Cirurgia GeralProcedimentos e Vias de Acesso

Toracocentese

Confirmar indicação e janela segura por ultrassom, realizar sob supervisão qualificada e acompanhar sintomas durante a retirada de líquido pleural.

Fontes deste capítulo

Sales R, Onishi R. Toracocentese e biópsia pleural. In: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes na Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Doenças Pleurais. J Bras Pneumol. 2006;32(Supl 4):S170-S173. Capítulo 2.

Antonangelo L, Capelozzi VL. Coleta e preservação do líquido pleural e biópsia pleural. In: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes na Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Doenças Pleurais. J Bras Pneumol. 2006;32(Supl 4):S163-S169. Capítulo 1.

Marchi E, Lundgren F, Mussi R. Derrame pleural parapneumônico e empiema. In: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes na Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Doenças Pleurais. J Bras Pneumol. 2006;32(Supl 4):S190-S196. Capítulo 5.

Genofre E, Chibante AMS, Macedo AG. Derrame pleural de origem indeterminada. In: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes na Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Doenças Pleurais. J Bras Pneumol. 2006;32(Supl 4):S204-S210. Capítulo 7.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

01

Responda antes de ler

Homem de 64 anos, no quarto dia de uma internação por pneumonia da comunidade em base direita. Havia melhorado, mas a febre voltou ontem à noite e hoje ele está com frequência respiratória de 26 e saturação de 91% em ar ambiente, contra 96% anteontem. Refere dor em hemitórax direito que piora com a inspiração profunda. A radiografia de controle mostra velamento do terço inferior direito com apagamento da cúpula diafragmática, ausente no filme da admissão. O residente está no centro cirúrgico e a técnica de enfermagem traz o carrinho perguntando qual calibre de cateter você quer. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Quarta-feira, 15h40, enfermaria de clínica médica de dezesseis leitos. O leito 9 é do senhor Odilardo Guanaes, 64 anos, 74 quilos, operador de empilhadeira aposentado, no quarto dia de uma internação por pneumonia da comunidade. Ele entrou pelo pronto-socorro no sábado à noite com febre, tosse produtiva e uma consolidação em base direita, e nos dois primeiros dias fez o que se espera: a febre cedeu, ele voltou a comer, sentou na poltrona.

Ontem à noite a febre voltou. Hoje ele está sentado na cama, inclinado para a frente, respirando 26 vezes por minuto, com saturação de 91% em ar ambiente contra os 96% de anteontem. Diz que a tosse melhorou — o que é verdade — e que agora dói de um jeito diferente: uma fisgada no lado direito que piora quando ele respira fundo e some quando ele fica quieto. A técnica de enfermagem já anotou 38,3 graus às duas da tarde.

A radiografia de controle chegou do setor de imagem há vinte minutos. O terço inferior do hemitórax direito está velado, a cúpula diafragmática sumiu, e há uma linha côncava subindo para a axila que não estava no filme de sábado. O residente está no centro cirúrgico acompanhando uma laparotomia e mandou uma mensagem de quatro palavras: vê o 9, punciona.

A técnica de enfermagem, a Brígida, já trouxe um carrinho com um kit de curativo, luvas estéreis, um vidro de clorexidina e duas seringas. Ela pergunta se você quer o jelco 14 ou o 16. É uma pergunta razoável e vem antes de todas as outras, e é exatamente por isso que ela é a armadilha desta tarde: o material chega antes da decisão, e quem responde o calibre sem ter respondido o resto já está furando.

Porque há três perguntas antes da agulha, e elas têm ordem. A primeira é onde está o líquido e se ele é suficiente e livre — quem responde isso é o ultrassom, e não a percussão. A segunda é o que esse líquido é: transudato ou exsudato, a bifurcação que separa uma pleura que só reflete uma doença sistêmica de uma pleura que é ela mesma a doença. A terceira é se há infecção que exige um dreno hoje — e não amanhã, não na visita, não depois de mais uma dose de antibiótico.

A terceira pergunta é a que mata gente na enfermaria brasileira, e ela tem uma resposta contraintuitiva que este capítulo vai repetir de várias maneiras: derrame parapneumônico complicado não se resolve com antibiótico e agulha. Nem com o melhor antibiótico, nem com a agulha mais bem colocada, nem com três punções seguidas. Quando o líquido cruza a linha bioquímica, ele quer um tubo, e adiar esse tubo custa dias de internação, custa loja pleural, e às vezes custa uma toracotomia.

Este capítulo é sobre pôr a agulha no espaço pleural com margem de segurança, tirar a quantidade certa, mandar o líquido nos frascos certos e ler o que volta. É um procedimento que o interno faz, e faz bem, com material que existe em qualquer hospital do país. O que quase nunca se ensina é o que vem depois da agulha — e é ali que o derrame de seu Odilardo vai ser decidido.

03

Quem adoece disso

O derrame parapneumônico é a companhia mais frequente da pneumonia, e a maior parte dele passa despercebida. A literatura internacional o descreve em 25% a 44% dos casos de pneumonia adquirida na comunidade; as séries brasileiras localizadas citadas pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia encontram entre 20% e 30% dos casos internados. A diferença entre as duas faixas não é discordância: é quem se procura. Quem faz radiografia em decúbito lateral ou ultrassom de rotina acha mais.

A conta que a sociedade fez em 2006 dá a ordem de grandeza do problema no Brasil, e vale refazê-la porque ela tropeça. O texto declara aproximadamente 730 mil internações por pneumonia adquirida na comunidade em 2005, aplica a faixa de 20% a 30% e conclui entre 140 mil e 210 mil derrames parapneumônicos. Os números publicados não saem dos 730 mil: 730 mil vezes 0,20 dá 146 mil, e vezes 0,30 dá 219 mil. Eles saem de 700 mil — 700 mil vezes 0,20 é exatamente 140 mil, e vezes 0,30 é exatamente 210 mil. A estimativa foi calculada sobre um denominador arredondado uma linha depois de o denominador verdadeiro ter sido escrito.

A diferença é de 4,1% em cada extremo, e não muda conduta nenhuma à beira do leito. Mas ela ensina uma disciplina que este capítulo vai cobrar em decisões que mudam conduta: número publicado em documento oficial se confere com a calculadora, inclusive quando o documento é bom. E o desvio se propaga — a linha seguinte estima em 10% a fração que evolui para derrame complicado ou empiema e conclui entre 14 mil e 20 mil casos por ano. O piso fecha, 10% de 140 mil são 14 mil; o teto não, porque 10% de 210 mil são 21 mil. Refeita a cadeia inteira sem arredondamentos, de 730 mil a 30% e daí a 10%, o teto seria 21.900 — quase 9% acima do que está impresso.

O que essa aritmética descreve é uma população da ordem de dezenas de milhares de brasileiros por ano com uma coleção pleural infectada, e uma letalidade que a literatura mundial situa entre 6% e 10%. Sobre a letalidade do derrame complicado e do empiema no Brasil, o documento nacional declara que não dispomos de dados próprios e trabalha com a extrapolação mundial. Vinte anos depois, essa continua sendo a base numérica disponível em português.

E aqui está o achado que governa o capítulo inteiro. A régua brasileira para doença pleural é uma só: as Diretrizes na Abordagem Diagnóstica e Terapêutica das Doenças Pleurais, publicadas pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia como suplemento do Jornal Brasileiro de Pneumologia em 2006, em oito capítulos que cobrem coleta e preservação do líquido, toracocentese e biópsia, tuberculose pleural, derrame neoplásico, derrame parapneumônico e empiema, quilotórax, derrame de origem indeterminada e pneumotórax. É a única, e continua sendo a única.

A verificação disso não é uma impressão de leitura: o índice de consensos e diretrizes mantido pela própria sociedade, consultado em setembro de 2026, lista um documento sobre pleura, e é o de 2006. No mesmo índice, a asma foi refeita em 2020 e 2021, a pneumonia adquirida na comunidade em 2018, a tuberculose em 2021 e 2023, a função pulmonar em 2024, a hipertensão pulmonar em 2025, a ventilação mecânica em 2025 e a terminologia radiológica torácica em 2021. A pleura ficou em 2006. Vinte anos.

Isso tem consequência direta e cotidiana. A conduta britânica para doença pleural foi refeita em 2023 e mudou justamente as duas coisas que este capítulo ensina: passou a recomendar imagem guiando toda toracocentese, e reescreveu a faixa de decisão da drenagem, criando um degrau intermediário que a régua brasileira não tem. O interno brasileiro que segue à risca o único documento nacional está seguindo uma recomendação escrita antes de o ultrassom à beira do leito existir como rotina de enfermaria.

Vale dizer com todas as letras o que essa datação significa e o que não significa. Não significa que o documento de 2006 esteja errado: a anatomia do espaço intercostal não mudou, a bioquímica do líquido infectado não mudou, e boa parte do que ele diz sobre técnica é o que se faz hoje. Significa que a vigência dele se apoia principalmente em não ter havido substituto — que é o teste mais fraco de vigência que existe, e o leitor precisa saber disso antes de usar o número que vem a seguir.

Uma última nota de escala, porque ela justifica a existência deste capítulo dentro de uma apostila de procedimentos. Entre 10% e 20% de todos os derrames pleurais permanecem sem diagnóstico etiológico mesmo depois de esgotados os métodos disponíveis. Ou seja: mesmo a toracocentese perfeitamente executada, com o líquido perfeitamente distribuído nos tubos certos, deixa um em cada cinco a dez pacientes sem resposta. O procedimento não é um oráculo. Ele é o exame que decide o próximo passo, e o próximo passo quase sempre existe.

04

Por que acontece o que acontece

O espaço pleural é virtual. Entre a pleura visceral, que veste o pulmão, e a pleura parietal, que forra a caixa, existe uma película de poucos mililitros de líquido que funciona como o lubrificante entre duas superfícies que deslizam a cada respiração. Esse líquido não fica parado: é produzido continuamente por filtração a partir dos capilares da pleura parietal e reabsorvido continuamente pelos linfáticos da mesma pleura parietal, que se abrem no espaço por estômatos e drenam para os linfonodos mediastinais. Derrame não é o líquido aparecer. É a produção passar a reabsorção.

Essa distinção importa porque a capacidade de reabsorção é grande — várias vezes o fluxo basal. Um derrame só se acumula quando a produção sobe muito, quando a drenagem linfática é bloqueada, ou quando as duas coisas acontecem juntas. E são exatamente esses dois mecanismos que geram os dois tipos de líquido, e portanto as duas medicinas diferentes que saem da mesma punção.

No primeiro mecanismo, as membranas estão íntegras e o que mudou foi a pressão. Sobe a pressão hidrostática do capilar pulmonar, como na insuficiência cardíaca esquerda, ou cai a pressão oncótica do plasma, como na hipoalbuminemia da cirrose e da síndrome nefrótica, e a filtração aumenta através de uma barreira que continua seletiva. O que atravessa é ultrafiltrado: água e eletrólitos, com pouca proteína e pouca desidrogenase lática, porque a barreira ainda segura moléculas grandes. É o transudato. A pleura não está doente; ela está reportando uma doença que mora em outro lugar.

No segundo mecanismo, a barreira falhou. Inflamação, infecção, neoplasia infiltrando a superfície ou linfáticos obstruídos por tumor — em qualquer desses casos a permeabilidade capilar aumenta e a drenagem linfática cai, e o que passa para o espaço passa com as proteínas e as enzimas que a barreira íntegra retinha. É o exsudato. Aqui a pleura é a doença, ou pelo menos é o lugar onde a doença está acontecendo, e existe uma etiologia a nomear.

Por isso a divisão transudato-exsudato não é uma formalidade de laboratório: é a leitura do mecanismo, e os critérios laboratoriais são só a sombra dele. Um transudato encerra a investigação do líquido e devolve o paciente ao tratamento da doença de base. Um exsudato abre uma investigação inteira — infecção, tuberculose, neoplasia, embolia, doença do colágeno, medicamento — e é a razão pela qual a mesma punção precisa render amostra para vários laboratórios de uma vez.

Dentro dos exsudatos, o parapneumônico tem uma bioquímica própria e ela conta uma história cronológica. No começo o derrame é reacional: líquido claro, pouca célula, sem bactéria, com glicose e pH normais. Se a infecção avança para dentro do espaço, bactérias e neutrófilos passam a consumir glicose e a produzir dióxido de carbono e lactato ali dentro. A glicose cai e o pH cai pelo mesmo motivo e ao mesmo tempo — é por isso que a glicose pode substituir o pH quando não há gasômetro disponível, e não porque sejam duas medidas independentes que por acaso concordam. A desidrogenase lática sobe junto, marcando a lise celular.

A pleura inflamada acelera a própria queda: espessada e coberta de fibrina, ela exporta mal os ácidos que se acumulam, e o pH desaba mais rápido do que a produção sozinha explicaria. Ao mesmo tempo a superfície inflamada muda de fenótipo e passa a depositar fibrina e a inibir a fibrinólise local. Pontes de fibrina atravessam o espaço e o dividem em lojas. A partir daí, três coisas deixam de funcionar: o antibiótico não penetra bem nas coleções separadas, o líquido não escorre para o ponto mais baixo, e uma agulha só alcança a loja em que ela entrou. É o sentido literal da frase de que antibiótico e agulha não resolvem — não é uma opinião sobre agressividade terapêutica, é geometria e reologia.

Duas anatomias fecham o mecanismo, e as duas viram regra de mão. A primeira é o feixe vásculo-nervoso intercostal, que corre alojado no sulco da borda inferior de cada costela, protegido por ela como por uma calha. Uma agulha que raspa a borda inferior da costela de cima entra no sulco; uma agulha que raspa a borda superior da costela de baixo passa pelo meio do espaço, longe da calha. Daí a regra de sempre puncionar pela borda superior do arco costal inferior. A segunda anatomia é o diafragma, que na expiração sobe muito mais do que o iniciante imagina e carrega fígado e baço junto — puncionar baixo demais não atinge pleura, atinge víscera. E a terceira consequência do mecanismo é a razão do teto de volume: um pulmão colapsado há tempo, reexpandido depressa contra pressão negativa, sofre um insulto de permeabilidade e de estresse hidrostático que se chama edema de reexpansão.

Corte localizado de duas costelas com feixe neurovascular sob a superior e agulha acima da inferior, terminando no líquido pleural.
A abordagem acima da costela inferior reduz a exposição ao feixe principal que acompanha a borda inferior da costela superior. Isso não elimina risco vascular: há variações e ramos colaterais. O sítio e a profundidade devem ser definidos com avaliação ultrassonográfica apropriada.
05

Como se apresenta de verdade

O derrame pleural não tem quadro clínico próprio: ele empresta o quadro de quem o produziu e acrescenta dois sinais seus, a dispneia por volume e a dor pleurítica por inflamação da pleura parietal. O que o interno precisa reconhecer, então, não é uma doença — é uma situação, e são poucas as situações em que ela aparece na enfermaria. As seções abaixo descrevem o que se acha no exame, os cenários em que o derrame chega às suas mãos, e os casos em que a resposta certa hoje é não puncionar.

O que o derrame faz no exame físico

São três achados e eles caminham juntos, todos na base e subindo até o nível do líquido: murmúrio vesicular reduzido ou abolido, frêmito tóraco-vocal reduzido, e som maciço à percussão. O documento brasileiro acrescenta a egofonia, aquele timbre anasalado e caprino da voz transmitida na faixa logo acima do derrame, onde o pulmão está comprimido mas ainda aerado.

A combinação vale mais do que cada peça. Consolidação também dá macicez e também reduz o murmúrio, mas o frêmito aumenta, porque tecido consolidado transmite som melhor que tecido aerado; líquido interposto entre pulmão e parede afasta e amortece, e o frêmito cai. Pneumotórax dá o oposto na percussão, hipertimpanismo, com o murmúrio igualmente abolido. Quem palpa o frêmito antes de percutir já separou as três situações mais comuns na beira do leito antes de qualquer exame.

Há um sinal de volume que não se mede com estetoscópio: onde está a traqueia. Um hemitórax opaco com traqueia desviada para o lado contrário é derrame volumoso empurrando o mediastino; opaco com traqueia desviada para o mesmo lado é atelectasia puxando. A distinção é a mesma que a Radiografia de tórax ensina no filme, e ela existe antes do filme, no pescoço do paciente.

O que o exame físico não faz é decidir se há líquido suficiente e livre para puncionar com segurança. Ele mapeia, e mapeia bem: diz qual hemitório, diz até que altura, e portanto sugere o quadrante. A partir daí quem responde é a imagem, e o capítulo volta a isso na investigação.

Os quatro derrames que chegam ao interno

O primeiro é o de seu Odilardo: a pneumonia que ia bem e parou de ir. É o cenário de maior risco e o de maior urgência de análise, porque é o único em que o líquido pode estar infectado e o relógio da fibrina está correndo. Ele é a razão principal de a toracocentese ser um procedimento de enfermaria e não de ambulatório de pneumologia.

O segundo é o derrame da insuficiência cardíaca descompensada, quase sempre bilateral, muitas vezes assimétrico e maior à direita, num paciente cuja doença já tem nome e cujo tratamento já está em curso. Ele é a razão principal de existir uma decisão de não puncionar. A escolha entre esperar a resposta diurética e puncionar pertence ao capítulo de Insuficiência cardíaca aguda descompensada; o que este capítulo garante é que, se a punção acontecer, o líquido seja lido direito — inclusive a armadilha do paciente cronicamente diurético, que aparece adiante.

O terceiro é o derrame novo num paciente sem contexto que o explique: unilateral, sem pneumonia declarada, sem insuficiência cardíaca conhecida, às vezes achado numa radiografia pedida por outro motivo. Esse é o derrame que sempre se punciona, porque o único jeito de saber o que é passa pela agulha, e porque a lista do que ele pode ser inclui neoplasia, tuberculose e embolia pulmonar.

O quarto é o derrame que sufoca: volumoso, com o paciente sentado, taquipneico, incapaz de deitar. Nele a toracocentese muda de natureza — deixa de ser um exame e vira um tratamento, e a pergunta principal passa a ser quanto tirar e com que velocidade. É a toracocentese de alívio, e ela tem um teto que a diagnóstica não precisa respeitar porque nunca chega perto dele.

De quem é o derrame que vai complicar

Nem todo derrame parapneumônico corre o mesmo risco de virar complicado, e a régua nacional nomeia quem corre mais. O que determina a evolução é a combinação entre a virulência do agente e a defesa do paciente, e as complicações concentram-se nos extremos de faixa etária — crianças e idosos. Sobre essa base, o documento lista fatores de risco conhecidos: diabetes melito, alcoolismo, má conservação dentária, refluxo gastresofágico, artrite reumatoide, doenças pulmonares crônicas e uso de drogas ilícitas por via intravenosa.

Essa lista não é decorativa: ela muda o limiar do interno. Diante de dois derrames de mesmo tamanho e mesma cara na radiografia, aquele que está num diabético de 74 anos com dentição em mau estado merece punção mais cedo e leitura mais atenta do resultado do que o de um adulto jovem hígido. E dois itens da lista apontam para anaeróbios — má conservação dentária e suspeita de aspiração —, o que o documento sinaliza expressamente como situação em que a cobertura precisa contemplar esses germes. A escolha do esquema continua sendo do capítulo O antibiótico que ninguém para; o que este capítulo entrega é o gatilho para levantar a hipótese.

Vale também guardar de onde vem o empiema, porque a pneumonia é a origem mais comum e está longe de ser a única. O documento nacional lista, além da condição pós-pneumônica comunitária ou hospitalar, o pós-operatório, a iatrogenia, o empiema secundário a trauma torácico e a obstrução brônquica por neoplasia central ou por corpo estranho. Um empiema sem pneumonia que o explique é um achado que pede explicação — e a explicação pode ser um tumor obstruindo um brônquio.

No derrame associado à pneumonia, acompanhar febre, dor, oxigenação, esforço respiratório e imagem desde o começo. Piora ou suspeita de infecção pleural pode exigir investigação e controle de foco a qualquer momento. A reavaliação por falta de resposta após alguns dias não é uma ordem para esperar até lá.

A dor que aparece e a dor que some

A dor pleurítica é ponta de faca, bem localizada, piora com inspiração profunda e com tosse, e melhora com imobilidade. Ela vem da pleura parietal, que é a inervada; a visceral não dói. Isso explica uma sequência que confunde quem não a conhece: no parapneumônico, a dor costuma aparecer quando a inflamação chega à pleura e diminuir quando o volume de líquido cresce e afasta as duas superfícies, trocando a dor pela falta de ar.

Ou seja, o paciente que dizia que doía e agora diz que não dói mais, mas está mais cansado, não melhorou. Ele trocou de sintoma porque o derrame cresceu. Essa é uma das poucas frases deste capítulo que muda a interpretação de uma evolução escrita à mão no prontuário, e vale escrevê-la assim, com o par completo: dor pleurítica que cede acompanhada de dispneia que aumenta é derrame que cresceu, não pneumonia que resolveu.

Dor irradiada para o ombro do mesmo lado indica pleura diafragmática, pelo nervo frênico. Não muda a conduta imediata, mas explica ao paciente por que dói no ombro sem que haja nada no ombro, e evita o pedido de radiografia de ombro que às vezes aparece nesses casos.

Reavaliar desde o início e reconhecer infecção pleural

Infecção pleural não tem dia obrigatório para começar. Pode estar presente na admissão, complicar a evolução de pneumonia ou ocorrer sem pneumonia reconhecida. Febre persistente ou recorrente, dor pleurítica, derrame e piora respiratória exigem nova avaliação.

A falta de resposta ao antibiótico em 48 a 72 horas é um motivo de reavaliação, entre outros. Hipoxemia, instabilidade ou piora antes disso antecipam a investigação; não se espera completar um intervalo para reconhecer gravidade.

Confirmar o derrame e a possibilidade de acesso com ultrassom, colher líquido quando indicado e integrar pH, pus, cultura e demais achados. A decisão entre observação, toracocentese e drenagem depende do conjunto e da equipe; antibiótico isolado não substitui drenagem de coleção infectada que a exija.

Quando o derrame já está diagnosticado e classificado como não complicado, o mesmo documento dá o prazo espelho: a melhora clínica deve ocorrer em até 72 horas. Persistência de sintomas ou aparecimento de dor torácica nova pede novas radiografias, ultrassonografia e, eventualmente, nova toracocentese. O derrame não complicado de hoje pode ser o complicado de depois de amanhã, e a única maneira de saber é repetir a pergunta.

Quando a resposta certa hoje é não puncionar

Derrame pequeno é a primeira situação. Lâmina de menos de 10 milímetros na radiografia em decúbito lateral não deve ser abordada rotineiramente, pelo risco de complicação num alvo pequeno demais, e porque na maioria das vezes ela se resolve sozinha com o antibiótico da pneumonia. Se crescer, o risco de complicação sobe e aí se aborda. É uma decisão que se reavalia, não uma decisão que se toma uma vez.

Lesão de pele no ponto de punção é a segunda: queimadura de radioterapia, herpes-zóster ou piodermite contraindicam a punção naquele sítio pelo risco de levar infecção para dentro do espaço e pelo sangramento cutâneo. Não é contraindicação ao procedimento, é contraindicação àquele ponto — e a saída costuma ser deslocar o ponto sob imagem, não desistir.

Paciente não colaborativo é a terceira, e é mais séria do que parece: um paciente que se mexe no meio da progressão da agulha é um pneumotórax esperando acontecer. Agitação, confusão ou dor não controlada se resolvem antes, e um dos primeiros deveres do procedimento é analgesia adequada e explicação suficiente.

A quarta é o transudato bilateral típico de insuficiência cardíaca já em tratamento, respondendo a diurético. Aqui a punção não acrescenta informação que mude a conduta, e a espera é a conduta. A ressalva importante é que essa isenção vale para o quadro típico: derrame unilateral, febre, dor pleurítica ou derrame que não recua com diurético saem dessa categoria e voltam para a fila da agulha.

E há a situação que não é contraindicação e é constantemente tratada como se fosse: a alteração de coagulação. Ela merece uma discussão própria, porque os dois lados dela estão escritos dentro do mesmo parágrafo do mesmo documento brasileiro, e o capítulo a trata nas divergências em vez de resolvê-la por conta própria.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da toracocentese tem duas metades separadas por poucos minutos: o que se decide antes de furar e o que se decide com o resultado na mão. A primeira metade responde onde e se; a segunda responde o quê e o que fazer. As duas erram por motivos diferentes — a primeira por confiar demais na percussão, a segunda por pedir pouco exame e por pedir tarde. As seções abaixo seguem essa ordem.

O ultrassom antes da agulha — e o que a régua brasileira diz

Este é o ponto em que o único documento nacional e a conduta internacional contemporânea divergem de frente, e o aluno precisa sair sabendo os dois. O texto brasileiro de 2006 reserva a ultrassonografia para três situações: quando o exame clínico e radiológico não é conclusivo, quando há escassa quantidade de líquido, e quando há suspeita de derrame encistado. Fora delas, a demarcação do ponto se faz por propedêutica cuidadosa, confirmada por radiografia de tórax ou ultrassonografia.

A diretriz britânica de doença pleural, refeita em 2023, recomenda com força que a toracocentese seja sempre guiada por imagem, para reduzir o risco de complicações. É uma recomendação de consenso, sem grau de evidência alto atrás dela, e o próprio documento a classifica assim — mas ela está lá, e é o que se pratica hoje nos serviços com aparelho disponível.

A orientação atual do percurso principal é usar ultrassom torácico na aspiração de derrame, conforme BTS 2023. Exame físico e radiografia contribuem para avaliar o problema, mas não substituem a identificação da janela pelo operador habilitado. Organize o recurso e a supervisão antes de puncionar; a comparação com a diretriz antiga é contexto histórico.

O que o ultrassom responde, e a percussão não, é uma lista curta e decisiva. Se há líquido de verdade, e não espessamento pleural ou consolidação maciça, que percutem igual. Quanta lâmina há entre a parede e o pulmão naquele ponto exato, com o paciente na posição em que ele vai ser puncionado. Onde está a cúpula diafragmática naquele instante do ciclo respiratório, o que evita a punção abdominal. E se o líquido é livre ou septado, porque líquido septado muda a conduta inteira antes mesmo de a agulha entrar.

Há uma regra operacional que o aparelho não dispensa e que os serviços aprendem errando: o ponto se marca com o paciente na mesma posição em que será puncionado, e se punciona logo em seguida. Marcar o ponto com o paciente deitado e puncionar com ele sentado desloca o líquido, o diafragma e a marca, os três ao mesmo tempo. A marca na pele não acompanha a anatomia.

Quando não há aparelho — e em muito hospital brasileiro de plantão noturno não há —, o documento de 2006 é a régua que sobra, e ele é aplicável: propedêutica criteriosa, região subescapular, confirmação radiológica, e um limiar de tamanho abaixo do qual não se punciona. É pior do que com imagem, e é isso que o capítulo diz na seção de divergências, sem declarar vencedor.

O corte de 10 milímetros e a radiografia em decúbito

O limiar de tamanho que a régua brasileira usa vem de Light: derrames com lâmina menor que 10 milímetros na radiografia em decúbito lateral com raios horizontais não devem ser abordados rotineiramente, pelo risco de complicações. A radiografia em decúbito lateral é sensível a coleções muito pequenas — o texto brasileiro cita volumes tão pequenos quanto 10 a 15 mililitros.

O mesmo documento registra, e é honesto ao registrar, que a necessidade dessa incidência foi questionada: um estudo comparando o perfil com o decúbito lateral mostrou que uma lâmina de 10 milímetros em decúbito aparece como imagem de até 5 centímetros no seio costofrênico posterior do perfil, de modo que o decúbito não precisaria ser pedido de rotina. Na prática de enfermaria brasileira, onde a radiografia costuma ser feita no leito e em incidência anteroposterior, nem uma nem outra está garantida — e é mais um argumento a favor do aparelho de ultrassom.

A leitura da radiografia em si — o menisco, o velamento do seio costofrênico, o hemitórax opaco e o que a traqueia diz sobre ele, e a diferença entre o filme de pé e o filme deitado — pertence ao capítulo Radiografia de tórax, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Aquele capítulo registra que o derrame pleural não tem dono neste nível e assume a parte radiográfica. Este capítulo assume as outras duas partes: o procedimento e a análise do líquido.

Transudato ou exsudato: a bifurcação que decide tudo

Os critérios de Light classificam o líquido como exsudato se ao menos um dos três for verdadeiro: relação entre proteína pleural e proteína sérica maior que 0,5; relação entre desidrogenase lática pleural e sérica maior que 0,6; desidrogenase lática pleural maior que dois terços do limite superior da normalidade do laboratório para a desidrogenase lática sérica. Não sendo nenhum, é transudato.

Duas exigências práticas saem daí e as duas se perdem com frequência. A primeira é que dois dos três critérios são relações, e relação precisa de numerador e denominador: o sangue tem de ser colhido simultaneamente à punção, e não no dia seguinte nem na coleta de rotina da manhã. O documento brasileiro é explícito nisso — a amostra de sangue deve ser colhida ao mesmo tempo do líquido para que a interpretação das relações seja confiável. Um líquido pleural sem proteína e desidrogenase lática séricas do mesmo momento é um exame que custou uma agulha no tórax e não responde à pergunta principal.

A segunda exigência é de leitura. O terceiro critério compara a desidrogenase lática pleural com dois terços do limite superior da normalidade do soro — não com a desidrogenase lática do próprio paciente. A régua brasileira imprime esse critério como desidrogenase lática pleural maior que dois terços do valor de referência sérico, e valor de referência sérico é ambíguo o bastante para ser lido das duas maneiras. A britânica de 2023 escreve por extenso o limite superior do valor normal de laboratório para a desidrogenase lática sérica, e o desfaz. Quem tomar o valor do paciente como denominador em quem tem desidrogenase lática sérica alta vai chamar de transudato um exsudato franco.

A régua brasileira imprime os três números num único lugar: o quadro de diagnóstico laboratorial dos exsudatos do capítulo sobre derrame de origem indeterminada, o sétimo do suplemento. O capítulo sobre a própria toracocentese e o capítulo sobre coleta e preservação citam Light pelo nome e pela referência bibliográfica, sem imprimir os cortes. O interno que abrir o documento nacional na página do procedimento que está fazendo não encontra ali o número que precisa.

Há um caso especial que aparece toda semana na enfermaria e vale decorar. O paciente com insuficiência cardíaca em uso crônico de diurético concentra a proteína do líquido pleural e pode aparecer como exsudato pelos critérios de Light sendo, mecanicamente, um transudato. Nessa situação o documento brasileiro recomenda o gradiente de albumina entre soro e líquido pleural como parâmetro mais fidedigno, com transudato acima de 1,2. O quadro do mesmo capítulo lista o mesmo parâmetro do lado do exsudato, abaixo de 1,2. A unidade desse 1,2 não aparece em nenhum dos dois lugares; ela é grama por decilitro, e quem trabalhar em grama por litro erra o corte por um fator de dez.

O mesmo quadro oferece outros dois critérios auxiliares para quando a suspeita clínica não bate com o resultado: colesterol pleural acima de 60 miligramas por decilitro e relação de bilirrubina pleural sobre sérica acima de 0,6, ambos apontando exsudato. E o documento avisa de dois confundidores fisiológicos que o interno costuma esquecer: hipoglicemia e acidose sistêmicas rebaixam a glicose e o pH do líquido pleural por si mesmas, e podem produzir uma leitura falsamente alarmante em quem não tem infecção pleural nenhuma.

Por fim, a aparência do líquido na seringa já adianta parte da resposta e é de graça. Transudato costuma ser límpido, amarelo-claro, e não coagula sozinho. Exsudato pode ser turvo, hemorrágico ou francamente purulento, e coagula, porque tem fibrinogênio. Líquido turvo que clareia depois de centrifugado tinha células e restos em suspensão — é o padrão do empiema. Líquido que continua branco-leitoso depois de centrifugado é quilotórax ou pseudoquilotórax, e aí a investigação vira outra.

Os tubos: o que vai em cada um, e por quê

A distribuição das alíquotas é a parte do procedimento que mais se perde por pressa, e é a única em que o erro não tem conserto sem nova agulha. O documento brasileiro de 2006 traz um quadro completo de qual tubo recebe o quê, e a tabela deste capítulo o reorganiza por prioridade clínica em vez de por seção do laboratório, que é a ordem em que o interno decide à beira do leito.

Antes dos tubos vem a seringa. Cada seringa usada na aspiração deve ser levemente heparinizada — aspirar heparina o suficiente para umedecer a parede interna e desprezar o excesso. O texto quantifica: para seringa de 20 mililitros, 0,5 mililitro de heparina basta para impedir que o líquido coagule durante a aspiração, e o procedimento se repete em todas as seringas. Líquido que coagula na seringa estraga a contagem de células e pode inutilizar a amostra inteira.

A amostra de pH é a mais exigente e a mais frequentemente perdida. Ela se colhe em anaerobiose, em seringa heparinizada, se transporta em recipiente com gelo e se processa dentro de uma hora. Dois cuidados adicionais vêm da diretriz britânica de 2023 e são conselhos práticos que valem qualquer lugar: a amostra de pH não pode ser contaminada por anestésico local nem pela heparina residual de uma seringa de gasometria não esvaziada, porque as duas coisas baixam o pH; e demora na medida sobe o pH. O erro anda nas duas direções, e as duas direções mudam a decisão de drenar.

A alíquota de cultura é a que mais custa em volume e a primeira a ser sacrificada quando o líquido é pouco — e é justamente ela que responde à pergunta que decide o dreno. Bacterioscopia e culturas para aeróbios e anaeróbios pedem de 7 a 10 mililitros; culturas para micobactérias e fungos pedem de 20 a 30, porque essas culturas dificilmente positivam sem técnicas de concentração sobre volumes grandes. O documento brasileiro admite três destinos válidos para a amostra microbiológica: frasco estéril, frascos de hemocultura, ou a própria seringa de coleta em condição absolutamente estéril, à temperatura ambiente.

A diretriz britânica de 2023 vai além e recomenda, quando há suspeita de infecção pleural, enviar o líquido em tubo simples e em frasco de hemocultura, os dois. É uma recomendação de consenso, e é o gesto que se perde por não estar no carrinho: se o frasco de hemocultura não foi separado antes da punção, ninguém vai buscá-lo depois com a seringa na mão, e a amostra vai só para o tubo seco.

Para a citologia oncótica a régua muda de tamanho. O documento brasileiro pede cerca de 25 mililitros e sugere o envio de quatro a cinco tubos, porque a acurácia depende das técnicas de concentração e do número de lâminas examinadas. A britânica de 2023 pede ao menos 25 mililitros e, quando possível, 50, e acrescenta uma orientação útil para quando o líquido é escasso: mandar mesmo assim o volume pequeno, ciente da sensibilidade reduzida, e repetir com volume maior se a primeira amostra não fechar o diagnóstico. Amostra pequena vale mais que amostra nenhuma, desde que o laudo negativo não seja lido como resposta.

Duas notas finais de logística que decidem se o material presta. A amostra vai para o laboratório imediatamente; se não puder ir, fica em geladeira comum, entre 4 e 8 graus, e nunca no congelador. E a amostra para citologia, guardada refrigerada, permanece analisável por cerca de 48 horas — o que dá uma margem confortável para o exame que não roda de madrugada, e nenhuma margem para o pH, que já foi.

pH, glicose e desidrogenase lática: a pergunta da drenagem

Chegou o momento em que a toracocentese deixa de ser exame e vira decisão cirúrgica. A régua brasileira classifica o parapneumônico em três estágios com base no aspecto e na bioquímica. Não complicado: líquido claro, desidrogenase lática abaixo de 1.000 unidades por litro, glicose acima de 40 miligramas por decilitro, sem bactérias na bacterioscopia e com cultura negativa. Complicado: líquido claro ou turvo, pH abaixo de 7,20, desidrogenase lática acima de 1.000, glicose abaixo de 40, podendo haver bactéria na bacterioscopia e cultura positiva. Empiema: aspecto purulento franco, e aí o laboratório é irrelevante — pus no espaço pleural é indicação de dreno, ponto.

Sobre essa classificação, a régua monta quatro categorias de risco que combinam três variáveis: anatomia, isto é, quantidade de líquido, presença de loculações e de espessamento pleural; bacteriologia, ou seja, bacterioscopia e cultura; e bioquímica, que é a medida do pH. É essa combinação, e não o pH sozinho, que decide o dreno — e ela está na tabela deste capítulo.

As três frases operacionais que saem daí valem ser ditas em linguagem direta. Derrame menor que 10 milímetros: nem se punciona. Derrame maior que 10 milímetros e menor que meio hemitórax, com bacterioscopia e cultura negativas e pH alto: toracocentese resolve, e o dreno não está indicado — mas se a evolução clínica for desfavorável, o próprio documento manda considerar toracocenteses repetidas ou drenagem. Derrame maior que meio hemitórax, ou com bacterioscopia ou cultura positivas, ou com pH abaixo de 7,2, ou loculado, ou com espessamento pleural, ou empiema franco: dreno.

Quando não há gasômetro para medir o pH — e em plantão noturno de hospital pequeno é o caso frequente —, o documento oferece a glicose como alternativa declarada, com corte em 60 miligramas por decilitro: acima disso trata-se como risco baixo, abaixo disso como risco moderado. Essa substituição é legítima porque, como o mecanismo mostrou, pH e glicose caem pelo mesmo processo. O que não é legítimo é usar o corte errado, e o documento tem dois cortes de glicose diferentes em duas tabelas — o capítulo trata disso nas notas de critério, com a conta.

A diretriz britânica de 2023 desenha a mesma decisão com um degrau a mais. Líquido com pH igual ou menor que 7,2 é alto risco e pede dreno, desde que o volume acessível ao ultrassom torne isso seguro. Entre 7,2 e 7,4 é risco intermediário: mede-se a desidrogenase lática e, acima de 900 unidades por litro, considera-se o dreno, especialmente se houver febre persistente, volume grande, glicose baixa, realce pleural na tomografia ou septação ao ultrassom. Igual ou acima de 7,4 é risco baixo e não há indicação de dreno imediato. E quando o pH não está disponível, a britânica usa glicose abaixo de 3,3 milimoles por litro como indicador de alta probabilidade.

Vale fazer a conversão, porque ela produz a melhor notícia deste capítulo: 3,3 milimoles por litro são 59,5 miligramas por decilitro. O corte britânico de 2023 e o corte da nota de rodapé brasileira de 2006 são, na prática, o mesmo número — 60 miligramas por decilitro. Dois documentos, dezessete anos de distância, e a mesma linha. Isso dá confiança no corte de 60, e joga luz sobre o corte de 40 que a outra tabela do mesmo artigo brasileiro usa.

Fica o que a bioquímica não responde. Nenhum desses números diz qual antibiótico, e a escolha, o descalonamento e a duração pertencem ao capítulo O antibiótico que ninguém para. Nenhum deles diz se o paciente está séptico, e o reconhecimento e os pacotes iniciais pertencem ao capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora. E há um alerta clínico que a britânica registra e vale repetir: derrame de artrite reumatoide e derrame de neoplasia avançada também cursam com pH baixo e tendência a loculação, e podem imitar o parapneumônico complicado ponto por ponto.

O que o líquido não responde

Entre 10% e 20% dos derrames permanecem sem diagnóstico etiológico depois de esgotados os métodos disponíveis. O documento brasileiro que trata desses casos organiza a investigação em camadas: reanálise criteriosa do que já foi feito, depois parâmetros menos usuais do líquido, depois parâmetros séricos, depois imagem, depois procedimentos invasivos. O interno não conduz essa escada, mas precisa saber que ela existe para não prometer ao paciente uma resposta que a punção pode não trazer.

Predomínio linfocitário e adenosina deaminase elevada apontam para tuberculose pleural, que num país com a nossa incidência é hipótese obrigatória em exsudato linfocítico. A adenosina deaminase pode ser dosada no mesmo tubo enviado para a citologia — o documento brasileiro testou a influência do anticoagulante e concluiu que a diferença não é clinicamente significativa. O diagnóstico, o esquema e a condução da tuberculose pertencem ao capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz.

Líquido francamente sanguinolento pede hematócrito do líquido, feito no mesmo tubo de anticoagulante da citologia. Hematócrito do líquido acima de metade do hematócrito do sangue periférico é hemotórax, e hemotórax no contexto de trauma pertence ao capítulo Trauma torácico com risco iminente de morte. Fora do trauma, contagem de hemácias acima de 100 mil por milímetro cúbico aponta neoplasia, trauma ou embolia pulmonar; e vale a calibração que evita alarme falso — 1 a 2 mililitros de sangue em um litro de líquido já bastam para deixá-lo com aspecto hemorrágico, de modo que até transudato pode parecer sanguinolento por um acidente de punção.

A biópsia pleural por agulha existe e tem indicação em exsudato com suspeita de neoplasia ou tuberculose, com dois a quatro fragmentos e desempenho melhor a partir de dois fragmentos de pleura parietal. Ela não é procedimento de interno, tem contraindicação formal em distúrbio de coagulação e em uso de anticoagulante, e é contraindicada no empiema pelo risco de abscesso subcutâneo no sítio. A diretriz britânica de 2023 acrescenta uma recomendação forte que vale registrar: biópsia pleural às cegas, sem imagem, não deve ser feita.

E há a resposta negativa que é uma resposta. Um exsudato com citologia oncótica negativa não exclui neoplasia — exclui aquela amostra. Um líquido com cultura negativa em paciente com pH baixo e derrame extenso continua indo para o dreno, porque a régua manda drenar por qualquer um dos critérios, e não por todos.

07

A técnica passo a passo, a decisão do dreno, e o que não fecha nos documentos

Aprenda a indicar, preparar, confirmar a janela, acompanhar a retirada e reconhecer complicações. O ultrassom e a supervisão fazem parte do procedimento; os diagnósticos diferenciais do líquido e as comparações históricas são consulta complementar.

  1. 1Confirme a indicação: derrame novo sem causa esclarecida, suspeita de infecção pleural ou necessidade de alívio, integrando clínica e imagem. Piora ou suspeita de infecção exige avaliação desde o início, sem esperar o terceiro dia de pneumonia. Ultrassom deve confirmar líquido e acesso seguro; pequenos volumes inacessíveis exigem planejamento e acompanhamento, não punção cega.
  2. 2Revise plaquetas, coagulograma e creatinina do paciente, e o uso de anticoagulante. Os dois patamares que a régua brasileira discute estão na tabela de divergências deste capítulo; leve o número, não a impressão, para a conversa com quem supervisiona.
  3. 3Explique o procedimento ao paciente e obtenha consentimento, nomeando o pneumotórax como a complicação mais frequente. Combine o sinal de parada: se ele precisar tossir, respirar fundo ou se mexer, ele avisa antes e você recua a agulha.
  4. 4Ultrassom torácico para identificar janela segura na posição do procedimento; não substituir por coordenada fixa, ausculta ou radiografia. Confirmar competência e supervisão do operador.
  5. 5Posicione. Preferencialmente sentado, braços e cabeça apoiados em travesseiros sobre uma mesa, ou com a mão do lado do derrame sobre o ombro oposto. Paciente em ventilação mecânica ou incapaz de sentar fica em decúbito lateral sobre o lado do derrame, ou semissentado.
  6. 6Escolha o ponto na região subescapular, dentro da área que a imagem confirmou, e sempre rente à borda superior do arco costal inferior. Nunca rente à borda inferior da costela de cima, onde corre o feixe vásculo-nervoso.
  7. 7Separe todo o material antes de abrir qualquer embalagem: luvas estéreis, gaze, solução antisséptica, campos estéreis, lidocaína a 2% sem vasoconstritor, agulhas fina e longas, seringas de 10 e de 20 mililitros, cateter sobre agulha de calibre 14 ou 16, equipo de macrogotas, sistema para aspiração manual ou drenagem por gravidade, sem vácuo, esparadrapo. Separe também os tubos e o frasco de hemocultura, e prepare recipiente apropriado para cada análise; a amostra de pH exige seringa e coleta específicas, evitando contaminação por ar ou anestésico.
  8. 8Faça a antissepsia da pele do hemitórax e posicione o campo estéril.
  9. 9Anestesie por planos: botão anestésico na pele com agulha fina, depois pele, subcutâneo, periósteo e pleura parietal com lidocaína em pequenas quantidades, aspirando a seringa antes de cada nova injeção para não injetar dentro de um vaso. São cerca de 10 mililitros no total.
  10. 10Progrida aspirando até o espaço pleural. Líquido na seringa é a confirmação de que você chegou; a profundidade em que ele apareceu é a informação que orienta a próxima etapa.
  11. 11Retire a agulha da anestesia e introduza o cateter sobre agulha pelo mesmo trajeto já criado. Chegando ao espaço, remova o mandril e mantenha só o cateter plástico dentro — é ele que impede que uma ponta metálica fique dentro do tórax enquanto o pulmão reexpande.
  12. 12Conecte a seringa de 20 mililitros heparinizada e colha o material para exames. Colha ao mesmo tempo o sangue periférico para proteína e desidrogenase lática séricas: sem ele, dois dos três critérios de Light não podem ser calculados.
  13. 13Drenar lentamente por aspiração manual ou gravidade; não usar vácuo ou sucção de parede. Em geral, retirar no máximo 1,5 litro e interromper antes se houver dor, aperto, tosse persistente ou piora da dispneia.
  14. 14Retire o cateter ao fim da expiração, comprima e cubra com curativo oclusivo.
  15. 15Distribua as alíquotas nos tubos certos, ainda à beira do leito, com a tabela dos tubos na frente. Mande na hora, ou refrigere entre 4 e 8 graus — a amostra de pH não espera: gelo e laboratório dentro de uma hora.
  16. 16Peça a radiografia de controle e registre o procedimento: indicação, ponto, anestésico, aspecto e volume retirados, exames enviados, intercorrências e como o paciente ficou.
  17. 17Leia o resultado contra a tabela de decisão. Aspecto purulento, pH baixo, bacterioscopia ou cultura positivas, derrame extenso, loculações ou espessamento pleural mudam o plano de agulha para dreno, e a mudança é para hoje.

Borda superior, sempre

O feixe vásculo-nervoso corre na calha da borda inferior de cada costela. A agulha entra rente à borda superior do arco costal de baixo — é o ponto do espaço intercostal mais distante do feixe. É a única regra da técnica que não tem exceção, versão nem discussão, e é a que evita o hemotórax por laceração de vaso intercostal.

1.500 mililitros e os três sinais de parada

A régua brasileira manda tentar esvaziar o espaço, mas considera prudente não retirar mais de 1.500 mililitros por sessão, pelo risco de edema pulmonar de reexpansão. E manda interromper antes disso se aparecer desconforto respiratório, tosse ou hipotensão. Os três sinais valem mais que o número: quem parou por sintoma parou certo, mesmo com 400 mililitros no frasco.

Do resultado à decisão: agulha, agulha repetida ou dreno

Como o derrame se apresentaO que o líquido mostraRiscoConduta
Lâmina menor que 10 mm em decúbito lateralNão se punciona de rotinaMuito baixoAntibiótico da pneumonia e reavaliação; a maioria resolve sozinha. Se crescer, o risco sobe e passa a se abordar
Maior que 10 mm e menor que meio hemitórax, livreBacterioscopia e cultura negativas E pH acima de 7,2BaixoToracocentese resolve; dreno não indicado. Evolução desfavorável manda considerar punções repetidas ou drenagem
Maior que meio hemitórax, ou loculado, ou com espessamento pleuralBacterioscopia ou cultura positivas OU pH abaixo de 7,2ModeradoDreno torácico. Derrame volumoso evolui pior sem drenagem pela tendência à loculação; espessamento à tomografia sugere empiema
Qualquer tamanho, com aspecto purulento francoO laboratório não muda nada aquiAltoDreno torácico, e a bioquímica é dispensável para indicá-lo. Pus no espaço pleural é a indicação por si
Sem gasômetro disponível para medir o pHGlicose acima de 60 mg/dL trata como risco baixo; abaixo de 60 mg/dL, como risco moderadoConforme a glicoseSubstituição prevista pelo próprio documento; ver a primeira nota de conferência sobre o outro corte de glicose do mesmo artigo
Instabilidade clínica, ou recidiva depois da punção inicialIndepende do númeroSobe uma categoriaConsiderar drenagem mesmo com bioquímica tranquilizadora — a clínica é critério declarado na régua

Os tubos: o que cada pergunta exige, em volume e em recipiente

Pergunta clínicaRecipienteVolumeCuidado que estraga a amostra
Transudato ou exsudato, e o parapneumônicoTubo seco siliconizado estéril, sem anticoagulante (tampa vermelha)7 a 10 mLSem sangue colhido no mesmo momento, duas das três relações de Light não fecham
Quantas células e de que tipo; hematócrito do líquidoTubo com ácido etilenodiaminotetracético (tampa roxa), o mesmo do hemograma5 a 7 mLLíquido que coagulou na seringa não heparinizada torna a contagem imprecisa
Há células neoplásicasTubo com anticoagulante; quatro a cinco tubos25 mL (a régua britânica de 2023 pede 25 e, se possível, 50)Volume pequeno reduz a sensibilidade; laudo negativo em amostra pequena não exclui
Que bactéria é, e se há bactériaFrasco estéril, frascos de hemocultura, ou a própria seringa em condição estéril7 a 10 mL para bacterioscopia e culturas comuns; 20 a 30 mL para micobactérias e fungosFrasco de hemocultura que não foi separado antes da punção não é buscado depois
Precisa de dreno hoje (pH)Seringa heparinizada, em anaerobiose, transportada no gelo5 a 7 mLAnestésico ou heparina residual baixam o pH; demora no processamento sobe. Processar em até uma hora
É tuberculoseMesmo tubo da citologia serve para adenosina deaminase; cultura para micobactéria em frasco estéril20 a 30 mL para a culturaCultura de micobactéria sem volume grande dificilmente positiva, porque depende de concentração

pH e decisão. Use o operador e a faixa da referência adotada no fluxo. O valor exato de 7,20 não deve receber respostas diferentes conforme a tabela consultada. Relacione o resultado ao contexto clínico e à qualidade da coleta.

Glicose como apoio. Na ausência de pH, o corte descrito de 3,3 mmol/L corresponde a aproximadamente 59,5 mg/dL. Na faixa intermediária, 4,0 mmol/L corresponde a aproximadamente 72 mg/dL. As duas situações têm funções diferentes; não troque um limiar pelo outro apenas por proximidade numérica.

Outras conversões. Triglicerídeos de 1,24 mmol/L correspondem a aproximadamente 110 mg/dL; colesterol de 5,18 mmol/L, a aproximadamente 200 mg/dL. Confira o analito e a unidade ao interpretar quilotórax e pseudoquilotórax.

Planejar os frascos. O volume necessário depende dos exames escolhidos e das exigências do laboratório. Uma soma de todos os volumes máximos não constitui coleta de rotina. Defina as perguntas antes da punção e organize a distribuição para não perder uma análise importante quando o líquido for escasso.

Qualidade da amostra. Recipiente, anticoagulante, volume e processamento variam conforme o exame. A coleta do pH exige a técnica descrita no capítulo; não generalize uma instrução de preparo de seringa para todas as amostras.

Fibrinolíticos e apresentações. O manejo intrapleural exige esquema e apresentação próprios. A presença de alfadornase inalatória numa lista para fibrose cística não define, por si só, a disponibilidade do esquema intrapleural. Confirme o acesso institucional com a equipe responsável.

Dose, diluição e total. Na leitura de um regime, diferencie unidades por dose, concentração final e quantidade acumulada. Alterar o volume de diluição modifica a concentração mesmo quando a quantidade do fármaco permanece igual. A conta de um esquema histórico não é indicação para reproduzi-lo fora do percurso adotado.

Anestésico. Confira concentração e presença de vasoconstritor no rótulo. Apresentações de lidocaína simples e associada podem estar na mesma gaveta. Escolha e limite de dose precisam corresponder ao plano do procedimento.

Valores de fronteira. Registre unidades e critérios usados ao interpretar gradientes ou proporções. Uma faixa transcrita com lacuna não deve ser preenchida por suposição do aluno; leve o resultado e o contexto ao supervisor.

Procedimento e diagnóstico. A punção deve terminar com amostras identificadas, pedidos coerentes e plano para conferir os resultados. Obter líquido é uma etapa; integrar o que ele mostra à conduta é a continuação do cuidado.

08

A conduta, hora a hora

Prática do internato: confirmar indicação e identidade, explicar ao paciente e combinar supervisão antes da execução. O interno deve reconhecer seus limites, interromper diante de dificuldade ou deterioração e comunicar os achados ao responsável. Registrar resultado, intercorrências e plano de reavaliação faz parte do procedimento.

A linha do tempo abaixo acompanha seu Odilardo da mensagem do residente até a decisão que sai do laboratório, e é escrita para ser seguida com a folha na mão. As listas de material são as do documento nacional, com as apresentações conferidas contra a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024. O que muda entre a punção diagnóstica e a de alívio está assinalado nos marcos em que muda, e não é muito: as duas usam o mesmo ponto, a mesma anestesia e o mesmo cateter, e se separam no que sai pelo equipo — onde vale o teto de 1.500 mililitros por sessão.

  1. 15h50 — antes de qualquer material: a indicação e a conversa

    Nomeie a indicação por escrito antes de tocar no carrinho. Aqui ela é dupla: pneumonia que não respondeu no prazo, com derrame novo, e dispneia com queda de saturação. Revise o hemograma, o coagulograma e a creatinina do dia, e pergunte por anticoagulante em uso. Olhe a pele do dorso à procura de lesão que contraindique aquele sítio. Explique o procedimento com as palavras do bloco de conversa, nomeie o pneumotórax como a complicação mais frequente e combine o sinal de parada. Consentimento é parte do procedimento, não papelada anterior a ele.

    Prescrição
    • Revisão do hemograma com plaquetas, do coagulograma e da creatinina do dia
    • Checagem ativa de anticoagulante e antiagregante na prescrição
    • Inspeção da pele do dorso no hemitórax a puncionar
    • Consentimento informado registrado, com a complicação mais frequente nomeada
    • Monitor de oximetria de pulso instalado e mantido durante todo o procedimento
  2. 16h00 — localizar o líquido, e só então marcar a pele

    A toracocentese por derrame deve ser orientada por ultrassom torácico realizado por profissional habilitado. Identifique líquido, diafragma, pulmão e órgãos subdiafragmáticos, com o paciente na posição do procedimento, e confirme uma janela segura imediatamente antes da punção. Exame físico e radiografia ajudam a compreender a doença, mas não substituem essa avaliação do sítio. Se não houver operador ou equipamento, organize acesso ao recurso e discuta a urgência; o interno não deve converter a ausência de ultrassom em autorização para punção às cegas.

    Prescrição
    • Percussão e frêmito tóraco-vocal delimitando o nível do derrame
    • Confirmar janela por ultrassom torácico e registrar lado e sítio; manter a posição após a marcação e repetir avaliação se houver mudança. Procedimento por operador habilitado ou sob sua supervisão direta.
    • Ponto marcado na região subescapular, com o paciente na posição definitiva
    • Radiografia de tórax recente disponível para conferência do lado e do volume
  3. 16h10 — posicionar e separar tudo antes de abrir

    Sentado, braços e cabeça apoiados em travesseiros sobre uma mesa, ou com a mão do lado do derrame sobre o ombro contralateral — a manobra que afasta a escápula e abre os espaços intercostais. Quem não pode sentar fica em decúbito lateral sobre o lado do derrame, ou semissentado. Separe todo o material antes de abrir a primeira embalagem, incluindo os tubos e o frasco de hemocultura, e heparinize as seringas. Material que falta no meio do procedimento se resolve tirando a agulha, e tirar a agulha custa uma segunda punção.

    Prescrição
    • Luvas estéreis, gaze, campos estéreis e solução antisséptica (clorexidina 2% a 4% tópica)
    • Lidocaína 2% solução injetável sem vasoconstritor — 1 frasco-ampola
    • Agulha fina para o botão anestésico e agulhas longas para a anestesia por planos
    • Seringas de 10 mL e de 20 mL — pelo menos 4, todas levemente heparinizadas
    • Heparina sódica 5.000 UI/0,25 mL — 2 ampolas por seringa de 20 mL a heparinizar
    • Cateter sobre agulha calibre 14 ou 16 — 2 unidades (uma de reserva)
    • Sistema apropriado para drenagem lenta por aspiração manual ou gravidade, sem frasco a vácuo nem sucção de parede na toracocentese.
    • Tubos: seco estéril, com ácido etilenodiaminotetracético, e frasco de hemocultura
    • Esparadrapo e curativo oclusivo
  4. 16h20 — antissepsia, campo e anestesia por planos

    Antissepsia ampla da pele do hemitórax e campo estéril posicionado. A anestesia é o passo que separa o procedimento tolerável do procedimento traumático, e ela é por planos: botão na pele com a agulha fina, depois pele, subcutâneo, periósteo e pleura parietal, injetando pequenas quantidades e aspirando a seringa antes de cada nova injeção, para não injetar anestésico dentro de um vaso. São cerca de 10 mililitros no total. O periósteo e a pleura parietal são as duas camadas que doem — pular qualquer uma delas produz o paciente que se mexe na hora errada.

    Prescrição
    • Antissepsia da pele em área ampla, com o campo estéril posicionado depois
    • Botão anestésico intradérmico com agulha fina
    • Anestesia por planos com lidocaína 2% sem vasoconstritor, cerca de 10 mL no total
    • Aspiração da seringa antes de cada nova injeção de anestésico
    • Progressão sempre rente à borda superior do arco costal inferior
  5. 16h30 — chegar ao espaço e trocar o metal por plástico

    Progrida aspirando. Líquido na seringa confirma o espaço pleural e informa a profundidade. Nesse momento retire a agulha da anestesia e introduza o cateter sobre agulha pelo mesmo trajeto já criado, aproveitando o pertuito. Alcançado o espaço, remova o mandril metálico e mantenha dentro apenas o cateter plástico. Essa troca é a diferença entre um pulmão que reexpande contra plástico flexível e um pulmão que reexpande contra uma ponta de aço.

    Prescrição
    • Progressão com aspiração contínua até a saída de líquido
    • Registro da profundidade em que o líquido apareceu
    • Introdução do cateter sobre agulha pelo trajeto já anestesiado
    • Remoção do mandril, mantendo apenas o cateter plástico no espaço pleural
  6. 16h35 — colher para exame, e colher o sangue junto

    Conecte a seringa de 20 mililitros heparinizada e retire o material para os exames, com a tabela dos tubos à vista. Este é o único instante em que a coleta do sangue periférico faz sentido, e é o passo mais esquecido do procedimento inteiro: proteína e desidrogenase lática séricas colhidas agora, não amanhã. Sem elas, dois dos três critérios de Light não têm denominador. E se há suspeita de infecção, o frasco de hemocultura sai agora junto com o tubo seco, porque depois ninguém volta com a seringa na mão.

    Prescrição
    • Líquido pleural: proteínas, desidrogenase lática, glicose e adenosina deaminase — tubo seco estéril, 7 a 10 mL
    • Líquido pleural: citologia global e diferencial com hematócrito — tubo com anticoagulante, 5 a 7 mL
    • Líquido pleural: citologia oncótica — 25 mL, em quatro a cinco tubos com anticoagulante
    • Líquido pleural: bacterioscopia e cultura para aeróbios e anaeróbios — 7 a 10 mL em frasco estéril e em frasco de hemocultura
    • Líquido pleural: pH — seringa heparinizada em anaerobiose, no gelo, laboratório em até 1 hora
    • Sangue periférico colhido neste mesmo momento: proteínas totais e frações, desidrogenase lática, albumina e glicemia
    • Cultura para micobactérias e fungos, 20 a 30 mL, quando houver exsudato linfocítico ou suspeita clínica
  7. 16h45 — o alívio: quanto sai, e o que faz parar

    Na aspiração terapêutica, drene devagar, por aspiração manual ou gravidade, acompanhando sintomas e condições clínicas. Não usar frasco a vácuo nem sucção de parede para a toracocentese. Em geral, limitar a 1,5 litro por sessão; volumes maiores só em circunstâncias selecionadas e sob equipe experiente. Interrompa antes disso se surgir aperto ou dor torácica, tosse persistente ou piora da dispneia. O volume registrado ajuda a acompanhar o procedimento, mas não autoriza continuar diante de sintomas.

    Prescrição
    • Drenagem lenta por aspiração manual ou gravidade; não empregar vácuo nem sucção de parede na toracocentese.
    • Teto de 1.500 mL por sessão
    • Interrupção imediata diante de desconforto respiratório, tosse ou hipotensão
    • Registro do volume e do aspecto de tudo que saiu
    • Nova sessão em outro dia, se o volume residual justificar
  8. 17h00 — fechar, documentar e planejar a leitura do resultado

    Retire o cateter ao fim da expiração, comprima e faça curativo oclusivo. Peça a radiografia de controle: o documento nacional reconhece que a rotina é controversa, já que a complicação é pouco frequente, mas considera prudente fazê-la para documentar as condições pós-punção. Distribua as alíquotas ali mesmo e despache o material — o pH primeiro. Registre o procedimento inteiro na evolução. E deixe escrito, em letra que o plantão da noite entenda, qual resultado muda o plano e para quê: pus, pH baixo, bacterioscopia ou cultura positivas significam dreno, e significam dreno hoje.

    Prescrição
    • Retirada do cateter ao fim da expiração, compressão e curativo oclusivo
    • Radiografia de tórax de controle após a punção
    • Distribuição das alíquotas nos tubos e envio imediato; refrigerar a 4-8 °C o que não seguir na hora
    • Registro em evolução: indicação, ponto, anestésico, aspecto, volume, exames enviados, intercorrências
    • Instrução escrita ao plantão sobre qual resultado dispara a solicitação de dreno, e em que prazo
    • Reavaliação clínica em 72 horas do derrame classificado como não complicado
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Como saber se está funcionando

A toracocentese tem duas reavaliações que correm em relógios diferentes. A primeira é de minutos a horas e procura complicação do procedimento; a segunda é de horas a dias e procura a resposta da doença que produziu o derrame. Confundir as duas é o erro que faz o interno relaxar depois de uma radiografia de controle normal e não voltar ao leito quando o laboratório chega.

A complicação mais frequente é o pneumotórax iatrogênico, com incidência descrita entre 3% e 19% nos estudos prospectivos que o documento nacional reúne. Em ventilação mecânica a faixa citada é de 6% a 10%, e a mesma fonte registra que, em todos os casos estudados, a drenagem resolveu a intercorrência. São números que o interno precisa conhecer para dizer ao paciente e para não subestimar o seguimento.

Os fatores de risco descritos para pneumotórax pós-punção são inexperiência do operador, agulha de grosso calibre, retirada de grandes volumes, múltiplas perfurações à procura do líquido, doença pulmonar obstrutiva crônica, punções repetidas e loculações. O próprio documento é honesto ao dizer que esses fatores não foram consistentemente confirmados, e que num estudo apenas as punções repetidas se relacionaram ao desfecho. Três deles, porém, estão sob controle direto de quem punciona: o calibre, o volume e o número de tentativas.

Saturação e frequência respiratóriaContínuo durante o procedimento; a cada 15 minutos na primeira hora; a cada 4 horas nas primeiras 24

Esperado: Na punção de alívio, melhora da dispneia e subida da saturação com a saída do líquido; na diagnóstica, estabilidade

Se não melhora: Queda de saturação durante ou logo depois da punção é pneumotórax até prova em contrário: interrompa, avalie, peça a radiografia agora. Se houver instabilidade, o problema é de sala de emergência e não espera filme

Tosse durante a drenagemAo longo de toda a retirada de líquido

Esperado: Ausente ou mínima; a régua registra que a tosse costuma aparecer no fim da punção, por distensão abrupta dos espaços aéreos

Se não melhora: Tosse é sinal de parada, não incômodo a tolerar — o documento diz que ela é minimizada retirando volumes abaixo de 1.500 mL. Pare, e o que sobrou fica para outra sessão

Pressão arterial e sinais vagaisAntes, no meio e ao fim; a qualquer queixa de mal-estar

Esperado: Estável, sem sudorese, sem sensação de desmaio

Se não melhora: O reflexo vago-vagal com sudorese, desconforto geral e sensação de desmaio pede suspender o procedimento e retomá-lo depois. Hipotensão sustentada muda de categoria e sai deste capítulo para o de hipotensão na enfermaria

Dor no sítio e dor pleuríticaDurante o procedimento e nas 24 horas seguintes

Esperado: Dor no início da progressão, corrigível com anestesia melhor; conforto depois do curativo

Se não melhora: Dor intensa que aparece no início se corrige com mais anestesia local e, se preciso, analgesia sistêmica. Dor nova e intensa horas depois, com dispneia, é pneumotórax ou hemotórax — o hemotórax vem de vaso lacerado, e vem de agulha que passou pela borda errada

Radiografia de controleDepois da punção

Esperado: Redução do velamento compatível com o volume retirado, sem linha pleural nova e sem nível hidroaéreo novo

Se não melhora: Pneumotórax pequeno em paciente assintomático e estável pode ser acompanhado; pneumotórax sintomático ou em ventilação mecânica vai para drenagem. A leitura do filme deitado tem armadilhas próprias e está no capítulo Radiografia de tórax

O laboratório do líquidopH em até 1 hora; bioquímica e citologia no mesmo dia; culturas em 48 a 72 horas

Esperado: Transudato encerra a investigação do líquido; exsudato abre a etiológica; parapneumônico classificado em não complicado, complicado ou empiema

Se não melhora: Resultado que não voltou é resultado que ninguém foi buscar. O pH é o que expira: amostra que passou da hora não é reprocessável, e a decisão volta a depender da glicose. Se o resultado indicar complicado ou empiema, a solicitação de dreno é do mesmo turno

Resposta clínica do derrame não complicado72 horas depois

Esperado: Melhora clínica dentro de 72 horas no derrame classificado como não complicado

Se não melhora: Persistência de sintomas ou dor torácica nova pede nova radiografia, ultrassonografia e eventualmente nova toracocentese. O não complicado de hoje pode ser o complicado de depois de amanhã, e só reabrir a pergunta responde

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Onde o erro machuca

Puncionar rente à borda inferior da costela de cima

O dano: É a calha onde corre o feixe vásculo-nervoso intercostal. A agulha entra no sulco e lacera a artéria intercostal — o hemotórax iatrogênico que o documento nacional descreve exatamente assim, como complicação evitável quando a agulha entra sempre pela borda superior. É a complicação que transforma um exame de dez minutos numa drenagem de urgência, às vezes numa toracotomia, e ela acontece em paciente que estava clinicamente bem.

Como pegar a tempo: A âncora geométrica do primeiro card: o feixe corre embaixo da costela de cima, então a agulha raspa a costela de baixo. Palpe o arco costal inferior, apoie o dedo nele e progrida rente à sua borda superior. Se você não está tocando osso antes de entrar, não sabe por onde está entrando.

Puncionar às cegas um derrame pequeno, loculado ou baixo demais

O dano: Alvo pequeno multiplica as tentativas, e punções repetidas são o único fator de risco para pneumotórax que se confirmou em estudo. Ponto baixo demais atravessa o diafragma, que na expiração sobe muito, e lacera fígado ou baço. Líquido septado devolve uma seringa vazia numa loja e a impressão falsa de que o derrame secou — quando na verdade a agulha entrou na loja errada.

Como pegar a tempo: Respeite o corte de 10 milímetros e use imagem quando ela existir, que é a recomendação forte da diretriz britânica de 2023 e a recomendação seletiva da brasileira de 2006. Marque o ponto com o paciente na posição definitiva, e não puncione abaixo do nível que a imagem confirmou. Seringa vazia num derrame que a imagem mostra é motivo para reavaliar o ponto, não para furar de novo mais embaixo.

Esvaziar tudo de uma vez e ignorar tosse e desconforto

O dano: Edema pulmonar de reexpansão — um pulmão colapsado há tempo, reexpandido depressa, sofre insulto de permeabilidade e de estresse hidrostático e enche de líquido justamente do lado que acabou de ser aliviado. O paciente sai da punção pior do que entrou, com hipoxemia nova e um infiltrado que não é pneumonia. A retirada de grandes volumes também consta entre os fatores de risco descritos para pneumotórax.

Como pegar a tempo: Teto de 1.500 mililitros por sessão, e os três sinais de parada com precedência sobre o número: desconforto respiratório, tosse ou hipotensão interrompem a sessão onde estiverem. O volume que sobrou não é uma derrota — é a próxima sessão. Registre quanto saiu e por que parou.

Mandar o líquido sem o sangue do mesmo momento, e sem frasco de cultura

O dano: Dois dos três critérios de Light são relações entre líquido e soro; sem soro colhido junto, a pergunta que motivou a punção fica sem resposta e alguém vai ter que furar de novo. E sem cultura o parapneumônico perde uma das três variáveis da decisão de drenar — a bacteriologia —, ficando dependente só do pH e do tamanho, justamente num paciente em que a bacterioscopia positiva sozinha já indicaria o dreno.

Como pegar a tempo: Separe os tubos e o frasco de hemocultura antes de abrir o kit, e escreva o pedido do sangue na mesma folha do pedido do líquido. A alíquota de cultura é a maior de todas, de 20 a 30 mililitros para micobactérias e fungos, e é a primeira a ser sacrificada quando se reparte líquido escasso no fim do procedimento: ela precisa ser reservada no começo.

Estragar a amostra de pH sem perceber

O dano: O pH é o número que decide o dreno, e é o mais frágil de todos. Contaminação por anestésico local ou por heparina residual de uma seringa de gasometria não esvaziada baixa o pH; demora no processamento sobe o pH. Os dois erros produzem um número plausível e errado, e um número plausível e errado é pior que número nenhum, porque ninguém desconfia dele.

Como pegar a tempo: Seringa heparinizada apenas umedecida, com o excesso desprezado; amostra em anaerobiose; transporte em gelo; laboratório em até uma hora. Se o gasômetro não está disponível dentro desse prazo, não force a amostra — use a glicose com o corte de 60 miligramas por decilitro, que a régua brasileira autoriza e que a britânica de 2023 confirma em 3,3 milimoles por litro.

Tratar o parapneumônico complicado com antibiótico e punções de repetição

O dano: É o erro que custa mais dias de internação e mais cirurgia. A pleura infectada deposita fibrina e inibe a fibrinólise local; o espaço se divide em lojas; o antibiótico penetra mal e a agulha alcança só a loja em que entrou. Cada dia de espera é fibrina organizada, e o que começou como um dreno de rotina termina como pleuroscopia ou decorticação. Adiar não conserva a opção menos agressiva: destrói a opção menos agressiva.

Como pegar a tempo: Leia o resultado contra a tabela no mesmo dia. Aspecto purulento, bacterioscopia ou cultura positivas, pH baixo, derrame maior que meio hemitórax, loculações ou espessamento pleural indicam dreno. E a régua admite a clínica como critério por si: derrame recidivado depois de punção inicial, ou paciente instável, sobe de categoria mesmo com bioquímica tranquilizadora.

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O que dizer ao paciente e à família

Poucos procedimentos assustam tanto quanto uma agulha no tórax, e a explicação que os acompanha costuma ser pior do que o susto. Quem recebe a notícia ouve a palavra punção, imagina o pulmão sendo furado, e o resto da conversa transcorre por cima de um medo que ninguém nomeou. Vale gastar dois minutos nomeando: onde entra, por que ali, o que ele vai sentir, o que ele deve avisar e o que pode dar errado. Um paciente que sabe combinar o sinal de parada colabora; um paciente surpreendido se mexe, e quem se mexe no meio da progressão da agulha ganha um pneumotórax.

Explicando a punção pela primeira vez a um paciente tenso, sentado na cama

Seu Odilardo, o senhor tem líquido acumulado entre o pulmão e a costela, do lado direito. Não é dentro do pulmão — é do lado de fora dele, num espaço que normalmente é quase seco. Eu preciso tirar um pouco desse líquido por dois motivos: para o senhor respirar melhor e para o laboratório dizer o que ele é, porque isso muda o tratamento. Vou anestesiar a pele e as camadas de baixo com uma agulha fina, e o senhor vai sentir uma ardência de uns dez segundos. Depois disso vai sentir pressão e o barulho, mas não deve doer. Combinado assim: se o senhor precisar tossir, respirar fundo ou se mexer, o senhor me avisa antes e eu paro. Não segure a tosse calado — é justamente na hora que o senhor se mexe sem avisar que a coisa pode complicar.

Não diga: Dizer que não vai doer nada. Vai arder na anestesia, e a promessa quebrada custa a colaboração do resto. Também evite dizer que vai furar o pulmão para tirar água: metade dos pacientes entende que a agulha entra no órgão, e é essa imagem que produz o paciente rígido, que prende a respiração e se mexe.

Quando o paciente pergunta o que pode dar errado

A complicação mais comum é entrar um pouco de ar entre o pulmão e a parede — chama-se pneumotórax. Acontece em uma parcela pequena das punções, e na maioria das vezes é pequeno e se resolve sozinho com observação. Se for grande, resolve com um dreno, que é um tubinho que fica alguns dias. Existem também dor, tosse no fim do procedimento e uma sensação de desmaio que passa quando a gente para. Por isso vou fazer uma radiografia depois, e por isso a saturação fica sendo medida o tempo todo. O senhor não vai ficar sozinho em nenhum momento.

Não diga: Recitar a lista de complicações sem dizer o que se faz com cada uma. A lista sozinha assusta e não informa; a lista com a conduta ao lado é o que permite ao paciente decidir. E evite dizer que é um procedimento simples: para quem faz é rotineiro, para quem recebe não é, e a palavra simples costuma soar como descaso.

Durante a punção, quando o paciente começa a tossir

Pode tossir, eu já parei. Isso é normal e acontece quando o pulmão começa a reabrir — é sinal de que está saindo líquido de verdade. Vamos esperar a tosse passar e eu decido se continuo ou se a gente fica com o que já saiu, que muitas vezes já é bastante. Respire devagar, sem forçar.

Não diga: Pedir para o paciente segurar a tosse e continuar drenando. A tosse é sinal de parada previsto na régua, e não um incômodo a atravessar. Quem manda segurar troca um volume a mais por um risco de edema de reexpansão.

Explicando por que a coleta de sangue tem de ser agora, junto

Vou pedir para colherem sangue do seu braço agora, no mesmo minuto. Não é exame novo nem é para outra coisa: dois dos exames do líquido só fazem sentido comparados com o sangue do mesmo momento. Se colhermos o sangue amanhã, a comparação não vale e a gente perde a informação principal desta punção.

Não diga: Deixar a coleta do sangue para a rotina da manhã seguinte porque o paciente já foi puncionado e ninguém quer incomodar. É o esquecimento mais caro do procedimento, e ele custa uma segunda agulha no tórax.

Ao dizer que o resultado indica dreno, e não mais uma punção

O exame do líquido voltou e mostra que a infecção entrou nesse espaço. Isso muda o plano: não adianta repetir a punção com agulha nem trocar o antibiótico. O líquido infectado começa a formar traves de fibrina que dividem o espaço em compartimentos, e agulha só alcança um compartimento por vez. O que resolve é um dreno, um tubo que fica ali e mantém a saída aberta. Quanto antes ele entrar, menor a chance de precisar de cirurgia depois. Eu já pedi a avaliação, e a ideia é que aconteça hoje.

Não diga: Apresentar o dreno como uma piora súbita e inesperada. O paciente foi puncionado exatamente para responder essa pergunta, e o dreno é a resposta prevista, não o fracasso da punção. Evite também prometer prazo de retirada do dreno — quem decide isso é a evolução, e a promessa quase sempre é quebrada.

Passando o caso ao plantão da noite

Leito 9, Odilardo Guanaes, quarto dia de pneumonia adquirida na comunidade, derrame novo à direita. Toracocentese diagnóstica e de alívio às dezesseis e trinta, região subescapular direita, borda superior do arco costal, lidocaína 2% sem vasoconstritor, cateter 16. Saíram 900 mililitros de líquido turvo; parei por tosse, não por volume. Radiografia de controle sem pneumotórax. Amostras enviadas: bioquímica, citologia, oncótica, bacterioscopia e cultura em frasco estéril e hemocultura, e pH no gelo, que saiu às dezesseis e cinquenta. Sangue periférico do mesmo momento colhido. Se o pH vier abaixo de sete vírgula dois, ou se a bacterioscopia vier positiva, o plano é acionar o dreno esta noite e não esperar a visita.

Não diga: Passar como derrame puncionado, aguardando exames. A frase é verdadeira e inútil: ela não diz qual número dispara qual conduta nem em que prazo, e é assim que um pH de sete vírgula um dorme na gaveta até a visita da manhã.

Com a família que pergunta por que não puncionaram a dona do leito ao lado, que também tem derrame

Os dois derrames parecem iguais na radiografia e não são a mesma coisa. O da senhora do lado é dos dois lados e vem do coração, que está trabalhando mal e represando líquido; ele responde ao remédio que aumenta a urina, e puncionar não acrescentaria informação nenhuma nem mudaria o tratamento dela. O do seu Odilardo é de um lado só, veio junto com uma infecção e não estava lá quando ele internou — nesse caso é preciso saber o que tem dentro, porque a resposta muda a conduta. Não é que uma coisa seja mais grave que a outra: é que uma pergunta se responde com exame e a outra já está respondida.

Não diga: Comparar gravidade entre pacientes, ou dizer que o outro caso é mais sério. A família compara mesmo assim, e o que ela precisa entender é o critério, não a hierarquia. Evite também discutir dados clínicos da paciente do leito ao lado: a explicação se dá pelo princípio, sem detalhar o caso alheio.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Imagem em toda toracocentese, ou imagem só nos casos difíceis?

Sempre guiada por imagem — diretriz britânica de doença pleural, 2023

A recomendação é forte e direta: a toracocentese deve sempre ser guiada por imagem para reduzir o risco de complicações. O documento a classifica como recomendação forte por consenso, e não por evidência de alta qualidade — o que significa que ela expressa a posição do grupo elaborador diante do que se pratica hoje, e não o resultado de um ensaio que comparou os dois caminhos. A mesma diretriz aplica o princípio à biópsia pleural, recomendando que não se façam biópsias às cegas.

Roberts ME et al. BTS Guideline for pleural disease. Thorax, 2023

Imagem seletiva — régua brasileira da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, 2006

A ultrassonografia tem indicação em três situações: quando o exame clínico e radiológico não é conclusivo, quando há escassa quantidade de líquido, e quando há suspeita de derrame encistado. Fora delas, o local se delimita por exame clínico criterioso e se confirma por radiografia de tórax ou ultrassonografia. É a régua nacional em vigor, e ela foi escrita quando o aparelho à beira do leito ainda não era item de enfermaria — nenhum documento brasileiro posterior reabriu a questão.

Sales R, Onishi R. Toracocentese e biópsia pleural. J Bras Pneumol, 2006

Como decidir

Adotar a orientação BTS 2023: ultrassom torácico é necessário para a aspiração de derrame. A alternativa histórica baseada em exame físico e radiografia não deve ser ensinada como equivalente. Ausência do recurso exige organizar avaliação apropriada com a equipe, ponderando urgência e transferência.

Corrigir a coagulação antes de puncionar, ou puncionar assim mesmo?

A evidência citada — dispensar correção em coagulopatia leve

O mesmo parágrafo da régua brasileira registra que não houve aumento de risco de sangramento com tempo de protrombina ou tromboplastina parcial até duas vezes o normal, nem com plaquetas acima de 25.000, nem em pacientes com creatinina acima de 6 miligramas por decilitro; e conclui que não é necessária terapêutica profilática, como transfusão de hemoderivados, em pacientes com coagulopatias leves sem evidência clínica de sangramento.

McVay PA, Toy PT. Transfusion, 1991, conforme citado em Sales R, Onishi R. J Bras Pneumol, 2006

A recomendação prática do mesmo documento — corrigir antes

Na frase seguinte, os mesmos autores escrevem que, para efeitos práticos, recomendam corrigir primeiro as alterações de coagulação até níveis que permitam realizar o procedimento com segurança, e nomeiam esses níveis: plaquetas acima de 75.000, atividade de protrombina acima de 50% e creatinina abaixo de 6 miligramas por decilitro. O patamar de plaquetas é três vezes o da evidência citada uma linha acima, e o sinal da desigualdade da creatinina se inverte entre as duas frases.

Sales R, Onishi R. Toracocentese e biópsia pleural. J Bras Pneumol, 2006

Como decidir

Discuta o risco de sangramento e o custo da espera com quem supervisiona, levando plaquetometria, demais dados pertinentes e a urgência do procedimento. A situação eletiva permite um planejamento diferente da dispneia importante ou da suspeita de empiema. Registre a avaliação e o plano escolhido.

O teto de 1.500 mililitros é um número fixo ou um limite guiado pelo paciente?

Teto numérico explícito — régua brasileira, 2006

O documento manda sempre tentar esvaziar todo o líquido contido no espaço pleural e, na mesma frase, considera prudente não retirar mais de 1.500 mililitros por sessão, em virtude do risco de edema pulmonar de reexpansão. Cita ainda a retirada de grandes volumes entre os fatores de risco descritos para pneumotórax pós-punção, e atribui ao mesmo teto a redução da tosse ao fim do procedimento.

Sales R, Onishi R. Toracocentese e biópsia pleural. J Bras Pneumol, 2006

Parada guiada por sintoma — o mesmo documento, na frase seguinte

A recomendação imediatamente posterior é interromper o procedimento se o paciente apresentar desconforto respiratório, tosse ou hipotensão — três gatilhos clínicos que não dependem de volume e que podem aparecer bem antes dos 1.500 mililitros. A diretriz britânica de 2023, no resumo de recomendações, não fixa teto numérico para a aspiração terapêutica.

Sales R, Onishi R. J Bras Pneumol, 2006; e Roberts ME et al. Thorax, 2023

Como decidir

Na punção de alívio, os sintomas orientam interrupção antes do limite de volume. O teto descrito permanece mesmo se o paciente estiver confortável. A coleta exclusivamente diagnóstica costuma envolver dezenas de mililitros e deve ser planejada pelos exames necessários.

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O raciocínio, em voz alta

Enfermaria de clínica médica, 15h40. Seu Odilardo Guanaes, 64 anos, 74 quilos, no quarto dia de uma internação por pneumonia da comunidade em base direita. Febre cedeu no segundo dia e voltou ontem à noite: 38,3 graus às 14h. Frequência respiratória 26, saturação 91% em ar ambiente contra 96% anteontem. Refere fisgada em hemitórax direito que piora com inspiração profunda. Radiografia de controle mostra velamento do terço inferior direito com apagamento da cúpula diafragmática, que não existia no filme da admissão. Plaquetas 240 mil, atividade de protrombina 89%, creatinina 1,0. Sem anticoagulante. O residente está no centro cirúrgico. A técnica trouxe o carrinho e pergunta o calibre do cateter.

  1. O que penso antes de responder sobre o calibre

    A recorrência da febre com derrame novo e piora respiratória levanta suspeita de infecção pleural neste caso. Avalio e ofereço suporte agora, comunico o supervisor e organizo ultrassom e coleta segura conforme indicação. O quarto dia ajuda a descrever a evolução, mas não é requisito para investigar: a mesma ameaça poderia surgir antes ou sem pneumonia reconhecida.

  2. Confirmo indicação e ausência de motivo para esperar

    Indicação dupla e escrita: falha de resposta no terceiro dia com derrame novo, e dispneia com queda de 5 pontos de saturação. Não é caso de esperar: não é lâmina fina, não é bilateral, não é transudato de insuficiência cardíaca em uso de diurético. Reviso coagulação — plaquetas 240 mil e atividade de protrombina 89% passam por qualquer dos dois patamares que a régua nacional discute, o que me poupa a divergência. Inspeciono a pele do dorso: íntegra. Explico o procedimento, nomeio o pneumotórax e combino o sinal de parada.

  3. Localizo antes de marcar, e marco na posição definitiva

    Percussão maciça e frêmito reduzido até a ponta da escápula à direita, com egofonia na faixa acima. Sento o paciente na beira do leito com os braços apoiados numa mesa de refeição, que é a posição que abre os espaços intercostais, e só então busco o ultrassom da unidade. Ele mostra lâmina de cerca de 4 centímetros na região subescapular direita, cúpula diafragmática dois espaços abaixo do ponto escolhido, e líquido livre sem septação visível. Marco a pele com o paciente já sentado. Se não houvesse aparelho, o corte de 10 milímetros e a propedêutica sustentariam a punção aqui — a lâmina é larga e o exame físico é concordante.

  4. Separo tudo antes de abrir, inclusive o que não é do procedimento

    Kit estéril, clorexidina, lidocaína a 2% sem vasoconstritor — confiro o rótulo, porque a gaveta tem também a associação com epinefrina —, agulha fina e agulhas longas, quatro seringas heparinizadas, dois cateteres calibre 16, equipo e frasco. E o que quase sempre fica de fora: os tubos separados por pergunta, o frasco de hemocultura, o gelo para a amostra de pH, e o pedido do sangue periférico já preenchido para ser colhido no mesmo minuto. Só aí respondo à Brígida: calibre 16, e preciso do frasco de hemocultura e de alguém para colher sangue junto comigo.

  5. Executo pela borda superior e troco o metal por plástico

    Antissepsia ampla, campo. Botão anestésico e anestesia por planos com cerca de 10 mililitros, aspirando antes de cada injeção, atravessando pele, subcutâneo, periósteo e pleura parietal — as duas últimas são as que doem. Progrido com o dedo apoiado no arco costal inferior, rente à sua borda superior. Líquido turvo aos 4 centímetros. Retiro a agulha, introduzo o cateter pelo mesmo trajeto, removo o mandril e deixo só o plástico dentro.

  6. Colho para os sete destinos, e paro por sintoma

    Seringa heparinizada e distribuição imediata: tubo seco para bioquímica com adenosina deaminase, tubo roxo para citologia e hematócrito, quatro tubos para oncótica, frasco estéril e frasco de hemocultura para bacterioscopia e cultura, e a seringa em anaerobiose no gelo para o pH, que sai na hora. O sangue do braço é colhido enquanto o cateter ainda está no lugar. Conecto o equipo para o alívio; aos 900 mililitros ele começa a tossir. Paro ali. Novecentos é menos que o teto e não importa — tosse é sinal de parada, e o que sobrou é assunto de outra sessão.

  7. Fecho, documento e deixo escrito o que dispara o dreno

    Cateter retirado ao fim da expiração, compressão, curativo oclusivo, radiografia de controle sem linha pleural nova. Registro indicação, ponto, anestésico, aspecto turvo, volume, motivo da parada, exames enviados e como o paciente ficou — saturação 95% em ar ambiente, sem dor. E escrevo na evolução, para o plantão da noite, a frase que faz o resultado virar conduta: pH abaixo de 7,2, bacterioscopia positiva ou aspecto purulento indicam solicitar dreno nesta noite, sem esperar a visita. O pH volta às 17h40: 7,08. O dreno é solicitado às 17h50.

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Faça você

Enfermaria de clínica médica, 9h20. Dona Teolinda Moutinho, 71 anos, 68 quilos, terceiro dia de internação por insuficiência cardíaca descompensada, em uso crônico de furosemida em casa há quatro anos e agora recebendo dose venosa. Melhorou: dispneia menor, edema de membros inferiores recuando, balanço negativo de 1,8 litro nas últimas 24 horas. A radiografia de controle mostra derrame pleural bilateral, maior à direita, e a preceptora pediu na véspera uma toracocentese diagnóstica à direita para afastar outra causa, porque o derrame direito não recuou tanto quanto o esquerdo. A punção foi feita ontem por outro interno. O resultado chegou agora: proteína pleural 3,4 g/dL, desidrogenase lática pleural 210 U/L. No prontuário, a proteína sérica e a desidrogenase lática séricas são as da coleta de rotina de hoje de manhã, sete horas depois da punção: proteína 5,9 g/dL, desidrogenase lática 300 U/L. Não há albumina pleural pedida. Aspecto do líquido registrado como límpido, amarelo-claro. Sem febre, sem dor pleurítica, sem leucocitose.

  1. achado

    Relação de proteína pleural sobre sérica de 3,4 sobre 5,9, que dá 0,58; relação de desidrogenase lática de 210 sobre 300, que dá 0,70. Pelos critérios de Light, dois dos três positivos: o laudo sairia como exsudato. Só que o quadro clínico inteiro aponta transudato — bilateral, límpido, amarelo-claro, sem febre, sem dor pleurítica, em paciente com insuficiência cardíaca descompensada respondendo a diurético.

  2. o que falta

    Duas coisas, e as duas são de procedimento e não de raciocínio. O sangue não foi colhido no mesmo momento da punção: ele é de sete horas depois, num paciente sob diurético venoso, e portanto os denominadores das duas relações não descrevem o mesmo instante que os numeradores. E a albumina pleural não foi pedida, o que fecha a única saída disponível para este exato problema.

  3. a decisão

    O que se faz agora, sem nova punção no tórax, e o que se registra na evolução para que a preceptora possa decidir na visita?

  4. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome o caso e explique ao paciente o que será obtido com a punção, por que o ultrassom integra o preparo e quais sintomas ele deve comunicar imediatamente.

  5. Questão integrativa 1

    Macicez e radiografia bastam para escolher o ponto de punção?

  6. Questão integrativa 2

    O paciente pode mudar de posição depois da marcação sem nova conferência?

  7. Questão integrativa 3

    Qual método de retirada usar na toracocentese terapêutica?

  8. Questão integrativa 4

    Dor e tosse persistente após 700 mL permitem continuar até 1,5 L?

  9. Questão integrativa 5

    Todo derrame precisa ser esvaziado completamente nessa sessão?

  10. Questão integrativa 6

    Dispneia nova após a punção deve aguardar a visita?

Ver como fecharíamos

Não repetir a toracocentese neste momento. O caso é o exemplo clássico do documento nacional: o paciente com insuficiência cardíaca em uso crônico de diurético concentra a proteína do líquido pleural e pode aparecer como exsudato pelos critérios de Light sendo, mecanicamente, um transudato. A saída prevista pela régua brasileira é o gradiente de albumina entre soro e líquido pleural, com transudato acima de 1,2 grama por decilitro — e ele resolve sem furar de novo, porque a dosagem de albumina pode ser feita no material que já está no laboratório, desde que ainda haja alíquota de bioquímica guardada, e a albumina sérica se colhe do braço. Registre também os dois defeitos de coleta que produziram a ambiguidade, para que não se repitam: sangue colhido sete horas depois em paciente sob diurético venoso invalida as duas relações, e o documento brasileiro exige explicitamente a coleta simultânea. Reforce que a aparência do líquido já dizia parte da resposta — límpido e amarelo-claro é padrão de transudato. E deixe consignado o que muda a conduta se o gradiente vier abaixo de 1,2: aí sim o líquido é exsudato de verdade e a investigação etiológica se abre, com citologia oncótica, adenosina deaminase e cultura. A conduta da insuficiência cardíaca em si, incluindo a decisão sobre a dose de diurético e sobre puncionar ou esperar, pertence ao capítulo Insuficiência cardíaca aguda descompensada. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Na aspiração de derrame, a janela deve ser confirmada por ultrassom torácico na posição do procedimento. 2. Não presumir que a janela continua segura; reavaliar com ultrassom após mudança relevante. 3. Aspiração manual ou gravidade, de forma lenta. Não usar frasco a vácuo ou sucção de parede. 4. Não. Interromper e avaliar. O limite geral de volume não supera sinais de intolerância. 5. Não. O objetivo diagnóstico ou terapêutico e a tolerância definem a extensão; em geral, limitar a 1,5 L por sessão. 6. Não. Avaliar imediatamente sinais vitais, oxigenação e possíveis complicações, acionando o supervisor e os exames necessários.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Este paciente piorou com novo derrame e hipoxemia: requer avaliação imediata, suporte, comunicação ao supervisor e investigação de possível infecção pleural. Confirmar o líquido e um acesso seguro com ultrassonografia, revisar contraindicações e preparar amostras e sangue pareado antes da punção supervisionada. Infecção pleural pode surgir antes do terceiro dia e também sem pneumonia reconhecida; não existe espera obrigatória de 72 horas. Pus, microbiologia, pH e demais achados, integrados ao quadro e à imagem, orientam necessidade de drenagem. Derrame parapneumônico complicado exige avaliação de controle do foco além de antibiótico. A TC tem indicações próprias e pode esclarecer anatomia ou diagnóstico, mas não deve atrasar intervenção necessária nem é pré-requisito universal à toracocentese.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo: (1) recite as três perguntas na ordem, e diga qual exame responde cada uma; (2) desenhe o espaço intercostal e diga por onde a agulha entra e por quê, com uma frase sobre o que acontece se entrar pelo outro lado; (3) enuncie os três critérios de Light com os números, e diga qual das duas coletas precisa ser simultânea e por quê; (4) diga o teto de volume por sessão e os três sinais que param a drenagem antes dele; (5) liste o que vai em cada tubo, começando pelo mais frágil; (6) diga os quatro achados do líquido que indicam dreno independentemente uns dos outros.

Em 30 dias

Teste de retenção longa: (1) monte de memória a tabela que leva do tamanho e do laboratório à decisão entre agulha, agulha repetida e dreno, com os cortes de pH e de glicose; (2) explique por que pH e glicose caem juntos no líquido infectado, e por que isso autoriza a substituição de um pelo outro; (3) reconstrua a divergência sobre imagem — o que diz cada lado, com a data — e diga o que decide pelo paciente à frente; (4) explique por que derrame parapneumônico complicado não se resolve com antibiótico e punções repetidas, usando a palavra fibrina; (5) diga qual é a régua brasileira, de que ano ela é, e qual teste de vigência a sustenta; (6) diga o que o SUS fornece para este procedimento e o que ele não fornece.

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Agora atenda

Você é o interno da enfermaria de clínica médica numa quarta-feira à tarde. Homem de 64 anos, no quarto dia de uma internação por pneumonia da comunidade, tinha melhorado e voltou a ter febre ontem à noite. Está mais taquipneico, com saturação 5 pontos abaixo da de anteontem, e refere dor que piora com a inspiração profunda no lado direito. A radiografia de controle acabou de chegar com um velamento que não existia na admissão. O residente está no centro cirúrgico e mandou dizer para você avaliar. A técnica de enfermagem já trouxe o carrinho e pergunta qual calibre de cateter você quer.