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A semana em que ninguém perguntou

Transtorno afetivo bipolar e mania: a pergunta antes do antidepressivo, o diagnóstico e o manejo do lítio

A pessoa com transtorno bipolar procura o serviço deprimida, quase nunca eufórica — e é por isso que o diagnóstico demora anos. A pergunta que separa uma depressão da outra leva quinze segundos e raramente é feita; o remédio que se prescreve sem ela pode devolver o paciente em mania. Depois vem o lítio, que é o fármaco com melhor efeito sobre suicídio em psiquiatria, tem margem estreita e é encontrado pelo interno já prescrito, sem que ninguém lhe tenha dito o que monitorar nem o que desidrata alguém para dentro da intoxicação.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica nº 34 — Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde.

São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenação de Vigilância em Saúde. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. São Paulo, 2017.

Brasil. Ministério da Saúde. Amamentação e uso de medicamentos e outras substâncias. 3ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.

01

Responda antes de ler

Antes de iniciar lítio, quais fatores precisam orientar a segurança além da hipótese de bipolaridade?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, dez e dez da manhã, num hospital municipal, na enfermaria de clínica médica. Você faz o internato nessa equipe, e a passagem de plantão durou quatro minutos, porque o leito 12 é o único que interessa a alguém hoje. No leito 12 está Almir Fragata, 26 anos, admitido às cinco da manhã pela porta do pronto-socorro, trazido pela mãe e por um cunhado. A ficha da noite diz, com a letra apressada de quem escreveu de pé: agitação, insônia, sem sinais de foco infeccioso.

Almir está sentado na borda do leito, pés apoiados no chão, e não tem cara de doente nem de quem passou a noite acordado. Fala rápido, muda de assunto no meio da frase, e quando você entra ele já está explicando alguma coisa — que precisa de alta hoje porque tem uma proposta para fechar, que percebeu uma falha no sistema da empresa onde trabalha, que vendeu a moto anteontem e que isso foi a melhor decisão que tomou na vida. Ele é simpático, é rápido, e por alguns minutos é agradável de ouvir. Depois começa a incomodar: não deixa você terminar uma pergunta, e não tolera ser contrariado sobre a alta.

A mãe, Godofreda Canabarro, está no corredor porque não aguentava mais ficar dentro do quarto. Ela conta, e a conta é precisa, que Almir não dorme há cinco noites. Não é insônia de virar na cama: ele passa a noite acordado e produzindo. Reorganizou a garagem inteira na madrugada de terça. Mandou mensagem, às três da manhã, para pessoas com quem não falava havia oito anos. Falou em abrir uma empresa. Vendeu a moto por um terço do que ela vale. E diz uma frase que você vai anotar no prontuário exatamente como ela disse: “Ele não está triste, doutor. Ele está bom demais, e isso é que me assusta.”

Você pergunta se ele já teve alguma coisa parecida antes, e ela diz que não — mas que ele passou o começo do ano muito para baixo, sem sair da cama, sem querer ver ninguém, faltando ao trabalho. Que foi ao posto em março, que a médica ouviu, examinou e prescreveu um comprimido para depressão, e que ele melhorou. Você pede para ver a receita. A mãe tira do bolso um papel dobrado em quatro, e nele está escrito fluoxetina 20 mg, um comprimido pela manhã, uso contínuo. A data é de março. Estamos em junho.

Nesse momento o caso muda de eixo, e vale enunciar a mudança em voz alta, porque é a lição inteira do capítulo. Você não está diante de um jovem agitado sem causa. Você está diante de alguém que teve um episódio depressivo, recebeu um antidepressivo e voltou noventa dias depois com o quadro oposto. A pergunta que teria mudado esta internação não é cara, não é difícil e não precisa de psiquiatra: é perguntar, antes da receita, se alguma vez na vida houve uma semana em que ele ficou assim — para cima, sem precisar dormir, fazendo mais coisas do que consegue. A mãe, questionada agora, lembra que sim: aos vinte e um anos, durante cerca de um mês, ele ficou elétrico, brigou com o chefe, largou o emprego e recuperou-se sozinho. Ninguém nunca perguntou, porque ele nunca procurou serviço nenhum quando estava assim — praticamente ninguém procura.

Retenha essa assimetria: é ela que dá ordem a tudo o que vem depois. A pessoa com transtorno bipolar passa a maior parte do tempo doente do lado depressivo, e é do lado depressivo que ela bate na porta. O lado maníaco é o que define o diagnóstico e é justamente o que não se apresenta espontaneamente ao médico, porque quem está em hipomania se sente bem — melhor do que nunca, muitas vezes. O diagnóstico, então, depende quase inteiramente de alguém perguntar. Este capítulo é sobre fazer essa pergunta, sobre o que fazer quando a resposta é sim, e sobre o fármaco que vai ser prescrito em seguida e que tem margem estreita demais para ficar sem vigilância.

Duas fronteiras ficam declaradas já aqui, e você vai vê-las repetidas onde importam. A depressão unipolar — o diagnóstico, a escolha do antidepressivo, a régua de dose e de retirada — é do capítulo de depressão maior na unidade básica, nesta mesma apostila, e este capítulo não a reescreve: pega o caso no ponto em que a suspeita de bipolaridade foi levantada e vai daí para a frente. E o manejo da agitação franca, quando há perigo imediato, seja para ela mesma, seja para quem a atende — desescalada verbal, contenção, sedação e a síndrome neuroléptica maligna que pode aparecer depois —, pertence ao capítulo sobre o que a sedação apaga, também desta apostila, e é para lá que você segue assim que Almir parar de conversar.

03

Quem adoece disso

Os números que interessam aqui são de três tipos, e vale separá-los: quantas pessoas têm, quanto custa em vida, e o que a régua brasileira mede e não mede. O protocolo federal traz os primeiros e é honesto sobre a origem de cada um.

Prevalência. As estimativas para o transtorno bipolar são descritas como consistentes entre culturas e grupos étnicos, entre 0,4% e 1,6% em adultos. Estimativas mais recentes, que incluem o espectro mais amplo da doença, sugerem entre 4% e 5% da população geral em estudos feitos nos Estados Unidos e nos Países Baixos. No Brasil, um estudo conduzido em São Paulo e publicado em 2005 encontrou prevalência ao longo da vida de 0,9%. Uma meta-análise de 2015, com 25 estudos de países diferentes, indica 1,06% ao longo da vida para o transtorno do tipo I especificamente. Repare na distância entre 1% e 5%: ela não é ruído, é a diferença entre contar só o tipo I e contar o espectro inteiro, e é a razão pela qual duas pessoas podem citar números honestos e incompatíveis sobre a mesma doença.

Idade de início. A idade média de surgimento fica entre 17 e 21 anos. Esse é o dado mais consequente da lista, e não por ser curioso: significa que a doença começa exatamente nos anos em que a pessoa está formando o que vai ser a vida dela — o estudo, o primeiro emprego, os primeiros vínculos. Cada ano sem diagnóstico é um ano cobrado dessa formação, e o protocolo diz isso com todas as letras ao listar, entre os fatores de pior prognóstico, o atraso do início do tratamento específico, ao lado do número de episódios de alteração de humor, do uso de substâncias psicoativas, da má adesão e do número de comorbidades.

Suicídio. É aqui que o capítulo fica sério. O risco de suicídio entre pessoas com transtorno bipolar é descrito como 15 a 20 vezes maior que o da população geral; de 25% a 60% tentam suicídio ao menos uma vez na vida; e de 4% a 19% morrem por suicídio. O protocolo registra, na mesma passagem, que o tratamento de manutenção em longo prazo reduz esse risco — e é por isso que a adesão, que parece um assunto morno, é o assunto mais grave deste capítulo. Avaliar o risco de forma estruturada, estratificá-lo e decidir o destino do paciente não é tarefa deste capítulo: pertence ao de risco de suicídio na emergência, o primeiro desta apostila, e toda resposta afirmativa segue para lá dentro do mesmo atendimento. O que fica deste lado é uma coisa só, e ela é farmacológica: o efeito do lítio sobre a mortalidade, que aparece adiante e que é a razão de esse fármaco continuar em primeira linha depois de setenta anos.

Prejuízo funcional. O transtorno bipolar é apontado como a quarta maior causa de prejuízo funcional entre os transtornos neuropsiquiátricos, superado apenas pelas depressões unipolares, pelos transtornos associados ao uso de álcool e pela esquizofrenia; e responde por 7% do total de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade relacionados a doenças neuropsiquiátricas, segundo a Organização Mundial da Saúde. Um dado menos citado e mais útil na enfermaria: o prejuízo cognitivo não se limita aos episódios. Ele persiste também nos períodos de eutimia, quando o humor está normal e adequado às circunstâncias — o que explica por que a pessoa estabilizada ainda tem dificuldade de retomar o mesmo trabalho, e por que dizer a ela que está tudo bem agora soa falso do outro lado da mesa.

Há um número que este capítulo não vai dar, e é melhor dizer isso do que inventá-lo. Não foi encontrado, nas fontes federais brasileiras abertas aqui, nenhum dado nacional sobre quanto tempo decorre entre o primeiro episódio e o diagnóstico correto no Brasil, nem sobre a proporção de pessoas com transtorno bipolar que recebem antidepressivo isolado antes do diagnóstico. A literatura internacional trata essa demora como longa e a mede em anos, mas nenhuma fonte brasileira aberta aqui a mensura, e um número estrangeiro apresentado como se fosse daqui é pior do que a ausência dele. O que existe, e é brasileiro, é a estrutura do problema, descrita pelo próprio protocolo: os sintomas depressivos são mais frequentes que os maníacos ao longo do curso da doença; os pacientes procuram tratamento para os depressivos com mais frequência; e os maníacos ou hipomaníacos, quando ocorrem, muitas vezes não são prontamente reconhecidos.

Por fim, uma delimitação que vale como número, e que muda o que o interno pode prometer. A régua federal brasileira cobre o transtorno bipolar do tipo I e apenas ele. O tipo II e o transtorno bipolar sem outra especificação estão nominalmente entre os critérios de exclusão do protocolo, e o próprio texto explica por quê: a evidência clínica específica para o tratamento do tipo II ainda é limitada, e o documento optou por contemplar apenas o tipo I. Isso quer dizer que a pessoa cuja elevação de humor nunca chegou à mania franca — e essa pessoa é comum — não tem, no Brasil, protocolo clínico federal que a cubra. Voltaremos a isso no bloco de critérios, com a consequência prática de acesso a medicamento que vem junto.

04

Por que acontece o que acontece

Este bloco tem duas metades, e a segunda é a que salva paciente. A primeira explica por que um antidepressivo pode desestabilizar um humor; a segunda explica por que o lítio intoxica alguém que tomou a vida inteira a mesma dose. Nenhuma das duas exige bioquímica fina, e as duas mudam conduta.

Comece pela primeira, e comece por uma delimitação honesta: o mecanismo de ação do lítio, e mesmo o mecanismo do transtorno bipolar, não estão totalmente esclarecidos. O manual de toxicologia consultado diz isso literalmente ao abrir o capítulo do fármaco, e descreve duas vias intracelulares aparentemente afetadas — a do monofosfato de inositol, cuja depleção é o provável mecanismo da estabilização do humor, e a da glicogênio-sintase-quinase-3, componente de vias ligadas ao metabolismo energético, à neuroproteção e à neuroplasticidade. Isso é o que se sabe, e é pouco. Quem lhe apresentar um mecanismo limpo e completo do transtorno bipolar está vendendo simplificação.

O que se sabe com firmeza é fenomenológico e clínico, e basta para a conduta: o mesmo cérebro sustenta dois estados opostos, e há intervenções que empurram de um para o outro. O antidepressivo é uma delas. A régua federal registra o fenômeno em três lugares distintos e independentes do mesmo documento, o que é uma forma de dizer que ele não é anedota. Manda suspender antidepressivos e outros medicamentos que possam estar precipitando sintomas maníacos, diante de um episódio de mania. Inclui a história prévia de virada maníaca induzida por antidepressivo entre as contraindicações relativas da fluoxetina. E determina que se monitore ativamente sinal de virada durante o uso de fluoxetina, listando o que procurar: diminuição da necessidade de sono, agitação, irritabilidade e elevação do humor. Note qual item vem primeiro nessa lista, porque não parece acaso — a necessidade de sono cai antes de o humor subir.

Daí sai a regra prática mais importante do capítulo, e ela é de escuta, não de farmacologia. A queda da necessidade de sono é diferente da insônia, e confundir as duas é o erro que produz o caso do leito 12. Na insônia, a pessoa quer dormir e não consegue, e no dia seguinte está exausta e diz isso sem ser perguntada. Na redução da necessidade de sono, a pessoa dorme três horas, acorda por conta própria, atravessa o dia inteiro sem cansaço aparente — e frequentemente não reclama, porque não está sofrendo com isso. Se você perguntar se ela está dormindo bem, quem está em hipomania responde que sim, e responde com sinceridade. A pergunta que funciona é outra, e está no bloco de apresentação.

Há uma armadilha de causalidade que vale desarmar antes que apareça no plantão. O protocolo registra que um episódio maníaco surgido durante tratamento antidepressivo — medicamento ou eletroconvulsoterapia — mas que persista com sinais e sintomas além do efeito fisiológico desse tratamento é evidência suficiente para um episódio maníaco e, portanto, para o diagnóstico de transtorno bipolar do tipo I. Isso é o oposto do que a intuição sugere. A intuição diz: foi o remédio, logo não é doença dele. A régua diz: o remédio revelou, e o que ele revelou conta como diagnóstico, desde que o quadro tenha vida própria além do efeito farmacológico direto. Para o interno isso significa, na prática, que o resumo de alta de Almir não pode dizer quadro maníaco secundário a fluoxetina, sem transtorno de base — porque cinco noites sem dormir, com gasto impulsivo e planos de negócio, noventa dias depois do início do fármaco, é bem mais do que efeito fisiológico direto.

Antes de fechar esta metade, uma exclusão obrigatória, que é clínica e não psiquiátrica, e que o protocolo põe antes do tratamento: mania pode ser secundária. A lista federal cita distúrbio da tireoide, esclerose múltipla, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana e lesões corticais e subcorticais, além de substâncias — drogas ilícitas e medicamentos como levodopa e corticosteroides. O interno que recebe um primeiro episódio maníaco e não pensa em corticoide em uso, em tireotoxicose e em substância está tratando o rótulo, não a pessoa. E há uma fronteira nítida logo ali: quando o que flutua ao longo do dia é a consciência e a atenção, em vez do humor, o caso deixa de ser este e passa a ser delirium, assunto de um capítulo dedicado neste nível — delirium no paciente internado —, para onde este aqui o encaminha sem disputar. Do mesmo modo, quando os sintomas psicóticos têm vida própria fora dos episódios de humor, a moldura passa a ser outra, e existe protocolo federal específico para o transtorno esquizoafetivo, reescrito em 2021.

Agora a segunda metade, a do lítio, que é onde o interno erra sem saber que errou. O lítio é um cátion monovalente, e essa única frase explica a doença iatrogênica inteira. Ele é manuseado pelo rim quase como se fosse sódio: compete com o sódio e o potássio nos túbulos renais e acompanha a reabsorção de sódio. Em qualquer condição que aumente a reabsorção tubular de sódio — e desidratação é a mais comum delas —, a eliminação de lítio cai e o nível sérico sobe sem que ninguém tenha mudado a dose. É por isso que a intoxicação crônica, que é a que ameaça o paciente ambulatorial, decorre tipicamente da redução do clearance por desidratação, por interação medicamentosa ou por insuficiência renal, e não de o paciente ter tomado comprimido a mais.

Ponha os três gatilhos em ordem de frequência no serviço brasileiro, porque essa é a lista que você vai usar de verdade. Primeiro, a gastroenterite com vômito e diarreia por dois ou três dias, que é o gatilho mais banal e mais frequente. Segundo, o diurético novo, prescrito por outro colega para hipertensão, que aumenta a reabsorção proximal de sódio e leva o lítio junto. Terceiro, o anti-inflamatório não esteroidal comprado sem receita para uma dor de coluna, que reduz a filtração glomerular. O protocolo federal nomeia exatamente diuréticos, inibidores da enzima conversora da angiotensina e anti-inflamatórios não esteroidais como fármacos que afetam o nível sérico, mandando evitar essas associações e também as condições que alterem a função renal. A injúria renal que se instala por trás disso — a pré-renal da desidratação, a renal da nefrotoxicidade, o diagnóstico e o manejo — é do capítulo de injúria renal aguda, na apostila de Nefrologia, cedida por inteiro; o que fica deste lado é o efeito específico sobre o lítio, que é o eixo prático do seguimento.

Duas consequências desse mecanismo merecem parágrafo próprio porque não são intuitivas. A primeira: a meia-vida do lítio é de 6 a 12 horas, prolongando-se para 24 horas ou mais pela redistribuição para o compartimento intracelular, e nas intoxicações crônicas ela é ainda maior — média de 32 horas. Isso significa que a intoxicação crônica não se resolve suspendendo o comprimido e esperando a tarde passar. A segunda, e é a que mais engana: na intoxicação crônica pode haver sintomas importantes mesmo com níveis séricos dentro da faixa terapêutica. O manual de toxicologia diz isso literalmente, e acrescenta o espelho da mesma ideia — na intoxicação aguda a correlação entre nível e clínica é ruim no outro sentido, porque a distribuição da droga no sistema nervoso central é lenta e o paciente pode ter pouca toxicidade neurológica com nível alto. O nível sérico é indispensável e não é suficiente. Quem trata o número em vez de tratar a pessoa manda para casa alguém com ataxia e tremor grosseiro porque a litemia deu normal.

Fecha o mecanismo o efeito sobre a tireoide, que não é raro nem acessório: o hipotireoidismo está entre os efeitos adversos listados do lítio, e é por isso que o hormônio tireotrófico entra tanto na avaliação antes de começar quanto na monitorização periódica. O hipotireoidismo em si — quem rastrear, como interpretar o hormônio tireotrófico, o que fazer com cada resultado e como repor — é do capítulo de hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano, na apostila de Endocrinologia, cedido aqui por inteiro. O que este capítulo assume e declara é a parte que ninguém mais tem: que o lítio causa isso; que por isso o hormônio tireotrófico é exame de rotina de quem usa lítio, e não exame de investigação; e que hipotireoidismo instalado num paciente em lítio não é motivo automático para suspender o fármaco — é motivo para tratar a tireoide e pesar a troca, com o risco de recaída do outro lado da balança.

Cama arrumada ao amanhecer com abajur ainda aceso.
A cama intacta ao amanhecer é um recurso narrativo para perguntar sobre sono. Diferencie dificuldade para dormir com cansaço de redução da necessidade de sono, com pouca queixa de fadiga. Essa distinção depende da história e do contexto; a imagem não demonstra mania nem define a ordem de aparecimento dos sintomas.
05

Como se apresenta de verdade

Seis quadros e uma pergunta. Os quadros são o que você vai ver; a pergunta é o que você tem de fazer para ver o que não está na sua frente. Comece por saber o que a régua exige, porque metade dos erros deste tema vem de chamar de mania coisas que não cumprem o critério — e a outra metade vem de não perguntar por episódios que cumpriam.

Uma advertência de linguagem, e ela é clínica, não é etiqueta. Ao longo de todo este capítulo você vai ler pessoa com transtorno bipolar, e nunca a palavra usada como substantivo para nomear alguém. A diferença não é cosmética: o rótulo aplicado à pessoa tem poder explicativo total, e uma vez colado passa a responder por qualquer sintoma que apareça depois — inclusive por uma dor abdominal, uma febre ou uma confusão que teriam outra causa. É o mesmo mecanismo que faz uma anotação de surto psicótico encerrar a investigação de um delirium.

Aprender para cuidar no internato. Identificar mania/hipomania, tratar conforme fase e prevenir toxicidade com monitorização e educação. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

O episódio maníaco: o que a régua exige, item por item

O protocolo federal remete aos critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais na sua quinta edição, e reproduz quatro critérios, de A a D, que precisam estar todos atendidos.

O critério A é um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, acompanhado de aumento anormal e persistente da energia ou da atividade dirigida a objetivos, com duração mínima de uma semana e presente na maior parte do dia, quase todos os dias — ou de qualquer duração, se a hospitalização for necessária. Três coisas nesse enunciado costumam ser esquecidas e cada uma reprova um diagnóstico apressado. A primeira é que o humor não precisa ser eufórico: irritável conta, e a mania irritável é frequentemente a que chega ao pronto-socorro. A segunda é que o humor sozinho não basta — tem de haver, junto, o aumento de energia ou de atividade dirigida a objetivos. A terceira é a duração: uma semana, e não uma noite ruim.

O critério B exige pelo menos três dos sete sintomas listados, ou quatro se o humor for apenas irritável, em grau significativo e representando mudança notável em relação ao comportamento habitual. Os sete são: autoestima inflada ou grandiosidade; redução da necessidade de sono, com o exemplo do próprio texto — sentir-se descansado com apenas três horas de sono; loquacidade maior que o habitual ou pressão para continuar falando; fuga de ideias ou percepção subjetiva de pensamentos acelerados; distratibilidade, relatada ou observada; aumento da atividade dirigida a objetivos, socialmente, no trabalho, na escola ou sexualmente, ou agitação psicomotora; e envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências dolorosas, com os três exemplos do texto — surtos desenfreados de compras, indiscrições sexuais e investimentos financeiros insensatos.

O critério C é a gravidade: a perturbação do humor precisa ser suficientemente grave para causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional, ou para exigir hospitalização a fim de prevenir dano a si mesmo ou a outros, ou então haver características psicóticas. E o critério D é a exclusão: o episódio não pode ser atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância — droga de abuso, medicamento ou outro tratamento — nem a outra condição clínica.

Aplicando ao leito 12, para você ver como se faz: cinco dias sem dormir por conta própria, com energia aumentada e atividade produtiva noturna — critério A satisfeito em qualidade, e a duração de uma semana fica dispensada porque a hospitalização foi necessária. Redução da necessidade de sono, grandiosidade nos planos, pressão de fala, distratibilidade evidente na entrevista, aumento de atividade dirigida a objetivos e venda impulsiva da moto por um terço do valor: seis dos sete, quando três bastariam. Prejuízo suficiente para internação: critério C. E o critério D é onde você trabalha de verdade, e vem na seção de investigação.

A hipomania, e por que ela não chega ao consultório

A hipomania é a mesma síndrome com o volume mais baixo. O protocolo a descreve assim: alterações mais moderadas, que podem ou não resultar em problemas sérios para a pessoa. É essa segunda metade da frase que explica tudo. Quando a hipomania não produz prejuízo, ela produz o oposto — a pessoa rende mais, dorme menos e resolve o que estava parado, sente-se melhor do que se sentiu em meses, e não tem nenhum motivo para procurar um médico. Ninguém marca consulta para relatar duas semanas boas.

Some a isso o segundo motivo, que é de memória e não de vontade. Passado o episódio, a pessoa não guarda aquilo como doença, e sim como uma fase em que estava bem, ou produtiva, ou finalmente ela mesma. Quando você pergunta se ela já teve algum problema de humor, a resposta honesta é não — porque o que ela lembra do período não é problema. Por isso o informante colateral tem peso desproporcional aqui: a família descreve o mesmo mês com palavras completamente diferentes das dela, e frequentemente é a família que traz o dado que fecha o critério.

Vale registrar uma lacuna da régua, e este capítulo a assume porque não achou dono para ela. O protocolo federal usa a palavra hipomania oito vezes e nunca define o episódio hipomaníaco. Ele descreve item por item o episódio maníaco e o episódio depressivo maior, e para a hipomania fica na caracterização qualitativa de alterações mais moderadas. Ao mesmo tempo, é o próprio documento que faz a história prévia de um episódio maníaco ou hipomaníaco ao longo da vida ser o que define um quadro depressivo como depressão bipolar. Ou seja: a régua brasileira faz a classificação da depressão depender de um episódio que ela não define. Na prática, o interno usa o mesmo conjunto de sintomas do critério B, com duração menor e sem o prejuízo acentuado nem a hospitalização do critério C — e sabe que essa leitura é dedução dele a partir do texto, não citação dele.

A depressão que é bipolar: o que aumenta a suspeita antes de qualquer pergunta

Comece pelo que o protocolo diz, porque é curto e é decisivo: a depressão associada ao transtorno bipolar não se diferencia em nada, quanto à sintomatologia, dos outros quadros depressivos. Não existe um jeito de a tristeza ser bipolar. Olhar o episódio atual, por mais atentamente que você olhe, não resolve — é a história de vida que resolve.

Ainda assim, alguns achados deslocam a probabilidade para cima, e nenhum deles fecha diagnóstico. Episódios que começaram cedo, na adolescência ou no início da casa dos vinte, contra a idade média de início de 17 a 21 anos que o próprio protocolo registra. Muitos episódios ao longo da vida, curtos e recorrentes, em contraste com um episódio longo e único. História familiar de transtorno de humor com episódios de elevação, ou de internação psiquiátrica, ou de uso de lítio na família. Depressão com sintomas psicóticos. E o achado mais direto de todos, que é o que traz o Almir para a enfermaria: qualquer episódio prévio de elevação do humor, com ou sem antidepressivo por perto.

Fronteira, com endereço. O diagnóstico da depressão unipolar, a decisão de tratar, a escolha do antidepressivo, a dose, o tempo de manutenção e a retirada são inteiramente do capítulo de depressão maior na unidade básica, nesta apostila — e este capítulo não reescreve nem discute a régua de antidepressivo daquele. O corte entre os dois é este, e vale nos dois sentidos: aquele capítulo é dono da depressão unipolar e da pergunta de rastreio feita antes da caneta encostar no papel; este capítulo é dono da depressão que é bipolar, do critério inteiro que a define, do que se faz com a suspeita depois de levantada, e de todo o tratamento que vem depois do diagnóstico.

As perguntas que rastreiam mania numa consulta de depressão

Este capítulo assume e declara o roteiro abaixo, porque nenhuma fonte federal brasileira aberta aqui fixa instrumento, escala ou questionário de rastreio para mania — voltaremos a essa ausência no bloco de critérios, medida. O que vem a seguir é construção a partir dos itens do critério B, e não citação de norma.

Não pergunte se a pessoa é bipolar: isso devolve o que ela ouviu na televisão. Não pergunte se ela tem oscilação de humor: quase todo mundo diz que sim. Pergunte por um período, com duração, com conteúdo concreto e com testemunha. Três perguntas bastam, e as três juntas levam menos de um minuto.

A primeira, e é a que mais rende: “Alguma vez na vida a senhora passou uma semana ou mais dormindo três, quatro horas por noite e mesmo assim se sentindo bem, com energia, sem cansaço no dia seguinte?” Repare no desenho — ela mede a necessidade de sono, e não a insônia, e por isso não é respondida com o cansaço de quem não dorme. A segunda: “Nesse período, as pessoas em volta acharam que a senhora estava diferente — falando muito, gastando demais, fazendo coisas que não costuma fazer?” Essa transfere o julgamento para o observador, que é quem enxerga o que a pessoa não enxerga. A terceira é a que altera a conduta no mesmo instante: “Esse período veio logo em seguida de alguma medicação nova para o humor?”

Se a pessoa veio acompanhada e autoriza, faça as mesmas três perguntas ao acompanhante, separadamente. É o exame complementar mais barato deste capítulo e o de maior rendimento. E registre a resposta com as palavras de quem respondeu, no prontuário — porque quem ler depois vai precisar decidir se aquilo cumpria o critério, e um resumo seu já é uma interpretação.

O episódio misto, a ciclagem induzida e a ciclagem rápida

Três apresentações que confundem, e as três com o mesmo aviso: a régua federal brasileira é rala aqui, e o capítulo diz onde ela acaba.

O episódio misto é aquele em que sintomas dos dois polos convivem — a pessoa está acelerada e desesperada ao mesmo tempo, com energia aumentada e humor sofrido. É o estado de maior risco de suicídio da doença, porque combina o desespero de um polo com a energia e a impulsividade do outro; e é o mais fácil de confundir com agitação ansiosa. Registre o que a régua faz: o protocolo lista o código F31.6 — transtorno afetivo bipolar, episódio atual misto — entre os códigos que manda usar, e não define em nenhum lugar o que é um episódio misto. Em todo o documento a palavra surge uma vez só, e é dentro da própria lista de códigos. Você deve codificar um quadro que o documento não descreve.

A ciclagem induzida por antidepressivo é o mecanismo do caso de abertura e já está tratada. O que cabe acrescentar na apresentação é como ela se apresenta: não é sempre a mania franca do leito 12. Pode ser uma hipomania de duas semanas que a família nota e o paciente não; pode ser irritabilidade e encurtamento do sono sem euforia nenhuma; e pode ser um estado misto, com a depressão ainda presente e a energia já subindo — que é o mais perigoso dos três, porque o paciente parece estar melhorando.

A ciclagem rápida — sucessão de vários episódios de humor dentro de um mesmo ano — é a apresentação que faz o tratamento inteiro ser reavaliado, porque muda a conta de risco e benefício do antidepressivo em manutenção. E aqui o capítulo precisa ser explícito, porque a ausência é total: a expressão ciclagem rápida não aparece uma única vez no protocolo federal brasileiro, e nenhuma das fontes brasileiras abertas para este capítulo fixa critério, contagem de episódios ou conduta para ela. Nenhum outro capítulo deste nível trata do assunto. Este capítulo, portanto, assume o tema e declara o que assume: apresenta o conceito, avisa que a régua nacional não o cobre, e não inventa um número brasileiro para preencher o vazio. O que a régua nacional dá, e é o que se usa, é a orientação geral de reduzir e suspender antidepressivo na manutenção sempre que possível — e o risco de recorrência aumentado é justamente o argumento para fazê-lo com mais convicção.

Quando a mania chega agitada: o ponto de contato

Boa parte das manias que chegam ao pronto-socorro chega agitada, e é honesto dizer onde este capítulo termina. O protocolo federal reconhece o problema e dá a orientação geral: o paciente agudamente maníaco pode apresentar estado grave de agitação; os antipsicóticos são os medicamentos mais indicados nessa situação; a via oral deve ser oferecida primeiro sempre que possível, porque há evidência de que medicamentos orais podem ser tão eficazes quanto agentes intramusculares; a via intramuscular é alternativa para quando a oral não puder ser usada; e em idosos, em pacientes clinicamente instáveis ou intoxicados por substâncias exigem-se doses menores, intervalos maiores e monitoração mais rigorosa de sinais vitais.

Isso é o que o protocolo do transtorno bipolar diz sobre agitação, e é tudo o que ele diz. O manejo propriamente dito — a desescalada verbal, a organização do ambiente e da equipe, a indicação e a técnica de contenção, a escolha e a dose do sedativo, o cuidado com a ampola de haloperidol que existe em duas concentrações no elenco brasileiro, e a síndrome neuroléptica maligna que pode aparecer depois — é do capítulo sobre o que a sedação apaga, nesta mesma apostila, e este capítulo cede tudo isso por inteiro, sem repetir dose nem técnica.

O que fica deste lado, e é o que o vizinho não tem, é a moldura: reconhecer que aquela agitação é mania, e não delirium nem intoxicação nem primeiro episódio psicótico; saber que o tratamento da mania não termina quando a agitação cede, porque sedar não é estabilizar; e saber que o estabilizador precisa começar cedo, no mesmo internamento, porque é ele que vai decidir se o paciente volta em três meses.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo tem uma ordem, e a ordem é o oposto da intuição. Primeiro se exclui o que não é psiquiátrico. Depois se pedem os exames que autorizam começar um fármaco. Só então se pede o exame que acompanha o fármaco. O erro comum do interno é começar pela litemia, que é o exame mais famoso e o menos urgente dos três.

Primeiro: o critério D, que é clínico e não psiquiátrico

O critério D exige que o episódio não seja atribuível a substância nem a outra condição clínica, e é ele que transforma um diagnóstico psiquiátrico numa investigação de clínica médica. O protocolo manda fazer avaliação clínica para analisar a possibilidade de mania secundária, e nomeia o que procurar: distúrbio da tireoide, esclerose múltipla, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, lesões corticais e subcorticais; e, entre as substâncias, drogas ilícitas e medicamentos como levodopa e corticosteroides.

Traduzido em conduta de enfermaria, isso é uma anamnese farmacológica completa e um exame físico de verdade. Pergunte por corticoide — em pulso, em esquema decrescente, em colírio, em infiltração recente, e por conta própria para uma crise de asma; é o precipitante medicamentoso mais frequente e o menos lembrado. Pergunte por estimulantes, cocaína e derivados de anfetamina, por álcool e pelo padrão dos últimos dias. Procure tireotoxicose com o exame que você já sabe fazer: taquicardia, tremor fino, pele quente e úmida, emagrecimento, olhar e tireoide palpáveis. E faça o exame neurológico básico, porque um primeiro episódio maníaco em alguém fora da faixa etária esperada — sobretudo depois dos quarenta, com a idade média de início entre 17 e 21 anos — obriga a pensar em lesão estrutural.

O painel laboratorial inicial razoável, e isto é leitura deste capítulo e não lista do protocolo, cobre o que muda conduta na porta: glicemia capilar, hemograma, eletrólitos com sódio e potássio, função renal com ureia e creatinina, hormônio tireotrófico, e sorologia para o vírus da imunodeficiência humana quando houver qualquer razão para pedi-la. Imagem de crânio não é rotina de todo episódio maníaco; é obrigatória diante de sinal neurológico focal, de primeira apresentação em idade atípica, de trauma, ou de alteração do nível de consciência — e neste último caso o caso já mudou de capítulo, e o capítulo é o de delirium no paciente internado.

Antes de começar: os exames que o protocolo exige, e para quem

Aqui a régua é explícita e vale decorar, porque é cobrada e porque é feita. O protocolo torna obrigatória, antes do início do tratamento com qualquer um dos medicamentos, uma avaliação médica que inclui: idade; medidas antropométricas, com peso, altura, circunferência abdominal e circunferência do quadril; três medidas de pressão arterial em datas diferentes; e exames de sangue com colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e hemograma. Some a isso a história familiar ou pessoal de síndrome neuroléptica maligna, no caso dos antipsicóticos, e de suicídio, obesidade, hipertensão arterial sistêmica, diabete mélito e outras comorbidades.

Repare no que essa lista é: um rastreamento cardiometabólico completo, exigido antes de o primeiro comprimido ser tomado. Isso não é burocracia. É a régua reconhecendo que os fármacos deste capítulo produzem ganho de peso, dislipidemia e alteração glicêmica, e que sem a linha de base ninguém saberá, dali a um ano, o que era do paciente e o que foi do remédio. As três medidas de pressão em datas diferentes são a parte que mais atrasa o início na vida real, e o interno precisa saber disso para organizar o retorno em vez de descobrir na hora.

Depois vêm as exigências por fármaco. Antes do carbonato de lítio, acrescentam-se hormônio tireotrófico, creatinina e ureia séricos. Antes do ácido valproico, avaliação da função hepática. Antes da carbamazepina, função hepática com as aminotransferases, mais creatinina, ureia e eletrólitos com sódio e potássio. E o protocolo acrescenta uma frase que o interno deve levar a sério: todo medicamento deve ser administrado com cautela em mulheres com potencial de engravidar, com os riscos gestacionais discutidos com a paciente; havendo dúvida, sugere-se fazer teste de gravidez antes de iniciar o tratamento.

Duas notas de leitura, para você não ser pego. O protocolo não manda dosar litemia antes de começar, porque não faria sentido — o exame de base do lítio é a função renal e a tireoide, não o nível do fármaco que a pessoa ainda não usa. E a conduta diante de exame alterado não está fixada em lugar nenhum: o texto delega explicitamente ao médico assistente, com base na natureza e no grau da alteração e nas características individuais do caso. Quem procurar no protocolo um ponto de corte de creatinina que proíbe começar lítio não vai encontrar; o que existe é a contraindicação absoluta em insuficiência renal grave, sem número.

A litemia: como se colhe, e por que a técnica é metade do resultado

Duas condições, as duas do próprio protocolo, e as duas fáceis de furar. A primeira: o nível sérico só deve ser dosado depois de uso contínuo de dose estável por pelo menos 5 a 7 dias. A segunda: o intervalo entre a última administração e a coleta deve ser de 12 horas. O Caderno de Atenção Básica nº 34 repete as duas condições com números praticamente iguais — 5 dias de estabilização e coleta 12 horas após a última tomada —, e essa é uma das conferências entre documentos federais que fecharam.

A consequência prática das 12 horas é operacional e ninguém a ensina: como o protocolo manda tomar o lítio em dose única à noite, a coleta correta é na manhã seguinte, antes da dose do dia, e o paciente precisa ser instruído a não tomar o comprimido da manhã do exame — se é que ele toma algum de manhã — e a anotar a hora da última dose. Um paciente que toma o lítio às 22 horas e colhe às 10 da manhã está dentro da janela. Um que toma às 7 da manhã e colhe às 10 tem um resultado sem significado, e alto: você está medindo o pico, não o vale. É assim que se produz uma redução de dose desnecessária num paciente estável.

A consequência dos 5 a 7 dias é ainda mais consequente e vem com um problema no próprio texto, registrado nas notas do bloco seguinte: a instrução de titulação manda incrementar 300 mg a cada 2 dias até chegar a 900 mg e então dosar o nível sérico, o que, lido literalmente, coloca a coleta antes de existir qualquer dose estável. A leitura correta, e é a única compatível com a nota do mesmo documento, é: chegue a 900 mg, fique nessa dose 5 a 7 dias, e só então colha.

O informante colateral, que aqui é exame e não cortesia

Em quase nenhum outro capítulo da medicina a informação de terceiros tem o peso que tem aqui, e a razão é o que já foi dito: o estado que define o diagnóstico é o estado em que a pessoa não se percebe doente. O grau de discernimento sobre o próprio transtorno é, aliás, um dos itens que o protocolo manda avaliar imediatamente no episódio maníaco, ao lado do risco de comportamento agressivo, do risco de suicídio e da capacidade de aderir ao tratamento.

Faça isso com método e com ética. Peça autorização à pessoa antes de conversar com o acompanhante, e diga que vai fazê-lo — conversar pelas costas de alguém em mania é a maneira mais eficiente de perder o vínculo de que você vai precisar amanhã. Converse separadamente, porque a presença do outro muda as duas versões. Pergunte por comportamento observável, com data e com número, e não por impressões: quantas noites, o que fez nessas noites, quanto gastou, para quantas pessoas ligou. E registre as duas versões no prontuário, sem escolher entre elas.

Vale o lembrete legal e prático: em paciente em internação psiquiátrica hospitalar, ou com grave prejuízo funcional que exija institucionalização ou perda de autonomia, o protocolo requer a presença de um familiar ou responsável legal, inclusive para o acesso ao medicamento pelo componente especializado. Isso não é detalhe administrativo — é o que decide se a receita vai virar comprimido no armário da casa.

O que a régua brasileira não fixa, medido

Convém deixar isto explícito, porque quase todo mundo chega esperando o contrário. Não há, no protocolo federal brasileiro do transtorno bipolar, nenhum instrumento de rastreio fixado — nem para detectar mania, nem para medir a gravidade de um episódio, nem para acompanhar resposta.

Isso foi medido, e não deduzido. No texto integral do protocolo, a palavra escala aparece zero vez; instrumento, zero; rastreio e rastreamento, zero; triagem, zero; questionário, zero. As quatro ocorrências da palavra Young no documento são todas sobrenome de autor na lista de referências.

A comparação que dá relevo ao achado é com o vizinho federal. O protocolo do transtorno esquizoafetivo, reescrito por portaria conjunta em 14 de maio de 2021, manda aplicar escalas de humor e de mania e as inclui no seu apêndice. Ou seja: o Ministério fixou instrumento de mania no protocolo do transtorno em que a mania é um componente, e não fixou nenhum no protocolo do transtorno em que a mania é a característica definidora.

Nada disso significa que instrumentos de rastreio não existam ou que estejam em desuso: existem, circulam bastante, e cada serviço ou município adota o seu. Significa que essa adoção é decisão local e não obrigação federal — o serviço em que você caiu pode ter um, pode não ter, e a ausência não é sinal de improviso da casa. Significa sobretudo que o diagnóstico continua sendo o preenchimento do critério, item por item, com a duração exigida. Escore nenhum ocupa esse lugar, e não ter escore nenhum não impede você de fechar o diagnóstico.

07

A régua brasileira, o elenco que a farmácia entrega, e as contas que não fecham

O que se decora deste capítulo está distribuído em três tabelas e um card. A tabela de abertura mostra o elenco que a farmácia efetivamente entrega e sob qual componente — e serve de aviso sobre o que acontece quando alguém procura um fármaco pela denominação errada e conclui que o Sistema Único de Saúde não o tem. A seguinte refaz, em Python e sobre as apresentações reais, a aritmética entre a dose que o protocolo manda e o número de comprimidos que a pessoa recebe na mão; o adulto de referência pesa 70 quilos, e esse peso aparece não porque algum destes fármacos se dose por quilo — nenhum se dosa —, mas porque a antropometria é a medida de base que o protocolo exige antes do primeiro comprimido e manda repetir aos 3, aos 6 e aos 12 meses. A última confronta os dois documentos federais que prescrevem os mesmos três estabilizadores de humor e discordam de todos os tetos. As notas ao final registram as conferências feitas nas fontes oficiais: as que falharam e, do mesmo modo, as que deram certo — estas informam tanto quanto aquelas.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

A régua que o Brasil usa, e desde quando

A régua federal do transtorno bipolar é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas aprovado pela Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016 — e ela cobre o transtorno afetivo bipolar do tipo I, e apenas ele. A vigência foi testada de duas maneiras independentes: o Ministério continua servindo esse arquivo como o protocolo corrente, e um documento de 2025 o cita como a régua em uso e enumera, a partir dele, os medicamentos fornecidos. Errata ou retificação: não encontrada. A idade importa e precisa ser dita: a busca de literatura que sustenta o protocolo foi feita em 31 de agosto de 2014, com uma atualização em 23 de setembro de 2015 — a régua que governa a conduta brasileira do transtorno bipolar em 2026 tem base de evidência de 2014, e o próprio documento avisa que tem maior enfoque no tratamento medicamentoso, devendo ser complementado por outros documentos do Ministério quanto às condutas multidisciplinares e não medicamentosas. Duas consequências de acesso decorrem do recorte no tipo I. A primeira: quem tem transtorno bipolar do tipo II ou sem outra especificação está nominalmente entre os critérios de exclusão do protocolo, e não existe protocolo federal brasileiro que o cubra. A segunda, que é a que aparece no balcão da farmácia: os fármacos do componente especializado — lamotrigina, quetiapina, olanzapina, risperidona e clozapina — são liberados por processo ancorado nesse protocolo, com laudo médico descrevendo o quadro segundo os critérios diagnósticos, receita com posologia para seis meses, termo de esclarecimento e responsabilidade, medidas antropométricas e renovação a cada seis meses. Os fármacos do componente básico — lítio, ácido valproico, carbamazepina, haloperidol e fluoxetina — não dependem desse processo e saem na farmácia do posto. É por isso que o lítio, que é o primeiro fármaco do protocolo, é também o mais fácil de conseguir, e a quetiapina, que também é primeira linha, pode demorar semanas.

Elenco nacional consultado e componente: confirmar indicação e dispensação

Fármaco (denominação da Rename)Apresentações na Rename 2024ComponenteO que isso muda na conduta
carbonato de lítio300 mg comprimido — e só essaBásicoÉ o primeiro fármaco do protocolo e sai na farmácia do posto, sem processo. Toda a titulação é feita em múltiplos de 300 mg, porque não existe outra apresentação: a dose máxima de 1.800 mg/dia são seis comprimidos
ácido valproico250 mg cápsula; 250, 300 e 500 mg comprimido; 50 mg/mL solução oral; 50 mg/mL xaropeBásicoTambém sem processo. O comprimido de 300 mg existe no elenco e não aparece na lista de apresentações do protocolo, que só cita 250 e 500 mg
carbamazepina200 e 400 mg comprimido; 20 mg/mL suspensão oralBásicoSem processo. É o estabilizador de nível 3 e o de mais interações
lamotrigina25, 50 e 100 mg comprimidoEspecializadoExige processo no componente especializado, com laudo, receita para seis meses e renovação semestral. Não se começa numa quinta-feira à tarde
hemifumarato de quetiapina25, 100, 200 e 300 mg comprimidoEspecializadoMesma via de processo. É o único fármaco que o protocolo põe em primeira linha nos dois polos, mania e depressão, com doses diferentes em cada
olanzapina5 e 10 mg comprimidoEspecializadoProcesso. Dose máxima de 20 mg/dia são dois comprimidos de 10 mg
risperidona1, 2 e 3 mg comprimido; 1 mg/mL solução oralEspecializadoProcesso. É o antipsicótico de primeira escolha do protocolo na mania, e tem solução oral — útil em quem recusa comprimido
clozapina25 e 100 mg comprimidoEspecializadoProcesso, e nível 4: só depois de falha de no mínimo duas combinações de estabilizador com antipsicótico. Exige hemograma semanal nas primeiras 18 semanas e mensal enquanto durar o uso
haloperidol1 e 5 mg comprimido; 2 mg/mL solução oral; 5 mg/mL e 50 mg/mL solução injetávelBásicoNível 3 na mania e disponível sem processo. As duas injetáveis convivem sob a mesma entrada e não são intercambiáveis — a de 50 mg/mL é o depósito. Esse risco tem dono nesta apostila e está cedido ao capítulo sobre o que a sedação apaga
cloridrato de fluoxetina20 mg cápsula e comprimidoBásicoÚnico antidepressivo do protocolo, e apenas em combinação. Nunca em monoterapia na depressão bipolar
divalproato de sódionão constaBuscado no índice e no texto bruto da Rename 2024, com busca normalizada: zero ocorrências. Quem procurar por esse nome conclui que o Sistema Único de Saúde não tem o fármaco; o que existe, e é o mesmo princípio ativo em outro sal, é o ácido valproico

A conta da receita: da dose do protocolo ao que a pessoa recebe na mão (adulto de 70 kg)

Fármaco e apresentação do elencoDose diária do protocoloQuanto é, por diaO que a conta revela
carbonato de lítio, comprimido 300 mg300 mg — dose inicial1 comprimidoA dose de início é um comprimido único, à noite
carbonato de lítio, comprimido 300 mg900 mg — a dose em que se dosa o nível sérico3 comprimidosTrês comprimidos à noite; é aqui que se para e se esperam 5 a 7 dias antes de colher
carbonato de lítio, comprimido 300 mg1.800 mg — dose máxima6 comprimidosSeis comprimidos por dia, na apresentação única do elenco. O peso de referência não entra na dose, e sim na linha de base cardiometabólica que será recomparada aos 3, aos 6 e aos 12 meses
ácido valproico, comprimido 500 mg2.000 mg — dose máxima4 comprimidosCom o comprimido de 250 mg seriam 8; com o de 300 mg, que existe no elenco e não no protocolo, não fecha em número inteiro
ácido valproico, solução oral 50 mg/mL250 mg — dose inicial5 mLA solução resolve a titulação fina e o paciente que não engole comprimido
carbamazepina, comprimido 200 mg1.000 mg — dose máxima5 comprimidosOu 2,5 comprimidos de 400 mg, o que exige partir comprimido
lamotrigina, comprimidos de 25, 50 e 100 mg25 mg na semana 1 e 2; 50 mg na 3 e 4; 100 mg na 51 comprimido de cada, na sequênciaA rampa lenta é o que previne o exantema grave. Ela não é sugestão: é a razão pela qual as três concentrações existem
risperidona, comprimidos de 1, 2 e 3 mg1 mg — dose inicial; 6 mg — topo da faixa1 comprimido de 1 mg; 2 comprimidos de 3 mgIncremento de 1 mg por dia até a dose-alvo
olanzapina, comprimidos de 5 e 10 mg5 mg — dose inicial; 20 mg — dose máxima1 comprimido de 5 mg; 2 comprimidos de 10 mgFaixa curta e apresentação simples: é o esquema mais fácil de acertar do capítulo
hemifumarato de quetiapina, comprimidos de 25, 100, 200 e 300 mg300 a 600 mg na depressão; 600 a 800 mg na maniaConverter a dose prescrita exatamente: 300 mg = 1 comprimido de 300 mg; 600 mg = 2 de 300 mg; 800 mg = 2 de 300 mg + 1 de 200 mg. Conferir formulação, divisão das tomadas e titulação; 3 de 300 mg somariam 900 mg e excederiam o teto desta linha.É o único do protocolo com dose diferente por polo, e é o erro de prescrição mais fácil de cometer: a dose de depressão não trata a mania

Dois documentos federais, os mesmos três estabilizadores, tetos diferentes

EstabilizadorPortaria SAS/MS nº 315/2016 (protocolo)Caderno de Atenção Básica nº 34 (atenção básica)A diferença, medida
carbonato de lítio — início300 mg/dia, dose única à noite300 mg duas vezes ao dia, isto é, 600 mg/dia, podendo ir a 300 mg três vezes ao dia já no dia seguinteFator 2 na dose de início, e o segundo documento admite chegar a 900 mg/dia em 24 horas
carbonato de lítio — tetofaixa de 300 a 1.800 mg/dia; dose máxima 1.800 mg/diadoses médias de 900 a 2.100 mg/diaO topo da faixa de rotina do segundo excede a dose máxima do primeiro em 300 mg — exatamente um comprimido da única apresentação do elenco
carbonato de lítio — alvo sérico0,6 a 1,2 mEq/L, faixa única para todas as fases0,6 a 0,8 mEq/L na manutenção; 0,8 a 1,2 mEq/L na fase agudaUma litemia de 1,0 mEq/L num paciente estável está dentro do alvo pelo primeiro documento e acima do alvo de manutenção pelo segundo. E o valor 0,8 pertence às duas faixas do segundo ao mesmo tempo
ácido valproico — tetofaixa de 250 a 2.000 mg/dia; dose máxima 2.000 mg/diadoses médias de 750 a 1.500 mg/dia; máxima proposta de 1.800 mg/dia; até 3 g/dia em alguns pacientes; não ultrapassar 60 mg/kg/diaTrês tetos diferentes entre os dois documentos — 1.800, 2.000 e 3.000 mg/dia — mais uma regra por peso que não é compatível com nenhum deles em adulto (a conta está nas notas)
ácido valproico — administração e alvo séricodose única à noite; 50 a 125 mcg/mLdividido em 2 a 3 tomadas diárias; 45 a 125 µg/mLContradição direta no fracionamento. E um nível de 47 µg/mL é terapêutico por um documento e subterapêutico pelo outro
carbamazepina — tetofaixa de 200 a 1.000 mg/dia; dose máxima 1.000 mg/diadoses médias de 400 a 1.600 mg/diaO topo de rotina do segundo excede a máxima do primeiro em 600 mg, isto é, 3 comprimidos de 200 mg ou 1,5 comprimido de 400 mg
carbamazepina — o que os dois concordamalvo sérico 8 a 12 mcg/mL; incremento de 200 mg a cada 2 diasalvo sérico 8 a 12 µg/mL; incremento de 200 mg a cada 2 diasConferência que fechou: alvo idêntico e rampa idêntica. O segundo acrescenta o dado clínico que o primeiro omite — a carbamazepina induz o próprio metabolismo e reduz a própria meia-vida com o uso crônico, exigindo redosagem periódica
todos — técnica de coletadose estável por 5 a 7 dias; intervalo de 12 horas da última administração5 dias de estabilização; coletar 12 horas após a última tomadaSegunda conferência que fechou, e é a que mais importa na prática: os dois documentos federais dizem a mesma coisa sobre como colher

Nota 1 — um erro de unidade por fator 1.000, na apresentação de um fármaco que o próprio protocolo recomenda. Na seção 7.5, ao listar as apresentações dos fármacos, o protocolo escreve: haloperidol, comprimidos de 1 e 5 mg, solução injetável de 5 mg/mL e solução oral de 2 g/mL. A solução oral de haloperidol é de 2 mg/mL — é assim que ela consta na Rename 2024 e é assim que é registrada. Dois gramas por mililitro seriam mil vezes a concentração real; um frasco de 20 mL conteria 40 gramas de haloperidol. O erro é tipográfico na origem e inofensivo para quem conhece o fármaco, mas está num documento normativo nacional, não corrigido em dez anos, e é a única concentração oral que o protocolo imprime.

Nota 2 — e no mesmo fármaco, uma ausência maior que o erro. O haloperidol aparece no Quadro 1 como antipsicótico de nível 3 para o episódio maníaco, aparece na lista de apresentações da seção 7.5, aparece entre os fármacos que podem ser continuados na manutenção e tem entrada própria na lista de efeitos adversos. Mas a seção 7.6, que dá os esquemas de administração, traz dose inicial, faixa de dose, esquema de incremento e dose máxima para nove fármacos — carbonato de lítio, ácido valproico, carbamazepina, lamotrigina, risperidona, olanzapina, quetiapina, clozapina e fluoxetina — e nenhuma linha para o haloperidol. Foi conferido item a item: dos dez fármacos que o protocolo indica, o haloperidol é o único sem posologia. O protocolo recomenda um fármaco para a mania aguda e não diz em que dose.

Nota 3 — a dose máxima que fica fora da faixa de dose, em quatro dos nove esquemas. Na mesma seção 7.6, cada fármaco recebe uma faixa de dose e uma dose máxima. Em cinco deles os dois campos fecham: lítio (faixa 300 a 1.800, máxima 1.800), ácido valproico (250 a 2.000, máxima 2.000), carbamazepina (200 a 1.000, máxima 1.000), olanzapina (5 a 20, máxima 20) e quetiapina na mania (600 a 800, máxima 800). Em quatro deles a dose máxima está acima do topo da própria faixa: lamotrigina, faixa de 25 a 200 mg/dia e máxima de 300 mg/dia (1,5 vez o topo); risperidona, faixa de 1 a 6 mg/dia e máxima de 8 mg/dia (1,33 vez); clozapina, faixa de 300 a 400 mg/dia e máxima de 800 mg/dia (2 vezes); e fluoxetina, faixa de 20 a 40 mg/dia e máxima de 80 mg/dia (2 vezes). Não é erro de conta, é o mesmo rótulo usado com dois sentidos dentro da mesma seção — em cinco fármacos faixa de dose significa o intervalo absoluto, em quatro significa a faixa usual. Quem lê o documento buscando o teto de um fármaco precisa saber qual dos dois sentidos está lendo.

Nota 4 — a titulação que colide com a nota do próprio parágrafo. Para o lítio, a seção 7.6 manda: incremento de 300 mg a cada 2 dias até chegar a 900 mg, e então dosar o nível sérico. Duas linhas abaixo, a nota do mesmo item exige que o nível seja dosado com uso contínuo de dose estável por pelo menos 5 a 7 dias. As duas instruções não convivem na leitura literal: começando em 300 mg no dia zero, a dose de 900 mg é atingida no dia 4, quando nenhuma dose foi estável por 5 dias. Uma litemia colhida ali é pré-equilíbrio e vem falsamente baixa — e uma litemia falsamente baixa manda o prescritor subir a dose. O mesmo desenho se repete no ácido valproico (250 mg a cada 2 dias até 750 mg) e na carbamazepina (200 mg a cada 2 dias até 600 mg). A leitura correta, e a única compatível com o próprio documento, é parar na dose-alvo e esperar os 5 a 7 dias antes de colher; mas o texto, como está escrito, não diz isso.

Nota 5 — a regra por peso do ácido valproico não restringe nenhum adulto. O Caderno de Atenção Básica nº 34 fecha a orientação do ácido valproico com não ultrapassar 60 mg/kg/dia, que soa como uma trava de segurança. Refazendo a conta: 60 mg/kg/dia num adulto de 70 kg dá 4.200 mg/dia, que é 2,1 vezes a dose máxima de 2.000 mg/dia do protocolo federal e 1,4 vez o teto excepcional de 3 g/dia que o próprio Caderno admite. Invertendo a conta, a regra por peso só alcança os tetos fixos em pessoas de baixo peso: ela iguala 1.800 mg aos 30 kg, 2.000 mg aos 33,3 kg e 3.000 mg aos 50 kg. Para qualquer adulto acima de cerca de 33 kg, quem limita é sempre o teto fixo, e nunca a regra de miligramas por quilo. Ela dá a impressão de proteger e não protege ninguém na população deste capítulo.

Nota 6 — três documentos, três desenhos de litemia, e uma faixa que não pertence a classe nenhuma. O protocolo federal dá uma faixa terapêutica única de 0,6 a 1,2 mEq/L, diz que o risco de toxicidade aumenta consideravelmente acima de 1,5 mEq/L e que litemia acima de 3,5 mEq/L é potencialmente fatal. O Caderno nº 34 divide o alvo por fase (0,6 a 0,8 na manutenção; 0,8 a 1,2 na aguda) e põe a intoxicação acima de 1,5. O manual de toxicologia consultado usa outra escala inteira: 0,6 a 1,2 terapêutico; 1,2 a 2,5 reações leves a moderadas; 2,5 a 4 efeitos mais graves; acima de 4 efeitos graves no sistema nervoso central e risco de morte. Cruzando as três, uma litemia de 1,3 mEq/L não pertence a classe alguma em dois dos documentos — está acima do topo terapêutico e abaixo do limiar de toxicidade que ambos declaram — e já é reação leve a moderada no terceiro. Além disso, o valor exato 1,2 pertence a duas classes ao mesmo tempo no manual de toxicologia (é o topo do terapêutico e o piso das reações leves), e o valor exato 0,8 pertence às duas faixas do Caderno. Conduta prática diante disso: uma litemia entre 1,2 e 1,5 mEq/L em paciente sintomático é tratada como intoxicação, e não como nível aceitável, porque na intoxicação crônica pode haver sintomas importantes mesmo dentro da faixa terapêutica — e essa frase é do manual de toxicologia, não dedução deste capítulo.

Nota 7 — a frase do Caderno nº 34 sobre o gatilho da intoxicação, lida literalmente, inverte o mecanismo. O texto diz que a intoxicação pelo lítio pode ser precipitada por diminuição de dieta hipossódica, uso de diuréticos, desidratação, ou mesmo doses excessivas. Diminuir uma dieta hipossódica é aumentar o sódio, e mais sódio reduz a reabsorção tubular de lítio e faz a litemia cair, não subir. O mecanismo é o oposto e está descrito sem ambiguidade na fonte toxicológica: o lítio é um cátion monovalente que compete com o sódio no túbulo renal, e é a depleção de sódio — dieta pobre em sal, desidratação, diurético — que reduz a eliminação do lítio e eleva o nível. É provável que a intenção do redator fosse dieta hipossódica ou diminuição de sódio na dieta, e que a palavra tenha caído no lugar errado; mas a frase, como está impressa num documento federal, ensina o inverso do que o interno precisa saber. Os demais itens da mesma lista — diurético, desidratação e dose excessiva — estão corretos.

Nota 8 — a clozapina tem dois pontos de corte hematológicos e uma faixa entre eles sem regra. Entre os critérios de exclusão, o protocolo proíbe começar clozapina com leucócitos abaixo de 3.550/mm³ ou neutrófilos abaixo de 2.000/mm³. Na seção de efeitos adversos, manda suspender diante de leucócitos totais abaixo de 3.000/mm³, neutrófilos abaixo de 1.500/mm³ ou plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Sobra entre os dois uma faixa de 550/mm³ em leucócitos e de 500/mm³ em neutrófilos — o paciente com 3.200 leucócitos e 1.700 neutrófilos não pode iniciar e não precisa suspender, se já estiver em uso. É provável que a diferença seja deliberada, porque limiares de início e de continuação de fato diferem no monitoramento internacional da clozapina; mas o documento não diz isso em lugar nenhum, e quem lê apenas uma das duas seções sai com um número só. Registre-se ainda que a mesma seção manda hemograma semanal nas primeiras 18 semanas e mensal enquanto durar o uso, e que ela avalia a citopenia também por plaquetas, que não aparecem entre os critérios de exclusão.

Nota 9 — a circunferência abdominal de 94 cm aparece sem distinção de sexo. Entre as contraindicações relativas da quetiapina e da olanzapina, o protocolo lista obesidade, cintura maior que 94 cm, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia e diabete mélito ou resistência insulínica, agrupados como síndrome metabólica. O número 94 é o corte masculino nas definições internacionais que separam homens e mulheres por circunferência abdominal; aplicá-lo sem qualificação faz com que a mesma medida signifique coisas diferentes conforme o sexo de quem a tem. Como é contraindicação relativa, e não absoluta, o efeito prático é sobre quem entra na conversa de risco e benefício antes de receber um antipsicótico de alto risco metabólico — e, do jeito que está escrito, entram mais mulheres do que a definição de origem previa.

Nota 10 — as conferências que fecharam, e que pesam tanto quanto as que falharam. A técnica de coleta do nível sérico é idêntica nos dois documentos federais: dose estável por 5 a 7 dias no protocolo e 5 dias no Caderno, com coleta 12 horas após a última tomada em ambos. O alvo sérico da carbamazepina é o mesmo nos dois (8 a 12 mcg/mL), e a rampa também (200 mg a cada 2 dias). O limiar de intoxicação do lítio de 1,5 mEq/L é o mesmo nos dois. As dez apresentações que o protocolo lista na seção 7.5 foram conferidas uma a uma contra a Rename 2024 e batem, com duas exceções já registradas: o erro de 2 g/mL do haloperidol e o comprimido de 300 mg de ácido valproico, que existe no elenco e não é citado pelo protocolo. E os três espelhos completos do protocolo, comparados após normalização de espaço e hifenização, não divergem em nenhum dígito de dose, critério ou limiar.

Nota 11 — o que o protocolo codifica e não define. O documento manda registrar o diagnóstico pela Classificação Internacional de Doenças e lista sete códigos, entre os quais o F31.6, transtorno afetivo bipolar com episódio atual misto. A palavra misto aparece uma única vez no documento inteiro, exatamente nessa linha de código: não há em lugar nenhum a descrição do que constitui um episódio misto. O mesmo vale, com mais peso, para a hipomania, citada oito vezes e nunca definida por critérios — embora seja ela que, segundo o próprio texto, transforma um quadro depressivo em depressão bipolar. E a expressão ciclagem rápida não aparece nenhuma vez no protocolo. Essas três ausências foram medidas por busca no texto integral, e não estimadas.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do Almir, do leito 12, e tem um ponto de virada no marco 4 — antes dele quase tudo o que decide desfecho é conversa e exclusão de causa clínica; depois dele começa a farmacologia, que é o que o interno costuma querer fazer primeiro e é o que menos se perde por esperar duas horas.

Uma advertência antes de começar. Nada do que vem abaixo pressupõe contenção nem sedação de urgência. Almir fala, discorda, é irritadiço e quer alta — e nada disso é indicação de contenção. Se em algum momento surgir perigo imediato, para ele ou para quem o atende, o roteiro passa a ser outro e tem dono nesta apostila: o capítulo sobre o que a sedação apaga, que traz a desescalada, a indicação e a técnica de contenção, a escolha do sedativo e a síndrome neuroléptica maligna. Volte para cá quando a situação estiver contida.

Escolher pela fase, pessoa e segurança reprodutiva. Mania grave pode requerer combinação de estabilizador e antipsicótico; opções de monoterapia também existem em cenários selecionados. Depressão bipolar tem tratamento próprio e antidepressivo isolado é inadequado em bipolar I. Lamotrigina não trata mania aguda e sua proteção contra mania é limitada, mas afirmação de associação obrigatória para todo paciente deve ser contextualizada. Valproato exige especial cautela reprodutiva e não deve ser escolha automática em quem pode engravidar. Na gestação/lactação, avaliar riscos maternos e do bebê com equipe especializada; não suspender estabilizador por conta própria nem trocar por medicamento que não proteja o padrão de recaída da pessoa.

Suspeita de intoxicação por lítio. Suspender lítio e precipitantes, obter litemia seriada, função renal, eletrólitos e ECG, corrigindo depleção de volume com cuidado. Sintomas neurológicos podem ser importantes com litemia aparentemente modesta na intoxicação crônica. Acionar toxicologia/nefrologia cedo; rebaixamento, crises ou arritmias ameaçadoras podem indicar depuração extracorpórea independentemente do valor isolado. Não fazer diurese forçada nem esperar apenas um corte numérico. Ensinar sinais de alerta e o risco de desidratação, AINEs, tiazídicos e fármacos que interferem na depuração; revisar após doença intercorrente ou mudança de medicação.

  1. Marco 1 — primeiros quinze minutos, antes de qualquer decisão

    Sente-se. Fique na altura dos olhos dele, com a porta desobstruída, e não fique de pé no vão. Não discuta os planos de negócio nem tente convencê-lo de que a venda da moto foi um erro: confrontar grandiosidade produz hostilidade e não produz insight. Ao mesmo tempo, não concorde com o que não é verdade. O meio-termo é validar o afeto e não o conteúdo: “Dá para ver que você está com muita energia e com muita coisa na cabeça. Eu quero entender direito o que está acontecendo antes de a gente falar de alta.” Nesses quinze minutos você já colheu o essencial do critério B — pressão de fala, distratibilidade, grandiosidade — sem ter feito uma única pergunta de checklist.

  2. Marco 2 — primeira hora: o critério D, que é onde o interno trabalha

    Antes de chamar isso de transtorno bipolar, exclua o que imita. Anamnese farmacológica completa, com a pergunta direta sobre corticoide — em comprimido, em injeção, em colírio, por conta própria, para qualquer coisa nas últimas semanas. Pergunte por cocaína, anfetamínicos e estimulantes, e por álcool, com quantidade e padrão dos últimos dias, sem tom de interrogatório. Examine a tireoide e procure tireotoxicose: frequência cardíaca, tremor fino, pele quente e úmida, perda de peso. Faça o exame neurológico básico. Peça glicemia capilar, hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina e hormônio tireotrófico. E confira o nível de consciência: se ele oscilar ao longo do dia, o caso é delirium e muda de capítulo.

  3. Marco 3 — mesma manhã: suspender o antidepressivo

    A fluoxetina sai hoje. O protocolo é explícito ao mandar suspender antidepressivos e outros medicamentos que possam estar precipitando sintomas maníacos diante de um episódio de mania, e a fluoxetina tem, entre suas contraindicações relativas, exatamente a história de virada maníaca induzida por antidepressivo. Suspenda de uma vez neste contexto — não é a retirada gradual de um paciente eutímico, é a remoção de um precipitante ativo. Escreva no prontuário o motivo com essas palavras, porque alguém vai reintroduzir o fármaco daqui a seis meses se o motivo não estiver escrito. E diga à mãe e a ele, em voz alta, que o remédio não foi um erro de quem prescreveu: foi prescrito para o quadro que se apresentou, e o que se aprendeu agora é que faltava uma pergunta.

  4. Marco 4 — mesmo dia: montar o esquema, e pedir o que autoriza montá-lo

    A conduta mais eficaz para a mania, segundo o protocolo, é a associação de um estabilizador de humor com um antipsicótico — mais eficaz que a monoterapia com estabilizador. A combinação indicada em nível 1 é carbonato de lítio com risperidona; os níveis seguintes são ácido valproico com olanzapina, carbamazepina com haloperidol ou quetiapina, e a clozapina no nível 4, reservada para depois da falha de no mínimo duas combinações. Antes do primeiro comprimido, colha o que o protocolo exige: peso, altura, circunferência abdominal e do quadril, colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum e hemograma — e, especificamente para o lítio, hormônio tireotrófico, creatinina e ureia. As três medidas de pressão arterial em datas diferentes ficam para o seguimento; não travam o início na internação.

  5. Marco 5 — mesmo dia: começar o lítio, e começá-lo devagar

    Lítio exige plano de dose e monitorização individualizado: função renal, idade, hidratação, interações, cálcio, tireoide e possibilidade de gestação são avaliados antes. Não aplicar escalada automática de 300 mg a cada dois dias a todo paciente. Após atingir dose estável, colher litemia em geral em 5–7 dias e cerca de 12 horas após a última tomada, registrando os horários. Alvos dependem da fase e tolerância: manutenção frequentemente 0,6–0,8 mEq/L; faixa mais alta pode ser escolhida em situações específicas. Lítio tem evidência importante de prevenção de recaída e possível redução de suicídio, mas não garante proteção individual nem substitui avaliação de risco.

  6. Marco 6 — mesmo dia: o antipsicótico, e o prazo para julgá-lo

    Risperidona 1 mg à noite, com incremento de 1 mg por dia até a dose-alvo, faixa usual de 1 a 6 mg/dia. Solução oral pode facilitar deglutição quando aceita, mas continua sendo via oral: não contorna recusa nem autoriza administração oculta. Guarde os dois prazos que o protocolo fixa, porque eles evitam a troca precipitada e a espera inútil: avalie a resposta em até 2 semanas com a combinação em dose adequada antes de trocar de medicamento; e, se for trocar, troque um fármaco de cada vez — sem resposta com lítio e risperidona, é legítimo trocar a risperidona pela olanzapina mantendo o lítio, ou trocar o lítio pelo ácido valproico mantendo a risperidona. O tempo de tratamento da fase aguda é de 8 a 24 semanas. Uma nota de acesso que muda o plano de alta: a risperidona é do componente especializado e exige processo; o lítio é do básico e sai no posto. Se o processo não estiver pronto na alta, alguém precisa saber disso hoje.

  7. Marco 7 — segundo e terceiro dias: a família, o registro e o dinheiro

    Chame Godofreda e, se Almir autorizar, converse com ela na presença dele. Explique a doença sem eufemismo e sem sentença: episódios que vão e voltam, tratamento longo, prognóstico bom quando há adesão. Ensine o sinal de recaída que ela já sabe reconhecer sem saber — a noite em claro produtiva — e combine que qualquer sequência de duas ou três noites assim é motivo de contato, não de esperar a consulta. Trate o gasto impulsivo como sintoma e não como caráter: a venda da moto foi um item do critério B, e vale dizer isso à família, porque é o que evita que a recuperação venha com uma dívida de vergonha em cima. Se houver dano financeiro relevante, isso entra na conversa de alta como problema a resolver, com apoio da rede.

  8. Marco 8 — alta: o que precisa estar escrito para o tratamento sobreviver

    O resumo de alta precisa dizer três coisas que ninguém adivinha depois. Primeira: o diagnóstico, com o episódio prévio de elevação aos 21 anos e o episódio maníaco atual — e não quadro maníaco secundário a fluoxetina, porque o protocolo determina que a mania que persiste além do efeito fisiológico do antidepressivo é evidência suficiente para o diagnóstico. Segunda: que a fluoxetina foi suspensa por virada maníaca, com a data, para que ninguém a reintroduza. Terceira: o plano de seguimento com datas — retorno em até uma semana, litemia com a data em que ela cai 5 a 7 dias depois da dose estável, e as três medidas de pressão arterial em datas diferentes que ainda faltam. O encaminhamento à rede de atenção psicossocial e a organização do cuidado compartilhado entre atenção básica, centro de atenção psicossocial e serviço de referência não são deste capítulo — a rede e os seus dispositivos, inclusive a indicação de internação, têm capítulo próprio nesta apostila, e é para lá que este manda. O que fica aqui é a obrigação de que o encaminhamento saia escrito com o motivo específico, e não apenas com a palavra bipolar.

09

Como saber se está funcionando

Reavaliar transtorno bipolar tem uma armadilha própria: o paciente melhora, e a melhora é o momento de maior risco de abandono. Sete parâmetros, e o primeiro deles é o que dá notícia mais cedo de todos os outros.

Sono — horas dormidas e necessidade de sonoToda consulta, e é a primeira pergunta de cada uma

Esperado: Sono restaurado e estável, com a pessoa acordando cansada se dormiu pouco — que é o normal

Se não melhora: Duas ou três noites seguidas de sono curto sem cansaço no dia seguinte é sinal de virada, não de estresse. Antecipe a consulta, reveja a dose do estabilizador e procure precipitante — antidepressivo reintroduzido, corticoide, estimulante, privação de sono por turno de trabalho. Ensine esse mesmo sinal ao paciente e à família, porque eles o veem antes de você.

Litemia5 a 7 dias após cada mudança de dose, e depois semestralmente segundo a Tabela 1 do protocolo — sempre 12 horas após a última tomada

Esperado: 0,6 a 1,2 mEq/L pelo protocolo federal; o Caderno de Atenção Básica nº 34 estreita para 0,6 a 0,8 na manutenção

Se não melhora: Nível baixo com sintomas: confira antes de subir a dose se a coleta respeitou as 12 horas e se houve 5 a 7 dias de dose estável — as duas causas mais comuns de resultado falsamente baixo. Nível acima de 1,2 mEq/L com qualquer sintoma neurológico: trate como intoxicação, independentemente de o número ainda não ter chegado a 1,5. E repita a litemia fora do calendário sempre que houver desidratação, diurético novo, anti-inflamatório ou perda da função renal — o calendário semestral não cobre esses eventos, e é uma limitação da tabela que o interno precisa suprir por conta própria.

Função renal — ureia e creatininaTrimestral, pela Tabela 1 do protocolo

Esperado: Estável em relação ao valor de base colhido antes de começar

Se não melhora: Queda de função renal em quem usa lítio muda duas coisas ao mesmo tempo: eleva a litemia e é, ela própria, um desfecho a investigar. A investigação e o manejo da injúria renal são do capítulo de injúria renal aguda, na apostila de Nefrologia. O que se decide aqui é o lítio: colher litemia imediatamente e discutir a continuidade, sabendo que insuficiência renal grave é contraindicação absoluta ao fármaco.

Tireoide — hormônio tireotrófico, e cálcio séricoSemestral, junto com a litemia, pela Tabela 1

Esperado: Hormônio tireotrófico estável; hipotireoidismo é efeito adverso conhecido do lítio, não é acaso

Se não melhora: Hormônio tireotrófico alterado não é ordem automática de suspender o lítio. A investigação e o tratamento da tireoide são do capítulo de hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano, na apostila de Endocrinologia; a decisão sobre o fármaco fica aqui, e pesa de um lado o hipotireoidismo, que é tratável, e do outro a recaída, que não é. Na prática, trata-se a tireoide e mantém-se o lítio na maioria das vezes.

Peso, circunferência abdominal, pressão arterial e perfil metabólicoAntropometria e pressão em 3, 6 e 12 meses; glicemia de jejum e perfil lipídico trimestrais no primeiro ano e anuais depois, com eletrocardiograma anual em quem usa antipsicótico

Esperado: Sem ganho ponderal expressivo e sem deslocamento do perfil lipídico ou glicêmico em relação à linha de base

Se não melhora: Este é o parâmetro que o interno mais esquece e o que mais adoece o paciente a longo prazo. Ganho de peso e dislipidemia sob olanzapina ou quetiapina não são motivo automático de troca, e sim de conversa explícita de risco e benefício, com a régua do próprio protocolo — que lista obesidade, cintura aumentada, hipertensão, dislipidemia e diabete entre as contraindicações relativas desses dois fármacos.

Adesão, medida em dias e não em intençãoToda consulta

Esperado: Uso contínuo, com o paciente sabendo dizer quantos dias faltou no último mês

Se não melhora: Pergunte quantos dias faltou, não se está tomando certo — a primeira pergunta obtém um número e a segunda obtém um sim. Falta de adesão aqui tem explicação clínica e não moral, e a mais frequente é a melhor de todas do ponto de vista do paciente: ele parou porque estava bem, ou porque sentia falta do estado de energia. Isso se trata conversando, e a conversa está no bloco seguinte. Trate também as causas banais — efeito adverso não relatado, comprimido que acabou, processo do componente especializado vencido.

Humor e risco de suicídioToda consulta, com reavaliação clínica mensal recomendada pelo protocolo

Esperado: Eutimia, com a ressalva de que o prejuízo cognitivo pode persistir mesmo na eutimia e não significa recaída

Se não melhora: Pergunte diretamente sobre pensamentos de morte e de acabar com a própria vida, em toda consulta, inclusive em quem negou da vez anterior — o estado muda. Qualquer resposta afirmativa interrompe o roteiro: aprofunde ali mesmo e conduza dali em diante pelo primeiro capítulo desta apostila, o de risco de suicídio na emergência, dono da estratificação e da decisão de destino. Atenção redobrada no estado misto, em que energia e desespero coexistem, e no período logo após a melhora de um episódio depressivo.

10

Onde o erro machuca

Prescrever antidepressivo sem ter perguntado por um episódio prévio de elevação do humor

O dano: É o erro que produz o caso de abertura, e ele é ativo, não é omissão: devolve o paciente em mania, com dano financeiro, social e às vezes jurídico feito durante o episódio, e com anos somados ao atraso do diagnóstico — que o protocolo lista entre os fatores de pior prognóstico. A pergunta que o evita leva quinze segundos e não precisa de instrumento nenhum. Registre-se a fronteira: a régua do antidepressivo na depressão unipolar é do capítulo de depressão maior na unidade básica, que já é dono da obrigação de rastrear antes da receita; o que este capítulo acrescenta é o que fazer depois que a resposta vem sim.

Chamar de insônia a redução da necessidade de sono

O dano: São fenômenos opostos com o mesmo número de horas. Na insônia a pessoa quer dormir, não consegue e amanhece exausta; na redução da necessidade de sono ela dorme três horas, não se queixa e passa o dia produzindo. O erro se materializa numa prescrição de indutor do sono para alguém em virada maníaca, o que trata o sintoma mais visível e deixa o quadro correr. Pergunte pelo cansaço do dia seguinte, e não pelas horas de sono.

Sedar a mania, ver a agitação ceder e dar alta sem estabilizador

O dano: Sedar não é estabilizar. A agitação é o sintoma mais barulhento e o menos informativo do episódio; ela cede em horas e o episódio dura semanas. Alta sem estabilizador de humor iniciado, e sem retorno com data, é recaída marcada — e o protocolo é explícito ao pôr a combinação de estabilizador com antipsicótico acima da monoterapia justamente na mania. O manejo da sedação em si é do capítulo sobre o que a sedação apaga; o que este capítulo cobra é que o estabilizador comece antes da alta.

Colher a litemia fora da janela de 12 horas, ou antes de a dose estar estável

O dano: Produz decisão errada nos dois sentidos. Coleta próxima demais da tomada mede o pico e vem alta, e alguém reduz a dose de um paciente estável. Coleta antes dos 5 a 7 dias de dose estável mede um nível pré-equilíbrio e vem baixa, e alguém sobe a dose de quem já estava no alvo — o caminho mais curto para uma intoxicação iatrogênica. As duas condições estão escritas no protocolo federal e no Caderno nº 34, com números praticamente iguais; e a instrução de titulação do próprio protocolo, lida literalmente, empurra para a segunda armadilha, como está registrado nas notas do bloco de critérios.

Tratar o número e não a pessoa numa suspeita de intoxicação pelo lítio

O dano: É o erro mais grave da lista porque manda alguém para casa. Na intoxicação crônica pode haver sintomas importantes com níveis séricos dentro da faixa terapêutica, e a apresentação é neurológica: tremor grosseiro, ataxia, disartria, hiper-reflexia, confusão, vômitos e diarreia. Um paciente em lítio com ataxia e tremor grosseiro tem intoxicação até prova em contrário, mesmo com litemia de 1,1 mEq/L. E o inverso também engana: na intoxicação aguda o nível pode estar alto com pouca repercussão neurológica, porque a distribuição no sistema nervoso central é lenta — o paciente pode piorar horas depois.

Entregar a receita de lítio sem ensinar o que o desidrata para dentro da intoxicação

O dano: O paciente sai sabendo tomar o comprimido e sem saber que uma diarreia de dois dias, um diurético novo prescrito por outro colega ou um anti-inflamatório comprado na farmácia podem elevar a litemia sem que ele mude nada. O protocolo nomeia diuréticos, inibidores da enzima conversora da angiotensina e anti-inflamatórios não esteroidais entre os fármacos que alteram o nível sérico, e manda evitar essas associações e as condições que alterem a função renal. Três frases na alta resolvem, e estão no bloco de conversa.

11

O que dizer ao paciente e à família

Sete situações. As três primeiras acontecem em minutos e mudam o diagnóstico; as quatro últimas acontecem em anos e mudam o desfecho.

Rastrear elevação de humor numa consulta de depressão, sem assustar

“Antes de renovar a receita eu faço três perguntas a todo mundo, e a primeira parece o avesso do que a senhora me contou. Já houve alguma época, de uma semana para cima, em que a senhora dormiu três ou quatro horas por noite e mesmo assim acordou bem, com energia, sem cansaço nenhum durante o dia? Nessa mesma época, quem convive com a senhora comentou que estava diferente — falando demais, gastando demais, resolvendo coisa que não costuma resolver? E essa época veio logo em seguida de alguma medicação nova para o humor?”

O paciente em mania quer alta e não aceita que está doente

“Eu ouvi você, e eu não vou tentar te convencer hoje de que você está doente. Mas você mesmo me disse que não dorme há cinco noites, e que vendeu a moto por um terço do preço. Eu não estou discutindo se a ideia da empresa é boa; eu estou dizendo que cinco noites sem dormir mudam o jeito como qualquer pessoa decide as coisas, inclusive eu. Fica comigo até amanhã, a gente dorme uma noite, e amanhã você reavalia a venda da moto com a cabeça descansada. Se amanhã você continuar achando a mesma coisa, a gente conversa de novo.”

Dizer o diagnóstico pela primeira vez

“O que você teve tem nome: é um episódio de mania, e ele faz parte de uma doença chamada transtorno afetivo bipolar. Eu quero que você ouça três coisas junto com o nome. A primeira: isso não é fraqueza, nem falta de caráter, e o que você fez nessas cinco noites foi sintoma, do mesmo jeito que febre é sintoma. A segunda: tem tratamento, e o tratamento funciona — a maior parte das pessoas com isso trabalha, estuda e vive a vida delas. A terceira: o remédio que você tomou não foi um erro de quem receitou. Ele foi dado para o quadro que apareceu naquele dia. O que faltou foi uma pergunta, e agora ela foi feita.”

A pessoa parou o remédio porque estava se sentindo bem

“Você parou porque estava bem. Isso faz todo sentido, e eu prefiro que você me diga isso do que que me diga que tomou. Deixa eu te contar o que costuma acontecer: a fase em que a pessoa se sente ótima e cheia de energia faz parte da doença, não é a doença indo embora. É por isso que ela é a fase em que quase todo mundo para o remédio — e é por isso que ela costuma ser seguida de uma queda feia. O remédio não tira o seu jeito de ser. Ele tira o tamanho da queda. Podemos combinar assim: você não para sem me avisar. Se quiser parar, a gente conversa antes e decide juntos.”

Alguém que sente falta do estado de hipomania

“Eu acredito em você quando diz que naquela época você produzia mais e se sentia mais você mesmo. Isso é real e eu não vou dizer que não é. O que eu te peço é que a gente olhe os dois lados da mesma conta: nessas fases você também brigou com o seu chefe, largou um emprego e vendeu uma moto pela metade do preço. Não é o bem-estar que eu quero tirar de você. É a conta que vem depois. E tem uma coisa que eu preciso te dizer com honestidade: o lítio é o único remédio dessa doença que mostrou reduzir mortalidade. Isso pesa na minha recomendação, e eu quero que pese na sua decisão.”

Explicar o lítio: por que tanto exame

“O lítio é o melhor remédio que a gente tem para isso, e ele tem uma característica: a distância entre a dose que funciona e a dose que faz mal é curta. Por isso a gente mede o nível dele no sangue, e por isso eu peço exame de rim e de tireoide de vez em quando — não é porque eu desconfio de alguma coisa, é a rotina de quem usa lítio. Uma regra sobre o exame de sangue: ele tem que ser colhido doze horas depois do último comprimido. Se você toma às dez da noite, colhe às dez da manhã e não toma nada antes. Colher na hora errada dá um número errado, e um número errado faz eu mexer na sua dose sem precisar.”

As três frases de segurança do lítio, na alta

“Três coisas que eu quero que você guarde, e que valem para o resto do tratamento. Um: se você tiver vômito ou diarreia por mais de um dia, ou ficar sem beber água num calor forte, me procure — porque desidratar aumenta o lítio no seu sangue sem você ter mudado nada. Dois: se qualquer médico for te passar um remédio novo, principalmente para pressão ou para dor, avise que você toma lítio; remédio de pressão do tipo diurético e anti-inflamatório são os dois que mais mexem com ele. Três: se você começar a sentir tremor grosseiro nas mãos, andar cambaleando, arrastar a fala ou enxergar embaçado, isso não é normal e não espera a próxima consulta — procure um serviço no mesmo dia e diga que usa lítio.”

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A mulher que amamenta e usa lítio: manter, ou trocar pelo que o manual da lactação recomenda

O protocolo do transtorno bipolar — Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016

Põe o carbonato de lítio como primeira escolha em todas as fases da doença, incluindo a manutenção, e o justifica por ser o mais bem validado e o único que demonstrou redução de suicidalidade e de mortalidade por todas as causas em transtornos de humor. Nas contraindicações, lista para o lítio apenas gravidez e hipotireoidismo como relativas — e não menciona lactação. Para a lamotrigina, registra eficácia limitada: previne recidivas depressivas e não previne mania, devendo por isso estar sempre associada a outro agente eficaz na prevenção de episódios maníacos. Para a carbamazepina, a primeira gravidez em curso é contraindicação absoluta no primeiro trimestre.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

O manual federal da lactação — Amamentação e uso de medicamentos e outras substâncias, 3ª edição, Ministério da Saúde, 2025

Classifica o carbonato de lítio como nível 4, uso possivelmente perigoso durante a amamentação, com relatos de níveis elevados no leite materno e no lactente e possível efeito tireotóxico — e nomeia expressamente as alternativas: carbamazepina e lamotrigina. Classifica o ácido valproico também como nível 4. E classifica carbamazepina e lamotrigina como nível 2, uso provavelmente compatível com a amamentação. Ou seja: o documento federal mais novo manda, para a lactante, exatamente os dois fármacos que o documento federal mais antigo põe em último lugar — e um deles é o que aquele protocolo diz que não previne mania sozinho.

Brasil. Ministério da Saúde. Amamentação e uso de medicamentos e outras substâncias. 3ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.

Como decidir

Os dois documentos estão em vigor, os dois são federais e nenhum cita o outro. Para a paciente à sua frente, decida por três perguntas, nesta ordem. Primeira: qual é o polo do risco dela? Se a história é de episódios maníacos graves, trocar o lítio por lamotrigina em monoterapia deixa desprotegido justamente o polo que a interna — e o puerpério é período de risco alto de recaída. Segunda: o que se perde de cada lado é reversível? A exposição do lactente é evitável por outra via (fórmula, ou lítio mantido com vigilância clínica e laboratorial do bebê); uma recaída maníaca no puerpério não é reversível do mesmo jeito. Terceira, e é a que decide na prática: a decisão é compartilhada e precisa ser escrita — registre no prontuário que os dois documentos federais foram considerados, qual foi escolhido, por quê, e o que a mãe decidiu depois de informada. Esta decisão não se toma sozinho: ela é ponto de contato com o pré-natal e com o puerpério, e o encaminhamento e a estratificação de risco gestacional têm capítulo próprio neste nível, na apostila de Obstetrícia. Registre-se que nenhum capítulo deste nível é dono da teratogenicidade dos estabilizadores de humor, e que este capítulo assume apenas a decisão sobre o estabilizador, cedendo o resto.

O antidepressivo na depressão bipolar: usar em combinação, ou evitar por completo

A favor do uso combinado — Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016

Registra que os antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, quando associados a estabilizadores de humor ou antipsicóticos, podem ser efetivos no tratamento da depressão bipolar, e incorpora a fluoxetina ao protocolo com essa indicação. Põe a combinação no nível 4 do Quadro 2 — olanzapina com fluoxetina, lítio com fluoxetina ou ácido valproico com fluoxetina —, reservada para refratariedade, contraindicação ou intolerância a lítio, quetiapina e lamotrigina. No mesmo documento, contudo, reconhece que a evidência é contraditória.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

Contra o uso, e absolutamente contra a monoterapia — o mesmo documento, em outras três passagens

O protocolo declara que os antidepressivos são claramente contraindicados como monoterapia na depressão bipolar; manda suspendê-los diante de sintomas maníacos; determina que na manutenção sejam gradativamente suspensos sempre que possível, com redução após 6 a 8 semanas de remissão, exceto em quem tem história de inúmeras recorrências depressivas; e inclui a virada maníaca prévia entre as contraindicações relativas da fluoxetina, mandando monitorar ativamente sinais de virada durante o uso.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

Como decidir

A divergência é interna ao mesmo documento e não se resolve por autoridade, porque a autoridade é a mesma. Para o paciente à frente, decida assim: se ele nunca teve virada induzida por antidepressivo e está deprimido e refratário a lítio, quetiapina e lamotrigina, a combinação está autorizada pela régua — e nunca a fluoxetina sozinha. Se ele já teve virada, como Almir teve, o mesmo documento a transforma em contraindicação relativa, e o ônus de justificar passa a ser de quem prescreve, por escrito. E, nos dois casos, a decisão vem com uma obrigação que não é opcional: monitorar ativamente redução da necessidade de sono, agitação, irritabilidade e elevação do humor, na consulta seguinte e nas próximas, porque é o próprio protocolo que manda.

Até onde vai a dose do estabilizador: o teto do protocolo, ou o teto da atenção básica

O teto mais baixo — Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016

Fixa dose máxima de 1.800 mg/dia para o carbonato de lítio, 2.000 mg/dia para o ácido valproico e 1.000 mg/dia para a carbamazepina, sempre em dose única à noite, com ajuste conforme o nível sérico. É o documento com força normativa: é ele que ancora o processo do componente especializado e é ele que os pareceres técnicos citam como a régua em uso.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

O teto mais alto — Cadernos de Atenção Básica nº 34, Saúde Mental, Ministério da Saúde

Traz doses médias de 900 a 2.100 mg/dia para o carbonato de lítio e de 400 a 1.600 mg/dia para a carbamazepina — em ambos os casos com o topo da faixa de rotina acima da dose máxima do protocolo (300 mg acima no lítio, 600 mg acima na carbamazepina). Para o ácido valproico admite até 3 g/dia em alguns pacientes, para atingir níveis séricos terapêuticos, e fraciona a dose em 2 a 3 tomadas diárias em vez de dose única noturna. É o documento que o generalista tem à mão e que descreve a prática da atenção básica brasileira.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica nº 34 — Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde.

Como decidir

Decida pelo nível sérico e não pelo teto, porque é isso que os dois documentos, no fundo, mandam fazer: os dois ajustam a dose pela litemia ou pelo nível do anticonvulsivante, com a mesma técnica de coleta. Na prática: enquanto o nível estiver dentro do alvo, a discussão de teto é vazia; quando o nível estiver abaixo do alvo com o paciente ainda sintomático na dose máxima do protocolo, você está diante de uma decisão real, e ela é de quem assiste. Duas balizas para tomá-la com segurança: registre por escrito qual documento está seguindo e por quê; e lembre que dose acima do teto do protocolo pode ter consequência administrativa no processo do componente especializado, onde a receita precisa ser compatível com o protocolo que autorizou o fármaco. Se a dose máxima do protocolo não controla o quadro, a régua do próprio protocolo oferece uma saída antes de estourar o teto: trocar um fármaco da combinação, ou associar, e não simplesmente subir.

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O raciocínio, em voz alta

Quinta-feira, dez e dez da manhã, enfermaria de clínica médica de hospital municipal. Almir Fragata, 26 anos, admitido às cinco da manhã pela porta do pronto-socorro. A ficha da noite diz agitação, insônia, sem sinais de foco infeccioso. Encontra-se sentado na borda do leito, fala depressa, salta de assunto, não deixa você terminar as perguntas e quer alta hoje para fechar um negócio. A mãe, Godofreda Canabarro, conta que ele não dorme há cinco noites e que passa as madrugadas produzindo; que reorganizou a garagem inteira numa delas; que mandou mensagem às três da manhã para gente com quem não falava havia oito anos; e que vendeu a moto por um terço do valor. Ela mostra uma receita de março: fluoxetina 20 mg pela manhã, uso contínuo, prescrita na unidade básica para um quadro depressivo. Estamos em junho.

  1. Passo 1 — dê nome ao quadro antes de escolher qualquer conduta

    Isso não é insônia com agitação. É redução da necessidade de sono com aumento de atividade dirigida a objetivos, que é coisa diferente e aponta para outro lugar. Rode o critério A na cabeça: humor elevado e expansivo, energia e atividade aumentadas, e duração — cinco dias, com hospitalização necessária, o que dispensa a exigência de uma semana. Rode o critério B: redução da necessidade de sono, grandiosidade nos planos, pressão de fala, distratibilidade evidente na entrevista, aumento da atividade dirigida a objetivos e envolvimento em atividade com potencial de consequência dolorosa, que é a venda da moto. São seis, e três bastariam. Critério C: prejuízo suficiente para internação. Falta o D.

  2. Passo 2 — o critério D é trabalho de clínica médica, e é agora

    Anamnese farmacológica com a pergunta direta sobre corticoide, em qualquer via e por conta própria, nas últimas semanas. Pergunta sobre cocaína, anfetamínicos, estimulantes e álcool, com quantidade e padrão. Exame de tireoide e busca ativa de tireotoxicose: frequência cardíaca, tremor fino, pele quente e úmida, perda de peso. Exame neurológico básico. Glicemia capilar, hemograma, sódio, potássio, ureia, creatinina, hormônio tireotrófico. E a checagem que reorienta o caso inteiro se vier positiva: o nível de consciência oscila ao longo do dia? Se oscilar, isto é delirium e o capítulo é outro. No Almir não oscila: ele está alerta, orientado, e o que mudou foi o humor e a energia.

  3. Passo 3 — colha a história que ninguém colheu

    Com autorização dele, converse com Godofreda separadamente e faça as três perguntas de rastreio, agora aplicadas ao passado. E o dado aparece: aos 21 anos, durante cerca de um mês, ele ficou elétrico, brigou com o chefe, largou o emprego e recuperou-se sozinho, sem procurar serviço nenhum. Isso é um episódio prévio de elevação do humor, e é o dado que faltava havia cinco anos no prontuário dele. Registre com as palavras dela, entre aspas, e não com a sua síntese.

  4. Passo 4 — suspenda a fluoxetina hoje, e escreva por quê

    O protocolo manda suspender antidepressivos e outros medicamentos que possam estar precipitando sintomas maníacos diante de um episódio de mania. Suspensão imediata neste contexto — não é a retirada gradual de um paciente eutímico. Anote no prontuário: fluoxetina suspensa por virada maníaca, com a data. Sem essa frase escrita, alguém a reintroduz em seis meses. E não escreva quadro maníaco secundário a fluoxetina sem transtorno de base: o próprio protocolo determina que o episódio maníaco que persiste além do efeito fisiológico do antidepressivo é evidência suficiente para o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar do tipo I.

  5. Passo 5 — colha a linha de base antes do primeiro comprimido

    Peso, altura, circunferência abdominal e do quadril; colesterol total e frações, triglicerídeos, glicemia de jejum, hemograma. E, porque vai entrar lítio: hormônio tireotrófico, creatinina e ureia. As três medidas de pressão arterial em datas diferentes que o protocolo exige ficam para o seguimento e não travam o início. Isso não é papelada: sem a linha de base, ninguém vai saber daqui a um ano o que é do Almir e o que é do remédio.

  6. Passo 6 — monte o esquema pela régua, e comece devagar

    Estabilizador mais antipsicótico, que o protocolo põe acima da monoterapia na mania. Nível 1: carbonato de lítio com risperidona. Lítio 300 mg à noite, com incremento de 300 mg a cada 2 dias até 900 mg; chegando a 900 mg, mantenha por 5 a 7 dias e só então colha a litemia, 12 horas após a última tomada. Risperidona 1 mg à noite, com incremento de 1 mg por dia até a dose-alvo, faixa usual de 1 a 6 mg. Guarde os prazos: avalie a resposta em até 2 semanas antes de trocar, e troque um fármaco de cada vez.

  7. Passo 7 — a família, e o gasto que virou dívida

    Explique a doença a Almir e a Godofreda juntos, com o consentimento dele. Ensine o sinal de recaída que ela já sabe reconhecer: a noite em claro produtiva — duas ou três seguidas são motivo de contato, não de esperar a consulta. E trate a venda da moto como sintoma, em voz alta: foi um item do critério que fechou o diagnóstico, e dizer isso à família é o que evita que a recuperação venha com uma dívida de vergonha por cima da dívida financeira. Se houver dano relevante, isso entra no plano de alta como problema a resolver com apoio da rede.

  8. Passo 8 — a alta, com três frases que decidem o próximo ano

    No resumo: o diagnóstico, com o episódio prévio aos 21 anos e o episódio atual; a suspensão da fluoxetina por virada maníaca, com a data; e o plano com datas — retorno em até uma semana, litemia agendada para 5 a 7 dias após a dose estável e colhida 12 horas depois da tomada, e as três medidas de pressão arterial que faltam. Na receita, o lítio sai na farmácia do posto, sem processo; a risperidona é do componente especializado e exige laudo, receita para seis meses, termo de esclarecimento e renovação semestral — se o processo não estiver encaminhado hoje, o esquema quebra na segunda semana. Antes de ele sair, as três frases de segurança do lítio: diarreia ou vômito por mais de um dia, remédio novo de pressão ou anti-inflamatório, e tremor grosseiro, marcha cambaleante ou fala arrastada.

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Faça você

Terça-feira, quinze e vinte, unidade de pronto atendimento. Gilberta Limoeiro, 41 anos, chega andando, apoiada pelo filho. Tem transtorno afetivo bipolar do tipo I há nove anos e está estável há quatro, em carbonato de lítio 900 mg à noite e quetiapina 300 mg. Nunca faltou consulta. A queixa é vômito e diarreia há três dias, que ela atribui a uma comida. Hoje o filho reparou que ela está tremendo mais que o normal e que se apoia na parede para andar. Ao exame: alerta, orientada, fala um pouco arrastada, tremor grosseiro de mãos, marcha atáxica, mucosas secas, frequência cardíaca 104, pressão 100 por 62. Sem febre e sem rigidez. Na revisão da medicação, um dado que ela não tinha contado: há três semanas passou em consulta na unidade básica por pressão alta e começou hidroclorotiazida 25 mg pela manhã. A litemia colhida na chegada volta em 1,4 mEq/L, e o plantonista comenta que está abaixo de 1,5 e portanto dentro do aceitável.

  1. Passo 1 — quem manda aqui, o número ou a paciente

    O comentário do plantonista se apoia numa leitura correta de um documento e numa conclusão errada. Diga qual é a leitura, e diga por que a conclusão não se sustenta diante desta paciente. Use o que as fontes deste capítulo dizem sobre a relação entre nível sérico e clínica na intoxicação crônica.

  2. Passo 2 — reconstrua o mecanismo, com os dois gatilhos que estão na história

    Há duas coisas nesta vinheta que elevam a litemia sem que ninguém tenha mudado a dose do lítio. Nomeie as duas e explique, pelo manuseio renal do lítio, por que cada uma faz o nível subir.

  3. Passo 3 — separe o que é intoxicação do que não é

    Liste, entre os achados do exame dela, quais apontam para intoxicação pelo lítio, e diga qual achado ausente afasta o principal diagnóstico diferencial que envolve os outros fármacos dela.

  4. Passo 4 — escreva a conduta das primeiras duas horas

    Diga o que se suspende, o que se hidrata e com quê, o que se colhe além da litemia, e em que situação se aciona um método de eliminação extracorpórea. Diga também o que não se faz — há uma medida de descontaminação clássica que não funciona para esta substância.

  5. Passo 5 — resolva a causa que a trouxe, para ela não voltar em três semanas

    Diga o que precisa mudar no cuidado ambulatorial dela e o que precisa estar escrito na contrarreferência, para que este episódio não se repita na próxima prescrição de outro colega.

Ver como fecharíamos

O que está acontecendo é intoxicação crônica pelo lítio, e ela deve ser tratada como tal apesar da litemia de 1,4 mEq/L. A leitura do plantonista vem do protocolo federal, que diz que o risco de toxicidade aumenta consideravelmente acima de 1,5 mEq/L — mas essa é uma frase sobre risco populacional, e não uma licença para ignorar uma paciente sintomática. Três coisas a desmontam. Primeira: o manual de toxicologia consultado classifica a faixa de 1,2 a 2,5 mEq/L como reações leves a moderadas, de modo que 1,4 já está dentro de uma faixa de toxicidade por essa régua. Segunda, e é a decisiva: na intoxicação crônica pode haver sintomas importantes mesmo com níveis séricos dentro da faixa terapêutica. Terceira: a faixa entre 1,2 e 1,5 mEq/L não pertence a classe nenhuma nos documentos federais — está acima do topo terapêutico e abaixo do limiar de toxicidade que eles declaram —, e uma paciente sintomática dentro dessa faixa se trata pela clínica. Os dois gatilhos estão na história e são os dois clássicos. O primeiro é a desidratação por vômito e diarreia de três dias, com mucosas secas, taquicardia e pressão limítrofe confirmando-a. O segundo é a hidroclorotiazida introduzida há três semanas por outro prescritor. O mecanismo é o mesmo nos dois: o lítio é um cátion monovalente que compete com o sódio nos túbulos renais e acompanha a reabsorção de sódio. Qualquer condição que aumente a reabsorção tubular de sódio — depleção de volume, diurético tiazídico — reduz a eliminação de lítio e eleva o nível sérico sem mudança de dose. O protocolo federal nomeia expressamente diuréticos, inibidores da enzima conversora da angiotensina e anti-inflamatórios não esteroidais como fármacos que alteram o nível sérico, mandando evitar essas associações. Apontam para intoxicação: tremor grosseiro, marcha atáxica, fala arrastada, além dos sintomas gastrintestinais que a trouxeram e que são parte do quadro, e não só a causa dele. O achado ausente que afasta o principal diferencial é a febre com rigidez muscular: sem febre e sem rigidez, a síndrome neuroléptica maligna relacionada à quetiapina fica muito improvável — e esse diferencial, com o seu manejo, é do capítulo sobre o que a sedação apaga, nesta mesma apostila. Conduta nas primeiras duas horas: suspender o lítio e suspender a hidroclorotiazida; hidratação venosa com solução salina, que é o que aumenta a excreção renal de lítio, com meta de débito urinário de 2 a 3 mL por quilo por hora; colher função renal com ureia e creatinina, eletrólitos, hormônio tireotrófico, hemograma e eletrocardiograma, e repetir a litemia seriada, porque o nível pode subir depois da chegada; corrigir distúrbios hidreletrolíticos e suspender qualquer nefrotóxico. A hemodiálise entra em discussão diante de manifestações neurológicas importantes, insuficiência renal ou níveis séricos altos, geralmente acima de 3,5 mEq/L — não é o caso dela agora, e a decisão é do serviço de referência. O que não se faz: carvão ativado, que não adsorve lítio; a irrigação intestinal com polietilenoglicol tem lugar apenas em ingestão maciça ou de formulação de liberação prolongada, o que também não é o caso. Para ela não voltar em três semanas, três coisas precisam mudar. A hidroclorotiazida precisa ser reavaliada e, se houver indicação de anti-hipertensivo, a escolha deve ser feita sabendo que ela usa lítio. A contrarreferência precisa dizer, em uma linha visível, que a paciente usa carbonato de lítio e que diurético e anti-inflamatório elevam a litemia — porque o colega que prescreveu não tinha essa informação. E ela precisa sair sabendo as três frases de segurança: procurar serviço se tiver vômito ou diarreia por mais de um dia; avisar que usa lítio a qualquer médico que vá prescrever remédio novo, sobretudo para pressão ou dor; e procurar atendimento no mesmo dia diante de tremor grosseiro, marcha cambaleante ou fala arrastada. Vale registrar que o calendário de litemia semestral do protocolo não cobre eventos como este: a litemia fora de calendário, disparada por desidratação, diurético novo ou queda de função renal, é conduta que o interno precisa acrescentar por conta própria.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A margem terapêutica é estreita e o contexto altera a depuração e os riscos. Exame de base e plano de coleta fazem parte da prescrição.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Diferencie sono reduzido por insônia de menor necessidade de sono. Descreva coleta de litemia, linha de base e interações. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Diante de tremor grosseiro, ataxia e diarreia, explique por que litemia modesta não exclui toxicidade. Planeje suporte, consulta especializada e prevenção de recorrência, incluindo saúde reprodutiva. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda: unidade básica de saúde, terça-feira de manhã, consulta de retorno. Uma pessoa de trinta e poucos anos vem para reavaliar um quadro depressivo que começou a ser tratado há três meses. Ela diz que está muito melhor — que voltou a resolver as coisas, que está com energia como não tinha há anos e que tem dormido pouco, mas que isso não a incomoda. Quem a acompanha parece querer dizer alguma coisa e não diz na frente dela. Você tem quinze minutos, a receita de renovação já está impressa em cima da mesa, e a decisão de assiná-la ou não depende inteiramente de perguntas que ainda não foram feitas.

Transtorno afetivo bipolar e mania – A semana em que ninguém perguntou — Internato | OsceLabs