleta, que provavelmente também será sua. Evite também explicar sem dizer o que o exame decide: 'é um exame de rotina' é a frase que transforma um procedimento doloroso em capricho.

Convertendo um pedido de gasometria arterial em venosa, com quem pediu

"Tito, sobre o seu Baldomero do leito 9: a pergunta ali é se ele está acidótico e quanto, e isso o pH e o bicarbonato venosos respondem. Colhi a venosa junto com o resto do laboratório: pH 7,12, bicarbonato 8, ânion gap aberto. Deixei anotado no prontuário que a indicação era metabólica e por que não fiz a arterial. Se em algum momento a pergunta virar ventilatória — se ele rebaixar, se o esforço mudar —, aí eu colho a arterial e comparo. Você concorda com isso ou está enxergando alguma coisa que eu não vi?"

Não diga: Evite cancelar sem avisar, e evite avisar sem o número. 'Achei que não precisava' é uma opinião; 'a venosa mostrou pH 7,12 e bicarbonato 8' é um fato que já respondeu a pergunta de quem pediu. Evite também transformar a conversa em correção do colega — a folha pode ter sido preenchida por hábito da casa, e o que interessa é o paciente, não o autor do pedido.

Quando a enfermagem diz que não pode puncionar

"Gervasia, entendi. A punção arterial é privativa do enfermeiro dentro da equipe de enfermagem, pela resolução do Conselho Federal de 2022 — a técnica não faz mesmo, e ela está certa em ter me chamado. Eu colho essa e a gente combina o seguinte para as próximas: quando o pedido for arterial, ou vem para você ou vem para o médico do plantão, e a técnica não fica tentando. Se você tiver o aparelho de ultrassom disponível, a mesma resolução autoriza você a usá-lo para localizar a artéria."

Não diga: Evite tratar a recusa como falta de disposição. Evite, também, pedir à técnica de enfermagem que 'tente uma vez' — além de ser fora da competência dela, é o caminho por onde nasce a série de punções malsucedidas que estraga os dois punhos do paciente antes de alguém habilitado chegar.

Depois de duas tentativas sem sucesso, avisando o paciente

"Seu Saul, eu tentei duas vezes e não consegui. Vou parar por aqui e chamar alguém com mais prática, porque continuar tentando machuca o senhor e ainda por cima estraga o exame. Vou apertar o local por uns minutos, e o outro colega vem em seguida. Não é o senhor que está difícil — é o vaso que está fino e a mão está fria; isso acontece."

Não diga: Evite continuar tentando enquanto pede desculpas. Evite também transferir a explicação para o paciente ('a sua veia é ruim'), que não é verdade e ainda deixa o paciente com a impressão de que será sempre assim. O limite de tentativas existe porque quem está no meio do procedimento é a pessoa menos capaz de decidir parar.

Explicando um hematoma ao paciente e à família

"Esse roxo no punho é do exame de ontem. É sangue que escapou por fora da artéria no momento da picada e ficou embaixo da pele. Ele vai mudar de cor e escorrer um pouco pelo antebraço nos próximos dias, o que assusta mas é o normal do processo, e some em uma a duas semanas. O que eu preciso que vocês me chamem é se a mão ficar fria, se ficar pálida, se formigar, ou se o inchaço aumentar de um dia para o outro. Isso não está acontecendo agora: o pulso está bom e a mão está quente."

Não diga: Evite minimizar sem examinar — o hematoma é quase sempre banal, mas quem responde isso é o pulso distal e a temperatura da mão, não a estatística. Evite também explicar sem dizer o que vigiar: a família que sabe o que chamar é a melhor monitorização que aquele punho vai ter até a próxima visita.

Pedindo uma recoleta porque a amostra veio ruim

"Essa gasometria não fecha com a paciente: ela está com esforço, e o exame mostra alcalose respiratória com um oxigênio alto demais para o cateter a 2 litros. A amostra ficou meia hora na bancada e tinha bolha na seringa — as duas coisas empurram justamente nessa direção. Vou recolher agora, expulsando a bolha na hora e mandando direto, e anotar no pedido que é recoleta por suspeita de artefato pré-analítico. Antes de mudar o oxigênio dela, prefiro o segundo número."

Não diga: Evite recolher sem dizer por quê: sem a anotação, o laboratório e o próximo plantonista veem duas gasometrias diferentes do mesmo paciente e não sabem em qual acreditar. Evite também transformar a recoleta em acusação de quem colheu a primeira — o que se descreve é o artefato, não a pessoa.

Recusando a gasometria de controle diária

"Dona Pedrolina está no quarto dia, saturando 96% em ar ambiente, sentada, comendo. Não tenho pergunta em aberto que essa gasometria responda: nenhum resultado dela mudaria a prescrição de hoje. Deixei registrado no prontuário que a indicação foi revista e que o exame não foi colhido, com o motivo. Se ela dessaturar, se o esforço mudar, ou se a gente precisar decidir alta com oxigênio, aí eu colho na hora."

Não diga: Evite justificar a recusa pelo custo ou pela falta de tempo da equipe — o argumento que sustenta é clínico, e é o único que ninguém rebate. Evite também deixar de registrar: exame pedido e não realizado sem anotação vira, no dia seguinte, 'a gasometria não foi colhida', que é uma frase muito pior do que a verdadeira.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Fazer ou não o teste de Allen modificado antes de puncionar a artéria radial

Faz parte do procedimento e um resultado anormal proíbe a punção daquela mão — Organização Mundial da Saúde, 2010

A diretriz insere o teste como passo do procedimento de coleta arterial e dedica um anexo à sua execução: comprimem-se as duas artérias do punho, a mão é aberta e fechada até a palma empalidecer, libera-se apenas a artéria ulnar e observa-se a reperfusão. Reperfusão em 5 a 15 segundos é considerada resultado normal; ausência de reperfusão nessa janela indica circulação ulnar insuficiente ou inexistente, e a diretriz orienta que, nessa situação, a artéria radial daquela mão não seja puncionada. É o único dos documentos abertos por este capítulo que descreve a manobra.

WHO guidelines on drawing blood: best practices in phlebotomy, 2010, capítulo 5 e anexo I

Não há evidência que sustente o uso sistemático — revisão sistemática com metanálise, 2017

A revisão reuniu 14 artigos. A partir de três estudos de desenho comparável, com ultrassonografia doppler como padrão de referência, os autores calcularam sensibilidade de 77% e especificidade de 93% para detectar deficiência de circulação colateral. Nos quatro estudos que avaliaram capacidade preditiva, nenhum evento isquêmico da mão após punção arterial ocorreu entre os pacientes com teste anormal. A concordância entre observadores, medida em um único estudo, foi de 71,5%. A conclusão dos autores é que o teste não tem validade diagnóstica suficiente como rastreio, não é bom preditor de isquemia da mão após punção arterial, tem confiabilidade limitada, e que não há evidência suficiente para sustentar seu uso sistemático antes da punção.

Romeu-Bordas Ó, Ballesteros-Peña S. Emergencias. 2017;29(2):126-135

Não menciona o teste e substitui a pergunta por uma contraindicação clínica — AMIB e SBPT, 2023

A régua nacional do gesto descreve o procedimento passo a passo — reparo anatômico, ângulo, volume, compressão, cuidados com a amostra — e não cita o teste de Allen em nenhum ponto do documento. No lugar dele, coloca uma contraindicação formulada por conteúdo clínico: evitar a coleta em situação de risco de isquemia tecidual no território irrigado pela artéria a ser puncionada. A Resolução COFEN nº 703/2022, que regula quem executa o procedimento no Brasil, também não menciona o teste.

Orientações Práticas de Ventilação Mecânica (AMIB/SBPT), Tema 8, item A

Como decidir

Examine perfusão, pele, pulso e condições dos dois membros antes de escolher o sítio. Sinais de isquemia exigem outra estratégia com a equipe. Se o serviço padroniza Allen, execute e descreva a reperfusão observada; um resultado normal não garante ausência de complicação, e um resultado anormal pede reavaliação do acesso.

Quanto tempo comprimir o sítio depois da punção

Dois a três minutos no adulto, cinco a dez com fator de risco de sangramento — AMIB e SBPT, 2023, reproduzindo a Organização Mundial da Saúde, 2010

A régua nacional do gesto orienta comprimir o local da punção por dois a três minutos, e acrescenta que pacientes com hipertensão arterial sistêmica ou problemas de coagulação podem necessitar de mais tempo, de cinco a dez minutos. Os números são idênticos aos da diretriz internacional que ela cita como referência para este item, que manda verificar se o sangramento parou após dois a três minutos e prevê cinco minutos ou mais para quem tem pressão alta, distúrbio de sangramento ou usa anticoagulante. A tradução, portanto, é fiel à fonte.

Orientações Práticas de Ventilação Mecânica (AMIB/SBPT), Tema 8, item A; e WHO guidelines on drawing blood, 2010, capítulo 5

Cinco minutos a cada punção — Ministério da Saúde, 2014, no recém-nascido

O guia federal, ao descrever a punção das artérias radial e braquial no recém-nascido, condiciona a reutilização da mesma artéria para coletas frequentes a que ela seja sempre comprimida por cinco minutos após cada punção, com a finalidade explícita de evitar a formação de hematoma perivascular. Não há faixa nem exceção: o número é único e é o dobro do piso do adulto, para um vaso muito menor e num paciente que não colabora com a compressão.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido, volume 2, 2. ed. atual., 2014, item 10.3.3.1

Como decidir

Comprima e confira a hemostasia. Considere hipertensão, coagulopatia, plaquetopenia, antitrombóticos e tentativas repetidas ao planejar o tempo, com atenção ao protocolo da população atendida. Use relógio e reexamine sítio e perfusão; o término de um intervalo não autoriza sair se o local ainda sangra.

Resfriar a amostra que não vai ser analisada de imediato

Resfriar — gelo picado no transporte, ou refrigeração a 8 °C por até 60 minutos, sem dizer o material da seringa

A diretriz internacional lista, entre o material do procedimento, um recipiente com gelo picado para transporte da amostra ao laboratório quando a análise não for feita no ponto de coleta, e instrui colocar a seringa nesse recipiente após ativar o dispositivo de segurança da agulha. A régua nacional do gesto orienta que a amostra seja identificada e analisada logo após a coleta e que, não sendo possível, seja mantida refrigerada a 8 °C por não mais de 60 minutos. A justificativa das duas orientações é a mesma: frear o metabolismo da própria amostra, que continua consumindo oxigênio e produzindo gás carbônico dentro da seringa.

WHO guidelines on drawing blood, 2010, capítulo 5; e Orientações Práticas de Ventilação Mecânica (AMIB/SBPT), Tema 8, item A

Não resfriar seringa plástica; transportar em temperatura ambiente e analisar em 15 ou 30 minutos

A revisão pré-analítica registra que as seringas plásticas de coleta são parcialmente permeáveis a gases e que essa permeabilidade aumenta em temperatura baixa — a hipótese descrita é uma contração das moléculas do polímero que alarga poros de escala atômica o suficiente para o oxigênio atravessar, mas não o gás carbônico, o que explica por que a pressão de gás carbônico praticamente não se altera em amostra plástica resfriada enquanto a de oxigênio se aproxima da do ar ambiente, perto de 150 mmHg, subindo ou caindo conforme o valor de partida. Por isso a prática de manter a seringa no gelo, herdada da seringa de vidro, deixou de ser recomendada para o plástico, e a recomendação citada é manter o transporte mínimo e analisar amostras em seringa plástica transportadas em temperatura ambiente dentro de 15 minutos quando se deseja pressão de oxigênio ou saturação, e de 30 minutos nos demais casos.

Baird G. Preanalytical considerations in blood gas analysis. Biochem Med (Zagreb). 2013;23(1):19-27

Como decidir

Confira o material da seringa e a orientação do laboratório antes da coleta. Para o plástico, o percurso descrito prioriza temperatura ambiente e análise rápida, em 15 minutos quando se avalia oxigenação ou 30 nos demais casos. Não aplique automaticamente ao plástico a orientação de gelo para vidro. Registre hora e condições de transporte; resultado incompatível exige revisar a amostra.

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O raciocínio, em voz alta

Seis e cinquenta da manhã, enfermaria de clínica médica. As três folhas continuam na bancada. Leito 4: Marcondina Currais, 71 anos, 54 quilos, doença pulmonar obstrutiva crônica, saturação 88% em cateter nasal a 2 litros por minuto, frases curtas, uso de musculatura acessória, sonolenta desde as cinco. Leito 9: Baldomero Surubim, 58 anos, 82 quilos, diabético, desidratado, glicemia capilar acima da leitura da fita, cetonúria de três cruzes, acordado e orientado. Leito 12: Pedrolina Coribe, 66 anos, quarto dia de pneumonia, saturação 96% em ar ambiente, sentada na poltrona, tomando café. A enfermeira Gervasia Piquiri está esperando resposta às três, e o residente Tito Araripe volta às oito. Você tem uma hora e dez.

  1. 1 · Separar as três perguntas antes de reunir material

    Marcondina tem pergunta ventilatória: ela rebaixou sob oxigênio, e o que decide entre manter o cateter e iniciar ventilação não invasiva é o par pH e pressão de gás carbônico, que o oxímetro não dá. Arterial, e agora. Baldomero tem pergunta metabólica pura: quanto ele está acidótico e qual o bicarbonato. Isso a veia responde, e responde junto com o resto do laboratório que já vai ser colhido. Pedrolina não tem pergunta: nenhum número mudaria a prescrição dela hoje. Três folhas, três destinos, e a triagem custou dois minutos.

  2. 2 · Resolver o leito 9 sem furar artéria

    Você pede à Gervasia que colha, na mesma punção venosa do laboratório de Baldomero, uma amostra para gasometria venosa, e escreve no prontuário: pergunta metabólica, cetoacidose diabética suspeita, colhida gasometria venosa em vez de arterial, sem indicação de amostra arterial no momento. O resultado volta em quarenta minutos: pH 7,12, bicarbonato 8 mEq/L, ânion gap aberto. A pergunta está respondida e o punho dele está intacto. A leitura acidobásica e o cálculo do ânion gap são do capítulo 'Gasometria arterial', na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; a condução da cetoacidose é do capítulo próprio, na apostila de Endocrinologia.

  3. 3 · Resolver o leito 12 sem colher nada

    Você examina Pedrolina, confirma o que a folha do plantão dizia, e escreve: gasometria de controle solicitada, indicação revista, paciente eupneica, saturação 96% em ar ambiente, sem pergunta clínica em aberto; exame não realizado. Depois avisa a Gervasia para não separar material do leito 12 e deixa combinado que, se houver dessaturação, aumento de esforço ou discussão de alta com oxigênio, você colhe na hora. É o registro, e não o cancelamento, que sustenta a decisão às oito, quando Tito voltar.

  4. 4 · O inventário dos dois braços de Marcondina

    Você descobre os dois membros superiores dela. Direito: acesso venoso periférico no dorso da mão, em uso, com hidratação correndo. Esquerdo: livre, sem cicatriz, sem curativo, pele íntegra. Palpa os dois pulsos radiais — o esquerdo é mais amplo. Pergunta se algum braço dói, e ela balança a cabeça. Escolhe o esquerdo. Antes de furar, anota no pedido: cateter nasal a 2 litros por minuto, frequência respiratória 26, hora 07h05, paciente sonolenta e responsiva ao chamado.

  5. 5 · A punção

    Você senta à beira do leito, na altura do punho dela. Põe uma toalha enrolada sob o punho esquerdo, com a palma para cima e o punho em extensão moderada. Palpa o processo estiloide do rádio, desliza medialmente até o tendão flexor radial do carpo e encontra o sulco. Faz a antissepsia com clorexidina alcoólica, trinta segundos em vaivém, e espera secar — a espera custa vinte segundos e é onde a pressa mora. Explica que vai furar. Segura a seringa como um dardo, com a agulha apontada para o cotovelo, e entra a 40 graus logo abaixo dos dedos que palpam. Na segunda tentativa, com a agulha recuada até logo abaixo da pele e o trajeto corrigido, a seringa enche sozinha com sangue vermelho vivo e pulsátil. Você não puxa o êmbolo. Colhe 1,5 mL.

  6. 6 · Compressão e cuidado da amostra, ao mesmo tempo

    Marcondina não usa anticoagulante nem antiagregante, e a pressão dela está controlada — mas foram duas tentativas no mesmo ponto, e você comprime cinco minutos, com o relógio na mesa. Com a mão livre, expulsa a bolha da seringa, sem puxar o êmbolo; tampa; rola a seringa entre as mãos. Identifica com nome, setor e hora. Não põe no gelo: a seringa é plástica, e o resfriamento de seringa plástica não é uma solução universal para o atraso e pode alterar os gases medidos. Chama a maqueira, que já estava avisada, e a amostra sai do leito com onze minutos de vida.

  7. 7 · O resultado, e a decisão que ele governa

    07h34: pH 7,26; pressão de gás carbônico 68 mmHg; bicarbonato 30 mEq/L; excesso de bases +2,4; pressão de oxigênio 54 mmHg; saturação 87%; anotado cateter nasal a 2 litros por minuto. Acidose respiratória com pH abaixo de 7,35 e retenção de gás carbônico em paciente com rebaixamento. Isso é indicação de ventilação não invasiva com dois níveis de pressão, e é indicação agora, antes da gasometria de controle — a condução da exacerbação da doença pulmonar obstrutiva é do capítulo 'Duas doenças com a mesma sigla', na apostila de Pneumologia, que é dono dela. Você aciona a fisioterapia, comunica o plantão e registra o horário.

  8. 8 · Voltar ao punho, e escrever o que aconteceu

    Dez minutos depois de soltar a compressão você volta ao leito 4: ponto seco, sem hematoma, pulso radial esquerdo palpável, mão quente, sem parestesia. Registra isso em uma linha. Registra também as duas tentativas e que a segunda foi bem-sucedida, porque quem colher a próxima gasometria dela precisa saber que aquele ponto foi puncionado duas vezes hoje e deve alternar de lado. Às oito, quando Tito volta, as três folhas estão resolvidas, duas delas sem que ninguém tenha furado uma artéria, e há uma paciente em ventilação não invasiva que às sete estava sonolenta com cateter nasal.

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Faça você

Nove e trinta da mesma manhã. Chega da emergência, para a enfermaria, Deodata Piranhas, 79 anos, 58 quilos. Fibrilação atrial em uso de varfarina há seis anos, doença renal crônica em hemodiálise há quatro, três sessões por semana, com fístula arteriovenosa funcionante no antebraço esquerdo. Entrou por pneumonia: febre de 38,4 °C, tosse produtiva, frequência respiratória 30, saturação 89% em ar ambiente e 93% em cateter nasal a 3 litros por minuto, lúcida mas cansada, falando em frases de cinco palavras. O braço direito está edemaciado até o cotovelo, com pulso radial de difícil palpação; o esquerdo tem a fístula, com frêmito palpável. A relação normatizada internacional colhida na emergência é 3,4. O plantonista deixou escrito: 'gasometria arterial urgente'. A enfermeira Gervasia te chama: a técnica não punciona artéria, e a enfermeira do setor está numa intercorrência no leito 15. O laboratório fica no prédio ao lado, e a maqueira passa de meia em meia hora.

  1. 1 · A pergunta

    Qual é a pergunta clínica desta gasometria, e ela exige mesmo sangue arterial? Diga qual decisão específica depende do resultado e o que aconteceria se você colhesse uma amostra venosa em vez dela.

  2. 2 · O sítio

    Os dois membros superiores têm problema. Diga, para cada um, qual é o problema e qual é a força da restrição — proibição ou dificuldade. Depois diga onde você punciona, e o que você faz antes de encostar a agulha para tornar o sítio escolhido viável.

  3. 3 · A varfarina

    Relação normatizada internacional de 3,4. Isso contraindica a punção? Diga o que muda na sua conduta por causa dela, com número, e diga qual documento brasileiro fixa o corte que autorizaria ou proibiria este procedimento.

  4. 4 · O caminho da amostra

    A maqueira passa de meia em meia hora e o laboratório é no prédio ao lado. Diga o que você faz com a seringa entre a coleta e a análise, e por quê. Diga também três informações que precisam ir escritas no pedido antes de você furar.

  5. 5 · Duas tentativas

    Você tentou duas vezes no sítio escolhido e não veio sangue. Diga exatamente o que você fez entre a primeira e a segunda tentativa, o que você faz agora, e o que diz à paciente.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Compare os pedidos de Marcondina e Baldomero: a decisão sobre colher artéria deve acompanhar a pergunta e a gravidade, e o resultado só faz sentido com a oferta de oxigênio registrada.

  7. Questão integrativa 1

    Por que Baldomero pode inicialmente ter gasometria venosa?

  8. Questão integrativa 2

    A PO2 venosa substitui a PaO2?

  9. Questão integrativa 3

    O que anotar além do horário e nome?

  10. Questão integrativa 4

    Uma pequena amostra com excesso de heparina líquida pode enganar?

  11. Questão integrativa 5

    Pode cessar compressão após três minutos se ainda sangra?

  12. Questão integrativa 6

    Resultado incompatível com o paciente deve ser tratado imediatamente como doença nova?

Ver como fecharíamos

1 · A pergunta. Deodata tem frequência respiratória de 30, fala em frases curtas e precisa de oxigênio para manter 93%. A pergunta é ventilatória e de oxigenação ao mesmo tempo: ela está retendo gás carbônico a ponto de exigir suporte, e qual é a pressão de oxigênio dela sob cateter a 3 litros por minuto. Nenhuma das duas tem resposta venosa — a pressão de oxigênio venosa reflete o que o tecido consumiu, não o que o pulmão entregou, e o par pH e gás carbônico é o que decide ventilação não invasiva. Aqui a arterial é necessária, e a diferença em relação ao caso do leito 9 da manhã é exatamente essa: lá a pergunta era metabólica e a veia bastava. 2 · O sítio. Esquerdo: fístula arteriovenosa funcionante. É proibição, não dificuldade — aquele braço é o acesso vascular do qual ela depende três vezes por semana, e nele não se punciona veia nem artéria, não se afere pressão e não se garrota. A proibição está dita no capítulo 'Acesso venoso periférico', primeiro desta apostila, e vale igualmente para a punção arterial. Direito: edema até o cotovelo com pulso de difícil palpação. É dificuldade, não proibição — o vaso está no lugar de sempre, apenas mais fundo. Punciona-se o direito. Antes de encostar a agulha: comprima o edema com o polegar sobre o trajeto por alguns segundos, deslocando o líquido, o que costuma devolver a pulsação; e trabalhe pelo reparo anatômico, não pelo pulso — processo estiloide do rádio, depois tendão flexor radial do carpo, e o sulco entre os dois, que continua palpável quando o pulso não está. Se houver doppler vascular portátil ou ultrassom à beira do leito, use: a régua nacional do gesto prevê o doppler exatamente para a radial difícil por edema, e a Resolução COFEN nº 703/2022 autoriza o enfermeiro a usar ultrassonografia para o procedimento. 3 · A varfarina. Não contraindica. A régua nacional do gesto diz que, sendo absolutamente necessária, a coleta pode ser feita com cuidado em coagulopatia, plaquetopenia e uso de anticoagulante — e aqui ela é necessária, porque a resposta muda o suporte nos próximos minutos. O que muda é o tempo de compressão: de dois a três minutos passa a cinco a dez, marcados no relógio, e o sítio é reexaminado dez minutos depois de soltar. A magnitude do risco adicional é conhecida: na maior série publicada, 0,17% de complicações maiores em quem usava antitrombótico contra 0,14% em quem não usava, o que dá três casos a mais por dez mil punções — cerca de 3.333 punções a mais para uma complicação adicional. Sobre o corte: não existe documento brasileiro que fixe relação normatizada internacional ou contagem de plaquetas para punção arterial. O quadro nacional que fixa contagem por procedimento — discutido no capítulo 'Coagulograma', na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono do assunto — lista seis procedimentos, das cirurgias à punção lombar, e a punção arterial não é um deles. A conduta honesta é escolher o procedimento análogo mais próximo em risco e registrar no prontuário qual analogia foi usada. 4 · O caminho da amostra. A seringa é plástica. Ela não vai para o gelo: o plástico é parcialmente permeável a gases e a troca de gases com o ambiente pode alterar o resultado durante o armazenamento, de modo que resfriar sobe falsamente a pressão de oxigênio — justamente o número que interessa nesta paciente. Também não fica esperando a maqueira na bancada: à temperatura ambiente a amostra continua respirando, e o prazo pré-analítico em vigor é de 15 minutos quando o oxigênio importa. O que resolve é inverter a ordem — combine o transporte antes de puncionar, e colha quando houver quem leve; se a maqueira passa em dez minutos, prepare tudo e punciona quando ela estiver no corredor. Três informações no pedido, escritas antes de furar: o dispositivo de oxigênio e o fluxo (cateter nasal, 3 litros por minuto), a hora exata da coleta, e a frequência respiratória. Acrescente que houve punção difícil por edema e quantas tentativas foram feitas — é isso que permite ao próximo leitor decidir se acredita no número. 5 · Duas tentativas. Entre a primeira e a segunda, você não puxou o êmbolo e não retirou a agulha: recuou lentamente até que a ponta ficasse logo abaixo da pele, mantendo-a dentro, corrigiu a direção pelo reparo anatômico e avançou de novo — redirecionar com a agulha profunda é o que lacera o vaso e é a via mais provável de lesão do nervo mediano. Agora: pare. O punho esquerdo está proibido pela fístula, então não há troca de lado, e o limite de duas tentativas no mesmo punho foi atingido. Comprima cinco a dez minutos, porque ela está anticoagulada, e chame — a enfermeira do setor assim que ela sair da intercorrência, ou o plantonista. Não escale sozinho para braquial ou femoral: as duas são mais profundas, com circulação colateral pior e cercadas de estruturas que uma técnica malfeita alcança, e são o momento de chamar, não o passo seguinte automático do interno. À paciente: "Dona Deodata, tentei duas vezes e não consegui, e vou parar por aqui e chamar alguém com mais prática, porque continuar tentando machuca a senhora e ainda estraga o exame. Vou apertar aqui uns dez minutos, porque a senhora toma o remédio de afinar o sangue. Não é a senhora que está difícil — é o braço que está inchado." E, enquanto espera, não deixe a paciente sem conduta: oxigênio titulado por alvo e reavaliação clínica não dependem do resultado da gasometria. Questões integrativas — respostas comentadas 1. A pergunta é acidobásica na suspeita de cetoacidose e não há indicação arterial adicional no caso. Isso deve ser revisto se houver piora ou outra pergunta. 2. Não. Ela reflete também extração tecidual e não responde à oxigenação arterial. 3. Tipo de amostra e oferta de oxigênio ou ajustes ventilatórios pertinentes, além de dificuldades e intercorrências da coleta. 4. Sim. Diluição e interferências alteram resultados; preferir kit apropriado e volume indicado. 5. Não. Manter até hemostasia, prolongando conforme risco, e reavaliar hematoma e perfusão. 6. Reavalie o paciente e considere erro pré-analítico, tipo de amostra, bolhas, transporte e contexto de oxigênio; não ignorar deterioração real enquanto confere.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Antes de redirecionar, recue a ponta até posição superficial, logo abaixo da pele, e então ajuste o trajeto. Evite varrer lateralmente com a ponta profunda, pois isso aumenta o trauma tecidual. Se a tentativa falhar, limite novas manipulações e solicite ajuda conforme o protocolo. Na seringa de autoenchimento, aguarda-se o preenchimento pela pressão arterial; a conduta depende do dispositivo e de suas instruções. Aspirar não torna uma amostra automaticamente venosa, e o padrão de enchimento isolado não é prova infalível da origem. Garrote e avanço intencional até o osso não são soluções para a ausência de refluxo.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva: (1) as três perguntas clínicas que chegam com o nome de gasometria, e qual delas não exige artéria; (2) o reparo anatômico da radial, com os dois pontos que a delimitam, e por que ele funciona quando o pulso não se deixa palpar; (3) o ângulo de entrada e a regra sobre o êmbolo, nos dois momentos em que ela vale; (4) o que se faz quando não vem sangue, e quantas tentativas antes de parar; (5) os três tempos de compressão — adulto sem fator de risco, adulto com fator de risco, recém-nascido — e a lista de fatores de risco, incluindo o que a régua nacional deixa de fora ao escrever 'anticoagulantes'. Depois responda em trinta segundos: paciente com cetoacidose, punção arterial malsucedida duas vezes, laboratório a quarenta minutos — o que você colhe?

Em 30 dias

Refaça o raciocínio inteiro sobre a amostra, que é a metade deste capítulo que ninguém ensina. Para cada um dos sete artefatos — bolha de ar, heparina líquida residual, demora até a análise, leucocitose com demora, seringa plástica resfriada, amostra venosa colhida como arterial e dor com hiperventilação — diga o que ele faz com o oxigênio, com o gás carbônico e com o pH, em que direção, e como você o reconhece antes de mudar prescrição. Depois faça duas contas: quanto dilui 0,2 mL de heparina residual numa amostra de 2 mL, e o que isso faz com um bicarbonato de 24 mEq/L e com um gás carbônico de 40 mmHg. Em seguida, escreva as três divergências deste capítulo — teste de Allen, tempo de compressão e resfriamento da amostra — dizendo quem sustenta cada posição, com que data, e o que decide pelo paciente à sua frente. Por fim, liste as quatro situações que tiram um membro inteiro da lista e diga, para cada uma, qual capítulo desta apostila ou de outra é dono do assunto que você está cedendo.

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Agora atenda

Você é o interno da enfermaria às seis e quarenta, com três pedidos de gasometria arterial na bancada e uma hora até o residente voltar. Decida quem precisa de sangue arterial, quem se resolve na veia e quem não precisa de exame nenhum — e sustente cada decisão com a pergunta clínica que a governa.

Punção arterial para gasometria – O que estraga o exame não é a punção — Internato | OsceLabs