Clínica Médica › Reumatologia
Monoartrite aguda e artrite séptica
Reconhecer gravidade, colher líquido articular com segurança e iniciar tratamento sem atrasar o cuidado da sepse.
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Responda antes de ler
Mulher de 58 anos com artrite reumatoide, em uso de metotrexato e prednisona 10 mg/dia, apresenta punho direito inflamado há 3 dias, destoando do padrão habitual da doença. Está afebril. A punção, realizada antes de qualquer antimicrobiano, mostrou 41.000 células/mm³ com 88% de polimorfonucleares, pesquisa de cristais negativa e Gram sem microrganismos. Como interpretar essa celularidade e o que fazer?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 14h40, pronto-socorro de um hospital geral de médio porte. A sala de observação tem doze macas e catorze pacientes. O senhor Anísio Bertoldo, 64 anos, aposentado da construção civil, chegou de cadeira de rodas empurrado pela filha, com o joelho direito enfaixado num pano de prato e a perna esticada porque, segundo ele, dobrar não dá.
A história cabe em quatro frases. Anteontem à noite o joelho começou a doer. Ontem de manhã já estava inchado. Hoje ele não conseguiu apoiar o pé no chão para ir ao banheiro. Ele teve isso duas vezes antes, no dedão do pé, e das duas vezes o médico da unidade disse que era gota e passou um remédio que resolveu em três dias — e a filha traz na bolsa a caixa vazia daquele remédio, que ela comprou de novo na farmácia e que dessa vez não fez nada.
O exame leva noventa segundos e diz muita coisa. O joelho direito está com o contorno apagado, quente ao toque comparado com o esquerdo, com derrame palpável — a patela flutua quando se comprime. Ele não deixa fletir além de vinte graus, e não deixa mesmo que você mova a perna sem que ele faça força nenhuma: doer ao movimento passivo é diferente de doer ao movimento que o próprio paciente faz, e essa distinção vai voltar várias vezes neste capítulo. A pele está avermelhada sobre a articulação, sem porta de entrada visível, sem lesão bolhosa, sem placa delimitada de celulite. Nenhuma outra articulação está inflamada. A temperatura axilar é de 37,9 °C. Ele é diabético tipo 2 há quinze anos, em uso de metformina e insulina NPH, com glicemia capilar de 318 mg/dL agora.
Três respostas observadas no plantão ajudam a entender a decisão: atribuir tudo à gota e dar alta; iniciar antibiótico sem organizar a coleta nem a drenagem; ou avaliar gravidade, oferecer analgesia e obter líquido prontamente, iniciando o tratamento indicado e acionando a ortopedia. No Anísio, estável e com joelho acessível, a punção pode preceder o antibiótico. Se surgissem sepse ou deterioração, a prioridade seria tratar de imediato, com coleta e controle do foco em paralelo.
A história de gota não exclui uma articulação também infectada. Colher antes do antibiótico, quando isso não atrasa cuidado urgente, melhora a oportunidade de identificar o agente e estreitar o esquema. Entretanto, uma dose prévia não torna o diagnóstico impossível nem obriga semanas de tratamento amplo. A pergunta prática é como colher com rapidez e segurança neste paciente, sem transformar a sequência em motivo de atraso.
Duas macas adiante está a Sabrina Vilalva, 23 anos, universitária, com o punho esquerdo inchado há dois dias, dor no tendão do dorso da mão e, quando perguntada, três pequenas lesões pustulosas no antebraço e uma na perna que ela achou que fosse picada de inseto. Ela teve febre baixa na semana passada. O punho dela dói e incha, mas a articulação não está tensa como o joelho do senhor Anísio, e o que mais chama atenção é a dor ao longo dos tendões extensores, e não dentro da articulação. Puncionar o punho dela vai ser difícil e o líquido pode nem crescer nada — e ainda assim ela tem uma artrite séptica, de um agente que se trata de outro jeito e que exige uma conversa que ninguém quer ter no meio de um plantão.
E, no consultório do ambulatório de ortopedia no andar de cima, o Ivanildo Prates, 38 anos, motoboy, está sendo avaliado pela terceira vez em duas semanas por dor e edema do joelho esquerdo que começaram depois de um episódio de diarreia. Ele já tomou dois anti-inflamatórios diferentes, já fez uma radiografia normal e já ouviu que é lesão de menisco. Ninguém puncionou.
Os três têm a mesma frase na ficha de triagem: articulação inchada. Um vai perder a cartilagem do joelho se ninguém puncionar hoje. Um precisa de um antibiótico que não é o do primeiro e de notificação e tratamento de parceria. Um não precisa de antibiótico nenhum e precisa de um diagnóstico que ninguém fez ainda. A tarefa deste capítulo é separar os três com a agulha, o exame e cinco perguntas — e não com a impressão de quem viu muitos joelhos inchados.
Quem adoece disso
A incidência populacional relatada varia entre estudos, enquanto a frequência em pacientes selecionados por monoartrite aguda em pronto-socorro é maior. A estimativa de 27% citada na literatura descreve uma população estudada, com intervalo de confiança e viés de seleção; não significa que todo paciente com articulação dolorosa tenha risco de um em quatro. Para o interno, o aprendizado é ajustar a suspeita por apresentação, comorbidades e contexto e não transplantar a prevalência de um estudo para a pessoa à frente.
O tamanho brasileiro do problema aparece pelo lado cirúrgico. Entre janeiro de 2017 e janeiro de 2022, os sistemas de informação do SUS registraram 24.541 tratamentos cirúrgicos de artrite infecciosa no país — cerca de 4.900 por ano, ou treze por dia, o equivalente a 2,4 procedimentos por 100.000 habitantes ao ano só considerando os que chegaram à mesa. A esmagadora maioria foi em articulações grandes e médias: a região Sudeste respondeu por 9.224 desses procedimentos (37,6% do total) e o Nordeste por 4.950 (20,2%), enquanto os procedimentos em pequenas articulações no Sudeste somaram 984 (4,0%). Morreram 405 pacientes no pós-operatório, 1,65% do total.
Procedimentos registrados no SUS medem utilização cirúrgica, não a incidência de todos os casos de artrite séptica. Não permitem concluir quantos evitaram cirurgia graças à punção nem quantos deixaram de ser diagnosticados. Clinicamente, reforçam que controle do foco e capacidade de referência fazem parte do atendimento; admissão e tratamento urgente não dependem obrigatoriamente de punção já realizada.
A letalidade e a sequela dão o resto da medida. A diretriz britânica que organiza o atendimento da articulação quente e inchada em adultos registra letalidade de até 11% e dano articular permanente em até um terço dos pacientes. E há um relógio explícito: falhar em iniciar antibioticoterapia apropriada nas primeiras 24 a 48 horas do início do quadro pode produzir perda de osso subcondral e disfunção articular permanente. É por isso que a expressão emergência, aqui, tem significado literal e não retórico — a janela é do tamanho de um plantão e meio.
Quem adoece é previsível, e a lista de fatores de risco é curta o bastante para decorar. A revisão sistemática que reúne 14 estudos e 6.242 pacientes com articulação dolorosa, dos quais 653 tinham artrite séptica confirmada, identifica como fatores que aumentam significativamente a probabilidade: idade avançada, diabetes melito, artrite reumatoide, cirurgia articular prévia, prótese de quadril ou de joelho, infecção de pele e infecção pelo HIV-1. A essa lista, o material brasileiro e a literatura de emergência acrescentam o uso de droga injetável, a imunossupressão medicamentosa e a infiltração intra-articular recente — o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reativa cita explicitamente a artrite séptica entre as complicações a monitorar depois de uma infiltração com glicocorticoide.
Repare no que essa lista faz com a intuição. Artrite reumatoide, prótese e infiltração prévia são exatamente as situações em que a articulação inflamada tem uma explicação pronta — a doença de base, a prótese que sempre incomoda, a infiltração que ainda não fez efeito. São, ao mesmo tempo, as situações de maior risco de infecção. O fator de risco e o falso diagnóstico alternativo moram no mesmo paciente, e é isso que faz a artrite séptica ser perdida em quem tinha a maior chance de tê-la.
Na criança o retrato é outro e mais agudo. O documento científico do Departamento Científico de Reumatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria registra que a artrite séptica é mais frequente em lactentes — 50% dos casos ocorrem antes dos dois anos de idade —, com predomínio no sexo masculino na razão de dois para um, e que as articulações dos membros inferiores (quadris, joelhos e tornozelos) são acometidas em 75% dos casos, contra 25% nas extremidades superiores. Lactente com artrite séptica pode não ter febre; o que ele tem é comprometimento do estado geral e recusa de mover o membro. A consequência clínica é direta: em criança pequena, o achado que abre a suspeita não é a articulação vermelha, é a perna que parou de mexer.
Por fim, o agente que muda o esquema inteiro. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis registra que a infecção gonocócica disseminada é rara, acometendo entre 0,5% e 3% dos casos de infecção gonocócica, resultando de disseminação hematogênica a partir das mucosas infectadas, e causando febre, lesões cutâneas, artralgia, artrite e tenossinovite sépticas. Acomete mais mulheres, associada à infecção assintomática persistente, com maior risco no período menstrual, na gravidez e no pós-parto imediato. Em números absolutos ela é pouca coisa; na população de adulto jovem sexualmente ativo com artrite aguda ela é a primeira hipótese, e o adulto jovem é justamente quem mais chega ao pronto-socorro por conta própria.
Por que acontece o que acontece
A articulação sinovial é uma cavidade fechada, forrada por uma membrana sem membrana basal e revestida por uma cartilagem sem vasos. Essas duas frases explicam quase tudo o que vem a seguir: por que a bactéria entra com facilidade, por que ela não é removida, por que o dano é rápido e por que retirar o líquido faz parte do tratamento, e não apenas do diagnóstico.
A membrana sinovial é ricamente vascularizada e seus capilares são fenestrados, sem a barreira que separa o sangue do tecido em quase todo o resto do corpo. Uma bacteremia transitória — a que sai de uma úlcera de perna, de uma infecção urinária, de um cateter venoso, de uma extração dentária, de uma injeção com material contaminado — encontra na sinóvia um leito onde a passagem para o espaço articular é curta. Daí a via hematogênica ser a dominante, e a lista de fatores de risco ser, na prática, a lista de quem faz bacteremia: infecção de pele, cateter, droga injetável, diabetes com pé infectado, imunossupressão. As outras duas vias são mecânicas e ficam evidentes no exame: inoculação direta, por ferimento penetrante, mordedura, punção ou infiltração articular; e contiguidade, a partir de osteomielite ou de celulite profunda.
A cartilagem é avascular e depende do líquido sinovial para trocas metabólicas, enquanto a membrana sinovial é vascularizada. Na infecção, a combinação de carga bacteriana, aumento de pressão e resposta inflamatória lesa a articulação; não se trata de um compartimento sem qualquer troca ou depuração. Essa fisiologia ajuda a entender por que antimicrobiano e controle do foco precisam caminhar juntos.
A destruição resulta de fatores bacterianos e da resposta inflamatória do hospedeiro, incluindo enzimas e mediadores liberados no líquido articular. O dano pode progredir rapidamente mesmo antes de alterações radiográficas. Por isso, dor intensa à mobilização passiva com derrame e suspeita infecciosa pede ação, e não espera pela radiografia se alterar.
O líquido acumulado é o que produz o exame físico. A cápsula articular é inervada e distensível até um limite; ultrapassado esse limite, a pressão intra-articular sobe, e o paciente adota espontaneamente a posição em que a cavidade comporta o maior volume com a menor pressão. No joelho, essa posição é a de leve flexão, em torno de 20 a 30 graus; no quadril, é flexão com abdução e rotação externa; no cotovelo, flexão em torno de 70 a 80 graus. Reconhecer a postura é reconhecer o derrame antes de tocar. E a distensão capsular é também a razão pela qual a dor da artrite é dor ao movimento passivo: mover a articulação sem que o paciente contraia nada estira a cápsula, e a cápsula é a estrutura doente. Essa é a régua de exame mais útil do capítulo inteiro, porque a dor da bursite, da celulite, da tendinite e da fratura por estresse não se comporta assim.
O quadril é a exceção anatômica que produz a maior parte dos diagnósticos perdidos. É uma articulação profunda, envolvida por massa muscular espessa, sem qualquer possibilidade de inspeção ou de palpação do derrame; a cápsula é forte, e o volume capaz de gerar pressão suficiente para destruir a cabeça femoral não deforma o contorno externo da coxa. Além disso, a inervação da cápsula anterior vem em parte do nervo obturatório, que também inerva a face medial da coxa e o joelho — e por isso a artrite séptica de quadril, sobretudo na criança, se apresenta com frequência como dor no joelho. Criança que se recusa a apoiar o pé e chora com a rotação do quadril, com o joelho normal ao exame, tem quadril até prova em contrário. Como a punção do quadril não se faz às cegas, essa é também a articulação em que a tarefa do interno é acionar quem punciona, e não puncionar.
A convivência entre cristais e infecção tem mecanismo próprio, e entendê-lo desarma a conclusão precipitada. O cristal de urato monossódico é reconhecido pelo inflamassoma NLRP3 do macrófago sinovial, que ativa a interleucina-1 beta e desencadeia um influxo neutrofílico maciço. O resultado, dentro do líquido, é indistinguível do da infecção: turvo, espesso, com dezenas de milhares de células e predomínio de polimorfonucleares. Ou seja, o cristal não protege a articulação — ele produz uma inflamação parecida com a da infecção, e que serve de disfarce para ela. E há mais: a inflamação crônica por cristais lesa a sinóvia, e o paciente com gota de longa data é tipicamente o mesmo idoso diabético, com doença renal e pele ruim, que faz bacteremia. A coexistência não é coincidência estatística; é a mesma população.
O gonococo produz duas doenças diferentes com o mesmo nome, e a diferença entre elas é de carga bacteriana. Na forma bacterêmica, o número de germes dentro da articulação é pequeno e boa parte do quadro é imunomediada: o paciente tem poliartralgia migratória, tenossinovite — inflamação da bainha dos tendões, e não da cavidade articular — e lesões cutâneas pustulosas ou hemorrágicas em pequeno número. Nessa forma a cultura do líquido sinovial frequentemente não cresce, porque há pouco o que crescer, e o diagnóstico se faz pelo conjunto clínico somado à coleta de material das mucosas. Na forma localizada, o gonococo se instala e produz artrite séptica franca, com derrame, em uma ou duas articulações — joelhos, tornozelos, punhos e cotovelos são as descritas. Reconhecer as duas formas impede dois erros: descartar gonococo porque a cultura veio negativa, e tratar uma tenossinovite gonocócica com esquema de estafilococo.
A infecção de prótese envolve superfície de implante e possível biofilme. Os limiares de células e neutrófilos do líquido diferem dos usados em articulação nativa e variam com o tempo desde a cirurgia, o caráter agudo ou crônico e os critérios adotados. Não aplicar 50.000/mm³, nem um único corte baixo, para decidir sozinho; a equipe de prótese integra clínica, microbiologia e critérios específicos.
PCR, VHS e leucograma podem ajudar a caracterizar inflamação e acompanhar a resposta. Seus resultados normais não excluem artrite séptica e valores altos não identificam o agente. A decisão inicial depende da apresentação clínica e da análise do líquido, com investigação de disfunção orgânica quando houver suspeita de sepse.
Falta o mecanismo que separa a artrite do que apenas parece artrite, e ele é topográfico. A bursa é um saco fechado que fica fora da cavidade articular, entre a pele e a proeminência óssea; o subcutâneo, onde mora a celulite, está uma camada acima. Em nenhum dos dois a cápsula articular se distende — e é a distensão da cápsula que produz a dor ao movimento passivo. A artrite reativa é a exceção do trio, porque nela o líquido está dentro da articulação e é rico em neutrófilos: sinovite verdadeira, estéril, com a mesma mecânica da séptica. Por isso ela é a única das três que a régua do exame não separa, e a única que exige punção.

Como se apresenta de verdade
Monoartrite aguda é uma síndrome, não um diagnóstico: uma articulação, inflamada, em dias. O trabalho da avaliação tem três perguntas encaixadas, nesta ordem, e pular qualquer uma produz um erro característico. A primeira é anatômica: o que está inflamado é a articulação ou é alguma coisa em volta dela? A segunda é a que decide a velocidade: essa articulação pode estar infectada? A terceira, e só ela é etiológica: se está infectada, por quê e por qual agente?
Quem pula a primeira trata bursite com esquema de artrite séptica e interna paciente que ia para casa. Quem pula a segunda escreve gota e manda embora. Quem começa pela terceira fica discutindo agente antes de ter líquido, que é a conversa mais inútil de todo o pronto-socorro.
Percurso de aprendizagem
Localize a dor: articulação, bursa, tendão ou osso. Depois determine se há infecção possível e se o paciente está estável. A primeira decisão é a velocidade do cuidado; febre ausente, PCR baixa ou poucas células no líquido não encerram a hipótese.
Aprenda o que a punção responde, como enviar células, Gram, cultura e cristais e como integrar resultados discordantes. A escolha do antimicrobiano e do controle do foco é feita com a equipe, considerando articulação nativa, prótese, criança e risco de bacteremia.
Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.
O retrato da artrite séptica, e por que ele é fraco
A apresentação clássica é uma articulação só, de instalação em horas a poucos dias, muito dolorosa, com derrame, calor e limitação importante — e o joelho é a articulação mais frequentemente acometida no adulto. A sensibilidade dos sintomas isolados, na revisão sistemática que reúne 6.242 pacientes com articulação dolorosa, é reveladora e desconfortável: dor articular tem sensibilidade de 85%, história de edema articular 78%, e febre apenas 57%. Sudorese aparece em 27% e calafrios em 19%.
Traduza isso. Se a febre está presente em pouco mais da metade, ela não serve de porta: quase metade dos pacientes com artrite séptica chegaria abaixo do radar de quem exige febre para desconfiar. E se dor e edema — os dois achados mais sensíveis — aparecem em 85% e 78%, também eles deixam passar um em cada seis e um em cada cinco. Não existe combinação de sinais clínicos que exclua o diagnóstico. Existe uma decisão de puncionar, tomada com base numa suspeita que é deliberadamente generosa.
Do lado oposto, nenhum achado clínico confirma. Articulação quente, vermelha, com derrame e dor intensa descreve com igual perfeição a gota, a pseudogota, a artrite reativa, a primeira manifestação de uma espondiloartrite e a hemartrose do paciente anticoagulado. O olho não separa esses quadros, e a experiência acumulada de ter visto muitas articulações inchadas não separa também — porque a base da experiência é justamente a maioria, que não é infecção.
A régua anatômica: dentro ou em volta da articulação
Antes de qualquer hipótese, decida onde mora o processo. Isso se faz com três gestos e vale mais que qualquer exame de imagem na primeira hora.
Primeiro, a dor ao movimento passivo. Peça ao paciente que relaxe completamente e mova a articulação você mesmo, devagar, num arco pequeno. Na artrite, qualquer grau de movimento passivo dói, porque estira a cápsula distendida, e o paciente resiste ativamente à sua mão. Na bursite, na tendinite e na celulite, o movimento passivo é tolerado; o que dói é a contração contra resistência, a palpação do ponto e o apoio direto sobre a bursa. Um paciente que deixa você fletir e estender o joelho num arco de trinta graus sem reclamar não tem uma artrite séptica de joelho instalada.
Segundo, a distribuição do edema. O derrame articular obedece ao contorno da cápsula: no joelho, apaga os sulcos peripatelares e produz o sinal da tecla — comprimir a bolsa suprapatelar e empurrar a patela contra o fêmur, sentindo-a bater e voltar. A bursite pré-patelar produz um abaulamento arredondado e delimitado sobre a patela, com a patela livre por baixo, e o paciente flete o joelho. A bursite olecraniana produz um ovo na ponta do cotovelo, e o cotovelo flete e estende. A celulite produz uma placa de eritema com bordas que se acompanham com o dedo e que extravasam os limites da articulação.
Terceiro, a posição de repouso. Joelho em leve flexão, quadril em flexão, abdução e rotação externa, cotovelo em semiflexão: são as posições de maior volume capsular, e o paciente com derrame sob pressão as adota sozinho, sem que ninguém peça. Uma articulação que o paciente mantém espontaneamente na posição neutra e que ele mesmo movimenta tem baixa probabilidade de estar tensa por dentro.
Existe uma armadilha nessa régua, e ela é frequente: a celulite pode estar por cima de uma artrite séptica, e a bursite séptica pode romper para dentro. Quando o eritema cutâneo é intenso, a régua do movimento passivo fica difícil de aplicar, porque tudo dói. A saída é anatômica, e não intuitiva: puncione longe da pele infectada, por um ponto de entrada em pele íntegra. Se não houver ponto de entrada em pele íntegra, essa punção não é do interno — é do ortopedista, com imagem.

Gota e pseudogota, que são o diferencial mais comum e a armadilha mais cara
A artrite por deposição de cristais é a causa mais frequente de monoartrite aguda no adulto, e a história costuma ser boa: episódios prévios idênticos, início muito rápido, dor máxima em menos de 24 horas, resolução completa entre as crises, envolvimento da primeira metatarsofalangeana. Os critérios de classificação do American College of Rheumatology e da European League Against Rheumatism de 2015, reproduzidos no protocolo de regulação ambulatorial de reumatologia adulto do TelessaúdeRS, organizam justamente isso: pontuam o padrão articular (tornozelo ou mediopé, 1 ponto; primeira metatarsofalangeana, 2 pontos), as características do episódio (eritema, não suportar o toque, grande dificuldade para andar — 1, 2 ou 3 pontos), o curso temporal, o tofo, o ácido úrico sérico e a imagem.
Repare no que esses mesmos critérios dizem sobre o líquido, porque é a chave do capítulo. A presença de cristais de urato monossódico em articulação ou bursa sintomática é critério suficiente: alcançado ele, classifica-se gota sem aplicar o resto. Suficiente para classificar gota — e não suficiente para excluir infecção, que é uma pergunta diferente e que nenhum critério de classificação foi feito para responder. Um sistema construído para dizer quem tem gota está sendo usado, na cabeceira, para dizer quem não tem sepse articular. São perguntas distintas, e a confusão entre as duas é o mecanismo lógico do erro que este capítulo tenta impedir.
Os números que sustentam a advertência estão no bloco de investigação e valem a leitura devagar. Aqui basta a frase: a presença de cristais no líquido sinovial não exclui infecção, e a revisão de acurácia diagnóstica em adultos estima a coexistência em cerca de 1,5% dos casos. Um em setenta parece pouco até você lembrar que a decisão que ele governa é entre alta com anti-inflamatório e drenagem de urgência, e que a população em que isso acontece é a do idoso diabético com doença renal — em quem a articulação perdida costuma vir acompanhada de bacteremia.
A pseudogota, ou artrite por cristais de pirofosfato de cálcio, faz o mesmo quadro em articulação maior — joelho e punho são os típicos —, no paciente mais velho, muitas vezes com condrocalcinose na radiografia. Ela vale ser lembrada por um motivo prático: como acomete o joelho do idoso, é o diagnóstico que mais frequentemente compete com artrite séptica de joelho na faixa etária em que a artrite séptica é mais grave. O manejo crônico da gota, a profilaxia das crises e o alvo de urato pertencem ao capítulo de gota e artrites por cristais desta apostila; o que entra aqui é a crise como diferencial e como disfarce, e o tratamento sintomático até onde o interno prescreve no plantão.
Artrite reativa e a monoartrite que abre uma doença sistêmica
A artrite reativa é sinovite estéril imunomediada que se desenvolve em até quatro semanas após infecção gastrointestinal ou geniturinária, segundo a definição adotada pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reativa. Os agentes desencadeantes são Chlamydia trachomatis, Yersinia, Salmonella, Shigella, Campylobacter jejuni, Escherichia coli e Clostridioides difficile. Ela se manifesta classicamente como mono ou oligoartrite assimétrica e estéril, de predomínio em membros inferiores, e na maioria das vezes é transitória.
O ponto que interessa ao plantão está escrito no próprio Protocolo, e vale reproduzir a lógica: em pacientes com mono ou oligoartrite nas fases iniciais e sem história clara de infecção precedente, a análise do líquido sinovial é recomendada para o diagnóstico diferencial com artrite séptica, artrite por cristais e artrite traumática. E o texto vai além, ao registrar que, entre as espondiloartrites, a artrite reativa é a que mais pode se assemelhar aos quadros sépticos, porque o paciente pode ter febre nas fases de atividade e o líquido pode ter aspecto séptico e celularidade aumentada. Ou seja: o documento nacional que trata da artrite reativa manda puncionar para descartar infecção. Não existe atalho clínico para essa distinção.
Na mesma família entram as monoartrites que são a primeira manifestação de uma doença sistêmica que ainda não se declarou. A artrite reumatoide pode abrir por uma articulação só; a espondiloartrite periférica também, muitas vezes com entesite ou dactilia associadas; o lúpus eritematoso sistêmico pode se apresentar com artrite, e a artrite lúpica é assunto do capítulo próprio desta apostila; a sarcoidose, a doença de Behçet e a febre reumática têm apresentações articulares agudas. A osteoartrite descompensada por derrame também entra na lista, e é assunto do capítulo de osteoartrite desta apostila. Em todas, a punção é o que separa — e em todas, o líquido é inflamatório sem ser infectado.
Um adendo que salva vida: em criança e adolescente, dor articular noturna, intensa e desproporcional ao edema, com adenomegalia, hepatoesplenomegalia, anemia ou febre, pode ser a manifestação inicial de leucemia. O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria é explícito ao pedir que o mielograma seja realizado na dúvida diagnóstica com leucemias, e em especial antes de indicar corticosteroide. Corticoide dado a uma leucemia não diagnosticada apaga a apresentação e atrasa o diagnóstico.
A artrite gonocócica, que é outra doença com o mesmo nome
Em adulto jovem sexualmente ativo com artrite aguda, o gonococo entra na lista antes de qualquer outra coisa. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis descreve a infecção gonocócica disseminada como quadro raro — de 0,5% a 3% dos casos de infecção gonocócica — que resulta de disseminação hematogênica a partir das mucosas infectadas e cursa com febre, lesões cutâneas, artralgia, artrite e tenossinovite sépticas. Ela acomete mais mulheres, associada à infecção assintomática persistente, e o risco é maior durante o período menstrual, na gravidez e no pós-parto imediato.
Duas apresentações. A síndrome artrite-dermatite: poliartralgia migratória, tenossinovite de punhos, mãos, tornozelos e pés, e poucas lesões cutâneas — pústulas, vesicopústulas ou lesões hemorrágicas, muitas vezes em número menor que dez e que o paciente não relaciona ao quadro. E a artrite séptica localizada, com derrame franco em uma ou duas articulações; a fonte pediátrica brasileira registra o joelho como a articulação mais acometida, e a lista clássica inclui joelhos, tornozelos, punhos e cotovelos.
Três consequências práticas mudam a conduta. A primeira: procure ativamente a pele. Perguntar por lesões e olhar tronco, extremidades e palmas leva trinta segundos e é o que faz o diagnóstico em quem tem cultura negativa. A segunda: a tenossinovite é achado de bainha tendínea, e se reconhece por dor e edema ao longo do trajeto do tendão, com dor à extensão passiva dos dedos, e não por derrame dentro da articulação. A terceira: colha material das mucosas — uretra, colo do útero, reto e faringe conforme a prática sexual —, porque o rendimento delas é maior que o do líquido articular nessa forma. O tratamento da infecção sexualmente transmissível, o manejo das parcerias, o rastreamento das demais infecções e a notificação são assunto do capítulo de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis desta apostila; o que entra aqui é o esquema antimicrobiano da forma disseminada, que está escrito no bloco de conduta.
Na criança e no adolescente, a artrite gonocócica pede uma pergunta a mais e uma conduta a mais. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria registra que ela ocorre predominantemente no adolescente sexualmente ativo, mas também em crianças e adolescentes submetidos a violência sexual. Gonococo em criança pré-púbere é achado que obriga a avaliação de violência sexual, com a rede de proteção acionada — e essa condução é o assunto do capítulo de maus-tratos e violência na infância desta apostila.
Quando o quadro fica mudo: idoso, diabético, imunossuprimido e a artrite reumatoide
A apresentação silenciosa é regra em quatro grupos, e todos os quatro são, ao mesmo tempo, grupos de alto risco. No idoso, a febre é menos frequente e a resposta inflamatória sistêmica é atenuada; o que aparece pode ser confusão mental, queda, recusa de deambular ou piora funcional sem explicação, com a articulação sendo descoberta só quando alguém despe o paciente inteiro.
No diabético, além da resposta atenuada, existe uma competição diagnóstica: o mesmo paciente costuma ter neuropatia, pé com úlcera, artropatia de Charcot e celulite recorrente, e cada uma dessas explicações se oferece antes da artrite. A hiperglicemia importante, aliás, é frequentemente o primeiro sinal de que existe infecção em algum lugar — glicemia que descompensou sem mudança de dieta ou de medicação num diabético com uma articulação doendo é dado a favor, e não ruído.
No imunossuprimido — corticoide crônico, quimioterapia, biológico, transplante, infecção pelo HIV — a inflamação local pode ser pobre: menos calor, menos rubor, menos febre, e às vezes celularidade menor no líquido. Nesse grupo, a decisão de puncionar não pode depender da intensidade dos sinais, e o espectro de agentes se amplia: além do estafilococo e das enterobactérias, entram micobactérias e fungos em quadros mais arrastados, o que muda o pedido — cultura para micobactérias e para fungos precisa ser solicitada explicitamente, porque não sai na cultura de rotina.
A artrite reumatoide merece parágrafo próprio porque combina os três problemas. É fator de risco reconhecido para artrite séptica; a doença de base já produz articulações inflamadas, o que dá explicação pronta para a nova; e o tratamento, com corticoide e imunobiológicos, apaga os sinais. A régua nesse paciente é diferente e precisa ser dita: uma articulação claramente mais inflamada que as outras, ou uma monoartrite que destoa do padrão habitual da doença, é indicação de punção — não de ajuste de dose do imunossupressor.
Fecha o grupo o usuário de droga injetável, em quem a apresentação muda de endereço. Além das articulações periféricas habituais, ele faz artrite séptica de articulações axiais que quase ninguém examina: esternoclavicular, sacroilíaca e sínfise púbica. Dor localizada e desproporcional sobre a clavícula medial, dor glútea unilateral que piora com a compressão da pelve, dor em púbis com marcha antálgica, nesse paciente, pedem imagem e não devem ser tratadas como distensão muscular. Nesse grupo entram também endocardite e osteomielite associadas, e a hemocultura deixa de ser complementar e passa a ser central.
A criança, e a perna que parou de mexer
Na criança a apresentação depende da idade e a suspeita se levanta por comportamento, não por sinal flogístico. O documento da Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que infecção óssea ou articular deve ser suspeitada, em qualquer idade, quando houver febre, claudicação, edema articular com dor ou limitação dos movimentos de início súbito — e acrescenta que lactentes podem não ter febre, apresentando maior comprometimento do estado geral, de modo que um exame musculoesquelético cuidadoso é o que evita o atraso.
Traduzindo para o que se vê no plantão: recém-nascido ou lactente que chora ao ser trocado, que não mexe um dos membros — a chamada pseudoparalisia —, que tem irritabilidade e recusa alimentar; criança pequena que parou de andar, que anda mancando ou que se recusa a apoiar o pé; criança maior que aponta o joelho quando o problema é o quadril. Em todas, dispa a criança inteira e mova todas as articulações, uma a uma, comparando com o lado oposto. A articulação séptica é a que resiste à mobilização passiva.
A distribuição etária dos agentes muda o esquema empírico e está descrita no mesmo documento: abaixo dos 12 meses, Staphylococcus aureus, estreptococo do grupo B e bacilos Gram-negativos; entre um e cinco anos, S. aureus, estreptococo do grupo A, Haemophilus influenzae e enterobactérias; dos cinco aos doze anos, S. aureus e estreptococo do grupo A; dos doze aos dezoito, S. aureus e Neisseria gonorrhoeae. Kingella kingae é registrada como agente frequente em certas regiões da Europa e do Oriente Médio, identificada por reação em cadeia da polimerase, causando infecções mais brandas em crianças pequenas.
Duas particularidades anatômicas da criança fecham o quadro. A primeira: neonatos e lactentes têm maior risco de osteomielite associada, por disseminação a partir da metáfise através de vascularização transepifisária — o que quer dizer que, nessa faixa, artrite séptica e osteomielite frequentemente coexistem e a investigação de uma inclui a outra. A segunda: no quadril e no ombro, a metáfise é intracapsular, e uma osteomielite metafisária pode romper diretamente para dentro da articulação. Por isso a criança com suspeita de quadril séptico precisa de ultrassom precoce, que identifica derrame e guia a punção, e por isso a ressonância entra quando a suspeita de osteomielite se mantém.
A sinovite transitória, também chamada tóxica, é o principal diferencial: acomete predominantemente os quadris de pré-escolares, tipicamente após infecção viral respiratória inespecífica, com a criança em melhor estado geral, febre baixa ou ausente e marcha possível ainda que claudicante. É essa distinção que o escore de Kocher tenta operacionalizar, e o bloco de fluxos e tabelas mostra o quanto ele varia entre estudos.
A articulação operada, a infiltrada e a protética
Três histórias mudam completamente o caminho do paciente e precisam ser perguntadas sempre, porque o paciente raramente as oferece: cirurgia articular recente, infiltração intra-articular recente e prótese.
A artrite séptica pós-artroscopia ou pós-artroplastia é incomum, mas a suspeita é obrigatória diante de dor que aumenta depois de ter diminuído, drenagem pela ferida, febre nova ou perda de função no pós-operatório. O caminho é o do cirurgião que operou, e a punção é dele.
A infiltração com glicocorticoide tem uma janela de confusão característica: nas primeiras 48 horas pode haver uma reação inflamatória estéril ao próprio cristal do corticoide de depósito, com dor e derrame; e existe artrite séptica iatrogênica, que o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reativa lista entre as complicações a monitorar depois de infiltração intra-articular ou em bainha tendínea. Piora depois do terceiro dia, febre ou dor que ultrapassa o esperado obriga a punção.
Na articulação com prótese, suspeitar de infecção com limiar clínico baixo e acionar ortopedia. A punção é planejada por equipe habilitada, com técnica asséptica e orientação por imagem quando indicada; não precisa ocorrer obrigatoriamente em centro cirúrgico. Limiares de células e neutrófilos variam entre infecção aguda, crônica e período após a operação: 1.100 células/mm³ e 64% de neutrófilos não são critérios universais. Integrar história, exames, culturas e avaliação especializada.
Quando não é uma articulação só
Poliartrite aguda febril não afasta infecção. A artrite séptica é poliarticular em uma minoria dos casos, e essa minoria tem duas caras: o gonococo, com o padrão migratório e a tenossinovite, e a artrite séptica poliarticular por disseminação hematogênica, que ocorre justamente no paciente com artrite reumatoide, no imunossuprimido e no séptico — e que carrega letalidade muito maior que a monoarticular.
A regra operacional é simples e evita os dois erros: diante de mais de uma articulação inflamada com febre, puncione a mais acessível e a mais inflamada, e trate a possibilidade de bacteremia como real até prova em contrário, com hemoculturas e busca ativa de foco — endocardite, pele, cateter, urina. Poliarticular não é sinônimo de reumatológico; é sinônimo de mais grave, quando é séptica.
E, no outro extremo, quando a articulação inflamada aparece num paciente com disfunção orgânica, hipotensão, taquipneia ou rebaixamento, o problema deixou de ser articular e virou sepse com foco articular. O reconhecimento e o pacote inicial estão no capítulo de sepse na enfermaria desta apostila; aqui a tarefa é reconhecer que a articulação é o foco, colher a cultura dela junto com as hemoculturas e garantir que a drenagem entre no plano de controle de foco.
Como fechar o diagnóstico
A investigação começa por exame dirigido, avaliação de gravidade e decisão sobre coleta do líquido. No paciente estável com suspeita de infecção, organizar artrocentese rapidamente, de preferência antes do antimicrobiano; na sepse, tratar e colher em paralelo. Analgesia pode ser iniciada durante esse processo.
Enviar o líquido para cultura, contagem com diferencial e cristais, com Gram conforme disponibilidade. Se o volume for limitado, priorizar a identificação bacteriana e comunicar o laboratório. Exames de sangue e imagem respondem a perguntas complementares e não devem impedir a coleta ou atrasar o tratamento urgente.
Primeiro exame: a punção — e a regra do antibiótico
A coleta prévia ao antimicrobiano aumenta a oportunidade diagnóstica quando é prontamente possível. O rendimento da cultura varia por agente, técnica e exposição prévia a antibiótico; não se deve prometer positividade superior a 90% em todo contexto. Na sepse ou deterioração, iniciar tratamento sem aguardar punção, e ainda assim enviar material quando obtido. Cultura negativa exige interpretação, não abandono automático da hipótese.
A pergunta que sempre aparece é o quanto se pode esperar. A resposta prática: a punção deve ser feita imediatamente, e o antibiótico começa logo depois dela, não no dia seguinte. Falhar em iniciar antibioticoterapia apropriada nas primeiras 24 a 48 horas do início do quadro pode causar perda de osso subcondral e disfunção articular permanente. Portanto, o intervalo entre a suspeita e a punção se mede em minutos a poucas horas — o tempo de organizar material, consentimento e quem executa. Se a punção for demorar mais que isso porque exige imagem ou centro cirúrgico, o cálculo muda e está descrito no bloco de conduta.
Existe uma única situação em que o antibiótico precede a coleta articular sem discussão: o paciente com instabilidade hemodinâmica, sinais de sepse ou meningococcemia. Aí a prioridade é a vida, colhem-se as hemoculturas — que são rápidas de obter e mantêm alguma chance bacteriológica — e o antimicrobiano entra na primeira hora. O reconhecimento e o pacote inicial estão no capítulo de sepse na enfermaria desta apostila. Fora disso, sequência invertida é decisão que se paga em incerteza pelo resto do internamento.
Quem punciona é uma pergunta de serviço, e a diretriz britânica registra que a habilidade de aspirar uma articulação, no hospital, costuma estar com especialistas e residentes de emergência, ortopedia e reumatologia. A leitura correta disso, para o interno, não é abster-se: é saber a indicação com clareza suficiente para acionar quem executa dentro do turno, saber preparar a coleta e saber pedir os exames certos no líquido — três tarefas que são dele, e cuja falha atrasa tudo, mesmo quando existe alguém disponível para puncionar.
A técnica do que se punciona à beira do leito
Material: luvas estéreis, clorexidina alcoólica ou álcool a 70% conforme o serviço, gaze, campo, lidocaína a 1% ou 2% sem vasoconstritor para o botão anestésico, seringa de 20 mL para joelho e de 5 a 10 mL para articulações pequenas, agulha 40x12 ou 30x8 para o joelho e 25x7 ou 13x4,5 para as pequenas, e os frascos de destino separados antes de começar. Um assistente ajuda mais que qualquer instrumento.
Regras que valem para qualquer articulação: pele íntegra no ponto de entrada, sempre; nunca atravessar celulite, ferida ou lesão de pele; posicionar a articulação na posição de maior volume capsular, que é a mesma posição antálgica que o paciente já adotou; entrar aspirando e avançar devagar; e, se o líquido parar de vir, recuar poucos milímetros e reposicionar, em vez de aprofundar.
No joelho, a via mais fácil e a de maior rendimento é a superolateral: com o joelho estendido e a musculatura relaxada, identifica-se o canto superolateral da patela; o ponto de entrada fica cerca de um centímetro acima e um centímetro lateral a esse canto, e a agulha aponta para baixo e para dentro, em direção ao espaço entre a patela e o fêmur, atingindo a bolsa suprapatelar, que é a parte mais volumosa da cavidade. Comprimir o compartimento medial com a mão livre empurra líquido para o lado da agulha e aumenta o rendimento.
No tornozelo, a via anteromedial: com o pé em leve flexão plantar, palpa-se o tendão do tibial anterior; o ponto fica imediatamente medial a esse tendão, na altura da interlinha entre a tíbia e o tálus, com a agulha dirigida para posterior e discretamente lateral. No punho, a via dorsal: com o punho em leve flexão sobre uma toalha enrolada, palpa-se o tubérculo de Lister no dorso do rádio; o ponto fica distal a ele e imediatamente ulnar ao tendão extensor longo do polegar. No cotovelo, o triângulo formado pelo olécrano, pelo epicôndilo lateral e pela cabeça do rádio, com o cotovelo fletido a 90 graus e a mão em pronação; a cabeça do rádio se identifica girando o antebraço com o dedo sobre ela.
O líquido que sai já informa antes de qualquer laboratório. Amarelo-claro e transparente, com viscosidade que forma um fio ao pingar, fala de derrame não inflamatório. Turvo, opaco, amarelo-esverdeado e menos viscoso, fala de inflamação e não distingue causa. Francamente purulento, espesso e cremoso, aumenta muito a suspeita de infecção e não a confirma — gota pode produzir líquido de aspecto idêntico. Sanguinolento uniforme, sem coágulos, sugere hemartrose: trauma, anticoagulação, coagulopatia ou fratura intra-articular, e vale procurar gotículas de gordura, que apontam fratura com comunicação medular. Registre no prontuário o volume aspirado e o aspecto, com essas palavras.
Duas coisas se fazem imediatamente com o material e as duas são frequentemente esquecidas. A primeira: inocular parte do aspirado diretamente em frasco de hemocultura, à beira do leito — a orientação está no documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria e aumenta o rendimento, sobretudo quando o transporte demora. A segunda: enviar uma alíquota em tubo com anticoagulante para a contagem de células, porque líquido purulento coagula no tubo seco e o laboratório devolve amostra inadequada. Coletar bem e distribuir mal é a forma mais frequente de perder uma punção bem feita.
E há um gesto terapêutico embutido no diagnóstico: aspire até secar. A diretriz britânica orienta que a articulação séptica seja aspirada até secar tantas vezes quantas forem necessárias. A primeira dessas vezes é a punção diagnóstica, e é por isso que se usa seringa grande no joelho — o alívio da pressão intra-articular é imediato e mensurável na dor do paciente.

O que se pede no líquido, e por que exatamente isso
São quatro exames, e todos os quatro são pedidos sempre, mesmo quando um deles parece dispensável. Contagem total de células com diferencial; pesquisa de cristais em microscopia com luz polarizada; bacterioscopia pelo Gram; cultura com antibiograma. O volume necessário é pequeno — de 1 a 3 mL bastam para os quatro —, e a razão para pedir os quatro juntos é que cada um responde uma pergunta que os outros não respondem, e que a resposta de um não dispensa a do outro.
A contagem de células estima a probabilidade de infecção e chega em uma hora. A pesquisa de cristais identifica gota e pseudogota e chega junto. O Gram, quando positivo, orienta o antimicrobiano na mesma hora. A cultura confirma e dá o antibiograma, e chega em dois a cinco dias. Quando a história pede — imunossuprimido, quadro arrastado, história de tuberculose, viagem, exposição —, acrescente cultura para micobactérias e para fungos, que precisam ser pedidas por escrito porque não saem na cultura de rotina.
Glicose e proteína do líquido sinovial não entram: acrescentam pouco à decisão e ocupam material que pode faltar para o que decide. O lactato sinovial tem desempenho promissor na literatura de acurácia — com razão de verossimilhança positiva que se aproxima do infinito em alguns estudos — mas não é exame de rotina nos laboratórios brasileiros e não deve ser esperado para decidir.
O que a celularidade responde, com os números refeitos
A celularidade é o dado mais poderoso disponível na primeira hora, e é também o mais mal interpretado, porque costuma ser usado como se fosse um corte de sim ou não. Ele não é. É um deslocamento de probabilidade, e o tamanho do deslocamento depende de onde você começou.
A revisão sistemática de 14 estudos e 6.242 pacientes fornece as razões de verossimilhança: contagem abaixo de 25.000 células/µL tem razão de 0,32; a partir de 25.000, de 2,9; acima de 50.000, de 7,7; acima de 100.000, de 28,0. O percentual de polimorfonucleares a partir de 90% tem razão de 3,4, e abaixo de 90%, de 0,34.
O corte de 50.000 células/mm³ aumenta a suspeita em articulação nativa, mas não confirma infecção e pode ser alcançado na artrite por cristais. Os números da tabela ilustram a atualização de uma probabilidade inicial escolhida; a frequência de 27% de uma população selecionada de pronto-socorro não é o risco individual obrigatório de todos os pacientes.
Celularidade intermediária discrimina pouco; valores abaixo de 25.000/mm³ reduzem a suspeita sem excluir infecção. No imunossuprimido, esses cortes são ainda menos confiáveis. Neutrofilia e celularidade são relacionadas: não multiplicar suas razões de verossimilhança como se fossem evidências independentes.
Prótese exige critérios próprios: contagens bem inferiores às de articulação nativa podem ser relevantes, mas não existe um único corte aplicável a qualquer implante, tempo pós-operatório ou apresentação. Solicitar análise e interpretação com a equipe de prótese.
Cristal no líquido não exclui infecção — e é aqui que a conta importa
Esta é a frase que o capítulo existe para gravar, e ela tem sustentação numérica em quatro fontes independentes.
A revisão de acurácia diagnóstica em adultos registra que a artrite séptica pode coexistir com gota ou pseudogota em cerca de 1,5% dos casos, e conclui que a cultura do líquido sinovial está indicada apesar do achado de cristais. A revisão clínica publicada na literatura de medicina de família diz a mesma coisa com outras palavras: artrite séptica pode coexistir com artropatia por cristais e, portanto, a presença de cristais não afasta o diagnóstico.
A série que examinou especificamente essa pergunta reuniu 265 aspirados articulares com cristais ao longo de sete anos — 183 com urato monossódico, 81 com pirofosfato e 1 com ambos. Quatro deles, 1,5%, tiveram cultura positiva. A celularidade média desses quatro foi de 113.000/mm³, com intervalo de confiança de 72.700 a 153.200, contra 23.200/mm³ da população inteira com cristais, e todos os quatro tinham comorbidade importante e contagem acima de 50.000. A conclusão dos autores é literal: a presença de cristais não exclui artrite séptica com segurança.
Uma série mais recente, de 163 aspirados com cristais entre 358 punções, encontrou 3 casos de infecção concomitante, ou 1,8%, com celularidades de 85.000, 115.500 e 175.000/mm³ contra média de 48.612/mm³ do grupo. Recalculando a partir desses absolutos: com o corte em 50.000 células, a sensibilidade dentro da população com cristais foi de 100% e a especificidade, de 70,6% — o que dá 3 verdadeiros positivos contra 47 falsos positivos, e um valor preditivo positivo de 6,0%. Subindo o corte para 85.000, a especificidade sobe para 86,3%, os falsos positivos caem para 22 e o valor preditivo positivo vai a 12,0%. Os autores propõem, com base nisso, tratar clinicamente e observar os pacientes com cristais, a menos que a celularidade ultrapasse 85.000.
A série maior contradiz essa tranquilidade, e a contradição é o dado mais importante do bloco. Uma coorte de 442 pacientes com artropatia por cristais em articulação nativa encontrou 58 culturas sinoviais positivas. Entre os 381 com celularidade registrada, 34 dos 102 pacientes acima de 50.000 células tinham cultura positiva — mas 17 dos 279 pacientes com 50.000 células ou menos também tinham. Refazendo as contas a partir desses absolutos: sensibilidade de 66,7%, especificidade de 79,4%, valor preditivo positivo de 33,3% e valor preditivo negativo de 93,9%. Ou seja, um em cada três pacientes infectados dessa coorte tinha celularidade igual ou inferior a 50.000, e 6,1% dos que ficaram abaixo do corte estavam infectados. A razão de chances de 7,7, com intervalo de confiança de 4,06 a 14,62, que o próprio estudo publica, confere exatamente com esses absolutos.
Duas séries, dois resultados opostos sobre a mesma pergunta: numa, nenhum infectado tinha celularidade abaixo do corte; na outra, um terço tinha. A explicação provável é o número de eventos — três casos contra cinquenta e um —, e a lição operacional é a que este capítulo adota: nenhum corte de celularidade, na presença de cristais, tem valor preditivo negativo suficiente para dispensar cultura. Achou cristal, mandou cultura. Achou cristal com celularidade alta, febre, fator de risco ou aspecto purulento, trata como infecção até a cultura voltar.
Vale também o inverso, que é menos famoso e igualmente verdadeiro: ausência de cristais não afasta gota. Uma crise tratada, uma amostra pobre ou um exame feito sem luz polarizada devolvem pesquisa negativa em quem tem gota — tanto que os critérios de classificação de 2015 pontuam a análise de líquido sinovial sem cristais com apenas dois pontos negativos, e não como exclusão.
Gram, cultura e hemocultura: o que confirma
A cultura do líquido é central para identificação e antibiograma. Pode ser negativa por baixa carga, microrganismo de difícil cultivo, coleta inadequada ou antibiótico prévio. Se a suspeita persistir, discutir incubação prolongada, métodos moleculares e novas amostras conforme o contexto, sem esperar por esses exames para cuidar de quem está grave.
Gram positivo pode orientar tratamento cedo; Gram negativo reduz pouco a incerteza porque sua sensibilidade é limitada. Não equivale a ausência de bactéria. A interpretação deve incorporar clínica, celularidade, cristais, cultura e evolução, reconhecendo que nenhum desses itens isoladamente encerra todos os casos.
Colher pelo menos dois conjuntos de hemoculturas quando houver febre, suspeita de bacteremia ou sepse, antes do antimicrobiano se isso não causar atraso. Hemocultura positiva para S. aureus exige documentar negativação e investigar endocardite e outros focos com a equipe.
No gonococo a lógica muda. A cultura do líquido articular tem rendimento baixo na forma bacterêmica, porque há poucos germes na articulação. O material que rende é o das mucosas — uretra, colo do útero, reto e faringe, conforme a prática sexual —, e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para IST estabelece a detecção de clamídia e gonococo por biologia molecular como método de elevada sensibilidade e especificidade, além da cultura em meio seletivo de Thayer-Martin. Colher esses materiais não é refinamento: sem eles, um resultado negativo do líquido faz o esquema ser trocado para o lado errado.
Vale registrar o problema oposto, o do falso positivo. Cultura de líquido sinovial pode crescer contaminante de pele, e um Staphylococcus coagulase-negativo isolado numa amostra única, em paciente que melhorou, é achado a interpretar com o serviço de infectologia — e não motivo automático para semanas de antimicrobiano.
Sangue e imagem: o que cada exame responde, e o que ele não responde
PCR, VHS e leucograma são complementares: valores normais não excluem artrite séptica; elevação não identifica sua causa. A tendência da PCR pode apoiar o seguimento, sempre ao lado da dor, derrame, mobilidade e condição sistêmica. Investigar função renal e disfunções orgânicas conforme a apresentação.
Uricemia isolada não confirma nem exclui gota. Durante a crise, alterações inflamatórias e da excreção renal podem reduzir o valor; não explicar a queda apenas por precipitação de cristais. Se necessário, repetir fora da crise. Um valor alto tampouco distingue gota de infecção articular concomitante.
A radiografia simples da articulação acometida entra por três motivos, e nenhum deles é diagnosticar artrite séptica: procurar fratura ou corpo estranho quando houve trauma, procurar sinais de osteomielite ou lesão óssea, e servir de comparação para o seguimento. Na artrite séptica aguda ela costuma ser normal ou mostrar apenas aumento de partes moles e alargamento do espaço articular; as alterações destrutivas aparecem tarde, e esperar por elas é esperar o dano. Uma condrocalcinose visível sugere pseudogota e não afasta infecção.
O ultrassom é o exame de imagem mais útil na primeira hora, e a Sociedade Brasileira de Pediatria o descreve como o principal exame de imagem nas artrites agudas, do neonato ao adolescente, sobretudo quando há acometimento dos quadris. Ele responde duas perguntas objetivas: existe derrame, e onde ele está — o que transforma uma punção incerta em uma punção guiada. No quadril, ele é o que permite documentar derrame numa articulação que não se inspeciona.
A ressonância magnética responde a pergunta óssea e de partes moles profundas: osteomielite associada, abscesso periarticular, piomiosite, abscesso do psoas quando a dor é de quadril. Ela não é o exame que confirma artrite séptica e não deve atrasar a punção nem o antibiótico. A tomografia entra quando a ressonância não está disponível ou quando a pergunta é óssea e cirúrgica; a cintilografia óssea ocupa o lugar de alternativa quando a ressonância é indisponível, conforme o documento pediátrico brasileiro, com a ressalva de baixa especificidade.
O que não pedir, e o custo de pedir. Fator reumatoide, fator antinuclear e HLA-B27 na monoartrite aguda do pronto-socorro respondem perguntas que não são a desta noite: são exames de prevalência populacional relevante, com falso-positivo frequente, que devolvem um rótulo reumatológico plausível e falso justamente no paciente que precisava ser puncionado. O custo não é o do exame; é o de um resultado que sugere uma explicação alternativa e adia a agulha. Reserve-os para a investigação ambulatorial, com a punção já feita. Da mesma forma, a eletroforese de proteínas, a pesquisa de doença de Lyme fora de exposição plausível e o painel viral amplo não pertencem à primeira hora.
As articulações que não se puncionam à beira do leito
Existem quatro situações em que a resposta correta do interno é acionar quem punciona, e não puncionar. Saber isso de antemão é o que evita as duas falhas simétricas: a tentativa às cegas numa articulação profunda e a espera passiva por uma avaliação que ninguém pediu.
O quadril é a principal delas. É profundo, não permite palpar derrame, tem estruturas neurovasculares a evitar e exige orientação por imagem — ultrassom ou fluoroscopia — em ambiente adequado. A diretriz britânica orienta que, na suspeita de sepse de quadril, se organize referência ortopédica precoce, e registra que o desbridamento aberto urgente é frequentemente necessário. Junto com o quadril entram sacroilíaca, esternoclavicular e sínfise púbica, pelas mesmas razões.
Prótese e articulação profunda requerem coleta planejada com equipe habilitada e imagem quando indicada. O centro cirúrgico pode ser o local apropriado em alguns casos, mas não é condição universal para toda aspiração de prótese.
A terceira é a articulação sem ponto de entrada em pele íntegra: celulite extensa cobrindo todos os acessos, úlcera, lesão bolhosa, queimadura. Nesse caso, imagem e punção guiada, ou abordagem cirúrgica.
A quarta é a coagulopatia significativa ou a anticoagulação plena. Não é contraindicação absoluta — a punção de uma articulação superficial em paciente anticoagulado é habitualmente segura e pode ser necessária —, mas é decisão a compartilhar, com material de compressão preparado, e com registro do porquê no prontuário.
Se a punção depender de transferência ou não puder ser feita prontamente, reavaliar gravidade e benefício de iniciar antibiótico após as culturas viáveis. Em sepse ou deterioração, não aguardar horas pelo procedimento. A decisão deve ser compartilhada com o supervisor e acompanhada de busca ativa do controle do foco.
O diferencial, que mora dentro da investigação
O diferencial da monoartrite aguda não se resolve por lista de probabilidade: resolve-se pelo mesmo líquido. É a mesma seringa que separa infecção, cristal, sangue e sinovite estéril, e é por isso que separar o diferencial num bloco à parte mentiria sobre como se raciocina à beira do leito.
Contagem alta com predomínio de polimorfonucleares e Gram positivo confirma infecção. Contagem alta com cristais e sem fator de risco, em paciente afebril que já teve crises idênticas, sustenta a crise de cristais — com a cultura mesmo assim enviada e o retorno marcado. Líquido sanguinolento uniforme muda a pergunta para hemartrose e seus motivos. Contagem intermediária, sem cristais e sem Gram, é o cenário mais frequente e o mais desconfortável, e nele a decisão sai de fatores de risco, aspecto, febre, gravidade e da distância que aquele paciente tem do serviço no dia seguinte.
Fora da articulação ficam bursite séptica, celulite, tenossinovite, fratura por estresse, corpo estranho vegetal, osteomielite sem artrite e piomiosite. Todas se separam pela régua do movimento passivo e pela topografia do edema, descritas no bloco de apresentação, e a bursite séptica se confirma com punção da própria bursa — que é um procedimento diferente, superficial, e cujo líquido vai para os mesmos quatro exames.
A tabela do bloco seguinte organiza tudo isso em uma página: o que cada padrão de líquido significa, para onde cada paciente vai, e em que prazo.
O que a rede entrega, e como pedir para conseguir
Contagem de células e Gram do líquido sinovial existem em praticamente qualquer hospital com laboratório, e são baratos e rápidos. Cultura com antibiograma existe na maior parte da rede hospitalar. A microscopia com luz polarizada para pesquisa de cristais é o exame que mais falta, e a falta dela precisa ser dita ao paciente e escrita no prontuário — porque, sem cristais para achar, a decisão passa a depender inteiramente de celularidade, Gram, cultura e clínica, o que empurra o limiar de tratar para baixo. Ultrassom à beira do leito depende do serviço; ressonância é recurso escasso e regulado.
Um detalhe operacional decide se o exame vai sair: o líquido precisa chegar ao laboratório em tempo e no tubo certo. Combine antes com o laboratório, separe os frascos antes de puncionar, inocule parte em frasco de hemocultura, mande a alíquota da contagem em tubo com anticoagulante e leve pessoalmente quando o transporte interno for lento. Punção perfeita com amostra coagulada é punção perdida, e repetir uma punção que já foi feita custa mais que fazê-la certo da primeira vez.
Quando o encaminhamento é necessário, ele carrega informação suficiente para ser regulado com a prioridade correta. Os protocolos de regulação ambulatorial de reumatologia adulto definem o conteúdo descritivo mínimo, e a lógica vale para qualquer destino: as manifestações clínicas com tempo de evolução e articulações acometidas, a descrição do exame físico, o resultado dos exames já realizados com data, o tratamento já usado com dose, posologia e resposta, e as comorbidades relevantes. Encaminhamento que não descreve o líquido — se foi puncionado, o que veio e quando — é encaminhamento que volta.
A síntese é colher material cedo, interpretar resultados sem cortes absolutos e cuidar simultaneamente da gravidade, da dor e do foco. Coleta prévia é desejável no estável; tratamento imediato tem prioridade diante de sepse.
Reconhecer e cuidar da monoartrite aguda
Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Localize a dor: articulação, bursa, tendão ou osso. Depois determine se há infecção possível e se o paciente está estável. A primeira decisão é a velocidade do cuidado; febre ausente, PCR baixa ou poucas células no líquido não encerram a hipótese. A avaliação inicial responde a três perguntas: há ameaça sistêmica, onde está a inflamação e qual é a probabilidade de infecção? A partir delas se definem urgência, coleta, antibiótico e local de cuidado. A tabela ajuda a organizar o raciocínio; nenhum número isolado substitui a integração clínica.
- 1Avaliar perfusão, consciência, respiração, diurese e sinais vitais. Se houver suspeita de infecção com disfunção orgânica ou choque, iniciar protocolo de sepse; colher culturas sem atrasar antibiótico e controle do foco.
- 2Decida a anatomia: dentro ou em volta da articulação. Dor a qualquer grau de movimento passivo, derrame que segue o contorno da cápsula e posição antálgica de maior volume capsular apontam para dentro. Edema delimitado sobre proeminência óssea com movimento passivo tolerado aponta para bursa; placa de eritema que ultrapassa a articulação aponta para pele.
- 3Se é dentro da articulação e há derrame: existe indicação de punção. A indicação não depende de febre, de proteína C reativa nem de história prévia de gota — depende de haver líquido em articulação inflamada com qualquer possibilidade de infecção.
- 4Articulação nativa acessível: punção por profissional habilitado. Prótese ou articulação profunda: acionar equipe experiente e considerar orientação por imagem; não tentar às cegas nem aguardar passivamente.
- 5No estável, colher líquido rapidamente antes do antibiótico quando viável; em sepse ou deterioração, tratar prontamente e colher em paralelo. Oferecer analgesia desde o início.
- 6Interpretar celularidade no contexto: acima de 50.000/mm³ aumenta a suspeita, mas não confirma; abaixo de 25.000/mm³ não exclui, sobretudo no imunossuprimido. Gram positivo ajuda; Gram negativo não afasta.
- 7Cristais apoiam artrite por cristais, mas pode haver coinfecção. Integrar fatores de risco, aspecto do líquido, cultura e evolução para decidir internação e antibiótico.
- 8Escolha o esquema empírico pelo cenário — adulto sem risco atípico, suspeita de gonococo, criança por faixa etária, imunossuprimido, usuário de droga injetável — e comece logo após a coleta. Todo esquema empírico tem data para ser revisto: quando a cultura voltar.
- 9Organizar controle do foco com ortopedia precocemente. Desbridamento é especialmente relevante em grandes articulações; punções seriadas são opção selecionada e precisam de critério de falha.
- 10Piora ou resposta insuficiente: rever imediatamente drenagem, administração e espectro do antimicrobiano, novos focos e diagnóstico. Não esperar um prazo fixo diante de deterioração.
Horas — punção e drenagem
Monoartrite com derrame e suspeita infecciosa exige avaliação urgente, alívio da dor, coleta rápida quando possível, antimicrobiano conforme risco e controle do foco. Sepse ou deterioração não aguardam a punção. Articulação profunda, prótese ou dificuldade de acesso exigem equipe habilitada; planejar drenagem, inclusive cirúrgica quando indicada.
Horas, com outro esquema — suspeita de gonococo
Adulto jovem sexualmente ativo com artrite aguda, sobretudo com tenossinovite, poliartralgia migratória ou poucas lesões cutâneas pustulosas. Puncionar quando houver derrame, colher material das mucosas por biologia molecular ou cultura, e iniciar ceftriaxona conforme o protocolo nacional de IST. O manejo da infecção sexualmente transmissível, das parcerias e da notificação sai remetido ao capítulo próprio.
Dias — sem antibiótico, com cultura pendente
Cristais presentes em paciente afebril, sem fator de risco, com episódios prévios idênticos e celularidade que não é alta; ou quadro compatível com artrite reativa com infecção precedente documentada. Tratamento sintomático, cultura enviada mesmo assim, retorno com data e a lista escrita do que traz de volta antes. Esta é a faixa da maioria, e é a que exige o registro mais cuidadoso.
Padrões do líquido sinovial e o que cada um decide
| Padrão | Aspecto, celularidade e diferencial | O que significa e o que fazer |
|---|---|---|
| Não inflamatório | Transparente, amarelo-claro, viscoso; abaixo de 2.000 células/mm³, com menos de 25% de polimorfonucleares | Reduz a probabilidade, mas não exclui infecção. Integrar risco clínico, imunossupressão, cultura e evolução; não decidir ausência de antibiótico por esse valor isolado. |
| Inflamatório | Turvo, amarelo a esverdeado, menos viscoso; entre 2.000 e 50.000 células/mm³, com predomínio de polimorfonucleares | Faixa mais frequente e menos decisiva: cabe cristal, artrite reativa, espondiloartrite, artrite reumatoide inicial e também infecção. Entre 25.000 e 50.000 a razão de verossimilhança é de 1,06 e o número praticamente não move a probabilidade — decide a clínica |
| Séptico presumido | Purulento, espesso, opaco; acima de 50.000 células/mm³, com mais de 90% de polimorfonucleares | Aumenta a suspeita, sem confirmar sozinho. Os percentuais calculados em estudos dependem da probabilidade inicial e não são o risco individual de todo paciente. |
| Com cristais | Urato monossódico em agulha, birrefringência negativa; ou pirofosfato de cálcio romboide, birrefringência positiva fraca — em qualquer celularidade | Classifica gota ou pseudogota e NÃO exclui infecção: coexistência estimada em torno de 1,5%. Cultura enviada sempre. Com febre, fator de risco, aspecto purulento ou celularidade alta, tratar como infecção até a cultura voltar |
| Hemorrágico | Sanguinolento uniforme, sem coágulos; procurar gotículas de gordura | Hemartrose: trauma, fratura intra-articular, anticoagulação, coagulopatia, tumor sinovial. Gotículas de gordura indicam comunicação com a medular e obrigam a procurar fratura; a via é a do capítulo de trauma desta apostila |
| Prótese articular | Limiares específicos de infecção periprotética, dependentes de tempo de implante e contexto agudo ou crônico. | Acionar equipe de prótese para coleta asséptica e planejamento. Na sepse, não atrasar antibiótico aguardando centro cirúrgico. |
| Amostra insuficiente ou seca | Punção sem retorno de líquido, ou volume mínimo | Punção seca não exclui artrite séptica: pode ser posicionamento, agulha fina, coleção loculada ou articulação profunda. Repetir com orientação por ultrassom ou acionar quem punciona guiado — e não interpretar como ausência de derrame |
A celularidade desloca a probabilidade — ela não a decide
| Faixa do líquido | Razão de verossimilhança | Exemplo didático: pós-teste se o pré-teste fosse 27% | Leitura à beira do leito |
|---|---|---|---|
| Abaixo de 25.000/µL | 0,32 | cerca de 11% | Reduz bastante, mas ainda deixa cerca de um em nove infectado: cultura segue e o retorno é marcado |
| De 25.000 a 50.000/µL | 1,06 (razão por faixa) | cerca de 28% | Praticamente não move nada. Quem sente que este número decidiu alguma coisa está lendo silêncio |
| Acima de 50.000/µL | 7,7 | cerca de 74% | Trate como infecção enquanto a cultura não voltar |
| Acima de 100.000/µL | 28,0 | cerca de 91% | Artrite séptica até prova em contrário, mesmo com cristais presentes |
| Polimorfonucleares ≥ 90% | 3,4 | cerca de 56% | Neutrofilia reforça suspeita, mas é correlacionada à celularidade. Não multiplicar automaticamente razões de verossimilhança como se fossem testes independentes. |
| Polimorfonucleares < 90% | 0,34 | cerca de 11% | Argumento contra, do mesmo tamanho da contagem baixa — e com a mesma insuficiência |
Cristal no líquido e infecção concomitante — o que mostram as séries
| Fonte | População | Infecção concomitante | O que ela permite concluir |
|---|---|---|---|
| Revisão de acurácia diagnóstica em adultos (2011) | 32 estudos reunidos de 1947 a 2007 | Cerca de 1,5% dos casos com gota ou pseudogota | A cultura do líquido está indicada apesar do achado de cristais |
| Série de 265 aspirados com cristais em 7 anos (2007) | 183 com urato, 81 com pirofosfato, 1 com ambos | 4 culturas positivas (1,5%); celularidade média de 113.000/mm³ contra 23.200/mm³ do conjunto; todos com comorbidade e contagem acima de 50.000 | A presença de cristais não exclui artrite séptica com segurança |
| Série de 163 aspirados com cristais entre 358 punções (2020) | 115 com urato, 48 com pirofosfato | 3 casos (1,8%), com 85.000, 115.500 e 175.000 células/mm³ | Recalculado dos absolutos: corte de 50.000 dá valor preditivo positivo de 6,0%; corte de 85.000, de 12,0%. Nenhum infectado abaixo do corte — mas com apenas 3 eventos |
| Coorte de 442 pacientes com cristais em articulação nativa (2024) | 381 com celularidade registrada | 58 culturas positivas; entre os com celularidade registrada, 34 de 102 acima de 50.000 e 17 de 279 abaixo | Recalculado dos absolutos: sensibilidade 66,7%, especificidade 79,4%, valor preditivo positivo 33,3% e negativo 93,9%. Um terço dos infectados estava abaixo do corte |
Antimicrobiano empírico inicial na artrite séptica — o que se prescreve e com que fonte
| Cenário | Esquema empírico inicial | Fonte e observação |
|---|---|---|
| Adulto, articulação nativa, sem fator atípico | Cobertura antiestafilocócica e Gram-negativa conforme risco e protocolo; exemplo: oxacilina 2 g EV 4/4 h + ceftriaxona 2 g EV 24/24 h. Gentamicina fixa não é padrão universal. | Exemplo de esquema para contexto apropriado; confirmar protocolo e resistência local. Não copiar automaticamente a dose fixa de aminoglicosídeo de outro hospital. |
| Adulto com alergia a penicilina | Descrever a reação e escolher conforme gravidade, classe e cadeia lateral; reação grave exige discussão especializada. Não usar uma substituição única para toda alergia. | A reação alérgica, a suscetibilidade e o risco do paciente determinam a alternativa; ver alergia a medicamentos. |
| Risco de Staphylococcus aureus resistente à meticilina | Vancomicina endovenosa associada a cefalosporina de terceira geração | Diretriz britânica de 2006. São de risco: colonização conhecida, internação recente, residência em instituição de longa permanência, úlcera de perna, cateter |
| Risco de bacilo Gram-negativo — idoso frágil, infecção urinária de repetição, cirurgia abdominal recente | Cefalosporina de segunda ou terceira geração endovenosa, com cobertura antiestafilocócica associada | Diretriz britânica de 2006 |
| Suspeita de gonococo — infecção gonocócica disseminada | Ceftriaxona 1 g IM ou EV ao dia, completando ao menos 7 dias, associada a azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, em dose única | Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para IST, Ministério da Saúde, 2022, Quadro 31 |
| Criança e adolescente | Esquema pediátrico por idade, agente provável e resistência. Doses por peso/função renal e monitorização; não extrapolar o esquema do adulto. | Protocolo do Hospital Universitário Júlio Bandeira de Mello, versão 4, 2023. A cobertura empírica obrigatória é para Staphylococcus aureus, conforme o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria |
| Gram do líquido já disponível | Integrar morfologia no Gram, riscos de MRSA/Gram-negativos resistentes e epidemiologia local. Não ampliar para resistência sem avaliar esse contexto. | Revisão clínica de medicina de família, 2011. O Gram orienta o esquema quando positivo e nunca autoriza suspender quando negativo |
| Prótese articular | Equipe de prótese define coleta, antibiótico e estratégia cirúrgica; sepse exige tratamento imediato. | Punção asséptica por equipe habilitada, com imagem quando necessária; o centro cirúrgico não é o único local possível em todos os casos. |
O escore de Kocher na criança: o mesmo escore, cinco resultados
| Estudo | Desenho e tamanho | Probabilidade com os 4 critérios presentes |
|---|---|---|
| Estudo original (1999) | Retrospectivo, 282 crianças com quadril irritável, 82 com artrite séptica | 99,6% — com 0 critérios, menos de 0,2%; 1 critério, 3,0%; 2, 40,0%; 3, 93,1% |
| Revalidação prospectiva do mesmo grupo (2004) | Prospectivo | 93% — com 0 critérios, 2,0%; 1 critério, 9,5%; 2, 35%; 3, 72,8% |
| Validação externa de Luhmann (2004) | Retrospectivo, 165 crianças (47 com artrite séptica) | 59,1% |
| Validação externa de Caird (2006) | Prospectivo, 53 crianças | 93,1%; com proteína C reativa como quinto critério, 97,5% |
| Validação externa de Sultan e Hughes (2010) | Retrospectivo, 96 crianças (5 com artrite séptica) | 39,4%; com o quinto critério, 59,9% |
| Validação externa de Olandres (2023) | Retrospectivo, 101 crianças (7 com artrite séptica) | 59,16%; com o quinto critério, 87,81% |
O que não se faz na monoartrite aguda, e o que entra no lugar
| Conduta reflexa | Por que ela sai | O que entra no lugar |
|---|---|---|
| Iniciar antibiótico e só depois puncionar | Antibiótico prévio pode reduzir a positividade da cultura. Colher primeiro quando prontamente viável no estável; na sepse, a busca de uma amostra ideal não pode atrasar tratamento. | Puncionar primeiro e iniciar o antimicrobiano logo em seguida. A única exceção é o paciente com instabilidade ou sepse, em que se colhem hemoculturas e se trata na primeira hora |
| Escrever gota porque o paciente já teve gota e responder com anti-inflamatório | Cristais classificam gota e não excluem infecção; a coexistência é estimada em cerca de 1,5% e acontece justamente no idoso diabético, em quem a articulação perdida vem acompanhada de bacteremia | Puncionar, mandar cultura mesmo com cristal presente, e tratar como infecção quem tem febre, fator de risco, aspecto purulento ou celularidade alta |
| Tratar presumida inflamação não infecciosa com corticoide sem reavaliar a hipótese de infecção | Apaga a inflamação, o quadro clínico e o parâmetro de seguimento, e a infiltração pode inocular a articulação — a artrite séptica está listada entre as complicações da infiltração no PCDT da Artrite Reativa | Analgesia desde o início. Evitar infiltração e novo corticoide para artrite enquanto infecção for relevante; rever o uso crônico sem suspensão abrupta. |
| Excluir artrite séptica porque não há febre ou porque a proteína C reativa está normal | A febre tem sensibilidade de apenas 57% nesta população, e os marcadores inflamatórios séricos não são úteis agudamente | Decidir pelo líquido. Colher os marcadores para servir de linha de base do seguimento, e não de critério de exclusão |
| Pedir ácido úrico para decidir se é gota no pronto-socorro | Ácido úrico normal é comum durante a crise e ácido úrico alto é comum em quem nunca teve gota; os critérios de 2015 orientam dosá-lo fora da crise e fora de terapia hipouricemiante | Pesquisa de cristais no líquido sob luz polarizada. O ácido úrico entra no seguimento ambulatorial, no capítulo de gota desta apostila |
| Pedir fator reumatoide, fator antinuclear e HLA-B27 na primeira noite | Falso-positivos frequentes devolvem um rótulo reumatológico plausível e falso justamente em quem precisava ser puncionado, e o custo é o adiamento da agulha | Punção agora; sorologias, se indicadas, na investigação ambulatorial com a punção já feita |
| Puncionar prótese articular na sala de emergência | Risco de inocular material estéril e de comprometer a interpretação da coleta, que precisa ser padronizada e com múltiplas amostras | Hemoculturas, nenhum antibiótico empírico, e acionamento da equipe que responde pela prótese |
| Puncionar atravessando celulite, úlcera ou lesão de pele | Leva bactéria da pele para dentro de uma articulação que pode estar estéril, e o resultado da cultura passa a ser ininterpretável | Escolher outro ponto de entrada em pele íntegra; sem ponto disponível, punção guiada por imagem ou abordagem cirúrgica |
| Tratar com antibiótico e não drenar | O espaço articular é uma cavidade fechada sem depuração local, e o dano vem das enzimas do líquido: antimicrobiano isolado não resolve abscesso em cavidade fechada | Aspiração até secar quantas vezes forem necessárias, ou lavagem artroscópica ou aberta conforme a articulação e a resposta |
| Aguardar o resultado da cultura para começar o tratamento | A cultura leva de dois a cinco dias e a perda de osso subcondral pode se instalar em 24 a 48 horas | Esquema empírico logo após a coleta, com data marcada para revisão quando a cultura voltar |
As doses deste capítulo foram conferidas com a apresentação disponível. Oxacilina 2 g de 4 em 4 horas são 6 doses e 12 g ao dia, o que em frasco-ampola de 500 mg significa 4 frascos por dose e 24 frascos por dia — um volume de preparo que precisa ser combinado com a enfermagem, e um dos motivos práticos pelos quais o esquema é frequentemente trocado sem justificativa clínica. Clindamicina 600 mg, na ampola de 150 mg/mL, são 4 mL por dose e 1,8 g ao dia. Gentamicina 240 mg, na ampola de 40 mg/mL, são 6 mL. Ceftriaxona 2 g ao dia são 2 frascos de 1 g; na infecção gonocócica disseminada, 1 g ao dia é 1 frasco.
A dose fixa de gentamicina do protocolo hospitalar merece conferência pelo peso antes de ser transcrita: 240 mg correspondem a 5,3 mg/kg em uma pessoa de 45 kg, 4,0 mg/kg em uma de 60 kg e apenas 2,7 mg/kg em uma de 90 kg. Aminoglicosídeo em dose única diária se prescreve por peso e com função renal conferida, e o ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila, que deve ser consultado antes de assinar a prescrição.
Na criança, converta antes de prescrever. Oxacilina de 150 a 200 mg/kg/dia numa criança de 20 kg são 3 a 4 g por dia, ou 750 a 1.000 mg de 6 em 6 horas. Clindamicina de 30 a 40 mg/kg/dia de 8 em 8 horas na mesma criança são 200 a 267 mg por dose, o que dá de 1,3 a 1,8 mL da ampola de 150 mg/mL. O mesmo protocolo hospitalar prescreve clindamicina 30 mg/kg/dia para osteomielite pediátrica e 30 a 40 mg/kg/dia para artrite séptica, e vancomicina 60 mg/kg/dia para osteomielite e 40 mg/kg/dia para artrite séptica: as faixas não são idênticas entre indicações vizinhas dentro do mesmo documento, e vale conferir a dose no serviço em que se trabalha antes de copiá-la.
Os antimicrobianos hospitalares deste capítulo não estão na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, e isso não quer dizer que não existam no hospital. A Rename 2024 organiza os Componentes Básico, Estratégico e Especializado da Assistência Farmacêutica; oxacilina, vancomicina, cefazolina e clindamicina injetável ficam fora dessa lista, e a gentamicina consta apenas em apresentação oftálmica. A ceftriaxona está lá, em frascos de 250 mg, 500 mg e 1 g, no Componente Básico, com classificação AWaRe de alerta — o que significa uso monitorado, e não uso livre.
Atualização: a SANJO 2023 orienta o manejo de articulações nativas e deve ser considerada na leitura das recomendações históricas de 2006. Infecção de prótese e bacteremia por S. aureus não devem receber automaticamente o mesmo percurso de duração e mudança de via.
O escore de Kocher é ferramenta de apoio e não de decisão. A tabela mostra que a probabilidade atribuída aos quatro critérios presentes vai de 39,4% a 99,6% conforme o estudo, e a diferença entre a publicação original e a revalidação prospectiva do próprio grupo já é de mais de 20 pontos percentuais para três critérios. Criança com quadril irritável e suspeita clínica é puncionada sob orientação por imagem independentemente do escore; o escore ajuda a decidir a urgência, não a dispensar a punção.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do adulto com monoartrite aguda de articulação nativa e suspeita de infecção — o caso que decide o capítulo. O paciente com prótese, o com instabilidade hemodinâmica e a criança têm desvios marcados no lugar onde eles acontecem.
A sequência prática é: reconhecer gravidade, aliviar a dor, colher material quando isso puder ser feito prontamente, iniciar antimicrobiano se a suspeita justificar e organizar controle do foco. A diretriz SANJO de 2023 atualiza o manejo de articulações nativas; os esquemas brasileiros citados servem de exemplos locais, sujeitos ao perfil de resistência do serviço. Prótese, bacteremia por S. aureus e infância exigem percursos próprios. Antes de prescrever, confira peso, função renal, alergia descrita por reação e interações, com o supervisor e o protocolo institucional.
Minuto 0 a 10 — a velocidade, antes do diagnóstico
Antes de qualquer hipótese, duas decisões. A primeira é se este paciente está séptico: hipotensão, taquipneia, rebaixamento, oligúria ou lactato alto tiram a articulação do centro da cena e colocam o pacote de sepse na frente. A segunda é anatômica: o processo está dentro ou em volta da articulação. Só depois disso a pergunta passa a ser qual doença.
Prescrição- Sinais vitais completos com temperatura axilar aferida — a febre está ausente em cerca de 43% das artrites sépticas e não serve de porta de entrada, mas a febre presente muda a urgência
- Glicemia capilar em todo diabético: hiperglicemia sem mudança de dieta ou de medicação, com uma articulação inflamada, é dado a favor de infecção
- Obter acesso venoso. Colher pelo menos dois conjuntos de hemoculturas quando houver febre, suspeita de bacteremia ou sepse, preferencialmente antes do antimicrobiano, desde que a coleta não atrase tratamento urgente.
- Hemograma, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação, ureia, creatinina, sódio, potássio e coagulograma — os três primeiros como linha de base do seguimento, e não como critério de exclusão
- Registrar no prontuário, com estas palavras, se há ou não instabilidade e se o processo é articular ou periarticular
Minuto 10 a 30 — o exame que decide, com o achado escrito
Exame dirigido de cinco minutos, com a articulação e a contralateral descobertas, e o achado registrado de forma comparável entre plantões. Dor a qualquer grau de movimento passivo é o achado que aponta para dentro da cápsula. Amplitude de movimento medida em graus, e não em adjetivo, é o que permite dizer amanhã se melhorou.
Prescrição- Inspeção da pele em toda a extensão do membro: porta de entrada, úlcera, celulite, lesões pustulosas ou hemorrágicas em tronco e extremidades (procurar ativamente, pensando em gonococo)
- Palpação do derrame e sinal da tecla no joelho; contorno e localização do edema em relação à cápsula
- Amplitude de movimento passivo anotada em graus, do lado acometido e do contralateral
- Palpação e mobilização de TODAS as demais articulações, para caracterizar mono, oligo ou poliarticular
- Ausculta cardíaca à procura de sopro novo e exame das extremidades à procura de estigmas de endocardite quando houver droga injetável, cateter ou hemocultura positiva
- Na criança: despir por completo, mover todas as articulações uma a uma e testar rotação do quadril mesmo quando a queixa é de joelho
Primeira hora — coleta rápida e antibiótico conforme a gravidade
No paciente estável, colher prontamente o líquido articular antes do antimicrobiano melhora a oportunidade de identificar o agente. Em sepse, choque ou deterioração clínica, iniciar o tratamento de emergência e organizar a punção em paralelo: não se espera por procedimento ou resultado laboratorial. Uma coleta após antibiótico ainda deve ser enviada; a chance de cultura positiva pode cair, mas não se torna necessariamente nula.
Prescrição- Artrocentese diagnóstica e de alívio, com pele íntegra no ponto de entrada, na posição de maior volume capsular, aspirando até secar
- Enviar: contagem total de células com diferencial (tubo com anticoagulante), pesquisa de cristais sob luz polarizada, bacterioscopia pelo Gram e cultura com antibiograma
- Inocular parte do aspirado diretamente em frasco de hemocultura, à beira do leito
- Acrescentar cultura para micobactérias e para fungos, pedidas por escrito, no imunossuprimido e no quadro arrastado
- Registrar volume aspirado e aspecto do líquido no prontuário, com estas palavras
- Paciente estável: organizar coleta rápida antes do antibiótico. Sepse, choque ou deterioração: antibiótico prontamente segundo o protocolo de sepse, com culturas antes apenas se isso não provocar atraso relevante.
- Não iniciar corticoide para tratar a monoartrite nem infiltrar a articulação enquanto infecção relevante não estiver afastada. Quem usa corticoide cronicamente precisa de avaliação da dose de manutenção e do risco de insuficiência adrenal; não suspendê-lo abruptamente.
- Punção de prótese ou de articulação profunda exige equipe habilitada, técnica asséptica e, conforme o local, orientação por imagem. Acionar ortopedia/radiologia imediatamente; o interno não deve realizar tentativa sem supervisão apropriada.
Hora 1 — o antimicrobiano empírico do adulto, escrito por extenso
Com o líquido já colhido, o esquema empírico entra imediatamente e cobre Staphylococcus aureus, que é o agente mais frequente, ampliando conforme o perfil de risco. Todo esquema empírico nasce com data marcada para revisão: quando a cultura voltar.
Prescrição- Adulto com articulação nativa, sem risco relevante de resistentes: um exemplo institucional possível é oxacilina 2 g EV a cada 4 horas associada a ceftriaxona 2 g EV a cada 24 horas. Confirmar indicação e ajuste com o supervisor e a epidemiologia local. A gentamicina em dose fixa de 240 mg não constitui padrão universal: se indicada por protocolo, calcular por peso e função renal e monitorar toxicidade.
- Alergia: esclarecer medicamento, tempo até a reação, sintomas e gravidade. Um rótulo de alergia à penicilina não define sozinho o esquema. Reação imediata grave ou reação cutânea grave exige escolha especializada; não substituir automaticamente por clindamicina mais ceftriaxona. Ver o capítulo de alergia a medicamentos.
- Risco relevante de MRSA, conforme colonização, infecções prévias e epidemiologia do serviço: considerar vancomicina EV com dose e monitorização farmacocinética ajustadas ao peso e à função renal; acrescentar cobertura para Gram-negativos quando indicada. Internação prévia isolada não determina automaticamente todo o espectro.
- Cobertura de bacilos Gram-negativos: considerar foco provável, fragilidade, imunossupressão, exposição hospitalar e culturas anteriores. Ceftriaxona é uma opção em contextos apropriados; cobertura antipseudomonas depende de risco específico e resistência local. Manter cobertura antiestafilocócica até esclarecer o agente.
- Gram positivo ajuda a dirigir o esquema pela morfologia e pelo risco de resistência. Cocos Gram-positivos não obrigam vancomicina em todos os pacientes; bacilos Gram-negativos não obrigam cobertura antipseudomonas em todos. Gram sem bactérias não exclui infecção nem permite suspender sozinho a cobertura necessária.
- Escrever no prontuário, junto com a prescrição, a data em que o esquema será reavaliado e quem vai reavaliá-lo
Hora 1 — quando a suspeita é gonococo, o esquema é outro
Tenossinovite, poliartralgia migratória e poucas lesões pustulosas em pessoa sexualmente ativa levantam suspeita de infecção gonocócica disseminada. A cultura articular pode ser negativa, e amostras de mucosas conforme a exposição ajudam. O esquema específico com ceftriaxona não deve ser tomado como tratamento definitivo preferencial da artrite por S. aureus; se ambas as hipóteses forem relevantes, discutir cobertura inicial que contemple ambas e depois estreitar.
Prescrição- Ceftriaxona 1 g IM ou EV ao dia, completando ao menos 7 dias de tratamento, associada a azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, VO, em dose única (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para IST, Ministério da Saúde, 2022, Quadro 31)
- Colher material das mucosas conforme a prática sexual — uretra, colo do útero, reto e faringe — para biologia molecular ou cultura em meio seletivo, mesmo que o líquido articular já tenha sido enviado
- Testar outras IST, orientar prevenção e avaliar/tratar parcerias segundo o protocolo. Realizar notificação quando aplicável ao agravo e ao fluxo de vigilância local; não pressupor que toda gonorreia tenha a mesma obrigação nacional de notificação de sífilis ou HIV.
- Em criança pré-púbere com isolamento de gonococo: acionar a rede de proteção e conduzir pelo capítulo de maus-tratos e violência na infância desta apostila
- Drenagem continua indicada na forma com derrame franco: o esquema antimicrobiano diferente não dispensa esvaziar a articulação
Hora 1 — a criança, com a dose convertida antes de assinar
Na criança a cobertura empírica obrigatória é para Staphylococcus aureus, e a faixa etária amplia o espectro. A punção e a drenagem são compartilhadas com a ortopedia desde o primeiro momento, e o ultrassom é o exame que documenta o derrame e guia a agulha, sobretudo no quadril.
Prescrição- Oxacilina 150 a 200 mg/kg/dia EV, dividida de 6 em 6 horas — numa criança de 20 kg são 3 a 4 g por dia, ou 750 a 1.000 mg por dose (protocolo hospitalar, versão 4, 2023)
- A seleção pediátrica deve ser confirmada pela equipe assistente. Clindamicina pode ser opção se o isolado/perfil local for suscetível; vancomicina é considerada em risco de MRSA e exige dose por idade, peso, função renal e monitorização. Não usar uma dose fixa de 40 mg/kg/dia como regra universal para toda criança.
- Ajustar o espectro à idade e vacinação: considerar Kingella kingae em menores de cinco anos, Enterobacterales no neonato e patógenos de não vacinados quando pertinentes. No adolescente, avaliar exposição sexual e possibilidade de gonococo. Decisões e doses são compartilhadas com pediatria.
- Artrocentese com inoculação direta do aspirado em frasco de cultura; hemoculturas, hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação
- Ultrassonografia precoce quando a suspeita for de quadril, e ressonância se a suspeita de osteomielite associada se mantiver
- Avaliação da ortopedia pediátrica no mesmo turno para irrigação, drenagem ou desbridamento — a decisão cirúrgica é dela
- Analgesia e repouso da articulação acometida até a melhora clínica; NÃO prescrever corticoide antes de excluir artrite séptica e neoplasia, e realizar mielograma diante de dúvida com leucemia
Hora 1 a 6 — a dor, tratada sem apagar o diagnóstico
Oferecer analgesia desde a avaliação inicial, sem esperar a punção. Alívio da dor permite examinar e cuidar melhor e não esteriliza a cultura. A aspiração pode também aliviar a pressão. Evitar infiltração ou corticoide iniciado para a artrite enquanto houver suspeita importante de infecção; isso é diferente de interromper abruptamente um corticoide de uso crônico.
Prescrição- Dipirona 500 mg a 1 g VO ou EV de 6 em 6 horas se dor, sem ultrapassar 4 g ao dia (Rename 2024: comprimido de 500 mg, solução oral e solução injetável de 500 mg/mL, componente Básico). Em solução oral a dose se mede em gotas: 20 gotas equivalem a 1 mL, ou 500 mg — confira a unidade antes de transcrever qualquer posologia em volume
- Anti-inflamatório não esteroide apenas quando função renal, volemia, pressão arterial, risco cardiovascular e ausência de sangramento permitirem. Um exemplo no adulto é ibuprofeno 600 mg VO a cada 8 horas por curto período; não deve substituir analgesia simples, coleta ou tratamento da infecção. Evitar na sepse com risco de lesão renal.
- Imobilização em posição funcional por período curto, apenas para conforto, com mobilização passiva iniciada assim que a dor permitir — imobilização prolongada produz rigidez e é sequela evitável
- Elevação do membro e crioterapia local por 20 minutos, 2 a 3 vezes ao dia
- Não iniciar corticoide sistêmico para a monoartrite enquanto a hipótese infecciosa permanecer relevante. Rever com a equipe o corticoide crônico e eventual indicação relacionada a choque/insuficiência adrenal.
- Dor persistente pede novo exame: derrame recorrente, drenagem insuficiente, abscesso, osteomielite ou outra causa podem estar presentes. Não atribuir toda dor residual a enchimento da articulação nem apenas aumentar analgésico.
Hora 2 a 12 — a drenagem, que não é opcional
A remoção de material infectado reduz carga bacteriana, pressão e mediadores inflamatórios. Acionar ortopedia cedo para definir o controle do foco. A SANJO recomenda desbridamento cirúrgico, especialmente em grandes articulações; aspiração inicial ou seriada tem papel em situações selecionadas e como medida provisória. O resultado da primeira aspiração não substitui o planejamento da drenagem definitiva.
Prescrição- Realizar aspiração diagnóstica e de alívio quando indicada e segura; registrar aspecto e volume. Se forem escolhidas aspirações seriadas, definir com a ortopedia por que são adequadas e quais sinais levarão à intervenção cirúrgica.
- Solicitar avaliação ortopédica precoce diante de suspeita relevante de artrite séptica, especialmente de grande articulação. Quadril, material espesso/loculado, osteomielite, corpo estranho e ferimento penetrante reforçam necessidade de intervenção. Não aguardar obrigatoriamente 48–72 horas de falha para discutir lavagem.
- Na criança, envolver a ortopedia pediátrica desde o primeiro momento: a revisão brasileira sobre artrite séptica do quadril publicada na Revista Brasileira de Ortopedia descreve a artrotomia como procedimento terapêutico definitivo e aconselha que a punção seja feita em centro cirúrgico, para poder ser convertida em artrotomia no mesmo tempo se o aspirado for sugestivo
- Em ferimento penetrante da articulação, a via é cirúrgica desde o início e o manejo do ferimento segue o capítulo de trauma desta apostila
- Registrar a cada esvaziamento: volume, aspecto, e se o líquido está clareando entre uma punção e outra
A qualquer momento — punção que exige equipe e acesso específicos
Articulações profundas e próteses precisam de planejamento por equipe experiente; o local da punção depende da articulação, do acesso e do protocolo de assepsia, e não de uma proibição universal de coleta fora do centro cirúrgico. O interno organiza avaliação e coleta assistida sem atrasar o tratamento da pessoa instável.
Prescrição- Acionar ortopedia (ou o serviço que responde pela prótese) imediatamente, por contato direto e com registro do horário e do nome de quem atendeu
- Solicitar ultrassonografia da articulação para documentar derrame e guiar a punção; em quadril de criança, esse é o exame que abre a porta
- Colher duas hemoculturas de sítios diferentes agora — elas são a única chance bacteriológica enquanto a articulação não é puncionada, e identificam o agente em parte relevante dos casos
- Colher hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação como linha de base
- Manter o paciente em jejum se houver perspectiva de procedimento cirúrgico no mesmo turno, e comunicar isso à equipe
- Analgesia plena, imobilização em posição funcional e nada de corticoide
- Iniciar o antimicrobiano empírico assim que ficar claro que a punção não vai acontecer dentro de poucas horas — e registrar no prontuário a hora da decisão e o motivo pelo qual a coleta não precedeu o tratamento
- Se o serviço não tiver a referência, acionar a regulação e transferir no mesmo dia: transferência agendada para a semana seguinte não é conduta em artrite séptica
Dia 1 a 3 — a cultura volta e o esquema muda
O esquema empírico é uma aposta com prazo. Quando o agente e o antibiograma chegam, o esquema estreita; quando nada cresce, a decisão é clínica e precisa ser tomada por alguém, com o raciocínio escrito, e não por omissão.
Prescrição- Cultura positiva: descalonar para o antimicrobiano de menor espectro ativo contra o agente, conforme o antibiograma e com a infectologia quando disponível
- Cultura negativa: rever qualidade e momento da coleta, antibiótico prévio, evolução, controle do foco e diagnósticos alternativos. Se a suspeita infecciosa continuar forte, tratar e discutir investigação adicional. Suspensão exige uma explicação alternativa convincente; melhora durante antibiótico, sozinha, não exclui infecção.
- Cultura negativa com quadro atípico e resposta ruim: reabrir o diagnóstico antes de trocar o antibiótico — cristais relidos, artrite reativa, doença sistêmica de início monoarticular, micobactéria e fungo entram aqui
- Bacteremia por S. aureus: colher hemoculturas de controle até documentar negativação, procurar outros focos e avaliar endocardite com infectologia/ecocardiografia conforme o caso. Uma articulação infectada constitui foco profundo e impede aplicar automaticamente o esquema de bacteremia não complicada.
- Registrar no prontuário, no dia da mudança, o agente, o antibiograma, o esquema novo e a data prevista de término
Dia 3 a 14 — via endovenosa, mobilização e o que se acompanha
A passagem de EV para VO depende de melhora sustentada, controle do foco, queda dos marcadores, absorção e opção oral ativa. Na artrite de articulação nativa sem complicações, a SANJO sugere uma fase EV inicial de uma a duas semanas e fase oral subsequente, com evidência limitada. Esse percurso não deve ser automaticamente aplicado a bacteremia por S. aureus, endocardite, prótese ou osteomielite.
Prescrição- Definir a fase EV com a equipe a partir do agente, foco e evolução; uma a duas semanas é referência para alguns adultos com articulação nativa e boa resposta, não uma data obrigatória de troca de via.
- Proteína C reativa a cada 48 a 72 horas como parâmetro de seguimento — é o melhor biomarcador para acompanhar a resposta, conforme registra o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria
- Iniciar mobilização conforme controle da infecção, situação dos drenos/ferida e orientação da equipe, evitando imobilização prolongada. Tanto a lesão infecciosa quanto a imobilidade contribuem para rigidez; acompanhar função, não apenas a dor.
- Amplitude de movimento medida em graus e anotada todos os dias, do lado acometido e do contralateral
- Revisão diária da necessidade de nova punção: derrame que se refaz é indicação de esvaziamento, e não de aumento de dose
- Profilaxia de tromboembolismo venoso conforme o risco do paciente internado, e controle glicêmico no diabético
Semana 2 a 6 — via oral e duração total
A duração total é individualizada por articulação, agente, drenagem e complicações. Para artrite nativa de adulto sem complicações, a SANJO propõe uma a duas semanas EV seguidas de duas a quatro semanas VO, reconhecendo evidência limitada. Bacteremia por S. aureus, endocardite, osso infectado e material protético exigem plano específico e podem determinar tratamento prolongado e via diferente. O objetivo do interno é reconhecer essas exceções e registrar o plano pactuado, sem converter uma faixa em receita universal.
Prescrição- Considerar VO após controle do foco e melhora sustentada, com opção ativa, boa absorção, adesão e seguimento. Confirmar antes se há bacteremia, endocardite ou outro foco que mude esse plano.
- Registrar duração estimada e seus condicionantes. Na bacteremia por S. aureus, considerar a documentação de negativação das hemoculturas e o controle dos focos; a equipe de infectologia define duração e via, sem troca automática para VO na segunda semana.
- Infecção gonocócica disseminada: ceftriaxona por ao menos 7 dias, conforme o protocolo nacional de IST — curso claramente mais curto, e é isso mesmo
- Infância: a diretriz PIDS/IDSA 2023 permite 10–14 dias totais em artrite bacteriana primária selecionada, sem osteomielite e com resposta clínica e de PCR rápida. Resposta lenta ou controle incompleto do foco pode exigir 21–28 dias ou mais. Não manter três semanas EV mais três VO como regra geral; o plano pertence à equipe pediátrica.
- Reavaliar a duração quando houver osteomielite associada: o alvo passa a ser o do osso, mais longo, e o protocolo hospitalar consultado prescreve até 28 dias ou mais para osteomielite
- Escrever na prescrição a data de término, e não apenas o número de semanas
Alta — o que vai escrito, e o que traz de volta
A alta da artrite séptica é uma alta com tarefas, e a maior parte das recidivas que voltam ao pronto-socorro voltam por falha nessa transição. Duas coisas precisam sair no papel: o plano de antimicrobiano com data de término e a lista do que traz de volta antes da data marcada.
Prescrição- Receita com o antimicrobiano oral, dose, via, frequência e data de término escrita
- Retorno agendado com data, preferencialmente com o mesmo serviço que conduziu o caso, e encaminhamento à fisioterapia iniciado antes da alta
- Lista escrita do que traz de volta no mesmo dia: febre nova, dor que voltou a aumentar, a articulação encher de novo, incapacidade de mover o que já se movia, secreção pela ferida
- Orientação sobre o tratamento da porta de entrada, quando ela existir — úlcera, pé diabético, cateter — porque a articulação recidiva por onde a bactéria entrou
- Controle glicêmico revisto no diabético e rastreamento das comorbidades que fizeram o paciente adoecer
- Nas IST, organizar manejo de parcerias, testagem e prevenção; conferir as obrigações de notificação próprias do agravo e da vigilância local.
Quando não era infecção — o que o interno prescreve no plantão
Quando o conjunto da investigação e da evolução sustenta artrite por cristais e torna infecção suficientemente improvável, tratar a crise e organizar seguimento. Cristais, ausência de febre e cultura negativa isoladamente não bastam, sobretudo com antibiótico prévio ou imunossupressão. O manejo da gota está no capítulo seguinte, incluindo escolha do anti-inflamatório, urato-alvo e tratamento contínuo.
Prescrição- Analgesia com dipirona 500 mg a 1 g VO de 6 em 6 horas se dor, teto de 4 g ao dia (Rename 2024, componente Básico)
- Anti-inflamatório não esteroide, quando função renal, pressão e ausência de sangramento permitirem: ibuprofeno 600 mg VO de 8 em 8 horas após alimento (Rename 2024, componente Básico). O naproxeno também consta da Rename 2024, em comprimidos de 250 e 500 mg, mas no componente Especializado e vinculado a protocolos específicos
- A colchicina não consta da Rename 2024 — antes de prescrevê-la, confira a disponibilidade na relação municipal do seu serviço
- Se AINE ou colchicina forem inadequados, discutir corticoide para crise de gota apenas após avaliar a hipótese infecciosa. Usar o esquema do capítulo de artrites por cristais; não transferir automaticamente doses de um protocolo de artrite reativa para outra doença.
- Analgesia pode começar antes da punção. Colher líquido quando houver indicação e manter responsabilidade por conferir a cultura; anti-inflamatório ou corticoide não devem atrasar investigação e tratamento de infecção suspeita.
- Retorno com data marcada e a lista escrita do que traz de volta antes: febre, piora da dor, novo enchimento da articulação, ou o resultado da cultura — que precisa ter dono e ser conferido por alguém
- Encaminhamento conforme os protocolos de regulação ambulatorial: reumatologia na gota com crises recorrentes, três ou mais no ano, apesar de tratamento otimizado; medicina interna ou nefrologia quando a origem da hiperuricemia for incerta ou houver doença renal crônica estágios 4 e 5; ortopedia na gota tofácea com complicações locais
Como saber se está funcionando
Na artrite séptica existe uma marca que organiza todo o seguimento: 48 a 72 horas. É o prazo em que um tratamento adequado — antimicrobiano eficaz mais esvaziamento repetido — produz melhora clínica reconhecível. Quem não melhorou nesse prazo não precisa de mais tempo: precisa de uma explicação, e as explicações possíveis são quatro.
As quatro, na ordem em que devem ser testadas: a drenagem está insuficiente e a articulação está se refazendo; o agente não está coberto pelo esquema; o diagnóstico está errado; ou existe uma complicação — osteomielite associada, abscesso periarticular ou de partes moles, coleção loculada, endocardite. Aumentar a dose do antimicrobiano sem passar por essas quatro é o erro de raciocínio mais frequente do terceiro dia.
Uma diferença de altitude vale ser dita desde já: o desfecho que importa aqui não é a esterilização da cultura, é a articulação que volta a funcionar. Paciente sem febre, com proteína C reativa em queda e um joelho que não dobra vinte graus no décimo dia está indo mal, mesmo com todos os parâmetros infecciosos bons. A amplitude de movimento é o parâmetro que mede o que o paciente vai levar para casa.
Esperado: Ganho progressivo a partir de 48 a 72 horas, com dor decrescente ao mesmo arco de movimento
Se não melhora: Amplitude que não ganha, ou que perde, é o primeiro sinal de que a articulação continua sob pressão ou de que está evoluindo para rigidez. Reexamine para derrame, punção nova se houver, e cheque se a fisioterapia foi de fato iniciada. Adjetivo não se compara entre plantões: escreva o número, dos dois lados, todo dia.
Esperado: Queda importante logo após a punção de alívio e queda progressiva a partir daí, com espaçamento espontâneo dos resgates
Se não melhora: Dor que volta a subir depois de ter caído com a punção significa, quase sempre, que a articulação voltou a encher — e a conduta é reexaminar e puncionar de novo, não aumentar o analgésico. Dor desproporcional com articulação vazia levanta osteomielite, abscesso de partes moles ou piomiosite, e a pergunta passa a ser de imagem.
Esperado: Volume decrescente entre punções sucessivas e líquido que clareia — de purulento para turvo, de turvo para citrino
Se não melhora: Derrame que se refaz no mesmo volume, ou líquido que continua espesso depois de 48 a 72 horas de tratamento, é indicação de lavagem artroscópica ou aberta, e não de mais um dia de aspiração. Material loculado que a agulha não retira é indicação cirúrgica por definição.
Esperado: Defervescência progressiva em 48 a 72 horas; estabilidade hemodinâmica mantida
Se não melhora: Febre persistente além de 72 horas com tratamento adequado obriga a percorrer as quatro explicações, na ordem, e a procurar foco a distância. Hipotensão nova, taquipneia ou rebaixamento mudam o problema de categoria: é sepse, e o manejo está no capítulo de sepse na enfermaria desta apostila.
Esperado: Queda consistente a partir do segundo ou terceiro dia de tratamento eficaz
Se não melhora: É o melhor biomarcador de seguimento, e não de diagnóstico: uma proteína C reativa que não cai é motivo para reexaminar a articulação e procurar complicação, nunca para trocar o antimicrobiano isoladamente. E o inverso vale igual: proteína C reativa em queda com articulação que continua tensa e dolorosa não autoriza espaçar as punções.
Esperado: Agente identificado e esquema estreitado, com a mudança e a data escritas no prontuário
Se não melhora: Conferir cultura e qualidade da coleta. Negatividade com melhora durante antibiótico não prova diagnóstico não infeccioso; revisar probabilidade, drenagem e alternativas. Se persistir forte suspeita, discutir amostras adicionais e agentes especiais. Suspender antimicrobiano quando houver alternativa suficientemente sustentada, com plano de seguimento.
Esperado: Creatinina estável, diurese preservada, sem ototoxicidade referida
Se não melhora: Elevação de creatinina em uso de gentamicina ou de vancomicina obriga a revisar dose e intervalo agora, e não na visita seguinte. O ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática desta apostila. Aminoglicosídeo em dose fixa, sem conferência de peso e de função renal, é a prescrição que mais produz lesão renal evitável nesta doença.
Esperado: Glicemia controlada no diabético; ferida, úlcera ou cateter tratados ou removidos
Se não melhora: Hiperglicemia persistente costuma ser marcador de infecção mal controlada, e não apenas de insulinização insuficiente. Porta de entrada não tratada é recidiva marcada: a articulação reinfecta por onde a bactéria entrou, e a alta sem esse plano é alta incompleta.
Esperado: Foco identificado e tratado; ecocardiograma quando houver suspeita de endocardite
Se não melhora: Bacteremia por Staphylococcus aureus com artrite séptica obriga a procurar endocardite, abscesso a distância e outras articulações silenciosamente acometidas. Nesse cenário a artrite pode ser a manifestação visível de uma doença que está em outro lugar, e tratar só a articulação é tratar o sintoma.
Esperado: Retomada progressiva do apoio, da marcha e das atividades, com fisioterapia em curso
Se não melhora: Rigidez é a sequela que mais se produz por imobilização prolongada e que menos depende da bactéria. Se o paciente está infeccionalmente bem e funcionalmente parado, o problema é o plano de reabilitação, e ele se corrige prescrevendo movimento com nome, quantidade e horário — não com mais uma semana de repouso.
Esperado: Retomada do apoio e do uso do membro, choro que cede à mobilização, melhora do estado geral
Se não melhora: Criança que continua sem apoiar depois de 72 horas de tratamento adequado precisa de reimagem à procura de osteomielite associada — que é frequente nessa faixa, por disseminação a partir da metáfise — e de reavaliação da ortopedia pediátrica quanto à necessidade de nova drenagem. Na dúvida diagnóstica com leucemia, o mielograma é obrigatório antes de qualquer corticoide.
Esperado: Melhora clínica em 48 a 72 horas; passagem para via oral em torno de 2 semanas; término entre 4 e 6 semanas no adulto com articulação nativa
Se não melhora: Cada marca tem uma pergunta própria. Em 48 a 72 horas: das quatro explicações, qual é a desta articulação? Em 2 semanas: a melhora é sustentada, a proteína C reativa caiu e existe opção oral adequada ao agente? Em 4 a 6 semanas: houve osteomielite associada, bacteremia ou Staphylococcus aureus que justifique o extremo superior? Datas passam sozinhas; decisões não.
Onde o erro machuca
O dano: O antibiótico prévio pode reduzir o rendimento da cultura e dificultar o direcionamento do tratamento. A magnitude depende do agente, do intervalo e da técnica de coleta; não há garantia de positividade antes nem de esterilidade depois. O dano oposto também importa: atrasar antibiótico em sepse para preservar cultura pode piorar a evolução.
Como pegar a tempo: Avaliar gravidade e organizar coleta rápida. No estável, priorizar líquido antes do antimicrobiano quando viável. Na sepse ou deterioração, tratar prontamente, obtendo culturas sem atraso e acionando controle do foco em paralelo. Registrar os horários e a razão da sequência adotada.
O dano: É o erro que este capítulo existe para impedir. Cristais classificam gota e não excluem infecção: a coexistência é estimada em cerca de 1,5% dos casos, e a série que examinou 265 aspirados com cristais encontrou quatro culturas positivas, todas em pacientes com comorbidade importante. A população em que isso acontece é a do idoso diabético com doença renal — em quem a articulação perdida costuma vir junto com bacteremia. O dano é a cartilagem em dias e, com alguma frequência, o paciente.
Como pegar a tempo: Punção sempre que houver derrame com possibilidade de infecção, e cultura enviada mesmo com cristais presentes. Febre, fator de risco, aspecto purulento ou celularidade alta em paciente com cristais significam tratar como infecção até a cultura voltar. E lembre-se de que a história prévia de gota é fator de risco para punção, não argumento contra ela.
O dano: A faixa intermediária de celularidade discrimina pouco. Valores baixos também não excluem infecção, especialmente em imunossuprimidos. Percentuais pós-teste calculados com probabilidade inicial de 27% são um exercício baseado em população selecionada: não substituem a estimativa clínica individual, nem se transferem automaticamente para quem tem cristais ou prótese.
Como pegar a tempo: Use a celularidade como deslocamento de probabilidade, com a tabela deste capítulo ao lado, e combine com aspecto do líquido, Gram, fatores de risco e gravidade. Nenhuma faixa dispensa a cultura, e nenhuma faixa dispensa retorno marcado quando o paciente vai para casa.
O dano: O corticoide apaga a dor, a febre e a inflamação local, e apaga junto o parâmetro que diria em 48 horas se o tratamento está funcionando. Em quem tinha infecção, ele piora a evolução e atrasa o diagnóstico; em criança, pode mascarar e atrasar o diagnóstico de leucemia, e é por isso que o documento da Sociedade Brasileira de Pediatria pede mielograma antes do corticoide na dúvida. E a infiltração intra-articular tem risco próprio: o Protocolo Clínico da Artrite Reativa lista artrite séptica entre as complicações a monitorar depois dela.
Como pegar a tempo: A coleta feita, por si só, não torna corticoide seguro: é preciso avaliar se a infecção foi suficientemente afastada. Oferecer analgesia desde o começo. Corticoide crônico deve ser revisto com a equipe, sem suspensão abrupta; não confundir essa manutenção com aumentar a dose para tratar suposta atividade reumatológica.
O dano: Febre pode faltar e PCR, VHS ou leucograma normais não excluem infecção. No idoso e no imunossuprimido, a resposta pode ser discreta. Os marcadores ainda ajudam a acompanhar a evolução e precisam ser interpretados com o exame, a cultura e a presença de disfunção orgânica.
Como pegar a tempo: Colha os marcadores para servir de linha de base, e decida pelo líquido. Escreva no prontuário que a ausência de febre não afastou a hipótese, para que o próximo plantão não leia a temperatura normal como tranquilizadora.
O dano: Antimicrobiano sem controle adequado do foco pode deixar carga bacteriana, pressão e mediadores inflamatórios suficientes para manter lesão articular. A melhora da febre não garante esvaziamento nem recuperação funcional; reexaminar a articulação e pactuar drenagem com ortopedia é parte do tratamento.
Como pegar a tempo: Aspiração até secar quantas vezes forem necessárias, com volume e aspecto registrados a cada vez. Derrame que se refaz no mesmo volume ou líquido que não clareia em 48 a 72 horas é indicação de lavagem artroscópica ou aberta — acione a ortopedia com esse dado na mão, e não com a impressão de que não está melhorando.
O dano: Leva bactéria da pele para dentro de uma articulação que podia estar estéril, e transforma um diagnóstico em uma iatrogenia. Além disso, o resultado da cultura passa a ser ininterpretável: cresce um contaminante e ninguém sabe se ele estava dentro ou fora.
Como pegar a tempo: Inspecione a pele em toda a volta antes de escolher o ponto, e escolha pele íntegra. O joelho tem mais de um acesso, e a via superolateral costuma escapar da placa. Sem ponto íntegro disponível, a punção passa a ser guiada por imagem ou cirúrgica — e essa é a hora de acionar, não de improvisar.
O dano: Punção sem técnica e experiência adequadas compromete a segurança e a qualidade da amostra. Além disso, os cortes da articulação nativa não servem para excluir infecção periprotética. A interpretação depende do tempo desde a cirurgia, do padrão agudo/crônico e dos critérios adotados, sem um limiar único universal.
Como pegar a tempo: Prótese quente e dolorosa: hemoculturas, nada de antibiótico empírico à beira do leito, e acionamento da equipe que responde pela prótese no mesmo turno. A punção é dela, em centro cirúrgico.
O dano: Punção seca tem várias causas que não são ausência de líquido: posicionamento ruim, agulha fina demais, coleção loculada, articulação profunda, derrame pequeno em cavidade tensa. Registrar punção negativa como ausência de artrite fecha o caso do jeito errado e faz o próximo plantão não repetir a tentativa.
Como pegar a tempo: Registre punção seca com essas palavras, e não como ausência de derrame. Repita com orientação por ultrassom, que documenta o líquido e guia a agulha, ou acione quem punciona guiado. Punção seca em articulação claramente inflamada não muda a decisão de tratar.
O dano: Bursite séptica olecraniana ou pré-patelar e celulite periarticular se tratam com antibiótico, drenagem local quando indicada e acompanhamento, sem punção articular, sem seis semanas de esquema e sem internação prolongada. O erro custa dias de leito, punção desnecessária de uma articulação sadia e exposição a antimicrobiano largo. O erro simétrico também existe e é pior: chamar de bursite uma artrite e não puncionar.
Como pegar a tempo: A régua é a do movimento passivo e a da topografia do edema. Artrite dói a qualquer grau de movimento passivo e o derrame segue o contorno da cápsula; bursite tem edema delimitado sobre a proeminência óssea e tolera o movimento passivo; celulite tem placa que ultrapassa a articulação. Na dúvida entre as duas com a pele muito inflamada, o ultrassom separa em minutos.
O dano: É o erro administrativo com consequência clínica mais frequente desta doença. A cultura volta em dois a cinco dias, quando o paciente já mudou de equipe ou já foi para casa. Sem alguém encarregado de conferir, o esquema empírico largo é mantido até o fim, ou o paciente com cultura positiva e antibiótico errado segue piorando sem que ninguém releia o resultado.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário e na passagem de plantão quem vai conferir a cultura, em que data, e o que fazer com cada resultado possível. Quando o paciente for de alta antes do resultado, a conferência precisa ter nome e telefone de contato — a lista de pendências da equipe vale mais que a memória de quem colheu. A passagem estruturada é assunto do capítulo de passagem de plantão desta apostila.
O dano: Aumentar dose ou ampliar espectro sem reexaminar a articulação é a resposta reflexa ao paciente que não melhora, e ela adia justamente as duas causas mais comuns: a drenagem insuficiente e o diagnóstico errado. Enquanto o esquema é ajustado, o derrame continua se refazendo e a cartilagem continua sendo digerida.
Como pegar a tempo: Em 48 a 72 horas sem melhora, percorra na ordem: a articulação está sendo esvaziada de fato? O agente está coberto — o que a cultura mostrou? O diagnóstico está certo — cabe micobactéria, fungo, doença sistêmica, cristal relido? Existe complicação — osteomielite, abscesso, coleção loculada, endocardite? Só depois das quatro se mexe no antimicrobiano.
O dano: Rigidez articular é a sequela funcional que mais se produz por imobilização e menos pela bactéria. Um paciente curado da infecção com um joelho que não dobra perdeu a mesma função que teria perdido com a infecção — e perdeu por uma decisão médica evitável.
Como pegar a tempo: Imobilização em posição funcional por período curto, apenas para conforto, com mobilização passiva iniciada assim que a dor permitir e fisioterapia começada antes da alta. Prescreva movimento com nome, quantidade e horário, do mesmo jeito que se prescreve antimicrobiano.
O dano: A maior parte das artrites sépticas chega por via hematogênica a partir de um foco: úlcera de perna, pé diabético infectado, cateter, infecção urinária, uso de droga injetável, foco dentário. Curar a articulação e devolver o paciente com o mesmo foco ativo é agendar a recidiva — na mesma articulação ou em outra.
Como pegar a tempo: Procure e trate a porta de entrada durante a internação, remova cateter quando indicado, encaminhe a úlcera e o pé diabético, e escreva o plano na alta. No usuário de droga injetável, some a busca de endocardite e a oferta de redução de danos e de tratamento — o desfecho depende mais disso que do antimicrobiano.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa que decide este capítulo é a que convence um paciente com dor a deixar você enfiar uma agulha na articulação que dói. Ela dura dois minutos e acontece no pior momento possível: com a pessoa com medo, com dor, muitas vezes já com um diagnóstico na cabeça. Feita mal, ela produz recusa, e a recusa é o motivo mais comum de punção não realizada em serviço que tem quem punciona.
Três coisas fazem essa conversa funcionar. Dizer o que a punção faz pelo paciente agora — ela alivia, e isso é verdade e é imediato. Dizer o que se está procurando, sem catastrofizar e sem minimizar. E dizer o que muda conforme o resultado, para que a pessoa entenda que não é um exame a mais, é o exame que decide. O erro de linguagem mais caro aqui é a falsa tranquilização: quem ouve que provavelmente não é nada grave não entende por que vai ser furado, e recusa com razão.
Explicando por que a punção é necessária, ao paciente que tem medo
“Seu joelho está cheio de líquido, e é esse líquido sob pressão que está fazendo o senhor não conseguir dobrar. Eu vou tirar esse líquido com uma agulha, e vou fazer duas coisas ao mesmo tempo. A primeira o senhor vai sentir na hora: tirando o líquido, alivia a pressão e a dor melhora bastante, quase sempre ainda aqui na maca. A segunda é o motivo principal: eu preciso olhar esse líquido no microscópio. Existem duas causas comuns para um joelho ficar assim, e elas se tratam de jeitos completamente diferentes. Uma é a crise daquele problema de cristal que o senhor já teve. A outra é infecção dentro da articulação, e essa é a que estraga a cartilagem em poucos dias se a gente demorar. Pelo lado de fora eu não consigo diferenciar as duas, e ninguém consegue — nem eu, nem um exame de sangue, nem uma radiografia. Só o líquido responde. Vou limpar a pele, colocar um anestésico na pele que arde uns cinco segundos, e depois o senhor sente pressão, não dor aguda. Leva uns dez minutos no total. Se quiser, sua filha pode ficar aqui do lado.”
Não diga: Vou espetar aqui só para ver o que tem. É rapidinho, não dói nada. Provavelmente não é nada grave, mas o protocolo manda puncionar. O senhor prefere que eu não fure?
Ao paciente que já sabe que é gota e não quer ser puncionado
“Eu acredito no senhor, e a história bate com gota: foi rápido, o senhor já teve igual, e da outra vez o remédio resolveu. Mesmo assim eu vou puncionar, e vou explicar exatamente por quê, porque não é desconfiança da sua história. Quem tem gota também pega infecção na articulação — e não é só que pode: é que quem tem gota tem mais chance, porque a articulação já está machucada por dentro. E quando as duas coisas acontecem juntas, o quadro é idêntico ao de uma crise comum. Encontrar cristal no líquido confirma que o senhor tem gota, mas não descarta a infecção; são duas perguntas diferentes, e o cristal só responde uma. A diferença prática é grande: se for só a crise, o senhor vai para casa hoje com remédio. Se tiver infecção junto, o senhor fica internado, toma antibiótico na veia e a gente esvazia o joelho todo dia — e se isso não for feito nos primeiros dias, a cartilagem se perde e não volta. Por isso eu não estou disposto a decidir isso pelo palpite, nem no seu caso, que é o caso em que o palpite tem mais chance de estar certo.”
Não diga: É protocolo, todo mundo tem que puncionar. Se o senhor não deixar, eu assino aqui que o senhor recusou. Deve ser gota mesmo, mas vamos por garantia.
Enquanto ainda não se sabe: o que dizer sobre a incerteza
“Vou ser direto sobre o que eu sei e o que eu ainda não sei. Eu sei que tem líquido inflamado dentro dessa articulação, e sei que o senhor está com dor forte. O que eu ainda não sei é a causa, e a resposta vem em duas etapas. A primeira parte sai em cerca de uma hora: a contagem de células e a procura de cristais. Ela não fecha o diagnóstico, mas já me diz o quanto eu tenho que me preocupar com infecção. A segunda parte é a cultura, e ela demora de dois a cinco dias, porque a bactéria precisa crescer. Enquanto essa segunda parte não chega, eu vou tomar a decisão pelo lado mais seguro. Se a primeira parte apontar infecção, eu começo o antibiótico hoje mesmo, sem esperar, porque nessa doença esperar custa articulação. Pode acontecer de a cultura vir negativa depois e a gente concluir que não era infecção — e isso vai ser uma boa notícia, não um erro. O que eu não posso fazer é o contrário: esperar para ter certeza.”
Não diga: Vamos aguardar os exames e amanhã a gente vê. Ainda não dá para falar nada. É melhor não criar expectativa antes do resultado.
Quando o resultado indica infecção e o paciente vai ficar internado
“O líquido que eu tirei do seu joelho veio purulento e com muita célula de defesa, e isso quer dizer infecção dentro da articulação. Vou explicar o que muda a partir de agora. O senhor vai ficar internado e vai começar antibiótico na veia hoje. E tem uma segunda parte do tratamento que costuma surpreender: só o antibiótico não resolve. A articulação é um espaço fechado, sem circulação por dentro da cartilagem, e o que destrói a cartilagem são as enzimas que ficam nesse líquido. Então a gente precisa esvaziar a articulação, e provavelmente mais de uma vez — pode ser com agulha, repetindo nos próximos dias, ou pode ser numa lavagem feita no centro cirúrgico, e quem decide isso é a equipe da ortopedia, junto comigo, conforme a resposta. O tratamento inteiro leva de quatro a seis semanas, boa parte dele com comprimido, em casa. Eu vou saber se estamos no caminho certo em dois ou três dias: a dor tem que cair, a febre tem que ceder e o senhor tem que conseguir dobrar mais o joelho do que consegue hoje. Se isso não acontecer, a gente revê tudo.”
Não diga: É uma infecção séria, o senhor pode perder o movimento da perna. Vamos dar o antibiótico e ver o que acontece. A cirurgia só se piorar.
Quando a cultura não cresceu e o antibiótico vai continuar
“A cultura do seu líquido não cresceu nenhuma bactéria, e eu quero explicar por que a gente vai continuar o antibiótico mesmo assim, porque essa notícia costuma soar contraditória. Cultura negativa não quer dizer que não havia infecção. Quer dizer que a bactéria não cresceu no exame, e existem motivos comuns para isso: às vezes o número de bactérias é pequeno, às vezes o transporte da amostra atrapalha. O que me guia agora é o conjunto: o líquido veio com aspecto e contagem de infecção, e o senhor melhorou com o tratamento — a dor caiu, a febre cedeu e o joelho está dobrando mais. Isso é resposta a antibiótico, e é um argumento forte. Então vamos completar o tempo, e não parar no meio, porque parar no meio é o que faz voltar. A parte ruim, e eu vou ser honesto, é que sem identificar a bactéria eu não consigo usar um antibiótico mais direcionado, e o senhor fica com um mais amplo do que o ideal. É o custo de não termos a identificação, e é uma das razões pelas quais a gente colhe antes de tratar.”
Não diga: Deu negativo, mas vamos manter por precaução. O exame provavelmente falhou. Não deu nada, então não sabemos o que o senhor teve.
Ao adulto jovem quando a hipótese é gonococo
“Preciso conversar sobre uma possibilidade, e vou falar com clareza porque isso muda o tratamento. Essa combinação que você tem — a articulação inflamada, a dor ao longo dos tendões e essas lesões pequenas na pele — é bastante característica de uma bactéria que se transmite pela relação sexual e que, em algumas pessoas, cai na circulação e se aloja nas articulações. É tratável e responde bem, mas o antibiótico é diferente do que eu usaria numa infecção comum de pele. Para confirmar, eu preciso colher material de alguns locais além da articulação, porque essa bactéria costuma crescer melhor ali do que no líquido articular. Vou te perguntar algumas coisas sobre suas práticas sexuais, e não é curiosidade nem julgamento: é o que define de onde eu colho. Vou também te oferecer teste para outras infecções que costumam vir junto, incluindo HIV e sífilis. E vamos precisar falar sobre suas parcerias, porque elas provavelmente precisam ser tratadas também, mesmo sem sintoma. Tudo isso é sigiloso.”
Não diga: Você deve ter pegado alguma coisa por aí. Preciso saber com quantas pessoas você transou. É uma doença venérea, vou ter que avisar seu parceiro.
Aos pais da criança que vai ser puncionada e provavelmente operada
“Vou explicar o que estou pensando e o que vamos fazer nas próximas horas. O quadril da sua filha está com líquido dentro, ela não apoia o pé e chora quando eu giro a perna. A principal possibilidade é infecção dentro da articulação, e no quadril essa é uma situação de urgência, porque a cabeça do fêmur é frágil nessa idade e o dano acontece em dias, não em semanas. O quadril é uma articulação profunda, então não dá para puncionar aqui na maca: vamos fazer um ultrassom agora para confirmar o líquido, e a ortopedia pediátrica vai puncionar com orientação de imagem, muito provavelmente já no centro cirúrgico, onde eles conseguem lavar a articulação no mesmo tempo se confirmar. Ela vai precisar de antibiótico na veia, e o tratamento é longo. Eu sei que é assustador ouvir centro cirúrgico assim de uma vez, e vou te dizer por que a gente não espera: quando é infecção e a gente drena logo, a maioria das crianças fica sem sequela nenhuma. Quando se espera para ter certeza, é a articulação que paga. Existe a chance de não ser infecção, e ser uma inflamação passageira depois de uma virose — isso é comum nessa idade. Mas essa diferença também só o líquido responde.”
Não diga: Provavelmente é só uma sinovite de virose, mas vamos fazer uns exames. Não se preocupem. Se piorar a gente opera.
Quando ficou sequela, e é preciso dizer
“Quero conversar sobre o que a gente conseguiu e sobre o que ficou. A infecção está controlada: a cultura negativou, os exames de inflamação estão normais e o senhor completou o tratamento. O que não voltou ao normal foi o movimento — o joelho está indo até uns noventa graus e não está indo além, e eu não quero prometer que ele volte a ser exatamente como era. Parte disso ainda pode ganhar com fisioterapia nos próximos meses, e por isso eu não vou dar isso como definitivo hoje. Parte é dano da própria infecção na cartilagem, que aconteceu antes de o senhor chegar aqui. Eu não vou ficar dizendo que está tudo bem, porque não está tudo bem, e o senhor sabe disso melhor que eu. O que eu posso fazer é ser objetivo sobre o plano: fisioterapia com o número de sessões marcado, reavaliação em três meses com medida do movimento, e conversa com a ortopedia se estabilizar num ponto que atrapalhe sua vida. E o senhor não perdeu tempo nem fez nada errado: essa doença faz dano rápido, e é por isso que a gente insistiu tanto na pressa.”
Não diga: Podia ter sido pior. Com o tempo melhora. O senhor demorou a procurar, por isso ficou assim. Não tem mais nada a fazer.
A rede de segurança, dita e entregue por escrito na alta
“Antes do senhor sair, essa é a parte mais importante e eu vou deixar por escrito. Cinco coisas trazem o senhor de volta no mesmo dia, sem esperar a data do retorno e sem marcar. Primeira: febre. Segunda: a dor voltar a aumentar, depois de ter diminuído. Terceira: a articulação encher de novo, ficar inchada como estava. Quarta: parar de conseguir mexer o que o senhor já estava conseguindo. Quinta: sair secreção pela ferida, se houver ferida. Aqui está a data do seu retorno, aqui está o antibiótico com a data em que ele termina, e aqui está o pedido da fisioterapia, que começa esta semana e não depois. O senhor pode me repetir quais são as cinco coisas, para eu ter certeza de que ficou claro?”
Não diga: Qualquer coisa procure um pronto-socorro. Se piorar muito, volte. O senhor vai perceber se for grave. Tome o antibiótico até acabar a caixa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Aspiração repetida até secar, com artroscopia como alternativa equivalente
As articulações sépticas devem ser aspiradas até secar tantas vezes quantas forem necessárias, por agulha fechada ou por via artroscópica. Tanto a artroscopia quanto a aspiração por agulha apresentam desfecho favorável, e não há evidência suficiente para recomendar uma em detrimento da outra. Na suspeita de sepse de quadril, porém, a referência ortopédica precoce deve ser organizada, e o desbridamento aberto urgente é frequentemente necessário.
Coakley G e col., BSR & BHPR, BOA, RCGP e BSAC, Rheumatology (Oxford), 2006;45(8):1039-1041; e Weston V, Coakley G, J Antimicrob Chemother, 2006;58(3):492-493
Artrotomia como procedimento terapêutico definitivo, sobretudo na criança
O tratamento se apoia em diagnóstico precoce, aspiração do líquido articular realizada antes do início do antibiótico, artrotomia como procedimento terapêutico definitivo e uso correto dos agentes antimicrobianos; a drenagem cirúrgica precoce associada à antibioticoterapia prolongada produz melhor prognóstico do que qualquer conduta menos agressiva. A aspiração deve ser feita em centro cirúrgico, nas mesmas condições, para que possa ser convertida em artrotomia no mesmo tempo se o líquido aspirado for sugestivo.
Matos MA, Guarniero R, Godoy Júnior RM, Artrite séptica do quadril, Rev Bras Ortop, 2006;41(6):187-194
Escolha em aberto e sob revisão formal
Entre as perguntas clínicas estruturadas que abrem a atualização da diretriz de 2006 está exatamente esta: se a intervenção cirúrgica deve ser considerada em todos os casos ou se a artrocentese repetida é suficiente. O documento de escopo registra também que auditorias mostraram adesão consistentemente ruim à diretriz existente.
Arumalla N e col., British Society for Rheumatology guideline scope, Rheumatol Adv Pract, 2025;9(3):rkaf058
Aplicar a recomendação atual ao cenário: envolver ortopedia cedo e considerar desbridamento, especialmente nas grandes articulações. Aspirações seriadas podem ser selecionadas em condições específicas; não constituem uma etapa obrigatória de 48–72 horas antes da discussão cirúrgica. Em sepse, coleta, antimicrobiano e controle do foco avançam em paralelo.
Até duas semanas endovenoso, seguidas de cerca de quatro semanas por via oral
Convencionalmente, os antibióticos são administrados por via endovenosa por até duas semanas, ou até que os sinais melhorem, e depois por via oral por cerca de quatro semanas.
Weston V, Coakley G, J Antimicrob Chemother, 2006;58(3):492-493
Três a quatro semanas de duração total na artrite não gonocócica
A duração recomendada do tratamento é de três a quatro semanas na artrite séptica não gonocócica; na artrite gonocócica, 24 a 48 horas de ceftriaxona endovenosa seguidas de terapia oral.
Horowitz DL e col., Approach to septic arthritis, Am Fam Physician, 2011;84(6):653-660
Duas semanas, no protocolo hospitalar brasileiro consultado
Artrite séptica por Staphylococcus aureus ou Neisseria gonorrhoeae: oxacilina 2 g de 4 em 4 horas mais gentamicina 240 mg uma vez ao dia por duas semanas; ou clindamicina 600 mg endovenosa de 8 em 8 horas mais ceftriaxona 2 g ao dia por duas semanas.
Hospital Universitário Júlio Bandeira de Mello (Ebserh/UFCG), Protocolo de Uso Racional de Antimicrobianos PRT.STGQ.001, versão 4, 2023
Recomendação histórica pediátrica — não adotar como regra atual
O documento antigo citado descrevia três semanas parenterais seguidas de três semanas orais. A PIDS/IDSA 2023 admite cursos totais mais curtos em artrite primária selecionada, com resposta rápida e sem osteomielite. A comparação mostra a evolução da evidência e não autoriza encurtar todo caso complicado.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia, Artrite aguda em crianças e adolescentes, Documento Científico nº 12, novembro de 2020
A duração depende do agente, controle do foco, resposta e complicações. A SANJO 2023 oferece uma referência de fase EV e oral para articulação nativa sem complicações, com evidência limitada. Bacteremia por S. aureus, endocardite, prótese e osteomielite mudam o plano. Na criança, aplicar a diretriz PIDS/IDSA 2023 e não a regra histórica de três semanas EV mais três VO.
Acima de 85.000 células, tratar; abaixo, tratar clinicamente e observar
Um corte de 85.000 células/mm³ pode ser mais apropriado para diagnosticar artrite séptica concomitante à artropatia por cristais; recomenda-se manejo clínico e observação nos pacientes com aspirado positivo para cristais, a menos que a contagem esteja acima de 85.000/mm³. Na série, os três casos de infecção concomitante tinham 85.000, 115.500 e 175.000 células, e nenhum infectado ficou abaixo do corte.
Luo TD e col., Synovial cell count poorly predicts septic arthritis in the presence of crystalline arthropathy, J Bone Jt Infect, 2020;5(3):118-124
Acima de 50.000 células, suspeita alta — e abaixo, a suspeita não some
Na coorte de 442 pacientes com artropatia por cristais em articulação nativa, a celularidade acima de 50.000 associou-se a razão de chances de 7,7 (IC 95% 4,06 a 14,62) para cultura positiva; ainda assim, 17 dos 279 pacientes com celularidade igual ou inferior a 50.000 tiveram cultura positiva. Refeitas as contas a partir desses absolutos, o corte de 50.000 tem sensibilidade de 66,7% e valor preditivo negativo de 93,9%.
Skalitzky MK e col., Predicting septic arthritis in the setting of crystalline arthropathy in the native joint using laboratory data, Iowa Orthop J, 2024;44(1):69-72
Nenhum corte substitui a cultura
A artrite séptica pode coexistir raramente com gota ou pseudogota, em cerca de 1,5% dos casos, e por isso a cultura do líquido sinovial está indicada apesar do achado de cristais. A presença de cristais não afasta o diagnóstico de infecção.
Carpenter CR e col., Acad Emerg Med, 2011;18(8):781-796; e Horowitz DL e col., Am Fam Physician, 2011;84(6):653-660
As duas séries que propõem cortes chegam a conclusões opostas sobre a mesma pergunta, e a diferença tem explicação: uma teve três eventos e a outra teve cinquenta e um. Com três eventos, a afirmação de que ninguém abaixo do corte estava infectado é compatível com muita coisa, inclusive com a taxa de 6,1% que a série maior encontrou abaixo de 50.000. Por isso este capítulo não adota corte de exclusão. A decisão para o paciente à sua frente se toma assim: mande a cultura sempre, qualquer que seja a celularidade e havendo cristais ou não. Trate empiricamente como infecção quem tiver celularidade acima de 50.000, aspecto purulento, febre, ou qualquer dos fatores de risco — idade avançada, diabetes, artrite reumatoide, prótese ou cirurgia articular prévia, infecção de pele, imunossupressão, droga injetável —, mesmo com cristais presentes. Não trate empiricamente, mas mantenha a cultura e marque o retorno com data, no paciente afebril, sem fator de risco, com episódios prévios idênticos, celularidade abaixo de 25.000 e melhora com o tratamento sintomático. E deixe a distância decidir os casos do meio: para quem mora longe, não tem transporte ou não vai conseguir voltar, o limiar de tratar cai, porque a reavaliação seriada — que é o que torna a observação segura — deixa de ser uma alternativa real.
Penicilina antiestafilocócica associada a aminoglicosídeo
Artrite séptica: oxacilina 2 g de 4 em 4 horas mais gentamicina 240 mg uma vez ao dia, por duas semanas, como primeira escolha; clindamicina 600 mg endovenosa de 8 em 8 horas mais ceftriaxona 2 g ao dia como segunda escolha.
Hospital Universitário Júlio Bandeira de Mello (Ebserh/UFCG), Protocolo de Uso Racional de Antimicrobianos PRT.STGQ.001, versão 4, 2023
Esquema por perfil de risco, com glicopeptídeo reservado a quem tem risco de resistência
Sem risco atípico, penicilina antiestafilocócica endovenosa em dose alta; na alergia a penicilina, clindamicina 450 a 600 mg quatro vezes ao dia ou cefalosporina de segunda ou terceira geração; com risco de Gram-negativo, cefuroxima 1,5 g de 8 em 8 horas; com risco de estafilococo resistente à meticilina, vancomicina endovenosa associada a cefalosporina de terceira geração; na suspeita de gonococo ou meningococo, ceftriaxona endovenosa. O esquema é apresentado para orientar a elaboração de políticas locais.
Coakley G e col., Rheumatology (Oxford), 2006;45(8):1039-1041
Esquema guiado pelo Gram do líquido, quando ele já está disponível
Cocos Gram-positivos, vancomicina; cocos Gram-negativos, ceftriaxona; bacilos Gram-negativos, ceftazidima; Gram sem microrganismos, vancomicina associada a ceftazidima ou a aminoglicosídeo.
Horowitz DL e col., Am Fam Physician, 2011;84(6):653-660
Escolher cobertura para S. aureus e acrescentar espectro conforme foco provável, Gram, risco de resistentes e epidemiologia local. Protocolos históricos explicam opções, mas não substituem essa avaliação. Alergia exige descrição da reação, e aminoglicosídeo exige cálculo por peso e função renal. Rever o esquema assim que microbiologia e evolução permitirem.
Existe dose escrita em documento normativo brasileiro para artrite aguda não infecciosa
No tratamento das manifestações articulares agudas, prednisona 5 a 20 mg, uma a duas vezes ao dia, pelo menor tempo necessário ao controle; ou glicocorticoide de depósito por via intramuscular ou periarticular; ou acetato de metilprednisolona intra-articular em dose única. E, quando indicada a infiltração intra-articular ou em bainha tendínea com glicocorticoide, os pacientes devem ser monitorados por risco de complicações como artrite séptica e ruptura tendínea.
Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reativa, Portaria Conjunta nº 6, de 22 de abril de 2021, itens de tratamento e de monitoramento
Nenhum corticoide antes de a infecção estar afastada, sobretudo na criança
A infiltração articular com glicocorticoide ou o uso oral pode ter indicação nos casos de artrite prolongada, ressaltando-se que as artrites séptica e neoplásica devem ser rigorosamente excluídas; e o mielograma deve ser sempre realizado na dúvida diagnóstica com as leucemias, em especial quando o uso de corticosteroides for indicado.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia, Documento Científico nº 12, novembro de 2020
Não iniciar corticoide para suposta artrite inflamatória nem infiltrar enquanto a hipótese infecciosa permanecer relevante. A punção concluída não é, sozinha, autorização para corticoide. Analgesia pode começar antes da coleta. Corticoide crônico e eventual insuficiência adrenal são decisões separadas, a discutir com o supervisor.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Anísio Bertoldo, 64 anos, terça-feira, 14h40. Joelho direito quente, com derrame e contorno apagado, há dois dias; hoje não apoia o pé. Duas crises prévias de podagra tratadas como gota, com boa resposta; desta vez o mesmo remédio comprado na farmácia não fez efeito. Diabético tipo 2 há quinze anos, em metformina e insulina NPH. Temperatura axilar 37,9 °C, glicemia capilar 318 mg/dL. Ao exame: derrame palpável com sinal da tecla positivo, dor a qualquer grau de movimento passivo, flexão limitada a 20 graus, eritema sobre a articulação sem porta de entrada visível, nenhuma outra articulação inflamada. Pressão arterial 132 por 78 mmHg, frequência cardíaca 96, frequência respiratória 18, saturação 97%.
o que penso agora, antes de qualquer hipótese
Anísio não apresenta instabilidade evidente nos dados fornecidos; ainda procuro disfunção orgânica e acompanho a evolução, pois sinais vitais isolados não excluem sepse. O derrame, a dor à mobilização passiva e a limitação apontam para processo intra-articular. A história de gota não retira a indicação de coleta neste episódio atípico, e a analgesia pode começar enquanto a equipe organiza a punção.
o que a história de gota faz com a minha probabilidade
Crises prévias tornam gota plausível, mas diabetes, idade e apresentação diferente mantêm a possibilidade de coinfecção. O risco deve ser estimado para este cenário. Os 27% de uma população selecionada não são a probabilidade individual obrigatória do Anísio; o motivo para agir é a combinação de fatores e o custo de perder uma infecção.
o que eu faço e em que ordem
Acesso venoso, duas hemoculturas de sítios diferentes, hemograma, proteína C reativa, velocidade de hemossedimentação, função renal e coagulograma. E então a punção, antes de qualquer antimicrobiano: via superolateral do joelho, pele íntegra, seringa de 20 mL, aspirando até secar. Saem 55 mL de líquido turvo, espesso, amarelo-esverdeado. Mando para contagem de células com diferencial em tubo com anticoagulante, pesquisa de cristais sob luz polarizada, Gram e cultura com antibiograma, e inoculo parte do aspirado direto no frasco de hemocultura. Registro no prontuário: 55 mL, turvo e espesso. Ele diz, ainda na maca, que a dor caiu pela metade.
a primeira resposta chega em uma hora, e ela não fecha nada
Contagem de 62.000 células/mm³ com 91% de polimorfonucleares. Pesquisa de cristais: presença de cristais de urato monossódico, em agulha, com birrefringência negativa. Gram: sem microrganismos visualizados. É exatamente o resultado que produz o erro que este capítulo tenta impedir — porque há cristal, e a tentação é encerrar.
como eu leio esse resultado, número por número
62.000 células/mm³ com predomínio de neutrófilos aumentam a suspeita de infecção, mas gota pode produzir celularidade semelhante. Cristais demonstram deposição de urato, sem excluir bactéria. Gram negativo não afasta uma infecção de forma confiável. Não somo ou multiplico mecanicamente celularidade e neutrófilos, nem atribuo a ele 74% usando uma prevalência de outro estudo. Pela apresentação atípica e pelos fatores de risco, trato a suspeita de artrite séptica após a coleta, com internação e plano de drenagem.
o que eu prescrevo
Internação. Oxacilina 2 g EV de 4 em 4 horas, o que dá 12 g ao dia e 24 frascos de 500 mg no dia — combino isso com a enfermagem na hora de prescrever. Associo cobertura para Gram-negativo pelo perfil dele, idoso diabético, e prefiro ceftriaxona 2 g EV ao dia a aminoglicosídeo, porque a creatinina dele é 1,4 mg/dL e o dano do aminoglicosídeo é justamente renal. Dipirona 1 g EV de 6 em 6 horas se dor, teto de 4 g ao dia. Insulina conforme protocolo, porque a glicemia de 318 mg/dL é parte do quadro infeccioso e não um detalhe. Nenhum corticoide, nenhum anti-inflamatório por enquanto. Aciono a ortopedia no mesmo turno e escrevo no prontuário a hora do acionamento e o nome de quem atendeu. E marco: a cultura será conferida em 48 horas, por mim.
o contrafactual, dito em voz alta
Dar alta atribuindo tudo à gota poderia deixar uma infecção sem tratamento. Iniciar antibiótico sem organizar coleta e controle do foco, quando havia punção rápida disponível e estabilidade, perderia uma oportunidade diagnóstica. Contudo, antibiótico prévio não torna a cultura obrigatoriamente negativa nem impede revisão posterior. Se Anísio estivesse em sepse, tratar primeiro seria correto, com coleta em paralelo.
dia 2 — a cultura volta
Dia 2: S. aureus sensível à oxacilina no líquido e nas duas hemoculturas permite suspender ceftriaxona e manter tratamento dirigido, conforme a equipe. Solicito hemoculturas de controle para documentar negativação, investigo endocardite e outros focos e confirmo o plano de drenagem com ortopedia. A bacteremia associada a foco articular profundo exige avaliação específica de duração e via. A redução de dor e derrame é favorável, mas não substitui esse controle microbiológico e anatômico.
dia 3 — o que eu confiro, e a decisão da drenagem
Dia 3: ausência de febre, PCR em queda e ganho de movimento sugerem resposta. Confiro o controle do foco acordado com ortopedia, incluindo se houve drenagem suficiente e se resta indicação de lavagem. Uma estratégia de aspirações seriadas só continua se foi explicitamente selecionada e houver resposta sustentada; melhorar não demonstra que a cirurgia nunca seria necessária. Piora sistêmica, derrame persistente ou novo abscesso exigem revisão imediata.
o plano até a alta, com data
O plano de Anísio é o de infecção articular com bacteremia por S. aureus. A infectologia define via e duração a partir da negativação das hemoculturas, exclusão ou confirmação de endocardite, controle do foco e evolução; não programo troca automática para VO em duas semanas. Organizo reabilitação quando o controle da infecção e a situação da articulação permitirem. A alta exige esquema executável, data e critérios de revisão, acesso ao tratamento, retorno e orientação para febre, piora da dor, novo derrame ou secreção.
e a Sabrina, duas macas adiante
Mesma tarde, mesma frase na triagem, outra doença. Punho esquerdo inchado há dois dias, dor ao longo dos tendões extensores com dor à extensão passiva dos dedos, quatro lesões pustulosas em antebraço e perna, febre baixa na semana anterior. O achado que reorganiza tudo é a tenossinovite: o processo está na bainha do tendão, e não dentro da cavidade. Punciono o punho pela via dorsal e sai pouco líquido, que mando mesmo assim. Colho material de uretra, colo do útero, reto e faringe conforme a prática sexual, por biologia molecular. Prescrevo ceftriaxona 1 g EV ao dia, para completar ao menos sete dias, com azitromicina 500 mg, 2 comprimidos, em dose única, conforme o protocolo nacional de IST. A cultura do líquido articular dela pode não crescer — e isso não vai desfazer o diagnóstico. O tratamento das parcerias, a testagem para as demais infecções e a notificação seguem pelo capítulo de sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis desta apostila.
o que os dois casos ensinam juntos
Os dois casos mostram por que exame, coleta e contexto se completam. No Anísio, cristais coexistiram com infecção confirmada; na Sabrina, tenossinovite e lesões cutâneas ampliaram a suspeita de gonococo. A coleta antes do antibiótico é uma oportunidade a preservar no estável, sem atrasar o tratamento de quem apresenta sepse.
Faça você
Quinta-feira, 22h10, pronto-socorro. Dona Marlete Sampaio, 58 anos, com artrite reumatoide há doze anos, em uso de metotrexato semanal e prednisona 10 mg ao dia. Punho direito inchado e doloroso há três dias, sem trauma. Ela conta que a doença dela sempre incomoda os punhos, mas que desta vez está diferente: dói muito mais, ela não consegue girar a mão e não melhorou com o anti-inflamatório que costuma tomar. Afebril, temperatura axilar 36,8 °C. Ao exame: punho direito com edema que segue o contorno articular, quente, doloroso a qualquer grau de movimento passivo, com pronossupinação praticamente abolida; as demais articulações estão no padrão habitual dela, com deformidades antigas e sem sinais inflamatórios agudos. Pele íntegra. Exames: leucócitos 9.100/mm³, proteína C reativa 4,8 mg/dL, velocidade de hemossedimentação 52 mm na primeira hora, creatinina 0,9 mg/dL. Punção do punho pela via dorsal, antes de qualquer antimicrobiano: 4 mL de líquido turvo, com 41.000 células/mm³ e 88% de polimorfonucleares, pesquisa de cristais negativa e Gram sem microrganismos visualizados.
leitura da história
Três dados pesam e nenhum deles é a febre. Ela tem artrite reumatoide, que está na lista de fatores que aumentam significativamente a probabilidade de artrite séptica. Está em corticoide e metotrexato, o que atenua febre, calor e rubor. E o quadro destoa do padrão habitual da doença dela — uma articulação claramente mais inflamada que as outras, em quem tem doença poliarticular conhecida, é justamente o cenário em que a artrite séptica se esconde atrás da doença de base.
leitura do exame
Dor ao movimento passivo e edema articular sustentam origem intra-articular. Ausência de febre e leucograma normal não afastam infecção, especialmente sob imunossupressão. PCR de 4,8 mg/dL documenta inflamação, mas pode refletir mais de uma causa; serve também de referência para acompanhar a evolução.
leitura do líquido, número por número
A celularidade de 41.000/mm³ e os 88% de neutrófilos não distinguem com segurança infecção de inflamação não infecciosa. No imunossuprimido, cortes são menos confiáveis. Gram e cristais negativos tampouco excluem suas respectivas hipóteses. Não atribuir automaticamente probabilidade de 28%: o risco inicial dela depende do quadro e das comorbidades.
a decisão
— sua vez —
Ver como fecharíamos
A apresentação sustenta suspeita relevante de artrite séptica: monoartrite desproporcional ao padrão habitual, imunossupressão e limitação importante. Internar, conferir cultura do líquido já colhido, obter hemoculturas conforme suspeita de bacteremia e iniciar cobertura antiestafilocócica com o supervisor, ampliando para Gram-negativos ou MRSA conforme risco real e epidemiologia local. Imunossupressão isolada não escolhe automaticamente vancomicina. Acionar ortopedia precocemente para controle do foco do punho. Não aumentar prednisona nem infiltrar interpretando o quadro como atividade da artrite reumatoide; revisar a manutenção do corticoide crônico sem suspensão abrupta. A cultura negativa em cinco dias, com melhora durante antibiótico, não prova surto da doença de base: a própria infecção pode estar respondendo. Rever coleta, antibiótico prévio, evolução e alternativas com ortopedia, infectologia e reumatologia. Suspender antimicrobiano apenas se a avaliação sustentar suficientemente outro diagnóstico, com retorno e responsável pelo acompanhamento. Registrar o que ainda falta esclarecer, evitando que a ausência de um resultado positivo seja confundida com exclusão da doença.
A celularidade intermediária, o Gram negativo e a ausência de febre não afastam artrite séptica. Artrite reumatoide, imunossupressão e monoartrite diferente do padrão habitual sustentam a suspeita: internar, tratar após a coleta e organizar controle do foco. Não aplicar a ela uma probabilidade fixa de um estudo, nem concluir surto reumatológico apenas porque a cultura foi negativa e houve melhora durante antibiótico. Rever o corticoide crônico sem suspensão abrupta.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare uma monoartrite estável com outra acompanhada de confusão e hipotensão. Explique quando colher antes do antibiótico e quando tratar enquanto a coleta é organizada.
Em 30 dias
Reavalie um paciente que continua com derrame e dor após 48 horas. Discuta controle do foco, agente/resistência, diagnóstico alternativo e complicação, sem usar melhora parcial ou cultura negativa como prova de cura.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 71 anos, hipertenso e com doença renal crônica em acompanhamento, trazido pela esposa ao pronto-socorro por dor e inchaço no tornozelo esquerdo há três dias, sem trauma. Ele tem uma úlcera venosa crônica na perna do mesmo lado, tratada em casa com curativos. Está confuso desde ontem, segundo a esposa, e não quis levantar da cama hoje. Temperatura axilar 37,2 °C. Decida a velocidade do caso, defenda a decisão de puncionar ou não puncionar — e, se decidir puncionar, diga por onde —, escreva quais exames vão no líquido e no sangue, e escreva a prescrição inteira com dose, via, frequência e duração, explicando o que precisa começar imediatamente, quais coletas cabem sem atraso e o que exige supervisão especializada.
