Clínica Médica › Síndromes do Paciente Internado
Delirium no paciente internado
Delirium no idoso internado: reconhecer, prevenir e manejar
A enfermagem liga às três da manhã dizendo que o do 12 está agitado, e o que você decidir nos próximos dez minutos define se ele melhora ou piora. Este capítulo é sobre reconhecer o delirium — inclusive o que não agita e por isso ninguém chama —, achar a causa, e medicar só quando medicar é o menos ruim.
Ministério da Saúde / CONITEC — Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19, Capítulo 3: Manejo da Dor, Sedação e Delirium em Pacientes sob Ventilação Mecânica Invasiva (Relatório de Recomendação nº 672; aprovado na 102ª reunião do Plenário da CONITEC, outubro de 2021)
Conselho Federal de Enfermagem — Resolução COFEN nº 746, de 20 de março de 2024, que normatiza os procedimentos de enfermagem na contenção mecânica de pacientes (Diário Oficial da União de 3 de abril de 2024, Seção 1, p. 91)
Avelino-Silva TJ, et al. — Prognostic effects of delirium motor subtypes in hospitalized older adults: a prospective cohort study (PLoS One. 2018;13(1):e0191092)
Fabbri RMA, Moreira MA, Garrido R, Almeida OP — Validity and reliability of the Portuguese version of the Confusion Assessment Method (CAM) for the detection of delirium in the elderly (Arq Neuropsiquiatr. 2001;59(2-A):175-179)
Gusmao-Flores D, Salluh JIF, Dal-Pizzol F, et al. — The validity and reliability of the Portuguese versions of three tools used to diagnose delirium in critically ill patients (Clinics. 2011;66(11):1917-1922)
Rosso LH, et al. — Delirium em idosos internados via unidades de emergência: um estudo prospectivo (J Bras Psiquiatr. 2020;69(1):38-44)
Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) — Protocolo Clínico nº 016: Abordagem do paciente em síndrome de abstinência alcoólica — diagnóstico, avaliação e tratamento (estabelecido em 2007, última revisão em 2009), construído sobre o Projeto Diretrizes AMB/CFM, volume II
Belo Horizonte. Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Colaborativo: Manejo da Infecção do Trato Urinário no Adulto e na Gestante. Belo Horizonte: SMSA; 2022. Parte I, recomendações de diagnóstico.
National Institute for Health and Care Excellence — Delirium: prevention, diagnosis and management in hospital and long-term care (Clinical guideline CG103, publicada em 2010 e atualizada em janeiro de 2023)
Inouye SK, Bogardus ST Jr, Charpentier PA, et al. — A multicomponent intervention to prevent delirium in hospitalized older patients (N Engl J Med. 1999;340(9):669-676)
2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel — American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults (J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-2081)
Schrijver EJM, et al. — Low dose oral haloperidol does not prolong QTc interval in older acutely hospitalised adults: a subanalysis of a randomised double-blind placebo-controlled study (J Geriatr Cardiol. 2018;15(6):401-407)
Devlin JW, Skrobik Y, Gélinas C, et al. — Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU (Crit Care Med. 2018;46(9):e825-e873)
Inouye SK, Foreman MD, Mion LC, Katz KH, Cooney LM Jr — Nurses' recognition of delirium and its symptoms: comparison of nurse and researcher ratings (Arch Intern Med. 2001;161(20):2467-2473)
MHRA. Haloperidol: reminder of risks in elderly patients with acute delirium. 2021. https://www.gov.uk/drug-safety-update/haloperidol-haldol-reminder-of-risks-when-used-in-elderly-patients-for-the-acute-treatment-of-delirium
SCCM. Focused PADIS update. 2025. https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/focused-update-padis-guideline
ASAM. Clinical Practice Guideline on Alcohol Withdrawal Management. 2020. https://downloads.asam.org/sitefinity-production-blobs/docs/default-source/quality-science/the_asam_clinical_practice_guideline_on_alcohol-1.pdf
Responda antes de ler
Homem de 88 anos com demência leve prévia, internado por fratura de quadril, está no sétimo dia de delirium sem qualquer tendência de melhora. A causa inicial (dor não controlada) foi corrigida, as medidas não farmacológicas estão em vigor e ele mantém haloperidol 1 mg à noite desde o segundo dia. Qual a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Três e dez da manhã. O telefone da sala de plantão toca e a técnica de enfermagem diz a frase que você vai ouvir centenas de vezes na vida: o do 12 está agitado, quer arrancar o acesso. Você conhece o senhor Waldemar, 79 anos, terceiro dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade. Ontem à tarde ele estava lúcido, conversando sobre o time, reclamando da comida. Na visita da manhã você escreveu no evolutivo que ele estava melhorando: febre cedeu, saturação em 94% em ar ambiente, aceitando dieta.
Você chega na enfermaria e a cena é feia. Ele está sentado na beira do leito, com o equipo enrolado no braço e uma mancha de sangue no lençol, dizendo que precisa ir embora porque a mulher está esperando o almoço — a mulher morreu há seis anos. Não reconhece você, que o examina há três dias. Fala alto, aponta para o canto do quarto e pergunta quem é aquele homem parado ali. Quando a técnica se aproxima para trocar o curativo, ele empurra a mão dela. Duas camas adiante, um outro paciente acorda e começa a reclamar do barulho. A técnica olha para você esperando uma prescrição, e o que ela está de fato perguntando é: o que eu faço com ele agora?
Antes de escolher um sedativo, aproxime-se e avalie segurança, ventilação, circulação, glicemia e mudança em relação ao estado habitual. Não existe espera obrigatória de dez minutos: hipoglicemia, hipoxemia ou risco iminente exigem ação imediata, com ajuda da equipe. Delirium pode decorrer de causas sistêmicas, medicamentosas ou intracranianas; o exame orienta a busca.
E há uma segunda cena, que ninguém liga para contar. No leito 9, do outro lado do corredor, dona Idalina, 84 anos, internada há quatro dias por infecção de trato urinário, dormiu o dia inteiro. Não comeu o almoço nem o jantar, respondeu por monossílabos quando a filha perguntou se estava com dor, e a passagem de plantão registrou apenas que ela está mais quietinha, cansada, deve ser da idade. Ninguém vai telefonar por causa dela. As duas têm a mesma doença. A dela é a forma mais comum e a de pior prognóstico, e é a que vai passar batida se você não for até lá procurar.
Quem adoece disso
Comece pelo número que reorganiza a sua expectativa. Numa coorte prospectiva de 1.409 admissões consecutivas de idosos agudamente enfermos na enfermaria de geriatria de um hospital universitário de São Paulo, entre 2009 e 2015, em que o Short CAM foi aplicado por médicos treinados na admissão e ao longo da internação, houve delirium em 47% das admissões. Quase metade. Isso não é uma população selecionada de UTI: é enfermaria, é idoso com doença aguda, é o paciente que você tem na sua lista amanhã. Em serviços não geriátricos o número cai, mas não desaparece: em 300 idosos internados via emergência de um hospital-escola de Passo Fundo, avaliados com o CAM, a incidência foi de 12% (IC95% 9–16) só nos cinco primeiros dias, com associação significativa a confinamento ao leito e a uso de sonda vesical. E em quatro UTIs brasileiras, com psiquiatra ou neurologista avaliando pelos critérios do DSM, 38,6% dos pacientes tinham delirium. A consequência prática é direta: na enfermaria de idosos, delirium não é evento raro que se cogita depois de excluir tudo — é a hipótese que se procura ativamente todo dia, como se procura febre.
O segundo número explica por que você provavelmente não viu quase nenhum caso até hoje. Num estudo com 797 pacientes de 70 anos ou mais e 2.721 avaliações pareadas, a enfermagem identificou delirium em 19% das observações e em 31% dos pacientes, comparada aos pesquisadores que aplicavam o instrumento. Dois terços dos pacientes com delirium não foram reconhecidos como tal por quem estava mais perto deles. E o não reconhecimento não é aleatório: os quatro fatores independentes foram o subtipo hipoativo (OR 7,4; IC95% 4,2–12,9), idade de 80 anos ou mais (2,8), déficit visual (2,2) e demência (2,1) — e o risco de passar batido sobe de 2%, quando nenhum fator está presente, para 44%, quando há três ou quatro. Traduzindo: quanto mais velho, mais quieto, mais cego e mais demenciado o paciente, menor a chance de alguém perceber que ele está em delirium. É exatamente o perfil de quem mais morre disso.
O terceiro número é o que transforma isso em urgência. Na coorte de São Paulo, o subtipo hipoativo respondeu por 53% dos casos, o misto por 30% e o hiperativo por apenas 17% — ou seja, a forma que gera telefonema de madrugada é minoria absoluta. A mortalidade hospitalar foi de 33% no hipoativo, 34% no misto e 15% no hiperativo, contra 9% em quem não teve delirium. Ajustando para gravidade e comorbidades, o hipoativo teve razão de risco de 2,43 (IC95% 1,64–3,59) e o misto de 2,31 (1,53–3,50) para morte hospitalar, enquanto o hiperativo perdeu significância (1,51; 0,86–2,65). Em 12 meses, a mortalidade acumulada foi de 32% entre quem teve delirium contra 18% entre quem não teve. A mediana de internação da coorte foi de 15 dias. Guarde a inversão, porque ela é contraintuitiva e é o eixo deste capítulo: o paciente que grita tem o melhor prognóstico dos três, e o paciente que dorme o dia inteiro tem risco de morte mais que duas vezes maior. Você está treinado a responder ao primeiro e a não enxergar o segundo.
Fecha o quadro o que a prevenção consegue fazer. No ensaio que originou o Hospital Elder Life Program, com 852 pacientes de 70 anos ou mais em enfermaria de clínica médica, um pacote de seis medidas não farmacológicas reduziu a incidência de delirium de 15,0% para 9,9% (odds ratio pareado 0,60; IC95% 0,39–0,92), com menos dias de delirium (105 contra 161) e menos episódios (62 contra 90). Nada nesse pacote custa mais que atenção e organização. E há um detalhe do resultado que muda a sua conduta: a intervenção reduziu a ocorrência do primeiro episódio, mas não alterou a gravidade nem a taxa de recorrência entre quem adoeceu. É uma doença que se previne muito melhor do que se trata — e é por isso que a prevenção entra na prescrição de admissão, e não no telefonema das três da manhã.
Por que acontece o que acontece
Delirium é insuficiência aguda de um órgão, e o órgão é o cérebro. A ideia que organiza tudo o resto é a de limiar: existe uma vulnerabilidade de base, que o paciente traz de casa, e existe um insulto agudo, que o hospital fornece. O quadro aparece quando a soma dos dois ultrapassa a reserva disponível. Quem tem reserva alta — 60 anos, sem demência, sem déficit sensorial — precisa de um insulto grande para descompensar: sepse, hipóxia grave, pós-operatório de grande porte. Quem tem reserva baixa — 88 anos, demência inicial, catarata, surdez — descompensa com uma infecção urinária, uma noite mal dormida ou um comprimido de prometazina. Isso explica a cena mais frustrante da enfermaria: dois pacientes com a mesma pneumonia, e só um deles fica confuso. Não é o insulto que difere, é o que sobrava antes.
A função que quebra primeiro é a atenção, e não é por acaso: sustentar atenção é a operação mais cara que o córtex faz, a que exige rede mais ampla e integrada. Por isso o primeiro sinal não é a alucinação nem a agitação — é o paciente que perde o fio no meio da própria frase, que precisa que você repita a pergunta, que começa a contar os dias da semana e se perde na quarta-feira. Tudo o mais que se vê no delirium (a desorganização do pensamento, a desorientação, a inversão do sono, a alucinação visual) vem depois, em cima de uma atenção que já falhou. Quem sabe disso testa atenção; quem não sabe fica esperando o paciente ficar agitado para levantar a hipótese.
No nível da neurotransmissão, o dado que muda prescrição é o colinérgico. A acetilcolina sustenta vigília e atenção, e a idade já reduz essa reserva. Qualquer fármaco com ação anticolinérgica come a margem que resta — e não são fármacos exóticos: são a prometazina prescrita para enjoo, a difenidramina para dormir, a escopolamina para cólica, a amitriptilina que ele toma há dez anos para dor neuropática, a oxibutinina da bexiga hiperativa. A exposição cumulativa a anticolinérgicos se associa a aumento de risco de quedas, delirium e demência. E o que importa é a soma: três medicações com efeito fraco, somadas, entregam mais carga anticolinérgica que uma medicação forte que você jamais prescreveria. Do outro lado, o benzodiazepínico age no GABA — ele não devolve organização, ele rebaixa. Sedar o cérebro que já está desorganizado é dar mais do mesmo insulto: o benzodiazepínico está entre os fatores de risco de delirium com evidência mais consistente, e figura entre as classes a evitar em idosos com delirium ou sob risco dele.
Falta o terceiro pilar: a inflamação. Doença aguda — infecção, cirurgia, trauma, isquemia — dispara resposta inflamatória sistêmica, e num cérebro com barreira e reserva já comprometidas essa resposta se traduz em disfunção cognitiva. É a razão pela qual delirium é tantas vezes o primeiro sinal de uma pneumonia ou de uma infecção urinária no idoso, aparecendo antes da febre e antes da leucocitose. Confusão aguda no idoso internado é sinal vital, não é traço de personalidade: ela avisa que alguma coisa nova está acontecendo no corpo, e o seu trabalho é descobrir o quê.
Junte as três peças e a lógica do tratamento se escreve sozinha. Se o problema é limiar, você tem duas alavancas: reduzir o insulto (tratar a infecção, corrigir a hipóxia, aliviar a dor, esvaziar a bexiga, suspender a droga) e devolver reserva (óculos, aparelho auditivo, luz de dia, escuro de noite, alguém conhecido do lado, o paciente fora do leito). Cada item devolve uma fatia pequena de margem — e é por isso que a prevenção que funciona é multicomponente e nenhum item isolado dela impressiona. Isso também explica por que a medicação decepciona: o antipsicótico não devolve reserva nem remove insulto, ele apenas reduz a expressão comportamental do quadro, e o benzodiazepínico e o anticolinérgico chegam a piorar o próprio mecanismo. A droga trata o barulho; a causa continua lá.

Como se apresenta de verdade
Três características definem o quadro e vale decorá-las porque elas são o que o diferencia de tudo mais: início agudo (horas a poucos dias, com uma linha de base identificável), curso flutuante (o paciente que você achou lúcido às 10h da manhã pode estar desorientado às 22h — e o inverso), e desatenção. Sem desatenção, o diagnóstico é outro.
A flutuação é a marca registrada e também a maior fonte de erro do interno. Ela produz a cena em que o plantonista da noite descreve um paciente confuso e agressivo, e o time da manhã encontra um senhor educado que conversa normalmente e nega tudo — e conclui que o plantonista exagerou. Não exagerou: os dois viram o mesmo paciente em momentos diferentes da mesma doença. Por isso o diagnóstico depende de perguntar à enfermagem e à família como foi a noite, e não apenas do que você vê na sua visita de 40 segundos.
Na enfermaria, o NICE 2023 recomenda 4AT na avaliação inicial quando há indicadores de delirium; CAM é outra ferramenta validada, que exige aplicação correta. Em terapia intensiva/recuperação, CAM-ICU ou ICDSC são apropriados. Nenhuma escala substitui avaliação clínica. Com informação de base ausente ou barreira à comunicação, documentar a incerteza e buscar dados, sem excluir delirium por não completar um item.
Os percentuais e razões de risco apresentados neste capítulo pertencem às coortes citadas. Frequência e prognóstico dos subtipos variam com população e gravidade; não usar o subtipo motor sozinho para estimar risco individual ou reduzir vigilância. A prioridade é reconhecer mudança aguda e tratar causas, independentemente de agitação.
Percurso de aprendizagem
Comece pela segurança e pelas ameaças reversíveis; reconstrua a linha de base com paciente, família e equipe. Sonolência nova merece a mesma atenção que agitação.
Use uma ferramenta apropriada ao ambiente, interprete suas limitações e organize a busca por hipóteses. Medicamentos, doença aguda e ambiente frequentemente atuam juntos.
Transforme o plano em ações: suporte, tratamento das causas, cuidado multicomponente, reavaliação e comunicação. Se medicação for indispensável, escolha dose e monitorização com o responsável e planeje retirada.
As três formas, e a que ninguém chama
O delirium hiperativo é o do senhor Waldemar: agitação, tentativa de sair do leito, recusa de cuidado, alucinação visual, fala alta, inversão franca do sono. É o que gera telefonema, e é o menos frequente — 17% dos casos na coorte brasileira. É também o de melhor prognóstico: mortalidade hospitalar de 15%, sem significância estatística no ajuste, contra 9% de quem não teve delirium.
O delirium hipoativo é o de dona Idalina: sonolência, lentificação, apatia, resposta em monossílabos, recusa alimentar, olhar parado. Ele responde por 53% dos casos e tem mortalidade hospitalar de 33%, com razão de risco ajustada de 2,43. Ele não incomoda ninguém, e é aí que mora o dano: o paciente quieto é lido como confortável, ou deprimido, ou cansado da idade, ou como um bom paciente. Ninguém chama o médico de madrugada por causa de alguém que está dormindo. O que o denuncia é o mesmo teste que denuncia o hiperativo — a desatenção —, e a única forma de encontrá-lo é ir até o leito e testar. Se você sair deste capítulo com uma frase só, que seja esta: sonolência nova em idoso internado exige avaliação imediata, incluindo delirium entre as hipóteses.
O delirium misto alterna as duas formas ao longo do dia, responde por 30% dos casos, e tem prognóstico igual ao hipoativo (mortalidade de 34%, razão de risco 2,31). Ele é a razão pela qual você não pode classificar o paciente pela impressão de um único momento: o senhor que passou o dia prostrado e a noite tentando arrancar o acesso não teve dois quadros, teve um.
O que o interno chama de outra coisa
Confusão da idade. Essa frase não descreve nenhuma entidade clínica e é responsável por boa parte dos casos não diagnosticados. Envelhecer não produz desorientação aguda em quem estava orientado ontem. Se a mudança é nova, ela tem causa — e a causa está no corpo, no ambiente ou na prescrição.
Ele está deprimido. É a leitura mais comum do hipoativo, e a distinção que resolve é a atenção e o tempo: depressão se instala em semanas, mantém a atenção relativamente preservada e não flutua ao longo do dia da mesma forma. Prescrever antidepressivo para um delirium hipoativo custa duas semanas de espera por um efeito que não vem, enquanto a causa segue não tratada.
Ele já era demenciado. Talvez fosse — e isso não exclui nada, ao contrário: demência é o principal fator de risco de delirium. O que separa é a linha de base, e obter a linha de base é uma pergunta feita à família, não uma impressão: como ele estava há uma semana? Ele se vestia sozinho? Sabia onde estava? Se houve mudança aguda sobre a demência, o nome disso é delirium sobreposto a demência, e a conduta é a do delirium.
Ele está sedado do remédio da noite. Às vezes está mesmo — e essa também é a sua conduta, porque o remédio da noite é uma causa reversível. O erro é usar a explicação para não investigar: suspenda a droga, reavalie em algumas horas, e se a desatenção persistir procure outra causa.
Delirium sobreposto a demência, e o que fazer na dúvida
Este é o cenário mais difícil da enfermaria, porque o paciente já era desorientado e já tinha déficit de memória. Três coisas ajudam. Primeira, a linha de base: qualquer coisa que seja nova em relação a como ele estava em casa conta como agudo. Segunda, o nível de consciência: demência, fora dos estágios finais, cursa com vigília preservada — sonolência ou hipervigilância flutuante aponta para delirium. Terceira, a flutuação intradiária marcada, que não é o padrão da demência.
E existe uma regra explícita para o momento em que você não consegue decidir: quando há incerteza entre delirium e demência, maneje como delirium primeiro. A assimetria justifica a regra — tratar delirium que era demência custa uma busca de causa que não achou nada; deixar de tratar delirium porque se assumiu demência custa a causa reversível que ninguém procurou.
O paciente que você não consegue entrevistar
No intubado, sedado ou traqueostomizado, a entrevista verbal está indisponível e a avaliação passa a ser feita com o CAM-ICU, que usa respostas motoras e sinalizadas. A regra de ouro é a sequência: avalie primeiro o nível de consciência pela RASS; se o paciente está em sedação profunda (RASS -4 ou -5), ele não é avaliável naquele momento e a avaliação fica para quando ele emergir. Delirium só se diagnostica em quem responde.
Nos pacientes com afasia, com surdez importante ou com barreira de língua, o risco de erro corre nas duas direções: chamar de delirium quem apenas não consegue comunicar, e chamar de dificuldade de comunicação quem está em delirium. O que resolve é o mesmo de sempre — buscar a linha de base com quem convive, testar atenção por via não verbal (seguir com o olhar, apertar a mão a um sinal combinado), e corrigir o que for corrigível antes de concluir: aparelho auditivo posto, óculos no rosto, cera removida, intérprete chamado.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do delirium tem duas perguntas em sequência, e confundi-las é o erro clássico. A primeira é: isto é delirium? Ela se responde à beira do leito, com um instrumento, em menos de cinco minutos, e não depende de nenhum exame. A segunda é: qual é a causa? Ela se responde com exame físico dirigido, revisão da prescrição e um punhado pequeno de exames — nessa ordem, porque a maior parte das causas aparece antes do laboratório.
Repare no que a ordem implica. Nenhum exame de sangue faz o diagnóstico de delirium, e nenhum exame de imagem o exclui. Um paciente com tomografia de crânio normal, sódio normal e urocultura negativa pode estar em delirium franco — e provavelmente está, porque a causa mais provável não estava em nenhum dos três.
O CAM: os quatro critérios e o algoritmo
O Confusion Assessment Method organiza o diagnóstico em quatro critérios. Critério 1: início agudo e curso flutuante — houve mudança aguda em relação à linha de base, e esse comportamento oscila ao longo do dia? Critério 2: desatenção — o paciente tem dificuldade em focar, se distrai facilmente, perde o fio? Critério 3: pensamento desorganizado — fala incoerente, ilógica, imprevisível, com mudança de assunto sem nexo? Critério 4: alteração do nível de consciência — qualquer coisa diferente de alerta, como hipervigilância ou letargia; coma impede avaliação de delirium naquele momento.
O algoritmo é o que importa e é onde erra quem decorou apenas a lista: o diagnóstico exige os critérios 1 e 2 obrigatoriamente, mais o critério 3 ou o critério 4. Ou seja, sem mudança aguda e sem desatenção não há delirium, por mais bizarro que seja o comportamento; e um paciente sonolento (critério 4) com mudança aguda e desatenção fecha diagnóstico sem falar coisa com coisa, sem ver bicho e sem tentar sair da cama. É esse arranjo que captura dona Idalina.
A versão em português do CAM foi validada no Brasil em 100 pacientes de 60 anos ou mais atendidos no serviço de urgência da Santa Casa de São Paulo, com sensibilidade de 94,1%, especificidade de 96,4%, concordância entre avaliadores com kappa de 0,70 e concordância com o DSM-IV com kappa de 0,86. É o instrumento que sustenta as coortes brasileiras e é o que este capítulo usa. Vale registrar que a diretriz britânica passou, na atualização de 2023, a indicar o 4AT como ferramenta de avaliação inicial, com CAM-ICU ou ICDSC em terapia intensiva — mas quem trabalha aqui tem no CAM um instrumento validado em português, de aplicação em menos de cinco minutos e sem custo nenhum.
Como se testa atenção na beira do leito
Não existe delirium sem desatenção, então esse é o teste que você tem que saber fazer de cor. Peça os meses do ano de trás para frente, começando em dezembro. Ou os dias da semana ao contrário. Ou uma sequência de números para repetir de trás para frente. Ou peça que ele aperte a sua mão toda vez que você disser a letra A, enquanto você lê uma sequência de letras — esta última funciona no paciente que não fala.
Dificuldade em listar meses ao contrário pode decorrer de desatenção, escolaridade, idioma, deficiência sensorial ou comprometimento cognitivo prévio. Saber alguns meses e perder a sequência não distingue, sozinho, delirium de demência. Corrigir barreiras, comparar com a linha de base e interpretar o teste dentro de uma avaliação validada e clínica.
Faça o teste sempre no mesmo momento do dia e registre o resultado no evolutivo com o horário. Sem registro seriado, a flutuação — que é o critério 1 — vira memória de plantão e se perde na passagem.
No paciente crítico: CAM-ICU, e o que os números dele significam
No paciente sob ventilação mecânica, a escala recomendada pelo documento brasileiro é o CAM-ICU, com avaliação idealmente a cada 12 horas ou sempre que houver agitação psicomotora — e antes dela, a RASS, para saber se o paciente está avaliável e para definir o alvo de sedação, que deve ser superficial (0 a -2) sempre que a ventilação permitir.
A versão brasileira do CAM-ICU foi validada em quatro UTIs nacionais, contra avaliação de psiquiatra ou neurologista pelo DSM, com sensibilidade de 72,5% (IC95% 55,9–84,9) e especificidade de 96,2%; no mesmo estudo, o ICDSC teve sensibilidade de 96,0% e especificidade de 72,4%. A leitura prática desse par de números vale para o seu plantão: o CAM-ICU positivo apoia o diagnóstico, sem certeza universal baseada apenas na especificidade, mas o CAM-ICU negativo não o exclui — cerca de um em cada quatro pacientes com delirium escapa dele. Se o instrumento deu negativo e a impressão clínica insiste, a impressão continua valendo e a busca de causa continua.
Um detalhe da sedação que é causa e não consequência: quanto mais profunda e mais prolongada a sedação, sobretudo com benzodiazepínico, maior o risco de delirium. Alvo de sedação superficial e reavaliação diária da necessidade não são preciosismo de intensivista — são prevenção primária.
Achado o delirium, achar a causa: DELIRIUM na beira do leito
O mnemônico deste capítulo é a própria palavra. D de drogas: o que entrou nas últimas 72 horas, o que teve a dose aumentada, e o que se acumulou em quem tem clearance caído. E de eletrólitos e metabólico: sódio, cálcio, glicemia, ureia e creatinina, função tireoidiana quando houver pista. L de lacuna de oxigênio e de perfusão: hipoxemia, anemia aguda, baixo débito, infarto sem dor, embolia pulmonar. I de infecção: pulmão, urina, pele, cateter, abdome — lembrando que no idoso o delirium frequentemente precede a febre. R de retenção: globo vesical e fecaloma, as duas causas mais subestimadas e mais rapidamente reversíveis da enfermaria. I de intracraniano: acidente vascular cerebral, hematoma subdural, crise convulsiva e estado pós-ictal, meningite — a categoria menos frequente e a mais investigada por reflexo. U de uso interrompido: abstinência de álcool, de benzodiazepínico ou de opioide, uma causa que só aparece para quem perguntou o que o paciente tomava em casa. M de meio e dor: dor não tratada, privação de sono, privação sensorial, imobilidade, contenção, troca de leito, transferência para a UTI.
Exames devem responder às hipóteses do paciente. Não colocar doença intracraniana obrigatoriamente no fim da investigação: déficit focal, trauma, cefaleia de alarme, convulsão ou deterioração inexplicada podem exigir neuroimagem urgente em paralelo à estabilização. Sem esses achados, investigar sistematicamente causas clínicas e medicamentos, revendo a necessidade de imagem conforme a evolução.
O exame físico que acha causa em cinco minutos
Aferir sinais vitais, oxigenação, frequência e esforço respiratórios, nível de consciência e glicemia. Corrigir hipoglicemia prontamente se presente, enquanto se avaliam outras ameaças. Não retirar oxigênio necessário para medir saturação em ar ambiente, nem colocar toda a avaliação em espera até terminar um único teste.
Palpe o hipogástrio procurando globo vesical, e se houver dúvida use o ultrassom à beira do leito ou o cateterismo de alívio. Faça toque retal procurando fecaloma no paciente que está há dias sem evacuar, sobretudo se estiver em uso de opioide. Essas duas manobras levam três minutos, não custam nada, e resolvem sozinhas uma parte relevante dos casos de agitação noturna.
Procure dor ativamente, e no paciente que não a relata procure os sinais não verbais: careta, gemido, resistência à mobilização de um segmento, taquicardia sem outra explicação. Delirium por dor não tratada é comum no pós-operatório e no idoso com fratura, e é o cenário em que sedar sem analgesiar produz um paciente calado que continua sofrendo.
Examine a pele inteira — lesão por pressão infectada, celulite, flebite de acesso — e faça um exame neurológico dirigido: assimetria de face, força e reflexos, sinais meníngeos, e pupilas. Achado focal novo muda a investigação; ausência dele, na maioria esmagadora dos casos, poupa uma tomografia.
Os exames de primeira linha, e os três que se pedem demais
Os exames procuram causas e complicações, sem diagnosticar delirium por si. Selecionar hemograma, eletrólitos, função renal e glicose conforme o quadro; ECG ajuda em hipóteses cardíacas e na segurança do antipsicótico. Gasometria e radiografia de tórax dependem de indicação clínica, não são obrigatórias para todo delirium. Urina/cultura não devem rastrear ITU apenas por confusão; sintomas locais ou sinais sistêmicos orientam a necessidade. Função tireoidiana, B12 e sorologias exigem hipótese pertinente.
Agora os três que se pedem por reflexo. Tomografia de crânio: reserve para quem tem sinal neurológico focal novo, rebaixamento persistente do nível de consciência, trauma craniano ou queda recente, uso de anticoagulante, cefaleia de início súbito, ou delirium que não explica com nada depois de uma busca completa. Pedida de rotina em delirium sem foco, ela responde muito pouco e custa muito: transporte de um paciente agitado, tempo fora da enfermaria, radiação e necessidade eventual de sedação; a TC inicial para hemorragia costuma ser sem contraste, e — o pior — a falsa sensação de investigação concluída quando volta normal. Punção lombar: só com suspeita de infecção do sistema nervoso central (febre com rigidez de nuca, imunossupressão, cefaleia, quadro sem outra explicação). Eletroencefalograma: só quando a hipótese é estado de mal epiléptico não convulsivo, que se cogita no paciente com rebaixamento persistente sem explicação, sobretudo se houve crise testemunhada.
E a armadilha específica do idoso: a urocultura positiva que explica tudo. Bacteriúria assintomática é frequente nessa faixa etária e não causa delirium por si. Uma urocultura positiva num paciente sem sintoma urinário, sem febre, sem leucocitose e sem outro sinal de infecção não fecha a causa — ela encerra a investigação prematuramente e manda para casa um antibiótico desnecessário enquanto o fecaloma, o opioide ou a hipóxia continuam lá. Trate o paciente, não a cultura.
A revisão da prescrição é um exame diagnóstico
Pegue a prescrição inteira e leia linha por linha, com três perguntas: o que entrou nas últimas 72 horas, o que foi suspenso na admissão, e o que está aí sem indicação. Essa leitura acha causa com mais frequência que a maioria dos exames de sangue — e não custa nada. A prescrição de internação tem capítulo próprio nesta coleção; aqui interessa o recorte do risco cognitivo.
As classes a evitar em idoso com delirium ou sob risco dele são conhecidas e nomeadas: anticolinérgicos, antipsicóticos, benzodiazepínicos, corticosteroides orais e parenterais, antagonistas H2, hipnóticos do tipo Z e opioides — os opioides acrescentados à lista na atualização de 2023. Isso não significa proibição absoluta: significa que cada um deles precisa de justificativa escrita, de menor dose e de menor tempo. Corticosteroide necessário se usa na menor dose pelo menor prazo, vigiando delirium. Opioide em quem tem dor se mantém, porque dor não tratada também causa delirium — o que se faz é usar avaliação estruturada da dor e estratégia multimodal, para chegar à menor dose de opioide que controla.
Duas fontes de carga anticolinérgica passam despercebidas porque não parecem psicotrópicos: os anti-histamínicos de primeira geração (prometazina, difenidramina, dimenidrinato, hidroxizina) prescritos para enjoo, prurido ou sono, e os antiespasmódicos (escopolamina) prescritos para cólica. Some a isso a amitriptilina, a nortriptilina e a oxibutinina que vêm de casa. O que conta é a carga total.
Por fim, olhe o que sumiu. O paciente que tomava clonazepam há quinze anos e teve o remédio suspenso na admissão está em abstinência no terceiro dia. O etilista que não bebe desde que internou também. Nenhum dos dois vai contar isso espontaneamente, e a informação sai da entrevista com a família.
O que existe no SUS, e o que isso muda
Praticamente tudo o que decide este capítulo é gratuito e está disponível em qualquer enfermaria do país: o CAM, a pergunta à família sobre a linha de base, a palpação do hipogástrio, o toque retal, a glicemia capilar, a leitura da prescrição, o óculos que estava na gaveta, a janela aberta durante o dia e a luz apagada à noite. O ensaio que reduziu a incidência de delirium em um terço não usou nenhuma tecnologia — usou seis protocolos executados com disciplina por uma equipe treinada, com adesão de 87%.
O que costuma faltar não é recurso, é processo: alguém encarregado de avaliar todos os dias, um registro onde a flutuação apareça, e uma passagem de plantão que transmita comportamento e não apenas exames. O corolário incômodo é que a maior parte do subdiagnóstico não se resolve com verba — resolve-se com a decisão de ir ao leito do paciente quieto e testar a atenção dele.
Onde o recurso pesa de verdade é na outra ponta: leito de geriatria, acompanhante liberado 24 horas, fisioterapia diária para mobilizar, e enfermagem em número suficiente para não recorrer à contenção por falta de gente. Essas são decisões de gestão, e é útil saber nomeá-las quando você discute o caso com a chefia — porque a alternativa barata e ruim é o antipsicótico.
O CAM, as causas e o pacote que previne
Aprenda a reconhecer mudança aguda de atenção e vigília, procurar causas e recuperar função, distinguindo controle de risco de tratamento do delirium.
- 1Vá ao leito e acione o responsável conforme gravidade. Enquanto chega, orientar vigilância, sinais vitais, glicemia e suporte indicado pela equipe habilitada; não atrasar tratamento de hipoglicemia ou hipoxemia para aguardar sua presença.
- 2Garanta segurança imediata: alguém junto ao paciente, retire do alcance o que ele está puxando, avalie se o acesso, a sonda ou o cateter que ele arranca ainda são necessários. Contenção mecânica não é o primeiro passo.
- 3Estabeleça a linha de base: como este paciente estava há 24 horas e como estava em casa? Pergunte à enfermagem do plantão anterior e à família. Sem linha de base não há critério 1.
- 4Aplique o CAM. Critério 1, início agudo e curso flutuante. Critério 2, desatenção (meses do ano de trás para frente). Critério 3, pensamento desorganizado. Critério 4, alteração do nível de consciência.
- 5Leia o algoritmo: diagnóstico exige 1 e 2, mais 3 ou 4. Sem mudança aguda e sem desatenção, procure outro diagnóstico. Com sonolência nova, mudança aguda e desatenção, o diagnóstico está fechado mesmo sem agitação nenhuma.
- 6Percorra as causas que se resolvem em minutos: glicemia capilar, saturação, globo vesical, fecaloma, dor, e a droga administrada nas últimas horas.
- 7Leia a prescrição inteira procurando anticolinérgico, benzodiazepínico, hipnótico Z, antagonista H2, corticoide e opioide — e procure também o que foi suspenso na admissão (benzodiazepínico de casa, álcool).
- 8Selecione exames pela história e pelo exame: frequentemente hemograma, eletrólitos, função renal e glicose; ECG, gasometria e radiografia conforme hipóteses, suporte e segurança medicamentosa. Urina/cultura dependem de suspeita clínica. Imagem cerebral é dirigida por sinais neurológicos, trauma, anticoagulação, rebaixamento ou quadro inexplicado.
- 9Institua o pacote não farmacológico no mesmo momento, sem esperar resultado de exame: reorientar, devolver óculos e aparelho auditivo, luz e ruído adequados ao horário, hidratar, mobilizar, retirar dispositivo desnecessário, chamar a família.
- 10Só então decida sobre medicação — e o gatilho não é a agitação, é o sofrimento intenso ou o risco concreto a si ou a terceiros, depois de a desescalada verbal e não verbal ter falhado.
- 11Escreva no prontuário a palavra delirium, o horário, o que motivou a suspeita, o resultado do CAM e a causa procurada. Diagnóstico não registrado não é transmitido na passagem de plantão e não chega ao sumário de alta.
Hipoativo — 53% dos casos
Sonolência, lentificação, apatia, recusa alimentar. Mortalidade hospitalar de 33% e razão de risco ajustada de 2,43 (IC95% 1,64–3,59). É o mais frequente, o de pior prognóstico e o que ninguém chama.
Misto — 30% dos casos
Forma mista alterna características hipoativas e hiperativas. Os percentuais e medidas de mortalidade citados pertencem à coorte descrita na epidemiologia, não são prognóstico individual. Avaliar em diferentes momentos e comparar com a basal.
Hiperativo — 17% dos casos
Agitação, alucinação, recusa de cuidado, tentativa de sair do leito. Mortalidade hospitalar de 15%, sem significância no ajuste. É o menos frequente, o de melhor prognóstico — e o único que gera telefonema.
| Delirium | Demência | Depressão | |
|---|---|---|---|
| Início | Agudo: horas a poucos dias, com data e hora identificáveis | Insidioso: meses a anos | Subagudo: semanas a meses |
| Curso no dia | Flutuante, com piora vespertina e noturna frequente | Estável ao longo do dia, progressivo ao longo dos anos | Relativamente estável; humor pior pela manhã em parte dos casos |
| Atenção | Comprometida — é o critério obrigatório | Pode estar comprometida, particularmente em alguns subtipos e fases; comparar com a linha de base. | Pode haver prejuízo de concentração e atenção; o conjunto temporal e clínico orienta a distinção. |
| Nível de consciência | Pode estar alterado; vigília aparentemente normal não exclui delirium com desatenção e pensamento desorganizado. | Normal até fases muito avançadas | Normal |
| Memória e orientação | Falham por desatenção; melhoram nos intervalos lúcidos | Falha de memória recente consistente, sem intervalos | Queixa subjetiva de memória, com desempenho melhor que a queixa |
| Percepção | Alucinações visuais e ilusões são comuns | Podem surgir cedo em alguns subtipos, especialmente demência por corpos de Lewy. | Incomum, exceto em depressão psicótica |
| Sono | Ciclo invertido ou fragmentado, de instalação aguda | Alterado de forma gradual | Insônia terminal ou hipersonia, instaladas ao longo de semanas |
| Psicomotricidade | Reduzida (53%), alternante (30%) ou aumentada (17%) | Geralmente preservada até fases avançadas | Lentificação, sem desatenção associada |
| O que fazer agora | Procurar causa hoje: é emergência clínica | Não é urgência: investigar em ambulatório, depois da alta | Avaliar sofrimento, risco de suicídio, psicose, catatonia e recusa alimentar; pode haver urgência psiquiátrica ou clínica. |
| Na dúvida entre eles | Na dúvida, investigar e manejar delirium primeiro, sem ignorar emergências associadas. Delirium nem sempre reverte completamente, e depressão também pode ameaçar a vida. | — | — |
DELIRIUM: as causas por sistema e como procurar cada uma agora
| Letra | O que procurar | Como procurar na beira do leito |
|---|---|---|
| D — Drogas | Introduzidas nas últimas 72 h, dose aumentada, acúmulo por clearance reduzido, carga anticolinérgica somada | Ler a prescrição inteira e o aprazamento das últimas 24 h; conferir o que a família traz de casa |
| E — Eletrólitos e metabólico | Hiponatremia, hipercalcemia, hipoglicemia e hiperglicemia, uremia, disfunção tireoidiana | Glicemia capilar imediata; sódio, potássio, cálcio, ureia e creatinina na primeira linha |
| L — Lacuna de oxigênio e perfusão | Hipoxemia, anemia aguda, baixo débito, infarto sem dor, embolia pulmonar, choque inicial | Saturação em ar ambiente, frequência respiratória, pressão, perfusão periférica, eletrocardiograma |
| I — Infecção | Pneumonia, infecção urinária, pele e partes moles, cateter, abdome — muitas vezes antes da febre | Temperatura, ausculta, inspeção da pele inteira e dos acessos, radiografia de tórax; urina tipo I com cultura só com sintoma urinário, febre sem outro foco ou sonda com suspeita de infecção |
| R — Retenção | Globo vesical e fecaloma: as causas mais rapidamente reversíveis da enfermaria | Palpar hipogástrio (ultrassom à beira do leito se houver dúvida); toque retal em quem não evacua há dias ou usa opioide |
| I — Intracraniano | AVC, hematoma subdural, crise convulsiva e estado pós-ictal, meningite | Exame neurológico dirigido; tomografia apenas com foco novo, trauma, anticoagulação ou quadro sem explicação |
| U — Uso interrompido | Abstinência de álcool, de benzodiazepínico ou de opioide, tipicamente no segundo ou terceiro dia de internação | Perguntar à família o que ele tomava e bebia em casa, e comparar com a prescrição atual |
| M — Meio e dor | Dor não tratada, privação de sono, privação sensorial, imobilidade, contenção, troca de leito, transferência para a UTI | Procurar sinais não verbais de dor; conferir óculos, aparelho auditivo, luz, ruído e há quantos dias ele não sai do leito |
Medicações que precipitam ou pioram delirium no idoso
| Classe | Exemplos frequentes na enfermaria brasileira | O que fazer |
|---|---|---|
| Anticolinérgicos | Prometazina, difenidramina, dimenidrinato, hidroxizina, escopolamina, amitriptilina, nortriptilina, oxibutinina, clorpromazina | Suspender ou substituir. O que conta é a carga somada: três drogas fracas pesam mais que uma forte |
| Benzodiazepínicos | Midazolam, diazepam, clonazepam, lorazepam | Evitar como tratamento do delirium. Exceção: abstinência alcoólica ou de benzodiazepínico, em que são a droga certa |
| Hipnóticos do tipo Z | Zolpidem, zopiclona | Retirar da prescrição de sono do idoso internado; usar protocolo de sono não farmacológico |
| Opioides | Morfina, tramadol, codeína, fentanil | Não suspender a analgesia — dor não tratada também causa delirium. Usar avaliação estruturada da dor e estratégia multimodal para chegar à menor dose eficaz |
| Corticosteroides | Prednisona, metilprednisolona, dexametasona, hidrocortisona | Quando indispensáveis, menor dose pelo menor tempo, com vigilância ativa para delirium |
| Antagonistas H2 | Cimetidina, ranitidina, famotidina | Substituir por inibidor de bomba de prótons quando a profilaxia for realmente indicada |
| Antipsicóticos | Haloperidol, quetiapina, risperidona, olanzapina | Não são prevenção e não são rotina: entram apenas quando as medidas não farmacológicas falharam e há sofrimento intenso ou risco de dano substancial |
O pacote que previne — o que escrever na prescrição do idoso de risco
| Alvo | O que prescrever, escrito assim | Por que funciona |
|---|---|---|
| Orientação | Relógio e calendário visíveis do leito; apresentar-se e dizer onde ele está, que dia é e por que está internado a cada contato; liberar visita de familiares | Devolve a referência externa que o paciente perdeu; é o protocolo aplicado uma vez ao dia, ou três vezes ao dia em quem já tem déficit cognitivo |
| Sono | Sem procedimento, aferição de sinais vitais ou medicação entre 22h e 6h, salvo necessidade clínica; reagrupar horários de medicação; ruído mínimo; luz apagada à noite e janela aberta de dia | Substitui o hipnótico. No ensaio original, o protocolo de sono não farmacológico incluía bebida morna, música e massagem nas costas, e reduziu o uso de sedativo |
| Mobilidade | Sentar fora do leito nas três refeições; deambular três vezes ao dia com apoio; exercícios ativos de amplitude para quem não anda; uso mínimo de equipamento imobilizante, incluindo sonda vesical e contenção | Imobilidade é fator de risco independente — e na coorte brasileira de emergência, confinamento ao leito e sonda vesical foram os dois fatores mais associados |
| Visão | Óculos do paciente no rosto, limpos, desde a admissão; material impresso em letra grande; campainha sinalizada | Déficit visual multiplica por 2,2 a chance de o delirium não ser reconhecido e é fator de risco do próprio quadro |
| Audição | Aparelho auditivo com pilha funcionando; remover cerume; falar de frente, devagar, com frases curtas | Sem entrada sensorial confiável o cérebro preenche as lacunas — é assim que nasce boa parte da interpretação delirante |
| Hidratação | Oferta ativa de líquidos em horários fixos; reconhecimento precoce de desidratação; reposição volêmica quando indicada | Desidratação é um dos seis alvos do pacote original e frequentemente coexiste com uremia e hipotensão postural |
| Dor | Avaliação de dor a cada plantão, com busca de sinais não verbais em quem não relata; analgesia em horário fixo, não apenas se necessário | Dor não tratada é causa comum e é a que mais se confunde com agitação psiquiátrica |
| Medicação | Revisão diária da lista completa, com justificativa escrita para cada droga de risco cognitivo | É o item que mais frequentemente acha a causa, e o único que se executa sentado, sem sair da prescrição |
O CAM tem versão em português validada no Brasil em idosos de serviço de urgência, com sensibilidade de 94,1%, especificidade de 96,4% e concordância entre avaliadores com kappa de 0,70. No paciente sob ventilação mecânica o instrumento é o CAM-ICU, cuja versão brasileira mostrou sensibilidade de 72,5% e especificidade de 96,2% em quatro UTIs nacionais — o que significa que um resultado positivo apoia o diagnóstico quando aplicado à população apropriada, mas seu valor preditivo depende da prevalência e do contexto, mas um negativo não o exclui.
O pacote de prevenção reduziu a incidência de delirium de 15,0% para 9,9% (odds ratio 0,60; IC95% 0,39–0,92), com 105 dias de delirium contra 161 e 62 episódios contra 90. Duas leituras importam para a sua expectativa: ele previne o primeiro episódio, mas não reduziu a gravidade nem a recorrência entre quem adoeceu; e o efeito foi significativo no grupo de risco intermediário (OR 0,52) sem alcançar significância no grupo de risco mais alto (OR 0,73; IC95% 0,38–1,38).
Os quatro fatores de risco a rastrear em toda admissão são idade de 65 anos ou mais, comprometimento cognitivo ou demência (prévios ou atuais), fratura de quadril e doença grave ou em deterioração. Presente qualquer um deles, o paciente entra no pacote de prevenção no dia da admissão — e passa a ser avaliado diariamente para indicadores de delirium, com o achado registrado no prontuário.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a do senhor Waldemar, a partir do telefonema das 3h10. Ela vale para o hiperativo e para o hipoativo — muda o que a equipe percebe, não o que você faz. Repare em quantos marcos passam antes do primeiro miligrama de qualquer coisa: isso é intencional, e é a diferença entre tratar o delirium e apenas silenciá-lo.
Minuto 0 — o telefonema
Enquanto se dirige ao leito, pergunte sobre risco imediato, mudança em relação ao habitual e medicamentos recebidos. Peça vigilância, sinais vitais e glicemia, acionando ajuda conforme gravidade. Não resolver com sedativo por telefone, mas também não impedir suporte ou tratamento urgente pela equipe habilitada.
Prescrição- Sinais vitais completos agora, incluindo temperatura e frequência respiratória, com saturação em ar ambiente e glicemia capilar
- Acompanhamento presencial e ajuda conforme risco; não iniciar sedação empírica apenas para silenciar o comportamento. Suporte e tratamento de causas imediatamente ameaçadoras seguem o protocolo, sem aguardar a chegada do interno.
- Retirar do alcance o que o paciente está puxando e checar se o acesso, a sonda ou o cateter em questão ainda têm indicação
Minuto 5 — beira do leito: segurança, linha de base e CAM
Chegue baixando a temperatura da cena: aproxime-se de frente, no campo de visão dele, apresente-se pelo nome e diga onde ele está, que horas são e por que está internado. Fale devagar, em frases curtas, sem discutir o conteúdo do delírio e sem corrigi-lo com força — não adianta provar a ninguém que a esposa morreu há seis anos. Peça à enfermagem a linha de base do plantão anterior e ligue para a família se for preciso. Depois aplique o CAM, incluindo o teste de atenção. Isso leva cinco minutos e é o que separa este paciente do paciente psiquiátrico, do paciente demenciado e do paciente que está apenas com dor.
Prescrição- Aplicar o CAM: início agudo e curso flutuante mais desatenção, somados a pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência
- Testar atenção: meses do ano de trás para frente, ou apertar a mão a cada letra A de uma sequência lida em voz alta
- Registrar no prontuário o horário, o resultado do CAM e a linha de base obtida com a enfermagem e a família
Minuto 5 a 20 — as causas que se resolvem sem exame nenhum
Antes de qualquer coleta, percorra o que se corrige na hora: glicemia capilar, saturação, bexiga, fezes, dor e a última medicação administrada. Uma parte grande da agitação noturna do idoso internado é bexiga cheia, fecaloma ou dor — e nenhuma das três responde a antipsicótico. Cateterismo de alívio num globo vesical costuma resolver o quadro em minutos, e é o desfecho mais recompensador de um plantão.
Prescrição- Solicitar exames direcionados pelas hipóteses: hemograma, eletrólitos, função renal e glicose frequentemente ajudam; ECG antes de haloperidol e conforme risco, gasometria se houver problema ventilatório e radiografia se houver indicação respiratória/infecciosa. Urina com cultura exige suspeita clínica, sem rastreamento indiscriminado por delirium.
- Palpar hipogástrio e proceder ao cateterismo vesical de alívio se houver globo — retirando a sonda em seguida, porque sonda de demora é fator de risco
- Toque retal com esvaziamento manual do fecaloma quando presente, seguido de esquema laxativo regular
- Analgesia em horário fixo, e não apenas se necessário, em todo paciente com causa plausível de dor — o esquema segue o capítulo da prescrição de internação
Minuto 20 a 60 — a busca sistemática da causa
Agora sim: prescrição lida linha por linha, primeira linha de exames colhida, e o exame físico completo, inclusive pele e neurológico dirigido. A pergunta que orienta cada pedido é a mesma de sempre — se este exame vier alterado, o que eu faço? Tomografia de crânio não entra aqui, salvo se houver foco novo, trauma, anticoagulação ou quadro que permaneça sem explicação depois da busca completa.
Prescrição- Hemograma, sódio, potássio, cálcio, ureia, creatinina, glicemia, oximetria ou gasometria, eletrocardiograma e radiografia de tórax; urina tipo I com urocultura só se houver sintoma urinário, febre sem outro foco ou sonda vesical com suspeita de infecção
- Suspender ou substituir toda medicação de risco cognitivo sem indicação forte: anticolinérgicos, benzodiazepínicos, hipnóticos do tipo Z, antagonistas H2 e corticoide desnecessário
- Perguntar à família, explicitamente, sobre uso domiciliar de álcool e de benzodiazepínico — abstinência tem tratamento próprio e oposto ao do delirium comum
Minuto 20 em diante — o que se faz sempre, e que não é droga
O tratamento principal é identificar e corrigir causas, oferecer suporte e reduzir fatores precipitantes. Antipsicóticos não devem ser prescritos rotineiramente para abreviar ou curar delirium. Em sofrimento importante ou risco imediato apesar de medidas apropriadas, a equipe pode considerar uso breve, na menor dose, após avaliar QT, interações, Parkinson/corpos de Lewy e risco de sedação. O benefício é controle de uma manifestação específica; não se presume melhora da mortalidade ou do tempo de delirium.
Prescrição- Se houver indicação persistente, escolher a menor dose de haloperidol apropriada à fragilidade e ao protocolo, preferindo via oral quando segura. Dose de 1 mg pode ser excessiva para iniciar em alguns idosos frágeis; não copiar faixas de UTI. Conferir concentração e conta em mL, sem equivalência universal em gotas, e reavaliar antes de repetir.
- Se a via oral não for possível e houver necessidade de medicação parenteral, definir dose baixa com médico responsável e protocolo geriátrico, considerando resposta prévia e risco cardíaco. A faixa de 2,5–5 mg IM de um documento sobre pacientes ventilados não determina uma dose mínima de 2,5 mg para todo idoso da enfermaria.
- Liberar acompanhante conhecido, inclusive fora do horário de visita, e pedir que traga objetos familiares
- Antes de haloperidol, verificar contraindicações, interações, ECG basal e eletrólitos; corrigir alterações relevantes e planejar vigilância. Um ensaio sem aumento médio do QTc em pacientes selecionados não demonstra segurança individual. Monitorar também hipotensão, rigidez, acatisia, disfagia e sedação.
- Haloperidol é contraindicado em doença de Parkinson e demência por corpos de Lewy. Se medicação for indispensável, discutir estratégia com equipe experiente; quetiapina pode ser considerada em situações selecionadas, com início cauteloso, mas não é alternativa automática nem isenta de sensibilidade neurológica, hipotensão ou sedação.
Só então — se for medicar, quando e com quê
A abstinência de álcool ou benzodiazepínico muda a escolha terapêutica: benzodiazepínico é tratamento importante, com monitorização e titulação. O momento de início varia com agente, última dose e dependência. Investigue também Wernicke, infecção e alterações metabólicas; uma causa não elimina as demais. Ofereça tiamina prontamente, sem atrasar glicose urgente.
Prescrição- Para prevenção de Wernicke, ASAM descreve tiamina 100 mg IV/IM ao dia por 3–5 dias, individualizada ao risco e ao protocolo. Suspeita de Wernicke exige tratamento parenteral em doses maiores; 200 mg/dia não é teto universal. Tiamina e glicose podem ser administradas em qualquer ordem ou juntas, sem atrasar correção de hipoglicemia.
- Benzodiazepínico deve ser titulado conforme gravidade, função hepática, resposta e monitorização, com supervisão e suporte respiratório disponíveis. CIWA-Ar depende de respostas do paciente e não deve guiar delirium estabelecido; usar avaliação objetiva apropriada, como RASS/MINDS conforme protocolo. Doses repetidas de diazepam exigem controle do total e avaliação antes de nova administração.
- Duração: curto prazo, habitualmente uma semana ou menos, com reavaliação diária da necessidade e suspensão assim que o risco cessar (NICE CG103)
- Antipsicótico pode ser adjuvante em agitação/alucinações persistentes apesar de tratamento adequado da abstinência, com cautela e monitorização. Não substitui benzodiazepínico nem previne convulsões; revisar também QT, eletrólitos e limiar convulsivo.
- Contraindicado em doença de Parkinson e em demência por corpos de Lewy pelo risco neurológico; nesse cenário, quetiapina é a alternativa da faixa brasileira, 25 a 400 mg/dia por via enteral, começando por 25 mg à noite (NICE CG103; CONITEC/AMIB 2021)
- NÃO usar benzodiazepínico para tratar delirium: ele piora o mecanismo e está entre as classes a evitar em idosos com delirium ou sob risco (Beers 2023; PADIS 2018)
- NÃO prescrever antipsicótico profilático nem em esquema fixo de rotina: o uso profilático ou de rotina de antipsicóticos não é benéfico (CONITEC/AMIB 2021; PADIS 2018)
A exceção — abstinência de álcool ou de benzodiazepínico
Aqui a regra se inverte, e é a única situação em que o benzodiazepínico é a droga certa. Suspeite no paciente que descompensa entre o segundo e o quarto dia de internação, com tremor, sudorese, taquicardia, hipertensão e alucinações — e principalmente naquele cuja história de uso domiciliar ninguém perguntou. No etilista, tiamina antes de qualquer carga de glicose.
Prescrição- Tiamina 100 mg por via intramuscular ao dia, com máximo de 200 mg/dia, mantida por 2 a 3 dias, iniciada antes da infusão de glicose (protocolo FHEMIG / Projeto Diretrizes AMB-CFM)
- Diazepam 10 mg por via oral 2 a 3 vezes ao dia; em quadro moderado a grave guiado por escore CIWA-Ar acima de 8 a 10, 10 a 20 mg a cada hora até controle, ou 10 a 20 mg por via endovenosa nos casos graves sob observação (protocolo FHEMIG, recomendação A)
- Na hepatopatia grave, lorazepam 2 a 4 mg em lugar do diazepam (protocolo FHEMIG)
- Haloperidol 1 a 2 mg por via oral ou intramuscular apenas para alucinações e delírios, em doses baixas pelo risco de efeitos extrapiramidais no paciente debilitado (protocolo FHEMIG)
- Reduzir o benzodiazepínico progressivamente conforme o quadro cede — manter o esquema depois do controle tem risco próprio
Dia 1 — a prescrição do dia seguinte
A visita da manhã é onde o delirium é ganho ou perdido. Ele não é um evento da madrugada que passou: é um diagnóstico ativo, que precisa aparecer na lista de problemas, na prescrição e na passagem de plantão. Se o que você fez de madrugada não vira prescrição fixa, na noite seguinte a equipe recomeça do zero.
Prescrição- Escrever delirium na lista de problemas do prontuário, com a causa identificada ou a busca em curso
- Revisão diária da lista de medicações com justificativa para cada droga de risco cognitivo
- Manter o pacote não farmacológico como itens fixos da prescrição — orientação, sensorial, sono, mobilização, hidratação, dor
- Se houve antipsicótico: registrar a indicação, a dose, e a data prevista de suspensão
Dias 2 a 7 — resolução e prevenção da recorrência
A expectativa correta é de dias, não de horas: parte dos pacientes melhora em 48 a 72 horas depois de a causa ser corrigida, e uma parte relevante leva semanas, sobretudo quem tem demência de base. Enquanto isso, o quadro recorre com facilidade a cada novo insulto — um exame com jejum prolongado, uma noite mal dormida, uma dose de anti-histamínico. É por isso que o pacote continua prescrito mesmo depois de o paciente melhorar.
Prescrição- CAM ao menos uma vez ao dia, no mesmo horário, com resultado registrado — e em terapia intensiva, CAM-ICU a cada 12 horas ou sempre que houver agitação psicomotora (CONITEC/AMIB 2021)
- Reavaliar diariamente a necessidade de sonda vesical, acesso, monitorização e restrição ao leito
- Suspender o antipsicótico assim que o risco cessar; ele não é medicação de alta
- Conversa com a família registrada: o que é delirium, o que causou, quanto tempo pode durar
Alta — o que precisa estar escrito
Delirium é um marcador de prognóstico, não um incidente de internação: na coorte brasileira, a mortalidade acumulada em 12 meses foi de 32% entre quem teve delirium contra 18% entre quem não teve. Um sumário de alta que não registra o episódio entrega ao médico da atenção primária um paciente sem essa informação — e à família uma explicação que ela não recebeu.
Prescrição- Registrar no sumário: o episódio de delirium, a causa identificada, a duração, o subtipo e a medicação usada, com a data em que foi suspensa
- Registrar o risco aumentado de recorrência em internações futuras e em procedimentos cirúrgicos
- Encaminhar para avaliação cognitiva ambulatorial quando os sintomas persistirem, porque delirium que não resolve pede investigação de demência (NICE CG103)
- Entregar por escrito à família os sinais de recorrência e as medicações que devem ser evitadas neste paciente
Como saber se está funcionando
Acompanhar atenção, consciência, flutuação, comportamento, sono, alimentação e função permite julgar evolução. Ficar quieto após medicamento não prova recuperação e pode indicar sedação excessiva. Melhorar atenção é um objetivo, mas retorno completo à basal pode levar dias ou semanas; não exigir normalidade em 48 horas para reconhecer benefício. Persistência ou piora exige revisar causas, efeitos adversos e complicações, mantendo medidas de suporte.
A segunda armadilha é o prazo. Delirium não resolve em uma noite. Melhora costuma vir em 48 a 72 horas depois de a causa ser corrigida, e no idoso com demência pode levar semanas — o que significa que persistência no dia 2 não é falha do tratamento, mas persistência no dia 7 sem nenhuma tendência de melhora é um sinal de que alguma coisa está errada no diagnóstico, na causa ou na prescrição.
Esperado: Reversão do critério 2 (desatenção) antes de tudo o mais: o paciente volta a completar os meses do ano de trás para frente sem perder o fio. Melhora esperada em 48 a 72 horas depois de a causa ser corrigida, mais lenta em quem tem demência de base.
Se não melhora: Reabra a busca de causa antes de mexer na medicação — na prática, procure primeiro o que costuma ser esquecido: fecaloma que voltou, dor não tratada, droga que ninguém suspendeu, hipóxia noturna, abstinência que ninguém cogitou. Se a busca completa não achou nada e não há tendência de melhora ao fim da primeira semana, questione o diagnóstico: quadro sem flutuação e com atenção preservada não é delirium, e delirium que não resolve pede reavaliação de causas e investigação posterior de demência.
Esperado: Paciente alerta e responsivo, sem sonolência nova. No paciente sob ventilação mecânica, alvo de sedação superficial (RASS 0 a -2), com reavaliação diária da necessidade de manter o sedativo.
Se não melhora: Rebaixamento progressivo é sinal de alarme e muda o raciocínio: procure causa estrutural, metabólica ou infecciosa nova, e considere estado de mal epiléptico não convulsivo no paciente que permanece rebaixado sem explicação. Nesse cenário específico, o eletroencefalograma deixa de ser exame de rotina e passa a ser exame indicado.
Esperado: Retorno progressivo do sono noturno e da vigília diurna, com redução da piora vespertina. É um dos primeiros parâmetros a se reorganizar quando a causa foi resolvida.
Se não melhora: Antes de prescrever qualquer coisa para dormir, audite o ambiente: aferição de sinais vitais de madrugada, medicação aprazada às 2h, luz acesa, ruído, e o paciente que dormiu o dia inteiro por falta de estímulo. Hipnótico do tipo Z e anti-histamínico compram uma noite e cobram a semana seguinte.
Esperado: Que cada causa identificada tenha um parâmetro objetivo acompanhado, e que ele melhore. Delirium melhorando sem que nenhuma causa tenha melhorado costuma significar que a causa real ainda não foi encontrada.
Se não melhora: Uma causa que não responde ao tratamento é motivo para reavaliar o diagnóstico dela, não para intensificar o sintomático do delirium. E lembre que causas se somam: encontrar uma não encerra a lista, sobretudo no idoso frágil, em que três insultos pequenos simultâneos são mais comuns que um insulto grande.
Esperado: Antipsicótico com indicação registrada, na menor dose, e com data de suspensão prevista — habitualmente uma semana ou menos. Nenhum benzodiazepínico novo, exceto na abstinência. Lista de medicações de risco cognitivo encolhendo, não crescendo.
Se não melhora: Se o paciente está no oitavo dia de antipsicótico, uma de duas coisas aconteceu: a causa não foi encontrada, ou a droga virou rotina de prescrição sem que ninguém a reavaliasse. Nos dois casos, a conduta é a mesma — reabrir a busca de causa e programar a retirada. Antipsicótico não é medicação de alta e não tem indicação de manutenção no delirium.
Esperado: Recuperação progressiva do que ele fazia antes da internação. Esse é o desfecho que a família enxerga e o que melhor prediz para onde o paciente vai depois da alta.
Se não melhora: Perda funcional que persiste depois de o delirium ceder é indicação de reabilitação precoce e de planejamento de alta com a família e o serviço social — não é apenas sequela a observar. E é o momento de rever a lista de dispositivos: sonda, contenção e restrição ao leito que sobraram são causa ativa de perda funcional.
Esperado: Que a hipótese continue de pé: início agudo documentado, flutuação registrada, desatenção presente. Se algum desses três nunca foi documentado, o diagnóstico é frágil.
Se não melhora: Reconsidere na seguinte ordem: causa não encontrada (a mais provável); demência que estava mascarada e agora aparece; depressão grave com lentificação; efeito de droga que continua sendo administrada; e, com achado focal ou rebaixamento, causa estrutural ou epiléptica. Ter chamado de delirium não impede que também seja outra coisa — e um paciente pode ter delirium sobreposto a demência, que é o cenário mais frequente de todos.
Onde o erro machuca
O dano: O antipsicótico ou o benzodiazepínico apagam a expressão comportamental e deixam a causa intacta — e a causa continua trabalhando. A bexiga segue cheia, a hipóxia segue baixando a saturação, a sepse segue evoluindo, agora num paciente que não consegue mais avisar. Você trocou o único sinal de alarme que tinha por silêncio, e a próxima informação clínica vem quando a pressão cair.
Como pegar a tempo: Faça avaliação clínica e desescalada imediatamente, procurando causas reversíveis em paralelo. Segurança, ABC e glicemia vêm antes de completar uma escala. Se houver risco iminente persistente, medidas de proteção e medicação criteriosamente escolhida podem ser necessárias enquanto a investigação continua; não esperar dez minutos por regra.
O dano: A contenção aumenta imobilidade, agitação, lesão de pele, risco de aspiração e de trombose, e alimenta o próprio delirium: o paciente que não entende por que está preso luta mais. O ensaio que reduziu a incidência de delirium tratava equipamento imobilizante — incluindo contenção e sonda vesical — como algo a minimizar, não como recurso terapêutico. Além do dano clínico, há a exposição jurídica de um procedimento com norma específica que não foi seguida.
Como pegar a tempo: Esgote primeiro as alternativas: acompanhante presente, remover o dispositivo que ele está puxando, avaliar se aquele acesso ou sonda ainda é necessário, reduzir estímulo, tratar dor. Se a contenção for mesmo o único meio disponível de prevenir dano imediato ou iminente, ela se aplica sob supervisão direta do enfermeiro, com monitoramento pela equipe e com registro em prontuário das razões, da duração, das avaliações e dos eventos adversos, conforme a Resolução COFEN nº 746/2024 — e com prazo para reavaliar, nunca por conveniência da equipe.
O dano: É o erro de maior letalidade do capítulo, porque atinge 53% dos casos: o paciente sonolento tem mortalidade hospitalar de 33% e razão de risco ajustada de 2,43, e é justamente o que ninguém chama. Some a isso que o subtipo hipoativo multiplica por 7,4 a chance de o quadro não ser reconhecido pela equipe. Na prática, ele recebe alta com o diagnóstico de que estava cansado, e a causa nunca foi procurada.
Como pegar a tempo: Inverta o gatilho: em vez de esperar o telefonema, teste atenção todo dia em todo idoso internado, e trate sonolência nova como sinal de deterioração que exige ABCDE, glicemia e investigação de delirium e outras causas. Na passagem de plantão, mudança de comportamento é informação clínica — 'ele está mais quietinho hoje' precisa gerar avaliação, não apenas registro.
O dano: O benzodiazepínico está entre os fatores de risco de delirium com evidência mais consistente e figura entre as classes a evitar em idoso com delirium ou sob risco dele. Prescrito para 'ajudar a dormir' no paciente confuso, ele produz mais desatenção, mais queda, mais aspiração e mais tempo de delirium. E o inverso também dá errado: suspender abruptamente o clonazepam que o paciente toma há quinze anos gera abstinência no terceiro dia, com um quadro que se parece exatamente com o que se queria evitar.
Como pegar a tempo: Investigar e tratar a causa, apoiar orientação, sono, mobilidade e segurança. Benzodiazepínicos não são tratamento rotineiro do delirium; podem ter indicação em abstinência de álcool/benzodiazepínico e em situações específicas como catatonia ou sedação paliativa por sintoma refratário, conduzidas pela equipe apropriada. Antipsicótico também não substitui tratamento causal e, quando excepcionalmente usado para sofrimento intenso ou risco, exige avaliação de contraindicações e monitorização.
O dano: Déficit visual multiplica por 2,2 a chance de o delirium não ser reconhecido, e é fator de risco do próprio quadro. Sem entrada sensorial confiável, o cérebro preenche as lacunas — e a interpretação delirante nasce daí. O mesmo vale para o ambiente: luz acesa a noite inteira, aferição de sinais vitais às 2h, medicação aprazada às 4h e nenhuma janela de dia desorganizam o ciclo que você está tentando restaurar.
Como pegar a tempo: Prescreva o sensorial como se prescreve medicação: óculos no rosto, aparelho auditivo com pilha, cerume removido. E proteja um bloco de sono de 22h às 6h, reagrupando aprazamentos e evitando procedimentos e aferições não essenciais nesse intervalo — é o item do pacote que mais depende de combinação com a enfermagem e menos depende de você.
O dano: Bacteriúria assintomática é comum no idoso e não causa delirium por si. A cultura positiva encerra a investigação com uma resposta falsa: o antibiótico é prescrito, a equipe fica tranquila, e a hipóxia noturna, o fecaloma ou a prometazina que ninguém viu continuam produzindo o quadro. O paciente ainda leva o dano do antibiótico desnecessário, incluindo diarreia por Clostridioides difficile e seleção de resistência.
Como pegar a tempo: Diante de bacteriúria, procurar sintomas urinários e sinais sistêmicos compatíveis, avaliando outros focos. Leucocitose ou cultura positiva isoladas não diagnosticam ITU. Sem sintomas locais nem sinais sistêmicos, delirium pede investigação de outras causas e observação, não antibiótico automático; instabilidade ou suspeita de sepse exige avaliação e tratamento prontamente.
O dano: É o erro que devolve para casa um paciente com causa reversível não tratada e com um diagnóstico errado colado no prontuário, que vai orientar todos os atendimentos seguintes. Como demência é o principal fator de risco de delirium, a confusão é fácil — e o custo é assimétrico: tratar como delirium quem tinha demência custa uma busca de causa; tratar como demência quem tinha delirium custa a causa que ninguém procurou.
Como pegar a tempo: Obtenha a linha de base com quem convive com o paciente, e diante de qualquer incerteza entre delirium e demência maneje como delirium primeiro. Demência não se diagnostica durante uma internação aguda — se a suspeita ficar de pé, ela vira encaminhamento para avaliação cognitiva depois da alta.
O dano: Em delirium sem sinal focal, sem trauma e sem anticoagulação, a tomografia raramente muda a conduta — e custa transporte de um paciente agitado, tempo longe da enfermaria, radiação e necessidade eventual de sedação; a TC inicial para hemorragia costuma ser sem contraste e, sobretudo, a sensação de que a investigação foi feita. Enquanto o paciente vai e volta do tomógrafo, ninguém palpou a bexiga dele.
Como pegar a tempo: Reserve a imagem para foco neurológico novo, rebaixamento persistente, trauma ou queda, anticoagulação, cefaleia de início súbito, ou quadro que permaneça inexplicado depois da busca completa. Nas outras situações, o exame que muda conduta é a leitura da prescrição.
O dano: O antipsicótico prescrito de madrugada em esquema fixo ou 'se necessário' atravessa a internação sem que ninguém o reveja, sai no receituário de alta e vira medicação de uso contínuo em um idoso — com risco cardíaco, extrapiramidal e de queda, para tratar um quadro que já passou. É assim que o remédio de uma noite vira prescrição de anos.
Como pegar a tempo: Toda prescrição de antipsicótico nasce com indicação escrita e data prevista de suspensão, e é reavaliada na visita de todo dia. Curto prazo aqui significa habitualmente uma semana ou menos. E na conferência do receituário de alta, ele não deve estar lá.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa do delirium tem uma característica própria: a família está assistindo a algo que parece uma catástrofe psiquiátrica ou o começo do fim, e a informação que você tem para dar é boa — isso é agudo, tem causa, costuma reverter. O erro mais comum não é falar demais nem de menos: é não falar, deixando a família interpretar sozinha o que ela está vendo. As falas abaixo são para dizer em voz alta.
A filha chega de madrugada e vê o pai contido, falando com pessoas que não existem
“O que a senhora está vendo tem nome: chama-se delirium. É uma confusão mental aguda que aparece quando uma pessoa idosa fica doente e internada — o cérebro dele é o órgão que está sentindo a doença primeiro. Não é loucura, não é o Alzheimer começando, e na maioria das vezes é reversível. Ele não está fazendo por mal e não vai lembrar direito depois. Meu trabalho agora é descobrir o que causou isso: pode ser a infecção que o trouxe, pode ser dor, pode ser a bexiga cheia, pode ser um remédio. Já comecei a procurar e volto para contar o que encontrei.”
Não diga: Ele está confuso, é da idade. A frase encerra a conversa e encerra a investigação junto — e é exatamente o que a família vai repetir ao próximo médico, atrasando o diagnóstico.
A família pergunta quando ele volta ao normal
“Depois que a gente corrigir a causa, a melhora costuma começar em dois ou três dias. Mas eu preciso ser honesto sobre o tempo: em pessoas mais idosas, e principalmente em quem já tinha algum problema de memória, pode levar semanas até ele voltar ao que era. E vai ser irregular — ele vai ter horas boas e horas ruins no mesmo dia, e as noites costumam ser piores. Pode ser flutuação do quadro, mas uma piora nova precisa ser comunicada e reavaliada para procurar outras causas.”
Não diga: Prometer que amanhã ele acorda bem. Quando o dia seguinte chega igual, a família perde a confiança na informação e passa a procurar explicação em outro lugar.
A família pergunta se isso é o começo do Alzheimer
“Não é a mesma coisa, e a diferença é o tempo: demência se instala ao longo de anos, e o que ele teve começou em um dia. O que eu posso dizer com sinceridade é que ter delirium indica que o cérebro dele tem menos margem que antes, e que vale a pena fazer uma avaliação da memória depois da alta, com calma, fora do hospital. Aqui dentro, com ele doente, testes cognitivos podem ser influenciados pelo quadro agudo e não devem, isoladamente, estabelecer demência; a história prévia continua útil.”
Não diga: Afirmar que não tem nada a ver com demência. As duas coisas se relacionam, e negar isso agora cria um problema quando a avaliação ambulatorial vier alterada.
Explicando por que foi preciso conter, ou por que você não vai sedar
“A contenção foi usada porque naquele momento era o único jeito de impedir que ele se machucasse, e ela tem hora para ser reavaliada — não vai ficar assim. Sobre remédio para acalmar: eu vou evitar ao máximo, e vou explicar por quê. Os remédios que deixam ele quieto não tratam a causa da confusão e podem prolongá-la, além de aumentar o risco de queda e de engasgo. Se em algum momento ele estiver sofrendo muito ou correndo risco, eu uso — na menor dose e pelo menor tempo, e aviso vocês.”
Não diga: Dizer que a contenção é para a segurança dele e mudar de assunto. A família precisa ouvir que existe prazo, reavaliação e alternativa, senão a decisão parece punição.
A família da paciente hipoativa acha que ela está apenas descansando
“Eu sei que ela parece calma, e por isso mesmo eu vim conversar. Dormir o dia inteiro e não conseguir prestar atenção numa conversa é a forma mais comum e a mais séria dessa mesma confusão aguda — só que ela não incomoda ninguém, e por isso costuma passar despercebida. Ela não está descansando; ela está com o cérebro afetado pela doença. Eu vou procurar a causa hoje mesmo.”
Não diga: Deixe ela descansar, coitada. É a frase mais gentil e mais cara do capítulo: ela adia por dias o diagnóstico do subtipo com pior prognóstico.
A família pergunta o que ela pode fazer para ajudar
“Vocês são parte do tratamento, e eu vou pedir coisas concretas. Tragam os óculos e o aparelho auditivo dele hoje, com pilha nova. Tragam um relógio de números grandes e uma foto de casa. Sempre que chegarem, digam quem são, onde ele está e que dia é — sem testar, sem cobrar. Falem devagar, frases curtas, uma pessoa por vez. Durante o dia, abram a cortina e ajudem a levantar e sentar na poltrona. E à noite, deixem o ambiente escuro e silencioso. Isso não é conforto: é o que mais funciona nessa doença.”
Não diga: Dizer apenas que a família pode ficar tranquila e ir embora. Presença conhecida e correção sensorial estão entre as medidas mais eficazes — pedir isso explicitamente vale mais que qualquer prescrição da madrugada.
O paciente melhorou e pergunta, envergonhado, o que ele fez
“O senhor esteve com uma confusão aguda causada pela infecção e pelos dias no hospital — não foi o senhor, foi a doença. Muita gente lembra de pedaços e fica constrangida, e não há nada de que se envergonhar. Se quiser me contar o que o senhor lembra, eu quero ouvir, porque ajuda a gente a cuidar melhor de outras pessoas. E é importante que o senhor e a sua família saibam: isso pode acontecer de novo em outra internação ou depois de uma cirurgia, e existem coisas que a gente faz para diminuir esse risco.”
Não diga: Minimizar com 'não aconteceu nada, o senhor estava dormindo'. A pessoa lembra de fragmentos assustadores, e negá-los deixa a experiência sem explicação em vez de resolvida.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Contra o uso rotineiro, no paciente crítico
No adulto criticamente enfermo, a orientação é não usar haloperidol nem antipsicótico atípico rotineiramente para tratar delirium, com recomendação condicional baseada em evidência de baixa qualidade — os ensaios não mostraram redução de duração do delirium, de tempo de ventilação, de permanência ou de mortalidade. A mesma orientação vale contra o uso profilático de haloperidol, atípico, dexmedetomidina, estatina ou cetamina.
PADIS — Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU (Crit Care Med, 2018)
A favor do uso de curto prazo em situação de risco
Quando as técnicas verbais e não verbais de desescalada falham e o paciente está em sofrimento ou representa risco para si ou para os outros, considera-se haloperidol de curto prazo, geralmente por uma semana ou menos, começando pela menor dose clinicamente apropriada e titulando com cautela, com atenção ao alerta regulatório sobre efeitos cardíacos e neurológicos, especialmente em doença de Parkinson e demência por corpos de Lewy.
NICE — Delirium: prevention, diagnosis and management in hospital and long-term care (CG103, atualizada em 2023)
Evitar, com exceção estreita e nominada
Antipsicóticos entram na lista de classes a evitar em idosos com delirium ou sob alto risco dele, pelo potencial de induzir ou piorar o quadro. A exceção é escrita de forma restritiva: só quando as opções não farmacológicas documentadas falharam ou não são possíveis e o idoso está ameaçando dano substancial a si ou a terceiros — e, nesse caso, na menor dose eficaz e pelo menor tempo.
American Geriatrics Society — 2023 updated AGS Beers Criteria (J Am Geriatr Soc, 2023)
Posição do documento brasileiro no paciente ventilado
O documento nacional afirma que o uso de rotina ou profilático de antipsicóticos não é benéfico em pacientes críticos em ventilação mecânica, e lista as faixas de dose dos neurolépticos disponíveis no país para quando eles forem usados: haloperidol 2,5 a 5 mg por via intramuscular de 8 em 8 horas ou 1 a 15 mg/dia por via enteral, quetiapina 25 a 400 mg/dia, risperidona 2 a 6 mg/dia, olanzapina 5 a 20 mg/dia.
Ministério da Saúde / CONITEC — Manejo da Dor, Sedação e Delirium em Pacientes sob Ventilação Mecânica Invasiva (Capítulo 3 das Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19, 2021)
As quatro posições concordam em mais do que aparentam: nenhuma delas sustenta antipsicótico como tratamento do delirium, e todas colocam a busca de causa e as medidas não farmacológicas antes. A divergência real é sobre o que autoriza a exceção. O critério que operacionaliza isso na beira do leito não é a intensidade da agitação, é o risco: um paciente que anda pelo corredor chamando pela esposa não preenche; um paciente que arranca cateter central, agride a equipe ou está em sofrimento visível preenche. Três perguntas ajudam a decidir para o paciente à sua frente. Primeira: a desescalada foi realmente tentada, ou pulou-se direto para a prescrição? Segunda: há alternativa disponível agora — acompanhante liberado, remoção do dispositivo que ele puxa, tratamento da dor? Terceira: qual o custo do erro em cada direção neste paciente — em quem tem Parkinson ou demência por corpos de Lewy, o custo de medicar é alto e a alternativa muda; em quem tem cateter central e está prestes a arrancá-lo, o custo de não medicar é imediato. E a decisão vem com prazo colado: dose escrita, indicação escrita, data de suspensão escrita. A atualização PADIS 2025, no paciente de UTI, não conseguiu recomendar a favor ou contra antipsicóticos para tratar delirium, por incerteza da evidência. Isso não equivale a recomendar uso rotineiro nem a provar ausência absoluta de qualquer benefício em todos os desfechos. Na enfermaria, eventual controle breve de risco/sofrimento permanece uma decisão clínica individualizada.
Prevenção universal em quem tem qualquer fator de risco
Todo paciente que apresente ao menos um dos quatro fatores (65 anos ou mais, comprometimento cognitivo ou demência, fratura de quadril, doença grave) é considerado em risco e recebe o pacote multicomponente completo, com os dez itens detalhados — orientação, hidratação e constipação, hipóxia, infecção, mobilidade, dor, revisão de medicações, nutrição, déficit sensorial e sono — além de observação diária para indicadores de delirium.
NICE — Delirium: prevention, diagnosis and management in hospital and long-term care (CG103, atualizada em 2023)
O que o ensaio original mediu, e em quem
O programa de seis protocolos reduziu a incidência de delirium de 15,0% para 9,9% (OR 0,60; IC95% 0,39–0,92), mas o efeito por estrato foi desigual: significativo no grupo de risco intermediário (OR 0,52; IC95% 0,29–0,92) e sem significância no grupo de risco mais alto (OR 0,73; IC95% 0,38–1,38). O programa também não reduziu a gravidade nem a recorrência entre os que adoeceram, e exigiu equipe interdisciplinar dedicada com adesão de 87%.
Inouye SK, et al. — A multicomponent intervention to prevent delirium in hospitalized older patients (N Engl J Med, 1999)
Oferecer prevenção multicomponente individualizada aos pacientes em risco, inclusive aos de alto risco. Resultado significativo em um subgrupo e não em outro não demonstra diferença entre os efeitos e não justifica abandonar prevenção no grupo mais vulnerável. Priorizar necessidades reais — orientação, sensorial, sono, mobilidade, dor, hidratação, nutrição e revisão de medicamentos — e organizar apoio da equipe conforme capacidade, sem presumir que o episódio seja inevitável.
Uso sugerido num nicho específico
Sugere-se dexmedetomidina para delirium em adultos sob ventilação mecânica nos quais a agitação está impedindo o desmame ou a extubação — recomendação condicional, com evidência de baixa qualidade. A mesma diretriz recomenda contra o uso de dexmedetomidina para prevenir delirium em pacientes críticos em geral.
PADIS — Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU (Crit Care Med, 2018)
Posicionamento do documento nacional
O documento brasileiro coloca a dexmedetomidina entre os fármacos essenciais da sedação e entre as opções para reduzir o consumo de opioides, com hipotensão e bradicardia entre os efeitos adversos listados. As orientações nacionais sobre delirium no ventilado são a avaliação com CAM-ICU, o alvo de sedação superficial, a atenção às causas — inclusive abstinência de opioide e benzodiazepínico — e a afirmação de que antipsicótico de rotina ou profilático não traz benefício.
Ministério da Saúde / CONITEC — Manejo da Dor, Sedação e Delirium em Pacientes sob Ventilação Mecânica Invasiva (Capítulo 3 das Diretrizes Brasileiras para Tratamento Hospitalar do Paciente com COVID-19, 2021)
Repare no tamanho do nicho antes de qualquer outra coisa: a indicação sugerida é para o paciente intubado em que a agitação impede o desmame — ela não se transporta para o idoso da enfermaria de clínica médica, que é o paciente em questão aqui. Dentro da UTI, o que decide é o objetivo e o preço. Se o objetivo é trocar um sedativo que piora o delirium (o benzodiazepínico) por um que permite o paciente acordado e colaborativo, a dexmedetomidina tem lugar; se o objetivo é 'tratar o delirium', ela não é isso. O preço é hemodinâmico — bradicardia e hipotensão — e é o que exclui o paciente com instabilidade ou com bloqueio de condução. E há a variável brasileira: a droga é cara, nem toda unidade a tem em estoque contínuo, e uma estratégia que depende de insumo intermitente não pode ser a espinha do protocolo da casa; ela é a exceção pensada caso a caso, com o desmame como alvo explícito e prazo definido.
Norma profissional brasileira vigente
A contenção mecânica é realizada quando for o único meio disponível para prevenir dano imediato ou iminente ao paciente ou aos demais, sob supervisão direta do enfermeiro; todo paciente contido deve ser monitorado pela equipe de enfermagem para prevenir danos e eventos adversos; e as razões, a duração, as avaliações, os eventos adversos e os detalhes do monitoramento clínico devem ser registrados em prontuário. A resolução tem entre seus considerandos a vedação constitucional a tratamento desumano ou degradante e a Lei 10.216/2001.
Conselho Federal de Enfermagem — Resolução COFEN nº 746, de 20 de março de 2024
Contenção como fator de risco a minimizar
No programa que reduziu a incidência de delirium, o protocolo de mobilização precoce previa explicitamente o uso mínimo de equipamento imobilizante, nomeando cateter vesical e contenção física entre os itens a evitar. Na coorte brasileira de idosos internados via emergência, confinamento ao leito e uso de sonda vesical foram os dois fatores mais fortemente associados ao delirium (ambos com p<0,001).
Inouye SK, et al. (N Engl J Med, 1999); Rosso LH, et al. (J Bras Psiquiatr, 2020)
Os dois lados não discordam sobre o objetivo — segurança —, discordam sobre quanto ela custa e sobre com que facilidade se recorre a ela. A norma autoriza, mas com um teste alto: único meio disponível, dano imediato ou iminente. Quatro perguntas transformam isso em decisão de plantão. O que exatamente eu impeço agora — ele arrancaria um cateter central, ou está tentando ir ao banheiro? Existe alternativa disponível neste momento — acompanhante liberado, remoção do dispositivo, tratamento da dor, redução de estímulo? Por quanto tempo, com que frequência de reavaliação, e quem vai monitorar? E o que está escrito no prontuário sobre isso? A resposta honesta à segunda pergunta é onde a maioria dos casos se resolve: contenção por falta de gente é um problema de escala da enfermaria, não uma indicação clínica — e nomeá-lo assim, na discussão com a chefia, muda mais desfechos que qualquer prescrição de madrugada.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Waldemar. 79 anos, terceiro dia de internação por pneumonia adquirida na comunidade, em uso de ceftriaxona e azitromicina. Hipertenso, com doença renal crônica estágio 3 e hiperplasia prostática benigna. Estava lúcido na visita da manhã. São 3h10, ele está sentado na beira do leito, com o equipo enrolado no braço, dizendo que precisa ir para casa. Acompanhe o raciocínio em voz alta.
o que penso a caminho da enfermaria
Mudança aguda de comportamento exige avaliação clínica urgente. Pelo telefone peço vigilância, sinais vitais, glicemia e suporte indicado enquanto vou ao leito e aciono o responsável. Infecção, retenção, medicamentos e causas neurológicas entram nas hipóteses; não afirmar antes do exame que nada novo ocorreu no cérebro.
os primeiros dois minutos, antes de qualquer exame
Me aproximo de frente, no campo de visão dele, digo meu nome, digo que ele está no hospital tratando uma pneumonia e que são três da manhã. Não discuto o conteúdo do que ele fala sobre a esposa. Peço à técnica a linha de base: às 22h ele estava acordado, um pouco agitado, pedindo para ir ao banheiro várias vezes, e não conseguiu urinar. Essa informação já vale mais que metade dos exames que eu vou pedir.
o CAM, aplicado em quatro minutos
Critério 1: mudança aguda em relação à manhã, com flutuação relatada ao longo do dia — positivo. Critério 2: peço os meses do ano de trás para frente; ele começa em dezembro, chega em setembro, para, me pergunta o que era mesmo para fazer, e recomeça em dezembro — desatenção clara, achado que apoia desatenção no contexto agudo, sem excluir comprometimento cognitivo prévio. Critério 3: fala desconexa, muda de assunto sem nexo — positivo. Critério 4: hipervigilante. Com 1 e 2 positivos mais 3 e 4, o CAM fecha. Subtipo hiperativo, que é o de melhor prognóstico dos três — o que não muda nada da minha busca de causa.
o que peço primeiro, e o que examino enquanto espero
Sinais vitais: 148x88, frequência 104, temperatura 37,2, frequência respiratória 22, saturação 93% em ar ambiente, glicemia capilar 118. Sem hipoglicemia e sem hipoxemia grave. Palpo o hipogástrio e encontro uma massa lisa e dolorosa até dois dedos abaixo da cicatriz umbilical — globo vesical, num paciente com hiperplasia prostática que passou a noite tentando urinar sem conseguir. Faço toque retal: sem fecaloma, próstata aumentada e lisa. Neurológico sem foco, pupilas simétricas, sem sinal meníngeo.
como o achado muda o que eu penso
Bexiga cheia explica o quadro e explica também o horário: piorou à noite, depois de horas sem conseguir esvaziar. Faço cateterismo de alívio e drenam 780 mL. Em vinte minutos ele para de tentar sair do leito, aceita água e se orienta melhor quando eu repito onde está. Mas eu não fecho a lista aqui, e essa é a diferença entre resolver e parecer resolver: causas se somam no idoso frágil, e eu ainda tenho uma prescrição para ler.
a prescrição, que é o segundo exame
Leio linha por linha. Duas coisas saltam. Primeira: dimenidrinato prescrito ontem às 18h por causa de náusea — anti-histamínico de primeira geração, forte carga anticolinérgica, administrado na noite anterior, com relação temporal a conferir no aprazamento. Segunda: nada de laxativo, num paciente idoso, acamado e com pouca ingesta. Suspendo o dimenidrinato e substituo por antiemético sem ação anticolinérgica se voltar a precisar, e prescrevo esquema laxativo regular. Pergunto à filha, por telefone, sobre uso domiciliar: ele não usa benzodiazepínico e não bebe — abstinência sai da lista.
o que eu não faço, e por quê
Após aliviar a retenção e retirar o possível precipitante, não há sofrimento intenso ou risco persistente que justifique antipsicótico. Reorganizo o sono preservando avaliações clinicamente necessárias. Sem sinal focal ou trauma e com causas plausíveis, imagem cerebral não é automática, mas a evolução pode mudar essa decisão. Após drenagem de 780 mL em paciente com hiperplasia prostática, definir com a equipe se precisa de cateter temporário, tratamento da obstrução e tentativa programada de retirada; não ensinar retirada imediata obrigatória. Acompanhar diurese, recorrência de retenção e função renal.
o que fica prescrito para amanhã
Escrevo delirium na lista de problemas, com as duas causas: retenção urinária aguda e anticolinérgico. Prescrevo o pacote como itens fixos: reorientação a cada contato, óculos e aparelho auditivo (a filha traz de manhã), janela aberta de dia, bloco de sono das 22h às 6h com aprazamentos reagrupados, sentar fora do leito nas refeições, deambulação com apoio três vezes ao dia, oferta ativa de líquidos, avaliação de dor a cada plantão e CAM diário no mesmo horário. Peço avaliação da urologia para a retenção. E ligo para a filha de manhã antes que ela chegue e veja o pai daquele jeito sem explicação.
48 horas depois
Ele passa duas noites melhores, com um episódio breve de confusão na segunda noite que cede sem medicação. No terceiro dia o CAM está negativo: completa os meses de trás para frente sem se perder, sabe onde está e que dia é. No sumário de alta fica escrito o episódio, as duas causas, a duração, o subtipo, o fato de que nenhum antipsicótico foi usado, e a orientação para a família e para a equipe: este paciente tem risco aumentado de novo delirium em internações futuras e em cirurgias, e dimenidrinato, prometazina e correlatos devem ser evitados nele.
Faça você
Agora é dona Idalina, do leito 9. 84 anos, quarto dia de internação por infecção do trato urinário com bacteremia, em uso de ceftriaxona, afebril há 48 horas e com melhora dos marcadores. Tem hipertensão, diabetes tipo 2 e faz uso domiciliar de amitriptilina 25 mg à noite para dor neuropática — mantida na prescrição da internação. Ontem à noite recebeu zolpidem 10 mg porque não dormia. Hoje dormiu o dia inteiro, não aceitou almoço nem jantar, e responde por monossílabos. A filha diz que em casa ela cozinhava, assistia à novela e discutia futebol; o que ela vê agora não é a mãe dela. Sinais vitais: 118x70, frequência 76, temperatura 36,4, frequência respiratória 16, saturação 96% em ar ambiente, glicemia capilar 142. Sem sinal neurológico focal, sem globo vesical à palpação, evacuou hoje. A última urocultura, colhida na admissão, veio com Escherichia coli sensível ao esquema em uso.
por que ela precisa ser avaliada, apesar de estar calma
Reconhecer mudança aguda do sensório e avaliar ABCDE, glicemia, medicamentos e causas clínicas. Delirium hipoativo é hipótese importante e deve ser pesquisado com basal e atenção. O silêncio não demonstra conforto, mas também não confirma delirium. Dados de coortes ajudam a lembrar esse risco sem fornecer a probabilidade individual da paciente.
o CAM dela
Critério 1: mudança aguda em relação à linha de base relatada pela filha, com flutuação registrada pela enfermagem (esteve mais desperta no fim da tarde) — positivo. Critério 2: começa a listar os meses de trás para frente, chega em outubro, se perde e para de responder — desatenção. Critério 3: fala escassa, sem desorganização evidente — negativo. Critério 4: letárgica, sonolenta, desperta ao chamado e volta a dormir — positivo. Com 1 e 2 mais o 4, o CAM está fechado, sem nenhuma agitação, sem nenhuma alucinação e sem nenhum telefonema.
o que já saiu e o que ficou na lista de causas
Sem hipoglicemia, sem hipoxemia, sem febre, sem globo vesical, evacuou hoje, sem foco neurológico, com a infecção em franca melhora e antibiótico adequado ao antibiograma. O que sobrou está na folha de prescrição: amitriptilina 25 mg à noite, que é anticolinérgico de forte ação, mantida desde a admissão; e zolpidem 10 mg administrado ontem à noite, hipnótico do tipo Z. Ambos figuram entre as classes a evitar em idoso com delirium ou sob risco dele.
conduta
Avaliar segurança, respiração, deglutição e causas concomitantes; suspender o hipnótico recebido, rever amitriptilina e instituir cuidado multicomponente. Reavaliar a evolução e a necessidade de suporte com a equipe responsável.
Ver como fecharíamos
Primeiro, nomear: escrever delirium hipoativo na lista de problemas, com o horário e o resultado do CAM — sem registro, o diagnóstico não sobrevive à passagem de plantão, e é assim que essa paciente recebe alta com o rótulo de cansada. Segundo, tratar a causa que está na prescrição: suspender o zolpidem imediatamente e suspender ou desmamar a amitriptilina, substituindo o controle da dor neuropática por opção sem carga anticolinérgica em conjunto com quem a acompanha — a decisão é de suspender, não de manter e observar, porque a droga é ao mesmo tempo a causa mais provável e a mais facilmente removível. Terceiro, não medicar nada para o delirium: não há sofrimento intenso nem risco a si ou a terceiros, e antipsicótico em paciente hipoativa não tem nenhum papel — acrescentaria risco de queda, de aspiração e cardíaco a uma paciente já sedada demais. Quarto, resistir à tentação de fechar a causa na urocultura da admissão: ela está afebril há 48 horas, com marcadores em queda e antibiótico adequado, o que favorece resposta ao tratamento, mas não exclui contribuição infecciosa persistente ou nova complicação para a piora cognitiva — atribuir o quadro a ela encerraria a investigação com uma resposta falsa. Quinto, prescrever o pacote como tratamento e não como conforto: acordar e sentar fora do leito para as refeições, deambulação com apoio, oferta ativa de líquidos, óculos e aparelho auditivo colocados, janela e luz durante o dia, bloco de sono protegido das 22h às 6h com aprazamentos reagrupados, e a filha liberada para acompanhar. Sexto, reavaliar: CAM diário no mesmo horário, com melhora esperada em 48 a 72 horas depois da retirada das drogas — e, se não houver nenhuma tendência de melhora, reabrir a busca de causa (hipóxia noturna, dor não tratada, retenção intermitente, evento vascular) antes de aceitar que o quadro é apenas lento. Sétimo, conversar com a filha hoje, dizendo com todas as letras que a mãe não está descansando: está com uma confusão aguda cuja forma mais comum é exatamente essa, que existe causa identificada, e que a recuperação vem em dias e pode ser irregular.
Delirium pode persistir por dias ou semanas, mesmo após melhora do fator inicial. Ausência de recuperação em uma semana não prova diagnóstico errado, mas exige rever causas persistentes, medicamentos, complicações e estado cognitivo basal. Reavaliar diariamente consciência, atenção, flutuação, segurança e função, ouvindo quem conhece o paciente. Demência pode coexistir; seu diagnóstico não deve ser fechado apenas pelo desempenho durante doença aguda. A conduta acompanha os achados e a evolução, sem prazo artificial para exigir normalização.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare dois idosos com mudança aguda: um agitado e outro sonolento. Descreva avaliação inicial, hipóteses e medidas imediatas sem usar sedação como desfecho.
Em 30 dias
Reavalie um caso com delirium persistente: revise causas, medicamentos, função, segurança e plano de alta. Explique à família a incerteza da recuperação e sinais de piora.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 82 anos, quinto dia de internação por fratura de fêmur operada, chamada pela enfermagem às 2h da manhã porque está tentando sair do leito e não reconhece a filha. Conduza da chegada à enfermaria até a prescrição do dia seguinte — diga em voz alta o que você procura antes de prescrever qualquer coisa, e explique à filha, com as suas palavras, o que está acontecendo com a mãe dela.
