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Clínica MédicaReumatologia

O cristal não absolve

Gota e artrites por cristais

Monoartrite aguda por cristais: a punção que decide, a crise que se trata e a doença que fica

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.

Castelar Pinheiro GR, Loures MAAR, Andrade LEC, Brito FA, Vasconcellos LS. Brazilian Society of Rheumatology and Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine recommendation for serum uric acid test reports on patients undergoing treatment for gout. Advances in Rheumatology, 2024;64:73. DOI 10.1186/s42358-024-00415-6.

FitzGerald JD, Dalbeth N, Mikuls T, e col. 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout. Arthritis Care & Research, 2020;72(6):744-760. DOI 10.1002/acr.24180.

Colchicina 0,5 mg comprimido. Bula para o profissional de saúde. Geolab Indústria Farmacêutica S/A, versão V.03 de 06/2018, conforme Bula Padrão aprovada pela Anvisa em 16/12/2016. Registro MS 1.5423.0203.

Alopurinol 100 mg e 300 mg comprimidos. Bula para o profissional de saúde. Novartis Biociências S/A, versão VPS07.

01

Responda antes de ler

Paciente de 63 anos, em uso de alopurinol 300 mg ao dia há três anos por gota, chega ao pronto-socorro com crise aguda em joelho. A punção mostra cristal de urato monossódico, Gram negativo, e a cultura está em andamento. Qual conduta em relação ao alopurinol?

02

O paciente que você vai ver

Cinco e quarenta da manhã de uma terça-feira. O hospital é geral, atende uma cidade média do interior e tem o pronto-socorro clínico encostado na rampa das ambulâncias. A fila da madrugada já escoou, a da manhã ainda não chegou, e esses quarenta minutos são a única calma do plantão do interno da noite. É quando o Milton Zaqueu entra mancando, com o pé direito descalço e o tênis na mão.

Ele tem 57 anos, dirige caminhão numa transportadora de grãos, pesa 92 quilos e senta na maca antes que alguém peça. Tira a meia sozinho, com cuidado, do jeito de quem já ensaiou o movimento. O hálux direito está vermelho-escuro, brilhante, inchado até apagar a prega da articulação, e a pele em volta descama de leve na borda — descamação que, ele conta, aparece uns dias depois de cada crise. Não deixa você encostar. Diz que começou anteontem à noite, que acordou às três da manhã com a sensação de que o dedo estava sendo esmagado, e que hoje não conseguiu calçar o pé para trabalhar.

Ele já sabe o nome. Diz gota antes de você perguntar, e diz com a segurança de quem está na terceira vez em oito meses. Traz duas coisas na sacola. A primeira é a caixa de um comprimido pequeno que a farmácia vendeu na crise passada; ele tomou seis ontem, espaçados, e passou a noite com diarreia sem que o pé melhorasse. A segunda é um papel de laboratório, colhido há dez dias porque a médica da unidade pediu: ácido úrico de 5,9 mg/dL. Abaixo do limite superior impresso ao lado. Ele mostra o papel como quem apresenta uma defesa e faz a pergunta que vai organizar todo este capítulo: então não é gota?

No mesmo papel, três linhas abaixo, há um número que ele não mostrou porque ninguém disse que importava: creatinina de 1,9 mg/dL. E na receita amassada no fundo da sacola há hidroclorotiazida, que ele toma há seis anos para a pressão.

Então você tem, na mesma maca, cinco coisas que não combinam. Um pé que é o retrato clássico da gota. Uma uricemia normal. Um rim que não é normal. Um diurético que empurra o ácido úrico para cima. E um paciente que já se autodiagnosticou e já se automedicou, com uma dose que fez efeito no intestino e não na articulação.

Antes de qualquer uma dessas cinco, existe uma pergunta que não se pula, e ela não é sobre gota. Uma articulação que dói, incha e esquenta de forma aguda é artrite séptica até prova em contrário, e a prova é a punção da articulação — não a história do paciente, por melhor que ela seja. Milton tem a melhor história possível: três crises, no mesmo dedo, com o mesmo padrão, com resposta prévia. E história boa é exatamente o que anestesia o médico. A infecção não pede licença ao antecedente: um paciente pode ter gota há dez anos e ter, hoje, uma articulação infectada — e o cristal encontrado no líquido não desfaz essa possibilidade, porque as duas coisas cabem no mesmo joelho e no mesmo dedo ao mesmo tempo.

Este capítulo não vai reensinar essa trava. Ela é o eixo inteiro de outro capítulo desta mesma apostila, Monoartrite aguda e artrite séptica, que é onde moram a régua da celularidade, a conta de quanto o cristal desloca a probabilidade de infecção, o antimicrobiano empírico, a drenagem e o que se faz com a cultura. Vá lá antes ou depois deste — a ordem não importa, a leitura dos dois importa. O que este capítulo assume é o que sobra depois que a punção foi feita e o líquido respondeu cristal, e o que teria que ser feito quando puncionar aquela articulação não é possível.

Porque depois disso começa a parte que ninguém ensina ao interno e que decide os próximos vinte anos do Milton. Tratar a crise não é tratar a doença. A crise passa sozinha em uma ou duas semanas mesmo sem nada; a doença, se ninguém olhar para ela, volta mais perto, pega mais articulações e deposita cristal em tecido que não devolve. E entre a alta do pronto-socorro e a primeira consulta, há três decisões que o interno erra com regularidade: mexer no hipouricemiante durante a crise, ler a uricemia normal como absolvição, e escrever colchicina na dose que a bula brasileira ainda manda.

03

Quem adoece disso

Entre as artrites inflamatórias do adulto, a gota é a mais frequente — e é a única cuja causa se conhece por inteiro, do gene à articulação. Isso a torna um objeto estranho: uma doença inteiramente compreendida e sistematicamente mal tratada. A revisão brasileira de 2017 sobre o tratamento medicamentoso da gota no país abre com essa constatação — a forma mais comum de artrite inflamatória em homens acima dos 40 anos — e o corpo do artigo é uma lista de lacunas de acesso, não de conhecimento.

Quem adoece disso tem um retrato reconhecível, e o Milton está dentro dele: homem, meia-idade, sobrepeso, hipertenso, usuário de diurético, com função renal já reduzida. Nenhum desses fatores é decoração. A hipertensão e o diurético empurram o urato para cima por reduzir a excreção renal; a obesidade aumenta a produção e reduz a depuração; e a doença renal crônica faz as duas coisas ao mesmo tempo. Essa convergência explica por que o paciente de gota que chega ao pronto-socorro brasileiro raramente é um paciente simples: ele é um paciente com quatro comorbidades e uma articulação que dói.

A mulher antes da menopausa quase não tem gota, e essa é a exceção epidemiológica mais útil à beira do leito. O estrogênio é uricosúrico, e enquanto ele está presente a uricemia média da mulher fica alguns décimos abaixo da do homem — o suficiente para tirá-la da faixa de precipitação. Depois da menopausa a diferença some, e a partir dos 60 e poucos anos a gota feminina aparece com um perfil próprio: mais poliarticular, mais em mãos, mais associada a diurético e a rim ruim, e muito mais confundida com artrite reumatoide e com osteoartrite. O interno que só procura gota em homem de meia-idade vai deixar passar a metade que aparece depois dos 65.

A epidemiologia brasileira específica, no entanto, é um vazio que vale declarar em vez de contornar. Os textos brasileiros sobre gota consultados para este capítulo não trazem número de prevalência nacional: a revisão de 2017 sobre o tratamento medicamentoso da gota no país descreve a doença pela literatura internacional, e o material da sociedade brasileira dirigido ao paciente não apresenta nenhum número. Quando uma cifra de prevalência aparece num texto brasileiro sobre gota, em regra ela é estrangeira e repetida.

A consequência prática é maior do que parece. Sem dado nacional de prevalência não se estima carga, e sem estimativa de carga não se constrói protocolo. É parte da explicação para o achado que atravessa este capítulo: o Brasil não tem protocolo clínico de gota. O índice de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde não traz gota na letra G, e a Rename 2024, que lista para cada medicamento do componente especializado o protocolo que o rege, não menciona a palavra gota uma única vez em 254 páginas.

O contraste dentro da própria reumatologia é o que torna essa ausência visível. Ao liberar o naproxeno no componente especializado, a Rename 2024 nomeia os protocolos que o autorizam: artrite idiopática juvenil, artrite psoriásica, artrite reativa, artrite reumatoide, dor crônica e espondilite anquilosante. Seis protocolos federais, seis doenças reumatológicas — e a artrite inflamatória mais comum de todas fora da lista.

Há uma segunda distorção epidemiológica que muda a conduta e que não aparece em estatística nenhuma: a gota é subdiagnosticada em quem já tem outro rótulo. O paciente com artrite reumatoide, o transplantado, o dialítico e o idoso com muitas articulações doloridas recebem uma explicação pronta para cada crise nova, e a articulação aguda passa a ser lida como piora da doença de base. Nesses três grupos a gota é mais frequente que na população geral, não menos, porque todos eles carregam rim ruim, diurético ou ciclosporina.

E há o outro lado, que o pronto-socorro brasileiro vê com a mesma frequência: o excesso de diagnóstico. Toda articulação vermelha em homem de meia-idade vira gota na ficha, e sai com anti-inflamatório. Uma parte desses pacientes tem celulite, uma parte tem bursite, uma parte tem artrite séptica e uma parte tem doença por pirofosfato de cálcio, que é o assunto do fim deste capítulo. Os dois erros — não pensar em gota em quem tem, e carimbar gota em quem não tem — são resolvidos pelo mesmo gesto, e é o gesto que a régua brasileira não descreve em lugar nenhum.

04

Por que acontece o que acontece

O ácido úrico é o fim da linha do metabolismo das purinas no ser humano. A xantina oxidase converte hipoxantina em xantina e xantina em urato, e é aí que o processo para: nós perdemos, na evolução, a enzima uricase, que em quase todos os outros mamíferos transformaria o urato em alantoína, um produto solúvel e fácil de excretar. O resultado é que o ser humano circula com uma concentração de urato dez a vinte vezes maior que a de um camundongo, e perto do limite de solubilidade da própria substância.

Esse limite é o número mais importante do capítulo, e é físico-químico, não estatístico. A 6,8 mg/dL, em pH e temperatura corporais normais, o urato monossódico satura o plasma. Acima disso ele pode precipitar; abaixo, não só não precipita como o que já está depositado começa a voltar para a solução. A recomendação conjunta de 2024 da Sociedade Brasileira de Reumatologia com a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial diz isso com todas as letras, e acrescenta a informação que decide a topografia da doença: nas articulações periféricas, onde a temperatura é mais baixa que a do centro do corpo, o limiar é ainda menor.

Isso explica o hálux. Não é coincidência nem folclore que a primeira crise da maioria dos pacientes seja na primeira articulação metatarsofalângica: é a articulação mais fria, mais distal e mais carregada mecanicamente do corpo, e é onde o urato precipita primeiro quando a concentração sistêmica sobe. O joelho, o tornozelo e o dorso do pé vêm depois pela mesma lógica. O ombro e o quadril, quentes e centrais, quase nunca começam a doença.

Repare no que essa física implica: a hiperuricemia não é a doença, é a condição de possibilidade dela. Entre ter urato acima da solubilidade e ter gota há anos, às vezes décadas, de depósito silencioso, e a maioria das pessoas com hiperuricemia nunca terá crise nenhuma. A diretriz americana de 2020 usa exatamente esse limiar para definir hiperuricemia assintomática — urato acima de 6,8 mg/dL sem crise prévia e sem tofo — e registra que, em estudo observacional, entre os que tinham urato acima de 9 mg/dL, apenas um em cada cinco desenvolveu gota em cinco anos.

A crise, quando vem, não é o momento em que o cristal se forma: é o momento em que o sistema imune encontra um cristal que já estava lá. O cristal de urato monossódico, revestido de proteínas, é reconhecido pelos macrófagos da sinóvia e ativa um complexo intracelular que corta a interleucina-1 beta na sua forma ativa. A partir daí é uma cascata que se retroalimenta: a interleucina-1 recruta neutrófilos, os neutrófilos fagocitam mais cristal e liberam mais mediador, e em poucas horas a articulação está com o quadro completo — dor desproporcional, calor, rubor, derrame e incapacidade de mover.

Mudanças do urato durante início ou ajuste de tratamento podem precipitar crises; isso não significa que o medicamento esteja piorando a doença a longo prazo. Durante uma crise, alterações inflamatórias e da excreção renal podem reduzir o urato, e a medida isolada não reflete todo o depósito tecidual. No caso de Milton, o exame antecede os sintomas e não pode ser explicado pela crise atual.

O mesmo mecanismo explica por que a crise termina sozinha. Os macrófagos da articulação mudam de fenótipo ao longo de dias, os neutrófilos que morrem formam agregados que sequestram cristal, e a cascata se apaga sem que ninguém faça nada. Uma crise de gota não tratada dura de uma a duas semanas e resolve por completo — o que é ao mesmo tempo a boa notícia e a armadilha, porque a resolução espontânea convence paciente e médico de que o problema acabou. Não acabou: o depósito continua exatamente onde estava, e a próxima crise vem mais cedo que a anterior.

Quando ninguém trata o depósito, ele cresce. O tofo é urato agregado com uma cápsula fibrosa e uma coroa de células inflamatórias em volta, e ele não é apenas uma bola sob a pele: dentro da articulação, o mesmo agregado erode osso pela borda, e a erosão da gota tem uma forma característica, com margem elevada, que a radiografia mostra e que não se desfaz. É aqui que a diferença entre tratar a crise e tratar a doença deixa de ser conceito e vira consequência: cada crise é reversível, e a soma delas não é.

Dois cortes da primeira articulação metatarsofalângica isolada, sem contorno externo do dedo: articulação preservada e gota crônica com depósitos, tofo e erosão juxta-articular.
Depósitos de urato podem permanecer entre as crises; controlar a inflamação aguda não equivale a eliminar o depósito. O painel direito mostra gota crônica com tofo e erosão, alterações que não estão presentes em toda primeira crise. Encontrar cristais no líquido sinovial não exclui infecção concomitante.
05

Como se apresenta de verdade

A gota tem uma apresentação clássica que quase todo mundo reconhece e cinco apresentações que quase ninguém reconhece — e é nas cinco que o interno erra. Esta seção descreve o retrato típico primeiro, porque é preciso saber o que é típico para medir o quanto um caso se afasta dele, e depois percorre as formas que chegam ao pronto-socorro sem parecer gota.

Uma advertência de fronteira antes de começar. Nada do que vem abaixo serve para dispensar a pergunta da infecção. Reconhecer o retrato clássico da gota aumenta a probabilidade de gota; não zera a de artrite séptica, e as duas coexistem com frequência suficiente para que a coexistência tenha nome e literatura própria. A régua para separar as duas, com os números refeitos, está no capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica desta apostila.

Percurso de aprendizagem

Comece pela articulação aguda: reconhecer o padrão de gota não dispensa avaliar infecção. Diferencie tratamento da dor inflamatória e redução sustentada do urato; são decisões com objetivos e prazos diferentes.

Escolha o anti-inflamatório conforme rim, estômago, coração, interações e tempo de sintomas. Aprenda a iniciar e titular hipouricemiante pela meta e pela tolerância, conversar sobre adesão e reconhecer toxicidade por colchicina.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

O retrato clássico, e os quatro traços que o fazem reconhecível

A crise típica tem quatro marcas, e nenhuma delas é o local. A primeira é a velocidade: a dor sai do zero ao insuportável em seis a doze horas, e o paciente costuma dizer a hora em que começou. Nenhuma outra artrite do adulto faz isso — a séptica leva um dia ou dois, a reumatoide leva semanas, a osteoartrite ativada leva dias e nunca chega a esse pico.

A segunda é o horário: começa de madrugada ou de manhã cedo, com frequência acordando o paciente. Milton acordou às três. A explicação provável é a queda da temperatura periférica e a leve desidratação do sono, que reduzem a solubilidade justamente onde o depósito está.

A terceira é a desproporção. A articulação dói mais do que o exame explica, e o paciente não tolera nem o peso do lençol sobre o dedo. Isso é útil na direção positiva e inútil na negativa: a desproporção aponta para cristal, mas a artrite séptica também dói assim.

A quarta é a pele. A gota faz um eritema que ultrapassa o contorno da articulação e, na resolução, descama — a descamação fina na borda, que Milton descreveu sem saber que estava dando um dado, é um dos poucos achados razoavelmente específicos de crise de cristal. Ela aparece dias depois do pico e é a assinatura da crise anterior, não da atual.

Some-se a isso a evolução no tempo: sem tratamento nenhum, a crise resolve por completo em uma a duas semanas e a articulação volta a funcionar como antes. Uma articulação que não resolve, ou que resolve pela metade, saiu do roteiro da gota e precisa de outra explicação.

As apresentações que não são o hálux

A primeira crise é no hálux na maior parte dos pacientes, o que significa que uma fração grande começa em outro lugar. Tornozelo, dorso do pé e joelho vêm em seguida, pela mesma lógica de temperatura e carga. Punho, cotovelo e dedos das mãos aparecem mais tarde na história da doença — ou aparecem cedo na mulher idosa, que é a exceção descrita adiante.

A gota poliarticular existe e é subdiagnosticada. Ela ocorre em quem tem doença de longa data e depósito extenso, e o quadro é febre, várias articulações inflamadas ao mesmo tempo e proteína C reativa alta: a cara de uma infecção sistêmica ou de uma doença reumatológica inflamatória aguda. Nesse cenário a punção deixa de ser opcional em qualquer leitura, porque tanto a poliartrite séptica quanto a gota poliarticular estão na mesa.

A bursite olecraniana e a bursite pré-patelar por cristal enganam por um motivo anatômico simples: a bolsa serosa não é a articulação. O cotovelo inchado e vermelho com movimento passivo preservado é bursite, não artrite, e a distinção muda tanto a conduta quanto o alvo da agulha. A régua anatômica que separa dentro da articulação de em volta da articulação é do capítulo vizinho de monoartrite; aqui basta saber que o cristal produz as duas coisas.

Há ainda a apresentação que não dói: o tofo descoberto por acaso. Um nódulo firme na hélice da orelha, na borda ulnar do antebraço, sobre o tendão de Aquiles ou na polpa de um dedo, às vezes com conteúdo esbranquiçado visível sob a pele estirada. Tofo é doença estabelecida, e encontrá-lo em exame de rotina muda a conduta imediatamente, mesmo sem crise nenhuma no dia.

A mulher depois dos 65, que é a apresentação mais perdida

É a forma que mais se confunde, e vale um parágrafo por conta própria porque o erro é sistemático. A paciente é uma mulher acima de 65 anos, em uso de diurético para hipertensão ou para insuficiência cardíaca, com taxa de filtração glomerular reduzida. A gota dela não começa no hálux: começa nas interfalângicas distais e proximais das mãos, muitas vezes em articulações que já tinham nódulos de osteoartrite.

O resultado é um quadro que parece artrite reumatoide de início tardio ou osteoartrite inflamada, e que costuma receber um dos dois rótulos. O tofo, quando existe, é pequeno e assenta sobre o nódulo osteoartrítico já existente, o que o torna praticamente invisível a quem não está procurando.

Dois dados desfazem a confusão à beira do leito. O primeiro é a velocidade: nenhuma artrite reumatoide chega ao pico em oito horas. O segundo é o diurético — perguntar há quanto tempo ela usa hidroclorotiazida ou furosemida, e o que aconteceu com as mãos depois que a dose subiu. A artrite reumatoide e o lúpus são temas próprios desta apostila de Reumatologia e oferecem o diferencial completo. Aqui fica só o suficiente para não carimbar o rótulo errado numa paciente que ia se beneficiar de alopurinol.

O paciente que já tem um rótulo, e onde a gota se esconde nele

Três populações concentram gota e concentram diagnóstico perdido, sempre pelo mesmo mecanismo: já existe uma explicação pronta para qualquer articulação que doa.

O transplantado renal em uso de ciclosporina é o exemplo mais nítido. A ciclosporina reduz a excreção renal de urato e a gota pós-transplante é frequente, precoce e agressiva. Ela chega ao pronto-socorro como febre e monoartrite num imunossuprimido — situação em que o médico pensa em infecção, e faz bem em pensar, mas em que a punção é o que resolve a dúvida em vez de reforçá-la. Há uma segunda armadilha aí: a ciclosporina é inibidora da glicoproteína P e multiplica a concentração de colchicina, o que a bula brasileira registra na seção de interações junto de relatos de toxicidade fatal.

O paciente em diálise crônica tem uricemia alta e crises que ninguém trata, porque quase tudo que se usa na crise está proibido ou muito restrito nele. É o paciente que mais precisa de uma conduta pensada e o que mais recebe apenas analgesia simples e alta.

O paciente com artrite reumatoide estabelecida é o terceiro. Toda articulação nova que inflama é lida como atividade da doença de base, e o ajuste do tratamento imunossupressor entra no lugar da punção. A rigor, esse paciente reúne as três coisas ao mesmo tempo: pode estar tendo atividade da artrite reumatoide, pode estar tendo gota, e é justamente quem mais tem artrite séptica de apresentação silenciosa.

O que a articulação vermelha pode ser, e o que muda a conduta na porta

O diferencial que interessa ao interno não é uma lista de doenças: é uma lista de decisões diferentes. Cada entrada abaixo aparece aqui porque leva a uma conduta distinta nas primeiras horas.

Artrite séptica é a que muda tudo, e o motivo de a punção vir antes de qualquer antimicrobiano. Não se resolve neste capítulo; é o eixo do capítulo vizinho.

A celulite e a erisipela sobre a articulação são a confusão mais comum com a gota do pé, e a distinção é de exame: na celulite a dor está na pele, o movimento passivo é possível e há uma borda de eritema que se pode desenhar a caneta; na gota o movimento passivo é o que dói. Importa porque a agulha não deve atravessar pele infectada, e porque a celulite muda o antimicrobiano e não o anti-inflamatório.

A doença por deposição de pirofosfato de cálcio, que é o outro cristal, tem uma seção própria no fim deste capítulo — ela é irmã da gota, chega igual e responde igual à crise, mas não tem hipouricemiante e não tem alvo laboratorial.

A osteoartrite com inflamação aguda entra na lista pela mesma razão da mulher idosa: um joelho com osteoartrite conhecida que incha e esquenta em dois dias parece piora da artrose e pode ser cristal. Osteoartrite como doença tem capítulo próprio nesta apostila — Osteoartrite / osteoartrose —, e este capítulo fica dela apenas com o mínimo: que ela não faz dor de pico em horas, que ela não faz eritema que ultrapassa o contorno articular e que ela não dispensa a punção quando um joelho artrósico incha de repente.

Por fim, a artrite reativa e o início monoarticular de uma doença sistêmica, que são o assunto do capítulo de monoartrite e dos capítulos ainda não escritos de espondiloartrites e lúpus desta apostila. Ficam nomeados aqui para que o interno saiba a quem entregar, e não para serem tratados aqui.

A gota do paciente com rim ruim, que é o paciente mais comum

Vale antecipar aqui o que a conduta vai desdobrar, porque muda a leitura da apresentação. A maior parte dos pacientes com gota que chega ao pronto-socorro brasileiro tem função renal reduzida — pelo tempo de hipertensão, pelo diurético, pelo diabete, pela idade, ou porque a própria gota de longa data faz nefropatia. Milton tem creatinina de 1,9 mg/dL.

O que isso muda na apresentação é que a doença tende a ser mais grave e mais precoce, com mais articulações e tofos mais cedo, e que a janela terapêutica de todos os fármacos da crise se estreita ao mesmo tempo. É o paciente que mais precisa de tratamento e o que menos o recebe, porque cada droga disponível esbarra numa contraindicação relativa.

O estadiamento da doença renal crônica, o cálculo da taxa de filtração e o manejo da doença renal em si são do capítulo O rim que não volta, da apostila de Nefrologia deste mesmo nível. Este capítulo não os repete: usa a taxa de filtração estimada como número de entrada e discute apenas o que muda na prescrição da gota a partir dela.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar gota tem uma inversão que quase nenhuma outra doença tem: o exame que confirma custa quase nada, sai na hora e se faz à beira do leito, enquanto o exame que quase todo mundo pede no lugar dele não confirma coisa alguma. Esta seção trata de por que a punção decide, do que se pede no líquido quando a pergunta é cristal, e do que se faz nas situações em que puncionar não é possível.

Antes disso, a declaração de fronteira que este capítulo deve. A técnica de puncionar uma articulação à beira do leito — material, posicionamento, marcação, quais articulações se puncionam e quais não — está descrita no capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica desta apostila, e a apostila Procedimentos e Vias de Acesso, que tem acesso venoso periférico, sondagem vesical, toracocentese, punção lombar e sutura, ainda não tem um capítulo de punção articular. Enquanto ela não tiver, a técnica é do capítulo vizinho de monoartrite. O que este capítulo assume, porque não tem dono em lugar nenhum do nível, é a parte específica do cristal: o que se pede, como a amostra viaja e o que destrói o cristal no caminho.

Por que a punção decide, e por que nenhuma régua brasileira diz isso

O diagnóstico de certeza da gota é a identificação de cristal de urato monossódico no líquido sinovial, ou no material aspirado de um tofo. Não há substituto: nem a uricemia, nem a radiografia, nem a resposta ao tratamento. Uma articulação que melhora com colchicina não fica sendo gota por isso — abscesso também melhora um pouco com anti-inflamatório, e a crise de cristal melhora sozinha.

Aqui é preciso dizer como está a régua brasileira, porque o quadro é incômodo e muda o que o interno pode esperar em termos de apoio documental. Não existe protocolo clínico brasileiro de gota. O índice de protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas do Ministério da Saúde não traz o tema na letra G, e a Rename 2024, que nomeia o protocolo que rege cada medicamento do componente especializado, não menciona a palavra gota em 254 páginas.

O único documento brasileiro que fixa uma decisão central da gota é a recomendação conjunta da Sociedade Brasileira de Reumatologia com a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, publicada em setembro de 2024. Ela trata de uma linha só, o alvo de uricemia, e resolve essa linha adotando explicitamente as duas réguas estrangeiras que cita: as recomendações europeias de 2016 e a diretriz americana de 2020. Ou seja: a régua que o Brasil usa para gota é estrangeira, e o documento brasileiro que a adota é de setembro de 2024 e adota apenas o alvo.

E a régua adotada não cobre o diagnóstico. A diretriz americana de 2020 é de manejo — indicação de hipouricemiante, alvo, profilaxia, tratamento da crise — e não faz recomendação sobre punção, líquido sinovial ou identificação de cristal, porque não era essa a pergunta dela. Já o único texto sobre gota que a Sociedade Brasileira de Reumatologia mantém em português, a página de orientação ao paciente atualizada em julho de 2025, descreve o diagnóstico como história clínica associada a exames mostrando ácido úrico elevado no sangue, e não menciona líquido sinovial, punção, agulha nem microscópio em nenhum ponto.

O resultado, dito sem rodeio: nenhum documento em uso no Brasil fixa a punção articular como o padrão diagnóstico da gota. A afirmação de abertura desta seção continua correta e é o consenso internacional, mas o interno brasileiro que a defender numa discussão de plantão não vai encontrar um documento nacional para apoiá-la. Saber disso faz parte de saber onde se está pisando.

O que se pede no líquido quando a pergunta é cristal

Quando houver indicação de punção, solicitar cultura, contagem com diferencial, pesquisa de cristais e Gram, organizando prioridades se o volume for pequeno. A cultura contribui para investigar infecção, mas sua negatividade não a exclui sozinha. A decisão integra risco, coleta, resultado e evolução.

A ordem em que eles são pedidos não importa; a ordem em que o líquido é colhido em relação ao antimicrobiano importa muito, e é regra do capítulo vizinho. Aqui vale só a consequência para o lado do cristal: nenhum antimicrobiano interfere na leitura do cristal, de modo que a pesquisa de cristais não é argumento para adiar antibiótico nem para apressá-lo.

O volume necessário é pequeno. Uma gota de líquido sinovial sobre lâmina, com lamínula, já permite a leitura de cristal — a punção que vem quase seca, com material apenas dentro do canhão da agulha, ainda serve para essa pergunta, mesmo quando não serve para as outras. Vale insistir nisso porque o interno costuma descartar a punção pobre achando que não deu em nada.

O anticoagulante do tubo importa e é a fonte de erro pré-analítica clássica. O tubo com EDTA serve para a contagem de células. O tubo com heparina de lítio ou com oxalato deve ser evitado para a pesquisa de cristais, porque esses sais formam cristais próprios, birrefringentes, que aparecem na lâmina e são confundidos com o que se está procurando. Quando o serviço só tem tubo com heparina, a saída é preparar a lâmina a fresco na hora, sem tubo nenhum.

E o tempo importa: quanto mais a amostra demora, menos células intactas e mais difícil a leitura. O achado que decide não é a presença de cristal solto na lâmina, e sim o cristal dentro do neutrófilo — o cristal fagocitado é o que prova que aquele cristal estava participando daquela inflamação, e não flutuando de uma crise antiga.

Ler o cristal: o que a luz polarizada responde, e o que a rede entrega

Os dois cristais que interessam se distinguem por forma e por comportamento sob luz polarizada com compensador. O urato monossódico é uma agulha, longa e afilada, fortemente birrefringente e de birrefringência negativa: fica amarela quando o eixo longo está paralelo ao eixo do compensador, e azul quando perpendicular. O pirofosfato de cálcio é um romboide ou um bastonete curto de ponta rombuda, fracamente birrefringente e de birrefringência positiva: a relação de cores é a inversa.

Esse é o parágrafo que todo mundo decora e que esconde uma dificuldade prática enorme, e o documento que a descreve melhor não é sobre gota: são os critérios de classificação de 2023 para a doença por pirofosfato de cálcio, que registram, sobre o próprio cristal que classificam, que não existe padrão-ouro prático na clínica, porque a positividade sob luz polarizada é específica mas tem alta taxa de falso-negativo e variabilidade grande entre observadores — e que as dificuldades incluem o tamanho pequeno do cristal e uma birrefringência positiva ausente ou fraca.

Aplique isso na direção certa. Cristal encontrado é informação forte; cristal não encontrado é informação fraca. Uma lâmina negativa não exclui gota, sobretudo quando a leitura foi feita fora de um laboratório habituado ou horas depois da coleta. E, na outra ponta, cristal encontrado não exclui infecção: as duas coisas ocupam a mesma articulação, e a conta de quanto o cristal desloca a probabilidade de artrite séptica está feita, com as séries que a sustentam, no capítulo de monoartrite.

O que a rede brasileira entrega é o ponto seguinte, e é preciso ser honesto sobre ele. Microscópio com luz polarizada e compensador não é equipamento universal em laboratório de hospital geral, e a leitura depende de alguém treinado a fazê-la. Em muitos serviços a pesquisa de cristais volta como não realizada, ou volta feita em microscopia comum, que enxerga a agulha mas não determina a birrefringência. Isso não é motivo para não pedir: é motivo para saber, ao ler o resultado, o que aquele laboratório de fato fez.

Quando não há como identificar o cristal, o diagnóstico passa a ser clínico e provisório, e o registro no prontuário deve dizer isso com essas palavras. A diferença entre gota confirmada por cristal e gota provável muda o que vem depois: um hipouricemiante é tratamento para a vida inteira, e a decisão de iniciá-lo merece saber em que base está apoiada.

A uricemia: por que ela não confirma na consulta e não exclui na crise

Este é o exame que o Milton trouxe e a razão pela qual ele acha que não tem gota. A resposta curta é que a uricemia normal durante a crise não exclui gota, e a resposta longa tem duas partes que precisam ser ditas em separado porque erram em direções opostas.

O urato sérico pode cair durante uma crise e um resultado normal não exclui gota. Esse fenômeno não deve ser explicado apenas como consumo ou aprisionamento do urato nos cristais. Interpretar data da coleta, tratamento e função renal; repetir fora da crise quando a medida for necessária para confirmar o padrão e guiar titulação.

Segunda parte, na direção contrária: uma uricemia alta não faz o diagnóstico. A hiperuricemia é comum e a maioria dos que a têm nunca terá gota — a diretriz americana registra que, entre pessoas com urato acima de 9 mg/dL, apenas cerca de um em cada cinco desenvolveu gota em cinco anos. Um paciente com articulação vermelha e ácido úrico de 8,5 mg/dL pode perfeitamente ter uma articulação infectada e uma hiperuricemia de acompanhamento.

Some as duas e o que resta é que a uricemia não serve para diagnosticar nem para excluir na sala de emergência. Ela serve, e muito, para outra coisa: é o parâmetro de tratamento a longo prazo, o número que se persegue depois. O momento certo de colhê-la para essa finalidade é fora da crise, duas a quatro semanas depois, quando o valor volta a refletir o estado basal do paciente.

É exatamente isso que a recomendação brasileira de 2024 endereça, e convém separar o seu alcance do que ela deixa de fora. Critério diagnóstico ela não estabelece: o que ela faz é mandar o laboratório imprimir, no laudo do ácido úrico sérico, a observação de que em pacientes em tratamento para gota se recomendam níveis abaixo de 6 mg/dL. É uma intervenção sobre o laudo, dirigida ao acompanhamento — e é o único ponto da gota em que existe um documento brasileiro recente dizendo o que fazer.

O resto do sangue, e por que cada item está aí

A investigação laboratorial complementar da crise é curta e cada item tem uma função declarada; o que não tem função declarada não se pede.

Creatinina com taxa de filtração glomerular estimada é o exame que mais muda a prescrição neste capítulo, e por isso vem primeiro. Ela decide se a colchicina pode ser usada e em que intervalo, se o anti-inflamatório está proibido, e qual a dose inicial do hipouricemiante lá na frente. Sem esse número não se prescreve gota com segurança em nenhum paciente acima dos 50 anos.

Hemograma e proteína C reativa entram pela pergunta da infecção, e é preciso saber o que eles não fazem: leucocitose e proteína C reativa alta acontecem em crise de gota não complicada, com frequência e com valores altos. Nenhum dos dois separa gota de artrite séptica, e usá-los para isso é um dos erros catalogados no capítulo vizinho.

Glicemia, perfil lipídico e função hepática entram por outro motivo: o paciente com gota é um paciente com risco cardiometabólico agregado, e a crise costuma ser a única vez em que ele passa por um médico. A função hepática tem ainda uma função direta, porque a colchicina tem depuração reduzida na insuficiência hepática.

Uma medida que não se colhe na crise e que costuma ser pedida à toa: o ácido úrico urinário de 24 horas. Ele separa hiperprodutor de hipoexcretor e isso teve importância quando a escolha entre inibidor de xantina oxidase e uricosúrico dependia dessa distinção. Hoje, com o alopurinol como primeira linha para todos, a coleta de 24 horas raramente muda conduta no paciente que sai do pronto-socorro.

A imagem, exame por exame: onde ela ajuda e onde ela ilude

A radiografia simples da articulação acometida serve na crise, mas não para o que o interno costuma esperar dela. Ela não diagnostica gota aguda: na primeira crise a radiografia é normal ou mostra apenas aumento de partes moles. O que ela responde é outra coisa — fratura, corpo estranho radiopaco, osteomielite adjacente — e, nos casos de doença antiga, a erosão de borda elevada, que indica dano estabelecido e muda a indicação de hipouricemiante.

A radiografia responde ainda a uma pergunta que fecha este capítulo: a presença de calcificação linear na cartilagem, a condrocalcinose, que aponta para o outro cristal. Uma radiografia de joelhos, punhos e sínfise é o exame mais barato e mais disponível para levantar a hipótese de doença por pirofosfato, e por isso vale pedi-la no paciente idoso com monoartrite aguda.

A ultrassonografia articular é o exame que mais cresceu nessa investigação, porque enxerga o depósito de urato sobre a cartilagem antes de qualquer erosão. Ela tem duas limitações no nosso contexto: depende de operador treinado em musculoesquelético, que não está no plantão da maioria dos hospitais gerais, e não substitui a punção quando a pergunta é infecção.

A tomografia de dupla energia identifica depósito de urato com boa especificidade e é útil em situações raras — dúvida persistente em paciente que não pode ser puncionado, ou avaliação de carga de depósito. Ela não está disponível na rede pública brasileira fora de poucos centros, e mencioná-la aqui serve para que o interno saiba que existe, não para que a peça.

Fecha a seção uma regra de bolso que sobrevive a qualquer disponibilidade de imagem: nenhum exame de imagem responde a pergunta da infecção. A imagem informa sobre dano, sobre depósito e sobre diagnósticos alternativos; a pergunta de se aquela articulação está infectada continua sendo respondida por líquido.

07

Da crise por cristais ao controle da doença

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Comece pela articulação aguda: reconhecer o padrão de gota não dispensa avaliar infecção. Diferencie tratamento da dor inflamatória e redução sustentada do urato; são decisões com objetivos e prazos diferentes. Comece por gravidade e possibilidade de infecção. Depois escolha o tratamento da crise pelos riscos do paciente e planeje o controle contínuo: indicação de hipouricemiante, dose inicial, profilaxia, alvo e retorno. As comparações de bula e disponibilidade abaixo servem para consulta; não substituem conferir a dose já tomada nem a reação apresentada.

Colchicina no ataque agudo: o que a bula brasileira manda e o que a régua em uso recomenda

EsquemaO que está escritoTotal no primeiro dia, em comprimidos de 0,5 mgFonte
Regime da bula brasileira0,5 a 1,5 mg de início, seguidos de 0,5 mg a cada 1 ou 2 horas até que ocorra o alívio da dor; teto diário abaixo de 7 mgAté 6,5 mg, ou 13 comprimidos, dez deles em dez horas seguidasBula profissional da colchicina 0,5 mg, seção de posologia e modo de usar
Regime de dose baixa1,2 mg de início e 0,6 mg uma hora depois; nos comprimidos brasileiros de 0,5 mg, 1,0 mg de início e 0,5 mg uma hora depois1,8 mg no original, 1,5 mg na adaptação brasileira: 3 comprimidosDiretriz americana de 2020, que recomenda de forma forte a dose baixa em vez da dose alta
Teto europeu diário0,5 mg três vezes ao dia1,5 mg, ou 3 comprimidosRecomendações europeias de 2016, conforme registradas pela revisão brasileira de 2017
O que a própria bula mostra na sua seção de eficáciaEnsaio que comparou 1,8 mg em uma hora com 4,8 mg em seis horas: resposta semelhante, e perfil de eventos adversos igual ao do placebo no braço de dose baixa1,8 mg, o mesmo do regime de dose baixaBula profissional da colchicina, seção de resultados de eficácia, citando Terkeltaub e col., 2010

O que o SUS entrega para tratar gota, pela Rename 2024

MedicamentoApresentação na Rename 2024Componente de financiamentoO que isso significa na hora de prescrever
ColchicinaNão constaNenhumFora do elenco nacional. O fármaco mais específico da crise de gota é o que o paciente compra na farmácia, ou que o município fornece por lista própria, se fornecer
Alopurinol100 mg e 300 mg, comprimidoBásicoDisponível na farmácia da unidade, e é o único fármaco do grupo dos antigotosos presente na Rename 2024
Prednisona5 mg e 20 mg, comprimidoBásico e EstratégicoDisponível. É a saída de quem não pode anti-inflamatório nem colchicina, que é a maior parte dos pacientes deste capítulo
Ibuprofeno200 mg, 300 mg e 600 mg comprimido, 600 mg cápsula e suspensão oral de 50 mg/mLBásicoDisponível. É o anti-inflamatório que a unidade de fato tem, e o que a receita de alta pode contar que existe
Naproxeno250 mg e 500 mg, comprimidoEspecializadoNão é da farmácia básica. Os protocolos que o autorizam na Rename são de artrite idiopática juvenil, artrite psoriásica, artrite reativa, artrite reumatoide, dor crônica e espondilite anquilosante, e nenhum deles é de gota
Febuxostate, probenecida e indometacinaNão constamNenhumFora do elenco. As alternativas ao alopurinol que a literatura discute não chegam ao paciente do SUS por essa via

Tratar a crise e tratar a doença são dois tratamentos diferentes

A perguntaTratamento da criseTratamento da doença
O que se combateA inflamação em volta de um cristal que já estava depositado antes de a crise começarO depósito em si: dissolver o que existe e impedir que se forme mais
Com o quêColchicina em dose baixa, anti-inflamatório ou corticoide por via oral, intramuscular ou intra-articular; os três com recomendação forte e sem hierarquia entre elesAlopurinol, começando em dose baixa e subindo por titulação guiada por medidas seriadas de uricemia
Por quanto tempoDias: até a articulação voltar a mover e a apoiarIndefinidamente, com recomendação condicional para continuar em vez de parar
Como se sabe que funcionouPela articulação, com amplitude e apoio medidos, não por examePelo laboratório: uricemia abaixo de 6 mg/dL, medida em série e não uma vez só
O que se faz enquanto se faz o outroNão se inicia nem se suspende hipouricemiante por causa da criseProfilaxia anti-inflamatória concomitante por pelo menos 3 a 6 meses, com recomendação forte, porque a queda da uricemia solta cristal e precipita crise
O erro que se comete aquiEscrever a dose antiga de colchicina, e prescrever anti-inflamatório a quem tem rim ruimIniciar sem profilaxia, prescrever 300 mg de saída e nunca mais medir a uricemia

O que a taxa de filtração glomerular estimada muda em cada fármaco

Taxa de filtração estimadaColchicina, pela bula brasileiraAnti-inflamatórioCorticoideAlopurinol
Acima de 60 mL/min/1,73 m²Regime de dose baixa, sem ajustePossível, pelo menor tempo que resolverPossívelIniciar com até 100 mg por dia e titular
De 30 a 59 mL/min/1,73 m²0,5 mg uma vez ao diaEvitar; se usado, curto e com creatinina de controlePassa a ser a escolha preferencialIniciar abaixo de 100 mg por dia e titular mais devagar
De 15 a 29 mL/min/1,73 m²0,5 mg a cada 2 ou 3 diasContraindicado na práticaEscolha preferencialIniciar abaixo de 100 mg por dia; ainda assim pode ser preciso passar de 300 mg por dia para chegar ao alvo
Abaixo de 15 mL/min/1,73 m², ou em diáliseContraindicada pela bulaContraindicadoEscolha preferencial; intra-articular quando é uma articulação sóA bula prevê 300 a 400 mg logo após cada sessão de diálise, sem doses intermediárias

A dose de colchicina do ataque agudo é o pior achado desta conferência, e a conta é simples. A bula brasileira manda 0,5 a 1,5 mg de início e 0,5 mg a cada uma ou duas horas até o alívio da dor, com teto diário declarado abaixo de 7 mg. Em passos de 0,5 mg, o maior esquema estritamente abaixo de 7 mg é 6,5 mg, ou 13 comprimidos: partindo de 1,5 mg são mais dez comprimidos, um por hora, durante dez horas. O regime de dose baixa que a diretriz americana de 2020 recomenda de forma forte totaliza 1,8 mg no primeiro dia, ou 1,5 mg com o comprimido brasileiro de 0,5 mg. A razão entre os dois é de 4,3 vezes, e a diferença absoluta é de 5,0 mg, ou dez comprimidos.

O mais grave é que a bula contradiz a si mesma. A seção 2 do mesmo documento, sobre resultados de eficácia, descreve o ensaio que comparou 1,8 mg em uma hora com 4,8 mg em seis horas e relata resposta semelhante, com o braço de dose baixa apresentando perfil de eventos adversos parecido com o do placebo, enquanto a dose alta associou-se a mais diarreia e vômito. A seção 8, de posologia, ignora esse achado e mantém o esquema anterior a ele. O interno que ler a bula de trás para a frente encontra a evidência; o que ler só a posologia, que é o que se lê com pressa, encontra o regime que a evidência da própria bula desmontou.

Terceira conferência sobre a mesma bula, e é uma omissão de seção. A posologia diz apenas que o intervalo entre as doses deve ser aumentado nos pacientes com taxa de filtração glomerular estimada entre 15 e 29 mL/min, e não diz mais nada sobre rim. É a seção 5, de advertências, que traz o restante: 0,5 mg uma vez ao dia entre 30 e 59 mL/min, 0,5 mg a cada dois ou três dias entre 15 e 29, e contraindicação abaixo de 15 mL/min. A contraindicação absoluta não é repetida na seção que se consulta para prescrever. Quem lê a posologia isolada não fica sabendo que existe um piso.

Erro de unidade por fator mil numa fonte brasileira revisada por pares. A revisão crítica do tratamento medicamentoso da gota no Brasil, publicada na Revista Brasileira de Reumatologia em 2017, escreve que a diretriz americana propõe administrar uma dose de 1,2 g, seguida de outra administração de 0,6 mg uma hora depois. A dose correta é 1,2 mg, e o deslize está no mesmo período em que a unidade certa aparece na frase seguinte. A frase foi conferida por busca sobre o texto normalizado, sem espaços e sem hífens, para descartar artefato de extração de PDF: ela está no documento. As proporções: 1,2 g são 1.200 mg, ou 2.400 comprimidos de 0,5 mg; num adulto de 70 quilos são 17,1 mg/kg, entre 21 e 34 vezes a faixa de 0,5 a 0,8 mg/kg que a bula brasileira declara capaz de induzir falência medular e morte; e são 171 vezes o teto diário da própria bula.

Duas conferências sobre a bula do alopurinol, uma que falha e uma que fecha. A que falha: a bula recomenda administrar profilaticamente um anti-inflamatório adequado ou colchicina por alguns meses ao iniciar o tratamento e, na mesma frase, manda consultar a literatura para detalhes de dose — isto é, prescreve uma conduta e se recusa a informar como executá-la. Além disso, o único número que ela ancora para o ajuste renal é a concentração plasmática de oxipurinol abaixo de 100 µmol/L, um exame que não está disponível na rede brasileira. A que fecha: a conversão que a bula oferece está certa. O oxipurinol tem massa molar de 152,11 g/mol, e 100 µmol/L correspondem a 15,21 mg/L, que é exatamente o valor de 15,2 mg/L impresso ao lado.

Ainda sobre o alopurinol, dois tetos no mesmo documento. Na seção de posologia, o esquema para condições graves é de 700 a 900 mg diários. Em outro trecho, ao discutir a subdosagem do fármaco, o texto afirma que a dose pode ser aumentada progressivamente até 800 mg por dia, com segurança, buscando alcançar 6 mg/dL de ácido úrico sérico. Os dois números não são incompatíveis com a prática, mas convivem sem se referir um ao outro, e o segundo é o que traz o alvo de uricemia — que, no Brasil, só apareceu num documento próprio em setembro de 2024.

Uma lacuna populacional que muda conduta no Brasil. A bula do alopurinol dedica um bloco ao alelo HLA-B*5801, associado à síndrome de hipersensibilidade e à necrólise epidérmica tóxica, e lista frequências: até 20% entre chineses han, cerca de 12% entre coreanos, e de 1 a 2% entre pessoas de origem japonesa ou europeia. Não há nenhuma linha para a população brasileira nem para pessoas de ascendência africana. A diretriz americana de 2020, por sua vez, recomenda de forma condicional testar o alelo antes de iniciar alopurinol em pacientes de ascendência do sudeste asiático e também em pacientes afro-americanos. A bula que se lê no Brasil não sinaliza justamente o grupo que a diretriz sinaliza, e a genotipagem não está disponível na rede — o que sobra é vigilância clínica nas primeiras semanas, descrita na reavaliação.

Na consulta, conferir se o paciente consegue obter o medicamento e compreender o esquema. Pedir que explique como tomará cada dose, como reconhecerá um efeito adverso e o que fará se a crise voltar. Essa verificação é especialmente útil com comprimidos de apresentações distintas e com a separação entre tratamento da crise e tratamento contínuo.

A anomalia do naproxeno merece uma nota própria porque muda a receita de alta. O naproxeno é o anti-inflamatório com mais tradição de uso na crise de gota, e na Rename 2024 ele está no componente especializado, não no básico. Os documentos norteadores que a própria Rename lista para ele são os protocolos de artrite idiopática juvenil, artrite psoriásica, artrite reativa, artrite reumatoide, dor crônica e espondilite anquilosante. Seis protocolos federais de doenças reumatológicas, e nenhum de gota. Na prática: o anti-inflamatório que a unidade tem para entregar ao paciente com gota é o ibuprofeno, que está no básico em cinco apresentações.

Sobre a datação da Rename, um aviso de método. A edição consultada é a de 2024, e a página oficial do Ministério da Saúde a apresenta como a edição vigente — teste forte, porque é o próprio publicador afirmando. Circulam, porém, sites agregadores comerciais anunciando uma Rename mais nova e prometendo listas atualizadas de medicamentos do SUS. Nenhum deles é o Ministério da Saúde, e a edição que eles anunciam não está no portal oficial. Ao conferir qualquer edição de norma, o teste é sempre o mesmo: procurar o documento no sítio de quem o publica, e não em quem o revende.

08

A conduta, hora a hora

A conduta abaixo acompanha o Milton do momento em que ele senta na maca até seis meses depois, porque é esse o intervalo em que a doença dele se decide. Os quatro primeiros marcos acontecem em uma manhã; os quatro últimos, ao longo de meio ano — e o interno participa dos dois blocos, porque é ele quem escreve a receita de alta e quem redige o encaminhamento que a unidade vai ler.

Recapitulando os números do caso, que governam tudo o que vem: homem de 57 anos, 92 quilos, hálux direito em crise há 36 horas, terceira crise em oito meses, creatinina de 1,9 mg/dL com taxa de filtração glomerular estimada em torno de 41 mL/min/1,73 m², em uso de hidroclorotiazida, e uma uricemia de 5,9 mg/dL colhida dez dias antes.

  1. 05h45 — antes de nomear a doença, decidir a velocidade

    A primeira decisão não é qual é o diagnóstico, e sim se este paciente pode esperar. Milton está afebril, com uma articulação só, sem porta de entrada na pele, sem calafrio e com estado geral preservado — não é um paciente de sala vermelha. Isso compra tempo, e tempo é o que permite fazer as coisas na ordem certa em vez de na ordem confortável. A segunda decisão é a que a história tenta impedir: apesar do retrato clássico e das três crises anteriores, a hipótese de artrite séptica não sai da mesa antes que o líquido responda. Examine a pele em volta procurando porta de entrada e borda de celulite, e teste o movimento passivo — se dói ao movimento que você faz sem que ele contraia nada, é dentro da articulação.

    Prescrição
    • Sinais vitais completos, com temperatura axilar registrada em número e não como afebril
    • Exame do hálux e comparação com o contralateral: contorno, calor, eritema e amplitude passiva em graus
    • Inspeção de toda a pele do pé e da perna procurando porta de entrada, bolha ou placa de celulite
    • Palpar hélice das orelhas, bordas ulnares dos antebraços e tendões de Aquiles procurando tofo
    • Registrar no prontuário a hipótese de artrite séptica como não excluída, e o que vai excluí-la
  2. 06h00 — puncionar, e pedir as quatro coisas

    A punção de primeira metatarsofalângica exige habilidade e pode precisar de ultrassom. Na dúvida diagnóstica ou suspeita de infecção, chamar profissional habilitado e planejar a coleta. Se houver pouco volume, conversar com o laboratório sobre prioridades, preservando amostra para microbiologia quando infecção for relevante. Punção seca não exclui doença e pode mudar tanto a investigação quanto a escolha de tratamento: não manter corticoide automaticamente com infecção ainda provável.

    Prescrição
    • Líquido sinovial para contagem total e diferencial de células, em tubo com EDTA
    • Líquido sinovial para pesquisa de cristais sob luz polarizada, em lâmina a fresco, sem heparina e sem oxalato
    • Líquido sinovial para bacterioscopia pelo Gram e para cultura com antibiograma
    • Hemoculturas em dois sítios se surgir febre ou se o líquido levantar suspeita de infecção
    • Anotar no pedido a hora da coleta e a hipótese, para que o laboratório saiba que a pesquisa de cristal é a pergunta
  3. Primeiro atendimento — avaliar a colchicina já tomada e controlar a dor

    Milton já tomou seis comprimidos de colchicina e está com diarreia: a primeira decisão é suspender novas doses e avaliar possível toxicidade, hidratação, função renal e interações. Analgesia simples pode começar durante a investigação. Para a crise, após avaliar suficientemente a hipótese infecciosa, um curso curto de prednisona é uma opção pela doença renal e pela intolerância à colchicina. Não é universalmente mais eficaz que as alternativas; foi escolhido pelos riscos deste paciente. Se a suspeita de infecção continuar relevante, tratar essa hipótese e discutir a terapia anti-inflamatória com a equipe.

    Prescrição
    • Após avaliação clínica e exclusão suficiente de infecção relevante, discutir prednisona 30–40 mg VO uma vez ao dia por 5 dias. Rever glicemia, contraindicações e necessidade de reavaliação; um curso curto isolado não exige desmame prolongado.
    • Não dar nova dose de colchicina neste atendimento enquanto houver diarreia e suspeita de toxicidade. Quantificar dose e horário já tomados, checar hidratação, creatinina, eletrólitos e interações; considerar avaliação toxicológica conforme intensidade e evolução.
    • Analgesia simples associada: dipirona ou paracetamol em horário fixo nas primeiras 48 horas
    • Repouso relativo, elevação do pé e crioterapia local por 15 minutos a cada 4 horas
    • Não prescrever anti-inflamatório não esteroide: taxa de filtração glomerular estimada de 41 mL/min
    • Glicemia capilar antes e durante o corticoide, porque a hiperglicemia é o efeito adverso que aparece já no primeiro dia
  4. 07h10 — a linha que não se mexe, e a que se mexe depois

    Se já estivesse em hipouricemiante, manteria a dose durante a crise, salvo contraindicação ou toxicidade específica. Milton tem crises frequentes e indicação de discutir alopurinol desde esta consulta. O início durante a crise é possível quando diagnóstico, indicação, profilaxia e seguimento estão organizados; não é necessário adiar apenas porque ainda há dor. Neste episódio, a suspeita de toxicidade por colchicina precisa ser resolvida para escolher a profilaxia. Rever hidroclorotiazida e risco cardiometabólico desde já com a equipe responsável, sem aguardar atingir o urato-alvo.

    Prescrição
    • Manter qualquer hipouricemiante em uso, na mesma dose, sem interromper por causa da crise
    • Discutir indicação de hipouricemiante já na primeira consulta. Iniciar durante a crise pode ser adequado com cobertura anti-inflamatória e seguimento; adiar se esses elementos ainda não estiverem seguros, com data concreta para revisão.
    • Rever desde já indicação da hidroclorotiazida, pressão e volemia com a equipe; a eventual troca depende do controle pressórico e não de esperar o alvo de urato.
    • Revisar a lista completa de medicamentos procurando inibidores da glicoproteína P e do citocromo CYP3A4
    • Perguntar especificamente por estatina, claritromicina, cetoconazol, verapamil, diltiazem e ciclosporina
  5. 08h30 — o líquido volta, e a leitura correta

    Cristais de urato apoiam gota, mas não excluem coinfecção. Gram negativo também não afasta infecção, e cultura negativa não é prova absoluta, sobretudo após antibiótico. Neste caso, integrar apresentação, coleta, evolução e reavaliação programada para justificar tratar a crise. Resposta ao corticoide, isoladamente, não funciona como teste diagnóstico. Registrar quem confere a cultura e antecipar retorno se houver febre ou piora.

    Prescrição
    • Registrar o resultado do líquido com as três respostas separadas: celularidade, cristal e Gram
    • Deixar a cultura com dono nomeado na passagem de plantão, com telefone de contato do paciente
    • Reavaliar a articulação em 24 e em 48 horas: amplitude passiva em graus e capacidade de apoiar o pé
    • Orientar retorno imediato se surgir febre, calafrio ou piora da dor apesar do corticoide
  6. 10h00 — a alta, que é onde este capítulo costuma ser perdido

    A alta reúne o plano da crise, a vigilância após uso excessivo de colchicina e o início do cuidado contínuo. Explicar que alívio da dor e redução do depósito de urato são objetivos diferentes. A indicação de hipouricemiante já pode ser discutida pelas crises frequentes; combinar quando e como será iniciado, qual profilaxia é segura e quem titulará a dose. Conferir também cultura pendente e evolução da diarreia.

    Prescrição
    • Prednisona 30 a 40 mg ao dia até completar 5 dias, com a data do último comprimido escrita na receita
    • Sem colchicina na receita imediata enquanto persistirem diarreia ou suspeita de toxicidade; a reintrodução futura exige reavaliação e plano de dose seguro.
    • Dipirona ou paracetamol se dor, com dose e intervalo escritos
    • Coleta de ácido úrico sérico, creatinina e hemograma agendada para dali a 2 a 4 semanas, fora da crise
    • Encaminhamento à unidade básica com a hipótese confirmada, o resultado do líquido e a pergunta do hipouricemiante explicitada
    • Retorno imediato se febre, calafrio, piora da dor ou surgimento de outra articulação inflamada
    • Orientação escrita de não iniciar nem parar nenhum remédio de ácido úrico por conta própria
  7. Reavaliação programada — iniciar ou ajustar o cuidado contínuo

    Na reavaliação, uricemia de 8,4 mg/dL ajuda a planejar titulação, mas não se pode atribuir automaticamente o valor anterior de 5,9 à crise: ele foi colhido dez dias antes de sintomas iniciados há 36 horas. As três crises em oito meses já sustentavam discutir hipouricemiante. Alopurinol é preferido como primeira opção inclusive na doença renal, salvo contraindicação, começando baixo e titulando. Resolver a intolerância à colchicina e escolher profilaxia individualizada antes ou junto do início.

    Prescrição
    • Alopurinol em dose inicial baixa: considerar 50–100 mg VO ao dia nesta faixa renal, com a apresentação disponível, fatores de hipersensibilidade e supervisão. Titular pelo urato e tolerância; 100 mg em dias alternados é uma alternativa de apresentação, não obrigação universal para TFGe de 41.
    • Profilaxia anti-inflamatória por pelo menos 3–6 meses, com revisão se persistirem crises. Colchicina 0,5 mg/dia pode ser considerada apenas após resolução da diarreia, exclusão de toxicidade e revisão de função renal/interações; se inadequada, discutir alternativa.
    • Se a colchicina não estiver disponível ou não for tolerada, considerar prednisona em dose baixa como profilaxia
    • Orientar por escrito: a crise pode voltar nas primeiras semanas, e isso não significa que o remédio falhou
    • Orientar procurar atendimento imediatamente se surgir qualquer exantema, febre ou lesão em mucosa
    • Uricemia, creatinina e transaminases de controle em 4 semanas
    • Registrar no prontuário a indicação que sustenta o início: número de crises no último ano
  8. Meses seguintes — titular, acompanhar função e reduzir riscos

    O erro mais comum daqui em diante é prescrever uma dose e nunca mais mexer nela. A estratégia recomendada de forma forte é de tratamento por alvo: subir a dose por etapas, guiado por medidas seriadas de uricemia, até ficar abaixo de 6 mg/dL — e não uma dose fixa. Em pacientes com doença renal crônica pode ser necessário passar de 300 mg por dia para chegar lá, e a literatura sustenta que essa escalada pode ser feita com segurança nessa população. O alvo abaixo de 6 mg/dL é o mesmo que a recomendação conjunta brasileira de 2024 manda imprimir no laudo do exame, e é o número que o interno deve escrever no encaminhamento para que a unidade saiba o que perseguir. Quando o alvo é atingido e mantido, as crises rareiam e os tofos regridem — e a revisão do diurético, do peso e dos demais riscos acompanha o tratamento desde o início.

    Prescrição
    • Subir o alopurinol por etapas a cada 4 semanas, guiado pela uricemia, até ficar abaixo de 6 mg/dL
    • Manter a profilaxia anti-inflamatória até completar 3 a 6 meses, e estendê-la se as crises continuarem
    • Não suspender o alopurinol quando ocorrer crise durante a titulação: tratar a crise e manter a dose
    • Reavaliar anti-hipertensivos, peso, álcool, alimentação e risco cardiovascular durante todo o seguimento, de forma compartilhada e sem culpabilizar; não esperar atingir a meta de urato.
    • Manter o alopurinol indefinidamente, e explicar ao paciente que a suspensão devolve a uricemia ao ponto de partida
    • Reavaliar tofos, articulações acometidas e função renal a cada 6 meses
09

Como saber se está funcionando

A gota tem dois relógios, e eles não se comunicam. O relógio da crise anda em horas e termina em dias, e o que se mede nele é a articulação. O relógio da doença anda em semanas e não termina, e o que se mede nele é um número de laboratório. Um paciente pode ter a crise perfeitamente tratada e a doença perfeitamente abandonada, e é o que acontece com a maioria.

Além dos dois, existe um terceiro relógio que só corre em algumas pessoas e que o interno tem obrigação de armar: o da toxicidade. A colchicina intoxica silenciosamente em quem tem rim ruim, e o alopurinol tem uma reação de hipersensibilidade que é rara e pode matar. Os parâmetros abaixo cobrem os três.

Amplitude passiva da articulação, em graus, e capacidade de apoiar o pé no chãoNa admissão, em 24 horas e em 48 horas, sempre comparando com o lado contralateral

Esperado: Ganho progressivo a partir das primeiras 12 a 24 horas de tratamento, com o paciente voltando a apoiar o pé até o segundo dia. A crise de cristal responde rápido, e responder rápido é o comportamento esperado.

Se não melhora: Amplitude que não ganha em 48 horas de tratamento adequado desmonta a hipótese de crise não complicada. Reabra as três possibilidades na ordem: infecção concomitante que a cultura ainda não mostrou, dose insuficiente do anti-inflamatório escolhido, e diagnóstico errado. A primeira é a que não pode esperar.

Dor, medida em escala numérica, e quantas doses de resgate o paciente pediuA cada seis horas nas primeiras 48 horas, anotando a necessidade de resgate e não apenas o número

Esperado: Queda perceptível já nas primeiras 12 a 24 horas, com necessidade decrescente de resgate. A colchicina iniciada nas primeiras 24 horas do início dos sintomas funciona melhor do que a iniciada depois, e vale registrar em que momento da crise o tratamento começou.

Se não melhora: Dor que não cede, ou que precisa de mais resgate no segundo dia do que no primeiro, é o mesmo sinal da amplitude e leva à mesma revisão. Antes de subir a dose, confira se o paciente de fato tomou o que foi prescrito e o que mais ele tomou por conta própria.

Temperatura, sinais sistêmicos e o resultado da cultura do líquidoTemperatura a cada seis horas enquanto internado; a cultura, quando voltar, entre 48 e 72 horas

Esperado: Febre baixa pode ocorrer na crise de gota, sobretudo na forma poliarticular, e não é por si só sinal de infecção. O esperado é que ela ceda junto com a articulação e que a cultura volte negativa.

Se não melhora: Cultura positiva muda o caso inteiro e transfere a conduta para o capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica desta apostila. Febre que aparece depois de o paciente ter melhorado, ou calafrio, é motivo para repuncionar antes de esperar a cultura. E não deixe a cultura sem dono: o resultado que ninguém lê é um dos erros catalogados no capítulo vizinho.

Tolerância digestiva à colchicina — náusea, cólica e diarreiaPerguntar ativamente a cada avaliação, e orientar o paciente a interromper por conta própria se surgirem

Esperado: Nenhum sintoma. Na dose baixa correta, o perfil de eventos adversos é próximo ao do placebo, e é isso que sustenta a recomendação forte pela dose baixa.

Se não melhora: Diarreia sob colchicina não é efeito colateral aceitável a caminho da resposta: é o primeiro degrau da toxicidade, e é o sinal que o regime antigo usava como alvo. Suspenda. Em quem tem rim ruim ou usa inibidor da glicoproteína P ou do citocromo CYP3A4, sintoma digestivo obriga a rever também a dose e a lista de medicamentos, porque a toxicidade grave da colchicina começa exatamente assim.

Glicemia capilar durante o corticoideAntes da primeira dose e ao menos uma vez ao dia enquanto durar o corticoide, com atenção redobrada em diabéticos

Esperado: Elevação modesta e transitória, que volta ao basal em poucos dias após o término. Em quem já tem diabete, a subida costuma ser maior e aparece no primeiro dia.

Se não melhora: Hiperglicemia expressiva no paciente internado tem manejo próprio, no capítulo Hiperglicemia no paciente internado, na apostila de prescrição e cuidado do internado. O acréscimo daqui é a decisão de fundo: se o corticoide está descompensando muito o diabete e a função renal permite, reconsidere colchicina ou anti-inflamatório; se não permite nenhum dos dois, o corticoide intra-articular numa articulação só resolve sem a exposição sistêmica.

Pele e mucosas nas primeiras oito semanas de alopurinolOrientação verbal e escrita na primeira prescrição, e pergunta ativa em toda consulta de titulação

Esperado: Nenhuma lesão. A grande maioria dos pacientes tolera o alopurinol sem qualquer manifestação cutânea.

Se não melhora: Qualquer exantema sob alopurinol é motivo para suspender imediatamente e reavaliar, e exantema com febre, acometimento de mucosa, descamação ou linfonodomegalia é emergência. A bula é explícita: nessas reações o alopurinol deve ser descontinuado de imediato e a reexposição não deve ser feita. O interno não vai ter genotipagem do alelo de risco à disposição no Brasil, e é justamente por isso que a vigilância clínica e a orientação clara ao paciente ocupam esse lugar.

Uricemia em série — o único parâmetro que mede a doençaUma medida basal 2 a 4 semanas após a crise, e uma medida a cada 4 semanas durante a titulação; depois do alvo, a cada 6 meses

Esperado: Queda progressiva até ficar abaixo de 6 mg/dL, e permanência abaixo desse valor. É o alvo que a recomendação conjunta brasileira de 2024 manda imprimir no laudo do exame, e é o número que o encaminhamento deve nomear.

Se não melhora: Uricemia que não desce tem três explicações antes de qualquer outra: dose insuficiente, adesão insuficiente, e um fármaco novo que subiu o urato. Confira a dose, converse sobre a tomada sem repreender, e revise a prescrição procurando diurético tiazídico ou de alça, que a própria bula da colchicina lista entre os medicamentos que aumentam a uricemia e reduzem a eficácia do tratamento.

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Onde o erro machuca

Escrever colchicina no regime que a bula brasileira ainda descreve para o ataque agudo

O dano: O regime de 0,5 a 1,5 mg seguidos de 0,5 mg de hora em hora até o alívio da dor, com teto abaixo de 7 mg, permite 13 comprimidos num dia contra os 3 do regime de dose baixa — 4,3 vezes mais. Ele não é mais eficaz: a própria seção de eficácia da bula descreve o ensaio que mostrou resposta semelhante com 1,8 mg em uma hora e perfil de adversos igual ao do placebo, contra mais diarreia e vômito na dose alta. O que se ganha com a dose antiga é intoxicação, e num paciente com rim ruim ou em uso de inibidor da glicoproteína P a intoxicação pode ser grave.

Como pegar a tempo: Conferir apresentação, função renal/hepática, interações e doses já usadas antes de prescrever. Preferir baixa dose em vez do esquema repetido até diarreia. No Milton, que chega com diarreia após seis comprimidos, não repetir ataque nem acrescentar dose diária; primeiro avaliar toxicidade. O regime em alguém sem uso prévio e sem essas limitações é outra situação clínica.

Afastar gota porque a uricemia colhida na crise veio normal

O dano: Uricemia normal isolada não exclui gota, e pode diminuir durante uma crise por alterações inflamatórias e de excreção renal. Entretanto, o exame de Milton antecedeu o início dos sintomas; não há dado que permita atribuir aquele 5,9 mg/dL à crise atual. A identificação do cristal e o contexto sustentam o diagnóstico; medidas seriadas orientam o tratamento.

Como pegar a tempo: Guarde a regra nas duas direções: uricemia normal na crise não exclui gota, e uricemia alta não faz o diagnóstico. Use o exame para o que ele serve, que é acompanhar tratamento, e colha-o fora da crise, de 2 a 4 semanas depois. Quando o paciente trouxer um resultado normal como defesa, explique a fisiologia em vez de discutir o número.

Suspender o hipouricemiante porque o paciente está em crise

O dano: Parece cuidado e é o contrário. A crise é desencadeada pela variação da uricemia, não pelo valor, e suspender provoca justamente a variação — costuma prolongar a crise que se queria encurtar, e com frequência o paciente nunca mais reinicia. A bula brasileira do alopurinol é explícita: ocorrendo crise em paciente que já usa o fármaco, o tratamento deve ser mantido na mesma dose e a crise tratada com anti-inflamatório apropriado.

Como pegar a tempo: Faça da linha do hipouricemiante uma linha que você não toca no pronto-socorro, nem para cima nem para baixo. Se ele usa, mantenha. Se ele não usa, a decisão de iniciar é uma decisão de consulta, com indicação registrada e profilaxia junto — e é da consulta, não da porta. Escreva isso na receita de alta com essas palavras, porque o paciente vai receber conselho contrário de muita gente.

Iniciar alopurinol em dose cheia, sem profilaxia, e nunca mais titular

O dano: São três erros que costumam vir juntos e se alimentam. A dose cheia de saída aumenta o risco da síndrome de hipersensibilidade e a chance de precipitar crise. A ausência de profilaxia aumenta o risco de crise nas primeiras semanas. E a crise convence o paciente de que o remédio piorou tudo, o que produz o abandono. Somado à dose fixa que ninguém revisa, o resultado é um paciente que toma alopurinol por anos e nunca chega ao alvo — que é como a maior parte dos pacientes brasileiros com gota vive.

Como pegar a tempo: Comece baixo, com 100 mg por dia ou menos, e menos ainda se a função renal está reduzida. Prescreva a profilaxia no mesmo receituário e por pelo menos 3 a 6 meses, com recomendação forte para essa duração. Avise o paciente, antes que aconteça, de que a crise pode voltar e que isso não é falha. E marque a próxima uricemia na mesma consulta, porque tratamento por alvo sem medida em série não é tratamento por alvo.

Prescrever anti-inflamatório não esteroide sem olhar a taxa de filtração glomerular

O dano: É o erro mais frequente deste capítulo, porque o anti-inflamatório é o reflexo automático diante de uma articulação inflamada e porque a maioria dos pacientes com gota tem função renal reduzida. Num paciente com filtração já baixa, uma semana de anti-inflamatório pode desencadear injúria renal aguda — e ele costuma estar usando, ao mesmo tempo, um diurético e um bloqueador do sistema renina-angiotensina, o que fecha a tríade clássica.

Como pegar a tempo: Não escreva anti-inflamatório em paciente com gota antes de ter a creatinina e a filtração estimada na tela. Acima de 60 mL/min, use pelo menor tempo que resolver. Abaixo disso, o corticoide passa a ser a escolha, e ele é o que a Rename entrega. Numa única articulação com derrame, e com a infecção afastada, o corticoide intra-articular resolve sem exposição sistêmica nenhuma.

Tratar a crise, dar alta com a receita da crise, e não deixar nada escrito sobre a doença

O dano: É o erro que não machuca hoje e que decide os próximos vinte anos. A crise melhora sozinha, o paciente some, e volta seis meses depois com outra articulação. A cada volta o intervalo encurta, mais articulações entram, e em algum momento aparece um tofo ou uma erosão que já não se desfaz. Nenhuma dessas voltas será atribuída à alta que não encaminhou.

Como pegar a tempo: Trate a receita de alta como duas receitas: a de hoje e a de daqui a três semanas. Peça a uricemia basal com data. Escreva um encaminhamento que diga o que foi encontrado no líquido e formule a pergunta que a próxima consulta tem que responder. E diga em voz alta ao paciente a frase que organiza tudo: o que ele está levando trata a dor de hoje, e o tratamento da doença ainda não começou.

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O que dizer ao paciente e à família

A gota tem uma dificuldade de comunicação própria: o paciente costuma chegar com o diagnóstico já feito por ele mesmo, com um tratamento já tentado e com uma teoria sobre a causa que quase sempre envolve comida. Ele não está pedindo um diagnóstico; está pedindo alívio. Isso muda a conversa, porque tudo o que o médico disser de novo soa como contrariedade.

As falas abaixo cobrem os momentos em que a conversa decide adesão. A coluna do que evitar não é etiqueta: cada frase listada ali é uma frase que produz abandono de tratamento, e a maior parte delas é dita com boa intenção.

Ao paciente que já sabe que tem gota e não entende por que vai levar uma agulha no dedo

O senhor provavelmente está certo, e a história que me contou é uma história muito boa de gota. O problema é que existe uma outra coisa que começa exatamente assim, que é uma infecção dentro da articulação, e essa não dá para tratar depois: quanto mais tempo passa, mais cartilagem se perde. O único jeito de separar as duas é olhar o líquido de dentro. Se vier o cristal da gota, o senhor vai saber que é gota de verdade e não por suposição. E se vier infecção, a gente pegou hoje.

Não diga: Vou ter que espetar aí porque é protocolo. — Protocolo não é razão, e o paciente ouve isso como burocracia. Também evite prometer que não dói: o dedo já dói, e a promessa quebrada custa a confiança que você vai precisar na conversa seguinte.

Quando o paciente apresenta o exame de ácido úrico normal como prova de que não é gota

O exame que o senhor trouxe é útil, mas sozinho não confirma nem descarta gota. Ele foi feito antes desta crise, então não podemos dizer que este valor caiu por causa dela. Vamos usar a história, o líquido da articulação quando indicado e medidas posteriores do urato para escolher o cuidado e acompanhar o tratamento.

Não diga: Esse exame não serve para nada. — Serve, e muito, só que em outro momento; desqualificá-lo faz o paciente desconfiar do próximo exame que você pedir. Evite também dizer o senhor tem gota sim, que transforma a conversa em disputa.

Quando o paciente conta que tomou vários comprimidos por conta própria e passou a noite com diarreia

Obrigado por contar quanto tomou. Com essa diarreia, não tome mais colchicina agora: precisamos avaliar hidratação, rim, outros remédios e possível toxicidade. Vamos escolher uma forma segura de tratar a dor. Para crises futuras, qualquer esquema será combinado conforme sua função renal; não repita doses de hora em hora nem reinicie por conta própria.

Não diga: O senhor se automedicou. — Repreensão fecha a conversa e o paciente para de contar o que tomou, que é a informação de que você mais precisa. Evite também minimizar: a diarreia sob colchicina é o primeiro degrau da toxicidade, não um incômodo.

Explicando a diferença entre tratar a crise e tratar a doença

Vou separar duas coisas que parecem uma só. A primeira é a dor de hoje: isso a gente resolve em poucos dias, e o senhor vai melhorar mesmo. A segunda é o motivo de a dor ter vindo. Faz anos que está se acumulando um cristal dentro dessa articulação, e o cristal continua lá depois que a dor passa — é por isso que já foi três vezes em oito meses, e é por isso que a próxima vem mais cedo. O remédio da dor não mexe no cristal. Existe outro remédio, para tomar todo dia, que desfaz o depósito devagar. Esse é o que muda o seu futuro, e ele não começa hoje: começa naquela consulta que eu vou marcar.

Não diga: É só evitar carne vermelha e cerveja que resolve. — A dieta ajuda pouco e transfere a responsabilidade inteira para o paciente, que passa a se culpar por cada crise. Evite também prometer cura: a gota se controla, não se cura.

Ao iniciar o alopurinol, avisando que a crise pode voltar

Preciso avisar de uma coisa estranha antes de o senhor começar. Nas primeiras semanas desse remédio, é possível que venha outra crise — e isso não quer dizer que ele não está funcionando. É até o contrário: quando o ácido úrico começa a cair, o depósito antigo se solta e incomoda no caminho. Por isso o senhor vai levar junto um comprimido para tomar todo dia durante alguns meses, que é para segurar essa fase. O que eu peço é que, se vier a crise, o senhor não pare o remédio novo. Me procure, que a gente trata a crise e mantém o tratamento.

Não diga: Se der crise é porque não está funcionando. — É a frase que produz abandono, e às vezes ela sai do próprio balcão da farmácia. Antecipe-a. Evite também iniciar sem avisar, apostando que não vai acontecer.

Sobre tomar o remédio para sempre, ao paciente que quer saber quando vai poder parar

Vou ser direto: a ideia é não parar. Esse remédio não cura o problema, ele mantém o ácido úrico num nível em que o cristal não se forma e o antigo vai se desfazendo. No dia em que o senhor parar, o ácido úrico volta ao que era em poucas semanas e o depósito recomeça. É parecido com o remédio da pressão: ninguém para porque a pressão está boa; ela está boa porque não parou. O que a gente pode fazer é ajustar a dose até achar a menor que mantém o senhor no alvo.

Não diga: Depois a gente vê se dá para tirar. — Uma promessa vaga de suspensão faz o paciente parar sozinho na primeira oportunidade. Evite também dizer é para o resto da vida sem explicar por quê: a explicação do mecanismo é o que sustenta a adesão.

Orientando sobre o sinal de alarme do alopurinol, sem transformar isso em medo

Uma última coisa, e não é para o senhor ficar assustado — é uma reação rara, mas eu preciso que o senhor saiba reconhecer. Se aparecer qualquer mancha na pele depois que começar esse remédio, principalmente se vier junto com febre ou com ferida na boca, pare o comprimido e procure atendimento no mesmo dia. Não espere para ver se melhora. É raro, mas quando acontece é sério, e quem para cedo fica bem. Fora isso, o remédio é bem tolerado e o senhor não vai sentir nada.

Não diga: Se aparecer alguma coisa o senhor me avisa na próxima consulta. — A próxima consulta pode ser em quatro semanas, e essa reação não espera. Evite também entregar a informação apenas por escrito: diga em voz alta e peça que o paciente repita o que entendeu.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando iniciar o hipouricemiante: durante a crise, ou só depois que ela resolver por completo

Iniciar durante a crise, quando a indicação já está estabelecida

Quando se decide que o hipouricemiante está indicado enquanto o paciente ainda está em crise, recomenda-se de forma condicional iniciá-lo durante a crise, em vez de esperar que ela resolva. A certeza da evidência é classificada como moderada. O argumento prático é o abandono: o paciente que sai do pronto-socorro com a promessa de começar depois com frequência não começa nunca.

FitzGerald JD e col., 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout, Arthritis Care & Research 2020;72(6):744-760 — recomendação condicional, evidência moderada.

Aguardar a resolução completa da crise

O tratamento com alopurinol não deve ser iniciado até que um ataque agudo de gota tenha terminado completamente, porque o início pode desencadear novas crises. A mesma orientação aparece no material da sociedade brasileira dirigido ao paciente, que recomenda aguardar a resolução completa da crise aguda para iniciar as medicações que reduzem o ácido úrico.

Bula profissional do alopurinol, Novartis Biociências, versão VPS07, seção de advertências, item sobre ataques agudos de gota; e Sociedade Brasileira de Reumatologia, página Gota, orientação ao paciente, atualizada em 31/07/2025.

A própria recomendação de iniciar registra o outro lado

O documento que recomenda iniciar durante a crise acrescenta, no mesmo parágrafo, que como em toda recomendação condicional podem existir fatores ou preferências do paciente que sustentem razoavelmente a alternativa de adiar o início até a crise ter resolvido. A divergência, portanto, não é entre um lado certo e um errado, e sim entre dois arranjos aceitáveis do mesmo risco.

FitzGerald JD e col., 2020, mesmo documento, comentário que acompanha a recomendação.

Como decidir

Decida pela probabilidade de o paciente voltar. Se ele tem seguimento garantido, consulta marcada e telefone que atende, adiar duas a quatro semanas tem a vantagem de colher a uricemia basal fora da crise e de não misturar dois tratamentos numa cabeça só. Se ele é o paciente que veio de outra cidade, que não tem unidade de referência ou que já sumiu antes, a chance de o início adiado nunca acontecer é alta, e iniciar agora — sempre com profilaxia anti-inflamatória junto e em dose baixa — é a decisão que protege mais. Em qualquer dos dois arranjos, o que não se faz é iniciar sem profilaxia.

Qual o corte de uricemia-alvo, e se ele deve ser mais baixo na gota tofácea

Abaixo de 6 mg/dL para todos, sem limiar menor para doença grave

Atingir e manter um alvo de urato sérico abaixo de 6 mg/dL, em vez de não usar alvo nenhum, é recomendado de forma forte para todos os pacientes em tratamento hipouricemiante. O documento afirma explicitamente que está rompendo com as diretrizes anteriores ao não especificar limiares abaixo de 6 mg/dL para subgrupos com doença mais grave, como os que têm tofos, e justifica: embora haja evidência de que níveis mais baixos aceleram a resolução dos tofos, não há dados de ensaio clínico que sustentem limiares específicos mais baixos para esses pacientes.

FitzGerald JD e col., 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout — recomendação forte para o alvo, e comentário explícito sobre o rompimento com o limiar anterior.

Limiar mais baixo na doença grave ou tofácea

As recomendações anteriores, tanto americanas quanto europeias, fixavam um limiar de uricemia mais baixo para pacientes com doença grave ou com tofos, sob o raciocínio de que quanto menor a concentração, mais rápida a dissolução do depósito. Este capítulo conhece essa posição apenas pela caracterização que o documento de 2020 faz dela, ao declarar que rompe com ela — o texto europeu de 2016 não foi aberto no original aqui, e nada além disso é afirmado a partir dele.

Posição atribuída às recomendações americanas de 2012 e europeias de 2016, conforme registrado por FitzGerald JD e col., 2020.

A posição brasileira: abaixo de 6 mg/dL, impresso no laudo

As duas sociedades brasileiras recomendam que os laudos de ácido úrico sérico incluam a observação de que, em pacientes em tratamento para gota, se recomendam níveis abaixo de 6 mg/dL. O documento adota o alvo único, sem exceção declarada para gota tofácea, e ancora a escolha no limiar de solubilidade do urato, que é de 6,8 mg/dL em pH e temperatura corporais normais e menor nas articulações periféricas, onde a temperatura é mais baixa.

Castelar Pinheiro GR e col., Sociedade Brasileira de Reumatologia e Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial, Advances in Rheumatology 2024;64:73.

Como decidir

Para o paciente que sai do seu pronto-socorro, a divergência não muda o próximo passo: em qualquer das posições, o alvo é ficar abaixo de 6 mg/dL, e é esse o número que vai no encaminhamento. A diferença aparece meses depois, no paciente que já está abaixo de 6 e ainda tem tofos que não regridem ou crises que não cessam — e aí a discussão de baixar mais o alvo é de quem acompanha, com o paciente sabendo que se trata de escolha e não de regra. O que o interno decide hoje é mais simples e é onde está o ganho: garantir que exista um alvo, que ele esteja escrito e que alguém vá medi-lo.

Colchicina, anti-inflamatório ou corticoide: qual é a primeira escolha na crise

Os três são primeira linha, sem hierarquia entre eles

Usar colchicina, anti-inflamatório não esteroide ou glicocorticoide — por via oral, intra-articular ou intramuscular — como terapia de primeira linha apropriada para a crise é recomendado de forma forte, em vez de inibidores de interleucina-1 ou hormônio adrenocorticotrófico. Quando a escolha recai sobre a colchicina, a dose baixa é recomendada de forma forte sobre a dose alta, por eficácia semelhante e menor risco de eventos adversos.

FitzGerald JD e col., 2020 American College of Rheumatology Guideline for the Management of Gout — recomendação forte.

Colchicina e anti-inflamatórios, isolados ou associados

O material brasileiro dirigido ao paciente afirma que a crise aguda de gota pode ser controlada com o uso de colchicina, de anti-inflamatórios ou da associação de ambos, com alívio em geral após duas horas da dose inicial, e adverte que essas medicações devem ser usadas com cautela em pacientes com insuficiência renal, hipertensão, ulceração péptica ou gastrite. O corticoide sistêmico não é mencionado como opção nesse texto.

Sociedade Brasileira de Reumatologia, página Gota, orientação ao paciente, publicada em 27/09/2017 e atualizada em 31/07/2025.

Monoterapia nas crises leves e moderadas, com associação reservada

Para crises de baixa ou moderada intensidade que envolvem entre uma e três articulações pequenas, ou entre uma e duas grandes, recomenda-se monoterapia, que pode ser iniciada com anti-inflamatório, colchicina ou corticoide; a associação é considerada quando a dor persiste ou o acometimento é poliarticular. O mesmo texto registra que os anti-inflamatórios constituem a terapia mais usada no tratamento precoce da artrite gotosa aguda.

Azevedo VF e col., Revisão crítica do tratamento medicamentoso da gota no Brasil, Revista Brasileira de Reumatologia 2017;57(4):346-355.

Como decidir

Deixe o paciente decidir por você, através de três números e uma lista. O primeiro número é a taxa de filtração glomerular estimada: abaixo de 60 o anti-inflamatório sai da primeira linha, e abaixo de 30 sai de vez. O segundo é a glicemia: em diabete muito descompensado o corticoide sistêmico cobra caro, e a via intra-articular numa articulação só evita esse custo. O terceiro é o tempo desde o início dos sintomas: a colchicina rende mais quando começa nas primeiras 24 horas. A lista é a de medicamentos em uso, procurando inibidores da glicoproteína P e do citocromo CYP3A4, que transformam uma dose segura de colchicina numa dose tóxica. Some a isso o que a unidade tem de fato — prednisona e ibuprofeno estão no componente básico da Rename 2024, e a colchicina não está no elenco.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao Milton Zaqueu, 57 anos, 92 quilos, motorista de caminhão, cinco e quarenta da manhã. Hálux direito em crise há 36 horas, terceira crise em oito meses, descamação de borda relatada nas crises anteriores. Afebril, sem porta de entrada na pele, uma articulação só. Traz ácido úrico de 5,9 mg/dL colhido dez dias antes, e no mesmo papel uma creatinina de 1,9 mg/dL. Usa hidroclorotiazida há seis anos. Tomou seis comprimidos de colchicina por conta própria e passou a noite com diarreia, sem melhora do pé.

  1. o que penso antes de nomear a doença

    Penso na velocidade, não no diagnóstico. Ele está afebril, com estado geral bom, uma articulação só e sem porta de entrada — não é paciente de sala vermelha, e isso me dá tempo de fazer na ordem certa. A ordem certa começa por não deixar a história boa me anestesiar: monoartrite aguda é artrite séptica até prova em contrário, e a prova é o líquido. Ter três crises anteriores aumenta a probabilidade de gota e não zera a de infecção.

  2. o que examino, e o que estou procurando

    Procuro três coisas específicas. Porta de entrada e borda de celulite em todo o pé, porque celulite muda o alvo da agulha e o antimicrobiano. Dor ao movimento passivo, que separa dentro da articulação de em volta dela. E tofo em hélice de orelha, borda ulnar do antebraço e tendão de Aquiles, porque tofo é doença estabelecida e muda a indicação de tratamento de longo prazo mesmo sem crise. Registro a temperatura em número, não como afebril.

  3. o que peço, e por que exatamente isso

    Peço a punção antes de qualquer antimicrobiano, e no líquido peço quatro coisas: contagem e diferencial de células, pesquisa de cristais sob luz polarizada, Gram e cultura. A metatarsofalângica é pequena e pode vir seca — se vier só material no canhão, faço lâmina a fresco, que já responde a pergunta do cristal. Não mando para pesquisa de cristal em tubo com heparina ou oxalato, porque esses sais fazem cristal próprio e confundem a leitura.

  4. por que o ácido úrico normal não me convence de nada

    O valor de 5,9 mg/dL não exclui gota. Ele foi colhido dez dias antes de uma crise iniciada há 36 horas, portanto não posso dizer que caiu por causa desta crise. Valores de urato podem variar e um resultado isolado não mede todo o depósito tecidual. A pesquisa de cristais e o conjunto clínico orientam o diagnóstico; uricemia seriada, preferencialmente fora da crise, ajuda a guiar a titulação.

  5. qual número governa a minha prescrição

    A TFGe estimada em torno de 41 pede cautela com fármacos e pode piorar com desidratação pela diarreia. Evito AINE neste contexto e não acrescento colchicina, pois ele já apresentou possível toxicidade após automedicação. Antes do alopurinol, reverei função renal e riscos de hipersensibilidade para começar em dose baixa e titular. Uma estimativa isolada não define sozinha cronicidade da doença renal.

  6. o que prescrevo agora, e o que não prescrevo

    Inicio analgesia simples, avalio hidratação e interrompo novas doses de colchicina. Depois de avaliar suficientemente infecção, considero prednisona 30–40 mg ao dia por cinco dias, com acompanhamento de glicemia e retorno. Não associo colchicina de rotina ao corticoide neste caso. Se houver suspeita relevante de infecção ou sinais de toxicidade sistêmica, mudo a prioridade e o local de cuidado.

  7. o que faço com os seis comprimidos que ele tomou

    Pergunto dose, horário e apresentação dos seis comprimidos, além de medicamentos concomitantes. Diarreia pode indicar intolerância e ser manifestação inicial de toxicidade; não é sinal de dose terapêutica atingida. Checo hidratação, eletrólitos, função renal e sinais sistêmicos e discuto avaliação toxicológica conforme a evolução. Claritromicina e outros inibidores de CYP3A4/P-gp podem aumentar exposição; estatinas acrescentam risco muscular. Não ensino um novo ataque para ele repetir agora.

  8. como leio o líquido quando ele volta

    O cristal confirma deposição de urato, mas bactéria pode coexistir. Gram negativo não exclui, e a cultura precisa ser conferida e interpretada junto da evolução. Resposta ao corticoide não demonstra ausência de infecção. Neste caso, a decisão de tratar gota exige registrar por que a suspeita infecciosa é baixa e quais achados mudarão a conduta.

  9. a linha que eu não toco

    Manteria um hipouricemiante já usado, salvo reação adversa ou contraindicação específica. Como Milton ainda não usa e tem crises frequentes, discuto indicação agora. Posso iniciar durante a crise se houver plano seguro de profilaxia e seguimento; a diarreia exige resolver primeiro a escolha anti-inflamatória. Reverei também hidroclorotiazida e controle pressórico com a equipe, sem esperar a meta de urato.

  10. o que escrevo na alta, que é onde este caso se ganha ou se perde

    A alta inclui o tratamento escolhido para a crise, ausência de nova colchicina enquanto se esclarece a diarreia, retorno por febre/piora, conferência da cultura e consulta programada para hipouricemiante. Reavalio mais cedo se a diarreia persistir ou houver fraqueza, vômitos ou sinais de desidratação. O encaminhamento informa crises frequentes e função renal, com a pergunta clínica já definida: como iniciar e titular o controle contínuo com segurança.

  11. o que acontece três semanas depois, e por quê

    Na reavaliação, o urato de 8,4 mg/dL ajuda a guiar tratamento; não é prova de que o anterior era falso. Confirmo resolução da diarreia e função renal. Inicio ou ajusto alopurinol em dose baixa, por exemplo 50–100 mg/dia conforme avaliação e apresentação, e defino profilaxia segura por 3–6 meses. Colchicina só volta após revisão da reação e das interações. Explico que uma crise inicial pode ocorrer e não justifica abandono automático.

  12. o que fica marcado para os seis meses seguintes

    Titulo alopurinol por etapas, com uricemia seriada e revisão de tolerância, buscando valor abaixo de 6 mg/dL. Doença renal pede início cauteloso, mas não impõe manter uma dose ineficaz para sempre. Oriento sinais de hipersensibilidade, acompanho função renal/hepática e avalio crises e tofos. Medidas sobre alimentação, álcool, atividade física e anti-hipertensivos entram desde o início, apoiando o cuidado sem substituir o tratamento necessário.

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Faça você

Terça-feira, 15h10, mesmo pronto-socorro. Dona Docelina Aracoiaba tem 76 anos, 62 quilos, é aposentada e chega acompanhada da filha por causa do punho direito, que amanheceu inchado e que ela não consegue mover. Começou de madrugada e piorou o dia inteiro. Nunca teve nada parecido, nunca teve dor no dedão do pé e não tem tofo em lugar nenhum. Tem hipertensão, usa hidroclorotiazida e losartana, e a creatinina do último exame era 1,1 mg/dL. Temperatura de 37,6 °C. O punho está quente, com derrame, e ela não deixa você fletir. Uma radiografia do punho, pedida na triagem, mostra uma linha fina de calcificação na fibrocartilagem entre o rádio e o carpo, e o técnico anotou no verso que a mesma linha aparece nos dois joelhos de um exame do ano passado. Complete o raciocínio.

  1. a pergunta que vem antes de qualquer cristal

    A idade, a febre baixa, a monoartrite aguda e a ausência de história prévia não formam um quadro que dispensa a punção — formam o quadro que mais a exige. Diga o que você pede no líquido e por que a ordem em relação ao antimicrobiano importa.

  2. por que este caso não parece gota, e o que isso vale

    Liste os dados que afastam gota como primeira hipótese: sexo, ausência de crise prévia em hálux, ausência de tofo, articulação de estreia. E diga por que nenhum deles, sozinho, encerra a discussão numa mulher de 76 anos em uso de diurético.

  3. o que a calcificação da radiografia significa, e o que ela não significa

    Nomeie o achado radiográfico e diga a que doença ele aponta. Depois diga a parte difícil: por que a presença dessa calcificação não é suficiente para explicar a articulação inflamada de hoje.

  4. como o cristal dela se distingue do cristal do Milton na lâmina

    Descreva forma e birrefringência dos dois cristais, e diga por que a leitura do cristal dela é tecnicamente mais difícil — o que a literatura registra como a limitação prática dessa identificação.

  5. o que você prescreve, e o que você não tem para prescrever

    Escolha o tratamento da crise pelos números dela e diga por que o tratamento de longo prazo desta doença é diferente do da gota em um ponto essencial.

Ver como fecharíamos

Trate como monoartrite aguda até que o líquido responda, e puncione o punho antes de qualquer antimicrobiano: contagem e diferencial de células, pesquisa de cristais sob luz polarizada, Gram e cultura. Idade avançada, febre baixa e primeira crise não afastam infecção — reforçam a indicação. Os dados que afastam gota como primeira hipótese são a estreia no punho, a ausência de qualquer crise prévia em hálux, a ausência de tofo e o fato de a doença estar começando aos 76 anos; nenhum deles fecha a porta, porque a gota da mulher idosa em uso de diurético existe, começa em mãos e punhos e é sistematicamente confundida com artrite reumatoide e osteoartrite. A linha de calcificação na fibrocartilagem é condrocalcinose, e ela aponta para doença por deposição de pirofosfato de cálcio, o outro cristal — a pseudogota. Mas condrocalcinose é achado comum no idoso, com prevalência radiográfica descrita entre 4% e mais de 10% nessa faixa etária, e ela pode estar presente numa articulação que hoje está infectada: o depósito no exame de imagem não explica a inflamação de hoje, do mesmo modo que o cristal de urato não absolve a articulação do Milton. Na lâmina, o urato monossódico é uma agulha longa e afilada, fortemente birrefringente e de birrefringência negativa; o pirofosfato de cálcio é um romboide ou bastonete curto de ponta rombuda, de birrefringência positiva e fraca. É por isso que a identificação do pirofosfato é a mais difícil das duas: os critérios de classificação de 2023 registram que não existe padrão-ouro prático na clínica para essa doença, porque a leitura sob luz polarizada é específica mas tem alta taxa de falso-negativo e grande variabilidade entre observadores, e que as dificuldades incluem o tamanho pequeno do cristal e uma birrefringência positiva ausente ou fraca. Esses mesmos critérios são de classificação, para pesquisa, e o próprio documento diz que a punção continua importante para o diagnóstico clínico e para excluir os quadros que a imitam — classificar não é diagnosticar. Na prescrição, os números dela mandam: creatinina de 1,1 mg/dL numa mulher de 76 anos corresponde a uma filtração estimada em torno de 52 mL/min por 1,73 m², faixa de 30 a 59, o que tira o anti-inflamatório da primeira linha e limita a colchicina a 0,5 mg uma vez ao dia; a hidroclorotiazida, que na gota é candidata a troca, aqui não tem esse papel. O corticoide é a escolha, e com uma única articulação acessível e com derrame, a via intra-articular resolve sem exposição sistêmica — depois de a cultura estar colhida e a infecção razoavelmente afastada. E o ponto essencial que separa esta doença da gota: não há hipouricemiante, não há alvo laboratorial e não há tratamento que dissolva o depósito de pirofosfato. Trata-se a crise, previne-se a recorrência com colchicina em dose baixa quando as crises são frequentes, e investigam-se as condições metabólicas que predispõem — hemocromatose hereditária, hiperparatireoidismo primário, hipomagnesemia, síndrome de Gitelman e hipofosfatasia. Não existe documento brasileiro sobre esta doença: não há protocolo clínico do Ministério da Saúde, não há diretriz de sociedade nacional, e a Rename 2024 não a menciona. O único documento validado é o critério de classificação internacional de 2023, e ele é de classificação.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A bula brasileira do alopurinol é explícita: ocorrendo crise aguda de gota em paciente que já usa o fármaco, o tratamento deve ser mantido na mesma dose e a crise tratada com anti-inflamatório adequado. O fundamento é o mecanismo: o que desencadeia a crise é a variação da uricemia, não o valor absoluto, e tanto a queda rápida quanto a subida rápida soltam ou formam cristal. Suspender provoca a variação que se queria evitar, costuma prolongar a crise e, na prática, produz abandono de tratamento. Dobrar a dose faz a variação na direção oposta e tem o mesmo problema. Uma crise durante o tratamento não indica falha, sobretudo nos primeiros meses, quando a mobilização do depósito é esperada. Um hipouricemiante e um anti-inflamatório tratam alvos distintos e não se substituem.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique a diferença entre aliviar uma crise e prevenir novas crises. Mostre por que cristais e urato normal não resolvem sozinhos todos os diagnósticos.

Em 30 dias

Refaça o caso com doença renal, diurético e diarreia após colchicina. Proponha o que suspender, o que ajustar e como acompanhar urato e função renal, justificando cada decisão.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 63 anos, hipertenso, em uso de hidroclorotiazida e alopurinol 300 mg ao dia há três anos, chega ao pronto-socorro com o joelho esquerdo inflamado há dois dias e temperatura de 38,1 °C. Diz que a gota dele estava controlada e que parou o alopurinol ontem, por conta própria, porque achou que o remédio estava causando a crise.

Gota e artrites por cristais – O cristal não absolve — Internato | OsceLabs