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Clínica MédicaReumatologia

Os dedos avisaram primeiro

Esclerose sistêmica, Sjögren e outras colagenoses

Esclerose sistêmica, síndrome de Sjögren, miopatias inflamatórias e sobreposições para o interno: ler o Raynaud, rastrear os órgãos que adoecem calados, reconhecer a crise renal e o linfoma, e não fabricar doença com um FAN

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 16, de 10 de agosto de 2022 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Sistêmica (revoga a Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 9, de 28 de agosto de 2017).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 9, de 2 de julho de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Miopatias Inflamatórias (revoga a Portaria SAS/MS nº 1.692, de 22 de novembro de 2016, do protocolo de dermatomiosite e polimiosite).

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024).

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Reumatologia Adulto — versão digital 2022. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 20 jan. 2022.

Brasil. Ministério da Saúde; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento da atenção básica para a atenção especializada, v. 3: Reumatologia e Ortopedia. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 46 p. Versão preliminar.

01

Responda antes de ler

Homem de 52 anos recebe diagnóstico de esclerose sistêmica e não relata sintomas respiratórios. Qual estratégia ajuda a detectar doença intersticial inicial, que pode estar presente apesar da ausculta e da saturação normais?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, 14h40, pronto-socorro clínico de um hospital geral que recebe a zona norte inteira de uma cidade média. A enfermeira da triagem entrega a ficha com a pressão circulada duas vezes: 194 por 112 mmHg. Marília Argolo tem 44 anos, é costureira e trabalha em casa, pesa 58 quilos e veio encaminhada da unidade básica com um bilhete curto — "crise hipertensiva, cefaleia, favor avaliar". O residente olha a ficha de longe e diz o que se diz muitas vezes numa tarde: é crise hipertensiva, faz o protocolo e me chama. Você vai até a maca e a primeira coisa que vê não é a pressão. São as mãos.

Os dedos estão inchados como salsichas, a pele por cima brilha e não se deixa pinçar, e ela não consegue fechar a mão por inteiro. Quando você segura o antebraço para medir a pressão no outro braço, a pele ali também está dura, colada no que está embaixo. Na ponta do indicador e do médio direitos há duas cicatrizes pequenas, redondas, como se alguém tivesse tirado um pedacinho da polpa com um furador. Ela conta, sem que ninguém tenha perguntado, que há mais de um ano os dedos ficam brancos quando lava roupa em água fria, depois roxos, e voltam vermelhos e doendo. Achava que era da idade, ou da máquina de costura.

A história, colhida com calma, tem uma ordem que ninguém juntou. Os dedos brancos começaram há catorze meses. As mãos incharam há seis. Nos últimos três, a pele foi endurecendo dos dedos para os antebraços, depois para o rosto — a boca abre menos, ela mostra — e para o peito. Tem azia quase todo dia e a sensação de que o pão para no meio do caminho. Há dois meses tosse seco e cansa na ladeira de casa, coisa que não acontecia. Perdeu quatro quilos. Há três semanas foi a uma unidade de pronto atendimento com dor nos punhos e nos joelhos e um rangido ao mexer os tornozelos; saiu com o diagnóstico de artrite inflamatória, suspeita de artrite reumatoide, uma receita de prednisona 40 mg por dia e um encaminhamento para a reumatologia, que ainda está na fila. Há cinco dias tem dor de cabeça. Há dois, urina menos e anda enjoada.

O exame confirma o que as mãos anunciaram e acrescenta o que preocupa. A pressão é 194 por 112 no braço direito e 190 por 110 no esquerdo, a frequência cardíaca é 96, a saturação é 95% em ar ambiente e ela está afebril, lúcida, sem nenhum déficit. No fundo de olho, que você examina com o oftalmoscópio da sala de emergência, as arteríolas estão finas e há duas hemorragias em chama de vela, sem edema de papila. Há estertores finos nas duas bases, como velcro que se abre devagar. A pele está espessada dos dedos até acima dos cotovelos, no dorso das mãos, na face e no tórax anterior. Ao mobilizar os tornozelos, a mão apoiada sobre os tendões sente um atrito áspero. Na caderneta da unidade básica, de um ano atrás, a pressão anotada é 110 por 70.

Uma hora e meia depois chegam os primeiros exames, e o marido, Jerônimo, traz de casa os que a unidade básica pediu há dois meses. A creatinina, que era 0,7 mg/dL, está em 2,6. A hemoglobina, que era 12,8 g/dL, está em 9,4, as plaquetas desceram de 260 mil para 88 mil, e o laboratório escreveu no hemograma, com a letra de quem viu na lâmina, que há três a quatro esquizócitos por campo. A desidrogenase láctica está em 780 U/L, os reticulócitos em 4%, o potássio em 5,1 mEq/L. A urina tem proteína em duas cruzes e doze hemácias por campo, sem cilindro hemático. O teste de gravidez é negativo, a troponina é normal e a radiografia de tórax mostra um reticulado fino nas bases, sem congestão.

O residente volta, lê os números e muda de tom. A pergunta que ele faz a você é a pergunta deste capítulo: isto é uma crise hipertensiva que por acaso aconteceu numa mulher com a pele dura, ou é a pele dura que produziu a crise? A resposta decide qual remédio entra na primeira hora, o que se faz com a prednisona que ela toma há três semanas, quem precisa ser chamado antes do anoitecer e o que Marília vai ouvir sobre o próprio corpo. Decide também uma coisa que ninguém fez nos catorze meses anteriores: ler os dedos brancos como o primeiro aviso de uma doença que endurece a pele, estreita os vasos do rim e do pulmão, e que, ao lado da síndrome de Sjögren, das miosites e das doenças de sobreposição, compõe o grupo que a clínica ainda chama de colagenoses.

03

Quem adoece disso

Cada colagenose, sozinha, é rara, e é justamente isso que as torna perigosas para quem está começando: ninguém tem a hipótese pronta, e os pedaços chegam a especialistas diferentes em anos diferentes. A régua brasileira também é desigual entre elas, e o interno precisa saber qual documento governa cada decisão. A esclerose sistêmica tem protocolo federal próprio desde 2017, atualizado pela Portaria Conjunta nº 16 de 2022, e uma diretriz da Sociedade Brasileira de Reumatologia publicada em 2024, mais nova. As miopatias inflamatórias ganharam em julho de 2025 um protocolo federal que substituiu o antigo de dermatomiosite e polimiosite, de 2016. A síndrome de Sjögren não tem protocolo federal; o que a governa no Brasil são as recomendações da mesma sociedade — a de tratamento, de 2015, e as de manifestações extraglandulares, a mais recente de 2024 — e, para a regulação, o protocolo gaúcho de Reumatologia Adulto de 2022. A doença mista do tecido conjuntivo e as síndromes de sobreposição não têm documento brasileiro nenhum que as trate como entidade, e o fenômeno de Raynaud primário também não: os dois documentos que falam de Raynaud com detalhe são escritos para a esclerose sistêmica.

O protocolo federal resume os números da esclerose sistêmica. No mundo, a incidência é de 1,4 caso novo por 100 mil habitantes por ano e a prevalência, de 17,6 por 100 mil. O único estudo brasileiro citado, feito em Mato Grosso do Sul, encontrou prevalência de 10,56 e incidência de 1,19 por 100 mil. Traduzido para o lugar onde você trabalha: numa cidade de 500 mil habitantes vivem cerca de 53 pessoas com a doença, e surgem por volta de seis casos novos por ano. É pouco para um ambulatório geral e muito para uma fila de reumatologia que não sabe quais deles são urgentes. A doença é três a oito vezes mais comum em mulheres e costuma ser diagnosticada entre os 30 e os 50 anos — Marília tem 44.

O protocolo a descreve como a doença reumatológica de maior morbidade e mortalidade, embora menos prevalente que outras. A sobrevida acumulada desde o diagnóstico é de 74,9% em cinco anos e de 62,5% em dez anos, e o pulmão é a principal causa de morte. A forma difusa, a de Marília, é a que mais mata, mesmo em centro especializado. O protocolo registra ainda que o tubo digestivo e a hipertensão arterial pulmonar são o que mais custa ao sistema, e que a disfunção erétil pode ser manifestação precoce no homem — um dado que ninguém pergunta.

A diretriz brasileira de 2024 dá os números que orientam a vigilância. O fenômeno de Raynaud aparece em cerca de 95% dos doentes, costuma ser a primeira manifestação e pode anteceder o diagnóstico em muitos anos, sobretudo na forma limitada. Quase metade dos doentes terá úlcera digital em algum momento. A crise renal esclerodérmica atinge 5 a 10% dos doentes, e concentra-se em quem tem doença difusa no início, pele que endurece depressa, anticorpo anti-RNA polimerase III e uso de glicocorticoide. Dos quatro fatores de risco, três Marília já tinha antes de entrar na unidade de pronto atendimento; o quarto foi prescrito lá.

As miopatias inflamatórias têm incidência estimada de 1 a 5 casos por 100 mil adultos, que cresce com a idade e tem pico em torno dos 50 anos, segundo o protocolo federal de 2025. No Brasil os dados são escassos. Polimiosite, dermatomiosite e miopatia necrosante predominam em mulheres; a miosite por corpos de inclusão, em homens acima dos 50. Na infância a dermatomiosite juvenil responde por cerca de 80% dos casos, com menos doença pulmonar, mais calcinose, mortalidade menor e sem o aumento de risco de câncer que está bem estabelecido no adulto — e é esse aumento que transforma a dermatomiosite de um homem de 60 anos numa investigação que vai além do músculo.

Na síndrome de Sjögren, a meta-análise da Sociedade Brasileira de Reumatologia publicada em 2024 mostra que o sangue fala mais do que se imagina: leucopenia em 17% dos doentes, linfopenia e neutropenia em 12% cada, plaquetopenia em 8%, hipergamaglobulinemia em 41% e crioglobulinas positivas em 12%. O linfoma, sobretudo o de tecido linfoide associado a mucosa na glândula salivar, aparece em média seis anos e meio depois do início da doença, e o risco acumulado chega a 18% em quem convive com ela há vinte anos. É uma complicação de ambulatório, silenciosa por anos, e depende de alguém palpar a parótida em cada consulta.

A regulação completa o quadro. O protocolo federal de encaminhamento em Reumatologia, de 2016, e o gaúcho, de 2022, põem esclerose sistêmica e miopatias inflamatórias entre as condições com preferência para o reumatologista, e o gaúcho acrescentou um protocolo inteiro para a síndrome de Sjögren. Nenhum dos dois tem item para o fenômeno de Raynaud nem para o fator antinuclear reagente sem diagnóstico. Na prática, a decisão de quem com dedos brancos precisa de reumatologista — e com que pressa — fica com o médico da atenção primária e com o interno que o acompanha, sem uma régua escrita. Este capítulo assume essa decisão e declara os critérios com que a toma.

04

Por que acontece o que acontece

O protocolo federal resume a esclerose sistêmica numa tríade — disfunção imune, vasculopatia e fibrose — e a ordem importa para quem examina. O que adoece primeiro é o endotélio das pequenas artérias e dos capilares. A camada íntima prolifera, a luz estreita, capilares somem e os que sobram dilatam. Sobre esse vaso doente atua uma resposta imune que produz autoanticorpos específicos e ativa fibroblastos, e o fibroblasto ativado deposita colágeno demais na pele, no pulmão, na parede do tubo digestivo e ao redor dos vasos. Por isso a doença tem duas caras que andam juntas: a da isquemia, que aparece nos dedos, no rim e na circulação pulmonar, e a da fibrose, que endurece a pele e o interstício. Quase tudo o que o interno vê à beira do leito é uma das duas.

O fenômeno de Raynaud mostra o mecanismo a olho nu. Frio ou emoção provocam espasmo das artérias digitais: o dedo fica branco pela falta de sangue, azulado enquanto o pouco sangue que resta perde oxigênio, e vermelho e dolorido quando o fluxo volta. No Raynaud primário o espasmo acontece sobre um vaso normal, é exagerado mas reversível, e a polpa digital nunca sofre. No Raynaud secundário à esclerose sistêmica o mesmo espasmo acontece sobre uma artéria já estreitada e uma rede capilar rarefeita, e cada crise leva a polpa abaixo do limite de sobrevivência. A cicatriz puntiforme na ponta do dedo de Marília é isquemia estrutural que já deixou marca. A capilaroscopia periungueal enxerga essa rede diretamente — capilares gigantes, micro-hemorragias, áreas sem vaso —, e é por isso que ela separa um Raynaud do outro melhor que qualquer exame de sangue.

O rim reproduz a mesma lesão num lugar onde ela não dói. As artérias interlobulares e arqueadas ganham proliferação da íntima em camadas concêntricas, a imagem em casca de cebola que o patologista descreve, e o córtex renal passa a receber menos sangue. O aparelho justaglomerular lê a queda de fluxo como hipovolemia e libera renina; a angiotensina II contrai ainda mais os vasos já estreitos, a isquemia piora e a renina sobe de novo. É um circuito que se alimenta sozinho, e explica a crise renal esclerodérmica: hipertensão que aparece em dias, injúria renal que avança e, com frequência, hemólise mecânica, porque as hemácias se fragmentam ao atravessar arteríolas lesadas. Também explica por que a droga específica é o inibidor da enzima conversora da angiotensina — ele corta o circuito no meio — enquanto outro anti-hipertensivo pode baixar o número e deixar o circuito girando.

A relação com o corticoide é uma associação clínica medida, e a diretriz brasileira de 2024 a trata como fator de risco ao lado da forma difusa inicial, da pele que progride depressa e do anticorpo anti-RNA polimerase III, apoiada num estudo de caso-controle que comparou doentes com e sem crise. O mecanismo exato não está estabelecido, e o capítulo não inventa um. O que está estabelecido basta para a conduta: dose alta de glicocorticoide numa esclerose sistêmica difusa inicial é um gatilho conhecido, e a precaução é obrigatória. Há um segundo dado contraintuitivo, registrado pelo protocolo federal: usar o inibidor da enzima conversora antes da crise, para prevenir, não previne e se associou a desfechos piores em estudos observacionais. O remédio que salva na crise não é vacina contra ela.

No pulmão as duas caras aparecem separadas. A fibrose produz a doença intersticial, que se acumula sobretudo nos primeiros anos da forma difusa e rouba volume — cai a capacidade vital forçada — e superfície de troca — cai a difusão do monóxido de carbono. A vasculopatia produz a hipertensão arterial pulmonar, com arteríolas pulmonares estreitadas pelo mesmo processo que estreita as digitais, mais típica da forma limitada e de aparecimento tardio; nela a capacidade vital pode estar preservada enquanto a difusão despenca, e quem paga a conta é o ventrículo direito. O refluxo de um esôfago que não esvazia pode somar aspiração repetida ao pulmão doente, e a diretriz de 2024 inclui o tratamento do refluxo entre as medidas para proteger o pulmão.

No tubo digestivo a fibrose substitui o músculo liso. O esôfago distal perde a peristalse e o esfíncter inferior perde o tônus: o ácido sobe, o alimento desce devagar, e a queixa de Marília — o pão que para no meio — é motilidade, não obstrução, até prova em contrário. No intestino delgado o trânsito lento permite supercrescimento bacteriano e má absorção, que o protocolo trata com antibiótico em rodízio. Na boca, a fibrose perioral fecha a abertura e dificulta a higiene, o tratamento dentário e até a intubação — um detalhe que o anestesista agradece quando alguém avisa.

A síndrome de Sjögren é uma agressão de outro tipo. Linfócitos infiltram as glândulas exócrinas, sobretudo as salivares e lacrimais, e o epitélio glandular participa ativamente da inflamação: a secura vem da destruição e da disfunção da glândula, não da falta de água. Linfócitos B hiperativados produzem anti-Ro e anti-La, fator reumatoide, gamaglobulina em excesso e crioglobulinas, e consomem complemento. A estimulação crônica de linfócitos B dentro da própria glândula é o caminho descrito pela diretriz de 2024 para o linfoma: de uma expansão policlonal para um clone único, o linfoma de zona marginal extranodal da glândula salivar, que pode ainda se transformar num linfoma difuso de grandes células B. A mesma biologia explica por que parótida persistentemente aumentada, C4 baixo, crioglobulinemia e fator reumatoide são os marcadores de risco: são sinais de que o linfócito B está trabalhando demais há tempo demais.

As miopatias inflamatórias têm mecanismos diferentes sob o mesmo sintoma de fraqueza proximal. Na dermatomiosite a lesão começa nos capilares do músculo e da pele, com participação do complemento, e por isso vem com lesões cutâneas típicas; na polimiosite são linfócitos T que invadem a fibra muscular; na miopatia necrosante, o protocolo de 2025 descreve necrose de fibras com macrófagos e sem infiltrado inflamatório, o que a torna uma miopatia de enzimas muito altas e fraqueza intensa; e na síndrome antissintetase o alvo são enzimas que carregam aminoácidos no RNA de transferência — o anti-Jo-1 é o exemplo — com pulmão, articulação, mãos de mecânico, febre e Raynaud no mesmo pacote. A fraqueza da musculatura da faringe produz disfagia de transporte e aspiração, e o músculo respiratório pode falhar. A doença mista do tecido conjuntivo, por fim, é definida por anticorpo anti-U1-RNP em título alto com traços de lúpus, de esclerose e de miosite no mesmo doente, e pode evoluir para uma das doenças definidas — razão pela qual se acompanha o doente, e não o rótulo. O fator antinuclear, que detecta por imunofluorescência anticorpos contra antígenos do núcleo, é a porta de entrada comum a todas elas, e também é positivo em título baixo em muita gente saudável: sozinho, não mede nenhuma dessas doenças.

05

Como se apresenta de verdade

As colagenoses quase nunca chegam com o nome. Chegam como dedos que mudam de cor, mãos que incham de manhã, azia, olho que arde, boca que seca, dificuldade de subir escada, uma pressão que dispara numa mulher que sempre teve pressão baixa. Cada queixa, sozinha, tem explicação banal, e a doença só aparece quando alguém junta três delas no mesmo prontuário. As seções abaixo organizam a apresentação pelo que o interno vê primeiro: os dedos, a pele, os órgãos que adoecem sem avisar, a secura, a fraqueza e o anticorpo sem doença.

A fronteira deste capítulo é declarada nos dois sentidos. O lúpus eritematoso sistêmico, a leitura de título e padrão do fator antinuclear e a conta de probabilidade que ele exige ficam com o capítulo O FAN não fecha o diagnóstico; a artrite reumatoide, inclusive a secura que a acompanha, com Antes da primeira erosão; as vasculites sistêmicas e a polimialgia reumática, com Cada especialista viu um pedaço; a dor difusa sem fraqueza nem inflamação, com Dor em todo lugar, lesão em lugar nenhum, todos nesta apostila. Este capítulo é dono do fenômeno de Raynaud, da esclerose sistêmica, da crise renal esclerodérmica, da síndrome de Sjögren, das miopatias inflamatórias, da doença mista do tecido conjuntivo e das síndromes de sobreposição, e do fator antinuclear positivo em quem não tem lúpus. A crise renal esclerodérmica não é citada em nenhum outro capítulo do nível, e a hipertensão pulmonar não tem capítulo próprio: este capítulo assume a crise renal inteira e o rastreio da hipertensão pulmonar na esclerose sistêmica, e declara que assumiu.

Percurso de aprendizagem

Percurso 1 — esclerose sistêmica: partir de Raynaud e alterações de pele, procurar pulmão, coração, trato digestivo e rim. Elevação importante de pressão com injúria renal exige avaliação urgente de crise renal.

Percurso 2 — Sjögren: confirmar secura, revisar medicamentos e reconhecer manifestações sistêmicas. Parótida assimétrica persistente, púrpura e linfonodos mudam a investigação. Percurso 3 — miopatia inflamatória: medir força, procurar pele, disfagia e respiração; CK não substitui a avaliação funcional.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

Dedos brancos: o Raynaud que é só Raynaud e o que é aviso

O fenômeno de Raynaud é a mudança de cor episódica e bem demarcada dos dedos, provocada por frio ou emoção, com pelo menos duas das três fases — branca, azulada, vermelha — e volta ao normal quando o dedo aquece. A pergunta que confirma é concreta: os dedos ficam brancos ou roxos quando você pega coisa gelada, e a cor para numa linha? Dedos frios e arroxeados de maneira difusa, sem fase branca e sem limite, são outra coisa, e não entram aqui.

O Raynaud primário é uma variação exagerada da resposta normal ao frio. Celuta Mattos, 22 anos, estudante, tem dedos brancos no inverno desde a adolescência, igual à mãe; as crises são simétricas, curtas, pouco dolorosas, e as polpas digitais são perfeitas. Não há inchaço das mãos, azia, olho seco, fraqueza, lesão de pele nem artrite, e o fator antinuclear, se alguém pedir, vem negativo ou em título baixo. Não há documento brasileiro que defina o Raynaud primário: os critérios usados na prática são clínicos, e o que os torna confiáveis é justamente a ausência de qualquer marca de isquemia estrutural e de qualquer outro achado.

O Raynaud secundário tem sinais que o interno aprende a procurar em trinta segundos. Início depois dos 30 ou 40 anos, crises assimétricas ou muito dolorosas, cicatriz puntiforme ou úlcera na polpa digital, dedos edemaciados, pele que endurece nos dedos, telangiectasias no rosto e nas mãos, azia e disfagia, artrite, lesão de pele, olho e boca secos, fraqueza, mãos ásperas e rachadas nas laterais dos dedos. Qualquer um desses achados muda a conversa. Marília tinha início aos 43 anos, cicatrizes de polpa e dedos inchados — três sinais — catorze meses antes de chegar ao pronto-socorro.

Nem todo Raynaud secundário é reumatológico. Ferramenta vibratória usada por anos, compressão no desfiladeiro torácico, alguns fármacos — betabloqueador, derivados de ergotamina, alguns quimioterápicos —, crioglobulinemia e hipotireoidismo entram na lista. E o dedo que fica isquêmico sozinho, de um lado só, num homem com fatores de risco cardiovascular, é embolia, aterosclerose ou vasculite até prova em contrário: essa isquemia digital unilateral de um único dedo não é Raynaud e não se investiga como tal.

A urgência dos dedos tem nome: isquemia digital crítica. Dor contínua que não cede ao aquecer, dedo que continua branco ou azulado por horas, ponta que escurece, necrose seca, úlcera com secreção ou celulite em volta. Isso não é consulta de ambulatório: é internação no mesmo dia, analgesia, ambiente aquecido, retirada de tudo que contraia vaso, investigação de causa e decisão do especialista sobre vasodilatador intravenoso. A diretriz brasileira de 2024 recomenda, de forma condicional, prostanoide intravenoso no Raynaud grave ou refratário da esclerose sistêmica e registra que a iloprosta intravenosa não está disponível no país; o painel sugere alprostadil — e o alprostadil não consta da Rename 2024. Anticoagulação e cirurgia simpática não são tratadas por nenhum dos documentos brasileiros em uso, e ficam com o especialista.

Esclerose sistêmica: a pele que endurece dos dedos para o tronco

O protocolo federal descreve três fases da pele. Na edematosa, os dedos incham como salsichas — os ingleses chamam de puffy fingers — e é comum que o doente conte que a aliança não entra. Na fase indurativa, a pele engrossa, fica brilhante e colada nos planos profundos, perde as pregas sobre as articulações e não se deixa pinçar: nos dedos isso é a esclerodactilia. Na fase atrófica a pele fica fina, seca e descamativa, e a hiperpigmentação entremeada de áreas claras — a leucomelanodermia — e as calcinoses ficam frequentes. O espessamento se mede por palpação, e o escore de Rodnan modificado padroniza essa palpação em dezessete áreas do corpo, o que permite comparar uma consulta com a seguinte.

Dorso de duas mãos com dedos edemaciados, pele brilhante e telangiectasias; um mínimo apresenta palidez delimitada. Um detalhe separado mostra cicatrizes deprimidas nas polpas digitais pela face palmar.
Edema digital, alterações da pele, fenômeno de Raynaud e cicatrizes puntiformes das polpas são pistas para investigar esclerose sistêmica. O detalhe palmar mostra onde ficam as cicatrizes isquêmicas. Lesão de polpa exige investigar Raynaud secundário, mas não determina sozinha a etiologia. Os achados variam conforme a fase da doença.

A extensão da pele define o subtipo, e o subtipo prevê o que vem depois. Na forma cutânea limitada o espessamento fica distal aos cotovelos e aos joelhos, pode pegar a face, o Raynaud é grave e antigo, as telangiectasias são proeminentes e a hipertensão arterial pulmonar chega tarde; o anticorpo típico é o anticentrômero. Na forma cutânea difusa a pele passa dos cotovelos e dos joelhos para braços, coxas e tronco, costuma progredir depressa, e é nela que aparecem cedo a doença intersticial, a crise renal e o acometimento do coração; os anticorpos típicos são o anti-topoisomerase I, conhecido como anti-Scl-70, e o anti-RNA polimerase III. Existe ainda a esclerose sistêmica sine escleroderma, sem pele espessada detectável, com Raynaud grave, úlceras digitais, hipertensão pulmonar, anticorpo específico e capilaroscopia alterada.

Os primeiros anos da forma difusa são a janela de perigo, e é nessa janela que Marília está. A pele avança semana a semana, a doente perde peso, as articulações doem e, ao mobilizar tornozelos, punhos e joelhos, a mão sente um rangido sobre os tendões: o atrito tendíneo, que o protocolo lista entre as manifestações musculoesqueléticas e que marca doença difusa ativa. Quem vê artrite e rangido nessa fase e prescreve prednisona em dose de artrite reumatoide está escrevendo, sem saber, o fator de risco que faltava para a crise renal.

Espessamento de pele tem imitadores, e o protocolo federal os lista. A morfeia, sobretudo a panesclerótica, endurece grandes áreas mas costuma poupar dedos das mãos, dedos dos pés e mamilos, e não tem Raynaud nem órgão interno. A fasciite eosinofílica começa de forma aguda, progride rápido, deixa a pele em casca de laranja e se confirma por biópsia profunda que inclua fáscia e músculo. Doença do enxerto contra o hospedeiro, escleromixedema, exposição a cloreto de vinil e cocaína, e a fibrose sistêmica nefrogênica completam a lista. Raynaud, acometimento das extremidades, órgão interno doente, anticorpo específico e capilaroscopia de padrão esclerodérmico são o que separa a esclerose sistêmica de todos eles.

Os órgãos que adoecem calados na esclerose sistêmica

O pulmão é o que mais mata. A doença intersticial dá tosse seca e cansaço aos esforços, e ao exame, estertores finos nas bases, como velcro — mas pode existir com a doente assintomática e o exame normal, e é por isso que se rastreia. A hipertensão arterial pulmonar é mais traiçoeira: dispneia desproporcional ao que o pulmão mostra, síncope ou pré-síncope ao esforço, segunda bulha pulmonar hiperfonética, edema e fígado aumentado quando o ventrículo direito já falhou. O dado que a denuncia no laboratório de função é a difusão do monóxido de carbono que cai enquanto a capacidade vital se mantém. O protocolo federal manda seguir o protocolo próprio de hipertensão pulmonar para diagnóstico, tratamento e monitoramento; este capítulo fica com a suspeita e com o rastreio na esclerose sistêmica, e a doença intersticial como doença — padrões de tomografia, antifibrótico, oxigênio, critérios de progressão — pertence ao capítulo do tema Nódulo pulmonar e doenças intersticiais, na apostila de Pneumologia.

O rim adoece quase sempre de uma vez. A crise renal esclerodérmica é hipertensão que surge ou piora em dias — quase sempre muito acima da pressão habitual da doente, que costuma ser baixa —, creatinina que sobe, proteinúria discreta com poucas hemácias e, com frequência, anemia hemolítica com esquizócitos e plaquetopenia. Cefaleia, borramento visual, retinopatia hipertensiva, convulsão e edema pulmonar podem acompanhar. Há uma minoria de crises com pressão normal, que o protocolo prevê ao dar dose de captopril para o doente normotenso: a creatinina sobe e a hemólise aparece sem o número que chamaria atenção. A injúria renal aguda como síndrome e as indicações de diálise ficam com o capítulo Injúria renal aguda, na apostila de Nefrologia; a emergência hipertensiva de outras causas e o uso de droga intravenosa, com Crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia; a exclusão de púrpura trombocitopênica trombótica numa microangiopatia, com A contagem e a lâmina, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. A crise renal esclerodérmica em si fica aqui.

O coração pode ser acometido em todos os seus compartimentos — miocárdio, pericárdio e sistema de condução —, e isso se manifesta como arritmia, bloqueio, derrame pericárdico ou insuficiência cardíaca num doente jovem sem cardiopatia prévia. O tubo digestivo quase sempre participa: azia, regurgitação, disfagia baixa, plenitude, distensão, diarreia com emagrecimento quando há supercrescimento bacteriano, e constipação. A investigação da disfagia como distúrbio motor do esôfago, inclusive a manometria, pertence ao capítulo A comida que volta inteira, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo; o que é específico da esclerose sistêmica — inibidor de bomba de prótons, procinético e o risco de aspiração para o pulmão — fica aqui.

No aparelho locomotor aparecem artrite, tendinite, atrito tendíneo, contraturas em flexão que fecham a mão e, cada vez mais reconhecidas, fraqueza e atrofia muscular. Quando a fraqueza vem com enzima muscular alta, a pergunta passa a ser sobreposição com miosite, tratada na última seção. O protocolo federal ainda lembra duas coisas que a consulta rápida não pergunta: a disfunção erétil do homem, que pode ser manifestação precoce, e o maior risco de depressão, que faz do acompanhamento psicológico parte do tratamento.

Síndrome de Sjögren: a secura que tem sangue e tem parótida

A queixa central é secura, e o protocolo gaúcho de regulação transformou a suspeita em cinco perguntas diretas: olho seco diário, persistente e incômodo há mais de três meses; sensação recorrente de areia nos olhos; uso de lágrima artificial mais de três vezes ao dia; boca seca diária há mais de três meses; necessidade de beber líquido para engolir alimento seco. Uma resposta positiva basta para abrir a hipótese. O mesmo documento acrescenta os achados que reforçam sem serem indispensáveis: artralgia, sinovite, Raynaud, sintomas constitucionais, aumento de parótida, gengivite de repetição e perda dentária.

Na boca, a saliva escassa deixa cáries em lugares incomuns — junto à gengiva e nas bordas dos dentes —, candidíase, rachadura no canto da boca e dificuldade de falar muito tempo. Nos olhos, ardor, sensação de corpo estranho, vermelhidão que piora no fim do dia e visão que embaça e melhora ao piscar. A parótida pode aumentar de forma bilateral e recorrente. A pele é seca em cerca de um quarto dos doentes, segundo a meta-análise brasileira de 2024, e a secura vaginal torna a relação sexual dolorosa — outra queixa que só aparece quando alguém pergunta.

A doença pode ser isolada ou acompanhar artrite reumatoide, lúpus ou esclerose sistêmica, e é sistêmica em boa parte dos doentes. As manifestações extraglandulares incluem artrite, doença intersticial, nefrite tubulointersticial, hepatite autoimune associada, neuropatia periférica, vasculite cutânea com púrpura nas pernas, citopenias e crioglobulinemia. A diretriz brasileira de 2024 põe a púrpura num lugar especial: vasculite cutânea é marcador de mais atividade sistêmica e de maior risco de linfoma, sobretudo quando há crioglobulinas e complemento baixo.

O linfoma é a complicação que se vigia em toda consulta. A mesma diretriz manda perguntar por febre, sudorese noturna e perda de peso, palpar baço, linfonodos e glândulas salivares, e trata como achado de investigação imediata o aumento de parótida que seja crônico, assimétrico, endurecido, aderido a planos profundos ou que não responde às medidas clínicas. Os fatores de risco que ela lista são o aumento persistente de parótida, o consumo de C4, a crioglobulinemia, o fator reumatoide e a atividade da doença. A investigação de massa em parótida — imagem, punção e cirurgia — pertence ao capítulo O inchaço que todo mundo chama de caxumba, na apostila de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, e o diagnóstico e o tratamento do linfoma, a O gânglio inteiro, na apostila de Hematologia e Hemoterapia; reconhecer que a parótida de uma doente com Sjögren mudou de comportamento é deste capítulo.

Secura tem muitos imitadores, e o protocolo gaúcho os exclui antes de rotular: radioterapia de cabeça e pescoço, hepatite C ativa, infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, sarcoidose, amiloidose, doença do enxerto contra o hospedeiro e doença relacionada a IgG4. O imitador mais comum, porém, está na receita: o mesmo documento lista antidepressivos tricíclicos e inibidores seletivos de recaptação de serotonina, anti-histamínicos de primeira e de segunda geração, anti-hipertensivos de quase todas as classes, diuréticos, opioides, antipsicóticos, benzodiazepínicos, relaxantes musculares e anticolinérgicos urinários, e lembra que mais de 500 medicamentos causam secura. Quem usa anticolinérgico só pode ter a secura medida depois de um intervalo sem ele. O olho seco como queixa ocular — lubrificante, higiene palpebral e quando mandar ao oftalmologista — já tem conduta no capítulo Olho vermelho, na apostila de Oftalmologia.

Miopatias inflamatórias: a fraqueza que sobe escada devagar

A queixa é fraqueza, não dor. Fraqueza proximal e simétrica, que progride em semanas a meses: dificuldade para subir escada, levantar da cadeira sem apoiar as mãos, pendurar roupa no varal, pentear o cabelo, erguer a cabeça do travesseiro. O protocolo federal de 2025 inclui, nos critérios clássicos, a disfagia e a fraqueza do diafragma como parte do quadro. Dor muscular pode existir, mas quem tem dor difusa com força normal e enzima normal está no capítulo de fibromialgia, não neste; e quem tem dor e rigidez de cinturas acima dos 50 anos, com força preservada e enzima normal, está na polimialgia reumática.

A dermatomiosite soma a pele. O heliótropo é o eritema violáceo das pálpebras, muitas vezes com edema; as pápulas de Gottron são lesões eritematosas ou violáceas sobre as articulações dos dedos e as superfícies extensoras — os dois achados que o protocolo descreve. Eritema em decote e nos ombros, eritema periungueal com cutícula irregular e mãos de mecânico, ásperas e fissuradas nas laterais dos dedos, completam a lista que se procura com a doente sem roupa e com boa luz. Existe a dermatomiosite clinicamente amiopática, com a pele típica e sem fraqueza nem enzima alterada por pelo menos seis meses, e ela pode vir com doença intersticial grave.

Os outros subtipos se reconhecem pelo ritmo e pelo contexto. A miopatia necrosante imunomediada dá fraqueza intensa, de instalação subaguda, com enzimas muito altas; num paciente que usa estatina, fraqueza que continua progredindo semanas depois de suspensa a droga não é mialgia de estatina e precisa de investigação. Celso Fontenele, 67 anos, parou a atorvastatina há dois meses e não consegue mais levantar do vaso sanitário, com creatinofosfoquinase acima de 8 mil: é esse doente. A síndrome antissintetase junta miosite, doença intersticial, artrite, febre sem causa, Raynaud e mãos de mecânico. A miosite por corpos de inclusão acomete homens acima dos 50, pega músculos proximais e distais — os flexores dos dedos e o quadríceps —, progride devagar e, lembra o protocolo, não costuma responder à imunossupressão.

A disfagia de transporte é a manifestação que transforma uma miosite em urgência: o doente engasga com líquido, tosse ao comer, a voz fica anasalada, e cada refeição é uma aspiração possível. Fraqueza intensa com dispneia pode ser músculo respiratório falhando ou doença intersticial avançando, e as duas pedem hospital. No adulto, o protocolo federal registra risco elevado de câncer, maior na dermatomiosite, com pulmão, mama, ovário e linfoma entre os mais comuns — e emagrecimento, tabagismo e idade acima dos 50 anos numa dermatomiosite nova são o retrato de quem precisa de investigação dirigida.

Antes de chamar de miosite, afaste o que imita. Hipotireoidismo, hipocalemia, rabdomiólise por esforço, álcool ou droga e a miopatia pelo próprio corticoide imitam o quadro, e os critérios de classificação exigem excluir as miopatias metabólicas e hereditárias, como as distrofias musculares. A miastenia gravis dá fraqueza que piora com o uso e melhora com o repouso, ptose e diplopia, com enzima normal, e pertence ao capítulo Já aconteceu antes, na apostila de Neurologia. E transaminase alta num doente fraco pode ser músculo, e não fígado: aspartato e alanina aminotransferases estão nas fibras musculares, e a primeira pergunta diante delas numa pessoa que não sobe escada é quanto está a creatinofosfoquinase.

Doença mista, sobreposições e o FAN positivo em quem não tem lúpus

A doença mista do tecido conjuntivo é o retrato de quem começou pela metade de várias doenças: Raynaud, mãos inchadas, sinovite, às vezes miosite, às vezes pele que endurece, com anticorpo anti-U1-RNP em título alto. Bernardete Alcântara, 31 anos, tem as mãos inchadas há um ano, dedos brancos no frio, dor em punhos com sinovite ao exame e fraqueza leve para subir escada; o fator antinuclear é positivo em título alto, e o que falta pedir é justamente o anticorpo que define a síndrome. Nenhum documento brasileiro em uso trata a doença mista como entidade, e o motivo de acompanhá-la de perto é prático: parte desses doentes evolui para lúpus, esclerose sistêmica ou miosite definidos, e a hipertensão pulmonar é uma das complicações que mais pesam no prognóstico.

As síndromes de sobreposição juntam critérios de duas doenças no mesmo doente. A mais relevante para a enfermaria é a esclerose sistêmica com miosite, que a diretriz brasileira de 2024 cita pelo nome de escleromiosite e para a qual prevê corticoide em dose baixa e metotrexato — sempre com a precaução pela crise renal. O protocolo de miopatias inflamatórias lista entre os anticorpos associados às miosites o anti-PM/Scl, o anti-Ku e o anti-U1-RNP, que são justamente os marcadores dessas sobreposições. A síndrome de Sjögren acompanhando artrite reumatoide, lúpus ou esclerose sistêmica é a sobreposição mais comum de todas, e muda o seguimento: a vigilância da parótida e do sangue passa a valer para aquele doente também.

Há três maneiras de um fator antinuclear positivo, sem lúpus, cair nas mãos do interno, e a conduta muda em cada uma. No primeiro, o exame foi pedido sem indicação, para cansaço ou dor difusa, e voltou em título baixo e padrão pouco específico numa pessoa sem nenhum achado objetivo: a conta de probabilidade que mostra por que isso quase nunca é doença está no capítulo O FAN não fecha o diagnóstico, e a conduta aqui é não desencadear uma cascata de anticorpos, registrar e acompanhar. Custódia Jardim, 48 anos, com dor em todo o corpo, sono ruim, força normal e exame articular normal, trouxe um fator antinuclear de 1/160 com padrão nuclear pontilhado fino denso, um padrão que aparece sobretudo em pessoas sem doença autoimune: é esse exame, e o que ela precisa é do capítulo de fibromialgia.

No segundo jeito, o fator antinuclear é positivo numa pessoa com um achado objetivo das colagenoses — Raynaud com sinal de alarme, dedos edemaciados, secura documentada, fraqueza com enzima alta. Aqui o anticorpo seguinte é escolhido pelo quadro clínico, e o padrão de imunofluorescência ajuda: o padrão centromérico aponta para o anticentrômero e para a forma limitada da esclerose sistêmica; o nucleolar, para anticorpos da esclerose sistêmica; o nuclear pontilhado fino, para anti-Ro e anti-La; o pontilhado grosso, para anti-U1-RNP e anti-Sm; o citoplasmático, entre outros, para os anticorpos antissintetase. Pede-se o anticorpo que responde à pergunta do doente, não o painel inteiro.

No terceiro jeito, o fator antinuclear é positivo num doente com órgão em sofrimento — creatinina que sobe, hemólise, pulmão que perde função, fraqueza com disfagia. Nesse caso o exame não é o assunto: o doente é internado pelo órgão, e os anticorpos entram na investigação que corre junto do tratamento. E há o caminho inverso, que evita os três problemas: o fator antinuclear não se pede como rastreio em pessoa sem sintoma nem em quem só tem dor difusa, fadiga ou sono ruim sem achado objetivo. O capítulo O FAN não fecha o diagnóstico e o capítulo Dor em todo lugar, lesão em lugar nenhum fazem a mesma recomendação, e ela vale aqui com as mesmas palavras.

06

Como fechar o diagnóstico

Quatro perguntas organizam a investigação das colagenoses, e a primeira a responder é sempre a mais urgente. Há um órgão em sofrimento agora — rim, pulmão, dedo, deglutição? Qual doença explica o conjunto? O que está doente sem sintoma e precisa de medida basal antes do primeiro remédio? E o que não se deve pedir, porque só produz número sem pergunta? O fator antinuclear aparece nas quatro, e em nenhuma delas responde sozinho.

Capilaroscopia se interpreta e biópsia de glândula salivar ou de músculo se indica no serviço especializado; ao interno cabe pedir o exame certo na hora certa, colher antes do corticoide o que o corticoide apaga e escrever no prontuário a medida basal que o reumatologista vai precisar comparar daqui a seis meses. As seções seguem esse roteiro.

Raynaud na atenção primária: o que pedir e com que pressa encaminhar

A investigação começa pelas mãos, com boa luz. Olhe cada polpa digital procurando cicatriz puntiforme, úlcera ou necrose; aperte a pele dos dedos e do dorso das mãos para ver se ela se deixa pinçar; procure telangiectasias no rosto e nas palmas; pergunte por azia, disfagia, tosse, cansaço, olho e boca secos, fraqueza e lesão de pele. Peça que a doente fotografe os dedos durante a próxima crise, com o celular: a foto confirma a mudança de cor bem demarcada melhor que qualquer descrição. A cutícula merece atenção especial, porque é nela que estão os capilares que a capilaroscopia mede, e cutícula arrancada ou manicure recente atrapalham o exame.

No laboratório da atenção primária, o Raynaud com qualquer sinal de alarme justifica hemograma, velocidade de hemossedimentação ou proteína C-reativa, creatinina, urina tipo I e fator antinuclear. A pressão arterial entra na mesma consulta, e fica anotada. Hormônio tireoestimulante e crioglobulinas só com pergunta clínica — fadiga e ganho de peso num caso, púrpura ou hepatite C no outro. O Raynaud primário típico, numa pessoa jovem com polpas perfeitas e exame completo normal, não precisa de painel de anticorpos, e a maior parte das vezes nem de fator antinuclear.

Nenhum protocolo brasileiro de encaminhamento tem item para o fenômeno de Raynaud, e este capítulo toma a decisão por escrito. Raynaud primário típico fica na atenção primária, com orientação e retorno. Raynaud com qualquer sinal de alarme — cicatriz ou úlcera de polpa, dedos edemaciados, pele espessada, telangiectasias, fator antinuclear positivo com achado clínico, capilaroscopia alterada — vai para a reumatologia com o pedido de preferência que os protocolos federal e gaúcho dão à esclerose sistêmica, porque a suspeita de esclerose sistêmica é justamente o motivo. Isquemia digital crítica vai para o hospital no mesmo dia. O encaminhamento diz desde quando há Raynaud, se há úlcera, onde a pele endureceu, que sintomas digestivos e respiratórios existem, qual é a pressão habitual, e traz creatinina, urina e fator antinuclear com data, título e padrão.

O tratamento da atenção primária começa sem remédio: evitar frio e mudança brusca de temperatura, usar luvas também para pegar coisa gelada, parar de fumar, reduzir cafeína e lidar com o estresse, que o protocolo federal nomeia como desencadeante. Quando as crises são frequentes, dolorosas ou atrapalham o trabalho, o bloqueador de canal de cálcio di-hidropiridínico é o primeiro remédio: nifedipino de 10 a 20 mg três vezes ao dia ou anlodipino de 5 a 10 mg uma vez ao dia, os dois no Componente Básico da Rename. Os dois documentos que dão essa régua foram escritos para a esclerose sistêmica; no Raynaud primário o uso é extrapolação, e esta apostila a aceita quando as crises limitam a vida da pessoa, lembrando que o anlodipino em dose única tolera melhor que o nifedipino de liberação imediata, que é a apresentação disponível.

Suspeita de esclerose sistêmica: confirmar a doença e medir cada órgão

O diagnóstico é clínico, apoiado em anticorpo e capilaroscopia, e o protocolo federal adota os critérios de classificação de 2013 do American College of Rheumatology e da European League Against Rheumatism, que classificam a doença com nove pontos ou mais. O item mais pesado basta sozinho: espessamento da pele dos dedos das duas mãos que se estende acima das metacarpofalângicas vale os nove. Marília soma os nove no primeiro minuto de exame, e os demais itens — Raynaud, cicatrizes de polpa, telangiectasias, anticorpo, capilaroscopia, pulmão — não mudam a classificação, mas mudam o que se espera dela.

Os anticorpos que o protocolo lista como específicos são o anticentrômero, o anti-topoisomerase I, chamado anti-Scl-70, e o anti-RNA polimerase I ou III. Cada um conta uma história diferente: o anticentrômero acompanha a forma limitada e a hipertensão pulmonar tardia; o anti-Scl-70, a forma difusa e a doença intersticial; o anti-RNA polimerase III, a pele que avança depressa e a crise renal. A capilaroscopia periungueal com padrão esclerodérmico — alteração da arquitetura, capilares dilatados, áreas de desvascularização, micro-hemorragias e neoangiogênese, na descrição do protocolo — ajuda no diagnóstico precoce quando a suspeita existe.

Caracterizar os órgãos desde a avaliação inicial. Para intersticiopatia, provas de função com difusão do monóxido de carbono (DLCO) e TC de alta resolução são complementares; a orientação ACR/CHEST 2023 favorece sua combinação nas doenças reumáticas com risco. Ausculta, saturação ou função normais não excluem doença inicial e não devem ser a única condição para autorizar TC. Frequência de repetição depende de achados, risco e trajetória clínica.

Para o rim, a medida basal é pressão arterial anotada em toda consulta, creatinina e urina tipo I — e, na forma difusa inicial, a orientação para medir a pressão em casa ou na unidade básica com frequência, porque a crise se instala em dias. Para o coração e para a circulação pulmonar, eletrocardiograma e ecocardiograma com estimativa da pressão sistólica da artéria pulmonar na avaliação inicial, e de novo quando aparecer dispneia desproporcional ou a difusão cair sem que a capacidade vital acompanhe. O protocolo federal remete o diagnóstico da hipertensão arterial pulmonar ao protocolo próprio, e a confirmação é do especialista; o que este capítulo pede ao interno é que a pergunta seja feita e que o ecocardiograma basal exista. Para o tubo digestivo, os sintomas guiam: refluxo típico se trata, e disfagia com perda de peso vai para endoscopia pelas regras do capítulo A comida que volta inteira.

Com o diagnóstico feito, o protocolo manda acompanhar o doente a cada três a seis meses em serviço de reumatologia, para detectar cedo a manifestação em órgão-alvo. Na prática da enfermaria, isso significa que a alta de uma doente com esclerose sistêmica sai com a medida basal escrita — capacidade vital, difusão, pressão pulmonar estimada, creatinina, pressão arterial habitual — e com a data do retorno, para que alguém tenha com o que comparar.

Crise renal esclerodérmica: os exames da primeira hora e o que eles separam

Uma doente com esclerose sistêmica e pressão acima da habitual é crise renal até prova em contrário, e a primeira hora pede exame físico e laboratório ao mesmo tempo. Pressão nos dois braços e fundo de olho. Creatinina, ureia, sódio, potássio e gasometria venosa. Hemograma com leitura da lâmina à procura de esquizócitos, contagem de plaquetas e reticulócitos, desidrogenase láctica, haptoglobina, bilirrubina indireta e teste de Coombs direto, que separa a hemólise mecânica da imune. Urina tipo I com sedimento e relação proteína/creatinina. Tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio. Teste de gravidez em toda mulher em idade fértil, porque muda o diagnóstico diferencial e porque o inibidor da enzima conversora é contraindicado na gestação. Troponina, eletrocardiograma e radiografia de tórax, para o coração e para o edema pulmonar.

Quando há microangiopatia — esquizócitos, plaquetas caindo, desidrogenase láctica alta —, a regra do capítulo A contagem e a lâmina vale inteira: a amostra para dosagem da ADAMTS13 é colhida antes de qualquer plasma, e o hematologista é chamado. A crise renal esclerodérmica é uma das causas que esse capítulo manda procurar quando o escore de probabilidade de púrpura trombocitopênica trombótica é baixo, e ele costuma ser baixo nela: as plaquetas raramente descem abaixo de 30 mil e a creatinina sobe cedo. O que decide é o contexto — pele espessada, Raynaud, pressão que dobrou — e a resposta ao controle da pressão.

Os outros diagnósticos diferenciais se separam pela história e pelo sedimento. A nefrite lúpica tem sedimento ativo, com cilindros hemáticos, anti-DNA de dupla hélice e complemento consumido, e pertence ao capítulo O FAN não fecha o diagnóstico. A glomerulonefrite das vasculites associadas ao ANCA também tem sedimento ativo e sangue fora do rim, e pertence a Cada especialista viu um pedaço. A síndrome hemolítico-urêmica costuma vir depois de diarreia; a síndrome HELLP exige gestação; a hipertensão maligna de outra causa tem uma história de hipertensão mal controlada e não tem pele espessada. Na crise renal esclerodérmica, o sedimento costuma ser pobre — proteinúria discreta e poucas hemácias, como o de Marília — e a biópsia renal não é condição para começar o tratamento.

Dois exames não devem atrasar nada. O anticorpo anti-RNA polimerase III, quando disponível, confirma o perfil de risco, mas o resultado leva dias e a conduta da primeira hora não depende dele. E a dosagem de renina não tem papel no diagnóstico à beira do leito. A pergunta da primeira hora é outra: esta doente tem esclerose sistêmica, a pressão subiu muito acima da habitual e o rim está piorando? Se sim, o tratamento começa antes de qualquer resultado pendente.

Síndrome de Sjögren: objetivar a secura, achar o anticorpo e medir o que não aparece

A secura precisa de medida objetiva, porque a queixa sozinha não distingue a doença do remédio, da idade e da ansiedade. O teste de Schirmer mede, com uma tira de papel na pálpebra inferior, quantos milímetros de lágrima o olho produz em cinco minutos, e cinco milímetros ou menos é anormal. A coloração da superfície ocular com corante vital é feita pelo oftalmologista. O fluxo salivar não estimulado mede quanto de saliva a pessoa junta num tubo, sentada, sem mastigar, e 0,1 mL por minuto ou menos é hipofunção. O protocolo gaúcho aceita ainda alteração do parênquima da glândula salivar em exame de imagem como achado objetivo.

A evidência de autoimunidade vem do anticorpo anti-Ro, também chamado anti-SSA, ou da biópsia de glândula salivar menor com sialoadenite linfocítica focal. Nos critérios de classificação de 2016 do American College of Rheumatology e da European League Against Rheumatism — que o protocolo gaúcho adapta —, esses dois achados valem três pontos cada, e o Schirmer alterado, a coloração ocular alterada e o fluxo salivar baixo valem um ponto cada; quatro pontos classificam. O anti-La, chamado anti-SSB, acompanha o anti-Ro com frequência, mas sozinho não pontua. É exatamente essa diferença que o quadro de diagnóstico do protocolo gaúcho borra ao escrever o anti-La entre parênteses como anti-SSA — defeito registrado no bloco de critérios.

O conteúdo mínimo do encaminhamento, pelo protocolo gaúcho, traz as manifestações, a história de radioterapia de cabeça e pescoço, outras doenças autoimunes, anti-HIV e anti-HCV, fator antinuclear, fator reumatoide, anti-Ro e anti-La, com data. As duas sorologias não são burocracia: hepatite C ativa e infecção pelo vírus da imunodeficiência humana imitam a doença e a excluem dos critérios. O rastreio da hepatite C, quando indicado, segue o capítulo do tema Hepatite C: rastreamento, diagnóstico e tratamento, na apostila de Gastroenterologia.

Com o diagnóstico, mede-se o que não aparece. A diretriz brasileira de 2024 pede hemograma pelo menos a cada três a seis meses, lembrando que antes de atribuir uma citopenia à doença é preciso afastar outras causas; complemento C3 e C4 e eletroforese de proteínas com regularidade; e crioglobulinas pelo menos uma vez no seguimento, de novo sempre que houver púrpura, neuropatia periférica ou glomerulonefrite. Creatinina e urina tipo I respondem pelo rim, e a tosse ou a dispneia levam à investigação de doença intersticial. A parótida palpada em toda consulta entra no prontuário como exame, com lado, tamanho e consistência — é a medida basal do linfoma.

Miosite: provar que é músculo, que é inflamação e o que mais está doente

A força se mede antes de qualquer enzima. Teste manual dos flexores do pescoço, dos deltoides, dos iliopsoas e dos quadríceps, dos dois lados, e três perguntas de função — subir um degrau, levantar da cadeira sem as mãos, erguer os braços acima da cabeça. O protocolo federal pede exatamente esse monitoramento, de quadríceps, deltoides e flexores do pescoço, e acrescenta que a melhora clínica vale mais que a enzima para julgar resposta. A medida basal da força, escrita no primeiro dia, é a régua de todas as consultas seguintes.

Eletroneuromiografia e biópsia ajudam conforme a dúvida diagnóstica; a escolha do músculo pode se beneficiar de ressonância. Autoanticorpos específicos caracterizam fenótipos e riscos, sem substituir a avaliação clínica nem serem pré-requisito para tratar ameaça respiratória ou disfagia grave. Restrições de acesso em um protocolo não significam ausência de utilidade clínica de ressonância ou anticorpos em todo paciente.

O que mais está doente precisa ser procurado no mesmo internamento. O pulmão, porque a doença intersticial acompanha a síndrome antissintetase e parte das dermatomiosites: o protocolo diz que o diagnóstico junta quadro clínico, laboratório, tomografia e função pulmonar, e a diretriz de 2012 da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia pede tomografia e função com difusão na avaliação inicial da polimiosite. A deglutição, porque disfagia de transporte aspira: avaliação com fonoaudiólogo antes da primeira refeição livre, cabeceira elevada e nutricionista, na lista do próprio protocolo. E o coração, quando há dispneia, arritmia ou troponina alta.

O câncer é a última pergunta e não pode ser esquecida. O protocolo federal registra risco elevado de neoplasia no adulto, maior na dermatomiosite, e, em caso de suspeita, lista a investigação: exame físico completo com avaliação da pelve, tomografia de tórax, abdome e pelve, ultrassonografia de abdome, endoscopia digestiva alta, colonoscopia e, na mulher, ultrassonografia ginecológica e mamografia. O protocolo condiciona a lista à suspeita e não define suspeita. Esta apostila lê como suspeita, num adulto com dermatomiosite nova, qualquer sinal de alarme de câncer da atenção primária — que o capítulo Antes do órgão, na apostila de Oncologia, ensina a reconhecer —, emagrecimento sem outra explicação, tabagismo pesado e disfagia; é leitura deste capítulo, e não do protocolo.

Doença mista e FAN positivo: o anticorpo que responde à pergunta

Diante de um fator antinuclear positivo, a primeira pergunta não é qual anticorpo pedir, mas por que o exame foi pedido. Se foi rastreio sem sintoma, ou investigação de dor difusa e cansaço sem achado objetivo, a conduta é ler o título e o padrão pelo capítulo O FAN não fecha o diagnóstico, registrar e acompanhar — e não pedir anticorpo nenhum. Se houve achado objetivo, o anticorpo seguinte é o que responde àquele achado.

Raynaud com mãos edemaciadas e sinovite pede anti-U1-RNP, anticentrômero e anti-Scl-70, com creatinofosfoquinase se houver fraqueza. Secura documentada pede anti-Ro e anti-La. Fraqueza com enzima alta e tosse levanta a síndrome antissintetase, e o anti-Jo-1, onde o serviço tiver acesso, responde. Na doença mista, que se define pelo anti-U1-RNP em título alto com traços de mais de uma doença, a medida basal inclui função pulmonar com difusão e ecocardiograma, pelo peso que o pulmão e a circulação pulmonar têm no prognóstico, e o anti-DNA de dupla hélice, que sinaliza evolução para lúpus e devolve o doente ao capítulo de lúpus.

O resultado se escreve no prontuário com a interpretação ao lado. "FAN 1/320 nuclear pontilhado grosso, anti-U1-RNP positivo em título alto, Raynaud e sinovite: doença mista em investigação, encaminhada à reumatologia com preferência" diz o que precisa ser dito. "FAN positivo, pedir painel" produz uma cascata de exames sem pergunta, uma pessoa assustada e, às vezes, um corticoide que ninguém devia ter prescrito.

07

Três percursos para doenças do tecido conjuntivo

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Percurso 1 — esclerose sistêmica: partir de Raynaud e alterações de pele, procurar pulmão, coração, trato digestivo e rim. Elevação importante de pressão com injúria renal exige avaliação urgente de crise renal. O fluxo vai do dedo branco ao órgão doente e ao anticorpo que responde à pergunta. As tabelas separam o Raynaud que fica na atenção primária do que é aviso, traduzem cada anticorpo no órgão a vigiar, contam as doses do capítulo para uma adulta de 58 kg e 1,60 m com as apresentações da Rename 2024, e dizem o que medir e quando em cada doença. Nas notas estão os defeitos de fonte oficial capazes de mudar o pedido, a receita ou a leitura do interno, cada um com a conta feita.

  1. 1Dedos que mudam de cor com o frio, em fases e com limite nítido: é Raynaud. Olhe polpas, pele dos dedos, telangiectasias, e pergunte por azia, disfagia, tosse, secura e fraqueza.
  2. 2Nenhum sinal de alarme numa pessoa jovem com exame normal: Raynaud primário. Orientação contra frio, cigarro e cafeína; bloqueador de canal de cálcio se as crises limitam a vida; sem painel de anticorpos.
  3. 3Qualquer sinal de alarme — cicatriz ou úlcera de polpa, dedos edemaciados, pele espessada, telangiectasias, sintoma de órgão: hemograma, inflamatórios, creatinina, urina, pressão anotada e fator antinuclear; encaminhamento à reumatologia com preferência.
  4. 4Dor contínua, dedo que não recupera a cor, necrose ou úlcera infectada: isquemia digital crítica — hospital no mesmo dia.
  5. 5Espessamento proximal às metacarpofalângicas é forte achado classificatório, interpretado após excluir mimetizadores. Caracterizar extensão cutânea e comprometimento orgânico. Avaliação pulmonar pode incluir prova de função e TC de alta resolução conforme risco e equipe; função normal não exclui doença intersticial inicial.
  6. 6Esclerose sistêmica com pressão acima da habitual ou creatinina subindo: crise renal até prova em contrário. Exames da primeira hora, amostra de ADAMTS13 antes de qualquer plasma se houver microangiopatia, e captopril oral já, com titulação a cada 4 a 8 horas.
  7. 7Na esclerose sistêmica, evitar glicocorticoide sistêmico como tratamento rotineiro de doença intersticial e reconhecer seu risco renal. Quando outra manifestação justificar uso, discutir menor exposição e monitorar pressão/rim; 15 mg não é fronteira de risco zero. IECA não é profilaxia rotineira de crise renal.
  8. 8Secura há mais de três meses: afaste fármaco anticolinérgico, radioterapia, hepatite C e HIV; objetive com Schirmer e fluxo salivar; peça anti-Ro e anti-La; biópsia de glândula salivar menor se o anti-Ro for negativo e a suspeita continuar.
  9. 9Sjögren confirmado: hemograma a cada 3 a 6 meses, C3, C4, eletroforese e crioglobulinas; parótida palpada e registrada em toda consulta. Aumento persistente, assimétrico ou endurecido: investigação de linfoma sem demora.
  10. 10Fraqueza proximal com enzimas altas exige avaliar causas musculares, fármacos, deglutição, respiração e coração. Disfagia grave, fraqueza intensa ou comprometimento respiratório pedem internação e tratamento especializado. Pulsoterapia pode ser indicada na miopatia grave, sem generalizá-la à doença intersticial da esclerose sistêmica.
  11. 11Dermatomiosite no adulto com emagrecimento, tabagismo, disfagia ou sinal de alarme de câncer: investigação dirigida pela lista do protocolo federal.
  12. 12Fator antinuclear positivo sem achado objetivo: registrar e acompanhar, sem cascata. Com achado objetivo: o anticorpo que responde ao achado. Com órgão em sofrimento: internar pelo órgão.

Raynaud primário ou secundário: o que olhar e o que cada achado muda

AchadoNo Raynaud primárioNo Raynaud secundárioO que muda na conduta
Idade de inícioAdolescência ou adulto jovemDepois dos 30 ou 40 anosInício tardio pede fator antinuclear e exame completo
Polpa digitalÍntegra, sempreCicatriz puntiforme, úlcera ou necroseQualquer marca na polpa encaminha com preferência
Mãos e peleNormaisDedos edemaciados, pele que não se pinça, telangiectasiasPele espessada acima das metacarpofalângicas classifica esclerose sistêmica
Distribuição e dorSimétrico, crise curta e pouco dolorosaAssimétrico ou muito dolorosoDor contínua ou dedo que não recupera a cor: hospital
Outros sintomasNenhumAzia, disfagia, tosse, secura, fraqueza, artrite, lesão de peleCada sintoma abre a investigação do órgão correspondente
Fator antinuclearNegativo ou título baixoFrequentemente positivo, com padrão sugestivoPositivo com achado clínico: anticorpo específico dirigido
Capilaroscopia periunguealNormalCapilares dilatados, micro-hemorragias, áreas sem vasoPadrão esclerodérmico sustenta o diagnóstico precoce
Um único dedo, de um ladoNão é RaynaudNão é RaynaudEmbolia, aterosclerose ou vasculite: outra investigação

O anticorpo, a doença que ele sugere e o órgão a vigiar

AnticorpoDoença ou forma que sugereO que vigiar desde o diagnósticoQuando pedir
AnticentrômeroEsclerose sistêmica limitadaHipertensão arterial pulmonar tardia, úlcera digitalRaynaud com sinal de alarme ou pele espessada
Anti-Scl-70 (anti-topoisomerase I)Esclerose sistêmica difusaDoença intersticial precoceSuspeita de esclerose sistêmica
Anti-RNA polimerase IIIEsclerose sistêmica difusa de pele que avança depressaCrise renal: pressão anotada com frequênciaSuspeita de forma difusa, quando disponível
Anti-Ro (anti-SSA)Síndrome de Sjögren; também lúpusCitopenias, parótida; na gestação, o coração do fetoSecura documentada
Anti-La (anti-SSB)Acompanha o anti-Ro no SjögrenO mesmo do anti-Ro; sozinho não classificaJunto com o anti-Ro
Anti-U1-RNPDoença mista do tecido conjuntivoPulmão e circulação pulmonar; evolução para doença definidaRaynaud com mãos edemaciadas e sinovite
Anti-Jo-1Síndrome antissintetaseDoença intersticial, febre, artrite, mãos de mecânicoFraqueza com enzima alta e tosse ou dispneia
Fator antinuclear pontilhado fino denso, sem outro achadoEm geral nenhuma doença autoimuneNada além do acompanhamento clínicoNão se desdobra em painel

Doses do capítulo contadas para uma adulta de 58 kg e 1,60 m (superfície corporal 1,61 m²), com as apresentações da Rename 2024

Fármaco e réguaDose da réguaConta para 58 kgApresentação e componente
Captopril — crise renal (protocolo da esclerose sistêmica)6,25 a 12,5 mg VO; aumentos de 12,5 a 25 mg a cada 4 a 8 h até normalizar a pressão; máximo de 300 a 450 mg/dia6,25 mg = 1/4 de comprimido; 12,5 mg = 1/2; 25 mg = 1; máximo = 12 a 18 comprimidos por diaComprimido de 25 mg; Básico
Nifedipino — Raynaud (protocolo da esclerose sistêmica)10 a 20 mg três vezes ao dia30 a 60 mg/dia = 3 a 6 unidades de 10 mg por diaCápsula ou comprimido de 10 mg, liberação imediata; Básico
Anlodipino — Raynaud (protocolo da esclerose sistêmica)5 a 10 mg uma vez ao dia1 comprimido de 5 mg ou de 10 mgComprimidos de 5 e 10 mg; Básico
Sildenafila — úlcera digital refratária (protocolo da esclerose sistêmica)50 mg duas a três vezes ao dia, até cicatrizar100 a 150 mg/dia = 2 a 3 comprimidos de 50 mgComprimidos de 25 e 50 mg vinculados a este protocolo; Especializado
Prednisona — dose baixa na esclerose sistêmica (diretriz de 2024)Até 15 mg/dia15 mg = 3 comprimidos de 5 mg = 0,26 mg/kg/diaComprimidos de 5 e 20 mg; Básico e Estratégico
Prednisona — teto do protocolo da esclerose sistêmica0,125 até 1 mg/kg/dia, conforme a manifestação58 mg/dia, cerca de 3 comprimidos de 20 mg — 3,9 vezes o teto de 15 mg da diretrizComprimidos de 5 e 20 mg; Básico e Estratégico
Prednisona — miopatia inflamatória (protocolo de 2025)1 mg/kg/dia, máximo de 80 mg/dia, por 4 a 6 semanas; redução de até 20% a cada 4 semanas até 10 mg58 mg, arredondado a 60 mg = 3 comprimidos de 20 mgComprimidos de 5 e 20 mg; Básico e Estratégico
Metilprednisolona — pulsoterapia na miopatia grave (protocolo de 2025)1.000 mg IV em pelo menos 30 min por 3 a 5 dias2 frascos-ampola de 500 mg por diaPó de 500 mg; fornecida pelo serviço no procedimento de pulsoterapia
Metotrexato — pele na esclerose sistêmica; miopatiaEsclerose sistêmica: 15 a 25 mg/semana; miopatia: 7,5 a 15 mg/semana, até 25 mg15 mg = 6 comprimidos de 2,5 mg ou 0,6 mL de 25 mg/mL; 25 mg = 10 comprimidos ou 1 mLComprimido de 2,5 mg e solução de 25 mg/mL; Especializado. Ácido fólico 5 mg, Básico: 1 a 2 comprimidos por semana
Azatioprina — miopatia (protocolo de 2025)50 mg/dia; 1,5 mg/kg/dia em 6 a 8 semanas; até 2,5 a 3 mg/kg/dia1,5 mg/kg = 87 mg, 1 1/2 a 2 comprimidos; 3 mg/kg = 174 mg, 3 1/2 comprimidosComprimido de 50 mg; Especializado
Hidroxicloroquina — pele da dermatomiosite; artrite do Sjögren400 mg/dia, sem passar de 5 mg/kg/dia (protocolo de 2025)Teto = 290 mg/dia; 400 mg = 6,9 mg/kg/dia; 400 mg em 5 dias da semana = 286 mg/diaComprimido de 400 mg, que o mesmo protocolo manda não partir; Especializado
Ciclofosfamida IV — pulmão na esclerose sistêmica; miopatia graveEsclerose sistêmica: 300 a 800 mg/m² a cada 4 semanas; miopatia: 500 a 750 mg/m², até 1.200 mg por doseEsclerose sistêmica: 482 a 1.284 mg; miopatia: 803 a 1.204 mg, limitado a 1.200 mgFora da Rename: entra pelo procedimento de pulsoterapia; mesna, 1 mg por mg de ciclofosfamida, também não consta
Imunoglobulina humana — miopatia refratária (protocolo de 2025)2 g/kg por ciclo de 4 semanas, em 2 a 5 dias116 g por ciclo = 23 a 24 frascos de 5 g0,5, 1, 2,5 e 5 g; Especializado
Pilocarpina oral — boca seca no Sjögren (diretriz de 2015)5 mg duas a quatro vezes ao dia, ajustada à tolerância10 a 20 mg/diaNão consta da Rename, que tem só a solução oftálmica a 2%

O que medir, quando repetir e o sinal que antecipa a volta

DoençaMedida basalRepetirSinal que traz o doente antes da data
Esclerose sistêmica difusa inicialPressão, creatinina, urina, função pulmonar com DLCO, avaliação de TC de alta resolução no rastreio basal conforme risco, ecocardiograma e extensão cutânea; função normal não exclui intersticiopatia.Reumatologia a cada 3 a 6 meses; pressão com frequência nos primeiros anosPressão acima da habitual, cefaleia, urina diminuída, tosse ou cansaço novos
Esclerose sistêmica limitadaCapacidade vital e difusão, ecocardiograma, polpas digitaisReumatologia a cada 3 a 6 mesesDispneia desproporcional, síncope ao esforço, úlcera digital
Síndrome de SjögrenHemograma, C3, C4, eletroforese, crioglobulinas, creatinina, urina, parótidas descritasHemograma a cada 3 a 6 meses; complemento e eletroforese com regularidadeParótida que aumenta e não desincha, púrpura, febre, suor noturno, perda de peso
Miopatia inflamatóriaForça de flexores do pescoço, deltoides e quadríceps; enzimas; deglutição; função pulmonar e tomografiaForça e enzimas a cada consulta; glicemia, potássio, lipídios e pressão no início do corticoideEngasgo, dispneia, queda de força, lesão de pele que volta
Doença mista do tecido conjuntivoFunção pulmonar com difusão, ecocardiograma, anti-DNA de dupla hélice, força e enzimasReumatologia periódicaDispneia, sinovite, fraqueza, lesão de lúpus

Rastreio do pulmão pedido com o gás errado. O item 3.1 do protocolo federal da esclerose sistêmica manda pesquisar a doença intersticial por "provas de função pulmonar com difusão de CO2". A difusão medida no laboratório de função pulmonar é a do monóxido de carbono — CO, não CO2 —, e é ela que cai na doença intersticial e na hipertensão pulmonar. Um pedido transcrito do protocolo nomeia um exame que não existe e tende a voltar sem a difusão, justamente a medida que antecipa as duas complicações. Escreva "espirometria com difusão do monóxido de carbono (DLCO)".

Hidroxicloroquina com dose fixa acima do teto do próprio protocolo. O protocolo de miopatias inflamatórias de 2025 prescreve para o adulto 400 mg por dia e, na mesma linha, proíbe passar de 5 mg/kg/dia pelo risco de toxicidade retiniana. Conta: 400 mg só cabem no teto a partir de 80 kg (400 ÷ 5). Numa mulher de 58 kg o teto é 290 mg/dia, e 400 mg dão 6,9 mg/kg/dia — 38% acima. O único comprimido do Componente Especializado é o de 400 mg, e o mesmo documento diz que as apresentações nacionais não devem ser partidas. Esta apostila adota o teto por peso e fecha a conta pela semana: 400 mg em 5 dias da semana dão 286 mg/dia, 4,9 mg/kg — leitura desta apostila, a confirmar com o reumatologista e com a avaliação oftalmológica anual que o protocolo exige.

Anti-Jo-1: o item mais pesado de um critério que o protocolo manda não pesquisar. O protocolo de miopatias inflamatórias inclui o doente pelos critérios de 2017 com diagnóstico provável ou definitivo, e no quadro desses critérios o anti-Jo-1 vale 3,9 pontos sem biópsia — três vezes a enzima muscular elevada, que vale 1,3. No item 3.3, o mesmo protocolo não recomenda a pesquisa de autoanticorpos. Conta, sem biópsia: homem de 45 anos com fraqueza proximal nos braços (0,7) e nas pernas (0,8), início depois dos 40 (2,1) e creatinofosfoquinase alta (1,3) soma 4,9, abaixo do corte de miopatia possível (5,3 pontos nos critérios originais); com anti-Jo-1 positivo, soma 8,8, acima do corte de definitiva (7,5). O exame que o texto dispensa decide a inclusão. Na mesma seção, as classes aparecem como possível de 50% a 55%, provável de 55% a 89% e definitiva a partir de 90%: 55% cai em duas classes e o intervalo entre 89% e 90% em nenhuma.

Duas normas federais em vigor para a mesma azatioprina. O protocolo de miopatias inflamatórias de 2025 manda suspender ou reduzir a azatioprina com plaquetas abaixo de 150.000/mm³ ou com qualquer elevação de aminotransferases ou fosfatase alcalina acima do limite superior. O protocolo da esclerose sistêmica de 2022 usa plaquetas abaixo de 100.000/mm³ e enzimas acima de duas vezes o limite. Conta: plaquetas de 120.000/mm³ com alanina aminotransferase em 1,5 vez o limite suspendem a droga pelo primeiro e a mantêm pelo segundo. Cada protocolo governa a sua doença; na sobreposição de esclerose sistêmica com miosite os dois se aplicam ao mesmo doente, e esta apostila adota o limite mais estrito, porque a escolha errada no sentido contrário é mielotoxicidade.

Anti-La escrito como anti-SSA no quadro de diagnóstico. O Quadro 7 do protocolo gaúcho de Reumatologia Adulto define a evidência sorológica do Sjögren como "anticorpos anti-Ro (anti-SSA) com ou sem a presença de anti-LA (anti SSA)". O anti-La é o anti-SSB. Lido ao pé da letra, um laudo com anti-SSB/La positivo e anti-SSA/Ro negativo parece preencher o critério — e não preenche: nos critérios de 2016 que o quadro adapta, só o anti-Ro pontua. O conteúdo mínimo do mesmo protocolo grafa certo, "anti-SSB/La". Leia o quadro como anti-Ro obrigatório, com ou sem anti-La.

08

A conduta, hora a hora

A conduta da crise renal esclerodérmica cabe em três frases e se executa em oito dias. O remédio é o inibidor da enzima conversora da angiotensina, por via oral, começado já e titulado a cada poucas horas. A meta é a pressão habitual da doente, recuperada em até 72 horas, que é a régua do protocolo federal — a diretriz brasileira de 2024 usa o mesmo horizonte para decidir quando somar outra droga. E o que precipitou a crise, o corticoide em dose alta, sai de cena sem ser arrancado de uma vez.

Uma questão de fronteira precisa ser resolvida antes do primeiro marco. Marília tem lesão de órgão-alvo — rim e microangiopatia —, e o capítulo Crise hipertensiva, na apostila de Cardiologia, ensina a conduzir a emergência hipertensiva com droga intravenosa e redução medida na primeira hora. As duas regras não brigam: governam doentes diferentes e momentos diferentes. Para a doente com esclerose sistêmica em crise renal, vencem os documentos escritos para ela, que mandam o inibidor da enzima conversora e a recuperação da pressão em até 72 horas; se aparecer encefalopatia, edema pulmonar ou dissecção, a emergência intravenosa daquele capítulo entra junto — sem tirar o captopril.

  1. Terça, 16h10 — o nome certo antes da droga

    Esclerose sistêmica difusa recente, aumento acentuado da pressão, injúria renal e microangiopatia sugerem crise renal esclerodérmica. Internar e discutir imediatamente com nefrologia. Captopril oral é iniciado e titulado sob monitorização; não esperar autoanticorpos. Antes de escolher a velocidade de redução, procurar encefalopatia, edema pulmonar, isquemia ou outra emergência associada: essas situações podem exigir tratamento EV concomitante. Na ausência delas, reduzir de modo controlado ao longo dos primeiros dias, individualizando a meta pela perfusão e pressão prévia.

    Prescrição
    • Captopril 12,5 mg VO como dose inicial do caso, com reavaliações e titulação pela equipe a cada 4–8 horas conforme pressão, perfusão, potássio e tolerância; não usar via sublingual. Meta e velocidade de redução são individualizadas.
    • Pressão arterial a cada hora nas primeiras 6 horas, depois a cada 2 horas; chamar se sistólica abaixo de 100 mmHg, cefaleia que piora, confusão, dispneia, dor torácica ou convulsão
    • Reavaliar prontamente a prednisona de 40 mg/dia, que aumenta o risco de crise renal. Reduzir sob supervisão considerando indicação, duração do uso e risco de insuficiência adrenal; não transformar a troca automática para 10 mg em regra universal.
    • Colher ADAMTS13 antes de plasma se a hipótese de PTT for relevante e a coleta não atrasar tratamento. Discutir imediatamente com hematologia. Alta suspeita de PTT exige terapia urgente antes do resultado, enquanto se esclarece a microangiopatia.
    • Hemograma com leitura de lâmina, reticulócitos, desidrogenase láctica, haptoglobina, bilirrubinas, Coombs direto, tempo de protrombina, TTPa e fibrinogênio; creatinina, ureia, sódio, potássio e gasometria venosa às 22h
    • Diurese medida e balanço hídrico; dieta hipossódica e pobre em potássio
    • Nenhum anti-inflamatório não esteroide; nenhum contraste iodado sem discussão com a nefrologia
    • Interconsultas hoje: nefrologia, hematologia e reumatologia
  2. Terça, 20h10 — a primeira titulação

    A pressão cai para 178/104 após a dose inicial, e a equipe continua a titulação monitorada. Plaquetas de 88 mil e creatinina acima de 2 retiram dois componentes do PLASMIC, mas não bastam para classificá-lo como baixo: é necessário conferir todos os sete itens. A forte hipótese de crise renal é integrada à avaliação hematológica. Não há indicação dialítica naquele momento: potássio 5,2 sem alteração no ECG, bicarbonato 20, sem congestão ou sintomas urêmicos; isso exige seguimento, não garantia para o restante da internação.

    Prescrição
    • Captopril 25 mg (1 comprimido) por via oral agora; próxima reavaliação às 0h10
    • Potássio e eletrocardiograma se o potássio passar de 5,5 mEq/L; conduta de hipercalemia e aviso à nefrologia se atingir 6,0 mEq/L ou houver alteração no traçado
    • Manter pressão a cada 2 horas e diurese medida
  3. Quarta, 0h10 e 4h10 — subir a dose sem derrubar a pressão

    À meia-noite a pressão é 166 por 98, e o captopril sobe para 37,5 mg. Às 4h, 152 por 92, e ele sobe para 50 mg, que passa a ser a dose a cada 6 horas — 200 mg por dia, dentro do teto de 300 a 450 mg do protocolo. A cefaleia melhorou, ela dormiu, e a diurese das últimas doze horas foi de 600 mL. O ritmo é deliberado: cada degrau espera as 4 horas que o protocolo dá entre um aumento e outro, e a pressão desce uns 10 a 15 mmHg a cada passo, sem nenhuma queda brusca. Você anota a hora de cada dose ao lado da pressão, para que o plantão da manhã leia a curva e não um número solto.

    Prescrição
    • 0h10: captopril 37,5 mg (1 1/2 comprimido) por via oral
    • 4h10: captopril 50 mg (2 comprimidos) por via oral; manter 50 mg a cada 6 horas enquanto a pressão estiver acima da habitual
    • Suspender a dose e chamar se sistólica abaixo de 100 mmHg
  4. Quarta, 8h — a creatinina que sobe com a pressão caindo

    Os exames da manhã assustam o plantão que chega: creatinina 3,1, ureia 124, potássio 5,3, bicarbonato 19; hemoglobina 8,8, plaquetas 74 mil, desidrogenase láctica 840. A pressão está em 144 por 88. Alguém pergunta se não é hora de suspender o captopril, já que a creatinina subiu. Você responde que não, e diz por quê: na crise renal esclerodérmica a creatinina pode continuar subindo nos primeiros dias mesmo com a pressão controlada, o inibidor da enzima conversora é o tratamento da doença e não um anti-hipertensivo trocável, e o protocolo federal registra que cerca de metade desses doentes precisa de terapia renal substitutiva e que parte deles recupera a função em 12 a 18 meses — com o inibidor mantido. Se a diálise vier, ela entra junto com o captopril, e não no lugar dele. A estimativa automática de 25 mL/min é imprecisa com creatinina em rápida mudança; doses exigem a trajetória renal, diurese e orientação da equipe, sem tratar a estimativa como depuração medida estável.

    Prescrição
    • Manter captopril 50 mg a cada 6 horas
    • Creatinina, ureia, potássio e gasometria a cada 12 horas; hemograma com lâmina e desidrogenase láctica a cada 12 horas
    • Nefrologia reavalia hoje; indicação de diálise pelos critérios do capítulo Injúria renal aguda
    • Prednisona 10 mg pela manhã
  5. Quarta, 15h — a tentação do plasma

    Plaquetas de 70 mil exigem nova leitura de hemólise, função renal, pressão e quadro neurológico. Reavaliar o PLASMIC completo e a probabilidade de PTT; nenhuma pontuação parcial decide sozinha contra troca plasmática. Persistência ou piora da microangiopatia apesar do controle pressórico amplia o diagnóstico diferencial, sem provar outra causa por um prazo fixo. Se a suspeita de PTT se tornar alta, a equipe inicia terapia urgente sem aguardar ADAMTS13.

    Prescrição
    • Nenhuma transfusão de plaquetas: não há sangramento nem procedimento programado
    • Hemograma com lâmina, desidrogenase láctica e haptoglobina às 3h
    • Registrar na evolução o critério de reabertura do diagnóstico de microangiopatia
  6. Quinta, 8h, a sexta, 8h — as 72 horas

    Na quinta de manhã a pressão é 128 por 82; na sexta, 116 por 74 — a pressão habitual de Marília, alcançada em 64 horas. A creatinina para de subir: 3,3 na quinta, 3,2 na sexta. As plaquetas voltam a 96 mil e depois a 118 mil, a desidrogenase láctica cai para 480, a diurese passa de 1.600 mL. A dosagem de ADAMTS13 chega com atividade de 68%, afastando a púrpura trombocitopênica trombótica. Com a meta atingida, o captopril passa a 50 mg a cada 8 horas, para não transformar controle em hipotensão. A reumatologista examina a doente, confirma a forma difusa, anota o escore de pele e combina a medida basal dos órgãos para segunda-feira, quando ela estiver estável. É também na sexta que você tem com Marília a conversa sobre o nome da doença.

    Prescrição
    • Captopril 50 mg (2 comprimidos) a cada 8 horas — 150 mg/dia
    • Pressão a cada 4 horas; creatinina, potássio e hemograma diários
    • Prednisona 10 mg pela manhã
    • Solicitados para segunda: eletrocardiograma, ecocardiograma com estimativa da pressão sistólica da artéria pulmonar, espirometria com difusão do monóxido de carbono, tomografia de tórax de alta resolução, capilaroscopia e anticorpos anticentrômero, anti-Scl-70 e anti-RNA polimerase III
  7. Segunda seguinte — o corpo inteiro medido

    CVF de 72%, DLCO de 54% e tomografia com padrão de pneumonia intersticial não específica mostram acometimento pulmonar que precisa de avaliação conjunta. A pressão pulmonar estimada em 34 mmHg no ecocardiograma não exclui sozinha hipertensão pulmonar. O anti-RNA polimerase III ajuda a caracterizar o risco renal, mas não substitui a avaliação de órgãos. A injúria renal restringe escolhas e doses; equações de filtração são imprecisas enquanto a creatinina muda. Discutir desde a internação tratamento da doença intersticial, incluindo micofenolato entre as opções especializadas, conforme gravidade, trajetória, segurança e acesso. Não impor quatro semanas de espera se houver progressão. Evitar glucocorticoide em alta dose como tratamento rotineiro da doença intersticial da esclerose sistêmica.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário a medida basal: capacidade vital forçada 72%, difusão 54%, pressão pulmonar estimada 34 mmHg, escore de pele, pressão habitual 110 por 70 mmHg
    • Oximetria em repouso e ao caminhar antes da alta
    • Revisar vacinação e planejar influenza, pneumococo e COVID-19 conforme calendário e situação clínica. Aplicar antes da imunossupressão quando possível, sem adiar tratamento urgente; vacinas vivas requerem avaliação específica de intervalo e contraindicações.
  8. Terça, 8º dia — a alta que protege o rim

    A creatinina é 2,4 e caindo, o potássio 4,8, as plaquetas 186 mil, a pressão 112 por 72. Ela não precisou de diálise. A receita de alta é curta e cada linha tem um motivo que você explica em voz alta. O captopril é a longo prazo, com revisão de contraindicações e tolerância, como diz o protocolo, e não pode ser suspenso por ninguém que não saiba que ela teve crise renal. O corticoide fica na menor dose e a retirada é da reumatologia. O omeprazol é do esôfago. A pressão medida com frequência é o sistema de alarme, e a carteirinha escrita à mão com o diagnóstico é o que impede que a próxima unidade de pronto atendimento repita a receita de três semanas atrás. Como o captopril e a futura imunossupressão são contraindicados na gestação, a anticoncepção entra na conversa e na receita.

    Prescrição
    • Captopril 50 mg (2 comprimidos de 25 mg) a cada 8 horas, uso contínuo — Componente Básico, na unidade básica
    • Omeprazol 20 mg em jejum, 30 minutos antes do café
    • Prednisona 10 mg pela manhã até a consulta de reumatologia, que decide a retirada
    • Medir a pressão todos os dias na unidade básica ou em casa, anotando; voltar no mesmo dia se passar de 140 por 90 mmHg, se a urina diminuir, se a dor de cabeça voltar ou se aparecer falta de ar
    • Creatinina, potássio e hemograma em 7 dias, com retorno à unidade básica
    • Alta apenas com estabilidade e plano de pressão, potássio e função renal em curto intervalo, definido pela nefrologia. Garantir discussão e retorno conjunto com reumatologia/pneumologia para a doença intersticial; progressão respiratória ou renal antecipa o atendimento.
    • Nunca anti-inflamatório não esteroide; nunca corticoide em dose alta sem o reumatologista; método anticoncepcional eficaz
    • Carteirinha com o diagnóstico: esclerose sistêmica difusa, crise renal em uso de captopril contínuo
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Como saber se está funcionando

Cada medida de seguimento numa colagenose precisa dizer se o que mudou é atividade da doença, dano que ficou ou efeito do remédio. Na crise renal a reavaliação é de horas, e cada parâmetro tem uma resposta esperada e um gatilho escrito. No ambulatório ela é de meses, e o que importa é ter a medida basal com que comparar.

Os parâmetros abaixo seguem Marília da primeira noite ao seguimento e acrescentam os dois que valem para as outras doenças do capítulo — a parótida do Sjögren e a força da miosite.

Pressão arterial na crise renalA cada hora nas primeiras 6 horas, a cada 2 horas durante a titulação, a cada 4 horas depois da meta

Esperado: Redução controlada da pressão com preservação de perfusão, individualizada pela pressão prévia e lesões associadas; horizonte de até 72 horas é referência do caso sem outra emergência concomitante.

Se não melhora: Reavaliar titulação, volume, perfusão e necessidade de fármaco adicional com nefrologia. Evitar associação automática de IECA e bloqueador do receptor de angiotensina pelo risco renal e de hiperpotassemia. Emergência neurológica, edema pulmonar ou dissecção exige tratamento EV apropriado em paralelo.

Creatinina, potássio e diureseCreatinina e potássio a cada 12 horas nas primeiras 48 horas, depois diários; diurese contada

Esperado: Creatinina que pode subir nos primeiros dias e depois estabiliza; potássio abaixo de 5,5 mEq/L; diurese que se recupera com a pressão controlada

Se não melhora: Nefrologia pelos critérios de diálise do capítulo Injúria renal aguda; o inibidor da enzima conversora continua durante a diálise, e a recuperação pode levar de 12 a 18 meses

Hemólise e plaquetasHemograma com lâmina e desidrogenase láctica a cada 12 horas até as plaquetas subirem, depois diários

Esperado: Plaquetas subindo e desidrogenase láctica caindo à medida que a pressão chega à meta; esquizócitos rareando

Se não melhora: Plaquetas que continuam caindo com pressão controlada reabrem o diagnóstico de microangiopatia: hematologia e nefrologia, com a amostra de ADAMTS13 já colhida

Dose de corticoideToda manhã na internação; em toda consulta depois

Esperado: Prednisona em dose baixa, até 15 mg/dia, com plano de retirada da reumatologia

Se não melhora: Dose acima disso só por indicação específica do reumatologista — miosite grave de sobreposição, por exemplo —, com pressão medida com frequência e creatinina de controle, porque o risco de nova crise renal acompanha a dose

Pulmão: capacidade vital e difusãoMedida basal na internação; repetir a cada consulta de reumatologia, a cada 3 a 6 meses, e antes de mudar a imunossupressão

Esperado: Capacidade vital e difusão estáveis; saturação que não cai ao caminhar

Se não melhora: Queda de capacidade vital ou de difusão, tosse ou dessaturação novas: nova tomografia e decisão de indução com a reumatologia, pelos critérios de progressão do capítulo de doenças intersticiais

Circulação pulmonar e coraçãoEcocardiograma basal; repetir se aparecer dispneia desproporcional, síncope ao esforço ou queda isolada da difusão

Esperado: Pressão sistólica da artéria pulmonar estimada baixa e ventrículo direito normal

Se não melhora: Suspeita de hipertensão arterial pulmonar: especialista e protocolo federal próprio, com confirmação por cateterismo; na forma limitada e na doença mista a pergunta vale a vida inteira

Polpas digitais, parótidas e força, conforme a doençaEm toda consulta: polpas na esclerose sistêmica, parótidas palpadas no Sjögren, força de pescoço, deltoide e quadríceps na miosite

Esperado: Polpas íntegras; parótidas sem mudança de tamanho ou consistência; força que melhora antes da enzima

Se não melhora: Úlcera digital: bloqueador de canal de cálcio e, na refratária, inibidor de fosfodiesterase 5; isquemia crítica: hospital. Parótida persistente, assimétrica ou endurecida: investigação de linfoma. Força que cai com enzima normal em quem usa corticoide há semanas: miopatia pelo corticoide, e não atividade

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Onde o erro machuca

Prescrever prednisona em dose de artrite reumatoide para a dor articular de uma esclerose sistêmica difusa inicial

O dano: O corticoide em dose alta é um dos fatores de risco de crise renal que a diretriz brasileira de 2024 nomeia, ao lado da forma difusa inicial, da pele que avança depressa e do anti-RNA polimerase III. Foi a receita que faltava para Marília: três semanas de 40 mg e uma pressão que dobrou. A crise renal leva metade dos doentes à diálise.

Como pegar a tempo: Antes de prescrever corticoide para artrite, olhe as mãos: dedos edemaciados, pele espessada, Raynaud e atrito tendíneo mudam o diagnóstico. Na esclerose sistêmica, corticoide só em dose baixa, até 15 mg de prednisona por dia, com pressão medida com frequência e creatinina de controle, e decisão do reumatologista.

Tratar a crise renal esclerodérmica como uma crise hipertensiva qualquer

O dano: Betabloqueador, nitroprussiato ou qualquer anti-hipertensivo que não bloqueie o sistema renina-angiotensina podem baixar o número enquanto a isquemia renal continua. Captopril debaixo da língua não acelera nada, e captopril suspenso porque a creatinina subiu tira da doente o único tratamento que muda a evolução.

Como pegar a tempo: Suspeitar de crise renal e internar para IECA e monitorização. Meta pressórica e velocidade de redução dependem de perfusão e lesão orgânica associada. Elevação inicial de creatinina não obriga suspender IECA, mas hipotensão e hiperpotassemia grave exigem avaliação imediata.

Receitar inibidor da enzima conversora para prevenir a crise renal em quem não teve crise

O dano: O protocolo federal registra que o uso preventivo não previne e se associou a desfechos piores em estudos observacionais. A doente recebe um remédio sem benefício e uma falsa tranquilidade, e a pressão que subiria como sinal de alarme pode vir amortecida.

Como pegar a tempo: Prevenção de crise renal se faz com vigilância — pressão medida com frequência na forma difusa inicial, creatinina e urina — e com a recusa ao corticoide em dose alta. O inibidor da enzima conversora é o tratamento da crise e costuma ser mantido a longo prazo, com revisão especializada de tolerância e contraindicações.

Chamar de Raynaud primário sem olhar as polpas, a pele dos dedos e o resto do corpo

O dano: O aviso mais precoce da esclerose sistêmica passa como problema de circulação. Catorze meses de Raynaud com cicatriz de polpa e dedos inchados não foram lidos até a doente chegar com o rim parando, e a medida basal que teria encontrado a doença intersticial no início nunca foi feita.

Como pegar a tempo: Em todo Raynaud, trinta segundos de exame: polpas, pinçamento da pele dos dedos, telangiectasias, e as perguntas sobre azia, disfagia, tosse, secura e fraqueza. Qualquer sinal de alarme leva a fator antinuclear, creatinina, urina, pressão anotada e encaminhamento com preferência.

Tratar a secura do Sjögren e esquecer o sangue e a parótida

O dano: O linfoma de glândula salivar é silencioso por anos e aparece, em média, seis anos e meio depois do início da doença. Uma parótida que aumentou e não desinchou, numa doente com C4 baixo e crioglobulinas, vira queixa estética em consultas sucessivas até o diagnóstico chegar tarde. Na outra ponta, anti-Ro pedido para toda boca seca de quem usa amitriptilina fabrica diagnóstico.

Como pegar a tempo: Antes de rotular, afaste a secura de remédio, radioterapia, hepatite C e HIV, e objetive com Schirmer e fluxo salivar. Com o diagnóstico feito, hemograma a cada 3 a 6 meses, complemento, eletroforese, crioglobulinas, e a parótida palpada e descrita em toda consulta.

Ler a creatinofosfoquinase alta como efeito de estatina ou as aminotransferases altas como fígado, sem medir a força

O dano: A miosite inflamatória e a miopatia necrosante perdem semanas enquanto se troca a estatina ou se pede ultrassonografia de abdome. A disfagia que aspira e a doença intersticial avançam, e o câncer associado à dermatomiosite do adulto fica sem investigação. Depois do diagnóstico, o erro inverso: subir corticoide para normalizar a enzima de quem já recuperou a força.

Como pegar a tempo: Fraqueza proximal e enzima alta: força medida e registrada, tireoide, potássio e fármacos revistos, deglutição e pulmão avaliados, câncer investigado quando houver suspeita pela lista do protocolo federal. No seguimento, a força guia a dose — o protocolo diz que a melhora clínica vale mais que a enzima.

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O que dizer ao paciente e à família

Conversar sobre colagenose exige duas coisas difíceis: nomear uma doença crônica, rara e sem cura sem que o nome soe como sentença, e explicar por que certos remédios comuns — corticoide, anti-inflamatório — viraram perigosos, e por que um remédio de pressão virou tratamento de rim para o resto da vida.

Cada fala a seguir é dita pelo interno — na enfermaria de Marília ou nos ambulatórios das outras doenças —, seguida da frase que parece gentil e piora tudo.

Dar o nome da doença

“Dona Marília, os dedos brancos no frio, as mãos inchadas, a pele que foi ficando dura e agora a pressão e o rim são a mesma doença. Ela se chama esclerose sistêmica. É uma doença em que o próprio sistema de defesa agride os vasos pequenos e faz a pele e alguns órgãos endurecerem. Não tem cura, mas tem tratamento para cada parte, e a parte mais urgente, que é o rim, a gente está tratando desde ontem.”

Não diga: “É tipo um lúpus, uma doença em que o corpo se ataca.” A frase rotula sem explicar, confunde com outra doença e deixa a doente sem saber o que fazer com o próprio corpo.

Explicar a mudança na prednisona

“O remédio que a senhora recebeu para as juntas, a prednisona, nessa doença pode fazer a pressão subir e o rim piorar. Por isso a gente baixou a dose. Não dá para parar de uma vez, porque três semanas tomando 40 mg acostumam o corpo, e parar de repente dá outro problema. A partir de agora, qualquer médico que for passar corticoide precisa saber da sua doença — e a carteirinha que eu escrevi é para isso.”

Não diga: “O médico da UPA errou.” Acusar não ajuda a doente, destrói a confiança em quem vai atendê-la na próxima vez e não ensina o que ela precisa levar dessa história.

Explicar a manutenção do IECA após a crise renal

“Esse comprimido de pressão, o captopril, aqui funciona como remédio para o rim. Ele desliga o mecanismo que fazia a pressão subir e o rim sofrer. Por isso a senhora vai tomar todos os dias, mesmo com a pressão boa, e ninguém deve tirar sem saber que a senhora teve essa crise. Se a pressão ficar baixa demais, a gente ajusta a dose, mas não suspende sozinho.”

Não diga: Não orientar suspensão por conta própria após normalização da pressão. A manutenção é prolongada, com revisão de tolerância, potássio, pressão e função renal pela equipe.

Contar que a creatinina subiu e que a diálise é possível

“O exame do rim piorou de ontem para hoje, e eu quero ser honesto com a senhora: nessa crise isso pode acontecer mesmo com a pressão melhorando. Metade das pessoas precisa de diálise por um tempo, e uma parte delas recupera o rim depois de meses. Ainda não sabemos se a senhora vai precisar. O nefrologista está acompanhando, e o remédio certo já está sendo dado.”

Não diga: “Fica tranquila, isso é normal, vai melhorar.” A promessa não se sustenta, e se a diálise vier a doente vai lembrar que ouviu que era normal.

Orientar o Raynaud e os sinais de alarme dos dedos

“Frio e cigarro fecham esses vasos. Luva também para pegar coisa da geladeira, casaco antes de sentir frio, nada de cigarro. E três coisas fazem a senhora voltar no mesmo dia: uma ferida na ponta de um dedo que não fecha, um dedo que fica branco ou roxo e não volta quando esquenta, ou uma dor no dedo que não para.”

Não diga: “É só má circulação, esquenta a mão que passa.” Encerra a conversa justamente sobre o sintoma que avisa primeiro.

Falar do risco de linfoma no Sjögren

“Dona Judite, a doença que seca seus olhos e sua boca, em algumas pessoas, depois de muitos anos, pode causar um tipo de câncer das glândulas, um linfoma. Não é o mais comum, mas é por isso que eu vou apalpar seu rosto e seu pescoço em toda consulta e pedir exame de sangue de tempos em tempos. Se a glândula da bochecha inchar e não desinchar em algumas semanas, ou se aparecer febre, suor à noite ou perda de peso, a senhora vem antes da data.”

Não diga: “Sjögren dá câncer.” Frase verdadeira pela metade, que assusta sem dizer o que fazer — ou o oposto, esconder o risco, que tira da doente a chance de perceber a mudança.

Explicar por que investigar câncer na dermatomiosite

“Seu Cesário, essa doença que enfraquece os músculos e marca a pele, em pessoas da sua idade, às vezes aparece junto com um tumor em outro lugar do corpo, e às vezes é o tumor que acorda a doença. Por isso a gente vai pedir alguns exames além dos do músculo. Não quer dizer que o senhor tem câncer; quer dizer que a gente não vai deixar de procurar.”

Não diga: “Vamos pesquisar se não é câncer.” Dita sem contexto, a frase transforma um protocolo de investigação numa suspeita que o doente leva para casa sozinho.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto corticoide cabe numa esclerose sistêmica

Protocolo federal da esclerose sistêmica, agosto de 2022

Prevê prednisona com dose inicial de 0,125 mg/kg/dia, podendo chegar a 1 mg/kg/dia conforme a manifestação da doença, e pede que doentes em uso de corticoide sejam monitorados quanto à função renal e à pressão arterial, com dose e tempo de uso minimizados.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 16, de 10 de agosto de 2022 — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Sistêmica, itens 6.2.4 e 6.4.

Diretriz da Sociedade Brasileira de Reumatologia, publicada em julho de 2024

Recomenda, para artrite e para miosite da esclerose sistêmica, corticoide em dose baixa, definida como até 15 mg/dia de prednisona ou equivalente, e declara obrigatória a precaução com o corticoide pelo risco aumentado de crise renal.

Kayser C, Delgado SMO, Zimmermann AF, et al. 2023 Brazilian Society of Rheumatology guidelines for the treatment of systemic sclerosis. Adv Rheumatol. 2024;64:52 — recomendação 8.

Como decidir

O escopo empata, porque os dois foram escritos para quem tem esclerose sistêmica, e o desempate vem da data: vence a diretriz de 2024, mais nova. A coerência reforça o lado: o próprio protocolo manda minimizar dose e tempo e vigiar pressão e rim, e o teto de 1 mg/kg daria 58 mg por dia a uma mulher de 58 kg, quase quatro vezes a dose baixa da diretriz. Esta apostila adota até 15 mg de prednisona por dia na esclerose sistêmica. Dose maior só com indicação específica decidida pelo reumatologista — miosite grave de sobreposição, por exemplo —, e aí com pressão medida com frequência e creatinina de controle. Para o interno à frente de uma esclerose sistêmica difusa inicial com artrite, a resposta é não prescrever os 40 mg.

Inibidor de fosfodiesterase 5 no Raynaud e na úlcera digital da esclerose sistêmica

Protocolo federal da esclerose sistêmica, agosto de 2022

Bloqueador de canal de cálcio, nifedipino ou anlodipino, é a primeira linha do Raynaud. A sildenafila, 50 mg duas a três vezes ao dia, é preconizada para úlcera digital refratária ao bloqueador de canal de cálcio, mantida até a cicatrização.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 16, de 10 de agosto de 2022 — itens 6.2.3, 6.4 e 6.5.

Diretriz da Sociedade Brasileira de Reumatologia, publicada em julho de 2024

Recomenda fortemente o bloqueador de canal de cálcio di-hidropiridínico e o inibidor de fosfodiesterase 5, sobretudo a sildenafila, como primeira linha do Raynaud, com o bloqueador como primeira escolha por disponibilidade e segurança; o inibidor de fosfodiesterase 5 como primeira linha para cicatrizar a úlcera digital; e bosentana ou inibidor de fosfodiesterase 5 para prevenir a recorrência.

Kayser C, Delgado SMO, Zimmermann AF, et al. Adv Rheumatol. 2024;64:52 — recomendações 1, 2 e 3.

Como decidir

Mesmo escopo, e vence a data: a diretriz de 2024. Na primeira escolha os dois concordam — bloqueador de canal de cálcio. A diferença está em quando a sildenafila entra, e esta apostila adota a régua mais nova: o inibidor de fosfodiesterase 5 é somado no Raynaud da esclerose sistêmica que continua limitando a vida apesar do bloqueador, e entra desde o início na úlcera digital. Há uma consequência prática que a doente precisa ouvir: no SUS, a sildenafila de 25 e 50 mg é dispensada pelo Componente Especializado vinculada ao protocolo federal, com os critérios dele. Na farmácia do SUS, a sequência possível continua sendo bloqueador de canal de cálcio primeiro e sildenafila quando a úlcera não cicatriza com ele — e o encaminhamento deve dizer isso com todas as letras.

Primeira linha na doença intersticial da esclerose sistêmica

Protocolo federal da esclerose sistêmica, agosto de 2022

Considera a ciclofosfamida primeira linha nas manifestações pulmonares, com azatioprina como opção para quem tem hipersensibilidade a ela. Micofenolato e rituximabe não são preconizados, por não constarem da bula aprovada pela Anvisa para essa indicação; nintedanibe também não, por estudo único com alto risco de viés.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 16, de 10 de agosto de 2022 — item 6.2.1.

Diretriz da Sociedade Brasileira de Reumatologia, publicada em julho de 2024

Recomenda, de forma condicional, ciclofosfamida ou micofenolato como primeira linha na doença intersticial da esclerose sistêmica; nintedanibe, rituximabe e tocilizumabe como segunda linha; e transplante autólogo de células-tronco em casos refratários selecionados.

Kayser C, Delgado SMO, Zimmermann AF, et al. Adv Rheumatol. 2024;64:52 — recomendação 5.

Como decidir

Mesmo escopo, e vence a data: a diretriz de 2024 põe ciclofosfamida e micofenolato lado a lado, e esta apostila adota essa régua. A decisão é do reumatologista, e o que o interno precisa saber é o porquê de cada caminho. No SUS, a porta de acesso continua sendo a do protocolo federal, com a ciclofosfamida intravenosa pelo procedimento de pulsoterapia. O micofenolato vira a alternativa natural quando a ciclofosfamida está contraindicada ou é indesejável — creatinina acima de 2 mg/dL, leucopenia, desejo de preservar fertilidade —, prescrito fora do protocolo e da bula para essa indicação, o que deve ser escrito e explicado ao doente. No caso de Marília, com depuração em torno de 20 a 27 mL/min, a própria crise renal adiou a escolha: nenhum dos dois caminhos era seguro na semana da alta.

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O raciocínio, em voz alta

Judite Romano tem 57 anos, 64 kg, é merendeira aposentada e vem à unidade básica trazida pela filha, que achou o rosto da mãe torto. Há três anos os olhos ardem e parecem ter areia; ela pinga lágrima artificial cinco vezes por dia. A boca seca faz com que precise de água para engolir o pão, e o dentista encontrou três cáries novas junto à gengiva em um ano. Nos últimos dois anos as parótidas incharam três vezes, dos dois lados, e desincharam sozinhas. Há quatro meses a parótida esquerda aumentou e não desinchou mais: não dói, e ela achou que fosse dente. Há dois meses aparecem pontinhos vermelho-arroxeados nas pernas, que vão e voltam. Usa amitriptilina 25 mg à noite há cinco anos, para dormir, e losartana 50 mg. Ao exame, a parótida esquerda mede cerca de 4 cm, é endurecida e pouco móvel, sem sinais inflamatórios; há um linfonodo cervical de 1,5 cm do mesmo lado; o baço não é palpável; nas pernas há petéquias elevadas que não somem à pressão. Os exames que ela trouxe, pedidos por um clínico particular: fator antinuclear 1/640 nuclear pontilhado fino, anti-Ro positivo, anti-La positivo, fator reumatoide positivo, C3 normal e C4 baixo, leucócitos 3.400/mm³ com 900 linfócitos, hemoglobina 11,8 g/dL, plaquetas 162 mil, velocidade de hemossedimentação 64 mm, gamaglobulina de 2,4 g/dL policlonal na eletroforese, anti-HCV e anti-HIV negativos, creatinina 0,9 mg/dL e urina normal. Crioglobulinas não foram pedidas.

  1. 1. A secura é doença ou remédio?

    As cinco perguntas do protocolo gaúcho de regulação têm quatro respostas positivas, e há mais de três meses. A amitriptilina e a losartana estão na lista de fármacos que causam secura do mesmo protocolo, e isso importa: sozinhas, poderiam explicar parte da queixa, e quem usa anticolinérgico só pode ter a secura medida depois de um intervalo sem ele. Mas a história tem o que remédio não produz — parótidas que incharam dos dois lados, cáries cervicais, púrpura — e o anti-Ro é positivo. A hipótese é síndrome de Sjögren, e a amitriptilina entra na conversa com quem a prescreveu, para troca por algo que não seque.

  2. 2. Objetivar a secura e ler o critério certo

    O teste de Schirmer, feito na própria unidade, dá 3 mm à direita e 2 mm à esquerda em cinco minutos; o fluxo salivar não estimulado é de 0,05 mL por minuto. Nos critérios de 2016, anti-Ro vale três pontos, Schirmer alterado um e fluxo salivar baixo um: Judite soma cinco, acima dos quatro que classificam, sem precisar de biópsia de glândula salivar menor. As exclusões foram conferidas: sem radioterapia de cabeça e pescoço, anti-HCV e anti-HIV negativos. O anti-La positivo reforça, mas não é ele que pontua — o quadro do protocolo gaúcho que o chama de anti-SSA precisa ser lido com essa correção.

  3. 3. Tratar a secura sem prometer o que o remédio não faz

    As medidas gerais da recomendação brasileira de 2015 vêm primeiro: água em goles frequentes, menos cafeína, álcool e tabaco, ambiente menos seco, pausas nas telas, higiene oral cuidadosa com creme dental sem lauril sulfato de sódio e enxaguatório sem álcool, pouco açúcar, e acompanhamento com o dentista. Para os olhos, colírio lubrificante — de preferência sem conservante —, com a posologia e o critério de encaminhamento ao oftalmologista do capítulo Olho vermelho; a hipromelose do Componente Básico é a opção do SUS. Para a boca, a mesma recomendação dá pilocarpina 5 mg duas a quatro vezes ao dia, ajustada à tolerância, com sudorese como efeito mais comum e cautela em asma e cardiopatia; ela não consta da Rename 2024, e Judite precisa saber disso antes de sair com a receita. A hidroxicloroquina não entra para a secura: a mesma recomendação registra que ela não melhora os sintomas glandulares.

  4. 4. Ler o que o sangue está dizendo

    Leucopenia com linfopenia, C4 baixo, gamaglobulina alta, fator reumatoide positivo e púrpura nas pernas não são achados soltos. A diretriz brasileira de 2024 trata a vasculite cutânea como marcador de atividade sistêmica e de risco de linfoma, especialmente com crioglobulinas e complemento baixo, e manda medir as crioglobulinas quando há púrpura. Elas são pedidas hoje, junto com a repetição do hemograma, a eletroforese e a pesquisa de neuropatia periférica ao exame. Antes de atribuir a leucopenia à doença, a mesma diretriz pede afastar outras causas — e a lista de medicamentos já foi revista.

  5. 5. A parótida que mudou de comportamento

    As três crises anteriores foram bilaterais e passageiras; esta é unilateral, dura há quatro meses, é endurecida e pouco móvel, e vem com um linfonodo do mesmo lado. É exatamente o achado que a diretriz de 2024 manda investigar sem demora — aumento crônico, assimétrico, endurecido ou aderido — numa doente que soma fatores de risco: C4 baixo, fator reumatoide, púrpura e provável crioglobulinemia. A investigação da massa de parótida — imagem, punção e decisão sobre biópsia — segue o capítulo O inchaço que todo mundo chama de caxumba, e ninguém prescreve corticoide para "desinchar" antes do tecido, pela regra de biópsia antes do corticoide que o capítulo O gânglio inteiro ensina.

  6. 6. Encaminhar pelos dois caminhos, com o que cada um precisa

    Judite sai com dois encaminhamentos. O da parótida é prioritário e não espera a fila da reumatologia: vai para a cirurgia de cabeça e pescoço com a ultrassonografia pedida e a descrição do exame físico. O da reumatologia leva o conteúdo mínimo do protocolo gaúcho — manifestações de secura e sistêmicas, ausência de radioterapia, outras doenças autoimunes, anti-HIV e anti-HCV, fator antinuclear, fator reumatoide, anti-Ro e anti-La, todos com data — e acrescenta a púrpura, a leucopenia, o C4 baixo e a suspeita de linfoma, que mudam a prioridade.

  7. 7. O desfecho e o seguimento que não termina com o diagnóstico

    A ultrassonografia mostra parótida esquerda heterogênea com áreas nodulares; as crioglobulinas vêm positivas; a biópsia confirma linfoma de zona marginal extranodal da glândula salivar, o tipo mais comum na síndrome de Sjögren, e o tratamento passa à hematologia. Na unidade básica, o seguimento de Judite continua sendo o da doença de base: hemograma a cada três a seis meses, complemento e eletroforese com regularidade, parótidas e linfonodos palpados e descritos em toda consulta, e a orientação de voltar antes da data se aparecer febre, suor noturno, perda de peso ou nova glândula aumentada. O que se evitou foi o erro mais comum desse doente: quatro meses tratados como dente.

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Faça você

Cesário Ilha tem 63 anos, é pedreiro aposentado, ex-tabagista de 40 maços-ano que parou há três anos, e pesa 71 kg — sete a menos que há quatro meses. Há quatro meses começou a ter dificuldade para subir a escada de casa e levantar da cadeira sem apoiar as mãos; há dois, não consegue mais pendurar a camisa no varal. Há duas semanas engasga com água e café, e a voz ficou anasalada. A esposa notou uma mancha arroxeada nas pálpebras e placas descamativas sobre os nós dos dedos, que ele atribuiu ao cimento. Tem tosse seca há um mês. Usa sinvastatina 40 mg e anlodipino 5 mg há anos. Ao exame: força grau 3 nos flexores do pescoço, com extensores preservados, 3+ nos deltoides e 3 nos iliopsoas, simétrica, com força distal normal; eritema violáceo com edema palpebral; pápulas eritematovioláceas descamativas sobre metacarpofalângicas e interfalângicas; eritema em V no decote; estertores finos nas bases; saturação de 94% em repouso e 89% ao caminhar no corredor. Creatinofosfoquinase 5.200 U/L, aspartato aminotransferase 210 U/L, alanina aminotransferase 160 U/L, aldolase elevada, hormônio tireoestimulante e potássio normais.

  1. 1. Nomeie o quadro e diga o que você afastou antes

    Reconheça a miopatia inflamatória pelo padrão de fraqueza e pela pele. Discuta as causas alternativas e o possível efeito de medicamentos, sem usar um escore de classificação para dispensar diagnóstico diferencial.

  2. 2. Decida o lugar, o corticoide e a deglutição

    Diga onde ele vai ser tratado e por quê, qual esquema de corticoide o protocolo federal de 2025 prevê para este grau de gravidade — com a dose contada para 71 kg e as apresentações disponíveis —, o que acontece com a sinvastatina e o que precisa ser feito antes da primeira refeição.

  3. 3. O câncer: por que procurar e o que pedir

    Explique o risco de câncer na dermatomiosite do adulto e por que idade, disfagia e perda de peso aumentam a preocupação neste caso. Proponha investigação dirigida e ampliação pelo especialista conforme risco, sem aplicar o mesmo pacote a todo paciente.

  4. 4. O pulmão e o seguimento

    Diga como investigar a tosse e a dessaturação ao esforço, que imunossupressor poupador de corticoide o protocolo prefere num doente com doença intersticial, e o que deve guiar a redução do corticoide nas consultas seguintes.

Ver como fecharíamos

Fraqueza proximal e simétrica progressiva, heliótropo, pápulas de Gottron, disfagia e enzimas musculares altas sustentam dermatomiosite. Suspender a estatina durante a avaliação: as lesões de pele sugerem dermatomiosite, mas estatinas também podem se associar a miopatia necrosante autoimune, e CK muito alta não exclui essa hipótese. TSH e potássio normais tornam causas endócrinas/eletrolíticas menos prováveis. AST e ALT podem vir do músculo; correlacionar CK, bilirrubinas, GGT e contexto antes de excluir doença hepática. Os critérios de 2017 apoiam classificação; não substituem a avaliação clínica. Internar pela disfagia com risco de aspiração, fraqueza intensa e dessaturação. Avaliar força respiratória, oxigenação e deglutição antes de oferecer alimentos ou comprimidos, organizando via segura e suporte nutricional. A equipe pode indicar metilprednisolona EV em pulso, com dose e duração definidas pela gravidade e protocolo, seguida de corticoide e poupador apropriado. A conta de prednisona próxima de 1 mg/kg no início é apenas referência; duração e redução dependem de força, deglutição, pulmão e toxicidade, sem calendário fixo para todos. Rastrear infecção e planejar prevenção de complicações em paralelo ao tratamento urgente. A dermatomiosite do adulto se associa a câncer e Cesário tem fatores preocupantes: 63 anos, emagrecimento, disfagia e tabagismo. Fazer história e exame completos, revisar rastreios pertinentes e discutir investigação ampliada orientada ao risco, incluindo tomografias e endoscopias quando indicadas; evitar repetir exames equivalentes sem pergunta clínica. Tosse, estertores e dessaturação pedem tomografia de alta resolução e avaliação pulmonar. A escolha do poupador depende do fenótipo pulmonar: azatioprina é uma possibilidade em doença selecionada, enquanto progressão respiratória rápida exige outra estratégia de combinação em serviço especializado. Micofenolato, rituximabe e outros agentes podem ter lugar conforme o caso; uma lista de dispensação não define sozinha todas as opções clínicas. Ressonância muscular e autoanticorpos específicos podem ajudar na avaliação especializada, mas não devem atrasar suporte e tratamento de ameaça orgânica. No seguimento, medir força e função, deglutição, pele, respiração, enzimas e eventos adversos; CK isolada não determina a dose de corticoide.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A avaliação pulmonar integra função e imagem. A ACR/CHEST recomenda condicionalmente tomografia de alta resolução associada à prova funcional em pessoas com doença reumática de risco, em vez de prova funcional isolada. DLCO mede difusão do monóxido de carbono. Broncoscopia e radiografia anual não substituem esse percurso de rastreio.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare secura por medicamento, Sjögren com aumento de parótida e miopatia com disfagia. Aponte a pergunta e o risco principal de cada caso.

Em 30 dias

Explique o cuidado inicial da crise renal esclerodérmica e por que corticoide não é uma resposta universal à autoimunidade. Depois planeje a avaliação de deglutição e pulmão numa dermatomiosite.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 38 anos, cozinheira de restaurante, com dedos que ficam brancos e depois roxos ao mexer no freezer há um ano, mãos inchadas ao acordar há alguns meses, azia quase todo dia e uma pequena ferida na ponta do indicador direito que não fecha há três semanas. Colha a história que separa o Raynaud primário do secundário, examine polpas, pele dos dedos e rosto, decida o que a atenção primária consegue pedir hoje e se ela precisa de encaminhamento com preferência ou de hospital, meça e anote a pressão, e explique por que o frio, o cigarro e uma receita de corticoide para as juntas importam para ela.

Esclerose sistêmica, Sjögren e outras colagenoses – Os dedos avisaram primeiro — Internato | OsceLabs