Outras Especialidades › Psiquiatria
Risco de suicídio na emergência
A avaliação que todo interno adia — com as palavras exatas, na ordem, e o que fazer com cada resposta. Porque o que trava a pergunta não é o medo de perguntar: é não ter plano para o "sim".
Brasil. Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019. Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, a ser implementada pela União, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios; e altera a Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998. Diário Oficial da União, Brasília, 29 abr. 2019, Seção 1, p. 1.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Nota Informativa CGDANT/DANTPS/SVS/MS — Notificação de Violência Interpessoal/Autoprovocada: Portaria GM/MS nº 1.271/2014 e SINAN versão 5.0. Brasília, 4 nov. 2014. 7 p.
Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.057, de 20 de setembro de 2013 (com as alterações das Resoluções CFM nº 2.153/2016 e nº 2.165/2017). Consolida as diversas resoluções da área da Psiquiatria. Diário Oficial da União, 12 nov. 2013, Seção I, p. 165-71.
Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018 (alterada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019). Brasília: CFM, 2019.
Conselho Regional de Medicina do Estado de Sergipe. Parecer CREMESE nº 16/2019 — Processo-Consulta nº 014/2016. Relator: Cons. José Marques de Oliveira Neto. Aracaju: CREMESE, 2019.
Conselho Regional de Medicina do Estado de Minas Gerais. Parecer CRM-MG nº 128/2020 — Processo-Consulta nº 57/2020. Relator: Cons. Victor Hugo de Melo. Belo Horizonte: CRM-MG, aprovado em sessão plenária de 10 jul. 2020.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 4, 6 fev. 2024. 18 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Organização Pan-Americana da Saúde. Universidade Estadual de Campinas. Prevenção do suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 76 p.
Dazzi T, Gribble R, Wessely S, Fear NT. Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Psychological Medicine. 2014;44(16):3361-3.
Stanley B, Brown GK, Brenner LA, Galfalvy HC, Currier GW, Knox KL, Chaudhury SR, Bush AL, Green KL. Comparison of the Safety Planning Intervention with follow-up vs usual care of suicidal patients treated in the emergency department. JAMA Psychiatry. 2018;75(9):894-900.
Miller IW, Camargo CA Jr, Arias SA, Sullivan AF, Allen MH, Goldstein AB, et al. Suicide prevention in an emergency department population: the ED-SAFE study. JAMA Psychiatry. 2017;74(6):563-70.
World Health Organization. Suicide — fact sheet. Genebra: OMS, 2025.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011 (republicada em 30 dez. 2011). Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do SUS.
Associação Brasileira de Psiquiatria; Conselho Federal de Medicina. Suicídio: informando para prevenir. Brasília: ABP/CFM, 2014.
NICE NG225 — avaliação psicossocial, limites das escalas e seguimento
Lei 10.216/2001 — direitos e internação psiquiátrica
Ministério da Saúde — VIVA/SINAN, notificação de violências
Responda antes de ler
Paciente relata plano suicida, acesso a meios e providências concretas, mas está calma e pede alta. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 21h. Pronto-socorro de hospital geral, sala de observação. Dona Eliane, 38 anos, chegou às 15h trazida pela irmã depois de uma tentativa de suicídio. Foi estabilizada pela equipe da manhã, ficou seis horas em observação, e agora está sentada na maca, lúcida, orientada, sinais vitais normais, pedindo para ir embora. O prontuário tem quatro linhas escritas pelo plantão anterior: o horário, o que foi feito, a evolução clínica e a frase que fecha tudo — "paciente estável, sem queixas, aguardar alta". Você é o interno da noite e recebe a incumbência: "a da 4 já pode ir; passa a alta dela".
Você lê o prontuário duas vezes procurando alguma coisa que não está lá. Ninguém perguntou por que ela fez. Ninguém perguntou se ela ainda quer fazer. Ninguém escreveu se tinha um plano, se já havia tentado antes, se em casa existe alguém, se o que ela usou continua na gaveta do quarto. A urgência clínica foi resolvida com competência; a outra urgência, a que a trouxe aqui, sequer entrou no prontuário. E a alta que você vai assinar devolve à mesma casa, na mesma noite, a mesma pessoa — só que agora com a certeza de que ninguém no hospital quis saber.
Duas horas antes, na sala ao lado, um homem de 61 anos com dor lombar de três meses tinha dito, olhando para o chão, que "às vezes acha que tá na hora de parar de incomodar todo mundo". Você ouviu, sentiu o estômago afundar, e respondeu "imagina, seu Nelson, a dor melhora com o tratamento" — e passou para a próxima pergunta do roteiro. Foi rápido, foi educado e não custou nada. Naquele instante você fez a única coisa que a literatura chama de erro sem atenuantes: ouviu, entendeu e mudou de assunto.
Ninguém te ensinou a fazer diferente, e é honesto reconhecer por quê. A explicação que se diz em voz alta é o mito — "não vou perguntar sobre suicídio para não plantar a ideia na cabeça dele". A verdadeira cabe numa frase: você não perguntou porque não sabe o que fazer se a resposta for sim. Não é falta de empatia, não é pressa, não é o plantão cheio: é que a pergunta abre uma porta e ninguém te mostrou o que tem do outro lado.
As páginas a seguir mostram o outro lado da porta. As palavras exatas, na ordem, e o que cada resposta muda. Como se estratifica pelo plano, e não pelo diagnóstico. O que é conduta de verdade — restringir acesso, nomear um responsável, marcar data, escrever no prontuário — e o que é só a sensação de ter feito algo. Quando internar, inclusive contra a vontade, e como isso se faz dentro da lei. E o que se notifica, para quem e em quanto tempo. Com esse mapa na cabeça, a pergunta sai.
Quem adoece disso
Em 2021 o Brasil registrou 15.507 mortes por suicídio no Sistema de Informações sobre Mortalidade. Diluído em todas as causas de óbito do país, isso é a 27ª posição — o número que faz o suicídio parecer assunto de outra especialidade. A posição muda de figura quando se olha por faixa etária, que é como o paciente chega até você: entre adolescentes de 15 a 19 anos as lesões autoprovocadas foram a 3ª causa de morte, respondendo por 6,90% de todos os óbitos daquela idade; entre 20 e 29 anos foram a 4ª, com 5,56%. Traduzindo para o plantão: no adulto jovem que entra pela porta do pronto-socorro, o comportamento suicida compete em frequência com o trauma de trânsito e a violência interpessoal. Não é raridade a ser lembrada no fim da lista — é uma das primeiras coisas que matam essa faixa etária.
A curva subiu, e subiu rápido. A taxa padronizada de mortalidade passou de 5,24 para 7,45 por 100 mil habitantes entre 2010 e 2021, um aumento de 42,2% em doze anos, com o maior salto de um ano para o outro justamente entre 2020 e 2021 (+11,4%). O crescimento não foi uniforme: a Região Sul mantém a maior taxa (11,22 por 100 mil em 2021, com o Rio Grande do Sul em 12,37), mas os maiores incrementos percentuais do período foram no Norte (+56,6%) e no Nordeste (+54,9%). Quem se formou ouvindo que "suicídio é problema do Sul" está atendendo com um mapa de vinte anos atrás. O interno de Belém, Salvador ou Teresina vê hoje uma epidemiologia que os professores dele não viram.
O dado que mais muda conduta, porém, é uma inversão que quase ninguém tem na cabeça. Das 15.507 mortes de 2021, 77,8% foram de homens. Das 114.159 notificações de violência autoprovocada registradas no SINAN no mesmo ano, 70,3% foram de mulheres. Quem tenta e é atendido é majoritariamente mulher; quem morre é majoritariamente homem. E o pico absoluto de mortalidade não está onde a intuição coloca: em 2021, a maior taxa por 100 mil habitantes foi a dos homens de 70 anos ou mais — 18,1 —, mais do que o dobro da taxa geral do país, enquanto entre as mulheres o pico ficou nas adolescentes de 15 a 19 anos (4,5). Some as duas coisas: o paciente de maior risco de morrer é o homem idoso, que raramente chega ao pronto-socorro dizendo que quer morrer, que raramente é perguntado e que costuma ser atendido por dor crônica, insônia, perda funcional ou "queixas vagas". Se você só avalia risco na adolescente que se autolesionou, está rastreando exatamente o grupo com a menor letalidade e deixando passar o de maior.
A distância entre tentativas e notificações também é conduta. A OMS estima cerca de 20 tentativas para cada morte por suicídio; aplicada aos 15.507 óbitos brasileiros de 2021, essa razão projetaria algo próximo de 310 mil tentativas no ano — contra 114.159 notificações efetivamente registradas, pouco mais de um terço. A cada três pessoas que tentam, duas somem do sistema: não geram ficha, não geram vinculação, não geram busca ativa, e reaparecem — quando reaparecem — na estatística de mortalidade. A ficha que o interno deixa de preencher às 3h da manhã é, literalmente, o mecanismo dessa perda.
Duas informações fecham o retrato clínico. Estima-se que até 90% das pessoas que morreram por suicídio tinham algum transtorno mental antes do ato, a depressão sendo o mais frequente — o que faz do risco um desfecho de doença tratável, não um acidente moral. E entre as pessoas notificadas por violência autoprovocada em 2021, 29,6% referiram alguma deficiência ou transtorno; destas, 91,5% eram transtorno mental ou comportamental. A maioria das pessoas que passam pela sua sala já tinha um problema identificável, e muitas já estavam em algum lugar do sistema de saúde. O suicídio raramente é o primeiro contato — é o contato em que ninguém perguntou.
Duas notas sobre os próprios números. A Tabela 1 do boletim nacional traz, na coluna de totais da faixa de 70 anos e mais, o valor 1.325, que não fecha com a soma das colunas de sexo do mesmo boletim (1.061 homens e 234 mulheres, isto é, 1.295); com 1.295 a coluna inteira soma exatamente os 15.507 óbitos declarados, o que indica erro de impressão de 30 óbitos nessa única célula — nenhuma taxa ou conclusão depende dela. E os números globais têm outra ordem de grandeza e outra fonte: a OMS contabiliza mais de 720 mil mortes por suicídio ao ano, 73% em países de baixa e média renda, e classifica o suicídio como a 3ª causa de morte entre 15 e 29 anos no mundo. O Brasil não tem taxa alta no ranking internacional; tem tendência de crescimento, que é um problema diferente e mais urgente.
Por que acontece o que acontece
Quatro mecanismos explicam tudo o que este capítulo manda fazer. Nenhum deles é bioquímico; todos são clínicos, e cada um justifica uma conduta concreta — a pergunta direta, a escada do plano, a retirada do meio e o telefonema de seguimento. Quem entende os quatro não precisa decorar protocolo nenhum.
primeiro: a crise suicida é um estado agudo, estreito e transitório. Não é um traço de personalidade nem uma decisão estável tomada há meses. É um estado em que a atenção se fecha sobre uma única saída, o futuro deixa de ser imaginável e a desesperança ocupa o lugar do raciocínio — e que, na maioria das vezes, dura horas a dias, não anos. Disso decorrem duas coisas práticas. A primeira é que atravessar a janela costuma bastar: quem é impedido de morrer numa crise majoritariamente não morre em seguida. A segunda é que o estado é reversível pela própria passagem do tempo, o que transforma "ganhar tempo" — algo que soa a pouco — na intervenção de maior efeito disponível ao interno de plantão.
segundo: perguntar não planta a ideia, porque a ideia já está lá. A revisão que sustenta isso examinou estudos em adultos e adolescentes, em população geral e de risco, e não encontrou aumento estatisticamente significativo de ideação entre os participantes questionados sobre pensamentos suicidas; os achados apontam na direção oposta — reconhecer e falar sobre suicídio tende a reduzir a ideação. O mecanismo é intuitivo depois de dito: quem está em crise vive aquilo como indizível e vergonhoso, e o silêncio de todos ao redor confirma que é indizível mesmo. A pergunta feita por um profissional quebra exatamente isso — alguém nomeou o inominável e continuou na sala. O manual nacional registra o mesmo em linguagem de plantão: as pessoas ficam agradecidas e aliviadas de poder falar abertamente. O mito não protege o paciente; protege quem pergunta do desconforto de ouvir a resposta.
terceiro: o que estratifica risco não é o diagnóstico, é o plano. Depressão grave, transtorno bipolar, esquizofrenia, dependência de álcool — todos aumentam risco populacional, e nenhum diz o que fazer com a pessoa sentada à sua frente às 3h da manhã. O que muda a conduta é a distância entre a intenção e o ato, medida em degraus: pensar que seria melhor não existir; querer morrer; ter pensado em como; ter o meio ao alcance; ter escolhido quando; ter tomado providências. Cada degrau encurta o intervalo entre o impulso e o ato — e, como o impulso é transitório, encurtar esse intervalo é aumentar a probabilidade de que a crise termine em morte. Por isso o interno que anota "paciente deprimido, risco moderado" não escreveu nada, e o que anota "pensa em morrer há duas semanas, sem método pensado, sem providências, mora com a mãe que já está ciente" escreveu uma avaliação.
quarto: o meio decide o desfecho. Duas pessoas com a mesma intenção, a mesma doença e a mesma desesperança têm destinos diferentes conforme o que esteja ao alcance da mão nos minutos da crise. É por isso que a restrição de acesso aos meios é a intervenção universal de melhor evidência em prevenção do suicídio e figura em primeiro lugar entre as quatro recomendações LIVE LIFE da OMS — ao lado da cobertura responsável pela imprensa, das competências socioemocionais em adolescentes e da identificação precoce com seguimento. A conduta que decorre disso é banal e por isso desprezada: perguntar o que a pessoa tem ao alcance e combinar com um terceiro responsável que aquilo saia de circulação enquanto durar o risco. É o equivalente, aqui, de fechar a fonte do sangramento.
Some os quatro e a lógica do capítulo fica pronta. A crise passa, mas só para quem sobrevive a ela — logo, o objetivo do plantão não é curar a doença, é atravessar a janela. Para saber o tamanho da janela é preciso perguntar, e perguntar é seguro. O que se pergunta é o plano, porque é ele que mede a distância até o ato. E o que se faz com a resposta é afastar o meio e não deixar a pessoa sozinha. Tudo o mais — diagnóstico, medicação, psicoterapia, CAPS — é o tratamento da doença de base, e acontece depois, com o paciente vivo.
Falta um quinto mecanismo, sobre o tempo depois da sua sala: o risco não termina na alta, começa nela. O período de maior risco de novo comportamento suicida são os meses seguintes à crise, e quase metade dos pacientes atendidos em emergência por queixa suicida não comparece ao tratamento ou o abandona cedo. É esse buraco — entre a alta assinada e a primeira consulta que nunca aconteceu — que as intervenções eficazes atacam, e o que as compõe não é droga nova nem escala: é papel escrito junto com o paciente e alguém ligando depois.

Como se apresenta de verdade
O risco de suicídio quase nunca chega rotulado. Chega dentro de outra queixa, dentro de outro diagnóstico, dentro de um paciente já estabilizado por outro motivo — e o que separa identificar de não identificar é o interno lembrar de perguntar naquele contexto. Uma trava vale para todos os cenários abaixo, e vale dita com todas as letras: a avaliação de risco acontece antes da alta. Não existe "o psiquiatra avalia amanhã no ambulatório"; enquanto o paciente estiver sob os cuidados do serviço, a avaliação é do serviço.
Aprender para cuidar no internato. Construir formulação individual, proteção imediata e plano de segurança com continuidade real. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.
1 · O paciente que chega depois da tentativa — duas urgências, e a segunda é esquecida
É o cenário mais frequente e o mais mal conduzido. O paciente entra com uma urgência clínica objetiva e a equipe faz o que sabe fazer: estabiliza. O manejo dessa fase — via aérea, suporte, antídoto quando existe, monitorização — pertence aos capítulos de alteração do nível de consciência e dos primeiros minutos do paciente grave. Este capítulo começa onde aquele termina: o paciente estabilizou, e existe uma segunda urgência, inteira, ainda não tocada.
O sinal de alerta é a própria frase de passagem: "já está bem, pode liberar". Se a entrada foi por violência autoprovocada, "estar bem" descreve um dos dois problemas. A pergunta de resposta obrigatória antes de qualquer alta é sempre a mesma: o que mudou entre o momento em que ele tentou e agora, que faça a gente acreditar que não vai acontecer de novo hoje à noite? Se a resposta for "o soro acabou", nada mudou.
2 · O que a pessoa diz — e o que ela não diz
Quase ninguém entra dizendo "quero me matar". As pessoas dizem outra coisa, mais lateral: que estão cansadas de tudo, que seria melhor dormir e não acordar, que a família ficaria melhor sem elas, que estão só incomodando. Essas frases são oferta, não desabafo — e a resposta padrão do interno é tranquilizar ("imagina, você é muito importante") e seguir o roteiro. Tranquilizar aí tem custo mensurável: a pessoa aprende que naquele lugar não se fala disso, e a próxima tentativa de dizer será mais oblíqua ainda. A conduta é parar o roteiro e ir atrás da frase: "o senhor falou que seria melhor parar de incomodar. O que o senhor quer dizer com isso?"
A outra metade não diz nada. Insônia que não cede, dor crônica que muda de lugar, queixas vagas já vistas por três especialidades, retorno frequente ao pronto-socorro sem doença nova. Aqui a pergunta não brota da conversa: tem de ser introduzida por você, partindo do sintoma que a pessoa aceitou trazer — "o senhor está há três meses com essa dor e dormindo mal. Isso desanima qualquer um. Como tem ficado o seu ânimo?" — e daí para a rampa do bloco seguinte.
Há sinais que autorizam abrir a avaliação mesmo sem queixa emocional, e o manual nacional os lista — entre eles isolamento, mudança de personalidade, alteração de sono e apetite, culpa e desvalor, perda recente importante, doença física crônica ou dolorosa, história familiar de suicídio, tentativa anterior e o mais subestimado de todos: o desejo súbito de "concluir os afazeres", organizar documentos, escrever testamento, distribuir pertences. Esse último não é organização; é despedida.
3 · O homem idoso — a apresentação de maior letalidade e a menos rastreada
O grupo com maior mortalidade por suicídio no Brasil é o dos homens de 70 anos ou mais: 18,1 por 100 mil em 2021, contra 7,45 na população geral. É também o que menos verbaliza, menos tenta antes e menos aparece nas notificações — dominadas por mulheres jovens. Um idoso em crise chega sem nenhuma pista emocional: veio pela próstata, pela pressão, pela dor no joelho.
Os disparadores são específicos e perguntáveis — viuvez recente, dor crônica, perda de autonomia e de papel social, medo de virar peso, doença grave recém-diagnosticada, isolamento —, e todos já aparecem, disfarçados, na anamnese que você faz. A frase típica não é "quero morrer": é "já vivi o que tinha que viver" ou "não quero dar trabalho aos meus filhos". Daí a regra: em homem idoso com doença crônica, dor persistente, perda funcional ou luto recente, a pergunta sobre desejo de morrer entra na rotina — não por suspeita, mas porque a taxa daquele grupo dispensa suspeita.
4 · O adolescente e a autolesão — intenção e risco não são a mesma coisa
Adolescentes com lesões autoprovocadas repetidas são recebidos com uma etiqueta pronta — "não quer morrer, quer chamar atenção" — que produz dois erros ao mesmo tempo: banalizar o episódio e não perguntar sobre suicídio. A lei brasileira já resolveu a parte conceitual: violência autoprovocada, para efeito de notificação compulsória, inclui expressamente o ato de automutilação com ou sem ideação suicida. A ausência de intenção naquele episódio não retira o caso da vigilância nem da avaliação.
Clinicamente a distinção importa para o manejo, não para o descarte: autolesão sem intenção suicida costuma ter função de alívio de tensão e demanda cuidado continuado, não internação — mas está entre os fatores associados a comportamento suicida futuro, o que a torna motivo para perguntar, e não para deixar de perguntar. Duas fronteiras ficam explícitas aqui. Quando a autolesão em criança ou adolescente ocorre em contexto de violência, negligência ou abuso — possibilidade que precisa ser ativamente considerada —, o caso passa a exigir também a régua da proteção à criança, que é tema próprio e tem fluxo próprio. E a Lei nº 13.819/2019 acrescenta, nessa faixa, que o conselho tutelar também receba a notificação feita pelo serviço de saúde, nos termos de regulamento — dois atos distintos que não se substituem: notificar é informar a vigilância em saúde; comunicar é informar os órgãos de proteção de direitos.
5 · Três apresentações que enganam: a substância, a calmaria e a doença grave
substância. Álcool e outras drogas entram por três portas: fator de risco crônico, desinibidor agudo que encurta a distância entre impulso e ato, e ruído que invalida a sua avaliação. O manejo da intoxicação e da abstinência é tema próprio; aqui vale uma regra — avaliação sob efeito agudo ou em abstinência sintomática é a foto de um estado que vai mudar, e tanto o "foi só a bebida" quanto o "vou fazer de novo" precisam ser repetidos com o paciente lúcido. Isso não adia o cuidado: mantém-se ambiente seguro e observação até poder avaliar. E a alta não é decidida pela sobriedade recuperada — paciente sóbrio às 6h foi desintoxicado, não avaliado.
calmaria súbita. O paciente que estava angustiado e amanhece sereno, colaborativo, agradecido, pedindo alta. A serenidade tem duas fontes opostas: o sofrimento que cedeu, ou a decisão tomada, que encerra a ambivalência. O que separa as duas não é a expressão facial, é o conteúdo — melhora real vem com futuro (planos, perguntas sobre o tratamento, reclamações banais); a calma da decisão vem com encerramento (despedidas, pendências resolvidas, presentes distribuídos, alívio sem projeto). Diante de calmaria inesperada, desacelere a alta em vez de acelerá-la, e repergunte a escada com um acréscimo: "o senhor está mais tranquilo hoje. Me ajuda a entender o que mudou desde ontem?"
doença grave, dor E perda funcional. Diagnóstico oncológico recente, dor não controlada, doença neurológica progressiva, dependência nova de terceiros — a associação com risco de suicídio consta explicitamente entre os fatores do manual nacional, e é aí que a equipe normaliza o desejo de morrer ("claro que ele está desanimado") e não pergunta. Normalizar não é avaliar; e dor mal controlada e depressão são tratáveis, com o desejo cedendo quando elas cedem. Fronteira importante: pedido de cuidado paliativo, recusa de tratamento fútil e conversa sobre terminalidade são outra coisa, com outra ética e outro capítulo. O que distingue não é o tema da morte, é o objeto do desejo — quem está em fim de vida quer que o sofrimento acabe e aceita a morte que a doença traz; quem está em risco de suicídio quer produzir a própria morte.
Como fechar o diagnóstico
Se este capítulo fosse sobre uma doença, este seria o bloco dos exames — com uma diferença que muda tudo: aqui o exame é a conversa, e o instrumento é a sua boca. Não há laboratório, imagem ou escore que estratifique risco de suicídio. O que existe são perguntas em ordem, e a ordem importa tanto quanto o conteúdo.
O interno não erra aqui por desconhecer a doença. Erra por três motivos, todos consertáveis: pergunta de um jeito que fabrica o "não"; para no primeiro "não" em vez de subir a escada; e estratifica pelo diagnóstico em vez de estratificar pelo plano.
1 · Antes da primeira pergunta: a sala, o tempo e quem fica
Ambiente reservado, porta fechada, os dois sentados na mesma altura. Não se avalia risco de suicídio em pé, no corredor, com a cortina aberta: o paciente mede o quanto você aguenta ouvir pelo quanto se dispôs a montar a cena. Diga em voz alta quanto tempo tem — dez minutos combinados e cumpridos valem mais que trinta interrompidos.
Parte da entrevista precisa acontecer a sós: adolescente diante da mãe, esposa diante do marido, idoso diante do filho que o trouxe — nenhum deles conta o que importa com plateia. Combine como rotina anunciada, sem excluir ninguém: "eu converso um pouco com cada pessoa separadamente, é a minha rotina; depois eu chamo a senhora". E, enquanto o risco não estiver avaliado, o paciente não fica sozinho nem sem supervisão — vale para a sala de espera, o banheiro e a observação. A instrução do manual nacional para o alto risco é literal e serve de padrão até prova em contrário: estar junto da pessoa, nunca deixá-la sozinha. Não é vigilância punitiva; é o equivalente de manter monitorizado quem ainda não teve o ritmo definido.
2 · A rampa: quatro perguntas antes da pergunta
Perguntar direto sem rampa funciona mal porque a pessoa ainda não sabe se você é lugar seguro para responder. O manual nacional resolve isso com uma aproximação gradual em quatro perguntas, que vão do sofrimento genérico ao desejo de morrer, nesta ordem: "você se sente triste?" — abre o tema afetivo sem rótulo diagnóstico. "Você sente que ninguém se preocupa com você?" — mede isolamento e desamparo, os dois combustíveis mais frequentes. "Você sente que a vida não vale mais a pena ser vivida?" — primeiro degrau da ideação, ainda passiva. "Já pensou que seria melhor estar morto ou tem vontade de morrer?" — aqui a ideação se explicita.
A rampa leva menos de um minuto e resolve o embaraço, porque cada pergunta autoriza a seguinte. Faça-as olhando, sem tomar nota, e não pule para a quarta porque o plantão está cheio: sozinha, ela soa a formulário, e formulário produz "não". Quanto ao momento, o manual dá três — quando a pessoa se sente compreendida, quando está confortável falando dos próprios sentimentos, e quando fala de solidão ou desesperança. Traduzindo: assim que o assunto encostar em sofrimento, é ali.
3 · A pergunta direta — e as três formas de fabricar um "não"
Depois da rampa vem a pergunta que o capítulo inteiro existe para tornar dizível. Ela é direta, curta, sem eufemismo e sem pedido de desculpas: "o senhor tem pensado em tirar a própria vida?" ou "você já pensou em se matar?". Use a palavra — "fazer besteira", "aprontar", "acabar com tudo" são versões que o paciente interpreta de cinco maneiras, e ele escolherá a que o poupa de responder.
O contrário disso é normalizar antes de perguntar: "muita gente que está passando pelo que o senhor está passando chega a pensar em morrer. Isso já passou pela sua cabeça?" A frase retira a anormalidade do pensamento e deixa explícito que aquela sala aguenta ouvir sim. E o mais importante é o que vem depois: pergunta feita, cale e espere. A hesitação de cinco segundos antes do "não" é dado clínico tanto quanto a palavra dita — e é exatamente ela que o interno ansioso apaga ao preencher a pausa com "mas imagino que não, né?".
4 · A escada do plano: seis degraus, e o que cada um muda na conduta
O "sim" não é o fim da avaliação; é o começo. O que estratifica não é a existência do pensamento, é a distância entre ele e o ato — medida subindo perguntas cada vez mais concretas. O manual nacional organiza o núcleo dessa escada em três perguntas que "ajudam a quantificar o risco": plano definido, meios disponíveis, data marcada. Na prática de plantão são seis degraus.
degrau 1 — ideação passiva. "O senhor tem vontade de morrer, ou pensa que seria melhor não acordar?" Desejo de não existir, sem intenção de agir: obriga a continuar subindo e a tratar a doença de base, mas sozinho não determina internação nem vigilância contínua.
degrau 2 — ideação ativa. "O senhor já pensou em fazer alguma coisa para acabar com a própria vida?" Existe intenção, ainda sem método. Entra o plano de segurança escrito, entra a conversa sobre acesso a meios e entra o retorno com data marcada — não mais "procure a UBS".
degrau 3 — método pensado. Na redação original do manual: "você fez algum plano para acabar com sua vida?" e "você tem uma ideia de como vai fazê-lo?". Não peça detalhe técnico nem o registre: interessa a existência do método e o acesso a ele. A restrição deixa de ser recomendação genérica e passa a ser dirigida ao que a pessoa nomeou, com um terceiro responsável nomeado também.
degrau 4 — meio disponível. "Você tem esses meios? Eles estão facilmente disponíveis para você?" É a pergunta que mais muda desfecho, porque é a única cuja resposta pode ser alterada hoje à noite. Se o meio está ao alcance e não há como retirá-lo com segurança, o paciente não vai para casa sem que isso esteja resolvido.
degrau 5 — data ou circunstância marcada. "Você decidiu quando planeja fazer isso?" Intenção com cronograma: risco alto, supervisão contínua, avaliação especializada no mesmo atendimento e forte indicação de internação, mesmo que a pessoa pareça calma.
degrau 6 — providências tomadas. Cartas de despedida, distribuição de pertences, acerto de documentos, escolha de local. É o degrau mais alto e o mais silencioso — costuma ser descoberto pela família, não pelo paciente. Internação indicada até prova em contrário; se recusar, é o cenário típico da involuntária.
Uma última pergunta atravessa toda a escada e vale mais que qualquer degrau isolado: "o que tem te segurado até agora?". A resposta entrega os fatores de proteção reais daquela pessoa — os filhos, a mãe, a fé, uma promessa —, que são o material com que se constrói o plano de segurança. E a ausência de resposta ("nada", um dar de ombros) é dos sinais mais preocupantes que existem: significa ambivalência esgotada.

5 · O que pesa mais que o degrau de hoje: a tentativa de ontem
Uma tentativa prévia é o dado isolado de maior peso, e é o que os internos menos perguntam — em parte porque a resposta obriga a fazer alguma coisa. A pergunta é direta: "o senhor já tentou tirar a própria vida alguma vez?" E o sim abre quatro perguntas que valem mais que a primeira. Quando foi, e o que estava acontecendo? — situa o padrão de gatilho. O que você achou que ia acontecer? — mede a intenção percebida, melhor preditor que a gravidade médica do episódio: alguém convencido de que morreria com um ato clinicamente banal está mais grave que alguém que sabia que sobreviveria a um ato aparatoso. Alguém te encontrou por acaso ou você chamou ajuda? — separa tentativa interrompida por acaso de pedido de socorro. E o que você sentiu ao perceber que tinha sobrevivido? — "alívio" e "decepção" apontam para condutas diferentes.
Vale o mesmo para o episódio de hoje: o que ele imaginava que aconteceria, se tomou precauções para não ser encontrado, se deixou recado, se se arrependeu durante. É parte obrigatória do exame e precisa estar escrita. "Refere tentativa prévia", sozinho, não é informação: é a lembrança de que alguém quase perguntou.
6 · A informação colateral: falar com a família é parte do exame
Nenhuma avaliação fica completa só com o relato do paciente: quem está em crise minimiza, e quem quer alta minimiza mais. O acompanhante costuma ter o que decide — o que aconteceu antes da chegada, o que existe ao alcance dela em casa, se há alguém que possa ficar junto, episódios anteriores omitidos.
O sigilo não impede essa conversa; ele a organiza. A regra do manual nacional é pedir autorização ao paciente antes de contatar terceiros, deixando claro o que será dito — e, mesmo sem autorização, diante de risco importante, buscar alguém que possa apoiar, preservando o sigilo dentro do possível. O amparo ético é o art. 73 do Código de Ética Médica, que veda revelar fato conhecido no exercício da profissão salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento escrito do paciente — e risco iminente de morte é o exemplo clássico de motivo justo.
Na prática vira uma negociação explícita, feita na frente do paciente e não pelas costas: "para o senhor poder ir para casa hoje, eu preciso conversar com alguém da sua família sobre a sua segurança. Eu não vou contar tudo — vou dizer que o senhor está em risco, o que precisa sair de casa e o que eles precisam observar. Quem é a pessoa que o senhor prefere que eu chame?" Quase sempre o paciente escolhe alguém; quando não escolhe ninguém, a recusa também é dado clínico — isolamento total agrava o risco, não dispensa a conduta.
7 · O que NÃO pedir, o que pedir, e para onde ele vai
Nenhum exame complementar estratifica risco de suicídio. Não há dosagem, marcador ou imagem que substitua a escada — e pedir exames "para avaliar melhor" enquanto a entrevista não foi feita é adiamento caro, que consome as horas de observação e produz alta com resultados normais e avaliação inexistente. Escalas e escores têm o mesmo problema quando usados no lugar da entrevista: ajudam a padronizar e a lembrar de perguntar, mas nenhum autoriza alta, porque nenhum prediz o indivíduo. O que autoriza decisão é a combinação de degrau, história prévia, acesso ao meio, rede de apoio e reversibilidade dos fatores agudos — julgamento clínico documentado, não pontuação. Peça o que muda a conduta do episódio, e use a prova complementar que vale ouro e não custa nada: checar o que ele diz contra o que a família observa e contra as passagens prévias registradas no sistema.
A Rede de Atenção Psicossocial define, em norma, para onde esse paciente vai, e conhecer os pontos evita o encaminhamento genérico que não acontece. São sete componentes: atenção básica (UBS, consultório na rua, centros de convivência); atenção psicossocial especializada — os CAPS, nas modalidades I, II, III, AD, AD III e infantojuvenil; atenção de urgência e emergência (SAMU, sala de estabilização, UPA 24 horas, portas hospitalares de urgência e a própria UBS); atenção residencial de caráter transitório (unidades de acolhimento adulto e infantojuvenil); atenção hospitalar (enfermaria especializada em hospital geral e serviço hospitalar de referência); estratégias de desinstitucionalização; e reabilitação psicossocial.
Três consequências práticas. Os CAPS III e AD III são os pontos com funcionamento continuado e acolhimento noturno, e são eles — não o hospital psiquiátrico — a primeira opção quando o paciente precisa de retaguarda que não seja a própria casa e ainda não há indicação de internação. A internação, quando indicada, tem endereço preferencial em enfermaria especializada de hospital geral. E a emergência onde você está é ponto formal da rede: a responsabilidade de articular a continuidade é sua, ali. Duas linhas que cabem na alta: o Centro de Valorização da Vida, listado pelo manual nacional entre os recursos de apoio, atende pelo 188, gratuito e sigiloso; e a Lei nº 13.819/2019 obriga os planos de saúde a cobrir atendimento à violência autoprovocada e às tentativas de suicídio.
A escada, os três níveis de risco e as três internações
Os quadros organizam perguntas, decisões e deveres. Formulação individual e necessidades de segurança orientam o destino; categorias de risco e escalas não predizem suficientemente um novo ato nem autorizam alta sozinhas.
Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.
- 1Ambiente reservado, os dois sentados, parte da entrevista a sós — e ninguém sozinho até o risco estar avaliado
- 2Rampa: as quatro perguntas graduais, da tristeza ao desejo de morrer
- 3A pergunta direta, com a palavra, precedida de normalização — e silêncio depois
- 4Escada do plano: ideação passiva → ativa → método → meio disponível → data → providências
- 5Tentativa prévia: quando, o que esperava que acontecesse, quem encontrou, o que sentiu ao sobreviver
- 6Colateral com a família, negociado na frente do paciente — e o que segura a pessoa até aqui
- 7Estratificar por plano e acesso, não por diagnóstico → decidir destino (casa com plano · retaguarda · internação)
- 8Restringir o meio · plano de segurança escrito · responsável nomeado · retorno com data · notificar em 24 h · registrar
A pergunta que sai
"Muita gente passando pelo que o senhor está passando chega a pensar em morrer. Isso já passou pela sua cabeça?" — normalização antes, palavra exata depois, silêncio em seguida. Fabricam "não" falso: o "né?" no fim, a absolvição embutida e a pergunta feita de costas.
Notificar não é quebrar sigilo
Tentativa de suicídio e violência sexual exigem notificação imediata à vigilância municipal, em até 24 horas. Automutilação sem tentativa de suicídio é de notificação compulsória, em regra semanal (até sete dias), observadas determinações locais mais céleres. A proteção e o atendimento clínico são imediatos quando necessários, independentemente do prazo administrativo. Utilizar a ficha de Violência Interpessoal/Autoprovocada do SINAN e preservar o sigilo; o dever de notificar não autoriza divulgação indiscriminada do prontuário.
| Pergunta clínica | O que integrar | Consequência para o cuidado |
|---|---|---|
| Há perigo ou necessidade médica imediata? | Instabilidade, tentativa recente, intoxicação, intenção e capacidade de participar. | Estabilizar, proteger e avaliar em paralelo; repetir conforme evolução. |
| O que torna a crise mais perigosa hoje? | Intenção, plano, acesso, providências, tentativas anteriores, estado mental e contexto. | Formular risco e necessidades de modo individual; escore não decide destino. |
| O que pode sustentar segurança fora do hospital? | Apoios reais, tratamento, restrição de meios, plano compreendido e acesso rápido à ajuda. | Alta somente com avaliação e plano viáveis; se insuficientes, organizar proteção e internação quando indicada. |
| Como detectar falha do plano? | Sinais de piora, contato definido e retorno antecipado. | Contato em até 48h se preocupação persistente, ou antes conforme necessidade; emergência para perigo imediato. |
As perguntas, na ordem, com a redação pronta
| Momento | Pergunta | O que a resposta muda |
|---|---|---|
| Rampa 3 | "Você sente que a vida não vale mais a pena ser vivida?" | Primeiro degrau da ideação, ainda passiva. |
| Rampa 4 | "Já pensou que seria melhor estar morto ou tem vontade de morrer?" | Ideação explícita. Daqui em diante, a escada é obrigatória. |
| Direta | "Muita gente na sua situação chega a pensar em morrer. O senhor já pensou em tirar a própria vida?" | A palavra sai. Silêncio depois — a hesitação antes do "não" é dado. |
| Escada 1 | "Você já pensou em fazer alguma coisa para acabar com a sua vida?" | Separa desejo de morrer (passivo) de intenção de agir (ativo). |
| Escada 2 | "Você fez algum plano para acabar com sua vida? Você tem uma ideia de como vai fazê-lo?" | Compreender intenção, plano e acesso. Registrar no prontuário confidencial apenas os detalhes necessários ao cuidado e à segurança. |
| Escada 3 | "Você tem esses meios? Eles estão facilmente disponíveis para você?" | Acesso a meios é fator modificável importante, junto de outras intervenções imediatas de proteção e cuidado. |
| Escada 4 | "Você decidiu quando planeja fazer isso?" | Cronograma. Risco alto: supervisão contínua e avaliação especializada agora. |
| Escada 5 | "Você já chegou a se preparar de alguma forma? Escreveu alguma coisa, resolveu alguma pendência, se despediu de alguém?" | Providências concretas aumentam a preocupação e exigem proteção e avaliação imediatas; destino é definido pela formulação individual. |
| História | "O senhor já tentou tirar a própria vida alguma vez? O que o senhor achou que ia acontecer naquela hora?" | Tentativa prévia e intenção percebida pesam mais que a gravidade médica do episódio. |
| Proteção | "O que tem te segurado até agora?" | Explorar apoios e ambivalência sem presumir que uma resposta vazia, isoladamente, esgote todos os fatores protetores. |
As três internações psiquiátricas — quem decide, o que exige, quem comunica
| Modalidade | Definição legal | O que exige | Comunicação obrigatória |
|---|---|---|---|
| VOLUNTÁRIA | Aquela que se dá com o consentimento do usuário (Lei nº 10.216/2001, art. 6º, parágrafo único, I). O CFM acrescenta: consentimento expresso e por escrito de paciente em condições psíquicas de manifestação válida de vontade. | Laudo médico circunstanciado que caracterize os motivos (art. 6º) e declaração assinada pelo paciente na admissão (art. 7º). | Nenhuma comunicação específica. Termina por solicitação escrita do paciente OU por determinação do médico assistente. Se houver contraindicação clínica para a alta e presentes os requisitos, o médico assistente deve convertê-la em involuntária. |
| INVOLUNTÁRIA | Aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro (art. 6º, parágrafo único, II). Pelo CFM, exige concordância do representante legal — EXCETO nas situações de emergência médica. | Laudo médico circunstanciado. Pelo CFM, uma das condições do art. 31, entre elas risco de vida ou de prejuízos graves à saúde e risco de autoagressão. Só médico registrado no CRM autoriza. | Ao Ministério Público Estadual, no prazo de 72 horas, pelo responsável técnico do estabelecimento (o CFM diz: diretor técnico médico) — e o MESMO procedimento na alta. Termina por determinação do especialista ou por solicitação de familiar/responsável. |
| COMPULSÓRIA | Aquela determinada pela Justiça (art. 6º, parágrafo único, III), pelo juiz competente, que levará em conta as condições de segurança do estabelecimento (art. 9º). | Ordem judicial. Não é decisão médica — o médico executa e define a natureza e o tipo de tratamento. | Segue o determinado na decisão. Serviço lotado ou sem condições técnicas configura impossibilidade ética de cumprir a ordem: o diretor técnico aciona o gestor municipal para providenciar vaga e comunica o fato à autoridade judicial. |
Notificar × comunicar — dois atos que não se substituem
| Ato | Para quem | Prazo | Base |
|---|---|---|---|
| NOTIFICAR (vigilância em saúde) | Autoridade sanitária municipal — ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada do SINAN, pelo meio mais rápido disponível (ficha, telefone ou e-mail, com envio posterior da ficha) | IMEDIATA: até 24 horas do atendimento, para tentativa de suicídio e violência sexual. As demais violências são de notificação semanal (até 7 dias). | Lei nº 13.819/2019, art. 6º, I (casos suspeitos OU confirmados de violência autoprovocada); Portaria GM/MS nº 1.271/2014, art. 4º — feita pelo profissional de saúde ou responsável pelo serviço que prestou o PRIMEIRO atendimento. |
| COMUNICAR (órgãos de proteção de direitos) | Conselho tutelar, na criança e no adolescente; conselho do idoso, Ministério Público ou delegacia do idoso a partir de 60 anos; orientação para procurar a delegacia da mulher nos casos de violência contra a mulher | Paralela à notificação — não a substitui e não é substituída por ela. | ECA (Lei nº 8.069/1990); Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) com a redação da Lei nº 12.461/2011; e, na criança e no adolescente, o art. 6º, § 2º da Lei nº 13.819/2019, que manda o conselho tutelar receber também a notificação do serviço de saúde. |
A estratificação em baixo, médio e alto risco é a do manual nacional e organiza a conduta — não é escore de predição individual. Nenhum instrumento prediz quem vai morrer; o que a tabela faz é impedir que a decisão fique sem critério.
O prazo de 24 horas NÃO vem da Lei nº 13.819/2019, que institui o dever de notificar sem fixar prazo. Ele vem da lista nacional de notificação compulsória, que classifica tentativa de suicídio entre os agravos de notificação imediata no âmbito municipal.
Contenção e sedação do paciente agitado, escolha e dose de antidepressivo, manejo da abstinência alcoólica e condução clínica da intoxicação têm capítulos próprios: aqui entram só como decisões que se acionam.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo aqui não é da doença — é do atendimento, da porta ao seguimento. Dez marcos, com as palavras prontas entre aspas: frase decorada é rede de segurança na primeira vez.
Uma régua para o conjunto: a conduta mais eficaz é a mais concreta. Ao final do atendimento, alguém tem de conseguir responder quatro perguntas — o que saiu de casa, quem é o responsável, quando é o retorno e o que está escrito no prontuário. Se qualquer uma ficar sem resposta, a conduta não terminou, por melhor que esteja redigido o encaminhamento.
Plano utilizável e contato precoce. Construir com a pessoa sinais de piora, estratégias, pessoas de apoio, serviços e restrição de meios, verificando se o plano é exequível. Contrato de não suicídio não substitui essa avaliação. Se persistirem preocupações de segurança após autoagressão, organizar contato de seguimento em até 48 horas e antecipar conforme necessidade. SAMU 192 e emergência são caminhos para perigo imediato; CVV 188 oferece apoio emocional e não substitui assistência emergencial. Não prometer risco zero; pactuar o que fazer se o plano deixar de funcionar.
Minuto 0 — o paciente que ainda não é avaliável
Se o paciente chegou instável ou rebaixado, a primeira urgência é clínica e está nos capítulos do paciente grave e da alteração do nível de consciência. O que já é assunto daqui cabe em duas linhas: registrar desde já que a causa da entrada foi violência autoprovocada (é isso que dispara a notificação e a avaliação obrigatória antes da alta) e garantir ambiente seguro e supervisão contínua desde a admissão, não só depois que ele acordar.
Prescrição- Na admissão, para a equipe: "a entrada foi por tentativa de suicídio. Ela não fica sozinha em nenhum momento, nem para ir ao banheiro, até eu avaliar o risco."
- Na primeira evolução: motivo de entrada = violência autoprovocada; avaliação de risco PENDENTE, a ser feita antes de qualquer alta.
- Para o acompanhante: "o senhor pode ficar? O que aconteceu em casa hoje é uma informação importante para mim."
Quando o paciente já pode conversar — montar a sala
Oferecer privacidade com segurança, parte da entrevista a sós quando viável, sem isolar um paciente que exige observação. Intoxicação ou abstinência podem limitar compreensão, mas a avaliação inicial começa agora: necessidades clínicas, risco imediato, informações disponíveis e capacidade de participar. Repetir a avaliação conforme recuperação, sem usar alcoolemia ou um prazo fixo como condição para iniciar cuidado psicossocial. Tratar a condição clínica em paralelo.
Prescrição- "Vou conversar um pouco com a senhora sozinha, é como eu faço com todo mundo. Depois eu chamo a sua irmã."
- "Eu tenho quinze minutos agora e quero usar eles inteiros com a senhora."
- Para a enfermagem, saindo: "me chamem só se for urgência — estou avaliando risco no leito 4."
A entrevista — rampa, pergunta direta, escada
As quatro perguntas de aproximação, a pergunta direta com a palavra e a escada de seis degraus, na ordem, sem parar no primeiro "não" — mais tentativa prévia e a pergunta de proteção. Leva de oito a quinze minutos e é o exame físico deste capítulo.
Prescrição- "Muita gente passando pelo que a senhora está passando chega a pensar em morrer. Isso já passou pela sua cabeça?" — e depois, silêncio.
- "A senhora chegou a pensar em como faria? Isso está ao seu alcance hoje, na sua casa?"
- "A senhora já tentou antes? O que a senhora achou que ia acontecer naquela hora?"
- "E o que tem te segurado até agora?"
A decisão — três destinos, e nenhum deles é "alta simples"
Definir destino por formulação individual: tentativa e intenção, acesso a meios, estado mental, intoxicação, contexto, capacidade de colaborar, rede e medidas viáveis de segurança. Escalas e categorias baixo/médio/alto não predizem com precisão o próximo ato nem decidem alta ou internação sozinhas. Alta só após avaliação e plano viável; quando a segurança não puder ser sustentada fora do hospital, manter proteção e organizar avaliação especializada/internação. Falta de familiar não é indicação automática de leito psiquiátrico, mas exige construir uma alternativa real de cuidado.
Prescrição- "Pelo que a senhora me contou, eu acho seguro a senhora ir para casa hoje — com três combinados que eu preciso fazer com vocês agora."
- "Eu não acho seguro a senhora ir para casa hoje. Vou pedir a avaliação da psiquiatria e explicar para vocês tudo o que vier depois."
- Para o CAPS, por telefone, ainda no plantão: "tenho uma paciente de 38 anos, atendida hoje por tentativa de suicídio, risco alto, sem rede em casa. Como a gente faz a vinculação dela ainda hoje?"
Restrição de acesso ao meio — a conduta de maior efeito, e a mais desprezada
É a intervenção que a OMS coloca em primeiro lugar entre as recomendações universais de prevenção, e a única que você implementa hoje à noite. A conversa é concreta, feita com paciente e responsável juntos, e o alvo é o que a própria pessoa nomeou. Medicações da casa passam a ficar com um terceiro, que administra as doses; o que ela citou como meio sai de circulação; e a medida é apresentada como temporária — não como castigo. Vale para a receita que VOCÊ vai dar: prescrever para dias contados, com retirada fracionada e sob guarda de outra pessoa, é decisão de segurança (escolha e dose do tratamento da doença de base são assunto do capítulo de transtorno depressivo maior).
Prescrição- Para o paciente: "vou pedir uma coisa temporária: enquanto essa fase durar, o que a senhora me contou que tem em casa fica com a sua irmã. Não é castigo. É que essas horas ruins passam, e eu quero que passem com a senhora aqui."
- Para o responsável, com nome e função: "dona Cláudia, a partir de hoje os remédios da casa ficam com a senhora, e a senhora entrega dose por dose. Vale para todos, não só para os dela."
- Na receita: "vou receitar só até a consulta de quinta. Na quinta a gente reavalia e receita o resto."
- Se o responsável hesitar: "eu sei que é chato. Isso é o que mais reduz risco de morte no que a gente tem para oferecer hoje."
O plano de segurança escrito — seis passos, com o paciente, em papel
É a alternativa com evidência ao contrato de não suicídio, e o que muda desfecho quando somado ao seguimento. Seis passos, escritos COM o paciente e não POR você, num papel que fica com ele: (1) sinais de alerta pessoais que anunciam a piora; (2) estratégias internas que distraem dos pensamentos, sem depender de ninguém; (3) pessoas e lugares que distraem, com nome; (4) pessoas a quem pedir ajuda explicitamente na crise, com telefone; (5) profissionais e serviços de urgência a contatar — incluindo o do serviço que o atendeu e o 188 do CVV; e (6) o que tornar mais seguro no ambiente, que é o item da restrição de meios. Letra legível, palavras dele, leitura em voz alta no fim.
Prescrição- "Vamos escrever isso juntos, num papel que fica com a senhora. Primeiro: como a senhora percebe que está começando a piorar?"
- "Quando começa assim, o que já ajudou alguma vez, mesmo que pouco?"
- "Quem é a pessoa para quem a senhora consegue ligar às três da manhã e dizer 'estou mal'? Vamos colocar o número aqui."
- "Agora leia para mim o que a gente escreveu — só para eu ter certeza de que ficou do seu jeito."
Notificação — distinguir o agravo e cumprir o prazo correspondente
Caso suspeito OU confirmado de violência autoprovocada — suicídio consumado, tentativa de suicídio e automutilação com ou sem ideação suicida — é de notificação compulsória pelos estabelecimentos de saúde públicos e privados às autoridades sanitárias. Tentativa de suicídio está entre os agravos de notificação IMEDIATA: até 24 horas do atendimento, pelo meio mais rápido disponível, feita pelo profissional de saúde ou pelo responsável pelo serviço que prestou o primeiro atendimento, no âmbito municipal. Automutilação sem tentativa segue a periodicidade semanal nacional, observadas regras locais mais céleres, sem adiar avaliação de risco e proteção. O instrumento é a ficha de Notificação Individual de Violência Interpessoal/Autoprovocada do SINAN. A notificação tem caráter sigiloso por determinação da própria lei, e quem a recebe fica obrigado ao sigilo — notificar não é quebrar sigilo, e notificar o fato não autoriza entregar prontuário nem detalhes clínicos. Em criança e adolescente, o conselho tutelar também recebe a notificação; a comunicação aos órgãos de proteção corre em paralelo e não substitui a notificação à vigilância.
Prescrição- Para o paciente e a família: "todo atendimento como esse é comunicado à vigilância em saúde do município. É sigiloso e serve para o serviço de saúde procurar a senhora e garantir o acompanhamento — não é polícia e não é registro criminal."
- Preencher e encaminhar a ficha de Violência Interpessoal/Autoprovocada à vigilância municipal: tentativa de suicídio, até 24 horas pelo meio mais rápido; automutilação sem tentativa, prazo semanal, ressalvadas regras locais. Registrar data, hora e canal de envio; completar a ficha quando a comunicação inicial for por outro meio protegido.
- Menor de 18 anos: comunicar também ao conselho tutelar. Com 60 anos ou mais: ao conselho do idoso, ao Ministério Público ou à delegacia do idoso.
- Ao notificar: informar o fato e os dados cadastrais indispensáveis — sem anexar prontuário, evolução ou detalhes do atendimento.
O prontuário — o que se escreve, literalmente
Registrar a formulação clínica que sustenta a decisão, incluindo fatos e incertezas. Em tentativa com possível intoxicação, quantidade estimada, substância, apresentação, via e horário são dados necessários ao tratamento e devem constar do prontuário confidencial. Evitar detalhes instrutivos desnecessários e circulação fora da equipe, mas não omitir dados clínicos essenciais. Descrever intenção, acesso atual, intervenções, consentimento, rede, plano e responsáveis; negar ideação naquele minuto não demonstra segurança por si só.
Prescrição- Modelo: "Avaliação de risco de suicídio realizada em sala reservada, parte a sós. Refere ideação há 2 semanas, com método pensado; nega data definida e providências. Tentativa prévia há 3 anos, em contexto de perda de emprego; à época esperava morrer. Acesso ao meio: sim, em casa — retirado, sob guarda da irmã (nome), presente e ciente. Fatores de proteção referidos: a filha e o trabalho. Formulação individual: descrever fatores agudos, necessidades e medidas efetivamente disponíveis; classificação isolada não autoriza alta. Destino: alta com plano de segurança escrito, entregue à paciente. Vinculação ao CAPS (nome) acionada por telefone às 22h10, retorno agendado para 12/03 às 9h. Notificação de violência autoprovocada preenchida e enviada à vigilância municipal em (data/hora). Orientada a retornar imediatamente em caso de piora; contatos entregues, incluindo 188."
- Registrar no prontuário confidencial os dados do episódio necessários ao cuidado, inclusive substância, quantidade e horário quando clinicamente relevantes; compartilhar apenas o necessário.
Quando a internação é necessária — inclusive contra a vontade
A internação psiquiátrica, em qualquer modalidade, só se indica quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes, exige laudo médico circunstanciado que caracterize seus motivos e só é autorizada por médico registrado no CRM. Se o paciente aceita, é VOLUNTÁRIA: consentimento expresso e por escrito, com declaração assinada na admissão. Se recusa e o risco é iminente, existe a INVOLUNTÁRIA — sem consentimento e a pedido de terceiro; a norma do CFM exige concordância do representante legal, exceto nas situações de emergência médica, e elenca entre as condições que a autorizam o risco de vida ou de prejuízos graves à saúde e o risco de autoagressão. Ela obriga a uma comunicação que o interno precisa saber que existe mesmo sem ser quem a faz: ao Ministério Público Estadual, em até 72 horas, pelo responsável técnico do estabelecimento — e o mesmo procedimento na alta. A COMPULSÓRIA é a determinada pelo juiz competente: não é decisão médica nem caminho da emergência. E um detalhe que salva plantões: se o paciente internou voluntariamente e depois pede alta com contraindicação clínica presente, o médico assistente deve converter a internação em involuntária, não simplesmente liberar.
Prescrição- Convite primeiro, sempre: "eu preciso que a senhora fique internada esses dias. Não é para punir, é porque eu não consigo garantir a sua segurança em casa agora. A senhora topa?"
- Se recusar: "eu entendo que a senhora não queira. Mas o risco de morrer agora é alto, e nessa situação eu tenho o dever de proteger a sua vida mesmo contra a sua vontade. Vou explicar cada passo, e a senhora vai poder falar com um médico a qualquer momento sobre isso."
- No laudo: motivo circunstanciado, risco identificado, o que foi tentado antes e por que a alternativa extra-hospitalar é insuficiente.
- Para a equipe: "internação involuntária — avisar o responsável técnico hoje, para a comunicação ao Ministério Público dentro das 72 horas."
Antes de assinar a alta — e nos dias seguintes
O período de maior risco começa quando o paciente sai, e quase metade dos atendidos em emergência por queixa suicida não chega a comparecer ao tratamento. O que muda esse número é barato — plano escrito, consulta com data e nome, e alguém ligando depois: no estudo que testou o conjunto em emergência, o comportamento suicida em seis meses caiu de 5,29% para 3,03% e a chance de comparecer a pelo menos uma consulta de saúde mental mais que dobrou. Nenhuma alta sai com "procure a UBS".
Prescrição- "Sua consulta é quinta, dia 12, às 9h, no CAPS da rua X. Quem vai te receber é (nome). Está escrito aqui junto com o plano."
- "Vou pedir para alguém da equipe ligar para a senhora em dois dias, só para saber como está. Qual o melhor número e horário?"
- Para a família: "se ela piorar, vocês não esperam a consulta: voltam aqui ou ligam para o SAMU. E este é o 188, que atende de graça, a qualquer hora."
- Se o telefonema de seguimento não for atendido: tentar outro contato da lista, acionar a atenção básica do território para busca ativa, e registrar a tentativa.
Como saber se está funcionando
Risco de suicídio não é um estado que se mede uma vez. É um estado que oscila em horas, e a avaliação de ontem à noite não autoriza a alta de hoje de manhã. Os cinco parâmetros abaixo são o que se acompanha, em que prazo, e o que fazer quando a leitura vem ruim.
Esperado: Estabilidade ou descida: o que era ideação com método passa a ideação sem método; a data marcada deixa de existir; a pessoa consegue nomear o que a segura
Se não melhora: Subir na escada é piora, mesmo com o paciente calmo e colaborativo — e calmaria súbita sem projeto de futuro é motivo para desconfiar, não para liberar. Conduta: reforçar supervisão, reavaliar o destino decidido antes e chamar a psiquiatria no mesmo turno.
Esperado: Ele lê o papel e reconhece como seu: nomeia os próprios sinais de alerta, tem pelo menos uma pessoa com telefone e sabe dizer o que fará no primeiro passo
Se não melhora: Plano que o paciente não consegue repetir é plano que você escreveu sozinho. Refaça com as palavras dele, reduza a duas ou três linhas por passo, e inclua um segundo receptor — alguém da família que também fique com uma cópia.
Esperado: O responsável diz o que foi retirado, onde ficou guardado e como entregará as medicações; o paciente sabe do combinado e concordou com ele
Se não melhora: Resposta vaga ("a gente dá um jeito"), responsável que mora longe, ou paciente que recusa que qualquer coisa saia: não é detalhe logístico, é a conduta de maior efeito falhando. Sem garantia real, o destino muda — retaguarda com acolhimento ou internação.
Esperado: A pessoa atende, refere o plano em uso, comparece à consulta marcada
Se não melhora: Quase metade dos pacientes de emergência não chega ao tratamento — o não comparecimento é o desfecho esperado, não a exceção, e exige ação, não registro. Tente os outros contatos da lista, acione a atenção básica do território para busca ativa e documente cada tentativa. O acréscimo de plano escrito e telefonemas ao cuidado usual reduziu comportamento suicida em seis meses de 5,29% para 3,03% e mais que dobrou o comparecimento: o telefonema é intervenção, não cortesia.
Onde o erro machuca
O dano: A ideia já está lá — e o silêncio do médico confirma ao paciente que aquilo é indizível até num hospital. A revisão da literatura em adultos e adolescentes, população geral e de risco, não encontrou aumento de ideação entre os questionados. O que a omissão produz é concreto: risco não estratificado, meio não retirado, alta sem plano.
Como pegar a tempo: Trate a pergunta como sinal vital do sofrimento psíquico: quando o assunto encosta em desesperança, ela entra. Normalize antes ("muita gente na sua situação chega a pensar em morrer") e use a palavra. E reconheça o motivo verdadeiro do bloqueio — não é medo de induzir, é falta de plano para o "sim".
O dano: "Você não está pensando em fazer nenhuma besteira, né?" não é pergunta: é instrução de resposta. O paciente entrega a resposta que cabe na sala, e o prontuário registra "nega ideação" — informação falsa que vai orientar todas as decisões seguintes, inclusive as de outro plantonista que confiará nela.
Como pegar a tempo: Pergunta aberta, palavra exata, sem "né", sem absolvição embutida, sentado e olhando. Depois, silêncio de alguns segundos: a hesitação antes do "não" é dado clínico, e é exatamente ela que o interno ansioso apaga ao preencher a pausa.
O dano: "É só transtorno de personalidade", "é depressão leve" — o diagnóstico vira permissão para não medir a distância até o ato, e o paciente sai com método definido e meio em casa. A gravidade médica do episódio anterior engana pela mesma via: o que prediz é a intenção percebida, não o estrago causado.
Como pegar a tempo: Duas perguntas separam as coisas: qual é o degrau, e o meio está ao alcance. Diagnóstico define tratamento; plano e acesso definem destino hoje. Escreva os dois.
O dano: É o erro estrutural deste capítulo: a sensação de emergência acaba junto com a instabilidade, e a segunda urgência sai do hospital intocada — para a mesma casa, na mesma noite, com o mesmo meio na gaveta e a informação adicional de que ninguém quis saber.
Como pegar a tempo: Regra sem exceção: em entrada por violência autoprovocada, a avaliação de risco acontece ANTES da alta e fica escrita. Se o paciente ainda não pode ser avaliado, permanece em observação segura — muda o horário da avaliação, nunca a obrigação de fazê-la.
O dano: O contrato de não suicídio tranquiliza quem pede e não protege quem promete: a literatura registra que esses contratos são ineficazes, e a Joint Commission recomendou o plano de segurança colaborativo em seu lugar. Pior, a promessa cria a ilusão documentada de conduta tomada e faz o serviço parar onde deveria começar.
Como pegar a tempo: Troque a promessa por papel: os seis passos do plano de segurança, escritos com as palavras do paciente e entregues a ele.
O dano: Encaminhamento sem endereço é a forma mais comum de conduta fictícia: consta no prontuário, protege a sensação da equipe e não acontece — e quase metade dos pacientes atendidos em emergência por queixa suicida não comparece ao tratamento, justamente no período de maior risco.
Como pegar a tempo: Ligue no plantão, marque data e hora, escreva o nome de quem vai receber, entregue por escrito e combine contato ativo em até 48 horas quando persistirem preocupações de segurança, ou antes conforme necessidade. O acréscimo de plano escrito e telefonemas ao cuidado usual mais que dobrou o comparecimento a pelo menos uma consulta.
O dano: Sem retirada do meio, todo o resto aposta que a crise não voltará antes da consulta. E deixar sozinho, mesmo dentro do hospital, é o que o manual nacional lista explicitamente entre as coisas que não se fazem: em ambiente protegido o risco persiste com o que estiver ao alcance.
Como pegar a tempo: Conversa concreta com paciente e responsável juntos, sobre o que a própria pessoa nomeou, como medida temporária, com alguém nomeado para guardar e administrar. E supervisão contínua enquanto o risco não estiver resolvido.
O dano: A subnotificação é o mecanismo pelo qual duas em cada três pessoas que tentam somem do sistema: sem ficha não há vinculação, busca ativa nem retorno. E o raciocínio que a sustenta é falso — a lei que cria o dever declara a notificação sigilosa e obriga ao sigilo quem a recebe.
Como pegar a tempo: Tentativa de suicídio e violência sexual exigem notificação imediata à vigilância municipal, em até 24 horas. Automutilação sem tentativa de suicídio é de notificação compulsória, em regra semanal (até sete dias), observadas determinações locais mais céleres. A proteção e o atendimento clínico são imediatos quando necessários, independentemente do prazo administrativo. Explicar a finalidade ao paciente e registrar envio e destinatário pelo canal protegido do serviço.
O dano: "Pode falar, fica só entre nós" é promessa que você quebrará em dez minutos, ao chamar a família ou indicar internação — e a quebra custa a confiança inteira no pior momento; "jurar segredo" está entre as coisas que o manual nacional lista como o que não fazer. Do outro lado, "nega ideação suicida" não diz se foi perguntado, como, até que degrau, com que acesso a meio: deixa o próximo plantão sem informação e você sem defesa, porque o que não está escrito não foi feito.
Como pegar a tempo: Contrate o sigilo antes de perguntar: "o que a senhora me contar fica entre nós e a equipe. A única coisa que eu não posso guardar sozinho é risco de vida — se houver, eu vou precisar envolver mais gente, e eu conto para a senhora antes." E registre os sete itens em oito linhas: o que perguntou e o que ele respondeu, o degrau, tentativa prévia com intenção percebida, acesso ao meio e o que foi feito, responsável nomeado, destino com justificativa, retorno com data e notificação — sem descrição de método.
O que dizer ao paciente e à família
As falas abaixo são as que travam o interno, e todas se resolvem com a mesma anatomia: não desviar, dizer a verdade que existe, terminar no que está no seu controle. Duas regras atravessam todas — nunca prometer segredo que você não pode manter, e nunca responder pergunta emocional com dado técnico.
Você acabou de perguntar e ele responde: "por que você quer saber isso?"
“"Porque eu pergunto isso para todo mundo que está passando por um sofrimento grande, e porque, se for o caso, tem coisa que eu posso fazer para ajudar. Não é para julgar o senhor nem para internar ninguém à força. É para eu saber como cuidar direito."”
Não diga: Recuar ("não, nada, esqueça, era só rotina"), que confirma que o assunto é constrangedor e fecha a porta recém-aberta; e responder com jargão ("faz parte do protocolo de rastreamento"), que transforma pessoa em formulário.
"Sim. Eu penso em me matar." — o "sim" que você temia
“"Obrigado por me contar. Sei que não foi fácil dizer isso, e eu fico com a senhora aqui. Agora eu preciso entender melhor, e vou fazer algumas perguntas mais diretas — não é curiosidade, é para eu saber o quanto a senhora está em risco agora e o que a gente faz hoje."”
Não diga: O silêncio de pânico seguido de mudança de assunto; a tranquilização automática ("mas a senhora tem tanto por que viver"), que informa que a resposta certa era "não"; e sair da sala deixando a pessoa sozinha logo depois da revelação.
"Não conta pra minha mãe" — o adolescente, ou o adulto sobre o cônjuge
“"Vamos combinar assim: o que você me contou fica entre nós e a equipe. A única coisa que eu não posso guardar sozinho é risco de vida — e é disso que a gente está falando. Vou precisar envolver alguém da sua casa, mas não vou contar tudo: vou dizer que você está em risco, o que precisa sair de casa e o que eles precisam observar. Quem você prefere que eu chame?"”
Não diga: Prometer o segredo para conseguir a informação e quebrá-lo em seguida; e o oposto — abrir tudo à família sem avisar o paciente, o que garante que ele nunca mais conte nada a nenhum profissional de saúde.
"Já passou, foi bobagem minha. Posso ir embora?"
“"Eu acredito que a senhora esteja se sentindo melhor — isso acontece mesmo, essas horas ruins passam. E é justamente por isso que elas voltam. Antes de a senhora ir, preciso de três coisas: entender direito o que aconteceu, combinar com alguém da sua casa o que sai de circulação, e marcar o seu retorno com data. Depois disso a gente conversa sobre a alta."”
Não diga: Aceitar a minimização com alívio, porque ela também alivia você; e confrontar ("a senhora quase morreu"), que vira disputa e empurra a pessoa de volta para o "está tudo bem".
"Se eu falar a verdade, vocês vão me internar, né?"
“"A maioria das pessoas que me conta isso vai para casa no mesmo dia — com um plano combinado e uma consulta marcada. Internação é para quem está em risco imediato e não tem como ficar seguro em casa. Eu não decido isso pelo que a senhora falar; decido pelo risco, e prefiro decidir com a verdade do que no escuro. Se for o caso, eu explico direitinho antes."”
Não diga: Mentir por conveniência ("claro que não, ninguém interna ninguém aqui"), o que destrói tudo se a internação vier a ser necessária; e usar a internação como ameaça para obter colaboração.
A família: "a gente não sabia de nada — a culpa é nossa?" · "isso é frescura, ela quer chamar atenção"
“"Não é culpa de vocês: isso quase sempre é escondido de quem está mais perto, e vocês fizeram a coisa certa, que foi trazer." · "Eu entendo que seja difícil de aceitar. Só que, do ponto de vista médico, quem faz isso tem risco alto de repetir e de morrer — inclusive quem parece estar 'só chamando atenção'." Nos dois casos, feche no concreto: "preciso de vocês em duas coisas — guardar o que combinamos que sai de casa, e não deixar ela sozinha nesses primeiros dias. Se piorar, não esperem a consulta: voltem aqui."”
Não diga: "Vocês precisavam ter percebido" e variações — culpa dita na sala vira ferida de anos e afasta quem vai fazer a vigilância em casa. E concordar por conveniência ("realmente, é mais chamado de atenção"), que autoriza a casa inteira a ignorar o próximo episódio.
A internação involuntária, dita ao paciente que recusa
“"Eu entendo que a senhora não queira ficar, e sinto muito por isso. Mas eu avaliei que existe risco alto de a senhora morrer hoje, e nessa situação eu tenho o dever de proteger a sua vida mesmo contra a sua vontade. Não é castigo e não é para sempre: assim que passar essa fase, a gente reavalia. Vou te explicar cada passo do que vai acontecer, e a senhora pode falar com um médico a qualquer momento para questionar essa decisão."”
Não diga: Comunicar por terceiros, sair da sala e deixar a enfermagem explicar; disfarçar ("é só para uns exames"), que produz fuga e destrói a relação; e prometer prazo que você não controla ("amanhã a senhora sai").
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Faça um contrato para ganhar tempo — Manual de prevenção do suicídio (MS/OPAS/Unicamp, 2006)
O manual nacional prescreve, no risco médio e no alto, usar a força do vínculo para extrair uma promessa sincera de que a pessoa não cometerá suicídio sem antes se comunicar com a equipe, ou por um período determinado. O objetivo declarado é limitado — ganhar tempo até conseguir ajuda especializada — e o contrato aparece sempre acoplado ao encaminhamento imediato e ao contato com a família.
Ministério da Saúde/OPAS/Unicamp, Prevenção do suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, 2006, seções de manejo do risco médio e alto
Os contratos são ineficazes; o substituto é o plano de segurança — Stanley et al. (JAMA Psychiatry, 2018)
Os contratos de não suicídio, de uso frequente até cerca de dez anos antes da publicação, são classificados como ineficazes pela literatura citada pelos autores, e a Joint Commission recomendou o plano de segurança colaborativo como alternativa. No lugar da promessa entra um documento escrito com o paciente, em seis passos, incluindo aconselhamento sobre meios letais — e o conjunto plano mais telefonemas reduziu comportamento suicida em seis meses de 5,29% para 3,03% (odds ratio 0,56; IC 95% 0,33-0,95).
Stanley B et al. JAMA Psychiatry 2018;75(9):894-900
As duas posições concordam no objetivo — atravessar a janela da crise — e divergem no instrumento. Decida pelo que produz ação verificável: a promessa não muda nada no ambiente da pessoa; o plano escrito nomeia sinais de alerta, telefones, pessoas e o que sai de casa. Construa o plano, sempre, e entregue o papel. A conversa de compromisso ("combina comigo que, se piorar, você liga para a sua irmã e depois para cá") continua valendo — não como contrato, mas como o passo 4 do próprio plano. Inaceitável é o contrato sozinho: promessa arrancada e paciente liberado com o meio em casa é a forma mais elegante de não fazer nada.
Rastreamento universal, porque a apresentação é silenciosa — ED-SAFE (Miller et al., 2017)
Três fases sequenciais em oito emergências: cuidado usual, rastreamento universal e rastreamento somado a intervenção. A proporção de pacientes com tentativa caiu de 23% para 22% e depois 18%. A leitura fina interessa mais que o titular — o rastreamento sozinho quase não moveu o desfecho; o que moveu foi o pacote completo, com rastreio secundário pelo médico, material de alta com plano de segurança e telefonemas depois (razão de taxas 0,72; IC 95% 0,52-1,00).
Miller IW et al. JAMA Psychiatry 2017;74(6):563-70
Avaliação dirigida por sinais e por grupos de risco — Manual de prevenção do suicídio (MS/OPAS/Unicamp, 2006)
O manual nacional não propõe rastreio universal: propõe perguntas de abertura sobre sofrimento e uma lista de sinais que devem aumentar a atenção — isolamento, doença psiquiátrica, alcoolismo, mudança de personalidade, alteração de sono e apetite, tentativa anterior, culpa e desvalor, perda recente importante, história familiar, doença física crônica ou dolorosa, arrumação súbita de pendências e menção repetida à morte. O foco é treinar o profissional a reconhecer o momento oportuno e a saber perguntar, não aplicar instrumento a toda a fila.
Ministério da Saúde/OPAS/Unicamp, Prevenção do suicídio: manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, 2006, seção sobre pessoas sob risco
Decida pela capacidade real do seu serviço de responder a um rastreio positivo: rastrear sem ter para onde encaminhar produz ansiedade da equipe e nenhuma mudança de desfecho — foi o que a fase intermediária do ED-SAFE mostrou. Onde há retaguarda organizada e o serviço consegue ofertar plano de segurança e seguimento, rastreie de forma sistemática. Onde não há, pergunte dirigidamente nos grupos de maior risco — incluindo o homem idoso com doença crônica, dor ou perda recente, onde a mortalidade brasileira se concentra — e diante de qualquer sinal da lista. Em qualquer serviço, uma indicação não é negociável: entrada por violência autoprovocada é avaliação completa, obrigatória, antes da alta.
O sigilo é direito do paciente e a autorização vem primeiro — Lei nº 10.216/2001 e Código de Ética Médica
A lei da saúde mental inscreve entre os direitos do paciente a garantia de sigilo nas informações prestadas (art. 2º, parágrafo único, IV), e o Código de Ética Médica veda revelar fato conhecido em razão da profissão (art. 73). O manual nacional traduz isso na conduta padrão: pedir autorização antes de contatar família, amigos ou colegas, deixando o paciente ciente do que será dito, e negociar o aval dele para todas as medidas — inclusive a retirada dos meios.
Lei nº 10.216/2001, art. 2º, parágrafo único, IV; CFM, Resolução nº 2.217/2018, art. 73; MS/OPAS/Unicamp, 2006
Risco iminente de morte é motivo justo, e o próprio manual prevê a exceção — CEM art. 73 e MS/OPAS/Unicamp (2006)
O art. 73 ressalva expressamente três hipóteses em que a revelação deixa de ser infração: motivo justo, dever legal e consentimento escrito do paciente. Pareceres do sistema CFM lêem "motivo justo" como interesse de ordem moral ou social capaz de legitimar a revelação. E o manual nacional, na mesma página em que manda pedir autorização, registra a exceção: mesmo que a permissão não seja dada, em situação de risco importante, deve-se tentar localizar alguém que possa apoiar, preservando o sigilo dentro do possível.
CFM, Resolução nº 2.217/2018, art. 73; Parecer CREMESE nº 16/2019; MS/OPAS/Unicamp, 2006, seção de recursos da comunidade
As posições não se anulam: ordenam-se no tempo. Primeiro tente o consentimento, e tente bem — negociado na frente do paciente, com o conteúdo delimitado ("não vou contar tudo; vou dizer que a senhora está em risco, o que precisa sair de casa e o que eles precisam observar") e com ele escolhendo quem chamar. A maioria aceita quando escolhe a pessoa e sabe o que será dito. Quando a recusa persiste e o risco é iminente, o sigilo cede — não por conveniência da equipe, mas porque proteger a vida é o motivo justo que a própria norma prevê. Três travas: revele o mínimo necessário para a proteção (o risco e as medidas), não o conteúdo da entrevista; avise o paciente ANTES; e registre a recusa, o risco identificado e a justificativa. E note que essa decisão é diferente da notificação compulsória, que não depende de autorização de ninguém, é sigilosa por lei e informa o fato, não o prontuário.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, 21h, pronto-socorro de hospital geral. Dona Eliane, 38 anos, chegou às 15h após tentativa de suicídio, foi estabilizada pela equipe da manhã e está em observação há seis horas: lúcida, orientada, sinais vitais normais, pedindo alta. A irmã, que a trouxe, está na sala de espera. O prontuário registra o horário, a conduta clínica e a frase "paciente estável, sem queixas, aguardar alta". Você é o interno da noite e recebeu a incumbência de passar a alta.
o que eu penso antes de entrar
A urgência clínica foi bem conduzida e não vou refazê-la. A segunda — o motivo real da entrada — não tem uma linha no prontuário: não sei por que ela fez, se ainda quer fazer, se tem plano, se já tentou antes, se o que ela usou continua em casa, nem quem mora com ela. Logo, a alta não pode ser assinada; não por discordar do plantão anterior, mas porque falta o exame que este caso exige. E, antes de qualquer conversa, uma medida operacional: ela não fica sozinha.
montar a cena, em dois minutos
Entrego o bipe e escolho a sala de procedimentos vazia em vez do leito com cortina — a próxima meia hora depende de ela acreditar que ninguém está ouvindo. Aviso a irmã: "vou conversar um pouco com a sua irmã sozinho, é como eu faço com todo mundo; depois eu chamo a senhora." Rotina anunciada, não exceção improvisada.
a rampa — e por que eu não começo pela pergunta
Sento na altura dela e não abro pelo assunto. "Como a senhora tem se sentido nas últimas semanas?" — cansada. "A senhora sente que tem alguém com quem contar?" — o silêncio responde antes da frase. "A senhora sente que a vida não vale mais a pena?" — ela olha para o lado: "às vezes". Três perguntas, quarenta segundos, e eu já sei duas coisas que não estavam no prontuário: há isolamento e há ideação. Aberta pela pergunta direta, aquela conversa teria produzido o "não" que a pressa fabrica.
a pergunta direta, e a escada até o degrau que muda tudo
"Muita gente passando pelo que a senhora está passando chega a pensar em morrer. Isso já passou pela sua cabeça?" E calo. Ela demora — a demora é dado — e diz que sim, há uns dois meses. Agradeço, não consolo, e subo. Pensou em fazer alguma coisa? Sim. Pensou em como? Sim — e eu não peço detalhe, nem vou escrever detalhe. Está ao alcance dela em casa? Sim, no armário. Decidiu quando? Não. Chegou a se preparar, escrever algo, resolver pendência, se despedir? Não. Já tentou antes? Uma vez, há três anos; naquela hora achou que morreria e foi encontrada por acaso. Traduzindo: ideação ativa com método pensado e MEIO DISPONÍVEL, sem data e sem providências, com tentativa prévia de intenção alta. Risco médio pela tabela — com um ponto vermelho, que é o armário.
a pergunta que constrói a saída
"E o que tem te segurado até agora?" Ela chora e diz: a filha, de nove anos. É a informação mais útil de toda a entrevista, porque é dela que sai o plano — a filha vira o primeiro item da lista de motivos, e a rotina com ela vira o passo das estratégias. Se a resposta tivesse sido "nada", eu estaria decidindo internação. Foi a mesma pergunta nos dois casos; foi a resposta que decidiu.
chamar a irmã — negociando o sigilo na frente dela
"Para a senhora poder ir para casa hoje, eu preciso conversar com a sua irmã sobre a sua segurança. Não vou contar tudo o que conversamos: vou dizer que a senhora está em risco, o que precisa sair de casa e o que ela precisa observar. Tudo bem?" Ela autoriza. Com as duas na sala, sou concreto e uso a palavra "temporário": os remédios da casa passam a ficar com a irmã, que entrega dose por dose; o que a Eliane citou sai de circulação; ninguém fica sozinha nas primeiras noites. Não peço promessa — peço acordos verificáveis, com nome e endereço.
o papel, o telefone, a data — e o que fica escrito
Escrevo o plano de segurança com ela, no papel dela: os sinais de que está piorando, o que já ajudou antes, quem chamar de madrugada com o número anotado, os telefones do serviço e o 188, e o item do armário. Peço que leia em voz alta; ela lê e corrige uma linha — sinal de que ficou dela. Ligo para o CAPS ainda no plantão, marco quinta às 9h, escrevo o nome de quem vai recebê-la, combino um telefonema em dois dias e receito só até quinta. Preencho a ficha de notificação de violência autoprovocada e mando para a vigilância municipal na mesma noite — dentro das 24 horas —, dizendo a ela por que faço isso, com a palavra "sigiloso" na frase. E escrevo a evolução com os sete itens, sem descrição de método: quem abrir esse prontuário às 3h vai saber tudo o que eu sei.
Faça você
Domingo, 2h da manhã, pronto-socorro. Seu Nelson, 71 anos, viúvo há oito meses, mora sozinho. Chega trazido pelo filho por "fraqueza e falta de ar", sem alteração no exame ou nos exames iniciais. Durante a anamnese, sobre a insônia que tem há meses, ele diz: "não é bem dormir mal, doutor. É que eu deito e fico esperando não acordar". O filho está do lado de fora. Os primeiros passos estão dados — complete o que falta.
reconhecer a frase e não deixá-la passar
Paro a anamnese ali. "O senhor falou uma coisa importante agora, e eu quero entender melhor. Quando o senhor diz que fica esperando não acordar, o que o senhor quer dizer?" Peço a sala de procedimentos, sento na altura dele e aviso o filho que vou conversar sozinho com o pai primeiro, como faço com todo mundo.
a rampa e a pergunta direta
"Como o senhor tem se sentido desde que a dona Cecília morreu?" — sem graça de viver. "O senhor sente que tem alguém com quem contar?" — o filho trabalha muito, não quer dar trabalho a ninguém. "O senhor sente que a vida não vale mais a pena?" — que já viveu o que tinha que viver. Então normalizo e pergunto: "muita gente que perdeu a companheira e ficou sozinha chega a pensar em tirar a própria vida. Isso passou pela sua cabeça?" Ele demora, olha para as mãos, e diz que sim, quase todo dia.
a escada
Pensou em fazer alguma coisa? Sim. Pensou em como? Sim, e ele tem em casa — sem que eu peça detalhe, ele diz que é coisa do sítio, guardada há anos. Decidiu quando? "Depois do aniversário do meu neto", que é daqui a duas semanas. Se preparou de alguma forma? Ele conta, sem drama, que já separou os documentos e escreveu uma carta "explicando". Já tentou antes? Nunca. E o que o segura? Ele encolhe os ombros e não responde.
estratifique e decida: o que você faz com esse paciente agora, e por quê?
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Risco ALTO, e a decisão é internação — apresentada primeiro como convite e sustentada como involuntária se ele recusar. A leitura: ele está no topo da escada, com os três marcadores do nível alto na estratificação nacional (plano definido, meio disponível, execução com prazo) e ainda com PROVIDÊNCIAS TOMADAS — documentos separados e carta escrita são despedida, não organização. Some o perfil de maior letalidade do país (homem de 70 anos ou mais: 18,1 por 100 mil em 2021, contra 7,45 na população geral), o luto recente, o isolamento e a resposta vazia à pergunta de proteção. A aparência tranquila não compensa nada disso. Conduta, na ordem: ele não fica sozinho a partir de agora, nem no banheiro; acionar a psiquiatria e a retaguarda de internação no mesmo atendimento; conversar com o filho na frente dele, com conteúdo delimitado, garantindo que o que ele nomeou saia de circulação hoje, independentemente do destino; oferecer a internação voluntária com todas as letras e, se recusar, indicar a involuntária com laudo médico circunstanciado, avisando a ele antes o que vai acontecer e que pode falar com um médico a qualquer momento sobre a decisão; avisar o responsável técnico do estabelecimento, porque a internação involuntária exige comunicação ao Ministério Público Estadual em até 72 horas, e o mesmo na alta; notificar à vigilância municipal em até 24 horas na ficha de Violência Interpessoal/Autoprovocada; e comunicar também ao conselho do idoso, ao Ministério Público ou à delegacia do idoso, por se tratar de pessoa com 60 anos ou mais. No prontuário: perguntas, respostas, degrau, acesso ao meio e o que foi feito quanto a ele, estratificação, modalidade de internação e justificativa — sem descrição do método. O erro que este caso pune é o mais silencioso do capítulo: liberar um idoso educado, calmo e agradecido, que veio por falta de ar.
A calma não neutraliza intenção, meios e providências. A decisão de destino exige formulação e medidas de proteção efetivas, sem automatismo pelo rótulo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Recuperação ativa em sete dias. Explique por que negar ideação e receber um rótulo de risco não autorizam alta. Diferencie plano de segurança de contrato de não suicídio. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.
Em 30 dias
Aplicação em trinta dias. Simule decisão de destino, conversa com apoio e passagem à rede. Inclua avaliação clínica, acesso a meios, contato precoce, emergência, documentação confidencial e obrigações de notificação. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: pronto-socorro, início da noite. Mulher de 38 anos em observação desde a tarde, admitida por tentativa de suicídio, já estabilizada, lúcida e pedindo alta; a irmã aguarda do lado de fora e o plantão anterior registrou apenas "paciente estável, aguardar alta". Faça a avaliação inteira antes de decidir qualquer coisa: monte a cena, use a rampa, faça a pergunta direta com a palavra, suba a escada até ela parar de dizer sim, pergunte o que a segura, negocie a conversa com a irmã na frente dela — e termine com destino, retirada do meio, plano escrito, retorno com data e o que você vai registrar no prontuário.
