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Clínica MédicaReumatologia

Dor em todo lugar, lesão em lugar nenhum

Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica

Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica na unidade básica: o diagnóstico que se fecha na consulta, os exames que não se pedem, o exercício que trata, o comprimido que o SUS tem e o que não se prescreve.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024 (Relatório de Recomendação Conitec nº 794)

Brasil. Lei nº 14.705, de 25 de outubro de 2023 — estabelece diretrizes para o atendimento prestado pelo SUS às pessoas acometidas por síndrome de fibromialgia ou fadiga crônica ou por síndrome complexa de dor regional ou outras doenças correlatas; com os arts. 1º-A, 1º-B e 1º-C incluídos pela Lei nº 15.176, de 23 de julho de 2025

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, volume 3: Reumatologia e Ortopedia. Brasília: Ministério da Saúde, 2016 (versão preliminar)

Brasil. Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024

Heymann RE, et al. — Review of fibromyalgia treatment guidelines: part 2, pharmacological treatment. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Advances in Rheumatology. 2026;66:9. doi:10.1186/s42358-025-00483-2

01

Responda antes de ler

Homem de 58 anos, em uso de sinvastatina há quatro meses, procura a unidade com dor difusa nas coxas e nos braços há três meses, cansaço e dificuldade recente para levantar da cadeira sem apoiar as mãos. Não tem febre. Um médico de outro serviço sugeriu fibromialgia. Qual é o exame mais importante antes de aceitar esse diagnóstico?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, duas e meia da tarde, consultório 4 da unidade básica. Ester Amarante tem 46 anos, é merendeira de uma escola estadual há dezenove e senta na beira da cadeira, como quem não sabe se vai ter tempo de contar tudo. Traz no colo uma pasta de plástico transparente, fechada com elástico, grossa de papel. Antes da primeira pergunta, ela diz a frase que ensaiou no ônibus: “Doutor, dói tudo.” E emenda a segunda, a que já precisou dizer muitas vezes: “Não é frescura.”

A história tem começo. Há dois anos e meio, num semestre em que a cozinha da escola ficou com uma merendeira a menos, doeram a nuca e os ombros. Depois as costas, os braços, os quadris e as pernas. Dói dos dois lados, acima e abaixo da cintura, e muda de lugar de uma semana para a outra. Piora no frio, na sexta-feira e depois do dia das panelas grandes. Ela dorme sete horas e acorda cansada “como se não tivesse dormido”. De manhã sente as mãos inchadas, mas ninguém, nem ela, jamais viu inchaço. No meio de uma frase esquece o nome das coisas, e isso a assusta mais do que a dor. Não teve febre, não perdeu peso, não tem manchas no rosto nem feridas na boca, e os dedos não ficam brancos quando lava a louça fria.

O que ela toma veio de muitas mãos. Diclofenaco sódico de 50 mg comprado na farmácia, quase todo dia há um ano, “senão não aguento o serviço”. Um relaxante muscular, a ciclobenzaprina, quando a nuca trava. No último ano foram três idas à unidade de pronto atendimento: duas saídas com injeção na veia e uma com receita de tramadol por cinco dias, que a deixou enjoada e “aérea” e que ela não terminou.

A pasta conta a outra metade da história. Há uma ressonância magnética da coluna lombar, paga pela irmã, cujo laudo descreve protrusões discais em L4-L5 e L5-S1 sem compressão de raiz nervosa. Há um fator antinuclear reagente em título de 1/160, padrão nuclear pontilhado fino, pedido no pronto atendimento. Há hemograma, velocidade de hemossedimentação e TSH normais, de quatro meses atrás. E há a guia de encaminhamento para a reumatologia, aberta há onze meses, com o motivo escrito à mão: “FAN positivo — descartar lúpus”. Ester está na fila desde então, e a espera virou a explicação provisória de tudo: enquanto a reumatologista não a vê, ninguém mexe no tratamento.

O exame é curto e diz muito. Ela pesa 68 kg e a pressão está em 124 por 78 mmHg. A palpação firme dói em quase todo lugar onde o dedo aperta: nuca, trapézios, entre as escápulas, face lateral dos cotovelos, nádegas, face interna dos joelhos. A força é normal nos quatro membros, ela levanta da cadeira sem apoiar as mãos, os reflexos estão presentes e simétricos e a sensibilidade está preservada. Nenhuma articulação está quente, inchada ou limitada; as mãos não têm sinovite; a pele não tem lesões; a tireoide não está aumentada.

O preceptor, Libânio Pena, médico de família da equipe, para na porta no fim do exame e combina o que quer ouvir antes de ela ir embora: o nome do que ela tem, o que ela para de tomar hoje, o que começa hoje, quando volta e o que se faz com a guia da reumatologia. Ester escuta a conversa e pergunta o que estava guardando: “Esse exame do lúpus deu positivo. Eu tenho lúpus?”

Este capítulo responde a essas perguntas na ordem em que elas chegam ao consultório: se é fibromialgia e como se sabe sem nenhum exame que a prove; por que a ressonância e o fator antinuclear não explicam a dor de Ester; que exame ainda falta, se falta algum, e quais só produziriam mais papel; o que se suspende, o que se começa e o que se mede na volta; quando o reumatologista é a porta certa e quando a porta é outra; e como dizer tudo isso sem a frase que ela mais teme ouvir, “seus exames estão normais, não é nada”.

03

Quem adoece disso

Dor crônica, na unidade básica, é regra. O PCDT da Dor Crônica de 2024 reúne estudos populacionais em adultos brasileiros e chega a três números que valem decorar: cerca de 40% têm dor que dura três meses ou mais; perto de 10% têm dor crônica intensa, com nota 8 ou mais numa escala de 0 a 10; e em torno de 5% têm dor crônica com limitação grave ou generalizada. A lombalgia é a mais comum, seguida de joelho, ombro, cabeça e membros inferiores. Numa tarde de consultas, a pergunta nunca é se vai aparecer dor crônica; é que tipo de dor ela é, porque nociceptiva, neuropática e nociplástica pedem tratamentos diferentes.

A fibromialgia é a forma mais conhecida da dor crônica difusa. A diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia, publicada em 2026, registra prevalência brasileira entre 2,5% e 5,5%, conforme o estudo, e a coloca como a segunda doença reumatológica mais frequente do país, atrás só da osteoartrite. A diretriz diagnóstica da mesma sociedade, de 2017, citava até 2,5% da população, com predomínio no sexo feminino e maior concentração entre os 35 e os 44 anos. Traduzido para a lista de uma equipe: em cada mil adultos cadastrados, entre 25 e 55 teriam fibromialgia. Muitos chegam com outro nome na queixa — dor no corpo, lombalgia que não passa, cansaço, nervoso.

O percurso de quem ainda não recebeu o nome costuma repetir o de Ester: pronto atendimento nas crises, anti-inflamatório comprado sem receita, exame de imagem que descreve achado real mas que não é o que dói, fator antinuclear pedido para “ver se é reumatismo”, guia para o especialista e fila. A diretriz de 2026 descreve como substancial o custo direto e indireto da fibromialgia no país. O detalhe que desmonta a fila como caminho diagnóstico vem da diretriz de 2017: quando pessoas com suspeita de fibromialgia foram avaliadas por reumatologistas, o especialista confirmou o diagnóstico em 71% delas, com artralgia inespecífica e artrite reumatoide como principais alternativas; e o médico de família concordou com o reumatologista em 87% dos casos.

É por isso que o protocolo federal de encaminhamento da atenção básica, no volume de Reumatologia e Ortopedia de 2016, não manda fibromialgia para o reumatologista. A indicação de Reumatologia é a suspeita de doença articular inflamatória. A fibromialgia que não responde a seis meses de tratamento clínico otimizado vai para um serviço especializado de dor crônica — fisiatria, acupuntura, equipe de dor ou a referência que existir. Uma guia aberta por causa de um fator antinuclear, sem sinovite nem sinal de doença sistêmica, ocupa a vaga de quem tem artrite e deixa a pessoa com dor difusa sem tratamento enquanto espera.

A fibromialgia raramente chega sozinha. A diretriz de 2026 aponta depressão, ansiedade e síndrome do intestino irritável como comorbidades que agravam a intensidade dos sintomas e a qualidade de vida. A de 2017 registra que o papel dos transtornos psiquiátricos ainda é controverso — vários estudos encontram depressão e ansiedade em frequência elevada, outros contestam — e, justamente por isso, recomenda medir o humor de forma sistemática, com instrumento validado adequado ao nível de atenção. A sobreposição com dor pélvica crônica e síndrome da bexiga dolorosa, que o capítulo A pelve não é uma especialidade descreve como assinatura da sensibilização central, obriga a perguntar pelas outras dores quando se encontra uma delas.

Dois dados de coorte mudam a primeira consulta. Segundo a revisão da diretriz de 2026, estudos populacionais mostram que o distúrbio do sono é o preditor mais forte de aparecimento de dor generalizada em dez a dezoito anos — mais confiável nessa direção do que o caminho inverso — e que a fadiga prevê dor generalizada em cinco anos melhor do que depressão ou ansiedade. Perguntar como a pessoa dorme e como acorda não é cortesia de anamnese: é investigar o motor da doença.

Os números do tratamento calibram o que se pode prometer. A amitriptilina produz resposta em 30% a 50% das pessoas com fibromialgia. Nos ensaios revisados pela Cochrane, seis estudos com 292 participantes não mostraram diferença entre anti-inflamatório e placebo. Com duloxetina, é preciso tratar onze pessoas para uma ter alívio de pelo menos metade da dor, e cerca de 19% dos que usam duloxetina ou milnaciprana abandonam por efeito adverso; com pregabalina entre 300 e 600 mg por dia, 39% a 43% têm alívio moderado, contra 28% no placebo. E a melhora da função pode vir antes da queda da dor. A promessa honesta, portanto, é voltar a fazer o que a dor tirou e sentir menos dor com o tempo — não zerar a dor com um comprimido.

04

Por que acontece o que acontece

O PCDT da Dor Crônica separa três mecanismos, e a fibromialgia só faz sentido dentro dessa separação. A dor nociceptiva nasce de tecido lesionado ou inflamado que ativa os nociceptores — a fratura, a artrite, a osteoartrite na fase em que dói com o uso. A dor neuropática vem de lesão ou doença do sistema somatossensitivo e, para ser chamada assim, precisa de sinais neurológicos compatíveis e confirmação por exame. A terceira é a dor nociplástica: nocicepção alterada, com tecidos sensibilizados, que acontece sem evidência de lesão real ou ameaça que ative nociceptores periféricos e sem doença do sistema somatossensitivo. O mesmo protocolo coloca a dor generalizada da fibromialgia como principal exemplo, ao lado da síndrome de dor regional complexa, do intestino irritável e da lombalgia crônica inespecífica.

A imagem que ajuda é a de um alarme regulado sensível demais. A diretriz de 2026 da Sociedade Brasileira de Reumatologia descreve alteração no processamento central da dor — a sensibilização central — e desregulação de neurotransmissores. Duas hipóteses convivem: uma de cima para baixo, em que o sistema nervoso central amplifica a percepção; outra de baixo para cima, em que estímulos periféricos persistentes alimentam a sensibilização. A diretriz as trata como complementares. Na clínica, o resultado é o que o PCDT chama de hipersensibilidade em tecido não lesionado: o aperto que não deveria doer dói, e a dor que deveria ser pequena é grande.

Isso explica o exame de Ester. Não há lesão para mostrar, então a força é normal, as articulações não incham e o hemograma não se altera. A ressonância lombar dela descreve algo que existe, mas o PCDT avisa que boa parte do que a imagem mostra não participa do que produz a dor — e protrusões na lombar não explicam a nuca, os cotovelos e os joelhos. O fator antinuclear é um anticorpo, não uma fonte de dor; o que ele significa numa pessoa sem sinal de doença sistêmica é assunto do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico, nesta apostila.

O mesmo processamento central explica por que a dor vem acompanhada. Fadiga, sono que não descansa, dificuldade de memória e de concentração e alterações de humor fazem parte do quadro, e a diretriz de 2026 descreve um circuito: dor, fadiga, distúrbio do sono e humor são fatores de risco independentes para o início ou a piora da dor generalizada, e a dor crônica, por sua vez, piora cada um deles. É um ciclo que se autoalimenta, e ciclo se interrompe em mais de um ponto ao mesmo tempo. Por isso o plano mexe no sono, no movimento, no humor e na compreensão da doença, e não só na dor.

Os mecanismos se misturam. O PCDT registra que uma pessoa pode ter dor nociplástica e nociceptiva juntas, e que na osteoartrite a cronificação pode sensibilizar as regiões acometidas e acrescentar um componente nociplástico. A diretriz diagnóstica de 2017 mostra o tamanho disso: mais de onze pontos dolorosos aparecem em 22,4% das pessoas com artrite reumatoide e em 24,7% das com osteoartrite, contra 89,9% das com fibromialgia. Ela registra a proposta de chamar a fibromialgia de isolada ou associada, em vez de primária ou secundária. A pessoa com lúpus controlado que continua doendo inteira pode ter fibromialgia associada — e tratar mais o lúpus não vai resolver.

Com isso fica claro por que a escada analgésica não serve aqui. É no item de dor oncológica que o PCDT usa a escada. Na dor nociplástica, o mesmo protocolo diz que anti-inflamatório, paracetamol e opioide são menos efetivos e que o uso de opioide é desencorajado. A diretriz de 2026 acrescenta que os ensaios não mostraram diferença entre anti-inflamatório e placebo, o que é esperado numa condição não inflamatória, e que o uso de opioide se associa a mais interferência da dor, pior função, mais depressão e mais insônia; o tramadol isolado não mostrou eficácia. O diclofenaco diário de Ester não trata o que dói e traz o risco cardiovascular, gástrico e renal que o PCDT manda pesar. A escada e o opioide no paciente internado são do capítulo Analgesia no paciente internado, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado.

O que funciona age sobre o alarme. A amitriptilina modula serotonina e noradrenalina, vias da modulação da dor e da regulação do sono, e por isso melhora dor e sono mais do que fadiga. A pregabalina se liga à subunidade alfa-2-delta dos canais de cálcio e reduz a liberação de glutamato, noradrenalina e substância P. O exercício de força reduz a dor e melhora o sono; somado ao aeróbico, melhora mais a dor, a função e a qualidade de vida do que cada um sozinho; e a diretriz de 2026 registra que a função pode melhorar independentemente da dor e até antes dela. Uma leitura desta apostila decorre daí: num corpo sem lesão, a dor do dia seguinte ao exercício é sensibilidade, não dano, e a resposta a ela é ajustar a carga, não parar.

Por fim, o nome. O consenso de 2026 considera síndrome o termo mais adequado, porque a fibromialgia é um conjunto de sintomas com mais de uma causa possível. O PCDT, ao falar de educação em dor, lembra que a dor não é só um fenômeno do corpo: é influenciada por percepção, atenção, pensamentos e sentimentos. As duas frases mais comuns no consultório erram em direções opostas — “é emocional” reduz uma alteração do sistema nervoso a traço de caráter, e “é desgaste” aponta uma lesão que não existe. A frase certa é que a dor é real, o alarme está sensível e a sensibilidade pode baixar.

Silhueta corporal com rede luminosa difusa e destaque no cérebro e na medula, como metáfora de alteração do processamento nociceptivo.
Metáfora visual da dor nociplástica: alteração da nocicepção sem evidência clara de lesão tecidual ou de doença do sistema somatossensorial que explique a dor. A experiência dolorosa é real, e mecanismos nociplásticos podem coexistir com outros mecanismos. A rede luminosa não corresponde a um exame nem demonstra um mapa de lesões.
05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo é dono da fibromialgia e da dor musculoesquelética crônica difusa no adulto: o diagnóstico clínico, o que se investiga e o que não se investiga, o tratamento pela régua brasileira, o seguimento na unidade básica, o encaminhamento e a comunicação do diagnóstico. A dor difusa, que não respeita articulação e vem com sono ruim e cansaço, é deste capítulo; a dor da articulação que obedece ao uso é do capítulo O joelho que a radiografia não explica, sobre osteoartrite, nesta apostila. Fica aqui também a dor miofascial crônica, que não tem dono no nível, e a regra de encaminhamento da dor periarticular que não melhora; as manobras e as lesões do ombro e do joelho são do capítulo Quatro manobras no ombro, três no joelho, na apostila de Ortopedia.

O que se cede, cede-se pelo nome. A queixa ainda indiferenciada — o cansaço, a tontura, a dor que não tem forma — e o tempo usado como instrumento diagnóstico são do capítulo Metade não vira nome, na apostila de Medicina de Família e Comunidade; este capítulo começa quando a dor difusa já tem três meses e desenho de fibromialgia. A leitura do fator antinuclear positivo é do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico; a lombalgia, de Lombalgia e hérnia de disco e de Dor lombar aguda no pronto-socorro; a monoartrite, de Monoartrite aguda e artrite séptica; a escada analgésica e o opioide, de Analgesia no paciente internado; a dor neuropática do diabético, do capítulo de polineuropatias da apostila de Neurologia; a depressão, de Depressão maior na unidade básica, e a ansiedade, de Um minuto para prescrever, cinco anos para retirar; o TSH, de Quem pediu este TSH; a dor pélvica crônica, de A pelve não é uma especialidade; o nexo com o trabalho e o afastamento, de A lesão que só vira acidente se alguém escrever. A polimialgia reumática e as vasculites têm capítulo próprio nesta apostila, Vasculites sistêmicas: este capítulo fica com o reconhecimento e com a decisão de não rotular como fibromialgia; a urgência visual da arterite de células gigantes é de Perda visual sem olho vermelho, na apostila de Oftalmologia, e o tratamento, de Vasculites sistêmicas.

Percurso de aprendizagem

Entenda dor nociplástica e valide o sofrimento sem inventar lesão estrutural. Fibromialgia pode coexistir com outras doenças; sinais inflamatórios, déficit focal, perda de peso ou mudança do padrão pedem investigação dirigida.

Aprenda a negociar metas de sono, atividade e função, introduzir exercício gradualmente e avaliar medicamentos pelo benefício e pelos efeitos adversos. O tratamento precisa caber na vida da pessoa e não depende de normalizar um exame.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

A dor que não respeita articulação

A queixa chega em forma de frase feita — “dói tudo”, “dói o corpo inteiro”, “parece que levei uma surra” — e é preciso desmontá-la em lugares. A dor da fibromialgia é difusa: dos dois lados do corpo, acima e abaixo da cintura, no pescoço, nas costas e no tórax. Oscila e migra; a pessoa aponta a nuca numa semana e as coxas na outra. Para entrar no critério, ela dura pelo menos três meses em nível parecido, e na maioria das vezes, quando chega ao consultório, dura anos.

A qualidade ajuda a separar mecanismos. O PCDT da Dor Crônica associa queimação, pressão, peso e tensão à dor nociplástica, e descreve nela sensação de peso, tensão e dolorimento em tecido que não tem lesão. Choque, formigamento em território de nervo e alfinetada sugerem dor neuropática e pedem outro raciocínio. A rigidez ao acordar é comum, e a diretriz diagnóstica de 2017 registra que a principal crítica aos critérios antigos foi terem valorizado a dor difusa em detrimento de fadiga, sono e rigidez matinal.

A dor varia com o que acontece na vida da pessoa. A diretriz de 2026 registra que o estado emocional e a percepção influenciam diretamente a progressão da dor. Ester piora na sexta-feira, no frio e depois do dia das panelas grandes, e isso não é sinal de fingimento: é o comportamento esperado de um alarme sensível. O que a dor da fibromialgia não faz é inchar a articulação, avermelhar a pele ou tirar a força.

A pessoa costuma dizer “junta”, e o interno precisa examinar a junta para ter certeza de que não é. Na fibromialgia a articulação dói à palpação e ao movimento extremo, mas não tem derrame, calor, espessamento sinovial nem limitação real. Quando a dor é da articulação e segue o uso, com rigidez curta, o raciocínio é de osteoartrite; quando há inchaço mole, calor e rigidez longa, é de artrite inflamatória. A fibromialgia pode acompanhar as duas, mas não se confunde com nenhuma.

O que vem junto e ninguém pergunta

Três sintomas entram no próprio critério e precisam ser perguntados um a um, porque a pessoa raramente os oferece: fadiga, sono que não restaura e sintomas cognitivos. A fadiga é o cansaço que não passa com o descanso. O sono não restaurador é o de Ester — sete horas na cama e o despertar de quem não dormiu. Os sintomas cognitivos são a palavra que some no meio da frase, a leitura que não fixa, a panela esquecida no fogo. A diretriz de 2017 recomenda considerá-los no diagnóstico e na avaliação de gravidade.

Além deles, a escala do critério conta a quantidade de sintomas somáticos gerais. O protocolo federal de encaminhamento lista dezenas deles, entre os quais dor de cabeça, cólon irritável, cólicas abdominais, dormência e formigamento, tontura, insônia, boca seca e azia. Cada um, isolado, levaria a um exame; juntos, desenham a sensibilização central.

O humor faz parte do quadro. A diretriz de 2026 aponta depressão e ansiedade como comorbidades que agravam os sintomas, e a de 2017, embora registre a controvérsia sobre o papel dos transtornos psiquiátricos, recomenda medi-los sempre, com instrumento validado. Perguntar pelo humor não é insinuar que a dor é psicológica — é tratar uma comorbidade que, sem tratamento, mantém a dor alta. O instrumento e a conduta do episódio depressivo são do capítulo Depressão maior na unidade básica.

Outras condições nociplásticas costumam aparecer na mesma pessoa. O PCDT agrupa com a fibromialgia a síndrome do intestino irritável e outras dores viscerais; o capítulo A pelve não é uma especialidade descreve a sobreposição com dor pélvica crônica e síndrome da bexiga dolorosa. Encontrar uma dessas condições obriga a perguntar pelas outras, porque o plano de tratamento é o mesmo e a pessoa costuma estar sendo acompanhada por três serviços que não se falam.

O exame que se faz e o que ele precisa mostrar

O exame físico da fibromialgia é quase todo normal, e a função dele é procurar o que não é fibromialgia. Examine todas as articulações periféricas procurando sinovite: inchaço mole, calor, dor à mobilização e limitação. Teste a força proximal pedindo que a pessoa levante da cadeira sem as mãos e eleve os braços acima da cabeça. Examine reflexos e sensibilidade. Olhe a pele, a mucosa da boca e as unhas, palpe a tireoide e os linfonodos e, depois dos 50 anos, as artérias temporais.

A palpação firme de muitos lugares dói, e isso apoia o diagnóstico sem defini-lo. Os critérios de 1990 exigiam onze de dezoito pontos dolorosos; a diretriz de 2017 registra que essa definição identifica só 20% das pacientes com dor difusa, que na atenção primária os pontos quase nunca eram aplicados do jeito certo e que a contagem se correlaciona com o grau de sofrimento emocional. Por isso ela considera os pontos úteis apenas junto aos sintomas funcionais do critério de 2010 — e não obrigatórios.

O PCDT sugere documentar a dor num diagrama corporal, marcando local e intensidade. Na fibromialgia, esse desenho vira instrumento: é a contagem do índice de dor difusa, feita na primeira consulta e repetida nas seguintes, e é o que mostra à pessoa, meses depois, que a dor encolheu de região mesmo quando a nota não mudou tanto.

O exame de Ester cumpre o que se espera: força normal, reflexos normais, nenhuma sinovite, nenhuma lesão de pele, tireoide normal e dor à palpação difusa. Essa combinação não fecha o diagnóstico sozinha, mas afasta a maioria das doenças que o imitariam, e é o que autoriza o interno a não pedir exame novo naquele dia.

Dor regional crônica: miofascial, bursite e tendinite

Nem toda dor musculoesquelética crônica é difusa. A dor miofascial ocupa uma região — a nuca, o trapézio, a cintura escapular, a lombar — e costuma ter pontos-gatilho: uma banda muscular tensa em que a pressão reproduz a dor conhecida e às vezes a irradia. A bursite e a tendinite doem perto da articulação, num movimento específico, e têm manobra que as provoca. Nenhuma dessas dores tem sinovite nem sinal sistêmico.

A diretriz de 2026 registra que quem tem fibromialgia apresenta com frequência síndromes regionais sobrepostas — bursite, tendinite, dor miofascial — que podem resultar da própria sensibilidade aumentada e que em pessoas sem fibromialgia muitas vezes nem doeriam. O cuidado, então, é duplo: não perder a dor regional tratável dentro do rótulo de fibromialgia, e não tratar a ponta de uma dor difusa como se fosse a doença inteira.

A pergunta que separa as duas situações é simples: onde mais dói? Uma pessoa que chega pelo ombro e, perguntada, marca nove regiões no diagrama tem dor difusa, e o ombro é parte dela. A diretriz de 2017 declara a dor difusa fundamental para o diagnóstico de fibromialgia; dor numa região só, por mais crônica, não fecha o critério.

O ombro e o joelho, com as manobras que diferenciam lesão de manguito, lesão meniscal e ligamentar, são do capítulo Quatro manobras no ombro, três no joelho. O que fica aqui é o destino da dor periarticular e miofascial que não melhora, descrito em Investigação, e a lembrança de que a dor regional ligada a um gesto repetido de trabalho tem nexo a investigar, assunto do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever.

A fibromialgia que chega junto com outra doença

A fibromialgia pode acompanhar quase qualquer doença reumatológica, e é aí que se erra nas duas direções. A pessoa com artrite reumatoide em remissão, com lúpus controlado ou com hipotireoidismo tratado que continua com dor difusa, sono ruim e cansaço pode ter fibromialgia associada. Se ninguém nomeia, a dor nociplástica é lida como atividade da outra doença, e o tratamento dela é escalado sem necessidade — mais corticoide, mais imunossupressor — para uma dor que não vai responder.

O erro oposto é pior. Atribuir à fibromialgia a piora de quem tem doença inflamatória deixa passar atividade de doença. O que separa as duas coisas é o exame e o laboratório: sinovite, fraqueza, febre, alteração de hemograma ou de marcadores inflamatórios pertencem à outra doença; dor difusa sem nenhum desses achados, com o padrão de sono e fadiga, pertence à fibromialgia.

A regra de ordem entre as duas situações está em Investigação, porque o critério de 2010 e a diretriz de 2017 parecem dizer coisas opostas sobre a outra doença — e, lidos com cuidado, descrevem momentos diferentes do mesmo paciente.

O que não é fibromialgia até prova em contrário

Alguns achados tiram a dor difusa do caminho da fibromialgia até que outra explicação seja afastada. Febre, perda de peso não intencional e suor noturno apontam doença sistêmica, infecção ou neoplasia. Sinovite aponta artrite. Fraqueza objetiva — não conseguir levantar da cadeira, não conseguir pentear o cabelo — aponta miopatia, inflamatória ou por medicamento, e a estatina é a primeira pergunta. Lesões de pele, úlceras na boca, fenômeno de Raynaud e alteração na urina apontam doença autoimune sistêmica.

A idade e a velocidade de instalação importam. Dor e rigidez nas cinturas escapular e pélvica que começam depois dos 50 anos, em semanas, com dificuldade de sair da cama e de vestir a roupa, é polimialgia reumática até prova em contrário, e não fibromialgia de início tardio. Se vier junto dor de cabeça nova, dor na mandíbula ao mastigar, sensibilidade no couro cabeludo ou qualquer alteração visual, a suspeita é de arterite de células gigantes, que ameaça a visão: a avaliação é no mesmo dia, em serviço de urgência.

Dor óssea localizada que piora à noite, sobretudo em quem teve câncer, déficit neurológico focal e alteração de esfíncter pedem investigação da causa, e cada uma tem capítulo próprio no nível. O protocolo federal de encaminhamento pede que o documento de quem é encaminhado com fibromialgia registre justamente edema articular, fraqueza, fenômeno de Raynaud, alteração do hábito intestinal e sintomas constitucionais — os sinais que mudariam a hipótese.

O diagnóstico de fibromialgia não imuniza ninguém contra outras doenças. Sinal novo reabre o diagnóstico: dor nova e focal, fraqueza, febre ou perda de peso em quem já tem fibromialgia são investigados como se o rótulo não existisse. O capítulo Metade não vira nome diz o mesmo, e as duas frases valem juntas.

06

Como fechar o diagnóstico

O diagnóstico da fibromialgia se fecha na consulta, com história, exame e uma contagem. Não existe exame que o confirme: a diretriz diagnóstica de 2017 da Sociedade Brasileira de Reumatologia afirma que o diagnóstico é baseado em características clínicas e não recomenda termografia nem polissonografia para fazê-lo. O que a investigação faz é outra coisa — afastar, com poucos exames escolhidos pela história, as doenças que imitam a fibromialgia — e não repetir o que já foi afastado.

A régua brasileira do diagnóstico é a diretriz de 2017, que recomenda o critério do Colégio Americano de Reumatologia de 2010 e considera as modificações de 2011 mais indicadas para pesquisa epidemiológica. O protocolo federal de encaminhamento de 2016 reproduz o mesmo critério de 2010. A diretriz de tratamento de 2026 não tem pergunta diagnóstica e usa, para acompanhar, um questionário derivado da revisão de 2016. O PCDT da Dor Crônica não traz critério próprio: inclui qualquer pessoa com dor há três meses ou mais. A revisão de 2016, que declara o diagnóstico válido mesmo na presença de outras doenças, é citada pelas duas diretrizes da sociedade, mas nenhuma delas a adota como régua; quem a ler encontrará cortes ligeiramente diferentes, e esta apostila ensina os de 2010 porque é o que os documentos brasileiros recomendam e reproduzem.

O critério, contado na consulta

O critério tem duas contas. A primeira é o índice de dor difusa: em quantas de dezenove áreas a pessoa sentiu dor na última semana. As áreas são mandíbula, cintura escapular, braço, antebraço, quadril, coxa e perna, cada uma contada de cada lado, e mais pescoço, tórax, abdome, região lombar e região dorsal alta. O resultado vai de 0 a 19.

A segunda é a escala de gravidade de sintomas. Três sintomas recebem nota de 0 a 3 conforme a última semana — fadiga, sono não restaurador e sintomas cognitivos —, de nenhuma alteração a alteração grave, contínua e que prejudica a vida diária. A quantidade de sintomas somáticos gerais recebe outra nota de 0 a 3, de nenhum a muitos. A soma vai de 0 a 12.

Os cortes são dois caminhos para o mesmo diagnóstico: índice de dor difusa de 7 ou mais com escala de gravidade de 5 ou mais; ou índice entre 3 e 6 com escala de 9 ou mais. Os sintomas precisam estar presentes, em nível parecido, há pelo menos três meses. O segundo caminho existe para quem tem menos regiões dolorosas e muitos sintomas associados — e é por ele que a pessoa com dor regional pode ser classificada como fibromialgia. A diretriz de 2017 registra que um critério complementar de dor difusa foi acrescentado por causa desse erro e declara a dor difusa fundamental: dor numa região só não fecha o diagnóstico, por mais alta que seja a escala.

Ester conta assim. Na última semana doeram pescoço, as duas cinturas escapulares, a região dorsal alta, a lombar, os dois braços, os dois quadris e as duas pernas: índice de 11. Fadiga grave e contínua, 3; sono não restaurador frequente, 2; esquecimentos frequentes, 2; vários sintomas somáticos — dor de cabeça, intestino que alterna, formigamento sem déficit, tontura —, 2: escala de 9. A dor tem dois anos e meio. Ela preenche o critério pelo primeiro caminho, com folga.

Os pontos dolorosos não são exigidos. A contagem pode ser feita pela própria pessoa: a diretriz de 2026 recomenda o Fibromyalgia Survey Questionnaire, autoaplicável, validado em português e construído com o índice de dor difusa e a escala de gravidade, e registra que ele cabe em serviços com pouco tempo. Preenchido na sala de espera, ele libera a consulta para o exame e para a conversa.

A cláusula da outra doença: duas regras, dois momentos

O critério de 2010, como o protocolo federal o reproduz, tem uma terceira exigência: ausência de outra condição clínica que possa explicar os sintomas. A diretriz de 2017, que recomenda esse mesmo critério, diz que a fibromialgia não é diagnóstico de exclusão, embora mande sempre considerar os diagnósticos diferenciais, e cita a revisão de 2016, que declara o diagnóstico válido independentemente de outros diagnósticos. Lidas lado a lado, as frases parecem se contradizer.

Não se contradizem: governam momentos diferentes do mesmo paciente. Antes, quando existe uma doença capaz de explicar a dor e ela está sem tratamento ou ativa — hipotireoidismo não tratado, polimialgia reumática, miopatia, artrite inflamatória em atividade —, investiga-se e trata-se essa doença primeiro, e o nome fibromialgia espera. Depois, com a outra doença tratada e controlada, a dor difusa que persiste com o desenho de fibromialgia recebe o nome, como fibromialgia associada. A cláusula de exclusão é a regra do primeiro momento; o diagnóstico que convive com outros é a regra do segundo.

O que não conta como condição que explica a dor difusa merece ser dito, porque é o que mais atrasa o diagnóstico: osteoartrite de joelho, que explica o joelho e não o corpo; protrusão discal sem compressão de raiz; fator antinuclear reagente sem doença autoimune; hipotireoidismo tratado com TSH normal. Nenhum desses achados impede o nome, e nenhum deles vai curar a dor difusa se for tratado com mais intensidade.

Os exames que afastam as imitadoras

O PCDT da Dor Crônica é claro sobre o princípio: os exames são indicados por critério clínico. O quadro de monitoramento do protocolo põe velocidade de hemossedimentação, proteína C reativa, fator antinuclear, fator reumatoide, TSH, creatinoquinase e vários outros numa linha só, com a indicação “para diagnóstico diferencial e de acordo com a necessidade”. Não é uma bateria para pedir de uma vez; é uma lista de onde escolher.

Dessa lista, esta apostila adota um painel mínimo para a pessoa com dor difusa que nunca foi investigada: hemograma, velocidade de hemossedimentação ou proteína C reativa, TSH e creatinoquinase. A escolha é desta apostila, e cada exame responde a uma imitadora: o hemograma, a anemia e a doença sistêmica; a velocidade de hemossedimentação ou a proteína C reativa, a polimialgia reumática e a artrite inflamatória; o TSH, o hipotireoidismo, cuja interpretação é do capítulo Quem pediu este TSH; a creatinoquinase, a miopatia inflamatória e a miopatia por estatina, e ela sobe de prioridade quando há fraqueza ou uso de estatina.

Ester já tem hemograma, velocidade de hemossedimentação e TSH normais de quatro meses atrás, não tem fraqueza nem usa estatina, e a dor tem o mesmo desenho há dois anos e meio. Não há o que pedir hoje. Repetir exame normal num quadro estável não aumenta a segurança; aumenta a pasta, e cada resultado limítrofe novo vira mais uma consulta para explicá-lo.

Quando a queixa inclui formigamento, queimação ou choque em território de nervo, a pergunta muda para dor neuropática. O PCDT recomenda o questionário DN4, que sugere dor neuropática a partir de 4 pontos em 10, para separá-la da nociceptiva. A polineuropatia e sua investigação são do capítulo de polineuropatias da apostila de Neurologia; a fibromialgia pode coexistir com ela.

Os exames que não se pedem

O fator antinuclear não se pede na dor difusa sem sinal de doença autoimune sistêmica — sem artrite, sem lesão de pele, sem úlcera oral, sem Raynaud, sem alteração de hemograma ou de urina. Quando ele já veio reagente, como o de Ester, a leitura da probabilidade de lúpus, do título e do padrão é do capítulo O FAN não fecha o diagnóstico, que faz essa conta justamente para a mulher com cansaço e dor difusa atendida num ambulatório geral. Um fator antinuclear reagente não tira o diagnóstico de fibromialgia e, sozinho, não justifica uma vaga de reumatologia. O fator reumatoide segue a mesma lógica: sem sinovite, ele só produz dúvida.

Exame de imagem sem sinal focal não entra. O PCDT lembra que muitas alterações de imagem não têm relação com o mecanismo da dor, e a ressonância de Ester é o exemplo: descreve protrusões reais que não explicam a dor do corpo e que agora ocupam a cabeça dela como se fossem a causa. As indicações de imagem na lombalgia são do capítulo Lombalgia e hérnia de disco.

A polissonografia não diagnostica fibromialgia, e a diretriz de 2017 não a recomenda para isso. Se a pessoa ronca alto, tem pausas respiratórias testemunhadas ou dorme ao volante, a suspeita de apneia é outra pergunta, com indicação própria. A termografia não tem evidência para o diagnóstico, segundo a mesma diretriz.

Dosagens de vitamina e painéis de suplemento também não diagnosticam nem tratam: a diretriz de 2026 não encontrou evidência conclusiva para nenhum suplemento na fibromialgia e recomenda dieta equilibrada e, na obesidade, perda de peso. Cada exame fora dessa lista custa tempo, dinheiro e, sobretudo, a mensagem errada — a de que ainda falta encontrar a causa.

Humor, sono e a medida de partida

A diretriz de 2017 recomenda medir o humor de forma sistemática, com instrumento validado e adequado ao nível de atenção, porque ele pesa na gravidade da fibromialgia. Na unidade básica isso significa rastrear depressão e ansiedade já na primeira consulta ou na segunda. O instrumento, a pergunta sobre risco e a conduta do episódio depressivo são do capítulo Depressão maior na unidade básica; a ansiedade, do capítulo Um minuto para prescrever, cinco anos para retirar. O que fica aqui é a obrigação de perguntar e a lembrança de que o antidepressivo escolhido para a depressão conversa com o que se escolhe para a dor.

O sono se pergunta em detalhe: a que horas deita, quanto demora a dormir, quantas vezes acorda, como acorda, se ronca, se cochila de dia, o que usa para dormir. Café e tela à noite, turno de trabalho e filho pequeno também são sono. É desse levantamento que sai o primeiro combinado do tratamento.

A medida de partida é o que permite saber, em três meses, se o plano funcionou. São quatro registros: a nota da dor de 0 a 10; o índice de dor difusa desenhado no diagrama; um questionário de impacto validado em português, o FIQR ou o próprio questionário de levantamento da fibromialgia, sem preferência entre eles segundo a diretriz de 2026; e uma meta funcional escolhida pela pessoa, concreta e verificável, como terminar o turno sem parar para sentar ou voltar a caminhar até a igreja.

Dor regional: o exame dirigido e o destino

Na dor miofascial, o exame procura a banda tensa e o ponto-gatilho que reproduz a dor, e testa o movimento que a provoca. Na dor periarticular do ombro e do joelho, as manobras e a indicação de imagem são do capítulo Quatro manobras no ombro, três no joelho; na lombar, os sinais de alarme e a imagem são de Lombalgia e hérnia de disco e de Dor lombar aguda no pronto-socorro.

O destino está no protocolo federal de encaminhamento de 2016, e ele começa por dizer que não há indicação de Reumatologia para bursite, tendinopatia mecânica ou dor miofascial isoladas. A bursite ou a tendinite que não responde a seis meses de tratamento não farmacológico otimizado — exercício e fisioterapia — vai para Ortopedia ou para serviço de dor crônica; a dor miofascial que não responde a seis meses de tratamento clínico otimizado vai para serviço de dor crônica.

Quando a dor regional passa de três meses e há suspeita de relação com o trabalho, o encaminhamento é para Medicina do Trabalho ou Saúde do Trabalhador. O documento leva as características da dor, o tempo, o que desencadeia e alivia, a restrição funcional, a história de trauma, a atividade de trabalho associada, o tratamento feito com tipo e duração e, na dor miofascial, os pontos-gatilho e sua irradiação.

07

Reconhecer fibromialgia e recuperar função

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Entenda dor nociplástica e valide o sofrimento sem inventar lesão estrutural. Fibromialgia pode coexistir com outras doenças; sinais inflamatórios, déficit focal, perda de peso ou mudança do padrão pedem investigação dirigida. O fluxo resume a sequência da primeira consulta ao encaminhamento. As tabelas montam o critério para ser contado no consultório, separam a fibromialgia das doenças que a imitam, põem lado a lado o que o PCDT da Dor Crônica e a diretriz da Sociedade Brasileira de Reumatologia dizem de cada fármaco, com a conversão em comprimidos da Rename, e dizem para onde vai quem não melhora. As notas guardam três falhas de documentos oficiais com efeito direto na receita e na hora de encaminhar.

  1. 1Dor há três meses ou mais, em muitas regiões, com sono ruim e cansaço: conte o índice de dor difusa e a escala de gravidade na consulta, ou peça o questionário autoaplicável na sala de espera.
  2. 2Examine procurando o que não é fibromialgia: sinovite, fraqueza proximal, déficit neurológico, lesão de pele ou de mucosa, tireoide e, depois dos 50 anos, artérias temporais.
  3. 3Sinal de alarme — febre, perda de peso, sinovite, fraqueza objetiva, rigidez de cinturas iniciada depois dos 50 anos, cefaleia nova ou alteração visual: a hipótese é outra. Cefaleia nova, dor ao mastigar ou alteração visual depois dos 50 anos é urgência no mesmo dia.
  4. 4Sem alarme e sem exames recentes: hemograma, velocidade de hemossedimentação ou proteína C reativa, TSH e creatinoquinase. Com esses exames normais nos últimos meses e quadro estável, nada novo. Fator antinuclear e imagem, só com sinal que os indique.
  5. 5Doença capaz de explicar a dor, sem tratamento ou ativa: trate-a primeiro e reavalie. Com ela controlada e a dor difusa persistindo, o nome é fibromialgia associada.
  6. 6Índice de 7 ou mais com escala de 5 ou mais, ou índice de 3 a 6 com escala de 9 ou mais, há três meses, com dor difusa: diga o nome na mesma consulta.
  7. 7Rastreie humor e sono e registre a medida de partida: nota da dor, diagrama de áreas, questionário de impacto e meta funcional escolhida pela pessoa.
  8. 8Após discutir o diagnóstico, combinar metas de sono, movimento e função. Medicamento, quando indicado, é escolhido pela pessoa, pelo perfil de sintomas e pelos riscos; amitriptilina não é obrigatória para todo paciente.
  9. 9Retorno precoce durante ajustes para benefício, adesão e efeitos adversos. Titulação é uma possibilidade, sem exigir chegar a 50 mg ou esperar semanas diante de tontura, sedação ou piora.
  10. 10Resposta insuficiente com exercício de fato feito e amitriptilina em dose e tempo adequados: terapia cognitivo-comportamental, acupuntura onde houver e, fora do SUS, duloxetina ou pregabalina, em conversa sobre custo.
  11. 11Seis meses de tratamento otimizado sem resposta satisfatória: serviço especializado de dor crônica. Reumatologia só com suspeita de doença articular inflamatória.

O critério de 2010 montado para a consulta

EtapaO que perguntar ou fazerComo pontuarOnde isso pesa
Índice de dor difusaEm quais áreas doeu na última semana: mandíbula, cintura escapular, braço, antebraço, quadril, coxa e perna, de cada lado; pescoço, tórax, abdome, lombar e dorsal altaUm ponto por área, de 0 a 19Com 7 ou mais, basta escala de 5; de 3 a 6, a escala precisa chegar a 9
FadigaCansaço que não passa com o descanso, na última semanaDe 0 (nenhum) a 3 (grave, contínuo, atrapalha a vida)Entra na escala de gravidade
Sono não restauradorComo a pessoa acorda, mesmo depois de dormir o tempo habitualDe 0 a 3, com a mesma régua da fadigaEntra na escala e é o preditor mais forte de dor generalizada nas coortes
Sintomas cognitivosEsquecimento, dificuldade de concentração, palavra que some no meio da fraseDe 0 a 3, com a mesma réguaEntra na escala
Sintomas somáticos geraisDor de cabeça, cólon irritável, cólicas, formigamento, tontura, insônia, boca seca, aziaDe 0 (nenhum) a 3 (muitos)Fecha a escala, que vai de 0 a 12
TempoHá quanto tempo os sintomas estão em nível parecidoTrês meses ou maisAbaixo disso, a queixa é conduzida como sintoma indiferenciado
Outra doençaHá doença sem tratamento ou ativa capaz de explicar a dor?Se sim, trate e reavalie; se não, ou se controlada, sigaFibromialgia associada é diagnóstico válido depois do controle
Pontos dolorososPalpação firme de vários pontosNão pontuam no critério de 2010Apoiam, não definem; não são obrigatórios

Fibromialgia ou imitadora: o que muda a hipótese

DoençaO que a história e o exame mostramO exame que ajudaQuem conduz
HipotireoidismoCansaço, intolerância ao frio, pele seca, constipação, dor muscular difusaTSHQuem pediu este TSH, em Endocrinologia; tratado e com TSH normal, a dor que persiste pode ser fibromialgia associada
Polimialgia reumáticaMais de 50 anos, início em semanas, dor e rigidez nas cinturas escapular e pélvica, dificuldade para sair da cama e vestir a roupaVelocidade de hemossedimentação ou proteína C reativaVasculites sistêmicas, nesta apostila; não rotular como fibromialgia
Arterite de células gigantesMais de 50 anos, cefaleia nova, dor na mandíbula ao mastigar, couro cabeludo sensível, alteração visualNenhum exame atrasa a avaliaçãoServiço de urgência, no mesmo dia
Miopatia inflamatória ou por estatinaFraqueza proximal objetiva, dificuldade para levantar da cadeira, uso de estatinaCreatinoquinaseInvestigação dirigida; a estatina é a primeira pergunta
Artrite reumatoide ou espondiloartriteSinovite, rigidez matinal longa, dor lombar de padrão inflamatórioVelocidade de hemossedimentação ou proteína C reativa; o restante conforme a suspeitaReumatologia, pela suspeita de doença articular inflamatória
Lúpus e outra doença autoimune sistêmicaArtrite, fotossensibilidade, úlcera oral, Raynaud, alteração de urina ou de hemogramaFator antinuclear só com esses sinaisO FAN não fecha o diagnóstico, nesta apostila
PolineuropatiaQueimação e formigamento distal e simétrico, reflexos diminuídos, perda de sensibilidadeDN4 e investigação da neuropatiaCapítulo de polineuropatias, em Neurologia
DepressãoHumor deprimido, perda de interesse, dor e cansaço difusosInstrumento validado de rastreioDepressão maior na unidade básica, em Psiquiatria; pode coexistir com fibromialgia
OsteoartriteDor na articulação ligada ao uso, rigidez curta, crepitaçãoDiagnóstico clínicoO joelho que a radiografia não explica, nesta apostila

Cada fármaco: o que o PCDT diz, o que a SBR diz e quanto é em comprimido

FármacoPCDT da Dor Crônica, 2024SBR, 2026Rename 2024 e conversão (adulto de 68 kg; nenhuma dose é por peso)
AmitriptilinaEntre as classes de mais evidência na dor nociplástica; adulto 25 a 100 mg/dia, máximo 150; idoso 10 a 50 mg/dia (ver nota), de preferência ao dormirRecomendada, sobretudo entre 25 e 50 mg/diaBásico, comprimidos de 25 e 75 mg. 25 mg = 1 cp de 25; 50 mg = 2 cp de 25; 75 mg = 1 cp de 75. Um mês de 25 mg à noite = 30 cp; de 50 mg = 60 cp de 25
NortriptilinaCitada ao lado da amitriptilina entre os tricíclicos da dor nociplásticaSem evidência para outros tricíclicos na fibromialgiaBásico, cápsulas de 10, 25, 50 e 75 mg
FluoxetinaNão citada no item de dor nociplásticaEvidência insuficiente para a dor; melhora sintomas depressivosBásico, 20 mg; a indicação é a depressão, conduzida no capítulo próprio
GabapentinaGabapentinoide entre as classes de mais evidência na dor nociplástica; posologia do quadro com erro (ver nota)Evidência insuficiente na fibromialgia, na faixa de 1.200 a 2.400 mg/diaEspecializado, cápsulas de 300 e 400 mg. 900 mg = 3 cáps de 300; 1.200 mg = 3 cáps de 400
CiclobenzaprinaRelaxante muscular não recomendado no protocoloRecomendada como opção secundária, 5 a 10 mg ao deitar, para o sonoNão consta
DuloxetinaNão incorporada para fibromialgia (Portaria SCTIE/MS nº 52/2021)Recomendada; 30 a 120 mg/dia, com 60 mg no melhor equilíbrioNão consta
PregabalinaNão incorporada para fibromialgia (Portaria SCTIE/MS nº 51/2021)Recomendada; estudos com 300 a 600 mg/diaNão consta
Dipirona e paracetamolMenos efetivos na dor nociplásticaSem evidência, mas mais seguros que anti-inflamatório no uso prolongado; manter se ajudam a funçãoBásico, comprimidos de 500 mg. 1 g = 2 cp; teto de paracetamol de 4 g/dia = 8 cp
Anti-inflamatórioMenos efetivo; pesar risco cardiovascular, gástrico e renalSem evidência; só por curto prazo em síndrome regional sobrepostaUso contínuo não entra no plano
Tramadol e outros opioidesMenos efetivos; uso desencorajado; tramadol não incorporado para dor crônica (Portaria SCTIE/MS nº 59/2021)Tramadol com evidência insuficiente; outros opioides não recomendadosTramadol não consta

Para onde vai quem não melhora

SituaçãoDestinoQuandoO que o encaminhamento leva
Fibromialgia sem resposta satisfatóriaServiço especializado de dor crônica: fisiatria, acupuntura, equipe de dor ou a referência que houverDepois de pelo menos 6 meses de tratamento clínico otimizadoÁreas de dor e tempo; fadiga, sono e sintomas cognitivos com gravidade; sinais gerais; comorbidade psiquiátrica e remédios; tratamento feito com dose, duração e resposta
Suspeita de doença articular inflamatóriaReumatologiaNa suspeitaArticulações acometidas, duração da rigidez, sinais inflamatórios e o que motivou a suspeita
Bursite ou tendinite sem respostaOrtopedia ou serviço de dor crônicaDepois de 6 meses de exercício e fisioterapia otimizadosCaracterísticas da dor, restrição funcional, imagem se houver, trauma, relação com o trabalho e tratamento feito
Dor miofascial sem respostaServiço de dor crônicaDepois de 6 meses de tratamento clínico otimizadoPontos-gatilho e irradiação, tratamento feito com dose e resposta, relação com o trabalho
Dor regional com suspeita de relação com o trabalhoMedicina do Trabalho ou Saúde do TrabalhadorCom mais de 3 meses de dorA atividade associada; o nexo é do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever
Cefaleia nova, dor ao mastigar ou alteração visual depois dos 50 anosServiço de urgênciaNo mesmo diaA suspeita de arterite de células gigantes, por escrito
Pedido de equiparação à pessoa com deficiênciaAvaliação biopsicossocial por equipe multiprofissional e interdisciplinarQuando a pessoa pedirRelatório com diagnóstico, tempo de doença, tratamento feito e limitações funcionais observadas

Dose que a farmácia não entrega: amitriptilina no idoso. O quadro de posologia do PCDT da Dor Crônica de 2024 dá, para idosos, doses de 10 a 50 mg de amitriptilina por dia. O mesmo PCDT, na lista de fármacos do item 7.2.6, e a Rename 2024 só têm comprimidos de 25 e de 75 mg. A conta: 10 mg são 0,4 comprimido de 25 mg; a menor dose inteira que a farmácia entrega é 25 mg, 2,5 vezes o piso escrito para o idoso, e meio comprimido dá 12,5 mg. Quem prescreve amitriptilina 10 mg na unidade básica recebe de volta um comprimido que não se divide em 10. No idoso, escreva uma dose que existe — meio comprimido de 25 mg, se o comprimido dispensado puder ser partido, ou 25 mg com vigilância de hipotensão ortostática e sedação — e registre o motivo.

Posologia que triplica a dose: gabapentina. O mesmo quadro de posologia do PCDT escreve, para adultos, gabapentina 900 mg três vezes ao dia, podendo chegar a 3.600 mg/dia. A conta: 900 mg × 3 = 2.700 mg por dia como dose de adulto, três vezes os 900 mg/dia a que a titulação chega nos primeiros dias pela bula lida no capítulo A pelve não é uma especialidade, cuja faixa vai de 900 a 3.600 mg/dia. Na fibromialgia, a diretriz de 2026 considera insuficiente a evidência para gabapentina; se ela entrar por dor neuropática associada, a dose é a da titulação, nunca 2.700 mg de partida.

Duas réguas federais para o mesmo tratamento otimizado. O protocolo de encaminhamento de 2016 define o tratamento clínico otimizado da fibromialgia — a condição para mandar ao serviço de dor depois de seis meses — como não medicamentoso somado a medicamentoso, com o exemplo de antidepressivo tricíclico e analgesia. O PCDT da Dor Crônica de 2024 diz que, na dor nociplástica, anti-inflamatório, paracetamol e opioide são menos efetivos e que o opioide é desencorajado. Lida ao pé da letra, a frase de 2016 manda escalar analgesia antes de encaminhar, e o degrau seguinte da analgesia é o opioide. Pela régua desta apostila prevalece o PCDT de 2024, posterior e escrito para orientar tratamento: tratamento otimizado é educação, exercício, cuidado do sono e amitriptilina em dose e tempo adequados; analgésico simples entra só se ajudar a função, e ninguém precisa ter usado opioide para ser encaminhado.

08

A conduta, hora a hora

A conduta da fibromialgia é uma sequência de consultas, e não uma receita entregue na porta. O PCDT da Dor Crônica sugere acompanhamento pela equipe multidisciplinar a cada três meses e conforme a necessidade, e a Lei 14.705, de 2023, garante no SUS atendimento integral, com equipe de medicina, psicologia, nutrição e fisioterapia, exames, assistência farmacêutica, fisioterapia e atividade física. A linha do tempo abaixo acompanha Ester por um ano.

Educação, atividade física adaptada, sono e cuidado das comorbidades sustentam o tratamento. Fármacos são escolhidos por sintomas predominantes, preferência, tolerância e acesso; amitriptilina é uma opção, sem ser obrigatória para todo paciente nem depender de alcançar 50 mg para validar o tratamento. Comparações de diretrizes e financiamento servem como consulta, depois de compreender o plano clínico.

O que não se prescreve precisa ser dito com a mesma clareza. Opioide: não recomendado pela diretriz e desencorajado pelo PCDT. Anti-inflamatório de uso contínuo: sem efeito na fibromialgia e com risco próprio. Benzodiazepínico e hipnótico: sem evidência, e a diretriz lembra tolerância, dependência e prejuízo cognitivo no uso prolongado. Canabinoides, lidocaína e cetamina intravenosas: sem evidência para recomendar. Corticoide sistêmico: a fibromialgia não é inflamatória, e esta apostila acrescenta uma leitura — dor difusa que melhora de forma dramática com corticoide é pista de outra doença, a polimialgia reumática em primeiro lugar.

  1. Consulta 1 — o nome, o plano e o que sai da receita

    O interno conta o critério com Ester, na frente dela — índice de 11, escala de 9, dois anos e meio — e diz o nome: fibromialgia. Explica em três frases o que ela é, um alarme de dor sensível demais que não destrói músculo nem articulação; por que os exames vieram normais; e o que vai ajudar. A conversa inteira, com as frases que não se dizem, está em O que dizer. O que sai da receita: o diclofenaco diário, que não trata essa dor e cobra do estômago, do rim e do coração; a ciclobenzaprina, porque a amitriptilina começa hoje e as duas juntas somam sedação e efeito anticolinérgico — leitura desta apostila, pela semelhança de estrutura entre elas; e o tramadol, que ela já não toma e não será renovado. A dipirona fica disponível para o dia pior, sem horário fixo. O que entra: amitriptilina 25 mg à noite, dentro da faixa do PCDT para o adulto e da faixa preferida pela diretriz de 2026; exercício com começo pequeno e subida lenta, como nos programas que a diretriz descreve, que começam em intensidade baixa e sobem aos poucos; e um combinado de sono. A pergunta sobre o coração vem antes da receita: o PCDT lista hipotensão ortostática, alongamento do intervalo PR e prolongamento do QRS entre os eventos da amitriptilina e a contraindica na fase de recuperação aguda do infarto. Ester não tem cardiopatia, síncope nem palpitação. Com cardiopatia, arritmia ou síncope, fazer um eletrocardiograma antes de começar é leitura desta apostila. A guia da reumatologia: sem sinovite nem sinal de doença sistêmica, o motivo escrito — fator antinuclear positivo — não sustenta a vaga pelo protocolo federal de encaminhamento. Com o preceptor, o interno registra o diagnóstico e a avaliação clínica do fator antinuclear e comunica a regulação, e Ester sai sabendo por quê.

    Prescrição
    • Se escolhido tratamento farmacológico, discutir amitriptilina em baixa dose noturna e titular conforme resposta e tolerância. 25 mg é uma opção de apresentação, mas 10–12,5 mg pode ser preferível em pessoa sensível, quando houver apresentação/fracionamento apropriado. Rever risco anticolinérgico, cardiovascular e de sedação.
    • Dipirona 500 mg (Rename, Componente Básico): 1 a 2 comprimidos por via oral até 4 vezes ao dia, só nos dias em que a dor impedir a atividade
    • Suspender o diclofenaco de uso diário e a ciclobenzaprina
    • Caminhada em ritmo de conversa: 10 minutos, 3 vezes por semana na primeira semana; acrescentar 5 minutos por semana se a dor do dia seguinte for tolerável
    • Sono: horário fixo para deitar e levantar, sem café no fim da tarde, celular fora do quarto
    • Encaminhamento ao grupo de atividade física do polo da Academia da Saúde ou ao profissional de educação física da equipe multiprofissional
    • Diagrama de dor, nota de 0 a 10 e questionário de impacto preenchidos hoje; meta combinada: terminar o turno de sexta-feira sem parar para sentar
    • Retorno com a enfermagem em 2 semanas e consulta médica em 6 semanas
  2. Duas semanas — o efeito que chega antes do benefício

    Boca seca, lentidão pela manhã e tontura ao levantar podem ser efeitos da amitriptilina e precisam de avaliação, não apenas de orientação para suportá-los. Verificar hipotensão postural, risco de queda, trabalho e outros sedativos. Se leves, pode-se ajustar horário; se persistentes ou limitantes, reduzir dose, suspender ou trocar com supervisão. O benefício leva semanas, mas isso não obriga manter uma dose mal tolerada. O exercício também é adaptado à tolerância, com pausas e progressão pactuadas.

    Prescrição
    • Rever tolerância à amitriptilina: ajustar horário se o efeito for leve; reduzir dose ou reconsiderar o fármaco se tontura, sedação ou outros efeitos prejudicarem segurança e função.
    • Levantar da cama em dois tempos: sentar, esperar, depois ficar de pé
    • Adaptar a caminhada à capacidade atual, reduzindo intensidade/duração ou fazendo pausas quando necessário. Piora desproporcional ou sinal novo exige reavaliação, não insistência automática.
    • Voltar antes do combinado se houver desmaio, palpitação ou sonolência que impeça o trabalho
  3. Seis semanas — subir a dose e acrescentar força

    Após seis semanas, comparar dor, sono e meta funcional e perguntar ativamente sobre efeitos adversos. Aumentar de 25 para 50 mg é uma possibilidade se a resposta for parcial e a tolerância realmente boa, não uma etapa obrigatória para todos. Se persistir tontura ou sedação, não subir. Fortalecimento e exercício aeróbico podem ser combinados e progredidos de acordo com a pessoa, sem exigir um programa rígido para considerar o cuidado válido.

    Prescrição
    • Se persistir indicação e houver boa tolerância, considerar titulação gradual da amitriptilina até 50 mg/noite, com revisão após o ajuste; usar a menor dose que acrescente benefício funcional.
    • Caminhada: chegar a 30 minutos, pelo menos 2 vezes por semana, em intensidade moderada
    • Fortalecimento supervisionado: 2 vezes por semana, com peso do corpo e elástico, carga que sobe devagar
    • Retorno em 6 semanas com o questionário de impacto preenchido de novo
  4. Três meses — medir o que mudou

    As medidas de partida são repetidas, na mesma ordem. A dor está em 5; o diagrama tem seis áreas em vez de onze; o questionário de impacto caiu; e a meta — terminar o turno de sexta-feira sem parar para sentar — foi cumprida em três das últimas quatro semanas. Ester ainda tem dias ruins, e é preciso dizer a ela que dia ruim não apaga o que foi conquistado. É o momento de rastrear o humor, se ainda não foi feito, porque a diretriz de 2017 manda medi-lo de forma sistemática. O rastreio de Ester é negativo. Se fosse positivo, a conduta do episódio depressivo seria a do capítulo Depressão maior na unidade básica, com um cuidado que é deste capítulo: somar antidepressivo à amitriptilina exige conferir a interação, e a fluoxetina, único inibidor seletivo da recaptação de serotonina do Componente Básico, eleva o nível dos tricíclicos — leitura desta apostila que a escolha do outro capítulo precisa considerar. A diretriz de 2026 recomenda também a terapia cognitivo-comportamental e a terapia de aceitação e compromisso. Onde a equipe multiprofissional tem psicólogo, o grupo de manejo da dor entra agora, mesmo com resposta boa, para consolidá-la.

    Prescrição
    • Manter amitriptilina 50 mg à noite Essa dose pressupõe tolerância e benefício no caso; reduzir ou trocar se houver eventos adversos ou ausência de ganho funcional.
    • Manter caminhada e fortalecimento; acrescentar uma terceira sessão semanal se a dor do dia seguinte continuar tolerável
    • Grupo de manejo da dor com a psicologia da equipe multiprofissional, onde houver
    • Consulta médica em 3 meses; contato com a enfermagem no intervalo
  5. Quatro meses e meio — a crise

    Numa semana de frio, com a cozinha da escola desfalcada outra vez, a dor volta a 8 e Ester vai ao pronto atendimento. Sai com dipirona na veia e receita de tramadol por sete dias. Na unidade, dois dias depois, o interno faz o que a crise pede: procura sinal novo — febre, fraqueza, dor focal, articulação inchada — e não encontra; pergunta pelo sono, que piorou; e pelo exercício, que parou há dez dias. A crise é tratada com o próprio plano, não com a escada. O tramadol não é renovado: a diretriz de 2026 não encontrou eficácia do tramadol isolado na fibromialgia e não recomenda outros opioides, e o PCDT desencoraja opioide na dor nociplástica. A dipirona fica para os dias piores. O exercício volta com metade da carga, e a amitriptilina segue na mesma dose. Ester ouve, sem culpa, que a dor oscila, que crise não desfaz o que ela conquistou e que o caminho de volta é o que já funcionava.

    Prescrição
    • Tramadol: não renovar
    • Dipirona 500 mg: 1 a 2 comprimidos por via oral até 4 vezes ao dia nos dias de crise
    • Exercício retomado com metade da duração e da carga; voltar ao patamar anterior em duas semanas
    • Amitriptilina 50 mg à noite, sem mudança Essa dose pressupõe tolerância e benefício no caso; reduzir ou trocar se houver eventos adversos ou ausência de ganho funcional.
    • Plano de crise por escrito, para ela mostrar se voltar ao pronto atendimento
  6. Seis meses — manter, ou as duas saídas de quem não respondeu

    Seis meses é o marco do protocolo federal: fibromialgia sem resposta satisfatória a pelo menos seis meses de tratamento clínico otimizado vai para serviço especializado de dor crônica. Ester respondeu — dor em 4, meta cumprida, sono razoável —, e a decisão é manter. Se não tivesse respondido, a primeira pergunta seria se o tratamento foi de fato otimizado: o exercício acontece e progride, a amitriptilina está em 50 mg há semanas e é tomada, o humor foi rastreado, o sono foi cuidado. Confirmado isso, há duas saídas, que podem andar juntas. Uma é o serviço de dor crônica, com o documento que o protocolo pede. A outra é o segundo fármaco: pela diretriz de 2026, duloxetina ou pregabalina, que o SUS não fornece; a conversa sobre custo vem antes da receita, a amitriptilina é revista antes da primeira dose do novo remédio e a titulação segue a bula do produto comprado. Gabapentina e ciclobenzaprina não são o segundo passo da fibromialgia; o porquê está em Divergências.

    Prescrição
    • Manter amitriptilina 50 mg à noite, exercício e grupo Essa dose pressupõe tolerância e benefício no caso; reduzir ou trocar se houver eventos adversos ou ausência de ganho funcional.
    • Sem resposta: conferir exercício, dose e tempo da amitriptilina, humor e sono antes de mudar qualquer coisa
    • Sem resposta com tratamento otimizado: encaminhar a serviço especializado de dor crônica, com áreas de dor, sintomas associados, comorbidades e tratamento feito com dose, duração e resposta
    • Se necessário, discutir alternativas como duloxetina ou pregabalina conforme sintomas, função renal, interações e acesso local. Revisar a amitriptilina e planejar troca/titulação; não transformar capacidade de compra na única opção de cuidado.
  7. Sete meses — o pedido de laudo

    Ester leu que a fibromialgia agora dá direito de pessoa com deficiência e pede um laudo. O interno precisa saber o que a lei diz. A Lei 14.705, de 2023, garante à pessoa com fibromialgia atendimento integral pelo SUS. A Lei 15.176, de 2025, em vigor desde janeiro de 2026, acrescentou que a equiparação à pessoa com deficiência fica condicionada a avaliação biopsicossocial por equipe multiprofissional e interdisciplinar, que olha ao mesmo tempo para o corpo, para o ambiente em que a pessoa vive, para os fatores psicológicos e pessoais, para o que ela deixou de conseguir fazer e para o quanto deixou de participar da vida social, como define o art. 2º do Estatuto da Pessoa com Deficiência. O diagnóstico, sozinho, não equipara ninguém. O que cabe ao médico da unidade é um relatório fiel: diagnóstico e desde quando, critério usado, tratamento feito com a resposta e limitações funcionais observadas — as de Ester diminuíram, e isso também se escreve. Quem conclui é a avaliação biopsicossocial. Afastamento do trabalho e relação da dor com a atividade de merendeira são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever.

    Prescrição
    • Relatório médico: fibromialgia (CID-10 M79.7), tempo de sintomas, critério de 2010 preenchido, tratamento com doses e resposta, limitações funcionais observadas
    • Orientar que a equiparação à pessoa com deficiência depende de avaliação biopsicossocial por equipe multiprofissional e interdisciplinar
    • Descrever de forma fiel os achados e limitações no relatório. A equiparação prevista na lei depende da avaliação biopsicossocial, não apenas do diagnóstico; o relatório assistencial contribui para essa avaliação.
  8. Um ano — o seguimento que fica

    Com um ano, Ester está no ritmo que o PCDT sugere: equipe a cada três meses e conforme a necessidade. O protocolo propõe hemograma, função renal e hepática, sódio, potássio e lipídios uma vez por ano para quem trata dor crônica, com frequência que ele mesmo manda ajustar ao julgamento clínico; os exames de diagnóstico diferencial só voltam se aparecer sinal novo. A amitriptilina continua enquanto ajuda. As fontes não fixam duração do tratamento, e esta apostila lê que reduzir a dose depois de um período longo de estabilidade é conversa a ter com a própria pessoa, sem pressa e com retorno marcado. O que mantém o resultado não está na farmácia: o exercício que virou rotina, o sono cuidado e o plano de crise que ela sabe usar. O diagrama do primeiro dia, guardado no prontuário, é a prova mais convincente, para ela, de que a doença mudou de tamanho.

    Prescrição
    • Amitriptilina 50 mg à noite enquanto houver benefício; rever a dose com ela a cada consulta
    • Consultas com a equipe a cada 3 meses
    • Hemograma, creatinina, função hepática, sódio, potássio e perfil lipídico anuais, ajustados ao julgamento clínico
    • Reabrir o diagnóstico diante de febre, perda de peso, fraqueza, sinovite ou dor focal nova
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Como saber se está funcionando

Reavaliar fibromialgia é medir as mesmas coisas, do mesmo jeito, em datas combinadas. A dor sozinha engana: pode cair pouco enquanto a vida volta, e a diretriz de 2026 registra que a função pode melhorar independentemente da dor e antes dela. Por isso o painel tem sete medidas, e a primeira é a função.

O PCDT sugere consulta da equipe a cada três meses; na fase de ajuste, os retornos são mais curtos. O que se espera nos prazos abaixo é leitura desta apostila a partir dos números da diretriz — resposta à amitriptilina em 30% a 50% das pessoas, exercício com efeito que se constrói ao longo de programas de 13 a 24 semanas — e não uma meta que a pessoa precise cumprir para merecer o passo seguinte.

Meta funcional escolhida pela pessoaDefinida na primeira consulta; conferida em cada retorno e depois de toda crise

Esperado: Cumprida na maior parte das semanas em três meses, mesmo com dor ainda presente

Se não melhora: Pergunte o que impede: dor, cansaço, medo de piorar, horário, dinheiro para o transporte. Reduza a meta a um degrau menor e verificável antes de mexer no remédio; meta grande demais produz fracasso, não informação.

Nota da dor de 0 a 10 e diagrama de áreasEm cada consulta médica, na mesma ordem das outras medidas

Esperado: Queda percebida pela pessoa e menos áreas no diagrama em três meses; a nota costuma cair mais devagar que o número de áreas

Se não melhora: Antes de subir degrau, confira se o exercício acontece e progride e se a amitriptilina está em dose e tempo adequados. Área nova que dói de outro jeito — focal, noturna, com inchaço — é investigada como dor nova, não somada à fibromialgia.

Sono e fadigaEm cada retorno; o sono costuma ser o primeiro a responder à amitriptilina

Esperado: Menos despertares e despertar menos cansado nas primeiras semanas; a fadiga melhora menos que a dor e o sono, como a diretriz registra

Se não melhora: Refaça a história do sono: horário, café, tela, turno, ronco e pausas respiratórias; suspeita de apneia é pergunta à parte. Não acrescente benzodiazepínico nem hipnótico: a diretriz não encontrou evidência e lembra tolerância, dependência e prejuízo cognitivo no uso prolongado.

Impacto global por questionário validadoNa primeira consulta, aos três e aos seis meses, depois a cada seis meses

Esperado: Queda do escore entre a partida e o terceiro mês, com o mesmo questionário do começo ao fim

Se não melhora: Escore parado com meta cumprida pede conversa, não troca de remédio. Escore parado, meta descumprida e seis meses de tratamento otimizado formam o critério do protocolo federal para o serviço de dor crônica.

HumorRastreio na primeira ou na segunda consulta e de novo aos três meses, com instrumento validado

Esperado: Rastreio negativo, ou episódio depressivo identificado e em tratamento

Se não melhora: Rastreio positivo segue a conduta do capítulo Depressão maior na unidade básica, inclusive a pergunta sobre risco. Ao escolher o antidepressivo, confira a interação com a amitriptilina em uso.

Tratamento em uso: efeito adverso, adesão e automedicaçãoNo retorno de duas semanas, depois de toda mudança de dose e em cada consulta

Esperado: Boca seca e sonolência toleráveis; nenhuma tontura ao levantar; nenhum anti-inflamatório diário nem opioide comprado ou trazido do pronto atendimento

Se não melhora: Efeito intolerável da amitriptilina: volte à dose anterior, antecipe o horário e reavalie em duas semanas antes de trocar. Opioide recebido fora da unidade: não renove e combine o plano de crise por escrito. Ganho de peso: registre e trate com o mesmo exercício, sem suspender o remédio na primeira queixa.

Sinais que reabrem o diagnósticoPerguntados em toda consulta, inclusive nas de rotina

Esperado: Ausentes: sem febre, perda de peso, fraqueza objetiva, sinovite, dor focal nova, lesão de pele ou alteração visual

Se não melhora: Qualquer um presente: investigue como se o rótulo não existisse, com exame dirigido e os exames da imitadora suspeita. Cefaleia nova, dor ao mastigar ou alteração visual depois dos 50 anos: urgência no mesmo dia.

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Onde o erro machuca

Pedir fator antinuclear e bateria reumatológica para toda dor difusa

O dano: O resultado reagente, comum e quase nunca lúpus nessa situação, vira diagnóstico provisório, fila de especialista e medo, e o tratamento que funcionaria espera meses.

Como pegar a tempo: Peça fator antinuclear só com sinal de doença autoimune sistêmica. Com o resultado já na mão, leia-o pelo capítulo O FAN não fecha o diagnóstico e trate a fibromialgia na mesma consulta.

Tratar a fibromialgia pela escada analgésica

O dano: O anti-inflamatório contínuo expõe estômago, rim e coração sem aliviar dor nociplástica; o opioide se associa a mais interferência da dor, pior função, mais depressão e mais insônia, e prende a pessoa a um remédio que não trata a doença.

Como pegar a tempo: Priorizar educação, sono, movimento progressivo e objetivos funcionais. Amitriptilina é uma opção medicamentosa individualizada; analgésico simples só permanece se acrescentar benefício. Efeitos adversos podem justificar reduzir ou trocar antes de qualquer prazo.

Dizer que não é nada, que é emocional ou que os exames estão normais, e encerrar

O dano: A pessoa sai desacreditada, procura outro serviço, repete exames e recebe de novo o que a trouxe até aqui — injeção, anti-inflamatório, opioide — sem que ninguém trate a doença que ela tem.

Como pegar a tempo: Diga o nome, explique o mecanismo numa frase e ligue os exames normais ao diagnóstico: vieram normais porque a doença não destrói tecido, não porque a dor não existe.

Encaminhar ao reumatologista para confirmar o diagnóstico

O dano: A vaga de quem tem artrite é ocupada, a espera dura meses e o tratamento não começa — embora o médico de família concorde com o reumatologista em 87% dos diagnósticos.

Como pegar a tempo: Diagnostique pelo critério na unidade básica. Reumatologia só com suspeita de doença articular inflamatória; sem resposta a seis meses de tratamento otimizado, o destino é o serviço de dor crônica.

Prescrever repouso, ou exercício sem começo pequeno e sem regra para a dor do dia seguinte

O dano: O repouso mantém o ciclo de dor, fadiga e sono ruim; o exercício intenso demais no começo piora a dor, e a pessoa conclui que exercício faz mal e abandona o tratamento de maior benefício.

Como pegar a tempo: Comece em intensidade baixa e suba aos poucos, como nos programas que a diretriz descreve, combine aeróbico e força e deixe escrito que a dor do dia seguinte pede sessão mais curta, não cancelada.

Rotular como fibromialgia a dor de cinturas iniciada depois dos 50 anos, ou a dor com fraqueza, febre ou sinovite

O dano: Polimialgia reumática, arterite de células gigantes, miopatia e artrite ficam sem tratamento; na arterite, a demora pode custar a visão.

Como pegar a tempo: Procure os sinais de alarme antes de contar o critério, peça os exames da imitadora suspeita e trate cefaleia nova, dor ao mastigar ou alteração visual depois dos 50 anos como urgência no mesmo dia.

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O que dizer ao paciente e à família

Na fibromialgia, a conversa é parte do tratamento. O PCDT da Dor Crônica descreve a educação em dor como forma de ajudar a pessoa a compreender que a dor não é só um fenômeno do corpo e pede escuta ativa, comunicação livre de elementos que piorem a sensação de dor e decisão compartilhada; a diretriz de 2026 da Sociedade Brasileira de Reumatologia considera a educação do paciente e da família componente fundamental do tratamento.

As falas abaixo vêm da primeira consulta de Ester e das que se seguiram. Usam as palavras dela, não as do critério, e cada uma traz ao lado a frase que parece gentil e faz o estrago.

Dizer o nome sem diminuir a dor

“Dona Ester, eu acredito na sua dor, e ela tem nome: fibromialgia. É uma condição em que o sistema nervoso fica sensível demais e transforma em dor coisas que não deveriam doer. Ela não destrói músculo nem articulação, não deixa ninguém em cadeira de rodas e tem tratamento — que começa hoje.”

Não diga: “Seus exames estão todos normais, graças a Deus não é nada grave.” A pessoa ouve que não tem nada e conclui que, para o médico, a dor é invenção.

Explicar por que os exames vieram normais

“A ressonância e os exames de sangue vieram normais porque essa doença não aparece em exame: ela está no jeito como o corpo sente a dor, e não num lugar machucado. Os exames serviram para mostrar que não é outra coisa. A protrusão da ressonância existe, mas não é ela que faz doer o pescoço, os braços e os joelhos.”

Não diga: “Essa ressonância mostra desgaste na coluna, é daí que vem a sua dor.” O achado sem relação vira causa, e a pessoa passa a ter medo de se mexer.

Responder se o fator antinuclear quer dizer lúpus

“Esse exame positivo não quer dizer lúpus. Ele vem positivo em muita gente que nunca vai ter a doença, e no seu exame não há nenhum sinal dela: nada de junta inchada, mancha na pele, ferida na boca ou alteração no sangue. A gente acompanha, e se aparecer algum sinal eu investigo. A sua dor de hoje não é lúpus.”

Não diga: “Positivo é, mas não se preocupe, a reumatologista vai ver.” A dúvida continua viva por mais meses de fila, e o tratamento continua parado.

Responder a “então é psicológico?”

“Não é invenção e não é fraqueza. É o sistema nervoso funcionando de um jeito diferente, e por isso o sono, o cansaço e a tristeza mexem com a dor, e a dor mexe com eles. Cuidar do sono e do humor faz parte do tratamento, do mesmo jeito que cuidar da pressão faz parte do tratamento de quem tem problema no coração.”

Não diga: “É emocional, a senhora precisa relaxar.” A doença vira traço de caráter, e a pessoa passa a se culpar pela dor que sente.

Propor exercício a quem diz que dói para se mexer

“Eu sei que dói. O exercício é o tratamento com mais benefício para essa dor, e ele começa pequeno: dez minutos de caminhada, dando para conversar, três vezes na semana. No dia seguinte pode doer um pouco mais — isso não é estrago, é o alarme sensível. Se passar do tolerável, a senhora faz metade na vez seguinte, mas não para.”

Não diga: “Faça uma hora de academia por dia.” A meta grande demais produz a primeira crise e a conclusão de que exercício faz mal.

Recusar o tramadol pedido na crise

“Esse remédio foi feito para outro tipo de dor. Na fibromialgia ele não ajuda e, com o tempo, pode piorar o sono, o humor e a própria dor. Eu não vou deixar a senhora sem nada: a dipirona fica para os dias piores, a caminhada volta pela metade e o remédio da noite continua. Crise passa, e a gente escreve agora o que fazer na próxima.”

Não diga: “Não posso passar, é remédio controlado.” A recusa sem explicação soa como desconfiança e manda a pessoa buscar o opioide em outro lugar.

Explicar a amitriptilina a quem pergunta se é remédio de louco

“Ela nasceu como antidepressivo, mas na dose que eu estou passando ela age no controle da dor e no sono — é por isso que se usa na fibromialgia, e não porque eu ache que a senhora está deprimida. Nas primeiras semanas a boca pode ficar seca e a manhã mais lenta; o benefício na dor e no sono vem depois. Não pare sem falar com a gente.”

Não diga: “É um calmante para a senhora dormir.” Ela descobre na bula que é antidepressivo, sente-se enganada e abandona o remédio.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Duloxetina e pregabalina na fibromialgia: opção recomendada ou fora do tratamento no SUS

Diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia, 2026 — duloxetina e pregabalina recomendadas (lado adotado)

Com base em revisões sistemáticas e na votação de 22 reumatologistas, com aceite mínimo de 70%, a diretriz recomenda a duloxetina, entre 30 e 120 mg por dia, apontando 60 mg como a dose em que o benefício mais compensa os efeitos adversos, e a pregabalina, estudada entre 300 e 600 mg por dia. Registra o tamanho do efeito — com duloxetina, onze pessoas tratadas para uma ter alívio de pelo menos metade da dor; com pregabalina, 39% a 43% com alívio moderado contra 28% no placebo — e o custo em efeitos adversos.

Heymann RE, et al. Review of fibromyalgia treatment guidelines: part 2, pharmacological treatment. Advances in Rheumatology. 2026;66:9

Ministério da Saúde, 2021 e 2024 — não incorporadas, e o PCDT não recomenda o que não foi incorporado

As Portarias SCTIE/MS nº 51 e nº 52, de 2 de agosto de 2021, decidiram não incorporar pregabalina e duloxetina para dor neuropática e fibromialgia. O PCDT da Dor Crônica de 2024 registra essas decisões no item de tratamento, afirma preconizar apenas medicamentos disponíveis no SUS e declara não recomendar os medicamentos com decisão de não incorporação. A Rename 2024 não tem nenhum dos dois.

Portarias SCTIE/MS nº 51 e nº 52/2021; PCDT da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22/08/2024, item 7.2; Rename 2024

Como decidir

Pela régua desta apostila, o escopo empata — as portarias e a diretriz tratam da mesma pessoa com fibromialgia — e a data decide: a diretriz de 2026 é posterior às portarias de 2021 e ao PCDT de 2024. Esta apostila adota a diretriz para a pergunta clínica: duloxetina e pregabalina são opções legítimas quando a amitriptilina, em dose e tempo adequados e com exercício de fato feito, não trouxe resposta suficiente ou não foi tolerada. As portarias continuam decidindo o que a farmácia do SUS entrega, e nada nesta posição muda isso. Para a pessoa à sua frente: primeiro o que é gratuito e funciona — exercício, educação e amitriptilina; se não bastar, converse sobre custo antes de escrever a receita, porque remédio que a pessoa não consegue comprar não trata; e, se ela não puder comprar, o próximo passo é o serviço de dor crônica e a terapia cognitivo-comportamental, não a gabapentina.

Gabapentina na fibromialgia

PCDT da Dor Crônica, 2024 — gabapentinoide entre as classes de mais evidência na dor nociplástica

No item de dor nociplástica, o protocolo lista entre as classes com mais evidência de eficácia os antidepressivos tricíclicos, os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina e os gabapentinoides, citando a gabapentina. A gabapentina está na Rename 2024, no Componente Especializado, e a pessoa com fibromialgia cabe no critério de inclusão do protocolo, de dor crônica há três meses ou mais, pelos códigos R52.1 ou R52.2.

PCDT da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22/08/2024, itens 3, 5 e 7.2.3; Rename 2024

Diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia, 2026 — evidência insuficiente para recomendar na fibromialgia (lado adotado)

A diretriz recomenda a pregabalina, mas não a gabapentina: a evidência disponível não confirma nem refuta eficácia entre 1.200 e 2.400 mg por dia e cita um único ensaio de doze semanas, com achados limitados. O texto registra que os especialistas veem uso amplo e resultados positivos na prática e lembra que a ausência de recomendação não significa ineficácia nem proibição.

Heymann RE, et al. Review of fibromyalgia treatment guidelines: part 2, pharmacological treatment. Advances in Rheumatology. 2026;66:9

Como decidir

Pela régua desta apostila, decide o escopo: a frase do PCDT fala da dor nociplástica em geral e da classe dos gabapentinoides; a diretriz de 2026 foi escrita para a fibromialgia e examinou a gabapentina especificamente. Esta apostila adota a diretriz: gabapentina não é passo de rotina no tratamento da fibromialgia, nem substituta automática da pregabalina que o SUS não fornece. Para a pessoa à sua frente, a gabapentina volta a ter indicação própria quando existe dor neuropática associada, sustentada pela história, pelo exame e pelo DN4 — e então se trata a neuropatia, com a dose da titulação, e não com a posologia do quadro do PCDT, que tem erro registrado nas notas do critério.

Ciclobenzaprina para o sono da pessoa com fibromialgia

PCDT da Dor Crônica, 2024 — relaxante muscular não recomendado

O protocolo considera incerta e limitada a evidência dos relaxantes musculares para o controle da dor: uma revisão sistemática mostrou, com os não benzodiazepínicos, redução de dor clinicamente insignificante, e, por não haver clareza sobre o uso na dor crônica, o protocolo não os recomenda. A ciclobenzaprina não consta da Rename 2024.

PCDT da Dor Crônica, Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22/08/2024, item 7.2.3; Rename 2024

Diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia, 2026 — ciclobenzaprina recomendada como opção secundária (lado adotado)

A diretriz encontrou evidência para recomendar, entre os relaxantes musculares, só a ciclobenzaprina, como opção farmacológica secundária: 5 a 10 mg ao deitar, com efeito moderado no sono — mais visível em quem dorme mal de forma acentuada — e resultado irregular sobre dor e fadiga.

Heymann RE, et al. Review of fibromyalgia treatment guidelines: part 2, pharmacological treatment. Advances in Rheumatology. 2026;66:9

Como decidir

Pela régua desta apostila, decide o escopo: o PCDT fala dos relaxantes musculares na dor crônica em geral, e a diretriz de 2026 examinou a ciclobenzaprina na fibromialgia, com alvo no sono. Esta apostila adota a diretriz: ciclobenzaprina em dose baixa ao deitar é opção secundária para a pessoa com fibromialgia e distúrbio do sono marcado, comprada fora do SUS. Para a pessoa à sua frente, uma leitura desta apostila completa a decisão: a ciclobenzaprina tem estrutura parecida com a dos tricíclicos, e somá-la à amitriptilina acumula sedação e efeito anticolinérgico — escolha uma das duas para a noite. Na unidade básica, a amitriptilina do Componente Básico já cobre dor e sono; a ciclobenzaprina fica para quem não tolerou a amitriptilina.

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O raciocínio, em voz alta

Brízida Azeredo tem 39 anos, é operadora de telemarketing e está afastada do trabalho há dois meses. Há três anos tem dor no pescoço, nas costas, nos ombros, nos braços e nas pernas, que piorou depois do diagnóstico de hipotireoidismo, feito há dois anos. Toma levotiroxina, e o TSH de dois meses atrás está normal. Há cinco meses usa tramadol 50 mg três vezes ao dia, com receitas renovadas em consultas de pronto atendimento; toma ciclobenzaprina 10 mg à noite, comprada por conta própria, e diclofenaco quando “a dor passa do limite”. Dorme mal, acorda exausta, chora com facilidade e diz que perdeu a vontade de sair de casa. No exame, força e reflexos normais, nenhuma sinovite, dor à palpação em muitos lugares, pele e mucosas sem lesões. Hemograma, velocidade de hemossedimentação e creatinoquinase de um mês atrás estão normais. Ela pede “um remédio mais forte” e um laudo para continuar afastada.

  1. 1. O hipotireoidismo tratado não explica esta dor

    Hipotireoidismo e fibromialgia podem coexistir. TSH normal torna menos provável que descompensação tireoidiana explique o quadro atual, mas não é exigência formal de controlar toda outra doença antes de reconhecer fibromialgia. Confirmar padrão de dor generalizada, sintomas associados, duração e ausência de explicação alternativa melhor. Critérios apoiam o diagnóstico clínico e não dispensam examinar força, articulações e sinais de alarme.

  2. 2. O tramadol está no caminho

    Cinco meses de tramadol não trataram a dor e estão cobrando o preço. A diretriz de 2026 não encontrou eficácia do tramadol isolado na fibromialgia e não recomenda outros opioides, que se associam a mais interferência da dor, pior função, mais depressão e mais insônia — o retrato de Brízida. O PCDT desencoraja opioide na dor nociplástica, e o tramadol não foi incorporado ao SUS para dor crônica. A receita não se renova e o tramadol não se troca por outro opioide. Depois de meses de uso diário, também não se suspende de uma vez: esta apostila lê que a retirada deve ser gradual, com doses e datas escritas, combinadas com ela e acompanhadas pela equipe.

  3. 3. A ordem de entrada da amitriptilina

    Com tramadol em uso diário, não acrescento amitriptilina automaticamente enquanto apenas escrevo um desmame: os dois têm interação serotoninérgica e somam riscos. Organizo retirada gradual e acompanhada do opioide, revisão da ciclobenzaprina e, então, escolha de fármaco em baixa dose conforme sintomas e tolerância. Se sobreposição for necessária, ela exige plano explícito do prescritor e monitorização. Agitação, tremor, hiperreflexia, febre ou confusão requerem avaliação urgente.

  4. 4. O diclofenaco sai

    Anti-inflamatório não trata a fibromialgia: a diretriz de 2026 reúne ensaios sem diferença contra placebo, e o PCDT manda pesar o risco cardiovascular, gástrico e renal do uso prolongado. O diclofenaco oral, além disso, teve a incorporação ao SUS recusada para dor crônica musculoesquelética pela Portaria SCTIE/MS nº 45, de 2021, registrada no PCDT. Nos dias de crise, a dipirona do Componente Básico ocupa o lugar dele, e só se ajudar a função.

  5. 5. O humor não é detalhe

    Choro fácil e perda de vontade pedem rastreio de depressão hoje, com instrumento validado e a pergunta sobre risco, como conduz o capítulo Depressão maior na unidade básica. Se houver episódio depressivo, o tratamento é daquele capítulo, com uma consequência que é deste: o antidepressivo escolhido precisa conversar com a amitriptilina — a fluoxetina, único inibidor seletivo da recaptação de serotonina da Rename, eleva o nível dos tricíclicos, e a duloxetina, que trataria humor e dor ao mesmo tempo, não está no SUS. A diretriz de 2026 recomenda ainda a terapia cognitivo-comportamental e a terapia de aceitação e compromisso, que agem sobre o humor e sobre a dor.

  6. 6. O remédio mais forte e o laudo

    O tratamento de maior benefício para esta dor é o exercício, e é a ele que Brízida é apresentada: caminhada curta, fortalecimento com o profissional de educação física e subida lenta, porque a combinação de aeróbico e força supera cada um isolado. O laudo é outra conversa. Afastamento e relação com o trabalho são do capítulo A lesão que só vira acidente se alguém escrever; o relatório desta consulta registra diagnóstico, tratamento proposto e limitações funcionais, e a meta combinada com ela é voltar ao trabalho com o plano em andamento, e não esperar a dor sumir para voltar.

  7. 7. Seis meses depois

    Com o tramadol retirado, a ciclobenzaprina e o diclofenaco suspensos, a amitriptilina em 50 mg há quatro meses, exercício duas vezes por semana e o grupo de terapia cognitivo-comportamental em andamento, a dor caiu de 9 para 7, o sono melhorou e o humor respondeu; a meta funcional, porém, não foi cumprida. É o critério do protocolo federal: seis meses de tratamento clínico otimizado sem resposta satisfatória. Brízida é encaminhada ao serviço de dor crônica, com o documento completo, e decide com o interno se consegue comprar duloxetina ou pregabalina enquanto espera — decisão que obriga a rever a amitriptilina antes da primeira dose.

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Faça você

Vespasiano Assumpção tem 67 anos, foi pedreiro e mora com a esposa. Há seis semanas acorda com dor e rigidez nos dois ombros e nos quadris, que duram mais de uma hora; precisa de ajuda para sair da cama e não consegue mais pentear o cabelo com os braços levantados. Perdeu três quilos e sente-se febril no fim da tarde. Numa farmácia, disseram que era fibromialgia e sugeriram um relaxante muscular. Há cinco dias apareceu uma dor de cabeça do lado direito, diferente de todas que ele já teve, e ontem, por alguns minutos, a visão do olho direito escureceu e voltou.

  1. 1. O que nesta história não é fibromialgia

    Liste os dados que afastam a fibromialgia e diga qual doença eles desenham.

  2. 2. O que examinar hoje

    Diga o que procurar no exame físico além das articulações e da força, e por quê.

  3. 3. Exames: quais ajudam e se algum deve ser esperado

    Diga quais exames ajudam, quais não ajudam e se a decisão pode aguardar algum resultado.

  4. 4. Para onde ele vai, quando e quem conduz

    Decida o destino, o prazo e o capítulo que conduz o tratamento da doença suspeita.

Ver como fecharíamos

Início recente de dor e rigidez de cinturas após os 50 anos, com sintomas constitucionais, sugere polimialgia reumática. Cefaleia nova e perda visual transitória levantam forte suspeita de arterite de células gigantes com ameaça à visão. Examinar artérias temporais, couro cabeludo, sintomas mandibulares, olhos, pulsos e força; solicitar hemograma e marcadores inflamatórios sem atrasar a ação. Acionar imediatamente o supervisor e serviço de urgência/especialista para iniciar glicocorticoide conforme o cenário e organizar confirmação por imagem/biópsia. Não esperar exame confirmatório nem apenas entregar um encaminhamento para outro dia. A conduta completa está no capítulo de vasculites. O rótulo de fibromialgia não explica esses sinais de alarme.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dificuldade para levantar pode decorrer de dor ou fraqueza: examinar força proximal objetivamente. Em uso de estatina, creatinoquinase ajuda a avaliar miopatia, mas um resultado normal não exclui todos os sintomas musculares associados. Rever medicamento, tempo de uso, interações e sinais sistêmicos; não aceitar fibromialgia antes de esclarecer a mudança funcional.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Diferencie confirmação clínica de fibromialgia de uma investigação indiscriminada de autoanticorpos. Explique o diagnóstico em linguagem compreensível.

Em 30 dias

Reavalie alguém com tontura e sonolência após amitriptilina e alguém com nova rigidez proximal e sintomas visuais. Mostre como ajustar o primeiro caso e reconhecer urgência no segundo.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 44 anos, motorista de aplicativo, com dor no pescoço, nas costas, nos braços e nas pernas há oito meses, sono que não descansa e esquecimentos que o assustam no trânsito. Toma tramadol comprado com receita antiga e anti-inflamatório quase todo dia, e trouxe uma ressonância cervical com abaulamentos discais e um fator reumatoide negativo. Decida se é fibromialgia e como você sabe, o que examina para ter certeza de que não é outra coisa, o que ele para de tomar e como, o que começa hoje, o que diz sobre dirigir nas primeiras semanas de tratamento e quando ele volta.

Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica – Dor em todo lugar, lesão em lugar nenhum — Internato | OsceLabs