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O corpo conta primeiro
Transtornos alimentares: anorexia nervosa, bulimia e compulsão alimentar — os sinais do exame físico, os critérios de gravidade e a síndrome de realimentação
A pessoa não conta, e não é por má-fé: contar é abrir mão do único controle que ela sente ter. Quem conta é o corpo — na frequência cardíaca, no esmalte dos dentes, no dorso da mão, no potássio que baixou sem motivo. Este capítulo é sobre juntar esses sinais antes que eles virem parada cardíaca, e sobre a segunda armadilha, que é começar a alimentar rápido demais quem passou meses sem comer.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. (Cadernos de Atenção Básica, n. 38). Capítulo 11 — Distúrbios alimentares: bulimia, compulsão alimentar e transtornos alimentares, p. 161-170.
Associação Médica Brasileira; Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes. Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico. Autoria: Associação Brasileira de Psiquiatria, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Sociedade de Medicina de Família e Comunidade, Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, Associação Brasileira de Nutrologia e Sociedade Brasileira de Pediatria. Elaboração final: 7 de outubro de 2011.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Cloridrato de fluoxetina, cápsula dura 20 mg — bula do medicamento genérico (Laboratório Teuto Brasileiro), modelo de bula com informações ao paciente.
Distrito Federal. Secretaria de Estado de Saúde. Comissão Permanente de Protocolos de Atenção à Saúde. Assistência nutricional de adultos em terapia intensiva. Aprovado pela Portaria SES-DF nº 807, de 1º de outubro de 2019, publicada no DODF nº 222, de 22 de novembro de 2019.
Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Protocolo assistencial nº 295 — Abordagem do paciente adulto com hipocalemia. 1ª versão: dezembro de 2021.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual de atendimento da criança com desnutrição grave em nível hospitalar. Brasília: Ministério da Saúde. (Os dez passos para a recuperação da criança com desnutrição grave.)
Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
Brasil. Portaria GM/MS nº 2.979, de 12 de novembro de 2019 (Programa Previne Brasil); Brasil. Portaria GM/MS nº 635, de 22 de maio de 2023 (equipes multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde — eMulti).
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 53, de 11 de novembro de 2020. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrepeso e Obesidade em Adultos.
American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders, text review — DSM-IV-TR. Washington, 2000. Organização Mundial da Saúde. Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde — CID-10.
Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral. Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no paciente grave. BRASPEN Journal, v. 38, n. 2, supl. 2, 2023.
NICE NG69 — transtornos alimentares e critérios de cuidado hospitalar
NICE CG32 — suporte nutricional e prevenção de realimentação
FDA — advertência sobre abstinência de benzodiazepínicos
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Responda antes de ler
Uma adolescente tem restrição alimentar, perda importante de peso e medo de engordar, mas mantém sangramentos menstruais. Isso exclui anorexia nervosa?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, dezesseis e quarenta. O pronto atendimento é o único da cidade, que tem noventa mil habitantes e nenhum psiquiatra na escala. Faz trinta e um graus na rua e a sala de espera está com o ventilador de teto no máximo. A ficha que a técnica entrega diz uma palavra: desmaio. Entra Fidélia Pacoti, dezenove anos, estudante do segundo período de licenciatura, acompanhada da mãe. Ela caminha sozinha, senta sozinha, cumprimenta olhando nos olhos e responde a tudo o que se pergunta. Está de calça comprida, meia, tênis e um moletom fechado até o pescoço.
O relato é limpo e curto. Estava em pé na fila da xerox da faculdade, sentiu a vista escurecer e acordou no chão com gente em volta. Não bateu a cabeça. Não teve convulsão, não perdeu urina, não mordeu a língua, não ficou confusa depois. Já tinha acontecido duas vezes este ano, sempre em pé, sempre passando rápido. Não usa medicamento nenhum. Não bebe, não fuma. A mãe acrescenta uma frase e cala: "ela come pouco, doutor, faz dieta desde o ano passado". Fidélia responde no mesmo tom educado de antes: "eu como normal".
Os sinais vitais aparecem no papel antes de qualquer exame. Frequência cardíaca de quarenta e quatro. Pressão arterial de oitenta e seis por cinquenta e quatro, deitada. Temperatura axilar de trinta e cinco graus e seis décimos. Glicemia capilar de sessenta e dois. Saturação de noventa e nove por cento em ar ambiente. O interno de plantão olha aquilo e monta a explicação que a ficha sugeriu: jovem, magra, calor, fila, desidratação. Prescreve soro fisiológico e senta para escrever a alta enquanto corre.
O exame físico, quando ele finalmente o faz, leva quatro minutos e encontra sete coisas. A pele dos antebraços tem uma penugem fina e clara que não deveria estar ali numa mulher de dezenove anos. As mãos estão frias num dia de trinta e um graus, e as pontas dos dedos, arroxeadas. O cabelo sai em pequenas quantidades quando ela passa a mão, e ela passa a mão várias vezes durante a conversa. A frequência cardíaca segue nos quarenta, regular, sem sopro. Quando ela se levanta para ir ao banheiro, precisa se apoiar na maca e diz que ficou tonta — e a pressão em pé, que ninguém mediu, teria dito o mesmo em números. Ele anota "bom estado geral" e continua a alta.
Quem interrompe é a técnica de enfermagem, Manoelina Muriaé, que trabalha naquela unidade há dezenove anos. Ela leva o interno até o balcão e diz uma frase que muda o plantão: "doutor, ela veio aqui em março com a mesma coisa, e em julho também. Já foi embora duas vezes com soro". Nada no caso de hoje é novo. O que é novo é alguém ter juntado. Este capítulo é sobre esse ato de juntar — sobre por que a pessoa com transtorno alimentar quase nunca chega dizendo o que tem, sobre os sinais que o corpo entrega no lugar dela, sobre a diferença entre uma pessoa magra e uma pessoa em risco, e sobre a segunda armadilha, que aparece depois que se acerta o diagnóstico: começar a alimentar rápido demais quem passou meses comendo pouco pode matar, e evitar isso é lento, barato e quase nunca prescrito.
Quem adoece disso
Antes de qualquer número, um aviso sobre a qualidade do chão. Não existe estudo populacional brasileiro de prevalência de anorexia nervosa, e quem diz isso com todas as letras é a diretriz da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina sobre o tema, na resposta em que ela discute prevalência. A frase está lá, isolada, no meio de parágrafos que citam dados da Holanda e da Finlândia. Um interno que procure a epidemiologia brasileira dos transtornos alimentares vai encontrar estimativas, e é importante saber que estimativa e medida não são a mesma coisa.
O caderno do Ministério da Saúde que trata do assunto faz a mesma ressalva e depois a contraria em dois parágrafos. Primeiro escreve que não existem dados nacionais para determinar com exatidão a prevalência dos transtornos alimentares. Em seguida atribui a uma fonte de 2001, apresentada como baseada em dados epidemiológicos brasileiros recentes, os números que passaram a circular em provas e aulas: anorexia nervosa em meio por cento das mulheres, bulimia nervosa entre um e dois por cento, e comer compulsivo entre dois e três por cento da população em geral. Uma das duas frases está errada, e o documento não escolhe qual: ou o dado nacional existe, e a ressalva do parágrafo anterior é falsa, ou ele não existe, e a estimativa não deveria vir com a palavra recentes num texto de 2014 apontando para uma fonte de 2001.
Repare também nos denominadores, porque eles mudam de um item para o outro dentro da mesma frase. O primeiro número é explicitamente de mulheres. O segundo não diz de quem é. O terceiro é da população em geral. Três grandezas diferentes enfileiradas como se fossem comparáveis, e é assim que elas costumam ser memorizadas. Quando um número aparecer numa prova, a pergunta útil não é qual é o valor, é sobre quem ele foi medido.
O sexo é o ponto em que os dois documentos brasileiros se desencontram de frente. O caderno do Ministério da Saúde diz que mais de noventa por cento dos casos ocorrem na população feminina. A diretriz das sociedades diz outra coisa e explica por quê: cerca de setenta por cento das pessoas com o transtorno são mulheres, os homens procuram atendimento com menos frequência, e é daí que vem a constatação de que noventa por cento dos pacientes em tratamento sejam mulheres. Ou seja: a diretriz identifica noventa por cento como número de quem chega ao serviço, e o caderno o transformou em número de quem adoece. A diferença tem consequência de plantão, porque um interno que aprendeu noventa por cento não pensa em anorexia nervosa diante de um homem de vinte e quatro anos com bradicardia e síncope.
Nem a própria diretriz fecha suas contas de sexo. Ela declara que a proporção entre homens e mulheres é de quatro para dez, e declara, poucas linhas antes, prevalências ao longo da vida de zero vírgula três a dois vírgula seis por cento nas mulheres e zero vírgula dois a zero vírgula três por cento nos homens. As quatro combinações das pontas dessas faixas dão de 0,8 a 10 homens para cada dez mulheres, e nenhuma delas é quatro para dez; chegar a quatro para dez exigiria ler a prevalência feminina num ponto baixo e intermediário da própria faixa que o documento declarou. As duas afirmações convivem na mesma página sem que ele note.
O que os documentos brasileiros concordam em dizer, e que muda mais a conduta do que qualquer prevalência, é onde essas pessoas estão. Elas não estão, na maioria, no ambulatório de psiquiatria. Estão na fila da unidade de pronto atendimento com síncope, no consultório do dentista com o esmalte corroído, no gastroenterologista com constipação e dor abdominal, no ginecologista com amenorreia, no ortopedista com fratura de estresse. A diretriz brasileira registra um efeito perverso disso: quem é acompanhado em serviços clínicos sem avaliação psiquiátrica inicial é submetido a investigação orgânica excessiva quando comparado a quem foi encaminhado cedo, e essa investigação atrasa o diagnóstico. Pedir mais exames pode ser, aqui, uma forma sofisticada de não perguntar.
Há um segundo grupo grande e mais silencioso: as apresentações incompletas. A diretriz brasileira as chama de quadros parciais ou atípicos — quem tem todos os traços do transtorno menos um, ou todos em grau mais leve. Ela afirma que esses quadros são mais prevalentes que os completos, que podem evoluir para o quadro completo em parte considerável dos casos, e que adoecem de verdade: complicações clínicas, prejuízo de funcionamento e sofrimento psíquico. Para o plantão, isso significa que a pergunta não é "ela preenche os critérios?", e sim "há restrição, purgação ou compulsão organizando a vida dessa pessoa?".
Nada disso é dito para produzir suspeita difusa. É dito porque o transtorno alimentar é uma das poucas condições em que o intervalo entre o primeiro sinal físico e o primeiro diagnóstico é medido em anos, e em que quem quebra esse intervalo quase nunca é o especialista: é o plantonista que reparou na frequência cardíaca, é o dentista que reparou no esmalte, é a técnica que reparou que a paciente já tinha vindo duas vezes. O capítulo assume, daqui em diante, que o leitor é essa pessoa.
Por que acontece o que acontece
A restrição alimentar prolongada não produz um corpo doente por acaso: produz um corpo administrado. Diante de oferta de energia insuficiente e sustentada, o organismo desliga funções na ordem em que elas custam caro e podem esperar. A reprodução é a primeira a cair, porque gestar é o mais caro que o corpo faz. A produção de calor cai em seguida. A velocidade do coração e a pressão de perfusão caem depois. O crescimento e a renovação do osso, do cabelo e da pele desaceleram. Nada disso é fraqueza moral nem falta de força de vontade — é economia, e é reversível quando a oferta volta. O problema é que a economia tem um limite, e depois dele o desligamento vira falência.
No coração, três coisas acontecem ao mesmo tempo e a soma engana. Há predomínio da atividade vagal, e a frequência cardíaca de repouso cai. Há redução das dimensões e da massa do ventrículo esquerdo, com enchimento inadequado e queda do débito cardíaco. E há depleção de volume, quando existe purgação associada. O resultado é uma bradicardia que parece condicionamento físico e não é: a pessoa condicionada tem um coração maior bombeando mais por batimento, e a pessoa em restrição prolongada tem um coração menor bombeando menos. A frase que salva um plantão é simples: bradicardia com hipotensão e extremidades frias não é atleta.
A queda do calor é o sinal que ninguém mede. O organismo reduz a produção de calor e, sem gordura subcutânea suficiente para isolar, também perde o que produz. O corpo responde com uma penugem fina e clara sobre o tronco e os membros — a lanugem — que é a tentativa de recriar um isolamento térmico que o subcutâneo não faz mais. A pessoa passa a usar roupa a mais em dia quente, e essa roupa é lida como pudor ou como excentricidade quando é sintoma. A temperatura axilar aferida em repouso, num serviço que quase sempre a mede e quase nunca a lê, é um dos dados mais baratos e mais informativos da sala.
No eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, a supressão é funcional e mensurável. A diretriz brasileira registra que os níveis de hormônio luteinizante são significativamente mais baixos nas pessoas com anorexia nervosa do que em mulheres com ciclos regulares e baixo peso constitucional, o que sugere que a amenorreia aqui não é apenas consequência de ser magra. Ela também registra o que se segue: amenorreia hipotalâmica com baixo percentual de gordura leva a níveis baixos de estradiol e de testosterona, e é isso que justifica a perda de massa óssea. Em quem adoece na adolescência, o dano cai justamente na janela em que o osso deveria estar sendo construído, e a diretriz é explícita ao dizer que a osteopenia pode persistir apesar da melhora nutricional e do retorno da menstruação.
Quando existe purgação, entra um segundo mecanismo, e ele é hidroeletrolítico. A perda de conteúdo gástrico leva embora ácido e potássio; a perda por via intestinal leva embora potássio e bicarbonato; a desidratação ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, que retém sódio e joga fora mais potássio ainda. O resultado típico é hipocalemia, e é uma hipocalemia sem causa aparente, porque a pessoa não usa diurético, não tem diarreia relatada e não tem doença renal. A mesma prática deixa marcas onde se pode ver: o ácido gástrico repetido sobre a face interna dos dentes corrói o esmalte, a glândula parótida aumenta de forma indolor e bilateral, e o dorso da mão que serve de instrumento ganha um calo ou uma cicatriz — o sinal descrito por Russell, que o caderno do Ministério da Saúde grafa com um éle só.
Aqui entra o laboratório que mente, e mentir é a palavra certa. Meses de ingestão insuficiente esvaziam os estoques intracelulares de fósforo, potássio e magnésio e consomem a tiamina, que tem reserva corporal pequena. Enquanto o organismo permanece em catabolismo, ele quebra tecido e devolve esses íons ao sangue, de modo que a dosagem sérica pode voltar rigorosamente normal. O exame normal, nessa situação, não informa que os estoques estão cheios: informa que ninguém ainda pediu que eles fossem usados. Essa é a razão pela qual um potássio, um fósforo e um magnésio normais na admissão não autorizam ninguém a alimentar rápido.
A síndrome de realimentação é o que acontece quando se pede. Uma carga de carboidrato desloca o metabolismo do catabolismo para o anabolismo e desencadeia liberação de insulina. A insulina empurra glicose, fósforo, potássio e magnésio para dentro das células, que agora estão construindo e consumindo. O fósforo sérico despenca, e sem fósforo não há trifosfato de adenosina nem dois-três-difosfoglicerato: falta energia para a contração muscular e o oxigênio deixa de ser entregue no tecido. O potássio e o magnésio despencam junto, e o coração, que já estava pequeno e lento, arritmiza. A tiamina, que é cofator da via glicolítica, é consumida na velocidade do substrato novo e pode acabar. Ao mesmo tempo, a insulina promove retenção renal de sódio e água num ventrículo com massa reduzida, e o que era desnutrição vira congestão. Os desfechos descritos são arritmia, insuficiência cardíaca, convulsão, rabdomiólise, insuficiência respiratória e encefalopatia de Wernicke.
O que torna essa síndrome uma boa história para o internato é o desenho da prevenção. Ela não exige tecnologia, não exige leito de terapia intensiva e não exige especialista: exige identificar quem tem risco antes de prescrever a primeira dieta, dosar três eletrólitos e repô-los, dar tiamina antes da carga de carboidrato, começar a oferta baixa, subir devagar e redosar todo dia. É lenta, é barata e é chata — três atributos que explicam por que ela sai da prescrição justamente quando a enfermaria está cheia. E o paradoxo que fecha o mecanismo é este: o mesmo ato que salva a pessoa, que é alimentá-la, é o ato que pode matá-la se for feito rápido demais. Não existe muita coisa em medicina em que o tratamento e o dano tenham exatamente a mesma forma e se diferenciem só pela velocidade.

Como se apresenta de verdade
Este bloco é uma lista de coisas que se vê, se ouve e se toca, organizada pelo que cada achado permite concluir. A regra de leitura é a mesma em todas as seções: nenhum achado isolado fecha diagnóstico, e a força vem da coincidência de achados de sistemas diferentes numa pessoa que nega. Vale registrar de saída uma fronteira: a propedêutica dos sinais físicos que denunciam o transtorno alimentar não é reivindicada por nenhum outro capítulo do nível, e fica sendo deste, descrita aqui por inteiro.
Aprender para cuidar no internato. Reconhecer gravidade independentemente do peso e coordenar nutrição, eletrólitos, tiamina e cuidado psicossocial. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
O coração devagar e a pressão baixa: o achado que mais engana
A bradicardia é o achado cardiovascular mais frequente na anorexia nervosa, e a diretriz brasileira o descreve como presente em cerca de um terço dos casos. Ela vem acompanhada de pressão arterial baixa e de intolerância ortostática, e a tríade tem uma explicação única: predomínio vagal sobre um ventrículo esquerdo de dimensões e massa reduzidas, com débito cardíaco diminuído, frequentemente somado a depleção de volume quando há purgação.
O erro clássico do plantão é atribuir a frequência baixa a condicionamento físico, e o erro tem endereço: muitas dessas pessoas praticam exercício de forma intensa e organizada, e vão dizer isso. A diferença é fisiológica e pode ser dita numa frase. O atleta tem bradicardia com pressão normal ou alta-normal, extremidades quentes, tolerância ao esforço preservada e nenhuma tontura ao levantar. Aqui, a bradicardia vem com hipotensão, extremidades frias, acrocianose de pontas e tontura ao levantar. Bradicardia com hipotensão e extremidades frias não é atleta.
Meça a pressão deitada e em pé, e meça a frequência nas duas posições. Isso não é refinamento acadêmico: a queda pressórica e o incremento de frequência ao ortostatismo são o que separa o corpo que está apenas lento do corpo que já não consegue perfundir de pé — e é a explicação da síncope na fila, que costuma ser a razão de a pessoa ter vindo. Anote o número das duas posições no prontuário, porque é esse par que a próxima pessoa vai precisar comparar.
Ausculte procurando três coisas: ritmo, sopro e bulhas. A bradicardia da restrição é sinusal e regular. Ritmo irregular, pausas, bulhas abafadas ou sopro novo mudam a rota e pedem eletrocardiograma imediato, e a leitura desse traçado e o manejo de qualquer arritmia são dos capítulos de Cardiologia e de Eletrocardiograma — este capítulo diz quando pedir, não como conduzir.
A boca, a glândula e o dorso da mão: o que a purgação escreve no corpo
Três achados aparecem juntos em quem induz vômito de forma repetida, e os três são visíveis sem nenhum equipamento. O primeiro é a erosão do esmalte dentário, que o caderno do Ministério da Saúde lista como complicação clínica mais comum, e que acomete preferencialmente a face dos dentes voltada para dentro da boca — justamente a que o exame de rotina não olha. Peça para a pessoa abrir a boca e olhe por dentro dos incisivos superiores. Dente sensível ao frio numa pessoa jovem sem cárie visível é um dado, não um detalhe.
O segundo é o aumento indolor das parótidas, bilateral, que dá ao rosto um contorno mais cheio na altura do ângulo da mandíbula. É um achado cruel do ponto de vista clínico, porque produz exatamente o efeito que a pessoa mais teme e costuma reforçar o ciclo. Palpe: glândula aumentada, de consistência amolecida, sem dor, sem sinais inflamatórios e sem saída de secreção purulenta pelo ducto.
O terceiro é o sinal de Russell, o calo, a escoriação ou a cicatriz no dorso da mão, sobre as articulações, produzido pelo contato repetido com os dentes. O caderno do Ministério da Saúde o descreve, e o descreve dentro da seção de bulimia nervosa. Isso merece um reparo, porque o mesmo caderno afirma, na seção anterior, que parte importante das pessoas com anorexia nervosa também purga: o achado pertence ao comportamento, não ao rótulo diagnóstico, e procurá-lo apenas em quem já foi classificado como bulimia é procurar no lugar errado.
Complete com o que a purgação faz longe da boca: irregularidade menstrual e desidratação, que o mesmo caderno lista, e queixas digestivas altas — azia, regurgitação, sensação de queimação retroesternal. Uma pessoa jovem com esofagite de repetição, esmalte corroído e potássio baixo já contou três vezes a mesma coisa, sem dizer uma palavra. A saúde bucal em si — a conduta odontológica, a prevenção da erosão, o encaminhamento — não tem capítulo dono neste nível, e este capítulo fica apenas com o reconhecimento do achado, cedendo o manejo.
A pele, o pelo e o termômetro
A lanugem é uma penugem fina, clara e macia que aparece no tronco, no dorso, nos antebraços e na face lateral do rosto. Ela não é pelo de adulto e não é hirsutismo: é o organismo tentando reconstruir um isolamento térmico que o subcutâneo já não faz. Procure com a luz de lado, na região lombar e nos antebraços, porque com luz de frente ela desaparece.
A pele é seca e áspera, com descamação fina; as unhas são quebradiças; o cabelo cai difusamente e afina, e a pessoa costuma demonstrar isso involuntariamente durante a consulta, passando a mão na cabeça. Em quem tem ingestão predominante de vegetais amarelos e alaranjados, pode haver um tom amarelado da pele que poupa a esclera — diferença que separa isso de icterícia numa olhada, e que vale conferir com a luz da janela em vez da lâmpada da sala.
A hipotermia é o achado mais subutilizado do conjunto, porque a temperatura é aferida em quase toda triagem e lida em quase nenhuma. Uma temperatura axilar de repouso persistentemente baixa numa pessoa jovem sem outra explicação é um marcador de gravidade metabólica, e é gratuito. O caderno do Ministério da Saúde lista hipotermia entre as complicações orgânicas do quadro, ao lado de hipotensão, intolerância ao frio, anemia, queda de cabelo, pele seca, problemas renais, convulsões e infertilidade.
Registre também a queixa que a pessoa dá de graça e que ninguém anota: sentir frio quando ninguém mais sente. Numa sala de espera a trinta e um graus, um moletom fechado até o pescoço é exame físico.
A menstruação que sumiu e o osso que não se construiu
A amenorreia na anorexia nervosa é hipotalâmica e funcional, e os dois documentos brasileiros a tratam de modos diferentes — divergência que o bloco de divergências deste capítulo retoma. O caderno do Ministério da Saúde a reproduz como critério diagnóstico, exigindo ausência de pelo menos três ciclos consecutivos. A diretriz das sociedades médicas conclui o contrário: a amenorreia deve ser analisada como um dos sinais associados, sinalizando gravidade, e não pode ser considerada marcador relacionado à etiologia ou a aspecto nuclear do transtorno.
Do ponto de vista prático, a consequência é grande e vale ser dita sem rodeio: usar a amenorreia como porta de entrada do diagnóstico faz deixar passar todo homem, toda pessoa que menstrua com regularidade apesar da restrição, e toda pessoa em uso de contraceptivo hormonal — que sangra por privação e portanto não fecha o critério, mesmo com o eixo suprimido. Pergunte sobre o método contraceptivo antes de concluir qualquer coisa a partir da menstruação.
A investigação e a conduta de uma amenorreia como problema em si — as causas, a sequência de exames, o tratamento — são do capítulo de Ginecologia que trata amenorreia. Deste capítulo é a bifurcação: diante de amenorreia secundária numa pessoa jovem, a restrição alimentar entra na primeira linha do raciocínio e não na última, e a pergunta sobre alimentação e exercício vem antes de qualquer dosagem hormonal.
O osso é a consequência silenciosa. A diretriz brasileira registra osteopenia em cerca de metade das adolescentes com o transtorno, com a coluna lombar como região mais afetada nas mulheres e o quadril e suas sub-regiões nos homens; registra ainda que a perda pode persistir apesar da melhora nutricional e do retorno da menstruação, e lista como preditores de baixa densidade a baixa ingestão de cálcio, menos de três horas semanais de atividade física, duração do transtorno superior a doze meses e seis meses ou mais de amenorreia secundária. A osteoporose da mulher após a menopausa e o manejo da fratura por fragilidade são de Osteoporose pós-menopausa, na apostila de Ginecologia; a perda óssea da adolescente com transtorno alimentar é deste capítulo, e a diferença que justifica a separação é que ali se perde osso construído e aqui se deixa de construí-lo.
O exame alterado que não tem motivo aparente
Há um padrão laboratorial que deveria disparar a pergunta, e o mais eloquente dele é a hipocalemia sem causa. Uma pessoa jovem, sem diurético, sem diarreia relatada, sem doença renal, sem vômito assumido, com potássio baixo, está dizendo alguma coisa. A diretriz brasileira mede o tamanho disso: num seguimento de doze anos com oitenta e quatro mulheres, trinta e oito por cento tinham hipocalemia já na admissão, e a comparação entre quem purgava e quem não purgava mostrou potássio médio significativamente menor no grupo com purgação. Ureia e creatinina elevadas apareceram, no mesmo estudo, em um terço e em um quinto das pacientes.
O hemograma costuma vir alterado e costuma ser lido como sem importância. A mesma diretriz reúne, entre pessoas hospitalizadas com anorexia nervosa, leucopenia em pouco mais de um terço, anemia em cerca de um quarto, neutropenia em quase um quinto, linfopenia, plaquetopenia e pancitopenia em frequências menores; a anemia é tipicamente normocítica e normocrômica, e a leucopenia aumenta risco de infecção — complicação que foi causa de internação em quase um décimo dos pacientes, com risco relativo muito maior na presença de neutropenia.
Outros achados que confundem, e o que cada um significa. A hipercolesterolemia aparece em cerca de metade dos casos e independe de haver purgação, o que costuma soar contraintuitivo diante de alguém que come pouco. A elevação de transaminases acompanha a desnutrição e melhora com a recuperação nutricional. A amilase pode subir por comprometimento de glândula salivar, e não de pâncreas. E a síndrome do eutireóideo doente, com triiodotironina baixa e triiodotironina reversa alta, com ou sem queda de tiroxina e sem alteração do hormônio tireoestimulante, ocorre nos casos graves e é indicadora de pior evolução clínica: a diretriz é explícita ao dizer que ela se corrige com a realimentação, e portanto não se trata a tireoide.
A regra de ouro para o interno: nenhum exame laboratorial faz o diagnóstico de transtorno alimentar. A diretriz brasileira diz isso com todas as letras — o diagnóstico é clínico, por anamnese, antropometria e exame psíquico. Os exames existem para medir complicação e gravidade, e é por isso que eles entram no bloco de critérios deste capítulo, e não no de diagnóstico.
Quem não tem cara de ter
O estereótipo — adolescente, mulher, branca, de classe média, visivelmente magra — é a principal causa de diagnóstico perdido, e cada uma de suas quatro partes tem contra-evidência nos documentos brasileiros. Sobre classe social, o caderno do Ministério da Saúde registra que o desejo de emagrecer se espalhou entre mulheres de todas as classes, ainda que historicamente os quadros fossem descritos nas classes média e alta.
Sobre sexo, a diretriz brasileira dedica uma pergunta inteira ao assunto e o quadro alimentar é descrito como muito semelhante entre homens e mulheres, com comorbidades psiquiátricas semelhantes e sem diferença de índice de massa corporal; alguns estudos sugerem início mais tardio nos homens, que também apresentam maior crítica sobre a doença e menor preocupação com a imagem corporal, o que faz o relato soar menos típico e atrasar a suspeita. A mesma pergunta traz taxas de remissão maiores e tempo médio de remissão menor entre homens.
Sobre idade, existe início tardio, e a diretriz registra que não há diferenças relevantes de quadro clínico entre quem começa tarde e quem começa na idade de pico, mas que o prognóstico é pior no início tardio, com mais necessidade de internação psiquiátrica e maior mortalidade — e que nessa população há mais comorbidade, sendo importante verificar uso de álcool, benzodiazepínicos ou cannabis, além de transtornos depressivos e de personalidade. O manejo do uso de álcool é de A abstinência que não pode esperar e o do benzodiazepínico é de Um minuto para prescrever, cinco anos para retirar, ambos nesta apostila.
Sobre peso, dois grupos escapam. O primeiro é quem tem bulimia nervosa: o caderno do Ministério da Saúde é explícito ao dizer que essa pessoa não deseja emagrecer cada vez mais e em geral se apresenta com peso normal ou, em menor número de casos, com sobrepeso — de modo que o exame que denuncia não é a magreza, é a boca, a mão e o potássio. O segundo é quem tem transtorno da compulsão alimentar periódica, descrito como episódios recorrentes de compulsão sem os comportamentos compensatórios da bulimia, com perfil de maior índice de massa corporal, oscilações rápidas de peso, mais dificuldade em perder peso e acentuada insatisfação corporal. Esse transtorno é deste capítulo. A obesidade e a síndrome metabólica que frequentemente o acompanham são do capítulo de Endocrinologia, que mediu, aliás, que a Rename não traz medicamento antiobesidade — fato que este capítulo cita e não refaz. A obesidade infantil é de Nutrologia Pediátrica.
Fecha a seção o grupo mais numeroso: quem tem quase todos os traços e não fecha critério nenhum. A diretriz brasileira chama esses quadros de parciais ou atípicos, diz que são mais prevalentes que os completos e que podem evoluir para o quadro completo. Para o plantão, o efeito prático é abandonar a pergunta "ela tem o diagnóstico?" e adotar outra: "há restrição, purgação ou compulsão organizando a vida dessa pessoa, e o corpo dela já está pagando por isso?".
Como fechar o diagnóstico
Investigar transtorno alimentar tem uma dificuldade que quase nenhuma outra investigação clínica tem: o instrumento principal é uma conversa com alguém que tem bons motivos para não responder. A diretriz brasileira descreve isso em termos técnicos — negação alta da doença, baixo insight, autorrelato de alimentação, restrição, peso e altura profundamente distorcido — e recomenda, por isso, associar a entrevista com pais ou familiares. Vale traduzir o que essa descrição significa na sala: a pessoa não está mentindo para enganar você. Ela está protegendo a única coisa sobre a qual sente ter controle, e a pergunta feita do jeito errado é sentida como tentativa de tirar isso dela.
As seis seções a seguir vão do que se pergunta ao que se pede, e terminam declarando o que este capítulo não investiga porque pertence a um vizinho.
Gravidade não cabe no peso. Avaliar perda e velocidade de perda, restrição, purgação, exercício, compulsão, cognições sobre alimentação e imagem corporal, além de diagnósticos alternativos. Anorexia não exige amenorreia; menstruação presente, sexo masculino ou IMC fora da faixa baixa não excluem transtorno alimentar grave. Instabilidade circulatória, síncope, ECG alterado, hipoglicemia e distúrbios eletrolíticos podem indicar hospital mesmo sem baixo IMC. Não provocar ortostatismo em pessoa já instável para completar um escore.
Perguntar sem exigir confissão
Comece pelo motivo pelo qual a pessoa veio, e não pelo que você suspeita. Se ela veio por desmaio, a investigação do desmaio é legítima e é o terreno em que ela concorda em estar. Dentro dele cabe tudo: há quanto tempo, quantas vezes, em que posição, o que estava fazendo antes, o que comeu naquele dia. A pergunta sobre alimentação entra pela porta da síncope, e não pela porta do julgamento.
Use perguntas de comportamento, não de rótulo. "Você tem anorexia?" é uma pergunta que ninguém responde sim. "Quantas refeições você fez ontem, começando pela primeira coisa que entrou na boca depois de acordar?" é uma pergunta que se responde. A mesma lógica vale para o resto: pergunte se há alimentos que ela evita e há quanto tempo; se existe algum número que ela precisa ver para ficar tranquila; quantas horas por semana ela se exercita e o que acontece quando não consegue se exercitar; se já aconteceu de comer muito rápido e depois se sentir mal com aquilo; se depois disso ela fez alguma coisa para compensar. A palavra compensar é útil porque é a palavra que a própria pessoa costuma usar.
Pergunte sobre a menstruação e sobre o método contraceptivo na mesma frase, porque um explica o outro. Pergunte sobre a boca: se algum dente ficou sensível, se o dentista comentou alguma coisa. Pergunte sobre o frio: se ela sente mais frio que as pessoas em volta. Nenhuma dessas perguntas obriga ninguém a admitir nada, e cada uma delas devolve um dado.
Ouça o que a família diz e como diz, sem transformar a família em ré. A diretriz brasileira registra que a participação familiar é fundamental e que os pais precisam entender que a pessoa não tem condições de cuidar de si sozinha naquele momento — nenhum documento brasileiro consultado atribui a causa do transtorno à família, e o interno que entra na sala com essa ideia perde o aliado de que mais vai precisar. A técnica de fazer essa conversa, de dar espaço para a queixa e de conduzir uma consulta em que o outro tem uma agenda diferente da sua, é de A queixa é o passaporte, na apostila de Medicina de Família e Comunidade; aqui ficam apenas as perguntas específicas.
Uma última recomendação de forma: entreviste a pessoa sozinha em algum momento, mesmo que a família tenha vindo junto e mesmo que a pessoa seja adolescente. Informação sobre purgação e sobre exercício quase nunca aparece na frente de quem mora com ela.
Os dois instrumentos que o Brasil traduziu, e o que eles não fazem
O caderno do Ministério da Saúde apresenta dois instrumentos de rastreamento adaptados e validados para a população brasileira, e os apresenta exatamente para uso na atenção básica. O primeiro é o Teste de Atitudes Alimentares, que pode ser usado no rastreamento de pessoas suscetíveis a anorexia ou bulimia nervosa; o caderno registra que escore superior a vinte e um sugere padrão alimentar anormal. O segundo é a Escala de Compulsão Alimentar Periódica, indicada para rastreamento de compulsão em pessoas com obesidade que procuram tratamento para emagrecer, com ponto de corte dezessete.
O que o próprio caderno diz sobre os limites deles é mais importante que os pontos de corte. Sobre o primeiro instrumento: indica presença de padrões alimentares anormais, mas não revela o diagnóstico preciso. Sobre o segundo: não se trata de instrumento diagnóstico, e a investigação deve ser feita por equipe qualificada. Ou seja, os dois respondem "vale a pena olhar isso melhor?" e nenhum responde "essa pessoa tem o transtorno?".
A diretriz das sociedades médicas é ainda mais dura na hierarquia: o diagnóstico por instrumento só pode ser feito por entrevista clínica estruturada ou semiestruturada, e os questionários autorrespondíveis servem para rastreamento e para avaliar resposta ao tratamento. Ela sugere, para estudos de grande escala, um modelo em dois estágios — questionário no rastreamento inicial, entrevista no segundo. Na prática de um interno, isso significa que um escore alto abre a conversa e não a encerra, e que um escore baixo numa pessoa com bradicardia, hipotensão e amenorreia não afasta nada.
Registre no prontuário qual instrumento foi aplicado, quando e com que resultado. É a diferença entre um rastreamento que serve de linha de base para a próxima consulta e um número que ninguém encontra depois.
O que pedir na primeira avaliação, e o que cada exame responde
Antes da lista, a regra que a diretriz brasileira fixa e que o interno precisa dizer para si mesmo em voz alta: nenhum exame confirma o diagnóstico, que é clínico. Os exames medem complicação e gravidade, e é por isso que a lista é curta e tem finalidade declarada em cada item.
Eletrólitos — sódio, potássio, magnésio, cálcio e fósforo. Potássio baixo sem causa é o achado mais eloquente de purgação. Magnésio e fósforo entram por outra razão, e é a razão principal deste capítulo: eles são os valores de partida contra os quais a realimentação vai ser comparada. Pedir potássio sem pedir fósforo e magnésio é montar meia linha de base.
Função renal e gasometria ou bicarbonato — a diretriz brasileira registra elevação de ureia e de creatinina em parcela significativa das pacientes na admissão, e descreve nefropatia hipocalêmica e redução do ritmo de filtração glomerular; alcalose metabólica acompanha a perda de conteúdo gástrico. Uma creatinina aparentemente normal em alguém com massa muscular reduzida pode estar mascarando queda de filtração, e a diretriz registra que a creatinina sérica não se mostrou suficientemente sensível para detectar doença renal crônica nessa população.
Hemograma — para documentar as citopenias descritas, que são frequentes, costumam ser benignas e mudam a leitura de uma febre: neutropenia nessa pessoa aumenta muito o risco de complicação infecciosa.
Glicemia — a hipoglicemia da restrição prolongada tem estoque hepático de glicogênio esgotado e responde mal, o que a torna perigosa e recorrente. Glicemia baixa é dado de gravidade e não apenas resultado a corrigir.
Transaminases, amilase, colesterol total e frações, hormônios tireoidianos — todos com uma única finalidade, que é não errar a interpretação. Transaminases elevadas acompanham a desnutrição e melhoram com a recuperação; amilase pode subir por glândula salivar; colesterol elevado é comum e não contradiz o quadro; e triiodotironina baixa com triiodotironina reversa alta e hormônio tireoestimulante normal é síndrome do eutireóideo doente, que se corrige realimentando e não se trata com hormônio tireoidiano.
Densitometria óssea — a diretriz brasileira a recomenda em adolescentes com mais de doze meses de duração do transtorno, com índice de massa corporal baixo e com baixa ingestão de cálcio, e observa que a demonstração da perda óssea pode motivar a adesão ao tratamento. Não é exame da primeira consulta do pronto-socorro; é exame do plano de seguimento, e cabe combiná-lo com quem vai acompanhar.
O eletrocardiograma: quando pedir e o que procurar
Peça eletrocardiograma em toda pessoa com suspeita de transtorno alimentar que tenha bradicardia, hipotensão, síncope, purgação ou qualquer eletrólito alterado — e peça de novo antes de iniciar a realimentação e nos primeiros dias dela. A diretriz brasileira é explícita ao recomendar vigilância eletrocardiográfica para avaliação de arritmias, com atenção particular durante as fases iniciais de realimentação, enquanto o catabolismo se mantém, e na presença de distúrbios hidroeletrolíticos.
Procure três coisas. Ritmo e frequência: a bradicardia esperada é sinusal; qualquer outra coisa muda a rota. Intervalo QT corrigido: a mesma diretriz registra que os achados de prolongamento e de aumento da dispersão do QT são descritos, mas se mantêm controversos, com estudos que não observaram alteração da repolarização, e uma revisão sistemática que descreve intervalo ainda dentro da normalidade apesar de significativamente maior que o de controles de peso normal. Ela registra, porém, referência à associação entre prolongamento do QT e potencial arritmogênico na presença de potássio baixo — que é a situação de quem purga. Sinais de hipocalemia: achatamento de onda T, infradesnivelamento de segmento ST, onda U.
O que este capítulo não faz é ensinar a ler o traçado nem a conduzir a arritmia. A leitura sistemática do eletrocardiograma é de ECG na prática, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; a bradicardia como problema cardiológico e os bloqueios são de Bradiarritmias e bloqueios atrioventriculares, na apostila de Cardiologia. Deste capítulo é a indicação: quem tem transtorno alimentar com eletrólito alterado ou em realimentação precisa de traçado, e precisa de traçado repetido.
A investigação que atrasa o diagnóstico
Há um achado na diretriz brasileira que soa como crítica ao próprio leitor e é: pessoas com transtorno alimentar acompanhadas em serviços clínicos, sem avaliação psiquiátrica inicial, são submetidas a investigação orgânica maior e excessiva quando comparadas às que foram encaminhadas cedo, e esse excesso retarda o diagnóstico. A frase vale ser lida devagar, porque descreve um mecanismo e não um erro isolado.
O mecanismo é o seguinte. A pessoa chega com queixa digestiva inespecífica, que é o grupo mais frequente de complicações do quadro — constipação, distensão, azia, dor abdominal, disfagia funcional, esvaziamento gástrico lentificado. A queixa é real. Investiga-se a queixa. Cada exame normal produz o próximo exame, e o tempo passa. Enquanto isso, ninguém fez a única pergunta que teria mudado o rumo, e a pessoa aprendeu, a cada consulta, que aquele não é um lugar onde se fala disso.
A conduta que interrompe o mecanismo é barata: antes de pedir o terceiro exame de um sintoma inespecífico numa pessoa jovem, pergunte sobre alimentação, exercício e compensação. Não substitua a investigação orgânica — desnutrição por doença clínica existe, e a diretriz brasileira dedica uma pergunta inteira a como diferenciar perda de peso por condição clínica de perda de peso por transtorno alimentar. Apenas coloque a pergunta antes, e não depois de todos os exames terem voltado normais.
Uma segunda armadilha da investigação é a hidratação venosa reflexa. Correr volume em quem está com pressão baixa é o gesto automático do pronto-socorro, e num coração de massa reduzida ele pode produzir congestão. A hidratação venosa de manutenção e de reposição, com seus cálculos, é de Hidratação venosa: manutenção e reposição, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; deste capítulo é o alerta de que aqui o volume é conduta com risco e não conduta neutra, e de que a soroterapia com glicose numa pessoa em restrição prolongada é, sem que ninguém perceba, o primeiro ato de realimentação.
O que este capítulo não investiga, e para onde manda
Risco de suicídio. É alto na anorexia nervosa e mais alto no subtipo purgativo, ao qual a diretriz brasileira atribui maior variedade de comportamentos impulsivos, automutilação e comportamento suicida, além de índices mais altos de depressão e ansiedade. A avaliação e o manejo do risco — como perguntar, como estratificar, o que fazer com a resposta, o que documentar — são inteiros de Risco de suicídio na emergência, o primeiro capítulo desta apostila, e este capítulo não remonta essa régua. O que fica aqui é o que a desnutrição acrescenta a ela, e são três coisas: a restrição alimentar sustentada é, por si, um risco à vida que não depende de haver ideação; a hipoglicemia, a hipocalemia e a hipotensão reduzem a capacidade de julgamento e de crítica da pessoa no momento em que você a entrevista, o que torna a avaliação feita antes da correção metabólica menos confiável; e a mesma pessoa pode não ter nenhuma intenção de morrer e ainda assim estar morrendo.
Humor. O diagnóstico e o tratamento do transtorno depressivo maior são de Depressão maior na unidade básica; a pergunta sobre mania antes de prescrever antidepressivo, o diagnóstico do transtorno afetivo bipolar e o manejo do lítio são de A semana em que ninguém perguntou. As duas são fronteiras quentes aqui, porque a comorbidade é frequente e porque o antidepressivo entra em cena. Deste capítulo é apenas a advertência de que sintomas depressivos podem ser produto da desnutrição e melhorar com a recuperação nutricional, e a de que a diretriz brasileira manda investigar e reconhecer as ansiedades e temores da pessoa diante do possível aumento de peso com os antidepressivos prescritos — conversa que precisa acontecer antes da primeira dose, e não na consulta em que ela abandonou o remédio.
Benzodiazepínico. Prescrição, retirada e o custo de cinco anos são de Um minuto para prescrever, cinco anos para retirar. A diretriz brasileira lista o abuso de benzodiazepínicos entre as comorbidades a verificar na anorexia nervosa de início tardio, e é só isso que este capítulo diz a respeito.
Internação psiquiátrica involuntária. É a fronteira mais fina deste capítulo, porque a situação clássica é justamente uma pessoa que recusa se alimentar e recusa internar. A régua é inteira de Para onde ele vai depois, nesta apostila: as três modalidades da Lei nº 10.216, o que é involuntária e o que é compulsória, o laudo circunstanciado, o prazo de setenta e duas horas de comunicação ao Ministério Público Estadual, a conversão de voluntária em involuntária quando há pedido de alta com contraindicação clínica, e a divergência entre as normas brasileiras sobre quem pode pedir. Nada disso é remontado aqui. O corte é este: aquele capítulo responde como se interna alguém contra a vontade e o que se escreve; este capítulo responde quando o corpo dessa pessoa já não permite esperar, que é a pergunta clínica que antecede a jurídica.
Contenção e sedação. São de O que a sedação apaga, nesta apostila. Este capítulo não descreve técnica de contenção nem esquema de sedação; observa apenas que a bradicardia, a hipotensão e o intervalo QT deste paciente mudam a conta de risco de qualquer sedação, e que essa informação tem de ser dita a quem for prescrever.
Eletrólitos e reposição. A reposição de potássio é de Potássio na enfermaria e a de sódio é de Hiponatremia na enfermaria e Hipernatremia na enfermaria, todas na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, com as doses, as vias e as velocidades. Deste capítulo é o reconhecimento do padrão — o potássio baixo sem causa numa pessoa jovem — e é a hipofosfatemia da realimentação. Sobre esta última há uma declaração a fazer: os distúrbios do fósforo em geral têm capítulo próprio — Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências —, mas a hipofosfatemia da realimentação na anorexia fica aqui por inteiro, do reconhecimento à prevenção e à reposição, porque é aqui que ela acontece.
Desnutrição grave da criança. É de O risco não é a fome, na apostila de Nutrologia Pediátrica, com os dez passos do manual do Ministério da Saúde. É ponto de contato direto com este capítulo e por isso merece o corte explícito, feito no bloco de critérios: as duas réguas de realimentação existem, são brasileiras, e não são intercambiáveis. Violência e maus-tratos são de Violência e maus-tratos infantis, na apostila de Emergências Pediátricas. Obesidade e síndrome metabólica são de Endocrinologia; obesidade infantil, de Nutrologia Pediátrica. Amenorreia como problema é de Amenorreia: em que andar parou, e a osteoporose pós-menopausa, de Osteoporose pós-menopausa, ambas em Ginecologia. Rede de atenção psicossocial, encaminhamento e o que existe no território são de Para onde ele vai depois.
A régua brasileira: o que existe, o que não existe, e as contas que não fecham
Três tabelas e um card guardam o que este capítulo pede de memória. A primeira põe os sinais do corpo em quatro colunas próprias — como procurar, o que o achado mede e o que ele não prova — porque o erro típico não é deixar de ver, é ver e concluir demais. A segunda responde, decisão por decisão, qual documento brasileiro governa e o que ele não cobre; é a tabela mais desconfortável do capítulo, porque metade das linhas termina sem documento. A terceira é a tabela de conversão, refeita em Python contra a apresentação declarada na Rename e na bula, num adulto de sessenta quilos — peso escolhido por ser de faixa comum e declarado apenas para tornar a aritmética conferível, nunca como referência de corpo. Pelo mesmo motivo, este capítulo não imprime nenhum valor de peso, de índice de massa corporal ou de caloria diária que possa ser lido como meta: os limiares numéricos que aparecem aqui são de gravidade e de prescrição. Fecham o bloco as notas de conferência: cada número dos documentos brasileiros recalculado, com a aritmética à mostra, tanto onde ela não fechou quanto onde fechou.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
A régua que o Brasil usa nos transtornos alimentares, desde quando, e o que ela não cobre
A régua existe e cabe em duas peças. A primeira é o capítulo 11 do Caderno de Atenção Básica n. 38, de 2014, que descreve anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar periódica, reproduz quadros de critérios do DSM-IV e da CID-10, apresenta dois instrumentos de rastreamento validados para o Brasil com seus pontos de corte e define o papel da atenção básica como identificar e encaminhar. Esse capítulo está dentro de um caderno cujo assunto é obesidade. A segunda peça é a diretriz Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico, do Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, com elaboração final em 7 de outubro de 2011, assinada por seis sociedades, e classificada pela própria AMB como diretriz desatualizada. E é só. Cinco coisas essa régua não cobre, e é honesto dizer com todas as letras: (1) não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde para transtorno alimentar nenhum, ao contrário do que há para sobrepeso e obesidade em adultos desde 2020; (2) não existe documento brasileiro sobre tratamento da anorexia nervosa — a diretriz de 2011 anuncia, no próprio corpo, que diagnósticos diferenciais e tratamento seriam objeto de diretrizes específicas, e essas diretrizes nunca saíram; (3) não existe diretriz brasileira de sociedade médica sobre bulimia nervosa nem sobre transtorno de compulsão alimentar, de modo que o único ancoradouro terapêutico nacional para bulimia é uma bula; (4) nenhum documento brasileiro fixa os limiares de frequência cardíaca, pressão, temperatura, potássio ou glicemia que indicam internação por transtorno alimentar, e os números que circulam em aula vêm de documentos estrangeiros que este capítulo não apresenta como régua nacional; (5) nenhum documento brasileiro nacional trata da síndrome de realimentação — o que existe é um protocolo estadual de terapia intensiva, com escopo declarado no próprio título. Onde a régua falta, o capítulo diz que falta e mostra a lacuna, em vez de emprestar número estrangeiro fingindo que é norma daqui.
Os sinais que o corpo entrega: como procurar, o que medem, o que não provam
| Achado | Como procurar, na prática | O que ele mede | O que ele NÃO prova |
|---|---|---|---|
| Bradicardia sinusal | Contar o pulso um minuto inteiro, deitada e depois em pé; auscultar procurando ritmo, sopro e bulhas | Predomínio vagal sobre ventrículo esquerdo de massa e dimensões reduzidas, com débito diminuído | Condicionamento físico: o atleta tem pressão normal, extremidades quentes e nenhuma tontura ao levantar |
| Hipotensão e intolerância ortostática | Pressão e frequência deitada e em pé, com o par anotado no prontuário | Que a perfusão de pé já está no limite; costuma explicar a síncope que trouxe a pessoa | Desidratação simples: correr volume sem pensar pode congestionar um coração de massa reduzida |
| Hipotermia axilar de repouso | Ler o número que a triagem já mediu, em vez de só arquivá-lo | Redução da produção de calor somada à perda de isolamento térmico; é marcador de gravidade metabólica | Infecção afastada nem doença tireoidiana: é achado de contexto, não de causa |
| Lanugem | Luz de lado sobre lombar, dorso e antebraços; com luz de frente ela desaparece | Tentativa de recompor isolamento térmico que o subcutâneo já não faz | Hirsutismo nem causa endócrina de excesso androgênico: é pelo fino, claro e macio |
| Erosão do esmalte dentário | Pedir para abrir a boca e olhar a face interna dos incisivos superiores, não a externa | Exposição repetida do esmalte a ácido gástrico | Que o diagnóstico seja bulimia nervosa: purgação também ocorre na anorexia nervosa |
| Aumento indolor de parótidas | Palpar o ângulo da mandíbula bilateralmente, procurando dor, calor e saída de secreção pelo ducto | Estimulação glandular crônica associada à purgação | Parotidite infecciosa: aqui não há dor, calor local nem secreção purulenta |
| Sinal de Russell | Olhar o dorso das duas mãos, sobre as articulações, procurando calo, escoriação ou cicatriz | Contato repetido do dorso da mão com os dentes | Nada sozinho — e sua ausência não afasta purgação, porque nem todo método a produz |
| Hipocalemia sem causa aparente | Perguntar por diurético, laxante, diarreia e doença renal antes de concluir | Perda de potássio por via gástrica ou intestinal, somada a hiperaldosteronismo secundário à depleção de volume | Erro laboratorial: repetir o exame é razoável, atribuir a coleta é o modo mais comum de perder o achado |
| Amenorreia secundária | Perguntar sobre método contraceptivo na mesma frase em que se pergunta pela menstruação | Supressão funcional do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas; sinaliza gravidade | Diagnóstico, nem sua ausência o afasta: quem usa contraceptivo hormonal sangra por privação com o eixo suprimido |
Que régua brasileira governa cada decisão deste capítulo
| Decisão | Documento brasileiro que a governa | Data | O que ele NÃO fixa |
|---|---|---|---|
| Critérios diagnósticos de anorexia e bulimia nervosas | Caderno de Atenção Básica n. 38, cap. 11, que reproduz os critérios do DSM-IV e da CID-10 em dois quadros | 2014 | Não é protocolo clínico nem diretriz terapêutica; e a edição do manual diagnóstico que ele reproduz é a de 2000 |
| Definição e reconhecimento do transtorno de compulsão alimentar periódica | Caderno de Atenção Básica n. 38, cap. 11, item 11.3 | 2014 | Não traz quadro de critérios como faz para os outros dois transtornos, e não fixa conduta |
| Rastreamento na atenção básica | Caderno de Atenção Básica n. 38, que apresenta dois instrumentos validados para o Brasil, com pontos de corte | 2014 | Os próprios instrumentos não são diagnósticos, e o caderno diz isso de forma expressa |
| Diagnóstico e prognóstico da anorexia nervosa por sociedade médica | Projeto Diretrizes AMB/CFM, Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico, de seis sociedades | 7/10/2011 | Classificada pela própria AMB como desatualizada; anuncia diretriz de tratamento que nunca foi publicada |
| Tratamento da anorexia nervosa; qualquer conduta em bulimia ou compulsão | Nenhum: não há PCDT, diretriz de sociedade nem documento do Ministério da Saúde que assuma o tratamento | — | Tudo. É a lacuna central deste capítulo e a razão de ele existir |
| Limiares de gravidade que indicam internação (frequência, pressão, temperatura, potássio, glicemia) | Nenhum documento brasileiro fixa esses limiares para transtorno alimentar | — | Os números que circulam em aula vêm de documentos estrangeiros; este capítulo não os apresenta como régua brasileira |
| Faixas de gravidade da hipocalemia no adulto | Protocolo assistencial nº 295 do Hospital das Clínicas da UFMG (protocolo de serviço, não norma nacional) | 12/2021 | Não é específico de transtorno alimentar e tem duas fronteiras de faixa ambíguas — ver notas 11 e 12 |
| Prevenção da síndrome de realimentação no adulto | Protocolo de assistência nutricional de adultos em terapia intensiva da SES-DF, aprovado por portaria | 10/2019 | É protocolo de terapia intensiva; não cobre enfermaria de psiquiatria nem define a janela do critério de queda do fósforo |
| Realimentação da criança gravemente desnutrida | Manual de atendimento da criança com desnutrição grave em nível hospitalar, do Ministério da Saúde | — | É régua pediátrica e hospitalar, não transferível ao adulto — ver nota 20; pertence a Nutrologia Pediátrica |
| Medicamento com indicação em bula para transtorno alimentar | Bula do cloridrato de fluoxetina: bulimia nervosa, 60 mg ao dia; a Rename traz a apresentação de 20 mg no Componente Básico | Rename 2024 | Não há indicação em bula para anorexia nervosa nem para compulsão alimentar; a Rename não traz sertralina nem lisdexanfetamina |
Tabela de conversão, refeita em Python — adulto de 60 kg, contra a apresentação declarada
| Item e apresentação declarada | A conta | Resultado | O que isso muda na prescrição |
|---|---|---|---|
| Cloreto de potássio 19,1%, 191 mg/mL, declarado como equivalente a 2,56 mEq/mL (Rename, Componente Básico) | 191 mg/mL ÷ 74,55 g/mol = 2,562 mmol/mL, e 1 mmol de potássio = 1 mEq | 2,56 mEq/mL — a Rename fecha. Ampola de 10 mL = 25,6 mEq; 40 mEq = 15,6 mL, ou 1,6 ampola | Nada: é conferência que deu certo, e serve para o interno confiar no número impresso |
| Fosfato de potássio monobásico 0,03 g/mL + dibásico 0,1567 g/mL, declarado como equivalente a 2 mEq/mL (Rename, Componente Básico) | 0,03 ÷ 136,09 = 0,2204 mmol/mL (1 K cada) e 0,1567 ÷ 174,18 = 0,8997 mmol/mL (2 K cada); potássio = 0,2204 + 1,7993 | Potássio 2,02 mEq/mL, que confere. Fósforo = 0,2204 + 0,8997 = 1,12 mmol/mL, que a Rename não declara. Ampola de 10 mL: 20,2 mEq de K e 11,2 mmol de P | Muda tudo: na realimentação prescreve-se pelo fósforo, e o rótulo só informa o cátion. Ofertar 20 mmol de fósforo exige 17,9 mL e arrasta 36 mEq de potássio junto |
| Sulfato de magnésio 10%, declarado como 0,81 mEq/mL de magnésio (Rename, Componente Básico) | 1 g ÷ 246,47 g/mol (heptaidratado) × 2 = 8,11 mEq; contra 1 g ÷ 120,37 (anidro) × 2 = 16,62 mEq | 8,1 mEq por ampola de 10 mL — fecha apenas com o sal heptaidratado | Conferência que deu certo e ainda informa qual sal está na ampola; usar a massa molar do anidro dobraria a conta |
| Fósforo sérico: o protocolo do DF define risco por valor abaixo de 0,65 mmol/L ou queda maior que 0,16 mmol/L | 1 mmol/L de fósforo = 30,974 ÷ 10 = 3,097 mg/dL | 0,65 mmol/L = 2,01 mg/dL; 0,16 mmol/L = 0,50 mg/dL | O laboratório brasileiro imprime mg/dL e o protocolo fala mmol/L: sem converter, o corte não é aplicável à folha de exames que está na mão |
| Cloridrato de tiamina 300 mg comprimido (Rename, Componente Básico) | Busca exata no texto normalizado da Rename por tiamina e por cloridrato de tiamina | Uma única apresentação: comprimido de 300 mg. Não há tiamina injetável, e não há complexo B | A apresentação parenteral não consta da edição da Rename consultada; verificar padronização e estoque hospitalares. Escolher a via pela condição clínica e pelo protocolo: risco elevado ou suspeita de Wernicke pode exigir tiamina parenteral, com obtenção urgente ou referência, sem presumir que o SUS só oferece via oral. |
| Cloridrato de fluoxetina cápsula 20 mg; bula indica 60 mg/dia para bulimia nervosa | 60 ÷ 20 = 3 cápsulas/dia; 3 × 30 dias = 90 cápsulas; 28 ÷ 3 = 9,33 | Três cápsulas por dia; 30 dias exigem 90 cápsulas, ou 3 caixas de 30. A embalagem de 28 cobre 9 dias e sobra 1 cápsula | A dose de bulimia é o triplo da de depressão com a mesma cápsula: receita e dispensação erram por hábito se ninguém escrever a quantidade por extenso |
| Oferta calórica inicial: as duas réguas brasileiras, por quilo | 100 kcal/kg/dia do preparado inicial pediátrico ÷ 15 a 20 kcal/kg/dia dos três primeiros dias no protocolo de terapia intensiva do DF | Razão de 5 a 6,7 vezes por quilo entre as duas réguas | As duas estão certas para as suas populações e nenhuma se copia para a outra; transportar o número pediátrico para um adulto é erro de escala |
Nota 1 — o caderno do Ministério da Saúde afirma duas coisas incompatíveis em dois parágrafos vizinhos. Primeiro: não existem dados nacionais para determinar com exatidão a prevalência dos transtornos alimentares. Em seguida, atribui a uma fonte de 2001, qualificada como baseada em dados epidemiológicos brasileiros recentes, as estimativas de anorexia nervosa em meio por cento das mulheres, bulimia nervosa entre um e dois por cento e comer compulsivo entre dois e três por cento da população em geral. A conta da palavra recentes: o caderno é de 2014 e a fonte é de 2001, treze anos de distância. Ou há dado nacional, e a primeira frase está errada, ou não há, e a segunda não deveria estar apresentada como se houvesse.
Nota 2 — na mesma frase de prevalência, três denominadores diferentes desfilam sem aviso. O primeiro número é declarado como sendo de mulheres. O segundo não declara denominador nenhum. O terceiro é declarado como da população em geral. Somar ou comparar os três, que é o que a leitura de prova induz a fazer, produz uma conclusão sem significado.
Nota 3 — dois documentos brasileiros divergem sobre a proporção de mulheres, e a divergência tem consequência de plantão. O caderno do Ministério da Saúde afirma que mais de noventa por cento dos casos ocorrem na população feminina. A diretriz da Associação Médica Brasileira afirma que cerca de setenta por cento das pessoas com o transtorno são mulheres, que os homens procuram atendimento com menos frequência e que é daí que decorre a constatação de que noventa por cento dos pacientes em tratamento sejam mulheres. A conta é de leitura: noventa por cento é fração de quem chega ao serviço, e virou fração de quem adoece. Quem aprendeu noventa por cento não pensa no diagnóstico diante de um homem.
Nota 4 — a própria diretriz da AMB não fecha suas contas de sexo. Ela declara proporção de quatro para dez entre homens e mulheres e, poucas linhas antes, prevalência ao longo da vida de 0,3% a 2,6% nas mulheres e de 0,2% a 0,3% nos homens. As quatro combinações das pontas dessas faixas dão: 0,2/0,3 = 6,7 homens para dez mulheres; 0,3/0,3 = 10 para dez; 0,2/2,6 = 0,8 para dez; 0,3/2,6 = 1,2 para dez. A proporção declarada de quatro para dez não é nenhuma delas: para obtê-la seria preciso que a prevalência feminina estivesse entre 0,5% e 0,75%, ponto que existe dentro da faixa declarada mas que o documento não escolhe nem justifica.
Nota 5 — a mesma diretriz afirma que a prevalência das síndromes parciais parece ser duas vezes mais comum, e as suas próprias faixas dizem outra coisa. Na resposta sobre quadros parciais ela estima 5% a 12% para as síndromes parciais contra 0,2% a 0,5% para os quadros típicos. Ponta com ponta: 5 ÷ 0,2 = 25 vezes; 12 ÷ 0,5 = 24 vezes; e as combinações extremas vão de 10 a 60 vezes. Nenhuma leitura possível dessas faixas produz duas vezes. O multiplicador declarado está errado por, no mínimo, uma ordem de grandeza.
Nota 6 — a mesma grandeza aparece com duas faixas diferentes em duas respostas do mesmo documento. Síndromes parciais: 5% a 12% numa resposta e 0,3% a 12,0% na seguinte. Quadros típicos: 0,2% a 0,5% numa resposta e 0,3% a 2,6% em mulheres na seguinte. Não há nota, ressalva ou mudança de população declarada entre as duas passagens. Um interno que cite qualquer desses números precisa dizer de qual das duas respostas o tirou.
Nota 7 — a estatística cardiovascular da diretriz da AMB é internamente impossível, e a conta é direta. O documento afirma que a bradicardia está presente em 32% dos casos e que a frequência cardíaca média é de 59 ± 17 batimentos por minuto. Tomando bradicardia como frequência abaixo de 60 e assumindo distribuição aproximadamente normal com essa média e esse desvio, a fração abaixo de 60 seria de 52,3%, e não de 32%. Para que 32% ficassem abaixo de 60 com desvio de 17, a média teria de ser 68. Para que 32% ficassem abaixo de 60 com média 59, o desvio teria de ser 2,1, e não 17. Os três números — a fração, a média e o desvio — não podem estar todos certos.
Nota 8 — a mesma média e desvio produzem uma cauda inverossímil. Com 59 ± 17, a fração abaixo de 40 batimentos por minuto seria de 13,2%, abaixo de 30 seria de 4,4% e abaixo de 26 seria de 2,6%. Frequências dessas em série ambulatorial são achado de sala de emergência, não de média de coorte. O mais provável é que o desvio esteja transcrito errado, mas o documento não permite decidir, e por isso o número não deve ser usado como referência de normalidade.
Nota 9 — erro de unidade por fator dez, na mesma diretriz. Ao comparar quem purga com quem não purga, ela reporta ácido úrico de 6,0 ± 2,0 contra 4,1 ± 1,6 mg/l. Ácido úrico se reporta em mg/dL, e 6,0 mg/L equivaleriam a 0,6 mg/dL, valor incompatível com a vida clínica normal. Os valores só fazem sentido lidos como mg/dL. Na mesma frase, os níveis de creatinina de 1,3 ± 0,6 contra 1,0 ± 0,3 aparecem sem unidade nenhuma.
Nota 10 — defeito de transcrição na mesma passagem: os níveis de potássio são dados como 3,2 ± 0,8 no grupo com purgação contra 4,0 ± mmol/l no grupo sem purgação. O desvio-padrão do grupo de comparação simplesmente não está no texto — o sinal de mais ou menos aparece seguido direto da unidade. A diferença entre os dois grupos continua interpretável pelo valor de p declarado, mas a dispersão do grupo de comparação não é recuperável.
Nota 11 — o protocolo de hipocalemia do Hospital das Clínicas da UFMG define hipocalemia, na introdução, como potássio abaixo de 3,6 mmol/L, e define, na seção de conceito, a faixa normal como 3,5 a 5,1 mmol/L. Sobra uma faixa órfã de 0,10 mmol/L de largura: um resultado de 3,55 mmol/L é hipocalemia pela introdução e é normal pelo conceito, no mesmo documento e a duas páginas de distância.
Nota 12 — no mesmo protocolo, dois valores exatos pertencem a duas classes ao mesmo tempo. As faixas são leve de 3,0 a 3,5, moderada de 2,5 a 3,0 e grave abaixo de 2,5. Um potássio de exatamente 3,5 é normal pela faixa de referência e leve pela classificação; um potássio de exatamente 3,0 é leve e moderado simultaneamente. Como a conduta muda entre as classes — a reposição venosa é indicada nos casos graves, com alteração eletrocardiográfica, com sintomas ou com intolerância à via oral — a ambiguidade não é acadêmica.
Nota 13 — a conta que fecha, no mesmo protocolo, e vale ser registrada porque tranquiliza: ele afirma que uma redução de 0,3 mmol/L na concentração sérica de potássio corresponde a uma redução de cerca de 100 mmol no potássio corporal total. É estimativa clássica e coerente com as ordens de grandeza dos compartimentos; o protocolo a atribui à sua referência e não a apresenta como medida direta.
Nota 14 — o caderno do Ministério da Saúde apresenta o desfecho da anorexia nervosa com faixas que não fecham com a letalidade que declara em seguida. Ele afirma que 30% a 40% se recuperam totalmente, que outros 30% a 40% têm evolução mediana, que o restante tem curso grave e que a letalidade pode chegar a 20%. As quatro combinações das pontas dão restante de 40%, 30%, 30% ou 20%. No cenário mais favorável — 40% mais 40% — o restante é exatamente 20%, e então a letalidade máxima declarada corresponderia a cem por cento do grupo de curso grave. O documento também não declara horizonte de tempo para essa letalidade, o que a torna não interpretável: vinte por cento em cinco anos e vinte por cento em trinta anos são doenças diferentes.
Nota 15 — o mesmo caderno grafa o sinal do dorso da mão como sinal de Russel, com um éle. O epônimo homenageia Gerald Russell e se escreve com dois. A observação parece trivial e não é: o interno que procurar a grafia do caderno numa base de literatura encontra menos, e o achado é um dos poucos deste capítulo que se vê a olho nu.
Nota 16 — no mesmo caderno, o sinal do dorso da mão, a erosão do esmalte e o aumento de parótida aparecem listados apenas como complicações da bulimia nervosa, enquanto a seção imediatamente anterior, sobre anorexia nervosa, descreve indução de vômitos, uso de laxantes e diuréticos e afirma que parte importante das pessoas com anorexia nervosa purgadoras também tem bulimia. O achado pertence ao comportamento e não ao rótulo, e procurá-lo apenas em quem já recebeu o rótulo de bulimia é procurar no lugar errado.
Nota 17 — o caderno do Ministério da Saúde roteia o cuidado do transtorno alimentar na atenção básica pelo Núcleo de Apoio à Saúde da Família e pela definição de critérios de encaminhamento por esse núcleo, citando documento de 2010. O arranjo de equipes multiprofissionais da atenção primária foi refeito por normas federais posteriores, e este capítulo não descreve o conteúdo delas porque não as abriu. Fica o efeito prático: o nome da equipe indicada pelo caderno de 2014 não é necessariamente o nome da equipe que existe no município hoje, e a pergunta sobre quem faz esse papel precisa ser feita no serviço.
Nota 18 — conferência que deu certo, na Rename 2024. A solução de cloreto de potássio a 19,1% aparece com dois números no mesmo verbete: 191 mg por mililitro e a nota de equivalência a 2,56 mEq por mililitro. Recalculando, 191 dividido pela massa molar de 74,55 g/mol dá 2,562 mmol por mililitro, e o potássio é monovalente, de modo que são 2,562 mEq por mililitro. A diferença para o valor declarado é de 0,08%. O número impresso pode ser usado sem recalcular.
Nota 19 — segunda conferência que deu certo, e que informa mais do que confirma. O verbete do sulfato de magnésio a 10% traz a nota de equivalência de 0,81 mEq de magnésio por mililitro, e uma ampola de dez mililitros a essa concentração contém um grama do sal. Com a massa molar do heptaidratado, 246,47 g/mol, e a valência 2, resultam 8,11 mEq por grama — que é exatamente o declarado. Com a massa molar do sal anidro, 120,37 g/mol, resultariam 16,62 mEq, o dobro. A equivalência impressa, portanto, além de fechar, diz qual sal está na ampola.
Nota 20 — o que a Rename declara e o que ela deixa de declarar no fosfato de potássio, e é o íon que importa aqui. A apresentação é fosfato de potássio monobásico 0,03 g/mL somado a dibásico 0,1567 g/mL, com a nota de equivalência a 2 mEq/mL. Recalculando: 0,03 ÷ 136,09 = 0,2204 mmol/mL do monobásico, que traz um potássio por molécula, e 0,1567 ÷ 174,18 = 0,8997 mmol/mL do dibásico, que traz dois; o potássio total é 0,2204 mais 1,7993, ou 2,02 mEq/mL, e o declarado fecha. O fósforo total é 0,2204 mais 0,8997, ou 1,12 mmol/mL, e esse número não está declarado. Na prevenção e no tratamento da síndrome de realimentação prescreve-se pelo fósforo, de modo que quem prescreve tem de fazer essa conta sozinho: ofertar 20 mmol de fósforo exige 17,9 mL da solução e arrasta 36 mEq de potássio junto, o que precisa ser somado ao potássio prescrito em separado.
Nota 21 — duas réguas brasileiras de realimentação existem, e a diferença por quilo entre elas é de 5 a 6,7 vezes. O manual do Ministério da Saúde para a criança com desnutrição grave em nível hospitalar organiza a fase de estabilização em torno de um preparado alimentar inicial que oferece 100 kcal por quilo por dia, e trata como causa de óbito a transição rápida demais entre o preparado inicial e o de crescimento. O protocolo de terapia intensiva do Distrito Federal, para adultos, prevê de 15 a 20 kcal por quilo por dia nos três primeiros dias, com progressão a partir do quarto, além de restrição calórica por 48 horas quando há risco de síndrome de realimentação. As duas estão corretas para as suas populações: a exigência energética por quilo do lactente é muito maior que a do adulto, de modo que o número pediátrico não é agressivo no seu contexto. O erro seria transportar qualquer um dos dois para a população do outro, e a régua da criança pertence ao capítulo O risco não é a fome, na apostila de Nutrologia Pediátrica.
Nota 22 — o critério de risco do protocolo do Distrito Federal define hipofosfatemia por valor abaixo de 0,65 mmol/L ou por redução maior que 0,16 mmol/L, e a segunda metade do critério não vem com janela de tempo nem com valor de base declarado. Em um serviço que dosa uma vez por dia, uma queda de 0,16 mmol/L em vinte e quatro horas e a mesma queda em seis horas disparam a mesma conduta, e são situações clínicas diferentes. Além disso, os dois cortes estão em mmol/L, enquanto o laboratório brasileiro imprime fósforo em mg/dL: convertendo com o fator 3,097, são 2,01 mg/dL e 0,50 mg/dL. Sem essa conversão o critério não é aplicável à folha de exames que está na mão.
Nota 23 — a diretriz brasileira sobre anorexia nervosa se chama Diagnóstico e Prognóstico e não tem nenhuma das suas vinte e três perguntas dedicada a prognóstico. As perguntas cobrem confirmação diagnóstica, subtipos, quadros parciais, prevalência, fobia de peso, amenorreia, apresentação na infância, apresentação de início tardio, diferenças entre homens e mulheres, personalidade, genética, família, cultura, neurobiologia, sinais e sintomas, comportamento alimentar, diagnóstico diferencial de perda de peso, aspectos nutricionais, exames subsidiários e complicações gastrointestinais, cardiovasculares, renais e ósseas. Prognóstico aparece de passagem — pior no início tardio, mais desfavorável no subtipo purgativo, remissão mais frequente e mais rápida em homens — e nunca como pergunta com resposta e grau de recomendação. A metade que o título promete não foi escrita.
Nota 24 — frase sem antecedente na mesma diretriz. A introdução afirma, em sequência, que cerca de 70% dos pacientes são mulheres, que os homens procuram menos atendimento, que daí decorre a constatação de 90% entre os pacientes em tratamento, e então: há cinco vezes mais quadros em adolescentes do que em mulheres. Adolescentes e mulheres não são categorias mutuamente excludentes, de modo que a comparação não tem denominador comum e a frase não é interpretável como está.
Nota 25 — conferência de elenco na Rename 2024, feita por busca exata sobre o texto normalizado, com efeito direto sobre conduta. Constam fluoxetina 20 mg em cápsula e em comprimido no Componente Básico; topiramato 25, 50 e 100 mg e olanzapina 5 e 10 mg no Componente Especializado; cloridrato de tiamina apenas como comprimido de 300 mg; cloreto de potássio, fosfato de potássio e sulfato de magnésio injetáveis no Componente Básico; e glicose a 5%, 10% e 50% injetável. Não constam sertralina nem lisdexanfetamina. Duas consequências: a única molécula do elenco com indicação em bula para transtorno alimentar é a fluoxetina, e só para bulimia nervosa; e a prevenção de encefalopatia de Wernicke na realimentação depende, pelo elenco nacional, da via oral, porque não há tiamina injetável nem complexo B na lista.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo cobre as primeiras setenta e duas horas de alguém que chegou por outro motivo e saiu com o diagnóstico levantado. Ela é escrita para um serviço sem psiquiatra na escala, sem nutricionista no plantão e sem leito de referência — que é a situação em que o interno de fato se encontra. Onde a conduta depende de régua brasileira, a régua está citada; onde não há régua brasileira, isso está dito.
Uma advertência que vale para os oito marcos: em nenhum momento a decisão passa por convencer a pessoa de que ela está magra demais. Essa discussão não tem vencedor, consome o tempo da consulta e destrói a aliança de que o tratamento inteiro depende. O que se negocia é outra coisa — segurança, exame, permanência, retorno.
Marco 1 — antes de prescrever qualquer coisa: ler o que já foi medido e completar o exame
A folha de triagem já traz metade do caso. Leia a temperatura em vez de arquivá-la, e leia a frequência cardíaca sabendo o que ela significa. Depois complete o que falta e que ninguém mede: pressão e frequência em pé, além de deitada, com o par anotado. Faça o exame que a seção de apresentação descreve, e faça-o inteiro, porque é a coincidência de achados de sistemas diferentes que sustenta a hipótese: lanugem à luz de lado, face interna dos incisivos superiores, parótidas, dorso das duas mãos, extremidades. Se a pessoa veio por síncope, esse exame cabe integralmente dentro da investigação da síncope, e não exige nenhuma permissão especial.
Prescrição- Pressão arterial e frequência cardíaca deitada e em pé, com o par registrado em prontuário
- Temperatura axilar de repouso, lida e anotada como dado clínico e não como formalidade da triagem
- Exame dirigido: lanugem, face interna dos incisivos superiores, parótidas, dorso das mãos, perfusão de extremidades
- Eletrocardiograma de doze derivações se houver bradicardia, hipotensão, síncope, purgação ou eletrólito alterado
Marco 2 — pedir a linha de base completa, e não meio painel
O erro mais comum aqui é pedir potássio e parar. Os três eletrólitos que a síndrome de realimentação consome são potássio, fósforo e magnésio, e o protocolo brasileiro de assistência nutricional do Distrito Federal manda dosá-los antes de iniciar terapia nutricional em quem está gravemente desnutrido ou vinha em jejum. Peça os três agora, mesmo que a alimentação só comece amanhã, porque o valor de hoje é a base contra a qual o de amanhã vai ser lido. Some glicemia, função renal, bicarbonato ou gasometria, hemograma e as provas que evitam interpretação errada — transaminases, amilase, colesterol e hormônios tireoidianos. E converta mentalmente o fósforo: o protocolo fala em milimoles por litro e a folha de exames vem em miligramas por decilitro.
Prescrição- Sódio, potássio, fósforo, magnésio e cálcio — os três primeiros são a linha de base da realimentação
- Glicemia, ureia, creatinina, bicarbonato ou gasometria venosa, hemograma completo
- Transaminases, amilase, colesterol total e frações, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre — para não interpretar errado o que vier alterado
- Anotar no prontuário o valor de fósforo também convertido: 0,65 mmol/L equivale a 2,01 mg/dL
Marco 3 — decidir onde essa pessoa passa a noite, antes de decidir o resto
Nenhum documento brasileiro fixa os limiares numéricos que indicam internação por transtorno alimentar, e isso precisa ser dito ao residente e escrito no prontuário: a decisão é clínica e argumentada, não é aplicação de tabela nacional. Os elementos que sustentam a decisão de não mandar para casa hoje são cinco, e eles se somam: instabilidade hemodinâmica, com bradicardia acentuada, hipotensão ou queda ao ortostatismo; alteração eletrolítica com repercussão, sobretudo potássio baixo com alteração no eletrocardiograma; hipoglicemia; hipotermia sustentada; e incapacidade de manter ingestão mínima em casa nos próximos dias, o que se descobre perguntando quem cozinha, quem está em casa e o que aconteceu nas últimas quarenta e oito horas. Registre qual desses elementos está presente, com o número que o comprova.
Prescrição- Escrever no prontuário os cinco elementos, marcando quais estão presentes e com que valor
- Registrar explicitamente que não há limiar numérico nacional e que a decisão é clínica e argumentada
- Se a pessoa concorda em ficar, é internação voluntária e a declaração de opção por esse regime é colhida na admissão
- Se recusa e há critério de gravidade presente, a régua é a do capítulo Para onde ele vai depois — não a improvise aqui
Marco 4 — tiamina, eletrólitos e nutrição em plano coordenado
Avaliar risco de realimentação e colher potássio, fósforo, magnésio e glicemia antes do plano nutricional quando possível. Iniciar tiamina prontamente. Não atrasar glicose em hipoglicemia sintomática para aguardar tiamina ou exames. Reposição de eletrólitos geralmente pode ocorrer em paralelo à alimentação cautelosa; déficits graves, arritmia ou instabilidade podem exigir correção inicial e adiamento/redução de calorias com equipe especializada. Não impor normalização completa prévia de todos os valores a toda pessoa. Somar o potássio fornecido pelo fosfato, conferindo a concentração real da solução e função renal.
Prescrição- Tiamina prontamente; em alto risco ou suspeita de Wernicke considerar via parenteral conforme protocolo. Não atrasar glicose emergencial.
- Repor eletrólitos conforme gravidade, função renal e monitorização, geralmente em paralelo à alimentação cautelosa; déficits graves podem exigir correção antes da progressão.
- Evitar soro glicosado como reflexo: em restrição prolongada, ele é o primeiro ato de realimentação, não uma medida neutra
- Cautela com volume: um ventrículo de massa reduzida congestiona com o que seria um bolus banal — ver Hidratação venosa: manutenção e reposição
Marco 5 — escrever a primeira dieta baixa, e escrever também a velocidade de subida
Definir oferta inicial e progressão com nutrição/equipe experiente conforme desnutrição, tempo de baixa ingestão, sinais vitais e eletrólitos. Não extrapolar automaticamente o esquema de terapia intensiva geral para todo transtorno alimentar. Protocolos diferem: alguns adultos de alto risco começam em torno de 10 kcal/kg/dia, enquanto programas especializados podem adotar ofertas maiores com reposição e vigilância rigorosas. Evitar tanto sobrecarga quanto subalimentação prolongada. Escrever plano de progressão e critérios de pausa, incluindo calorias de infusões; reavaliar diariamente.
Prescrição- Dieta com oferta inicial expressa por quilo por dia, com a data e a condição de progressão escritas na mesma linha
- Progressão individualizada conforme risco, evolução clínica e eletrólitos; não impor 48 horas fixas de restrição a todos os pacientes.
- Registrar a oferta calórica não intencional — soro glicosado e outras infusões — na conta do dia, como o mesmo protocolo pede
- Fracionar as refeições e acompanhar a aceitação por refeição, e não apenas a prescrição
Marco 6 — montar o monitoramento das primeiras 72 horas antes que o plantão vire
O risco de realimentação é maior justamente nos primeiros dias, e o plantão que vai atravessar esse período não é o seu. O protocolo do Distrito Federal orienta que, diante de hipofosfatemia — fósforo abaixo de 0,65 mmol/L, ou 2,01 mg/dL, ou queda maior que 0,16 mmol/L, ou 0,50 mg/dL —, os eletrólitos sejam aferidos duas a três vezes por dia e suplementados quando necessário. Escreva essa frequência na prescrição, com horário, em vez de deixá-la como recomendação verbal. E peça eletrocardiograma seriado: a diretriz brasileira recomenda vigilância eletrocardiográfica com atenção particular às fases iniciais da realimentação e na presença de distúrbio hidroeletrolítico.
Prescrição- Potássio, fósforo e magnésio diários nas primeiras 72 horas; duas a três vezes ao dia se houver hipofosfatemia
- Eletrocardiograma na admissão e repetido nas fases iniciais da realimentação
- Balanço hídrico e peso em dias fixos, com o resultado registrado onde a nutrição e a enfermagem enxerguem
- Sinais de alarme escritos por extenso para a equipe: taquicardia nova, dispneia, edema, confusão, fraqueza muscular, convulsão
Marco 7 — chamar quem falta, com nome e telefone, e não com a palavra equipe
O caderno do Ministério da Saúde afirma que o tratamento deve ser feito por equipe multidisciplinar especializada, composta por psiquiatra, terapeuta, nutricionista, assistente social, enfermeiro, cirurgião-dentista e psicólogo, e atribui à atenção básica o papel de identificar e encaminhar. Num hospital sem nada disso na escala, a frase é verdadeira e inútil, e transformá-la em ato exige três telefonemas. O primeiro é para a nutrição, que decide a dieta com você e não depois de você. O segundo é para a saúde mental do território, que precisa saber que essa pessoa existe antes da alta. O terceiro é para a odontologia, quando há erosão de esmalte, porque o dano dentário é irreversível e o encaminhamento tardio custa dente. Anote os três nomes no prontuário.
Prescrição- Interconsulta ou telefonema à nutrição no mesmo dia, com o risco de realimentação declarado no pedido
- Contato com o serviço de saúde mental do território antes da alta — o roteiro do encaminhamento é de Para onde ele vai depois
- Encaminhamento odontológico quando houver erosão de esmalte, com a razão escrita
- Nome e telefone de cada contato registrados no prontuário, para que o próximo plantão não recomece
Marco 8 — escrever o prontuário e a alta de modo que o próximo não recomece do zero
Este marco é o que separa um plantão bom de um cuidado que continua. Escreva a hipótese com essas palavras, mesmo sem certeza — transtorno alimentar em investigação —, porque o que não é escrito não é lido, e a próxima pessoa vai chegar de novo por síncope. Escreva os achados que a sustentam, com número: a frequência deitada e em pé, a temperatura, o potássio, o fósforo. Escreva o que já foi feito e o que está pendente. Escreva a data do retorno e com quem. E escreva, na alta, uma linha para quem receber essa pessoa: o que aconteceu antes, o que se procurou, o que se encontrou e o que se combinou. Se a pessoa recusou parte do plano, escreva o que ela recusou e com que palavras — isso não é registro defensivo, é o que permite retomar a conversa em vez de reabri-la do começo.
Prescrição- Hipótese escrita por extenso no prontuário, mesmo sem confirmação, com os achados numéricos que a sustentam
- Relação do que foi feito, do que está pendente e do que precisa ser reavaliado, com prazo
- Data, local e responsável do retorno — encaminhamento sem esses três campos não é encaminhamento
- Registro das palavras da pessoa sobre o que ela aceita e o que recusa, para retomar e não reabrir
Como saber se está funcionando
A reavaliação aqui tem uma particularidade: o momento de maior risco não é a chegada, é o segundo e o terceiro dia, quando a pessoa já está comendo e todo mundo relaxou. Os sete parâmetros abaixo são escritos com prazo, com valor esperado e com o que fazer quando o valor não vem — e o mais importante deles é aquele que se mede antes de qualquer melhora aparecer.
Primeiros dias e continuidade. Em alto risco, acompanhar eletrólitos mais de uma vez ao dia quando indicado, glicemia, balanço, edema, peso e sinais vitais, com ECG/telemetria conforme gravidade. Valores iniciais normais não significam reservas normais. Taquicardia nova, dispneia ou confusão após alimentar exigem avaliação imediata; considerar realimentação sem excluir outras causas. Tratar o transtorno exige equipe e intervenção psicológica/nutricional, envolvendo família de forma apropriada; fluoxetina pode integrar tratamento de bulimia, mas não substitui esse cuidado nem a correção de instabilidade.
Esperado: Estável ou em subida lenta. O protocolo do Distrito Federal considera de risco o valor abaixo de 0,65 mmol/L, que são 2,01 mg/dL, ou queda maior que 0,16 mmol/L, que são 0,50 mg/dL
Se não melhora: Queda ou valor abaixo do corte: não suba a oferta calórica, reponha fósforo e aumente a frequência da dosagem. Repare que a solução de fosfato de potássio traz potássio junto, e some esse potássio ao que já foi prescrito. Se o serviço não dosa fósforo, isso não é motivo para acelerar a dieta — é motivo para manter a oferta baixa por mais tempo e para escrever no prontuário por quê
Esperado: Subida progressiva com a reposição, sem queda nova após o início da alimentação
Se não melhora: Potássio que não sobe apesar de reposição adequada quase sempre tem magnésio baixo por trás, porque a correção do potássio depende dele. Verifique também se a purgação continuou durante a internação, e verifique sem acusar: pergunte se as últimas noites foram difíceis. A reposição em si é de Potássio na enfermaria, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado
Esperado: Elevação lenta da frequência de repouso a partir do estado inicial e redução da queda ao ortostatismo, conforme a nutrição avança
Se não melhora: Frequência que não sobe e ortostatismo que não melhora indicam que a oferta ainda não alcançou a necessidade, ou que a ingestão prescrita não está sendo de fato ingerida. Confira a aceitação por refeição antes de concluir qualquer coisa sobre fisiologia. Frequência que sobe rápido demais é o oposto e exige atenção imediata — veja o parâmetro seguinte
Esperado: Ausência. A subida da frequência deve ser lenta e acompanhar a recuperação, não aparecer em salto
Se não melhora: Taquicardia nova com dispneia ou edema num paciente em realimentação é congestão até prova em contrário, num ventrículo de massa reduzida que recebeu sódio e água sob efeito de insulina. Suspenda a progressão da oferta, revise todo o volume infundido, some a oferta calórica não intencional e peça eletrocardiograma. Não trate como ansiedade
Esperado: Estabilização progressiva, sem hipoglicemias de repetição
Se não melhora: Hipoglicemia recorrente em restrição prolongada acontece com glicogênio hepático esgotado e responde mal a correções isoladas. Trate o episódio, mas trate sobretudo a causa, que é a ingestão. Lembre que a glicose de correção é carboidrato e portanto entra na conta da realimentação, e que a tiamina precisa ter vindo antes
Esperado: Aceitação registrada e crescente, com a pessoa participando do que é ofertado
Se não melhora: Aceitação baixa e persistente não é falta de vontade: é o sintoma central do transtorno se manifestando na enfermaria. Pergunte o que está sendo difícil naquele prato específico, negocie o que dá para negociar sem abrir mão do total, e chame a nutrição. Se a recusa se sustenta a ponto de a segurança clínica ficar comprometida, a discussão muda de natureza e a régua é a de Para onde ele vai depois
Esperado: Ela comparece, conversa, discorda quando discorda e volta na data marcada
Se não melhora: Antes de escrever que houve abandono, confira quatro coisas: se a data do retorno estava escrita e ela levou o papel; se o serviço para onde foi encaminhada sabia que ela viria; se alguém em casa pode acompanhá-la; e se, na última consulta, houve alguma conversa sobre peso que a tenha feito decidir não voltar. As quatro têm conserto e nenhuma delas é falta de adesão
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mais frequentemente devolve para casa alguém que precisava ficar. A pessoa costuma de fato praticar exercício de forma intensa e organizada, e vai dizer isso, o que fecha a explicação errada com uma confirmação vinda dela mesma. Enquanto a frequência é atribuída ao treino, ninguém mede a pressão em pé, ninguém pede eletrólito e ninguém pergunta sobre alimentação.
Como pegar a tempo: Use o critério que separa os dois em uma frase: o atleta tem bradicardia com pressão normal ou alta-normal, extremidades quentes e nenhuma tontura ao levantar; aqui a bradicardia vem com hipotensão, extremidades frias e queda ao ortostatismo. Meça as duas posições antes de concluir. Bradicardia com hipotensão e extremidades frias não é atleta.
O dano: Produz meia linha de base. Quando a dieta começar e o fósforo despencar, ninguém vai saber de onde ele caiu, e a decisão de suspender ou manter a progressão vai ser tomada sem o dado que a define. Como o fósforo sérico costuma vir normal antes de a alimentação começar, o exame que se deixou de pedir é justamente o que parecia dispensável.
Como pegar a tempo: Peça os três na mesma requisição, antes da primeira oferta calórica, mesmo que a alimentação só comece no dia seguinte. Anote o valor de fósforo também convertido para miligramas por decilitro, porque o corte do protocolo brasileiro está em milimoles por litro e a folha do laboratório não está.
O dano: É o mecanismo exato da síndrome de realimentação: carga de carboidrato, pico de insulina, deslocamento de fósforo, potássio e magnésio para dentro das células, consumo acelerado de tiamina e retenção de sódio e água num ventrículo de massa reduzida. Os desfechos descritos são arritmia, insuficiência cardíaca, convulsão, rabdomiólise, insuficiência respiratória e encefalopatia de Wernicke. O soro glicosado passa despercebido porque ninguém o registra como alimento.
Como pegar a tempo: Coordenar tiamina, reposição e alimentação cautelosa, considerando gravidade. Em geral podem ocorrer em paralelo; déficits graves ou instabilidade podem exigir correção inicial. Não atrasar glicose emergencial. Contar calorias de todas as vias e definir progressão.
O dano: Deixa passar todo homem, toda pessoa que continua menstruando apesar da restrição e toda pessoa em uso de contraceptivo hormonal, que sangra por privação com o eixo suprimido. Exigir critério completo tem efeito parecido e maior: a diretriz brasileira registra que os quadros parciais são mais prevalentes que os completos, evoluem para o quadro completo em parte considerável dos casos e cursam com complicações clínicas reais.
Como pegar a tempo: Pergunte pelo método contraceptivo na mesma frase em que pergunta pela menstruação. E troque a pergunta que organiza o raciocínio: em vez de "ela preenche os critérios?", pergunte "há restrição, purgação ou compulsão organizando a vida dessa pessoa, e o corpo já está pagando por isso?". A segunda pergunta cabe num plantão e decide conduta.
O dano: É uma discussão sem vencedor possível, e cada rodada dela ensina à pessoa que aquele consultório é um lugar onde ela vai ser contrariada. O custo aparece na consulta seguinte, que não acontece. A diretriz brasileira descreve que a percepção do próprio corpo está alterada de forma nuclear no quadro, o que significa que argumentar contra ela é argumentar contra o sintoma.
Como pegar a tempo: Negocie outra coisa: segurança, exame, permanência, retorno. Fale de frequência cardíaca, de potássio, de desmaio na fila — dados que existem fora da percepção dela e que ela mesma pode conferir. Diga o que você vai fazer e por quê, sem pedir que ela concorde com o seu diagnóstico do corpo dela.
O dano: As duas leituras destroem o único ativo que sustenta o tratamento, que é a aliança, e nenhuma das duas encontra amparo nos documentos brasileiros consultados. A primeira transforma um sintoma central em falha de caráter e faz a equipe recuar do cuidado justamente quando ele é mais necessário. A segunda afasta as pessoas de quem a diretriz brasileira diz depender o manejo, e que precisam entender que a pessoa não tem, naquele momento, condições de cuidar de si sozinha.
Como pegar a tempo: Trate a recusa como se trata qualquer sintoma: descreva, quantifique, procure o que a agrava e o que a alivia, e registre. Trate a família como parte da solução e dê a ela tarefa concreta e possível. E cuide da linguagem escrita: o transtorno é uma coisa que a pessoa tem, não uma coisa que ela é, e o prontuário que usa o diagnóstico como substantivo para nomeá-la já começou errado.
O que dizer ao paciente e à família
Sete falas, todas testadas contra o mesmo critério: nenhuma delas pede que a pessoa concorde com o seu diagnóstico do corpo dela antes de aceitar o cuidado. Elas são escritas em português de plantão e podem ser ditas como estão.
Abrir o assunto depois do exame físico, sem que soe como acusação
“"Eu terminei o exame e quero te contar o que eu encontrei, porque é você quem vai decidir comigo o que fazer. Seu coração está batendo devagar, sua pressão está baixa, sua temperatura está abaixo do normal e sua mão está fria num dia de trinta e um graus. Essas quatro coisas juntas costumam aparecer quando o corpo está recebendo menos energia do que gasta, há bastante tempo. Eu não vim aqui discutir seu peso. Eu vim entender o que está acontecendo com o seu corpo, porque foi ele que te trouxe aqui hoje."”
Não diga: Evite abrir com "você está muito magra". A frase é lida como julgamento e como algo a ser desmentido, e transforma a consulta numa discussão que não tem vencedor. Evite também abrir com "você tem anorexia?" — é a pergunta que ninguém responde sim.
Quando ela responde "eu como normal"
“"Tudo bem, e eu acredito em você. Me ajuda com uma coisa mais fácil de responder: me conta o dia de ontem, do começo ao fim. Qual foi a primeira coisa que entrou na sua boca depois que você acordou, que horas foi, e o que veio depois disso? Não precisa ser exato, é só para eu ter uma ideia do formato do seu dia."”
Não diga: Evite confrontar a resposta com o exame físico neste momento — "não pode ser, porque o seu potássio está baixo". A contradição pode ser dita depois, quando já houver conversa; dita agora, encerra a conversa. Evite também perguntar quantas calorias ou quantos quilos: números disparam a parte do problema que você não quer alimentar.
Explicar por que ela precisa ficar, sem falar de peso
“"Eu preciso que você fique aqui hoje, e vou te dizer exatamente por quê. Seu coração está em quarenta e quatro, sua pressão cai quando você levanta, e seu exame mostrou um sal do sangue chamado potássio abaixo do normal — é ele que faz o coração bater no ritmo certo. Não é sobre o seu peso. É sobre o risco de você desmaiar de novo e sobre o seu coração. A gente corrige isso em poucos dias e depois conversa sobre o resto, com calma."”
Não diga: Evite "você precisa ganhar peso" como justificativa da internação, mesmo quando é verdade a médio prazo. Como razão para ficar hoje, ela é a única frase capaz de fazer a pessoa preferir ir embora.
Explicar por que a comida vai começar devagar — a informação mais contraintuitiva do capítulo
“"Uma coisa que vai parecer estranha e eu prefiro te avisar antes. A gente não vai começar com muita comida. Vai começar com pouco e subir aos poucos, ao longo de vários dias. Isso não é castigo e não é desconfiança. É que, depois de muito tempo comendo pouco, o corpo guarda pouco de algumas substâncias, e se a comida volta rápido demais essas substâncias somem do sangue de uma vez e o coração sofre. Por isso a gente vai colher exame todo dia e subir a quantidade só quando o exame deixar. Se você achar pouco, me fala — isso é justamente o que eu preciso saber."”
Não diga: Evite deixar a lentidão sem explicação. Sem ela, a pessoa lê a dieta reduzida como concordância da equipe com a restrição, e a família lê como descaso. Evite também prometer prazo — "em três dias você já come normal" — porque quem decide o degrau é o exame.
Falar com a mãe, ou com quem veio junto, sem transformar a família em ré
“"A senhora percebeu antes de todo mundo, e trouxe ela aqui. Isso conta muito. O que está acontecendo é uma doença, não é teimosia dela e não é falha da senhora. Ela vai precisar da senhora de um jeito específico: não para vigiar o prato, mas para estar junto na hora das refeições e para me contar o que a senhora observar, sem cobrar. Cobrança, aqui, costuma piorar. Presença ajuda."”
Não diga: Evite pedir à família que controle a alimentação em casa como tarefa principal — o pedido costuma transformar a mesa num campo de batalha diário. Evite também perguntar, na frente da pessoa, se a família "não percebeu antes": a culpa que essa pergunta cria não muda nada e custa o aliado.
Quando ela diz que não quer ficar e quer ir embora agora
“"Eu ouvi. Você tem o direito de me dizer isso e eu não vou fingir que não ouvi. Deixa eu te contar o que me preocupa em números, e aí a gente decide junto o que é possível. Isso aqui — a frequência do seu coração, a queda da sua pressão quando você levanta, o potássio — é o que me faz achar arriscado você passar a noite em casa. Se a resposta continuar sendo não, eu preciso te dizer com honestidade o que a lei me obriga a considerar quando alguém está em risco e não aceita ficar, e eu prefiro te explicar isso olhando pra você do que fazer sem te contar."”
Não diga: Evite ameaçar com internação como argumento de persuasão, e evite improvisar a régua legal na conversa. A modalidade, o documento, o prazo e quem pede estão em Para onde ele vai depois, nesta apostila, e a conversa fica melhor quando quem fala já leu aquilo.
Quando o antidepressivo entra em cena e ela pergunta se engorda
“"Essa pergunta é importante e eu prefiro que você faça agora, comigo, do que descubra sozinha em casa e pare de tomar sem me contar. Vamos combinar assim: eu te explico o que esse remédio faz e o que ele pode causar, você me diz o que te preocupa, e se em algum momento você sentir que quer parar, você me liga antes. Parar sozinha é o único cenário ruim aqui."”
Não diga: Evite responder "não, isso não engorda" para encerrar o assunto. A diretriz brasileira pede explicitamente que se investiguem e se reconheçam as ansiedades e temores da pessoa diante do possível aumento de peso com os antidepressivos prescritos, e a resposta rápida fecha justamente a conversa que evita o abandono. A escolha do antidepressivo e o seu manejo são de Depressão maior na unidade básica, e a pergunta obrigatória sobre mania antes de prescrever é de A semana em que ninguém perguntou.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O caderno do Ministério da Saúde, de 2014, trata a ausência de ciclos como elemento do diagnóstico
O capítulo 11 do Caderno de Atenção Básica n. 38 reproduz, em quadro, os critérios do DSM-IV, em que a ausência de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos aparece como item numerado, e os da CID-10, em que o transtorno endócrino generalizado do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas se manifesta como amenorreia nas mulheres e como perda de interesse e potência sexuais nos homens. Quem sustenta esta leitura tem a favor a objetividade: é um dado dicotômico, colhido em uma pergunta, que não depende de balança nem de interpretação, e que sinaliza supressão de um eixo inteiro. Num serviço com pouco tempo por consulta, critérios que se verificam com uma pergunta são os que efetivamente são verificados.
Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade. Brasília, 2014. (Cadernos de Atenção Básica, n. 38), cap. 11, p. 161-170. Quadro 22 — critérios diagnósticos para anorexia nervosa segundo o DSM-IV e a CID-10.
A diretriz da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, de 7 de outubro de 2011, a rebaixa a sinal associado
A resposta dedicada ao tema conclui que a presença da amenorreia deve ser analisada como um dos sinais e sintomas associados à doença, sinalizando gravidade, e que ela não pode ser considerada um marcador biológico relacionado à etiologia ou a algum aspecto nuclear do transtorno. A diretriz sustenta essa posição com achados que ela mesma reúne: a amenorreia precede a perda de peso em parte dos casos e pode persistir após o ganho de peso; mulheres com baixo percentual de gordura menstruam normalmente; e as diferenças psicopatológicas e de resultado de tratamento entre quem tem e quem não tem amenorreia são pequenas, sendo os indicadores nutricionais a principal diferença clínica entre os dois grupos.
Associação Médica Brasileira; Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes. Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico. Elaboração final: 7 de outubro de 2011. Resposta 6: qual é a importância da amenorreia para o diagnóstico de AN?
Decida pela pessoa que está na sua frente, com três perguntas na ordem. Primeira: essa pessoa usa contraceptivo hormonal? Se usa, o sangramento é por privação e o critério não é aplicável, de modo que a ausência dele não informa nada — e usá-lo aqui, em qualquer direção, é erro puro. Segunda: essa pessoa menstrua? Se menstrua e todo o resto está presente, a leitura que exige o critério a exclui do diagnóstico e a leitura da diretriz não a exclui; escolha a que permite cuidar, e registre no prontuário que o critério clássico não está completo. Terceira: se a amenorreia está presente, há quanto tempo? Aqui as duas leituras convergem e a resposta muda conduta de verdade, porque a diretriz brasileira lista seis meses ou mais de amenorreia secundária entre os preditores de baixa densidade mineral óssea, o que torna a duração um dado de seguimento e não apenas um item de checklist.
O caderno do Ministério da Saúde, de 2014, atribui à atenção básica identificar e encaminhar
O documento afirma que o tratamento deve ser feito por equipe multidisciplinar especializada, composta por psiquiatra, terapeuta, nutricionista, assistente social, enfermeiro, cirurgião-dentista e psicólogo, e descreve o papel da atenção básica como compreender a identificação dos casos, com encaminhamento a centros de atendimento especializados que disponham de equipe multiprofissional treinada e habilitada. Quem sustenta esta leitura argumenta que o transtorno alimentar exige competência específica, que a improvisação por equipe não treinada produz dano — inclusive iatrogenia alimentar — e que reconhecer o limite do próprio serviço é parte da boa prática.
Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade. Brasília, 2014. (Cadernos de Atenção Básica, n. 38), cap. 11, p. 161-170. Item 11.4 — o papel da Atenção Básica nos transtornos alimentares.
A diretriz de 2011 registra que a permanência em serviços clínicos sem avaliação psiquiátrica inicial atrasa o diagnóstico, e ao mesmo tempo descreve a avaliação como tarefa de quem está com a pessoa
A mesma diretriz que aponta o atraso produzido pela investigação orgânica excessiva descreve, ao longo de vinte e três respostas, uma avaliação inteiramente exequível fora de serviço especializado: antropometria, história alimentar e menstrual, exame físico, exames laboratoriais subsidiários, eletrocardiograma e densitometria. Quem sustenta esta leitura argumenta que, num país onde o número de serviços especializados é pequeno e a distância é grande, encaminhar sem tratar equivale a não tratar; que o intervalo entre o encaminhamento e a primeira consulta especializada é justamente o intervalo em que a complicação clínica acontece; e que a corrida de exames que atrasa o diagnóstico não é consequência de tratar no serviço geral, e sim de tratar sem ter feito a pergunta.
Associação Médica Brasileira; Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes. Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico. Elaboração final: 7 de outubro de 2011. Respostas 19 a 23 (exames subsidiários e complicações) e resposta 20, sobre investigação orgânica excessiva em serviços clínicos sem avaliação psiquiátrica inicial.
Não decida no abstrato, decida com dois números do seu território e uma pergunta clínica. Primeiro número: existe serviço com equipe multiprofissional para transtorno alimentar acessível a essa pessoa, com nome e endereço? Segundo número: em quantos dias ela seria vista lá, contados de hoje? Se a resposta ao primeiro for não, a discussão acabou e o cuidado é seu, com apoio de quem houver — e o roteiro de descobrir o que existe no território é de Para onde ele vai depois, nesta apostila. Se houver serviço mas o prazo for longo, faça as duas coisas: encaminhe e assuma o intervalo, por escrito, com data de retorno marcada com você. A pergunta clínica que decide o resto é qual risco é maior para esta pessoa nas próximas duas semanas — o de uma complicação clínica sem ninguém acompanhando, ou o de um tratamento conduzido por quem tem menos experiência. Quando o corpo já deu sinal, o primeiro risco costuma ser o que aparece antes.
Quem prescreve cedo se apoia na comorbidade e no que a diretriz de 2011 pressupõe
A diretriz da Associação Médica Brasileira lista depressão e ansiedade entre as manifestações associadas, atribui ao subtipo purgativo índices mais altos de depressão e ansiedade e maior comportamento suicida, e manda o médico investigar e reconhecer as ansiedades e temores da pessoa diante do possível aumento de peso com os antidepressivos prescritos — frase que pressupõe a prescrição como prática corrente. O caderno do Ministério da Saúde inclui o tratamento psiquiátrico entre as metas do tratamento. Quem sustenta prescrever cedo argumenta que a depressão não tratada compromete a adesão a tudo o mais, e que esperar a recuperação nutricional para tratar humor pode significar não tratar por meses.
Associação Médica Brasileira; Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes. Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico. Elaboração final: 7 de outubro de 2011. Resposta 15 (sinais e sintomas) e introdução, sobre as ansiedades diante do ganho de peso com os antidepressivos prescritos; e Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: obesidade. Brasília, 2014. (Cadernos de Atenção Básica, n. 38), cap. 11, p. 161-170. item 11.4, sobre as metas de tratamento.
Quem espera se apoia na ausência de indicação registrada e na reversibilidade descrita pelos mesmos documentos
Não há, no Brasil, medicamento com indicação em bula para anorexia nervosa: a fluoxetina, única molécula do elenco da Rename 2024 com indicação para transtorno alimentar, tem registro para bulimia nervosa, com dose de 60 mg ao dia. A diretriz de 2011 registra, sobre as alterações bioquímicas, hematológicas e hormonais do quadro, que elas decorrem da desnutrição e desaparecem completamente com alimentação adequada e recuperação do estado nutricional. Quem sustenta esperar argumenta que parte do que se lê como depressão é fome prolongada; que prescrever antes da correção expõe um coração bradicárdico, hipotenso e com intervalo QT sob vigilância a um risco adicional; e que a primeira conversa sobre um remédio que a pessoa teme que a faça engordar é melhor conduzida quando já existe aliança.
Bula do cloridrato de fluoxetina, cápsula dura 20 mg (medicamento genérico), item de indicações e de dosagem; e Brasil. Ministério da Saúde. Rename 2024, Componente Básico. E Associação Médica Brasileira; Conselho Federal de Medicina. Projeto Diretrizes. Anorexia Nervosa: Diagnóstico e Prognóstico. Elaboração final: 7 de outubro de 2011. resposta 19, sobre a reversibilidade das alterações com a recuperação do estado nutricional.
Decida pelo que muda o desfecho desta pessoa nas próximas semanas, com três verificações. Primeira: há risco de suicídio ativo? Se há, a decisão sai deste capítulo e entra na régua de Risco de suicídio na emergência, o primeiro capítulo desta apostila, e o tempo deixa de ser um recurso disponível. Segunda: os sintomas de humor precedem a restrição alimentar ou apareceram depois dela? Um quadro depressivo que já existia antes e tem história própria pede tratamento próprio; um que apareceu no curso da restrição merece ser reavaliado depois da correção metabólica, e o intervalo precisa ter data marcada e não ser indefinido. Terceira: o eletrocardiograma e os eletrólitos estão corrigidos? Prescrever psicotrópico com potássio baixo e intervalo QT não conferido é decidir por omissão. Qualquer que seja a escolha, escreva no prontuário qual foi, por quê, e quando ela será revista — e tenha a conversa sobre o medo de engordar antes da primeira dose, não depois do abandono.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, dezoito e dez. Fidélia Pacoti, dezenove anos, continua na maca da sala de observação porque a técnica de enfermagem Manoelina Muriaé alcançou o interno antes de a alta ser assinada e disse que aquela mesma paciente já tinha ido embora com soro duas vezes este ano. Os sinais vitais da entrada estão no papel: frequência cardíaca de quarenta e quatro, pressão de oitenta e seis por cinquenta e quatro deitada, temperatura axilar de trinta e cinco graus e seis décimos, glicemia capilar de sessenta e dois, saturação de noventa e nove por cento. A mãe está no corredor. O plantão tem mais onze pessoas esperando e não há psiquiatra na escala, não há nutricionista no plantão e não há leito de referência para transtorno alimentar em um raio de cento e vinte quilômetros.
Passo 1 — refazer o exame que já foi feito, agora sabendo o que procurar
O interno volta à maca sem prancheta. Mede a pressão deitada e em pé: oitenta e seis por cinquenta e quatro deitada, setenta e dois por quarenta e oito em pé, com a frequência subindo de quarenta e quatro para cinquenta e oito e Fidélia dizendo que a vista escureceu. Esse par de medidas, que ninguém tinha colhido, explica a síncope da fila da xerox e vale mais que a tomografia que ele tinha cogitado. Com a luz de lado, a lanugem nos antebraços e na região lombar fica evidente. As parótidas estão simétricas e não aumentadas. O dorso das mãos não tem calo. Ele pede para ela abrir a boca e olha a face interna dos incisivos superiores: o esmalte está preservado. O conjunto aponta para restrição sem purgação — informação que muda o que ele espera do potássio, e não muda a gravidade.
Passo 2 — perguntar pela porta da síncope, e não pela porta do julgamento
Ele começa pelo que ela veio: quantas vezes, em que posição, o que estava fazendo. Depois desliza para o dia de ontem, do começo ao fim, começando pela primeira coisa que entrou na boca depois de acordar. O relato tem buracos, e os buracos são a informação. Ele pergunta se há alimentos que ela evita e há quanto tempo; quantas horas por semana ela se exercita e o que acontece quando não consegue; se sente mais frio que as pessoas em volta. Pergunta pela menstruação e pelo método contraceptivo na mesma frase — Fidélia não usa nenhum e não menstrua há sete meses. Em nenhum momento ele diz que ela está magra, e em nenhum momento ela precisa admitir nada. No fim, pede que a mãe saia por cinco minutos e refaz duas perguntas: sobre vômito e sobre laxante. As duas respostas são não, e vêm sem hesitação.
Passo 3 — pedir a linha de base inteira, e não meio painel
Na requisição vão sódio, potássio, fósforo, magnésio e cálcio; glicemia, ureia, creatinina e bicarbonato; hemograma; transaminases, amilase, colesterol total e frações, hormônio tireoestimulante e tiroxina livre. Ele escreve na requisição a razão de pedir fósforo e magnésio, que é montar a linha de base antes de qualquer realimentação — porque quem receber o resultado no plantão da noite precisa saber por que aqueles dois estão ali. E pede eletrocardiograma de doze derivações, indicado pela bradicardia com hipotensão e síncope.
Passo 4 — ler o que voltou, inclusive o que voltou normal
Potássio de três vírgula um, sódio normal, magnésio no limite inferior, fósforo dentro da faixa, glicemia de sessenta e sete, hemoglobina discretamente baixa com leucócitos de três mil e novecentos, transaminases levemente elevadas, colesterol total acima da faixa, triiodotironina baixa com hormônio tireoestimulante normal. O eletrocardiograma mostra bradicardia sinusal de quarenta e seis, sem prolongamento do intervalo QT corrigido, com onda T de baixa amplitude em derivações precordiais. O interno faz duas leituras que o capítulo pediu. A primeira: o padrão tireoidiano é síndrome do eutireóideo doente, corrige com realimentação e não se trata com hormônio — e ele escreve isso no prontuário para que ninguém prescreva levotiroxina de madrugada. A segunda, mais importante: o fósforo normal não é boa notícia, é o valor de partida de alguém em catabolismo, e ele anota o número junto com a conversão e com a data e a hora da coleta.
Passo 5 — decidir onde ela passa a noite, e escrever por quê
Não há limiar numérico brasileiro para essa decisão, e é isso que ele escreve na primeira linha da evolução, junto com a frase de que a decisão é clínica e argumentada. Depois lista os elementos presentes com o número que os comprova: bradicardia de quarenta e quatro a quarenta e seis; hipotensão com queda ao ortostatismo, com os dois pares anotados; hipotermia sustentada em duas aferições; hipoglicemia de sessenta e dois na chegada e sessenta e sete no laboratório; potássio de três vírgula um. Depois checa a quinta condição perguntando à mãe quem cozinha e o que aconteceu nas últimas quarenta e oito horas — e a resposta é que ninguém está em casa durante o dia. Fidélia ouve o argumento em números, sem uma palavra sobre peso, e concorda em ficar. A internação é voluntária e a declaração de opção por esse regime é colhida na admissão.
Passo 6 — coordenar reposição, tiamina e alimentação segura
A prescrição sai com a ordem explícita. Prescrever tiamina prontamente, escolhendo a via pela gravidade e risco de Wernicke. A lista federal não prova o estoque hospitalar; se houver indicação parenteral, organizar acesso sem presumir equivalência do comprimido. Não atrasar glicose emergencial. Reposição de potássio e de magnésio, cujas doses, vias e velocidades estão em Potássio na enfermaria, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. Nenhum soro glicosado de rotina: ele escreve, na prescrição, que qualquer infusão com glicose deve ser comunicada porque entra na conta calórica do dia. A dieta é iniciada com reposição e monitorização coordenadas; déficits graves ou instabilidade podem exigir correção inicial, sem regra de esperar normalização completa de todos os eletrólitos.
Passo 7 — prescrever a dieta com a velocidade de subida escrita na mesma linha
A dieta sai com quatro informações e não com uma: a oferta inicial expressa por quilo por dia, o número de dias em que ela fica assim, a condição para subir e o tamanho do degrau. Ele segue a conduta preventiva do protocolo brasileiro de assistência nutricional, mantendo a oferta baixa por quarenta e oito horas antes de progredir, e escreve que a progressão depende de potássio, fósforo e magnésio dosados no dia. Prescreve os três eletrólitos diários por setenta e duas horas, com a observação de que passam a duas a três vezes ao dia se o fósforo cair abaixo de dois vírgula zero um miligramas por decilitro ou cair mais de zero vírgula cinquenta miligrama por decilitro em relação ao valor anterior. Marca eletrocardiograma de repetição no segundo dia. E escreve, em letra que a enfermagem lê, os sinais de alarme: taquicardia nova, falta de ar, inchaço, confusão, fraqueza muscular.
Passo 8 — fazer as três ligações e escrever a alta antes de ela existir
Antes de sair do plantão, ele liga para a nutrição do hospital e declara o risco de realimentação no pedido, em vez de escrever apenas dieta hipocalórica. Liga para o serviço de saúde mental do município, dá o nome de Fidélia e pergunta o dia de acolhimento — e anota o nome de quem atendeu. Conversa com a mãe no corredor, dizendo que ela percebeu antes de todo mundo, que aquilo é doença e não teimosia, e que o pedido não é vigiar o prato, é estar junto nas refeições. E deixa escrita, na evolução, a hipótese com essas palavras — transtorno alimentar em investigação, com restrição alimentar e sem purgação identificada —, os achados numéricos que a sustentam, o que está pendente e a data do retorno. Fidélia recebe alta no quinto dia, com potássio corrigido, sem episódio de hipofosfatemia e com consulta marcada. Nada disso garante desfecho: garante apenas que a próxima pessoa que a atender não vai começar do zero.
Faça você
Longino Macaúbas tem vinte e quatro anos, é auxiliar administrativo e está internado há quarenta e oito horas na enfermaria de clínica médica de um hospital municipal. Entrou pelo pronto-socorro depois de uma queda em casa, com fraqueza e tontura, e a hipótese de admissão foi desidratação com hipotensão a esclarecer. A folha de admissão registra frequência cardíaca de quarenta e oito, pressão de noventa por sessenta, temperatura axilar de trinta e cinco graus e sete décimos, potássio de três vírgula quatro e sódio normal; não foram pedidos fósforo nem magnésio. A prescrição de entrada tem dieta livre para aceitação, soro glicosado a cinco por cento contínuo e reposição de potássio por via oral. A mãe contou, na admissão, que ele treina musculação todos os dias e que come pouco há mais de um ano, mas a informação não foi registrada. Ninguém perguntou sobre alimentação depois disso. Agora é a manhã do terceiro dia, e a técnica de enfermagem chama porque Longino acordou cansado. A frequência cardíaca está em cento e dez, ele está com falta de ar aos pequenos esforços, tem edema de tornozelos que não existia ontem, refere fraqueza nas coxas e está mais lento na conversa. A folha de exames da noite traz potássio de dois vírgula nove, magnésio no limite inferior e fósforo de um vírgula quatro miligrama por decilitro — a primeira dosagem de fósforo da internação, pedida ontem por outro plantonista.
Passo 1 — nomeie o que está acontecendo antes de tratar cada número separadamente
A tentação é tratar três coisas em paralelo: repor potássio, dar diurético para o edema e pedir eletrocardiograma pela taquicardia. Antes disso, junte. O que muda entre a admissão e hoje não é a doença de base, é que ele começou a comer. Pergunte-se qual mecanismo único produz, ao mesmo tempo, queda de potássio, queda de fósforo, magnésio baixo, taquicardia nova, dispneia e edema em alguém que estava bradicárdico há dois dias.
Passo 2 — some a oferta calórica que ninguém contou
Releia a prescrição de entrada inteira e some tudo o que entrou como carboidrato, inclusive o que não se chama comida. O protocolo brasileiro de assistência nutricional manda considerar a oferta calórica não intencional, e nomeia o soro glicosado como exemplo. Pergunte-se também o que não foi dado antes da primeira carga de carboidrato, e por que essa omissão importa em alguém que passou mais de um ano comendo pouco.
Passo 3 — decida o que suspender, o que repor e em que ordem
Escreva a conduta em ordem, com o que vem primeiro. Considere: o que precisa parar hoje; qual eletrólito repor e por que a solução de um deles arrasta outro junto; o que dar antes de qualquer nova carga de carboidrato; e qual exame precisa ser feito agora e repetido. Não é preciso decorar dose para responder este passo — é preciso acertar a ordem e o motivo de cada item.
Passo 4 — escreva o monitoramento e diga o que muda no exame físico se você acertou
Defina com que frequência os eletrólitos serão dosados nas próximas quarenta e oito horas, o que precisa estar verdadeiro para a dieta voltar a subir, e quais três achados do exame físico devem regredir se a sua leitura estiver certa. Escreva também o que você diria ao plantão da noite em duas frases.
Ver como fecharíamos
O que está acontecendo é síndrome de realimentação instalada no terceiro dia de internação, precipitada por uma dieta livre somada a soro glicosado contínuo em alguém com mais de um ano de ingestão insuficiente — e agravada por três omissões da admissão: não se pediu fósforo nem magnésio, não se deu tiamina antes da carga de carboidrato, e a informação da mãe sobre a alimentação não foi registrada. O mecanismo explica todos os achados de uma vez: a carga de carboidrato desencadeou liberação de insulina, que empurrou fósforo, potássio e magnésio para dentro das células em anabolismo, e ao mesmo tempo promoveu retenção renal de sódio e água num ventrículo esquerdo de massa reduzida. Daí o fósforo de um vírgula quatro miligrama por decilitro — abaixo do corte de dois vírgula zero um miligrama por decilitro, que é a conversão do zero vírgula sessenta e cinco milimol por litro do protocolo brasileiro —, o potássio que caiu de três vírgula quatro para dois vírgula nove apesar de reposição oral, o magnésio no limite, a fraqueza proximal e a lentificação, e a taquicardia com dispneia e edema, que aqui é congestão e não ansiedade. A bradicardia inicial ter desaparecido não é melhora: é o coração respondendo à sobrecarga. A conduta tem ordem. Reduzir ou pausar progressão conforme gravidade da síndrome e reavaliar frequentemente com a equipe; 48 horas não é duração obrigatória para toda pessoa. Segundo, tiamina antes de qualquer nova carga de carboidrato, com a observação de que a Rename 2024 traz apenas o comprimido de trezentos miligramas e nenhuma apresentação injetável, o que exige planejar a via. Terceiro, repor fósforo, potássio e magnésio, lembrando que a solução de fosfato de potássio do elenco nacional traz um vírgula doze milimol de fósforo por mililitro e arrasta dois vírgula zero dois miliequivalentes de potássio no mesmo mililitro — ofertar vinte milimoles de fósforo entrega trinta e seis miliequivalentes de potássio, que precisam ser somados ao potássio prescrito à parte, sob pena de hipercalemia. As doses, as vias e as velocidades do potássio são de Potássio na enfermaria, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e o cuidado com volume é de Hidratação venosa: manutenção e reposição, na mesma apostila. Quarto, eletrocardiograma agora e repetido, pela recomendação da diretriz brasileira de vigilância eletrocardiográfica nas fases iniciais da realimentação e na presença de distúrbio hidroeletrolítico. O monitoramento passa a potássio, fósforo e magnésio duas a três vezes ao dia enquanto houver hipofosfatemia, conforme o mesmo protocolo, e a dieta só volta a subir com os três estáveis por vinte e quatro horas. Se a leitura estiver certa, três achados regridem nos próximos dias: a frequência cardíaca cai, a dispneia cede e o edema desaparece — e o fósforo para de cair antes de começar a subir. Por fim, o que ficou pendente e é a razão de ele ter chegado até aqui: ninguém levantou a hipótese de transtorno alimentar num homem de vinte e quatro anos que treina todos os dias, e a bradicardia da admissão foi lida como condicionamento físico. A avaliação do transtorno começa agora, com o exame dirigido descrito neste capítulo, e a frase que precisa entrar na evolução de hoje é a hipótese escrita por extenso.
Avaliação inclui comportamento, cognições, trajetória do peso e repercussões clínicas. Menstruação presente não elimina a hipótese nem o risco.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Explique por que menstruação presente, sexo masculino ou IMC não muito baixo não excluem doença. Diferencie risco de realimentação e síndrome já instalada. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Revise o caso de Longino: oferta de todas as vias, mudanças clínicas, eletrólitos e plano de progressão. Decida monitorização e equipe, sem atrasar glicose emergencial nem impor normalização prévia a todos. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: unidade de pronto atendimento de município médio, fim de tarde, sem psiquiatra na escala. Chega uma pessoa jovem trazida por familiar depois de um desmaio em local público, com frequência cardíaca baixa, pressão baixa e temperatura no limite inferior, que responde a tudo com educação e nega qualquer problema com alimentação. Você tem o exame físico, a folha da triagem e uma conversa. Faça o exame dirigido, peça a linha de base inteira, decida onde essa pessoa passa a noite — e sustente a decisão em números, sem dizer uma palavra sobre peso.
