Clínica MédicaSíndromes do Paciente Internado

A noite da enfermaria

Agitação e insônia no internado: o que fazer e o que evitar

O hospital impede o paciente de dormir e depois trata a consequência com remédio

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

D'Alessandro MPS et al. (ed.). Manual de cuidados paliativos. 2. ed. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde, 2023. 424 p. Programa de Cuidados Paliativos no SUS, PROADI-SUS. ISBN 978-65-85051-58-3. Capítulo 16: Delirium, como diagnosticar e tratar

São Paulo (Cidade). Secretaria Municipal da Saúde. Coordenadoria de Vigilância em Saúde. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas. Hernandez EMM, Rodrigues RMR, Torres TM (org.). 1. ed. São Paulo: Secretaria Municipal da Saúde, 2017. 465 p.

Brasil. Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária; Fiocruz; Fhemig. Protocolo de segurança na prescrição, uso e administração de medicamentos (Anexo 03 dos protocolos básicos de segurança do paciente)

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 746, de 20 de março de 2024, que normatiza os procedimentos de enfermagem na contenção mecânica de pacientes. Diário Oficial da União de 3 de abril de 2024, Seção 1, p. 91

01

Responda antes de ler

Mulher de 74 anos, segundo dia de internação por descompensação de insuficiência cardíaca, hemodinamicamente estável e afebril, chama às 23h porque não dorme desde que chegou. Está lúcida, orientada, atenta e conversa em frases inteiras. Refere sensação de coração acelerado ao fechar os olhos e ansiedade intensa. Frequência cardíaca 96, pressão 148 por 88, saturação 95% em ar ambiente, glicemia capilar 112, sem dor, sem globo vesical à palpação. A filha trouxe a sacola de medicamentos de casa: entre eles há uma cartela de clonazepam 2 mg, com data de dispensação de dezoito dias atrás, que a paciente toma todas as noites há onze anos. A prescrição da internação não contém clonazepam. Qual é a conduta mais adequada agora?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e duas e quarenta de uma quinta-feira, enfermaria de clínica médica de dezoito leitos, hospital geral do interior. Você é o interno de plantão. O corredor está aceso da mesma forma que estava às três da tarde, porque a luz do corredor não tem interruptor separado, e a porta do posto de enfermagem, que fica em frente ao quarto de quatro leitos do fundo, é de mola e bate. A técnica de enfermagem que assume a noite, Doraci, para no balcão com a prancheta e diz a frase que abre este capítulo: doutor, o 4, o 9 e o 12 não estão dormindo, o senhor passa alguma coisa?

O pedido reúne três pacientes diferentes. Antes de escolher um medicamento, a equipe precisa definir se há deterioração, sofrimento ou risco imediato e avaliar cada pessoa. A história, o exame e a administração real dos medicamentos podem revelar causas tratáveis. Não há dado que permita afirmar como é feita a maior parte das prescrições de sono do país, nem quantos destes casos se resolverão sem tratamento farmacológico.

No leito 4 está o senhor Ademar Fiúza, 58 anos, 84 quilos, motorista de caminhão, terceiro dia de internação por pancreatite aguda de origem biliar, quadro leve, já reintroduzindo dieta. Ele está sentado na beira da cama com os pés no chão, camisa aberta, e a fronha está úmida. Quando você chega perto, as mãos que seguram o lençol tremem — um tremor fino, que ele tenta esconder colocando as mãos entre os joelhos. Diz que não é nada, que é só o calor, que quer ir para casa. A frequência cardíaca da tarde estava 104, a da noite está 112, e a pressão subiu de 130 por 80 para 156 por 92. Na ficha de admissão, no campo de hábitos, há uma palavra: nega. Ninguém perguntou quanto ele bebe, nem quando foi a última dose, nem quantos cigarros por dia ele fumava antes de entrar aqui há três dias.

No leito 9 está dona Zenaide Portilho, 74 anos, 61 quilos, aposentada, segundo dia de internação por descompensação de insuficiência cardíaca. Ela está lúcida, orientada, educada e infeliz. Diz que não prega o olho desde que chegou, que o coração dispara quando ela fecha os olhos, que já tentou de tudo. A filha trouxe a sacola de remédios de casa na admissão e a sacola está debaixo da cama. Dentro dela, entre a losartana e a sinvastatina, há uma cartela de clonazepam de 2 miligramas, quase no fim, com a data da farmácia de dezoito dias atrás. Ela toma um comprimido toda noite há onze anos. A prescrição da internação, impressa e checada, não tem clonazepam.

No leito 12 está o senhor Otacílio Brandão, 67 anos, 74 quilos, quarto dia de internação por agudização de doença pulmonar obstrutiva crônica. Ele está bem: a dispneia cedeu, saturando 94% em ar ambiente, já anda até o banheiro sozinho. Está prescrito prednisona 40 miligramas pela manhã. Você abre a folha de checagem dos últimos três dias e a prednisona está checada às 16h, às 15h40 e às 16h20 — a farmácia satélite entrega o carrinho da enfermaria no meio da tarde, e a dose da manhã virou dose do fim do dia sem que ninguém tenha decidido isso. Ele está lúcido, alegre, com vontade de conversar, e diz que dorme às cinco da manhã.

E há o leito 7, sobre o qual ninguém te chamou. Doraci comenta de passagem, enquanto vocês voltam para o posto: o 7 tá quietinho, esse não dá trabalho. O 7 é o senhor Norberto Sampaio, 81 anos, sexto dia de internação por infecção de pé diabético, já com antibiótico ajustado pela cultura e com a ferida em melhora. Você entra no quarto dele por curiosidade. Ele está de olhos abertos, virado para o teto, com a bandeja do jantar intacta na mesa de cabeceira. Responde ao seu nome com dois segundos de atraso, diz sim, diz não, e volta a olhar para cima. A filha esteve aqui à tarde e disse que ele estava cansado. Você pergunta se ele sabe onde está e ele diz que sim, no hospital. Você pergunta que dia é hoje e ele não responde. A frase que a técnica usou — esse não dá trabalho — acabou de virar um achado clínico.

Há quatro problemas a esclarecer: provável abstinência de álcool e nicotina, possível retirada de clonazepam, horário de corticoide que pode contribuir para insônia e alteração cognitiva/funcional que exige avaliar delirium hipoativo. Qualquer um pode se agravar, especialmente abstinência grave e depressão respiratória por sedativos. A prioridade é definida por ABC, gravidade e evolução, não por quem reclama menos. O relógio narrativo não autoriza esperar para tratar ameaças.

03

Quem adoece disso

Não existe mistério sobre por que o paciente internado não dorme, e existe medida brasileira do assunto. Um estudo transversal conduzido em treze unidades de internação de um hospital universitário do interior paulista entrevistou 117 pacientes clinicamente estáveis, internados havia pelo menos 72 horas, com idade média de 48 anos e cerca de um quarto deles com 60 anos ou mais. Perguntou-se, item a item, com que frequência semanal cada fator atrapalhava o sono. O que a lista devolve não é um retrato do paciente: é um retrato do hospital.

Acordar mais cedo do que em casa foi relatado em cinco ou mais noites por semana por 55,6% dos entrevistados, e ter o sono interrompido, por 52,1%. Dormir menos do que gostaria apareceu em 38,5%, e dormir mais cedo do que em casa, em 35,9%. Ou seja: mais da metade dos participantes dessa amostra tem o sono partido quase todas as noites, sem que o estudo permita separar causalmente doença, ambiente e cuidados em cada pessoa. Quando o interno recebe o pedido de algo para dormir, ele não está diante de um paciente insone: está diante de um paciente cujo sono foi desmontado por um ambiente, e a droga que ele vai prescrever não desmonta menos.

Entre os fatores apontados como responsáveis pelo sono perturbado, os três primeiros da lista são iluminação excessiva, em 34,2%, recebimento de cuidados pela equipe de enfermagem, em 33,3%, e distúrbios orgânicos como dor e fadiga, em 26,5%. Barulho na enfermaria e rotina da enfermaria empataram em 23,9% cada, e medo e preocupação apareceram em 20,5%. Some os itens que dependem exclusivamente da instituição — luz, cuidados noturnos, barulho, rotina — e eles ocupam os quatro lugares que o interno costuma achar que são do paciente. Dezesseis dos 117 acrescentaram espontaneamente detalhes que não estavam no questionário e que qualquer plantonista reconhece: o barulho da tampa do lixo fechando, conversa em voz alta no corredor e a entrada abrupta da equipe no quarto acendendo a luz. A consequência clínica é direta: se um terço dos pacientes acusa a luz e um terço acusa o cuidado noturno, apagar a luz e reagrupar o cuidado é intervenção de maior alcance populacional do que qualquer hipnótico que você possa escrever.

No estudo de 117 pacientes, 87 usavam medicamentos em casa, mas isso não demonstra que a maioria usava hipnótico. Sessenta e dois tinham rotina de preparo do sono e 39 sentiam falta dela; os dados sustentam perguntar e adaptar hábitos, sem representar qualquer enfermaria atual. Cafeína e tabagismo também foram relatados, permitindo explorar exposição e abstinência com cada paciente, sem assumir que o serviço mantém café ou interrompe nicotina sempre da mesma forma.

04

Por que acontece o que acontece

O sono é um processo com dois motores, e o hospital estraga os dois. O primeiro é homeostático: quanto mais tempo acordado, maior a pressão para dormir. O segundo é circadiano, um relógio interno de aproximadamente vinte e quatro horas que precisa ser ajustado todos os dias por sinais externos, e o sinal externo mais forte é a luz. Luz clara pela manhã adianta o relógio e consolida a vigília; escuridão à noite libera melatonina endógena e abre a porta do sono. Uma enfermaria com corredor aceso a noite inteira e janela fechada de dia entrega ao paciente exatamente o oposto dos dois sinais: penumbra constante de dia, claridade constante de noite. O relógio, sem âncora, começa a correr livre — e o resultado clínico é o paciente que cochila em blocos curtos o dia inteiro e fica desperto às três da manhã, o que a equipe lê como agitação noturna e trata com sedativo.

O sono alterna estágios em ciclos de duração variável. Fragmentação pode reduzir continuidade e qualidade, mas despertar de duas em duas horas não elimina necessariamente todas as fases restauradoras, que não esperam o fim de um ciclo completo para ocorrer. Agrupar cuidados ajuda quando seguro; frequência de sinais depende do risco, e não se deve retirar vigilância necessária pela suposição de que toda aferição cause mais dano que benefício.

Dor pode fragmentar o sono e a privação de sono pode aumentar sofrimento. Avaliar causa, intensidade, padrão e efeito funcional. Analgesia regular é útil quando a dor é persistente, enquanto sintomas intermitentes podem permitir uso conforme necessidade com critérios claros. A escolha deve evitar tanto subtratamento quanto sedação excessiva.

Duas linhas de oito horas no leito alternam sono em verde e vigília em coral; a segunda mostra mais interrupções e menor tempo total de sono.
Janelas iguais de tempo no leito podem conter quantidades e continuidade de sono diferentes. Luz, ruído, sintomas e intervenções podem fragmentar o sono. Organizar os cuidados para reduzir despertares evitáveis, preservando monitorização e intervenções necessárias. São exemplos ilustrativos; não representam registros de polissonografia ou ciclos de sono medidos.

A cronologia da abstinência depende da substância, dose, duração e redução do consumo. Na abstinência alcoólica, manifestações iniciais podem aparecer em 6–24 horas, com complicações posteriores e variação individual. Benzodiazepínicos de ação longa podem produzir sintomas mais tardios. O calendário ajuda a formular a hipótese, mas não confirma a causa da agitação; avaliar delirium, infecção, hipóxia, dor e outros fatores em paralelo.

O quinto mecanismo é a nicotina, e ele é quase invisível porque ninguém o nomeia. O fumante com dependência mantém receptores nicotínicos cronicamente estimulados; a interrupção súbita produz irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, aumento do apetite e insônia, com pico nos primeiros dias e duração de semanas. Pacientes dependentes podem apresentar abstinência de nicotina após a interrupção, com intensidade e início variáveis. A diferença entre esse paciente ser tratado e não ser tratado está numa pergunta de admissão e num item de prescrição: a reposição de nicotina existe no Componente Estratégico da lista nacional, em adesivo transdérmico de 7, 14 e 21 miligramas, goma de mascar de 2 miligramas e pastilha de 2 miligramas. É um dos poucos lugares deste capítulo em que existe uma droga que resolve, e ela quase nunca é lembrada.

Medicamentos podem alterar sono por mecanismos diferentes. Corticoide sistêmico, beta-agonistas e estimulantes merecem revisão de dose e horário; formulação inalatória não implica o mesmo efeito de dose sistêmica. Não suspender tratamento respiratório necessário apenas para melhorar o sono. Avaliar indicação, alternativas e risco com a equipe.

O sétimo mecanismo é a bexiga, e ele merece parágrafo próprio porque é o mais rápido de resolver e o mais frequentemente esquecido. Retenção urinária aguda e globo vesical produzem inquietação, agitação e insônia sem que o paciente necessariamente relate dor — sobretudo no idoso, no diabético com neuropatia e em quem recebeu anticolinérgico ou opioide. O paciente não diz que está com a bexiga cheia; ele fica inquieto, tenta sair do leito, puxa o lençol e é descrito como agitado. Palpar o hipogástrio leva dez segundos. Do outro lado da mesma moeda está o cateter vesical mantido por hábito, que dói, incomoda, produz espasmo e é uma das razões pelas quais o paciente não dorme — e cuja indicação, revista, muitas vezes não existe mais.

O oitavo e último mecanismo é o que torna tudo isso perigoso, e é farmacológico. O envelhecimento reduz a água corporal total e aumenta a gordura, o que prolonga a meia-vida de fármacos lipofílicos como os benzodiazepínicos; reduz o metabolismo hepático de primeira passagem e a depuração renal; e, o que mais importa, aumenta a sensibilidade do sistema nervoso central à mesma concentração plasmática. A soma dessas três coisas significa que a dose que sedou o adulto de quarenta anos por seis horas pode sedar o de oitenta por vinte, e com maior profundidade. A tradução clínica é a cadeia que este capítulo vai percorrer inteira: sedação residual pela manhã, marcha instável, queda, fratura, confusão, aspiração. Não é uma lista de efeitos adversos possíveis: é uma sequência causal com um começo escrito à caneta às onze da noite.

05

Como se apresenta de verdade

A queixa chega quase sempre com as mesmas cinco palavras, ditas por outra pessoa: ele não está dormindo. Elas descrevem um comportamento observado do corredor e não um diagnóstico, e servem de porta de entrada para quadros que exigem condutas opostas. O trabalho deste bloco é abrir essas cinco palavras em espectro, porque o erro mais caro da noite não é escolher a droga errada: é não perceber que o pedido de sedativo estava descrevendo outra coisa.

Percurso de aprendizagem

Priorizar pela gravidade, examinar e conferir medicamentos em paralelo. Reconhecer também mudança em quem está quieto, sem atribuir diagnóstico apenas ao comportamento.

Tratar causas e organizar ambiente com a equipe, preservando vigilância e doses essenciais. Indicar medicamento pelo alvo, com dose, monitorização e prazo.

Confrontar alívio noturno com alerta, respiração e função; ajustar uso crônico com prevenção de abstinência e comunicação clara no seguimento.

Insônia, agitação e delirium: três quadros pelo mesmo telefonema

A primeira separação é a que decide tudo o que vem depois, e ela se faz com duas perguntas na beira do leito, não com exame. A primeira: o paciente está atento? A segunda: isto começou hoje?

Na insônia hospitalar, o paciente está desperto, orientado, atento, coerente e infeliz. Ele conversa com você em frases inteiras, acompanha o raciocínio, reclama do barulho, sabe onde está e que horas são. Não há flutuação, não há desatenção, não há alteração de conteúdo do pensamento. É um paciente lúcido que não consegue dormir, e a queixa dele é uma queixa legítima sobre o ambiente e sobre o corpo — dor, falta de ar, bexiga, medo, síndrome de pernas inquietas, ou simplesmente a ausência do ritual que ele tinha em casa. O sofrimento é real e a conduta é ambiental antes de ser farmacológica.

Agitação é um sinal, não diagnóstico. Desatenção/flutuação aguda sugere delirium; atenção preservada não limita causas a reação comportamental: abstinência, acatisia, dor, mania, psicose e outras condições também podem estar presentes. História, exame e risco orientam tratamento e urgência.

Delirium hipoativo pode ser pouco percebido porque há menos inquietação. Lentificação nova, alteração de interação e recusa alimentar justificam avaliar ABC, glicose, basal, atenção e causas. Não basta silêncio para diagnosticar delirium nem para decidir que é sempre o paciente mais grave; prioridade depende do quadro clínico.

Aplicar a abordagem formal do capítulo de delirium quando houver suspeita. Evitar hipnótico para tratar desatenção, mas não afirmar que é o único erro noturno capaz de causar morte: abstinência não tratada, depressão respiratória e deterioração não reconhecida também exigem ação pronta.

A agitação do internado não é a agitação de quem chega pela porta

Existe uma agitação que exige equipe reunida, desescalada verbal treinada, sedação rápida e, no limite, contenção mecânica. Ela é o assunto do capítulo de agitação psicomotora no pronto-socorro, na apostila de síndromes da emergência, e é lá que estão a técnica de abordagem, a escolha de esquema por cenário e o que cada norma brasileira exige da contenção. Aquela agitação tem uma marca: risco imediato de dano, ao paciente ou a terceiros, agora.

Inquietação leve muitas vezes responde a escuta e correção de desconforto. Contudo, retirar máscara essencial, tentar sair sem equilíbrio ou manipular dispositivo vital pode representar risco imediato mesmo sem agressividade. Avaliar função do dispositivo, hipoxemia, consciência e segurança antes de classificar como problema comportamental de baixa gravidade.

Chamar ajuda diante de risco imediato e avaliar causas em paralelo à proteção. Ausência de violência não cria uma janela garantida de quinze minutos; hipoglicemia, hipoxemia e alteração de consciência devem ser atendidas prontamente. Desescalada, ambiente e eventual contenção seguem indicação, menor restrição possível e monitorização.

Vale registrar o limite normativo, porque ele costuma ser citado de memória e errado. A resolução do Conselho Federal de Enfermagem em vigor sobre contenção mecânica, de março de 2024, autoriza o procedimento em uma única circunstância: quando não houver outro recurso capaz de impedir que o paciente se machuque ou machuque alguém naquele momento. Ela ainda condiciona a aplicação à supervisão direta do enfermeiro, obriga a equipe de enfermagem a monitorar o paciente contido, e manda o prontuário registrar por que se conteve, por quanto tempo, o que foi avaliado durante e quais eventos adversos ocorreram. Essa resolução revogou expressamente a de 2012, que material de treinamento antigo ainda cita. Inquietação noturna sem risco imediato não preenche o critério do artigo primeiro — e um paciente contido dorme menos, não mais.

As abstinências que ninguém perguntou

Toda internação é uma interrupção súbita de tudo o que o paciente consumia. Quatro dessas interrupções produzem insônia e agitação com hora marcada, e as quatro são invisíveis se a anamnese de admissão registrar apenas a palavra nega no campo de hábitos.

A abstinência alcoólica depende de padrão de consumo, redução recente e história prévia. Sintomas podem começar poucas horas após a redução, frequentemente em 6–24 horas; complicações podem aparecer depois, com cronologia variável. Não excluir abstinência porque ainda há álcool detectável nem reduzir todo caso a uma janela rígida de 12–72 horas. Tremor, sudorese e taquicardia também exigem diferenciais.

A abstinência de benzodiazepínico é o espelho da anterior, porque o mecanismo é o mesmo, e é produzida pelo hospital com uma frequência que deveria envergonhar. O paciente usa clonazepam, diazepam ou alprazolam há anos; a admissão não pergunta, ou pergunta e não prescreve porque a droga não está na lista da instituição; e a retirada abrupta começa a cobrar. Com fármaco de meia-vida longa como o clonazepam, o quadro se instala mais tarde, do segundo ao quarto dia, o que faz a equipe procurar causas novas para uma piora que é retirada. A apresentação é insônia intensa, ansiedade, tremor, hipersensibilidade a som e luz, e em casos graves confusão e convulsão. O boletim brasileiro de segurança do uso de medicamentos que recomenda retirar benzodiazepínico do idoso faz a ressalva explícita de observar o risco de síndrome de abstinência na retirada abrupta: a decisão de retirar é correta, e o modo de retirar é o que separa a boa da má prática.

Fumantes dependentes podem desenvolver abstinência nas primeiras horas ou dias após redução, com intensidade variável; não ocorre síndrome sintomática em cem por cento. Perguntar quantidade, padrão e último uso e avaliar desejo de parar. Reposição pode aliviar sintomas e apoiar cessação, com dose e contraindicações conferidas e continuidade planejada.

A quarta é a abstinência de opioide, no paciente que usava analgesia opioide crônica e teve a dose reduzida ou interrompida na admissão, ou que fez uso hospitalar prolongado e foi desmamado rápido. Produz insônia, inquietação, midríase, piloereção, câimbra abdominal, diarreia e bocejos repetidos — e a combinação de insônia com pupilas dilatadas e bocejos numa madrugada é praticamente diagnóstica. A conciliação medicamentosa da admissão e da alta é o instrumento que evita as três últimas, e ela tem capítulo próprio na apostila de prescrição e cuidado do paciente internado; o que interessa aqui é reconhecer o produto do erro quando ele acorda o andar.

A insônia que já vinha de casa, e o que a admissão fez com ela

Boa parte dos pacientes que não dormem no hospital não dormia bem antes, e a internação apenas removeu o que os fazia dormir. Isso aparece de três formas.

Uso crônico de benzodiazepínico exige reconciliação e avaliação de dependência. Retirada abrupta pode causar abstinência grave; manter exatamente a dose prévia também pode ser inadequado em toxicidade, queda, doença respiratória ou mudança de metabolismo. A equipe define manutenção, ajuste ou redução gradual supervisionada, incluindo durante a internação quando necessário.

A segunda é a rotina perdida. No estudo brasileiro citado, 62 dos 117 pacientes descreveram ter em casa uma rotina de preparo para dormir, e 39 sentiam falta dela no hospital. Rotina não é metáfora: é banho no horário, é a novela, é o chá, é rezar, é a televisão baixa, é o travesseiro. Uma parte disso cabe dentro do hospital e é gratuita, e perguntar qual era é anamnese, não gentileza.

A terceira é a insônia crônica prévia de fato, com meses de evolução, associada a transtorno de humor ou de ansiedade, a dor crônica, a apneia obstrutiva do sono ou a trabalho noturno. Esse paciente não vai ser resolvido em uma internação, e tentar resolvê-lo em uma internação é como o problema piora: entra o hipnótico, entra o segundo, e ele sai com uma receita que não tinha. A conduta correta é a que dá menos satisfação imediata: tratar o que a internação pode tratar, escrever a hipótese na alta e encaminhar. Prometer a resolução do sono de dez anos numa noite de plantão é uma promessa que se paga com receita.

O que muda conforme quem está no leito

No idoso, tudo o que este capítulo descreve fica mais rápido e mais grave. A sensibilidade do sistema nervoso central à mesma concentração plasmática é maior, a meia-vida dos benzodiazepínicos é mais longa e a reserva de equilíbrio e de cognição é menor. O boletim brasileiro sobre medicamentos potencialmente inadequados para idosos lista os benzodiazepínicos entre os fármacos a evitar exatamente por isso, e enumera o que eles produzem nessa faixa: sedação pronunciada, confusão, déficit cognitivo, delirium, quedas, fraturas, acidentes automotores e agravamento de disfunção respiratória. A alternativa que o próprio boletim nomeia não é outro comprimido: são as medidas não farmacológicas de higiene do sono.

Doença hepática pode alterar metabolismo e sensibilidade a sedativos, de modo diferente entre fármacos. Avaliar gravidade, encefalopatia, interações e dose, sem afirmar que todos se acumulam igualmente ou que não é possível acompanhá-los clinicamente.

Disfunção renal modifica a segurança de alguns sedativos, especialmente os com metabólitos ativos renais, como pode ocorrer com midazolam. Outros dependem predominantemente de metabolismo hepático. Não aplicar a mesma redução a todo medicamento; conferir produto, indicação, resposta e monitorização.

Doença pulmonar e apneia aumentam preocupação com depressão respiratória, especialmente ao associar sedativo e opioide. Insônia tem várias causas, e oximetria não responde sozinha sobre ventilação ou apneia. Avaliar sintomas, frequência/esforço respiratório, consciência e suporte, solicitando investigação dirigida e evitando sedação empírica.

Cuidados paliativos incluem alívio de dor, dispneia, ansiedade e insônia com objetivos individualizados. Sedação paliativa é intervenção específica para sofrimento refratário, proporcional, discutida e monitorizada; não se confunde com prescrever hipnótico para toda dificuldade de dormir no fim de vida.

O que não é insônia e está se apresentando como insônia

Quatro quadros chegam disfarçados de dificuldade para dormir e têm tratamento próprio, nenhum deles hipnótico.

A síndrome das pernas inquietas se apresenta como necessidade irresistível de mexer as pernas, que piora no repouso e à noite e alivia com o movimento. O paciente descreve como formigamento, incômodo ou nervoso nas pernas, e passa a noite andando pelo corredor. É frequente na doença renal crônica, na deficiência de ferro e na gestação, e piora com antidopaminérgicos — inclusive metoclopramida e haloperidol, dois fármacos que a enfermaria distribui com facilidade. Prescrever antipsicótico para esse paciente inquieto piora exatamente o que o mantém acordado.

A dispneia paroxística noturna e a ortopneia da insuficiência cardíaca descompensada aparecem como acordar sobressaltado no meio da noite ou como não conseguir deitar. O paciente diz que não dorme; o dado clínico é quantos travesseiros ele precisa. Sedar aqui é adiar o diagnóstico de uma congestão que precisa de diurético.

A acatisia induzida por antipsicótico ou por metoclopramida é uma inquietação motora interna, com incapacidade de ficar parado, que o paciente descreve como aflição e a equipe descreve como agitação. Ela costuma aparecer horas a dias depois da introdução da droga, e o reflexo de tratá-la com mais antipsicótico fecha um ciclo que se retroalimenta. A pergunta que a denuncia: isto começou depois que entrou alguma medicação nova?

E a dor mal caracterizada, sobretudo no paciente que não verbaliza bem — o idoso com déficit cognitivo, o afásico, o paciente com rebaixamento leve. Nele, a dor se apresenta como careta, resistência ao toque, gemido, agitação e insônia, e a única forma de encontrá-la é procurá-la ativamente, com avaliação estruturada e com um teste terapêutico de analgesia. Nesses pacientes, o analgésico prescrito em horário fixo faz mais pelo sono do que qualquer sedativo, e essa é uma frase que se comprova numa única noite.

Aprender com uma noite de enfermaria: avaliação, resposta e passagem de cuidado

A aprendizagem começa ao transformar um pedido vago em uma pergunta clínica. Quando alguém solicita algo para dormir, descubra quem observou o problema, o que aconteceu e há quanto tempo. O paciente permaneceu acordado, tentou levantar, chamou repetidamente ou ficou desorientado? A diferença importa porque uma mesma frase pode descrever sofrimento, uma necessidade concreta ou deterioração. Escute o relato sem descartá-lo como ansiedade da família, mas também sem convertê-lo automaticamente em indicação de sedativo. Apresente ao supervisor uma descrição observável: desde quando, em que contexto e acompanhada de quais sinais. Isso permite decidir a prioridade antes de escolher uma receita.

Ao chegar, observe primeiro o que pode exigir ação imediata. Veja se a pessoa responde como habitualmente, se fala frases completas, se respira com esforço e se há mudança de cor ou de comportamento. Confirme sinais vitais e glicemia quando a apresentação indicar. Esses dados devem ser interpretados em conjunto e comparados à basal: um número isolado aparentemente aceitável pode coexistir com uma mudança importante. Se o paciente estiver deteriorando, acione o responsável e o suporte disponível e permaneça no atendimento. A entrevista detalhada sobre sono pode continuar depois que as ameaças imediatas estiverem sendo tratadas.

Perguntar como era o sono antes da internação evita criar uma doença nova a partir de uma expectativa inadequada. Há pessoas que dormem tarde, acordam cedo, cochilam ou usam rituais próprios. Pergunte o que o paciente considera ruim e qual é a consequência durante o dia: cansaço, sofrimento, incapacidade de participar do tratamento ou apenas diferença em relação à rotina. Investigue também se ele teve oportunidade de dormir. Horas de luz, ruído, intervenções e sintomas modificam essa oportunidade. O objetivo não é impor um horário considerado ideal, mas ajudar a pessoa a descansar dentro das necessidades do cuidado.

Distinguir observação de inferência é uma habilidade central. A anotação não dormiu pode significar que a técnica encontrou o paciente acordado em duas visitas; não demonstra vigília contínua a noite inteira. Por outro lado, a ausência de chamadas não demonstra sono reparador: pode haver prostração ou dificuldade de pedir ajuda. Registre os limites do que sabe e use perguntas concretas para preencher lacunas. Em uma discussão de caso, dizer foi encontrado acordado em três momentos é mais informativo que dizer passou a noite em claro sem essa confirmação. A mesma disciplina deve orientar a leitura de folhas de checagem e relatos familiares.

Considere um paciente lúcido que se queixa de dor no ombro ao virar e evita mudar de posição. Antes de classificar insônia primária, caracterize a dor, examine o local e confira quando a última analgesia foi administrada. Pergunte se ele entendeu como pedir resgate e se consegue acionar a campainha. Se há dor persistente, a equipe pode reorganizar a analgesia e os horários; se ela é episódica, critérios claros de resgate podem bastar. Depois, reavalie intensidade, conforto ao mover e sonolência. O sucesso não é apenas ter administrado um analgésico, mas ter reduzido sofrimento sem comprometer consciência, respiração ou segurança.

Um segundo paciente relata inquietação, não consegue achar posição e tenta levantar repetidamente. Esse comportamento não distingue sozinho ansiedade de retenção urinária, abstinência, dor, dispneia ou delirium. Procure a necessidade por trás da ação e ofereça comunicação simples: o que incomoda, o que ele tenta fazer e o que o ajudaria naquele momento. Se houver dificuldade de comunicação, observe expressão, gestos, dispositivos e contexto e busque alguém que conheça sua basal. Evite uma entrevista longa e confusa em quem está desatento; adapte a avaliação e peça ajuda. A organização do exame também pode diminuir a agitação.

Reconhecer delirium exige olhar para atenção, início agudo e flutuação, não apenas para orientação no tempo. Uma pessoa pode dizer o nome do hospital e ainda ter dificuldade importante para sustentar atenção; outra pode errar a data por barreira de linguagem ou desconhecimento sem estar em delirium. Escolha instrumento apropriado, garanta condições de aplicação e registre fatores que limitam o resultado. Se a avaliação não for confiável por sedação profunda ou dificuldade de interação, explique isso. A incerteza não dispensa investigar deterioração e causas tratáveis. Ao apresentar, descreva também o que mudou em relação ao dia anterior.

A reconciliação de medicamentos precisa alcançar o que a pessoa realmente usa. Nome na lista, dose prescrita e dose tomada podem diferir. Pergunte sobre comprimidos guardados na bolsa, uso eventual, gotas, medicamentos emprestados e produtos para dormir sem receita. Quando a informação for incerta, confira registros e converse com familiar ou equipe de referência, respeitando privacidade. Não transforme a falta de uma informação em certeza de não uso. Para benzodiazepínicos, essa diferença pode mudar risco de abstinência e de toxicidade; para outros medicamentos, pode revelar uma interação ou duplicidade que explica o quadro noturno.

No uso crônico de benzodiazepínico, duas perguntas devem coexistir: há risco de abstinência se interromper e há risco de dano se mantiver a dose atual? Um paciente pode ter dependência física e, ao mesmo tempo, estar mais vulnerável por doença respiratória, alteração hepática ou outra sedação. A resposta requer médico responsável, reconciliação cuidadosa e plano explícito. Não reduza o problema a manter porque usa em casa ou parar porque é idoso. A decisão deve prever observação, alternativa quando necessária e continuidade após a alta. Ao interno cabe reunir os dados, reconhecer sinais de risco e acompanhar se o plano foi entendido e executado.

A entrevista sobre álcool deve evitar rótulos que fazem perder informação. Pergunte quantidade em unidades reconhecíveis, frequência, última ingestão, reduções recentes e experiências anteriores de abstinência. Uma pessoa pode minimizar consumo por vergonha ou não considerar certas bebidas relevantes; explicar por que a pergunta ajuda ao tratamento favorece um relato mais útil. Convulsão prévia, confusão em retiradas anteriores e sintomas atuais modificam o risco. Não se deve esperar que o paciente admita um diagnóstico para reconhecer o quadro clínico. Documente o relato como relato, sem completar a história com suposições sobre comportamento ou intenção.

Quando há suspeita de abstinência, organize também o que será acompanhado após o tratamento: sinais vitais, tremor, sudorese, nível de consciência, respiração e capacidade de interação. Um escore não substitui exame e pode ser inadequado em delirium ou em quem não consegue responder. Redução do escore após sedação excessiva não é, por si só, prova de tratamento bem sucedido. A equipe precisa distinguir alívio dos sintomas de depressão do sistema nervoso central. O plano deve dizer quem reavalia, em quanto tempo e o que exige escalonamento. Essa previsão vale mais que uma prescrição isolada de resgate sem acompanhamento.

A dependência de nicotina pode aparecer como irritabilidade, dificuldade de concentração e desconforto, mas não explica automaticamente toda agitação. Investigue consumo e sintomas e avalie contraindicações antes de propor reposição. Explique o objetivo ao paciente e combine como a resposta será observada, inclusive eventual interferência do adesivo no sono. A apresentação disponível e o esquema devem ser conferidos, pois dose inicial e redução não são iguais em todas as combinações. A internação oferece oportunidade de apoio, sem exigir que a pessoa resolva toda a cessação naquela noite para receber alívio e tratamento adequados.

Reorganizar horários pede cooperação entre profissionais. Um medicamento escrito para a manhã pode estar sendo entregue tarde por razões de logística; uma coleta pode ter horário fixo por rotina do setor. Identifique o que de fato pode mudar sem prejudicar o tratamento e leve uma proposta concreta à equipe responsável. Não altere silenciosamente um horário crítico nem atribua culpa antes de entender o processo. Depois da mudança, confira se ela ocorreu e se ajudou. Uma recomendação que não chega à prescrição, à administração e à passagem de plantão permanece incompleta, mesmo quando o raciocínio clínico estava correto.

Agrupar cuidados pode ampliar o período de descanso, mas não permite dispensar monitorização necessária. O paciente que recebe uma intervenção com risco de depressão respiratória, por exemplo, pode precisar de observação justamente enquanto está dormindo. Explique à família que o plano busca equilibrar descanso e segurança e diferencie interrupções evitáveis de avaliações indispensáveis. Revise também a possibilidade de técnicas menos incômodas e de comunicação antecipada. O simples aviso do que acontecerá durante a noite reduz surpresa e ajuda o paciente a expressar preferências. Ajustes devem ser reavaliados quando a gravidade ou o tratamento mudam.

Medidas ambientais funcionam melhor quando específicas. Em vez de escrever higiene do sono, identifique o que será feito: reduzir luz quando possível, diminuir conversa próxima ao leito, deixar campainha e objetos necessários acessíveis, conferir óculos e aparelho auditivo e combinar um horário aproximado para cuidados agrupáveis. A proposta precisa caber na realidade daquele quarto e daquele paciente. Não impor silêncio absoluto a quem precisa chamar por dispneia nem escurecer um trajeto que aumenta risco de queda. O resultado deve ser perguntado ao paciente e observado pela equipe, permitindo ajustar o plano na noite seguinte.

A presença familiar pode apoiar orientação e reduzir medo, desde que o paciente aceite e as condições permitam. Explique o papel de forma concreta: falar com calma, lembrar onde está, ajudar a usar recursos sensoriais e chamar a equipe diante de mudança. Não transferir ao acompanhante a responsabilidade de vigiar uma pessoa instável ou conter fisicamente comportamentos perigosos. Se a família estiver exausta, reconhecer essa limitação e reorganizar apoio faz parte do cuidado. A conversa deve evitar prometer que uma foto, um relógio ou a presença de alguém substituirá todo tratamento; são componentes de um plano integrado.

Antes de administrar um hipnótico excepcionalmente indicado, pense no que acontecerá depois. O paciente poderá precisar levantar para urinar? Consegue usar a campainha? Recebeu outro sedativo? Há tempo e condições para acompanhamento? A dose deve ser adequada à apresentação e ao paciente, e o plano precisa incluir prevenção de queda e reavaliação. Escrever apenas se necessário deixa indefinidos motivo, limite e resposta esperada. Peça ao supervisor que explicite os critérios de uso e o que fazer se não funcionar. Evite sucessivas adições de medicamentos durante a mesma noite sem reconsiderar o diagnóstico e os riscos acumulados.

Se surgir sonolência depois de uma intervenção, a relação temporal merece atenção, mas não encerra o diagnóstico. Avalie respiração, oxigenação, glicemia e demais sinais, confirme medicamentos efetivamente recebidos e peça ajuda conforme gravidade. O quadro pode envolver efeito de fármaco, piora da doença ou ambos. Não aguarde a passagem de plantão para descobrir se o paciente acordará sozinho. Quando houver suspeita de evento adverso, documente sintomas, horários e condutas e comunique pelo fluxo apropriado. Isso permite tratar o episódio e prevenir a repetição na próxima administração, sem confundir investigação de fatos com atribuição precipitada de culpa.

A manhã seguinte deve reunir dois pontos de vista: o que foi observado pela equipe e como o paciente se sente. Pergunte se descansou, se permaneceu com dor ou medo e se acordou tonto, confuso ou fraco. Compare com a capacidade de participar da alimentação, da fisioterapia e das decisões do dia. Uma noite com menos chamadas pode ter sido pior se resultou em sedação e perda funcional. Por outro lado, não dormir o número de horas esperado não significa fracasso se houve melhora de conforto e manutenção de segurança. Defina uma meta realista para a noite seguinte com base nesses resultados.

A passagem de cuidado deve permitir que quem chega entenda por que cada medida existe. Inclua queixa inicial, avaliação, hipótese, medidas executadas, horários e resposta, além de pendências e critérios para chamar ajuda. Se a droga foi prescrita mas não foi possível confirmar administração, diga exatamente isso. Se a dose habitual foi modificada, explique o motivo e quem deve revisar. Não use melhorou como substituto de descrição: informe, por exemplo, que a dor diminuiu, a atenção permaneceu estável e não houve nova tentativa de levantar sem apoio. Dados concretos evitam repetir intervenções ou interpretar alívio como prova de cura.

No planejamento da alta, revise medicamentos iniciados apenas durante a internação. Pergunte se ainda há indicação e se a manutenção foi uma decisão ou simples cópia da última prescrição. O plano pode envolver suspensão, uso breve com prazo ou redução gradual supervisionada, conforme medicamento e história. Explique ao paciente o que mudou em relação ao tratamento de casa e por quê. Quem já usava benzodiazepínico precisa de continuidade segura, e quem começou um hipnótico transitório não deve sair com renovação indefinida por inércia. Informe sinais que justificam contato e identifique quem acompanhará o plano.

Um exercício útil com o supervisor é comparar duas noites do mesmo paciente. Na primeira, ele estava desorientado e tentou retirar o acesso; na segunda, estava lúcido, mas incomodado pela dor e pelo ruído. Pergunte quais medidas permanecem, quais devem mudar e quais medicamentos perderam indicação. A resposta ensina que repetir a prescrição não equivale a manter um raciocínio adequado. A mudança do contexto pode modificar o benefício e o risco de cada intervenção. Registre a decisão em termos que a equipe consiga executar e depois confira a resposta, fechando o ciclo de cuidado.

Outro exercício é apresentar um caso em que os dados não convergem. O paciente diz ter dormido mal, a acompanhante relata sono quase contínuo e a enfermagem registrou sonolência após medicamento. Em vez de escolher um relato como verdade absoluta, esclareça períodos, despertares, qualidade percebida e nível de consciência. Procure sintomas e efeitos adversos e explique a incerteza ao supervisor. Essa postura evita tanto aumentar sedação por uma queixa isolada quanto desconsiderar sofrimento porque alguém o viu de olhos fechados. O raciocínio clínico amadurece quando consegue trabalhar com informação imperfeita sem inventar uma certeza.

Por fim, avalie sua própria atuação por decisões observáveis. Você identificou uma ameaça, ouviu o paciente, confirmou a medicação habitual, examinou antes de propor mudança e voltou para avaliar a resposta? Conseguiu pedir ajuda com uma pergunta concreta e entregar um plano compreensível a quem assumiu? Esses elementos formam competência clínica mais relevante que decorar uma lista de doses para insônia. Discutir uma dificuldade real com a equipe permite aperfeiçoar a próxima noite. O aprendizado do internato inclui reconhecer limites, usar os recursos do serviço e continuar responsável pelas pendências até que sejam efetivamente assumidas.

Conferência breve com o supervisor

Ao discutir a noite, selecione uma decisão que mudou após a reavaliação. Explique o que você pensava inicialmente, que dado novo apareceu e por que o plano foi ajustado. Isso permite aprender com a trajetória sem transformar resultado favorável em prova de que todas as escolhas foram corretas. Um paciente pode melhorar apesar de uma intervenção desnecessária; também pode piorar apesar de atendimento adequado. Avaliar a qualidade exige considerar as informações disponíveis no momento e a resposta oferecida às mudanças.

Peça ainda que o supervisor confira se sua prescrição e passagem de cuidado são executáveis. Quem deve administrar, qual é o limite, quando será reavaliado e o que fazer se houver deterioração? Uma orientação pode estar clinicamente bem fundamentada e ainda falhar por ambiguidade. Resolver essas dúvidas com os profissionais envolvidos é parte do aprendizado de responsabilidade compartilhada durante o internato.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da noite ruim não é laboratorial, e essa é a principal notícia deste bloco: quase tudo o que decide a conduta está na folha de prescrição, na beira do leito e na boca do paciente, e nada disso custa exame. O que segue é a ordem em que se procura, e o motivo de cada passo estar onde está.

Prescrição e checagem ajudam a explicar a noite

Conferir documentos sem atrasar avaliação e suporte. Horários, condicionais, omissões e analgesia geram hipóteses que precisam ser cotejadas com história, exame e administração confirmada.

A primeira: que horas as coisas estão sendo dadas? Compare o horário prescrito com o horário checado. Corticoide sistêmico que virou dose da tarde, diurético administrado no fim do dia, beta-agonista de curta duração à noite, hidratação venosa correndo até de manhã em paciente que já se alimenta — cada um desses é um estimulante ou um despertador com horário marcado, e nenhum deles foi decidido pensando na noite. No leito 12 da cena, a prednisona prescrita para as oito da manhã foi checada às quatro da tarde por três dias consecutivos, e esse horário pode contribuir para a insônia, a ser reavaliada após o ajuste.

Revisar efeitos e formulações específicas: anticolinérgicos com ação central podem precipitar confusão, enquanto butilbrometo de escopolamina tem penetração central limitada e não deve ser equiparado automaticamente aos demais. Ainda pode causar efeitos periféricos, como retenção urinária. Considerar carga total de medicamentos, dose, indicação e vulnerabilidade.

A terceira: o que a admissão apagou? Percorra a lista domiciliar procurando psicotrópico, hipnótico, antiparkinsoniano, opioide e clonidina. Um item de uso crônico ausente da prescrição da internação é uma hipótese diagnóstica pronta. Este é o ponto de contato com a conciliação medicamentosa, que tem capítulo próprio; aqui basta a leitura da noite.

Dor persistente ou previsível pode precisar de analgesia programada, além de resgate. Esquema condicional não é sinônimo de omissão: pode ser apropriado para dor intermitente se a avaliação e a resposta estiverem garantidas. Conversar com paciente e equipe sobre como solicitar ajuda e revisar necessidade diariamente.

Os dois minutos de beira de leito que substituem meia dúzia de exames

Entre no quarto com o corredor às suas costas e sem acender a luz de teto se puder evitar. Sente-se ou agache-se na altura do paciente, porque um interrogatório feito de pé, de cima para baixo, às onze da noite, produz respostas curtas. E faça, nesta ordem, seis perguntas curtas.

O senhor está com dor em algum lugar agora? Pergunte apontando: aqui, aqui, aqui. Dor é a causa mais comum e a mais subnotificada, e no paciente com dificuldade de comunicação a pergunta se substitui por observação de careta, resistência ao toque e proteção de um segmento.

O senhor está com vontade de urinar, ou está sem conseguir? Em seguida, palpe o hipogástrio. São dez segundos, e globo vesical é o achado que mais rapidamente converte um paciente agitado em um paciente que dorme.

Está faltando ar quando o senhor deita? Quantos travesseiros o senhor usa em casa e quantos está usando aqui? A resposta separa insônia de ortopneia.

O senhor fuma? Quantos por dia, e quando foi o último cigarro? E, na sequência, a pergunta que a ficha de admissão quase sempre falhou em fazer direito: o senhor bebe? Quanto, com que frequência e quando foi a última vez? Perguntar quantidade e horário, e não se bebe, é a diferença entre achar e não achar uma abstinência. A pergunta funciona melhor quando é feita sem juízo e com uma âncora concreta: quantas latas, quantas doses, em que dias.

O que o senhor tomava para dormir em casa? Todas as noites, ou só às vezes? Há quanto tempo? Onde está a caixa? Esta é a pergunta de maior rendimento diagnóstico da noite inteira, e é a que menos se faz.

A sexta é para o acompanhante ou para a equipe, e vale ouro: como ele estava esta manhã, e como ele estava ontem à noite? Uma mudança em relação ao próprio paciente de doze horas atrás vale mais do que qualquer descrição absoluta.

O exame que separa abstinência de insônia comum

A abstinência tem assinatura autonômica, e é isso que a distingue de um paciente que simplesmente não dorme. Meça e olhe cinco coisas.

Taquicardia e hipertensão em tendência ajudam a reconhecer ativação autonômica. Abstinência é hipótese quando há redução de consumo/uso, mas dor, infecção mesmo sem febre, hipovolemia, ansiedade e causas cardiovasculares também precisam de avaliação. Sinais autonômicos não fecham diagnóstico sozinhos.

Tremor: peça que estenda os braços com os dedos afastados e observe. Tremor fino, postural, simétrico, que o paciente tenta disfarçar, é diferente do tremor de repouso do parkinsonismo e do tremor grosseiro da encefalopatia hepática, que tem componente de flapping.

Sudorese: pele úmida, fronha molhada, camisa trocada duas vezes. É o sinal que a equipe de enfermagem percebe antes do médico, e vale perguntar diretamente à técnica se ela trocou a roupa de cama.

Temperatura: febre em abstinência é sinal de gravidade e de proximidade do delirium tremens, mas nunca se assume que a febre é da abstinência antes de procurar infecção — no paciente internado, febre tem capítulo próprio nesta apostila e uma lista de causas que não pode ser pulada.

Desatenção aguda e flutuação sugerem delirium, que pode acompanhar abstinência e outras causas simultaneamente. Benzodiazepínico permanece tratamento da abstinência alcoólica grave; muda sobretudo intensidade, via, monitorização e lugar de cuidado. Não usar CIWA-Ar em delirium estabelecido ou paciente incapaz de responder. Antipsicótico, se necessário como adjuvante, não substitui o tratamento da retirada.

Que exame pedir de madrugada, e o custo de pedir os outros

Três medidas se fazem na hora, à beira do leito, e as três podem mudar a conduta imediatamente.

Glicemia capilar, porque hipoglicemia se apresenta como agitação, sudorese, taquicardia e confusão, e porque ela tem tratamento em segundos. Não é um exame, é um reflexo, e ele vem antes de qualquer psicotrópico.

Medir SpO₂ no suporte em uso e avaliar ventilação. Suspeita de eventos noturnos pode justificar monitorização, mas oximetria isolada não exclui hipoventilação/hipercapnia nem diagnostica apneia. Dessaturação importante ao adormecer exige avaliação e suporte, com gasometria quando indicada, sem transformar toda insônia em hipóxia.

E os sinais vitais completos com temperatura e frequência respiratória, porque o quadro que se apresenta como não consigo dormir pode ser o primeiro sinal de uma deterioração clínica que ainda não tem nome.

Laboratório de madrugada só se a resposta mudar a conduta antes do amanhecer. Sódio, cálcio, ureia, creatinina e função hepática entram quando há suspeita clínica de distúrbio metabólico — vômito, diarreia, diurético novo, jejum prolongado, hepatopatia. Hemograma e marcadores entram se houver suspeita de infecção. Fora disso, colher sangue às duas da manhã acorda o paciente, dói e devolve um número que ninguém vai usar antes das sete.

O que não pedir, e o custo de pedir. Tomografia de crânio não se pede por insônia nem por agitação isolada: ela entra se houver déficit neurológico focal novo, rebaixamento do nível de consciência, trauma craniano, cefaleia súbita ou anticoagulação com queda. Pedir tomografia por agitação transporta um paciente instável para um corredor frio, no escuro, sozinho, longe da equipe, e devolve um exame normal com o problema intacto — além de consumir a única vaga do tomógrafo da noite. Polissonografia não tem lugar na investigação de insônia aguda em paciente internado. Dosagem sérica de melatonina não existe como exame clínico útil aqui. Rastreamento toxicológico de rotina não se pede sem hipótese, e no internado a hipótese está na prescrição, não na urina. Eletroencefalograma não é exame de triagem de agitação, e entra apenas se houver suspeita de crise não convulsiva, que é um cenário com sinais próprios.

O diferencial se resolve na cabeceira, e nesta ordem

História dirigida, exame e resposta a medidas iniciais ajudam a construir hipóteses, mas uma única pergunta ou intervenção raramente confirma ou exclui todas as causas. Reavaliar se não houver resposta ou surgirem sinais novos; insônia pode coexistir com doença aguda.

Priorizar hipoglicemia, insuficiência respiratória/circulatória, dor torácica e alteração neurológica. Avaliação breve reconhece riscos, mas não resolve ou exclui todos: ECG, gasometria, imagem e outros exames podem ser urgentes conforme achados.

Depois o que causa a maior parte dos casos e se resolve na hora: dor, bexiga cheia, constipação com fecaloma, sede, fome, frio, cateter incomodando, sonda vesical sem indicação, acesso venoso infiltrado, cabeceira baixa demais em quem tem refluxo ou dispneia. Essa lista parece prosaica e é justamente por isso que ela é pulada; o rendimento dela é maior que o de qualquer exame desta noite.

Depois o que a prescrição está fazendo: corticoide fora de hora, diurético tardio, anticolinérgico, opioide entre doses, hipnótico suspenso, benzodiazepínico crônico ausente, droga nova introduzida hoje.

Depois as abstinências: álcool, benzodiazepínico, nicotina, opioide.

Atenção aparentemente preservada e ausência de agitação não excluem doença intracraniana ou outra emergência. Déficit focal, cefaleia de alarme, convulsão, trauma ou alteração progressiva exigem avaliação própria, independentemente da queixa de sono.

A lista nacional, e o que ela permite escrever

A lista nacional de medicamentos essenciais de 2024 organiza o que o sistema público financia, e a leitura dela muda o que faz sentido escrever numa enfermaria pública brasileira.

Produtos para reposição de nicotina podem integrar programas do SUS, mas disponibilidade e apresentações precisam ser confirmadas no serviço. Escolher dose pelo consumo, dependência, sintomas e contraindicações, sem tratar a lista nacional como garantia de estoque imediato.

Conferir sal, concentração, via e finalidade do haloperidol. Solução de ação imediata e decanoato de depósito não são intercambiáveis; decanoato não serve para controlar agitação aguda. Em idoso, avaliar indicação excepcional, dose baixa, QT, Parkinson/corpos de Lewy e risco de sedação, com revisão diária.

O que existe em forma inesperada: clonazepam aparece na lista apenas como solução oral de 2,5 miligramas por mililitro, e midazolam aparece apenas como solução oral de 2 miligramas por mililitro. Isso não significa que a ampola não exista no hospital — medicamento de uso hospitalar é adquirido pelo próprio serviço e a lista nacional se organiza por componentes de financiamento da assistência farmacêutica, sem anexo hospitalar. Significa outra coisa, mais útil: a apresentação que você vai encontrar na enfermaria pode não ser a que você tem na cabeça, e conferir o rótulo antes de prescrever não é excesso de zelo.

A Rename 2024 citada não inclui zolpidem ou melatonina. A autorização de 2021 para melatonina em suplementos estabeleceu público e limite de 0,21 mg/dia para essa categoria, sem alegação terapêutica aprovada. Isso não é dose clínica de tratamento nem regra suficiente para concluir sobre toda prescrição/manipulação. Conferir produto trazido de casa, concentração, procedência, indicação e protocolo; não endossar suplemento como tratamento comprovado da insônia hospitalar.

E o que existe só por protocolo: quetiapina, olanzapina e risperidona estão no Componente Especializado, vinculadas a protocolos de esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar do tipo I, transtorno esquizoafetivo e comportamento agressivo no autismo. A bula da quetiapina registra indicações restritas a esquizofrenia e transtorno bipolar e diz expressamente que o produto não está aprovado para tratamento de idosos com psicose relacionada à demência. Usá-la como hipnótico de enfermaria é uso fora de bula, com risco de discinesia tardia potencialmente irreversível e prevalência maior justamente em idosos — uma escolha que precisa ser consciente, justificada por escrito e revista todos os dias, e não um hábito de serviço.

07

A noite em fluxo, a prescrição do ambiente e a escolha da droga

Distinguir insônia, desconforto, abstinência, delirium e excesso de sedação; planejar uma noite segura e uma alta sem medicamentos mantidos por inércia.

  1. 1Atenda ao pedido no balcão com uma pergunta, não com uma caneta: quem está pedindo, o paciente ou a equipe? Pedido do paciente descreve sofrimento; pedido da equipe descreve comportamento. Os dois são legítimos e levam a lugares diferentes.
  2. 2Verificar ABC, consciência e risco imediato. Acionar ajuda e suporte se necessário; ausência de agressividade não garante quinze minutos seguros de espera.
  3. 3Conferir checagem e conciliação em paralelo à avaliação, incluindo medicamentos condicionais e possíveis omissões/duplicidades.
  4. 4Avaliar consciência, respiração, sinais, SpO₂ no suporte necessário e glicemia conforme quadro; corrigir ameaças imediatamente.
  5. 5Faça as seis perguntas: dor, bexiga, falta de ar ao deitar, cigarro, bebida com quantidade e horário, e o que ele tomava para dormir em casa. Palpe o hipogástrio.
  6. 6Paciente menos responsivo ou diferente da basal: avaliar ABCDE e glicemia imediatamente e investigar delirium, fármacos e outras causas. Estar quieto não confirma delirium nem garante estabilidade.
  7. 7Tratar dor conforme avaliação, com analgesia regular quando indicada e resgate apropriado. Planejar horários que favoreçam descanso sem omitir cuidado necessário.
  8. 8Pactuar e registrar medidas de sono com equipe e paciente; verificar recursos, execução e compatibilidade com vigilância e tratamentos.
  9. 9Rever horários e indicação: corticoide matinal se adequado, diurético conforme congestão, redução de carga anticolinérgica e conciliação do uso crônico com avaliação de toxicidade e abstinência.
  10. 10Trate a abstinência que você encontrou, com a droga da abstinência e não com hipnótico: reposição de nicotina para o fumante, benzodiazepínico e tiamina para o álcool, reintrodução do próprio benzodiazepínico de uso crônico para quem o usa há anos.
  11. 11Só então, e apenas se ainda restar indicação, escolha uma droga. Uma. Na menor dose de partida. Com prazo escrito na própria linha da prescrição. E com hora marcada para você mesmo reavaliar de manhã.
  12. 12Escreva no evolutivo o que você procurou e o que achou, com horário. A frase que precisa estar lá é a que sobrevive à passagem de plantão: por que esta droga, por quanto tempo, e o que decide parar.

O se necessário que a norma aceita, e o que ela recusa

Um plano noturno claro inclui indicação, horário, critérios de uso e monitorização. Enfermagem e demais profissionais mantêm julgamento clínico dentro de suas atribuições; mudança do quadro exige avaliação, não aplicação mecânica de uma ordem.

A conta da ampola, e por que a apresentação decide a dose

Converter miligramas em volume com a apresentação real. Clorpromazina 5 mg/mL em ampola de 5 mL contém 25 mg; 100 mg correspondem a 20 mL. Isso não autoriza injeção em um único sítio, nem prova que a dose seja impossível em qualquer esquema: via, sítios, indicação, paciente e protocolo precisam ser conferidos. A dose inicial de uma bula para adulto não deve virar escolha padrão para idoso com insônia. Midazolam tem apresentações de concentrações e conteúdos totais diferentes; prescrever nome, concentração, dose, volume e via reduz erros. Estudos orais citados em bula de injetável não autorizam usar a ampola por via oral nem converter diretamente doses entre vias. Biodisponibilidade, velocidade e indicação mudam a comparação. Midazolam injetável não é rotina para insônia da enfermaria; uso para sedação exige profissional, monitorização e capacidade de suporte apropriados. Fórmulas de volume não decidem indicação clínica.

A folha de sono: o que se escreve na prescrição para que a noite aconteça

AlvoComo escrever na folhaQuem executa, e quando
Janela protegidaJanela de repouso das 22h às 6h: agrupar cuidados, medicações e coletas fora desse intervalo sempre que a condição clínica permitir; registrar na evolução qualquer entrada no quarto nesse período e o motivoEquipe de enfermagem, na passagem de plantão da noite; farmácia, ao ajustar horários
Aferição de sinais vitaisFrequência individual de sinais e monitorização, conforme risco/protocolo e resposta; agrupar cuidados quando seguro, mantendo critérios de escalada e avaliação imediata de mudançaMédico, ao rever a prescrição do dia; enfermagem, ao executar
LuzLuz do quarto apagada a partir das 22h; usar lanterna de foco baixo para os cuidados noturnos; abrir cortina e persiana entre 7h e 9h e manter o quarto claro durante o diaEnfermagem à noite; equipe da manhã na abertura
RuídoManter porta do quarto fechada à noite; conversas e passagem de plantão fora do quarto; ajustar alarmes de bomba e monitor para o volume mínimo seguro; oferecer protetor auricular ao paciente que aceitarToda a equipe; o item do protetor auricular precisa constar para ser providenciado
Horário das medicaçõesReagrupar horários apenas sem comprometer intervalos e eficácia; conferir corticoide matinal quando apropriado. Não proibir medicações entre 0h e 5h nem adiar diurético necessário por congestãoMédico, com conferência do horário real na folha de checagem dos três dias anteriores
DorAvaliar dor em cada turno e quando houver mudança; esquema programado para dor persistente/previsível, com resgate e reavaliação, ou condicional adequado para dor episódicaMédico prescreve em horário; enfermagem avalia e registra
Bexiga e dispositivosConferir indicação do dispositivo e discutir retirada quando desnecessário, registrando a decisão; ausência de anotação não comprova ausência de indicaçãoEnfermagem na rotina da noite; médico na visita diária
Cafeína e ceiaSuspender café, chá preto, chá mate e refrigerante à base de cola após as 16h; oferecer ceia leve e bebida morna sem cafeína entre 21h e 22h ao paciente com dieta liberadaNutrição e enfermagem; precisa estar escrito para chegar à bandeja
Rotina de casaRegistrar na admissão qual era a rotina de sono do paciente e reproduzir a parte compatível com o serviço: horário de deitar, travesseiro próprio, rádio ou televisão em volume baixo até determinada hora, oração, presença de acompanhante quando permitidaQuem faz a admissão; a reprodução é da enfermagem
O diaManter o paciente fora do leito nas refeições e deambulando conforme a condição clínica; evitar cochilos prolongados à tarde; expor à luz natural pela manhãEnfermagem e fisioterapia; é a metade diurna do tratamento da insônia noturna

Se for preciso medicar: cenário, dose de partida, prazo escrito e a fonte da dose

CenárioEscolha e dose de partidaPrazo escrito e reavaliaçãoFonte da dose
Fumante internado, com inquietação e insônia desde a admissãoAdesivo transdérmico de nicotina, um a cada 24 horas: 21 mg/dia para 20 ou mais cigarros/dia, 14 mg/dia para 11 a 19, 7 mg/dia para 6 a 10; até 5 cigarros/dia, goma ou pastilha de 2 mg, sem ultrapassar 5 unidades ao dia. Teto de 42 mg/dia de nicotinaAjustar à resposta e planejar continuidade. No esquema usual do PCDT: 21 mg nas semanas 1–4, 14 mg nas 5–8 e 7 mg nas 9–12; o desmame semanal de 7 mg é descrito para associação de adesivos. Insônia/sonhos vívidos podem exigir retirar à noiteProtocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 10, de 16 de abril de 2020; apresentações conferidas na Rename 2024
Abstinência alcoólica sem delirium: tremor, sudorese, taquicardia, insôniaBenzodiazepínico por protocolo e avaliação clínica: exemplo diazepam 5–10 mg VO inicial no adulto selecionado, sem teto universal de 10 mg por tomada. Fragilidade/hepatopatia exigem ajuste ou alternativa. Tiamina precoce, distinguindo profilaxia de tratamento de Wernicke; não atrasar glicose urgenteReavaliar sintomas, sedação e respiração em 1–2 h ou mais frequentemente conforme gravidade. CIWA-Ar apenas quando o paciente consegue responder e sem delirium; desatenção, convulsão e instabilidade exigem ambiente e vigilância apropriadosBula profissional do diazepam comprimido; Manual de Toxicologia Clínica (COVISA, 2017) para a tiamina, a janela temporal e a escolha de benzodiazepínico de longa duração
Uso crônico e domiciliar de benzodiazepínico, interrompido pela admissãoTratar retirada após confirmar dose real e segurança atual. Reintrodução pode ser necessária, mas dose, molécula e via podem mudar se houver toxicidade, hepatopatia, interações ou risco respiratórioPlanejar estabilização e retirada gradual compartilhada quando indicada; pode iniciar no hospital com condições adequadas. Não suspender abruptamente por regra, nem manter dose perigosa apenas por ser domiciliarBoletim ISMP Brasil sobre medicamentos potencialmente inadequados para idosos (2017), quanto ao risco da retirada abrupta; bula do diazepam quanto à necessidade de retirada progressiva
Insônia isolada, sem delirium, sem abstinência, com ambiente já corrigido, em adulto abaixo de 65 anosSe houver indicação individual de zolpidem, usar a menor dose adequada à apresentação e ao paciente, frequentemente 5 mg VO como início cauteloso; não adotar 10 mg para todo adulto. Dose única, sem repetir na noite, com 7–8 h disponíveis e avaliação de interações/risco respiratórioPrazo de 2 a 5 dias escrito na própria linha, com data de término. Acima de 4 semanas o risco de dependência aumenta de forma relatada. Reavaliar em 24 horas e suspender assim que a causa for corrigidaBula do hemitartarato de zolpidem 10 mg, versão do paciente, bula padrão aprovada pela Anvisa em 11/01/2018
A mesma situação, em paciente com 65 anos ou maisPriorizar medidas não farmacológicas e evitar início rotineiro de hipnótico no idoso. Em exceção bem justificada, 5 mg VO é a referência geriátrica de zolpidem citada; não apresentar 10 mg como escalada segura para essa faixa etáriaPrazo máximo de 2 a 3 noites, com data de término escrita, e reavaliação obrigatória na visita da manhã seguinte. Registrar por escrito o motivo pelo qual a medida não farmacológica foi insuficienteBula do zolpidem quanto à dose geriátrica; Boletim ISMP Brasil (2017) quanto à inadequação da classe e à alternativa não farmacológica
Agitação com desorientação, no paciente que já está em delirium e oferece risco de danoHaloperidol apenas para sofrimento importante/risco por delirium após medidas apropriadas e avaliação de contraindicações. No idoso, exemplo inicial de 0,5 mg VO, com reavaliação antes de nova dose. Via IM, quando necessária, exige dose individual; não aplicar automaticamente 2,5–5 mg ao idoso frágilAvaliar ECG/QT, eletrólitos e interações quando viável; evitar em Parkinson e demência com corpos de Lewy. Efeitos extrapiramidais podem ocorrer em doses baixas. Não programar manutenção automática; rever necessidade diariamente e monitorar após cada doseManual de Cuidados Paliativos, 2ª ed. (2023), para as faixas geriátricas e o limite extrapiramidal; bula do haloperidol injetável 5 mg/mL para a dose intramuscular
Quando alguém propõe clorpromazina para a inquietação noturnaNão é alternativa automática ao haloperidol nem tratamento de insônia. Hipotensão, efeitos anticolinérgicos e QT podem tornar a escolha inadequada; contraindicação ao haloperidol pode também contraindicar esta estratégia. Uso excepcional exige indicação específica e equipe experienteRever necessidade antes de sedar; se utilizada por indicação específica, monitorar consciência, respiração e pressão e prevenir queda. Posição deve preservar via aérea/respiração, sem impor decúbito plano ao paciente com ortopneia ou risco de aspiraçãoManual de Cuidados Paliativos, 2ª ed. (2023); bula do Clorpromaz solução injetável 5 mg/mL, União Química
Insônia refratária em paciente já em uso de antipsicótico, ou quando se cogita quetiapina como hipnóticoNão iniciar quetiapina como hipnótico de rotina. Faixas de doses de manuais para outras indicações não são esquema de tratamento da insônia. No uso psiquiátrico prévio, conciliar indicação e dose com responsável; efeitos imediatos incluem sedação, hipotensão e interaçõesDecisão que precisa de justificativa escrita, prazo e reavaliação diária, pelo risco de discinesia tardia potencialmente irreversível, de prevalência maior em idosos. No SUS, está no Componente Especializado e vinculada a protocolos que não incluem insôniaManual de Cuidados Paliativos, 2ª ed. (2023), para a faixa de dose; bula profissional do hemifumarato de quetiapina, Geolab, para indicações e advertências; Rename 2024 para o componente

Um plano escrito facilita a comunicação, mas não garante execução nem substitui julgamento e autonomia da equipe de enfermagem. Definir responsáveis, recursos e exceções clínicas e verificar como foi a noite com paciente e equipe.

Mesmo a primeira dose de sedativo pode causar dano, sobretudo com fragilidade, disfunção orgânica ou associação a opioide. Somar doses antes de avaliar efeito aumenta risco; não é necessário esperar eliminação completa para toda titulação, mas é indispensável considerar início, pico, duração e monitorização.

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A conduta, hora a hora

Os marcos organizam hipóteses e decisões; não representam uma espera obrigatória de uma hora até tratar abstinência ou alteração de consciência. Priorizar gravidade, avaliar causas em paralelo e usar medicamentos dirigidos quando indicados. Nos quatro casos, a necessidade de sedativo para insônia não equivale à necessidade de tratamento farmacológico de abstinência.

  1. 22h40 — o pedido no balcão

    Perguntar o que mudou, quando começou e se há risco ou deterioração. Avaliar presencialmente e acionar ajuda conforme gravidade; glicemia, sinais vitais e suporte podem começar pela equipe antes da chegada do médico, segundo competência e protocolo. Não prescrever um sedativo por um pedido coletivo sem avaliação. Revisar documentos em paralelo, sem atrasar atendimento de sonolência nova, hipoxemia, hipoglicemia ou abstinência grave.

    Prescrição
    • Sinais vitais, respiração, consciência e glicemia conforme apresentação; medir SpO₂ no suporte em uso, sem retirar oxigênio necessário para obter valor em ar ambiente.
    • Evitar nova sedação sem avaliação; não impedir medidas urgentes indicadas, como correção de hipoglicemia e suporte ventilatório, pela equipe habilitada.
    • Solicitar à equipe as folhas de checagem das últimas 48 horas dos leitos envolvidos
  2. Na avaliação inicial, em paralelo ao exame — conciliação e horários

    Revisar prescrição e checagem junto à avaliação clínica, não como etapa que deve preceder todo exame. Conferir doses reais, itens condicionais, omissões domiciliares e sintomas. Horário vespertino da prednisona é um contribuinte plausível para Otacílio, mas não fecha a causa antes de ouvi-lo. Clonazepam ausente pode causar abstinência; embalagem informa concentração, não prova sozinha a dose realmente tomada.

    Prescrição
    • Corticoide sistêmico com horário por extenso pela manhã, e conferência com a farmácia sobre a viabilidade do horário de entrega
    • Preferir diurético pela manhã/início da tarde quando compatível com indicação; congestão pode exigir dose noturna com assistência para eliminações.
    • Revisão da lista de medicamentos de uso domiciliar, com registro escrito do que foi mantido, do que foi suspenso e por quê
  3. 23h00 — o corredor: quatro leitos, seis perguntas cada

    Definir prioridade pela avaliação de cada paciente. Insônia pode acompanhar dor, abstinência, delirium ou deterioração clínica. Silêncio, agitação e queixa frequente não determinam sozinhos a gravidade. Avaliar sinais vitais, respiração, consciência, glicemia e fatores precipitantes antes de organizar medidas de sono.

    Prescrição
    • Registro na evolução, com horário, do consumo de álcool em quantidade e data da última dose, e da carga tabágica em cigarros por dia
    • Avaliação de dor estruturada em todos os quatro leitos, com observação de careta, gemido e proteção de segmento em quem não verbaliza
    • Palpação de hipogástrio registrada; se globo vesical, esvaziamento vesical e reavaliação da indicação de sonda
  4. 23h20 — o ambiente prescrito por escrito, e não combinado de boca

    Pactuar redução de luz e ruído, agrupamento de cuidados e rotina diurna, respeitando preferências e segurança. Definir frequência de sinais pelo risco, tratamento e protocolo, sem impor seis horas a todo paciente denominado estável. Não atrasar antibióticos, insulina, anticonvulsivantes ou outras doses críticas para criar janela de sono. Alarmes permanecem audíveis e funcionais; porta fechada e máscara/protetor dependem de segurança e comunicação. Registro facilita continuidade, mas execução exige acordo, recursos e acompanhamento.

    Prescrição
    • Janela de repouso das 22h às 6h: agrupar cuidados, medicações e coletas fora do intervalo sempre que a condição clínica permitir
    • Individualizar frequência de sinais e monitorização pelo risco e protocolo; agrupar aferições quando seguro, sem suspender vigilância necessária para proteger sono.
    • Luz do quarto apagada a partir das 22h; abertura de cortina entre 7h e 9h; porta fechada à noite; alarmes no volume mínimo seguro
    • Suspender cafeína após as 16h; oferecer ceia leve com bebida morna sem cafeína entre 21h e 22h
    • Oferecer protetor auricular e máscara de olhos ao paciente que aceitar
  5. 23h35 — tratar sintomas e ajustar fatores que prejudicam o sono

    Rever fatores que interrompem o sono: sintomas, horários, ruído, luz, procedimentos e dispositivos. Ajustar analgesia à intensidade e padrão da dor; horário fixo pode ajudar quando há dor contínua, mas não é necessário para toda pessoa. Conferir a indicação atual de sondas e cateteres com a equipe antes de retirá-los. Ausência de justificativa escrita exige esclarecer, não presumir que o dispositivo seja inútil.

    Prescrição
    • Dor persistente/previsível pode exigir analgesia programada com resgate; dor intermitente pode usar esquema condicional bem definido. Reavaliar intensidade, efeito e toxicidade, evitando dose fixa obrigatória para toda causa de dor.
    • Cabeceira elevada a 30 graus; oxigênio suplementar titulado pela saturação alvo definida
    • Reavaliação diária, com registro, da indicação de sonda vesical, acesso venoso periférico e demais dispositivos
    • Avaliação e tratamento de constipação intestinal, com toque retal quando houver suspeita de fecaloma
  6. 23h50 — a abstinência tratada com a droga da abstinência

    Tratar abstinência prontamente, sem aguardar o horário narrativo. No álcool, benzodiazepínico é primeira linha conforme gravidade, risco e monitorização; diazepam pode ser usado em adulto selecionado, enquanto fragilidade/hepatopatia podem favorecer outra estratégia. Tiamina é dada precocemente, mas glicose urgente não deve esperar. No uso crônico de clonazepam interrompido, prevenir retirada grave sem reintrodução automática de dose insegura. Nicotina depende de sintomas, carga e contraindicações. Corrigir horário do corticoide e acompanhar, sem prometer resolução imediata do sono.

    Prescrição
    • Tiamina para prevenção: exemplo de 100 mg IV/IM ao dia por 3–5 dias, conforme risco, disponibilidade e preparo da apresentação. Administrar precocemente, antes ou junto de glicose quando possível; nunca atrasar correção de hipoglicemia. Suspeita de Wernicke exige esquema parenteral de tratamento em dose maior e avaliação urgente, não apenas esta profilaxia.
    • Abstinência alcoólica sem gravidade: exemplo inicial de diazepam 5–10 mg VO no adulto selecionado, titulado por protocolo validado, sintomas, consciência e respiração. Não definir 10 mg como teto universal por tomada de toda abstinência. Reavaliar em 1–2 horas ou antes conforme quadro; necessidade de doses elevadas/grande sedação pede suporte e ambiente monitorizado.
    • Adesivo transdérmico de nicotina 21 mg a cada 24 horas para quem fuma 20 ou mais cigarros ao dia, 14 mg para 11 a 19 e 7 mg para 6 a 10, sem ultrapassar 42 mg de nicotina ao dia
    • Confirmar uso real, última dose, indicação e fatores de acúmulo do benzodiazepínico crônico. Tratar provável retirada com plano supervisionado, frequentemente reintroduzindo dose segura e planejando redução. Toxicidade, interação ou insuficiência respiratória podem exigir ajuste imediato; não impor mesma dose a todos.
    • Vigilância de sinais de gravidade da abstinência: febre, alucinação, crise convulsiva, desatenção nova — com reavaliação médica imediata
  7. 0h10 — se, apesar de tudo, ainda for preciso medicar

    Sobra o paciente sem abstinência, sem delirium, sem dor, sem bexiga cheia, com o ambiente já corrigido, e que ainda assim não dorme. Ele existe, e prescrever para ele é legítimo. As regras são quatro. Uma droga só, nunca duas. A menor dose de partida, e no idoso a resposta padrão continua sendo não medicar. Prazo escrito na própria linha, com data de término, porque a linha sem prazo é o começo da cronificação. E nada de midazolam: o injetável brasileiro é de uso restrito a hospitais, aprovado para sedação de procedimento, pré-anestesia, indução anestésica e sedação em terapia intensiva — insônia não está entre as indicações, e a advertência da própria bula é de que depressão respiratória, apneia, parada respiratória e parada cardíaca são mais prováveis acima dos 60 anos. Registre no evolutivo, com estas informações: por que a medida não farmacológica foi insuficiente, qual droga, qual dose, por quantas noites, e o que decide parar.

    Prescrição
    • Uma única droga sedativa por noite, com dose, via, intervalo mínimo, dose máxima diária e condição de uso escritos na mesma linha
    • Data de término na própria linha da prescrição, com prazo de 2 a 5 noites
    • Reavaliação médica obrigatória na visita da manhã seguinte, com registro da decisão de manter ou suspender
    • Vigilância de sedação residual, sonolência diurna e marcha instável, com precaução para prevenção de queda
  8. 6h30 — a visita que decide se aquilo foi remédio ou erro, e a alta

    Avaliar sono percebido, alerta, atenção, respiração e função já durante a noite conforme medicamento e risco, e novamente pela manhã. Não é preciso esperar amanhecer para reconhecer excesso de sedação. Comparar função ao basal e não testar marcha sem segurança. Na alta, revisar cada fármaco e comunicar suspensão, dose, prazo e seguimento. Uso crônico pode requerer retirada gradual; toxicidade exige ação imediata e plano para abstinência, sem preservar uma dose perigosa por inércia.

    Prescrição
    • Reavaliação matinal registrada: nível de alerta, atenção, sonolência diurna e marcha, no paciente que recebeu sedativo na véspera
    • Suspender a droga de sono assim que a causa estiver corrigida, com a suspensão registrada na evolução
    • No relatório de alta e na receita: declarar explicitamente o destino de toda droga de sono introduzida na internação — mantida com prazo e plano de redução, ou suspensa, com a razão escrita
    • Reconciliar hipnóticos e benzodiazepínicos de uso crônico. Evitar retirada abrupta em dependência física; avaliar manutenção, ajuste ou redução supervisionada conforme riscos atuais. Nem toda mudança precisa aguardar ambulatório, e não é obrigatório manter dose habitual se houver toxicidade ou risco importante.
    • Para quem usa reposição de nicotina, planejar continuidade e apoio à cessação. PCDT 2020: esquema usual de adesivo 21 mg nas semanas 1–4, 14 mg nas 5–8 e 7 mg nas 9–12, ajustado à carga/resposta; redução de 7 mg por semana se refere no texto a associação de adesivos, não a todo esquema.
09

Como saber se está funcionando

A segurança se avalia durante a noite: consciência, respiração, sintomas, resposta e efeitos adversos precisam de vigilância após intervenções. A visita da manhã complementa o acompanhamento e revê o plano; não é a primeira oportunidade de descobrir que a sedação foi excessiva.

A segunda métrica errada é a satisfação da equipe. Uma noite tranquila na enfermaria pode ser uma boa noite ou pode ser uma enfermaria sedada, e as duas se parecem no relatório. O sinal de que você trocou uma coisa pela outra aparece em três lugares: o paciente que dorme durante a visita da manhã, o que não consegue completar uma frase às nove horas, e o que precisa de duas pessoas para ir ao banheiro quando na véspera ia sozinho.

Se o sono não melhora após algumas noites, rever causas, ambiente, horários, expectativas e tratamento. Falta de resposta não demonstra automaticamente dose insuficiente ou erro diagnóstico. Persistência pode envolver comorbidades e fatores ainda ativos, e aumentar sedativos sem reavaliar pode causar dano.

A manhã, não a noite — nível de alerta, fala e atenção às sete horasApós a dose conforme via/risco e novamente pela manhã; não esperar amanhecer diante de mudança de consciência ou respiração

Esperado: Paciente acordado espontaneamente, respondendo em frases inteiras, capaz de acompanhar o raciocínio de uma conversa e com apetite preservado no desjejum. Esse é o desfecho que separa sono de sedação, e ele se mede em dois minutos de conversa, não na anotação da madrugada.

Se não melhora: Sonolência, confusão ou respiração lenta novas exigem avaliação imediata de suporte e causas, inclusive efeito de medicamento. Suspender nova dose potencialmente causal e chamar o responsável conforme gravidade; em uso crônico, planejar prevenção de abstinência em vez de retirada indiscriminada.

A marcha e o equilíbrio na primeira saída do leitoNa manhã seguinte a qualquer dose de sedativo, antes de liberar o paciente para ir sozinho ao banheiro

Esperado: Levantar-se sem apoio adicional em relação ao que fazia na véspera, sem instabilidade nos primeiros passos e sem tontura ao ficar de pé. Se houve clorpromazina injetável, medir a pressão deitado e em pé antes do primeiro levante, porque a hipotensão ortostática é reação muito comum descrita para o fármaco.

Se não melhora: Instabilidade nova exige assistência e avaliação de sedação, ortostase, glicose e causas neurológicas. Suspender nova dose até revisão se houver toxicidade; no uso crônico, definir ajuste e prevenção de abstinência. Não concluir que a única solução seja retirada abrupta nem atribuir toda alteração de marcha ao hipnótico.

Os sinais autonômicos, no paciente em abstinênciaDe 1 a 2 horas na fase de ajuste da dose, e a cada plantão depois disso, até a resolução

Esperado: Queda progressiva da frequência cardíaca e da pressão arterial em direção aos valores basais do próprio paciente, redução do tremor e da sudorese, e sono voltando. A síndrome é autolimitada, com recuperação descrita em cerca de 5 a 7 dias, e a dose do benzodiazepínico deve cair junto com os sinais, não permanecer fixa até a alta.

Se não melhora: Piora autonômica, desatenção, crise ou instabilidade exige ajuda, reavaliação de causas concomitantes e ambiente monitorizado. Convulsão sem delirium também é abstinência grave. Conferir tratamento, tiamina e eletrólitos; não atribuir evolução simplesmente a glicose ter precedido tiamina.

O consumo de se necessário, contado na folha de checagemTodos os dias, na visita, olhando as 24 horas anteriores

Esperado: Consumo decrescente ao longo dos dias. Uma dose de resgate na primeira noite e nenhuma na terceira é a assinatura de uma causa que foi corrigida.

Se não melhora: Consumo estável ou crescente significa que a causa não foi encontrada, e a resposta correta nunca é aumentar o teto. Volte ao começo: reveja dor, bexiga, abstinência, horário de medicação e ambiente. Um resgate pedido todas as noites, no mesmo horário, é um horário que está errado em alguma outra linha da prescrição.

A quantidade de itens sedativos na prescrição, contada como númeroNa visita diária, com a prescrição impressa na mão

Esperado: Rever indicação, dose, horário, interação e exposição total a sedativos/anticolinérgicos, além do número de itens. Três doses pequenas não são necessariamente mais perigosas que uma grande. Redução de carga sem perder tratamento necessário é o objetivo.

Se não melhora: Se o número cresce dia após dia, houve empilhamento — cada plantão acrescentou uma linha e nenhum retirou. Esse é o padrão que produz o paciente sonolento no quinto dia sem que ninguém tenha decidido sedá-lo. A correção é uma decisão explícita de retirar, escrita na evolução, e não um esperar para ver.

A execução real da folha de sonoRever durante a internação conforme evolução, com revisão diária de indicações enquanto o quadro muda e antes da alta

Esperado: Pergunte ao paciente, e não à equipe: a que horas apagaram a luz? Quantas vezes entraram no quarto depois da meia-noite? Deram a ceia? Acharam o protetor auricular? A resposta do paciente é a auditoria da sua prescrição, e ela costuma revelar que dois ou três itens não chegaram a acontecer.

Se não melhora: Se a indicação de um medicamento não está clara, esclarecer com equipe, prescrição prévia e paciente/família quando possível. Registro ausente não prova erro. Documentar decisão e plano, com revisão diária enquanto o quadro muda.

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Onde o erro machuca

Prescrever a noite pelo telefone

O dano: A prescrição feita do balcão trata o pedido, não o paciente. Ela transforma em insônia tudo o que chegou descrito como não está dormindo, e o que estava embaixo continua trabalhando: a bexiga cheia continua cheia, a dor continua acesa, a abstinência continua avançando, e o delirium hipoativo continua sem diagnóstico. Pior, você acabou de retirar o único sinal de alarme disponível — o comportamento — e o próximo dado clínico virá quando a pressão cair ou quando o paciente estiver no chão.

Como pegar a tempo: Adote uma regra sem exceção: nenhuma droga sedativa é prescrita sem que você tenha estado ao lado do paciente naquela noite. A frase que substitui a prescrição telefônica tem três palavras e resolve quase tudo: vou até lá. Se o volume de trabalho impedir, negocie com a equipe uma ordem de prioridade, mas não negocie a ida — quinze minutos de corredor é menos tempo do que a manhã gasta consertando o que a caneta fez.

Escrever benzodiazepínico ou hipnótico para o idoso como primeira medida

O dano: A cadeia é conhecida e se completa em poucas horas. O idoso tem sensibilidade aumentada aos benzodiazepínicos e metabolismo reduzido, o que produz sedação pronunciada e prolongada. A sedação residual pela manhã produz marcha instável; a marcha instável na primeira ida ao banheiro produz queda; a queda no idoso produz fratura de fêmur, com tudo o que ela custa. Em paralelo, a mesma droga produz confusão e delirium, e o delirium multiplica o tempo de internação e a mortalidade. E há um custo que ninguém contabiliza porque acontece fora do hospital: a dependência que nasce da prescrição hospitalar e sai pela porta na receita de alta.

Como pegar a tempo: Trate o pedido de hipnótico em paciente com 65 anos ou mais como um pedido que precisa ser justificado por escrito, e não como uma prescrição de rotina. A alternativa terapêutica que a referência brasileira de segurança do uso de medicamentos nomeia para essa classe nessa faixa etária é literalmente a higiene do sono, e ela é o que se prescreve primeiro. Se ainda assim a decisão for medicar, escreva por que a medida não farmacológica foi insuficiente, use a menor dose declarada para o idoso e ponha data de término de duas a três noites na própria linha.

Chamar de melhora o que é sedação

O dano: É o erro que impede a correção de todos os outros, porque fecha o ciclo de avaliação com uma resposta falsa. O paciente sedado é anotado como tendo dormido bem, a droga é mantida, a dose é repetida na noite seguinte por inércia, e no terceiro dia existe um paciente sonolento, sem apetite, sem mobilização e com risco de aspiração, cuja piora será atribuída à doença de base. É também assim que o delirium hipoativo é fabricado dentro do hospital e depois não é reconhecido, porque a lentificação passa a ter uma explicação cômoda.

Como pegar a tempo: Avaliar efeito durante a noite conforme risco e novamente pela manhã, comparando alerta, fala, atenção e mobilidade ao basal. Mudança pode ser toxicidade ou outra doença e exige avaliação; não basta concluir que a dose foi forte. Perguntar também ao paciente se dormiu e descansou.

Aceitar a palavra nega no campo de hábitos

O dano: A admissão que registra nega para álcool e tabaco produz, dois ou três dias depois, um paciente inexplicavelmente agitado, taquicárdico e hipertenso, que será investigado para infecção, para dor e para causa neurológica, e que receberá sedativo. Abstinência alcoólica não tratada progride para alucinação, crise convulsiva e delirium tremens; abstinência de nicotina não tratada é rotulada como paciente difícil; abstinência de benzodiazepínico produzida pela própria admissão é atribuída à evolução da doença. Nos três casos, a droga certa existe, é barata, e não foi dada porque a pergunta não foi feita.

Como pegar a tempo: Substitua a pergunta fechada pela pergunta com quantidade e horário, feita sem juízo. Quanto o senhor bebe por dia, em latas ou em doses, e quando foi a última vez? Quantos cigarros por dia, e quando foi o último? Que remédio o senhor toma para dormir, todas as noites ou às vezes, e há quanto tempo? Ancore em número e em relógio, porque é o número e o relógio que dizem em que janela de abstinência o paciente vai entrar e em que dia.

Escrever se necessário sem dose máxima, condição e prazo

O dano: A linha incompleta transfere para a equipe de enfermagem uma decisão médica, no meio da noite, sem critério. Sem intervalo mínimo escrito, doses se somam; sem dose máxima diária, não há teto; sem condição em palavras aplicáveis, cada plantonista interpreta agitação de um jeito; e sem prazo, a linha atravessa toda a internação, é transcrita a cada prescrição diária e ninguém volta a decidir sobre ela. O protocolo de segurança na prescrição do Ministério da Saúde manda abolir exatamente essa formulação.

Como pegar a tempo: Escreva a linha inteira: fármaco, apresentação, concentração, dose em miligramas, volume quando for injetável, via, intervalo mínimo entre doses, dose máxima em 24 horas, a condição de uso descrita em termos que a enfermagem possa aplicar sem interpretar, e a data em que a linha termina. Se você não conseguir escrever a condição sem usar a palavra agitação sozinha, a indicação ainda não está clara na sua própria cabeça.

Deixar a droga de uma noite sair na receita de alta

O dano: É o dano mais silencioso e o de maior alcance, porque acontece longe do hospital e ninguém o vê. O hipnótico entrou por uma noite ruim, foi transcrito por inércia todos os dias, apareceu na receita de alta porque a receita foi montada a partir da última prescrição, e o médico da unidade básica passou a renová-lo porque o hospital o iniciou. Meses depois há um paciente com uso crônico, tolerância, e uma retirada que agora precisa ser gradual. O risco de dependência aumenta com a dose e com a duração do tratamento, e há relato mais frequente de dependência acima de quatro semanas de uso.

Como pegar a tempo: Trate a desprescrição como parte obrigatória da alta. Antes de assinar, percorra a receita procurando toda droga de sono e responda por escrito, item a item: continua por quanto tempo e quem reduz, ou não continua. O que não continua simplesmente não é transcrito, e a razão vai no relatório para que o próximo médico não a reintroduza. Para quem já chegou usando benzodiazepínico crônico, a alta não é o momento de retirar: é o momento de escrever o plano de retirada gradual e o encaminhamento de quem vai conduzi-lo.

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O que dizer ao paciente e à família

Três conversas decidem este capítulo mais do que qualquer droga: a que você tem com o paciente que pede o remédio e vai ouvir não; a que você tem com a equipe de enfermagem, que trouxe o pedido e vai ficar com o paciente as próximas oito horas; e a que você tem com a família, que muitas vezes está pedindo sedação sem usar essa palavra. As três têm a mesma estrutura: nomear o que está acontecendo, dizer o que você vai fazer, e dizer o que você não vai fazer e por quê.

Explicar o plano concreto para a noite: conforto, investigação de causas, medidas ambientais e quando reavaliar. Prometer que ninguém entrará no quarto pode comprometer vigilância necessária; combinar redução de interrupções evitáveis e explicar as que permanecem. Escutar preferências e barreiras da equipe torna a proposta executável.

O paciente pede um remédio para dormir e você decidiu não prescrever

Vamos entender o que está atrapalhando seu sono e tratar o que encontrarmos, como dor, falta de ar, preocupações ou interrupções. Alguns remédios para dormir podem aumentar sonolência e risco de queda, especialmente durante uma doença aguda. Vou combinar com a equipe medidas para esta noite e como acompanhar a resposta.

Não diga: Não é bom para o senhor. Aqui a gente não passa remédio para dormir. Tenta relaxar.

A técnica de enfermagem trouxe o pedido e você vai devolvê-lo sem receita

Parar álcool ou nicotina de repente pode trazer sintomas, mas precisamos saber quanto você usava, quando foi o último uso e o que está sentindo agora. O tratamento é diferente para cada situação. Vamos avaliar e explicar o plano; avise se aparecerem tremor forte, confusão, palpitação ou piora.

Não diga: Passa aí o que tiver de rotina. Depois eu vejo.

A filha pede que o pai receba alguma coisa para ficar calmo à noite

Entendo que a noite foi difícil. Antes de escolher um calmante, precisamos tratar o que encontramos e acompanhar a resposta. Bexiga cheia e dor podem contribuir, e alguns sedativos podem aumentar confusão, sonolência e risco de queda. Isso não acontece obrigatoriamente com todas as pessoas, mas pesa na escolha. Sua presença, os óculos e uma orientação tranquila podem ajudar. A equipe vai reavaliar se o sofrimento ou o risco persistirem.

Não diga: Vou dar uma coisinha para ele dormir. A senhora descansa também.

A paciente que usa clonazepam há onze anos pergunta se vai ficar viciada, e se vai ter de parar

O uso contínuo pode fazer o corpo depender da presença do remédio, e isso é diferente de um transtorno de uso. Parar de repente pode causar sintomas, mas precisamos conferir também a segurança da dose agora que a senhora está doente. Vamos tratar o desconforto e combinar uma redução gradual quando apropriada, com orientação escrita e acompanhamento. Se houver excesso de sedação, ajustaremos desde já.

Não diga: Esse remédio faz mal, é melhor a senhora aproveitar e parar agora.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O benzodiazepínico crônico do idoso: reintroduzir na admissão ou aproveitar a internação para retirar?

Posição 1 — a internação é a oportunidade de desprescrever

Benzodiazepínicos figuram entre os medicamentos potencialmente inadequados para idosos, por sensibilidade aumentada e metabolismo reduzido, e a recomendação explícita é avaliar a redução do número de medicamentos e realizar a retirada dos itens potencialmente inadequados sempre que possível, considerando sempre medidas não farmacológicas. A internação reúne condições que o ambulatório não tem: supervisão diária, equipe multiprofissional, farmacêutico clínico e a possibilidade de observar de perto a resposta à retirada. Quem defende essa posição argumenta que, se a retirada não começar aqui, ela não começa em lugar nenhum — a receita será renovada indefinidamente na atenção básica.

Boletim ISMP Brasil, Medicamentos potencialmente inadequados para idosos, volume 7, número 3, agosto de 2017

Posição 2 — a doença aguda não é o momento de mexer no psicotrópico crônico

A orientação de manejo é evitar a suspensão súbita de psicotrópicos de uso regular e avaliar a conciliação medicamentosa desses itens, justamente porque a retirada abrupta é ela própria uma causa de agitação e de confusão no paciente internado. A bula do diazepam reforça o ponto do outro lado: a duração do tratamento deve incluir um período de retirada progressiva, e o paciente deve ser avisado do risco de fenômeno de rebote. Quem defende essa posição argumenta que sobrepor uma síndrome de abstinência a uma doença aguda troca um risco crônico e conhecido por um risco agudo e imediato, e que o paciente perde nas duas pontas: passa mal agora e recebe alta com o mesmo remédio.

Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed. (2023), capítulo de delirium; bula profissional do diazepam comprimido, item de posologia e duração do tratamento

Como decidir

Evitar tanto retirada abrupta sem plano quanto reintrodução automática de dose tóxica. Confirmar uso, dependência, última administração, indicação e risco respiratório/hepático. Tratar abstinência e estabelecer dose segura; desprescrição pode iniciar no hospital quando há condições e seguimento. Decisão compartilhada, monitorização e comunicação na alta são essenciais. A primeira dose reintroduzida pode causar dano imediato, portanto não é seguro simplesmente experimentar e esperar um dia.

Antipsicótico como hipnótico na enfermaria: alternativa segura ao benzodiazepínico ou troca de um risco por outro?

Posição 1 — é o que existe, tem faixa de dose descrita e evita o benzodiazepínico

Benzodiazepínicos não são terapia rotineira para delirium. Podem ter indicação em abstinência, catatonia e situações específicas de sedação paliativa, com equipe capacitada e objetivo definido. Fora dessas indicações, risco de piora cognitiva, queda e depressão respiratória deve pesar na decisão.

Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed. (2023), quadro de medicações para manejo de delirium

Posição 2 — usar antipsicótico para insônia é uso fora de bula com dano próprio

A bula profissional da quetiapina registra indicações restritas a esquizofrenia e a episódios de mania e de depressão do transtorno bipolar, e declara expressamente que o produto não está aprovado para o tratamento de idosos com psicose relacionada à demência. Registra também o risco de discinesia tardia, síndrome de movimentos involuntários potencialmente irreversível, cuja prevalência parece maior entre idosos e que pode surgir mesmo após períodos curtos de tratamento em doses baixas. Na lista nacional, o fármaco pertence ao Componente Especializado e está vinculado a protocolos que não incluem insônia. Quem defende essa posição argumenta que trocar um risco documentado por outro risco documentado, e fazê-lo fora de indicação aprovada, não é ganho de segurança: é ganho de conforto de quem prescreve.

Bula profissional do hemifumarato de quetiapina, Geolab, bula padrão aprovada pela Anvisa em 30/06/2021; Rename 2024, Componente Especializado

Como decidir

Doses descritas para delirium ou cuidado paliativo não demonstram benefício de antipsicótico para insônia isolada. Não usar como substituição automática do benzodiazepínico. Ambos podem causar dano desde a primeira dose; três noites de hipnótico não garantem ausência de sequelas de queda/aspiração. Se há indicação psiquiátrica ou agitação de delirium com sofrimento/risco, tratar o alvo e revisar contraindicações, dose e prazo.

Sinais vitais de 4 em 4 horas na madrugada do paciente estável: vigilância que salva ou dano que se acumula?

Posição 1 — a deterioração avisa antes, e quem mede é quem vê

A deterioração clínica do paciente de enfermaria costuma ser precedida por alterações de parâmetros fisiológicos detectáveis nas horas que antecedem o evento grave, e é sobre isso que se apoiam os escores de alerta precoce. No protocolo estadual brasileiro que padroniza esse rastreio com o escore de alerta precoce modificado, pontuações de 4 a 6 são sinal de alerta e pontuações de 7 ou mais indicam risco iminente de morte, com aferição a cada quatro horas no estrato intermediário e a cada hora no estrato mais grave, até a melhora dos sinais. Quem defende essa posição argumenta que a madrugada é justamente o turno de menor densidade médica, que a piora não avisa por telefone, e que interromper o sono é um preço pequeno diante de uma parada cardiorrespiratória não antecipada.

Protocolo de Atenção à Saúde — Segurança do Paciente: Prevenção da Deterioração Clínica em Pacientes Adultos em Serviço Hospitalar, Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal

Posição 2 — o cuidado noturno é uma das principais causas do sono partido

Na medida brasileira do sono do paciente internado, o recebimento de cuidados pela equipe de enfermagem foi apontado como fator que perturba o sono em cinco ou mais noites por semana por 33,3% dos pacientes, ficando entre os três primeiros da lista, e 52,1% relataram sono interrompido com a mesma frequência. As recomendações de prevenção de delirium em uso no país incluem, explicitamente, promover rotinas, evitar despertares noturnos e realizar procedimentos em momento de vigília. Quem defende essa posição argumenta que a aferição de rotina no paciente estável tem rendimento diagnóstico baixo, que o dano do sono fragmentado é cumulativo e mensurável, e que o custo aparece depois, em delirium, em queda e em prescrição de hipnótico.

Costa SV, Ceolim MF, Rev Esc Enferm USP 2013;47(1):46-52; Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed. (2023), medidas de prevenção de delirium

Como decidir

Organizar tarefas para permitir descanso quando seguro, preservando monitorização clinicamente necessária. A frequência depende do risco e da evolução, não apenas de a medida mudar uma prescrição antes da manhã. Um sinal novo exige avaliação mesmo que os exames anteriores fossem normais.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao leito 4. Senhor Ademar Fiúza, 58 anos, 84 quilos, motorista de caminhão, terceiro dia de internação por pancreatite aguda biliar de curso leve, já com dieta reintroduzida e sem dor abdominal significativa desde ontem. São 23h. Ele está sentado na beira do leito, camisa aberta, fronha úmida, com tremor fino nas mãos que ele esconde entre os joelhos. Diz que não é nada e que quer ir embora. Frequência cardíaca 112 (era 104 à tarde), pressão 156 por 92 (era 130 por 80), temperatura 36,8, frequência respiratória 18, saturação 97% em ar ambiente, glicemia capilar 108. No campo de hábitos da admissão está escrita uma palavra: nega. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso antes de encostar nele

    Tremor, suor, taquicardia e hipertensão sugerem ativação autonômica. Glicose 108 e SpO₂ 97% tornam hipoglicemia/hipoxemia atuais improváveis, mas não excluem infecção, evento cardiovascular nem outras causas. Examino e pergunto sobre consumo e última dose, dor, medicações e abstinência prévia grave, sem reduzir o diferencial automaticamente a dor ou retirada.

  2. o que peço, e por que nesta ordem

    Perguntar quantidade, padrão e momento do último uso de álcool, nicotina e medicamentos, além de episódios prévios de abstinência ou convulsão. Essa história orienta, mas não fecha sozinha o diagnóstico. Avaliar sinais vitais, consciência, glicemia e necessidade de eletrólitos ou outros exames conforme gravidade. Não esperar uma entrevista completa para tratar instabilidade.

  3. como a resposta muda o que eu penso

    Ele responde que toma de seis a oito latas por dia, todos os dias, desde os vinte anos, e que a última foi na véspera da internação — três dias atrás. Fuma um maço e meio por dia e o último cigarro foi na mesma noite. A conta fecha: estamos entre 48 e 72 horas da última dose, exatamente na janela descrita para a abstinência do etanol, que abre entre 12 e 72 horas, com pico de tremor entre 24 e 48 horas e possibilidade de evolução para delirium tremens por volta do terceiro dia. E há uma segunda abstinência somada, a de nicotina, que começou no primeiro dia e a que ninguém deu nome. O consumo merece cuidado próprio e pode coexistir com etiologia biliar; não prova que a pancreatite seja alcoólica.

  4. o que eu procuro em seguida, antes de prescrever

    Uma coisa muda inteiramente a conduta e leva trinta segundos: ele está atento? Peço que ele diga os meses do ano começando por dezembro e descendo até janeiro, e observo se ele se perde no caminho. Ele chega ao fim, com esforço, sem largar a tarefa. Não há flutuação relatada pela equipe, não há alucinação, ele está orientado no tempo e no espaço. Isso significa abstinência sem delirium — e é uma distinção com consequência, porque muda a intensidade da vigilância, muda o lugar de cuidado e é uma situação em que benzodiazepínico tem indicação; abstinência de benzodiazepínico e contextos específicos também podem justificá-lo. Examino também procurando o que a abstinência esconde: sinal de infecção, dor abdominal em piora, e o abdome está indolor.

  5. o que eu prescrevo, e com que prazo

    Inicio tratamento da provável abstinência com supervisor e protocolo, sem aguardar o fim do giro. Diazepam 5–10 mg VO pode iniciar neste adulto, com titulação e revisão de consciência/respiração, sem teto universal por tomada. Tiamina precoce para prevenção, por exemplo 100 mg IV/IM por dia durante 3–5 dias, com preparo conferido. Hipoglicemia seria corrigida imediatamente, mesmo antes dela. Suspeita de Wernicke exigiria tratamento parenteral mais intensivo. Nicotina 21 mg/24 h é opção inicial pela carga, após checar contraindicações e avaliar resposta. Considero eletrólitos, função orgânica e história de crise; CIWA-Ar só se aplicável e sem delirium.

  6. o que eu escrevo, e por que a escrita importa aqui

    Na evolução, com horário: consumo em quantidade e data da última dose, carga tabágica, os sinais autonômicos medidos, o teste de atenção feito e o resultado, o diagnóstico nomeado como síndrome de abstinência alcoólica sem delirium no terceiro dia, e os sinais de alarme que obrigam reavaliação médica imediata — febre, alucinação, crise convulsiva, desatenção nova. Sem esse registro, o plantão seguinte encontra um paciente taquicárdico em uso de diazepam e não sabe o que está tratando, e a primeira coisa que ele faz é suspender. Corrijo também o campo de hábitos da admissão, porque a palavra nega vai continuar sendo lida por todo mundo que abrir aquele prontuário.

  7. o que eu digo a ele

    Seu Ademar, o que o senhor está sentindo tem explicação e tem tratamento. O corpo do senhor está acostumado com a bebida todo dia, e faz três dias que ele não recebe — é isso que está fazendo o tremor, o suor e o coração acelerado, e é isso que está impedindo o senhor de dormir. Não é fraqueza e não é da pancreatite. Vou dar um remédio hoje que substitui esse efeito de forma controlada e vou ir diminuindo nos próximos dias, e vou colocar um adesivo de nicotina, porque a falta do cigarro também está pesando. Preciso que o senhor me avise, ou avise a enfermagem, se começar a ver ou ouvir coisas, ou se sentir que vai desmaiar. E, quando o senhor estiver de alta, eu queria conversar com o senhor sobre a bebida com calma — hoje não, hoje a gente cuida disto aqui.

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Faça você

Agora é dona Jandira Lousada, do leito 6. 69 anos, 58 quilos, aposentada, quinto dia de internação por colecistite aguda em tratamento clínico, aguardando colecistectomia eletiva, afebril desde o terceiro dia, sem dor abdominal, aceitando dieta. Ela usa zolpidem 10 mg toda noite em casa há quatro anos, item que foi corretamente identificado na conciliação da admissão e mantido na prescrição — e vem sendo administrado às 22h todas as noites desde a entrada. Ela dorme. O problema é outro: nas últimas duas manhãs, a equipe registrou que ela demora a acordar, fala arrastado até por volta das dez horas e recusa o desjejum. Ontem, ao levantar para ir ao banheiro às 6h40, escorou-se na parede e sentou na poltrona, sem cair. A técnica achou melhor avisar. Sinais vitais estáveis, glicemia capilar 96, saturação 96% em ar ambiente, sem sinal neurológico focal, sem globo vesical, evacuando normalmente. A prescrição tem ainda dipirona se necessário, omeprazol, enoxaparina profilática e escopolamina se necessário para cólica, administrada duas vezes desde a admissão.

  1. o que está acontecendo aqui, e por que não é a doença de base

    Sedação residual é hipótese forte, mas disartria e alteração funcional novas exigem avaliar causas metabólicas e neurológicas, sem presumir benignidade porque o quadro aparece pela manhã. Compare com basal, examine e diga quais achados exigem investigação urgente.

  2. por que a dose que funcionava em casa passou a cobrar aqui

    Ela toma a mesma dose há quatro anos sem esse problema. Liste o que a internação mudou e que pode ter deslocado a mesma dose para além do limite: pense em jejum e ingesta, em função renal e hepática nesta doença, em outras drogas com efeito sedativo ou anticolinérgico somadas na folha, e no horário efetivo de administração comparado ao horário de casa. Conferir a molécula: butilbrometo de escopolamina tem baixa penetração central e não equivale à escopolamina de ação central; não atribuir automaticamente sedação importante a esse produto.

  3. o que você faz com a quase-queda de ontem

    Ela não caiu, e por isso o episódio corre risco de não gerar nenhuma conduta. Diga o que muda hoje na prescrição e no cuidado por causa desse evento, e o que precisa estar registrado.

  4. e agora o passo que falta: o que você faz com o zolpidem hoje à noite, e o que você escreve na alta

    Este é o passo em branco. Decida entre manter a dose, reduzir, ou suspender hoje, e justifique com a farmacologia e com o risco de cada caminho. Depois escreva, em duas ou três frases, o que vai no relatório de alta e na receita — e diga quem conduz o que você não vai resolver nesta internação.

Ver como fecharíamos

A relação temporal favorece efeito do zolpidem, mas disartria e instabilidade novas precisam de avaliação presencial, incluindo exame neurológico, glicemia e respiração. Sintoma focal/persistente pode exigir investigação urgente mesmo com aparente melhora posterior. Conferir dose, formulação, função hepática, última administração e outras exposições. Administrar mais cedo não explica maior concentração pela manhã: em geral dá mais tempo para eliminação. Identificar qual escopolamina foi dada. Butilbrometo de escopolamina, comum para cólica, tem baixa penetração central e não deve ser equiparado à escopolamina de ação central; efeitos periféricos, como retenção, ainda importam. Não inventar insuficiência renal/hepática que a vinheta não forneceu. A quase-queda demanda assistência para mobilidade/eliminações, campainha acessível, avaliação de ortostase quando segura e registro no fluxo local. Não manter 10 mg por inércia. Se está sedada, não dar nova dose até avaliação. Redução para 5 mg pode ser uma etapa após recuperação e revisão, mas não é resposta universal nem garantia contra nova sedação. Uso de quatro anos pede avaliar dependência e planejar retirada; rebote é possível, não inevitável na mesma noite. Toxicidade pode justificar suspensão imediata com vigilância e manejo de abstinência. Na alta, comunicar o ajuste efetivamente feito, razão, resposta e plano individual de redução/seguimento. Não obrigar que saia tomando 5 mg se já não precisar ou se a dose permanecer insegura. Associar medidas de sono e avaliar insônia crônica no seguimento, com decisão compartilhada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A omissão após onze anos favorece retirada, embora se devam considerar outras causas de ansiedade/palpitação. Confirmar dose real e avaliar sedação, respiração, interações e função orgânica. Reintrodução pode ser necessária, mas mesma dose não é obrigação se ficou insegura. Desprescrição gradual pode começar no hospital com condições e continuidade; não precisa ser adiada obrigatoriamente ao ambulatório. Não trocar por hipnótico ou antipsicótico como solução automática.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare tiamina preventiva e tratamento de Wernicke; explique por que glicose urgente não espera. Revise o plano de sono e de monitorização de um paciente real com seu supervisor.

Em 30 dias

Resolva as quatro vinhetas mudando gravidade, função hepática e uso prévio de sedativos. Escreva conciliação e alta com destino explícito de cada medicamento e critérios de reavaliação.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 71 anos, quarto dia de internação em enfermaria de clínica médica por celulite de membro inferior em tratamento com antibiótico endovenoso, chamado pela enfermagem às 23h20 porque pediu, pela segunda noite seguida, alguma coisa para dormir. Está lúcido, orientado e incomodado. Conduza da leitura da prescrição até a decisão da noite — narre em voz alta cada coisa que você está procurando antes de encostar na caneta, faça as perguntas com quantidade e horário, e explique ao paciente, com as suas palavras, o que você vai fazer e o que você não vai fazer.

Agitação e insônia no internado – A noite da enfermaria — Internato | OsceLabs