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Clínica MédicaReumatologia

O joelho que a radiografia não explica

Osteoartrite / osteoartrose

Osteoartrite na unidade básica: o diagnóstico que dispensa exame, o que parece artrose e não é, os degraus do tratamento que o SUS escreveu e a hora de encaminhar para a prótese.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024 (Relatório de Recomendação Conitec nº 794)

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ortopedia adulto. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 4. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 37 p. ISBN 978-65-5993-223-8

Brasil. Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3

National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management. NICE guideline NG226. Londres: NICE, 19 de outubro de 2022. ISBN 978-1-4731-4740-9

Oliveira MG, Amorim WW, Oliveira CRB, Coqueiro HL, Gusmão LC, Passos LC. Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatrics, Gerontology and Aging, 2016. DOI 10.5327/Z2447-211520161600054

01

Responda antes de ler

Mulher de 54 anos, manicure, tem nódulos duros nas interfalângicas distais há mais de dez anos. Há cinco meses as mãos amanhecem inchadas e rígidas por cerca de 90 minutos. Ao exame, há edema mole nas segundas e terceiras metacarpofalângicas das duas mãos e no punho direito, e o teste do aperto das metacarpofalângicas é positivo. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, oito e vinte da manhã, consultório 3 da unidade básica. Nicolina Cariri tem 67 anos, foi costureira a vida inteira e entra devagar, apoiando a mão na maçaneta e depois no encosto da cadeira antes de sentar. Traz um envelope pardo debaixo do braço e a filha logo atrás. A queixa vem pronta, porque ela já a contou muitas vezes: o joelho direito dói há três anos, dói mais para descer escada do que para subir, dói para levantar da cadeira baixa da cozinha e melhora quando ela senta. De manhã o joelho fica duro, mas em dez minutos de casa andada ele solta. Às vezes estala. Nunca ficou vermelho, nunca teve febre, nunca travou de não conseguir esticar.

O envelope é uma radiografia dos dois joelhos que a filha pagou numa clínica particular no mês passado. O laudo diz, com todas as letras, que o joelho esquerdo tem artrose moderada, com redução do espaço articular medial e osteófitos marginais, e que o direito tem redução discreta do espaço medial. Dona Nicolina não entende, e a filha entende menos ainda: o joelho que dói é o direito, e o que a radiografia chama de pior é o esquerdo, que nunca incomodou. A filha quer uma ressonância, porque ouviu que a radiografia não mostra tudo, e quer saber da injeção de gel que a vizinha tomou no joelho e que custou o preço de um mês de aposentadoria.

Há mais coisa na bolsa. Um frasco de cápsulas de glucosamina com condroitina, comprado há quatro meses na farmácia do bairro por indicação do balconista. Uma cartela de ibuprofeno 600 mg, também comprada sem receita, que ela diz tomar só quando aperta — e que, perguntando direito, apertou quase todo dia na última semana. Na lista da própria unidade, losartana 50 mg duas vezes ao dia e hidroclorotiazida 25 mg pela manhã, para uma hipertensão de doze anos. A pressão de hoje, medida na triagem, está em 152 por 88. O peso é 78 kg, a altura 1,58 m, e o índice de massa corporal dá 31,2.

O interno que atende tem a conduta desenhada antes de terminar a anamnese: pedir a ressonância que a filha quer, para ver menisco e cartilagem, e encaminhar à ortopedia, porque três anos de dor e uma artrose moderada no laudo parecem motivo suficiente. A preceptora pede que ele faça outra coisa primeiro: examinar os dois joelhos e os dois quadris, com a paciente deitada e depois andando, e só então dizer o que o laudo acrescentou.

O exame muda o tom da consulta. O joelho direito tem crepitação à flexão, dor à palpação da interlinha articular medial, um derrame pequeno — ao ordenhar o recesso medial para cima, a onda de líquido volta abaulando o outro lado — e nenhum calor comparado ao outro lado. A flexão dói no fim do arco. O quadríceps direito é visivelmente mais fino que o esquerdo. O quadril direito roda para dentro e para fora sem dor, o que tira do caminho a dor referida do quadril, que costuma se esconder atrás de uma queixa de joelho. O joelho esquerdo, o do laudo pior, tem crepitação e nenhuma dor. Ela levanta da maca apoiando as duas mãos na borda.

Nada ali é atípico. Ela tem mais de 45 anos, a dor aparece com o uso, a rigidez da manhã dura menos de meia hora, o derrame é pequeno e frio, não houve trauma, não há febre, perda de peso nem outra articulação inchada. Esse é o retrato completo da osteoartrite de joelho, e ele fecha o diagnóstico na primeira consulta sem nenhum exame. O que a preceptora quer que o interno veja é que a radiografia confirmou uma coisa que o exame já dizia — que os dois joelhos têm a doença — e não respondeu à pergunta que importa, que é por que um dói e o outro não, e o que se faz a partir de hoje.

Este capítulo é sobre esse consultório. Sobre diagnosticar a osteoartrite pela história e pelas mãos, reconhecer o joelho, o quadril e a mão que parecem artrose e não são, montar os degraus do tratamento que a atenção primária sustenta — exercício, peso, informação, analgésico com prazo, anti-inflamatório com data para acabar —, saber o que não indicar mesmo quando o paciente pede, e reconhecer o dia em que o joelho de dona Nicolina, ou o quadril de outro paciente, deixa de ser assunto da unidade básica e passa a ser de quem coloca prótese.

03

Quem adoece disso

Dona Nicolina não é um caso raro que o interno teve a sorte de ver: ela é a regra da agenda. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, de 2024, abre com os números brasileiros que explicam por quê. Estudos populacionais em adultos no Brasil encontram dor crônica em cerca de 40% das pessoas; dor crônica intensa, com nota igual ou maior que 8, em torno de 10%; e dor crônica com limitação grave ou generalizada em torno de 5%. A lombalgia é a dor crônica mais comum, e a dor no joelho vem logo depois dela, à frente do ombro e da cabeça. O mesmo documento registra que as dores musculoesqueléticas são o problema de saúde mais frequente entre os 15 e os 64 anos e a principal causa de aposentadoria precoce nessa faixa.

O protocolo chama a osteoartrite de forma mais comum de doença articular e diz onde ela se instala: quadris, joelhos, mãos e pés. O que ele não traz é a prevalência nacional da osteoartrite como doença — o número brasileiro que o documento oferece é o da dor crônica, de todas as causas. Para o perfil de quem adoece, a diretriz britânica de 2022 do NICE é direta: a osteoartrite é mais comum em mulheres, em quem vive em áreas de maior privação, em quem tem 45 anos ou mais e em quem vive com obesidade, e a prevalência está aumentando. Dona Nicolina reúne três desses quatro traços, e a unidade onde ela é atendida provavelmente atende o quarto.

O mesmo texto britânico acrescenta duas observações que mudam a maneira de conversar com o paciente. A primeira é que a doença não piora obrigatoriamente: os sintomas oscilam, as crises são comuns, e há quem passe anos no mesmo patamar. A segunda é que muita gente com osteoartrite vive com várias doenças crônicas ao mesmo tempo, o que torna o cuidado mais complexo. É exatamente o caso dela, com uma hipertensão de doze anos, uma pressão fora da meta e um anti-inflamatório comprado no balcão que mexe com as duas coisas.

O impacto não fica na articulação. Mais da metade das pessoas com osteoartrite, segundo a mesma diretriz, relata que a doença afeta seriamente a vida familiar e o trabalho. Na atenção primária brasileira isso tem rosto: a costureira que não aguenta mais o pedal da máquina, o pedreiro que não sobe mais no andaime, a manicure que não consegue segurar o alicate, o avô que desistiu de levar o neto à escola porque a ladeira dói. Quem mede só a dor e esquece a função perde a metade do que precisa acompanhar — e perde, também, o critério que decide o encaminhamento para a cirurgia.

Existe também a epidemiologia do caminho que o paciente percorre até a consulta, e é com ela que o interno lida todos os dias. A osteoartrite chega à consulta depois de ter passado pela farmácia. A diretriz britânica reconhece que a prática varia muito na forma como as pessoas obtêm o tratamento, e cita justamente a compra de medicamento sem receita no lugar do acesso pelo serviço. No Brasil, o que se compra sem receita para dor no joelho está quase inteiro fora da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: diclofenaco, nimesulida, meloxicam, cetoprofeno, piroxicam, glucosamina, condroitina — nenhum deles consta da Rename 2024. O paciente chega com uma sacola de remédios que o SUS não fornece, e a tarefa começa por separar o que ajuda do que só custa ou machuca.

E há o peso, uma das poucas variáveis da doença de joelho que o próprio paciente consegue mudar. A diretriz britânica registrou que, na osteoartrite de joelho, quanto mais peso a pessoa perde, maior o ganho em qualidade de vida, dor e função, e estendeu a recomendação às outras articulações por dois motivos: os benefícios gerais da perda de peso e o fato de a osteoartrite ser uma doença de várias articulações, em que quem começa por uma pode chegar a outra. Dona Nicolina já tem os dois joelhos na radiografia; o esquerdo, que ainda não dói, é o argumento mais concreto que o interno tem para a conversa sobre o peso.

A idade da agenda também conta a favor de quem aprende isto bem. O paciente com osteoartrite é, em geral, o paciente com hipertensão, diabetes, doença renal, ácido acetilsalicílico, anticoagulante e quedas — e cada um desses itens altera o que se pode prescrever para a dor. Por isso este capítulo trata a osteoartrite como uma doença da atenção primária, com a régua que o SUS escreveu para ela, e não como uma fila de espera para a ortopedia: operados ou não, todos esses pacientes vão precisar de alguém que saiba conduzir a doença por anos.

04

Por que acontece o que acontece

A palavra desgaste atrapalha mais do que explica. Ela sugere uma almofada passiva que vai ficando fina com o uso, como sola de sapato, e leva a duas conclusões erradas: que usar a articulação é gastá-la, e que não há nada a fazer além de esperar a hora da troca. O PCDT da Dor Crônica define a osteoartrite como doença de caráter inflamatório e degenerativo das articulações que ocorre por insuficiência da cartilagem — e a palavra que importa ali é doença. O que adoece é a articulação inteira: cartilagem, osso logo abaixo dela, membrana sinovial, cápsula, ligamentos e os músculos que movem e protegem a junta.

A cartilagem articular é um tecido sem vasos e sem nervos. Ela se nutre do líquido sinovial, que entra e sai da sua matriz a cada ciclo de carga e descarga — a articulação parada nutre mal a própria cartilagem. Quando a matriz perde a capacidade de suportar a carga, a cartilagem afina e fissura, e a pressão que ela distribuía passa a cair concentrada sobre o osso subcondral. O osso responde como osso: fica mais denso na zona de sobrecarga, forma pequenos cistos e, nas margens da articulação, cresce para fora em osteófitos. É esse o conjunto que a radiografia enxerga — o espaço articular reduzido, que é a cartilagem que falta, a esclerose, os cistos e os osteófitos. A radiografia mostra o resultado estrutural da doença.

O detalhe que explica o consultório de dona Nicolina é que a cartilagem não tem nervos. A dor não pode nascer do tecido que está faltando: nasce do osso subcondral sobrecarregado, da membrana sinovial inflamada, da cápsula distendida pelo derrame, do periósteo nas margens e das estruturas em volta da articulação. Nada disso tem relação obrigatória com a altura do espaço articular. Por isso um joelho com pouca alteração na imagem pode doer muito, e outro com osteófitos exuberantes pode não doer nada — e por isso a diretriz britânica concluiu que a imagem acrescenta pouco ao diagnóstico e não orienta como a doença vai responder ao tratamento.

O PCDT acrescenta uma camada que ajuda a entender a dor que não cede. Ele descreve a dor da osteoartrite como dor mista: há o componente nociceptivo, que é o da articulação sobrecarregada e inflamada; alguns estudos sugerem também um componente neuropático, sobretudo quando há sinovite, relação que o próprio documento reconhece não estar bem estabelecida; e, com a cronificação, a região passa a ser sensibilizada, com um componente nociplástico em que o sistema nervoso amplifica o sinal. É por isso que o paciente com anos de dor descreve a dor espalhando para além da junta, dormindo mal e respondendo cada vez menos ao analgésico que antes funcionava — e é por isso que a radiografia, que só vê osso, fica ainda mais longe da queixa.

O músculo é a metade mecânica do problema que o tratamento consegue alcançar. O quadríceps amortece a carga que chega ao joelho a cada passo e dá estabilidade à articulação; quando ele enfraquece, a carga chega com picos maiores, a articulação fica menos estável e dói mais. A dor faz a pessoa usar menos a perna, o músculo afina mais, e o ciclo se fecha — é o quadríceps mais fino que o interno viu no joelho direito de dona Nicolina. O exercício terapêutico entra exatamente aqui. A diretriz britânica registra benefício clinicamente importante sobre dor e função, perfil de segurança superior ao dos analgésicos e o recado explícito de que o exercício não faz mal à articulação com osteoartrite, ainda que a dor possa aumentar no começo.

O peso atua por dois caminhos. O mais evidente é a carga: cada quilo a mais é carga a mais em joelho e quadril a cada passo, a cada degrau, a cada vez que a pessoa levanta da cadeira. O segundo é sistêmico, e a própria diretriz britânica o usou para estender a recomendação de perda de peso a articulações que não carregam o corpo, mencionando a possível redução de fatores inflamatórios. Na osteoartrite de joelho, a evidência que a diretriz reuniu mostra uma relação de dose: quanto mais peso se perde, maior o ganho em dor, função e qualidade de vida.

A crise é a expressão clínica da sinovite. Em algum momento — depois de um dia de muito esforço, às vezes sem motivo que o paciente reconheça — a membrana sinovial se inflama, produz mais líquido, e o joelho incha um pouco, dói mais por alguns dias e fica mais rígido. A diretriz britânica define a crise como piora temporária de dor, inchaço e rigidez, pior que o habitual, que pode afetar sono, atividade e humor e pode motivar mudança de tratamento por pelo menos 24 horas. O derrame dessa crise é pequeno e frio. A articulação que fica quente, vermelha e muito dolorosa em horas não é crise de osteoartrite: é inflamação de outra natureza, com neutrófilos dentro da junta, e a pergunta passa a ser cristal ou infecção.

O mecanismo também explica o alcance e o limite dos fármacos. O anti-inflamatório reduz a dor do componente inflamatório, mas bloqueia as mesmas prostaglandinas que protegem a mucosa gástrica e que mantêm o fluxo sanguíneo renal quando o rim depende delas — no idoso, no hipertenso em uso de bloqueador do sistema renina-angiotensina, em quem usa diurético. É por isso que o Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos o põe na lista de cautela da doença renal, da insuficiência cardíaca, da úlcera e da hipertensão. Nenhum dos tratamentos disponíveis refaz cartilagem: a diretriz britânica não encontrou benefício do ácido hialurônico injetado, registrou para a infiltração de corticoide benefício inconsistente e alívio de 2 a 10 semanas, evidência inconsistente para a glucosamina e nenhum ganho da lavagem artroscópica frente ao procedimento simulado. O que muda a vida do paciente é o que atua sobre carga, músculo e dor.

Joelho direito em corte frontal, com fíbula no lado lateral: comparação entre articulação preservada e osteoartrite predominantemente medial com estreitamento, osteófitos e alterações subcondrais.
A osteoartrite envolve toda a articulação. O esquema reúne perda de cartilagem, osteófitos, alterações do osso subcondral e sinovite. A cartilagem é aneural; a dor pode envolver osso, sinóvia, cápsula e outras estruturas, além do processamento da dor. A intensidade dos sintomas não acompanha necessariamente a gravidade radiográfica. Esta figura é uma ilustração anatômica.
05

Como se apresenta de verdade

Na osteoartrite, a apresentação é o diagnóstico. Não há exame que substitua uma história bem feita e um exame físico que compare os dois lados, e não há exame que salve uma história mal colhida. O que se procura é um padrão — dor que obedece ao uso, rigidez que passa depressa, articulação que engrossa sem esquentar — e, com a mesma atenção, o que quebra o padrão.

A sequência das seções acompanha o caminho do interno diante da doença: primeiro o padrão comum a todas as articulações, depois o joelho, o quadril e a mão, depois a crise, e por fim o que se parece com osteoartrite e é outra coisa. Esta última é a que mais machuca quando falta.

Percurso de aprendizagem

Relacione dor, função, exame e radiografia sem reduzir o paciente à imagem. Reconheça derrame quente, piora abrupta ou sintomas sistêmicos que exigem outra hipótese.

Construa o tratamento em torno de movimento, força, adaptações, peso quando pertinente e objetivos do paciente. Analgésicos e AINEs são escolhidos por benefício real e risco; falha do cuidado exige rever execução e diagnóstico antes de acumular receitas.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

O padrão: dor que obedece ao uso, rigidez que passa depressa

O Quadro 4 do protocolo federal de encaminhamento de ortopedia adulto, de 2022, descreve a dor da osteoartrite com precisão de quem atende: afeta uma ou poucas articulações, começa de forma insidiosa e progride devagar, ao longo de anos; tem intensidade variável e pode ser intermitente; piora com a atividade e melhora com o repouso; e só aparece à noite nos quadros graves. A rigidez é curta, com menos de 30 minutos, pela manhã ou depois de um período parado — é o paciente que levanta do cinema mancando nos primeiros passos e anda normalmente no estacionamento. Sintomas constitucionais estão ausentes.

A diretriz britânica transforma esse retrato em critério operacional. Diagnostica-se a osteoartrite clinicamente, sem imagem, na pessoa que tem 45 anos ou mais, dor articular relacionada à atividade e rigidez matinal ausente ou de até 30 minutos. As três condições valem juntas. É esse o critério que este capítulo usa, porque é o único, entre os documentos que regem a conduta, que reúne os três cortes num só critério — o do PCDT, como se verá nas notas de Fluxos e tabelas, perdeu dois deles.

Pergunte a rigidez em minutos, no relógio. Quando é ruim para você de manhã, quanto tempo leva até a mão, ou o joelho, voltar ao normal? Dez minutos e duas horas mudam o diagnóstico, e a resposta vaga — um tempinho — não serve para nenhum dos dois. Pergunte também o que piora: escada, cadeira baixa, agachar, caminhar distância, segurar o alicate, abrir o pote. E pergunte se a dor acorda. Dor noturna que acorda a pessoa numa articulação com pouca alteração ao exame não é o retrato comum, e merece a lista de sinais de alerta de Como fechar o diagnóstico.

Registre, desde a primeira consulta, o que a doença tirou da pessoa. Qual distância ela anda antes de parar, se sobe um lance de escada, se levanta da cadeira sem apoiar as mãos, se consegue calçar o sapato, se deixou de trabalhar. Anote peso, altura e índice de massa corporal, a pressão arterial e a lista inteira de medicamentos, inclusive os comprados sem receita. A revisão dessa lista no idoso, com os critérios de medicamentos inapropriados e a desprescrição, é do capítulo A dose que já foi certa, da apostila de Geriatria; este capítulo fica com o que se prescreve para a dor da osteoartrite. Nada disso é burocracia: a função é o que decide o encaminhamento cirúrgico, e o protocolo de encaminhamento pede o índice de massa corporal e todo tratamento já feito, com dose e resposta.

O joelho

O joelho é a articulação que mais traz o paciente à unidade. A dor costuma ser na face interna, na altura da interlinha, porque o compartimento medial é o que mais sofre com a carga — e, quando ele perde altura, o joelho vai para o varo, o que concentra ainda mais a carga no mesmo lado. A dor da articulação entre a patela e o fêmur tem outra cara: é anterior, piora para descer escada, agachar e ficar muito tempo sentado com o joelho dobrado.

O exame segue o Quadro 4. Na inspeção, aumento de volume ósseo, alinhamento em varo ou valgo, atrofia do quadríceps. Na palpação, ausência de calor — compare sempre com o dorso da mão nos dois joelhos —, derrame que, quando existe, é pequeno e frio, e dor na interlinha articular. No movimento, crepitação, redução da amplitude, dor no fim do arco e perda da extensão completa nos quadros avançados. Veja o paciente levantar da cadeira e andar: a marcha diz muito sobre a função.

Dois achados do joelho não são da osteoartrite e mudam o caminho. O primeiro é o bloqueio verdadeiro — o joelho que trava e não estica até alguém manobrar —, que sugere lesão meniscal com fragmento instável e tem preferência no encaminhamento ortopédico segundo o próprio protocolo federal; o diagnóstico das lesões de menisco e ligamento é do capítulo Quatro manobras no ombro, três no joelho, na apostila de Ortopedia. O segundo é a dor que está fora da articulação: a face medial logo abaixo da interlinha, na inserção dos tendões da pata de ganso, é dolorosa à palpação em muita gente com osteoartrite de joelho, e o Quadro 4 reconhece a dor periarticular como parte do quadro, principalmente em joelhos e quadris.

Examine sempre o quadril de quem se queixa de joelho. A dor do quadril pode ser sentida no joelho, e o exame do joelho normal com rotação do quadril dolorosa muda o diagnóstico inteiro — foi o primeiro gesto que a preceptora pediu no consultório de dona Nicolina.

O quadril

A dor da articulação do quadril é sentida na virilha, às vezes na nádega e na face anterior da coxa, e pode descer até o joelho. O paciente conta o que não consegue mais fazer: calçar a meia e o sapato daquele lado, cortar a unha do pé, entrar no carro, cruzar a perna, levantar do sofá baixo. Manca nos primeiros passos e, com a doença avançada, o tempo todo.

O movimento que primeiro se perde e primeiro dói é a rotação interna, testada com o paciente deitado, quadril e joelho a 90 graus, levando o pé para fora. Depois vêm a perda da flexão e, nos quadros graves, a contratura em flexão, que o paciente compensa inclinando a pelve e acentuando a lordose. A rotação interna livre e indolorosa torna improvável que a dor venha da articulação.

Duas dores do mesmo território não são da articulação. A dor na face lateral do quadril, que piora ao deitar sobre aquele lado e à palpação do trocânter maior, é periarticular — bursite ou tendinopatia —, e tem protocolo próprio de encaminhamento. A dor que começa na coluna, desce pela nádega e ultrapassa o joelho, com formigamento ou fraqueza, é radicular, e pertence ao capítulo Lombalgia e hérnia de disco, na apostila de Ortopedia, que também é dono da artrose das facetas da coluna.

O protocolo federal de dor no quadril manda para a urgência a suspeita de fratura ou luxação e a suspeita de artrite séptica do quadril, e manda para a ortopedia a osteonecrose — que o interno deve lembrar no adulto mais jovem com dor de quadril de instalação mais rápida, sobretudo com uso de corticoide ou de álcool. A fratura do colo do fêmur no idoso que caiu e não apoia a perna é do capítulo O relógio começa na queda, também da apostila de Ortopedia.

A mão

Na mão, a osteoartrite escolhe as interfalângicas distais, as interfalângicas proximais e a base do polegar. Os nódulos de Heberden, nas distais, e os de Bouchard, nas proximais, são aumentos ósseos duros, que a pessoa muitas vezes tem há anos e que costumam aparecer também na mãe ou na tia. Podem passar por fases dolorosas, com a articulação um pouco avermelhada, e depois se acalmar deixando a deformidade.

A base do polegar — a articulação entre o primeiro metacarpo e o trapézio — dá a queixa mais incapacitante: dor para pinçar, girar a tampa do pote, torcer pano, virar a chave, segurar a agulha. O exame mostra a base do polegar alargada e dolorosa, e a compressão axial do polegar reproduz a dor.

O que a osteoartrite da mão costuma poupar é tão importante quanto o que ela acomete. O protocolo federal de 2016, que reproduzia os critérios de classificação do Colégio Americano de Reumatologia, incluía entre eles ter menos de três metacarpofalângicas com edema. Metacarpofalângicas e punhos inchados, simétricos, com rigidez longa, são a assinatura de outra doença, e a próxima seção trata disso.

O tratamento da mão tem instrumentos próprios no Quadro 5 do protocolo de 2022: órtese para imobilizar a articulação nos períodos de mais dor, usada principalmente na base do polegar, e exercícios feitos em casa, como apertar uma esponja dentro de água morna. O encaminhamento da mão acontece quando há prejuízo funcional associado à deformidade, ou dor que não cede após seis meses de tratamento clínico otimizado.

A crise: o joelho que incha pouco e o joelho que incha de repente

A osteoartrite descompensada por derrame é assunto deste capítulo. É o joelho que, depois de um dia de muito esforço ou sem motivo claro, incha um pouco ao longo de um ou dois dias, dói mais, fica mais rígido e melhora em dias a poucas semanas. O derrame é pequeno e frio, não há vermelhidão, não há febre, o paciente apoia o peso e movimenta a articulação, com dor. Não é emergência, e o tratamento está em A conduta hora a hora.

O joelho artrósico que incha de repente é outra doença até prova em contrário. Dor que chega ao pico em horas, calor nítido comparado ao outro lado, pele avermelhada, derrame tenso, impossibilidade de apoiar o peso, febre ou calafrio — qualquer um desses dados transforma a crise em monoartrite aguda, e monoartrite aguda não dispensa a punção. O diagnóstico e a conduta pertencem ao capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, desta apostila, e a hipótese de cristal ao capítulo O cristal não absolve, que registra com precisão por que o joelho com osteoartrite conhecida é justamente o lugar onde a gota e a doença por pirofosfato de cálcio se disfarçam de piora da artrose.

O ponto de corte prático entre os dois cenários não é o tamanho do joelho: é o tempo de instalação e o calor. O protocolo federal de dor no joelho manda para a urgência a suspeita de artrite séptica, que ele descreve como monoartrite inflamatória aguda. Na dúvida entre crise de osteoartrite e monoartrite aguda, a dúvida resolve: punção.

Há uma terceira situação que o interno encontra na unidade: o paciente com prótese de joelho ou de quadril que volta com dor e inchaço. Articulação com prótese que volta a doer, esquenta ou drena não é osteoartrite — a superfície doente foi substituída —, e a suspeita de infecção é obrigatória: ela pertence ao capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica, que trata a artrite pós-artroplastia.

O que parece osteoartrite e é outra coisa

A nota do Protocolo 3 do documento federal de 2022 dá a lista que todo interno deveria saber de cor. Há suspeita de doença articular inflamatória quando os sinais e sintomas são atípicos para a osteoartrite: pessoa jovem, com menos de 45 anos e sem história de trauma articular; articulação incomum para a doença — glenoumeral, cotovelo, punho ou tornozelo —; dor com características inflamatórias; ou perda de peso involuntária. Nesses casos a conduta muda de destino: investigação complementar e, se a suspeita se sustenta, encaminhamento à Reumatologia.

O padrão inflamatório tem cara própria. Rigidez matinal longa, de uma hora ou mais; edema — não aumento ósseo — de metacarpofalângicas, interfalângicas proximais e punhos, frequentemente dos dois lados; articulação que dói mais em repouso e melhora com o uso; cansaço. O protocolo federal de 2016 define alta suspeita de artrite reumatoide como sinovite identificada pelo médico em três ou mais articulações acompanhada de rigidez matinal por mais de 30 minutos ou de teste do aperto das metacarpofalângicas ou metatarsofalângicas positivo. O teste do aperto é simples: comprimir lateralmente, de uma vez, as quatro metacarpofalângicas; dor é teste positivo.

A artrite psoriásica escolhe, entre outras, as interfalângicas distais — as mesmas do nódulo de Heberden —, e por isso engana. O mesmo protocolo de 2016 levanta a suspeita na pessoa com psoríase, ou com história familiar dela, que tem artrite periférica, sobretudo poucas articulações e distais, dedo em salsicha, entesite ou dor inflamatória na coluna. Examine a pele, o couro cabeludo, o umbigo e as unhas de quem tem interfalângica distal inchada.

Duas coexistências são a regra, não a exceção. A mulher com nódulos de Heberden há vinte anos pode desenvolver artrite reumatoide aos 55, e as duas doenças convivem na mesma mão — o nódulo não absolve a metacarpofalângica inchada. E a idosa em uso de diurético pode fazer gota começando justamente nas articulações que já tinham nódulos, como descreve o capítulo O cristal não absolve. Em ambas, o que denuncia a segunda doença é a quebra do padrão: edema onde a artrose não incha, calor onde ela não esquenta, rigidez que não passa.

Este capítulo fica com o reconhecimento do padrão inflamatório e com o encaminhamento; o tratamento da artrite reumatoide é do capítulo Artrite reumatoide, nesta apostila, e o das espondiloartrites, do capítulo Espondiloartrites e artrite psoriásica, nesta apostila. A dor difusa, que não respeita articulação e vem com sono ruim e cansaço, também não é osteoartrite: a conduta é do capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica, nesta apostila; a queixa ainda indiferenciada, antes de ter nome, é conduzida pelo capítulo Metade não vira nome, na apostila de Medicina de Família e Comunidade.

06

Como fechar o diagnóstico

Na osteoartrite, investigar bem é, na maior parte das vezes, saber o que não pedir. O diagnóstico é clínico, a radiografia é auxílio e documento, a ressonância quase nunca muda a conduta da atenção primária e o exame de sangue só tem lugar quando a pergunta é outra doença. O que exige investigação de verdade é o paciente que quebra o padrão — e aí a investigação é da outra doença, não da artrose.

As seis seções abaixo seguem a pergunta que cada exame responde. Se o interno não souber dizer, antes de pedir, qual resposta mudaria a conduta, o exame não deve sair do consultório.

O diagnóstico fecha na primeira consulta

Três perguntas e um exame físico bastam. A pessoa tem 45 anos ou mais? A dor aparece com a atividade? A rigidez da manhã é ausente ou dura até 30 minutos? Se as três respostas são sim, e o exame não mostra calor, edema de articulações que a osteoartrite poupa nem outro dado atípico, a diretriz britânica manda diagnosticar clinicamente e dizer isso ao paciente — que a doença se diagnostica pela clínica, que em geral não precisa de imagem para confirmação e que o tratamento se guia pelos sintomas e pela função.

O PCDT da Dor Crônica, que é a régua brasileira para a osteoartrite de joelho e de quadril, também sugere diagnosticar a osteoartrite de joelho clinicamente, pela anamnese e pelo exame físico, e recomenda coletar a história e examinar todo indivíduo que relata dor ou rigidez matinal no quadril. O problema do texto brasileiro é o critério: ele fala em dor relacionada à atividade habitual ou rigidez no joelho, sem idade e sem duração da rigidez — defeito que está explicado, com a conta, nas notas de Fluxos e tabelas. Para não chamar de osteoartrite a rigidez de duas horas de uma artrite inflamatória, este capítulo aplica os três cortes juntos.

O que o diagnóstico clínico permite é começar o tratamento na mesma consulta. Exercício, peso, informação e analgésico não esperam radiografia. O paciente que sai da primeira consulta com um pedido de exame e a orientação de voltar com o resultado para começar a tratar perdeu semanas — e aprendeu que a doença dele mora na imagem.

Existe uma exceção de idade que o interno precisa ter em mente sem transformá-la em regra: osteoartrite pode aparecer antes dos 45 anos, sobretudo depois de trauma articular, lesão meniscal operada ou displasia. Mas o protocolo federal de 2022 trata a pessoa com menos de 45 anos e sem trauma como suspeita de doença inflamatória. Abaixo dessa idade, sem história de lesão, o diagnóstico clínico de osteoartrite deixa de ser o padrão e passa a ser a última hipótese.

A radiografia: auxílio e documento, não condição

Os documentos discordam sobre pedir ou não. A diretriz britânica de 2022 recomenda não usar imagem de rotina para diagnosticar osteoartrite, a não ser diante de característica atípica. O PCDT brasileiro de 2024 sugere a radiografia com apoio bipodal, em incidências anteroposterior e perfil, para auxiliar o diagnóstico de osteoartrite de joelho e de quadril. E o protocolo federal de encaminhamento de 2022 pede, no conteúdo mínimo de todo encaminhamento de osteoartrite à ortopedia, o laudo de radiografia com data.

Não é conflito de verdade, é cronologia, e resolve-se escrevendo a cronologia. O diagnóstico e o início do tratamento não dependem da radiografia — o próprio PCDT sugere diagnosticar pela clínica. A radiografia com carga é pedida, como o PCDT sugere, para auxiliar o diagnóstico e deixar registrado o estado estrutural da articulação; ela não precisa voltar antes de o tratamento começar. E, se um dia houver encaminhamento, o laudo com data já estará no prontuário. Esta apostila adota a régua brasileira nesse ponto, porque é mais nova e é norma; o que ela não autoriza é condicionar o tratamento ao exame.

A incidência com carga importa. A articulação deitada não mostra o espaço articular que a articulação em pé perdeu, e é em pé que o joelho dói. Peça a radiografia em ortostase, com apoio nos dois pés, e escreva no pedido a hipótese e o compartimento que interessa.

O que se lê numa radiografia de osteoartrite é o que o mecanismo explicou: redução do espaço articular, em geral assimétrica; osteófitos nas margens; esclerose do osso subcondral; cistos subcondrais. O que não se lê nela é a intensidade da dor, a função, a resposta ao tratamento nem a indicação de cirurgia. Um laudo que diz artrose grave não encaminha ninguém; o que encaminha é a combinação de dor refratária ou prejuízo funcional importante com tratamento clínico otimizado por tempo suficiente.

Quando a imagem e a dor não concordam

O consultório de dona Nicolina é o exemplo mais comum. A radiografia mostra os dois joelhos doentes, o esquerdo mais que o direito, e é o direito que dói. Nada está errado: o mecanismo explica que a dor nasce de estruturas que a radiografia não vê. O que a imagem fez foi confirmar que a doença é bilateral, e isso já é informação útil — o joelho esquerdo é o próximo candidato, e o peso e o exercício protegem os dois.

A diretriz britânica chegou à conclusão por falta de evidência a favor: não encontrou benefício da imagem para diagnosticar osteoartrite, e registrou que a imagem acrescenta pouco valor e que não orienta como a doença vai responder ao tratamento. Pela mesma razão, recomenda não usar imagem de rotina no seguimento nem para guiar o manejo não cirúrgico. Repetir radiografia a cada ano para ver se a artrose avançou não muda nenhuma decisão da atenção primária.

A discordância também corre ao contrário. O paciente de 50 anos com dor típica, rigidez curta e crepitação, cuja radiografia vem com alterações discretas, tem osteoartrite pela clínica, e o tratamento é o mesmo. Esperar que a radiografia piore para acreditar na dor é tratar o laudo.

Há uma única discordância que exige ação: a dor que cresce muito mais depressa do que o quadro permite, em articulação com radiografia pouco alterada, ou a radiografia que mostra destruição rápida em poucos meses. Isso é piora rápida, uma das características atípicas da diretriz britânica, e manda procurar outra causa.

Ressonância, ultrassonografia e tomografia: respostas a outras perguntas

O PCDT é explícito: não se recomenda ressonância magnética para confirmar o diagnóstico nem para gerir o tratamento da osteoartrite de joelho e de quadril. A ressonância que a filha de dona Nicolina pede não mudaria nada do que se faz a partir de hoje — e poderia mudar para pior.

A ressonância de um joelho com osteoartrite frequentemente descreve lesão de menisco. Na maior parte das vezes é a lesão degenerativa, que faz parte da própria doença, e não a lesão traumática que se trata com artroscopia. O laudo com a palavra ruptura convida à cirurgia, e a diretriz britânica recomenda não oferecer lavagem nem desbridamento artroscópico a pessoas com osteoartrite, porque não encontrou redução de dor nem melhora de função, e encontrou possíveis danos frente ao procedimento simulado. A distinção entre lesão meniscal degenerativa e traumática, e quando o menisco é mesmo cirúrgico, é do capítulo Quatro manobras no ombro, três no joelho.

A ultrassonografia avalia tecidos moles, e o PCDT registra que ela pode ajudar a detectar doença inflamatória em atividade. Na unidade básica, seu lugar é a dúvida periarticular — a bursa, o tendão — e a dúvida inflamatória, não a confirmação da artrose. Cisto de Baker descrito em ultrassonografia de joelho com osteoartrite é, em geral, derrame que migrou para trás, e não muda o tratamento da articulação.

Tomografia e ressonância têm lugar quando a pergunta é outra: osteonecrose, fratura que a radiografia não mostrou, tumor, infecção óssea. Nenhuma dessas perguntas é de osteoartrite, e todas saem da unidade básica pela via da suspeita que as justificou.

Sangue e punção: só quando a pergunta é outra doença

O PCDT não recomenda exames laboratoriais nem análise do líquido sinovial de rotina para diagnosticar osteoartrite de joelho, e diz que no quadril os exames servem ao diagnóstico diferencial quando a dor ou a rigidez pioram rapidamente, junto com sinais de alerta. Não existe exame de sangue que confirme osteoartrite: a velocidade de hemossedimentação e a proteína C reativa normais só dizem que não há inflamação sistêmica que as eleve.

Quando o padrão é inflamatório, a investigação muda de objetivo, e o que se pede é o que o encaminhamento à Reumatologia vai precisar. O protocolo federal de 2016 lista, para a suspeita de artrite reumatoide, o resultado de fator reumatoide, de proteína C reativa ou velocidade de hemossedimentação, e a descrição da radiografia de mãos, punhos e pés, quando necessária, junto com a descrição das articulações acometidas, da duração da rigidez e do teste do aperto.

Um exame de sangue tem indicação na osteoartrite comum, e ela não é diagnóstica: a creatinina, com a taxa de filtração glomerular estimada, e o potássio no paciente que talvez precise de anti-inflamatório — idoso, hipertenso, diabético, que toma diurético ou bloqueia o sistema renina-angiotensina. O Consenso brasileiro de medicamentos inapropriados para idosos considera o anti-inflamatório inapropriado na doença renal crônica nos estágios IV e V; sem a creatinina, o critério não se aplica. Pedir a creatinina antes da primeira receita de anti-inflamatório é leitura desta apostila, e é o que permite usar o fármaco com segurança quando ele for necessário.

Punção é indicada quando o derrame e o contexto suscitam infecção, cristais ou outra causa que precise de líquido. Calor, febre e instalação rápida reforçam essa necessidade, mas sua ausência não exclui artrite séptica. Exacerbação usual de osteoartrite não exige punção automática; reavaliar se houver apresentação atípica ou resposta inesperada.

Sinais de alerta: quando osteoartrite é a hipótese errada

A diretriz britânica define como característica atípica o que manda investigar outra doença: história de trauma recente, rigidez matinal prolongada, piora rápida dos sintomas ou da deformidade, articulação quente e inchada, ou preocupação com infecção ou neoplasia. Diante de qualquer uma delas, a imagem e os exames voltam a ter indicação — para a outra hipótese.

O PCDT acrescenta os sinais de alerta de toda dor crônica: febre, perda de peso e outros sintomas constitucionais devem ser valorizados e investigados, pensando em doenças metabólicas, neoplásicas, infecciosas, inflamatórias ou psiquiátricas. E a nota do protocolo federal de encaminhamento de 2022 completa a lista com o que é atípico para a osteoartrite: idade abaixo de 45 anos sem trauma, articulação incomum — glenoumeral, cotovelo, punho, tornozelo —, dor de característica inflamatória e perda de peso involuntária.

Três situações saem da unidade no mesmo dia. A suspeita de fratura ou de luxação, depois de queda ou de trauma, que o protocolo federal manda para a urgência. A monoartrite aguda com suspeita de artrite séptica, que o mesmo protocolo manda para a urgência e cuja conduta é do capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica. E o paciente com dor e sinais neurológicos de compressão da medula ou da cauda equina, que não é assunto de articulação periférica e pertence ao capítulo de compressão medular não traumática, na apostila de Neurocirurgia.

Duas situações ganham prioridade no encaminhamento eletivo. O joelho com bloqueio articular verdadeiro, que o protocolo de 2022 manda à ortopedia com preferência. E a dor óssea persistente, noturna, que não obedece ao uso, sobretudo em pessoa mais jovem: o protocolo dá preferência à suspeita de neoplasia óssea benigna, a diretriz britânica põe a preocupação com neoplasia entre as características atípicas, e a osteoartrite nunca deve ser o rótulo que atrasa esse raciocínio.

07

Cuidar da pessoa com osteoartrite

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Relacione dor, função, exame e radiografia sem reduzir o paciente à imagem. Reconheça derrame quente, piora abrupta ou sintomas sistêmicos que exigem outra hipótese. O fluxo resume a sequência de decisões do capítulo, da primeira consulta ao encaminhamento. As quatro tabelas separam o que confunde a hipótese, os degraus do tratamento com o que o SUS entrega, a conversão de dose para a paciente do capítulo e os destinos com o conteúdo de cada encaminhamento. As notas registram apenas os defeitos de fonte que mudam o que o interno faz.

  1. 1Dor articular em pessoa com 45 anos ou mais, ligada à atividade, com rigidez matinal ausente ou de até 30 minutos, sem dado atípico: osteoartrite pelo diagnóstico clínico, e o tratamento começa na mesma consulta.
  2. 2Dado atípico — trauma recente, rigidez prolongada, piora rápida, articulação quente e inchada, suspeita de infecção ou neoplasia, idade abaixo de 45 anos sem trauma, articulação incomum, perda de peso involuntária: a hipótese é outra, e a investigação é da outra doença.
  3. 3Articulação quente, dor de pico em horas, vermelhidão ou febre: monoartrite aguda, punção e urgência pelo capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica.
  4. 4Edema de metacarpofalângicas ou de punhos, rigidez de uma hora ou mais, teste do aperto positivo: padrão inflamatório — fator reumatoide, PCR ou VHS e encaminhamento à Reumatologia.
  5. 5Núcleo para todos: informação, exercício terapêutico ajustado, fisioterapia desde o diagnóstico no joelho, meta de peso de 5% e depois de 10% para quem tem excesso de peso.
  6. 6Radiografia com apoio bipodal como auxílio e registro, sem condicionar o tratamento; ressonância não; imagem de seguimento não.
  7. 7Dor limitante: escolher fármaco pelos riscos e resposta, considerando AINE tópico no joelho e teste criterioso de analgésico simples quando adequado. Rever benefício e reduzir exposição.
  8. 8Analgésico insuficiente: ibuprofeno 400 mg a cada 6 a 8 horas, curso curto e datado; com risco cardiovascular, naproxeno pelo Componente Especializado, só no joelho e no quadril; com ácido acetilsalicílico contínuo, nenhum anti-inflamatório.
  9. 9Proteção gástrica conforme a posição declarada em Onde as fontes divergem; pressão, creatinina e potássio conferidos no curso de quem usa bloqueador do sistema renina-angiotensina ou diurético.
  10. 10Evitar terapias rotineiras sem benefício suficiente e exposições desnecessárias. AINE tópico e corticoide intra-articular em caso selecionado são possibilidades clínicas cujo acesso varia; não confundir fluxo de dispensação com eficácia.
  11. 11Encaminhar por dor refratária apesar de manejo adequado ou prejuízo importante da vida diária. Incapacidade importante pode justificar avaliação antes de seis meses, com tratamento clínico em paralelo.

Osteoartrite ou outra doença: o dado que muda a hipótese

DadoNa osteoartriteQuando aponta para outra doençaO que fazer
Rigidez matinalAusente ou de até 30 minutos; volta curta depois de repousoUma hora ou mais, todos os diasPadrão inflamatório: investigar e encaminhar à Reumatologia
Articulações acometidasJoelho, quadril, interfalângicas distais e proximais, base do polegarMetacarpofalângicas, punho, cotovelo, glenoumeral ou tornozelo sem traumaSuspeita de doença inflamatória (nota 2 do Protocolo 3 de 2022)
Aumento de volumeÓsseo e duro; derrame pequeno e frioEdema mole das pequenas articulações; derrame tenso ou quenteSinovite: investigar; se agudo e quente, punção
Tempo de instalaçãoInsidioso, ao longo de anos; crise em dias, depois de sobrecargaHoras, com dor de pico, calor e vermelhidãoMonoartrite aguda: punção no mesmo dia
Idade45 anos ou maisMenos de 45 anos, sem trauma articularSuspeita de doença inflamatória
Sintomas geraisAusentesFebre, perda de peso involuntária, cansaço importanteSinal de alerta: infecção, neoplasia, doença inflamatória
Onde dóiNa articulação e nas estruturas junto delaFace lateral do quadril; dor da coluna que ultrapassa o joelhoDor periarticular ou radicular: outro protocolo e outro capítulo
Pele e unhasSem alteraçãoPsoríase, dedo em salsicha, entesite, unha alteradaSuspeita de artrite psoriásica: Reumatologia
Sintoma mecânicoCrepitação e dor no fim do arcoBloqueio verdadeiro do joelhoLesão meniscal: Ortopedia com preferência

Degraus do tratamento na unidade básica e o que o SUS entrega

DegrauO que se fazRéguaNo SUS (Rename 2024)
Núcleo, para todosInformação; exercício terapêutico ajustado; perda de peso se houver excessoDiretriz britânica de 2022; PCDT de 2024; Quadro 5 do protocolo de 2022Sem fármaco; fisioterapia e grupos da rede
Joelho com diagnóstico firmadoEncaminhar à fisioterapia desde o diagnósticoPCDT de 2024Fisioterapia; estimulação elétrica onde a rede tiver
Primeiro fármacoParacetamol 500 mg, 1 a 2 cp 3 a 4 vezes ao dia (até 4 g) ou dipirona 500 mg, 1 a 2 cp até 4 vezes ao diaPCDT de 2024 (lado declarado em Onde as fontes divergem)Básico: paracetamol 500 mg e 200 mg/mL; dipirona 500 mg e 500 mg/mL
Analgésico insuficienteIbuprofeno 400 mg a cada 6 a 8 horas, menor dose, menor tempo, com data de términoPCDT de 2024Básico: ibuprofeno 200, 300 e 600 mg e 50 mg/mL
Risco cardiovascularNaproxeno 250 a 500 mg duas vezes ao diaPCDT de 2024; Portaria SCTIE/MS nº 53/2017Especializado: naproxeno 250 e 500 mg, só CID-10 M16 e M17
Ácido acetilsalicílico contínuoParacetamol ou dipirona; nenhum anti-inflamatórioPCDT de 2024Básico
Proteção gástricaGastroproteção durante AINE oral conforme risco e protocolo; exemplo: omeprazol 20 mg/dia.PCDT de 2024 e Consenso de 2016 (lado declarado)Básico: omeprazol 10 e 20 mg
Auxílio de marchaBengala na mão oposta ao lado doente, quando há dificuldade nas atividades do dia a diaPCDT de 2024 (joelho); diretriz britânica de 2022Não se aplica
Fora dos degrausEvitar uso rotineiro de glucosamina/condroitina, ácido hialurônico, opioide forte, corticoide sistêmico e lavagem artroscópica. AINE tópico e infiltração seletiva devem ser analisados separadamente, conforme indicação e acesso.PCDT de 2024; diretriz britânica de 2022; Consenso de 2016Não constam: glucosamina, condroitina, hialuronato, triancinolona, diclofenaco, tramadol

Conversão de dose para dona Nicolina, 78 kg

Fármaco e esquemaDose por tomadaApresentação e componentePor tomadaTotal por dia
Paracetamol de 8 em 8 horas1.000 mgComprimido 500 mg — Básico2 comprimidos3.000 mg (38,5 mg/kg)
Paracetamol de 6 em 6 horas, teto do PCDT1.000 mgComprimido 500 mg — Básico2 comprimidos4.000 mg (51,3 mg/kg)
Paracetamol em solução oral1.000 mgSolução 200 mg/mL — Básico5 mLConforme o esquema escolhido
Dipirona de 6 em 6 horas1.000 mgComprimido 500 mg ou solução 500 mg/mL — Básico2 comprimidos ou 2 mL4.000 mg
Ibuprofeno de 8 em 8 horas, dose do PCDT400 mgComprimido 200 mg — Básico2 comprimidos1.200 mg
Ibuprofeno de 6 em 6 horas, dose do PCDT400 mgComprimido 200 mg — Básico2 comprimidos1.600 mg
Ibuprofeno de 8 em 8 horas, dose do protocolo de 2022600 mgComprimido 600 mg — Básico1 comprimido1.800 mg
Naproxeno de 12 em 12 horas250 a 500 mgComprimidos 250 e 500 mg — Especializado1 comprimido500 a 1.000 mg
Omeprazol em jejum20 mgCápsulas 10 e 20 mg — Básico1 cápsula de 20 mg ou 2 de 10 mg20 mg

Para onde vai o paciente com osteoartrite, e com o quê

DestinoQuandoO que o encaminhamento leva
Urgência, no mesmo diaSuspeita de fratura ou luxação; monoartrite aguda com suspeita de artrite sépticaTempo de instalação, temperatura, exame da articulação, capacidade de apoiar o peso
OrtopediaQuadril, joelho, tornozelo ou ombro com dor refratária a 6 meses de tratamento clínico otimizado ou prejuízo importante das atividades de vida diária; mão com prejuízo funcional pela deformidade ou dor refratária por 6 mesesLaudo de radiografia com data, IMC, tratamento feito com dose, posologia e resposta, restrição de movimento e prejuízo funcional
Serviço de dor crônica — fisiatria, acupuntura ou equipe de dorDor sem melhora após 6 meses de tratamento otimizado, sem indicação ou condição clínica para cirurgiaOs mesmos dados de tratamento, dose e resposta
ReumatologiaSuspeita de osteoartrite secundária a doença inflamatória; ou dor sem melhora em 6 meses onde não há serviço de dor crônicaArticulações acometidas, rigidez em minutos, teste do aperto; fator reumatoide, PCR ou VHS; radiografia de mãos, punhos e pés se necessária
Ortopedia com preferênciaJoelho com bloqueio articular; suspeita de neoplasia óssea benignaDescrição do bloqueio e das manobras; imagem que motivou a suspeita

Conta que não fecha — o critério clínico do PCDT perdeu dois cortes. O item de diagnóstico do PCDT da Dor Crônica sugere diagnosticar a osteoartrite de joelho clinicamente se o paciente tiver dor relacionada à atividade habitual ou rigidez no joelho. A diretriz britânica de 2022 exige três condições ao mesmo tempo: 45 anos ou mais, dor ligada à atividade e rigidez matinal ausente ou de até 30 minutos. A frase brasileira tem duas condições alternativas e nenhum corte — não há idade, não há duração da rigidez, e o conectivo é ou. A conta: pelo critério britânico a pessoa precisa preencher 3 de 3; pela frase do PCDT basta 1 de 2, e a rigidez de duas horas da artrite reumatoide a preenche sozinha. Os cortes existem no próprio sistema brasileiro, em outro documento: o Quadro 4 do protocolo federal de encaminhamento de 2022 dá rigidez com menos de 30 minutos, e a nota do Protocolo 3 trata idade abaixo de 45 anos sem trauma como suspeita de doença inflamatória. Como a frase do PCDT, lida ao pé da letra, fecharia diagnóstico de osteoartrite num quadro inflamatório — e o mesmo documento desaconselha exames laboratoriais de rotina —, este capítulo aplica os três cortes juntos.

Contradição consigo mesmo — a codeína que o PCDT diz não incorporada e que ele mesmo usa. No item de tratamento medicamentoso, o PCDT da Dor Crônica lista entre os medicamentos que não recomenda, por decisão de não incorporação, os opioides fracos codeína e tramadol e a morfina em baixa dose para o tratamento da dor crônica, citando a Portaria SCTIE/MS nº 59/2021. No mesmo documento: o item de dor nociceptiva diz que codeína, morfina e metadona devem ser usadas com parcimônia na dor crônica não oncológica — isto é, com parcimônia, e não fora do protocolo —; o item de dor oncológica manda priorizar a codeína no segundo degrau da escada analgésica; a lista de fármacos do protocolo traz fosfato de codeína em comprimidos de 30 e 60 mg, solução oral de 3 mg/mL e solução injetável de 30 mg/mL, com posologia — no adulto, 30 a 60 mg três a quatro vezes ao dia, com máximo de 360 mg/dia —; e a codeína está no termo de esclarecimento e responsabilidade, ao lado da morfina e da metadona. A Rename 2024 lista codeína e morfina no Componente Especializado. As duas afirmações não podem valer juntas, ao pé da letra. A leitura que fecha com o restante do PCDT e com a Rename é a de que a codeína está no elenco do SUS para dor crônica; quem lê só a lista de não incorporados conclui o contrário. Para a osteoartrite a consequência prática é pequena, porque o item do PCDT sobre ela não inclui opioide; para a dor crônica em geral, a frase muda o que o aluno acredita que o SUS fornece.

Duas réguas federais para a mesma indicação — a dose de ibuprofeno. O Quadro 5 do protocolo federal de encaminhamento de 2022 prescreve, na osteoartrite, ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas; o PCDT da Dor Crônica de 2024 prescreve 400 mg com intervalo de 6 a 8 horas para a osteoartrite de joelho e de quadril. A conta por dia: 600 × 3 = 1.800 mg, contra 400 × 3 = 1.200 mg e 400 × 4 = 1.600 mg — o protocolo de encaminhamento dá de 12,5% a 50% a mais que o PCDT. A diferença chega à farmácia: 600 mg é um comprimido da Rename, e 400 mg são dois comprimidos de 200 mg, porque a Rename 2024 não tem comprimido de 400 mg. No idoso, que é o paciente típico da doença, a dose maior não é neutra. Pela régua desta apostila vale o PCDT, mais novo e norma, e a tabela de conversão traz as duas contas para que a receita de um documento não seja lida com a dose do outro.

Conferência na Rename que muda conduta — o naproxeno só chega ao joelho e ao quadril. O Quadro 5 do protocolo de 2022 oferece naproxeno 500 mg de 12 em 12 horas como anti-inflamatório da osteoartrite, na mesma lista que orienta mãos e ombro. O PCDT de 2024 preconiza o naproxeno apenas para osteoartrite de quadril e de joelho, pelos códigos M16 e M17 da CID-10 que vêm da Portaria SCTIE/MS nº 53/2017, e a Rename 2024 põe o naproxeno no Componente Especializado. A consequência: a pessoa com osteoartrite de joelho ou de quadril e risco cardiovascular recebe o naproxeno pelo Componente Especializado, com o laudo próprio desse componente e o código da articulação; a pessoa com osteoartrite de mão, de ombro ou de tornozelo não recebe naproxeno do SUS para essa indicação, e a receita sugerida pelo protocolo não é dispensada. Em nenhum dos dois casos o comprimido sai da farmácia da unidade básica. O capítulo de lesões de ombro e joelho da apostila de Ortopedia já registrou que o naproxeno está no Componente Especializado; esta nota acrescenta a regra do PCDT que separa as articulações.

08

A conduta, hora a hora

A conduta na osteoartrite tem um núcleo que vale para todo paciente e degraus que se sobem só quando o núcleo não basta. O núcleo é informação, exercício terapêutico e, para quem tem excesso de peso, perda de peso: a diretriz britânica chama esses três de tratamentos centrais, e recomenda que todo fármaco, quando necessário, seja usado junto deles e para sustentá-los, na menor dose efetiva e pelo menor tempo possível. O PCDT da Dor Crônica manda encaminhar à fisioterapia a pessoa com osteoartrite de joelho tão logo se estabeleça o diagnóstico, e o Quadro 5 do protocolo federal de 2022 detalha o exercício: fortalecimento muscular, exercício aeróbico de baixo impacto e treino de flexibilidade.

O fármaco apoia atividade e função, com benefício e risco revistos. No joelho, AINE tópico é uma opção de diretrizes clínicas, com menor exposição sistêmica; verificar acesso e contraindicações. Analgésico simples pode ser testado quando apropriado, reconhecendo o benefício médio limitado do paracetamol e interrompendo se não ajudar. AINE oral exige avaliar rim, pressão, coração, sangramento e interações, usando menor dose pelo menor tempo e considerando gastroproteção. O fluxo de dispensação do SUS descrito abaixo é uma questão de acesso, e não prova de superioridade de uma opção.

Não oferecer glucosamina, condroitina ou ácido hialurônico como tratamento rotineiro desta osteoartrite, nem usar opioide forte, corticoide sistêmico ou lavagem artroscópica como resposta habitual à dor. AINE tópico e infiltração de corticoide têm indicações clínicas em algumas diretrizes: a infiltração pode oferecer alívio transitório em caso selecionado, com infecção afastada e profissional habilitado. Sua disponibilidade e o percurso de acesso local podem diferir do PCDT; ausência de incorporação não significa ausência de efeito clínico.

  1. Consulta 1 — o diagnóstico e o tratamento que não esperam exame

    O interno explica o diagnóstico antes de qualquer prescrição: osteoartrite nos dois joelhos, a direita dolorosa, a esquerda por enquanto silenciosa, uma doença que se diagnostica pela história e pelo exame e que se trata principalmente com o que ela vai fazer em casa. A conversa sobre a radiografia que não bate com a dor está em O que dizer; o que importa aqui é que o tratamento começa hoje. O exercício é o primeiro item da receita. A diretriz britânica recomenda exercício terapêutico ajustado à pessoa — fortalecimento da musculatura local e condicionamento aeróbico geral — e avisa que a dor pode aumentar no começo, sem que isso signifique dano. O programa inicial abaixo é leitura desta apostila: as fontes fixam o tipo de exercício, não a dose, e a dose se ajusta no retorno. O encaminhamento à fisioterapia sai hoje, como o PCDT manda, mas a fila não pode ser o motivo de ela não começar. O peso é o segundo. Com 78 kg, 5% são 3,9 kg e 10% são 7,8 kg. A diretriz britânica diz que qualquer perda ajuda e que 10% ajuda mais que 5%; o Quadro 5 do protocolo de 2022 fala em perder pelo menos 10%. Esta apostila combina as duas réguas em sequência: 5% como primeira meta, porque é alcançável e já traz ganho, e 10% como meta seguinte. A conversa sobre obesidade, a alimentação e o apoio para perder peso seguem o capítulo Não é falta de vontade, da apostila de Endocrinologia. Saem também dois pedidos: a radiografia com carga, que o PCDT sugere como auxílio diagnóstico e que ficará no prontuário, e a creatinina com potássio, porque ela usa bloqueador do receptor de angiotensina e diurético e talvez precise de anti-inflamatório um dia. Nenhum dos dois condiciona o que começa hoje.

    Prescrição
    • Encaminhamento à fisioterapia: osteoartrite de joelho direito — fortalecimento de quadríceps e treino funcional
    • Exercício em casa desde hoje: sentada, estender o joelho e segurar 5 segundos, 3 séries de 10, todos os dias
    • Levantar e sentar da cadeira, com apoio das mãos no início, 2 séries de 8, todos os dias
    • Caminhada no plano, 10 minutos por dia, somando 5 minutos a cada semana, com a dor do começo combinada
    • Meta de peso: 3,9 kg (5%) em três meses; depois 7,8 kg (10%)
    • Radiografia com carga quando houver dúvida, característica atípica ou necessidade de planejamento; no quadro típico, o diagnóstico e o início do tratamento não dependem de nova imagem.
    • Creatinina com taxa de filtração glomerular estimada e potássio
    • Retorno em 4 semanas; antes, se o joelho esquentar, avermelhar, travar ou houver febre
  2. Consulta 1 — a receita: o que entra e o que sai

    O ibuprofeno de 600 mg comprado na farmácia sai do uso diário. Não porque não funcione — ele tira a dor melhor que o paracetamol —, mas porque dona Nicolina tem 67 anos, pressão acima da meta hoje e usa losartana com hidroclorotiazida, e o anti-inflamatório tomado todo dia mexe exatamente na pressão e no rim que esses remédios protegem. O PCDT põe o anti-inflamatório depois do analgésico simples, e o Consenso brasileiro de medicamentos inapropriados para idosos manda evitar o uso prolongado. Ele fica disponível como degrau, com data, para quando for preciso — e vai ser, no marco da crise. Entra o paracetamol em horário fixo, como o PCDT orienta: 1 g de 8 em 8 horas dá 3 g por dia, abaixo do teto de 4 g, e 38,5 mg/kg/dia para os 78 kg dela. A dipirona é alternativa de mesma posição no PCDT, e a escolha entre as duas é de resposta e de preferência. O prazo de quatro semanas até o retorno é a prova terapêutica: se não houver ganho que ela perceba e que o interno consiga medir, o analgésico não vira uso eterno. Saem as cápsulas de glucosamina com condroitina — o PCDT não as recomenda na osteoartrite de joelho, a diretriz britânica recomenda não oferecer a glucosamina, e nenhuma das duas consta da Rename 2024. A injeção de gel que a vizinha tomou é ácido hialurônico intra-articular, que o PCDT não recomenda e que a diretriz britânica não oferece por não ter encontrado benefício. A ressonância não é pedida. Nenhum desses nãos é dito como proibição: cada um vem com o motivo, e o motivo é que o dinheiro e a esperança dela estão indo para o que não muda a dor.

    Prescrição
    • Se escolhido paracetamol, testar a menor dose que ajude a função, com teto de 3 g/dia neste plano e revisão mais cedo de benefício. Evitar renovação automática por quatro semanas; considerar fígado, álcool, baixo peso e produtos combinados.
    • Ibuprofeno comprado sem receita: suspender o uso diário
    • Glucosamina com condroitina: suspender
    • Não tomar outro analgésico comprado sem receita sem perguntar antes — muitos contêm paracetamol e somam no teto
    • Não solicitar ressonância magnética
  3. Dia 6 — os exames voltam

    A creatinina veio em 0,9 mg/dL, o que dá uma taxa de filtração glomerular estimada de cerca de 70 mL/min/1,73 m² pela equação CKD-EPI, e o potássio em 4,3 mEq/L. Ela está longe dos estágios IV e V em que o Consenso considera o anti-inflamatório inapropriado, e o número fica registrado com data: é a linha de base contra a qual qualquer curso de anti-inflamatório será conferido. A radiografia com carga mostra redução do espaço articular medial nos dois joelhos, maior à esquerda, com osteófitos marginais e esclerose subcondral. Nada atípico: nenhuma lesão lítica, nenhuma fratura, nenhuma destruição rápida. O laudo não muda o plano e não autoriza encaminhamento — o joelho esquerdo continua sem dor. Fica no prontuário, com data, como o protocolo de encaminhamento pediria se esse dia chegar. A pressão, medida de novo pela equipe de enfermagem, está em 150 por 86. O ajuste do anti-hipertensivo não é assunto deste capítulo e segue a régua do capítulo Hipertensão arterial sistêmica, da apostila de Cardiologia; o que este capítulo registra é que um dos fatores que empurravam a pressão — o anti-inflamatório diário — acabou de sair.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário, com data: creatinina 0,9 mg/dL, TFG estimada ≈ 70 mL/min/1,73 m², potássio 4,3 mEq/L
    • Registrar o laudo da radiografia com carga, com data
    • Rever adesão, função, benefício do analgésico e pressão; o resultado renal basal normal não torna seguro o uso crônico de AINE com losartana e diurético.
    • Agendar revisão da pressão arterial conforme a régua da hipertensão
  4. Semana 4 — o primeiro retorno: medir antes de decidir

    Dona Nicolina dá nota 5 para a dor de caminhar, que era 7 na primeira consulta. Sobe a escada da igreja segurando o corrimão, mas sem parar no meio; ainda levanta da cadeira baixa com as mãos. Fez os exercícios cinco dias por semana, e conta que na primeira semana o joelho doeu mais — o que o interno tinha avisado, e por isso ela não parou. Perdeu 1,2 kg. A fisioterapia marcou a primeira sessão para daqui a seis semanas. Sobre o paracetamol, a resposta é clara: nos dois dias em que esqueceu as doses da tarde, a dor da caminhada voltou a 7. O analgésico está fazendo o que se pediu dele, sustentar o exercício, e fica. Não há motivo para subir degrau: a dor cai, a função melhora, a meta de peso anda. O que o retorno corrige é o programa: os exercícios ficaram fáceis, e o fortalecimento que não progride deixa de fortalecer. O interno aumenta as séries, acrescenta a subida de degrau com apoio e alonga a caminhada. E combina o próximo passo do analgésico: quando a dor da caminhada ficar abaixo de 4, o horário fixo vira dose antes das atividades de mais carga.

    Prescrição
    • Manter paracetamol 500 mg — 2 comprimidos de 8 em 8 horas
    • Exercício: extensão de joelho 4 séries de 10; levantar e sentar sem apoio das mãos, 3 séries de 8
    • Acrescentar subida e descida de um degrau com apoio no corrimão, 2 séries de 10
    • Caminhada no plano de 25 minutos por dia
    • Retorno em 8 semanas
  5. Semana 10 — a crise, numa consulta sem agendamento

    A sobrecarga seguida de derrame pequeno, ausência de calor importante e bom estado geral favorece exacerbação da osteoartrite, mas temperatura e velocidade de instalação não são regras de exclusão de infecção ou cristais. Se o exame ou a evolução forem atípicos, reconsiderar punção e o capítulo de monoartrite. Para a dor, discutir opção tópica e medidas locais antes de AINE oral, considerando idade, hipertensão e a associação losartana/diurético. Se um curso oral for necessário, combinar dose curta, proteção gastrointestinal e vigilância renal/pressórica.

    Prescrição
    • Ibuprofeno 200 mg — 2 comprimidos (400 mg) por via oral de 8 em 8 horas, após as refeições, por 7 dias; escrever na receita a data de término
    • Suspender o paracetamol de horário enquanto durar o ibuprofeno
    • Se adotado AINE oral, associar gastroproteção, por exemplo omeprazol 20 mg/dia enquanto durar o curso, conforme avaliação e protocolo. Ter menos de 75 anos e usar por poucos dias não garante baixo risco; o protetor não elimina o risco renal ou cardiovascular.
    • No 5º dia: aferir pressão arterial e dosar creatinina e potássio
    • Manter caminhada curta no plano e extensão de joelho sem carga; não fazer repouso absoluto
    • Voltar no mesmo dia se o joelho esquentar, avermelhar, se houver febre ou se não conseguir apoiar o pé
  6. Semana 11 — o curso termina na data escrita

    No quinto dia, a pressão estava em 146 por 84, a creatinina seguia em 0,9 mg/dL e o potássio em 4,5 mEq/L. No sétimo, a dor está em 4, o derrame sumiu e ela voltou a caminhar vinte minutos. O ibuprofeno para hoje, como estava escrito. O fim na data não é detalhe administrativo. O curso curto e datado é o que permitiu usar o fármaco mais eficaz com o menor risco; o anti-inflamatório que continua porque ninguém disse quando parar é o mesmo anti-inflamatório diário que saiu na primeira consulta. O paracetamol volta a sustentar a dor de base, com o plano de descer para dose antes da atividade. A fisioterapia começa nesta semana. O interno registra a crise no prontuário com o gatilho, a duração, o tratamento e a resposta: se as crises ficarem frequentes, esse registro é o que vai mostrar a um especialista que o tratamento foi otimizado.

    Prescrição
    • Suspender ibuprofeno hoje, na data prevista
    • Retomar paracetamol 500 mg — 2 comprimidos de 8 em 8 horas por 2 semanas
    • Rever se o paracetamol ainda acrescenta benefício funcional; se usado, manter a menor dose eficaz e teto de 3 g/dia neste caso, com redução/suspensão quando desnecessário. Não renovar uso regular apenas porque terminou o AINE.
    • Retomar o programa de exercícios e iniciar a fisioterapia
    • Registrar a crise: gatilho, duração, tratamento, resposta
    • Retorno em 6 semanas
  7. Mês 4 — o analgésico desce, o exercício fica

    A dor de caminhar está em 3. Ela sobe a escada da igreja sem corrimão e levanta da cadeira da cozinha sem apoiar as mãos. Tomou paracetamol em dois ou três dias por semana, nos dias de costura. Perdeu 3,4 kg. A fisioterapia deu alta com um programa para casa depois de oito sessões, e ela entrou num grupo de caminhada da unidade três manhãs por semana. Nada disso pede prescrição nova, e é o marco em que o interno aprende a não prescrever. O programa segue, a meta de 5% está quase alcançada e a de 10% passa a ser a próxima. A radiografia não é repetida: a diretriz britânica recomenda não usar imagem de rotina no seguimento, e nenhuma decisão depende dela. A bengala não é necessária. Se um dia for, ela vai na mão do lado oposto ao joelho doente, e o PCDT a considera apoio ao tratamento principal para a pessoa com osteoartrite de joelho com dificuldade específica nas atividades do dia a dia. Quem tem osteoartrite de joelho ou de quadril e já caiu precisa de uma avaliação de quedas que vai além da articulação. Ela será do capítulo de síndromes geriátricas — quedas e imobilidade — da apostila de Geriatria, quando ele existir; até lá, este capítulo fica com a parte que é dele: o fortalecimento, o auxílio de marcha bem usado e a recusa ao opioide prolongado e ao benzodiazepínico, que o Consenso de 2016 lista como inapropriados em quem tem história de quedas ou fraturas. A prevenção da fratura por osteoporose é do capítulo Osteoporose pós-menopausa, da apostila de Ginecologia.

    Prescrição
    • Paracetamol 500 mg — 2 comprimidos antes das atividades de mais carga, se necessário, até 3 vezes ao dia
    • Manter programa domiciliar da fisioterapia e grupo de caminhada
    • Meta seguinte de peso: 7,8 kg (10%) em relação ao peso inicial
    • Não repetir radiografia
    • Retorno em 8 semanas
  8. Mês 6 — a consulta em que não se encaminha

    Seis meses depois da primeira consulta, dona Nicolina pesa 73,9 kg — perdeu 4,1 kg, 5,3% do peso inicial —, dá nota 2 a 3 para a dor e anda sem limitação na vida que tem. A filha, animada com a melhora, pergunta se não é hora de encaminhar para a ortopedia, para ver a prótese do joelho esquerdo antes que ele comece a doer. A resposta é não, e o interno sabe dizer por quê. O protocolo federal de 2022 encaminha à ortopedia a osteoartrite de joelho com potencial indicação de cirurgia, que ele define como dor refratária a seis meses de tratamento clínico otimizado ou importante prejuízo para as atividades de vida diária. Ela completou os seis meses de tratamento otimizado e não tem nenhuma das duas coisas. A diretriz britânica diz o mesmo com outras palavras: considera-se o encaminhamento para prótese quando os sintomas afetam substancialmente a qualidade de vida e o manejo não cirúrgico é ineficaz ou inadequado. O joelho esquerdo, que nunca doeu, não entra em conta nenhuma — prótese não se indica pela imagem. O seguimento passa a ser iniciado por ela, como a diretriz britânica sugere para a maioria das pessoas com osteoartrite, com o que a traz de volta escrito no prontuário e na mão dela. E o interno deixa escrito também o que mudaria a resposta, para que o próximo profissional não precise reconstruir a história.

    Prescrição
    • Não encaminhar: sem dor refratária e sem prejuízo importante das atividades de vida diária após 6 meses de tratamento otimizado
    • Manter exercício, grupo de caminhada e meta de peso
    • Paracetamol antes das atividades de mais carga, se necessário
    • Voltar se: dor que não cede com o plano por mais de 4 semanas, perda de função (escada, cadeira, caminhada), crises frequentes, joelho quente ou febre
    • Registrar no prontuário os critérios de encaminhamento do Protocolo 3 e a data em que o tratamento otimizado começou
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Como saber se está funcionando

Osteoartrite não tem exame de controle. A radiografia não mede resposta, e a diretriz britânica recomenda não usá-la no seguimento; o que se acompanha é o que o paciente sente e consegue fazer, o que ele toma e o que o tratamento pode estar custando ao rim, à pressão e ao estômago. Por isso cada retorno precisa voltar às mesmas medidas da primeira consulta, anotadas do mesmo jeito — senão a impressão de que está melhor e a de que está igual valem o mesmo.

Os prazos abaixo combinam o que as fontes fixam — os seis meses de tratamento otimizado do protocolo de encaminhamento, o seguimento conforme a necessidade clínica da diretriz britânica — com intervalos que são leitura desta apostila, escolhidos para caber na agenda de uma unidade básica e para que nenhum fármaco com risco fique sem conferência.

Dor na atividade que mais importa para a pessoa (nota de 0 a 10)Na primeira consulta, em cada retorno e na crise; a atividade é escolhida no primeiro dia — descer escada, caminhar, costurar — e não muda depois.

Esperado: Queda que a própria pessoa reconhece como diferença na vida dela, nas primeiras quatro a oito semanas de exercício com analgésico regular; a meta é combinada, não imposta.

Se não melhora: Antes de subir degrau, confira três coisas: se o exercício está sendo feito e progredindo, se o analgésico está sendo tomado em horário e na dose, e se a dor é mesmo da articulação — quadril, periarticular, radicular. Confirmado o tratamento, sobe-se um degrau com prazo. Dor que cresce depressa, ou que muda de caráter, volta para a lista de sinais de alerta.

Função: levantar da cadeira sem as mãos, subir um lance de escada, distância caminhada, tarefa do trabalhoEm cada retorno, sempre com as mesmas tarefas da primeira anotação.

Esperado: Ganho de função que acompanha a dor, ou vem antes dela: o quadríceps mais forte costuma aparecer primeiro na cadeira e na escada.

Se não melhora: Rever diagnóstico, execução dos exercícios, barreiras e medidas de alívio. Limitação importante apesar de cuidado adequado justifica discussão ortopédica, sem impor espera universal de seis meses.

Exercício: sessões por semana e progressão da cargaEm cada retorno; na fisioterapia, na alta dela.

Esperado: Pelo menos o que foi combinado, com aumento de séries, de carga ou de tempo a cada retorno. Dor maior nas primeiras semanas é esperada e não é motivo para parar, como a diretriz britânica manda explicar.

Se não melhora: Descubra o motivo antes de repetir a orientação: dor no começo que ninguém avisou, falta de tempo, programa complexo, joelho que incha depois do treino. Ajuste a dose do exercício em vez de suspendê-lo, e considere sessões de exercício supervisionado, que a diretriz britânica recomenda considerar.

PesoEm cada retorno; metas conferidas aos três e aos seis meses.

Esperado: Perda de 5% do peso inicial como primeira meta e de 10% como meta seguinte, para quem tem excesso de peso.

Se não melhora: Qualquer perda conta e deve ser dita ao paciente, porque a diretriz britânica é clara em que todo quilo ajuda. Sem perda, a conduta sobre obesidade — alimentação, atividade, apoio, avaliação de tratamento — segue o capítulo Não é falta de vontade, da apostila de Endocrinologia. Peso nunca é critério para negar encaminhamento cirúrgico.

Segurança do anti-inflamatório: pressão arterial, creatinina, potássio, sintomas digestivos, edemaLinha de base antes do primeiro curso em quem é idoso, hipertenso, diabético ou usa diurético ou bloqueador do sistema renina-angiotensina; conferência no quinto dia do curso e no fim dele.

Esperado: Pressão no mesmo patamar, creatinina e potássio estáveis, sem dor epigástrica, fezes escuras nem edema de tornozelo.

Se não melhora: Suspenda o anti-inflamatório e não o reintroduza como degrau. Queda da função renal, potássio subindo, pressão escapando, sangramento digestivo ou edema novo são o dano que a posição sobre anti-inflamatório do capítulo existe para evitar; sangramento digestivo é urgência. Sem anti-inflamatório possível e com dor refratária, o caminho é o serviço de dor crônica.

Analgésico real: quantos dias por semana, quantos comprimidos por dia, o que foi comprado sem receitaEm cada retorno, perguntando pelo nome e mostrando as caixas.

Esperado: Analgésico com benefício demonstrável e dose total conferida, incluindo fórmulas combinadas; neste plano, paracetamol com teto de 3 g/dia e limite menor conforme risco. AINE somente pelo período necessário, com revisão de riscos e resposta.

Se não melhora: Anti-inflamatório de balcão reaparecendo é sinal de dor mal controlada, não de desobediência: reavalie o degrau. Paracetamol acima do teto, somando fórmulas, exige correção no mesmo dia. Analgésico regular sem ganho percebido em quatro semanas não se mantém por inércia.

Sinais de que a doença mudou ou de que é hora de encaminharEm cada retorno e em qualquer consulta não agendada.

Esperado: Articulação sem calor, crises espaçadas e curtas, nenhum dado atípico.

Se não melhora: Joelho quente, febre ou piora rápida pede avaliar infecção e outras causas. Bloqueio verdadeiro ou incapacidade importante pode exigir ortopedia precocemente; doença inflamatória sugere reumatologia. O encaminhamento reúne evolução, exame e tratamentos realizados, sem exigir um prazo fixo em quem precisa de avaliação antes.

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Onde o erro machuca

Tratar o laudo em vez do paciente: pedir ressonância para confirmar a artrose, ou encaminhar porque a radiografia diz grave

O dano: O tratamento que funciona espera um exame que não muda a conduta. A ressonância do joelho com osteoartrite frequentemente descreve lesão meniscal degenerativa, e a palavra ruptura leva a artroscopias que a diretriz britânica recomenda não oferecer, por não reduzirem dor nem melhorarem função. O encaminhamento pela imagem ocupa a vaga de quem tem indicação e ensina ao paciente que a doença mora no exame.

Como pegar a tempo: No quadro típico, iniciar cuidado pela clínica e pela função. Pedir imagem quando ela responder a uma dúvida ou ajudar planejamento. Encaminhar se houver prejuízo importante ou refratariedade; não impor seis meses de espera a quem já tem limitação grave.

Examinar só a articulação da queixa

O dano: A dor do quadril sentida no joelho é tratada como artrose do joelho, às vezes até a prótese errada. A bursite do trocânter e a dor da pata de ganso recebem anti-inflamatório contínuo como se fossem doença articular, e a dor radicular da coluna fica sem o raciocínio que ela exige.

Como pegar a tempo: Todo joelho doloroso ganha exame do quadril, com rotação interna. Palpe as estruturas em volta da articulação e procure a dor que ultrapassa o joelho. A dor periarticular tem protocolo próprio de encaminhamento, e a radicular pertence ao capítulo Lombalgia e hérnia de disco.

Anti-inflamatório oral contínuo no idoso, sem data para acabar e sem olhar a lista de remédios

O dano: Somado a bloqueador do sistema renina-angiotensina e a diurético, o anti-inflamatório reduz a filtração renal e empurra a pressão; somado a ácido acetilsalicílico, anticoagulante ou corticoide, multiplica o risco de sangramento digestivo. O Consenso brasileiro de medicamentos inapropriados para idosos manda evitar o uso prolongado e o considera inapropriado na doença renal crônica avançada, na insuficiência cardíaca, na úlcera e na hipertensão moderada a grave.

Como pegar a tempo: Siga os degraus do PCDT: analgésico simples primeiro, ibuprofeno na menor dose e no menor tempo quando ele não basta, nenhum anti-inflamatório em quem usa ácido acetilsalicílico continuamente. Dose a creatinina e o potássio antes do primeiro curso, escreva a data de término na receita, confira pressão e rim no curso, e aplique a posição sobre proteção gástrica declarada em Onde as fontes divergem.

Mandar poupar a articulação: repouso, parar de caminhar, evitar escada

O dano: O quadríceps perde força em semanas, a articulação perde estabilidade, a cartilagem perde o ciclo de carga que a nutre, e a dor aumenta. O paciente que foi mandado descansar volta pior e convencido de que se mexer faz mal.

Como pegar a tempo: Prescreva exercício terapêutico desde a primeira consulta, com dose, progressão e retorno. Avise, como a diretriz britânica manda, que a dor pode aumentar no começo e que isso não é dano. Na crise, reduza a carga e mantenha o movimento; repouso absoluto não é tratamento.

Chamar de crise de artrose o joelho que ficou quente em horas

O dano: Artrite séptica e artrite por cristal se instalam justamente em articulações com osteoartrite. O joelho infectado tratado com anti-inflamatório e retorno em uma semana perde cartilagem em dias — a mesma cartilagem que a osteoartrite vinha poupando por anos —, e a infecção pode ganhar a corrente sanguínea.

Como pegar a tempo: Pergunte o tempo de instalação e compare o calor com o outro lado. Dor de pico em horas, calor, vermelhidão, derrame tenso, febre ou impossibilidade de apoiar o peso tornam a crise uma monoartrite aguda: punção, pelo capítulo Monoartrite aguda e artrite séptica. Na dúvida, a dúvida resolve.

Adiar ou negar o encaminhamento para prótese por idade, obesidade ou tabagismo — ou encaminhar sem o tratamento otimizado documentado

O dano: O paciente com indicação passa anos sem trabalhar e sem andar, esperando emagrecer ou parar de fumar para merecer uma vaga que a evidência não condiciona a isso. No outro extremo, o encaminhamento sem dose, sem tempo de tratamento e sem radiografia datada volta da regulação e custa meses.

Como pegar a tempo: A diretriz britânica recomenda não excluir do encaminhamento por idade, sexo, tabagismo, comorbidades ou índice de massa corporal, e registra que pessoas com sobrepeso ou obesidade não tiveram maior mortalidade depois da prótese de quadril ou de joelho — o risco individual quem discute é o cirurgião. Documente desde o primeiro dia o que o Protocolo 3 pede: radiografia com data, IMC, tratamentos com dose, posologia e resposta, e o prejuízo funcional.

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O que dizer ao paciente e à família

Na osteoartrite, a conversa é parte do tratamento, e não um intervalo entre o exame e a receita. A diretriz britânica recomenda explicar que a doença se diagnostica pela clínica, que o manejo se guia pelos sintomas e pela função, que os tratamentos centrais são exercício e peso, e que o exercício pode doer no começo sem fazer mal. Cada uma dessas frases desmonta uma crença que o paciente trouxe de casa — desgaste, repouso, exame, injeção — e, se ela não for desmontada, o plano não sai do consultório.

As falas abaixo são de dona Nicolina e da filha, e de Telesforo Camarão, um motorista aposentado de 71 anos, fumante, com osteoartrite nos dois joelhos que ouve da vizinhança que, com o peso que tem, nenhum médico vai operá-lo. Leia-as em voz alta. O tom que funciona é o de quem explica com segurança o que sabe e diz com a mesma segurança o que não vai prescrever.

Dizer o diagnóstico sem o fatalismo do desgaste

“Dona Nicolina, o que a senhora tem nos dois joelhos é artrose, que a gente também chama de osteoartrite. Eu consigo dizer isso pela sua história e pelo exame que acabei de fazer, sem precisar de mais nenhum exame. Muita gente escuta que artrose é desgaste da idade e que não tem o que fazer, e as duas coisas estão erradas. É uma doença da articulação inteira, que tem tratamento, e a parte mais forte do tratamento é a senhora que vai fazer: exercício para o músculo da coxa e um pouco de peso a menos. O remédio ajuda, mas ajuda menos que isso. Não quer dizer que o joelho vai piorar sempre — em muita gente ele fica anos no mesmo lugar, com fases melhores e piores.”

Não diga: “É desgaste, dona Nicolina, com a idade é assim mesmo.” A frase tira do paciente o único tratamento que funciona e o convence de que usar a articulação é gastá-la.

Explicar a radiografia que não bate com a dor

“Essa radiografia mostra o osso, e ela mostra que os dois joelhos têm artrose — o esquerdo até um pouco mais. Mas a radiografia não mostra dor. A cartilagem que fica mais fina não tem nervo, então a dor vem de outras partes do joelho que a radiografia não enxerga. Por isso tem gente com radiografia feia que não sente nada e gente com radiografia quase normal que sente muito. O joelho que eu vou tratar é o que dói, e o esquerdo eu vou proteger com o mesmo exercício e o mesmo peso a menos. A ressonância que a sua filha pediu não mudaria em nada o nosso plano daqui para a frente.”

Não diga: “O esquerdo está pior, vamos ficar de olho nele.” Ou pedir a ressonância para tranquilizar a família: o laudo provavelmente vai descrever lesão de menisco, e a conversa seguinte será sobre uma cirurgia que não resolve artrose.

Prescrever exercício avisando da dor do começo

“Nas primeiras duas semanas, pode ser que o joelho doa um pouco mais depois dos exercícios. Isso é esperado, e não quer dizer que a senhora está estragando o joelho — é o músculo acordando. Se a dor passar até o dia seguinte, a senhora continua. Se o joelho inchar muito, esquentar ou ficar vermelho, aí para e me procura. A regra é: todo dia um pouco, e a cada semana um pouco mais. O músculo da coxa é o amortecedor do joelho, e ele é a única parte dessa história que a gente consegue fazer crescer.”

Não diga: “Faz exercício, mas se doer, para.” Sem o aviso de que a dor do começo é esperada, o paciente para na primeira semana e conclui que exercício não é para ele.

Falar de peso sem culpa e com número alcançável

“A senhora pesa 78 quilos. Se perder quatro quilos, que é cinco por cento, o joelho já sente — cada quilo a menos é carga a menos em cada degrau que a senhora desce. Não precisa ser tudo de uma vez, e qualquer quilo conta. Depois de chegar nos quatro, a gente combina os próximos quatro, porque perder dez por cento ajuda mais que perder cinco. Eu não estou dizendo que a artrose é culpa do peso. Estou dizendo que o peso é uma das poucas coisas dessa doença que dá para mudar.”

Não diga: “A senhora precisa emagrecer uns 20 quilos.” Meta inalcançável, dita como bronca, garante que nenhum quilo saia.

Responder sobre a cápsula de glucosamina e a injeção de gel

“Eu entendo por que a senhora comprou, e não é bobagem querer cuidar da cartilagem. Mas essas cápsulas foram estudadas, os estudos não mostraram de forma consistente que elas melhorem a dor, e o protocolo do Ministério da Saúde não recomenda. A injeção de gel da sua vizinha é ácido hialurônico, e com ela é igual: não mostrou benefício, e o protocolo também não recomenda. Eu prefiro que o dinheiro dessas duas coisas vá para um tênis confortável e para a passagem do grupo de caminhada. Se a sua vizinha melhorou, fico feliz por ela — a artrose tem fases melhores e piores, e às vezes a melhora chega junto com a injeção sem ser por causa dela.”

Não diga: “Isso é enganação, joga fora.” Desqualificar a escolha do paciente, ou a vizinha, fecha a conversa e manda o paciente de volta ao balcão.

Tirar o anti-inflamatório do dia a dia sem proibir

“O ibuprofeno funciona, e é por isso que a senhora tomava. O problema é tomar quase todo dia: junto com os dois remédios de pressão que a senhora usa, ele sobe a pressão e cansa o rim, e a pressão hoje já está alta. Então vamos fazer assim: no dia a dia fica o paracetamol, em horário certo. Se vier uma fase de joelho inchado e o paracetamol não der conta, a senhora me procura e eu passo o anti-inflamatório por alguns dias, com a data de parar escrita, e a gente confere a pressão e o sangue no meio. Não é que a senhora nunca mais pode tomar. É que ele vai ser remédio de fase ruim, não de todo dia.”

Não diga: “A senhora não pode tomar anti-inflamatório nunca mais.” A proibição sem alternativa e sem porta de volta leva o paciente a continuar comprando escondido, sem ninguém conferindo rim e pressão.

Responder a quem acha que não vai ser operado por causa do peso

“Seu Telesforo, o seu joelho direito já passou por tudo o que dava para fazer aqui: oito meses de fisioterapia e exercício, os remédios certos, a bengala, e o senhor ainda não consegue subir no ônibus nem dormir a noite inteira. Isso é motivo para ver o ortopedista, e é isso que eu vou escrever no encaminhamento. O peso não tira o senhor da fila: as pessoas com o seu peso que colocam prótese de joelho também melhoram, e quem decide o risco da cirurgia no seu caso é o cirurgião, conversando com o senhor. Enquanto isso, cada quilo a menos e cada dia sem cigarro deixam a cirurgia mais segura — mas nenhum dos dois é condição para eu encaminhar.”

Não diga: “Com esse peso ninguém vai operar o senhor; primeiro emagrece.” A frase nega uma indicação que existe, repete um critério que a evidência não sustenta e deixa o paciente anos na mesma dor.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O primeiro fármaco da osteoartrite de joelho: analgésico simples em horário regular ou anti-inflamatório tópico

PCDT da Dor Crônica, 2024 — paracetamol ou dipirona primeiro; anti-inflamatório tópico fora do protocolo (lado adotado)

Para a osteoartrite de joelho e de quadril, o protocolo orienta iniciar com doses regulares de paracetamol 500 mg, um a dois comprimidos, três a quatro vezes ao dia, sem passar de 4 g, e sugere a dipirona como alternativa de primeira linha; o anti-inflamatório oral entra quando esses forem ineficazes ou insuficientes. No mesmo item de tratamento, o protocolo registra a decisão do Ministério de não incorporar o anti-inflamatório tópico para dor crônica musculoesquelética ou por osteoartrite e declara que não recomenda os medicamentos com decisão de não incorporação. Paracetamol e dipirona estão no Componente Básico da Rename 2024; nenhum anti-inflamatório tópico consta.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22/08/2024, itens 7.2 e 7.2.1.1; Portaria SCTIE/MS nº 48/2021; Rename 2024

Diretriz britânica do NICE, 2022 — anti-inflamatório tópico primeiro no joelho; paracetamol não de rotina

A diretriz recomenda oferecer anti-inflamatório tópico à pessoa com osteoartrite de joelho e considerá-lo nas outras articulações, com o oral reservado para quando o tópico é ineficaz ou inadequado. Recomenda não oferecer rotineiramente paracetamol, salvo uso esporádico e curto quando todos os outros fármacos estão contraindicados, não são tolerados ou falharam, e manda explicar que não há evidência forte de benefício do paracetamol. A justificativa registrada é que o tópico reduziu a dor no joelho com eventos adversos mínimos e foi, em geral, o fármaco mais custo-efetivo, enquanto o paracetamol não mostrou benefício adicional sobre placebo.

NICE, Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management (NG226), 19/10/2022, recomendações 1.4.2 a 1.4.5 e justificativa

Como decidir

Ensinar primeiro a escolha clínica: exercício e informação para todos; fármaco conforme risco e benefício. AINE tópico pode ser uma boa opção no joelho, enquanto o paracetamol tem benefício médio pequeno e precisa de prova de resposta. Depois verificar disponibilidade e fluxo do serviço. Data mais recente ou natureza normativa de um documento não demonstra, por si só, superioridade terapêutica.

Infiltração de corticoide no joelho e no quadril com osteoartrite

PCDT da Dor Crônica, 2024 — não recomendada (lado adotado)

O protocolo declara que injeções intra-articulares de corticosteroides ou de ácido hialurônico não são recomendadas para o controle da dor ou para a melhora da função em pessoas com osteoartrite de joelho e de quadril, no mesmo trecho em que afasta a glucosamina e a condroitina.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, 2024, item 7.2.1.1

Protocolo federal de encaminhamento de ortopedia adulto, 2022 — não de rotina, exceto em casos específicos

O Quadro 5 põe a infiltração com corticoide intra-articular entre o que não se recomenda rotineiramente, com a ressalva de exceção em casos específicos, e justifica que o alívio da dor é leve a moderado e o efeito, de curta duração. O documento não diz quais são os casos específicos.

Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 4: Ortopedia adulto, Ministério da Saúde/UFRGS, 2022, Quadro 5

Diretriz britânica do NICE, 2022 — considerar, sabendo que o alívio dura de 2 a 10 semanas

A diretriz recomenda considerar a infiltração de corticoide quando os outros fármacos são ineficazes ou inadequados, ou para sustentar o exercício terapêutico, explicando à pessoa que o alívio dura de 2 a 10 semanas. A justificativa registra benefício inconsistente e nenhuma evidência de benefício além de três meses; a mesma diretriz recomenda não oferecer ácido hialurônico.

NICE NG226, 19/10/2022, recomendações 1.4.9 e 1.4.10 e justificativa

Como decidir

A infiltração de corticoide não é tratamento rotineiro para todo paciente nem substitui exercício. Pode ser considerada por equipe habilitada em caso selecionado, para alívio transitório quando alternativas forem inadequadas, com infecção afastada e riscos discutidos. O PCDT e a disponibilidade local orientam o acesso; a discussão clínica não deve ser encerrada apenas por uma regra de desempate documental.

Proteção gástrica de quem usa anti-inflamatório oral para a osteoartrite

PCDT da Dor Crônica, 2024 — omeprazol quando o uso passa de cinco dias em quem tem história gastrointestinal (lado adotado para o adulto)

O protocolo sugere omeprazol, cápsula de 10 ou 20 mg em jejum, quando o anti-inflamatório se prolonga por mais de cinco dias em pessoas com história pregressa de eventos gastrointestinais; e, para quem usa ácido acetilsalicílico em baixa dose continuamente, recomenda paracetamol ou dipirona, evitando o anti-inflamatório seletivo ou não seletivo.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, 2024, item 7.2.1.1

Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, 2016 — no idoso de risco e no uso prolongado, só com gastroproteção (lado adotado para o idoso)

O critério 34 manda evitar o uso crônico de anti-inflamatório não seletivo, exceto quando não houver alternativa e for possível associar gastroprotetor, e define como grupos de alto risco de hemorragia e úlcera as pessoas acima de 75 anos e as que usam corticoide, anticoagulante ou antiplaquetário, registrando que o inibidor de bomba de prótons reduz, mas não elimina, o risco. O critério 53 considera inapropriado o anti-inflamatório não seletivo na história de úlcera péptica, com a exceção do uso concomitante de agente de proteção gástrica.

Oliveira MG e col., Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, Geriatrics, Gerontology and Aging, 2016, critérios 34 e 53

Protocolo federal de encaminhamento de ortopedia adulto, 2022 — se necessário, especialmente em idosos

O Quadro 5 diz que se pode associar inibidor de bomba de prótons, se necessário, especialmente em idosos, em pessoas com história prévia de úlcera péptica e em uso de medicações que aumentam o risco de complicação gastrointestinal: ácido acetilsalicílico, corticoide oral, anticoagulante e inibidor seletivo da recaptação da serotonina.

Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 4: Ortopedia adulto, Ministério da Saúde/UFRGS, 2022, Quadro 5

Diretriz britânica do NICE, 2022 — gastroprotetor para todos enquanto durar o anti-inflamatório

A diretriz recomenda oferecer tratamento gastroprotetor, como um inibidor de bomba de prótons, a toda pessoa com osteoartrite enquanto ela estiver usando anti-inflamatório, e registra que a proteção reduziu sangramento e perfuração gastrointestinais.

NICE NG226, 19/10/2022, recomendação 1.4.4 e justificativa

Como decidir

Avaliar risco gastrointestinal, renal e cardiovascular antes de AINE oral. A NICE recomenda gastroproteção enquanto houver AINE; não usar 75 anos ou cinco dias como limiares que garantem segurança abaixo deles. No caso de Nicolina, preferir reduzir exposição sistêmica; se escolhido curso oral, combinar proteção gastrointestinal e monitorização, lembrando que omeprazol não protege rim ou coração.

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O raciocínio, em voz alta

Eliseu Batalha tem 58 anos e é pedreiro por conta própria. Chega à unidade com uma radiografia do joelho direito feita na UPA há dois meses, laudada como normal, e a queixa de que o joelho direito dói há um ano e meio. A dor piora ao subir no andaime, ao agachar para assentar piso e ao calçar a botina daquele lado; de manhã a perna fica travada por uns quinze minutos. Toma diclofenaco 50 mg comprado na farmácia, de uma a três vezes por dia, há oito meses. Fuma um maço por dia desde os 17 anos e é hipertenso; toma enalapril 10 mg duas vezes ao dia. Pesa 96 kg e mede 1,71 m, com índice de massa corporal de 32,8; a pressão de hoje é 142 por 90. Há três meses deixou de pegar obra em andar alto e perdeu metade da renda. Ao exame, o joelho direito não tem derrame, calor nem dor na interlinha, e dobra e estica por completo sem dor. O quadril direito roda para dentro cerca de 10 graus, e essa rotação reproduz a dor na virilha e na frente da coxa, descendo até o joelho. A marcha é antálgica. Não tem febre nem perdeu peso.

  1. 1. O joelho que não era do joelho

    A queixa é no joelho, e o exame do joelho é normal: sem derrame, sem dor na interlinha, amplitude completa e indolor. A dor aparece quando se roda o quadril, e a rotação interna está reduzida — é o primeiro movimento que a osteoartrite de quadril tira e o primeiro que dói. A dor da articulação do quadril pode ser sentida no joelho, e é por isso que todo joelho doloroso ganha exame do quadril. A radiografia normal do joelho não estava errada; estava fotografando a articulação errada. O retrato clínico fecha: 58 anos, dor que piora com a atividade, rigidez de quinze minutos, nenhum dado atípico. É osteoartrite de quadril pela clínica.

  2. 2. O que pedir, e o que não pedir

    Pede-se a radiografia do quadril com apoio bipodal, como o PCDT sugere para auxiliar o diagnóstico da osteoartrite de quadril. Ela volta com redução acentuada do espaço articular superior, osteófitos no acetábulo e na cabeça do fêmur e cistos subcondrais: doença estrutural avançada, coerente com o exame e com a limitação da rotação. Ressonância não se pede — o PCDT não a recomenda para confirmar o diagnóstico nem para gerir o tratamento. Pedem-se creatinina e potássio, porque ele usa enalapril e vem tomando anti-inflamatório há oito meses. A creatinina volta em 1,0 mg/dL e o potássio em 4,6 mEq/L.

  3. 3. O diclofenaco sai, e o risco cardiovascular escolhe o que entra

    O diclofenaco não consta da Rename 2024, e o PCDT registra a decisão do Ministério de não incorporar o diclofenaco oral para dor crônica musculoesquelética; além disso, oito meses de uso diário sem data, sem conferência e sem prescrição, num hipertenso fumante, é exatamente o que os degraus existem para evitar. Ele sai hoje. Entra o analgésico simples em horário regular — dipirona 500 mg, dois comprimidos de 6 em 6 horas, pela preferência dele —, e o anti-inflamatório fica como degrau. Quando for necessário, a escolha não é o ibuprofeno: o PCDT aconselha naproxeno para a pessoa com osteoartrite de joelho ou de quadril que tem risco cardiovascular, e hipertensão com tabagismo é risco cardiovascular. O naproxeno está no Componente Especializado e é preconizado para o código M16 da CID-10, que é o dele; a receita não sai na farmácia da unidade, e o interno já preenche a solicitação do componente. A dose começa no piso do PCDT, 250 mg de 12 em 12 horas, com a menor duração possível, pressão e creatinina conferidas no curso. Omeprazol não entra: ele tem menos de 75 anos, nenhuma história gastrointestinal e não usa ácido acetilsalicílico, anticoagulante nem corticoide.

  4. 4. O núcleo do tratamento não muda porque a doença é avançada

    Radiografia avançada não dispensa exercício, peso nem informação. Ele sai com encaminhamento à fisioterapia e com um programa para casa de fortalecimento dos músculos do quadril e de manutenção da amplitude que ainda existe, com o aviso de que a dor pode aumentar no começo. A meta de peso é concreta: 5% de 96 kg são 4,8 kg, e 10% são 9,6 kg. Recebe bengala, para usar na mão esquerda, do lado oposto ao quadril doente, como apoio ao tratamento principal — a diretriz britânica recomenda considerar auxílio de marcha na osteoartrite de membro inferior. E a conversa sobre o cigarro acontece nesta consulta, pelo capítulo Pare de fumar não é conduta, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva — como cuidado com a saúde dele, e não como condição para o que vem a seguir.

  5. 5. Encaminhar agora ou esperar seis meses

    O protocolo federal de dor no quadril encaminha à ortopedia a osteoartrite de quadril com potencial indicação cirúrgica, e define essa situação como dor refratária a seis meses de tratamento clínico otimizado ou importante prejuízo para as atividades de vida diária. O conectivo é ou. Eliseu ainda não teve tratamento otimizado — teve oito meses de anti-inflamatório por conta própria, sem exercício, sem fisioterapia e sem plano —, mas já tem prejuízo importante: não sobe em andaime, não calça a botina, manca e perdeu metade da renda. Pela leitura desta apostila do Protocolo 3 e do Protocolo 9, ele preenche o critério pelo segundo braço e é encaminhado agora, enquanto o tratamento otimizado começa em paralelo. A diretriz britânica pede que o manejo não cirúrgico seja ineficaz ou inadequado; os meses de espera pela consulta especializada serão justamente o tempo de mostrar se ele é suficiente, e o encaminhamento pode ser atualizado se a resposta vier.

  6. 6. O que o peso e o cigarro não fazem

    O peso de 96 kg e o maço diário não tiram Eliseu da fila. A diretriz britânica recomenda não excluir do encaminhamento para prótese por idade, sexo, tabagismo, comorbidades ou índice de massa corporal, e registra que pessoas com sobrepeso ou obesidade não tiveram maior mortalidade depois da prótese de quadril ou de joelho e melhoraram na qualidade de vida. A mesma diretriz recomenda explicar que o risco da cirurgia varia com esses fatores: é isso que o interno diz a ele, e é o cirurgião quem discute o risco individual. Parar de fumar e perder peso deixam a cirurgia mais segura; condicioná-la a isso é negar uma indicação.

  7. 7. O que vai escrito no encaminhamento

    O Protocolo 3 lista o conteúdo mínimo, e o interno o cumpre inteiro: manifestações clínicas com tempo de evolução e duração da rigidez; restrição de movimento — rotação interna de cerca de 10 graus — e prejuízo funcional descrito em atividades concretas, trabalho em altura, calçar a botina, marcha; o laudo da radiografia com data; o índice de massa corporal de 32,8; e todo o tratamento já feito, com dose, posologia e resposta — diclofenaco 50 mg de uma a três vezes ao dia por oito meses, com alívio parcial, suspenso; dipirona em horário regular iniciada; fisioterapia solicitada; bengala; naproxeno solicitado ao Componente Especializado. Acrescentam-se a hipertensão, o tabagismo e a creatinina. O encaminhamento que chega assim não volta da regulação pedindo o que faltou.

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Faça você

Waldemira Colares, 54 anos, manicure, procura a unidade porque as mãos doem há cinco meses e ela já não consegue segurar o alicate a manhã inteira. Conta que tem caroços duros nas pontas dos dedos há mais de dez anos, como a mãe tinha, e que por isso já sabe que é artrose. Traz uma radiografia das mãos feita no ano passado com o laudo de osteoartrite das interfalângicas distais. Desta vez, porém, as mãos amanhecem duras e inchadas, e só soltam depois de uma hora e meia, com água morna; está cansada e dormindo mal. Ao exame, há nódulos duros nas interfalângicas distais do segundo e do terceiro dedos das duas mãos, sem calor. As segundas e terceiras metacarpofalângicas das duas mãos e o punho direito estão edemaciados, com consistência mole e dor à palpação, e o teste do aperto das metacarpofalângicas é positivo dos dois lados. Pele, couro cabeludo e unhas sem alteração. Não usa medicamento contínuo.

  1. 1. O que nesta mão é osteoartrite

    Aponte o achado que pertence à osteoartrite nodal e diga por que ele, sozinho, não explica a queixa dos últimos cinco meses.

  2. 2. O que nesta mão não é osteoartrite

    Liste os dados que quebram o padrão da osteoartrite — rigidez, articulações acometidas, consistência do aumento de volume, teste do aperto — e diga qual suspeita eles configuram pelo protocolo federal.

  3. 3. O que pedir antes de encaminhar

    Diga quais exames o encaminhamento precisa levar e explique por que uma nova radiografia das interfalângicas distais não responde à pergunta.

  4. 4. Para onde, e o que não fazer enquanto isso

    Escolha o destino, diga o que o encaminhamento precisa descrever e aponte o erro de rótulo que atrasaria o diagnóstico desta paciente.

Ver como fecharíamos

Os nódulos duros das interfalângicas distais, sem calor, de longa data e com história familiar, são osteoartrite nodal — os nódulos de Heberden —, e o laudo do ano passado está certo sobre eles. Mas eles existem há dez anos e não explicam a mudança dos últimos cinco meses. O que quebra o padrão é tudo o mais: rigidez matinal de uma hora e meia, muito acima dos 30 minutos da osteoartrite; edema mole, e não aumento ósseo, em segundas e terceiras metacarpofalângicas dos dois lados e no punho, articulações que a osteoartrite costuma poupar; teste do aperto positivo; cansaço. Pelo protocolo federal de 2016, sinovite em três ou mais articulações com rigidez matinal acima de 30 minutos ou teste do aperto positivo configura alta suspeita de artrite reumatoide — e ela tem as duas coisas. Antes de encaminhar, pedem-se o que o encaminhamento à Reumatologia vai precisar: fator reumatoide e proteína C reativa ou velocidade de hemossedimentação, e radiografia de mãos, punhos e pés se necessária, porque ela olha as articulações que interessam agora. Uma nova radiografia das interfalângicas distais só confirmaria a artrose que ninguém discute. O destino é a Reumatologia, com a descrição das articulações acometidas, da duração da rigidez em minutos, do resultado do teste do aperto e dos exames com data. O erro que atrasaria o diagnóstico é aceitar o rótulo que ela trouxe — já sei que é artrose — e tratar a mão inteira como osteoartrite, com analgésico e órtese, enquanto a sinovite corre: os nódulos não absolvem a metacarpofalângica inchada. O tratamento da artrite reumatoide é do capítulo Artrite reumatoide, nesta apostila; o que cabe à unidade básica é reconhecer e encaminhar sem demora.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O que quebra o padrão da osteoartrite é a rigidez de uma hora e meia, o edema mole de metacarpofalângicas e punho — articulações que a osteoartrite costuma poupar — e o teste do aperto positivo. Pelo protocolo federal de 2016, sinovite em três ou mais articulações com rigidez matinal acima de 30 minutos ou teste do aperto positivo configura alta suspeita de artrite reumatoide, e o encaminhamento à Reumatologia leva fator reumatoide e PCR ou VHS. Os nódulos de Heberden são reais, mas não absolvem a metacarpofalângica inchada; a radiografia das distais só confirmaria a artrose que ninguém discute; corticoide contínuo sem diagnóstico mascara a doença; e o destino ortopédico é o da osteoartrite de mão com deformidade, que não é a pergunta aqui. Solicitar os exames em paralelo; não atrasar referência por esperar fator reumatoide ou PCR, e resultados normais/negativos não excluem artrite inflamatória.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique a uma pessoa com radiografia muito alterada por que a intensidade da imagem não determina sozinha dor ou cirurgia.

Em 30 dias

Monte um plano para dor de joelho com hipertensão e uso de diurético. Compare opção tópica, risco de AINE oral, proteção gástrica e critérios para discutir infiltração ou avaliação cirúrgica.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 62 anos, auxiliar de limpeza, com dor no joelho esquerdo há dois anos, que piora ao subir escada e ao ajoelhar para limpar o chão, rigidez de dez minutos pela manhã e nenhum inchaço quente. Ela toma ácido acetilsalicílico 100 mg por dia desde um infarto há três anos e chega pedindo uma injeção no joelho, porque não pode faltar ao trabalho. Decida se é osteoartrite, o que você examina além do joelho, o que prescreve e o que não prescreve — lembrando do ácido acetilsalicílico —, o que responde sobre a injeção e quando ela volta.

Osteoartrite / osteoartrose – O joelho que a radiografia não explica — Internato | OsceLabs