Clínica Médica › Reumatologia
Cada especialista viu um pedaço
Vasculites sistêmicas
Vasculites sistêmicas para o interno: juntar os órgãos numa só hipótese, colher o que o corticoide apaga, reconhecer o que não espera e acompanhar o doente da indução à manutenção
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 1º de julho de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Vasculite Associada aos Anticorpos Anti-citoplasma de Neutrófilos (ANCA).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 2, de 8 de janeiro de 2026 — torna pública a decisão de incorporar os testes de ELISA para anticorpos antimieloperoxidase (MPO-ANCA) e antiproteinase 3 (PR3-ANCA) no SUS. Diário Oficial da União nº 7, de 12 de janeiro de 2026, seção 1, p. 65.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde; Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Hepatite B e Coinfecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2023 (Portaria SECTICS/MS nº 25, de 18 de maio de 2023).
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Chung SA, Gorelik M, Langford CA, Maz M, Abril A, Guyatt G, et al. 2021 American College of Rheumatology/Vasculitis Foundation Guideline for the Management of Polyarteritis Nodosa. Arthritis Rheumatol. 2021;73(8):1384-93. doi:10.1002/art.41776.
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Responda antes de ler
Mulher de 63 anos está internada há 18 horas com suspeita de granulomatose com poliangiite: crostas nasais, nódulos pulmonares e sedimento urinário com cilindros hemáticos. O painel de exames foi colhido na admissão, e o ANCA ainda não tem resultado. A hemoglobina caiu de 10,1 para 8,4 g/dL em 12 horas, sem sangramento digestivo ou urinário visível; a saturação caiu de 95% para 89% em ar ambiente e a radiografia mostra opacidades bilaterais novas. Não há hemoptise. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Sete e quarenta de uma segunda-feira. A enfermaria de clínica médica fica no terceiro andar de um hospital geral que recebe o pronto-socorro de uma região inteira. O senhor Eulálio Milhomem, 57 anos, marceneiro, 72 quilos e 1,74 m, subiu às três da manhã com um diagnóstico de internação escrito numa linha só: pneumonia de repetição com piora da função renal a esclarecer. Você é o interno do leito 14. A residente te entrega a pasta, diz que o antibiótico já foi prescrito no pronto-socorro e que ela volta às nove, depois da passagem na unidade de terapia intensiva. Até lá, o doente é seu.
A história, quando você senta ao lado da cama e a colhe desde o começo, não é de pneumonia. Há quatro meses o nariz direito começou a entupir e a soltar crosta com sangue. Na unidade básica e no balcão de uma farmácia foram três antibióticos para sinusite, cada um com uma semana de melhora e a volta de tudo. Há dois meses vieram dores nos joelhos e nos punhos que mudam de lugar, suor que molha o travesseiro e sete quilos a menos, que ele mede no furo do cinto. Há três semanas o ouvido direito tampou e não destampou. Há dez dias ele passou a tropeçar: o pé direito cai quando sobe o degrau da oficina. Há quatro dias formigam o dedo mínimo e o anelar da mão esquerda. Há dois dias apareceram raias de sangue no escarro e falta de ar para subir a rampa do hospital.
No exame, crostas e sangue seco na fossa nasal direita, sem perfuração visível à lanterna, e membrana timpânica direita opaca, com líquido atrás dela. O pé direito não sobe: fraqueza para levantar a ponta e para virar o pé para fora, com dormência no dorso. Na mão esquerda, sensibilidade diminuída no território do ulnar e força de preensão preservada. Saturação de 93% em ar ambiente, frequência respiratória de 22, pressão de 148/92 mmHg, temperatura de 37,8 °C. Os exames do pronto-socorro mostram hemoglobina de 9,8 g/dL, leucócitos de 13.400 sem desvio, plaquetas de 480 mil, creatinina de 1,6 mg/dL — o exame admissional da marcenaria, de um ano atrás, dizia 0,9 —, urina com sangue três cruzes e proteína duas cruzes, e proteína C reativa de 12 mg/dL. A tomografia de tórax sem contraste descreve três nódulos pulmonares bilaterais, o maior com 2,8 cm e escavado, e opacidades em vidro fosco em torno dos hilos.
O prontuário das últimas semanas tem um profissional para cada pedaço. O otorrinolaringologista viu uma sinusite crônica e pediu tomografia de seios da face, que ainda não foi feita. A unidade básica viu dor nas juntas e receitou anti-inflamatório. O ortopedista atribuiu o pé caído ao hábito de trabalhar agachado sobre a perna direita. O plantonista da madrugada viu, na tomografia, um nódulo escavado num homem que emagreceu e escreveu tuberculose entre as hipóteses. Nenhum deles viu errado o pedaço que tinha à frente. O que ninguém fez foi juntar o nariz, o ouvido, as juntas, os dois nervos, o pulmão e a urina num mesmo doente.
É isso que este capítulo ensina: juntar. Febre, perda de peso e dano em vários órgãos sem uma explicação única; nariz que sangra e faz crosta sem melhorar com antibiótico; nervo que para de funcionar sem trauma, primeiro num território e depois em outro; urina com sangue e proteína; sangue no escarro. A hipótese que junta tudo tem nome — vasculite sistêmica —, e nesta enfermaria ela tem um relógio. A hemoglobina de 9,8 caiu de onde, se ele não sangra pelo intestino? A saturação de 93% vai para onde nas próximas seis horas, se o vidro fosco for sangue dentro do alvéolo? A creatinina que dobrou num ano dobrou em quantas semanas?
Antes do meio-dia você vai ter de decidir três coisas, e a ordem importa. O que se colhe antes do primeiro corticoide, porque sob dose alta a prova tuberculínica e o IGRA ficam menos confiáveis e parte das biópsias perde a inflamação que procura — e o que já chegou tarde, porque o antibiótico correu antes da hemocultura. A quem se liga agora, e com que frase, para que a reumatologia, a nefrologia e a terapia intensiva ouçam a mesma hipótese. E o que muda se, às dez horas, a hemoglobina vier 8,6 e a saturação 90%. O antibiótico do pronto-socorro continua correndo no acesso, e por enquanto ninguém sabe se ele é inútil ou se é a única coisa certa da prescrição.
Quem adoece disso
Vasculite sistêmica é rara para o hospital e rara para quem está aprendendo, e é exatamente por isso que atrasa. Nenhum interno atende vasculite toda semana; todo interno atende sinusite, dor articular, pé caído e tosse com sangue toda semana. A doença não se esconde por ser discreta — ela se esconde por se apresentar em pedaços que, isolados, pertencem a doenças comuns. A epidemiologia útil aqui não é decorar a incidência: é entender por que o doente chega à enfermaria depois de passar por vários profissionais, e o que o sistema de saúde brasileiro oferece quando o nome finalmente aparece.
O protocolo federal da vasculite associada ao ANCA, publicado em julho de 2025, registra que não há estudo abrangente de incidência e prevalência dessa doença no Brasil. Os números latino-americanos que ele traz vêm de prontuários de centros de referência: no Peru, 5,16 casos de vasculite primária por milhão de habitantes, com a poliangiite microscópica como a mais frequente; na Argentina, 14 casos novos por milhão por ano de poliangiite microscópica e 9 de granulomatose com poliangiite, com prevalência de 5,2 e 7,4 por 100 mil, nessa ordem. Fora do continente, as incidências citadas vão de cerca de 13 a 21 casos por milhão por ano, e a prevalência fica entre 200 e 400 casos por milhão. Pela faixa internacional, uma cidade de 500 mil habitantes produz de seis a dez casos novos por ano e tem de cem a duzentas pessoas vivendo com a doença — poucos o bastante para que o clínico de uma unidade básica passe anos sem ver um caso.
O mesmo protocolo situa o início entre os 50 e os 70 anos, com a poliangiite microscópica numa faixa um pouco mais velha que a granulomatose com poliangiite, e uma relação próxima de um homem para uma mulher, com leve predomínio feminino na poliangiite microscópica nas séries latino-americanas. O rim é o órgão que decide o futuro: mesmo com o tratamento atual, cerca de 30% dos pacientes com glomerulonefrite associada ao ANCA chegam à doença renal terminal em cinco anos. É por isso que a urina de quem tem sinusite rebelde, dor articular e perda de peso não é um detalhe do exame — é a variável que separa um tratamento eletivo de uma corrida contra o tempo.
Para as vasculites de grandes vasos, a idade é o primeiro filtro. A arterite de células gigantes praticamente não existe antes dos 50 anos, e esse é o corte que o capítulo de cefaleia no pronto-socorro usa para mandar pensar nela; a diretriz americana de 2021 a descreve como mais comum em pessoas de ascendência do norte da Europa com mais de 50 anos. A arterite de Takayasu é o oposto: a mesma diretriz a descreve como mais comum em mulheres jovens. Para nenhuma das duas, e também para a polimialgia reumática, a poliarterite nodosa, a doença de Behçet, a vasculite por IgA do adulto e a vasculite crioglobulinêmica, há dado brasileiro de frequência que se possa citar com segurança — e o leitor deve desconfiar de número redondo sobre essas doenças que não traga a população de onde saiu.
Há uma epidemiologia do acesso, e ela mudou em 2026. Até a publicação do protocolo, o ANCA por ensaio imunoenzimático — o teste que distingue antiproteinase 3 de antimieloperoxidase — não estava no SUS, e o próprio protocolo de 2025 escreve isso duas vezes. Em 8 de janeiro de 2026 a Portaria SCTIE/MS nº 2 incorporou os dois testes, publicada no Diário Oficial de 12 de janeiro com prazo de 180 dias para a oferta: o prazo venceu em 11 de julho de 2026. O interno de hoje pode e deve pedir o exame; se o laboratório do hospital ainda não o faz, isso é falha de oferta a registrar, não ausência de indicação.
O resto do acesso tem lacunas que o interno precisa conhecer antes de prometer um remédio. O protocolo cobre a indução da granulomatose com poliangiite e da poliangiite microscópica, e não cobre a manutenção nem a granulomatose eosinofílica. A ciclofosfamida venosa e a metilprednisolona chegam ao doente pelo procedimento de pulsoterapia, fornecidas pelo serviço. O rituximabe está na Rename 2024 vinculado ao protocolo da vasculite, para a indução nos grupos que ele define e para a recidiva. Já a azatioprina, o metotrexato e o micofenolato constam da relação com uma lista de protocolos norteadores em que nenhum é de vasculite, e o tocilizumabe só aparece ligado à artrite reumatoide e à artrite idiopática juvenil. Nenhum protocolo clínico federal trata arterite de células gigantes, polimialgia, Takayasu, poliarterite nodosa, Behçet ou vasculite por IgA, e a Rename 2024 não cita nenhuma dessas doenças: nelas, a régua deste capítulo é internacional e está dita, bloco a bloco, com a data.
O protocolo trata a vasculite associada ao ANCA dentro da Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras e orienta que o doente com suspeita seja encaminhado, de preferência, a serviço especializado ou de referência em doenças raras. Na prática de enfermaria isso significa duas coisas. A primeira é que o nome muitas vezes aparece numa internação em hospital geral, longe do ambulatório de referência — como no leito 14. A segunda é que a alta precisa sair com a ponte pronta para esse serviço, porque o tratamento dura anos, e a maior ameaça do primeiro ano não é só a doença: a diretriz americana de 2021 pesou a infecção ao preferir o esquema de corticoide em dose reduzida, que se associou a menos infecção, e ao se posicionar contra a plasmaférese na hemorragia alveolar, sem benefício demonstrado e com mais infecção grave. A KDIGO 2024 acrescenta a consideração individual de plasmaférese em hemorragia alveolar hipóxica e doença renal grave/rápida; essa nuance orienta a conduta atual apresentada no capítulo.
Por que acontece o que acontece
Vasculite é inflamação da parede do vaso, e quase tudo o que ela produz no doente sai de duas consequências dessa inflamação. A primeira é a luz: a parede inflamada engrossa, o fluxo cai e o território irrigado sofre isquemia — é o braço que cansa ao pendurar roupa, o intestino que dói depois de comer, o nervo que para. A segunda é a própria parede: inflamação que necrosa enfraquece o vaso, que se dilata em aneurisma, rompe ou deixa o sangue passar para o tecido — é a púrpura, a hemorragia dentro do alvéolo, o sangue na urina. Qual das duas domina depende do calibre do vaso atingido, e é por isso que a classificação que organiza este capítulo é por tamanho de vaso, e não por órgão.
O protocolo brasileiro usa como referência a nomenclatura da conferência de consenso de Chapel Hill, de 1994, revista e publicada em 2013. Nela, as vasculites de grandes vasos são a arterite de células gigantes e a arterite de Takayasu, que atingem a aorta e seus ramos principais. As de médios vasos são a poliarterite nodosa e a doença de Kawasaki, que atingem as artérias que irrigam vísceras. As de pequenos vasos se dividem em dois grupos: as associadas ao ANCA — granulomatose com poliangiite, poliangiite microscópica e granulomatose eosinofílica com poliangiite — e as por imunocomplexos, como a doença antimembrana basal glomerular, a vasculite crioglobulinêmica e a vasculite por IgA. Há ainda as de calibre variável, cujo exemplo principal é a doença de Behçet; as de órgão único; as associadas a doença sistêmica, como lúpus e artrite reumatoide; e as associadas a causa provável — vírus da hepatite B, vírus da hepatite C, drogas. O calibre é tendência, não regra: a vasculite associada ao ANCA pode atingir artérias médias, e a arterite de células gigantes pode poupar a temporal e atingir só a aorta.
Na vasculite associada ao ANCA, o anticorpo é dirigido contra duas enzimas guardadas nos grânulos do neutrófilo, a proteinase 3 e a mieloperoxidase. Em repouso, elas ficam dentro da célula. Quando o neutrófilo é ativado por uma infecção ou por citocinas inflamatórias, parte dessas enzimas vai para a superfície, o anticorpo se liga, e o neutrófilo, já colado ao endotélio, degranula ali mesmo e destrói a parede do capilar, da arteríola e da vênula. O dano é necrosante e deixa pouco imunocomplexo depositado — daí o nome pauci-imune que o patologista escreve na biópsia renal. No glomérulo, a necrose do capilar deixa sangue e fibrina escaparem para o espaço de Bowman, e a proliferação de células em torno disso forma os crescentes da glomerulonefrite rapidamente progressiva. No pulmão, a mesma lesão no capilar alveolar enche o alvéolo de sangue. Esse mecanismo explica duas coisas que o interno vai usar: por que uma infecção pode desencadear recidiva, e por que o título do ANCA não é termômetro da atividade — o anticorpo é necessário, mas é o neutrófilo ativado que faz o estrago.
As três doenças do grupo diferem pelo que se soma à vasculite. Na granulomatose com poliangiite há granuloma — inflamação organizada que destrói tecido e forma massa —, e é ele que perfura o septo e afunda o nariz, erode os seios da face, ocupa a órbita, estreita a subglote e escava nódulos no pulmão; o anticorpo mais associado é o antiproteinase 3. Na poliangiite microscópica não há granuloma: é a vasculite pura, que atinge rim e pulmão e é, pelo protocolo brasileiro, a principal causa de síndrome pulmão-rim; o anticorpo mais associado é o antimieloperoxidase. Na granulomatose eosinofílica com poliangiite, o eosinófilo entra em cena sobre um terreno alérgico: asma de início adulto que piora, pólipos nasais, eosinofilia no sangue, infiltrados pulmonares que mudam de lugar e, quando vira vasculite, mononeurite e acometimento do coração. É por isso que a asma que piora com eosinofilia alta num adulto não é só assunto de pneumologia.
Nas vasculites por imunocomplexos, o dano começa fora da célula. Na vasculite crioglobulinêmica, imunoglobulinas que precipitam em temperatura baixa formam complexos que se depositam em pequenos vasos da pele, do rim e do nervo e consomem complemento — o C4 baixo é a pista laboratorial clássica —, e o motor mais comum desses complexos é a infecção crônica pelo vírus da hepatite C. Na vasculite por IgA, complexos com IgA se depositam em vasos da pele, da parede intestinal e do glomérulo, e a biópsia de pele com imunofluorescência mostra justamente esse depósito. A distinção importa porque muda o tratamento: quando o imunocomplexo tem uma causa infecciosa, tratar a causa é parte obrigatória do tratamento da vasculite.
A poliarterite nodosa atinge artérias médias com necrose segmentar da parede. Onde a parede necrosa, forma-se microaneurisma; onde cicatriza, estenose — a angiografia abdominal mostra essa alternância nas artérias renais e mesentéricas. As consequências são isquêmicas: infarto renal e hipertensão por estreitamento da artéria renal, e não glomerulonefrite; dor abdominal depois de comer, ou perfuração; nódulos dolorosos na pele e livedo; dor no testículo. Quando a poliarterite está ligada ao vírus da hepatite B, os complexos formados por antígenos virais e anticorpos são o gatilho, e isso tem uma consequência prática que o capítulo repete mais adiante: imunossuprimir sem controlar o vírus trata a vasculite pela metade e deixa o vírus livre para se multiplicar.
Nas vasculites de grandes vasos, a inflamação é granulomatosa e ocupa a parede da aorta e de seus ramos, da adventícia à camada média. Na arterite de Takayasu, da mulher jovem, predominam a subclávia, as carótidas, a aorta e as renais: o braço que cansa, o pulso que some, a pressão diferente entre os dois braços, o sopro no pescoço e no abdome, a hipertensão de origem renal. Na arterite de células gigantes, depois dos 50 anos, a preferência pelos ramos da carótida externa e pelas artérias que irrigam o nervo óptico explica a cefaleia, a dor ao pentear, a claudicação da mandíbula e a cegueira; o acometimento da aorta e das subclávias explica a claudicação de braço e, anos depois, o aneurisma da aorta torácica. As duas produzem muita interleucina 6, e é ela que faz a febre, a anemia, a velocidade de hemossedimentação e a proteína C reativa altas e o cansaço. A polimialgia reumática compartilha essa biologia sem a parede arterial doente, o que ajuda a entender por que tantas vezes as duas aparecem no mesmo doente e por que o bloqueio do receptor de interleucina 6 serve para as duas.
Dois sinais de exame físico são o mecanismo à vista. A mononeurite múltipla acontece porque os nervos periféricos dependem de pequenas artérias próprias, os vasa nervorum; quando elas ocluem, o nervo infarta num ponto, e o déficit aparece de repente, doloroso, num território nomeado — fibular, ulnar, radial —, e depois em outro, de forma assimétrica e em degraus, ao contrário da polineuropatia do diabetes, que começa simétrica pelos pés. A púrpura palpável acontece porque a inflamação das vênulas da derme deixa passar hemácias e também edema e células inflamatórias, e é esse volume que se sente com a polpa do dedo; ela predomina onde a pressão hidrostática é maior, nas pernas de quem fica em pé, e não some à digitopressão. O tratamento segue a mesma lógica: o corticoide desliga a inflamação em horas, mas não impede a próxima onda; a ciclofosfamida mata os linfócitos que se multiplicam e, por um metabólito eliminado na urina, irrita a bexiga; o rituximabe elimina os linfócitos B que dão origem às células produtoras de anticorpo — e com eles vai parte da defesa contra infecção, a imunoglobulina G e o controle do vírus da hepatite B em quem o carrega escondido.
Como se apresenta de verdade
A vasculite sistêmica raramente chega com o próprio nome escrito no encaminhamento. Chega como febre sem foco, emagrecimento, anemia de doença crônica, sinusite que não cede, dor articular que muda de lugar, pé caído, tosse com sangue, urina escura, dor abdominal depois de comer, cefaleia nova num idoso. O que transforma essa lista numa hipótese é a soma: dois ou mais órgãos doentes ao mesmo tempo, com inflamação no sangue e sem uma infecção, um câncer ou um remédio que expliquem tudo. As seções abaixo organizam o reconhecimento pelo que o interno vê à beira do leito, e cada uma termina no ponto em que a decisão deixa de poder esperar.
A fronteira deste capítulo é declarada nos dois sentidos. A urgência renal da vasculite associada ao ANCA — a glomerulonefrite rapidamente progressiva — é do capítulo Síndrome nefrótica e síndrome nefrítica, na apostila de Nefrologia; deste capítulo são a doença sistêmica, a classificação, as manifestações fora do rim, a hemorragia alveolar e a manutenção. A urgência visual da arterite de células gigantes, com o corticoide que não espera a biópsia, é do capítulo Perda visual sem olho vermelho, na apostila de Oftalmologia; deste capítulo é a arterite de células gigantes como doença sistêmica — a biópsia e a imagem, a aortite, a retirada longa do corticoide, a recaída e a proteção óssea. A polimialgia reumática tem o reconhecimento e a decisão de não rotular como fibromialgia no capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica, desta apostila; o tratamento é deste capítulo. Este capítulo assume, porque não têm dono no nível, a poliarterite nodosa, a arterite de Takayasu, a vasculite por IgA do adulto, a vasculite crioglobulinêmica, a doença de Behçet e a mononeurite múltipla.
Ficam com os donos: a hepatite B e a hepatite C, com o rastreio de hepatite B antes de imunossuprimir, nos capítulos Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento e Hepatite C: rastreamento, diagnóstico e tratamento, na apostila de Gastroenterologia; a asma, em Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado, na de Pneumologia; a uveíte, em Olho vermelho, na de Oftalmologia; o aneurisma e a dissecção da aorta, em Aneurisma de aorta abdominal e Dissecção aórtica aguda, na de Cirurgia Vascular; a cefaleia secundária do idoso no pronto-socorro, em Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária; a osteoporose causada pelo corticoide, em Osteoporose e metabolismo ósseo, na de Endocrinologia; a vacinação do imunossuprimido, em Vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante, na de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; lúpus e artrite reumatoide, nos capítulos próprios desta apostila. A criança fica fora deste capítulo: a doença de Kawasaki tem capítulo — Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica —, e a vasculite por IgA da infância tem capítulo — Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA), na apostila de Hematologia Pediátrica —; para as duas, a regra que vale na porta é a de urgência — criança com púrpura e dor abdominal, sangue na urina ou pressão alta, ou com febre que se arrasta e olhos vermelhos, boca e mãos inflamadas, é avaliada pelo pediatra no mesmo dia.
Percurso de aprendizagem
Procure a relação entre sintomas de vias aéreas, pulmão, rim, pele e nervos. Antes de nomear a vasculite, identifique ameaça visual, hemorragia alveolar, isquemia ou perda rápida de função renal.
Diferencie suspeita clínica, anticorpos e confirmação por tecido/imagem. Aprenda o objetivo da indução e da manutenção, o cuidado com infecção e toxicidade e as situações em que a investigação acompanha tratamento urgente.
Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.
Quando pensar em vasculite: o doente que ninguém juntou
O primeiro padrão é o sistêmico sem explicação. Febre ou suor noturno, perda de peso, cansaço e dor muscular ou articular, com proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação altas e anemia, num adulto em que a investigação de infecção e de câncer não fechou. O protocolo brasileiro abre a descrição clínica exatamente com esses sintomas constitucionais e lembra que o resto depende do órgão atingido. Sozinho, esse quadro é inespecífico; ele vira pista quando se soma a um segundo órgão.
O segundo padrão são os sinais que, por si, obrigam a considerar vasculite. Púrpura palpável nas pernas. Mononeurite múltipla — um nervo nomeado que para de funcionar sem trauma e, dias depois, outro. Glomerulonefrite, isto é, sangue e proteína na urina com hemácias deformadas ou cilindros hemáticos no sedimento, sobretudo com creatinina subindo. Hemorragia alveolar. Nariz com crosta, sangue e perfuração, sinusite destrutiva, otite média serosa que não resolve ou rouquidão com estridor por estenose subglótica. Claudicação de braço, pulso ausente ou diferença de pressão entre os braços. Cefaleia nova depois dos 50 anos com dor ao pentear ou claudicação da mandíbula. Dor abdominal depois das refeições com emagrecimento e hipertensão nova.
O terceiro padrão é o de quem melhora e piora com cada tratamento parcial. A sinusite que responde uma semana a cada antibiótico, a dor articular que cede com o anti-inflamatório e volta, a pneumonia que não fecha. Nenhuma dessas trajetórias é diagnóstica, mas todas são o sinal de que o problema foi tratado por partes. O leito 14 tem as três.
Antes de chamar de vasculite, é obrigatório pensar no que a imita, porque o tratamento de uma é veneno para as outras. O protocolo brasileiro lista os imitadores que mais enganam: endocardite bacteriana subaguda, que dá febre, glomerulonefrite, lesões de pele e até ANCA positivo; tuberculose e infecção fúngica diante de nódulo pulmonar escavado; leptospirose diante de síndrome pulmão-rim; leishmaniose tegumentar, sinusite fúngica e linfoma de linha média diante de destruição do nariz; metástase pulmonar; lúpus, síndrome antifosfolípide e doença antimembrana basal glomerular; e o uso de cocaína contaminada com levamisol, que produz púrpura retiforme, lesão de linha média e ANCA falsamente positivo. A regra prática deste capítulo é simples: vasculite é diagnóstico de quem procurou infecção antes, e procurou direito.
Uma pergunta organiza a primeira conversa: quais órgãos estão doentes, e desde quando cada um? Escreva a linha do tempo por órgão, como no leito 14 — nariz há quatro meses, juntas há dois, ouvido há três semanas, nervo fibular há dez dias, nervo ulnar há quatro, pulmão há dois, rim sem data. Quando a linha do tempo mostra órgãos entrando em sequência em semanas, a doença está em atividade e acelerando, e o que se decide hoje é diferente do que se decidiria num quadro estável há anos.
Vasculite associada ao ANCA: nariz, ouvido, pulmão, rim e nervo
A granulomatose com poliangiite é a vasculite do nariz, do pulmão e do rim. O quadro clínico que o protocolo brasileiro descreve cobre quase toda a cabeça: crostas nasais, rinorreia e sangramento, perfuração do septo, nariz em sela e perda do olfato; sinusopatia com erosão óssea; gengiva em morango e úlceras orais; otite média serosa ou purulenta, granuloma no ouvido médio e perda auditiva neurossensorial; estenose subglótica; massa atrás do olho, com proptose, visão dupla e isquemia do nervo óptico, além de esclerite e uveíte. No pulmão, nódulos múltiplos e bilaterais que escavam, infiltrados e hemorragia alveolar — e um terço dos doentes com lesão pulmonar não tem sintoma respiratório. No rim, glomerulonefrite necrosante pauci-imune. Fora disso, artrite e mialgia, púrpura, nódulos e úlceras de pele, neuropatia periférica ou de nervo craniano, miocardite e pericardite.
A poliangiite microscópica é a vasculite do rim e do pulmão. O rim é o órgão mais atingido; no pulmão, a doença pode aparecer como capilarite com hemorragia alveolar ou como doença intersticial, cujo padrão mais comum, pelo protocolo, é o de pneumonia intersticial usual — o que quer dizer que o doente idoso com fibrose pulmonar e sedimento urinário alterado merece a pergunta do ANCA. Púrpura, livedo, úlceras, mononeurite múltipla e vasculite intestinal, com dor, sangramento, angina mesentérica e perfuração, completam o quadro. Ela não destrói o nariz: o nariz em sela aponta para a granulomatose.
A granulomatose eosinofílica com poliangiite começa, quase sempre, como asma — de início adulto, difícil de controlar, com rinossinusite e pólipos — e anos depois ganha eosinofilia alta, infiltrados pulmonares que mudam de lugar e, na fase vasculítica, mononeurite múltipla, púrpura, dor abdominal e acometimento cardíaco. O coração é o órgão que mata nessa doença, e a diretriz americana de 2021 recomenda ecocardiograma no momento do diagnóstico. O protocolo brasileiro de 2025 exclui expressamente essa doença, por ter fisiopatologia e tratamento distintos, e não há documento nacional que a substitua. A asma em si é do capítulo de asma; deste capítulo é perceber quando ela deixou de ser só asma — o adulto asmático cuja eosinofilia sobe, cujo corticoide oral não pode ser retirado e que começa a perder força num pé.
O que o interno precisa guardar do grupo é o que muda o gesto. Nariz destruído com urina alterada é granulomatose com poliangiite até prova em contrário. Fibrose pulmonar ou hemorragia alveolar com urina alterada num idoso pede poliangiite microscópica na lista. Asma com eosinofilia e mononeurite é granulomatose eosinofílica. E nenhuma das três se exclui por ANCA negativo: o anticorpo apoia o diagnóstico quando o quadro é típico, mas o diagnóstico continua sendo clínico e, sempre que possível, histológico.
O leito 14 cabe na primeira descrição. Nariz com crosta e sangue, ouvido com líquido, juntas, dois nervos em sequência, nódulos escavados, vidro fosco e urina com sangue e proteína somam a apresentação clássica da granulomatose com poliangiite com doença grave — grave no sentido que a diretriz americana dá à palavra: com manifestação que ameaça vida ou órgão, como hemorragia alveolar, glomerulonefrite e mononeurite múltipla.
Hemorragia alveolar: o sangramento que não precisa sair pela boca
A hemorragia alveolar é a manifestação que transforma uma investigação de enfermaria numa emergência. O capilar do alvéolo inflama, rompe e o sangue enche o espaço onde o ar deveria trocar gás. O doente fica dispneico e hipoxêmico, a radiografia e a tomografia mostram opacidades bilaterais, em geral em vidro fosco ou consolidação, e a hemoglobina cai sem que haja sangramento visível em outro lugar.
A armadilha é esperar a hemoptise. O sangue que enche o alvéolo pode não chegar à boca, ou chegar como raias discretas no escarro, como no leito 14. O conjunto que deve acender o alarme é outro: queda de hemoglobina sem perda digestiva ou urinária que a explique, infiltrado novo ou crescente e piora da oxigenação, num doente com pista de vasculite — sobretudo com sedimento urinário alterado, que desenha a síndrome pulmão-rim.
O diferencial da síndrome pulmão-rim é o que o protocolo brasileiro lista e que o capítulo de síndrome nefrítica também usa: vasculite associada ao ANCA, doença antimembrana basal glomerular, lúpus, síndrome antifosfolípide e, no Brasil, leptospirose. No leito, isso significa pedir de uma vez o ANCA, o antimembrana basal, o fator antinuclear com complemento e, com história de enchente, esgoto ou roedor, a investigação de leptospirose — e não escolher entre eles.
Hemorragia alveolar pode ocorrer sem hemoptise: queda de hemoglobina, infiltrados e hipoxemia são sinais de alerta. Acionar rapidamente terapia intensiva, nefrologia e reumatologia e tratar ameaça orgânica sem esperar biópsia. Plasmaférese não é rotina, mas pode ser considerada em hemorragia alveolar hipóxica ou doença renal grave/rápida; anti-MBG concomitante reforça a indicação, conforme KDIGO 2024.
Ao lado do leito, três perguntas separam hemorragia de pneumonia e de edema, e nenhuma delas é definitiva sozinha. A hemoglobina está caindo? A opacidade apareceu em horas e é bilateral? Há sangue e proteína na urina? Quando as três são sim num doente com pista de vasculite, trate como hemorragia alveolar enquanto a investigação corre, sem suspender o antibiótico que já está correndo — a infecção não pode ser descartada no primeiro dia.
Arterite de células gigantes além do olho, e a polimialgia que ela esconde
A arterite de células gigantes aparece depois dos 50 anos com cefaleia nova, dor no couro cabeludo ao pentear ou ao deitar sobre o travesseiro, claudicação da mandíbula ao mastigar, sintomas visuais e inflamação alta no sangue. Esse é o quadro craniano, e a perda visual — com o corticoide que não espera a biópsia — é do capítulo Perda visual sem olho vermelho. O que este capítulo acrescenta é que a doença é sistêmica e às vezes não tem nada de craniano.
A forma extracraniana, de grandes vasos, se apresenta como febre de origem obscura no idoso, emagrecimento, anemia e velocidade de hemossedimentação muito alta, com ou sem claudicação de braço, pulso radial fraco, diferença de pressão entre os braços e sopro na fossa supraclavicular ou na axila. A diretriz americana de 2021 descreve essas manifestações e recomenda imagem dos grandes vasos em todo diagnóstico novo, justamente porque a aorta e as subclávias podem estar doentes sem sintoma, e porque a aortite de hoje é o aneurisma de aorta torácica de alguns anos depois.
Na polimialgia reumática, a pessoa com mais de 50 anos passa a acordar travada nos ombros e nos quadris: em poucas semanas já não ergue os braços para se pentear, custa a sair da cama e a se levantar da cadeira, a rigidez da manhã dura horas e o sangue mostra inflamação alta. O reconhecimento e a diferença com a fibromialgia estão no capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica. A ligação com a arterite de células gigantes é o que interessa aqui: as duas convivem com frequência no mesmo doente, e a polimialgia pode ser a porta de entrada de uma arterite que ainda não deu sintoma craniano.
Por isso toda polimialgia recebe a pergunta da arterite, com as mesmas palavras em toda consulta: cefaleia nova, dor ao pentear, dor ao mastigar, alteração da visão, cansaço no braço ao levantá-lo. E recebe o exame que responde sem pergunta nenhuma: palpação das duas artérias temporais, dos pulsos radiais e braquiais, ausculta das fossas supraclaviculares e medida da pressão nos dois braços. Uma resposta positiva muda a dose, muda a pressa e muda a especialidade que precisa ver o doente.
A régua da pressa é a recomendação europeia de 2025, que atualizou a de polimialgia de 2015 e a de grandes vasos de 2018: toda suspeita de polimialgia, de arterite de células gigantes ou de Takayasu vai para avaliação por especialista, e a suspeita de arterite de células gigantes, em até 24 horas; na suspeita forte de arterite, o corticoide começa sem esperar a investigação; na maioria das suspeitas de polimialgia e de Takayasu, o corticoide pode esperar a confirmação. Nenhum documento brasileiro trata dessas decisões.
Takayasu e poliarterite nodosa: a pressão de um braço só e o nervo que infarta
A arterite de Takayasu é a vasculite de grandes vasos da mulher jovem. Começa, muitas vezes, com meses de febre baixa, cansaço, emagrecimento e dor articular, que ninguém liga a vaso nenhum; depois aparecem o braço que cansa e formiga ao ser usado, a tontura ao olhar para cima ou ao pentear, a dor no trajeto da carótida, o sopro no pescoço, na região infraclavicular e no abdome, o pulso radial fraco ou ausente e a pressão alta de difícil controle, que pode ser de origem renal.
O sinal que mais se perde é a diferença de pressão entre os braços, e ele se perde por hábito: a enfermagem mede a pressão num braço, e na doente com estenose de subclávia o braço escolhido pode ser justamente o doente, que marca uma pressão falsamente normal enquanto o outro está em 150. A consequência não é só diagnóstica — é terapêutica, porque a hipertensão renovascular fica sem tratamento e a pressão que se usa para dosar anti-hipertensivo é a errada. Na suspeita de Takayasu, a pressão se mede nos dois braços e, se possível, nas duas pernas, e se anota qual membro reflete a pressão central.
O tratamento de Takayasu não é deste bloco, mas a pressa é: a recomendação europeia de 2025 manda associar poupador de corticoide ao corticoide em todos os pacientes, e a diretriz americana de 2021 recomenda imunossupressor não corticoide junto do corticoide na doença ativa, imagem não invasiva para acompanhar a atividade e cirurgia de revascularização só com a doença quiescente, salvo ameaça a vida, a membro ou a órgão.
A poliarterite nodosa é a vasculite de artérias médias do adulto com febre, emagrecimento, dor muscular e sinais de isquemia em órgãos diferentes: mononeurite múltipla, que é das manifestações mais frequentes; livedo racemoso, nódulos dolorosos e úlceras nas pernas; dor abdominal depois das refeições, sangramento ou perfuração intestinal; dor ou inchaço no testículo; hipertensão nova com piora da função renal por infarto ou estenose de artéria renal. Não há glomerulonefrite, e o ANCA é negativo — dois dados que ajudam a separá-la da poliangiite microscópica.
Em toda suspeita de poliarterite, a sorologia de hepatite B entra no primeiro pedido. O protocolo brasileiro de hepatite B lista a poliarterite nodosa entre as manifestações extra-hepáticas que indicam tratamento antiviral, e a diretriz americana de poliarterite de 2021 declara que suas recomendações não se aplicam à doença ligada ao vírus B. O interno precisa guardar a consequência: na poliarterite com HBsAg reagente, o antiviral é parte do tratamento da vasculite, a escolha dele é do capítulo Hepatite B, e imunossupressão sem cobertura antiviral é um dos erros listados neste capítulo.
Púrpura palpável no adulto, crioglobulina e Behçet
Púrpura palpável é vasculite de pequenos vasos da pele até prova em contrário, e a primeira pergunta não é qual vasculite, e sim se ela está só na pele. Púrpura que surge em poucos dias depois de um remédio novo ou de uma infecção, sem febre alta, sem sangue na urina, sem dor abdominal e sem nervo acometido, costuma ser vasculite cutânea limitada. Púrpura com sedimento urinário alterado, dor abdominal, sangue nas fezes, mononeurite, hemoptise ou creatinina subindo é doença sistêmica, e a investigação da página seguinte começa no mesmo dia.

A vasculite por IgA do adulto dá púrpura palpável nas pernas, dor articular, dor abdominal em cólica, às vezes com sangue nas fezes, e sangue e proteína na urina. A biópsia de pele feita cedo, com imunofluorescência, mostra depósito de IgA nos vasos e fecha o nome; o rim é o que decide o seguimento, e a urina se repete mesmo depois que a pele limpa, porque a nefrite pode aparecer semanas depois da púrpura. A conduta renal de uma glomerulonefrite com proteinúria e creatinina subindo é do capítulo de síndrome nefrítica.
A vasculite crioglobulinêmica deve ser lembrada diante de púrpura, dor articular, fraqueza, neuropatia periférica e glomerulonefrite, com complemento baixo — sobretudo o C4 — e fator reumatoide positivo, num doente com hepatite C conhecida ou nunca testada. O protocolo federal de hepatite C de 2026 retira da atenção básica o tratamento de quem tem manifestação extra-hepática grave, como vasculite ou glomerulopatia: esse doente é tratado em serviço especializado, com os antivirais escolhidos pelo capítulo Hepatite C, e a vasculite grave recebe, junto deles, o tratamento imunossupressor definido pelo especialista.
A doença de Behçet é a vasculite de calibre variável do adulto jovem. O fio que a denuncia são as aftas orais dolorosas e recorrentes, várias vezes ao ano, às quais se somam úlceras genitais que deixam cicatriz, lesões de pele como pseudofoliculite e eritema nodoso, uveíte e a reação de patergia — a pústula que surge no lugar de uma picada de agulha. A doença também atinge veias e artérias: trombose venosa em lugares incomuns e aneurisma de artéria pulmonar, que se apresenta com hemoptise num jovem. A uveíte é do capítulo Olho vermelho; a colchicina, que muitos serviços usam para a doença mucocutânea, não consta da Rename 2024, e nenhum protocolo federal trata Behçet.
Em todas as três, o interno faz a mesma primeira coisa: separa pele de sistema com a urina, a pressão, o exame do abdome e o exame neurológico, e pede de uma vez as sorologias de hepatite B, hepatite C e HIV. Uma púrpura limitada à pele, com urina normal e sem órgão atingido, pode ser acompanhada ambulatorialmente com retorno curto; uma púrpura com qualquer órgão atingido não sai do hospital sem nome provisório, plano de investigação e especialista avisado.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da suspeita de vasculite responde a quatro perguntas, e a ordem delas é a ordem da segurança. É mesmo vasculite, ou é uma infecção, um câncer ou um remédio que a imitam? Se é vasculite, de que calibre e de qual grupo? Quão grave — há órgão ou vida ameaçados agora? E o que precisa ser excluído ou tratado antes de imunossuprimir? As quatro se respondem com exames colhidos de uma vez, não em sequência, porque o tempo entre um pedido e o seguinte é o tempo que a doença ganha.
O interno não decide sozinho a biópsia renal nem interpreta sozinho um anticorpo antimembrana basal — isso é do capítulo de síndrome nefrítica e do nefrologista —, mas é quem pode garantir que, quando o especialista chegar, a urina foi lida, as sorologias foram colhidas antes do pulso, a hemocultura não ficou esquecida e o anticorpo certo foi pedido. As seções abaixo são esse pedido, com a razão de cada linha.
O pedido da primeira hora, antes do primeiro corticoide
Hemograma completo, com atenção a três achados: anemia sem sangramento visível, que no doente com infiltrado pulmonar pode ser hemorragia alveolar; plaquetas e leucócitos altos da inflamação; e eosinofilia, que muda a hipótese para granulomatose eosinofílica ou para parasitose. Creatinina, ureia, sódio e potássio. Velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa. Transaminases e gama-GT, que o protocolo brasileiro inclui em toda consulta de monitorização e que servem de linha de base antes dos imunossupressores.
Urina tipo I com sedimento lido — de preferência olhado ao microscópio por quem sabe procurar hemácias deformadas e cilindros hemáticos — e relação proteína/creatinina em amostra isolada. O protocolo exige urina e creatinina para pontuar a atividade da doença, e a urina é o exame que mais frequentemente separa uma doença que pode esperar de uma que não pode. No leito 14, sangue três cruzes e proteína duas cruzes com creatinina que saiu de 0,9 para 1,6 é glomerulonefrite até prova em contrário, e a partir daqui a nefrologia entra na conversa.
Os anticorpos, de uma vez: ANCA com os ensaios imunoenzimáticos para antiproteinase 3 e antimieloperoxidase, fator antinuclear, C3 e C4 e, diante de rim e pulmão doentes juntos, o anticorpo antimembrana basal glomerular. Crioglobulinas quando há púrpura com complemento baixo ou hepatite C. Hemoculturas em dois pares quando há febre ou sopro, porque a endocardite subaguda imita vasculite e pode ter ANCA positivo — mesmo que o antibiótico já tenha começado, como no leito 14, colhe-se e registra-se a hora da primeira dose.
As sorologias que o imunossupressor exige: HBsAg e anti-HBc total, anti-HCV, anti-HIV e sífilis. Radiografia de tórax e prova tuberculínica ou IGRA para a tuberculose latente. Teste de gravidez em toda mulher em idade fértil, porque a ciclofosfamida é contraindicada na gestação. Eletrocardiograma, e ecocardiograma quando há suspeita de granulomatose eosinofílica, sopro ou dispneia desproporcional. Tomografia de tórax, se ainda não foi feita, e de seios da face na suspeita de granulomatose com poliangiite.
Esse pedido tem uma lógica de tempo que vale escrever na evolução. Os anticorpos e as sorologias não mudam em horas por causa do corticoide; a prova tuberculínica e o IGRA, sob dose alta, ficam menos confiáveis; a hemocultura depois do antibiótico perde sensibilidade; e a biópsia de artéria temporal, pela diretriz americana, deve ser feita em até duas semanas depois de iniciado o corticoide. Colher tudo na primeira hora não é pressa — é o que permite começar o corticoide logo depois sem perder nenhuma resposta.
ANCA: o exame certo, lido do jeito certo
O ANCA pode ser pesquisado por imunofluorescência indireta, que mostra um padrão de fluorescência citoplasmático ou perinuclear, ou por ensaio de fase sólida, que diz contra qual enzima o anticorpo é dirigido. O que vale para decidir é o segundo: antiproteinase 3 e antimieloperoxidase. O padrão de imunofluorescência isolado, sem a especificidade, aparece em outras doenças inflamatórias e não serve para sustentar sozinho um diagnóstico de vasculite. Desde a Portaria SCTIE/MS nº 2, de janeiro de 2026, os dois ensaios estão incorporados ao SUS, com o prazo de oferta vencido em julho.
O protocolo brasileiro autoriza o uso do anticorpo com cuidado: quadro clínico típico de vasculite de pequenos vasos com antiproteinase 3 ou antimieloperoxidase positivos pode apoiar o diagnóstico mesmo sem exame histopatológico, e o acometimento de cada órgão continua precisando ser confirmado por exame próprio — a mononeurite por estudo eletrofisiológico, a glomerulonefrite pelo sedimento urinário, o pulmão e as vias aéreas pela imagem.
Dois limites precisam estar escritos na cabeça do interno. O primeiro é o falso-positivo: o protocolo lembra que a endocardite bacteriana subaguda pode dar ANCA positivo e que a cocaína contaminada com levamisol produz ANCA, antiproteinase 3 e antimieloperoxidase falsamente positivos, com lesão de linha média e púrpura. Um ANCA positivo num usuário de cocaína com febre e sopro não autoriza pulso de corticoide antes das hemoculturas e do ecocardiograma. O segundo é o falso-negativo: ANCA negativo não exclui vasculite associada ao ANCA, sobretudo na doença limitada às vias aéreas e na granulomatose eosinofílica, e não exclui nenhuma das outras vasculites, que não têm ANCA.
No seguimento, o anticorpo muda de papel. O protocolo brasileiro registra que o ANCA que persiste positivo no fim da indução, que volta a positivar ou cujo título dobra ajuda a estimar risco de recidiva. A diretriz americana de 2021 completa com a regra de uso: não ajustar a imunossupressão com base apenas no título, e não usar o título para decidir a redose do rituximabe de manutenção. Juntando as duas, o título que sobe é motivo para examinar o doente com mais cuidado, repetir a urina e encurtar o retorno — nunca, sozinho, ordem de aumentar remédio.
Biópsia: onde rende, quanto rende e quando não se espera por ela
O protocolo brasileiro chama a biópsia do órgão acometido de padrão-ouro na suspeita de vasculite de pequenos vasos e acrescenta, no mesmo parágrafo, a frase que protege o doente grave: o início do tratamento não deve ser adiado à espera do resultado histológico. As duas coisas convivem. Biopsia-se o que for acessível e seguro; trata-se a doença que ameaça órgão sem esperar o laudo.
O rendimento muda muito com o lugar. Pelo protocolo, a biópsia de via aérea superior é positiva em cerca de 30% e a transbrônquica em cerca de 12% — o que quer dizer que uma biópsia de mucosa nasal negativa, como a que o leito 14 pode vir a ter, não afasta nada. A biópsia renal, quando a urina está alterada, confirma o diagnóstico, separa atividade de cicatriz e informa o prognóstico renal; a indicação e o momento são do nefrologista. Diante de lesão pulmonar sem outro sítio acessível, o protocolo prefere a biópsia por toracoscopia ou cirurgia aberta à transbrônquica.
Na pele, a técnica decide o laudo. A lesão de púrpura mais recente, biopsiada por punch com um fragmento para imunofluorescência, mostra a vasculite leucocitoclástica e o depósito de IgA quando ele existe. Na suspeita de poliarterite nodosa com lesão de pele, a diretriz americana de 2021 recomenda biópsia profunda, que alcance os vasos de médio calibre da derme, em vez de punch superficial; e, na neuropatia, biópsia combinada de nervo e músculo, em vez de nervo sozinho.
Na arterite de células gigantes, a diretriz americana de 2021 recomenda biópsia de artéria temporal de um lado só como primeiro passo, com segmento maior que 1 cm, feita em até duas semanas depois de iniciado o corticoide — o corticoide começa antes, e a biópsia corre atrás dele. A mesma diretriz prefere a biópsia ao ultrassom e à ressonância das artérias cranianas no contexto americano, e registra que as recomendações europeias aceitam a imagem positiva como confirmação onde há examinador experiente. No Brasil, a escolha depende do que o serviço tem: ultrassom com examinador treinado onde houver, biópsia no prazo onde não houver.
Há situações em que a biópsia não é possível — massa atrás do olho, doente anticoagulado, instabilidade — e o protocolo as reconhece. Nelas, o diagnóstico se sustenta no quadro clínico típico, no anticorpo específico e na confirmação de cada órgão por exame próprio, e isso se escreve na evolução com as palavras: biópsia não realizada por tal motivo, diagnóstico clínico sustentado por tais achados. Essa frase importa também para o acesso ao medicamento, porque o critério de inclusão do protocolo pede diagnóstico histopatológico — a contradição está registrada nas notas do critério.
Imagem: a extensão da doença e, nos grandes vasos, o diagnóstico
Na vasculite associada ao ANCA, a imagem mede a extensão e não fecha o diagnóstico. O protocolo brasileiro escreve isso de forma direta: tomografia e ressonância avaliam o quanto a doença atingiu, sem confirmar nem afastar a vasculite. Na granulomatose com poliangiite, recomenda tomografia de tórax e de seios da face no diagnóstico, repetível a cada ano no assintomático ou na suspeita de recidiva; na poliangiite microscópica, a tomografia de tórax serve para a doença intersticial e para a hemorragia alveolar.
Nas vasculites de grandes vasos a imagem muda de papel e passa a ser parte do diagnóstico. A diretriz americana de 2021 recomenda, em todo diagnóstico novo de arterite de células gigantes, imagem não invasiva dos grandes vasos — angiorressonância ou angiotomografia de pescoço, tórax, abdome e pelve —, e recomenda a mesma imagem quando a biópsia de temporal vem negativa e a suspeita clínica persiste. Na arterite de Takayasu, prefere a imagem não invasiva à angiografia por cateter para avaliar a atividade e recomenda imagem programada no seguimento, porque a estenose nova indica doença ativa mesmo sem sintoma.
Na poliarterite nodosa, a diretriz americana recomenda imagem vascular abdominal para apoiar o diagnóstico e dimensionar a doença: os microaneurismas e as estenoses das artérias renais e mesentéricas são o achado que sustenta o nome quando a biópsia não é possível. Depois de uma poliarterite grave com acometimento abdominal, recomenda repetir a imagem mesmo no doente que ficou assintomático.
Dois exames não são de imagem vascular, mas completam a extensão. O estudo eletrofisiológico confirma a mononeurite múltipla, e o protocolo brasileiro o exige para dar o nome. O ecocardiograma no diagnóstico da granulomatose eosinofílica, recomendado pela diretriz americana, procura a lesão cardíaca que decide a intensidade do tratamento.
O que se exclui antes de imunossuprimir
Tuberculose participa do diagnóstico diferencial dos nódulos escavados e do rastreio antes da imunossupressão. Coletar teste molecular/cultura de escarro quando indicado e pesquisar infecção latente conforme risco e protocolo. Planejar tratamento e momento do rituximabe com a equipe: quatro semanas é referência em situação estável, não motivo para adiar sem discussão o cuidado de ameaça orgânica. Tuberculose ativa exige tratamento e decisão conjunta; teste negativo isolado não exclui doença ativa.
Hepatite B com os dois marcadores, HBsAg e anti-HBc total. O capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento, dono desse marco, estratifica o risco de reativação conforme o esquema imunossupressor e decide entre monitorizar, tratar preventivamente ou dar profilaxia antiviral. Hepatite C, HIV e sífilis completam o painel que o protocolo da vasculite pede antes do rituximabe. Na suspeita de poliarterite, a sorologia de hepatite B é também diagnóstico etiológico.
Parasitoses. O protocolo brasileiro manda avaliar e tratar helmintíases e protozooses antes de terapia imunossupressora, lembrando que a estrongiloidíase pode se disseminar no imunossuprimido; a diretriz de doenças glomerulares da KDIGO de 2021 reforça a suspeita no imunossuprimido que viveu em área tropical, sobretudo com eosinofilia. O que inclui boa parte dos doentes atendidos no Brasil. A ivermectina consta da Rename 2024 no Componente Básico, em comprimido de 6 mg, com a dose da bula para estrongiloidíase.
Endocardite, quando há febre, sopro, uso de droga injetável, prótese valvar ou hemoculturas positivas: ecocardiograma antes de atribuir a glomerulonefrite e a púrpura à vasculite. Gestação, com teste em toda mulher em idade fértil. Fertilidade, com conversa registrada antes da ciclofosfamida, que a diretriz americana cita entre os riscos que pesam contra ela no doente jovem.
Vacinas, sempre que o tempo permitir. O protocolo brasileiro recomenda vacinar antes do rituximabe, com ênfase em influenza, pneumococo e hepatite B, e manter o registro atualizado. Qual vacina, com que intervalo antes da imunossupressão e quais estão contraindicadas é do capítulo Vacinação do adolescente, do adulto, do idoso e da gestante, que separa vacina atenuada de não atenuada; no doente grave, a vacina nunca atrasa a indução.
Atividade, dano e gravidade: as palavras que decidem o remédio
O protocolo brasileiro mede a atividade da vasculite associada ao ANCA pelo BVAS versão 3, um instrumento que pontua manifestações de nove órgãos ou sistemas, de 0 a 64. Remissão é pontuação zero; atividade é pontuação de 1 ou mais. Pontuam-se manifestações novas ou que pioraram nas últimas quatro semanas e manifestações persistentes nos últimos três meses, e só as atribuíveis à vasculite ativa — dano permanente e infecção não entram. O protocolo pede o instrumento em todas as consultas, e ele exige urina tipo I e creatinina.
Dano é outra coisa, e o protocolo o mede pelo Índice de Dano da Vasculite, cumulativo, que soma um ponto para cada item novo presente por três meses ou mais. O septo perfurado, a surdez, a doença renal crônica e a neuropatia residual são dano; não se tratam com mais imunossupressão. Confundir dano com atividade é o caminho mais curto para o excesso de corticoide.
Para planejar o tratamento, o protocolo usa a estratificação europeia em cinco níveis: doença localizada, restrita às vias respiratórias e sem sintoma sistêmico; sistêmica não crítica, sem ameaça iminente a órgão; generalizada, com risco iminente a rim ou outro órgão e creatinina abaixo de 500 µmol/L (5,6 mg/dL); grave, com insuficiência de órgão e creatinina acima desse valor; e refratária, que progride apesar de corticoide e ciclofosfamida. A diretriz americana usa duas palavras, com exemplos: grave é a vasculite que ameaça vida ou órgão — hemorragia alveolar, glomerulonefrite, vasculite do sistema nervoso central, mononeurite múltipla, coração, isquemia mesentérica, isquemia de membro ou dígito —, e não grave é a rinossinusite, a asma, o sintoma sistêmico leve, a pele sem complicação e a artrite leve.
Duas definições da mesma diretriz evitam um erro de prescrição que o capítulo discute adiante: recidiva é a volta da doença ativa depois de um período de remissão; refratária é a doença que continua ativa apesar de um curso adequado de imunossupressão. Recidiva não é refratariedade, e o remédio de uma não é necessariamente o da outra.
Na granulomatose eosinofílica, a diretriz americana recomenda usar o Five Factor Score para graduar a gravidade e guiar o tratamento. Nas vasculites de grandes vasos, a atividade é clínica, laboratorial e de imagem ao mesmo tempo, e a diretriz americana deixa uma regra de contenção para as duas doenças: marcador inflamatório que sobe sozinho, com o doente em remissão clínica, pede observação e seguimento, e não escalada de imunossupressão.
Unir as manifestações e reconhecer vasculite grave
Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Procure a relação entre sintomas de vias aéreas, pulmão, rim, pele e nervos. Antes de nomear a vasculite, identifique ameaça visual, hemorragia alveolar, isquemia ou perda rápida de função renal. O fluxo organiza a suspeita da porta até a manutenção. As tabelas separam as vasculites pelo calibre e pelo que se vê à beira do leito, contam a indução do leito 14 contra as apresentações da Rename 2024, reúnem o corticoide de partida de cada doença e mostram o que cada régua diz sobre manutenção e recidiva. A régua brasileira existe para uma decisão só — a indução da granulomatose com poliangiite e da poliangiite microscópica, pelo protocolo federal de 2025 —, e o SUS incorporou os testes de ANCA por ensaio imunoenzimático em 2026. Para manutenção, recidiva, profilaxia de Pneumocystis, granulomatose eosinofílica, poliarterite nodosa, arterite de células gigantes, polimialgia e Takayasu não há documento brasileiro, e a régua é a diretriz americana de 2021 ou a recomendação europeia de 2025, sempre nomeada. As notas registram os defeitos do protocolo que mudam o que o interno faz, com a conta.
- 1Dois ou mais órgãos doentes, inflamação no sangue e nenhuma explicação única: escreva a linha do tempo por órgão, com a data de entrada de cada um.
- 2Procure o imitador antes de dar o nome: hemoculturas se há febre ou sopro, escarro para tuberculose diante de nódulo escavado, pergunta sobre cocaína, investigação de leptospirose na síndrome pulmão-rim com exposição.
- 3Colha tudo de uma vez, antes do primeiro corticoide: urina com sedimento, relação proteína/creatinina, creatinina, hemograma, ANCA por ensaio imunoenzimático, FAN, C3 e C4, antimembrana basal se rim e pulmão, HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV, HIV, sífilis, prova tuberculínica ou IGRA, radiografia de tórax e teste de gravidez.
- 4Classifique o calibre pelo exame: pulsos e pressão nos quatro membros e cefaleia nova depois dos 50 anos apontam grandes vasos; mononeurite, livedo, dor abdominal pós-prandial e hipertensão sem glomerulonefrite, médios; púrpura, glomerulonefrite, hemorragia alveolar e vias aéreas destruídas, pequenos.
- 5Pergunte o que ameaça vida ou órgão agora: hemorragia alveolar, glomerulonefrite, mononeurite múltipla, sistema nervoso central, coração, isquemia mesentérica ou de membro, ameaça visual.
- 6Hemoglobina caindo com infiltrado novo e oxigenação piorando: terapia intensiva e reumatologia na mesma ligação, pulso de metilprednisolona sem esperar biópsia, antibiótico mantido até a infecção ser afastada.
- 7Creatinina subindo com sedimento ativo: nefrologia no mesmo dia — a urgência renal é do capítulo Síndrome nefrótica e síndrome nefrítica.
- 8Perda ou ameaça visual na suspeita de arterite de células gigantes: capítulo Perda visual sem olho vermelho, agora.
- 9Suspeita forte de arterite de células gigantes sem ameaça visual: prednisona 40 a 60 mg/dia hoje, especialista em até 24 horas, biópsia de temporal em até duas semanas e imagem dos grandes vasos.
- 10Suspeita de polimialgia sem pista de arterite, ou de Takayasu sem ameaça a órgão: especialista; na maioria dos casos o corticoide pode esperar a confirmação.
- 11Vasculite associada ao ANCA grave: indução pelo protocolo federal — metilprednisolona, prednisona e ciclofosfamida venosa, ou rituximabe nos grupos que ele define —, com antiparasitário, profilaxia de Pneumocystis e rastreio de tuberculose e hepatite B resolvidos.
- 12Poliarterite nodosa com HBsAg reagente: o antiviral faz parte do tratamento da vasculite, e a escolha é do capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento.
- 13Remissão: manutenção pela régua internacional, ANCA como alerta e nunca como dose, e revisão de dano, osso, vacinas e infecção em toda consulta.
Calibre do vaso, a pista de enfermaria e o exame que confirma
| Doença | Calibre e quem adoece | A pista que se vê à beira do leito | O que confirma | O que não pode esperar |
|---|---|---|---|---|
| Arterite de células gigantes | Grande; depois dos 50 anos | Cefaleia nova, dor ao pentear, claudicação da mandíbula; febre sem foco, braço que cansa, pressão diferente entre os braços | Biópsia de temporal (unilateral, mais de 1 cm, até duas semanas de corticoide) e imagem dos grandes vasos | Sintoma visual: corticoide agora, pelo capítulo de perda visual |
| Arterite de Takayasu | Grande; mulher jovem | Meses de febre baixa e cansaço; pulso fraco, sopros, pressão alta num braço e baixa no outro | Angiotomografia ou angiorressonância de aorta e ramos | Isquemia cerebral, de membro ou coronária; hipertensão renovascular grave |
| Poliarterite nodosa | Médio; adulto | Mononeurite múltipla, livedo, nódulos, dor abdominal pós-prandial, dor no testículo, hipertensão nova | Imagem vascular abdominal; biópsia profunda de pele ou de nervo e músculo; HBsAg | Isquemia mesentérica, perfuração, mononeurite em progressão |
| Granulomatose com poliangiite | Pequeno; 50 a 70 anos | Crosta e sangue no nariz, otite serosa, nódulos escavados, urina com sangue, mononeurite | ANCA antiproteinase 3 com quadro típico; biópsia do órgão acessível | Hemorragia alveolar, glomerulonefrite rapidamente progressiva, estenose subglótica, massa orbitária |
| Poliangiite microscópica | Pequeno; um pouco mais velha | Glomerulonefrite, hemorragia alveolar ou fibrose pulmonar, púrpura, mononeurite | ANCA antimieloperoxidase com quadro típico; biópsia renal | Síndrome pulmão-rim |
| Granulomatose eosinofílica com poliangiite | Pequeno; adulto com asma | Asma de difícil controle, pólipos, eosinofilia alta, infiltrados que migram, pé ou mão que perde força | Eosinofilia com vasculite demonstrada; ANCA pode ser negativo; ecocardiograma | Acometimento cardíaco, mononeurite, hemorragia alveolar |
| Vasculite por IgA do adulto | Pequeno, por imunocomplexo | Púrpura palpável nas pernas, dor articular, cólica abdominal, sangue na urina | Biópsia de pele com imunofluorescência: depósito de IgA | Glomerulonefrite com creatinina subindo; sangramento intestinal |
| Vasculite crioglobulinêmica | Pequeno, por imunocomplexo | Púrpura, dor articular, fraqueza, neuropatia; hepatite C conhecida ou nunca testada | Crioglobulinas, C4 baixo, fator reumatoide, anti-HCV e carga viral | Glomerulonefrite e neuropatia graves: serviço especializado, fora da atenção básica |
| Doença de Behçet | Variável; adulto jovem | Aftas orais recorrentes, úlcera genital, uveíte, pústula no local da agulha, trombose venosa incomum | Diagnóstico clínico; exame oftalmológico | Uveíte com baixa visual; hemoptise por aneurisma de artéria pulmonar |
Indução no SUS contada para o leito 14: 72 kg, 1,74 m, superfície corporal de 1,87 m²
| Fármaco e régua | Dose da régua | Conta para o leito 14 | Apresentação na Rename 2024 | Como chega ao doente |
|---|---|---|---|---|
| Metilprednisolona (protocolo federal de 2025) | 1 g IV por dia, por um a três dias | 1.000 mg por dia; 3 g em três dias | Succinato sódico, pó de 500 mg (Especializado): 2 frascos por dia, 6 no total | Procedimento de pulsoterapia, fornecida pelo serviço |
| Prednisona (protocolo federal de 2025) | 1 mg/kg/dia, sem passar de 80 mg/dia, retirada assim que a clínica permitir | 72 mg pelo peso; com os comprimidos disponíveis, 70 mg = 3 de 20 mg + 2 de 5 mg (0,97 mg/kg) | Comprimidos de 5 e 20 mg (Básico e Estratégico) | Farmácia do hospital e da unidade |
| Ciclofosfamida venosa (protocolo federal de 2025) | Referência de 15 mg/kg por pulso nas semanas 0, 2 e 4, depois a cada três semanas, com ajuste por idade, função renal e nadir hematológico; duração definida pela resposta e estratégia especializada. | 1.080 mg por pulso; 3,24 g no primeiro mês; 6 pulsos e 6,48 g até a 13ª semana; 10 pulsos e 10,8 g até a 25ª | A injetável não consta; só comprimido de 50 mg, sem protocolo de vasculite entre os norteadores | Procedimento de pulsoterapia; o protocolo lista frascos de 200 mg e de 1.000 mg |
| Rituximabe na indução (protocolo federal de 2025, só nos grupos que ele define) | 375 mg/m² por semana, quatro semanas; ou 1.000 mg nos dias 1 e 15 | 700 mg por dose (70 mL da solução), 2,8 g no total; ou 100 mL por dose, 2 g no total | Solução de 10 mg/mL para diluição (Especializado; norteadores: artrite reumatoide e vasculite ANCA) | Componente Especializado, pelos critérios de inclusão |
| Sulfametoxazol + trimetoprima (diretriz americana 2021; KDIGO 2021) | Dose baixa durante todo o curso de ciclofosfamida, ou por seis meses depois do rituximabe | 1 comprimido de 400/80 mg por dia; seis meses somam cerca de 183 comprimidos | Comprimido de 400/80 mg (Básico) | Farmácia da unidade |
| Azatioprina na manutenção (diretriz americana 2021) | Até 2 mg/kg/dia | Teto de 144 mg; 150 mg (3 comprimidos) dá 2,08 mg/kg e passa o teto; 100 mg (2 comprimidos) dá 1,39 mg/kg | Comprimido de 50 mg (Especializado), vinculado a 15 protocolos, nenhum de vasculite | O protocolo da vasculite não cobre manutenção: o serviço define o acesso e registra |
| Rituximabe na manutenção (diretriz americana 2021) | 500 mg a cada seis meses, ou 1 g a cada quatro meses | 50 mL ou 100 mL da solução por aplicação | Solução de 10 mg/mL (Especializado) | Fora do protocolo federal, que exclui a manutenção |
Corticoide de partida por doença: dose, pressa e poupador
| Doença | Dose inicial e régua | Começa antes da confirmação? | Poupador de corticoide | O que o SUS tem |
|---|---|---|---|---|
| Polimialgia reumática | Prednisona 15 a 25 mg/dia (recomendação europeia de 2025) | Na maioria das suspeitas, pode esperar a confirmação; antes, a pergunta da arterite | Inibidor do receptor de interleucina 6 em pacientes selecionados; metotrexato como alternativa | Prednisona na farmácia; tocilizumabe e metotrexato na Rename sem protocolo de polimialgia |
| Arterite de células gigantes sem ameaça visual | Prednisona 40 a 60 mg/dia (europeia de 2025, adotada aqui); a americana de 2021 usa 1 mg/kg até 80 mg | Sim, na suspeita forte; biópsia em até duas semanas | Tocilizumabe (americana de 2021) ou upadacitinibe (europeia de 2025) em selecionados; metotrexato sem acesso ou tolerância ao tocilizumabe | Tocilizumabe só vinculado a artrite reumatoide e artrite idiopática juvenil |
| Arterite de células gigantes com ameaça visual | Pulso de metilprednisolona, conforme o capítulo Perda visual sem olho vermelho | Sim, agora | Definido depois, pela reumatologia | Metilprednisolona 500 mg no Especializado |
| Arterite de Takayasu | Prednisona 40 a 60 mg/dia (europeia de 2025) | Na maioria, pode esperar a confirmação; ameaça a órgão não espera | Sempre, desde o início (europeia de 2025; americana de 2021); tocilizumabe não como primeira escolha | Metotrexato, azatioprina e micofenolato na Rename sem protocolo de Takayasu |
| Granulomatose com poliangiite ou poliangiite microscópica grave | Metilprednisolona 1 g/dia por um a três dias e prednisona 1 mg/kg até 80 mg (protocolo federal); esquema de dose reduzida preferido pela americana de 2021 | Sim: o protocolo manda não adiar à espera da histologia | Ciclofosfamida venosa ou rituximabe (protocolo federal) | Pulsoterapia pelo serviço; rituximabe no Especializado |
| Poliarterite nodosa grave sem vírus B | Pulso de metilprednisolona e ciclofosfamida (americana de 2021) | Depois de colhida a sorologia de hepatite B | Troca para outro imunossupressor na remissão; suspensão depois de 18 meses de remissão | Sem protocolo federal |
| Granulomatose eosinofílica grave | Pulso ou dose alta oral, com ciclofosfamida ou rituximabe (americana de 2021) | Doença grave não espera a histologia, pela mesma lógica que o protocolo federal usa nas outras vasculites ANCA | Na doença não grave, mepolizumabe | Mepolizumabe na Rename vinculado à asma; doença excluída do protocolo federal |
Manutenção e recidiva na vasculite associada ao ANCA: o que cada régua diz
| Situação | Protocolo federal de 2025 | Diretriz americana de 2021 | Esta apostila adota |
|---|---|---|---|
| Remissão depois de indução com ciclofosfamida ou rituximabe | Não trata a manutenção | Rituximabe preferido a metotrexato ou azatioprina; os dois preferidos ao micofenolato | Rituximabe onde o serviço tiver acesso; azatioprina até 2 mg/kg/dia onde não tiver, com o motivo registrado |
| Duração da manutenção | Não trata | Guiada pela condição e pela preferência do paciente | Prazo escrito no plano pelo reumatologista e revisto em cada consulta |
| Recidiva grave em quem não está em manutenção com rituximabe | Seção 6.2 preconiza rituximabe na recidiva ativa e grave; seção 4 exige refratariedade à ciclofosfamida | Rituximabe em vez de ciclofosfamida | Rituximabe (ver divergências e notas) |
| Recidiva grave durante manutenção com rituximabe | Não trata | Trocar para ciclofosfamida | Ciclofosfamida |
| Doença refratária à indução | Refratária é a que progride apesar de corticoide e ciclofosfamida | Trocar para a outra terapia em vez de combinar as duas; imunoglobulina como adjuvante | Troca de terapia, decidida com o especialista |
| Hipogamaglobulinemia com infecção grave sob rituximabe | IgG abaixo de 500 mg/L numa frase e de 500 mg/dL na seguinte | Imunoglobulina com IgG baixa (exemplo: menor que 3 g/L) e infecções graves recorrentes | O corte de 3 g/L (300 mg/dL) com infecção grave recorrente |
| Profilaxia de Pneumocystis | Não menciona | Com ciclofosfamida ou rituximabe | Sulfametoxazol-trimetoprima 400/80 mg ao dia durante a ciclofosfamida e por seis meses depois do rituximabe |
| ANCA subindo em remissão | Ajuda a estimar risco de recidiva | Não ajustar a imunossupressão só pelo título | Examinar, repetir a urina e encurtar o retorno; não mexer na dose |
Critério de inclusão que o próprio protocolo não consegue cumprir. A seção 4 do protocolo federal de 2025 inclui “pacientes com diagnóstico clínico e histopatológico”. A seção 3.1 do mesmo documento diz que a biópsia pode ser inviável — massa retro-orbitária, anticoagulação —, que a de via aérea superior e a transbrônquica são positivas em só 30% e 12%, que o quadro típico com antiproteinase 3 ou antimieloperoxidase positivos pode apoiar o diagnóstico mesmo sem histopatologia e que o tratamento não deve ser adiado à espera da histologia. A conta de um caso: granulomatose com poliangiite com massa orbitária, antiproteinase 3 positivo e biópsia contraindicada preenche o diagnóstico da seção 3.1 e fica fora do protocolo pela seção 4. Na prática, registre na evolução e no laudo de solicitação por que não houve biópsia e quais achados sustentam o diagnóstico.
Rituximabe na recidiva: duas regras no mesmo protocolo. A seção 4 exige, para o rituximabe fora do diagnóstico recente em idade fértil, “recidiva (refratariedade ao tratamento com ciclofosfamida)” de doença ativa e grave. A seção 6.2 preconiza o rituximabe “para casos de recidiva” ativa e grave, sem exigir refratariedade. E a introdução, pela classificação europeia que o próprio protocolo adota, define refratária como a doença que progride apesar de corticoide e ciclofosfamida — o que não é recidiva. Conta: recidiva grave dois anos depois de uma remissão obtida com ciclofosfamida tem rituximabe pela 6.2 e não tem pela 4. Esta apostila adota a leitura da 6.2, coerente com as definições do protocolo e com a diretriz americana de 2021, que prefere rituximabe à ciclofosfamida na recidiva grave de quem não está em manutenção com ele.
Imunoglobulina G sob rituximabe com duas unidades. O protocolo chama de hipogamaglobulinemia grave a IgG “inferior a 500 mg/L” e, na frase seguinte, manda acompanhar o paciente com IgG “inferiores a 500 mg/dL”. 500 mg/L são 50 mg/dL, ou 0,5 g/L; 500 mg/dL são 5 g/L — fator 10. A diretriz americana de 2021 dá como exemplo de hipogamaglobulinemia que justifica reposição, com infecções graves recorrentes, a IgG abaixo de 3 g/L. O primeiro número do protocolo está seis vezes abaixo desse corte e o segundo, 1,67 vez acima: pelo primeiro, quase ninguém recebe imunoglobulina; pelo segundo, recebe quem tem redução discreta. Este capítulo usa 3 g/L com infecção grave recorrente.
Teste dado como indisponível e já incorporado. O protocolo escreve, no diagnóstico e de novo na monitorização, que a pesquisa de antiproteinase 3 e antimieloperoxidase não está disponível no SUS, e no diagnóstico acrescenta que não é preconizada. A Portaria SCTIE/MS nº 2, de 8 de janeiro de 2026, publicada em 12 de janeiro, incorporou os dois testes com 180 dias para a oferta — prazo vencido em 11 de julho de 2026. O interno pede os dois ensaios; laboratório que não os oferece é falha de oferta, não contraindicação.
Sorologia com uma sigla que não existe. Antes do rituximabe, o protocolo manda “testes de sorologia para HIV, HBV, HBC e sífilis”. HBC não é vírus. Se a sigla quis dizer vírus da hepatite C, falta o anti-HBc total, que o protocolo federal de hepatite B de 2023 combina com o HBsAg para estratificar o risco de reativação antes de imunossupressão. Se quis dizer anti-HBc, falta o anti-HCV, e o mesmo protocolo lista hepatite C entre as contraindicações do rituximabe. Peça os cinco: HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV, anti-HIV e sífilis.
Contraindicações que proíbem o tratamento que o protocolo prescreve. A metilprednisolona é contraindicada no texto em “doença renal” e em hipertensão arterial sistêmica, e a prednisona em “doença renal” e em hipertensão descompensada, no mesmo protocolo que define doença grave por creatinina acima de 5,6 mg/dL e prescreve metilprednisolona 1 g/dia para a vasculite grave. A conta do leito 14: creatinina de 1,6 mg/dL com glomerulonefrite e pressão de 148/92 mmHg; lido ao pé da letra, o protocolo contraindicaria as duas drogas da indução exatamente no doente em que o rim está em risco. A glomerulonefrite ativa é indicação do pulso, não contraindicação; a hipertensão se trata junto.
Rituximabe na hepatite B: proibido numa seção, permitido na outra. Nos esquemas de administração, o protocolo diz que o rituximabe é contraindicado em pacientes com hepatite B ou C; na monitorização, admite o rituximabe na infecção crônica pelo vírus B com antiviral simultâneo e avaliação do infectologista. Na mesma direção da monitorização vão o capítulo de síndrome nefrítica, que registrou a contradição, e o capítulo Hepatite B, que estratifica a reativação e define a profilaxia. Este capítulo segue a monitorização: HBsAg ou anti-HBc reagentes não fecham a porta do rituximabe; abrem a conversa com quem decide o antiviral.
A conduta, hora a hora
A conduta da vasculite associada ao ANCA acontece em quatro relógios ao mesmo tempo: horas, para a hemorragia alveolar; dias, para a indução; meses, para a remissão e a manutenção; anos, para a recidiva e o dano. O interno não escolhe o indutor sozinho, mas é quem colhe o que o corticoide atrapalha, quem percebe a hemoglobina caindo, quem escreve a prescrição que a equipe decidiu, quem confere se a profilaxia entrou e quem deixa a alta com a ponte pronta. Os marcos abaixo seguem o leito 14 da manhã de segunda-feira até uma recidiva dois anos depois.
As decisões seguem a ameaça ao órgão: oxigenar e monitorar, avaliar infecção em paralelo, colher os exames que puderem ser obtidos prontamente e discutir imunossupressão urgente. Hemorragia alveolar hipóxica ou glomerulonefrite rapidamente progressiva não devem aguardar painel completo ou biópsia. Os marcos narram a evolução deste paciente; não constituem prazos mínimos de espera nem uma prescrição para toda vasculite.
Segunda-feira, 7h40 a 9h — juntar, colher e ligar
Na admissão, avaliar respiração, circulação, diurese e evolução da função renal; colher hemograma, urina, creatinina, eletrólitos, culturas quando indicadas, ANCA com especificidade PR3/MPO e anti-MBG, junto da investigação infecciosa pertinente. Solicitar imagem torácica e discussão imediata com nefrologia e reumatologia. Preferir amostras antes da imunossupressão quando obtidas sem demora. Se houver ameaça pulmonar ou renal, o tratamento começa enquanto se completa a investigação.
Prescrição- Oximetria contínua; oxigênio suplementar se a saturação cair, com a meta combinada com a equipe
- Hemograma, creatinina, ureia, sódio, potássio, VHS, PCR, TGO, TGP e gama-GT
- Urina tipo I com sedimento lido e relação proteína/creatinina em amostra isolada
- ANCA antiproteinase 3 e antimieloperoxidase por ensaio imunoenzimático, FAN, C3, C4 e anticorpo antimembrana basal glomerular
- HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV, anti-HIV, sífilis e IGRA ou prova tuberculínica
- Hemoculturas, dois pares, com registro da hora da primeira dose do antibiótico
- Escarro para teste rápido molecular de tuberculose e cultura
- Manter o antibiótico prescrito no pronto-socorro
- Hemoglobina repetida em seis horas ou antes, se piorar a respiração
Segunda-feira, 10h — a hemoglobina de 8,6
A queda de hemoglobina para 8,6 g/dL, hipoxemia e opacidades bilaterais levantam hemorragia alveolar, mesmo sem hemoptise. Monitorar em ambiente de alta vigilância, fornecer oxigênio e acionar terapia intensiva conforme evolução. A equipe inicia metilprednisolona EV em pulso pela ameaça à vida, com investigação infecciosa e de síndrome pulmão-rim em paralelo. Plasmaférese não é automática, mas hipoxemia por hemorragia alveolar é uma situação em que a KDIGO 2024 permite considerá-la; anti-MBG associado torna a indicação mais forte.
Prescrição- Metilprednisolona 1 g IV uma vez ao dia por três dias: 2 frascos de 500 mg por dose, pela pulsoterapia do serviço
- Ivermectina na dose da bula para estrongiloidíase, junto do primeiro pulso, sem atrasá-lo
- Glicemia capilar antes das refeições e ao deitar durante os pulsos
- Pressão arterial a cada quatro horas
- Critérios de transferência para a terapia intensiva escritos na prescrição: saturação caindo com oxigênio, frequência respiratória subindo, nova queda de hemoglobina
- Discutir plasmaférese caso a caso com a equipe: não é rotina em toda vasculite, mas pode ser considerada em hemorragia alveolar com hipoxemia, deterioração renal grave/rápida ou necessidade dialítica; associação com anti-MBG reforça a indicação. Ponderar benefício incerto e risco infeccioso.
Quarta-feira, dia 3 — os resultados e a escolha do indutor
PR3-ANCA positivo, doença de vias aéreas, nódulos pulmonares e acometimento renal sustentam granulomatose com poliangiite grave no contexto do caso; a biópsia renal ajuda a confirmar e estimar atividade/dano sem atrasar indução necessária. Rituximabe e ciclofosfamida são opções de indução associadas ao corticoide. A escolha considera risco infeccioso, fertilidade, exposição prévia, recidiva, função renal, preferência e acesso; rituximabe não se limita a pessoas em idade fértil. Aqui a equipe escolhe ciclofosfamida e discute consentimento, preservação reprodutiva quando pertinente, dose ajustada e monitorização.
Prescrição- Se escolhida ciclofosfamida EV, calcular o pulso pelo protocolo de indução, com ajustes por idade, função renal e nadir hematológico. A conta de 15 mg/kg × 72 kg = 1.080 mg é ilustrativa antes dos ajustes; confirmar a dose efetiva antes de cada administração. Os intervalos iniciais de duas semanas e depois três semanas dependem do esquema selecionado.
- Antiemético antes de cada pulso, como recomenda o protocolo
- Hidratação oral ou venosa e micções frequentes no dia do pulso, pela toxicidade vesical da droga
- Glucocorticoide após o pulso: definir dose inicial com a equipe e plano explícito de redução precoce conforme gravidade e resposta. A dose de 70 mg é um exemplo de início, não uma dose para manter automaticamente até a próxima consulta; protocolos de menor exposição reduzem toxicidade.
- Sulfametoxazol + trimetoprima 400/80 mg, 1 comprimido ao dia, durante todo o curso de ciclofosfamida
- Hemograma com neutrófilos e plaquetas, creatinina, urina e pesquisa de infecção antes dos pulsos; acompanhar também o nadir hematológico no período previsto pelo protocolo. Ajustar ou adiar a dose por toxicidade e calcular exposição cumulativa pelas doses realmente administradas.
- Proteção óssea iniciada e conduzida pelo capítulo Osteoporose e metabolismo ósseo
- Conversa sobre fertilidade e sobre os riscos da ciclofosfamida registrada antes do primeiro pulso
Quinta e sexta-feira, dias 4 e 5 — o que vigiar enquanto a indução começa
A resposta respiratória e o conjunto da investigação são reavaliados diariamente. Hemoculturas negativas em 72 horas e testes moleculares negativos para tuberculose reduzem algumas probabilidades, sem excluí-las isoladamente. A equipe decide sobre manter ou suspender antimicrobianos pela evolução, qualidade das amostras e diagnóstico alternativo convincente; piora durante a imunossupressão exige reabrir a hipótese infecciosa.
Prescrição- Correção da glicemia pelo protocolo de insulina do serviço enquanto durar a dose alta
- Anti-hipertensivo com meta combinada com a nefrologia
- Fisioterapia motora e órtese para o pé caído
- Reavaliar diariamente a necessidade de antibiótico pelo conjunto clínico, amostras, imagens e evolução. Culturas negativas e testes iniciais negativos para tuberculose não excluem isoladamente infecção nem autorizam interrupção automática.
- Cultura de micobactéria com responsável e data de cobrança anotados
- Vacinas não vivas planejadas pelo capítulo de vacinação, sem atrasar a indução
Semana 2 — segundo pulso e alta com a ponte pronta
Eulálio recebe o segundo pulso de ciclofosfamida no hospital-dia e vai para casa com a biópsia renal feita e o laudo prometido para a consulta seguinte. A alta não é um papel com a lista de remédios: é a transferência de uma doença rara para o serviço especializado que o protocolo indica, com o que já foi feito, o que foi colhido, o que ficou pendente e os sinais que o trazem de volta no mesmo dia. O protocolo pede consulta mensal com exames enquanto a doença estiver ativa, e o BVAS em todas elas.
Prescrição- Retorno no hospital-dia para o pulso da semana 4, com hemograma, creatinina e urina colhidos na véspera
- Entregar o esquema de corticoide com datas e doses de redução definidas pela equipe e retorno precoce. Não manter 70 mg até uma consulta indefinida. Orientar sinais de infecção, toxicidade e quando procurar atendimento antes do retorno.
- Sulfametoxazol + trimetoprima 400/80 mg ao dia
- Voltar no mesmo dia se houver febre, falta de ar, sangue no escarro, urina escura ou em pouca quantidade, fraqueza ou dormência nova
- Consulta mensal com hemograma, creatinina, TGO, TGP, gama-GT, urina tipo I e relação proteína/creatinina, com BVAS em cada consulta
- Resumo de alta com a linha do tempo por órgão, os resultados, as doses acumuladas e as pendências
Mês 3 — remissão e a descida do corticoide
Durante a indução, seguir sintomas, oxigenação, hemograma, creatinina, sedimento urinário, proteinúria e toxicidade. A redução do corticoide começa precocemente conforme o esquema escolhido. A duração e o número de pulsos dependem da remissão e da tolerância, sem prolongar ciclofosfamida como manutenção. Somar a dose cumulativa pelas administrações reais: seis pulsos de 1.080 mg corresponderiam a 6,48 g apenas se nenhum exigisse ajuste.
Prescrição- Encerrar a ciclofosfamida na remissão: 6 pulsos, 6,48 g acumulados, registrados no resumo
- BVAS versão 3 igual a zero e índice de dano anotados
- Prednisona na dose definida pela reumatologia, com a meta de retirada escrita no plano
- ANCA positivo sem mudança de dose; urina e creatinina em cada consulta
- Sulfametoxazol + trimetoprima mantido enquanto a prednisona passar de 20 mg/dia junto do imunossupressor de manutenção
- Audiometria e avaliação otorrinolaringológica para o dano auditivo
Mês 4 — a manutenção que o protocolo não cobre
A manutenção não está no protocolo federal. A régua é a diretriz americana de 2021: rituximabe preferido a metotrexato ou azatioprina, e os dois preferidos ao micofenolato. O rituximabe de manutenção, porém, fica fora do protocolo que o disponibiliza no Componente Especializado, e a azatioprina consta da Rename 2024 vinculada a quinze protocolos, nenhum de vasculite. A reumatologia do serviço de referência registra a escolha e o motivo: azatioprina, dentro do teto de 2 mg/kg/dia da diretriz americana, com o acesso organizado pelo próprio serviço. Com comprimidos de 50 mg, o teto de 144 mg não fecha em comprimido inteiro — 150 mg dariam 2,08 mg/kg —, e a dose de partida é de 100 mg. A duração, que a diretriz americana deixa para a condição e a preferência do doente, fica escrita no plano e é revista em cada consulta.
Prescrição- Azatioprina 100 mg VO ao dia: 2 comprimidos de 50 mg (1,39 mg/kg), com ajuste pela reumatologia sem passar de 144 mg/dia
- Hemograma, TGO, TGP e gama-GT em cada consulta, como na monitorização do protocolo
- Registro do motivo da escolha: manutenção fora do protocolo federal; azatioprina pela diretriz americana de 2021
- Prazo da manutenção escrito no plano e revisto em cada consulta
- Consultas a cada dois a três meses no início da remissão, como prevê o protocolo
Mês 26 — a recidiva que pede rituximabe
Dois anos depois do diagnóstico, ainda em manutenção com azatioprina, Eulálio volta com uma semana de epistaxe, sangue no escarro, urina escura e creatinina que subiu de 1,3 para 2,0 mg/dL; a tomografia mostra dois nódulos novos. É recidiva grave, e a piora renal volta a ser urgência do capítulo de síndrome nefrítica. A pergunta de enfermaria é qual indutor, e o protocolo federal responde de dois jeitos: a seção 6.2 preconiza o rituximabe para a recidiva ativa e grave; a seção 4 o restringe a quem é refratário à ciclofosfamida — e Eulálio não é refratário, entrou em remissão com ela. Esta apostila adota a seção 6.2, coerente com as definições do próprio protocolo e com a diretriz americana, que prefere o rituximabe na recidiva grave de quem não está em manutenção com ele; a justificativa vai escrita no laudo. Antes da primeira dose, repetem-se as sorologias e a IgG de base.
Prescrição- Rituximabe 1.000 mg IV nos dias 1 e 15 — 100 mL da solução de 10 mg/mL por dose —, com a seção 6.2 do protocolo citada no laudo
- Pré-medicação 30 a 60 minutos antes: analgésico ou antipirético, anti-histamínico e glicocorticoide
- Infusão iniciada a 50 mg/h, aumentando 50 mg/h a cada 30 minutos sem reação, até 400 mg/h, em local com recursos de reanimação
- Metilprednisolona 1 g IV por dia, por um a três dias conforme a gravidade, seguida de prednisona na dose da reumatologia
- HBsAg, anti-HBc total, anti-HCV, anti-HIV e IgG antes da primeira dose; IgG de novo em quatro a seis meses
- Sulfametoxazol + trimetoprima 400/80 mg ao dia por seis meses depois do rituximabe
- Azatioprina: suspensão decidida pela reumatologia com a entrada do rituximabe
- Nefrologia avisada no mesmo dia da nova piora renal
Como saber se está funcionando
Reavaliar uma vasculite é separar, a cada consulta, três coisas que se parecem: atividade da doença, dano que ficou e efeito do tratamento. A febre pode ser vasculite ativa ou infecção pelo imunossupressor; a creatinina alta pode ser glomerulonefrite em atividade ou cicatriz; o pé que não levanta pode ser nervo ainda inflamado ou nervo que já perdeu fibras. Cada parâmetro abaixo tem o momento de ser medido, o que se espera dele e o que fazer quando não vem.
O protocolo federal pede consulta mensal com exames enquanto a doença está ativa, a cada dois a três meses no início da remissão e a cada três a seis meses na remissão de mais de dois anos, com hemograma, creatinina, transaminases, gama-GT, urina tipo I e proteinúria em todas, e o BVAS versão 3 em todas. Os parâmetros de internação vêm antes, porque é neles que a vasculite grave mata.
Esperado: Hemoglobina estável e oxigênio sendo retirado nos primeiros dias depois do pulso, com as opacidades regredindo em seguida
Se não melhora: Reavaliar via aérea, oxigenação, sangramento, infecção e função renal; ampliar suporte em ambiente apropriado e discutir a indução com especialistas. Na hemorragia alveolar hipóxica, considerar plasmaférese individualmente; não limitá-la exclusivamente ao anti-MBG positivo.
Esperado: Creatinina estabilizando nas primeiras semanas e hematúria e proteinúria caindo ao longo dos meses de indução
Se não melhora: Creatinina que sobe ou sedimento que volta a ter cilindros é urgência do capítulo de síndrome nefrítica; a biópsia renal separa atividade de cicatriz, e cicatriz não se trata com mais imunossupressão
Esperado: Sem citopenia importante; linfócitos em torno de 1.000 por mm³, a referência que o protocolo usa para ajustar a dose
Se não melhora: Citopenia leva a equipe a ajustar ou adiar o pulso; febre com neutrófilos baixos é emergência de imunossuprimido, com hemoculturas e antibiótico no mesmo atendimento
Esperado: Glicemia e pressão controladas com tratamento, sono e humor tolerados, dose de prednisona descendo conforme o plano
Se não melhora: Trate a glicemia, a pressão e a insônia; não reduza o corticoide por conta própria para resolver o efeito colateral — leve o problema à reumatologia, que decide o ritmo da retirada
Esperado: BVAS igual a zero no fim da indução, entre três e seis meses; índice de dano estável, com a neuropatia melhorando lentamente ao longo de meses
Se não melhora: Doença que continua ativa apesar de um curso adequado é refratária: a diretriz americana recomenda trocar para a outra terapia de indução em vez de combinar as duas, com imunoglobulina como adjuvante; o que não melhora e não inflama é dano e vai para reabilitação
Esperado: Nenhuma infecção grave; profilaxia de Pneumocystis tomada durante toda a ciclofosfamida e por seis meses depois do rituximabe; IgG preservada
Se não melhora: Infecção no imunossuprimido se investiga com hemoculturas e imagem no mesmo dia; IgG abaixo de 3 g/L com infecções graves recorrentes sob rituximabe é indicação de discutir imunoglobulina, pela diretriz americana
Esperado: Remissão sustentada; o ANCA pode continuar positivo sem que isso signifique atividade
Se não melhora: Órgão que volta a adoecer é recidiva, graduada como grave ou não grave; ANCA que sobe sozinho pede exame cuidadoso, urina repetida e retorno mais curto, sem mudança de dose, como recomenda a diretriz americana
Onde o erro machuca
O dano: A glomerulonefrite da vasculite associada ao ANCA não dói e não incha no começo: enquanto cada órgão recebe o seu tratamento parcial, o rim perde função em semanas. O protocolo federal registra que cerca de 30% dos pacientes com glomerulonefrite associada ao ANCA chegam à doença renal terminal em cinco anos mesmo tratados — e cada semana de atraso aumenta o que já não volta.
Como pegar a tempo: Adulto com doença de vias aéreas superiores que não resolve e um segundo órgão doente, ou sintomas constitucionais, faz urina tipo I com sedimento e creatinina na mesma consulta. Escreva a linha do tempo por órgão; se dois ou mais estão doentes, a hipótese de vasculite entra no papel e o ANCA por ensaio imunoenzimático entra no pedido.
O dano: O sangue que enche o alvéolo pode nunca chegar à boca. Quem espera a hemoptise costuma começar o pulso de corticoide depois da intubação, e não antes dela.
Como pegar a tempo: Hemoglobina caindo sem outra perda, opacidade pulmonar nova ou crescente e oxigenação piorando, num doente com pista de vasculite, são hemorragia alveolar até prova em contrário: terapia intensiva e reumatologia na mesma ligação e pulso de metilprednisolona sem esperar biópsia, como autoriza o protocolo federal.
O dano: Sob dose alta, a prova tuberculínica e o IGRA ficam menos confiáveis; a endocardite subaguda, que pode ter ANCA positivo, recebe imunossupressão; o nódulo escavado da tuberculose é chamado de granuloma da vasculite; e a estrongiloidíase, que o protocolo federal manda tratar antes de imunossuprimir, pode se disseminar.
Como pegar a tempo: Na primeira hora, antes do corticoide: urina, creatinina, ANCA, FAN, complemento, antimembrana basal, HBsAg, anti-HBc, anti-HCV, HIV, sífilis, IGRA ou prova tuberculínica, hemoculturas se há febre ou sopro e escarro para tuberculose diante de nódulo escavado. Antiparasitário junto do primeiro pulso, sem atrasá-lo.
O dano: A imunossupressão pode reativar a hepatite B em quem tem HBsAg reagente e também em quem tem só o anti-HBc reagente, e o rituximabe e o corticoide em dose alta estão no centro do tratamento da vasculite. Na poliarterite ligada ao vírus B, tratar só a inflamação deixa o vírus livre: o protocolo federal de hepatite B põe a poliarterite entre as indicações de antiviral.
Como pegar a tempo: HBsAg e anti-HBc total antes de qualquer imunossupressor, com o resultado lido antes da primeira dose. Qualquer marcador reagente leva ao capítulo Hepatite B: sorologia, profilaxia e tratamento, que decide monitorização, profilaxia ou tratamento. Na suspeita de poliarterite, a sorologia de hepatite B está no primeiro pedido, como diagnóstico e não só como rastreio.
O dano: A polimialgia pode ser a porta de entrada de uma arterite que ainda não deu sintoma craniano. A dose de 15 a 25 mg/dia da polimialgia fica abaixo dos 40 a 60 mg/dia que a recomendação europeia de 2025 dá para a arterite, e a doença arterial segue sem tratamento adequado — com a visão e a aorta em risco.
Como pegar a tempo: Em toda polimialgia, pergunte por cefaleia nova, dor ao pentear, dor ao mastigar, alteração visual e cansaço no braço; palpe as temporais, compare os pulsos e meça a pressão nos dois braços. Qualquer resposta positiva transforma o caso em suspeita de arterite: dose de arterite, especialista em até 24 horas e, com sintoma visual, o capítulo Perda visual sem olho vermelho agora.
O dano: O ANCA pode continuar positivo na remissão e pode subir sem que a doença volte. Ajustar a dose pelo título expõe o doente a infecção, osso frágil e diabetes sem ganho — e o ANCA negativo, lido como cura, faz perder a recidiva que aparece primeiro na urina.
Como pegar a tempo: A diretriz americana de 2021 recomenda não ajustar a imunossupressão com base apenas no título. O protocolo federal usa o ANCA persistente, que volta a positivar ou que dobra como estimativa de risco. Juntas, as duas regras dizem: título subindo é motivo para examinar, repetir a urina e encurtar o retorno; a dose muda quando um órgão muda.
O que dizer ao paciente e à família
Na vasculite, a conversa tem uma tarefa difícil: dar nome a uma doença que o doente nunca ouviu, justificar um tratamento que assusta e manter a adesão por anos a remédios que dão efeito colateral antes de dar melhora. Eulálio passou por quatro serviços e ouviu quatro explicações; a quinta precisa juntar as anteriores sem desautorizar ninguém, ou ele vai sair desconfiando de todas.
As falas abaixo são do interno, na enfermaria e na alta, com a esposa presente quando ele quis. Cada uma tem a frase que costuma sair no lugar dela e por que ela atrapalha.
Dar o nome e juntar os pedaços
““Seu Eulálio, o nariz com sangue, o ouvido tampado, as dores nas juntas, o pé que caiu, a mão dormente, o sangue no escarro e o sangue na urina não são seis problemas. São um só: uma inflamação nos vasos pequenos, que leva sangue a esses lugares. O nome é vasculite, e a mais provável no seu caso se chama granulomatose com poliangiite. Os médicos que o senhor viu antes não erraram o que viram — cada um viu uma parte. Agora a gente está vendo o conjunto.””
Não diga: “É uma doença autoimune rara, o corpo ataca ele mesmo.” A frase é verdadeira e não ajuda: não explica por que tantos órgãos ao mesmo tempo, não justifica a pressa e deixa o doente com medo de uma doença que ele não entende.
Explicar a pressa do pulso de corticoide
““O exame de sangue de agora mostrou que está entrando sangue dentro do pulmão, por causa dessa inflamação. Por isso vamos começar hoje um corticoide forte na veia, três dias seguidos, antes de ter todos os resultados. Colhemos antes tudo o que o remédio poderia atrapalhar. O senhor pode sentir o açúcar subir, a pressão subir e o sono ficar ruim; a gente vai medir e tratar cada um.””
Não diga: “É só um corticoide, fica tranquilo.” Tira a gravidade da decisão, e o doente que não sabe por que o remédio foi dado é o que abandona a prednisona em casa quando o rosto incha.
Apresentar a ciclofosfamida e falar de fertilidade
““O corticoide apaga o incêndio, mas não impede que ele volte. Para isso existe um segundo remédio, na veia, a cada duas e depois a cada três semanas, por alguns meses. É um remédio que também é usado em alguns tipos de câncer, em outra dose e por outro motivo — o senhor não tem câncer. Ele baixa a defesa e pode prejudicar a fertilidade. O senhor pensa em ter mais filhos? Essa resposta muda qual remédio a gente escolhe, então preciso perguntar antes.””
Não diga: “Vai fazer quimioterapia.” A palavra, sozinha, faz o doente e a família entenderem câncer, e a conversa sobre fertilidade — que o próprio protocolo federal cita entre os riscos da ciclofosfamida — fica para depois, quando já não muda a escolha.
Explicar a profilaxia e o risco de infecção
““Com a defesa baixa, algumas infecções que não pegariam o senhor passam a pegar. Uma delas dá pneumonia grave, e existe um comprimido que previne: um por dia, enquanto durar o remédio da veia. Também vamos dar um vermífugo agora e ver as vacinas. Febre, tosse nova ou falta de ar, a partir de hoje, não é para esperar passar: é para voltar no mesmo dia.””
Não diga: “Qualquer coisa, volta.” O doente não sabe o que é qualquer coisa. Sem a lista, a febre do quinto dia vira chá em casa e pneumonia no décimo.
Proteger a prednisona do abandono
““A prednisona é o remédio que mais vai incomodar: inchaço no rosto, fome, açúcar, sono ruim. E é o que não pode ser parado de repente, nem quando o senhor melhorar, porque o corpo para de fabricar o próprio corticoide enquanto toma o comprimido. Ela vai diminuindo aos poucos, sempre pela reumatologia. Se algum efeito ficar difícil, liga para o serviço antes de mexer na dose.””
Não diga: “Quando melhorar, pode ir tirando.” O doente tira em três dias, a doença volta e, com a suspensão brusca, pode vir insuficiência adrenal — dois problemas criados por uma frase.
Deixar os sinais de volta no mesmo dia
““Volte no mesmo dia se aparecer febre, falta de ar, sangue no escarro, urina escura, com espuma ou em pouca quantidade, sangue no nariz que não para, dormência ou fraqueza nova num braço ou numa perna. Esses são os sinais de que a inflamação voltou ou de que apareceu uma infecção, e os dois precisam ser vistos no dia. Eu escrevi tudo aqui, com o telefone do serviço.””
Não diga: “Se piorar, procura o posto.” O posto não tem a história, não tem o resumo e pode repetir o caminho de quatro meses — um tratamento por parte para cada sintoma.
Explicar a manutenção sem prometer cura
““Quando a doença acalmar, o remédio da veia para e entra um remédio mais leve, de comprimido, por um tempo longo, porque essa doença pode voltar. Vamos repetir a urina e o sangue em toda consulta, porque às vezes ela volta primeiro na urina, antes de o senhor sentir qualquer coisa. O ouvido que ficou tampado talvez não volte a ser o que era; o pé tende a melhorar devagar, com a fisioterapia.””
Não diga: “A doença foi curada.” Transforma o remédio de manutenção em opcional e a consulta de retorno em desnecessária — e a recidiva que começa silenciosa no rim só é descoberta quando já não é silenciosa.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Protocolo federal da vasculite associada ao ANCA, julho de 2025 — ciclofosfamida venosa como regra, rituximabe em grupos definidos (lado adotado)
O protocolo preconiza, para a indução, glicocorticoide com ciclofosfamida venosa ou rituximabe venoso, mas restringe o rituximabe ao adulto com diagnóstico recente em idade fértil e à recidiva ativa e grave. Apoia-se no relatório da Conitec que avaliou o rituximabe, no ensaio que mostrou não inferioridade em relação à ciclofosfamida e na comparação de subgrupo favorável ao rituximabe na recidiva. Registra, ao discutir a ciclofosfamida, os problemas de fertilidade, as infecções e o risco de câncer de bexiga, maiores com a via oral e com doses acumuladas altas.
Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 1º de julho de 2025, seções 4 e 6.2
Diretriz do American College of Rheumatology e da Vasculitis Foundation, 2021 — rituximabe preferido à ciclofosfamida
Recomenda, de forma condicional, rituximabe em vez de ciclofosfamida para a indução da doença grave, por eficácia semelhante e menor toxicidade: neutropenia, lesão de bexiga, infertilidade que pode ser devastadora num paciente jovem e risco de câncer que cresce com cursos repetidos. Reserva a ciclofosfamida para quando o rituximabe precisa ser evitado ou a doença segue ativa apesar dele, e registra como controverso se ela deveria ser preferida na insuficiência renal aguda grave, com creatinina acima de 4,0 mg/dL.
Chung SA, Langford CA, Maz M, et al. Arthritis Rheumatol. 2021;73(8):1366-83, Recomendação 1
Os dois documentos têm o mesmo escopo — o adulto com granulomatose com poliangiite ou poliangiite microscópica grave —, e o protocolo federal é o mais novo, de 2025 contra 2021; o degrau da data decide, e o da natureza confirma, porque é norma. No ponto em disputa, o protocolo não tem defeito demonstrável que derrube a regra. Esta apostila adota o protocolo para o doente do SUS: ciclofosfamida venosa na indução, e rituximabe quando o doente está em idade fértil com diagnóstico recente — a razão está no próprio texto, que lista a fertilidade entre os riscos da ciclofosfamida — ou na recidiva ativa e grave. Para o doente à sua frente, a pergunta que decide é a da fertilidade, feita antes do primeiro pulso e registrada. O lado americano continua valendo como informação para o doente e para o serviço fora do protocolo, e é o que o aluno vai encontrar em textos e em serviços de saúde suplementar.
Recomendações da EULAR para polimialgia e vasculite primária de grandes vasos, 2025, publicadas em 2026 — 40 a 60 mg/dia (lado adotado)
Para induzir remissão, orienta iniciar o glicocorticoide com 40 a 60 mg/dia de prednisona-equivalente na arterite de células gigantes e em Takayasu, e de 15 a 25 mg/dia na polimialgia, com orientação de redução. Na suspeita forte de arterite, o corticoide começa sem esperar a investigação confirmatória. Recomenda terapia adjuvante em pacientes selecionados — inibidor do receptor de interleucina 6 ou upadacitinibe na arterite — e aceita o metotrexato como alternativa.
Mukhtyar CB, Nikiphorou E, Bartoletti A, et al. Ann Rheum Dis. 2026. doi:10.1016/j.ard.2026.06.009
Diretriz do American College of Rheumatology e da Vasculitis Foundation, 2021 — dose alta definida como 1 mg/kg até 80 mg/dia
Recomenda, de forma condicional, iniciar com glicocorticoide oral em dose alta em vez de dose moderada, e define dose alta como prednisona 1 mg/kg até 80 mg/dia. Reserva o pulso venoso para a ameaça de perda visual e admite dose moderada, de 0,5 mg/kg/dia, em quem tem risco importante de toxicidade do corticoide e baixo risco de perda visual. Declara que a duração ideal do corticoide não está estabelecida.
Maz M, Chung SA, Abril A, et al. Arthritis Care Res (Hoboken). 2021;73(8):1071-87, Recomendações 9 e 11 e tabela de definições
Não há documento brasileiro sobre a arterite de células gigantes, e as duas regras são de sociedades internacionais com o mesmo escopo. O degrau da data decide: a recomendação europeia é de 2025, publicada em 2026, e a americana, de 2021. Esta apostila adota 40 a 60 mg/dia. A conta mostra onde a escolha pesa: entre 40 e 60 kg, 1 mg/kg cabe dentro da faixa europeia e as duas regras dão a mesma dose; aos 72 kg, a americana dá 72 mg contra o teto europeu de 60 mg, 1,2 vez mais; a partir de 80 kg, dá 80 mg, 1,33 vez mais — até 20 mg por dia a mais de prednisona num idoso, por semanas. Para a senhora de 61 kg à sua frente, 50 a 60 mg/dia; para o homem de 85 kg, no máximo 60 mg/dia. Com sintoma visual, a régua é a do capítulo Perda visual sem olho vermelho.
Protocolo federal da vasculite associada ao ANCA, 2025, seção 4 (critérios de inclusão) — só na recidiva com refratariedade à ciclofosfamida
Para o uso de rituximabe fora do diagnóstico recente em idade fértil, o critério de inclusão pede diagnóstico de recidiva — escrita, entre parênteses, como refratariedade ao tratamento com ciclofosfamida — de doença ativa e grave, em estágio avançado e com alto potencial de dano a órgão.
Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 1º de julho de 2025, seção 4
Protocolo federal da vasculite associada ao ANCA, 2025, seção 6.2, com a incorporação registrada na Rename 2024 e a diretriz americana de 2021 — em toda recidiva ativa e grave (lado adotado)
A seção de tratamento preconiza o rituximabe para os casos de recidiva ativa e grave, sem exigir refratariedade, e a introdução do mesmo protocolo define doença refratária como a que progride apesar de glicocorticoide e ciclofosfamida — outra situação, diferente da recidiva. A Rename 2024 registra a incorporação do rituximabe para os casos de recidiva de vasculite associada ao ANCA, ativa e grave. A diretriz americana recomenda rituximabe em vez de ciclofosfamida na recidiva grave de quem não está em manutenção com rituximabe, e troca para ciclofosfamida quando a recidiva acontece durante essa manutenção.
Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5/2025, seções 1 e 6.2; Rename 2024 (Relatório Conitec nº 836; Portaria Sectics/MS nº 44, de 27/07/2023); Chung SA et al., Arthritis Rheumatol. 2021;73(8):1366-83, Recomendações 16 e 17
As duas regras estão no mesmo documento: escopo, data e natureza empatam. Decide o quarto degrau, a coerência interna — a seção 4 contradiz as definições do próprio protocolo, que separam recidiva de refratariedade, contradiz a seção 6.2 e não bate com o texto da incorporação registrado na Rename. Vence a leitura coerente. Esta apostila adota o rituximabe na recidiva ativa e grave, com a seção 6.2 e a incorporação citadas no laudo de solicitação. Para o doente à sua frente: recidiva grave depois de remissão obtida com ciclofosfamida, em manutenção com azatioprina ou sem manutenção, recebe rituximabe; recidiva grave durante a manutenção com rituximabe muda para ciclofosfamida; doença que nunca entrou em remissão com a ciclofosfamida é refratária — o caso que a seção 4 descreve —, e a diretriz americana manda trocar para a outra terapia. A contradição e a conta estão nas notas do critério.
O raciocínio, em voz alta
Plácida Rangel tem 74 anos, 61 kg, é costureira aposentada e mora com a filha. Chega ao ambulatório de clínica médica do hospital encaminhada pela unidade básica com a pergunta “polimialgia?”. Há sete semanas amanhece com os ombros e os quadris doloridos e duros por duas horas; não alcança a nuca para prender o cabelo e a filha a ajuda a sair da cama. Perdeu 4 kg e tem febre baixa à tarde. Há duas semanas, o braço esquerdo “pesa e dói” quando ela estende roupa no varal, e melhora quando baixa o braço. Nega cefaleia, dor ao pentear, dor ao mastigar e qualquer alteração da visão. Na unidade básica, há três dias, começou prednisona 15 mg/dia, com melhora parcial das dores. Os exames trazem velocidade de hemossedimentação de 92 mm na primeira hora, proteína C reativa de 6,8 mg/dL, hemoglobina de 10,9 g/dL e fator reumatoide e anticorpo antipeptídeo citrulinado negativos. No exame, a pressão é de 146/84 mmHg no braço direito e de 118/70 mmHg no esquerdo, o pulso radial esquerdo é mais fraco que o direito, há sopro na fossa supraclavicular esquerda e as artérias temporais são palpáveis, finas e indolores.
1. Reconhecer a polimialgia e não parar nela
Uma idosa que em semanas passou a amanhecer travada nos ombros e nos quadris, que não ergue os braços nem sai sozinha da cama, com inflamação alta e anemia, tem o retrato da polimialgia reumática — e o reconhecimento é o do capítulo Fibromialgia e dor musculoesquelética crônica. O que este caso ensina é que polimialgia é o começo da pergunta, e não o fim: ela convive com frequência com a arterite de células gigantes, e a arterite pode chegar sem nenhum sintoma craniano.
2. A pergunta e o exame que mudam a hipótese
A pergunta da arterite foi feita e veio negativa para cefaleia, couro cabeludo, mandíbula e visão. O exame, porém, respondeu por conta própria: 28 mmHg de diferença de pressão sistólica entre os braços, pulso radial esquerdo mais fraco, sopro na fossa supraclavicular esquerda e claudicação do braço esquerdo ao estender roupa. É estenose de subclávia num idoso com inflamação sistêmica — arterite de células gigantes com acometimento de grandes vasos até prova em contrário. Sem ter medido a pressão nos dois braços, Plácida sairia com o rótulo de polimialgia e a dose de polimialgia.
3. A dose é de arterite, não de polimialgia
A recomendação europeia de 2025 dá 15 a 25 mg/dia de prednisona para a polimialgia e 40 a 60 mg/dia para a arterite de células gigantes, e manda começar sem demora na suspeita forte, sem esperar a confirmação. Os 15 mg da unidade básica estão abaixo da faixa da arterite. A prednisona passa a 50 mg/dia — dois comprimidos de 20 mg e dois de 5 mg, 0,82 mg/kg —, dentro da faixa europeia adotada por esta apostila. Não há ameaça visual; se houvesse, a régua seria a do capítulo Perda visual sem olho vermelho. A mesma recomendação manda encaminhar a suspeita de arterite ao especialista em até 24 horas: a reumatologia é acionada no mesmo dia, com a pressão dos dois braços escrita no pedido.
4. Confirmar sem atrasar o corticoide
A suspeita de arterite de células gigantes com acometimento de grandes vasos exige tratamento e investigação em paralelo. A biópsia temporal deve ser organizada preferencialmente nas primeiras duas semanas de corticoide, sem atrasar o tratamento; ultrapassar esse intervalo não a torna automaticamente inútil. Angioimagem responde ao acometimento de aorta e ramos, e ultrassonografia pode ajudar onde há equipe experiente. Nova perda visual, diplopia ou déficit neurológico exige atendimento imediato e discussão de tratamento intensivo.
5. Aspirina e estatina não entram por reflexo
A vontade de prescrever aspirina para um vaso estreitado é compreensível, mas a diretriz americana de 2021 só recomenda acrescentá-la quando há acometimento crítico ou limitante de fluxo das artérias vertebrais ou carótidas, e recomenda não usar estatina especificamente para tratar a arterite. As duas decisões esperam a imagem do pescoço. A estatina que Plácida tomar por risco cardiovascular é outra conversa, com outra régua.
6. Proteger o que o corticoide vai cobrar, e escolher o poupador com o que o SUS tem
Aos 74 anos, com 50 mg/dia de prednisona pela frente por semanas, Plácida precisa de proteção óssea desde já, conduzida pelo capítulo Osteoporose e metabolismo ósseo, de controle de glicemia e pressão e de vacinas não vivas planejadas pelo capítulo de vacinação. O poupador de corticoide é decisão do reumatologista: a diretriz americana prefere o tocilizumabe e aceita o metotrexato quando não há acesso ou tolerância a ele, e a recomendação europeia indica terapia adjuvante para pacientes selecionados. No SUS, o tocilizumabe da Rename 2024 está vinculado só à artrite reumatoide e à artrite idiopática juvenil, e o metotrexato também não tem protocolo de arterite — o acesso a qualquer dos dois, se indicado, é organizado e registrado pelo serviço.
7. O seguimento é de anos, e a inflamação isolada não é recaída
A diretriz americana recomenda, com força, monitorização clínica prolongada na remissão, e declara que a duração ideal do corticoide não está estabelecida — ela segue a condição e a preferência da doente. Duas regras protegem Plácida do excesso: marcador inflamatório que sobe sozinho, sem sintoma, pede observação e não escalada; e a recaída clínica que acontece ainda com corticoide em dose moderada ou alta pede acrescentar imunossupressor não corticoide, com preferência pelo tocilizumabe quando os sintomas são cranianos. A aorta com aortite de hoje pode dilatar em anos, e a imagem de seguimento é o que encontra o aneurisma antes da dor. E a orientação que não pode faltar na alta: qualquer alteração da visão, cefaleia nova ou dor ao mastigar é motivo de voltar ao pronto-socorro no mesmo dia.
Faça você
Abigail Paulista tem 27 anos, 55 kg, é auxiliar de cozinha num restaurante e não tem doenças conhecidas. Há cinco meses sente cansaço, febre baixa à noite e dores nas juntas, e perdeu 5 kg. Há dois meses o braço esquerdo formiga, fica fraco e “morre” quando ela levanta as panelas grandes, e melhora em poucos minutos de descanso. Na unidade básica, há um mês, a pressão medida no braço esquerdo foi de 108/70 mmHg, e ela saiu com orientação de repouso. Hoje procura o pronto-socorro por cefaleia. A pressão no braço direito é de 168/98 mmHg e no esquerdo, de 104/66 mmHg; o pulso radial esquerdo é fraco; há sopro na fossa supraclavicular esquerda, sobre a carótida direita e na região periumbilical. Velocidade de hemossedimentação de 64 mm na primeira hora, proteína C reativa de 5,1 mg/dL, creatinina de 0,8 mg/dL, urina tipo I normal e teste de gravidez negativo. O exame neurológico é normal e o fundo de olho não mostra edema de papila.
1. Meça, compare e diga qual pressão vale
Descreva como medir a pressão arterial de Abigail, qual das medidas reflete melhor a pressão central, e explique o que a medida da unidade básica deixou passar e que consequência isso teve para o diagnóstico e para o tratamento da hipertensão.
2. Nomeie a hipótese e o exame que confirma
Diga qual vasculite explica o quadro, por que ela e não arterite de células gigantes, qual exame de imagem confirma e o que ele deve procurar — incluindo o sopro periumbilical.
3. Escreva o tratamento inicial com a régua
Com a doença confirmada, escreva a dose inicial de prednisona para 55 kg com a régua que a sustenta, diga se o poupador de corticoide entra desde o começo e qual classe não é a primeira escolha, e o que o SUS oferece para isso.
4. Decida sobre a pressão, o antiagregante e a cirurgia
Se a imagem mostrar estenose de artéria renal e de subclávia sem acometimento crítico das artérias do cérebro, diga se a hipertensão renovascular é tratada com remédio ou com revascularização, quando uma cirurgia poderia ser discutida e se o antiagregante entra. Acrescente a conversa que não pode faltar com uma mulher de 27 anos que vai tomar imunossupressor.
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A pressão se mede nos dois braços e, se possível, nas duas pernas, e vale a mais alta dos membros sem estenose: aqui, o braço direito, 168/98 mmHg. O braço esquerdo, com pulso fraco e sopro na subclávia, marca uma pressão falsamente baixa; medida só nele, a unidade básica perdeu a hipertensão e a assimetria que eram a pista do diagnóstico, e qualquer anti-hipertensivo dosado por aquele braço seria dosado errado. Mulher jovem com meses de sintomas constitucionais, claudicação de braço, pulso ausente, sopros em subclávia, carótida e abdome e inflamação alta é arterite de Takayasu; a arterite de células gigantes é doença de depois dos 50 anos. A confirmação é por imagem não invasiva da aorta e de seus ramos — angiotomografia ou angiorressonância —, que a diretriz americana de 2021 prefere à angiografia por cateter; ela procura espessamento de parede, estenoses e aneurismas, e o sopro periumbilical manda olhar as artérias renais. Confirmada a doença, a prednisona começa em 40 a 60 mg/dia pela recomendação europeia de 2025 — 50 mg/dia, dois comprimidos de 20 mg e dois de 5 mg, 0,91 mg/kg —, e o poupador de corticoide entra desde o início, porque a mesma recomendação o associa em todos os pacientes com Takayasu e a diretriz americana recomenda imunossupressor não corticoide junto do corticoide na doença ativa, preferindo outro imunossupressor ao tocilizumabe como terapia inicial. Metotrexato, azatioprina e micofenolato constam da Rename 2024, mas nenhum protocolo federal trata Takayasu, e o acesso é organizado pelo serviço de referência. A hipertensão renovascular por estenose de artéria renal é tratada clinicamente, e não com revascularização, pela diretriz americana, que também manda adiar a cirurgia de subclávia ou de renal até a doença ficar quiescente, salvo ameaça a vida, a membro ou a órgão; o antiagregante fica para o acometimento crítico das artérias cranianas ou vertebrobasilares, que a imagem não mostrou. E, antes do imunossupressor, a conversa sobre gestação: contracepção eficaz durante o tratamento e gravidez planejada com a reumatologia, porque vários desses remédios não podem ser usados na gestação.
Hemorragia alveolar com hipoxemia exige atendimento hospitalar urgente, suporte respiratório e indução discutida imediatamente; ausência de hemoptise não a exclui. Plasmaférese não é rotina para todos, mas a KDIGO 2024 admite considerá-la em hemorragia alveolar hipóxica e doença renal grave ou rapidamente progressiva; anti-MBG concomitante é indicação particularmente relevante.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique por que ANCA isolado não define atividade e por que uma síndrome pulmão-rim não pode aguardar todos os exames.
Em 30 dias
Compare hemorragia alveolar hipóxica, recidiva apenas sorológica e suspeita de arterite com sintomas visuais. Diga o que muda no local do cuidado, no tratamento e na necessidade de consulta imediata.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 61 anos, pedreiro, internado com febre baixa há seis semanas, perda de peso, dor abdominal depois das refeições, dormência e fraqueza súbitas no pé esquerdo e manchas arroxeadas em rede nas pernas. A pressão, que sempre foi normal, está em 172/104 mmHg, e a creatinina subiu. Colha a história por órgão, examine pulsos, pele e nervos, peça de uma vez o que precisa ser colhido antes de qualquer corticoide — sem esquecer a sorologia de hepatite B —, decida quem precisa ser chamado hoje e explique ao paciente por que o remédio ainda não começou.
