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Febre no paciente internado
A enfermagem liga dizendo 38,4 °C no leito 8, e o reflexo do interno é colher hemocultura e começar antibiótico em todo mundo. Febre no internado não é diagnóstico, é evento: aqui você aprende a procurar o foco de forma sistemática e a separar quem precisa de antimicrobiano agora de quem precisa que você espere.
Nota Técnica GVIMS/GGTES/Dire3/Anvisa nº 03/2026 — Critérios Diagnósticos das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde de Notificação Nacional Obrigatória, ano 2026. Brasília: Anvisa, 2 de janeiro de 2026 (104 páginas).
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Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Boletim Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde nº 14 — Avaliação dos indicadores nacionais das Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) e resistência microbiana. Brasília: Anvisa, 2016 (dados de 2011 a 2015).
Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS). Implementação de Protocolo Gerenciado de Sepse — Protocolo Clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018.
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Responda antes de ler
Paciente de 34 anos, nono dia após ciclo de quimioterapia por linfoma, apresenta temperatura axilar de 38,0 °C. Está lúcido, conversando, sem queixas, com pressão arterial 122 por 74 mmHg e sem foco ao exame físico. O hemograma da véspera mostrava contagem absoluta de neutrófilos de 380/mm³. O que você faz agora?
O paciente que você vai ver
Vinte e duas horas, enfermaria de cirurgia geral. A técnica de enfermagem te encontra no posto com a folha de sinais vitais na mão: “Doutor, o 8 está com 38,4.” O 8 é o senhor Waldir, 62 anos, terceiro dia de pós-operatório de hemicolectomia direita por adenocarcinoma de cólon. Você o viu de manhã na visita e ele estava bem: eliminou flatos, aceitou dieta líquida, reclamou da dor da incisão no nível de sempre. Agora, à beira do leito, ele está corado, quente ao toque, e conta que sentiu um calafrio antes de a febre subir. Frequência cardíaca 104, pressão 118 por 72, frequência respiratória 20, saturação 95% em ar ambiente. Ele tem um cateter venoso central em subclávia direita, instalado no intraoperatório e ainda em uso. Tem uma sonda vesical de demora, também do centro cirúrgico, com diurese clara na bolsa. Tem um dreno de sucção na loja cirúrgica, com débito seroso. E tem um curativo na incisão mediana, trocado ontem e ainda no lugar.
Enquanto você escreve, a mesma técnica volta: “O 6 está 37,8, mas ela está estranha.” Dona Marlene, 78 anos, sexto dia de pós-operatório de osteossíntese de fêmur após queda em casa. A temperatura mal chega ao ponto de corte, mas desde a tarde ela está confusa, não reconhece a filha e arrancou o acesso venoso periférico duas vezes. Frequência cardíaca 98, pressão 104 por 62. A filha repete, assustada, que a mãe “nunca foi assim”.
E aí chega o terceiro chamado, do outro corredor: leito 12, Rafael, 34 anos, nono dia depois de um ciclo de quimioterapia por linfoma. Temperatura 38,0 °C. A contagem de neutrófilos de ontem foi 380 por mm³. Ele está bem, conversando, sem queixa nenhuma — e foi exatamente por parecer bem que ninguém achou urgente avisar.
Três febres em uma hora, e o reflexo treinado responde igual às três: colher hemocultura e começar antibiótico. Esse reflexo erra duas vezes seguidas, em direções opostas. Erra ao tratar quem não precisava, e o preço não é abstrato: seleção de bactéria resistente, lesão renal aguda, colite por Clostridioides difficile, cultura contaminada que gera mais antibiótico, e um paciente que agora tem uma segunda doença que o hospital fabricou. E erra ao esperar em quem não podia esperar — porque o paciente que menos parecia grave, o Rafael, tem um relógio de sessenta minutos correndo, e a que menos fez febre, dona Marlene, é a que está mudando de estado.
O que separa uma da outra não é o número no termômetro. É saber que febre no internado é evento, não diagnóstico; é procurar o foco de forma sistemática em vez de sortear entre pulmão, urina e cateter; e é ter, antes de escrever qualquer prescrição, resposta para duas perguntas: este paciente tem disfunção orgânica agora, e existe alguma coisa nele que o impeça de esperar as próximas horas? O capítulo inteiro é a construção dessas duas respostas — e do que fazer depois que a primeira dose já foi dada.
Quem adoece disso
Febre no paciente internado é evento comum, e a parcela dela que vem de infecção relacionada à assistência à saúde tem tamanho medido no Brasil. Segundo o boletim de indicadores nacionais da Anvisa, a densidade de incidência de infecção primária de corrente sanguínea laboratorialmente confirmada em UTI adulto teve mediana de 3,3 por mil cateter-dia em 2015, contra 3,6 no ano anterior; nos serviços do percentil 90, o número foi 11 por mil cateter-dia. Traduzindo para o paciente à sua frente: um cateter central que fica dez dias carrega, num serviço de desempenho mediano, algo perto de 3% de chance de gerar uma infecção de corrente sanguínea — e o triplo disso onde o cuidado com o dispositivo é pior. Não é um risco teórico que justifica ansiedade; é um risco concreto que justifica uma pergunta diária na visita: este cateter ainda precisa estar aqui?
Quem causa essas infecções aqui não é quem causa lá fora, e isso muda o antimicrobiano empírico. Na mesma vigilância nacional, entre as 22.499 identificações de microrganismos em infecção de corrente sanguínea em UTI adulto em 2015, a primeira colocada foi Klebsiella pneumoniae, com 16,9%, seguida de Staphylococcus coagulase-negativo com 16,5%, Staphylococcus aureus com 13,2%, Acinetobacter spp. com 12,2%, Pseudomonas aeruginosa com 10,0% e Candida spp. com 7,6%. Somados, os bacilos Gram-negativos com potencial de multirresistência passam de 40% do total. É por isso que o esquema de quem faz febre no oitavo dia de internação não pode ser o mesmo da pneumonia que entrou pela porta do pronto-socorro: no internado, o Gram-negativo hospitalar entra na conta desde a primeira dose, e o estafilococo resistente à oxacilina entra quando há cateter ou ferida.
O trato urinário é o outro protagonista, e é onde mora a maior armadilha do capítulo. O Caderno 2 da Anvisa registra que as infecções urinárias respondem por 35% a 45% de todas as infecções relacionadas à assistência no adulto, que entre 16% e 25% dos pacientes de um hospital recebem cateterismo vesical em algum momento da internação, e que cerca de 80% das infecções urinárias relacionadas à assistência são atribuíveis ao cateter vesical de demora. O detalhe que muda a conduta é o ritmo da colonização: com o cateter no lugar, a bactéria aparece na urina a uma taxa de 5% a 10% ao dia, e ao fim de quatro semanas está presente em todos os pacientes. Ou seja, a urocultura positiva do paciente sondado é o achado mais provável do hospital inteiro — e, exatamente por ser tão provável, é o menos capaz de provar que a febre veio dali.
Frequências de infecção e de culturas positivas variam com população, antibióticos prévios e qualidade da coleta. Febre no neutropênico exige abordagem própria, mas nem todo episódio terá infecção comprovada. Resultado negativo não demonstra ausência de infecção; seu peso depende do diagnóstico provável, evolução e tratamento. Decidir duração e descalonamento por essa integração.
Por que acontece o que acontece
Febre é uma elevação regulada da temperatura corporal: o organismo não perde o controle do termostato, ele muda o valor de referência. Pirógenos exógenos — lipopolissacarídeo da parede do Gram-negativo, superantígenos do estafilococo, componentes de parede fúngica — são reconhecidos por receptores da imunidade inata e disparam a produção de pirógenos endógenos: interleucina-1, interleucina-6, fator de necrose tumoral alfa e interferons. Essas citocinas atuam na região pré-óptica do hipotálamo anterior, onde induzem a síntese de prostaglandina E2, e é a prostaglandina E2 que eleva o ponto de ajuste térmico. Guardar esse nome tem utilidade prática imediata: é sobre a via da prostaglandina que agem dipirona, paracetamol e anti-inflamatórios, o que explica por que eles baixam a febre e não fazem absolutamente nada contra a causa dela.
A consequência clínica é o roteiro que você vê à beira do leito. Com o ponto de ajuste subitamente mais alto, o corpo passa a se comportar como se estivesse com frio: vasoconstrição cutânea — a extremidade fria do paciente que está prestes a ferver —, piloereção e tremor muscular para gerar calor. É o calafrio, o corpo subindo até o novo alvo. Quando o estímulo cessa, ou quando o antitérmico derruba a prostaglandina E2, o alvo volta ao normal e o corpo passa a se comportar como se estivesse com calor: vasodilatação e sudorese profusa. Por isso o calafrio antecede o pico e a transpiração o encerra; por isso a dipirona faz suar. E por isso nada disso, sozinho, diz de onde veio o estímulo.
Aqui está o ponto que sustenta o capítulo inteiro: a via final é a mesma, não importa o que a acionou. Qualquer coisa capaz de fazer o organismo liberar interleucina-6 produz exatamente a mesma febre. O trauma cirúrgico produz — a incisão, a manipulação visceral e o tecido lesado liberam citocinas em quantidade proporcional ao porte da operação, e é essa resposta que responde pela maior parte da febre das primeiras 48 horas de pós-operatório. Hematoma sendo reabsorvido produz, porque hemácia extravasada é tecido em degradação. Trombose venosa profunda produz, porque o trombo é foco inflamatório. Transfusão produz, pelas citocinas acumuladas no hemocomponente e pelos anticorpos do receptor contra leucócitos do doador. Necrose de qualquer natureza — infarto intestinal, pancreatite, tumor em lise — produz. E medicamento produz, por hipersensibilidade.
Isso derruba a equação que o interno traz do ambulatório, onde febre quase sempre significa infecção porque quase nada mais está acontecendo com aquela pessoa. Na enfermaria, o mesmo paciente tem simultaneamente uma incisão de ontem, um hematoma na loja cirúrgica, um cateter central, imobilidade há cinco dias, duas bolsas de concentrado de hemácias e sete drogas que ele nunca tinha tomado. Todos são pirógenos possíveis. A pergunta deixa de ser “tem febre?” e passa a ser “qual dos pirógenos possíveis está ativo neste paciente hoje, e qual deles mata se eu não tratar?”. A febre não responde a nenhuma das duas; ela apenas avisa que a pergunta precisa ser feita agora.
A febre medicamentosa merece parágrafo próprio porque é o diagnóstico de que ninguém lembra e que mantém paciente internado por semanas. O mecanismo é imunológico: a droga, ou um metabólito ligado a proteína, funciona como antígeno e dispara a liberação de citocinas. Os suspeitos habituais estão todos na prescrição de enfermaria — betalactâmicos, sulfametoxazol-trimetoprima, anticonvulsivantes, heparina, antituberculosos. O quadro típico é o paciente que está clinicamente bem, come, conversa, tem exame físico sem foco novo e culturas negativas, e mesmo assim mantém picos febris. Uma dissociação chama atenção quando aparece: febre alta com estado geral bom demais para o número. A eosinofilia ajuda quando existe, mas falta na maioria dos casos. O diagnóstico é retrospectivo e a prova é a suspensão: a régua prática usada aqui é 72 horas — se a febre não cedeu três dias depois de a droga ter saído, é necessário reavaliar a hipótese, sem excluir efeito medicamentoso apenas pelo prazo, pois a resolução pode demorar mais e a busca continua.
Dois grupos escapam da regra geral do termostato, por motivos opostos, e são os dois que mais matam quando o interno os trata como os demais. O neutropênico não consegue montar o processo inflamatório local que produziria os sinais clássicos: sem neutrófilo não há pus, não há consolidação nítida na radiografia, não há celulite exuberante ao redor do cateter, não há dor à descompressão numa apendicite. A febre pode ser o único sinal externo de uma bacteremia por Gram-negativo capaz de matar em horas — daí a regra de que, nele, febre isolada já é indicação de tratamento imediato, antes de exame algum voltar. O idoso escapa pelo lado contrário: a resposta hipotalâmica é atenuada, a temperatura basal é mais baixa e a massa muscular disponível para gerar calor por tremor é menor. Ele pode ter infecção grave com 37,6 °C, ou sem febre nenhuma.
No idoso, confusão nova pode acompanhar infecção, mas também hipoxemia, retenção, fármacos, dor e outras causas. É um sinal de alerta para avaliação ampla, não substituto específico de febre nem prova de foco. Se houver delirium, tratar precipitantes e instituir cuidado multicomponente em paralelo, sem presumir duração fixa pela falta de um item.

Como se apresenta de verdade
A febre do internado quase nunca chega como o livro descreve. Ela chega como um número anotado na folha de sinais vitais por outra pessoa, num horário em que você não estava no leito, num paciente que já tem seis motivos plausíveis para ter febre. O que o interno precisa aprender a ler não é o pico isolado, e sim três coisas ao redor dele: quando a febre apareceu em relação ao evento (cirurgia, internação, cateter, droga nova), o que veio junto com ela, e em quem ela apareceu.
As seções abaixo percorrem esses três eixos. Vale um aviso desde já: os cortes de temperatura mudam conforme o documento, porque servem a finalidades diferentes. O critério nacional de vigilância da Anvisa usa temperatura acima de 38 °C para caracterizar febre em todos os sítios de infecção relacionada à assistência. O protocolo de sepse do ILAS usa 38,3 °C central (ou menos de 36 °C) — e, desde a revisão de 2026, 37,8 °C axilar (ou menos de 35 °C) — como um dos sinais de resposta inflamatória sistêmica na triagem. Os dois estão certos dentro do seu propósito, e a régua de trabalho aqui é simples: 38,0 °C axilar já obriga você a ir ao leito e olhar o paciente; 38,3 °C, ou dois picos acima de 38,0 °C em 24 horas, obriga a registrar no prontuário uma busca de foco feita e um plano.
As tabelas por dia de pós-operatório são lembretes de hipóteses, não janelas que excluem causas. Infecção de ferida, deiscência, tromboembolismo e reação a medicamentos podem ocorrer fora do período típico. A necessidade de imagem, antimicrobiano ou cirurgia é determinada pela apresentação e pela trajetória.
Critérios de vigilância da Anvisa padronizam notificação. Eles não são critérios clínicos universais para decidir se uma cultura representa infecção, se é preciso tratar ou qual procedimento executar. Separar essas finalidades evita esperar dias, contagens ou uma segunda imagem em quem precisa de cuidado agora.
Percurso de aprendizagem
Reconheça deterioração pelo conjunto e pela tendência. No neutropênico, não espere sinais exuberantes; no idoso, procure causas de mudança de comportamento mesmo sem febre alta.
Use tempo, dispositivos e operação para orientar hipóteses, sem excluir causas por calendário. Cada cultura ou imagem deve responder a uma pergunta clínica.
Se tratar, escolha espectro e exposição adequados, procure controle de foco e planeje revisão. Se observar, defina prazo e sinais que exigem reavaliação imediata.
O termômetro: o que conta como febre, e onde foi medido
No Brasil a aferição de rotina é axilar, e a maioria das diretrizes que definem cortes de febre é escrita para temperatura oral ou central, que corre cerca de 0,5 °C acima da axilar. Isso não é detalhe acadêmico: significa que 37,8 °C axilar num paciente idoso ou neutropênico pode corresponder ao número que a diretriz americana chamaria de febre. O protocolo brasileiro de neutropenia febril do Grupo Hospitalar Conceição enfrenta esse problema de frente e adota, para os seus pacientes, temperatura axilar única maior ou igual a 37,5 °C como definição de febre — um corte deliberadamente mais baixo, justificado pela mortalidade do atraso e pelo hábito de medicar o paciente com temperaturas próximas de 38 °C, o que subdiagnostica a febre.
Três armadilhas operacionais aparecem todo plantão. A primeira: o paciente que recebeu dipirona ou paracetamol de horário não tem febre registrada, e o antitérmico prescrito “se temperatura maior que 37,8 °C” apaga exatamente o dado que você precisaria ver. Quando o paciente é de risco — neutropênico, pós-operatório recente, portador de cateter central —, vale prescrever o antitérmico apenas se houver desconforto, e não como reflexo automático da folha. A segunda: a temperatura aferida logo depois de banho, de compressa ou de alimentação quente não vale; repita em quinze minutos. A terceira: hipotermia é sinal tão grave quanto febre. Temperatura central abaixo de 36 °C — ou axilar abaixo de 35 °C, corte que a revisão de 2026 passou a escrever — entra como critério de resposta inflamatória sistêmica no protocolo do ILAS, e no paciente idoso ou em choque ela costuma ser o que aparece no lugar do pico.
A febre pelo dia de pós-operatório
A régua clássica organiza as causas pelo tempo decorrido desde a operação, e é útil não porque acerte o diagnóstico, mas porque ordena a lista de hipóteses e evita que você examine tudo com o mesmo peso no primeiro dia e no décimo. Em inglês ela é ensinada como os cinco W — wind, water, wound, walking, wonder drugs. Em português funciona melhor pela sequência: pulmão e resposta cirúrgica; urina e acesso; ferida; trombose; droga.
Primeiras 48 horas (dias 1 e 2). A causa dominante é a própria resposta inflamatória ao trauma cirúrgico: citocinas liberadas pelo tecido lesado, com pico e resolução espontâneos. Febre nesse período, em paciente que está bem, com ferida limpa e sem disfunção orgânica, quase nunca é infecção — e a resposta correta costuma ser observar, estimular a respiração profunda e a deambulação, e não iniciar antibiótico. As exceções importam e são poucas, mas graves: infecção necrosante de ferida por estreptococo ou clostrídio, que se manifesta nas primeiras horas com dor desproporcional e sinais locais precoces; aspiração durante a indução anestésica; e reação transfusional. A atelectasia é tradicionalmente ensinada como a causa desse período, e essa atribuição não se sustenta na evidência — o tema está no bloco de divergências.
Dias 3 a 5. É a janela do trato urinário e dos acessos vasculares. O paciente que ainda está com sonda vesical desde o centro cirúrgico começa a apresentar bacteriúria, e o cateter venoso já passou dos dois dias de calendário que o critério nacional exige para caracterizar infecção primária de corrente sanguínea associada a cateter central. É também a janela em que a pneumonia associada à assistência começa a aparecer, especialmente em quem foi intubado ou está imóvel. O senhor Waldir da cena está exatamente aqui.
Dias 5 a 7. É a janela da ferida operatória. A infecção de sítio cirúrgico incisional superficial e a profunda tipicamente se manifestam nesse intervalo, e é quando o curativo precisa ser aberto e a incisão inspecionada de verdade, não apenas palpada por cima. É também quando aparece a deiscência, e quando a coleção intra-abdominal começa a se organizar após uma fístula ou uma anastomose que vazou.
Após o sétimo dia. Aqui entram as três causas que exigem imaginação: coleção ou abscesso profundo — a infecção de sítio cirúrgico de órgão ou cavidade, que pode se manifestar por todo o período de vigilância daquele procedimento, de 30 dias na maioria das cirurgias e de 90 dias em seis delas; trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar, favorecidos por dias de imobilidade; e febre medicamentosa, cujo início costuma coincidir com o tempo necessário para a sensibilização a uma droga começada na internação. Nesse período, febre nova em paciente que já vinha afebril é sinal de evento novo, não de continuação do anterior — e merece a mesma busca sistemática do primeiro dia, não um aumento de espectro do antibiótico que já está correndo.
O neutropênico: a febre que é emergência
Neutropenia febril é a única situação deste capítulo em que a febre, sozinha, sem foco, sem exame e sem cultura, já basta para indicar antimicrobiano imediato. A definição de trabalho combina duas medidas: febre — pelos critérios da IDSA citados no protocolo brasileiro, temperatura oral de 38,3 °C em medida única ou 38,0 °C mantidos por mais de uma hora; pelo critério axilar adotado pelo Grupo Hospitalar Conceição, 37,5 °C em medida única — e neutropenia, definida como contagem absoluta de neutrófilos abaixo de 500/mm³, ou queda esperada abaixo desse valor nas próximas 48 horas. O protocolo brasileiro trabalha com um corte institucional mais sensível, abaixo de 1.000/mm³, deliberadamente escolhido para não perder paciente.
O que muda tudo é o relógio: o alvo entre o início dos sintomas e a primeira dose de antibiótico é de 60 minutos, e a mortalidade cresce a partir daí. Em bacteremia por Gram-negativo no neutropênico, a mortalidade pode chegar a 40% se o antibiótico não for prontamente iniciado. Some-se a isso a ausência dos sinais clássicos: sem neutrófilo não há pus na ferida, não há infiltrado nítido na radiografia, não há flogose no óstio do cateter. O paciente da cena, o Rafael do leito 12, está conversando e sem queixas — e é o mais grave dos três.
Dois sítios merecem exame dirigido nesse paciente, porque são portas de entrada que passam despercebidas: a mucosa oral, onde a mucosite por quimioterapia abre caminho para estreptococos do grupo viridans e para Candida, e a região perianal, onde a celulite perianal e a fissura levam a infecção por anaeróbios. Toque retal e termômetro retal são proscritos no neutropênico, justamente porque criam a porta de entrada — a inspeção é visual e a palpação, externa e cuidadosa.
O imunossuprimido não neutropênico
Transplantado em uso de tacrolimo ou micofenolato, paciente em corticoide em dose alta e prolongada, portador de HIV com contagem baixa de linfócitos T CD4, usuário de imunobiológico: nesse grupo o problema não é a velocidade do relógio, é a largura da lista de diferenciais. Além dos agentes bacterianos habituais, entram fungos (Candida, Aspergillus, Cryptococcus, Pneumocystis), micobactérias, e vírus como citomegalovírus e herpes simples. A febre pode ser a única manifestação de uma infecção que o hospedeiro normal resolveria sozinho.
O corticoide merece atenção especial porque faz duas coisas ruins ao mesmo tempo: aumenta o risco de infecção e apaga o sinal dela. Ele suprime a febre e a resposta inflamatória local, de modo que um abdome com perfuração pode se apresentar sem defesa, e uma pneumonia pode cursar sem consolidação exuberante. A regra prática é rebaixar o limiar: no paciente em corticoterapia, sinal discreto merece investigação completa, e ausência de febre não afasta infecção.
Vale ainda lembrar que o imunossuprimido tem febre não infecciosa com a mesma frequência do resto — rejeição de enxerto, atividade da doença de base, linfoma, síndrome de reconstituição imune, e a própria medicação. É o grupo em que mais se erra prescrevendo antimicrobiano de amplo espectro por semanas sem que a causa jamais tenha sido infecciosa.
O idoso: quando o sinal não é a temperatura
No idoso internado, a apresentação típica de infecção grave é a mudança de comportamento. Confusão nova, sonolência, recusa alimentar, incontinência que não existia, queda, ou simplesmente “ela não está ela” dito pela filha — esses são os sinais de abertura, e a febre pode nunca aparecer. Já foi dito no bloco de mecanismo por que isso acontece; aqui interessa a consequência prática: no paciente com 70 anos ou mais, o próprio critério nacional de pneumonia relacionada à assistência aceita alteração do nível de consciência sem outra causa aparente no lugar da febre.
A dona Marlene da cena tem 37,8 °C e está confusa. O erro que se comete com ela é dizer que não tem febre e voltar ao posto. O acerto é tratá-la como o paciente com maior probabilidade de foco oculto entre os três: sexto dia de pós-operatório ortopédico, com ferida, com acesso, com imobilidade e com risco tromboembólico. O exame que muda a conduta nela é o exame físico completo, com a ferida cirúrgica descoberta e as panturrilhas palpadas — e a revisão da prescrição inteira, porque em idoso a droga que causa delirium e a droga que causa febre podem ser a mesma.
Há um detalhe de segurança que se aplica só a esse grupo: no idoso, hipotensão relativa engana. Uma senhora que vive com pressão sistólica de 150 mmHg e está com 105 mmHg não tem “pressão normal” — ela caiu 45 mmHg, e o protocolo do ILAS considera a hipotensão relativa — sistólica abaixo da basal conhecida — critério de disfunção orgânica, mesmo com o valor absoluto ainda acima de 90 mmHg. A revisão de 2026 tirou o número do critério, e esta apostila conta a queda de mais de 40 mmHg, pelas razões das notas do critério.
Quando a febre é a menor parte do problema
Existe um subgrupo em que a discussão sobre procurar foco antes de tratar simplesmente não se aplica, porque o paciente já ultrapassou o ponto em que havia tempo. São os que têm disfunção orgânica aguda associada à febre: hipotensão com pressão sistólica abaixo de 90 mmHg ou média abaixo de 65 mmHg, ou hipotensão relativa, sistólica abaixo da basal conhecida — que esta apostila mede como queda de mais de 40 mmHg do habitual; rebaixamento do nível de consciência, agitação ou delirium; necessidade nova de oxigênio para manter saturação acima de 90%, ou relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada abaixo de 300; oligúria igual ou menor que 0,5 mL/kg/h; creatinina acima de 2 mg/dL; plaquetas abaixo de 100.000/mm³ ou queda de 50% em relação ao maior valor dos últimos três dias; lactato acima do valor de referência, de 2 mmol/L ou 18 mg/dL; bilirrubinas acima do dobro do valor de referência. Essa é a lista de disfunções do protocolo do ILAS.
Diante de qualquer uma delas em paciente com foco infeccioso suspeito ou confirmado, o diagnóstico é sepse e o pacote de tratamento começa imediatamente, sem esperar mais nada. O manejo detalhado — o pacote de 1 hora, a ressuscitação volêmica, a noradrenalina, as metas de perfusão — está no capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e o atendimento imediato do paciente que descompensa está em os primeiros 5 minutos do paciente grave, nesta apostila. O que este capítulo entrega é o passo anterior a esses dois: reconhecer, no febril da enfermaria, qual deles já é séptico.
Um aviso sobre o qSOFA, que costuma ser mal usado na enfermaria. Ele tem três componentes — rebaixamento do nível de consciência, frequência respiratória igual ou maior que 22 por minuto e pressão sistólica menor ou igual a 100 mmHg. O ILAS é explícito ao dizer que ele não deve ser usado para triagem de suspeita de sepse, porque tem baixa sensibilidade; ele serve para, entre os pacientes já identificados, apontar quem tem maior risco de óbito. Um qSOFA de zero não tranquiliza; um qSOFA de dois ou mais é motivo para chamar ajuda.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco que decide o capítulo. O interno raramente erra por não conhecer as infecções hospitalares — erra por transformar a busca do foco em sorteio: pede hemocultura, urocultura e radiografia de tórax nos três pacientes, começa antibiótico de amplo espectro nos três, e depois passa a semana tentando entender por que a febre não cede e por que a urocultura cresceu uma bactéria que não explica nada. A busca do foco tem ordem, e a ordem começa antes de qualquer exame.
A sequência é sempre a mesma: primeiro decidir se há disfunção orgânica, porque isso muda o relógio; depois revisar os dispositivos, porque no internado o foco é frequentemente uma coisa que nós instalamos; depois examinar o paciente inteiro, porque metade dos focos aparece ao exame e não ao exame de imagem; e só então pedir exames — pedidos para responder a uma pergunta formulada, não para preencher um formulário.
Passo 1 — Este paciente está grave agora?
Antes de pensar em foco, olhe três sistemas à beira do leito, e leva menos de um minuto: consciência (ele está como estava hoje de manhã?), respiração (frequência respiratória contada por trinta segundos, não estimada, e saturação com a necessidade de oxigênio comparada à de antes) e perfusão (pressão arterial comparada à habitual do paciente, frequência cardíaca, tempo de enchimento capilar, temperatura das extremidades, presença de livedo e o volume de diurese das últimas horas).
Deterioração aguda muda a urgência: avaliar ABCDE, chamar ajuda e pesquisar infecção e causas alternativas. No choque com suspeita infecciosa ou na sepse provável/definida, colher culturas sem atraso e iniciar antimicrobiano imediatamente. Sepse apenas possível sem choque permite investigação rápida e monitorização com decisão em prazo definido. Não converter qualquer disfunção em sepse confirmada.
Se não houver disfunção alguma, você comprou tempo — e tempo, aqui, é o recurso que permite acertar o diagnóstico em vez de cobrir tudo. Esse é o paciente em que uma busca de foco bem feita, com culturas colhidas e observação próxima, vale mais do que uma dose de meropenem.
Passo 2 — Os quatro cateteres
No paciente internado, boa parte dos focos foi instalada por nós. Antes de procurar doença, faça o inventário dos dispositivos, um por um, olhando para cada um deles: cateter vascular (central, PICC, port, cateter de hemodiálise, e também o acesso periférico, que causa flebite e não deve ser esquecido); cateter vesical de demora; via aérea artificial (tubo orotraqueal ou traqueostomia); e drenos, incluindo dreno cirúrgico, dreno de tórax, sonda nasoenteral e cateter peridural.
Para cada um, três perguntas: há quanto tempo está aí, como está o sítio de inserção, e ele ainda é necessário? O tempo importa porque os critérios nacionais o incorporam: a infecção primária de corrente sanguínea associada a cateter central exige que o dispositivo esteja instalado há mais de dois dias de calendário (contando o dia da instalação como dia 1) e que, na data da infecção, ele estivesse no lugar ou tivesse sido retirado no dia anterior. A infecção urinária associada a cateter vesical usa exatamente a mesma régua de dois dias.
O sítio de inserção precisa ser visto com o curativo aberto, não pelo curativo. Hiperemia, secreção, dor à palpação do túnel ou do trajeto, e cordão endurecido na veia periférica mudam a conduta na hora. Vale lembrar que a ausência de sinais locais não afasta infecção de cateter — a maioria das infecções de corrente sanguínea relacionadas a cateter cursa com sítio de inserção de aparência normal.
A terceira pergunta é a que mais salva paciente e a que menos se faz: o dispositivo ainda é necessário? Sonda vesical que ficou porque ninguém lembrou de tirar, cateter central mantido para administrar soro que poderia ir por veia periférica, dreno esquecido. Cada dia a mais é risco somado, e retirar o desnecessário é a única intervenção deste capítulo que reduz a chance da próxima febre.
Passo 3 — Os quatro sítios, e os que se esquece
Os quatro grandes sítios de infecção relacionada à assistência, que respondem pela maioria dos casos e que a vigilância nacional acompanha, são: corrente sanguínea associada a cateter central, trato urinário associado a cateter vesical, pneumonia (associada ou não à ventilação mecânica) e sítio cirúrgico. Comece por eles, sempre, e nessa ordem de probabilidade ajustada ao paciente que você tem.
Depois deles vêm os focos que a lista curta esquece e que respondem por boa parte das febres que “não têm foco”. Abdome: coleção, abscesso, deiscência de anastomose, colecistite alitiásica no paciente grave, e colite por Clostridioides difficile em quem recebeu antibiótico e agora tem diarreia. Seios da face: sinusite no paciente com sonda nasoenteral ou tubo nasotraqueal por dias. Pele e partes moles: lesão por pressão em sacro e calcâneo, que só se vê virando o paciente, e celulite sob o curativo ou sob a tala gessada. Boca: mucosite, abscesso dentário. Sistema nervoso: meningite no pós-operatório de neurocirurgia ou em paciente com derivação. Endocárdio: endocardite em quem teve bacteremia por Staphylococcus aureus. E o pé diabético, que continua existindo depois que o paciente internou por outro motivo.
Nenhuma lista substitui virar o paciente. Lesão por pressão sacral infectada e abscesso glúteo são diagnósticos que só existem para quem examina o dorso, e o dorso é a parte do corpo que menos se examina na enfermaria.
Passo 4 — O exame físico dirigido do paciente febril
Esta é a lista de gestos, e nenhum deles é opcional quando a febre é nova. Descubra e inspecione a ferida operatória inteira, retirando o curativo — hiperemia, calor, drenagem, deiscência, e a palpação buscando flutuação e crepitação. Inspecione todos os sítios de inserção de cateter, o central e os periféricos, procurando hiperemia, secreção e cordão venoso doloroso. Ausculte os dois hemitórax, comparando com a ausculta de ontem, e conte a frequência respiratória. Examine o abdome inteiro, incluindo a percussão e a busca de dor à descompressão, lembrando que no pós-operatório recente a dor da incisão confunde e que a mudança em relação ao dia anterior vale mais que o achado isolado.
Continue: palpe as panturrilhas e compare os diâmetros, procurando trombose venosa profunda. Olhe a urina na bolsa coletora — aspecto, volume e se está turva. Vire o paciente e examine o dorso, sacro e calcâneos. Olhe a boca e a orofaringe. Inspecione a região perianal, especialmente no neutropênico. Examine a pele inteira à procura de exantema, que pode ser a pista da febre medicamentosa. Palpe as parótidas em quem está desidratado ou em jejum prolongado. E, se houve prótese ou implante, examine o sítio: em seis procedimentos — implante de prótese mamária, prótese de quadril primária, prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata — a vigilância vai até 90 dias, e a infecção pode aparecer muito depois da alta.
Feito o exame, você quase sempre está numa de três situações. Achou um foco provável: a investigação vira confirmação daquele foco e o tratamento é dirigido. Achou dois ou três focos possíveis: você prioriza pelo que é mais grave e pelo que é reversível. Não achou nada: essa é a situação mais desconfortável, é a mais comum, e tem conduta própria — descrita na última seção deste bloco.
Hemocultura: quantas, de onde, e quando não colher
A hemocultura é o exame mais mal colhido do hospital, e o mal colhido gera dano em duas direções: falso-negativo, que impede o ajuste do antimicrobiano, e falso-positivo por contaminação, que gera antibiótico desnecessário. O ponto crítico é o volume. O Caderno 2 da Anvisa é direto: a carga de microrganismos na corrente sanguínea é baixa, com metade dos pacientes apresentando entre 0,01 e 1 unidade formadora de colônia por mililitro durante o episódio de bacteremia; em adultos, coletar 40 mL e 60 mL aumenta em 19% e 29%, respectivamente, a recuperação de microrganismos em comparação com apenas 20 mL. Cada frasco de adulto deve receber aproximadamente 10 mL, e recomenda-se um frasco para aeróbios e outro para anaeróbios por veia puncionada.
Traduzindo em prescrição: duas venopunções distintas, em sítios diferentes, cada uma com um par de frascos — quatro frascos, 40 mL no total. É o que a Anvisa sustenta em termos de volume. O ILAS, na revisão de 2026, aceita como mínimo 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos, sobretudo onde falta recurso — com cerca de 10 mL por frasco, são dois frascos, um por punção, metade do par por veia que a Anvisa recomenda: o mínimo aceito não é o alvo. Colher um frasco só, de um acesso já instalado, é o erro que transforma o exame em nada.
Culturas pareadas de cateter e periferia podem ajudar a atribuir a fonte quando obtidas de modo adequado, com horários e volumes comparáveis. Não se limitam a situações em que se decidiu manter o dispositivo. A coleta não deve atrasar controle urgente do foco; a necessidade de retirada depende do organismo, complicações e quadro clínico.
Interpretar possível contaminante pelo conjunto, e não apenas pelo nome do microrganismo. Bacteremia verdadeira por flora cutânea é possível, especialmente com cateter, prótese ou imunossupressão. Reavaliar antes de suspender ou ampliar tratamento.
Solicitar hemoculturas quando houver suspeita de infecção sistêmica ou foco em que o resultado mudará o cuidado. Febre precoce isolada após cirurgia, em paciente estável, pode ter baixo rendimento, mas a decisão depende de contexto e sinais associados. Não proibir coleta pelo dia de pós-operatório nem pedir para toda febre sem pergunta clínica.
Urocultura e a armadilha da bacteriúria assintomática
Urocultura só responde à investigação quando há pergunta clínica e coleta apropriada. Cateterização favorece bacteriúria, mas não torna todo resultado colonização. Avaliar sintomas, sinais sistêmicos, ausência de outro foco e necessidade de troca/retirada do cateter; não tratar apenas piúria, odor ou cultura positiva.
O critério nacional é claro sobre o que é infecção. Para caracterizar infecção urinária associada a cateter vesical, o paciente precisa ter o cateter instalado há mais de dois dias de calendário e apresentar pelo menos um sinal, sem outra causa reconhecida: febre acima de 38 °C ou dor suprapúbica ou lombar — e urocultura com até duas espécies bacterianas, pelo menos uma delas em contagem igual ou maior que 10⁵ unidades formadoras de colônia por mililitro. Candida não entra nessa conta: a nota técnica da Anvisa de 2026 exclui do critério qualquer espécie de Candida, levedura não especificada, fungo dimórfico ou parasita, e, quando Candida cresce junto de bactéria com 10⁵ ou mais, só a bactéria é considerada. Essa exclusão contraria uma leitura que ainda circula, a de que qualquer crescimento de Candida bastaria; a leitura da candidúria no laudo é do capítulo Urina tipo I e urocultura, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Repare no que o critério exige: sintoma mais cultura. Cultura sozinha é bacteriúria, e a Anvisa registra que, em geral, bacteriúrias não devem ser tratadas.
Mais de duas espécies pode refletir contaminação, mas não exclui infecção polimicrobiana, especialmente com sonda prolongada. Não colher da bolsa. Na suspeita clínica, obter amostra do porto de coleta com técnica asséptica; retirar sonda dispensável ou substituir a de longa permanência quando indicado, colhendo da nova antes do antibiótico se isso não atrasar tratamento urgente.
A piúria merece um comentário próprio: ela acompanha praticamente todo paciente sondado e não distingue colonização de infecção. Piúria isolada não trata. E candidúria assintomática em paciente sondado, na esmagadora maioria das vezes, resolve com a retirada da sonda — não com fluconazol.
As exceções em que se trata bacteriúria sem sintoma urinário são poucas e devem ser sabidas: gestante, e paciente que será submetido a procedimento urológico com previsão de sangramento de mucosa. Fora disso, no paciente febril da enfermaria, urocultura positiva só vira diagnóstico se houver sintoma compatível ou se nenhum outro foco explicar o quadro — e mesmo então cabe a pergunta honesta: os outros focos foram investigados com o mesmo empenho?
Imagem: radiografia, ultrassom e tomografia
Imagem de tórax é indicada por suspeita de foco respiratório ou outras perguntas específicas. Não exigir radiografia em duas incidências para toda febre: paciente instável pode precisar de exame portátil, ultrassom ou outra modalidade conforme recursos, sem atrasar suporte.
O ultrassom à beira do leito resolve perguntas objetivas e não expõe o paciente à radiação nem ao transporte: há derrame pleural, e ele é volumoso o bastante para puncionar? Há líquido livre no abdome? A vesícula está espessada e distendida no paciente grave? Há trombose venosa profunda no membro edemaciado? É o exame mais subutilizado do plantão.
A TC de abdome e pelve com contraste pode esclarecer suspeita de complicação profunda após cirurgia, inclusive antes do quinto dia. Dor em piora, peritonismo, íleo ou deterioração importam mais que um calendário. O resultado orienta controle de foco com a equipe cirúrgica; não esperar 72 horas de antibiótico se já houver sinais de complicação.
Um alerta sobre transporte: levar à tomografia um paciente com disfunção orgânica não estabilizada é troca ruim. Primeiro se estabiliza, depois se investiga — e, se o paciente está instável e há suspeita de foco cirúrgico, a conversa é com o cirurgião, não com o tomógrafo.
Laboratório: o que ajuda e o que atrapalha
Avaliar disfunções pela mudança em relação à basal, não apenas por valores extremos. Creatinina menor que 2 mg/dL pode representar lesão renal aguda; comparar tendência, diurese, perfusão e obstrução. Alterações de consciência, plaquetas e coagulação também têm causas alternativas e devem ser interpretadas no contexto.
Função renal, eletrólitos e bilirrubinas entram porque compõem a avaliação de disfunção orgânica: creatinina acima de 2 mg/dL e bilirrubinas acima do dobro do valor de referência são critérios do mesmo protocolo. E entram também porque, se você for prescrever antimicrobiano, precisa saber a função renal — o ajuste de dose está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, desta apostila. Distinguir carga de manutenção: não adiar automaticamente todo ajuste por 24–72 horas, sobretudo em disfunção renal importante, diálise ou fármacos que exigem níveis séricos.
Lactato ajuda na avaliação de sepse e perfusão, mas elevação não prova hipoperfusão nem define sepse isoladamente. Amostra venosa pode ser útil; arterial depende da pergunta e do protocolo, sem troca obrigatória por qualquer resultado alto. Colher e processar corretamente e acompanhar tendência quando indicada, sem perseguir normalização apenas com volume.
Proteína C reativa é o exame mais pedido e o menos decisivo. Ela sobe com qualquer inflamação — inclusive com a incisão cirúrgica, que a eleva previsivelmente nos primeiros dias — e não distingue infecção de resposta ao trauma. Ela tem alguma utilidade como tendência: uma PCR que vinha caindo e volta a subir levanta a hipótese de evento novo. Como valor isolado, não inicia nem suspende antibiótico. A procalcitonina se comporta melhor para bactéria e tem papel reconhecido em ajudar a encurtar tratamento, mas sua disponibilidade é irregular na rede pública e o custo é alto; onde não houver, a decisão de parar se apoia em evolução clínica e culturas, que é como este capítulo a constrói.
Suspeita de infecção por C. difficile exige diarreia compatível e indicação de teste, evitando fezes formadas e situações explicadas por laxantes. O laboratório pode usar algoritmo com GDH, toxina e/ou teste molecular. Toxina negativa isolada pode exigir etapa adicional; teste molecular positivo também pode refletir colonização. Interpretar segundo o algoritmo local e a clínica.
O que NÃO pedir, e o custo de pedir
Em ferida com suspeita de infecção, limpeza e amostra representativa são essenciais. Tecido ou aspirado profundo são preferíveis quando indicados e viáveis; swab de superfície mal coletado é limitado. Quando a amostra profunda não é possível, coleta por técnica adequada pode contribuir, com interpretação clínica. Cultura não substitui drenagem ou desbridamento quando necessários.
Cultura de ponta deve ser interpretada com hemoculturas e clínica. Positividade isolada frequentemente indica colonização, mas não torna irrelevante todo resultado: espécie, antibiótico prévio e contexto podem exigir reavaliação, sobretudo em S. aureus. Não tratar automaticamente nem descartar infecção apenas pela ausência de bacteremia documentada.
Urocultura no paciente sem sintoma urinário e com outro foco já identificado. O resultado provável é bacteriúria, e a bacteriúria vai competir com o diagnóstico verdadeiro pela sua atenção e pela do plantonista seguinte.
Culturas de vigilância — swab nasal, retal, axilar — usadas como diagnóstico. Elas existem para orientar precaução de contato e para informar o perfil de resistência do serviço; colonização por Klebsiella produtora de carbapenemase não é diagnóstico de infecção por ela, embora seja informação que pesa na escolha empírica se o paciente adoecer.
Repetir hemocultura todo dia sem evento novo, repetir radiografia sem mudança clínica, e pedir painel viral respiratório fora de contexto epidemiológico. Cada exame desnecessário tem três custos: o financeiro, o falso-positivo que gera tratamento, e o tempo de equipe que deixou de ser usado para examinar o paciente.
O que existe no SUS
Tudo o que este capítulo indica como investigação de primeira linha está disponível na rede pública brasileira: hemograma, função renal, bilirrubinas, coagulograma, gasometria com lactato, urina tipo 1, urocultura, hemocultura em sistema automatizado e radiografia de tórax. A vigilância de infecção relacionada à assistência é obrigatória e o serviço tem uma comissão de controle de infecção hospitalar — que é, na prática, o recurso mais subutilizado pelo interno. Ligar para a comissão e perguntar o perfil de sensibilidade da unidade muda o antimicrobiano empírico mais do que qualquer diretriz internacional.
As restrições reais são outras. Tomografia com contraste tem fila em muitos serviços, o que reforça a importância do ultrassom à beira do leito para triar quem realmente precisa dela. Procalcitonina e dosagem sérica de vancomicina não estão disponíveis em toda parte, o que desloca o peso da decisão para a evolução clínica e para a função renal. Métodos moleculares rápidos de identificação e painéis de resistência existem em centros maiores e mudam o tempo do descalonamento, mas onde não houver, a cultura convencional entrega resultado em 48 a 72 horas — que é exatamente a janela em que a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos manda revisar a prescrição.
Quando não se acha foco nenhum
Essa é a situação mais comum do plantão e a que mais gera antibiótico desnecessário, porque o desconforto de não saber empurra para a ação. A primeira coisa a fazer é reconhecer o que a ausência de foco significa: ela não significa que não há infecção, e também não significa que há uma infecção oculta grave. Significa que a probabilidade de infecção bacteriana tratável caiu, e que a probabilidade das causas não infecciosas subiu.
A conduta se divide pela gravidade. Sem disfunção orgânica: colha as culturas, revise a prescrição inteira procurando febre medicamentosa, examine o dorso e as panturrilhas se ainda não examinou, retire o dispositivo desnecessário, e observe com reavaliação em intervalo curto — em até três horas, o prazo que a revisão de 2026 do protocolo do ILAS dá à investigação simplificada do paciente sem disfunção — deixando escrito no prontuário o que vai disparar a mudança de conduta (novo pico, qualquer disfunção, piora do exame). Observar não é não fazer nada; observar é uma conduta com critério de parada definido.
Com disfunção orgânica, ou no neutropênico: a ausência de foco não autoriza espera. Culturas colhidas e antimicrobiano empírico de amplo espectro iniciado, cobrindo os agentes hospitalares que a vigilância nacional mostra prevalecerem, ajustado ao perfil da sua unidade.
E, em qualquer dos dois casos, existe uma lista curta de coisas que se esconde bem e que precisa ser reconsiderada ativamente antes de aumentar espectro: abscesso profundo (abdominal, pélvico, paravertebral), infecção de cateter sem sinal local, endocardite, sinusite em paciente com sonda nasoenteral, colite por Clostridioides difficile, tromboembolismo pulmonar e febre medicamentosa. Essa mesma lista reaparece no bloco de reavaliação, porque é ela que se percorre quando a febre persiste em 72 horas.
Decidir na madrugada: o fluxo, os prazos e quem recebe antibiótico agora
Aprenda a usar a febre como ponto de partida para avaliar gravidade, formular hipóteses e decidir quando tratar, sem transformar vigilância epidemiológica em regra terapêutica.
- 11. Vá ao leito. Não conduza febre por telefone: a decisão inteira depende de coisas que só se veem à beira do leito.
- 22. Confirme a temperatura e o método (axilar), e cheque se um antitérmico foi dado antes da aferição.
- 33. Avalie disfunção orgânica: consciência, frequência respiratória e necessidade de oxigênio, pressão comparada à habitual, perfusão periférica e diurese das últimas horas.
- 4Diante de disfunção aguda, avaliar ABCDE e gravidade, acionar ajuda e estimar a probabilidade de infecção. Sepse é uma hipótese clínica; um sinal de alarme isolado não a confirma. Tratar prontamente se choque com suspeita infecciosa ou sepse provável.
- 55. Se o paciente for neutropênico — pare aqui e trate como emergência, mesmo sem disfunção e sem foco: alvo de 60 minutos entre a febre e a primeira dose.
- 66. Sem disfunção e sem neutropenia: faça o inventário dos quatro cateteres (vascular, vesical, via aérea, drenos), com tempo de permanência, aspecto do sítio e a pergunta de necessidade.
- 77. Faça o exame físico dirigido completo, com a ferida descoberta, o dorso examinado e as panturrilhas palpadas.
- 88. Situe a febre no tempo: dia de pós-operatório, dia de internação, dia de cateter, e dia de cada droga nova. Consulte a tabela de causas por período.
- 99. Colha o que responde a uma pergunta: duas hemoculturas de sítios distintos (40 mL no total, quatro frascos); urocultura apenas se houver sintoma urinário, sonda com suspeita real ou ausência de outro foco; radiografia de tórax se houver sintoma respiratório, hipoxemia nova ou ausência de foco.
- 10Reavaliar evolução, microbiologia e alternativas. Diagnóstico e duração do tratamento dependem do conjunto; febre ou disfunção persistentes exigem nova avaliação, não apenas ampliar antibióticos.
- 1111. Retire o que não é necessário: cateter central sem indicação, sonda vesical esquecida, dreno cumprido. Se o cateter é o foco suspeito e há instabilidade, sinais locais ou complicação, ele sai — não se negocia com um dispositivo infectado.
- 1212. Escreva no prontuário três coisas: o que foi examinado, o que foi colhido e o que dispara mudança de conduta. Sem isso, o plantonista seguinte recomeça do zero e o paciente ganha um antibiótico a mais.
- 1313. Reavalie em 48 a 72 horas com as culturas na mão: descalonar, suspender ou reinvestigar. Essa reavaliação é a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos aplicada ao seu paciente.
Incisional superficial — pele e subcutâneo, 30 dias (90 em seis cirurgias)
Envolve apenas pele e tecido subcutâneo e ocorre dentro do período de vigilância daquele procedimento — 30 dias na maioria das cirurgias, 90 dias em seis delas —, sendo o dia da cirurgia o dia 1. Basta um destes: drenagem purulenta da incisão superficial; cultura positiva de secreção ou tecido obtido assepticamente; incisão deliberadamente aberta pelo cirurgião ou outro médico na vigência de dor, aumento da sensibilidade, edema local, hiperemia ou calor — aqui sem ressalva de cultura; ou diagnóstico feito pelo médico assistente. Inflamação mínima e drenagem limitada aos pontos de sutura não contam. Na prática: abrir e drenar resolve a maioria, e o antimicrobiano sistêmico frequentemente é dispensável.
Incisional profunda — fáscia e músculo, 30 dias (90 em seis cirurgias)
Envolve tecidos moles profundos — fáscia e músculo — e corre no mesmo prazo dos outros dois planos, porque o período de vigilância é do procedimento e não da profundidade: 30 dias na maioria das cirurgias e 90 dias em seis — implante de prótese mamária, prótese de quadril primária, prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata. Basta um destes: drenagem purulenta da incisão profunda, não originada de órgão ou cavidade; incisão profunda aberta ou aspirada pelo cirurgião ou outro médico, com microrganismo identificado nos tecidos profundos ou sem exame de identificação realizado — cultura feita com resultado negativo NÃO preenche o critério —, tendo o paciente febre acima de 38 °C, dor ou aumento da sensibilidade localizada; abscesso ou outra evidência de infecção profunda em exame clínico, anatomopatológico ou de imagem; ou diagnóstico do cirurgião. Atenção ao que saiu: até 2017 a deiscência espontânea profunda equivalia à incisão aberta pelo cirurgião dentro deste critério, e a redação de 2026 passou a exigir incisão aberta ou aspirada por médico. A parede que se abre sozinha continua sendo evento clínico grave — apenas deixou de fechar, sozinha, o critério de notificação. Na prática: exige exploração, e o cirurgião entra na decisão.
Órgão ou cavidade — 30 dias (90 em seis cirurgias)
Persistência ou reaparecimento de febre após cirurgia exige avaliar foco, estabilidade e sinais locais. Dor progressiva, peritonismo, instabilidade ou disfunção orgânica podem justificar imagem e avaliação cirúrgica precoce, inclusive antes do quinto dia. O dia de pós-operatório informa probabilidades, mas não é barreira para investigar uma complicação.
| Quando a febre apareceu | Causas a considerar primeiro | O que examinar e pedir | Antibiótico empírico? |
|---|---|---|---|
| Intraoperatório ou primeiras horas | Reação transfusional; hipertermia maligna; infecção necrosante de ferida (estreptococo, clostrídio); aspiração na indução | Rever hemocomponentes e horário; inspecionar a ferida à procura de dor desproporcional, crepitação e bolhas; capnografia e rigidez muscular se suspeita de hipertermia maligna | Antimicrobiano se houver suspeita de infecção; pneumonite química por aspiração isolada não exige antibiótico profilático. Reação transfusional e hipertermia maligna têm tratamento próprio urgente. |
| Dias 1 e 2 de pós-operatório | Resposta inflamatória ao trauma cirúrgico (a maioria); reação a hemocomponente; menos comum: infecção precoce de ferida | Exame físico completo com ferida descoberta; frequência respiratória e saturação; estimular respiração profunda e deambulação | Em geral não, se o paciente está bem e sem disfunção. Observar e reavaliar |
| Dias 3 a 5 | Infecção urinária associada a cateter vesical; infecção de corrente sanguínea associada a cateter central; pneumonia relacionada à assistência | Inventário de cateteres com tempo e sítio; ausculta comparada; urina na bolsa; hemoculturas pareadas se suspeita de cateter; radiografia se sintoma respiratório | Sim, se foco identificado, disfunção ou imunossupressão. Não, se estável e sem foco |
| Dias 5 a 7 | Infecção de sítio cirúrgico incisional (superficial e profunda); deiscência; início de coleção intra-abdominal | Abrir o curativo e inspecionar a incisão inteira; palpar procurando flutuação; cultura de secreção ou tecido (preferindo amostra profunda/aspirado; swab superficial tem limitações e não deve substituir amostra adequada); ultrassom se coleção superficial | Depende da profundidade: superficial drenada frequentemente dispensa; profunda e órgão/cavidade tratam |
| Após o sétimo dia | Abscesso ou coleção profunda; trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar; febre medicamentosa; colite por Clostridioides difficile; infecção de prótese | Imagem e exames conforme hipótese: TC se suspeita de complicação profunda, Doppler/angio-TC se suspeita de tromboembolismo, teste de C. difficile em diarreia compatível e revisão de fármacos. | Reavaliar antes de escalonar: coleção pede drenagem, trombose pede anticoagulação e febre de droga pede suspensão — nenhuma delas pede espectro maior |
| Qualquer dia, em paciente neutropênico | Bacteremia por Gram-negativo; foco em mucosa oral e região perianal; infecção de cateter; fungo se neutropenia prolongada | Exame com inspeção de boca e períneo (sem toque retal); hemograma com contagem de neutrófilos; duas hemoculturas; radiografia de tórax | Sim, imediatamente — alvo de 60 minutos, antes de qualquer resultado |
| Qualquer dia, em paciente idoso com confusão nova | Infecção urinária; pneumonia (que pode cursar sem febre); infecção de ferida; e o delirium que a febre precipitou | Exame completo com dorso e panturrilhas; comparar pressão com a habitual (queda maior que 40 mmHg conta); rastrear delirium; revisar drogas | Sim, se foco identificado ou disfunção. A ausência de febre alta não afasta infecção grave |
Os quatro sítios de infecção relacionada à assistência: o que o critério nacional exige
| Sítio | Régua de tempo do dispositivo | O que precisa estar presente | Pegadinha frequente |
|---|---|---|---|
| Corrente sanguínea associada a cateter central (IPCS) | Cateter instalado há mais de 2 dias de calendário (dia da instalação = dia 1) e presente na data da infecção, ou retirado no dia anterior | Patógeno em uma ou mais hemoculturas não relacionado a outro foco; ou, para contaminante de pele, duas ou mais hemoculturas positivas em momentos distintos mais febre acima de 38 °C, calafrios ou pressão sistólica igual ou menor que 90 mmHg | Comensal em amostra única pode ser contaminação, mas também infecção em contexto apropriado. Integrar espécie, dispositivos, número de amostras, tempo de positividade e estado clínico. |
| Trato urinário associado a cateter vesical (ITU-AC) | Cateter vesical de demora instalado há mais de 2 dias de calendário e presente na data da infecção, ou retirado no dia anterior | Febre acima de 38 °C ou dor suprapúbica ou lombar, sem outra causa reconhecida, MAIS urocultura com até duas espécies bacterianas, pelo menos uma em contagem igual ou maior que 10⁵ UFC/mL (Candida, levedura, fungo dimórfico e parasita não contam) | Critério de vigilância não é limiar diagnóstico universal. Contagens menores podem ser relevantes em paciente sintomático; múltiplas espécies sugerem coleta inadequada, mas infecção polimicrobiana pode ocorrer, sobretudo em cateterização prolongada. |
| Pneumonia relacionada à assistência (com ou sem ventilação) | Não depende de dispositivo; a notificação nacional compulsória é da pneumonia associada à ventilação mecânica | Duas ou mais radiografias seriadas com infiltrado, opacificação ou cavitação novos ou progressivos; MAIS um sinal (febre acima de 38 °C sem outra causa, leucopenia abaixo de 4.000 ou leucocitose acima de 12.000/mm³, ou alteração de consciência sem outra causa em pacientes com 70 anos ou mais); MAIS dois entre secreção purulenta nova, piora da troca gasosa, roncos ou estertores, e início ou piora de tosse, dispneia ou taquipneia | O diagnóstico de pneumonia dado apenas pelo médico não preenche o critério; e uma radiografia isolada de paciente deitado engana |
| Sítio cirúrgico (ISC) | O período é do PROCEDIMENTO e vale igual para os três planos: 30 dias na maioria das cirurgias (dia da cirurgia = dia 1) e 90 dias em seis — implante de prótese mamária, prótese de quadril primária, prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata; cesariana, 30 dias; 24 meses no caso de micobactéria não tuberculosa ou de crescimento rápido | Varia com a profundidade — ver os cards acima. Se a infecção envolve mais de um plano, notifica-se apenas o mais profundo | Cultura colhida por swab não é considerada. E secreção purulenta saindo por dreno não prova, sozinha, infecção de órgão ou cavidade |
Quem recebe antimicrobiano empírico agora × quem pode aguardar
| Situação | Decisão | Por quê |
|---|---|---|
| Febre com qualquer disfunção orgânica (hipotensão, rebaixamento, hipoxemia nova, oligúria, plaquetopenia, lactato elevado, creatinina acima de 2 mg/dL, bilirrubinas acima do dobro) | Agora — dentro da primeira hora, após colher culturas sem atrasar a dose | Isso é sepse pela definição do ILAS. O atraso da primeira dose é o fator modificável com maior impacto em mortalidade |
| Neutropenia febril (neutrófilos abaixo de 500/mm³, ou abaixo de 1.000/mm³ pelo critério institucional brasileiro) | Agora — alvo de 60 minutos, mesmo sem foco, mesmo com paciente conversando | Sem neutrófilo não há sinal local, e a mortalidade em bacteremia por Gram-negativo pode chegar a 40% se o antibiótico não for prontamente iniciado |
| Foco evidente que exige tratamento por si (pneumonia com achado clínico e radiológico, ferida com celulite ou coleção, colangite, pielonefrite com sintoma) | Agora, dirigido ao foco | A decisão terapêutica já está tomada pelo diagnóstico; esperar cultura não muda a conduta, só atrasa |
| Imunossupressão grave (transplantado, corticoide em dose alta, contagem baixa de linfócitos T CD4) mesmo sem disfunção | Agora, com limiar baixo e espectro discutido com a infectologia | O sinal está apagado pela imunossupressão: o quadro discreto pode ser o único aviso |
| Prótese valvar, dispositivo cardíaco implantado, ou bacteremia prévia por Staphylococcus aureus | Avaliação rápida e hemoculturas conforme suspeita de bacteremia/endocardite. Prótese ou dispositivo isoladamente não obriga antibiótico imediato em todo paciente estável; gravidade e probabilidade determinam o momento. | O risco de endocardite muda o desfecho e a duração do tratamento |
| Febre nas primeiras 48 h de pós-operatório, paciente bem, ferida limpa, sem disfunção | Aguardar — observação com reavaliação em até 3 horas | A causa dominante desse período é a resposta inflamatória ao trauma cirúrgico, que se resolve sozinha |
| Febre sem foco, sem disfunção, em paciente imunocompetente e estável | Aguardar — culturas colhidas, dispositivos revisados, prescrição revisada, reavaliação programada e critérios de mudança escritos no prontuário | O tempo comprado permite achar o diagnóstico. Antibiótico aqui costuma mascarar o quadro e selecionar resistência sem alterar desfecho |
| Urocultura positiva sem sintoma urinário, em paciente sondado | Aguardar — e continuar procurando o foco verdadeiro | Bacteriúria em paciente sondado é esperada e cresce de 5% a 10% ao dia; tratá-la encerra a investigação no lugar errado |
Causas não infecciosas de febre no internado e a pista que denuncia cada uma
| Causa | Quando costuma aparecer | Pista que a denuncia | Conduta |
|---|---|---|---|
| Resposta inflamatória ao trauma cirúrgico | Primeiras 48 horas de pós-operatório | Paciente bem, ferida limpa, febre que cede sozinha e não retorna | Observação, respiração profunda, deambulação precoce |
| Reação transfusional febril não hemolítica | Durante a transfusão ou até algumas horas depois | Relação temporal direta com o hemocomponente, sem hipotensão ou hemoglobinúria | Interromper a transfusão, comunicar a agência transfusional, antitérmico |
| Trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar | Pode ocorrer em qualquer dia; imobilidade e outros fatores aumentam o risco. | Febre baixa, edema assimétrico de panturrilha, taquicardia e hipoxemia sem achado radiológico proporcional | Ultrassom com Doppler ou angiotomografia; anticoagulação, não antibiótico |
| Absorção de hematoma e necrose tecidual | Dias 2 a 7, após cirurgia, trauma ou punção | Coleção equimótica, queda de hemoglobina sem sangramento ativo, hiperbilirrubinemia indireta discreta | Observação; drenagem só se houver sinais de infecção secundária |
| Febre medicamentosa | Em geral após dias a semanas do início da droga | Paciente bem demais para o número da febre, culturas negativas, exantema ou eosinofilia quando presentes | Suspender o suspeito e reavaliar em 72 horas |
| Abstinência alcoólica | Entre 48 e 96 horas de internação de quem bebe diariamente | Tremor, sudorese, agitação, taquicardia e hipertensão, com história de etilismo | Protocolo de abstinência; a febre não é infecciosa e antibiótico não trata |
| Atividade da doença de base (neoplasia, doença reumatológica, rejeição de enxerto) | Qualquer momento, tipicamente arrastada | Febre persistente com investigação infecciosa repetidamente negativa | Rediscutir com a equipe da especialidade antes de escalonar antimicrobiano |
Hemocultura na prática: quantos frascos, de onde, e o que o resultado significa
| Cenário | Como colher | Interpretação |
|---|---|---|
| Febre com suspeita de sepse, sem cateter central | Duas venopunções em sítios distintos, um par de frascos (aeróbio e anaeróbio) em cada, cerca de 10 mL por frasco — 40 mL no total, antes do antimicrobiano; se a coleta atrasar a dose, a dose vai primeiro | Volume abaixo de 20 mL derruba a sensibilidade: 40 mL e 60 mL aumentam a recuperação em 19% e 29% em relação a 20 mL |
| Suspeita de infecção relacionada a cateter central, sem sinais locais nem instabilidade | Par pareado: amostra do cateter (de todos os lúmens) e amostra de veia periférica fresca, colhidas juntas | Permite comparar tempo de positivação ou crescimento quantitativo, que é o que distingue infecção de colonização do dispositivo |
| Suspeita de infecção de cateter COM sinais locais, complicação ou instabilidade hemodinâmica | Colher hemoculturas e retirar o cateter | Não há discussão sobre preservar o dispositivo: ele sai. Ponta de cateter isolada, sem hemocultura, não fecha diagnóstico |
| Crescimento de contaminante de pele em uma única amostra | Repetir a coleta corretamente, com duas punções distintas | Corynebacterium, Bacillus, Propionibacterium, Staphylococcus coagulase-negativo, Streptococcus viridans, Aerococcus e Micrococcus exigem duas ou mais amostras positivas mais sinal clínico para contar como infecção |
| Bacteremia por Staphylococcus aureus ou candidemia documentadas | Repetir hemoculturas até documentar a negativação | A data da primeira cultura negativa é o marco a partir do qual se conta a duração do tratamento, e a persistência levanta endocardite ou foco não controlado |
Temperatura depende de sítio, técnica, dispositivo e contexto; não converter axilar em oral/central somando sempre 0,5 °C. Usar o método e o limiar do protocolo aplicável. No neutropênico, idoso ou paciente em deterioração, uma medida abaixo do corte não autoriza esperar. Confirmar leitura duvidosa sem atrasar avaliação clínica.
Os critérios da Anvisa foram escritos para vigilância epidemiológica, não para decisão terapêutica individual. Eles servem aqui como régua de raciocínio — o que precisa estar presente para dizer que aquilo é infecção daquele sítio —, mas nenhum paciente deixa de ser tratado por não preencher um critério de notificação.
A contagem de dias é sempre de calendário e o dia do procedimento ou da instalação do dispositivo é o dia 1. Errar isso muda a classificação do evento e, mais importante, muda a lista de causas que você vai considerar.
O período de vigilância da infecção de sítio cirúrgico é do PROCEDIMENTO, e vale igual para os três planos: a Nota Técnica nº 03/2026 da Anvisa monitora por 90 dias seis cirurgias — implante de prótese mamária, prótese de quadril primária, prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata — e por 30 dias a cesariana. Material baseado no manual de 2017 ainda amarra os 90 dias à presença de implante e fixa a superficial em 30 dias: essa régua foi superada, e a tabela antiga foi excluída do documento.
Um paciente não pode ter mais de um evento de infecção primária de corrente sanguínea notificado num período de 14 dias, e o período de janela para definir a data da infecção é de 7 dias — três antes e três depois da primeira hemocultura positiva.
Protocolos de sepse e programas de uso de antimicrobianos respondem a necessidades complementares: reconhecer e tratar cedo quem pode piorar, e evitar exposição desnecessária quando a infecção é improvável. A decisão depende de probabilidade, disfunção, choque e trajetória; não da obrigação de preencher um pacote por qualquer febre.
Comparar a pressão com a habitual ajuda, mas não há um corte isolado de queda que prove ou exclua disfunção. Uma queda de 12 mmHg em pessoa bem pode ser variação; uma queda progressiva menor que 40 mmHg com má perfusão pode exigir intervenção. Conferir medida e integrar consciência, diurese, pele, lactato e evolução.
Distinguir alerta de protocolo e definição de sepse. Lactato elevado, confusão ou creatinina alterada podem ter várias causas e precisam de comparação com a linha de base. Sepse requer disfunção aguda relacionada à infecção; SOFA pode caracterizá-la, enquanto avaliação e tratamento de deterioração não esperam o escore completo. Não presumir erro editorial de uma fonte para inventar uma definição alternativa.
O volume inicial é uma decisão clínica reavaliada, não um compromisso com uma conta. A referência de 30 mL/kg em três horas na hipoperfusão séptica deve ser ajustada a mecanismo, resposta e tolerância, com vasopressor precoce quando indicado. Registrar o raciocínio permite continuidade; não usar a exigência de registro como prova de que todo paciente deva receber a mesma quantidade.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo começa no momento em que a enfermagem avisa. Toda dose citada vem de documento público brasileiro: as doses de antimicrobiano por foco vêm do protocolo gerenciado de sepse da RioSaúde (revisão de março de 2025), as de neutropenia febril vêm do protocolo do Grupo Hospitalar Conceição (2019), e a estrutura de tempo vem do protocolo do ILAS (revisão de julho de 2026). O esquema empírico definitivo, porém, é sempre o da sua unidade: a comissão de controle de infecção hospitalar conhece o perfil de sensibilidade local, e essa informação vale mais do que qualquer tabela impressa. O ajuste de dose para função renal e hepática está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática, desta apostila — com distinção entre dose de ataque e manutenção: a carga de muitos agentes não se reduz pelo rim, enquanto as doses seguintes exigem individualização desde o início.
0 a 15 minutos — à beira do leito
Ir ao leito, confirmar a temperatura e o método de aferição, e responder à única pergunta que muda o relógio: há disfunção orgânica? Consciência comparada à de hoje de manhã, frequência respiratória contada, saturação e necessidade de oxigênio comparadas às anteriores, pressão comparada à habitual do paciente (queda relevante em relação à basal merece avaliação, sem corte isolado que prove ou exclua disfunção), perfusão periférica, diurese das últimas horas. Em paralelo, checar a contagem de neutrófilos mais recente: se ela estiver abaixo de 500/mm³ — ou abaixo de 1.000/mm³ pelo critério institucional brasileiro —, o caso vira emergência e você salta direto para o marco de neutropenia febril. Monitorização e acesso venoso adequado são providenciados agora, não depois dos exames.
Prescrição- Frequência de sinais vitais conforme gravidade e trajetória; em deterioração, avaliação imediata e monitorização contínua quando indicada, sem aguardar quatro horas.
- Oximetria de pulso contínua se saturação abaixo de 94% em ar ambiente ou necessidade nova de oxigênio
- Titular oxigênio conforme síndrome e necessidade, geralmente evitando hipoxemia e hiperóxia. Na DPOC com risco hipercápnico, alvo inicial 88–92% e gasometria conforme quadro, sem deixar apenas acima de 90% como meta aberta.
- Antitérmico apenas se houver desconforto — dipirona 1 g EV a cada 6 h se necessário. Evitar prescrição automática por temperatura em paciente de risco: ela apaga o dado que orienta a conduta
15 a 60 minutos — o paciente COM disfunção orgânica (sepse)
Suspeita de infecção com disfunção aguda exige avaliação urgente para sepse e outras causas de deterioração. Sepse-3 usa aumento de SOFA ≥2 para caracterizar disfunção; gatilhos de protocolo são alertas e não substituem causalidade clínica. Em choque séptico ou alta probabilidade de sepse, antimicrobiano imediatamente, idealmente em uma hora, com culturas sem atraso significativo. Coletar lactato, avaliar foco e perfusão, dar cristaloide em alíquotas e iniciar vasopressor precocemente se necessário. No quadro apenas possível, sem choque, a investigação rápida pode preceder a decisão, com reavaliação em até três horas conforme risco. Acionar o responsável e organizar nível de cuidado adequado.
Prescrição- Gasometria arterial com lactato AGORA, encaminhada imediatamente ao laboratório; hemograma completo, creatinina, ureia, sódio, potássio, bilirrubinas e coagulograma
- Hemocultura: 2 amostras de sítios distintos, 2 frascos cada (aeróbio e anaeróbio), cerca de 10 mL por frasco — 40 mL no total, antes do antimicrobiano
- Culturas dos demais sítios pertinentes conforme a suspeita: urocultura, aspirado traqueal, secreção ou tecido de ferida obtido assepticamente (preferindo amostra profunda/aspirado; swab superficial tem limitações e não deve substituir amostra adequada), líquor
- Na hipoperfusão por sepse, cristaloide preferencialmente balanceado em alíquotas com reavaliação; 30 mL/kg nas primeiras três horas é referência individualizada. Não impor todo o volume a qualquer queda de pressão, nem apenas diminuir a velocidade diante de intolerância: rever necessidade, congestão e resposta.
- Noradrenalina pode ser iniciada precocemente em hipotensão ameaçadora, em paralelo à reposição apropriada, sem esperar completar volume ou tolerar 30–40 minutos de má perfusão. Acesso periférico adequado e vigiado pode permitir início enquanto se organiza acesso e monitorização.
- Lactato de controle depois da intervenção inicial, se o inicial estiver alterado — acima de duas vezes o valor de referência, dentro de 4 horas da abertura do protocolo
0 a 60 minutos — o paciente neutropênico (o relógio de 60 minutos)
Neutropenia febril é emergência médica com prazo em minutos: o alvo entre o início dos sintomas e a primeira dose de antibiótico é de 60 minutos, e a mortalidade cresce a partir daí. Colha as hemoculturas e dê a primeira dose sem esperar nenhum resultado. Não faça toque retal nem use termômetro retal — o procedimento cria porta de entrada. Examine boca, orofaringe, sítios de cateter e região perianal por inspeção. A estratificação de risco pelo escore MASCC (pontuação de 21 ou mais indica baixo risco de complicações) orienta quem poderia ser tratado por via oral, mas o protocolo brasileiro de referência opta por internar todo neutropênico febril por pelo menos 24 horas antes de considerar a via oral. A definição, a estratificação, o esquema e a duração estão no capítulo A febre que não espera, na apostila de Oncologia.
Prescrição- Piperacilina-tazobactam conforme protocolo de neutropenia febril e função renal. Se usado esquema de 4,5 g a cada 8 horas em infusão prolongada, definir carga e manutenção com a equipe. A primeira dose não corre em bolus o mais rápido possível: a bula descreve infusão em 30 minutos, com preparo e compatibilidade conferidos.
- Alternativa de igual valor onde for o padrão da unidade: cefepima 2 g EV a cada 8 h (protocolo da RioSaúde). Se houver mucosite, o mesmo protocolo prefere piperacilina-tazobactam 4,5 g EV a cada 6 h
- Vancomicina não é rotina na neutropenia febril. Considerar em instabilidade, suspeita de infecção de cateter/pele, pneumonia ou dados microbiológicos/colonização pertinentes. Mucosite isolada não obriga associação a um betalactâmico que já cobre adequadamente estreptococos. Dose de ataque pode considerar peso real e gravidade; manutenção exige rim, exposição e monitorização, sem repetir 15 mg/kg a cada 12 horas em todo paciente.
- Hemograma, função renal e hemoculturas apropriadas sem atrasar tratamento. Urina/cultura e imagem torácica devem responder a suspeita clínica; ausência de sintomas pode ser pouco confiável na neutropenia profunda, exigindo julgamento e protocolo, sem painel automático idêntico para todos.
- Na piora, reavaliar imediatamente choque, foco, culturas, colonização, exposição e adequação do esquema. Escalonamento depende desses dados e do perfil local; não prescrever automaticamente meropenem 2 g a cada 8 horas mais vancomicina para toda febre ou piora isolada.
- Suspender a vancomicina após 3 a 5 dias se não houver documentação de Gram-positivo e o paciente estiver clinicamente estável
1 a 6 horas — o paciente SEM disfunção orgânica
Aqui o tempo está do seu lado, e usá-lo é a conduta. Complete o exame físico dirigido com a ferida descoberta, o dorso examinado e as panturrilhas palpadas. Faça o inventário dos quatro cateteres e retire o que não é necessário — essa é a única intervenção do capítulo que reduz a probabilidade da próxima febre. Colha as culturas que respondem a uma pergunta formulada. Revise a prescrição inteira, item por item, procurando o pirógeno que veio de frasco. E escreva no prontuário o que dispara mudança de conduta, com horário de reavaliação marcado: observação sem critério de parada não é conduta, é adiamento.
Prescrição- Hemoculturas quando houver suspeita de bacteremia, sepse, cateter ou outra indicação em que possam mudar conduta; não colher automaticamente em toda febre estável. Se indicadas, em geral dois conjuntos, com volume adequado por frasco.
- Hemograma completo, creatinina, ureia, eletrólitos, bilirrubinas e proteína C reativa (esta como linha de base para tendência, não para decidir isoladamente)
- Urina tipo 1 e urocultura APENAS se houver sintoma urinário, suspeita real de foco urinário em paciente sondado, ou ausência de qualquer outro foco. Se a sonda estiver há mais de duas semanas, trocar o cateter e colher a urocultura da sonda nova
- Radiografia de tórax se houver sintoma respiratório, hipoxemia nova ou ausência de foco ao exame
- Retirar cateter venoso central, sonda vesical ou dreno sem indicação atual — registrando a retirada e o motivo
- Reavaliação médica em até 3 horas, com gatilhos escritos: novo pico acima de 38,3 °C, qualquer disfunção orgânica, ou piora do exame físico
1 a 6 horas — quando há foco definido: o esquema empírico por foco
O esquema depende do foco, gravidade, exposição prévia, colonização, antibiograma local, alergias e função orgânica. Mais de 48 horas de internação pode caracterizar pneumonia hospitalar pelo momento de início, mas ter dispositivo ou antibiótico prévio não transforma toda infecção em uma categoria que exige carbapenêmico. Cobertura para MRSA e Pseudomonas precisa de indicação contextual. Os exemplos abaixo exigem adaptação ao paciente e à unidade, com controle do foco e revisão diária.
Prescrição- Na pneumonia hospitalar, escolher cobertura conforme risco de resistência e mortalidade. Em função renal normal, cefepima 2 g IV a cada 8 horas é um exemplo de dose para infecção grave; piperacilina-tazobactam ou meropenem são alternativas conforme perfil e protocolo. Ajustar ao rim. Cobertura anti-MRSA ou dupla cobertura antipseudomonas dependem de risco; macrolídeo não é associação de rotina para toda pneumonia hospitalar.
- No foco urinário grave, selecionar agente conforme risco de resistência e culturas anteriores. Ertapenem não cobre Pseudomonas e não é alternativa equivalente para qualquer choque; quando há essa preocupação, discutir agente apropriado, como meropenem conforme suscetibilidade e protocolo. Dose depende de rim, gravidade e exposição desejada.
- No foco intra-abdominal, escolher cobertura para os agentes esperados e providenciar controle da fonte. Ceftriaxona 2 g IV/dia com metronidazol 500 mg IV a cada 8 horas é exemplo em situações selecionadas; infecção pós-operatória grave pode exigir outro espectro. Não afirmar que 1.500 mg de metronidazol em dose única reduz náusea de forma universal.
- Na suspeita de pneumonia hospitalar grave, cefepima pode ser uma opção se adequada à resistência local; exemplo para adulto com função renal preservada: 2 g EV a cada oito horas, com infusão e ajustes conforme protocolo. Não manter essa dose sem revisar função renal, neurotoxicidade, culturas e necessidade de cobertura adicional.
- Pele e partes moles relacionadas à assistência: vancomicina 25 a 30 mg/kg EV de ataque (máximo 2 g), manutenção conforme função renal; OU linezolida 600 mg EV a cada 12 h
- Suspeita de infecção em cateter de hemodiálise exige culturas, avaliação de retirada e esquema discutido com nefrologia/infectologia. Dose e intervalo de vancomicina ou aminoglicosídeo dependem de peso, modalidade/horário da diálise e níveis séricos. Não copiar vancomicina a cada 12 horas e amicacina 1 g/dia para paciente dialítico.
1 a 6 horas — controle do foco
Antibiótico não drena coleção, não retira cateter e não desobstrui via biliar. Sempre que o foco for drenável, o controle mecânico é parte do tratamento e não pode ser adiado para depois de ver a resposta ao antimicrobiano. Ferida com coleção superficial se abre no leito; coleção profunda ou intra-abdominal exige tomografia e drenagem, percutânea ou cirúrgica — e essa conversa é com o cirurgião, agora. Cateter suspeito com sinais locais, complicação ou instabilidade é retirado. O detalhamento do controle de foco cirúrgico está no capítulo de choque séptico e sepse cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório.
Prescrição- Abertura e drenagem da incisão com coleção superficial, à beira do leito, com cultura de secreção ou tecido colhida assepticamente
- Se houver suspeita de infecção de cateter, colher culturas periféricas e do dispositivo conforme protocolo quando viável, sem atrasar antimicrobiano ou retirada urgente de uma fonte provável em paciente instável. Identificar sítios e horários; providenciar outro acesso para o tratamento quando necessário.
- Na suspeita de ITU associada a sonda, retirar o dispositivo se dispensável; se ainda necessário e instalado há mais de duas semanas, substituir e colher da nova sonda. Antes disso, troca depende de obstrução, quebra do sistema ou outra indicação, sem rotina em toda febre.
- Suspeita de complicação intra-abdominal, como dor em piora, peritonismo, íleo persistente ou deterioração, exige avaliação cirúrgica e imagem quando apropriada, independentemente de já ter chegado ao quinto dia ou completado 72 horas de antibiótico. Não atrasar controle de foco urgente para obter TC se o transporte ou a espera forem inseguros.
- Acionamento da equipe cirúrgica para avaliação de drenagem percutânea ou reabordagem, quando houver coleção
6 a 24 horas
Bacilo gram-negativo no resultado não determina automaticamente cobertura antipseudomonas para todos. Integrar espécie provável, foco, gravidade, exposições e resistência local; usar cobertura empírica adequada na instabilidade e revisar assim que houver identificação e antibiograma. Ampliar e descalonar são decisões clínicas documentadas, não respostas automáticas à coloração de Gram.
Prescrição- Reavaliação clínica com sinais vitais completos e exame dirigido ao foco suspeito, no mínimo a cada 6 horas nas primeiras 24 h
- Checar resultado de bacterioscopia e crescimento inicial de hemoculturas; ligar para o laboratório de microbiologia se necessário
- Balanço hídrico e débito urinário registrados por turno; alvo de diurese acima de 0,5 mL/kg/h
- Creatinina e eletrólitos de controle em 24 h, sobretudo se estiver em uso de vancomicina, aminoglicosídeo ou polimixina
- Distinguir dose de ataque de manutenção. A carga de muitos antimicrobianos hidrofílicos não é reduzida apenas pela função renal, mas manutenção deve ser reavaliada desde o início conforme agente, rim, diálise, gravidade e níveis séricos; não impor 24–72 horas sem ajuste a todos.
- Profilaxia de tromboembolismo venoso revisada: a febre não a suspende, e a imobilidade a torna mais necessária
24 horas
É o momento de rever a hipótese, não apenas a resposta. Se a febre cedeu e o paciente melhorou, ótimo — mas confirme se o que melhorou foi o quadro ou apenas o efeito do antitérmico. Se nada foi documentado e o paciente segue estável e sem foco, a suspeita de causa não infecciosa sobe: reveja a prescrição inteira, verifique se houve transfusão, examine as panturrilhas de novo, considere trombose. Reveja também o que ainda está instalado no paciente: cada dispositivo que sobreviveu à visita de ontem precisa de justificativa hoje.
Prescrição- Rever a lista completa de medicamentos, marcando data de início de cada um, à procura de febre medicamentosa
- Reavaliar a necessidade de cada dispositivo: cateter central, sonda vesical, dreno, sonda nasoenteral
- Hemograma e proteína C reativa como tendência (o valor isolado não decide)
- Diante de diarreia compatível, investigar C. difficile com o algoritmo validado do laboratório e instituir precauções conforme serviço. Avaliar gravidade e tratamento indicado sem reduzir o diagnóstico a uma toxina isolada.
- Se ainda não houver foco e o paciente permanecer estável: manter observação e evitar escalonamento reflexo do espectro
48 a 72 horas — a hora de descalonar
Na reavaliação, confirmar diagnóstico, foco, resposta, culturas e controle de fonte. Cultura negativa não exclui infecção nem exige manter antibiótico indefinidamente; cultura positiva também pode representar colonização. Reduzir espectro, via e duração quando apropriado. Suspender se a avaliação clínica afastar infecção ou se o tratamento indicado tiver sido concluído, com plano de vigilância.
Prescrição- Revisão formal da prescrição antimicrobiana com as culturas em mãos, registrada no prontuário com a justificativa da decisão
- Revisar diariamente indicação, espectro, dose, função renal, culturas, via e duração prevista. Cultura negativa com melhora não é critério suficiente, sozinha, para interromper tratamento de uma infecção ainda provável.
- Definir e escrever a data prevista de término do tratamento, e não deixar o antimicrobiano em aberto
- Conversão para via oral quando houver droga com boa biodisponibilidade, trato gastrointestinal funcionante e paciente estável (a linezolida é o exemplo clássico)
- Discussão com a comissão de controle de infecção hospitalar quando o germe for multirresistente ou o esquema exigir droga de uso restrito
Alta e transição de cuidado
A alta do paciente que teve febre exige três coisas escritas, e é onde o interno costuma ser mais útil. Primeira: a data de término do antimicrobiano, explícita, para que ninguém prorrogue por insegurança nem interrompa por engano. Segunda: o que aconteceu, em linguagem que o paciente e a família entendam, incluindo o nome do germe se houve um — porque essa informação vai importar na próxima internação. Terceira: o que deve fazer voltar ao serviço: febre nova, vermelhidão ou secreção na cicatriz, dor que aumenta em vez de diminuir, falta de ar, e a incapacidade de tomar a medicação prescrita. Marque o retorno para revisão da ferida quando houve infecção de sítio cirúrgico.
Prescrição- Prescrição de alta com dose, via, frequência e DATA DE TÉRMINO de cada antimicrobiano
- Resumo de alta contendo o germe isolado, o antibiograma e o esquema utilizado — informação que muda a escolha empírica se ele voltar a internar
- Retorno agendado para revisão de ferida operatória quando houve infecção de sítio cirúrgico, lembrando que o período de vigilância é do procedimento: 30 dias na maioria das cirurgias e 90 dias em seis (implante de prótese mamária, prótese de quadril primária, prótese de joelho primária, revascularização do miocárdio, derivação interna neurológica e catarata)
- Orientação escrita dos sinais de retorno imediato ao serviço
Como saber se está funcionando
A pergunta que o internato não ensina é esta: como sei, daqui a dois dias, se o que prescrevi está funcionando? Uma regra evita a maior parte dos erros — a febre é o parâmetro que mais chama atenção e o que menos serve para julgar resposta precoce. Ela pode levar 48 a 72 horas para ceder mesmo com o antimicrobiano correto, porque a resposta inflamatória não desliga junto com a bactéria. Trocar o esquema porque o paciente febriu de novo no segundo dia é o erro mais comum da enfermaria, e ele custa espectro largo, toxicidade e resistência sem entregar nada.
O que se acompanha, então, são os parâmetros de perfusão e função orgânica, que respondem mais rápido, e a tendência do conjunto. A tabela abaixo diz o que olhar, em quanto tempo, o que significa melhora e o que fazer quando ela não vem.
Esperado: Paciente mais interativo, orientado como estava antes, aceitando dieta. No idoso, a confusão começa a clarear
Se não melhora: Rebaixamento novo ou progressivo é sinal de deterioração, não de febre: reavaliar disfunção orgânica agora, checar glicemia e eletrólitos, e considerar que o foco não está controlado. Confusão persistente sem piora sistêmica levanta delirium instalado — ver o capítulo de delirium no paciente internado
Esperado: Pressão arterial média acima de 65 mmHg de forma estável e redução progressiva da dose de noradrenalina
Se não melhora: Necessidade crescente de vasopressor após ressuscitação adequada indica foco não controlado (coleção a drenar, cateter a retirar) ou cobertura inadequada. Reavaliar imagem e discutir espectro com a infectologia — não apenas aumentar volume
Esperado: Queda progressiva da taquicardia e da taquipneia, mesmo antes de a febre ceder. É um dos primeiros sinais confiáveis de resposta
Se não melhora: Taquicardia que persiste com febre em queda levanta hipovolemia, dor não tratada, abstinência alcoólica ou tromboembolismo pulmonar. Taquipneia que persiste pede gasometria e reavaliação de troca gasosa
Esperado: Débito urinário acima de 0,5 mL/kg/h e creatinina estável ou em queda
Se não melhora: Oligúria persistente é critério de disfunção orgânica e exige reavaliação de perfusão. Creatinina em elevação sob vancomicina, aminoglicosídeo ou polimixina obriga a rever a dose (ver o capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática) e a considerar troca de droga
Esperado: Clareamento progressivo, com queda em relação ao valor inicial
Se não melhora: Lactato que não cai indica hipoperfusão mantida ou foco não controlado. Vale a ressalva do ILAS: hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais de hipoperfusão ou má evolução, não precisa necessariamente ser tratada — perseguir a normalização a qualquer custo gera intervenção desnecessária e potencialmente deletéria
Esperado: Redução da amplitude e da frequência dos picos, com tendência à normalização. Ceder totalmente em 24 horas não é a expectativa
Se não melhora: Não troque o esquema pelo termômetro. Percorra a lista: foco não drenado (abscesso, empiema, coleção), dispositivo infectado não retirado, germe fora do espectro escolhido, causa não infecciosa (trombose, droga, doença de base) e complicação nova (colite por Clostridioides difficile, infecção secundária)
Esperado: Leucocitose em queda; no neutropênico, contagem de neutrófilos em recuperação — que é o marco que define quando parar
Se não melhora: Leucocitose que sobe com paciente clinicamente estável tem baixo valor isolado. Plaquetopenia nova ou em queda é sinal precoce de sepse não controlada e merece atenção maior do que o leucograma
Esperado: Curva descendente acompanhando a melhora clínica
Se não melhora: Nova elevação depois de uma queda sugere evento novo — coleção, infecção secundária, trombose — e justifica reinvestigar. Valor isolado, sem clínica, não inicia nem suspende antimicrobiano
Esperado: Negativação. Em bacteremia por Staphylococcus aureus e em candidemia, a data da primeira cultura negativa é o marco a partir do qual se conta a duração do tratamento
Se não melhora: Bacteremia persistente sob tratamento adequado significa foco não controlado: cateter que precisa sair, endocardite, abscesso metastático ou trombose séptica. Nessa hora, ecocardiograma e imagem entram, e a infectologia deve ser envolvida
Esperado: Redução da hiperemia e da secreção, bordas coaptadas, dor em queda
Se não melhora: Dor que aumenta, hiperemia que avança, crepitação ou necrose exigem avaliação cirúrgica imediata. Secreção que persiste após drenagem adequada sugere coleção profunda ou corpo estranho, e pede imagem
Esperado: Melhora clínica sustentada, foco controlado e plano antimicrobiano revisto. Culturas negativas são parte da avaliação, não autorização automática para parar.
Se não melhora: Manter espectro largo depois de identificar o germe é erro com dano documentado. Se o motivo para não descalonar for insegurança, discuta com a comissão de controle de infecção hospitalar em vez de prorrogar por inércia
Esperado: Em neutropenia febril, individualizar duração por foco, organismo, estabilidade e evolução hematológica com a equipe oncológica. Candidemia requer documentar clareamento e avaliar complicações; a duração usual sem complicação conta após negativação e resolução clínica, com particularidades no neutropênico. Não aplicar 7–14 dias a todos.
Se não melhora: Se, ao chegar a data prevista, o paciente estiver afebril, comendo, com marcadores em queda e o foco controlado, pare. Prolongar tratamento na ausência de critério é a forma mais comum de produzir a próxima infecção por germe resistente — e o próximo capítulo de febre neste mesmo paciente
Onde o erro machuca
O dano: Duas lesões ao mesmo tempo. A primeira é microbiológica: a cultura colhida depois da primeira dose frequentemente vem negativa, e o paciente fica preso a um esquema empírico largo por dias porque nunca se soube o germe — o que impede o descalonamento que a diretriz nacional cobra em 48 a 72 horas. A segunda é direta ao paciente: lesão renal por vancomicina ou polimixina, colite por Clostridioides difficile, candidemia em quem teve a flora varrida, e seleção de Klebsiella e Acinetobacter resistentes, que são exatamente os germes que a vigilância nacional mostra liderando as infecções de corrente sanguínea em UTI adulto no Brasil.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever, responda a duas perguntas: há disfunção orgânica? há neutropenia? Se as duas respostas forem não, você tem tempo para examinar, colher e observar. E, se a resposta for sim, colha as culturas em minutos — sem, no entanto, atrasar a primeira dose por causa da coleta.
O dano: É o erro mais frequente do capítulo e o mais enganoso, porque parece diligência. O paciente sondado tem a urina colonizada a uma taxa de 5% a 10% ao dia, e ao fim de quatro semanas a colonização é universal. Tratar essa urocultura expõe o paciente a antibiótico sem benefício e, pior, encerra a investigação: o interno anota “infecção urinária tratada”, o plantonista seguinte confia na anotação, e o abscesso, a trombose ou o cateter infectado continuam lá, ganhando dias. Quando a febre não cede, o reflexo seguinte é escalonar o espectro — tratando ainda mais forte a bactéria errada.
Como pegar a tempo: Interpretar urocultura em conjunto com sintomas, técnica, cateter, antimicrobianos prévios e foco provável. Limiares microbiológicos de vigilância não substituem diagnóstico clínico. Mais de uma espécie pode indicar contaminação, mas não exclui universalmente infecção polimicrobiana. Bacteriúria assintomática geralmente não requer antibiótico, ressalvadas indicações específicas.
O dano: A coleta exclusiva pelo cateter não permite distinguir infecção de corrente sanguínea de colonização do dispositivo, porque o laboratório perde a comparação de tempo de positivação e de crescimento quantitativo. Quando cresce Staphylococcus coagulase-negativo, o resultado quase sempre vira vancomicina que o paciente não precisava. E o frasco único destrói a sensibilidade pelo lado do volume: a carga bacteriana é baixa — metade dos pacientes com bacteremia tem entre 0,01 e 1 UFC/mL —, e coletar 40 mL em vez de 20 mL aumenta a recuperação de microrganismos em 19%.
Como pegar a tempo: Microrganismos da pele podem ser contaminantes ou patógenos, sobretudo com dispositivos e hospedeiro vulnerável. Considerar número de conjuntos/frascos, sítios, tempo de positividade e quadro clínico. Nem um resultado isolado confirma infecção nem a repetição de comensal a confirma automaticamente.
O dano: Cateter infectado é foco não controlado, e foco não controlado não responde a antibiótico nenhum. O paciente mantém bacteremia sob tratamento adequado, e a persistência abre caminho para endocardite, trombose séptica e abscessos metastáticos — sobretudo quando o agente é Staphylococcus aureus ou Candida. Cada dia a mais com o dispositivo aumenta a exposição: a densidade de incidência de infecção de corrente sanguínea em UTI adulto no Brasil ficou em 3,3 por mil cateter-dia na mediana nacional de 2015, e em 11 nos serviços do percentil 90.
Como pegar a tempo: Colher culturas apropriadas prontamente e controlar o foco quando indicado. Se houver instabilidade ou fonte que exige retirada urgente, não deixar coleta ideal atrasar tratamento. Documentar amostras, intervenções, horários e limitações.
O dano: É o erro mais silencioso, porque o paciente está melhorando e ninguém percebe o dano acontecendo. Manter meropenem em quem tem uma Escherichia coli sensível a ceftriaxona não acrescenta eficácia e acrescenta tudo o mais: pressão seletiva sobre a flora do paciente e da unidade, risco de colite, custo e toxicidade. O descalonamento é indicador formal de qualidade na diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos da Anvisa, justamente por causa disso.
Como pegar a tempo: Na revisão em 48–72 h, integrar probabilidade de infecção, foco, evolução e microbiologia. Descalonar quando possível e suspender quando indicação não se sustenta; não usar cultura negativa como prova de ausência de infecção.
O dano: A febre pode levar de 48 a 72 horas para ceder mesmo com o antimicrobiano correto, porque a resposta inflamatória não desliga junto com a bactéria. Trocar pelo termômetro produz uma escalada sem informação: perde-se a chance de avaliar a resposta do esquema inicial, some a possibilidade de descalonar, e o paciente acumula drogas nefrotóxicas. Pior: a escalada dá a sensação de que algo foi feito, e adia a pergunta certa, que é sobre foco não controlado.
Como pegar a tempo: Julgue a resposta pelos parâmetros que respondem rápido — frequência cardíaca e respiratória, pressão, diurese, nível de consciência — e não pelo pico febril isolado. Se em 72 horas não houver melhora, não aumente o espectro por reflexo: percorra a lista de foco não drenado, dispositivo não retirado, germe fora do espectro, causa não infecciosa e complicação nova.
O dano: O paciente permanece internado, exposto a antimicrobianos que não precisava, submetido a tomografias repetidas e a novas coletas, enquanto a causa está na própria prescrição. O custo não é só de tempo: cada semana de internação adicional é mais risco de infecção relacionada à assistência, de trombose, de delirium e de perda funcional no idoso.
Como pegar a tempo: Diante de febre persistente com investigação negativa e paciente clinicamente bem demais para o número, reveja a prescrição droga por droga, com a data de início de cada uma. Betalactâmicos, sulfametoxazol-trimetoprima, anticonvulsivantes, heparina e antituberculosos são os suspeitos habituais. Suspenda o mais provável e use a régua de 72 horas: se a febre não cedeu três dias depois, é necessário reavaliar a hipótese, sem excluir efeito medicamentoso apenas pelo prazo, pois a resolução pode demorar mais.
O dano: O critério nacional é explícito ao não considerar culturas colhidas por swab, porque elas recolhem flora de superfície. O resultado é um antibiograma de bactérias que não estavam causando doença, e um espectro ampliado para cobri-las. A ponta de cateter isolada, sem hemocultura, informa colonização de um objeto que já está no lixo — e tratar colonização não beneficia ninguém.
Como pegar a tempo: Cultura de ferida se colhe de secreção ou tecido obtido assepticamente, ou por aspiração de coleção. E, se o cateter vai sair por suspeita de infecção, colha hemoculturas antes de removê-lo: é a hemocultura, não a ponta, que faz o diagnóstico.
O dano: É como se perde a infecção grave do paciente que menos reserva tem. A resposta febril do idoso é atenuada, e o sinal que substitui a febre é a mudança do estado mental — tanto que o critério nacional de pneumonia relacionada à assistência aceita, aos 70 anos ou mais, alteração do nível de consciência sem outra causa aparente no lugar da febre. Enquanto se aguarda a temperatura “fechar”, o quadro evolui, e a confusão que era sinal de foco vira delirium instalado, com prolongamento de internação e perda funcional.
Como pegar a tempo: Confusão nova no idoso exige avaliação imediata, incluindo glicemia, oxigenação, medicamentos e infecção entre as causas. Queda importante da pressão em relação à basal é alerta, mas não comprova disfunção por si só. Sepse pode ocorrer sem febre; tratar conforme probabilidade clínica, perfusão e gravidade.
O dano: A dipirona prescrita como reflexo apaga exatamente o dado que orientaria a conduta. No neutropênico, esconder um pico de 37,8 °C pode custar o relógio de 60 minutos que separa a primeira dose do antibiótico da bacteremia estabelecida. No pós-operatório, mascara a curva térmica que ajudaria a situar a febre no tempo. E, em qualquer paciente, dá a falsa impressão de resposta ao tratamento quando o que respondeu foi a cicloxigenase.
Como pegar a tempo: Prescreva antitérmico para conforto, não para número, e registre no prontuário o horário de administração para que a curva térmica continue legível. Em paciente neutropênico ou em pós-operatório recente, combine explicitamente com a enfermagem que qualquer temperatura acima de 37,5 °C seja comunicada antes de medicada.
O que dizer ao paciente e à família
A febre no hospital assusta a família de um jeito específico, porque contradiz a expectativa: a pessoa foi internada para melhorar e está piorando. E, quando a palavra “infecção hospitalar” aparece, entra junto a suspeita de que alguém errou. Nada disso se resolve com aula de fisiopatologia — resolve-se com informação honesta, na ordem certa, e sem promessa que não se pode cumprir.
Primeira notícia à família: o paciente febril, sem foco definido ainda
““Seu pai teve febre hoje à noite. Febre depois de uma cirurgia é comum e tem várias causas possíveis — algumas são infecção, outras não. Eu examinei ele agora, colhi exames de sangue e de urina, e vou reavaliar daqui a algumas horas. Ele está estável: pressão boa, respirando bem, consciente. Assim que os exames voltarem, eu venho contar o que encontrei.””
Não diga: “É só uma febrinha, não é nada.” Minimizar hoje destrói a credibilidade amanhã, quando você precisar dizer que é grave. E evite dizer “vamos começar antibiótico para prevenir”, porque ensina a família a cobrar antibiótico na próxima febre.
Explicar por que não vai começar antibiótico agora
““Eu entendo a preocupação, e vou explicar por que ainda não vou começar antibiótico. Nem toda febre é infecção — depois de uma cirurgia, o próprio corpo produz febre respondendo ao procedimento. Se eu der antibiótico agora, sem saber se há infecção e onde ela é, corro dois riscos: escondo o problema verdadeiro e crio bactérias resistentes, que depois são difíceis de tratar. Ele está sendo vigiado de perto, com reavaliação marcada, e no minuto em que aparecer sinal de infecção o antibiótico começa. Não estamos esperando de braços cruzados — estamos procurando a causa.””
Não diga: “Antibiótico não é necessário” dito de forma seca, sem explicar o raciocínio. A família ouve isso como economia ou descaso. Diga o que está sendo feito, não só o que não está.
A família ouve “infecção hospitalar” e pergunta se alguém errou
““Sim, é uma infecção que ele adquiriu aqui no hospital, e eu vou explicar o que isso significa. Alguns tratamentos que salvam a vida do paciente também abrem portas: o cateter na veia, a sonda na bexiga, o tubo para respirar. Eles são necessários, e ao mesmo tempo são caminho para bactéria. O hospital tem uma comissão que acompanha essas infecções justamente porque elas acontecem e precisam ser reduzidas. No caso do seu pai, nós identificamos de onde veio, retiramos o cateter que estava envolvido e começamos o tratamento dirigido. Vou acompanhar de perto e conto para vocês a evolução todos os dias.””
Não diga: Postura defensiva ou culpar “o sistema”. Evite também prometer que a infecção não teve relação com o cuidado antes de saber. Reconheça o fato, explique o mecanismo e mostre o plano.
Explicar ao paciente por que o antibiótico foi trocado
““No primeiro dia, a gente não sabia qual bactéria estava causando a infecção, então usamos um remédio forte que cobre várias possibilidades ao mesmo tempo. Agora o exame identificou a bactéria e mostrou quais remédios funcionam contra ela. Por isso eu troquei: passei para um antibiótico mais específico, que ataca exatamente essa bactéria. Não é que o anterior tenha falhado — é que agora dá para ser preciso. E o mais específico costuma ter menos efeito colateral e mexer menos nas bactérias boas do seu intestino.””
Não diga: Deixar a troca sem explicação, ou dizer “o outro não estava funcionando” quando não é verdade. Paciente que interpreta descalonamento como falha perde confiança e às vezes recusa a mudança.
Explicar que a febre ainda não cedeu no segundo dia
““A febre continuou hoje, e eu quero explicar por que isso não significa que o tratamento falhou. A febre costuma levar de dois a três dias para ceder mesmo quando o antibiótico é o certo, porque a inflamação demora mais que a bactéria. O que eu acompanho de mais perto são outros sinais: a frequência do coração, a respiração, a pressão, o xixi e o quanto ele está mais desperto — e esses estão melhorando. Se em três dias não houver melhora, eu vou reinvestigar do zero, e já sei o que procurar.””
Não diga: Prometer que “amanhã a febre cede”. Prazo prometido e não cumprido custa confiança justamente no momento em que você mais vai precisar dela.
Neutropenia febril: explicar a urgência a um paciente que se sente bem
““Eu sei que você está se sentindo bem, e é justamente por isso que preciso agir rápido. A quimioterapia derrubou suas células de defesa, e sem elas o corpo não consegue montar os sinais de infecção — não dá pus, não dá vermelhidão, não dá dor. Essa febre pode ser o único aviso de uma infecção grave na corrente sanguínea, e o antibiótico precisa entrar na primeira hora. Vou colher sangue para exames agora e começar o antibiótico logo em seguida, antes mesmo do resultado. Não é exagero: é o que reduz o risco.””
Não diga: Aceitar “mas eu estou bem, doutor” como motivo para adiar. E evite pedir toque retal ou temperatura retal — o exame cria porta de entrada exatamente no paciente que menos pode ter uma.
Comunicar deterioração: o paciente evoluiu para sepse
“Sepse é quando uma infecção provoca uma resposta do organismo que compromete funções como respiração, circulação ou estado de consciência. Não significa obrigatoriamente que haja bactéria no sangue. Estamos avaliando a origem e tratando o que está comprometido, acompanhando de perto a resposta.”
Não diga: Usar “sepse” ou “septicemia” sem traduzir, e prometer desfecho. Evite também adiar a conversa sobre o que o paciente gostaria: ela é mais fácil agora do que às três da manhã com a família em pânico.
Alta de quem teve infecção hospitalar: o que a família precisa levar por escrito
““Vou entregar por escrito três coisas. Primeira: o nome da bactéria que ele teve e os antibióticos que funcionaram — guarde esse papel, porque se ele precisar internar de novo essa informação muda o tratamento desde o primeiro dia. Segunda: até que dia ele toma o antibiótico. É até essa data, nem antes nem depois — não interrompa nem prolongue por conta própria; se houver efeito adverso ou nova orientação, converse com a equipe para ajustar o plano. Terceira: o que faz vocês voltarem correndo — febre de novo, vermelhidão ou secreção na cicatriz, dor que aumenta em vez de diminuir, falta de ar. E marquei o retorno para eu ver a cicatriz.””
Não diga: Alta sem data de término do antibiótico e sem o nome do germe. As duas omissões custam caro na próxima internação, e a família não tem como suprir o que não foi escrito.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Ensino cirúrgico clássico: a atelectasia é a causa do primeiro W
A tradição do ensino cirúrgico atribui a febre das primeiras 48 horas ao colapso alveolar, associando-a à hipoventilação por dor e por decúbito. Dessa atribuição saíram condutas que continuam válidas por outros motivos: fisioterapia respiratória, incentivo à inspiração profunda, analgesia adequada para permitir tossir e deambulação precoce.
Tradição do ensino de pós-operatório, incorporada à mnemônica dos cinco W (wind, water, wound, walking, wonder drugs) usada em enfermarias cirúrgicas.
Revisão sistemática de Mavros e colaboradores (Chest, 2011): a evidência não sustenta a relação causal
A revisão reuniu 8 estudos com 998 pacientes de cirurgia cardíaca, abdominal e maxilofacial e encontrou associação significativa entre atelectasia pós-operatória e febre em apenas 1 dos 8 — concluindo que não há evidência clara de que a atelectasia cause febre. A leitura alternativa é que atelectasia e febre coexistem nas primeiras 48 horas porque ambas decorrem do mesmo evento (a cirurgia), sem que uma cause a outra: a febre é explicada pela liberação de citocinas do tecido lesado.
Mavros MN, Velmahos GC, Falagas ME. Atelectasis as a cause of postoperative fever: where is the clinical evidence? Chest. 2011;140(2):418-424.
Para o paciente à sua frente, a divergência muda pouco a conduta e muda muito o raciocínio — e o raciocínio é o que evita o erro seguinte. As medidas ligadas à atelectasia (respiração profunda, analgesia, deambulação) continuam indicadas, porque previnem pneumonia e tromboembolismo, e não custam nada. O que muda é o que você faz com a explicação: se atribuir a febre do primeiro dia à atelectasia e parar por aí, você deixa de reconhecer as poucas causas precoces graves — infecção necrosante de ferida, aspiração durante a indução e reação transfusional — que exigem ação imediata. A régua prática: nas primeiras 48 horas, em paciente bem e sem disfunção, observe e estimule a respiração; mas examine a ferida descoberta e revise os hemocomponentes antes de arquivar a febre como esperada.
Protocolo gerenciado de sepse (ILAS, revisão de julho de 2026): antimicrobiano na primeira hora quando há disfunção — e critério explícito para não seguir o pacote no estável
Para todo paciente em que a equipe médica opta por seguir o protocolo, o pacote de 1 hora é executado integralmente, com antimicrobiano de amplo espectro dentro da primeira hora. O mesmo documento, porém, orienta que em pacientes sem disfunção clínica aparente e com baixa probabilidade de sepse — jovens, sem comorbidades, com quadros que geram resposta inflamatória mas raramente sepse — o médico pode decidir por outro fluxo, optando por investigação diagnóstica simplificada num período de até 3 horas e observação clínica antes do antimicrobiano. O prazo de 3 horas entrou na revisão de 2026; a de 2018 falava em investigação simplificada antes dos antimicrobianos da primeira hora, sem prazo.
Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS). Protocolo Clínico de atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico, revisão de julho de 2026, que substituiu a de agosto de 2018.
Diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos (Anvisa, 2023): a prescrição precisa ser indicada, revisada e descalonada
O programa nacional de gerenciamento parte do princípio de que cada paciente deve receber o antimicrobiano mais apropriado à sua condição, com indicação, dose e duração corretas, e institui como indicadores de processo o percentual de revisão da prescrição após 48 a 72 horas e o percentual de descalonamento. A lógica é que prescrição empírica sem indicação sustentada produz resistência e dano, e que a decisão de iniciar precisa ser tão avaliada quanto a de manter.
Anvisa. Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, revisão 2023.
Estratificar por probabilidade de infecção e presença de choque. Tratamento imediato no choque suspeito ou sepse provável; avaliação rápida na sepse apenas possível sem choque, com antimicrobiano em até três horas se a suspeita persistir. Baixa probabilidade sem choque permite observação cuidadosa sem antibiótico, com reavaliação. Não exigir ausência de toda disfunção para admitir dúvida diagnóstica.
Gerenciamento de antimicrobianos (Anvisa, 2023): revisão em 48 a 72 horas e a menor duração eficaz
A diretriz nacional coloca a duração do tratamento entre os elementos que o programa de gerenciamento precisa avaliar e monitorar, ao lado de indicação, dose e necessidade de ajuste ao longo do tratamento, e usa como indicadores o percentual de prescrições com suspensão ou revisão e o percentual de revisão após 48 a 72 horas. A lógica é que cada dia adicional de antimicrobiano soma pressão seletiva e toxicidade sem somar benefício quando o foco está controlado.
Anvisa. Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, revisão 2023.
Protocolo brasileiro de neutropenia febril (GHC, 2019): duração amarrada à recuperação imunológica, com piso definido
No neutropênico, o protocolo mantém o antimicrobiano até a recuperação da contagem de neutrófilos e por no mínimo 7 a 14 dias — e essa regra vale tanto quando há infecção documentada quanto quando nenhum agente foi identificado e o paciente respondeu clinicamente. Em candidemia, o mínimo é de 14 dias, com recuperação dos neutrófilos como condição adicional. Aqui a duração não é guiada apenas pela resposta clínica, e sim pelo estado de defesa do hospedeiro.
Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia Febril, 2019.
As duas posições descrevem hospedeiros diferentes, e é o hospedeiro que decide qual se aplica. No imunocompetente com foco controlado e resposta clínica clara, a duração é a menor que resolve o sítio, e ela deve estar escrita no prontuário desde a revisão de 48 a 72 horas — antimicrobiano sem data de término dura até alguém lembrar, e ninguém lembra. No neutropênico, no transplantado e em quem tem material protético ou foco não drenável, a resposta clínica não basta: a duração se ancora na recuperação imunológica ou no controle mecânico do foco, com piso definido. Três perguntas resolvem quase todos os casos: o foco foi controlado (drenado, retirado, desobstruído)? o hospedeiro recuperou a defesa? o germe exige tratamento prolongado por sítio, como bacteremia por Staphylococcus aureus, endocardite ou candidemia? Se as três respostas forem favoráveis, parar é conduta — e é a conduta que impede a próxima infecção por germe resistente neste mesmo paciente.
Critério da IDSA, referência internacional: 38,3 °C oral em medida única, ou 38,0 °C mantidos por mais de uma hora
A definição internacional mais citada usa temperatura oral: uma aferição isolada de 38,3 °C ou 38,0 °C sustentados por mais de uma hora, associados a neutropenia grave (menos de 500 células/µL) ou queda esperada para esse valor nas 48 horas seguintes. É a referência a partir da qual a maioria dos serviços do mundo escreve seus protocolos.
Freifeld AG, et al. Clinical Practice Guideline for the Use of Antimicrobial Agents in Neutropenic Patients with Cancer: 2010 Update by the IDSA. Clin Infect Dis. 2011;52(4):e56-e93 — cortes lidos na citação feita pelo protocolo do Grupo Hospitalar Conceição.
Protocolo brasileiro do Grupo Hospitalar Conceição: 37,5 °C axilar em medida única
O protocolo adota deliberadamente um corte mais baixo e um método diferente, com três justificativas explícitas: no Brasil a aferição de rotina é axilar, e a temperatura axilar corre cerca de 0,5 °C abaixo da oral; o hábito de medicar o paciente com temperaturas próximas de 38 °C tende a subdiagnosticar a febre; e a mortalidade do atraso justifica o critério mais conservador. O corte de 37,5 °C axilar foi validado em estudo clínico randomizado multicêntrico que comparou esquemas antimicrobianos em pacientes hematológicos, e o mesmo protocolo adota neutrófilos abaixo de 1.000/µL, também mais sensível que o corte internacional.
Grupo Hospitalar Conceição. Protocolo de Neutropenia Febril, 2019.
Esta é uma divergência de calibração, não de conceito: os dois lados concordam que o atraso mata e discordam sobre onde colocar o alarme. Para o paciente à sua frente, três coisas orientam. Primeira: use o protocolo escrito da sua instituição, porque é ele que a equipe de enfermagem segue e é ele que define quando você é chamado. Segunda: se o serviço não tiver protocolo próprio, o corte axilar mais sensível erra para o lado seguro em paciente neutropênico, onde o custo de tratar sem precisar é pequeno e o custo de perder o diagnóstico é a morte por bacteremia. Terceira, e mais importante que o número: garanta que a temperatura seja registrada antes de ser medicada. Um corte de 37,5 °C não serve para nada se a dipirona de horário apagar o pico antes que ele chegue ao seu conhecimento. A posição da apostila sobre o corte, por tipo de câncer, está no capítulo A febre que não espera, na apostila de Oncologia.
O raciocínio, em voz alta
Senhor Waldir, 62 anos, terceiro dia de pós-operatório de hemicolectomia direita por adenocarcinoma de cólon. Às 22h a enfermagem registra 38,4 °C axilar. Ele tem cateter venoso central em subclávia direita instalado no intraoperatório, sonda vesical de demora do mesmo dia, dreno de sucção na loja cirúrgica com débito seroso e curativo na incisão mediana trocado ontem. Frequência cardíaca 104, pressão 118 por 72 (habitual 130 por 80), frequência respiratória 20, saturação 95% em ar ambiente. Eliminou flatos hoje e aceitou dieta líquida.
o que penso agora
Avalio consciência, respiração, perfusão e tendência. Neste momento, Waldir não tem sinais clínicos claros de disfunção, mas urina clara não demonstra diurese adequada: conferir volume e tempo. Queda sistólica de 12 mmHg não define sepse e tampouco um corte de 40 mmHg seria obrigatório para reconhecer deterioração. Com estabilidade e avaliação completa, posso investigar e reavaliar em prazo curto, verificando hemograma e fatores de risco.
onde situo a febre no tempo
O terceiro dia ajuda a organizar hipóteses, mas não impõe cateter/urina antes de abdome ou ferida. Limites de dias para vigilância não definem quando uma infecção pode começar. Examino a cirurgia, dispositivos, pulmão e outras causas conforme sintomas e trajetória, mantendo suspeita de complicação abdominal se surgirem sinais.
o que examino
Faço o inventário dos quatro cateteres. Abro o curativo do cateter central: sítio de inserção sem hiperemia, sem secreção, sem dor à palpação do trajeto — o que não afasta nada, porque a maioria das infecções de corrente sanguínea relacionadas a cateter cursa com sítio de aparência normal. Sonda vesical no lugar, urina clara na bolsa, sem dor suprapúbica nem lombar à percussão. Ausculto os dois hemitórax: murmúrio vesicular presente, sem estertores, frequência respiratória contada em 20. Descubro a incisão mediana inteira: bordas coaptadas, sem hiperemia, sem secreção, sem flutuação. Palpo o abdome: dor na incisão compatível com o terceiro dia, sem defesa nova, ruídos hidroaéreos presentes. Viro o paciente: dorso e sacro íntegros. Palpo as panturrilhas: simétricas, sem empastamento. Dreno com débito seroso, 40 mL em 24 horas.
o que a ausência de achados significa
Exame completo sem foco evidente. Isso não significa que não há infecção, e também não significa que existe uma infecção oculta grave. Significa que a probabilidade de infecção bacteriana tratável caiu e que a probabilidade de causa não infecciosa subiu — e, sobretudo, que eu tenho um paciente estável em quem observar é uma conduta legítima, desde que com culturas colhidas e critério de parada escrito. Reviso a prescrição inteira à procura de droga nova: cefazolina profilática suspensa no primeiro dia, dipirona, enoxaparina, omeprazol, morfina — a ausência de fármaco novo nas últimas 48 horas não exclui febre medicamentosa, que pode aparecer após dias ou semanas; revisar a cronologia completa.
o que peço, e por quê
Duas hemoculturas de sítios distintos, quatro frascos, 40 mL no total. Como há cateter central sob suspeita e não há sinais locais, complicação nem instabilidade, colho o par pareado: uma amostra do lúmen do cateter e uma de veia periférica fresca, juntas — para que o laboratório possa comparar tempo de positivação. Hemograma completo, creatinina, eletrólitos, bilirrubinas e proteína C reativa como linha de base. Não peço urocultura: ele não tem sintoma urinário e eu ainda tenho outros focos a esclarecer; se eu pedir, a chance de vir uma bacteriúria que me distraia é alta. Não peço radiografia de tórax: sem sintoma respiratório, sem hipoxemia nova e com ausculta normal, ela não responde a nenhuma pergunta minha agora. Não começo antibiótico.
o que escrevo no prontuário
Registro o exame feito, sítio por sítio, o que foi colhido e — a parte que o plantonista seguinte precisa — os gatilhos: reavaliar em até 3 horas; iniciar antimicrobiano empírico e comunicar a equipe assistente se surgir qualquer disfunção orgânica, novo pico acima de 38,3 °C com calafrio, ou piora do exame abdominal. Sem isso escrito, o próximo plantão recomeça do zero e o paciente ganha um antibiótico que ninguém decidiu dar.
como a resposta muda o que penso
Às 2h há 38,7 °C com calafrios, FC 118 e pressão 96/58 em queda. O conjunto exige avaliação imediata de perfusão, lactato e causas, sem esperar queda de 40 mmHg. Sítio de cateter normal não exclui infecção relacionada ao dispositivo, mas também não reforça sua origem. Reexamino abdome e outros focos, acionando o responsável.
a decisão
Com queda pressórica progressiva, taquicardia e calafrio em paciente com cateter central há três dias, eu trato agora e retiro o dispositivo. As hemoculturas já foram colhidas às 22h, antes de qualquer dose — o que preserva o diagnóstico. Prescrevo antimicrobiano empírico cobrindo o Gram-negativo hospitalar e o estafilococo, que é o que a vigilância nacional mostra prevalecendo: piperacilina-tazobactam 4,5 g EV a cada 8 h, com primeira dose em infusão curta conforme bula/protocolo, em geral 30 minutos, sem injeção rápida, associado a vancomicina com ataque de 25 a 30 mg/kg. Retiro o cateter central e providencio acesso novo. Cristaloide se a pressão média cair abaixo de 65 mmHg. Comunico a equipe assistente e o cirurgião.
48 horas depois
As hemoculturas crescem Klebsiella pneumoniae nas duas amostras, com diferença de pelo menos duas horas, mais precoce no cateter, em amostras pareadas de volume semelhante — padrão compatível com infecção de corrente sanguínea relacionada ao dispositivo, que já foi retirado. O antibiograma mostra sensibilidade a cefepima. Paciente afebril há 18 horas, pressão 124 por 76, diurese adequada, comendo. Descalono: suspendo a vancomicina, porque não houve documentação de Gram-positivo e ele está estável, e troco a piperacilina-tazobactam por cefepima 2 g EV a cada 8 h. Escrevo no prontuário a data prevista de término. Essa revisão, feita entre 48 e 72 horas com as culturas em mãos, é exatamente o que a diretriz nacional de gerenciamento de antimicrobianos cobra — e é o passo que a maioria dos plantões esquece.
o que teria dado errado
Três desvios plausíveis, todos comuns. Se eu tivesse dado antibiótico às 22h sem colher hemocultura, provavelmente teria uma cultura negativa às 48 horas e ficaria preso ao esquema largo por dias, sem poder descalonar. Se eu tivesse pedido urocultura de rotina, ela poderia ter crescido uma bactéria da bexiga colonizada, eu teria chamado de infecção urinária e o cateter infectado teria continuado no lugar. E se eu tivesse mantido o cateter porque “o acesso é difícil”, a bacteremia persistiria sob antibiótico adequado — que é a definição de foco não controlado.
Faça você
Dona Marlene, 78 anos, sexto dia de pós-operatório de osteossíntese de fêmur após queda em casa. Hipertensa, com pressão habitual de 150 por 80. Às 22h a enfermagem registra 37,8 °C axilar e avisa que ela está confusa desde a tarde, não reconheceu a filha e arrancou o acesso venoso duas vezes. Frequência cardíaca 98, pressão 104 por 62, frequência respiratória 22, saturação 93% em ar ambiente (estava 97% ontem). Está com sonda vesical desde a cirurgia e com curativo na coxa direita. Diurese de 250 mL nas últimas 12 horas; ela pesa 60 kg.
o que chama atenção antes do termômetro
A temperatura não chega ao corte formal de 38 °C, e é isso que faz o erro clássico acontecer: dizer que ela não tem febre e voltar ao posto. Mas no idoso a resposta febril é atenuada, e o sinal que substitui a febre é a mudança do estado mental. Aos 78 anos, confusão nova sem outra causa aparente vale como sinal de infecção — o próprio critério nacional de pneumonia relacionada à assistência aceita alteração do nível de consciência no lugar da febre em pacientes com 70 anos ou mais.
disfunção orgânica — a conta que precisa ser feita
Confusão nova, pressão em queda, taquipneia, redução de saturação e diurese de 250/(60×12)=0,35 mL/kg/h mostram deterioração e exigem avaliação urgente. Não chamar esses achados de quatro disfunções formalmente comprovadas apenas por contagem: integrar linha de base, perfusão e hipóteses, incluindo infecção, TEP, sangramento, fármacos e depleção de volume.
onde situo a febre no tempo, e onde procuro
Sexto dia de pós-operatório ortopédico: é a janela da ferida operatória, e a coxa direita precisa ser descoberta e inspecionada inteira. É também janela de infecção urinária associada à sonda, que está lá desde a cirurgia, e de pneumonia — a saturação que caiu aponta para o pulmão. E o sexto dia de imobilidade coloca trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar na lista, o que a taquipneia com hipoxemia e sem achado auscultatório reforçaria. O período formal de vigilância depende do procedimento e da definição aplicável, não apenas de existir metal; clinicamente, a suspeita não fica restrita a essa janela.
conduta
Acionar a equipe responsável, avaliar ABC e perfusão, colher exames/culturas pertinentes sem atrasar tratamento quando a suspeita de sepse for alta e investigar causas infecciosas e não infecciosas em paralelo.
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Marlene está em deterioração e precisa de avaliação imediata e ajuda, independentemente de febre alta. Confirmar medidas e avaliar ventilação, perfusão, consciência e diurese. Infecção é hipótese importante, mas o quadro não prova sozinho quatro disfunções por sepse; considerar também TEP, sangramento, hipovolemia e medicamentos. Colher lactato, hemograma, função renal, eletrólitos e demais exames pertinentes; obter hemoculturas se a suspeita infecciosa justificar, sem atraso significativo da primeira dose. Pela redução de saturação, avaliar pulmões e imagem. Descobrir a ferida e examinar coxa, abdome, acessos e demais focos; acionar ortopedia conforme achados. O exame não fecha toda hipótese sozinho, e ferida limpa não exclui infecção profunda. Se a avaliação sustentar alta probabilidade de sepse, iniciar antimicrobiano apropriado prontamente, idealmente em uma hora, considerando foco, culturas prévias, resistência local e função orgânica. Não escolher espectro apenas pelo dia de internação. Na hipoperfusão, dar cristaloide em alíquotas com reavaliação; 1.800 mL correspondem a 30 mL/kg, mas não são ordem fixa para infusão rápida integral. Vasopressor pode entrar precocemente em hipotensão ameaçadora, conforme mecanismo, sem esperar todo o volume. A sonda tem seis dias: verificar necessidade, obstrução e sistema; retirar se dispensável, mas não trocá-la obrigatoriamente apenas para colher cultura. Se houver suspeita de foco urinário e ela permanecer, colher do porto com técnica asséptica. Culturas, aspecto da urina e exame das panturrilhas não devem encerrar o raciocínio isoladamente. Dose de ataque e manutenção de antimicrobianos são decisões distintas; não manter todas as doses sem ajuste renal por 24–72 horas. Organizar monitorização, reavaliação em intervalo curto, cuidado do delirium e nível de assistência adequado, com comunicação clara à família e à equipe.
Temperatura axilar de 38 °C em paciente com neutrófilos 380/µL exige avaliação e tratamento de neutropenia febril conforme protocolo, sem esperar nova contagem ou cultura. Colher hemoculturas sem atrasar antimicrobiano com atividade antipseudomonas, idealmente em uma hora do reconhecimento/triagem. Sessenta minutos é meta de rapidez, não fronteira biológica após a qual o risco começa. MASCC isolado não autoriza alta; tratamento ambulatorial requer seleção, estabilidade, avaliação oncológica e logística. Não realizar toque retal para procurar foco nesse contexto.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare febre isolada estável, neutropenia febril e deterioração com pouco aumento de temperatura. Explique a avaliação inicial e o momento do antimicrobiano em cada uma.
Em 30 dias
Reavalie um caso com febre persistente: reveja foco, culturas, doses, medicamentos e complicações antes de ampliar espectro. Diferencie hipótese clínica de critério de notificação.
Agora atenda
Você é o interno de plantão na enfermaria de cirurgia geral. A enfermagem chama ao leito 8: senhor Waldir, 62 anos, terceiro dia de pós-operatório de hemicolectomia direita, com 38,4 °C axilar. Ele tem cateter venoso central, sonda vesical e dreno abdominal, todos do centro cirúrgico. Frequência cardíaca 104, pressão 118 por 72, saturação 95% em ar ambiente. Conduza: decida se ele está séptico, procure o foco de forma sistemática, escolha o que colher — e justifique se o antimicrobiano começa agora ou espera.
