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Outras EspecialidadesPsiquiatria

Depressão maior na unidade básica

Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico

Tristeza não é depressão e nem toda depressão é tristeza. Como fechar o diagnóstico com rigor na consulta em que a queixa era outra, o que excluir antes de prescrever, e como tratar com um elenco de cinco fármacos e nenhum protocolo federal.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p. (versão eletrônica, 1ª edição).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria SAS/MS nº 315, de 30 de março de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I. Brasília: Ministério da Saúde, 2016.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica; Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 176 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). ISBN 978-85-334-2019-9.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Linha de Cuidado da Depressão no adulto. Brasília: Ministério da Saúde. Última atualização declarada na página: 14 de março de 2022.

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Lista de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas publicados. Ministério da Saúde. Consultada em 06/09/2026.

01

Responda antes de ler

Você vai prescrever o primeiro antidepressivo de um paciente atendido em unidade básica de saúde e quer escolher entre o que o sistema público brasileiro de fato fornece. Considerando a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, quais antidepressivos constam do Componente Básico da assistência farmacêutica?

02

O paciente que você vai ver

O consultório 2 fica no fim de um corredor onde a fila começa antes das sete. É terça, o relógio da parede marca oito e quarenta, e a pilha de fichas sobre a mesa tem dezessete nomes marcados mais três encaixes que a recepção já não conseguiu recusar. A médica da equipe entra e sai da sala vizinha, porque hoje divide a manhã com a puericultura. Você é o interno, e a quarta ficha traz duas palavras escritas com a caligrafia de quem as escreve vinte vezes por dia: "renovar receita".

Ediluza Mascarenhas tem 46 anos, trabalha na limpeza de um prédio comercial no centro, e entra com uma sacola de mercado na mão. Dentro da sacola estão duas caixas vazias de losartana, um cartão de vacina que ela trouxe porque não sabia se precisava, e um papel dobrado em quatro com um hemograma de setembro do ano passado. Ela senta, arruma a sacola no colo, e a primeira frase que diz é sobre a receita. A segunda, dita quase como quem pede desculpa por ocupar o tempo, é a que este capítulo inteiro persegue: "e também é que eu ando muito cansada, doutor".

Se você fizer com essa frase o que a maior parte das consultas faz com ela, a manhã anda mais rápido. Cansaço é queixa de todo mundo, ela tem 46 anos, limpa uma escola de dois andares, dorme mal, e o hemograma do ano passado tinha hemoglobina no limite inferior. Dá para pedir um hemograma novo, renovar a losartana, marcar retorno em sessenta dias e chamar o próximo. Ninguém vai auditar essa consulta. Ela vai voltar em sessenta dias com o hemograma normal e com o mesmo cansaço, e aí o retorno seguinte vai pedir uma dosagem de vitamina D.

Ou você pode fazer uma pergunta que custa quarenta segundos e muda o resto. A pergunta não é sobre tristeza, porque ela já disse que não está triste — disse "cansada", e vai repetir isso se você insistir na palavra errada. A pergunta é sobre as coisas de que ela gostava e sobre o que sobrou delas. É por essa porta que a maior parte da depressão entra na atenção primária brasileira: não pela palavra tristeza, e sim por cansaço, por dor difusa, por insônia, por uma queixa gástrica que não fecha com nada.

É aqui que a depressão é tratada no Brasil. Não no consultório do psiquiatra, que a maioria dos pacientes nunca vai ver, e não no centro de atenção psicossocial, que existe para outra coisa e para outra gravidade. É nesta sala, com esta agenda, com este elenco de farmácia, por alguém que quase sempre é um clínico e às vezes é um interno. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, um em cada dez adultos brasileiros já recebeu esse diagnóstico. A conta é simples e desconfortável: nesta agenda de dezessete pessoas, a estatística prevê mais de uma. Você provavelmente já atendeu essa pessoa esta semana e não a viu.

Este capítulo tem duas metades e as duas são difíceis por motivos opostos. A primeira é fazer o diagnóstico com rigor, porque tristeza não é depressão e nem toda depressão é tristeza, e porque errar para qualquer um dos dois lados custa caro: medicar uma perda transforma luto em doença, e não reconhecer a doença deixa alguém dois anos dentro de um cansaço que tinha tratamento. A segunda é tratar com competência, e aí a dificuldade muda de natureza — deixa de ser clínica e passa a ser de instrução. Você vai descobrir, ao longo destas páginas, que não existe protocolo federal brasileiro de depressão. O documento que escreve os critérios de episódio depressivo maior no Brasil é o protocolo do transtorno bipolar. O elenco que a farmácia da sua unidade tem é bem menor do que você imagina. E sobre as duas perguntas mais práticas de todas — por quanto tempo manter e como retirar — nenhum documento federal brasileiro diz coisa alguma.

03

Quem adoece disso

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 perguntou a adultos de 18 anos ou mais se algum profissional de saúde mental já lhes havia dado diagnóstico de depressão. Responderam que sim 10,2% (intervalo de confiança de 95%: 9,9 a 10,6). Em 2013, na mesma pergunta, tinham sido 7,6% (7,2 a 8,1). O que a pesquisa mede é depressão autorreferida e diagnosticada — não é prevalência clínica, é prevalência de gente que passou por um serviço, foi diagnosticada e se lembra disso. Como medida de doença, subestima. Como medida de carga sobre a atenção primária, é exatamente o número que interessa, porque é o número de pessoas que já estão no sistema com esse rótulo.

A distribuição por sexo é a estatística mais reproduzida e a menos pensada: 14,7% entre as mulheres (14,1 a 15,4) contra 5,1% entre os homens (4,7 a 5,5), uma razão de 2,9 vezes. Duas leituras cabem, e as duas são parcialmente verdadeiras. Uma é que mulheres adoecem mais. A outra é que homens não chegam: procuram menos a unidade, descrevem menos o humor e são diagnosticados menos. Para o interno, a consequência prática independe de qual leitura pesa mais — significa que o homem de 50 anos que aparece na sua sala por dor lombar tem probabilidade desproporcional de ser um caso não diagnosticado, e que a sua chance de fazer o diagnóstico nele é menor pelo lado da anamnese, não pelo lado da doença.

Por faixa etária, a prevalência sobe e depois se achata: 5,9% entre 18 e 29 anos (5,2 a 6,7), 11,3% entre 30 e 59 (10,8 a 11,9) e 11,8% aos 60 anos ou mais (11,1 a 12,6). O idoso não escapa — ao contrário, é onde a prevalência é maior e onde o diagnóstico é mais difícil, porque a queixa costuma vir somática, porque a lentificação se confunde com envelhecimento e porque a queda de memória e concentração abre uma fronteira inteira com demência, que este capítulo declara e cede.

Por situação de domicílio, 10,7% na área urbana (10,2 a 11,1) contra 7,6% na rural (7,0 a 8,3). A diferença tem o mesmo problema de interpretação da diferença entre sexos: pode ser doença, pode ser acesso. A área rural tem menos serviço, menos profissional de saúde mental e menos oportunidade de receber o diagnóstico que a pergunta da pesquisa exige.

O número que mais deveria incomodar não é de prevalência, é de cuidado. Entre as pessoas que referiram o diagnóstico, 52,8% (50,7 a 55,0) tinham recebido assistência médica por causa dele nos doze meses anteriores — contra 46,4% em 2013. Leia ao contrário: perto de metade das pessoas que se sabem deprimidas passou um ano inteiro sem consulta por isso. Não é fila de psiquiatra: é vínculo com a unidade básica, e é o que uma consulta como a da Ediluza decide.

A subida de 7,6% para 10,2% entre 2013 e 2019 comporta as mesmas duas leituras, e nenhuma das duas é confortável. Pode ter aumentado a doença, num período de crise econômica e desemprego alto. Pode ter aumentado o diagnóstico, com mais equipes de saúde da família, mais acesso e menos estigma para admitir o rótulo numa entrevista domiciliar. Os intervalos de confiança das duas medidas não se sobrepõem — 7,2 a 8,1 contra 9,9 a 10,6 —, de modo que a diferença é real e não ruído amostral; o que a pesquisa não decide é qual das duas explicações a produziu. Este capítulo não escolhe entre elas, porque a fonte não escolhe.

Uma conta que vale fazer, porque desfaz uma armadilha aritmética comum: a média simples entre 14,7% das mulheres e 5,1% dos homens dá 9,9%, e o total da pesquisa é 10,2%. Os dois números não batem, e é assim que tem de ser — a prevalência total é média ponderada pelos tamanhos dos dois grupos na população, não média aritmética das duas taxas. Quem fizer a média simples e achar que encontrou erro na pesquisa errou a conta, não a pesquisa. A conferência foi refeita e fecha.

Falta um número que este capítulo não tem, e a ausência é informativa. Nenhuma das fontes federais abertas informa quantos brasileiros usam antidepressivo, nem quantos usam cada um dos cinco que o sistema fornece. A Rename diz o que existe; não diz o que se consome. Sem esse dado, o capítulo não afirma qual é o antidepressivo mais prescrito no país, embora a suposição corrente aponte para um deles — suposição que fica declarada como suposição.

04

Por que acontece o que acontece

O mecanismo que importa neste capítulo não é bioquímico. A explicação de que a depressão seria falta de serotonina é resumo de propaganda, não decide nada na sua consulta, e não sobrevive ao fato de que o remédio ocupa o transportador em horas e o paciente melhora em semanas. O que decide a conduta são cinco mecanismos de outra natureza: por que o diagnóstico é um limiar e não uma impressão; por que a queixa que chega é somática; por que existe latência; por que a titulação existe; e por que um antidepressivo em quem é bipolar vira mania.

O primeiro é o mais importante e o menos ensinado. O diagnóstico de episódio depressivo maior não é uma leitura de sofrimento: é a aplicação de um limiar a uma duração. O protocolo federal que escreve esses critérios no Brasil exige um conjunto de sintomas presentes no mesmo período de duas semanas, com pelo menos um deles sendo humor deprimido ou perda de interesse e prazer, mais prejuízo de funcionamento, mais a exclusão de substância e de outra condição clínica. Nada disso é opinião. É contagem, é relógio e é exclusão. Um paciente pode estar profundamente infeliz e não preencher; outro pode negar tristeza e preencher com folga. O limiar existe justamente para que o diagnóstico não dependa de quanto o médico se comoveu — e essa é a sua principal virtude numa consulta de quinze minutos, porque protege tanto quem parece bem quanto quem comove pouco. Vale a inversão para fixar: o limiar não serve para negar sofrimento a quem não o preenche, e sim para impedir que a decisão de medicar dependa da empatia disponível naquele dia. Quem não preenche continua merecendo cuidado; o que ele não recebe é receita.

O segundo mecanismo explica por que a sua sala vê a doença de perfil. A depressão altera sono, apetite, energia, ritmo motor e concentração — todos sintomas corporais. Numa consulta de quinze minutos em que a agenda é de queixa física e o vocabulário disponível é de queixa física, esses são os sintomas que o paciente traz, porque são os que ele tem palavra para dizer. Ele não está escondendo o humor: está relatando o que percebe. O cansaço da Ediluza não é uma pista indireta de depressão. É um dos sintomas, listado no critério, com o mesmo peso dos outros.

O terceiro é a latência, e ele governa o calendário inteiro do tratamento. O efeito antidepressivo começa cerca de duas semanas depois de o paciente estar tomando dose terapêutica — não depois de começar o remédio, o que é uma confusão corriqueira e cara. Se o fármaco exige titulação, a contagem só começa quando a titulação termina. Some as duas coisas e você tem o número que decide se uma troca é decisão clínica ou impaciência. A latência tem ainda uma consequência que é de comunicação e não de farmacologia: o paciente vive as duas primeiras semanas como fracasso, porque nelas ele sente os efeitos indesejados e não sente o efeito bom. Se ninguém lhe disser antes que é assim que funciona, ele conclui sozinho, e a conclusão dele é razoável — o remédio não serviu. O abandono da segunda semana não é falta de adesão: é a leitura correta de uma informação que faltou.

O quarto é a titulação, e ela existe por tolerabilidade, não por eficácia. Subir devagar não faz o remédio funcionar melhor; faz o paciente conseguir chegar à dose em que ele funciona. Os efeitos indesejados de um tricíclico aparecem cedo e o efeito terapêutico aparece tarde, o que é a combinação perfeita para o abandono. Quem começa direto numa dose alta troca uma espera por um abandono. Quem nunca sai da dose inicial troca a espera por um placebo caro — e essa segunda falha é a mais frequente na unidade básica, porque não gera queixa nenhuma: o paciente toma, tolera bem, não melhora, e ninguém percebe que ele nunca chegou à dose. Daí a regra prática que atravessa este capítulo: dose que não foi escrita com data e número de comprimidos costuma ser dose que não foi subida.

O quinto mecanismo é o que transforma um erro de anamnese num dano. Em quem tem transtorno bipolar, o antidepressivo isolado pode empurrar o humor para o outro lado — e o mesmo protocolo federal que escreve os critérios de depressão registra que os inibidores seletivos da recaptação da serotonina são claramente contraindicados como monoterapia na depressão bipolar, admitindo-os apenas em combinação com estabilizador de humor ou antipsicótico. Registra também que, diante de sintomas maníacos, antidepressivos e outros medicamentos que possam estar precipitando devem ser suspensos, e inclui a história prévia de virada maníaca induzida por antidepressivo entre as contraindicações relativas da fluoxetina. A pergunta que evita isso leva menos tempo do que a receita que o causa. E há uma assimetria que vale reter: o custo de perguntar sobre humor elevado em quem não é bipolar é de quarenta segundos; o custo de não perguntar em quem é pode ser um episódio maníaco com consequências financeiras, profissionais e familiares que o paciente vai levar anos desfazendo.

Há um sexto mecanismo, e é o que sustenta a única obrigação inegociável deste capítulo. O pensamento recorrente de morte e a ideação suicida não são um adendo clínico sensível: são um dos itens da lista de sintomas que o critério manda contar. Isso muda o estatuto da pergunta. Não perguntar não é ser delicado — é deixar de aplicar o critério, do mesmo modo que não auscultar deixa de aplicar o exame físico. Quem não pergunta não pode dizer que fechou o diagnóstico, porque não contou todos os itens.

O último mecanismo é o da recaída, e ele explica por que este capítulo insiste tanto em algo que parece burocrático. Melhorar não é curar: o período que se segue à remissão é aquele em que o paciente se sente bem, deixa de ver motivo para o comprimido e o interrompe. Parar cedo devolve o quadro, e o quadro devolvido custa mais caro em tempo e em descrença do que o primeiro. Retirar depressa, além disso, produz sintomas próprios de descontinuação, que o paciente e o médico costumam ler como recaída — e a leitura errada faz reiniciar o que estava certo terminar. Os dois quadros se distinguem menos pelo conteúdo dos sintomas do que pelo tempo: a descontinuação aparece em dias após a redução e cede em dias se a dose voltar, enquanto a recaída reconstrói o quadro anterior ao longo de semanas. Este é, aliás, o único mecanismo deste capítulo cuja conduta correspondente nenhuma fonte federal brasileira escreve — e o capítulo diz isso em vez de preencher o vazio com um número que soaria seguro.

Sala de UBS com mulher sentada e profissional ouvindo junto à quina da mesa.
Cena ilustrativa de escuta na atenção primária. Privacidade, postura acolhedora e atenção ao relato favorecem a entrevista sobre humor, funcionamento, sono e segurança. A disposição das cadeiras pode facilitar a conversa, mas não substitui avaliação clínica estruturada.
05

Como se apresenta de verdade

A depressão que os livros descrevem e a depressão que entra na sua sala são a mesma doença vista de ângulos diferentes. O livro descreve o quadro completo, com humor deprimido explícito, e é assim que ele se apresenta no ambulatório de psiquiatria, para onde chega quem já foi filtrado por alguém. Na unidade básica não há filtro: chega a queixa bruta, que quase nunca é "estou deprimido". As seis formas abaixo cobrem quase tudo o que vai passar pela sua porta, e três delas não mencionam tristeza em momento nenhum.

Aprender para cuidar no internato. Diagnosticar com história e função, avaliar bipolaridade e segurança e escolher tratamento compartilhado. Ao discutir o caso com o preceptor, explicite os achados que sustentam a hipótese, uma alternativa relevante, a decisão que precisa ocorrer agora e o que fará mudar o plano. O resultado esperado é uma ação clínica justificada e acompanhada, além de reconhecer o diagnóstico.

A forma típica — e por que ela é a minoria da sua agenda

É a que se reconhece de longe: humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, com perda de interesse e prazer nas coisas que antes davam prazer, há semanas ou meses. O paciente diz que está triste, diz que nada tem graça, chora ou diz que gostaria de chorar e não consegue. Vem acompanhado de insônia terminal — acorda de madrugada e não volta a dormir —, de perda de apetite e de peso, de lentidão que outras pessoas notam, de culpa desproporcional, de dificuldade de decidir coisas pequenas.

Quando esse quadro chega assim, o diagnóstico é fácil e o erro é outro: é o de fazer o diagnóstico e parar aí, sem cumprir o resto. O critério exige mais do que reconhecer o quadro — exige contar os itens, cravar as duas semanas, verificar o prejuízo de funcionamento e excluir substância, doença clínica e bipolaridade. Um quadro típico e evidente não dispensa nenhuma dessas etapas. Dispensa apenas a dificuldade de suspeitar.

O motivo pelo qual essa forma é minoria na atenção primária é logístico, não clínico. Quem se reconhece triste e nomeia a tristeza costuma procurar ajuda dizendo isso, e quem diz isso na recepção é encaminhado, marcado, filtrado. O que sobra para a sua agenda de demanda espontânea é o resto: a maior parte.

O paciente que só relata cansaço

Esta é, ao mesmo tempo, a forma mais frequente e a que mais escapa. A palavra que o paciente traz é cansaço, ou fraqueza, ou "não tenho mais disposição para nada". Ele não descreve humor porque não está pensando em humor: está pensando no corpo, que é o que falhou de maneira perceptível. Quando você pergunta se ele está triste, ele diz que não — e ele está sendo sincero, não evasivo.

A armadilha é que cansaço tem uma lista de diferenciais orgânicos legítima e barata de investigar, e essa lista consome consultas. Hemograma, glicemia, função tireoidiana, exame de urina: tudo isso vem normal, e o cansaço fica. O paciente sai com a impressão de que não tem nada, o que é pior do que sair com um diagnóstico, porque agora ele também não tem explicação.

A saída é uma mudança de pergunta, e ela é curta. Em vez de perguntar sobre tristeza, pergunte sobre prazer e sobre interesse — pelas coisas concretas dele, com nome: a novela, o jogo, a igreja, o crochê, a conversa com a vizinha, o neto. A perda de interesse e prazer é o segundo dos dois sintomas que o critério exige como âncora, e é o que o cansaço mascara. Cansaço de anemia é físico e o interesse continua; cansaço de depressão vem com o desinteresse junto, e o paciente diz que já nem liga.

A segunda pergunta útil é sobre o formato do cansaço no dia. Cansaço que piora ao longo do dia com o esforço aponta para o corpo. Cansaço que já está inteiro ao acordar, antes de qualquer esforço, e que muitas vezes é pior de manhã, aponta para o outro lado. Não é sinal patognomônico e não decide sozinho — é orientação de suspeita, e é de graça.

O idoso com queixa somática — e a fronteira com demência

A prevalência de depressão diagnosticada é maior aos 60 anos ou mais do que em qualquer faixa mais jovem — 11,8% na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, contra 5,9% entre 18 e 29 anos. E é justamente nessa faixa que o diagnóstico é mais difícil, por três motivos que se somam.

O primeiro é que a queixa vem somática com ainda mais frequência: dor difusa, tontura, queixa gástrica, boca seca, formigamento, uma sensação vaga de que o corpo não está bom. O segundo é que a lentificação, a perda de energia e o desinteresse são atribuídos à idade, tanto pelo paciente quanto pela família quanto pelo médico — e essa atribuição é a forma mais eficiente de nunca fazer o diagnóstico. O terceiro é que o idoso deprimido frequentemente não se queixa de humor: queixa-se de memória.

Seu Espedito Colares, 74 anos, aposentado, chega à unidade levado pela filha porque "está esquecido". Ele responde às perguntas com "não sei" em vez de errar, não se esforça para lembrar, tem consciência aguda do próprio declínio e sofre com ele. Perdeu peso, dorme mal, parou de ir ao centro comunitário onde jogava dominó há oito meses. A filha data o começo com precisão: foi depois que a mulher dele morreu, mas já faz quase um ano e ele não melhorou.

Esse quadro tem nome e é fronteira declarada deste capítulo. A distinção entre um quadro depressivo que se apresenta como declínio cognitivo e uma demência que se apresenta com sintomas depressivos pertence ao capítulo de demências, na apostila de Geriatria, que recebe daqui a investigação de demência propriamente dita: testes cognitivos, imagem, o painel laboratorial completo e a condução do diagnóstico diferencial. O que este capítulo assume, e assume porque é a decisão que cai na sua mão nesta consulta, é outra coisa: diante de um idoso com queixa cognitiva nova, você conta os itens do critério de depressão antes de rotular. Não porque a depressão seja mais provável, mas porque é a hipótese tratável, e porque um tratamento adequado é, ele próprio, parte do esclarecimento.

Há um detalhe de conduta que também é seu, e ele aparece adiante: os tricíclicos são particularmente mal tolerados nessa faixa etária, e o Caderno de Atenção Básica nº 34 recomenda evitar a amitriptilina no idoso, indicando a nortriptilina quando não houver opção melhor. O que o mesmo Caderno não faz é dizer em que dose — e isso é um achado, não um esquecimento de leitura.

O que se parece e não é: luto, perda e tristeza

O protocolo federal que traz os critérios de episódio depressivo maior anexa a eles uma observação explícita sobre perda, e ela merece ser lida com atenção porque desfaz duas simplificações opostas. A observação registra que respostas a uma perda significativa — luto, ruína financeira, perda por desastre, doença grave, incapacidade — podem incluir tristeza intensa, ruminação sobre a perda, insônia, falta de apetite e perda de peso, que são sintomas do próprio critério e podem se parecer com um episódio depressivo.

A primeira simplificação que isso desfaz é a de que toda tristeza com motivo é doença. Não é. Quem perdeu alguém tem os sintomas porque perdeu alguém, e medicar isso não devolve o que se perdeu — transforma um processo humano em um diagnóstico, e coloca um comprimido no lugar de uma rede de apoio que a unidade poderia mobilizar. O Caderno de Atenção Básica nº 34 é duro com essa prática, e chama de medicalização de problemas pessoais e sociofamiliares o hábito de tratar sintomas de tristeza como se fossem doença.

A segunda simplificação que a mesma observação desfaz é a oposta, e é a que mais engana o interno bem-intencionado: a de que a existência de um motivo exclui o diagnóstico. O texto diz o contrário — diz que a presença de um episódio depressivo maior, além da resposta normal à perda, deve ser cuidadosamente considerada. Ter motivo não protege ninguém de adoecer. A pessoa enlutada pode desenvolver depressão, e frequentemente desenvolve, e o fato de haver uma explicação plausível para a tristeza é exatamente o que faz ninguém investigar.

A separação prática não se faz pela presença ou ausência de motivo, e sim por três coisas que a conversa levanta. A primeira é a forma: no luto, o sofrimento vem em ondas, ligado a lembranças e a lugares, e entre as ondas a pessoa consegue rir, se distrair, se interessar; no episódio depressivo, o estado é contínuo e o interesse não volta nem nos intervalos. A segunda é a autoimagem: o enlutado sente falta; o deprimido se acha sem valor, culpado, um peso para os outros. A terceira é a trajetória: o luto se movimenta, mesmo devagar; o episódio depressivo fica parado ou piora.

A distinção não é invenção pedagógica: está nas classificações que a própria atenção primária brasileira usa para registrar a consulta. O Caderno de Atenção Básica nº 34 traz um quadro que correlaciona a classificação usada na atenção primária com a Classificação Internacional de Doenças, e nele tristeza aparece como uma rubrica e perturbação depressiva como outra, cada uma com o seu conjunto de códigos, e cada uma excluindo expressamente a outra. A rubrica de tristeza descreve sentimentos relatados como experiência emocional ou psicológica não atribuída a transtorno mental, com transição gradual entre o desconforto mais ou menos normal e o sofrimento que leva a procurar ajuda profissional. A de perturbação depressiva descreve distúrbio importante do estado de espírito, com queda de energia, atividade, alegria, interesse e concentração. Os dois registros existem, e escolher entre eles é ato clínico.

A consequência prática é de prontuário, e ela vale ser dita porque quase ninguém a pratica. Registrar tristeza como tal, com a duração e o contexto anotados, não é registrar nada — é registrar exatamente o que se apurou, e é o que permite que a consulta seguinte, dali a três semanas, saiba de onde partiu. O que atrapalha é o oposto: anotar "depressão" na primeira consulta como hipótese frouxa, porque a palavra cola no prontuário e o médico seguinte a herda como diagnóstico feito.

Nada disso é régua com número, e este capítulo não vai inventar uma. Nenhum documento brasileiro consultado fixa quantas semanas de luto passam a ser doença, e onde a fonte não diz, o capítulo não diz. O que ele diz é o que a fonte diz: que a presença de um motivo obriga a considerar as duas coisas, e não a descartar uma delas.

O que se parece e é outra coisa: tireoide, anemia, álcool e a receita antiga

O critério C traz, como terceira condição obrigatória, que o episódio não seja atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição clínica. Isso não é uma ressalva de rodapé: é um dos três critérios, do mesmo peso dos outros dois, e é o que separa tratar depressão de tratar por cima de outra doença.

O Caderno de Atenção Básica nº 34 nomeia a lista curta: sintomas depressivos podem estar presentes em diversos quadros clínicos, e o Caderno cita anemia, hipotireoidismo e desnutrição, exigindo boa anamnese para o diferencial. O hipotireoidismo é o exemplo canônico e tem capítulo próprio: a investigação tireoidiana, quem merece dosagem de hormônio tireotrófico e o que fazer com cada resultado pertencem ao capítulo de hipotireoidismo, na apostila de Endocrinologia, cedido aqui por inteiro. Do lado de cá fica somente a decisão de pedir.

O álcool merece parágrafo separado porque é o mais frequente e o menos perguntado. O uso pesado e continuado produz um quadro que preenche critérios de depressão sem ser depressão primária, e o Caderno registra que os profissionais devem considerar o abuso ou a dependência de álcool como possível causa de sintomas. A ordem prática importa: quem bebe pesado e está deprimido pode melhorar do humor ao reduzir a bebida, e tratar só com antidepressivo é tratar a sombra. Perguntar quanto se bebe, em unidades concretas e sem julgamento, faz parte desta consulta.

A quarta fonte é a mais fácil de esquecer porque está escrita no prontuário: medicamento em uso. Vale abrir a sacola do paciente — literalmente, como a da Ediluza — e olhar cada caixa. Diante de um quadro depressivo que começou perto do início de um medicamento novo, a coincidência temporal é dado, e a conduta é rever a prescrição antes de acrescentar outra.

Nada disso significa investigar tudo em todo mundo. Significa que o critério manda excluir, e que a exclusão se faz primeiro por anamnese dirigida, depois por exame, e nessa ordem.

A depressão que é bipolar e ainda não se sabe

Iolene Corumbá tem 27 anos, é auxiliar administrativa, e está no terceiro episódio depressivo desde os 19. Os dois anteriores foram tratados com antidepressivo e melhoraram, e entre eles ela ficou bem. O detalhe que ninguém perguntou nas duas vezes é que, algumas semanas depois de começar o remédio da segunda vez, ela passou duas ou três semanas dormindo três horas por noite sem sentir cansaço, falando muito mais que o habitual, começando quatro coisas ao mesmo tempo e gastando um dinheiro que não tinha. A família achou que ela tinha melhorado demais. Ela achou que finalmente estava bem.

Essa é a apresentação clínica mais cara deste capítulo, e ela é invisível por construção: o paciente com transtorno bipolar procura o serviço na fase depressiva, porque é a fase que dói. A fase elevada não gera queixa — gera produtividade, energia e euforia, e ninguém marca consulta para reclamar de estar bem. Se a anamnese só pergunta sobre o presente, o transtorno bipolar se apresenta ao médico como depressão unipolar, todas as vezes.

A consequência de errar aqui está escrita em documento federal. O protocolo do transtorno afetivo bipolar do tipo I registra que os inibidores seletivos da recaptação da serotonina são claramente contraindicados como monoterapia na depressão bipolar, admitindo o uso apenas em associação a estabilizador de humor ou antipsicótico; e registra que, diante de sintomas maníacos, os antidepressivos devem ser suspensos. O mesmo documento inclui, entre as contraindicações relativas da fluoxetina, história prévia de virada maníaca induzida por antidepressivo.

Alguns achados aumentam a suspeita e nenhum a confirma: episódios que começaram cedo, na adolescência ou na casa dos vinte; muitos episódios curtos e recorrentes; história familiar de transtorno bipolar; depressão com muito sono e muito apetite, em vez de pouco; resposta muito rápida ou muito estranha a antidepressivo anterior. Nenhum desses itens é critério — o critério de episódio maníaco é outro, tem duração mínima de uma semana, exige um número mínimo de sintomas de lista própria e exige que representem mudança notável no comportamento habitual, e está escrito no protocolo do transtorno bipolar. Este capítulo não trata transtorno bipolar — o assunto é de A semana em que ninguém perguntou, nesta apostila. O que ele faz é excluir a bipolaridade antes de prescrever, e mandar para quem trata quem tiver a suspeita levantada.

Há um contrapeso, e ele vem do mesmo Caderno de Atenção Básica nº 34 que orienta a maior parte da conduta farmacológica deste capítulo. O Caderno registra que se vive um tempo de explosão de autodiagnósticos de transtorno bipolar, que essa tendência ao abuso do diagnóstico leva à prescrição também abusiva de estabilizadores de humor, e que parece haver um equívoco em considerar sintomas de irritação como sintomas de transtorno bipolar. O texto acrescenta que a rotulação toma uma dimensão importante para o sujeito, que passa a se apresentar como bipolar, e recomenda discutir o caso com a equipe de saúde mental antes de encaminhar ou de querer fechar o diagnóstico.

Uma informação do mesmo protocolo ajuda a entender por que o encaminhamento nessa suspeita é prioritário e não burocrático: o documento registra que o carbonato de lítio é o medicamento mais bem validado no tratamento do transtorno bipolar, tanto nos episódios agudos quanto na prevenção de novos, e o único que demonstra redução de suicidalidade e de mortalidade por todas as causas em pacientes com transtornos de humor. O lítio está no Componente Básico da Rename 2024, em comprimido de 300 mg — ou seja, o tratamento existe, é barato e está perto. O que falta ao paciente que sai da sua sala com antidepressivo isolado não é acesso: é o diagnóstico certo.

As duas advertências convivem sem se contradizer, e a diferença entre elas é a definição do que se está fazendo. Rastrear bipolaridade antes de prescrever um antidepressivo é obrigação de segurança e leva quarenta segundos. Diagnosticar transtorno bipolar é outra coisa, exige o critério inteiro e não se faz numa consulta de demanda espontânea. O interno que confunde as duas ou deixa de perguntar, por achar que diagnosticar não é com ele, ou rotula alguém de bipolar por irritabilidade e uma noite mal dormida. A conduta correta é a do meio: perguntar sempre, rotular nunca, e encaminhar com o achado escrito quando a pergunta render.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da depressão tem uma peculiaridade que muda tudo: o exame que fecha o diagnóstico é a conversa, e os exames de sangue servem para excluir, não para confirmar. Não existe marcador, não existe imagem, e não existe escore que substitua a contagem dos itens do critério. Isso não torna a investigação subjetiva — torna-a dependente de perguntar as coisas certas, o que é uma habilidade treinável e verificável.

As seis seções abaixo são a consulta na ordem em que ela acontece. Duas delas — a busca ativa do risco de suicídio e a investigação de episódios prévios de elevação que pode levantar suspeita de bipolaridade — não são opcionais e não dependem da sua impressão sobre o paciente. As outras quatro montam o diagnóstico e o preparam para virar receita.

Uma fronteira precisa ser declarada antes de começar, porque ela vai aparecer em quase todos os pacientes desta seção: a ansiedade. Sintomas ansiosos acompanham a maior parte dos quadros depressivos, e na atenção primária os dois costumam chegar embrulhados na mesma queixa — tanto que a classificação usada pela atenção primária brasileira tem rubrica própria para a mistura de ansiedade e depressão. Os transtornos de ansiedade como entidade, com os seus critérios e o seu tratamento, não têm capítulo neste nível e não são tratados aqui: este capítulo os cede, e declara que o assunto está sem dono. O que ele assume, porque decide a conduta desta consulta, é o essencial: o Caderno de Atenção Básica nº 34 registra que a medicação indicada para queixas ansiosas crônicas é o antidepressivo, em doses equivalentes às usadas para depressão, ficando o ansiolítico para tratamento sintomático e de curto prazo — e que prescrever apenas benzodiazepínico para queixa crônica de ansiedade é iatrogênico. Na prática, o paciente ansioso e deprimido não exige duas receitas: exige uma, bem titulada.

Fechar as duas semanas: a linha do tempo é a primeira pergunta

O critério exige que os sintomas tenham estado presentes durante o mesmo período de duas semanas e que representem mudança em relação ao funcionamento anterior. As duas metades dessa frase são igualmente operacionais e ambas costumam ser puladas.

A primeira metade é a duração, e ela se apura com uma pergunta que não é "há quanto tempo você está assim". Essa pergunta produz respostas inúteis, porque o paciente deprimido tem a percepção de tempo achatada e responde "sempre" ou "faz muito tempo". A pergunta que funciona é ancorada em evento: qual foi a última vez que você se sentiu bem, e o que estava acontecendo naquela época. Aniversário, festa, mudança de emprego, começo do ano letivo, uma internação, a morte de alguém. O paciente data o evento, e o evento data o sintoma.

A segunda metade é a mudança em relação ao funcionamento anterior, e é o que impede o diagnóstico de ser feito sobre um traço de personalidade. Alguém quieto, pouco expansivo e de humor baixo a vida inteira não preenche o critério por ser assim: preenche se houve uma mudança. A pergunta é sobre a diferença — o que a senhora fazia há um ano que não faz mais.

Cravar as duas semanas tem uma consequência prática imediata, e é por isso que ela vem primeiro: quem não fecha a duração não prescreve. Um quadro de quatro dias, por mais intenso, não é episódio depressivo maior, e a conduta correta é reavaliar em prazo curto, não medicar.

Contar os itens sem transformar a consulta em formulário

O critério pede um número mínimo de sintomas dentro de uma lista, com a exigência de que pelo menos um deles seja humor deprimido ou perda de interesse e prazer. Ler a lista em voz alta como um questionário funciona mal: o paciente responde por educação, o vínculo se perde e a consulta fica com a cara de perícia.

A técnica que funciona é agrupar. A lista tem três blocos naturais, e cada bloco se cobre com uma ou duas perguntas abertas seguidas de uma verificação dirigida. O primeiro bloco é o do humor e do prazer: como tem sido o seu ânimo, e o que a senhora tem feito por gosto ultimamente. O segundo é o do corpo: sono, apetite, peso, energia, ritmo — como a senhora tem dormido, se acorda no meio da noite, se tem vontade de comer, se a roupa está mais folgada, se as pessoas comentaram que a senhora está mais lenta ou mais agitada. O terceiro é o da cabeça: concentração, decisão, autovalor, culpa — se consegue acompanhar a novela ou uma conversa, se está difícil decidir coisas simples, se anda se achando um peso para os outros.

Duas armadilhas de contagem valem ser ditas. A primeira é que a lentificação e a agitação psicomotoras precisam ser observáveis por outra pessoa, e não podem ser apenas a sensação subjetiva do paciente de estar lento — sensação de lentidão sem observação externa não conta. A segunda é que a culpa que conta é a desproporcional, e não a autorrecriminação comum nem a culpa por estar doente e dar trabalho.

A verificação final é a do prejuízo de funcionamento, que é o segundo critério e frequentemente é esquecido porque parece óbvio: os sintomas precisam causar sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outra área importante. Isso se pergunta em concreto — a senhora tem faltado ao trabalho, tem deixado de fazer o que fazia em casa, tem deixado de ver as pessoas que via. Sem isso, você tem sintomas contados e não tem diagnóstico.

A busca ativa do risco de suicídio: por que é obrigatória

Este é o ponto do capítulo em que a instrução é mais dura e o argumento é mais simples. Pensamentos recorrentes de morte e ideação suicida estão dentro da lista de sintomas que o critério manda contar. Não é um adendo humanitário nem uma sensibilidade opcional: é um item de uma contagem. Quem não pergunta não contou a lista inteira e, portanto, não pode afirmar que fechou o diagnóstico. Essa é uma trava lógica, não um apelo — e é a razão pela qual a pergunta não depende de o paciente parecer grave, de você ter tempo ou de você se sentir à vontade.

O medo que trava a pergunta é conhecido e tem nome: o de que perguntar plante a ideia. É crença difundida entre estudantes, entre familiares e entre profissionais. Este capítulo não vai aqui apresentar a evidência sobre indução, porque o assunto tem dono: o capítulo de risco de suicídio na emergência, no início desta mesma apostila, trata da avaliação estruturada, da estratificação em níveis, das decisões de destino e do que fazer com cada resposta. O que este capítulo assume é a parte que acontece na sua consulta de rotina — a pergunta feita a alguém que não veio por isso, que não tentou nada e que não está em crise.

A forma da pergunta importa. Ela funciona quando vem em rampa, dentro do bloco de sintomas, e não de repente ao final da consulta. Vem depois das perguntas sobre desânimo e desesperança, e sobe em três degraus: se a senhora tem sentido que não vale a pena; se tem chegado a pensar que seria melhor não acordar, ou desaparecer; e se tem tido pensamentos de acabar com a própria vida. As palavras são diretas e sem eufemismo, porque eufemismo devolve resposta ambígua.

O que se faz com um "sim" nesta sala tem duas metades. A primeira é sua e é imediata: não encerrar a consulta ali, aprofundar o que a pessoa quis dizer, chamar quem está com ela se ela permitir, e não deixar sair sem plano e sem data. A segunda é a estratificação e a decisão de destino, e essa é do capítulo vizinho — quem tem plano, quem tem intenção, quem tem meio ao alcance, quem precisa de serviço de urgência hoje e quem sai com retorno marcado. Traga o capítulo vizinho para esta consulta em vez de improvisar.

Há uma consequência de prescrição que é deste capítulo e é fácil de esquecer: o Caderno de Atenção Básica nº 34 orienta que, havendo risco de tentativa de suicídio, o antidepressivo seja fornecido em pequenas quantidades ou fique em posse de um cuidador — e nomeia especialmente os tricíclicos. A receita de trinta dias, escrita no automático, é uma decisão clínica que ninguém percebe estar tomando.

a investigação de episódios prévios de elevação que pode levantar suspeita de bipolaridade — antes da receita

A ordem aqui não é estilo, é segurança. A pergunta sobre humor elevado vem antes de a caneta encostar no papel, porque depois de a receita sair ela deixa de ser rastreio e passa a ser investigação de dano.

A pergunta não é "a senhora é bipolar", que devolve o que a pessoa ouviu na televisão, e não é "a senhora tem oscilação de humor", que devolve sim de quase todo mundo. A pergunta é sobre um período distinto e sustentado, com mudança observável de comportamento, e se faz em duas partes. A primeira parte é sobre o estado: já houve alguma época, de pelo menos uma semana seguida, em que a senhora se sentiu o oposto disto — muito para cima, acelerada, ou muito irritada, de um jeito que não era o seu normal. A segunda parte é sobre o comportamento naquela época, e é ela que separa alegria de episódio: nessa época a senhora dormia pouco e mesmo assim não se sentia cansada; falava muito mais que o habitual; começava muitas coisas ao mesmo tempo; gastou dinheiro ou fez coisas que depois trouxeram problema.

A pergunta de fechamento é a que mais rende, e é a que ninguém faz: alguém da sua família já teve isso, e alguma vez a senhora ficou assim logo depois de começar um remédio para depressão. Um sim na segunda metade dessa pergunta muda a conduta imediatamente, porque virada maníaca prévia induzida por antidepressivo está registrada, no protocolo federal, entre as contraindicações relativas da fluoxetina.

O que fazer com uma suspeita levantada é o limite deste capítulo, e ele é explícito. O transtorno afetivo bipolar tem protocolo federal próprio, com critérios de episódio maníaco, com medicamentos do Componente Especializado e com exigências de avaliação antes de iniciar tratamento — inclusive hormônio tireotrófico, creatinina e ureia antes do carbonato de lítio, e três medidas de pressão arterial em datas diferentes. Nada disso se conduz numa consulta de demanda espontânea, e o transtorno bipolar é assunto de A semana em que ninguém perguntou, nesta apostila. A conduta do interno diante da suspeita é não iniciar antidepressivo isolado e encaminhar para avaliação especializada, com o que motivou a suspeita escrito no encaminhamento — porque um encaminhamento que diz apenas "depressão" chega ao outro lado sem a informação que o gerou.

O critério C na prática: o que excluir, e o que se pede de exame

O terceiro critério manda excluir substância e outra condição clínica, e não diz como. Nenhum documento federal brasileiro consultado fixa um painel laboratorial mínimo para o diagnóstico de depressão — não há lista obrigatória de exames, e é honesto registrar isso em vez de apresentar uma lista como se fosse norma.

O que existe é o nome dos diferenciais, no Caderno de Atenção Básica nº 34: anemia, hipotireoidismo e desnutrição, com a exigência de boa anamnese. A partir daí, a decisão sobre o que pedir é do médico assistente e se orienta pela clínica de cada paciente, não por rotina. Na prática de uma unidade básica, um conjunto defensável em quem tem cansaço proeminente cobre hemograma e função tireoidiana, e o restante segue a suspeita — glicemia em quem tem fatores de risco, função renal e hepática em quem usa medicamento que exija, e assim por diante. Isso é leitura deste capítulo sobre o que decorre das fontes, e não citação de protocolo, porque protocolo não há.

A exclusão de substância se faz por anamnese e não por exame. Álcool em primeiro lugar, pela frequência, com pergunta em quantidade concreta e sem tom de julgamento. Depois, medicamento: rever cada caixa que o paciente traz, checar o que foi iniciado nos últimos meses e considerar a coincidência temporal como dado clínico. Depois, outras substâncias, com a mesma naturalidade com que se pergunta sobre tabagismo.

Uma caixa em particular aparece com frequência desproporcional nessa sacola, e ela merece parágrafo próprio porque muda a conduta: o benzodiazepínico de uso crônico. É comum que o paciente chegue à sua consulta já tomando um há anos, prescrito originalmente para insônia ou para nervosismo, renovado desde então sem reavaliação. O Caderno de Atenção Básica nº 34 é explícito sobre isso: prescrever apenas benzodiazepínico para queixa crônica de ansiedade é iatrogênico, e o manejo de longo prazo dessas queixas passa por incluir medicação antidepressiva. O mesmo documento descreve o uso continuado desses fármacos como produtor de tolerância e como escape para a impotência do profissional diante de queixas sem equivalente orgânico.

Isso tem três consequências práticas na consulta de hoje. A primeira é que o benzodiazepínico crônico é, ele próprio, um achado de anamnese: sinaliza uma queixa antiga que nunca foi diagnosticada, e frequentemente a queixa era esta. A segunda é que a sedação, a lentificação e a queda de concentração que ele produz se confundem com sintomas do critério — e podem inflar a contagem. A terceira é sobre a retirada, e o Caderno traz técnica concreta: reduzir gradualmente, negociando com o usuário, e usar formulações em gotas quando disponíveis, porque elas permitem degraus quase imperceptíveis, da ordem de uma gota a cada duas semanas ou mais. Nada disso se resolve na consulta em que se faz o diagnóstico de depressão, e tentar resolver tudo de uma vez costuma terminar sem nenhuma das duas coisas feitas. Mas fica registrado no plano, e volta na consulta seguinte.

Há uma decisão prática que este capítulo assume e declara. Esperar todos os exames para começar o tratamento é razoável em quem tem quadro leve, sintoma sugestivo de doença clínica ou nenhuma urgência; e é ruim em quem tem quadro grave, prejuízo importante ou risco. Nesses, a conduta de segurança é iniciar o tratamento e seguir a investigação em paralelo, revisando a conduta quando o resultado chegar. Nenhuma fonte brasileira consultada resolve essa escolha, e ela fica declarada como julgamento clínico.

O que a régua brasileira não tem: nenhum instrumento de rastreio fixado

Vale dizer com todas as letras, porque a expectativa do estudante é a oposta. Não há, nas fontes federais abertas para este capítulo, nenhum instrumento de rastreio de depressão fixado para uso na atenção primária brasileira. O Caderno de Atenção Básica nº 34 usa a palavra rastreamento uma única vez em 176 páginas, e é para um instrumento de uso de álcool. A Linha de Cuidado da Depressão no adulto, atualizada em 2022, organiza o percurso do paciente pela rede e não indica instrumento algum. E não existe protocolo clínico federal de depressão em que um instrumento pudesse estar.

Isso não quer dizer que instrumentos de rastreio não existam nem que não sejam usados: são, largamente, e municípios e serviços adotam os seus. Quer dizer que a adoção não vem de norma federal, que a sua unidade pode ou não ter um, e que o interno que chega numa unidade sem instrumento não está diante de uma falha local — está diante da ausência de uma régua nacional.

A consequência prática é que o diagnóstico nesta consulta se apoia na anamnese estruturada descrita nas seções anteriores, e não num escore. Isso é mais trabalhoso e é mais robusto: um escore alto não é diagnóstico e um escore baixo não exclui, ao passo que a contagem dos itens do critério com a duração cravada é o diagnóstico.

Uma exceção de fronteira, para não deixar dúvida: existe sim, na régua brasileira, rastreio com instrumento e ponto de corte para a depressão do pós-parto, e ele está no capítulo de depressão pós-parto e blues puerperal, na apostila de Parto e assistência ao nascimento — com a escala, a leitura do resultado e a régua de amamentação. Aquele capítulo cobre a puérpera inteira, inclusive a escolha de antidepressivo em quem amamenta. Este aqui não repete nada disso e não trata da puérpera.

07

Os três critérios, o elenco que existe e o relógio da troca

Três tabelas e um card resolvem a parte que se decora. A primeira é o critério diagnóstico traduzido em perguntas de consulta. A segunda é o elenco real de antidepressivos do sistema público brasileiro, extraído por código ATC da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 e conferido em três espelhos. A terceira converte dose em comprimido e em quantidade de receita, que é onde a prescrição encontra a farmácia. O card fixa o único número que impede a troca precoce. As notas ao final trazem a auditoria das fontes oficiais, com as contas refeitas: os erros encontrados e também as checagens que deram certo.

Como usar quadros e notas de fontes anteriores. Notas que transcrevem doses, prazos ou exigências de documentos antigos registram o conteúdo dessas fontes; não substituem a conduta clínica atualizada e individualizada neste capítulo. Separar indicação, dose, contraindicações, monitorização e acesso. Se houver divergência entre o documento histórico e a recomendação atual, discutir o protocolo vigente com a equipe antes de executar.

O relógio: quando se pode dizer que não funcionou

A conta é feita com os números do próprio Caderno de Atenção Básica nº 34 e vale para os tricíclicos, que são três dos cinco antidepressivos do sistema. Da dose inicial de 25 mg até 150 mg são cinco incrementos de 25 mg; a cada 2 a 3 dias, isso dá 10 a 15 dias só de titulação. A latência do efeito antidepressivo é de cerca de duas semanas, e ela conta a partir da dose terapêutica, não do primeiro comprimido. Somando: 24 a 29 dias, ou 3,4 a 4,1 semanas, até a primeira leitura honesta. Antes disso não há resposta a julgar. Com a fluoxetina o relógio é mais curto porque a dose inicial já é a dose usual, mas o protocolo federal do transtorno bipolar espaça os incrementos em 1 a 2 semanas — o que coloca a chegada aos 80 mg entre 3 e 6 semanas. Em ambos os casos: trocar antes é trocar uma dose, não um fármaco, e queimar uma opção de um elenco que só tem cinco.

Os três critérios do episódio depressivo maior, traduzidos para a consulta

CritérioO que o texto federal exigeComo se verifica na sua salaErro típico
A — sintomas, duração e âncoraConjunto mínimo de sintomas de uma lista de nove, presentes no mesmo período de duas semanas, representando mudança em relação ao funcionamento anterior, com pelo menos um deles sendo humor deprimido ou perda de interesse e prazer.Datar por evento ("qual foi a última vez que a senhora se sentiu bem"), depois cobrir os três blocos: humor e prazer; sono, apetite, peso, energia e ritmo; concentração, decisão, autovalor, culpa e pensamentos de morte.Contar sintomas sem cravar as duas semanas, ou fechar o diagnóstico sem nenhuma das duas âncoras presentes.
B — prejuízoOs sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outra área importante da vida.Perguntar em concreto: faltou ao trabalho, deixou de fazer o que fazia em casa, deixou de ver quem via, deixou de cuidar de quem cuidava.Presumir o prejuízo porque o paciente parece mal, sem nomear o que ele deixou de fazer — o que também apaga a referência para medir melhora depois.
C — exclusãoO episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição clínica.Álcool e outras substâncias por anamnese quantificada; revisão de cada medicamento em uso, com atenção ao que começou nos últimos meses; diferenciais clínicos nomeados pelo Caderno nº 34 (anemia, hipotireoidismo, desnutrição); e a pergunta sobre humor elevado prévio, que exclui bipolaridade.Tratar o critério C como ressalva de rodapé. Ele tem o mesmo peso dos outros dois, e é o único cuja falha produz dano ativo em vez de omissão.

O elenco real: todos os antidepressivos da Rename 2024, por código ATC

Fármaco (denominação comum brasileira)ApresentaçõesComponente de financiamentoCódigo ATCO que a fonte federal diz sobre a dose
cloridrato de amitriptilina25 mg comprimido; 75 mg comprimidoBásicoN06AA09Caderno nº 34: iniciar com 25 mg e aumentar 25 mg a cada 2 a 3 dias até nível terapêutico; dose usual 150 a 200 mg/dia, faixa 50 a 300. O mesmo Caderno diz, no texto corrido, que o efeito antidepressivo só aparece acima de 100 mg/dia, e recomenda evitar no idoso.
cloridrato de nortriptilina10, 25, 50 e 75 mg cápsulaBásicoN06AA10Nenhuma dose em fonte federal brasileira. O Caderno nº 34 a indica nominalmente como o tricíclico preferível no idoso, por menor efeito anticolinérgico e menor hipotensão postural, e não a inclui na própria tabela de doses.
cloridrato de clomipramina10 mg comprimido; 25 mg comprimidoBásicoN06AA04Caderno nº 34: mesma regra de titulação dos tricíclicos; dose usual 150 a 200 mg/dia, faixa 50 a 300. Registrada como boa indicação também para transtornos de ansiedade.
cloridrato de fluoxetina20 mg cápsula; 20 mg comprimidoBásicoN06AB03Caderno nº 34: dose usual 20 mg/dia, faixa 5 a 80, meia-vida prolongada. Protocolo do transtorno bipolar: inicial 20 mg/dia, faixa 20 a 40 mg em dose única pela manhã, incremento de 20 mg a cada 1 a 2 semanas, máximo 80 mg/dia.
cloridrato de bupropiona150 mg comprimido de liberação prolongadaEstratégicoN06AX12Nenhuma dose em fonte federal brasileira consultada. Consta do Anexo II, do Componente Estratégico, ao lado da nicotina em adesivo, goma e pastilha.

Da dose ao comprimido e à receita: adulto de 70 kg (nenhum destes fármacos é dosado por peso)

Fármaco e apresentação disponívelDose por diaComo se monta com o que a farmácia temUnidades para 30 dias
amitriptilina 25 e 75 mg25 mg1 comprimido de 25 mg30
amitriptilina 25 e 75 mg50 mg2 comprimidos de 25 mg60
amitriptilina 25 e 75 mg75 mg1 comprimido de 75 mg30
amitriptilina 25 e 75 mg100 mg1 de 75 mg + 1 de 25 mg60
amitriptilina 25 e 75 mg150 mg2 comprimidos de 75 mg60
amitriptilina 25 e 75 mg200 mg2 de 75 mg + 2 de 25 mg120
clomipramina 10 e 25 mg75 mg3 comprimidos de 25 mg90
clomipramina 10 e 25 mg150 mg6 comprimidos de 25 mg180
fluoxetina 20 mg20 mg1 cápsula ou comprimido30
fluoxetina 20 mg40 mg2 cápsulas ou comprimidos60
fluoxetina 20 mg60 mg3 cápsulas ou comprimidos90
fluoxetina 20 mg80 mg4 cápsulas ou comprimidos120
nortriptilina 10, 25, 50 e 75 mgsem dose em fonte federalas apresentações permitem passos de 10 mg, mas nenhuma fonte brasileira aberta fixa a dosenão calculável a partir das fontes

A régua federal, declarada: não existe protocolo clínico e diretrizes terapêuticas de depressão no Brasil. A lista oficial de protocolos da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, consultada em 06/09/2026, traz Esquizofrenia (Portaria SAS/MS nº 364, de 09/04/2013), Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I (Portaria SAS/MS nº 315, de 30/03/2016) e Transtorno Esquizoafetivo, e nenhum para depressão unipolar. O achado foi confirmado por um segundo caminho independente: o radical "depress" tem zero ocorrência nas 254 páginas da Rename 2024, inclusive no Anexo IV, que lista o documento norteador de cada medicamento do Componente Especializado. A régua que existe é composta: a Rename 2024 decide o que há na farmácia; o Caderno de Atenção Básica nº 34, de 2013, é o último documento federal que traz doses de antidepressivo para a atenção primária; e a Linha de Cuidado da Depressão no adulto, atualizada em 14/03/2022, organiza o percurso pela rede sem fixar critério, fármaco, dose ou prazo.

Consequência do vazio, e ela é literária antes de ser administrativa: o único documento federal brasileiro que escreve por extenso os critérios do episódio depressivo maior é o protocolo do transtorno afetivo bipolar do tipo I, na seção 4.2 do anexo à Portaria SAS/MS nº 315/2016. Os critérios de que o interno precisa para diagnosticar depressão unipolar moram dentro do protocolo da doença que ele tem de excluir.

Erro de unidade por fator 1.000 em protocolo federal vigente. A seção 7.5 do protocolo do transtorno afetivo bipolar do tipo I lista as apresentações e escreve: haloperidol em "solução oral de 2 g/mL". A Rename 2024 registra haloperidol solução oral a 2 mg/mL (código N05AD01, Componente Básico). A conta: 2 g/mL são 2.000 mg/mL, isto é, 2.000 dividido por 2, ou seja, 1.000 vezes a concentração real. Uma solução a 2 g/mL, além de errada, é fisicamente impossível. Conferido literalmente em dois espelhos completos e independentes do mesmo protocolo, mantidos por secretarias estaduais de saúde distintas, com o texto quebrado em linha no mesmo ponto nos dois — logo, não é artefato de extração. O haloperidol não é fármaco deste capítulo; o achado entra porque o documento é o mesmo de onde vêm os critérios diagnósticos aqui usados, e porque um leitor que copiasse a apresentação dali erraria por três casas.

Tabela contradizendo o texto corrido do mesmo documento. Na seção 10.4 o Caderno nº 34 afirma que, para amitriptilina e imipramina, os efeitos antidepressivos só são observados em doses acima de 100 mg/dia. Na tabela da seção 10.4.1, logo abaixo, a faixa terapêutica das mesmas drogas aparece como 50 a 300 mg. A conta: a faixa da tabela tem 250 mg de largura (300 menos 50) e a zona em conflito tem 50 mg (de 50 a 100), isto é, 50 dividido por 250, ou 20% da faixa declarada terapêutica está abaixo do limiar que o próprio documento fixa. Isso importa porque a prescrição mais comum de amitriptilina numa unidade básica é de 25 mg à noite, para dor e sono — dose que fica abaixo até do piso da tabela, e que um leitor apressado pode acreditar estar tratando depressão.

A tabela de doses do Caderno nº 34 e a prateleira de 2024 não são o mesmo elenco. A tabela lista oito fármacos: amitriptilina, clomipramina, imipramina, citalopram, escitalopram, fluoxetina, paroxetina e sertralina. Confrontada com a Rename 2024 por busca exata sobre texto normalizado, sobram três (amitriptilina, clomipramina e fluoxetina) e faltam cinco (imipramina, citalopram, escitalopram, paroxetina e sertralina), ou seja, 5 de 8 — 62,5% da tabela não existe no elenco financiado. Na direção contrária, dois fármacos que a Rename traz estão ausentes da tabela do Caderno: nortriptilina e bupropiona.

A ausência mais consequente da nota anterior tem nome. O Caderno nº 34 recomenda expressamente a nortriptilina como o tricíclico preferível no idoso, por menor efeito anticolinérgico e menor hipotensão postural — e a nortriptilina não aparece na tabela de doses do próprio Caderno, nem em nenhum outro ponto de suas 176 páginas com qualquer dose. Contagem: uma única ocorrência da palavra no documento inteiro, e é a da recomendação. O documento que manda usar não diz quanto. Este capítulo, por isso, não escreve dose de nortriptilina.

Piso de faixa não construível com a apresentação existente. O Caderno nº 34 abre a faixa terapêutica da fluoxetina em 5 mg. A Rename 2024 fornece fluoxetina em uma única concentração, 20 mg, em cápsula e em comprimido. Como 5 não é múltiplo de 20 e cápsula não se parte, a dose mínima da faixa oficial não é montável com o que o sistema entrega. Na prática o degrau mínimo real é 20 mg, e a recomendação do mesmo Caderno de iniciar o idoso com doses menores esbarra nisso.

Ausência declarada, e é a maior deste capítulo: nenhum documento federal brasileiro consultado diz por quanto tempo manter o antidepressivo depois da remissão, nem como retirá-lo. No Caderno nº 34 a palavra "descontinuar" não aparece nenhuma vez, a expressão "retirada gradual" também não, e a única orientação de retirada do documento é sobre benzodiazepínicos, com a técnica de redução em gotas. A frase federal mais próxima está no protocolo do transtorno bipolar, e ela recomenda reduzir a dose do antidepressivo após 6 a 8 semanas de remissão e suspender sempre que possível — mas ali o antidepressivo é justamente o que se quer fora, e transportar essa regra para a depressão unipolar inverteria o sentido dela. Onde a fonte não diz, este capítulo não diz.

Carga de comprimidos, calculada e não estimada: entre os dois tricíclicos de faixa de dose idêntica, a escolha muda o tamanho da receita por um fator de três. A Rename 2024 fornece amitriptilina em 25 e 75 mg e clomipramina em 10 e 25 mg. Para a mesma dose usual de 150 mg por dia, a amitriptilina se monta com 2 comprimidos de 75 mg, o que dá 60 unidades em 30 dias; a clomipramina exige 6 comprimidos de 25 mg, ou 180 unidades em 30 dias — três vezes mais comprimidos por mês para a mesma dose, porque não existe apresentação maior no elenco. A conta foi refeita para todos os degraus da faixa. Isso não torna a clomipramina uma escolha errada, e o Caderno nº 34 a registra como boa opção quando há transtorno de ansiedade associado; torna a carga de comprimidos um dos eixos concretos da escolha, ao lado do perfil de efeito, sobretudo em quem já toma muitos medicamentos e em quem tem dificuldade de adesão.

Uma conferência que parecia erro e não é, registrada para que ninguém a refaça. Nos esquemas de administração do protocolo do transtorno bipolar, vários fármacos trazem uma "faixa de dose" cujo limite superior é menor do que a "dose máxima" declarada na linha seguinte — a fluoxetina aparece com faixa de 20 a 40 mg e máximo de 80 mg/dia, e a clozapina com faixa de 300 a 400 mg e máximo de 800 mg/dia. Confrontando todas as entradas da seção, o padrão é consistente: "faixa de dose" designa a dose-alvo usual e "dose máxima" designa o teto absoluto. É imprecisão de rótulo, não contradição aritmética, e a leitura apressada de que o documento se contradiz estaria errada. A checagem do incremento fecha na mesma direção: partindo de 20 mg e subindo 20 mg a cada 1 a 2 semanas, chega-se a 80 mg em três incrementos, isto é, em 3 a 6 semanas, o que é compatível com o teto declarado.

As checagens que deram certo, registradas porque informam tanto quanto os erros achados. Primeira: os três espelhos da Rename 2024, depois de normalizados espaço e hifenização, dão dois textos idênticos caractere a caractere e um terceiro divergente apenas por quebra de palavra, com a sequência de 6.008 números idêntica nos três — nenhum dígito alterado, e a técnica serviu para provar que as frases citadas aqui estão mesmo no documento. Segunda: a busca por "valproato" na Rename devolve zero, o que quase produziu o achado falso de que o sistema não fornece o fármaco; a denominação comum brasileira é ácido valproico, e sob esse nome ele está lá, no Componente Básico, código N03AG01, em cápsula e comprimido de 250, 300 e 500 mg e solução oral de 50 mg/mL. Terceira: as apresentações de amitriptilina de 25 e 75 mg montam todos os degraus de 25 em 25 mg até 300 mg, de modo que a regra de titulação do Caderno nº 34 é executável com o que a farmácia tem. Quarta: as porcentagens da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 são coerentes — a média simples entre 14,7% das mulheres e 5,1% dos homens dá 9,9% e o total é 10,2%, diferença esperada porque o total é média ponderada pelo tamanho dos grupos, e não média aritmética das taxas.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo não é a da doença: é a do cuidado, da consulta em que a queixa era outra até a alta. Oito marcos, e os quatro primeiros acontecem todos dentro da mesma consulta de quinze minutos — o que parece impossível e não é, porque a maior parte deles é pergunta, não procedimento.

Onde há prescrição, as doses vêm nomeadas com a fonte de onde saíram. Onde não há fonte brasileira, o marco diz que não há em vez de preencher o vazio.

Convém situar esta consulta dentro do percurso que o sistema desenhou, porque o interno costuma imaginar que o destino natural de todo paciente deprimido é o centro de atenção psicossocial, e não é. A Linha de Cuidado da Depressão no adulto, do Ministério da Saúde, organiza o caminho entre a unidade básica, a atenção especializada ambulatorial, o centro de atenção psicossocial, o serviço móvel de urgência e a unidade hospitalar — e coloca a unidade básica como o ponto que coordena o cuidado e ordena os encaminhamentos, não como uma triagem que repassa. O centro de atenção psicossocial existe para transtorno mental grave e persistente e para uso problemático de álcool e outras drogas; mandar para lá o quadro depressivo leve ou moderado da sua agenda entope o serviço e devolve o paciente sem tratamento. A regra que decorre disso é desconfortável e é a certa: a maior parte destes pacientes é sua, do começo ao fim.

Primeiro retorno e medidas concretas. Rever habitualmente em duas semanas; em 18–25 anos ou preocupação com suicídio, em uma semana após iniciar/aumentar antidepressivo, antecipando conforme risco. Avaliar sono, energia, anedonia, trabalho, relações e segurança, além de escala quando útil. Combinar uma atividade viável e reduzir barreiras ao cuidado. Luto pode coexistir com depressão e não é exclusão automática; sintomas por poucos dias ainda podem exigir intervenção imediata por gravidade, mesmo sem preencher duração diagnóstica.

  1. Marco 1 — a consulta em que a queixa é outra

    A suspeita nasce de queixa somática persistente sem explicação proporcional, de cansaço que já vem inteiro ao acordar, de insônia, de dor difusa, de retornos repetidos com exames normais, ou de uma frase dita de passagem no fim da consulta. A conduta aqui é uma só: mudar a pergunta. Em vez de perguntar sobre tristeza, perguntar sobre interesse e prazer nas coisas concretas do paciente, com nome. Custa quarenta segundos e é o que abre ou fecha tudo o que vem depois.

  2. Marco 2 — ainda na mesma consulta: fechar o critério A

    Datar o início por evento, não por estimativa. Cravar as duas semanas. Cobrir os três blocos de sintomas (humor e prazer; sono, apetite, peso, energia e ritmo; concentração, decisão, autovalor, culpa e pensamentos de morte) e verificar que ao menos uma das duas âncoras está presente. Confirmar mudança em relação ao funcionamento anterior e nomear o prejuízo em atos concretos, que servirão de referência para medir melhora. Se a duração não fecha, não se prescreve: reavalia-se em prazo curto.

  3. Marco 3 — ainda na mesma consulta: o critério C, antes da caneta

    Álcool e outras substâncias em quantidade concreta. Revisão de cada caixa que o paciente trouxe, com atenção ao que começou nos últimos meses. Os diferenciais clínicos nomeados pelo Caderno nº 34 — anemia, hipotireoidismo, desnutrição — verificados por anamnese e, quando a clínica indicar, por exame. E a investigação de episódios prévios de elevação que pode levantar suspeita de bipolaridade, nas duas partes: houve alguma época de pelo menos uma semana com humor elevado ou muito irritado, fora do normal da pessoa, e nessa época houve redução de sono sem cansaço, aceleração da fala, várias coisas começadas ao mesmo tempo ou gasto que trouxe problema. Fechar perguntando por história familiar e por virada logo depois de um antidepressivo anterior.

  4. Marco 4 — ainda na mesma consulta: o risco, e o tamanho da receita

    A pergunta sobre morte e suicídio é feita em rampa, dentro do bloco de sintomas, com palavras diretas: se não vale a pena, se seria melhor não acordar, se há pensamento de acabar com a própria vida. Ela não é opcional, porque é um dos itens que o critério manda contar. Diante de qualquer resposta afirmativa, a consulta não termina ali, e a estratificação e a decisão de destino seguem o capítulo de risco de suicídio na emergência, no início desta apostila. Havendo risco, a quantidade dispensada é decisão clínica: o Caderno nº 34 orienta fornecer o antidepressivo em pequenas quantidades ou deixá-lo em posse de um cuidador, e nomeia especialmente os tricíclicos.

    Prescrição
    • Receita com quantidade reduzida e retorno antes do fim do que foi dispensado, quando houver risco identificado
    • Registro no prontuário de que a pergunta foi feita e da resposta obtida, com as palavras do paciente
  5. Marco 5 — a escolha do fármaco: pelo que existe e pelo perfil

    Escolher tratamento com a pessoa conforme gravidade, prejuízo, risco, preferências, tratamentos prévios e acesso. Em depressão menos grave, intervenções psicológicas e acompanhamento ativo podem ser a primeira escolha; antidepressivo não é obrigatório em toda apresentação. Quando indicado, um ISRS costuma ter perfil de segurança mais favorável que tricíclico, sobretudo em risco de autoenvenenamento. Considerar interações, gestação, idade, comorbidades e ativação. A disponibilidade da farmácia ajuda a executar um plano clinicamente adequado, mas não deve vir antes da segurança.

    Prescrição
    • Fluoxetina 20 mg — 1 cápsula pela manhã, uso contínuo (dose usual do Caderno nº 34; dose inicial do protocolo do transtorno bipolar)
    • Tricíclico apenas se houver indicação e avaliação de risco, com titulação individualizada; não usar escalada rápida automática, especialmente em idosos ou risco de autoenvenenamento.
    • Orientar por escrito que o efeito demora e que os efeitos indesejados vêm antes dele — é a informação que evita o abandono na segunda semana
  6. Marco 6 — semanas 1 a 2: titular e marcar a data

    O retorno não é "se precisar": tem data. Nas duas primeiras semanas o que se avalia é tolerância e adesão, também a tendência dos sintomas e da função, sem exigir remissão tão cedo. Pergunta-se quantos dos últimos sete dias o paciente tomou o comprimido, e o que atrapalhou nos dias em que não tomou. Ajusta-se a dose para cima se a tolerância permitir, e reduz-se o ritmo de subida se não permitir. Nesta consulta se repete a pergunta sobre ideação suicida, sem exceção, e se olha ativamente para sinais de virada de humor: sono reduzido sem cansaço, aceleração, gasto, irritabilidade nova.

    Prescrição
    • Retorno com data marcada em 1 a 2 semanas, não a critério do paciente
    • Suspender o antidepressivo e reavaliar diante de sinais de virada — conduta registrada no protocolo do transtorno bipolar
  7. Marco 7 — semanas 4 a 6: a primeira leitura honesta

    Em quatro a seis semanas, comparar sintomas, função, uso real, dose tolerada e efeitos adversos. Resposta não segue aritmética fixa de dias de titulação mais latência. Se benefício insuficiente, revisar diagnóstico, bipolaridade, comorbidades, barreiras e tratamento psicológico antes de ajustar, trocar ou combinar. Não exigir aumento até dose máxima em quem não tolera. Deterioração, suicídio, psicose, catatonia ou mania exigem reavaliação imediata, sem aguardar esse marco.

    Prescrição
    • Antes de declarar falha: confirmar adesão, confirmar que a dose chegou à faixa terapêutica e confirmar que o critério C foi cumprido
    • Ajuste de dose dentro da faixa antes de qualquer troca de fármaco
  8. Marco 8 — depois da remissão: manter, retirar, e quem não é seu

    Após remissão, em geral manter antidepressivo por pelo menos seis meses, com revisões regulares; recorrência, gravidade, sintomas residuais e risco de recaída podem justificar período maior. Retirada é compartilhada e gradual, em etapas proporcionais à dose, ajustada a sintomas de descontinuação e ao fármaco; pode levar semanas ou meses. Explicar a diferença entre recaída e retirada sem presumir que qualquer mal-estar é um ou outro. Tratamento psicológico e estratégias de prevenção continuam. A falta de um prazo no documento federal selecionado não significa ausência de orientação clínica.

    Prescrição
    • Combinar, já na primeira consulta, que o tratamento continua depois da melhora — a informação dada cedo é o que evita a parada por conta própria
    • Retirada gradual e programada, com retorno marcado durante a redução, nunca por interrupção súbita
    • Encaminhamento escrito com o motivo específico e o grau de urgência — nunca apenas a palavra depressão
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Como saber se está funcionando

Reavaliar depressão é diferente de reavaliar pneumonia: não há febre que cede nem radiografia que limpa. O que se acompanha são sete parâmetros, e o primeiro deles explica o resultado dos outros seis com mais frequência do que qualquer teoria farmacológica.

Adesão, medida em dias e não em impressãoEm toda consulta, antes de qualquer outra pergunta sobre resposta

Esperado: Que o paciente tenha tomado o comprimido na maioria dos últimos sete dias. Pergunte pelo número — dos últimos sete dias, em quantos a senhora tomou — e não "está tomando direitinho", que devolve sim automático.

Se não melhora: Antes de mexer na dose ou trocar o fármaco, descubra o que atrapalhou: efeito indesejado, falta na farmácia, medo do remédio, ausência de rotina, ou a crença de que se toma só quando se está mal. Cada um desses tem conduta própria, e nenhuma delas é aumentar a dose.

Os itens do critério que estavam presentesA partir de 4 a 6 semanas, e depois a cada consulta

Esperado: Redução do número de itens presentes e da intensidade dos que restam. Anote quais estavam presentes na primeira consulta: sem essa lista, a comparação vira memória.

Se não melhora: Confirme adesão e dose plena antes de declarar falha. Reveja o critério C — substância, medicamento novo, doença clínica não excluída. Só então considere ajuste ou troca.

Sono e apetiteJá na primeira ou segunda semana

Esperado: Costumam ser os primeiros a se mover, antes do humor, e servem de sinal precoce de que algo está acontecendo. Melhora do sono na segunda semana não é cura e não autoriza parar.

Se não melhora: Sono que não melhora com o tratamento merece ser tratado como sintoma próprio e revisto quanto a higiene do sono, uso de álcool à noite e horário da tomada do medicamento.

Ideação suicidaEm toda consulta, sem exceção e sem depender de o paciente parecer melhor

Esperado: Redução da frequência e da intensidade do pensamento. A pergunta se repete mesmo em quem negou da primeira vez, porque o estado muda.

Se não melhora: Aprofundar na hora, não no retorno, e conduzir pelo capítulo de risco de suicídio na emergência. Rever a quantidade dispensada na próxima receita.

Efeitos indesejadosPrimeira e segunda semanas, quando eles aparecem e o efeito terapêutico ainda não

Esperado: Boca seca, constipação, sonolência e tontura com tricíclico; ansiedade, agitação, cefaleia, insônia ou sonolência, inapetência e efeito sexual com o inibidor seletivo. Toleráveis e decrescentes na maioria. Uma armadilha nomeada pelo Caderno nº 34: o inibidor seletivo pode produzir irritabilidade, e é preciso não a confundir com resposta parcial e aumentar a dose por causa dela.

Se não melhora: É a principal causa de abandono silencioso. Reduzir o ritmo de subida, mudar o horário da tomada, tratar o efeito quando tratável — e, se persistir e for limitante, trocar por intolerância, o que é motivo diferente de trocar por falta de resposta e deve ser registrado como tal, porque orienta a próxima escolha. O efeito sexual merece pergunta ativa: o paciente raramente o traz, e ele é causa frequente de interrupção silenciosa, sobretudo em homens.

Funcionamento — o critério B ao contrárioA partir de 4 a 6 semanas

Esperado: Retorno concreto ao que havia sido nomeado como perdido: voltou ao trabalho, voltou a cozinhar, voltou a ver a irmã, voltou ao grupo. É o desfecho que interessa ao paciente, e é o que decide alta e manutenção. Por isso o marco 2 insiste em nomear o prejuízo em atos: sem a lista feita na primeira consulta, não há régua para medir aqui.

Se não melhora: Sintoma melhorado sem funcionamento recuperado é remissão incompleta, e remissão incompleta é fator de recaída. Investigue o que trava — pode ser sintoma residual, pode ser efeito adverso não relatado, pode ser situação de vida que o comprimido não alcança e que pede a rede da unidade em vez de mais dose.

Sinais de virada de humorNas primeiras semanas, e sempre que a melhora parecer rápida demais

Esperado: Ausência. Melhora que vem depressa demais, com energia acima do habitual, sono reduzido sem cansaço, aceleração da fala, gasto ou irritabilidade nova, não é resposta boa: é sinal de alerta.

Se não melhora: Diante desses sinais, o protocolo do transtorno afetivo bipolar do tipo I registra que antidepressivos e outros medicamentos que possam estar precipitando devem ser suspensos. Suspender e encaminhar, sem esperar o retorno agendado.

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Onde o erro machuca

Tratar como doença a tristeza que é resposta a uma perda

O dano: Transforma um processo humano em diagnóstico, coloca comprimido no lugar da rede de apoio que a unidade poderia mobilizar e cria um paciente crônico de um episódio que teria caminhado sozinho. O Caderno de Atenção Básica nº 34 chama isso pelo nome: medicalização de problemas pessoais, familiares e sociais.

Como pegar a tempo: Aplicar os três critérios em vez de reagir ao sofrimento visível. Se a duração não fecha, se as âncoras não estão presentes, se o interesse volta nos intervalos e a trajetória se move, a conduta é acompanhamento com data marcada — não receita.

O erro oposto: descartar o diagnóstico porque a tristeza tem motivo

O dano: É o mais comum dos dois no consultório real, porque um motivo plausível encerra a investigação de todo mundo, inclusive a do médico. O paciente sai com a explicação e sem o diagnóstico, e volta meses depois igual ou pior.

Como pegar a tempo: Lembrar do que o próprio texto federal diz junto aos critérios: diante de resposta a uma perda significativa, a presença de um episódio depressivo maior além da resposta normal deve ser cuidadosamente considerada. Ter motivo não protege ninguém de adoecer.

Não perguntar sobre morte e suicídio

O dano: Deixa passar o desfecho que este capítulo mais quer evitar, e deixa passar em quem tinha a chance de ser identificado numa consulta de rotina. Deixa também o diagnóstico incompleto, porque um dos itens da contagem não foi verificado.

Como pegar a tempo: Tratar a pergunta como parte do exame, e não como escolha de sensibilidade: ela é um dos itens que o critério manda contar, e quem não pergunta não fechou o critério. Fazer em rampa, com palavras diretas, dentro do bloco de sintomas. Conduzir o que vier pelo capítulo de risco de suicídio na emergência.

Prescrever antidepressivo sem ter cumprido o critério C

O dano: É o erro que produz dano ativo, e não apenas omissão. Trata por cima de hipotireoidismo, de anemia, de uso pesado de álcool ou de um medicamento recém-iniciado. E, na versão mais cara, trata como unipolar quem é bipolar: o protocolo federal registra que os inibidores seletivos da recaptação da serotonina são claramente contraindicados como monoterapia na depressão bipolar.

Como pegar a tempo: Fazer da exclusão uma etapa da mesma consulta, não uma intenção para o retorno. A pergunta sobre humor elevado prévio, em duas partes, leva menos de um minuto e vem antes da caneta. Quem tem suspeita levantada não recebe antidepressivo isolado: recebe encaminhamento com o motivo escrito.

Trocar o antidepressivo antes que o relógio permita

O dano: Queima uma opção de um elenco que tem cinco nomes, ensina ao paciente que nada funciona e transforma um tratamento adequado em uma sequência de tentativas curtas. Com tricíclico titulado, a primeira leitura honesta só existe entre 24 e 29 dias do início; trocar antes é trocar uma dose por outra e chamar isso de trocar de fármaco.

Como pegar a tempo: Contar o relógio explicitamente e dizê-lo ao paciente na primeira consulta: os efeitos indesejados vêm antes do efeito bom, e a avaliação de verdade é lá na frente. Antes de trocar, esgotar a faixa de dose segura, como orienta o Caderno nº 34, e reconferir adesão.

Parar na remissão, ou deixar o paciente parar

O dano: Devolve o quadro, e o quadro devolvido custa mais em tempo e em descrença do que o primeiro. Uma retirada abrupta ainda produz sintomas de descontinuação, que paciente e médico leem como recaída — e a leitura errada faz reiniciar o que já podia terminar.

Como pegar a tempo: Planejar manutenção geralmente por pelo menos seis meses após remissão, individualizando risco de recaída e retirada gradual com seguimento.

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O que dizer ao paciente e à família

As sete falas abaixo são as que travam o interno nesta consulta. Nenhuma delas se resolve com um argumento melhor: resolvem-se com a mesma anatomia, que é validar o que a pessoa disse, oferecer informação concreta e devolver uma pergunta que faça a conversa andar.

A paciente rejeita a palavra: "eu não estou triste, doutor, eu só estou cansada"

"Acredito na senhora, e cansaço é queixa de verdade. Deixa eu perguntar de outro jeito: das coisas de que a senhora gostava — a novela, a conversa na porta, a igreja —, quais a senhora ainda tem vontade de fazer? E esse cansaço, ele já está inteiro quando a senhora acorda, ou vai chegando com o dia?"

Não diga: Insistir em tristeza depois de a pessoa ter negado, ou corrigi-la ("isso que a senhora tem é depressão"). Quem discute o rótulo perde a informação e perde o vínculo.

Você precisa perguntar sobre suicídio e não sabe como começar

"Quando a pessoa está passando por isso que a senhora está me contando, é comum aparecerem alguns pensamentos, e eu preciso perguntar sobre eles para cuidar direito. A senhora tem sentido que não vale a pena? Tem chegado a pensar que seria melhor não acordar? E tem tido pensamento de acabar com a própria vida?"

Não diga: Eufemismo ("a senhora não está pensando em fazer besteira, né?"), que já vem com a resposta embutida, e a pergunta jogada no fim da consulta, com a mão na maçaneta.

"Esse remédio vicia, doutor. Minha vizinha tomou e não conseguiu mais parar"

"Entendo a preocupação, e ela tem fundamento em outro grupo de remédios, os calmantes — esses realmente criam dependência. O antidepressivo é diferente: ele não dá vontade de tomar mais, e a gente vai retirar quando chegar a hora, devagar e junto. O que eu preciso combinar com a senhora é o contrário: que a senhora não pare sozinha quando melhorar, porque é aí que ele volta."

Não diga: Dizer apenas "não vicia" e mudar de assunto. A pessoa que trouxe o medo trouxe também uma história concreta, e a distinção entre as duas classes é o que resolve.

Segunda semana: "já faz quinze dias e eu não melhorei nada, e ainda fiquei com a boca seca"

"Isso é exatamente o que eu esperava que acontecesse, e é por isso que eu avisei. Os incômodos vêm primeiro e o efeito bom vem depois — a conta certa aqui é de umas quatro semanas desde que a gente chegou na dose certa. A boca seca a gente ameniza. Só tem uma coisa que eu peço à senhora: não interrompa justo agora, porque interromper agora joga fora todo o tempo que a senhora já esperou."

Não diga: Trocar o remédio para resolver a angústia da consulta. A troca precoce é o segundo erro mais caro deste capítulo e a queixa da segunda semana é o gatilho dela.

"Eu já estou boa, posso parar?"

"Fico feliz, e o fato de a senhora estar bem é sinal de que o remédio está fazendo o que devia. Justamente por isso a gente não para agora: parar quando melhora é o jeito mais comum de o quadro voltar. Vamos manter, e eu quero a senhora aqui de volta para combinarmos a retirada quando for a hora — e a retirada vai ser devagar, não de uma vez."

Não diga: Marcar um prazo em meses inventado na hora para soar seguro. Nenhum documento federal brasileiro fixa esse número, e uma data inventada que depois muda destrói a credibilidade de tudo o que veio antes.

Você precisa rastrear bipolaridade sem assustar

"Preciso perguntar uma coisa que parece o contrário do que a senhora está vivendo. Já teve alguma época, de uma semana ou mais seguida, em que a senhora ficou muito para cima ou muito irritada, de um jeito que não era o seu normal — dormindo pouco e sem sentir cansaço, falando demais, começando muita coisa ao mesmo tempo, gastando o que não tinha? E alguma vez isso aconteceu logo depois de a senhora começar um remédio para depressão?"

Não diga: Perguntar "a senhora tem oscilação de humor?", que quase todo mundo responde que sim, e "a senhora é bipolar?", que devolve o que a pessoa ouviu falar. A pergunta útil é sobre um período distinto e sobre o que a pessoa fez nele.

Encaminhar sem que soe como abandono

"Eu vou pedir a avaliação de um colega que entende mais desse ponto específico, por um motivo que eu vou escrever no papel e explicar para a senhora agora. Isso não quer dizer que a senhora sai daqui: eu continuo sendo o seu médico, a senhora continua vindo aqui, e a gente vai ver junto o que ele responder. Já vou deixar a sua próxima consulta comigo marcada."

Não diga: Encaminhar dizendo apenas "o seu caso é para o psiquiatra" e escrever "depressão" no papel. Encaminhamento sem motivo escrito chega ao outro lado sem a informação que o gerou, e sem retorno marcado o paciente entende que foi dispensado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual fármaco começar na unidade básica: tricíclico ou o inibidor seletivo

O tricíclico como opção de primeira linha na atenção primária. O Caderno de Atenção Básica nº 34, do Ministério da Saúde, de 2013, apresenta os tricíclicos em primeiro lugar na sua visão geral dos antidepressivos, descreve-os como bastante eficazes, dá-lhes uma regra explícita de titulação (iniciar com 25 mg e aumentar 25 mg a cada 2 a 3 dias) e faixas de dose, e é o único documento federal brasileiro que traz dose de antidepressivo para uso na atenção primária. Três dos quatro antidepressivos do Componente Básico da Rename 2024 são tricíclicos.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seções 10.4 e 10.4.1.

A fluoxetina como opção de primeira linha. É o único antidepressivo que um protocolo clínico federal brasileiro nomeia e prescreve com esquema completo — dose inicial de 20 mg/dia, faixa de 20 a 40 mg em dose única pela manhã, incremento de 20 mg a cada 1 a 2 semanas e máximo de 80 mg/dia. Começa já na dose usual, dispensa titulação e é tomada uma vez ao dia, o que favorece adesão. O mesmo Caderno nº 34, no seu texto corrido, reconhece que os tricíclicos são menos tolerados, sobretudo pelos efeitos anticolinérgicos, sedativos e pelas tonturas, e recomenda evitá-los no idoso.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, Portaria SAS/MS nº 315, de 30/03/2016, seções 7.5 e 7.6; e Cadernos de Atenção Básica, n. 34, 2013, seção 10.4.

Como decidir

Nenhum documento brasileiro compara os dois para depressão unipolar, porque o protocolo federal que dá esquema à fluoxetina é o do transtorno bipolar e não trata da unipolar. Diante do paciente sentado na sua frente, três perguntas concretas resolvem a escolha, nesta ordem. Primeira: o que a farmácia da sua unidade tem hoje, de fato, e em que quantidade — a melhor escolha indisponível é a pior escolha. Segunda: quem é este paciente — idade acima de 60 anos, cardiopatia, glaucoma, retenção urinária, constipação importante ou risco identificado de tentativa de suicídio pesam contra o tricíclico, e o Caderno nº 34 recomenda evitar amitriptilina no idoso. Terceira: qual é a chance de adesão — quem tem rotina desorganizada, quem já abandonou tratamento antes ou quem se assusta com efeito adverso tende a ir melhor com o esquema de uma tomada, sem titulação. Registre no prontuário qual dos três eixos decidiu, porque é isso que orienta a próxima escolha se esta falhar.

Quanto tempo esperar antes de declarar que não funcionou

Esgotar a faixa de dose antes de concluir. O Caderno nº 34 orienta que, para uma resposta adequada, é fundamental usar dosagens dentro da faixa terapêutica e respeitar tempo mínimo de uso, e que nos casos de resposta parcial é importante esgotar a faixa de dosagem segura até certificar-se de que não houve resposta terapêutica. Combinada com a titulação de 25 mg a cada 2 a 3 dias e com a latência de cerca de duas semanas declarada pelo mesmo documento, essa orientação empurra a decisão de troca para bem depois do primeiro mês.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 — Saúde mental, 2013, seção 10.4.

Subir em passos com prazo fixo. O protocolo federal do transtorno afetivo bipolar do tipo I dá à fluoxetina um esquema de incremento de 20 mg a cada 1 a 2 semanas, de acordo com resposta e tolerabilidade, com teto de 80 mg/dia — o que estabelece um calendário de reavaliação a cada 1 a 2 semanas e leva à dose máxima entre a terceira e a sexta semana, prazo bastante mais curto do que o que decorre da leitura anterior.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno Afetivo Bipolar do tipo I, Portaria SAS/MS nº 315, de 30/03/2016, seção 7.6.

Como decidir

As duas posições não brigam sobre biologia: brigam sobre a que se chama reavaliar. Separe as duas coisas na sua agenda e a divergência deixa de atrapalhar. Reavaliar tolerância e adesão é semanal ou quinzenal desde o começo, e é aí que a dose se ajusta — nisso os dois documentos concordam. Declarar falha terapêutica é outra coisa e exige três condições cumulativas antes de qualquer troca: dose dentro da faixa terapêutica, adesão confirmada por contagem de dias e tempo suficiente contado a partir da dose terapêutica, não do primeiro comprimido. Com tricíclico titulado até 150 mg, esse tempo mínimo é de 24 a 29 dias, conta refeita a partir dos números do próprio Caderno. Enquanto as três condições não estiverem cumpridas, o que se ajusta é a dose; a troca de fármaco fica para depois.

A bupropiona pode ser prescrita para depressão na unidade básica

Na prática, não. A Rename 2024 coloca a bupropiona 150 mg de liberação prolongada no Componente Estratégico e a lista no Anexo II ao lado da nicotina em adesivo, goma e pastilha, entre medicamentos de programas nacionais específicos. O próprio documento enumera as condições atendidas por esse componente — entre elas o controle do tabagismo, e nenhuma delas é depressão. Medicamento de componente estratégico é entregue pelo programa a que se vincula, e não pela farmácia básica por prescrição clínica isolada. Esta é leitura deste capítulo sobre o que decorre da estrutura do documento, e fica declarada como leitura.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024, lista do Componente Estratégico (Anexo II) e descrição das condições atendidas pelo componente.

Formalmente, a proibição não está escrita. A mesma Rename classifica a bupropiona sob o código ATC N06AX12, que é o grupo dos antidepressivos, e o documento não enuncia indicação clínica para nenhum medicamento do Componente Básico nem do Estratégico — ele diz o que o sistema financia e por qual componente, não para que doença cada fármaco pode ser prescrito. Não há, nas fontes federais abertas, nenhuma vedação expressa à prescrição de bupropiona para depressão, e a disponibilidade concreta varia entre municípios conforme a relação municipal de medicamentos.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024, lista principal com código ATC e componente de financiamento por fármaco.

Como decidir

Não decida isso no papel: decida ligando para a farmácia da sua unidade antes de escrever a receita, e escolha pela consequência para o paciente. Se a sua unidade não dispensa bupropiona fora do programa de tabagismo — o que é o cenário mais provável —, prescrevê-la para depressão manda a pessoa a uma fila que não existe e devolve alguém sem tratamento e com uma frustração a mais. Verifique a relação municipal de medicamentos da sua cidade, que é o documento que de fato governa o que sai da farmácia, e não a Rename. E lembre que o custo de errar aqui recai inteiro sobre quem tem menos condição de comprar por fora.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, oito e quarenta da manhã, consultório 2. Ediluza Mascarenhas, 46 anos, que trabalha na limpeza de um prédio comercial no centro, veio renovar a receita de losartana e, quase pedindo desculpa, disse que anda muito cansada. Trouxe uma sacola com duas caixas vazias e um hemograma do ano passado. A agenda tem dezessete nomes.

  1. Passo 1 — trocar a pergunta em vez de pedir exame

    Em vez de solicitar a bateria e chamar o próximo, o interno pergunta pelo que ela gostava de fazer. Ediluza responde que parou de ir à casa da irmã aos domingos, que a novela ela liga mas não acompanha, e que o crochê está numa sacola desde o meio do ano. Diz também, sem ser perguntada, que acorda às quatro e não volta a dormir. A pergunta seguinte é a que data: qual foi a última vez que a senhora se sentiu bem. Ela responde com um evento — o aniversário da neta, em março. São mais de quatro meses.

  2. Passo 2 — contar os itens e nomear o prejuízo

    Cobrindo os três blocos, o interno encontra desânimo quase todos os dias, perda de interesse e prazer, insônia terminal, perda de apetite com roupa mais folgada, cansaço permanente, dificuldade de concentração e a sensação de estar sendo um peso em casa. São muito mais do que o mínimo exigido, presentes no mesmo período, e as duas âncoras estão lá. O prejuízo é nomeado em atos concretos: faltou três dias na escola no último mês, deixou de ir à casa da irmã, deixou o crochê. Esses atos vão ser a régua da melhora.

  3. Passo 3 — a pergunta que não é opcional

    Em rampa, ainda dentro do bloco de sintomas, o interno pergunta se ela tem sentido que não vale a pena, se tem pensado que seria melhor não acordar e se tem tido pensamento de acabar com a própria vida. Ediluza responde que já pensou que seria melhor sumir, e que não pensou em fazer nada. O interno aprofunda ali mesmo, sem encerrar a consulta, e conduz a estratificação pelo capítulo de risco de suicídio na emergência. Registra a resposta no prontuário com as palavras dela.

  4. Passo 4 — o critério C, antes da caneta

    Ediluza bebe socialmente, e o interno quantifica: duas latas em festa, uma vez por mês. Nenhum medicamento novo — as caixas da sacola são as de sempre. Pergunta sobre humor elevado em duas partes: alguma época de uma semana ou mais para cima ou muito irritada, fora do normal dela, com sono reduzido sem cansaço, fala acelerada, coisas começadas ao mesmo tempo ou gasto que trouxe problema. Ediluza diz que não, e diz que ninguém na família teve isso. O interno pede hemograma e função tireoidiana, porque o cansaço é proeminente e porque o Caderno nº 34 nomeia anemia e hipotireoidismo entre os diferenciais.

  5. Passo 5 — a escolha do fármaco, pelo que existe

    A farmácia da unidade tem fluoxetina 20 mg e amitriptilina 25 mg. Ediluza tem 46 anos, trabalha limpando uma escola de dois andares e precisa de atenção e disposição durante o dia; tem também insônia, o que jogaria a favor de um tricíclico à noite. Pesa mais o outro lado: houve pensamento de morte, e o Caderno nº 34 orienta cuidado com a quantidade de tricíclico dispensada nessa situação, além de o esquema de uma tomada sem titulação favorecer a adesão de quem trabalha o dia inteiro. O interno prescreve fluoxetina 20 mg pela manhã e explica, com estas palavras, que os incômodos vêm antes do efeito bom.

  6. Passo 6 — o retorno tem data, e o que se avalia nele

    Retorno em dez dias, marcado na recepção antes de ela sair, e não a critério dela. Nessa consulta o interno não pergunta se melhorou: pergunta em quantos dos últimos sete dias ela tomou o comprimido, o que atrapalhou nos dias em que não tomou, como está a náusea e o sono, repete a pergunta sobre ideação suicida e procura ativamente sinais de virada de humor. Ediluza tomou seis dos sete dias, teve enjoo nos primeiros três, e o sono já melhorou um pouco. Nada disso é resposta terapêutica ainda, e o interno diz isso a ela.

  7. Passo 7 — semana 5: a primeira leitura honesta

    Os exames voltaram normais. Ediluza voltou à casa da irmã em dois domingos, não faltou à escola no último mês e retomou o crochê — que são exatamente os atos nomeados na primeira consulta. Os itens do critério caíram de sete para dois, e a ideação sumiu. O interno mantém a dose, não sobe, e faz o que menos se faz: combina agora, com a paciente bem, que o tratamento continua depois da melhora e que a retirada será gradual e programada quando for a hora — dizendo com honestidade que o prazo será decidido com o serviço, porque não há norma federal brasileira que o fixe.

  8. Passo 8 — o que decidiu o caso, em três linhas

    Vale separar o que fez diferença do que apenas acompanhou. O que decidiu foi a pergunta trocada no primeiro minuto: em vez de cansaço, interesse e prazer, e em vez de "há quanto tempo", um evento datável. O que sustentou a decisão foi a exclusão feita antes da caneta — álcool quantificado, caixas conferidas, humor elevado perguntado em duas partes, exames pedidos pela clínica e não por rotina. E o que protegeu o resultado foi a informação dada antes de ela precisar: que os incômodos vêm primeiro, que a avaliação de verdade é lá na frente e que melhorar não é alta. Nenhuma dessas três coisas custou consulta a mais, e nenhuma delas depende de um protocolo que não existe.

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Faça você

Aristeu Coutinho tem 52 anos, é vigilante noturno, e está de volta à unidade dezoito dias depois da consulta em que recebeu o diagnóstico de episódio depressivo maior. Saiu daquela consulta com amitriptilina 25 mg à noite e a orientação de aumentar conforme tolerasse. Ele tomou os dezoito dias, nunca aumentou porque ficou com medo de fazer errado, e continua com o mesmo desânimo, o mesmo desinteresse e a boca seca que apareceu na primeira semana. Chega dizendo que esse remédio não serviu para ele e pedindo outro. A farmácia da unidade tem fluoxetina e amitriptilina.

  1. Passo 1 — antes de qualquer decisão, três verificações

    Adesão: ele tomou os dezoito dias, e isso está confirmado por contagem, não por impressão. Dose: continua em 25 mg — abaixo do piso da faixa da tabela do Caderno nº 34 e muito abaixo do limiar de 100 mg/dia que o texto do mesmo documento fixa para o efeito antidepressivo da amitriptilina. Tempo: dezoito dias desde o primeiro comprimido, e nenhum dia em dose terapêutica.

  2. Passo 2 — a conta que decide

    Da dose inicial de 25 mg até 150 mg são cinco incrementos de 25 mg, a cada 2 a 3 dias, o que dá 10 a 15 dias apenas de titulação. A latência de cerca de duas semanas conta a partir da dose terapêutica. O total mínimo até a primeira leitura honesta é de 24 a 29 dias — e esse relógio, no caso do Aristeu, não chegou a começar.

  3. Passo 3 — o que a queixa dele realmente revela

    Ele não teve falha terapêutica: teve falha de instrução. A orientação de aumentar conforme tolerasse foi vaga demais para quem tem medo de errar, e o resultado foi dezoito dias de uma dose que nenhuma fonte chama de tratamento. A boca seca, que veio na primeira semana, é o efeito esperado chegando antes do efeito bom — exatamente o que a orientação inicial deveria ter previsto por escrito.

  4. Passo 4 — e a pergunta que se repete

    Antes de sair, a pergunta sobre ideação suicida é refeita, porque se repete em toda consulta e não depende de o paciente parecer melhor ou pior. E olha-se ativamente para sinais de virada de humor, que é o outro motivo pelo qual um retorno em dezoito dias existe.

Ver como fecharíamos

Não se troca o fármaco: titula-se. Trocar aqui seria queimar uma das poucas opções de um elenco de cinco nomes por uma falha que não é do remédio, e ainda ensinaria ao Aristeu que nada funciona com ele. A conduta é escrever o escalonamento em papel, com datas e número de comprimidos por noite, em vez de repetir "aumente conforme tolerar": 2 comprimidos de 25 mg à noite por três dias, depois 3, e assim por diante até a dose combinada, com retorno marcado. Explica-se que a boca seca costuma amenizar e que o efeito bom aparece cerca de duas semanas depois de a dose certa ser atingida — o que coloca a avaliação de verdade a mais de três semanas dali, e não agora. Se, chegado esse prazo, com dose dentro da faixa e adesão confirmada, não houver resposta, aí sim se troca — e aí a troca será uma decisão clínica, não uma resposta à frustração da consulta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na Rename 2024, amitriptilina, nortriptilina, clomipramina e fluoxetina integram o Componente Básico. Isso não significa que sejam os únicos antidepressivos oferecidos em qualquer serviço do SUS: estados e municípios podem adotar listas complementares. A presença na Rename também não garante estoque imediato na unidade. Confirmar a relação municipal e o fluxo de dispensação antes da prescrição. A escolha clínica depende de indicação, comorbidades, interações e perfil de efeitos adversos; disponibilidade não torna os quatro equivalentes para cada paciente.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Recuperação ativa em sete dias. Compare depressão menos grave e apresentação com psicose, risco suicida ou catatonia. Defina o primeiro retorno e os sinais de ativação que não devem ser normalizados. Responda antes de reler e depois confira onde faltou justificar uma decisão.

Em 30 dias

Aplicação em trinta dias. Avalie resposta por sintomas e função, considerando uso real e efeitos adversos. Planeje manutenção após remissão e retirada gradual, explicando o que fazer se houver recaída ou sintomas de retirada. Use dados observados, reconheça o que ainda não sabe e peça comparação com a avaliação do supervisor.

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Agora atenda

Agora atenda: unidade básica de saúde, meio da manhã, agenda cheia. Uma mulher de 46 anos entra para renovar a receita da pressão e, no fim da consulta, menciona que anda muito cansada. Ela nega tristeza. Faça o diagnóstico com rigor — datando por evento, contando os itens, nomeando o prejuízo, perguntando sobre morte e excluindo o que o critério manda excluir — e só então decida se prescreve, o quê, e com que retorno.

Transtorno depressivo maior – Depressão maior na unidade básica — Internato | OsceLabs