Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

O repouso que ninguém prescreveu

Constipação, imobilismo e suas consequências

Repouso relativo é a linha mais copiada e menos decidida da enfermaria. Este capítulo é o inventário do que ela quebra — o músculo que some em dias, a função que não volta na alta, o intestino que para — e da prescrição que desfaz o estrago: tirar o paciente da cama.

Fontes deste capítulo

Aquim EE, Bernardo WM, Buzzini RF, Azeredo NSG, Cunha LS, Damasceno MCP, et al. Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em Unidade de Terapia Intensiva. Rev Bras Ter Intensiva. 2019;31(4):434-443. Associação de Medicina Intensiva Brasileira e Associação Médica Brasileira. DOI 10.5935/0103-507X.20190084.

Azevedo RP, Freitas FGR, Ferreira EM, Machado FR. Constipação intestinal em terapia intensiva. Rev Bras Ter Intensiva. 2009;21(3):324-331. Universidade Federal de São Paulo.

D'Alessandro MPS, Barbosa LC, Anagusko SS, Maiello APMV, Conrado CM, Pires CT, Forte DN (eds.). Manual de cuidados paliativos. 2. ed. revisada e ampliada. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde; CONASS, 2023. 424 p. ISBN 978-65-85051-59-0. Programa de Cuidados Paliativos no SUS, PROADI-SUS.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

Dietrich C, Cardoso JR, Vargas F, Sanchez EC, Dutra FH, Moreira C, Bessel M, Robinson C, Falavigna M, Teixeira C. Capacidade funcional em idosos e idosos mais velhos após alta da unidade de terapia intensiva. Coorte prospectiva. Rev Bras Ter Intensiva. 2017;29(3):293-302.

01

Responda antes de ler

Homem de 81 anos, oitavo dia de internação por pielonefrite, em uso de sonda vesical desde a admissão e de associação de codeína com paracetamol conforme necessário, checada doze vezes. Às duas da manhã fica agitado, tentando retirar o acesso, desatento e desorientado. Glicemia capilar 132, saturação 96%, temperatura 36,5, pressão 134 por 80. A bolsa coletora drenou 30 mL nas últimas seis horas. Não há registro de evacuação desde a admissão. Qual é a primeira sequência de ações?

02

O paciente que você vai ver

Sete e vinte da manhã do nono dia, numa enfermaria de dezesseis leitos de clínica médica. O senhor Aristides Pontual tem 79 anos, 68 quilos, 1,72 m, e é carteiro aposentado. Entrou pelo pronto-socorro numa segunda-feira à noite com pneumonia adquirida na comunidade, saturando 88% em ar ambiente, e chegou andando — apoiado no braço do filho, mas andando. Em casa ele ia até a padaria da esquina de baixo, três quarteirões, e subia o lance de escada até o apartamento parando uma vez no meio.

Ele está curado. A febre cedeu no terceiro dia, a saturação está em 96% em ar ambiente há quatro dias, a ausculta melhorou, e a antibioticoterapia termina hoje. A evolução de ontem diz, em duas linhas, que ele está em bom estado geral, afebril, eupneico, aceitando a dieta. Está tudo certo, e é por isso que a cena de hoje é difícil de explicar.

Às sete e vinte, antes da visita, a técnica de enfermagem Divina te para no corredor com duas informações que não estão na evolução. A primeira é que o senhor Aristides não evacua desde que chegou. Ela sabe porque anotou os primeiros três dias e depois parou de anotar, já que não havia o que anotar. A segunda é que hoje, no banho, ele não conseguiu ficar sentado na beira da cama sozinho: escorregou para o lado e ela teve que segurá-lo com o braço.

Você vai ao leito. O senhor Aristides está deitado, desperto, conversando. Diz que está bem, que quer ir para casa, e que a barriga está estufada. Você levanta o lençol: o abdome está distendido, timpânico à percussão em toda a extensão, com ruídos hidroaéreos presentes e diminuídos, sem dor à descompressão, e você palpa uma massa firme e alongada no trajeto do cólon descendente que cede um pouco sob o dedo. Você pede que ele sente. Ele empurra o colchão com os dois braços, chega a metade do caminho, e desiste. Na segunda tentativa, com a sua mão nas costas dele, senta — e fica pálido, diz que a vista escureceu, e pede para deitar de novo.

Enquanto ele se recompõe, você lê a folha de prescrição do dia, que é a folha de ontem impressa de novo. No topo, na primeira linha do bloco de cuidados, está escrito repouso relativo. Ninguém escreveu isso hoje: alguém escreveu no primeiro dia, quando ele saturava 88% e tinha de ficar deitado com a máscara, e a linha atravessou nove dias porque ninguém teve motivo para apagá-la. Abaixo dela, na mesma folha copiada, estão o cateter nasal de oxigênio (que ele não usa há quatro dias, mas continua pendurado no rosto durante a noite), a sonda vesical instalada no segundo dia para controle de diurese, o soro de manutenção a 84 mL por hora, e um comprimido de codeína com paracetamol se dor forte, prescrito no segundo dia por uma dor lombar e checado, pela contagem das iniciais na folha, dezessete vezes em nove dias.

A perda funcional durante a internação merece investigação, não atribuição automática de culpa ou de uma causa única. Rever doença, dor, força, nutrição, medicamentos, imobilidade e barreiras ao movimento. Construir com paciente e equipe um plano progressivo e seguro, observando sintomas e capacidades reais.

03

Quem adoece disso

O intestino é a parte mais fácil de medir, e o número brasileiro é grande. Numa coorte observacional conduzida por Nassar e colaboradores, descrita na revisão de Azevedo e colaboradores na Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 106 pacientes internados por três ou mais dias em terapia intensiva foram acompanhados com uma definição operacional simples — ausência de eliminação de fezes por três dias consecutivos — e a incidência de constipação foi de 69,9%. A enfermaria é menos grave que a terapia intensiva, mas os determinantes são os mesmos, e a consequência prática é a mesma: se sete em cada dez pacientes graves param de evacuar, esperar que o paciente traga a queixa é esperar por algo que, na maioria das vezes, ele não traz. A pergunta sobre a última evacuação pertence ao exame diário, ao lado da ausculta. Interpretar no período, população e denominador estudados; não extrapolar diretamente para qualquer enfermaria atual nem atribuir causalidade à falta de prescrição.

A mesma revisão explica por que isso não vira conduta. Num inquérito enviado a 143 unidades de terapia intensiva, 52% reconheciam a constipação como problema e apenas 3,5% dispunham de protocolo para diagnosticá-la e tratá-la. É a distância entre saber e fazer, e ela tem um efeito previsível na enfermaria: sem protocolo, o intestino do paciente depende de qual interno passou visita naquele dia e de se ele lembrou de perguntar.

Do lado do movimento, o número brasileiro é ainda mais duro. As Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em Unidade de Terapia Intensiva, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira com a Associação Médica Brasileira, abrem registrando que, no Brasil, não mais de 10% dos pacientes críticos são mobilizados para além do leito. Some a isso o que a revisão brasileira sobre declínio funcional em idosos hospitalizados encontrou nos estudos que reuniu: baixos níveis de mobilidade e episódios de repouso absoluto são comuns em idosos internados, e na maior parte dos casos nenhum membro da equipe registrou justificativa para o repouso. A consequência clínica é direta e desconfortável: a intervenção mais barata do hospital é também a menos executada, e a linha que a impede não costuma ter dono. Interpretar no período, população e denominador estudados; não extrapolar diretamente para qualquer enfermaria atual nem atribuir causalidade à falta de prescrição.

O desfecho dessa aritmética aparece meses depois da alta. Na coorte prospectiva multicêntrica brasileira de Dietrich e colaboradores, com 253 idosos acompanhados por seis meses após a alta da terapia intensiva, o índice de Barthel prévio à internação era de 86,5 nos pacientes de 61 a 79 anos e de 73,0 nos de 80 anos ou mais. Três meses depois da alta esses valores estavam em 71,5 e 63,5, e no sexto mês ainda não haviam voltado ao ponto de partida, em 76,2 e 66,6. Aos seis meses, 49,5% dos idosos mais jovens e 69,0% dos mais velhos precisavam de cuidador, e 43,4% e 69,2% não faziam nenhuma atividade física. Traduzido para a beira do leito: metade dos que sobreviveram voltou para casa precisando de alguém, e o diagnóstico que os internou não explica isso sozinho. Interpretar no período, população e denominador estudados; não extrapolar diretamente para qualquer enfermaria atual nem atribuir causalidade à falta de prescrição.

Quem adoece disso é o perfil do senhor Aristides, e ele é o perfil mais comum da enfermaria brasileira: idoso, internado por doença aguda que exigiu repouso no começo, com dor tratada com opioide, com dispositivo que o prende ao leito, comendo menos do que comia em casa, e já na segunda semana de hospital. Vale separar idade de mecanismo: o que a idade faz é reduzir a reserva, e reserva é outra coisa. Um homem de 45 anos em jejum, com sonda e dor mal tratada, também pode perder músculo rapidamente, em velocidade variável; ele apenas tinha mais de onde perder. A pergunta que separa quem vai sair andando de quem vai sair de cadeira é uma só, e é feita todos os dias: quantas vezes este paciente saiu da cama nas últimas vinte e quatro horas, e quem decidiu isso.

04

Por que acontece o que acontece

O músculo esquelético vive num equilíbrio permanente entre síntese e degradação de proteína, e esse equilíbrio é sustentado por carga. Retirada a carga — que é exatamente o que o leito faz —, a síntese cai e a degradação sobe, e o saldo passa a ser negativo todos os dias. A revisão brasileira de Mesquita e Gardenghi descreve as vias: a proteólise corre pelo sistema ubiquitina-proteassomo, com duas enzimas ativadas tanto pela inatividade quanto pela inflamação, a atrogina-1 e a MuRF-1, e a perda recai preferencialmente sobre as fibras de contração rápida, as do tipo 2 — as que geram força explosiva, as que tiram o corpo da cadeira. Não é a musculatura da resistência que some primeiro; é a da potência, e por isso o primeiro sinal não é cansaço ao andar, é dificuldade para levantar.

A doença aguda acelera tudo. A inflamação sistêmica reduz a síntese proteica e aumenta a degradação por conta própria, de modo que o paciente internado por infecção não está apenas sem carga: está sem carga durante uma tempestade catabólica. A mesma revisão registra que pacientes com disfunção de múltiplos órgãos perdem cerca de 15% da massa muscular ao final da primeira semana de internação. Some o jejum de exames, a dieta que ele aceita pela metade e a dor que faz o paciente evitar mover o segmento — e a conta fecha para baixo em todas as parcelas ao mesmo tempo.

Estudos mostram perda precoce de massa e força com repouso e doença crítica, em intensidade variável. A representação de queda composta de 20% por semana serve apenas como exercício matemático: de 100 restariam 80, 64 e 51,2; na terceira semana a perda seria 48,8%, não “mais de metade”. Esses percentuais não predizem capacidade de levantar nem se aplicam igualmente a cada paciente. Medir função e acompanhar sintomas é mais útil do que calcular uma força presumida.

Gráfico matemático compara retirada linear de vinte pontos por semana com retenção de oitenta por cento do valor anterior; na terceira semana, a curva proporcional marca 51,2.
Exemplo estritamente matemático: partindo de 100, a hipótese de perda proporcional de 20% por semana deixa 51,2 na terceira semana e 40,96 na quarta. Esses valores não são uma taxa clínica universal nem uma previsão de perda muscular. O descondicionamento depende de doença, função prévia, idade, nutrição e atividade; a mobilização deve ser individualizada.

Perder músculo, porém, não é o mesmo que perder função, e a segunda perda é mais rápida que a primeira. Sentar sem apoio, levantar da cadeira e dar três passos são tarefas de controle postural: dependem de o sistema nervoso saber onde o corpo está e corrigir o desequilíbrio antes que ele derrube. Deitado, o paciente não pratica isso, e a competência se apaga por desuso mesmo quando ainda há músculo. É por isso que a diretriz brasileira de mobilização precoce não descreve a intervenção como exercício e sim como uma sequência de posições encadeadas — deitado, sentado, transferência de peso na posição sentada para os lados, para a frente, para trás e em rotação de tronco, depois ortostatismo com assistência, depois os primeiros passos. A ordem não é burocracia de fisioterapia: é a ordem em que o controle se reconstrói.

Repouso pode reduzir tolerância ortostática, associado a alterações de volume, reflexos e bomba muscular. Palidez e escurecimento visual ao sentar são sinais de pré-síncope: interromper, proteger e posicionar para recuperação, medindo sinais e avaliando causas. Descondicionamento é uma hipótese, não prova pela melhora ao deitar. Hipovolemia, fármacos, anemia, arritmia e disautonomia podem coexistir; depois de corrigir riscos, retomar progressão assistida.

O intestino sofre a mesma perda de carga por três caminhos que se somam. A atividade física estimula a motilidade colônica, e o repouso a retira; a posição deitada tira do reto o auxílio da gravidade e da prensa abdominal, e a prensa depende de uma musculatura que também está atrofiando; e a inibição voluntária faz o resto, porque evacuar numa comadre, atrás de uma cortina, com outra pessoa no quarto, é algo que a maioria dos pacientes prefere adiar. Adiar a evacuação não é neutro: as fezes retidas no reto continuam perdendo água, endurecem e dessensibilizam a ampola, de modo que a vontade que foi adiada uma vez volta mais fraca na vez seguinte. O Manual de Cuidados Paliativos lista essas causas ambientais lado a lado com as farmacológicas justamente porque, em volume, elas pesam tanto quanto.

Sobre esse fundo o hospital empilha o resto: o opioide, que reduz a peristalse propulsiva, aumenta a absorção de água e apaga o reflexo evacuatório enquanto durar; a desidratação de quem bebe menos e recebe hidratação calculada para outra coisa; a dieta sem resíduo; o jejum para exames; o ferro; o anticolinérgico. Quando esse conjunto trabalha por dias, a constipação deixa de ser um sintoma e vira uma rolha: uma massa endurecida no reto ou no sigmoide que o próprio peristaltismo não vence, e que passa a se comportar como obstáculo mecânico. É aí que o quadro muda de categoria — o líquido produzido acima escorre pela periferia da massa e sai como fezes líquidas, a distensão sobe, e o paciente que não evacua há uma semana aparece na folha de enfermagem com a palavra diarreia.

Há, por fim, um quadro vizinho que precisa ficar separado desde já, porque a conduta é outra: a síndrome de Ogilvie, ou pseudo-obstrução colônica aguda. Nela não há rolha nem obstáculo mecânico; há desequilíbrio autonômico, com supressão parassimpática e predomínio simpático, que deixa o cólon distal atônico enquanto o proximal continua funcionando, e o resultado é dilatação importante do ceco e do cólon direito sem obstrução. A revisão brasileira registra o quadro clínico com distensão em praticamente todos os casos, dor em cerca de 80% e náusea ou vômito em 60%, com eliminação de flatos ou fezes ainda presente em 40% — o que é a armadilha, porque o paciente que solta flatos não parece obstruído. Instala-se em três a sete dias, às vezes em 24 horas, e distúrbio eletrolítico é gatilho frequente, com destaque para hipocalemia, hipocalcemia e hipomagnesemia. A distinção importa porque desimpactar não resolve Ogilvie, e porque a complicação temida é perfuração do ceco, com mortalidade que pode ultrapassar 50%.

05

Como se apresenta de verdade

O imobilismo tem uma característica que o torna difícil de enxergar: ele não produz sintoma novo, produz ausência. O paciente não se queixa de que perdeu força, porque deitado ele não precisa dela; não se queixa de que não evacua, porque come pouco e acha natural; não se queixa de tontura, porque não fica em pé. Todos os achados deste capítulo só aparecem quando alguém pede que o paciente faça algo — e a maior parte da visita acontece com ele deitado.

As seções abaixo percorrem o espectro na ordem em que ele se revela na enfermaria: primeiro a perda de função, que é a apresentação principal; depois as duas cenas agudas que ela produz na primeira saída do leito; depois o intestino, do silêncio à impactação com as suas quatro máscaras; e por fim o que o repouso quebra fora do músculo e do intestino, e o que muda em quem não é o idoso do caso.

Percurso de aprendizagem

Comparar tarefas atuais com o basal e investigar o que limita atividade. Sintomas ao mobilizar exigem avaliação; metas e dose dependem de tolerância, assistência e objetivos.

Avaliar evacuação com frequência, consistência e sintomas. Entender alcance e limites do toque e dos ruídos/flatos, decidir imagem e evitar laxante em obstrução suspeita.

Escolher desimpactação, manutenção e escalada segundo o quadro, conferindo apresentações. Planejar alta com apoio funcional, sinais de alarme e acompanhamento.

O paciente que entra andando e sai de cadeira

É a apresentação central e a menos registrada. O paciente é internado por uma doença que a equipe trata bem, melhora dessa doença, e recebe alta com uma capacidade funcional que não tem nada a ver com a que tinha na entrada. Não há um dia em que isso aconteceu, não há uma intercorrência para citar na evolução, e por isso o quadro raramente entra no resumo de alta. Entra na vida da família, que descobre em casa que o pai não sobe mais a escada.

O achado que denuncia é sempre comparativo, e por isso depende de uma linha de base que só existe se alguém a tiver colhido na admissão: o que este paciente fazia sozinho há duas semanas. Andava até onde? Subia escada? Tomava banho sem ajuda? Cozinhava? Sem essa linha de base, a fraqueza do nono dia parece o estado natural de um idoso de 79 anos, e ninguém a estranha. Com ela, a diferença salta: o senhor Aristides ia à padaria e subia um lance de escada; hoje não senta sozinho na beira da cama.

Estudos que acompanham função por alguns meses descrevem o que foi observado nesse período; não demonstram que a recuperação necessariamente terminou na última visita. Avaliar trajetória individual, reabilitação e suporte após a alta, com metas realistas e reavaliação.

Duas leituras erradas atrapalham na beira do leito. A primeira é atribuir a perda à gravidade da doença, como se fosse inevitável; parte é, mas a parte que vem do tempo deitado não é, e é justamente a parte que a equipe controla. A segunda é atribuir à idade. Idade reduz reserva, e reserva menor significa que a mesma perda absoluta cruza antes o limiar de não conseguir levantar da cadeira — mas a velocidade de perda é do repouso, não do aniversário.

A primeira vez que ele senta: a cena que a equipe interpreta ao contrário

Duas coisas acontecem quando um paciente que passou dias deitado é colocado sentado, e as duas assustam quem está do lado. A primeira é a hipotensão postural: palidez, escurecimento visual, sudorese, tontura, às vezes náusea, instalando-se em segundos e cedendo quando ele volta a deitar. A segunda é a fraqueza de tronco: ele não cai para trás por falta de força de braço, escorrega para o lado por falta de controle postural, e a impressão é de que ficou subitamente pior.

Ao surgir tontura/palidez, interromper a tentativa e proteger contra queda. Avaliar sinais, duração, medicamentos e outras causas, sem afirmar que o episódio é esperado ou inofensivo. A avaliação não obriga repouso pelo dia inteiro: após esclarecer e corrigir riscos, definir uma etapa menor, com assistência e reavaliação.

Sinais em repouso não excluem hipotensão ao sentar nem outras causas de pré-síncope. Medir resposta quando seguro, comparar sintomas e basal e definir apoio. Não forçar ortostatismo se não sustenta tronco ou está sintomático. O alvo é atividade segura e progressiva, com fisioterapia e equipe, não completar uma sequência a qualquer custo.

Melhorar ao deitar apoia intolerância postural, mas não determina etiologia nem garante ausência de risco. Investigar desde o episódio conforme apresentação; hipotensão persistente, dor torácica, déficit, dispneia ou alteração de consciência exigem avaliação urgente. Retomar mobilização individualmente após estabilização e definição das causas relevantes.

O intestino que para sem que ninguém pergunte

A forma mais comum da constipação hospitalar não tem apresentação: tem silêncio. O paciente não traz a queixa por três razões que se somam. Ele come pouco e acha razoável não evacuar; tem vergonha de pedir comadre; e já pediu uma vez, esperou, e desistiu. Ninguém pergunta porque a última evacuação não faz parte da lista mental do exame, e o registro de enfermagem, quando existe, marca presença ou ausência sem consistência — o que torna impossível distinguir uma evacuação satisfatória de um escape líquido.

Quando aparece sintoma, ele é inespecífico e costuma ser atribuído a outra coisa. Desconforto abdominal difuso, plenitude, saciedade precoce, náusea sem vômito, flatulência dolorosa, esforço evacuatório improdutivo e a sensação de evacuação incompleta. Os critérios de Roma III, que o Manual de Cuidados Paliativos reproduz para constipação crônica, exigem meses de sintomas e por isso não servem para o paciente que internou há nove dias — a definição útil no hospital é operacional e é a que a coorte brasileira usou: ausência de evacuação por três dias consecutivos, contada a partir de um dado que precisa estar escrito.

Há uma armadilha de referência que aparece toda semana. Três evacuações por semana pode ser o hábito normal de um paciente, e uma por dia pode ser pouco para outro. Sem o hábito prévio anotado, a equipe compara o paciente com uma média imaginária e erra nos dois sentidos: trata quem está no próprio ritmo e deixa passar quem caiu para metade do dele. A pergunta de admissão que resolve isso cabe em uma linha, e é a mesma que se faz sobre o cigarro: quantas vezes por semana o senhor evacuava em casa, e como eram as fezes.

Vale dizer o que este capítulo não cobre, para não haver dúvida sobre onde procurar. Como se escreve a linha do laxante na folha — se de horário ou condicional, com que gatilho verificável, e o que fazer com a prescrição vaga que a enfermagem não pode aviar — é assunto do capítulo sobre o se necessário da madrugada, nesta mesma apostila. A escada analgésica, a titulação e o rodízio de opioide são do capítulo de analgesia. Aqui trata-se da constipação como síndrome do paciente internado: por que ela se instala, como ela se disfarça, o que confirma o diagnóstico e o que fazer quando a primeira escolha não funciona.

Impactação fecal e as suas quatro máscaras

Impactação fecal pode ser distal ou mais proximal. O toque ajuda a identificar fezes na ampola, mas um exame vazio não exclui o diagnóstico. Escolher tratamento pelo local provável, sintomas, segurança e possibilidade de obstrução.

Escape líquido após dias sem evacuar levanta hipótese de transbordamento, mas laxantes e infecção também podem explicar diarreia. Avaliar quantidade, consistência, sintomas, medicamentos e exame; toque quando indicado e imagem se necessário. Não tratar todo líquido como melhora, nem toda diarreia como fecaloma, nem manter laxante automaticamente apesar de desidratação.

Constipação ou retenção podem contribuir para desconforto e delirium, mas a relação não é automática e a melhora cognitiva pode não ocorrer em minutos após evacuar. Investigar outras causas e acompanhar resposta sem prometer resolução imediata.

A terceira é a retenção urinária. A massa fecal no reto ocupa espaço em uma pelve que não tem folga e comprime a uretra posterior e o colo vesical, sobretudo no homem que já tinha próstata aumentada. O paciente aparece com globo vesical, recebe cateterismo de alívio, alivia — e volta a reter em algumas horas, porque a causa continua no reto. Sonda de demora colocada nesse cenário resolve o sintoma e mantém o problema, com o custo adicional de prender o paciente ao leito, que é o mecanismo que gerou o quadro.

A quarta é a distensão que imita abdome agudo. Abdome globoso, timpânico, doloroso à palpação profunda, com parada de eliminação de fezes, náusea e vômito — e a suspeita cirúrgica está montada. A separação começa no exame: fecaloma dá massa palpável no trajeto colônico, ampola cheia ao toque, ausência de sinais de irritação peritoneal e ruídos hidroaéreos presentes, ainda que reduzidos. Obstrução mecânica dá ruídos de luta ou ausentes, dor em cólica e ampola tipicamente vazia. Ogilvie dá distensão desproporcional com eliminação de flatos ainda presente em cerca de 40% dos casos e ampola vazia. As três pedem condutas diferentes e, nas três, o toque retal é o exame que dá a primeira resposta.

O que o repouso quebra fora do músculo e do intestino

Imobilidade pode prejudicar ventilação e favorecer complicações, mas dispneia ou dessaturação novas exigem avaliação clínica, oxigênio e suporte quando indicados. Reposicionar e mobilizar fazem parte do plano quando seguros; não substituem investigação de embolia, edema, infecção ou falência ventilatória.

A bexiga vem em seguida, e por dois caminhos. Deitado, o paciente esvazia mal, e a solução institucional é frequentemente a sonda vesical de demora — que resolve o registro de diurese, produz infecção e, sobretudo, funciona como uma corda que amarra o paciente à cama. Cada dispositivo tem esse custo oculto e ele precisa entrar na conta: soro, cateter de oxigênio, dreno, monitor e sonda são todos argumentos silenciosos para não levantar. A pergunta que se faz de cada um, todo dia, é se ele ainda é necessário — e a resposta muda mais rápido do que a prescrição copiada.

Hipercalcemia pode ocorrer com imobilização prolongada em contextos específicos, mas não aparece em todo adulto restrito ao leito. Se houver cálcio alto, confirmar e investigar causas frequentes e medicações; não atribuir automaticamente ao repouso.

Hiperglicemia durante internação pode envolver estresse, diabetes, corticoides, nutrição e menor atividade. Não é prova de que a imobilidade seja a causa principal. Rever glicemias, tratamento, dieta e doença de base; mobilização segura é um componente do cuidado.

Imobilidade contribui ao risco tromboembólico, junto de fatores como câncer, história de trombose e doença aguda. Usar avaliação validada e risco de sangramento para definir profilaxia. O peso de cada fator depende do instrumento; não afirmar que repouso é sempre o item de maior pontuação.

Quando o paciente não é o idoso do caso

No adulto jovem, o desfecho é o mesmo com outro relógio. A perda de massa e força também pode acontecer rapidamente, em velocidade variável — a inflamação e a descarga mecânica não perguntam a idade —, mas a reserva é maior, de modo que ele cruza mais tarde o limiar de incapacidade e recupera mais depressa depois. O erro característico nesse paciente é o oposto do erro no idoso: ninguém se preocupa, porque ele parece forte, e ele passa duas semanas deitado sem que a palavra mobilização apareça na prescrição. O sinal a procurar não é a queixa, é a comparação com a função de antes.

No paciente com sequela neurológica prévia, acidente vascular cerebral, doença de Parkinson ou demência, o repouso encontra um sistema que já tinha pouca margem, e a perda é mais rápida e menos reversível. Aqui a meta funcional precisa ser definida com a família na admissão e escrita: voltar a andar com andador, voltar a sentar na poltrona, voltar a transferir-se da cama para a cadeira com uma pessoa. Sem meta escrita, a equipe adota implicitamente a meta do diagnóstico agudo — tratar a pneumonia — e a função sai de foco.

Em paciente com obesidade, considerar capacidade funcional, comorbidades, mecânica respiratória, risco cutâneo e necessidades de equipamento/assistência. As dificuldades não são apenas logísticas; adaptar o plano com equipe e recursos apropriados, evitando pressupor incapacidade pelo peso.

Cuidados paliativos não contraindicam toda mobilização. Definir objetivos com paciente e equipe: conforto, transferência, autonomia possível, prevenção de dor e participação em atividades significativas. Na morte ativa, esforço ou rotina rígida podem acrescentar sofrimento; posicionamento e movimento tolerados continuam podendo beneficiar. Registrar metas, preferências e limites, sem transformar “doença terminal” em ordem de repouso absoluto.

Recuperar função e tratar constipação: uma discussão clínica acompanhada

O primeiro passo para reconhecer perda funcional é descobrir o que a pessoa fazia antes da doença. Pergunte como saía da cama, tomava banho, usava o banheiro, caminhava dentro de casa e realizava atividades fora dela. Esclareça se precisava de apoio, equipamento ou supervisão e se houve mudança recente antes da admissão. Independência não é uma característica única: alguém pode alimentar-se sozinho e precisar de ajuda para transferir-se. Essa descrição permite construir metas proporcionais e evita classificar como nova uma limitação antiga ou deixar de perceber uma perda importante porque o paciente ainda consegue executar uma tarefa.

A função atual deve ser observada com segurança, e não apenas perguntada. Antes de pedir que se levante, confira estado clínico, sintomas, lesões, dispositivos e assistência necessária. Observe como inicia o movimento, mantém equilíbrio e expressa desconforto. Um teste interrompido por tontura não deve ser interpretado simplesmente como falta de força ou pouca vontade. Registre por que foi interrompido e o que será avaliado. O objetivo da primeira tentativa pode ser apenas compreender a limitação, não cumprir a meta de sentar ou caminhar naquele momento. A avaliação precisa ser adaptada ao paciente e ao ambiente.

Na cena de Aristides, palidez e escurecimento visual ao sentar são dados novos que mudam a prioridade. Apoiar e reposicionar de modo seguro, avaliar pressão, pulso, consciência e outros sinais e chamar o responsável conforme gravidade vêm antes de insistir na mobilização. Há possibilidade de intolerância ortostática, mas também de outras causas que o exame e o contexto precisam esclarecer. A resposta a deitar novamente oferece informação sem confirmar toda a etiologia. Depois de avaliar o episódio, a equipe pode reformular a tentativa, com ritmo, assistência e monitorização adequados. O plano funcional continua, agora orientado pela informação clínica.

Atribuir a fraqueza ao repouso é uma hipótese que precisa conviver com diferenciais. Dor, anemia, infecção, insuficiência cardíaca, efeitos de medicamentos, desnutrição, distúrbios eletrolíticos e doença neurológica podem contribuir. Novo déficit focal ou assimetria não deve ser explicado por descondicionamento antes de avaliação própria. A cronologia ajuda: o paciente já vinha perdendo capacidade, piorou subitamente ou apresentou declínio progressivo durante a internação? Essas trajetórias sugerem perguntas diferentes. O interno deve apresentar os dados ao supervisor, reconhecendo o que sabe e o que ainda precisa investigar, sem usar uma porcentagem teórica de perda muscular como diagnóstico.

Um plano de mobilização precisa indicar tarefa e nível de assistência. Escrever apenas sair do leito não esclarece se o paciente pode sentar sozinho, transferir com uma pessoa, usar andador ou caminhar com supervisão. Discutir com fisioterapia e enfermagem permite definir o que é factível e seguro. O plano deve ser atualizado se ocorrerem dor, instabilidade ou melhora. Equipamentos e número de profissionais podem mudar conforme a tarefa. Não se espera que o acompanhante improvise uma transferência para cumprir uma orientação vaga. A autonomia das diferentes profissões deve ser respeitada, com comunicação sobre riscos e objetivos compartilhados.

A progressão deve responder à tolerância. Uma pessoa pode conseguir sentar por alguns minutos com conforto e ainda não tolerar caminhar; outra pode caminhar pouco, mas cansar excessivamente depois. Observe sintomas durante e após a atividade e pergunte como ela se recuperou. Aumentar intensidade apenas porque um dia passou não é progressão clínica. Por outro lado, manter sempre a mesma restrição após melhora também pode limitar recuperação. Defina uma meta próxima, verificável e relevante para o paciente, como transferir para a cadeira com menos ajuda ou chegar ao banheiro com apoio, em vez de um número arbitrário de exercícios.

Dispositivos não devem ser tratados como motivo automático de repouso. Verifique se ainda têm indicação e quais cuidados permitem movimentação com eles. Uma sonda, um dreno ou uma bomba pode exigir organização de linhas e apoio, sem impedir toda atividade. Quando a indicação é incerta, esclarecer antes de retirar. A ausência de uma justificativa escrita não comprova que o dispositivo seja desnecessário, mas é uma pendência que precisa ser resolvida. Planejar antecipadamente evita tração, desconexão e medo de mobilizar. Depois da atividade, conferir posição e funcionamento faz parte da avaliação de segurança.

Dor deve ser abordada de modo a permitir participação sem sedação excessiva. Pergunte onde dói, em que movimento e com que intensidade e avalie se há causa nova ou lesão não reconhecida. O horário da analgesia pode ser coordenado com os cuidados, preservando indicação e monitorização. Medicação que alivia em repouso pode não ser suficiente para uma tarefa específica; isso merece discussão e ajuste, não julgamento sobre esforço. Ao mesmo tempo, tontura ou sonolência após analgesia podem aumentar risco. Registrar resposta funcional e efeitos adversos ajuda a selecionar o melhor plano para as próximas tentativas.

Nutrição e movimento precisam ser integrados. Observe o que chega à bandeja e o que é realmente ingerido, incluindo dificuldade de engolir, mastigar, abrir embalagens ou permanecer bem posicionado. Jejuns repetidos e sintomas podem reduzir a oferta mesmo quando a dieta está prescrita. Converse com nutrição e equipe para adequar o plano e acompanhar a resposta. Peso isolado não revela composição corporal nem explica toda perda de força. Se houver risco de realimentação, a progressão nutricional e os eletrólitos exigem atenção própria. Mobilização segura continua útil, mas não substitui a correção de problemas nutricionais e clínicos.

A prevenção de queda deve apoiar a função, não transformar o leito no único lugar permitido. Verifique iluminação, calçado, campainha, trajeto e disponibilidade de ajuda. Pergunte ao paciente o que o faz levantar sozinho e combine uma alternativa prática. Restrições vagas podem ser interpretadas de maneira diferente por cada plantão, criando tanto risco quanto imobilidade desnecessária. Explique o plano e confira compreensão, incluindo o acompanhante quando pertinente. Após uma mudança de medicamento ou um episódio de tontura, reavaliar o nível de assistência pode ser necessário. O objetivo é permitir a atividade que importa com proteção proporcional à condição atual.

Constipação deve ser descrita além do número de dias. Pergunte hábito prévio, consistência, esforço, dor, sensação de evacuação incompleta, necessidade de manobras e uso habitual de laxantes. Uma evacuação pequena pode não resolver retenção, enquanto um intervalo de poucos dias pode ser habitual para outra pessoa sem desconforto. Avalie mudança em relação ao padrão e o contexto clínico. O registro precisa permitir comparação: data, aspecto, quantidade aproximada e sintomas. Um campo marcado como evacuou não demonstra que o problema acabou. Essa descrição também ajuda a evitar repetição ou escalada de tratamento sem saber qual resposta já ocorreu.

Diante de distensão, procure sinais que mudam a urgência. Dor importante ou progressiva, vômitos, defesa, sinais sistêmicos, sangramento e piora clínica podem exigir investigação de obstrução ou outra complicação. Ausculta e percussão contribuem, mas nenhum achado isolado confirma fecaloma. A eliminação de gases é uma informação, sem excluir obstrução parcial. A equipe precisa decidir se é seguro iniciar ou manter laxantes e se há necessidade de imagem ou avaliação especializada. Não deixe o calendário de evacuação funcionar como autorização para esperar quando o quadro está piorando, nem como única indicação de intervenção invasiva.

O toque retal é um exame dirigido, com indicação, explicação e consentimento. Pode identificar fezes impactadas distalmente e outras alterações, mas precisa ser realizado de modo seguro e respeitoso, considerando dor, lesões locais, neutropenia e outros riscos. Não deve ser imposto como etapa obrigatória para qualquer pessoa antes de receber um laxante. Também não é um teste que encerra toda a investigação: ampola vazia não exclui retenção proximal ou obstrução. Ao apresentar o resultado, descreva o achado e seus limites. Se os sintomas continuam preocupantes, a avaliação deve prosseguir por outras vias.

Fezes líquidas após vários dias sem evacuar criam uma dúvida clínica frequente. Pode haver transbordamento ao redor de fezes retidas, mas também efeito do próprio tratamento, infecção ou outra causa de diarreia. Reconstituir cronologia, medicamentos, volume e sintomas ajuda a decidir. Não iniciar antidiarreico automaticamente nem assumir que a diarreia prova fecaloma. O exame e a necessidade de testes dependem do contexto. Se houve intervenção recente, considerar o efeito esperado e possíveis complicações. Registrar a incerteza permite que a próxima equipe acompanhe a resposta sem perpetuar um rótulo que ainda não foi demonstrado.

Escolher um laxante exige saber qual problema se pretende resolver e se a via é viável. Avalie ingestão, deglutição, náusea, distensão e possibilidade de absorção, além de medicamentos que contribuem. Dose inicial, tempo de resposta esperado e critério de reavaliação devem ser claros. Sem esse plano, cada plantão pode acrescentar uma nova medida antes de observar o efeito da anterior. A resposta desejada é evacuação confortável e adequada ao paciente, não obrigatoriamente múltiplas evacuações diárias. Diarreia, dor ou perda de líquidos depois do tratamento exigem revisão, em vez de serem aceitas automaticamente como sinal de sucesso.

Intervenções retais também precisam de diagnóstico e prescrição específicos. O nome enema não informa composição, concentração ou volume, e diferentes produtos têm riscos distintos. Conferir a apresentação é particularmente importante em doença renal, cardiopatia e alterações eletrolíticas. Impactação distal pode exigir uma estratégia diferente da retenção proximal. Não forçar uma administração dolorosa nem escolher um volume apenas porque havia material disponível. Se houver indicação de desimpactação manual, ela requer profissional habilitado, cuidado com dor e resposta vagal e critérios de interrupção. O paciente deve saber o que será feito e como avisar desconforto ou piora.

Na suspeita de pseudo-obstrução, o diagnóstico depende de excluir causas mecânicas e avaliar gravidade. Distensão importante em paciente clinicamente pouco queixoso ainda pode exigir atenção; ausência de dor intensa não garante benignidade. Rever fármacos, eletrólitos, condições precipitantes e imagens com a equipe. O tratamento conservador precisa de acompanhamento e critérios para escalonar, não apenas uma ordem de aguardar dois dias. Se houver piora ou sinais de isquemia/perfuração, a estratégia muda imediatamente. A decisão sobre neostigmina ou descompressão pertence a um manejo organizado, com avaliação de contraindicações e recursos para responder a complicações.

A neostigmina não é apenas mais uma dose de laxante. Quando indicada para pseudo-obstrução selecionada, exige ambiente e monitorização apropriados, profissional responsável e preparo para eventos como bradicardia e broncoespasmo. A presença de doença pulmonar pede avaliação específica da condição atual; um rótulo de DPOC não responde sozinho se há broncoespasmo ativo. O interno deve compreender por que foram excluídas certas hipóteses e quais condições de segurança precisam estar presentes. Não memorizar o fármaco como próximo passo obrigatório de todo abdome distendido após quarenta e oito horas sem evacuar.

Hidratação deve corresponder à necessidade e tolerância. Constipação em uma pessoa com baixa ingestão pode melhorar com correção dessa limitação, mas oferecer litros a um paciente congestionado não é intervenção inofensiva. Considerar toda a oferta e as perdas e revisar o estado volêmico. Da mesma forma, fibra pode ajudar em alguns contextos e ser inadequada quando há impactação, obstrução suspeita ou incapacidade de ingerir líquidos de modo seguro. A orientação depende do diagnóstico e da fase do cuidado. O plano da enfermaria não deve ser copiado integralmente de recomendações gerais para uma pessoa estável em casa.

A relação entre intestino, retenção urinária e delirium deve ser investigada sem causalidade automática. Desconforto e distensão podem contribuir, e o exame pode revelar um fator tratável. Entretanto, uma pessoa confusa com retenção fecal pode ter simultaneamente infecção, hipóxia ou efeito de medicamentos. Após evacuar, reavaliar atenção, dor, abdome e função urinária. Melhora ajuda a entender a contribuição, sem provar que era a única causa. Ausência de melhora imediata não significa que tratar a constipação foi inútil; exige continuar a busca e o acompanhamento. A avaliação clínica se desenvolve pela resposta do conjunto.

Considere um caso em que a pessoa evacua após tratamento, mas continua sem conseguir transferir para a cadeira. O problema intestinal e a perda funcional podem compartilhar fatores, porém não são equivalentes. Reavalie força, equilíbrio, dor, nutrição e sintomas de intolerância ao esforço. Se a barriga melhora e a tontura permanece, não insistir na mesma explicação. Esse contraste ensina a evitar fechamento prematuro: resolver um achado importante não encerra todas as hipóteses. Ao supervisor, apresente separadamente o que melhorou, o que persiste e qual é a próxima pergunta clínica, com medidas concretas de segurança e acompanhamento.

A conversa com a família deve reconhecer preocupação sem transferir toda a responsabilidade da recuperação. Explique capacidades atuais, dificuldades e metas próximas, perguntando o que eles observam e conseguem apoiar. Demonstração prática de uma transferência segura, quando feita pela equipe habilitada, pode ser mais útil que uma orientação genérica para estimular movimento. Não pedir que um cuidador realize sozinho uma tarefa para a qual não tem condições. No intestino, explique esquema, limite de ajuste e sinais de alerta. A família precisa saber quando chamar a equipe e não apenas receber uma lista de exercícios ou laxantes.

Na alta, descreva função e cuidado intestinal em termos executáveis. Informe nível de ajuda para andar e usar o banheiro, equipamentos, encaminhamentos e metas de reavaliação. Registre o esquema de laxante se ainda indicado, o que foi suspenso, como observar resposta e quando procurar orientação. Confirme acesso aos recursos e adequação do domicílio, sem presumir que um familiar estará disponível em todos os horários. Persistência de perda funcional pode exigir continuidade de reabilitação, e sintomas intestinais podem precisar de investigação adicional. A alta da doença inicial não equivale a conclusão de todo o cuidado.

Um exercício com o supervisor é revisar três dias consecutivos de evolução. Compare não apenas sinais e exames, mas transferências, marcha, ingestão, evacuação, sintomas e assistência. Pergunte se cada mudança de prescrição respondeu a um achado ou se foi copiada por rotina. Identifique uma intervenção que perdeu indicação e outra que não foi executada por barreira prática. Esse olhar ajuda a descobrir por que o plano não produziu o resultado esperado sem culpar o paciente. A análise deve terminar com uma decisão concreta, um responsável e um momento para conferir a resposta.

Aprender com esse capítulo significa conseguir justificar quando mobilizar, quando interromper e como retomar, além de escolher um tratamento intestinal conforme diagnóstico e riscos. Não basta repetir que repouso faz mal ou que três dias sem evacuar pedem laxante. É necessário integrar doença, função, preferência e recursos e acompanhar o efeito real das medidas. O interno desenvolve essa competência ao observar, apresentar hipóteses, pedir supervisão e retornar ao leito. A comparação entre plano e resposta transforma uma recomendação geral em cuidado individual, mantendo a atenção às complicações e à continuidade depois da internação.

Uma meta escolhida com o paciente

Pergunte qual atividade faria mais diferença naquele dia. Para uma pessoa, pode ser comer sentada; para outra, usar o banheiro com privacidade ou alcançar uma cadeira perto da janela. Transformar essa preferência em uma tarefa segura ajuda a definir esforço e assistência necessários. A meta não substitui a avaliação clínica, mas dá sentido ao plano e permite medir um resultado que o paciente reconhece.

Se a tarefa não foi possível, explique o motivo e combine uma alternativa. Dor, tontura, fadiga ou falta de equipamento exigem respostas diferentes. Documentar essa barreira permite que a próxima equipe trabalhe sobre ela, em vez de repetir uma ordem que já se mostrou inviável ou concluir que o paciente não colaborou.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é um capítulo em que quase nada se resolve pedindo exame. A investigação do imobilismo é feita com um pedido — sente, levante, ande — e a da constipação é feita com uma pergunta e uma luva. O erro do interno aqui não é pedir o exame errado: é passar nove dias sem pedir que o paciente faça nada e sem tocar o abdome com a intenção de encontrar fezes.

Três perguntas organizam o bloco, e elas se respondem nesta ordem, todos os dias. Este paciente ainda faz o que fazia? Se não faz, o que está impedindo? E este intestino funcionou nas últimas quarenta e oito horas? As duas primeiras se respondem na visita; a terceira depende de um registro que precisa existir. Exame de imagem entra em duas situações estreitas, descritas adiante, e laboratório entra em uma.

Primeiro: medir a mobilidade, e não perguntar se ele anda

O relato do paciente e de quem o conhece ajuda a reconstruir função basal e mudança. Exame, observação e medidas funcionais complementam essa informação. Não desconsiderar a experiência do paciente nem concluir capacidade apenas porque ele disse que consegue ou porque uma tarefa isolada foi executada.

Avaliar força, equilíbrio, transferências, marcha e sintomas de modo seguro, com ajuda apropriada. Novo déficit focal, assimetria ou alteração neurológica exige exame e investigação próprios; um teste de tronco não substitui avaliação neurológica quando indicada. Interromper diante de sinais de instabilidade.

Perda funcional iniciada no hospital pode estar associada à doença, repouso, medicamentos, nutrição e complicações. A relação temporal não prova iatrogenia nem identifica uma única causa. Comparar com a basal e discutir mecanismos tratáveis e metas de recuperação.

Avaliar com apoio e equipamento apropriados, respeitando segurança e sintomas. Alterações podem impedir determinada tarefa, mas ainda permitem observação funcional ou mobilização adaptada. Não levantar alguém com pré-síncope apenas porque sinais deitado eram aceitáveis; investigar mudança e pactuar retomada segura.

Segundo: por que ele não está andando — o inventário das amarras

Quando o paciente não sai da cama, a causa quase nunca é uma só, e quase nunca é a que está escrita. O exercício útil é inventariar o que o prende, item por item, olhando para o leito e para a folha ao mesmo tempo. São cinco famílias, e todas têm conduta.

Conferir indicações e riscos dos dispositivos com a equipe, retirando os desnecessários. Se a justificativa não aparece no registro, esclarecer antes de agir. Quando ainda necessários, organizar mobilização com o dispositivo e assistência segura em vez de prescrever repouso por conveniência.

A necessidade de sonda vesical depende de indicação clínica atual, como retenção selecionada ou mensuração rigorosa em contexto específico. Ausência de micção após retirada exige avaliar sintomas, tempo e volume vesical. Retirar dispositivo sem plano e manter indefinidamente são extremos que devem ser evitados.

A terceira é a dor. Dor não tratada é a causa mais frequente de recusa a mobilizar e a que a equipe menos investiga, porque o paciente idoso costuma dizer que está suportável quando perguntado de forma aberta. A dor precisa ser medida em duas condições, em repouso e na mobilização, porque é o segundo número que decide se ele vai conseguir sentar — o manejo dela é assunto do capítulo de analgesia, e o que pertence a este é a consequência: analgesia insuficiente é causa de imobilismo, e imobilismo é causa de mais dor.

A quarta é o medo, do paciente e da família — medo de cair, de arrancar o acesso, de piorar. É legítimo, e responde a explicação e a companhia, não a insistência. A quinta é a organização: falta de gente para a transferência, falta de andador, poltrona ocupada, horário de fisioterapia que não coincide com o horário em que o paciente está desperto e sem dor. Esta última não é desculpa para não prescrever; é o que precisa estar escrito no pedido, com número de pessoas e horário, para que alguém possa resolver.

Terceiro: o abdome e o toque retal — o que cada um decide

Examinar distensão, dor, defesa, ruídos, hérnias e sinais de peritonite ou obstrução. Achados isolados de percussão ou ausculta não diagnosticam fecaloma. Usar exame retal quando indicado e seguro e imagem quando a pergunta clínica exigir.

Toque retal identifica fezes endurecidas no alcance, tônus, sangue e lesões e pode orientar intervenção. Ampola vazia não exclui impactação proximal. Não é obrigatório antes de toda dose de laxante, sobretudo na prevenção ou constipação simples sem sinais de impactação. Distensão importante ou quadro atípico pode exigir imagem mesmo com fezes no reto.

O toque responde ainda a três coisas de graça, e por isso vale o desconforto: o tônus do esfíncter, a presença de sangue ou melena na luva, e a existência de fissura, hemorroida trombosada ou massa retal que explique a dor à evacuação e a inibição voluntária. É um exame com consentimento, com privacidade, com luva lubrificada e com explicação prévia — e é um exame que se registra na evolução com o achado, não apenas com a palavra realizado.

Considerar toque retal diante de suspeita de impactação distal ou outras indicações, com explicação, consentimento e cuidado. Avaliar contraindicações e não exigir o procedimento por um número fixo de dias para todo paciente. Ampola vazia não encerra a investigação se sintomas sugerem retenção proximal ou obstrução.

Quarto: a radiografia de abdome — o que ela responde e o que não

A radiografia simples de abdome tem, aqui, duas indicações precisas e um uso abusivo. A primeira indicação é a suspeita de fecaloma com toque duvidoso ou com ampola vazia — o Manual de Cuidados Paliativos aponta que, na suspeita de diarreia paradoxal, uma radiografia simples ajuda a identificar o fecaloma. Ela mostra a carga fecal e a sua distribuição pelo cólon, o que o toque não alcança acima do reto.

Radiografia pode mostrar distribuição e calibre da dilatação, mas não exclui causa mecânica nem complicações sozinha. TC, conforme contexto e estabilidade, avalia transição, etiologia, parede, isquemia e perfuração. Em suspeita relevante, não atrasar TC indicada apenas para cumprir sequência de radiografia primeiro.

O uso abusivo é a radiografia pedida no lugar do toque, e ele custa duas coisas. Custa tempo — o resultado chega horas depois de uma resposta que a luva daria em trinta segundos — e custa precisão, porque carga fecal na radiografia é achado frequente e inespecífico, presente em muito paciente que evacua normalmente. Radiografia não faz o diagnóstico de constipação; ela localiza a carga em quem já tem o diagnóstico clínico e ajuda quando o exame físico não conclui.

Sobre laboratório, a lista útil é curta e existe por um motivo específico: eletrólitos. A revisão brasileira aponta hipocalemia, hipocalcemia e hipomagnesemia entre os gatilhos da pseudo-obstrução colônica, e são também causas de íleo adinâmico. Em paciente com distensão e parada de eliminações, pedir potássio, cálcio e magnésio muda conduta, porque corrigir o distúrbio é parte do tratamento. Função tireoidiana entra apenas quando há outras pistas de hipotireoidismo; hemograma e proteína C reativa não fazem diagnóstico de constipação e não devem ser pedidos com essa finalidade.

Quinto: o diferencial que decide a conduta, feito com as mãos

História, exame e testes dirigidos distinguem constipação, impactação, íleo, obstrução e pseudo-obstrução. Os achados se sobrepõem, especialmente em idosos; ruídos presentes, flatos ou ausência de cólica não dispensam investigação quando há dilatação importante ou piora. Evitar atrasar avaliação cirúrgica por um rótulo de constipação.

Constipação simples: dias sem evacuar, desconforto difuso, abdome pouco ou moderadamente distendido, ruídos presentes, sem vômito, ampola com fezes de consistência endurecida mas não impactada, e o paciente segue eliminando flatos. É o quadro do senhor Aristides até o sexto dia, e a conduta é escalada laxativa com medidas não farmacológicas.

Impactação fecal: reto preenchido com fezes endurecidas e massa palpável no trajeto colônico, esforço improdutivo, às vezes escape líquido, às vezes retenção urinária ou confusão. Ruídos presentes. Conduta: começa por via retal, e só depois o oral. É o exame que faz o diagnóstico, e ele é o toque.

Íleo adinâmico: distensão difusa com ruídos diminuídos ou ausentes, vômito frequente, ampola tipicamente vazia, e um gatilho identificável — pós-operatório, distúrbio eletrolítico, opioide em dose alta, infecção intra-abdominal, pancreatite. Conduta: tratar o gatilho, corrigir eletrólitos, suspender ou reduzir o que paralisa, e não forçar laxante estimulante.

Obstrução mecânica pode ser completa ou parcial. Ausência de gases e fezes aumenta suspeita em contexto compatível, mas sua eliminação não exclui obstrução. Distensão progressiva, vômitos, dor relevante ou sinais de peritonite exigem avaliação e imagem conforme gravidade; não insistir em laxantes apenas porque houve flatos.

Pseudo-obstrução colônica, a síndrome de Ogilvie: distensão importante e desproporcional, instalada em três a sete dias e às vezes em 24 horas, com dor em cerca de 80% dos casos, náusea ou vômito em 60%, ruídos ainda presentes em cerca de 70% e — este é o dado que engana — eliminação de flatos ou fezes preservada em torno de 40%. Confirma-se a dilatação com radiografia e exclui-se obstrução mecânica com tomografia. Conduta: corrigir eletrólitos, suspender o que paralisa, descompressão gástrica, e reavaliar em 24 a 48 horas antes de escalonar — com a ressalva de que sinal de perfuração iminente ou instalada retira o paciente do manejo conservador no ato.

Sexto: o que não pedir, e o que existe no SUS

Constipação simples sem alarme não requer TC de rotina. Distensão importante, evolução atípica e suspeita de complicação podem justificá-la, inclusive em paciente com fecaloma. Colonoscopia/manometria não são triagem de constipação aguda; colonoscopia pode descomprimir pseudo-obstrução selecionada. Na pseudo-obstrução, imagem seriada do calibre pode ser necessária; evacuação e circunferência abdominal não substituem esse seguimento.

Do lado do movimento, quase tudo o que funciona é gratuito e não depende de compra: sentar na poltrona, andar no corredor, retirar o dispositivo desnecessário, tratar a dor antes do horário de levantar, colocar o calçado do paciente ao lado da cama em vez de guardá-lo no armário. O que às vezes falta é gente e equipamento — andador, cadeira com braço, cinto de transferência — e essa falta se resolve escrevendo o pedido com precisão em vez de escrever uma orientação genérica.

A Rename 2024 citada lista lactulose 667 mg/mL, glicerol retal, óleo mineral e cáscara-sagrada, mas elenco nacional não garante estoque hospitalar nem define a melhor escolha individual. Conferir apresentação real de supositório e conteúdo por unidade com a farmácia; a transcrição de 81–92 mg não deve ser usada como dose adulta. PEG, bisacodil e outros podem integrar elencos locais, conforme disponibilidade e indicação.

Escolher laxante pela hipótese, contraindicações, tolerância e disponibilidade efetiva. Lactulose é opção, com possibilidade de flatulência; PEG ou estimulante apropriado pode ser alternativa. Cáscara-sagrada não se torna primeira linha por ser o único estimulante listado no documento citado. Antes de substituir por produto disponível, verificar se ele serve ao problema e se não haverá atraso de avaliação necessária.

Para a via retal, a solução glicerinada é o padrão brasileiro e o parecer técnico do Conselho Regional de Enfermagem de Pernambuco descreve o que está por trás do nome: glicerol a 120 mg/mL, apresentado em frascos de 250 a 500 mL com sonda própria, agindo como lubrificante e emoliente e rompendo a massa fecal pela distensão da parede retal. O mesmo parecer separa por volume o que se chama de quê: enteroclisma ou lavagem intestinal quando se introduzem de 500 a 1.000 mL, clister ou enema quando o volume é menor que 500 mL. A distinção não é preciosismo de nomenclatura — é o que a enfermagem vai preparar quando ler a sua prescrição.

07

As réguas do repouso: o relógio, a escada e as máscaras

Reconhecer perda funcional e alterações intestinais precocemente, distinguir constipação de complicações e planejar recuperação segura com a equipe.

  1. 1Admissão: registre a linha de base funcional em uma frase concreta — até onde andava, se subia escada, se tomava banho sozinho, quantas vezes por semana evacuava e como eram as fezes. Sem essa linha, nada do que vier depois é comparável.
  2. 2Ainda na admissão: se você escrever repouso, escreva também por quê e até quando. Repouso sem indicação escrita e sem prazo é a linha que atravessa a internação inteira.
  3. 3Avaliar diariamente função com tarefas compatíveis com segurança e assistência, comparando ao basal. Incapacidade de colaborar muda o método, não impede toda avaliação de mobilidade.
  4. 4Verificar sintomas, sinais, metas individuais, suporte e restrições antes/durante a sessão; faixas de estudos de UTI não garantem segurança em enfermaria.
  5. 5Na alteração relevante, interromper ou adaptar e reavaliar. Cuidado paliativo, infarto prévio e ferida não são proibições universais: estabilidade, restrições específicas, conforto e objetivos definem a atividade possível.
  6. 6Sinais vitais em faixa aparentemente aceitável não bastam para liberar mobilização. Considerar sintomas, estabilidade, risco de queda, lesões e capacidade; interromper diante de pré-síncope, dor torácica, dispneia importante ou novo déficit e avaliar.
  7. 7Investigar constipação pela mudança do hábito, consistência, esforço, evacuação incompleta e desconforto. Três dias sem evacuar são um alerta operacional, não a única definição nem um prazo mínimo para agir se houver sinais de alarme.
  8. 8Na ausência de evacuação com sintomas ou risco, examinar e decidir se toque/imagem são necessários; avaliar contraindicações antes de exame retal.
  9. 9Impactação retal: selecionar método local, inclusive manual por profissional habilitado quando necessário. Tratamento oral pode complementar em casos selecionados após excluir obstrução.
  10. 10Ampola vazia com distensão e parada de eliminações: reabra o diferencial entre constipação alta, íleo, obstrução mecânica e pseudo-obstrução. Peça eletrólitos, radiografia de abdome para calibre e distribuição, e tomografia quando a pergunta for se existe ponto de transição.
  11. 11Fezes líquidas após constipação podem ser transbordamento, efeito de laxante ou infecção. Avaliar antes de suspender/manter/escalar e antes de antidiarreico.
  12. 12Sem resposta em 48 horas de laxante em dose adequada: revise o diagnóstico antes de aumentar a dose. Procure impactação, procure a droga que ninguém suspendeu, procure distúrbio eletrolítico.
  13. 13Antes da alta: escreva a função alcançada, a meta funcional para casa, quem vai executar e o plano intestinal com alvo e com o que fazer se houver diarreia. Encaminhe para reabilitação e para a unidade básica.

A força não cai em linha reta

A figura ilustra uma hipótese matemática de perda de 20% do remanescente por semana: 80%, 64%, 51,2% e 41% restantes. Não é curva individual validada nem previsão de que cada internado perderá exatamente essa força. Massa, força e função são medidas distintas; a velocidade depende de doença, inflamação, idade, nutrição e atividade. A utilidade clínica é lembrar que perdas podem começar cedo e devem ser medidas, sem transformar percentuais em destino.

A saída do leito tem degraus, e eles se sobem em ordem

Os cinco degraus, da esquerda para a direita, são a mesma sequência que serve para avaliar e para prescrever: cabeceira elevada com o paciente tolerando a posição sentada no leito; sentar na beira da cama com as pernas para fora e sem apoio das mãos, sustentando o tronco; transferir-se para a poltrona; ficar em pé ao lado do leito com assistência, transferindo peso para os dois lados; e dar passos. Registre o degrau alcançado hoje e compare com o de ontem: subir um degrau é desfecho, e descer um degrau é evento clínico que pede explicação.

O que o repouso quebra, sistema por sistema

SistemaO que o repouso fazQuando apareceO que evita
Músculo esqueléticoDescarga mecânica com síntese proteica reduzida e proteólise aumentada pela via ubiquitina-proteassomo; atrofia preferencial das fibras de contração rápidaPerdas podem ser mensuráveis na primeira semana; percentuais de estudos são referências populacionais, não queda fixa universal de 20% por semanaContração ativa contra alguma carga, todos os dias, mesmo sem sair do leito; aporte proteico e calórico suficiente
Controle posturalO sistema nervoso deixa de treinar equilíbrio sentado e em pé; a competência se apaga por desuso mesmo com músculo preservadoDias; costuma aparecer antes da fraqueza medida, na forma de escorregar ao sentarSentar sem apoio das mãos com transferência de peso para os lados, para a frente e para trás, e rotação de tronco
CardiovascularRedistribuição de volume para o tórax, queda do volume plasmático, desabituação do barorreflexo e perda da bomba muscular da panturrilhaPoucos dias; a hipotensão postural aparece na primeira vez que o paciente é sentado ou levantadoOrtostatismo diário e progressivo, por etapas, em vez de uma tentativa isolada depois de uma semana
RespiratórioQueda da capacidade residual funcional, hipoventilação de bases e tosse ineficaz; a distensão abdominal soma, dificultando o diafragma e reduzindo a complacênciaHoras a dias; atelectasia de bases com hipoxemia leve corrigida com oxigênio em vez de posiçãoSentar fora do leito, sobretudo nas refeições; tratar a distensão abdominal como problema respiratório também
Trato gastrintestinalMotilidade colônica reduzida, prensa abdominal enfraquecida, gravidade retirada e inibição voluntária pela falta de privacidade; opioide, jejum, dieta sem resíduo e desidratação somamDias; a coorte brasileira usa três dias consecutivos sem evacuar como definição operacionalRegistro diário da evacuação com consistência, saída do leito, hidratação, privacidade e horário para o vaso ou a cadeira higiênica
Trato urinárioEsvaziamento incompleto em decúbito e recurso à sonda de demora, que resolve o registro de diurese e amarra o paciente ao leitoDias; retenção e infecção associada ao cateterRevisão diária da indicação de cada dispositivo; micção sentado ou em pé sempre que possível
MetabólicoRedução da captação muscular de glicose e piora da resistência insulínica pela inatividadePoucos dias; aparece como glicemia em elevação sem mudança de dieta ou corticoideAtividade diária; ler a necessidade crescente de insulina de correção como sinal de imobilismo, e não apenas como alvo a corrigir
ÓsseoPerda de massa óssea onde havia carga axial — quadril, coluna e calcâneo — com reabsorção aumentadaSemanas a meses; relevante em internação prolongada e em quem seguirá acamado em casaCarga em ortostatismo, ainda que assistida; atenção à hipercalcemia, que realimenta náusea, constipação e confusão

As máscaras da impactação fecal

Como chega até vocêO que costuma ser anotadoO que confirma à beira do leitoO erro que se evita
Fezes líquidas em quem não evacuava há diasEvacuou, ou diarreia; às vezes com pedido de coproculturaToque retal com ampola cheia de fezes endurecidas; radiografia simples mostrando carga fecal quando o toque não concluiSuspender o laxante e prescrever antidiarreico ou antiespasmódico, que aperta a rolha
Confusão nova ou agitação noturna em idosoPaciente agitado; pedido de antipsicótico ao plantonistaBexiga palpada e reto tocado antes de qualquer prescrição; as duas manobras levam três minutosSedar um paciente cuja causa se resolve com uma luva e um supositório
Retenção urinária que volta depois do alívioGlobo vesical; indicação de sonda de demoraToque retal na mesma consulta em que se palpa o hipogástrio; a compressão pela massa fecal explica a recidivaDeixar sonda de demora, que resolve o sintoma, mantém a causa e prende o paciente ao leito
Distensão com náusea e parada de eliminaçõesSuspeita de abdome agudo obstrutivo; jejum e sonda nasogástricaExame orienta, mas ampola cheia não exclui obstrução e ampola vazia não exclui fecaloma proximal; usar imagem conforme suspeita e gravidadeTratar como cirúrgico o que se resolve por via retal, ou desimpactar quem tem obstrução mecânica
Recusa a mobilizar, com dor abdominal ao sentarPaciente não colabora; solicitação de mais analgesiaExame do abdome antes de aumentar o opioide; o opioide a mais piora a causaEscalonar analgesia sobre uma causa que a analgesia agrava
Náusea persistente que não cede ao antieméticoNáusea refratária; segundo e terceiro antiemético empilhadosData da última evacuação e toque retal; o trânsito regularizado costuma resolver a náuseaEmpilhar antiemético em quem precisa que o intestino volte a funcionar

Limiares de pressão variam nos protocolos de mobilização. Uma medida elevada exige confirmar técnica, avaliar sintomas e condição, interrompendo esforço conforme risco e protocolo. Não tratar número isolado com redução rápida apenas para alcançar critério de sessão. Planejar reavaliação no mesmo dia e adaptar atividade.

Fecaloma pode estar acima do alcance do toque, e obstrução pode coexistir com fezes no reto ou flatos. História, exame e imagem quando indicada distinguem os quadros; ruídos e conteúdo da ampola não são prova binária. Na suspeita de Ogilvie, medir calibre/duração e excluir causa mecânica e complicações.

Toque retal pode identificar impactação distal e outras alterações quando indicado, mas não é obrigatório antes de toda prescrição de laxante. Ampola vazia não exclui impactação proximal ou obstrução; avaliar abdome, sintomas, contexto e contraindicações ao exame. Eliminação de gases não exclui obstrução parcial.

08

A conduta, hora a hora

Mobilidade e função intestinal são metas compartilhadas de cuidado. O plano registra tarefas, assistência, restrições e reavaliação e respeita a autonomia profissional. Não se pode explicar toda perda funcional por falta de redação na folha: doença, nutrição, fármacos e recursos também importam. O interno deve reconhecer declínio e discutir ações concretas com paciente, enfermagem, fisioterapia e supervisor.

  1. Admissão, primeiras 24 horas — a linha de base e a palavra repouso

    Registrar função e hábito intestinal prévios e avaliar capacidade atual com segurança. Hipoxemia não exige, por si, permanecer deitado: posição e atividade dependem de gravidade, suporte e tolerância. Se há restrição, escrever motivo, atividades permitidas e reavaliação. A ausência de justificativa demanda esclarecer a indicação; não libera automaticamente um paciente que ainda possa ter fratura instável, isquemia ou outra condição limitante.

    Prescrição
    • Registrar em prontuário a linha de base funcional em frase concreta: até onde andava, se subia escada, se tomava banho e ia ao banheiro sozinho, e com que auxílio (revisão brasileira sobre declínio funcional em idosos hospitalizados, Rev Bras Geriatr Gerontol, 2009).
    • Registrar o hábito intestinal prévio: quantas evacuações por semana e qual a consistência habitual das fezes (Manual de Cuidados Paliativos, HSL/MS, 2023).
    • Repouso no leito somente com indicação escrita e prazo definido; na ausência de indicação, não prescrever repouso e registrar liberação para sentar e deambular conforme tolerância.
    • Avaliação funcional na admissão com registro do degrau alcançado na sequência deitado, sentado no leito, sentado na beira sem apoio, poltrona, ortostatismo e marcha (Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em UTI, AMIB/AMB, 2019).
  2. Dia 1 — a mobilização escrita como prescrição, com dose

    Definir meta funcional com paciente e equipe e planejar oportunidades de movimento ao longo do dia. As doses publicadas para UTI são referências de protocolos, não tetos comprovados para toda enfermaria. Individualizar intensidade e progressão com fisioterapia, enfermagem e avaliação médica. Sintoma novo durante a sessão é critério de parar e avaliar, mesmo que sinais em repouso estivessem na faixa. Ao sentar, conferir postura e alívio de pressão; não manter tempo fixo se houver dor, hipotensão ou lesão em apoio.

    Prescrição
    • Sentar/transferir para poltrona conforme nível funcional e tolerância, com assistência e alívio de pressão programados. Até 90 minutos duas vezes ao dia é referência do protocolo de UTI citado, não início obrigatório nem teto universal.
    • Exercícios ativos e tarefas funcionais em sessões individualizadas, frequentemente curtas e repetidas no início. Duas sessões de até 30 minutos são referência, não dose necessária para toda pessoa frágil.
    • No paciente que não colabora ou não sustenta a posição sentada: mobilização passiva de 10 a 20 mobilizações por articulação selecionada, em até duas vezes ao dia (Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em UTI, AMIB/AMB, 2019).
    • Ortostatismo com assistência ao lado do leito, com treino de equilíbrio e transferência de peso, evoluindo para os primeiros passos quando a postura for estável (Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em UTI, AMIB/AMB, 2019).
    • Antes e durante cada sessão, avaliar sintomas, consciência, perfusão, respiração, dispositivos e restrições. Faixas da diretriz de UTI (FC 40–130, PAS >90, PAM 60–110, FR 5–40 e SpO₂ >88%) são referências de seleção, não garantia de segurança nem alvo aceitável de saturação para qualquer paciente; usar metas individuais.
    • Interromper diante de pré-síncope, dor, dispneia importante, dessaturação, arritmia ou alteração hemodinâmica relevante, protegendo contra queda. Confirmar medidas e avaliar causa; retomar quando seguro com plano adaptado, sem forçar tolerância.
    • Solicitar fisioterapia com o objetivo funcional escrito e com o número de pessoas necessárias para a transferência; a definição do modelo de intervenção, da intensidade, da periodicidade e da interrupção cabe ao fisioterapeuta (Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em UTI, AMIB/AMB, 2019).
  3. Dia 1 — o inventário das amarras, e o que sai hoje

    Rever dispositivos, fluidos, dor, medo e barreiras com equipe e paciente. Retirar o que não é necessário com protocolo e competência apropriados, preservando suporte e acesso indicado. Oxigênio, sonda e bomba não proíbem toda mobilização; podem ser acomodados com segurança. Ingesta oral recuperada não prova que cubra a necessidade total. No caso, conferir volume real, perdas e volemia antes de suspender manutenção. O interno propõe e verifica com o responsável, sem executar decisões fora de sua supervisão.

    Prescrição
    • Revisar diariamente a indicação de cada dispositivo — cateter de oxigênio, sonda vesical, acesso venoso, dreno, monitor, contenção — e retirar no mesmo dia o que não tiver indicação naquele dia.
    • Suspender o cateter nasal de oxigênio em paciente com saturação estável em ar ambiente, mantendo aferição por oximetria nos horários de sinais vitais.
    • Reavaliar necessidade da sonda, incluindo retenção atual e necessidade de medida rigorosa. Após retirada indicada, acompanhar micção e sintomas; não esperar 12 h se houver dor, distensão ou ausência de urina, utilizando avaliação vesical conforme protocolo.
    • Reavaliar a hidratação venosa de manutenção em paciente com via oral recuperada e suspender quando a ingesta cobrir a necessidade, mantendo a oferta hídrica por via oral registrada.
    • Medir a dor em duas condições, em repouso e na mobilização, com escala numérica, e programar a analgesia para antes do horário de levantar — o manejo da escada analgésica é assunto do capítulo de analgesia desta apostila.
    • Colocar calçado fechado e antiderrapante do paciente ao alcance, manter a cama travada e na altura mais baixa, e garantir apoio para a primeira saída — a prevenção de queda durante a mobilização é assunto do capítulo de queda do paciente internado.
  4. Dia 1 — o intestino entra na folha no mesmo dia

    Constipação pode acompanhar baixa ingestão, menor mobilidade, opioides e outras medicações. Avaliar hábito prévio, última evacuação, consistência, esforço, sintomas e sinais de alarme. Na necessidade contínua de opioide, planejar prevenção individualizada; uma dose isolada não exige o mesmo esquema de todos. Percentuais de uma coorte não são a frequência garantida em qualquer enfermaria.

    Prescrição
    • Registrar diariamente, na folha e na evolução, a presença ou ausência de evacuação com data e consistência das fezes (Azevedo e col., Rev Bras Ter Intensiva, 2009).
    • Oferecer o vaso sanitário ou a cadeira higiênica em horário programado, com privacidade, em vez da comadre no leito, sempre que o paciente puder ser transferido (Manual de Cuidados Paliativos, HSL/MS, 2023).
    • Dieta e líquidos adequados às necessidades e restrições. Fibra pode ajudar na constipação simples com hidratação e trânsito, mas não deve ser aumentada em impactação/íleo/obstrução suspeita ou distensão importante antes de avaliação.
    • Mobilidade e rotina de evacuação quando seguras. Massagem abdominal é opcional em contexto apropriado; não realizar sobre abdome agudo, dor sem esclarecimento ou outras contraindicações.
    • Na constipação simples, exemplo de lactulose 667 mg/mL VO, 15 mL/dia, ajustando usualmente para 15–30 mL/dia conforme produto e resposta. Alvo: fezes confortáveis, sem esforço nem diarreia, próximo ao hábito adequado do paciente. Duas a três evacuações diárias não são meta obrigatória de constipação.
  5. Terceiro dia sem evacuar — a luva antes da receita

    Três dias sem evacuar podem servir de alerta operacional, mas sintomas e hábito prévio decidem quando agir. Examinar abdome e considerar toque retal com consentimento e avaliação de contraindicações; ele não é requisito para toda prescrição de laxante. Fezes endurecidas impactadas no reto orientam desimpactação local; ampola vazia não exclui fecaloma proximal nem obstrução. Ruídos presentes e flatos não descartam obstrução parcial. Na distensão importante ou evolução atípica, investigar antes de aumentar laxantes.

    Prescrição
    • Exame abdominal e toque retal quando indicado, com consentimento, privacidade e cautelas para neutropenia, plaquetopenia relevante, mucosite/lesão ou cirurgia recente. Toque vazio não encerra investigação de impactação proximal.
    • Solicitar potássio, cálcio e magnésio séricos em paciente com distensão e parada de eliminações; hipocalemia, hipocalcemia e hipomagnesemia são gatilhos de íleo e de pseudo-obstrução colônica (Azevedo e col., Rev Bras Ter Intensiva, 2009).
    • Radiografia simples de abdome quando o toque for duvidoso, quando houver ampola vazia com distensão importante, ou na suspeita de diarreia paradoxal (Manual de Cuidados Paliativos, HSL/MS, 2023).
    • Se constipação simples, sem impactação relevante nem suspeita de obstrução, titular osmótico e/ou associar estimulante conforme resposta e disponibilidade. Não escolher cáscara-sagrada automaticamente por constar da Rename; conferir produto, padronização, contraindicações e indicação local. PEG ou outro laxante pode ser apropriado se disponível.
    • Bisacodil revestido 5 mg VO, 1–2 comprimidos à noite quando indicado, sem triturar. Conferir instrução do produto sobre separação de leite/antiácidos e supressores de ácido; não declarar que qualquer uso de IBP torna toda dose impossível. Não repetir em 6 h por impaciência com efeito ainda em início.
    • Suspender ou reduzir, quando possível, o que paralisa: opioide sem indicação atual, anticolinérgico, escopolamina, antidepressivo tricíclico e ferro oral.
  6. Impactação confirmada — a via retal, e quem faz o quê

    Impactação retal exige selecionar método conforme dureza, volume, localização e paciente. Supositório pode ajudar em situações leves, mas grande massa endurecida pode demandar fragmentação/desimpactação manual por profissional habilitado, com analgesia e vigilância vagal, e/ou enema adequado. Não há escada universal que obrigue supositório, depois enema e depois um litro. Antes de instrumentar, avaliar contraindicações, consentimento e risco de trauma; solução, volume, técnica e executor devem estar definidos.

    Prescrição
    • Se supositório for apropriado, usar uma unidade de glicerol de apresentação adulta, conferindo conteúdo por unidade no produto real. Não prescrever a faixa de 81–92 mg como dose adulta a partir da transcrição do elenco; esclarecer a apresentação com a farmácia antes de administrar.
    • Enema, quando indicado, com solução, concentração e volume exatos escolhidos pelo protocolo/paciente. “Menos de 500 mL” não é prescrição completa. Não escalonar automaticamente para 500–1.000 mL; considerar fragilidade, função renal/cardíaca, perfuração e risco eletrolítico. Evitar fosfato em idosos frágeis, doença renal ou alto risco.
    • Escolher intervenção retal pelo diagnóstico, produto, dose e contraindicações. Doença cardíaca ou renal aumenta riscos de certas formulações, especialmente fosfatadas e cargas de eletrólitos; não equivale a proibição de toda medida retal. Neutropenia, plaquetopenia importante, dor intensa, lesão local e suspeita de obstrução exigem avaliação específica.
    • Registrar na prescrição a solução, o volume e a via, e comunicar ao enfermeiro responsável, a quem cabe avaliar as condições do paciente e decidir sobre delegação da execução (Parecer Técnico Coren-PE nº 0004/2024).
    • Vigiar após o procedimento: distensão, dor, sangramento, e sinais de distúrbio hidroeletrolítico pela perda de líquido; reavaliar eletrólitos em paciente idoso, desidratado ou com repetição do procedimento (Parecer Técnico Coren-PE nº 0004/2024).
    • Analgesia, explicação e lubrificação antes de intervenção retal. Desimpactação manual quando necessária por profissional habilitado, interrompendo diante de dor importante, sangramento, resistência, bradicardia ou mal-estar; não forçar cateter ou repetição traumática.
    • Após a desimpactação, manter esquema laxativo regular, porque desimpactar sem manutenção reproduz o fecaloma em dias (Manual de Cuidados Paliativos, HSL/MS, 2023).
  7. Quando nada funciona — refratariedade, e o quadro que não é constipação

    Persistência dos sintomas exige reavaliar hipótese, exame, medicamentos e resposta antes de empilhar laxantes. Não há sequência obrigatória de três medidas após um intervalo fixo de 48 horas. Suspeita de impactação, íleo, obstrução mecânica ou pseudo-obstrução muda o plano e pode exigir avaliação urgente. Neostigmina pertence ao manejo monitorizado de pseudo-obstrução selecionada após exclusão de obstrução e avaliação de contraindicações.

    Prescrição
    • Sem resposta no intervalo esperado, rever diagnóstico, doses realmente administradas, fármacos e eletrólitos. Toque depende de indicação e segurança. Distensão progressiva, dor/vômitos ou instabilidade exigem avaliação imediata, sem esperar 48 h.
    • Na suspeita de pseudo-obstrução colônica: radiografia simples de abdome para confirmar a dilatação e definir o calibre do ceco, e tomografia para afastar obstrução mecânica (Azevedo e col., Rev Bras Ter Intensiva, 2009).
    • Na pseudo-obstrução não complicada, suporte monitorizado: corrigir distúrbios, revisar fármacos, ajustar líquidos, pausar dieta conforme quadro e descomprimir quando indicado. Acompanhar clínica e calibre colônico, além da duração; não esperar 24–48 h se houver progressão importante ou suspeita de isquemia/perfuração.
    • Neostigmina pode ser indicada na pseudo-obstrução sem resposta ou que demande escalada, após excluir obstrução mecânica e contraindicações. Referência: 2 mg IV em 3–5 minutos, com monitorização cardiorrespiratória, atropina e suporte de ressuscitação disponíveis, por equipe experiente. Conferir bradicardia/bloqueio, broncoespasmo ativo e demais riscos; não é ordem automática após 48 h.
    • Sem resposta, recorrência ou contraindicação à neostigmina, discutir descompressão colonoscópica. Suspeita de isquemia/perfuração exige cirurgia urgente; sequência depende de gravidade, calibre, duração e recursos, não de cumprir todos os degraus.
    • Óleo mineral para uso oral, 15 a 30 mL até duas vezes ao dia, apenas quando as demais opções não estiverem disponíveis e com a ressalva expressa do risco de broncoaspiração e pneumonite química, evitando o uso em idosos e em quem tem disfagia (Manual de Cuidados Paliativos, HSL/MS, 2023; Rename 2024, Componente Básico).
  8. Alta — a função e o intestino que saem com o paciente

    Planejar alta com função, nutrição, evacuação e suporte em casa, além da doença inicial. Explicar capacidades atuais, assistência necessária, equipamentos e metas, confirmando o que paciente e cuidadores conseguem realizar. Estudos de seguimento mostram que perda funcional pode persistir, mas não determinam a evolução individual. Organizar reabilitação e retorno conforme necessidade, com sinais de alarme e responsabilidades claros.

    Prescrição
    • Relatório de alta com a função prévia, a função atual medida pelo degrau alcançado, e a meta funcional para os próximos 30 dias, escrita em tarefas concretas.
    • Encaminhamento formal para reabilitação e para a unidade básica de saúde, com contrarreferência, e orientação de atividade diária compatível com o número de pessoas disponíveis em casa.
    • Plano intestinal escrito com fezes confortáveis e retorno a padrão adequado ao paciente, doses e limites individualizados e ação diante de diarreia. Não exigir evacuações confortáveis em frequência adequada ao paciente nem orientar escalada indefinida em casa.
    • Manter o laxante enquanto a causa permanecer — opioide em uso, mobilidade reduzida, dieta pobre em resíduo — e reavaliar a retirada de forma escalonada, não de uma vez (Manual de Cuidados Paliativos, HSL/MS, 2023).
    • Sinais de alarme para retorno imediato: parada de eliminação de fezes e flatos com distensão, vômito, dor abdominal em cólica, fezes líquidas depois de dias sem evacuar, e queda ou incapacidade nova de levantar-se.
    • Revisão item a item da receita de alta, conferindo se algum medicamento entrou apenas por estar na folha da enfermaria — a conciliação medicamentosa da alta é assunto do capítulo próprio desta apostila.
09

Como saber se está funcionando

Registrar capacidade, sintomas, assistência e metas permite comparar evolução. O relato do paciente, a observação e as medidas se complementam; ausência de anotação não significa que um cuidado nunca ocorreu. Esclarecer dados e melhorar o registro sem inventar fatos.

Uma advertência sobre números de recuperação funcional, porque eles circulam mal. Na coorte brasileira de Dietrich e colaboradores, a discussão afirma que mais da metade dos pacientes estava totalmente dependente aos seis meses de seguimento — e a tabela do próprio artigo diz outra coisa. Aos seis meses, a dependência total aparece em 16 de 100 pacientes de 61 a 79 anos e em 9 de 48 com 80 anos ou mais: 25 de 148, ou 16,9%. O que chega perto da metade, e passa dela, é a soma de todos os graus de dependência, incluindo a mínima — 115 de 148, ou 77,7%. Na mesma tabela há um erro aritmético que confirma a leitura: a coluna dos seis meses no grupo de 61 a 79 anos soma 110% em vez de 100%, porque a linha dos independentes traz 28 pacientes rotulados como 38,0% quando 28 de 100 é 28,0%; recalculadas, as cinco categorias fecham exatamente em 100. Isso não desfaz o achado — a perda funcional é grande e persistente —, mas muda o que se diz à família. Prometer que a maioria ficará totalmente dependente é assustar sem base; dizer que cerca de três em cada quatro terão algum grau de dependência aos seis meses, e que um em cada seis será totalmente dependente, é o que os dados sustentam. Os valores descrevem sobreviventes avaliados nos denominadores daquele estudo; não são prognóstico individual nem prova de que toda dependência tenha sido causada pelo repouso.

Execução da mobilização prescritaTodo dia, na visita, olhando o registro e perguntando ao paciente — não perguntando à equipe se foi feito

Esperado: Registro das saídas do leito no período, com duração, e um paciente que confirma ter sentado ou andado

Se não melhora: Conferir com paciente e equipe o que ocorreu, registros, restrições e barreiras. Folha em branco não prova que ninguém mobilizou nem define a causa. Ajustar plano, assistência e equipamento com profissionais envolvidos, ouvindo também quem realizou o cuidado.

Degrau funcional alcançadoDiariamente, pedindo a execução: sentar na beira do leito sem apoio das mãos, levantar, dar passos

Esperado: Manutenção ou progressão compatível com doença e capacidade prévia, sem obrigação de subir um degrau a cada dois ou três dias. Registrar ajuda necessária, sintomas e tarefas alcançadas.

Se não melhora: Declínio exige avaliação de causas, incluindo doença aguda, dor, sedação, anemia, distúrbios e problema neurológico. Estagnação não prova dose insuficiente; revisar tolerância, metas e barreiras com a equipe antes de aumentar esforço.

Resposta hemodinâmica à saída do leitoNa primeira saída de cada dia, com pressão e frequência cardíaca antes e poucos minutos depois de sentar

Esperado: Tolerância crescente ao longo dos dias, com sintomas de hipotensão postural cada vez menores e por menos tempo

Se não melhora: Investigar intolerância ortostática conforme gravidade desde o primeiro episódio; não esperar três ou quatro dias para procurar hipovolemia, fármacos, anemia, arritmia ou disautonomia. Retomar com segurança após avaliação, sem excluir descondicionamento apenas porque persiste.

Dispositivos ainda instaladosTodo dia, item por item, na mesma visita em que se avalia a mobilidade

Esperado: Redução progressiva do número de dispositivos, com data de retirada registrada

Se não melhora: Dispositivo que atravessa três dias sem que ninguém defenda a indicação é dispositivo de imobilização. Se houver dúvida sobre a retirada, escreva a condição que a autorizaria e o prazo para reavaliar — condição escrita transforma inércia em decisão.

Evacuação com data e consistênciaDiariamente, registrada na folha e conferida na visita

Esperado: Fezes confortáveis, sem esforço nem diarreia, em frequência apropriada ao hábito e contexto; não impor uma a três evacuações por dia.

Se não melhora: Reavaliar diagnóstico, medicações e administração real se não houver resposta. Toque/imagem conforme indicação e segurança; fezes líquidas podem ser transbordamento, laxante ou infecção. Ajustar conduta pelo conjunto, sem suspender ou manter automaticamente.

Distensão abdominalExame diário, com circunferência abdominal medida sempre no mesmo ponto marcado quando houver distensão importante

Esperado: Redução da circunferência e do timpanismo após evacuação efetiva, com ruídos hidroaéreos voltando ao normal

Se não melhora: Distensão que aumenta apesar de conduta correta muda a hipótese: reavalie íleo, obstrução mecânica e pseudo-obstrução colônica, peça radiografia para calibre do ceco e discuta com a cirurgia. Dor localizada, defesa, febre ou taquicardia nova nesse contexto levantam a suspeita de perfuração e mudam o ritmo da avaliação.

Aceitação da dieta e oferta hídricaPercentual aceito registrado a cada refeição e volume ingerido registrado por turno

Esperado: Aceitação estável ou crescente, com oferta hídrica compatível com o balanço e com a dieta prescrita

Se não melhora: Aceitação em queda em paciente que melhora da doença de base pede explicação antes de suplemento: procure náusea por intestino parado, dor, boca seca, prótese que não serve, depressão e refeição servida com o paciente deitado. Sem aporte proteico e calórico, nenhuma dose de mobilização recupera músculo.

A palavra repouso na folha do diaToda manhã, ao conferir a prescrição impressa

Esperado: Ausência da linha, ou presença com indicação escrita e prazo definido

Se não melhora: Se a linha reapareceu na impressão de hoje sem que ninguém a tenha decidido, o problema não é clínico e sim de processo: a folha está sendo copiada. Apague, escreva a liberação para sentar e deambular no lugar, e avise a equipe verbalmente — a mudança na folha demora um plantão para virar comportamento.

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Onde o erro machuca

Deixar a palavra repouso atravessar a internação

O dano: Este é o erro que abriu o capítulo, e o dano dele é tudo o que veio depois. A linha nasce com indicação verdadeira no primeiro dia e sobrevive por cópia, porque a prescrição do dia é a de ontem impressa de novo. Enquanto ela existe, a enfermagem não levanta o paciente e a fisioterapia não é chamada — e a força cai cerca de 20% na primeira semana, com variação importante entre pacientes; não é uma taxa fixa aplicável a cada semana. Nenhum diagnóstico vai explicar, no nono dia, por que o senhor entrou andando e não senta mais.

Como pegar a tempo: Regra fixa: repouso só se escreve com indicação e prazo, e a folha é lida de cima para baixo toda manhã com uma pergunta por linha — quem decidiu isso e quando. Se não há resposta para a linha do repouso, ela sai hoje, e no lugar dela entra a liberação escrita para sentar e deambular conforme tolerância. Avise a equipe verbalmente além de mudar a folha: comportamento de enfermaria muda um plantão depois do papel.

Tratar mobilização como tarefa da fisioterapia e não prescrever nada

O dano: A fisioterapia vê o paciente uma ou duas vezes ao dia, por trinta ou quarenta minutos, cinco dias por semana. As outras vinte e três horas pertencem à equipe do andar e à família, e nada acontece nelas se não estiver escrito. O resultado é um paciente que faz exercício assistido e passa o resto do dia deitado — o que, em balanço de carga, é quase o mesmo que não fazer nada. No Brasil, não mais de 10% dos pacientes críticos são mobilizados para além do leito, e esse número não muda com boa vontade individual.

Como pegar a tempo: Escreva na sua folha, com verbo, quantidade e horário: sentar em poltrona até 90 minutos duas vezes ao dia, exercícios ativos em até duas sessões de 30 minutos, deambular com apoio três vezes ao dia. O pedido de fisioterapia leva junto o objetivo funcional e o número de pessoas necessárias para a transferência — a definição do modelo, da intensidade e da interrupção é do fisioterapeuta, mas o objetivo e a liberação são seus.

Anotar evacuou sem consistência, e perder a diarreia paradoxal

O dano: O registro binário destrói a informação exatamente onde ela decide. Fezes líquidas escapando por transbordamento ao redor de um fecaloma entram na folha como evacuação — e a equipe conclui que o intestino voltou a funcionar — ou como diarreia, e a conduta que se segue é suspender o laxante, prescrever antiespasmódico ou antidiarreico e pedir coprocultura. As três medidas apertam a rolha. O paciente segue impactado, distende, retém urina e, se for idoso, fica confuso; e o registro do prontuário diz que ele está evacuando.

Como pegar a tempo: Registrar data, consistência, volume e sintomas. Fezes líquidas após dias sem evacuar podem ser transbordamento, mas também efeito de laxante, infecção ou outra causa. Avaliar abdome, história e toque quando indicado e seguro; ampola vazia ou radiografia com fezes não encerram todo o diagnóstico. Evitar antidiarreico automático antes de esclarecer o quadro.

Prescrever laxante oral estimulante sobre uma ampola cheia

O dano: O estimulante aumenta a peristalse propulsiva contra um obstáculo que não se move. O resultado é cólica intensa, náusea, às vezes vômito, e nenhuma evacuação — e o paciente que passou por isso resiste à próxima dose e à próxima tentativa de mobilização, o que soma duas perdas de uma vez. Em situações extremas, forçar peristalse contra impactação em cólon já distendido é o cenário em que se discute perfuração.

Como pegar a tempo: Avaliar impactação e obstrução quando houver suspeita, com toque se indicado e seguro. Impactação retal pode exigir método local/manual; oral pode complementar após avaliação. Não tornar toque obrigatório antes de toda prevenção ou dose de laxante, nem enema grande um degrau inevitável.

Confundir impactação, obstrução mecânica e pseudo-obstrução colônica

O dano: São três quadros com a mesma cara e três condutas incompatíveis. Desimpactar quem tem obstrução mecânica adia a cirurgia; operar quem tem fecaloma é laparotomia evitável; e tratar pseudo-obstrução como constipação deixa passar uma dilatação cecal cuja complicação é perfuração, com mortalidade que pode ultrapassar 50%. O detalhe que mais engana é a eliminação de flatos, presente em cerca de 40% dos casos de pseudo-obstrução — o paciente que solta flatos parece descartar obstrução, e não descarta.

Como pegar a tempo: Use o par exame mais imagem, nesta ordem. Ampola cheia com massa palpável no trajeto colônico e sem irritação peritoneal: impactação. Ampola vazia com dor em cólica, ruídos de luta e vômito que alivia: obstrução, e a imagem que responde é a tomografia procurando ponto de transição. Ampola vazia com distensão desproporcional, flatos preservados e um gatilho eletrolítico: pseudo-obstrução, e a radiografia serve para medir o calibre do ceco. Peça potássio, cálcio e magnésio nos três.

Usar os critérios de segurança da mobilização como desculpa para não mobilizar

O dano: O erro tem duas caras e as duas custam. De um lado, mobilizar sem checar produz eventos evitáveis: dessaturação, hipotensão, perda de dispositivo, queda. De outro — e este é o mais comum na enfermaria brasileira — a lista de critérios vira justificativa permanente, e o paciente que estava fora da faixa às sete da manhã continua deitado às sete da noite porque ninguém reavaliou. A diretriz brasileira classifica os eventos adversos da mobilização precoce como pouco frequentes, reversíveis com a interrupção da intervenção e, em geral, não graves. A perda associada à imobilidade pode ser parcialmente reversível, e a recuperação varia.

Como pegar a tempo: Usar critérios clínicos e protocolo para definir a atividade segura hoje e reavaliar restrições. Cuidado paliativo, infarto prévio e ferida abdominal exigem metas/restrições próprias, não proibição automática de todo movimento. Pré-síncope e outros sintomas obrigam interromper e avaliar mesmo com sinais basais aceitáveis.

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O que dizer ao paciente e à família

Esta é uma das conversas mais difíceis da enfermaria e uma das menos ensaiadas, porque a notícia não é sobre a doença: é sobre o que aconteceu com o paciente enquanto a doença era tratada. A família não pergunta se a pneumonia melhorou — ela viu que melhorou. Pergunta por que o pai não levanta mais.

O que vem abaixo são as conversas que realmente acontecem no corredor e à beira do leito. Três compromissos atravessam todas elas: nomear a perda sem eufemismo, não pôr na conta da idade o que é do tempo deitado, e sair da conversa com tarefas que aquela família consegue cumprir.

A filha pergunta por que o pai não anda mais, se a pneumonia melhorou

A senhora está vendo certo, e eu vou explicar sem rodeio. A pneumonia dele melhorou mesmo — a febre cedeu, o pulmão melhorou, o antibiótico termina hoje. O que aconteceu foi outra coisa, e é uma coisa que a gente conhece bem: ficar deitado faz o músculo perder força muito rápido, mais rápido do que as pessoas imaginam, e faz o corpo desaprender a manter o equilíbrio sentado e em pé. Nove dias na cama tiram de um senhor de 79 anos uma parte importante da força que ele tinha. A doença, a reserva prévia, os medicamentos e o tempo deitado podem contribuir juntos. E a parte boa dessa notícia ruim é que essa perda responde a treino — mas o treino começa hoje, não em casa.

Não diga: Evite dizer que é da idade, porque não é e porque essa frase encerra a conversa e a conduta junto. Evite chamar de fraqueza da doença, que sugere que vai passar sozinha. E não prometa que ele volta a ser exatamente como era.

A família pergunta se isso é culpa do hospital

Ele perdeu capacidade durante esta internação e precisamos entender o conjunto de causas. A doença, o tempo sem se movimentar, a alimentação e os medicamentos podem contribuir. Vamos avaliar o que ele consegue fazer com segurança e combinar metas com vocês e a equipe, explicando a evolução.

Não diga: Não empurre a responsabilidade para a enfermagem nem para a fisioterapia. Não recorra ao argumento de que toda internação longa termina assim, que soa a desculpa pronta e fecha a conversa. E não estipule uma data para a recuperação completa.

O paciente diz que está cansado e pede para ficar deitado só hoje

O cansaço é real. Vamos definir uma atividade pequena e segura, com ajuda, depois de avaliar o que está limitando. Se surgir tontura, palidez, falta de ar ou dor diferente, pare e avise: precisamos conferir a causa. Podemos retomar outra etapa quando estiver seguro. A meta é recuperar o que for possível sem forçar nem deixar dias passarem sem um plano.

Não diga: Evite negociar a suspensão do dia sem oferecer uma alternativa menor. Evite insistir sem tratar a dor primeiro. E evite prometer que não vai dar tontura.

A família se assusta com a tontura e a palidez na primeira vez que ele senta

A tontura ao sentar pode ter relação com o tempo deitado, mas também com pressão, remédios e outros problemas. Vamos interromper, protegê-lo e avaliar. Depois combinaremos como retomar aos poucos com ajuda. Não vou prometer que desaparecerá em três ou quatro dias, e vocês devem avisar se ocorrer de novo.

Não diga: Evite tratar o episódio como intercorrência e deitar o paciente pelo resto do dia. Evite prometer que não vai acontecer de novo. E não deixe de investigar se os sintomas não melhorarem em poucos minutos depois de deitar.

A família pergunta por que ele está tomando remédio para o intestino se nunca teve problema disso

É porque o hospital mudou várias coisas ao mesmo tempo no intestino dele. Ele está deitado, e o intestino trabalha melhor quando a pessoa se movimenta; está comendo menos e bebendo menos; recebeu remédio para dor que deixa o intestino mais lento; e, sendo honesto, evacuar numa comadre, atrás de uma cortina, é algo que quase todo mundo adia. Cada uma dessas coisas sozinha atrapalharia pouco; juntas, param o intestino. O remédio serve para desfazer isso. A dose não é fixa: eu aumento ou diminuo conforme o que acontecer, e o alvo é o intestino voltar a funcionar todos os dias, sem esforço e sem cólica. Se soltar demais, eu baixo a dose no mesmo dia. E há três coisas em que a família faz diferença de verdade: oferecer líquido com frequência, ajudar ele a sair da cama, e avisar a enfermagem quando ele quiser ir ao banheiro, para que ele não desista de pedir.

Não diga: Evite culpar o paciente por não pedir a comadre. Evite tratar o assunto como detalhe menor diante da doença principal. E não prometa efeito na mesma noite.

Explicar por que é preciso fazer o toque retal

Precisamos avaliar onde as fezes estão retidas e se há algum sinal de obstrução antes de escolher o tratamento. Dependendo do exame, pode ser necessário medicamento por boca, medida retal ou outra intervenção. Vou explicar o motivo e os cuidados antes de fazer.

Não diga: Evite fazer o exame sem explicar o que decide. Evite fazê-lo sem privacidade e sem consentimento. E evite registrar apenas que foi realizado — o que vale é o achado.

A família vai levar o paciente para casa ainda sem a força de antes

Vamos deixar por escrito o esquema, a dose máxima combinada e quando pedir orientação, sem aumentar por conta própria. Procure atendimento antes do prazo de rotina se aparecer dor forte, barriga progressivamente distendida, vômitos, sangue, desmaio ou piora importante. Não é preciso esperar três dias diante desses sinais.

Não diga: Evite entregar a orientação só de forma verbal. Evite um plano que exige mais pessoas do que a família tem em casa. E evite falar de recuperação sem marcar quem vai acompanhar e onde.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quem decide, e com que precisão, a saída do leito

É prescrição médica, com verbo, dose e horário

A saída do leito só acontece se estiver escrita como qualquer outra intervenção: sentar em poltrona até 90 minutos, duas vezes ao dia; exercícios ativos em até duas sessões de 30 minutos; deambular com apoio três vezes ao dia. Quem sustenta esta posição observa que a diretriz brasileira publicou doses precisamente para que a intervenção possa ser prescrita, auditada e cobrada, e que orientação genérica não é executada por ninguém.

Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em Unidade de Terapia Intensiva — AMIB e AMB, 2019, item de dose adequada

O médico libera; quem dosa é o fisioterapeuta

A mesma diretriz atribui à equipe multidisciplinar identificar indicações e contraindicações, mas registra que cabe ao fisioterapeuta definir o melhor modelo de intervenção, a intensidade, a periodicidade, a continuidade e a interrupção. Quem sustenta esta posição argumenta que a dose depende de avaliação funcional diária e de escalas específicas, e que um número escrito por quem não reavalia vira teto arbitrário: o paciente que toleraria mais para em 90 minutos porque está escrito 90.

Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em Unidade de Terapia Intensiva — AMIB e AMB, 2019, introdução e item de modelo de intervenção

Nem um nem outro: protocolo institucional disparado pela enfermagem

Quem sustenta esta posição parte de um dado incômodo: no Brasil, não mais de 10% dos pacientes críticos são mobilizados para além do leito, e a revisão sobre declínio funcional registra que o repouso absoluto em idosos internados costuma não ter justificativa escrita por ninguém. Se depender de prescrição individual, a cobertura fica na dependência de qual médico passou visita. Um protocolo com critérios objetivos de segurança, executado pela enfermagem por padrão e interrompido por exceção, inverte o default — e é assim que a mesma diretriz descreve os programas que funcionaram, com envolvimento da equipe multiprofissional e metas bem estabelecidas.

Diretrizes Brasileiras de Mobilização Precoce em UTI — AMIB e AMB, 2019; e Cunha e col., Rev Bras Geriatr Gerontol, 2009

Como decidir

Planejar mobilização com paciente e equipe, registrando meta, assistência, atividades permitidas e reavaliação. Médico, enfermagem e fisioterapia têm responsabilidades próprias e complementares; um protocolo institucional pode organizar o cuidado sem depender de duplicação de toda tarefa na folha médica. Quantidades são individualizadas, e nenhuma dose mínima deve sobrepor sintomas, preferência ou segurança.

Irritativo ou osmótico como primeiro degrau no paciente internado

Irritativo primeiro, porque é o mecanismo oposto ao que parou o intestino

Estudos observacionais podem encontrar ou não associação entre opioides e constipação conforme dose, duração, população e medidas usadas. Ausência de associação em uma coorte pequena não elimina o efeito farmacológico conhecido nem decide profilaxia para todos. Integrar o contexto clínico e a necessidade contínua do opioide.

Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., Hospital Sírio-Libanês e Ministério da Saúde, 2023, capítulo de sintomas gastrintestinais

Osmótico primeiro, porque é o que foi testado no paciente grave

Prevenção e tratamento de constipação são individualizados. Mobilidade, ingestão, hábito, medicamentos e acesso ao banheiro importam, mas nenhuma medida garante resposta em todos. Definir plano com alternativas e critérios de reavaliação em vez de prometer uma estratégia infalível.

Azevedo e col., Constipação intestinal em terapia intensiva, Rev Bras Ter Intensiva, 2009, com os estudos de van der Spoel e de Nassar ali descritos

A pergunta certa é outra: comece pelo que a farmácia entrega

Quem sustenta esta posição parte do elenco. Na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, o osmótico do Componente Básico é a lactulose em xarope de 667 mg/mL, e o único estimulante listado é a cáscara-sagrada, um fitoterápico que a maioria das farmácias hospitalares não dispensa; bisacodil, picossulfato, sene e polietilenoglicol não constam. O argumento é operacional e não farmacológico: uma escada cujo primeiro degrau não existe é uma escada que ninguém sobe, e a classe certa indisponível perde para a classe razoável disponível.

Rename 2024 — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, Ministério da Saúde, Componente Básico e fitoterápicos

Como decidir

Na constipação simples, escolher osmótico e/ou estimulante pelo mecanismo, tolerância e disponibilidade, com alvo de fezes confortáveis. A referência de lactulose 15–30 mL/dia é um esquema usual do produto citado, não teto universal de toda formulação ou protocolo. Doses maiores exigem justificativa, revisão e vigilância de diarreia, desidratação e eletrólitos; não equivalem por definição a tratar encefalopatia. Não aumentar dose diante de suspeita de obstrução ou impactação não resolvida.

Impactação fecal: começar por baixo ou por cima

Por baixo: com ampola cheia, a via retal é a primeira

Diante de fezes impactadas no reto, o obstáculo é mecânico e está ao alcance. A solução glicerinada age como lubrificante e emoliente e, com a água, rompe a massa fecal e distende a parede retal, promovendo peristaltismo — e o manual brasileiro de cuidados paliativos indica a via retal exatamente nas situações de impactação, intolerância oral e refratariedade ao laxante oral. Quem sustenta esta posição acrescenta o argumento de dano: laxante oral estimulante sobre ampola cheia produz cólica sem evacuação.

Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., HSL e Ministério da Saúde, 2023; e Parecer Técnico Coren-PE nº 0004/2024

Por cima: alta dose oral desimpacta e evita procedimento

Quem sustenta esta posição observa que o próprio parecer técnico do conselho de enfermagem admite a desimpactação por via oral com laxantes, ao lado da via retal, e que a via retal não é inócua: o procedimento carrega risco de perfuração intestinal, hemorragia, infecção e distúrbio hidroeletrolítico pela perda de líquido, e tem uma lista longa de contraindicações. Em paciente que tolera via oral e não tem sinal de obstrução, começar por cima poupa um procedimento invasivo e desconfortável.

Parecer Técnico Coren-PE nº 0004/2024 — CTAE, seções de indicação, riscos e contraindicações

Pelas duas pontas: retal para a rolha, oral para o que vem atrás

Quem sustenta esta posição trata as duas vias como respostas a problemas diferentes no mesmo paciente. A massa impactada no reto é obstáculo e sai por baixo; a coluna de fezes endurecidas acima dela é carga e precisa ser amolecida por cima, sob pena de o fecaloma se reconstituir em dias. O manual brasileiro reforça essa leitura ao registrar que, mesmo após a desimpactação, o esquema laxativo regular precisa ser mantido.

Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., HSL e Ministério da Saúde, 2023, tratamento farmacológico e uso retal

Como decidir

Na impactação baixa, tratamento local e eventual desimpactação manual são frequentemente úteis; local, dureza, tolerância e contraindicações definem método. Via oral pode complementar ou tratar carga proximal em paciente selecionado após excluir obstrução. Enema não é sempre inofensivo: perfuração, trauma e distúrbios podem ser graves. Não repetir toque ou procedimento automaticamente por dúvida; avaliar se imagem ou especialista resolve com maior segurança.

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O raciocínio, em voz alta

Dona Idalina Quirino tem 82 anos, 51 quilos, mora sozinha e é professora aposentada. Está no sétimo dia de internação por pielonefrite com bacteremia, já afebril há três dias, com antibiótico entrando no sétimo de dez. Em casa ela andava sem apoio dentro do apartamento e ia à padaria com bengala. Aqui está com sonda vesical desde a admissão, acesso venoso com soro de manutenção, e recebeu na folha um comprimido de codeína com paracetamol se dor forte por causa da dor lombar da admissão — checado onze vezes em sete dias. Às três da manhã, a técnica te chama: ela está agitada, tentando levantar sozinha, dizendo que precisa ir para casa. Na folha de enfermagem de ontem está escrito evacuou.

  1. O que eu vejo antes de pensar

    Dona Idalina está desperta, desatenta, não completa uma frase, não sabe onde está e insiste em sair da cama. Glicemia capilar 118. Saturação 95% em ar ambiente. Pressão 128 por 72, frequência cardíaca 92, temperatura 36,4. O abdome está globoso, timpânico à percussão, com ruídos hidroaéreos presentes e diminuídos, sem defesa e sem descompressão dolorosa, e há uma massa firme palpável no trajeto do cólon descendente. O hipogástrio está pouco palpável pela distensão. A bolsa coletora tem 40 mL desde as vinte e duas horas. Na folha de enfermagem de ontem, além de evacuou, está anotado fezes líquidas em pequena quantidade, duas vezes.

  2. O que eu penso agora

    Confusão nova em idosa internada exige avaliação imediata de suporte, glicemia e causas, incluindo delirium, e a investigação começa pelo que se corrige em minutos. Duas coisas na cena me puxam para o abdome. A primeira é a anotação de ontem: fezes líquidas em pequena quantidade, duas vezes, numa paciente que — quando eu volto no prontuário — não tinha nenhum registro de evacuação nos cinco dias anteriores. Isso não é o intestino voltando; é escape ao redor de alguma coisa. A segunda é a diurese de 40 mL em cinco horas, com sonda, o que levanta obstrução ou débito baixo. E há o opioide da folha, checado onze vezes, que ninguém prescreveu como opioide.

  3. O que eu peço, e por quê

    Avalio delirium e suas causas em paralelo. Examino sistema urinário e abdome; toque com consentimento e contraindicações verificadas. Peço eletrólitos e função renal dirigidos ao quadro. Ausência de cólica/vômito e presença de ruídos não excluem obstrução ou complicação, portanto distensão importante/piora pode exigir imagem. Não colher urina só por confusão, mas afebril e em antibiótico não tornam infecção impossível; decidir por sinais e contexto.

  4. Como a resposta muda o que eu penso

    Fezes endurecidas impactadas confirmam impactação baixa, fator potencial para desconforto e delirium. Isso não prova que explique toda confusão ou a diurese baixa, especialmente com cateter: conferir permeabilidade, bexiga, perfusão e função renal. K 3,4 e Mg 1,6 merecem interpretação e correção conforme contexto. Onze doses de codeína em sete dias mostram exposição relevante, mas não demonstram uso “de horário” nem conduta indevida da equipe.

  5. Onde eu quase errei

    Meu primeiro impulso, às três da manhã, foi prescrever haloperidol e voltar a dormir. Isso teria produzido uma senhora calada com o mesmo fecaloma, a mesma bexiga comprimida e o mesmo opioide, e a agitação teria voltado na noite seguinte com a dose maior. O segundo impulso foi ler a anotação de ontem como boa notícia e riscar o intestino da lista — foi essa leitura, feita por quem passou visita ontem, que deixou o quadro chegar até aqui.

  6. A decisão sobre o intestino

    Seleciono desimpactação conforme massa, tolerância e segurança, com enfermagem/responsável e profissional habilitado; supositório pode não bastar numa ampola repleta. Se indicado, conferir apresentação adulta e dose por unidade. Enema exige solução e volume exatos individualizados, sem escala automática até um litro; desimpactação manual pode ser necessária. Depois, manutenção com laxante apropriado, como lactulose 15 mL/dia titulada usualmente até 30 mL no esquema citado, visando conforto, não duas a três evacuações obrigatórias. Rever analgesia e necessidade de codeína, sem abandonar tratamento da dor.

  7. A decisão sobre a mobilidade e sobre as amarras

    Antes de retirar sonda, esclarecer débito baixo e possível retenção/obstrução; removê-la quando não houver indicação atual e monitorar micção desde então. Conferir ingesta real antes de suspender manutenção. Repor eletrólitos com dose adequada e reavaliar. A mobilização de uma paciente desatenta depende de cooperação e segurança: iniciar etapa tolerada, com assistência, objetivos funcionais e fisioterapia, sem prescrever automaticamente 90 minutos de poltrona e duas sessões de meia hora.

  8. O que eu digo à filha, e o que marco para amanhã

    Explico que impactação, medicamentos e distúrbios podem contribuir para a confusão, mas a resposta e a investigação mostrarão se há outras causas. Delirium pode persistir após corrigir fatores. Comparo função ao basal, planejo recuperação e reavalio evacuação, micção, atenção, sintomas e mobilidade com frequência apropriada; deterioração ou distensão progressiva não esperam a visita de amanhã.

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Faça você

Seu Belmiro Tavares tem 71 anos, 64 quilos, e está no décimo segundo dia de internação por exacerbação de doença pulmonar obstrutiva crônica. Passou os quatro primeiros dias em ventilação não invasiva intermitente e recebeu corticoide sistêmico e antibiótico; está em ar ambiente há cinco dias, sem dispneia, comendo cerca de metade da dieta. Nunca recebeu opioide nesta internação. Não evacua há seis dias. Hoje, na visita, queixa-se de barriga estufada e de saciedade precoce; nega dor em cólica e nega vômito. Ao exame: abdome muito distendido, timpânico de forma difusa, ruídos hidroaéreos presentes e diminuídos, sem defesa, sem descompressão dolorosa, sem massa palpável no trajeto colônico. Elimina flatos, e a enfermagem confirma. O toque retal encontra ampola vazia, sem fezes e sem sangue. Sinais vitais: pressão 132 por 78, frequência cardíaca 96, temperatura 36,7, saturação 94% em ar ambiente. Exames de hoje: potássio 3,0 mEq/L, magnésio 1,4 mg/dL, cálcio total 8,2 mg/dL, creatinina 0,9 mg/dL, leucócitos 9.400 sem desvio.

  1. Passo 1 — classifique o quadro entre os cinco possíveis

    Distensão importante após dias sem evacuar exige diferenciar constipação/impactação proximal, íleo, obstrução mecânica e pseudo-obstrução. Ampola vazia não descarta fecaloma, e flatos/ausência de cólica não excluem obstrução parcial. K e Mg baixos favorecem dismotilidade, mas não definem diagnóstico. Investigar extensão, duração e complicações com imagem e equipe responsável.

  2. Passo 2 — decida a primeira imagem e a pergunta que ela responde

    Imagem deve esclarecer distribuição, calibre, possível causa mecânica e complicações. Radiografia pode iniciar/acompanhar dilatação, mas TC é frequentemente necessária no quadro importante e não precisa esperar radiografia se já indicada. Não usar falta de transição aparente no raio X para confirmar pseudo-obstrução.

  3. Passo 3 — decida o que fazer nas primeiras 24 a 48 horas

    Corrigir distúrbios comprovados, rever medicamentos e planejar suporte conforme quadro. Cálcio total 8,2 mg/dL não basta para indicar reposição IV: avaliar albumina, cálcio ionizado e sintomas. Pausar dieta e descomprimir quando indicado, com balanço e reavaliações. Anticolinérgico inalatório não é retirado automaticamente se necessário para DPOC; pesar absorção, efeito e benefício. Mobilidade adaptada somente quando segura.

  4. Passo 4 — o que falta: escreva você

    Faltam três decisões, e elas são suas. Primeira: laxante entra ou não entra hoje? Diga sim ou não e justifique pelo achado do exame e pela hipótese, não pelo número de dias sem evacuar. Segunda: passadas 48 horas de manejo conservador, com obstrução mecânica afastada e sem melhora da distensão, qual é o próximo passo farmacológico, com dose, via, tempo de infusão e as duas condições de segurança que precisam estar garantidas antes da primeira dose? Terceira: quais achados, se aparecerem a qualquer momento, tiram este paciente do manejo conservador imediatamente? Escreva as três antes de olhar a resposta.

Ver como fecharíamos

Não iniciar laxante empírico enquanto se investiga distensão importante e possível íleo/obstrução. Toque vazio e flatos não descartam fecaloma proximal ou obstrução parcial. Corrigir K/Mg baixos e avaliar cálcio pelo contexto, sem repor pelo total isolado. Suporte, revisão de fármacos, imagem e avaliação seriada devem começar agora. Se confirmada pseudo-obstrução e houver necessidade de escalada, discutir neostigmina com equipe experiente; referência de 2 mg IV em 3–5 minutos, com monitorização cardiorrespiratória, atropina e ressuscitação disponíveis. Excluir obstrução mecânica e avaliar contraindicações, incluindo bradicardia/bloqueio e broncoespasmo ativo, relevante na DPOC. Não é automática após 48 h; calibre, duração, evolução e recursos também definem momento. Descompressão colonoscópica é alternativa quando indicada. Dor localizada/progressiva, defesa, febre com instabilidade, acidose/lactato crescente ou dilatação em progressão exigem avaliação urgente de isquemia/perfuração. Não aguardar prazo fixo para acionar cirurgia e suporte. Uma medida isolada não torna toda dilatação indicação de laparotomia, mas deterioração não admite observação passiva.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Retenção, impactação, opioide e outras causas podem contribuir. Com sonda, débito baixo exige verificar sistema, bexiga, perfusão e função renal; fecaloma não explica automaticamente oligúria por compressão uretral. Delirium não deve ser tratado apenas com sedação. Toque exige consentimento/cautelas; suporte urgente não espera esse exame. Infecção não é excluída por ausência de febre ou antibiótico prévio, mas cultura/antibiótico não são reflexo por confusão isolada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare pré-síncope, descondicionamento e restrição real de mobilidade. Explique o que um toque vazio e a eliminação de flatos não excluem.

Em 30 dias

Resolva as vinhetas com diferentes funções basais, riscos de exame retal e recursos. Monte plano de mobilidade e intestino com objetivos individualizados e critérios claros para interromper, investigar e retomar.

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Agora atenda

Agora atenda, sob supervisão: paciente de 76 anos com perda funcional importante e dias sem evacuação, seguida de fezes líquidas em pequena quantidade. Compare função ao basal, avalie sinais de gravidade, dispositivos e medicamentos, examine abdome e decida se toque e imagem estão indicados e são seguros. Apresente plano intestinal e de mobilidade com assistência e reavaliação. Explique à paciente e família os fatores possíveis, as incertezas e a continuidade após a alta.

Constipação, imobilismo e suas consequências – O repouso que ninguém prescreveu — Internato | OsceLabs