Clínica Médica › Síndromes do Paciente na Emergência
Os primeiros 5 minutos
Alguém diz "doutor, essa aqui não está bem" e você ainda não sabe nem qual é a queixa. Este capítulo é sobre a sequência que independe do diagnóstico — avaliar, monitorizar, acessar, corrigir o que mata em minutos — e sobre como saber, dez minutos depois, se aquilo funcionou.
Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal, Comissão Permanente de Protocolos de Atenção à Saúde. Protocolo de Atenção à Saúde — Segurança do Paciente: Prevenção da Deterioração Clínica em Pacientes Adultos em Serviço Hospitalar
Hospital Universitário Walter Cantídio, Universidade Federal do Ceará / Ebserh. PRO.GAS.002 — Protocolo Time de Resposta Rápida (TRR). Versão 1, 2020
Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de Protocolo Gerenciado de Sepse — Protocolo Clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse e choque séptico. Revisado em julho de 2026, em substituição à revisão de agosto de 2018
Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Orientações Práticas em Ventilação Mecânica, coordenação de Alexandre Marini Ísola — volume divulgado pelas duas sociedades em setembro de 2024, com o texto fechado em plenária de 20 e 21 de novembro de 2023, em Florianópolis. Artigo que relata o método e os destaques do volume: Ferreira JC, Vianna AOA, Pinheiro BV, Maia IS, Baldisserotto SV, Isola AM, em nome da AMIB e da SBPT. Orientações práticas de ventilação mecânica baseadas em evidências: sugestões de duas sociedades médicas brasileiras. J Bras Pneumol. 2025;51(1):e20240255, co-publicado em Crit Care Sci. 2025;37:e20250242pt. Documento de consenso construído por 75 relatores.
Royal College of Physicians. National Early Warning Score (NEWS) 2: standardising the assessment of acute-illness severity in the NHS. Updated report of a working party. London: RCP, 2017
Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, Núcleo de Qualidade e Segurança do Paciente. PTC.DEPQI-NQSP.004 — Protocolo de Comunicação Efetiva. Versão 1.0.0, 30 de outubro de 2023
American Heart Association. Part 7: Systems of Care — 2020 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2020;142(16_suppl_2):S580–S604
Royal College of Physicians. NEWS2: relatório e quadro original de pontuação, 2017. https://www.rcp.ac.uk/resources/national-early-warning-score-news-2/
ASAM. Clinical Practice Guideline on Alcohol Withdrawal Management, 2020. https://www.asam.org/quality-care/clinical-guidelines/alcohol-withdrawal-management-guideline
SCCM/ESICM. Surviving Sepsis Campaign, 2026. https://www.sccm.org/clinical-resources/guidelines/guidelines/surviving-sepsis-campaign-international-guidelines-for-management-of-sepsis-and-septic-shock-2026
Resuscitation Council UK. Emergency treatment of anaphylactic reactions, 2021. https://www.resus.org.uk/library/additional-guidance/guidance-anaphylaxis/emergency-treatment-anaphylactic-reactions
Responda antes de ler
Paciente de 59 anos internado em enfermaria clínica. Sinais vitais aferidos agora: frequência respiratória 22 irpm, saturação de oxigênio 93% em ar ambiente, pressão arterial 112 por 70 mmHg, frequência cardíaca 96 bpm, temperatura axilar 38,4 °C, alerta e orientado. O serviço usa NEWS2. Qual é o escore e o que ele obriga?
O paciente que você vai ver
São 3h20 de um sábado. Você está no pronto-socorro de um hospital geral, sozinho no corredor porque o residente desceu para intubar alguém na sala vermelha e o plantonista está no centro cirúrgico há quarenta minutos. Uma técnica de enfermagem aparece na porta e diz a frase que abre este capítulo: "doutor, a senhora do leito 4 não está bem".
Você vai até lá. É uma mulher de 62 anos, sentada meio caída na maca, ainda de blusa de frio, trazida pela filha há uma hora e meia com a queixa que a recepção anotou como "mal-estar". Ela olha para você. Responde ao nome. Mas responde devagar, e responde errado: diz que está em casa. A filha, do lado, fala a coisa mais útil que alguém vai dizer nos próximos cinco minutos — "ela não é assim, ela é lúcida".
Você repara em coisas que não estão na ficha. A respiração é curta e rápida, e você não precisa contar para saber que passa de vinte. A mão dela, quando você segura o punho para achar o pulso, está fria até o meio do antebraço, e o pulso é fino e rápido demais para você ter certeza da frequência. Não há monitor ligado. Não há acesso venoso. Não há glicemia anotada em lugar nenhum. A última pressão da folha é de uma hora atrás, aferida na triagem, e está escrita como "110x70" com a mesma letra de todas as outras pressões da folha.
E aqui acontece a coisa que este capítulo existe para desfazer. O seu primeiro impulso — o impulso que seis anos de faculdade construíram — é perguntar. Começar a anamnese. Descobrir o que ela tem. Você abre a boca para perguntar à filha desde quando, e o que ela sentiu antes, e se tomou alguma coisa, porque foi assim que você aprendeu que se atende um paciente: primeiro descobre-se o que é, depois trata-se.
O problema é que essa mulher pode não ter os quinze minutos que a sua anamnese vai levar. E o pior é que, quando você finalmente souber o que ela tem, as primeiras medidas que vai fazer serão exatamente as mesmas que faria agora, sem saber de nada: colocar um monitor, garantir oxigênio se ele estiver faltando, pegar dois acessos, medir a glicemia e chamar alguém. Nenhuma dessas medidas depende do diagnóstico. Todas dependem do relógio.
Este capítulo é sobre esses cinco minutos. Não sobre como se descobre o que ela tem — isso é o resto da apostila. É sobre a sequência que você executa antes de saber, sobre por que ela está nessa ordem, e sobre como, dez minutos depois, você olha para a mesma paciente e sabe dizer se o que você fez funcionou.
Quem adoece disso
A parada cardiorrespiratória dentro do hospital quase nunca é um raio em céu azul. Ela é o fim de uma curva que começou horas antes, com sinais vitais que estavam escritos na folha e que ninguém somou. O protocolo de prevenção de deterioração clínica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal registra o número que resume o problema: cerca de 79% dos pacientes que apresentam parada cardiorrespiratória tinham manifestado alteração importante dos sinais vitais antes do evento — e, destes, 54% morreram. O protocolo de time de resposta rápida do Hospital Universitário Walter Cantídio cita a mesma coisa por outro ângulo: 66% dos pacientes que evoluem para parada já mostravam alterações de sinais e sintomas em até seis horas antes.
A consequência clínica disso é direta e desconfortável: em dois de cada três casos, houve uma janela de horas em que alguém — provavelmente o interno de plantão, porque é ele que está na enfermaria de madrugada — poderia ter interrompido a cascata. Reconhecimento tardio não é uma falha de sorte, é uma falha de vigilância, e ela é evitável.
A escala do problema no Brasil é grande. O protocolo do Distrito Federal traz a estimativa da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 200.000 paradas cardiorrespiratórias por ano no país, metade delas em ambiente intra-hospitalar. Cem mil paradas por ano acontecem, portanto, com equipe de saúde a poucos metros de distância, material disponível e monitor na parede. A incidência intra-hospitalar descrita na literatura de revisão é de 1 a 5 eventos para cada 1.000 admissões — o que significa que um hospital de médio porte com 10.000 internações ao ano convive com dezenas desses eventos, a maioria precedida por horas de aviso.
Existe validação nacional para a ferramenta que fecha essa janela. O mesmo protocolo do Distrito Federal cita estudo brasileiro com 300 pacientes hospitalizados em que o escore MEWS teve relevância estatística como preditor de transferência para UTI e de parada cardiorrespiratória. E a justificativa do protocolo do Hospital Universitário Walter Cantídio para montar um time de resposta rápida é uma revisão sistemática com metanálise publicada na Revista Brasileira de Terapia Intensiva em 2018, mostrando redução efetiva de mortalidade e de ocorrência de parada em adultos internados em unidades abertas.
Traduzindo tudo isso para o que muda no seu plantão: a maioria dos pacientes que morre no hospital avisa antes, e avisa pelos sinais vitais, não pelo diagnóstico. O paciente que você tem na frente com frequência respiratória de 28 e confusão nova é, estatisticamente, o paciente das próximas seis horas — e a intervenção que muda o desfecho dele não é o exame que você vai pedir, é a decisão de tratá-lo como grave agora, antes de saber por quê.
Por que acontece o que acontece
A ordem da avaliação inicial não é uma convenção pedagógica nem uma herança do trauma que alguém copiou para a clínica. Ela é uma lista ordenada por tempo até a morte. Cada letra está na posição em que está porque o problema que ela representa mata mais rápido do que o da letra seguinte, e porque corrigir o problema de baixo não adianta nada enquanto o de cima estiver aberto.
Comece pela via aérea, que é a única que se mede em segundos. Um adulto em apneia por obstrução completa tem como reserva apenas o oxigênio transportado no sangue, principalmente ligado à hemoglobina, e o que restou na capacidade residual funcional — poucos minutos, menos ainda se estava hipoxêmico antes. Não existe intervenção circulatória, farmacológica ou diagnóstica que compre tempo contra uma via aérea fechada. É por isso que o protocolo de avaliação primária do SAMU manda, antes de qualquer outra coisa, avaliar a responsividade e a expansão torácica: um paciente que não responde e não respira já mudou de protocolo, e um paciente que não responde mas respira precisa que a via aérea seja mantida aberta com manobra manual, aspiração ou cânula orofaríngea, antes que qualquer pergunta seja feita a alguém.
A ventilação vem em seguida porque a falência dela mata em minutos, não em segundos. Aqui há dois problemas com relógios diferentes. A hipoxemia é a emergência aguda: abaixo de uma certa saturação, o transporte de oxigênio despenca porque a curva de dissociação da hemoglobina é sigmoide — pequenas quedas adicionais de pressão parcial passam a custar muito conteúdo. Já a hipercapnia é um problema de outra natureza: mata pelo rebaixamento e pela acidose, e é a razão pela qual o padrão respiratório importa tanto quanto o número do oxímetro. O paciente que respira 32 vezes por minuto com musculatura acessória e o paciente que respira 6 vezes por minuto estão os dois em falência ventilatória, e o segundo é o mais grave, embora o oxímetro possa estar dizendo a mesma coisa nos dois.
A circulação mata em minutos a horas, e o mecanismo é sempre o mesmo, seja qual for a causa: a oferta de oxigênio aos tecidos cai abaixo do consumo. Oferta é débito cardíaco multiplicado pelo conteúdo arterial de oxigênio, e por isso choque não é sinônimo de pressão baixa — é um problema de fluxo e de conteúdo, e a pressão é só uma das variáveis, e nem a mais precoce. Oferta insuficiente pode elevar lactato, mas produção por estímulo adrenérgico e redução da depuração também participam. Sua dosagem e tendência ajudam a avaliar gravidade e resposta; não medem diretamente uma quantidade de tecido em dívida de oxigênio nem, isoladamente, indicam mais soro.
A compensação explica por que a ordem dos sinais é tão traiçoeira. Diante da queda de oferta, o organismo aumenta o débito antes de deixar a pressão cair: taquicardia primeiro, vasoconstrição periférica depois — a mão fria e o enchimento capilar lento que você sentiu antes de aferir qualquer coisa. A hipotensão é um evento tardio, e é especialmente tardia no jovem e na gestante, que compensam bem. Um paciente de 24 anos com pressão de 110x70 e frequência de 130 pode estar tão chocado quanto um de 80 anos com pressão de 80x50 — e o primeiro despenca sem aviso quando a compensação se esgota. É por isso que a régua de hipotensão do protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse inclui, além da pressão sistólica abaixo de 90 mmHg e da média abaixo de 65 mmHg, a hipotensão relativa — na revisão de 2026, sistólica abaixo da basal conhecida, que esta apostila conta como queda de mais de 40 mmHg da pressão habitual do paciente: 110 é normal para a população e é hipotensão para quem vive com 160.
A frequência respiratória merece um parágrafo próprio, porque ela é o sinal mais sensível e o mais mal medido do hospital. Ela sobe cedo por dois motivos independentes: como resposta à hipoxemia e como compensação respiratória da acidose metabólica — ou seja, ela se altera tanto no problema pulmonar quanto no problema circulatório, muito antes de a pressão se mexer. A leitura automática da frequência respiratória também pode falhar e precisa ser conferida: pressão tem manguito, saturação tem oxímetro, temperatura tem termômetro, frequência cardíaca sai no monitor, e a frequência respiratória depende de alguém olhar o tórax por um minuto com um relógio na mão. O resultado previsível é que ela é o sinal mais copiado da folha anterior. Não por acaso, no NEWS2 ela pontua 3 nas duas pontas: com 8 irpm ou menos e com 25 ou mais.
A quarta letra, o estado neurológico, tem uma peculiaridade que muda a ordem prática das coisas: ela tem uma causa reversível que se corrige em dois minutos com um remédio que já está no carrinho. O cérebro não estoca glicose. Ele consome de forma contínua e depende inteiramente da oferta pelo sangue, e por isso a neuroglicopenia produz alteração de consciência rápida, escalando de confusão a convulsão e coma — e reverte igualmente rápido, se for corrigida a tempo. Um paciente rebaixado sem glicemia medida é um paciente com um diagnóstico tratável em aberto. É por isso que a glicemia capilar entra nos cinco minutos, e não na leva de exames que vai para o laboratório.
Falta dizer por que a estabilização precede o diagnóstico sem ser um ato de anti-intelectualismo. As intervenções dos primeiros cinco minutos — abrir via aérea, ofertar oxigênio titulado, monitorizar, obter acesso, medir glicemia, repor volume no hipoperfundido — têm duas propriedades em comum: agem sobre a via final comum de qualquer doença grave, que é a oferta de oxigênio aos tecidos, e precisam de indicação e reavaliação: oxigênio, volume e procedimentos também causam dano quando usados inadequadamente. Já a terapêutica específica tem exatamente as propriedades opostas: só funciona no diagnóstico certo e machuca no errado. A ordem, portanto, não é "agir sem pensar". É executar primeiro o que é verdadeiro em quase todos os cenários e adiar o que só é verdadeiro em um.
Por fim, é esse mesmo raciocínio que sustenta os escores de alerta precoce. Se a deterioração é um contínuo fisiológico que passa pelos sinais vitais antes de passar pelo diagnóstico, então somar os desvios dos sinais vitais é uma forma de enxergar a curva antes que ela vire evento. O escore não sabe o que o paciente tem. Ele sabe quanto o paciente se afastou da fisiologia normal, e transforma isso em duas decisões concretas: de quanto em quanto tempo se mede de novo, e quem se chama.

Como se apresenta de verdade
Gravidade tem apresentação própria, anterior ao diagnóstico. Antes de o paciente ter um nome de doença, ele tem um padrão — e esse padrão se lê em cinco lugares: o que a respiração está fazendo, o que a consciência está fazendo, o que a perfusão está fazendo, o que a pressão ainda está segurando, e o que a soma disso tudo dá quando você a transforma em número. O que segue é o espectro real, incluindo os pacientes que se apresentam fora dele.
Percurso de aprendizagem
Comece pela cena e diga, antes de nomear uma doença, quais achados exigem ajuda e suporte. Relacione cada intervenção ao problema que pretende corrigir e ao sinal que mostrará resposta.
Depois use os casos para treinar divisão de tarefas, reavaliação e uma chamada breve ao supervisor. Consulte a tabela para calcular o escore; o objetivo é perceber deterioração e agir, não memorizar todas as faixas.
O sinal que aparece primeiro é o que ninguém conta
A frequência respiratória é o primeiro parâmetro a se mexer no paciente que está entrando em falência, seja a falência pulmonar ou circulatória, e é o parâmetro que você vai encontrar anotado como "18" em todas as folhas do hospital. Contá-la corretamente exige sessenta segundos de silêncio com a mão no punho do paciente — a mão no punho porque quem sabe que está sendo contado muda o ritmo — e nenhum plantão dá esses sessenta segundos de graça. Você precisa tomá-los.
As faixas do NEWS2 dizem onde está o perigo. De 12 a 20 irpm não pontua. De 21 a 24 vale 2 pontos, e a partir de 25 vale 3 — a mesma pontuação máxima que a hipotensão grave recebe. Na outra ponta, 9 a 11 irpm vale 1 ponto e 8 ou menos vale 3. Essa simetria é deliberada e diz uma coisa clínica: a bradipneia é tão grave quanto a taquipneia extrema, e é muito mais fácil de perder, porque um paciente que respira devagar parece calmo.
Junto com o número, olhe o padrão. Uso de musculatura acessória, tiragem intercostal e de fúrcula, movimentos assimétricos do tórax, incapacidade de completar uma frase entre respirações: nada disso pontua em escore nenhum, e tudo isso muda a sua conduta. O protocolo de avaliação primária do SAMU pede explicitamente a avaliação do padrão ventilatório, da simetria torácica e da presença e simetria do murmúrio vesicular antes de qualquer decisão sobre oxigênio ou suporte.
Consciência: a confusão nova é sinal de órgão, não de idade
A atualização de 2017 do NEWS fez uma mudança pequena na forma e enorme na prática: a escala de consciência deixou de ser AVPU e passou a ser ACVPU, com o C de confusão nova. Um paciente que responde às perguntas de forma coerente mas está desorientado, agitado ou simplesmente diferente do que era — e o relatório do Royal College of Physicians observa que essa diferença pode ser sutil — pontua 3 no NEWS2. Três pontos é o mesmo peso da saturação abaixo de 91% e da pressão sistólica abaixo de 90 mmHg.
Isso não é generosidade com o delirium. É reconhecimento de que a alteração aguda de mentação é uma disfunção orgânica como qualquer outra. O protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse lista, entre as principais disfunções que definem sepse, exatamente "rebaixamento do nível de consciência, agitação, delirium" — no mesmo nível hierárquico da hipotensão, da oligúria e da plaquetopenia.
A frase que a filha da paciente da cena disse — "ela não é assim, ela é lúcida" — é, portanto, um dado de exame físico, e é frequentemente o único dado que separa a confusão nova da demência de base. Quem mora com o paciente sabe o que é o basal dele; a folha da triagem não sabe. Pergunte, e pergunte cedo: é uma das informações dirigidas que ajudam nos primeiros minutos, ao lado de início dos sintomas, medicamentos e alergias.
Perfusão: o que a mão diz antes do esfigmomanômetro
O exame de perfusão é gratuito, leva quinze segundos e antecede a hipotensão. O protocolo de avaliação primária do SAMU pede, no item de estado circulatório, exatamente estes achados: pulsos periféricos e centrais com frequência, ritmo, amplitude e simetria; tempo de enchimento capilar; coloração e temperatura da pele. O protocolo do Distrito Federal fixa os cortes que transformam isso em decisão: tempo de enchimento capilar superior a dois segundos indica perfusão tissular periférica comprometida, e volume urinário de 0,5 mL por quilo por hora ou inferior a 30 mL por hora é oligúria.
O protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse acrescenta a lista de sinais de hipoperfusão que pesam mesmo sem hipotensão: oligúria, livedo, tempo de enchimento capilar lentificado e alteração do nível de consciência — e a revisão de 2026 manda ressuscitar diante de enchimento capilar acima de 3 segundos mesmo com lactato normal, e avaliar a reposição volêmica diante dos outros três. Repare no que isso significa na prática — o documento autoriza iniciar ressuscitação volêmica com base em uma mão fria, uma pele rendilhada e uma sonda vesical seca, sem esperar o número da pressão desabar.
Há uma armadilha na outra direção. Extremidades quentes e bem perfundidas não excluem choque: no choque distributivo da fase inicial da sepse e na anafilaxia, a vasodilatação mantém a pele quente enquanto a oferta tecidual já caiu. Perfusão periférica preservada com taquicardia, taquipneia e confusão nova é um quadro grave até prova em contrário.
A pressão que ainda está normal
No NEWS2, a pressão arterial sistólica só começa a pontuar 1 abaixo de 111 mmHg, pontua 2 entre 91 e 100, e chega a 3 pontos com 90 mmHg ou menos. Do lado alto, só 220 mmHg ou mais pontua. A leitura correta dessa assimetria é que a hipertensão isolada não é o problema dos primeiros cinco minutos — a hipotensão é —, mas também que a pressão sozinha é um parâmetro tardio e pouco sensível.
A régua que resgata o paciente compensado é a queda relativa. O protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse define hipotensão como pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, pressão arterial média abaixo de 65 mmHg ou hipotensão relativa, que a revisão de 2026 escreve como sistólica abaixo da basal conhecida e esta apostila conta como queda de mais de 40 mmHg em relação à pressão habitual. Esse terceiro critério é o que enxerga o hipertenso crônico que chegou com 120x70 e está, para ele, em choque. Descobrir a pressão habitual custa uma pergunta ao acompanhante.
E há uma classe de paciente em que os escores simplesmente não valem. O relatório do NEWS2 é explícito em três restrições: o escore não deve ser usado em menores de 16 anos nem em gestantes, porque a resposta fisiológica à doença aguda é modificada pela idade e pela gestação; e pode ser não confiável no lesado medular, especialmente tetraplégico ou paraplégico alto, pela disfunção autonômica que distorce pulso, temperatura e pressão nas duas direções. Nesses pacientes, o escore não substitui nada — o julgamento clínico é tudo o que há.
Quem se apresenta fora do figurino
O idoso é o principal. Ele pode fazer infecção grave sem febre e, pior, com hipotermia: no NEWS2, temperatura de 35,1 a 36,0 °C já pontua 1, e 35,0 °C ou menos pontua 3. No MEWS usado na rede pública do Distrito Federal, a faixa de 35 a 38,4 °C não pontua nada — a mesma paciente que soma pontos por hipotermia em um escore não soma no outro. Além disso, no idoso a confusão nova frequentemente é a apresentação inteira: sem dor, sem febre, sem queixa localizatória.
O diabético de longa data pode ter neuropatia autonômica e não taquicardizar como deveria, o que apaga o sinal mais precoce de compensação. O paciente em uso de betabloqueador tem o mesmo problema por outro caminho, e o dado está na caixinha de remédios que o acompanhante trouxe — o M do SAMPLA, que o protocolo de avaliação secundária do SAMU coloca logo depois das alergias.
O imunossuprimido faz infecção grave com resposta inflamatória apagada, e o portador de doença pulmonar obstrutiva crônica com retenção de CO2 exige a escala alternativa de saturação: o NEWS2 tem uma seção própria, a escala 2, para insuficiência respiratória hipercápnica confirmada; o alvo 88–92% por risco isolado não autoriza automaticamente essa escala, e o relatório é rígido quanto a usar uma escala ou a outra, nunca as duas, com a decisão registrada no prontuário e a escala não usada riscada na folha.
Por fim, o paciente que não pontua e mesmo assim está mal. O relatório do NEWS2 tem uma recomendação que vale mais que a tabela inteira: a preocupação com a condição clínica do paciente deve sempre se sobrepor ao escore, se o profissional que está ali julgar necessário escalonar. O protocolo do Hospital Universitário Walter Cantídio operacionaliza isso de forma ainda mais direta, colocando "preocupação da equipe com o estado clínico do paciente" na lista formal de critérios de acionamento do time de resposta rápida. Sensação ruim é critério escrito, não desculpa.
O que o qSOFA é e o que ele não é
Vale desfazer uma confusão frequente. O qSOFA — rebaixamento de consciência, frequência respiratória de 22 irpm ou mais e pressão sistólica de 100 mmHg ou menos — parece um escore de triagem porque é curto e de beira de leito, mas o protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse é explícito ao contrário: ele não deve ser usado para triagem de pacientes com suspeita de sepse. O motivo é a baixa sensibilidade, e a revisão de 2026 acrescenta que a diretriz internacional daquele ano não o recomendou para essa função; o que o escore tem de validado é a previsão de deterioração.
A posição do documento é que a triagem se faça com critérios mais sensíveis, e que o qSOFA sirva depois — para, entre os pacientes já triados, identificar quem tem maior risco de morrer. Dois ou mais componentes presentes marcam o paciente que merece atenção especial, do mesmo modo que múltiplas disfunções orgânicas o marcam.
A tradução prática para o seu plantão: qSOFA negativo não tranquiliza ninguém e não fecha porta nenhuma. Um paciente com foco infeccioso e uma única disfunção orgânica já tem sepse pela régua do protocolo, ainda que some zero no qSOFA.
Como fechar o diagnóstico
Os exames dos primeiros minutos são poucos, são baratos e têm uma característica em comum: cada um deles responde a uma pergunta que muda o que você faz nos cinco minutos seguintes. Esse é o critério de inclusão. Exame que só vai mudar a conduta de amanhã não é exame dos primeiros minutos, por mais certo que esteja pedi-lo.
Exames e monitorização caminham em paralelo à avaliação primária, conforme a equipe disponível. Ameaça imediata não espera resultado nem a instalação de todos os dispositivos. Glicemia capilar, por exemplo, não depende de acesso venoso.
Glicemia capilar: o exame que devolve o paciente
Um minuto, uma gota de sangue, e a resposta a uma pergunta que nenhum outro exame responde tão rápido: este rebaixamento tem causa reversível agora? O protocolo AC29 do SAMU define hipoglicemia como glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL acompanhada de sinais e sintomas — tremores, sudorese, palidez, taquicardia, tontura, cefaleia, fraqueza, parestesias, distúrbios visuais e rebaixamento de consciência que vai da confusão à convulsão e à inconsciência. O protocolo do Distrito Federal fixa o gatilho da prescrição de resgate mais abaixo, em glicemia igual ou inferior a 54 mg/dL.
Glicemia abaixo de 70 mg/dL exige intervenção conforme sintomas, tendência e capacidade de engolir; abaixo de 54 mg/dL é hipoglicemia clinicamente significativa. Com rebaixamento, não dar líquido pela boca. Corrigir por via apropriada e reavaliar em cerca de 15 minutos. A glicose hipertônica também tem riscos, sobretudo extravasamento, e deve ter dose e acesso conferidos.
Suspeitar de CAD por quadro clínico, diabetes e cetose, mesmo com glicemia abaixo de 300. No adulto, diabetes prévio ou glicose ≥200, cetose e acidose compõem os critérios; SGLT2 pode causar CAD euglicêmica. Gasometria, eletrólitos e beta-hidroxibutirato esclarecem, sem depender de um corte de glicemia isolado.
A regra que resume tudo: nenhum paciente com alteração de consciência sai dos seus primeiros cinco minutos sem uma glicemia capilar anotada com hora. Não medir é deixar em aberto o único diagnóstico que se trata em dois minutos com o material que já está no carrinho.
Eletrocardiograma de 12 derivações: o que ele resolve em trinta segundos
O eletrocardiograma dos primeiros minutos não é o exame de dor torácica — é o exame do paciente grave sem diagnóstico, e responde a três perguntas de uma vez. A primeira é o ritmo: existe uma taqui ou bradiarritmia que, sozinha, explica a hipotensão e a confusão e que tem tratamento imediato? A segunda é a isquemia, inclusive no paciente que não tem dor nenhuma — e o idoso e o diabético frequentemente não têm. A terceira é o distúrbio eletrolítico com cara elétrica, sobretudo a hipercalemia, cujo traçado chega em trinta segundos enquanto o potássio do laboratório demora quarenta minutos.
O protocolo de prevenção de deterioração clínica do Distrito Federal coloca "solicitar eletrocardiograma" na lista de intervenções do estrato 3, ou seja, a partir de MEWS de 4 a 6 pontos ou de qualquer parâmetro pontuando 3. Não é um exame de exceção: é rotina do paciente que pontuou.
O traçado só vale se for visto. Um eletrocardiograma impresso e deixado sobre o balcão tem valor diagnóstico zero — e é um dos erros que o bloco seguinte descreve com nome e sobrenome.
Gasometria arterial e lactato: quanto o tecido está devendo
A gasometria arterial responde ao que o oxímetro não responde. O oxímetro dá saturação; a gasometria dá pressão parcial de oxigênio, pressão parcial de gás carbônico e pH — e é o CO2 que separa a falência de oxigenação da falência de ventilação, duas situações com condutas diferentes. Um paciente hipoxêmico com CO2 baixo está hiperventilando e compensando; o mesmo paciente com CO2 subindo está cansando, e cansaço é indicação de suporte ventilatório, não de mais oxigênio.
O pH e o bicarbonato acrescentam a leitura metabólica. Acidose metabólica com ânion-gap aumentado no paciente hipoperfundido é a assinatura do lactato; e o mesmo exame flagra a cetoacidose e a acidose da insuficiência renal, dois diagnósticos que se apresentam como "paciente confuso e taquipneico".
O lactato tem papel próprio e prazo próprio. O protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse manda colhê-lo o mais rápido possível, de preferência dentro da primeira hora, encaminhá-lo imediatamente ao laboratório para não dar falso positivo por hemólise ou demora, e define como objetivo ter o resultado em 30 minutos. Lactato elevado exige avaliar perfusão e causas alternativas, mesmo com pressão normal; não é indicação isolada de volume fixo. E qualquer lactato acima do valor de referência — que a revisão de 2026 fixa em 2 mmol/L, ou 18 mg/dL — já conta como disfunção orgânica na régua do documento.
Um cuidado que evita interpretação errada: lactato alto não é sinônimo de hipoperfusão. Convulsão recente, uso de beta-agonista inalatório em dose alta, insuficiência hepática e algumas intoxicações elevam lactato sem choque. O próprio protocolo adverte que a meta é fazer o lactato cair, não necessariamente normalizá-lo, sob risco de intervenções desnecessárias e potencialmente deletérias, e que a hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais clínicos de hipoperfusão, não precisa necessariamente ser tratada. O lactato orienta; ele não manda.
Hemograma, função renal, eletrólitos, coagulograma e bilirrubinas
Esta é a leva que vai junto na mesma punção do acesso, e ela não é um pacote de rotina disfarçado: é a busca ativa de disfunção orgânica. O protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse monta esta lista em volta do pacote de 1 hora — gasometria e lactato arterial no pacote, e hemograma completo, creatinina, bilirrubina e coagulograma como a coleta que, na revisão de 2026, ele registra como habitual nos serviços —, e cada item corresponde a uma disfunção da lista de gatilhos: creatinina acima de 2 mg/dL ou oligúria para o rim; plaquetas abaixo de 100.000/mm³, ou queda de 50% em relação ao maior valor dos últimos três dias, para a coagulação; bilirrubinas acima de duas vezes o valor de referência para o fígado.
O protocolo do Distrito Federal, do lado da enfermaria, pede no estrato 3 hemograma completo, creatinina, ureia, sódio, potássio, transaminases, creatinofosfoquinase, desidrogenase lática e proteína C reativa, com o coagulograma solicitado apenas se o exame anterior tiver mais de 6 horas — uma regra do documento citado; na prática, repetir conforme sangramento, procedimento e evolução, sem automatismo de seis horas.
Na suspeita de sepse ou bacteremia, colher hemoculturas prontamente, idealmente antes do antimicrobiano e sem atrasá-lo. Antibiótico prévio ou ausência de febre não eliminam a indicação; febre isolada tampouco obriga culturas em todos. No adulto, em geral são obtidos dois conjuntos conforme o laboratório, com volume adequado por frasco e identificação dos sítios.
O exame mais barato de todos: reavaliar o paciente
Repetir os sinais vitais dez minutos depois é um exame. Ele tem sensibilidade, tem custo zero e produz um dado que nenhum exame isolado produz: a derivada. Frequência respiratória de 26 é preocupante; frequência respiratória de 26 que era 20 há dez minutos é uma trajetória, e trajetória decide conduta muito melhor que valor absoluto.
Toda a arquitetura dos escores de alerta precoce é construída em cima disso. O relatório do NEWS2 chama o sistema de "track and trigger": ele rastreia a evolução e dispara. E o protocolo de avaliação primária do SAMU fecha com a mesma instrução, em uma linha: repetir a avaliação primária durante o transporte. Avaliação primária não é um evento, é um ciclo.
O corolário operacional é duro e precisa ser dito: o paciente instável não fica sozinho. Não há como colher a derivada de um paciente que ninguém está olhando, e é entre uma aferição e outra que a deterioração acontece.
O que não pedir nos primeiros cinco minutos, e o que custa pedir
Transporte de paciente instável exige equipe, monitorização, oxigênio e material de resgate apropriados. A sala de imagem não é invariavelmente desprovida de recursos; o problema é deslocar sem suporte suficiente. Se imagem urgente mudar uma intervenção vital, planejar o transporte com a equipe, em vez de exigir estabilização perfeita inalcançável.
Painéis diagnósticos amplos disparados por reflexo. Marcadores em série, sorologias, exames de imagem múltiplos pedidos "já que estamos colhendo": o custo não é financeiro, é de atenção e de tempo. Cada resultado que volta exige leitura, e resultado marginalmente alterado em paciente grave gera perseguição de dado irrelevante enquanto o paciente descompensa.
Radiografia que exige sentar o paciente hipotenso, ou levá-lo à sala de raio X. Se a imagem de tórax é necessária agora, ela é no leito. O protocolo do Distrito Federal, aliás, condiciona o raio X de tórax do estrato 3 a um achado clínico — presença de ruídos adventícios à ausculta associada a febre igual ou superior a 38 °C, na ausência de radiografia anterior — e não a um automatismo.
E o exame mais caro de todos: a anamnese completa antes da estabilização. Ela custa quinze minutos, é a coisa mais confortável de fazer, e é feita em pé ao lado de um paciente que não está monitorizado. O protocolo do SAMU resolve isso com uma hierarquia clara: a avaliação primária vem primeiro; a entrevista SAMPLA e o exame da cabeça aos pés são a avaliação secundária, e o próprio documento registra que ela é importante, porém não obrigatória, principalmente nos pacientes críticos ou se atrasar o transporte.
O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe
Quase tudo o que este capítulo pede existe em qualquer pronto-socorro do SUS: monitor multiparâmetros, oxímetro, glicosímetro, eletrocardiógrafo, cateteres venosos, soro fisiológico, glicose hipertônica, adrenalina. Essas são as ferramentas dos cinco minutos, e elas estão na sala.
O que falta com frequência é o lactato com resultado em 30 minutos, que exige gasômetro no próprio serviço e um fluxo de transporte de amostra que funcione de madrugada. Quando ele não existe, a avaliação de perfusão não desaparece: ela volta a ser clínica, e o próprio protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse fornece a lista alternativa, que serve para indicar a ressuscitação e para reavaliá-la — tempo de enchimento capilar, que a revisão de 2026 propõe medir a cada 30 minutos no paciente hipoperfundido, débito urinário, nível de consciência e a resposta pressórica à infusão de fluidos, com o livedo entre os sinais que indicam a reposição. Um serviço sem gasômetro não é um serviço sem critério de hipoperfusão.
A outra falta comum é a vaga de terapia intensiva. Ela não muda o que se faz nos primeiros cinco minutos, e o protocolo do Instituto Latino Americano de Sepse é direto sobre isso: pacientes com disfunção grave ou choque devem ser alocados em leito de terapia intensiva assim que possível, e caso não seja possível, deve-se garantir o atendimento integral do paciente independentemente do setor em que ele estiver. Ausência de vaga não é motivo para reduzir o cuidado; é motivo para trazer o cuidado até onde o paciente está.
Os cinco minutos, em ordem
Reconheça a ameaça, peça ajuda e trate via aérea, ventilação e circulação enquanto a equipe monitora e mede glicemia. As marcações de minutos organizam o trabalho em paralelo; nenhuma delas autoriza esperar para corrigir uma ameaça já identificada. O escore ajuda a comunicar e acompanhar, sem substituir o exame ou adiar escalonamento.
- 1Reconhecer ameaça e chamar ajuda. Inconsciência com respiração ausente ou anormal exige avaliar pulso em até dez segundos e iniciar RCP se não houver pulso definido. Com pulso, apoiar via aérea e ventilação sem esperar monitor ou exames.
- 2Minuto 1 a 2. Monitorize e meça. Monitor multiparâmetros com oximetria, pressão não invasiva em ciclo curto e traçado cardíaco. Conte a frequência respiratória por sessenta segundos, com o relógio, olhando o tórax. Meça temperatura. Meça glicemia capilar. Só existe escore depois que existem esses números.
- 3Minuto 2 a 3. Oxigênio e acesso. Titule oxigênio pelo alvo de saturação, escolhendo o dispositivo pelo fluxo necessário. Puncione dois acessos venosos periféricos calibrosos, cateter 18 ou maior, e colha na mesma punção a leva de exames inteira.
- 4Corrigir imediatamente hipoglicemia, anafilaxia ou outra ameaça identificada. Fluidos dependem do mecanismo de hipoperfusão e da tolerância; vasopressor pode ser necessário em paralelo. Reavaliar ABC e resposta após cada intervenção.
- 5Minuto 5. Some, classifique e chame. Calcule o escore do seu serviço, defina a frequência de reavaliação pela faixa e acione quem a faixa manda acionar — com estrutura, em quatro passos, não com "o paciente do 4 está ruim".
- 6Aprofundar história, exame e investigação conforme o suporte se estabelece. Perguntas que mudam a conduta imediata já são feitas em paralelo. Antibiótico e controle do foco não aguardam o fim formal de uma etapa da avaliação.
NEWS2 de 0 a 4 — risco baixo
Monitorização mínima de 12 em 12 horas com escore zero, e de 4 em 4 a 6 em 6 horas de 1 a 4 pontos. O enfermeiro decide se aumenta a frequência ou escalona, e comunica a equipe médica responsável.
Escore 3 em um único parâmetro
Variação extrema isolada — pulso de 40 ou menos, respiração de 8 ou menos, temperatura de 35 °C ou menos. Reavaliação no mínimo de hora em hora e revisão por profissional com competência em doente agudo, qualquer que seja a soma.
NEWS2 de 5 a 6 — limiar de resposta urgente
Reavaliação no mínimo de hora em hora. O enfermeiro comunica imediatamente a equipe médica e pede avaliação urgente de quem tenha competência em doente agudo, em ambiente com monitorização.
NEWS2 de 7 ou mais — limiar de emergência
Monitorização contínua dos sinais vitais. Avaliação de emergência por equipe com competência em cuidados críticos, incluindo manejo avançado de via aérea, e consideração de transferência para unidade de maior dependência ou terapia intensiva.
| Parâmetro | 3 | 2 | 1 | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Frequência respiratória (irpm) | 8 ou menos | — | 9 a 11 | 12 a 20 | — | 21 a 24 | 25 ou mais |
| SpO2 — escala 1 (%) | 91 ou menos | 92 a 93 | 94 a 95 | 96 ou mais | — | — | — |
| SpO2 — escala 2 (%), alvo de 88 a 92% | 83 ou menos | 84 a 85 | 86 a 87 | 88 a 92, ou 93 ou mais em ar ambiente | 93 a 94 em oxigênio | 95 a 96 em oxigênio | 97 ou mais em oxigênio |
| Ar ambiente ou oxigênio | — | Em oxigênio | — | Em ar ambiente | — | — | — |
| Pressão arterial sistólica (mmHg) | 90 ou menos | 91 a 100 | 101 a 110 | 111 a 219 | — | — | 220 ou mais |
| Frequência cardíaca (bpm) | 40 ou menos | — | 41 a 50 | 51 a 90 | 91 a 110 | 111 a 130 | 131 ou mais |
| Consciência (ACVPU) | — | — | — | Alerta | — | — | Confusão nova, resposta à voz, resposta à dor ou irresponsivo |
| Temperatura (°C) | 35,0 ou menos | — | 35,1 a 36,0 | 36,1 a 38,0 | 38,1 a 39,0 | 39,1 ou mais | — |
NEWS2 — frequência de monitorização e resposta clínica por faixa
| Escore | Frequência mínima de monitorização | Resposta clínica |
|---|---|---|
| 0 | 12 em 12 horas | Manter a monitorização de rotina e informar o enfermeiro responsável, que avalia o paciente |
| 1 a 4 | 4 em 4 a 6 em 6 horas | O enfermeiro decide se aumenta a frequência de monitorização ou se escalona o cuidado, e informa a equipe médica responsável |
| 3 em um único parâmetro | De hora em hora | Revisão urgente por profissional com competência na avaliação de doente agudo — em geral o médico da enfermaria — para determinar a causa e decidir sobre escalonamento |
| 5 a 6 (limiar de resposta urgente) | De hora em hora | O enfermeiro informa imediatamente a equipe médica e solicita avaliação urgente por profissional ou equipe com competência no cuidado do doente agudo; cuidado prestado em ambiente com monitorização |
| 7 ou mais (limiar de emergência) | Monitorização contínua dos sinais vitais | Comunicação imediata à equipe médica, no mínimo em nível sênior; avaliação de emergência por equipe com competência em cuidados críticos, incluindo manejo avançado de via aérea; considerar transferência para unidade de maior dependência ou terapia intensiva |
MEWS — o escore adotado nos protocolos brasileiros de deterioração clínica
| Parâmetro | 3 | 2 | 1 | 0 | 1 | 2 | 3 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Pressão arterial sistólica (mmHg) | 70 ou menos | 71 a 80 | 81 a 100 | 101 a 199 | — | Mais de 200 | — |
| Frequência cardíaca (bpm) | — | 40 ou menos | 41 a 50 | 51 a 100 | 101 a 110 | 111 a 129 | 130 ou mais |
| Frequência respiratória (irpm) | Menos de 8 | — | 9 a 11 | 12 a 20 | — | 21 a 29 | 30 ou mais |
| Temperatura axilar (°C) | — | 34,9 ou menos | — | 35 a 38,4 | — | 38,5 ou mais | — |
| Nível de consciência | — | — | — | Alerta | Confuso | Resposta à dor | Inconsciente |
MEWS — estrato de risco, tempo de reavaliação e resposta
| Escore MEWS | Tempo para nova avaliação | Resposta |
|---|---|---|
| 0 a 1 ponto | A cada 6 horas | Reavaliar o escore e verificar se houve alteração |
| 2 a 3 pontos | A cada 4 horas | Iniciar as intervenções do estrato 2 e comunicar o enfermeiro plantonista: manter via aérea desobstruída, elevar a cabeceira a 45°, checar permeabilidade do acesso, medir glicemia capilar |
| 4 a 6 pontos, ou qualquer parâmetro pontuando 3 | A cada 1 hora | Avaliação médica necessária. Intervenções do estrato 3: monitorização multiparâmetros, oxigenoterapia com o dispositivo adequado, acesso calibroso com cateter 18 ou maior, exames laboratoriais e gasometria, eletrocardiograma, controle de débito urinário, carrinho de emergência conferido, paciente em leito próximo ao posto de enfermagem |
| 7 pontos ou mais | Monitorização constante | Paciente grave em risco iminente de morte. Encaminhar ao box de emergência e solicitar avaliação médica; monitorar sinais de choque, insuficiência respiratória iminente, distúrbios eletrolíticos e perfusão tissular |
Gatilhos de acionamento do time de resposta rápida e tempo de chegada do médico
| Código | Tempo máximo de chegada | Situações que acionam |
|---|---|---|
| Verde | 1 hora | Admissão de paciente clínico; preocupação da equipe com o estado clínico do paciente; avaliação de radiografia; paciente clínico sem prescrição; inadequação identificada na prescrição |
| Amarelo | 30 minutos | Desconforto respiratório leve; saturação periférica de 90 a 93%; pressão sistólica acima de 180 mmHg ou diastólica acima de 110 mmHg sem medicação prescrita; agitação psicomotora leve a moderada; dor moderada sem analgésico prescrito ou que não cedeu; temperatura axilar acima de 38 °C sem medicação prescrita; glicemia capilar acima de 250 mg/dL sem esquema insulínico prescrito; sinais de reação alérgica a medicação ou transfusão; transporte de paciente crítico |
| Laranja | 7 minutos | Desconforto respiratório moderado; saturação periférica abaixo de 90%; agitação psicomotora grave; dor intensa que não cedeu ao analgésico; crise convulsiva; glicemia capilar abaixo de 70 mg/dL sem esquema de glicose; sangramento ativo ameaçador; dor torácica típica com suspeita de infarto; suspeita de acidente vascular cerebral; abertura do protocolo de sepse |
| Vermelho | Imediato | Desconforto respiratório intenso; parada cardiorrespiratória |
Oxigênio: dispositivo, fluxo e concentração
| Dispositivo | Fluxo | Concentração de O2 | Quando usar |
|---|---|---|---|
| Cânula nasal de baixo fluxo | 1 a 4 L/min | 24% a 40% | Método preferencial para necessidade baixa a intermediária. Acima de 4 L/min gera desconforto e resseca a mucosa |
| Máscara facial simples | 5 a 10 L/min | 40% a 60% | Fluxo abaixo de 5 L/min aumenta a resistência respiratória e permite reinalação de CO2 |
| Máscara de Venturi | Fluxo mínimo e adaptador conforme fabricante, ajustando oferta total à demanda inspiratória | Conforme a peça indicada no dispositivo | Oferece FiO2 previsível quando montada e alimentada corretamente. Taquipneia/demanda elevada pode exigir maior fluxo total; aumentar o fluxo de entrada não equivale a escolher outra FiO2 nominal. |
| Máscara com reservatório, sem reinalação | 10 a 15 L/min | 60% a 90% | Primeiro atendimento do paciente crítico ainda sem quadro definido, sem oxímetro disponível ou sem informação sobre risco de hipercapnia; saturação abaixo de 85% |
Some 2 pontos ao NEWS2 de qualquer paciente que esteja usando oxigênio suplementar para manter a saturação alvo. É o segundo maior peso da tabela, e existe porque o mesmo número de saturação significa coisas diferentes em ar ambiente e sob máscara.
A escala 2 do NEWS2 exige insuficiência respiratória hipercápnica confirmada em gasometria prévia ou atual e decisão clínica documentada. DPOC ou risco de retenção isoladamente não bastam para trocar a escala. O alvo inicial de oxigênio pode ser 88–92% enquanto se avalia esse risco; use uma única escala conforme a indicação.
O NEWS não deve ser usado em menores de 16 anos nem em gestantes, porque a idade e a gestação modificam a resposta fisiológica à doença aguda. E pode ser não confiável no lesado medular, sobretudo tetraplégico ou paraplégico alto, pela disfunção autonômica.
A preocupação com a condição clínica do paciente sempre se sobrepõe ao escore. Escore baixo em paciente que parece mal é indicação de escalonar assim mesmo — e de anotar o motivo. No protocolo de time de resposta rápida do Hospital Universitário Walter Cantídio, "preocupação da equipe" é critério formal de acionamento, com meta de chegada em uma hora.
As faixas do MEWS variam entre versões institucionais, e essa variação foi justamente o problema que a padronização do NEWS resolveu no sistema britânico. Use a régua impressa na folha do seu serviço e nunca misture os cortes de um escore com os do outro.
Todo escore precisa de hora anotada. Um MEWS de 5 sem horário não permite calcular a derivada, que é a informação mais valiosa que o escore produz.
Hipotensão relativa sem régua numérica na fonte, e o hipertenso da madrugada paga por isso. Até agosto de 2018, o ILAS contava na lista de disfunções a queda maior que 40 mmHg; a revisão de julho de 2026 passou a dizer apenas sistólica inferior à pressão basal conhecida. Literalmente, quem vive em 160 e chega com 150 teria disfunção orgânica por 10 mmHg. Só que o próprio texto de 2026, ao dizer quem recebe volume, segue chamando de hipotenso quem reduziu a sistólica em 40 mmHg, e a diretriz internacional que ele toma como alicerce exige sistólica bem abaixo da basal. Resolvida pela coerência do documento: esta apostila adota a queda de mais de 40 mmHg da sistólica habitual como régua de hipotensão relativa.
Também não fecha o volume de ressuscitação. Esta apostila adota 30 mL/kg como volume de referência, iniciado na primeira hora e terminado em até 3 horas, com volume menor decidido por fluido-tolerância ou falta de resposta e com o motivo escrito no prontuário, porque a revisão de 2026 do ILAS, ao escrever até 30 mL/kg entre a primeira e a terceira hora, manda no mesmo parágrafo documentar a decisão de repor menos — o que só se faz diante de um total de referência —, e a diretriz internacional de 2026, sua base declarada, sugere pelo menos esse volume nas primeiras 3 horas. Nos 60 kg da paciente da cena, 30 × 60 dá 1.800 mL.
Erro de unidade na régua transfusional da fonte. Nas duas revisões, a de 2018 e a de 2026, o ILAS põe o limiar do paciente hipoperfundido em hemoglobina abaixo de 7 mg/dL — primeiro como transfusão obrigatória, depois como possível. A hemoglobina se mede em g/dL: 7 mg/dL correspondem a 0,007 g/dL, um milésimo do gatilho que a frase quer dizer. A prescrição deste capítulo usa 7 g/dL.
A conduta, hora a hora
O que segue é a linha do tempo real, minuto a minuto, com o que se prescreve em cada marco e a fonte que sustenta cada dose. Duas advertências antes de começar. A primeira é que os minutos são uma ordem de prioridade, não um cronômetro: se o acesso demorar três minutos porque a paciente é obesa e desidratada, o mundo não acaba — o que não pode é o acesso vir depois da tomografia. A segunda é que quase tudo aqui é executado por outra pessoa. Você prescreve em voz alta, nominalmente, e confirma que foi feito. Ordem dada ao ar não é ordem.
Uma observação sobre a diluição do seu tempo: nos primeiros cinco minutos você faz uma única coisa sozinho — decidir. Todo o resto é delegado. Se há duas pessoas na sala, uma monitoriza enquanto a outra punciona; se há três, a terceira já está separando glicose, soro e o eletrocardiógrafo. O erro clássico do interno é executar tudo com as próprias mãos e, com isso, executar em série o que deveria acontecer em paralelo.
Minuto 0 a 1 — olhar, chamar e não sair de perto
Avalie responsividade e respiração normal, incluindo gasping como respiração anormal, e acione ajuda. Se inconsciente e sem respiração normal, o profissional treinado verifica pulso e respiração por no máximo dez segundos; sem pulso definido, inicia RCP e solicita desfibrilador. Com pulso e ventilação inadequada, abre via aérea e ventila. Monitorização, acesso e glicemia são distribuídos em paralelo, sem aguardar o minuto seguinte.
Prescrição- Abrir a via aérea com manobra apropriada, aspirar se necessário e remover apenas material/prótese solta que obstrua. Cânula orofaríngea exige ausência de reflexo de vômito; suspeita de trauma modifica a manobra e pede proteção cervical.
- Acionar imediatamente a equipe responsável pelo atendimento do paciente grave, conforme recursos e protocolo local. Tempos de resposta e cores de um hospital são exemplos operacionais; não legitimam esperar diante de ameaça à vida.
- Paciente instável não fica sozinho: o profissional que identificou permanece no leito, verifica sinais vitais e monitora o tempo de chegada do time (HUWC/Ebserh, PRO.GAS.002)
Minuto 1 a 2 — monitorizar e medir
Monitor multiparâmetros ligado, com oximetria contínua, pressão não invasiva em ciclo curto e traçado cardíaco na tela. A frequência respiratória é contada por sessenta segundos com o relógio, olhando o tórax, e anotada com hora. A temperatura entra aqui porque hipotermia no idoso é sinal de gravidade, não conforto. E a glicemia capilar entra aqui porque é o exame que pode encerrar o caso.
Prescrição- Monitorização multiparâmetros — pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e saturação de oxigênio (SES-DF, Protocolo de Prevenção da Deterioração Clínica, intervenções do estrato 3)
- Glicemia capilar e oximetria de pulso como avaliação complementar da avaliação inicial (Ministério da Saúde, Protocolos de SAV do SAMU 192, protocolo AC2)
- Carrinho de emergência conferido e disponível no setor, com sistema de aspiração a vácuo e material para via aérea artificial (SES-DF, intervenções do estrato 3)
Minuto 2 a 3 — oxigênio titulado e dois acessos calibrosos
Oxigênio não é conforto nem gesto de boa vontade: é droga com dose, alvo e dano na sobredose. Escolha o dispositivo pelo fluxo de que o paciente precisa e titule pela saturação alvo, que muda conforme o risco de retenção de CO2. E puncione grosso: o calibre do cateter é o que determina o quanto de volume você consegue infundir por minuto quando precisar — descobrir que o acesso é fino no meio da expansão é tarde demais. Colha tudo na mesma punção.
Prescrição- Iniciar oxigênio no paciente com hipoxemia aguda, ainda que sem causa definida, que mantenha SpO2 abaixo de 92% em ar ambiente; abaixo de 88% no paciente com insuficiência respiratória hipercápnica, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (AMIB e SBPT, Orientações Práticas de Ventilação Mecânica)
- Alvo de titulação: SpO2 entre 92% e 96%; entre 88% e 92% quando houver suspeita de retenção de CO2 (AMIB e SBPT)
- Sem oxímetro disponível no primeiro atendimento, manter máscara com reservatório a 10 a 15 L/min até que a medida esteja disponível, titulando em seguida (AMIB e SBPT). No atendimento pré-hospitalar, o Ministério da Saúde indica máscara não reinalante a 10 a 15 L/min quando a saturação estiver abaixo de 94% (Protocolos de SAV do SAMU 192, protocolos AC29 e AC33)
- Não iniciar oxigênio em paciente com SpO2 acima de 92% no infarto agudo do miocárdio e no acidente vascular cerebral (AMIB e SBPT)
- Puncionar ou manter acesso venoso periférico calibroso, cateter 18 ou maior — na prática, dois acessos no paciente com sinal de hipoperfusão (SES-DF, intervenções do estrato 3)
- Colher na mesma punção: gasometria e lactato arterial, hemograma completo, creatinina, ureia, sódio, potássio, bilirrubinas e coagulograma (ILAS, revisão de 2026, que deixa no pacote de 1 hora a gasometria com lactato e trata os demais como coleta habitual dos serviços; SES-DF, estrato 3)
Minuto 3 a 5 — corrigir o que mata em minutos
Três correções cabem aqui, e as três são cegas ao diagnóstico final. A hipoglicemia se corrige com glicose hipertônica e devolve o paciente em minutos. A hipoperfusão se corrige com cristaloide, e o gatilho não é só a pressão baixa — lactato acima de duas vezes a referência, livedo, enchimento capilar lento e oligúria bastam. A anafilaxia se corrige com adrenalina intramuscular, e o erro que mata nela é o atraso, não a dose. O eletrocardiograma de 12 derivações fecha o bloco, porque pode mudar tudo o que vem depois.
Prescrição- Hipoglicemia com rebaixamento ou deglutição insegura: administrar glicose EV em acesso pérvio, por exemplo 15–25 g no adulto, conferindo concentração e volume. Glicose 50% contém 0,5 g/mL: 30–50 mL fornecem 15–25 g; soluções menos concentradas podem ser preferidas conforme protocolo e risco de extravasamento. Reavaliar clínica e glicemia em cerca de 15 minutos, antes se piora, repetindo conforme resposta. Paciente alerta e capaz de engolir pode receber carboidrato oral.
- Na desnutrição ou uso crônico de álcool, administrar tiamina parenteral prontamente; 100 mg é exemplo de profilaxia em protocolos. A glicose necessária não espera a tiamina. Suspeita de encefalopatia de Wernicke exige esquema terapêutico EV específico, geralmente de dose maior, e avaliação médica.
- Na hipoperfusão, identificar o mecanismo e avaliar tolerância a fluidos. Em hipoperfusão por sepse, 30 mL/kg nas primeiras três horas é referência da SSC 2026, individualizada e reavaliada frequentemente; para 60 kg, 1.800 mL. Administrar em alíquotas com avaliação de perfusão e congestão. Esse volume não é receita universal para choque cardiogênico, obstrutivo ou hemorrágico.
- Anafilaxia: adrenalina 1:1000 (1 mg/mL) na dose de 0,01 mg/kg por via intramuscular, na face anterolateral do terço médio da coxa, máximo de 0,5 mg (0,5 mL) no adulto, repetível a cada 5 a 15 minutos conforme a gravidade e a resposta à aplicação anterior (Ministério da Saúde, protocolo AC33)
- Anafilaxia com choque: além de adrenalina IM, administrar cristaloide EV em bolus, por exemplo 500–1.000 mL no adulto, reavaliando e repetindo conforme resposta e comorbidades. Não confundir 1–2 litros com 5–10 mL/kg, que são quantidades diferentes. Corticoide não é tratamento rotineiro do resgate nem substitui adrenalina e suporte; refratariedade exige equipe experiente e protocolo específico.
- Anafilaxia: manter o paciente em decúbito dorsal com membros inferiores elevados e não permitir que se sente ou levante bruscamente, pelo risco de morte súbita por esvaziamento ventricular; considerar intubação precoce se houver rouquidão, edema de língua, estridor ou angioedema (Ministério da Saúde, protocolo AC33)
- Eletrocardiograma de 12 derivações realizado e interpretado por médico (SES-DF, intervenções do estrato 3)
Minuto 5 — somar, classificar e chamar direito
Use os números para calcular o escore e comunicar a trajetória. A faixa orienta monitorização e escalonamento, mas preocupação clínica ou ameaça orgânica justificam avaliação imediata mesmo com pontuação baixa. A chamada termina com um pedido concreto; ela já começou no reconhecimento da gravidade, sem esperar a soma.
Prescrição- NEWS2 de 5 a 6, ou 3 em um único parâmetro: reavaliação no mínimo de hora em hora e avaliação urgente por profissional com competência no cuidado do doente agudo (Royal College of Physicians, NEWS2, Chart 4)
- NEWS2 de 7 ou mais: monitorização contínua dos sinais vitais e avaliação de emergência por equipe com competência em cuidados críticos, incluindo manejo avançado de via aérea; considerar transferência para unidade de maior dependência ou terapia intensiva (Royal College of Physicians, NEWS2, Chart 4)
- MEWS de 4 a 6 ou qualquer parâmetro pontuando 3: reavaliação de hora em hora e avaliação médica necessária. MEWS de 7 ou mais: monitorização constante e encaminhamento ao box de emergência (SES-DF)
- Chamada estruturada em quatro passos — situação, história prévia, avaliação e recomendação (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, Protocolo de Comunicação Efetiva)
Depois dos cinco minutos — o que muda
Aqui começa a medicina que você aprendeu na faculdade: história dirigida com o acompanhante, exame da cabeça aos pés, hipóteses e exames específicos. Duas coisas mudam de estatuto. Primeiro, o relógio do foco infeccioso: se há suspeita de infecção com disfunção orgânica, o pacote de 1 hora começou a contar lá atrás, na formulação da hipótese, e não agora. Segundo, o vasopressor: se a pressão média não subir com o volume, o remédio deixa de ser mais soro.
Prescrição- Suspeita de sepse: hemoculturas antes do antimicrobiano e o mais cedo possível, com ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos, mais culturas dos sítios pertinentes, que podem sair logo depois da primeira dose — sem postergar a primeira dose se a hemocultura não for possível a tempo (ILAS, revisão de 2026)
- Antimicrobiano empírico conforme foco, alergias, exposição e resistência local, prontamente na sepse provável/choque. Conferir dose de ataque, manutenção, função orgânica e velocidade de cada fármaco; não aplicar a todos bolus EV nem ausência de ajuste renal por 24–72 horas. Betalactâmico em infusão prolongada requer planejamento de ataque e manutenção pelo protocolo.
- Em hipotensão ameaçadora à vida, iniciar noradrenalina precocemente em paralelo ao volume apropriado, sem esperar completar 30 mL/kg ou passar 30–40 minutos. Pode começar em acesso periférico adequado com vigilância, providenciando acesso central conforme duração e protocolo.
- Insuficiência respiratória que não responde: considerar ventilação não invasiva conforme a causa, e ventilação invasiva diante de hipoxemia grave com PaO2 abaixo de 60 mmHg ou saturação arterial abaixo de 90% mesmo com FiO2 acima de 0,6, taquipneia acima de 40 irpm ou bradipneia abaixo de 5 irpm, ou Glasgow abaixo de 8 (AMIB e SBPT)
- Alocar o paciente com disfunção grave ou choque em leito de terapia intensiva assim que possível; sem vaga, garantir atendimento integral no setor em que o paciente estiver (ILAS)
Como saber se está funcionando
Este é o bloco que separa quem executa de quem conduz. Prescrever oxigênio é fácil; saber, vinte minutos depois, se aquele oxigênio resolveu, é o que define se o paciente melhora ou se você descobre o problema quando ele já virou intubação. Cada intervenção dos cinco minutos tem um parâmetro, um prazo e um plano B — e o plano B nunca é "esperar mais um pouco".
Antes da lista, a regra que organiza tudo: quando um paciente não melhora, existem quatro perguntas na ordem, e a maioria dos internos pula direto para a última. Primeira: a intervenção foi realmente feita? O oxigênio está ligado no fluxômetro ou só pendurado no rosto, o soro está correndo aberto ou em 40 mL/h, o acesso infiltrou? Segunda: a dose foi suficiente? Terceira: o diagnóstico presumido está errado? Quarta: é hora de escalonar o suporte e chamar quem sabe mais. Comece pela primeira. Ela resolve mais casos do que qualquer uma das outras três.
Esperado: Queda progressiva junto com a melhora da saturação e do desconforto. É o parâmetro que responde primeiro quando a intervenção está certa, e o que piora primeiro quando não está
Se não melhora: Reavaliar permeabilidade da via aérea, esforço, ventilação, perfusão e causa da taquipneia. Frequência isolada não define falência ventilatória nem obriga intubação; exaustão, hipoxemia refratária, apneia ou incapacidade de proteger a via aérea pedem suporte imediato.
Esperado: Saturação na meta individual com melhora do esforço e da consciência. Gasometria é indicada conforme gravidade e suspeita de hipercapnia/acidose; não é obrigatória após todo pequeno ajuste em qualquer paciente.
Se não melhora: Se a saturação não alcança o alvo com o dispositivo atual, suba de dispositivo em vez de aumentar o fluxo de um dispositivo que já está no teto — cânula nasal acima de 4 L/min só gera desconforto. Se a saturação melhora mas o CO2 sobe e o paciente rebaixa, o problema é ventilatório e mais oxigênio piora: é hora de suporte ventilatório
Esperado: Retorno ao basal. Melhora da consciência é um dos sinais indiretos de melhora de perfusão listados como parâmetro de reavaliação
Se não melhora: Consciência que não melhora com glicemia normal, saturação no alvo e pressão corrigida exige revisão do diagnóstico: tomografia de crânio, revisão de medicamentos e drogas, sódio, cálcio, amônia, avaliação de infecção do sistema nervoso central. Consciência que piora é indicação de reavaliar a proteção de via aérea agora
Esperado: Normalização da glicemia acompanhada de retorno do nível de consciência. Hipoglicemia corrigida devolve o paciente em minutos
Se não melhora: Glicemia normalizada com consciência ainda alterada significa que a hipoglicemia não era a causa, ou não era a única — reabra o diagnóstico. Glicemia que volta a cair pede infusão contínua de glicose e investigação da causa, sobretudo em uso de hipoglicemiante oral de meia-vida longa, insuficiência renal e etilismo
Esperado: Pressão arterial média acima de 65 mmHg com melhora simultânea de perfusão periférica e consciência
Se não melhora: Reavaliar mecanismo, entrada real do fluido, perfusão e congestão. Hipotensão grave persistente exige vasopressor precoce quando indicado, inclusive antes de completar fluidos; não tolerar deliberadamente 30–40 minutos de hipoperfusão.
Esperado: Enchimento capilar abaixo de dois segundos, desaparecimento do livedo, extremidades aquecendo e débito urinário acima de 0,5 mL por quilo por hora
Se não melhora: Perfusão que não melhora apesar de pressão corrigida é o cenário em que se reavalia a continuidade da ressuscitação por marcadores de estado volêmico — variação de pressão de pulso, distensibilidade da veia cava, elevação passiva de membros inferiores, débito cardíaco medido por ecocardiografia (a revisão de 2026 do protocolo tirou a saturação venosa central dessa lista) — e em que se considera disfunção miocárdica. Paciente com sinais de hipoperfusão e hemoglobina abaixo de 7 g/dL pode receber transfusão, salvo situação que peça individualização (ILAS, revisão de 2026, que escreve a unidade errada — ver notas do critério)
Esperado: Clareamento — queda em relação ao valor inicial. A meta é a tendência, não um número mágico
Se não melhora: Lactato que não cai obriga a revisar três coisas: se a ressuscitação foi adequada, se existe foco não controlado que precisa de drenagem ou cirurgia, e se há outra causa de hiperlactatemia que não a hipoperfusão. Perseguir a normalização a qualquer custo é descrito como potencialmente deletério, e hiperlactatemia residual isolada, sem outros sinais clínicos, não necessariamente precisa ser tratada
Esperado: Queda do escore ao longo das horas. Escore que cai é a forma mais objetiva de dizer à equipe seguinte que o paciente respondeu
Se não melhora: Escore que se mantém ou sobe apesar de tudo feito é indicação de escalonar o nível de cuidado, não de repetir a mesma intervenção. Registre no prontuário a resposta a cada mudança de escore: essa anotação é o que permite à equipe do turno seguinte enxergar a trajetória em vez de um retrato
Esperado: Que o ambiente acompanhe a gravidade: leito monitorizado próximo ao posto de enfermagem no paciente que pontuou, box de emergência no paciente do estrato mais alto
Se não melhora: Se o paciente precisa de vigilância que o setor não consegue oferecer, o problema não se resolve aumentando a frequência de aferição de uma equipe que não tem braços. Solicite vaga de terapia intensiva, comunique o médico assistente e priorize o transporte assim que possível — e, enquanto a vaga não sai, garanta o atendimento integral onde o paciente está
Onde o erro machuca
O dano: O paciente passa os primeiros minutos sem oxímetro, sem traçado e sem pressão em ciclo curto — exatamente a janela em que a deterioração é reversível e silenciosa. A taquicardia que precederia a hipotensão não é vista porque ninguém estava olhando o monitor, e o primeiro sinal percebido acaba sendo a parada.
Como pegar a tempo: Comece pelas ameaças de via aérea, ventilação e circulação e peça ajuda. Distribua monitorização, acesso e glicemia em paralelo; exames não atrasam suporte, e suporte também não precisa esperar a sequência inteira de medidas.
O dano: A deterioração acontece entre uma aferição e outra, e um paciente rebaixado sem ninguém ao lado perde a via aérea em silêncio. Vômito com rebaixamento, convulsão e obstrução por queda de língua não fazem barulho suficiente para atravessar o corredor.
Como pegar a tempo: Quem identificou fica no leito. O protocolo de time de resposta rápida é explícito quanto a isso: enquanto aguarda o time, o profissional inicia o atendimento, verifica sinais vitais, registra e monitora o tempo de chegada. Material e ajuda se pedem em voz alta, para uma pessoa nomeada, sem sair do lugar.
O dano: É o único diagnóstico grave que se corrige em dois minutos com o material que já está no carrinho, e deixá-lo em aberto significa investigar um coma por horas enquanto o cérebro consome o que não tem. Neuroglicopenia prolongada produz dano irreversível.
Como pegar a tempo: Meça glicemia imediatamente no rebaixamento. Valor abaixo de 70 mg/dL exige ação; com alteração de consciência, corrija por via parenteral segura e reavalie. Em desnutrição ou uso crônico de álcool, dê tiamina prontamente, sem atrasar a glicose para obtê-la ou terminar sua infusão.
O dano: O fluxo por um cateter depende do calibre de forma muito mais que proporcional, e um cateter fino simplesmente não entrega 30 mL/kg em uma hora. O erro só aparece quando a expansão é necessária, e aí o tempo perdido é o tempo de puncionar de novo — em um paciente que agora está pior e com veias piores.
Como pegar a tempo: Cateter 18 ou maior, e dois acessos no paciente com sinal de hipoperfusão. Punção calibrosa é mais fácil no primeiro minuto, com o paciente ainda compensado, do que no décimo. Colha a leva de exames na mesma punção para não furar duas vezes.
O dano: O tempo entre pedir e chegar não é seu e não pode ser encurtado depois. Chamar tarde converte um problema de 7 minutos em um problema de parada cardiorrespiratória — e a estatística já disse que dois terços das paradas intra-hospitalares deram sinal com horas de antecedência.
Como pegar a tempo: Chame pelo gatilho, não pela certeza. Preocupação da equipe com o estado clínico do paciente é critério formal de acionamento em protocolo brasileiro de time de resposta rápida, e o relatório do NEWS2 determina que a preocupação com a condição clínica sempre se sobrepõe ao escore. Chamar e não precisar custa um constrangimento; não chamar custa outra coisa.
O dano: Perde-se o sinal mais precoce de deterioração e, com ele, o parâmetro de maior peso no escore. Uma frequência anotada como 18 quando o paciente respira 26 apaga 3 pontos do NEWS2 e pode ser a diferença entre uma reavaliação de hora em hora e uma reavaliação em seis horas.
Como pegar a tempo: Sessenta segundos, relógio na mão, olhando o tórax, com a mão no punho do paciente para que ele não perceba que está sendo contado. É o exame mais barato e mais rentável dos cinco minutos.
O dano: O corredor e a sala de imagem não têm monitor, não têm oxigênio de parede, não têm carrinho de emergência e não têm equipe. É o lugar do hospital onde a deterioração tem menos chance de ser vista e menos recurso para ser tratada.
Como pegar a tempo: Trate transporte de paciente crítico como procedimento, não como trajeto: em protocolo brasileiro de time de resposta rápida ele é um acionamento formal, com médico presente e checklist próprio. Estabilize primeiro; se a imagem for imprescindível antes da estabilização, ela vai com equipe, monitor e material de via aérea junto.
O dano: Hiperóxia no retentor crônico de CO2 agrava a hipercapnia e rebaixa; volume no paciente com congestão pulmonar piora a troca gasosa e antecipa a intubação. Nos dois casos o dano vem de aplicar uma regra correta ao paciente errado.
Como pegar a tempo: Antes de titular oxigênio, pergunte se há risco de retenção — e, se houver, use inicialmente alvo de 88% a 92% e avalie gasometria; a escala 2 do NEWS2 requer hipercapnia confirmada e decisão registrada. Antes de expandir, ausculte e olhe a jugular: o próprio documento que traz os 30 mL/kg registra que cardiopatas podem exigir redução da velocidade de infusão. Reavalie a cada 500 mL.
O dano: A chamada não produz ajuda porque não produz urgência: quem ouve não recebe nem o dado que permite classificar a gravidade nem o pedido explícito. Falha de comunicação entre profissionais é descrita como um dos principais fatores contribuintes de eventos adversos.
Como pegar a tempo: Quatro passos, na ordem, em menos de um minuto: situação — o que está acontecendo agora e com que sinais vitais; background — quem é o paciente e o que já se sabe; avaliação — o que você acha que está acontecendo; recomendação — o que você está pedindo, com prazo. Termine sempre pelo pedido.
O dano: Um escore isolado é um retrato; o valor da ferramenta está na tendência. Sem recálculo, perde-se exatamente a informação que os sistemas de alerta precoce foram criados para gerar — a curva antes do evento.
Como pegar a tempo: Deixe a faixa determinar a frequência e anote a hora de cada cálculo. Registre também a resposta clínica dada a cada mudança de escore: essa anotação é o que permite ao turno seguinte enxergar a trajetória e é o que torna o escore auditável.
O que dizer ao paciente e à família
Nos primeiros cinco minutos você fala com três interlocutores ao mesmo tempo, e com objetivos diferentes. Com o paciente, para orientar e reduzir o pânico, que também consome oxigênio. Com a família, para explicar por que se está fazendo tanta coisa sem ainda saber o que é. E com quem você está chamando, para produzir ajuda — e essa é uma conversa técnica com formato próprio.
A regra que vale para as três: não prometa desfecho. Você pode prometer processo — que vai voltar, que vai explicar, que não vai deixar sozinho —, e processo é uma promessa que você consegue cumprir. "Vai ficar tudo bem" não é.
A ferramenta que estrutura a terceira conversa é o SBAR, que em português se lê como situação, background com a história prévia, avaliação e recomendação. Ela existe justamente para a chamada feita sob pressão e por telefone, e o passo que os internos mais esquecem é o último: dizer, com todas as letras, o que você está pedindo.
A filha pergunta, no meio da monitorização, o que a mãe tem
“Eu ainda não sei, e é por isso que estou fazendo tudo isso agora. A sua mãe está com a respiração acelerada e com a pressão mais baixa do que deveria, e isso é grave independentemente da causa. Nos próximos minutos eu vou estabilizar essas duas coisas e colher exames. Assim que eu tiver os primeiros resultados, eu volto aqui e converso com a senhora.”
Não diga: Improvisar um diagnóstico para não parecer perdido — "deve ser uma infecção urinária" — e depois ter que desdizer. Também evite o extremo oposto, o silêncio técnico enquanto se trabalha: a família interpreta silêncio como gravidade máxima e atrapalha por medo.
O paciente, acordado e assustado, pergunta se vai morrer
“O senhor está mal agora, e é por isso que a equipe inteira está aqui. Eu não vou mentir e dizer que é simples, mas nós sabemos exatamente o que fazer nesta hora, e é o que estamos fazendo. Preciso que o senhor respire junto comigo, devagar, e que me avise se sentir alguma coisa piorar.”
Não diga: "Fica calmo que não é nada." O paciente sente o próprio corpo e sabe que é alguma coisa; negar destrói a confiança justamente quando você vai precisar de colaboração para máscara, punção e posicionamento.
Pedir uma informação à família em dez segundos, sem abrir uma anamnese
“Só três perguntas rápidas, o resto eu pergunto daqui a pouco. Ela é assim, confusa, no dia a dia, ou isso começou hoje? Ela tem alguma alergia? A senhora tem aí a caixinha dos remédios dela, ou uma foto das receitas?”
Não diga: Deixar a família de fora dos cinco minutos por completo. O basal de consciência, a alergia e a lista de medicamentos são os três dados que mudam conduta imediata — e todos os três estão com o acompanhante, não no prontuário.
Pedir alguma coisa à equipe de enfermagem sem ambiguidade
“Fernanda, glicose EV: quero 20 g agora, confirmando concentração e volume antes de administrar em acesso pérvio. Na apresentação a 50%, são 40 mL. Confirme a administração e repita a glicemia em 15 minutos. Marcos, confira a ventilação, instale o oxigênio conforme a meta e me informe a resposta.”
Não diga: Falar para a sala — "alguém pega um acesso aí" — e supor que foi feito. Ordem sem nome não tem dono, e ordem sem confirmação de volta não tem checagem. Diga o nome, a droga, a dose, a via e o momento, e peça a confirmação de volta.
Chamar o residente ou o staff, em quatro passos
“Situação: leito 4, mulher de 62 anos, confusa há uma hora, frequência respiratória 30, saturação 92% em ar ambiente, pressão 96 por 58, frequência cardíaca 124, temperatura 35,2, glicemia 138. NEWS de 13. Background: trazida pela filha por mal-estar, sem acompanhamento recente, a filha diz que ela é lúcida. Avaliação: acho que é um choque, provavelmente séptico, com foco ainda indefinido. Recomendação: já monitorizei, peguei dois acessos calibrosos, colhi lactato e culturas e comecei cristaloide 30 mL por quilo. Preciso de você aqui no leito em até dez minutos e quero abrir vaga de UTI agora.”
Não diga: Contar a história cronológica desde a chegada ao pronto-socorro. Quem atende ao chamado precisa da gravidade primeiro e da narrativa depois — e precisa ouvir o pedido explícito, com prazo, no final.
Avisar a família de que o paciente vai para a terapia intensiva
“A situação dela é grave e ela vai precisar de um leito de UTI, que é onde ela vai ficar monitorizada o tempo todo e com equipe olhando de perto. Isso não significa que ela está morrendo neste momento; significa que ela precisa de um nível de vigilância que a enfermaria não oferece. Enquanto a vaga não sai, ela continua recebendo aqui exatamente o mesmo tratamento.”
Não diga: Usar a UTI como ameaça ou como consolo. E não prometa a vaga antes de ela existir — prometa a solicitação e o cuidado integral enquanto isso, que é o que está sob o seu controle.
Dizer que o quadro pode piorar, sem tirar o chão
“Preciso ser honesto com a senhora sobre o que pode acontecer nas próximas horas. Ela pode melhorar com o que estamos fazendo, e é o que esperamos, mas ela também pode piorar, e se isso acontecer nós vamos precisar de recursos maiores, como um aparelho para ajudar a respirar. Vamos conversar sobre essas possibilidades desde já e manter a senhora informada; uma medida vital imediata pode precisar começar enquanto a equipe a atualiza.”
Não diga: Guardar a má notícia para quando ela já for irreversível. Antecipar a possibilidade de piora, com o compromisso de voltar a conversar, é o que permite à família participar de decisões em vez de recebê-las prontas.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
NEWS2, do Royal College of Physicians
Seis parâmetros fisiológicos mais um acréscimo de 2 pontos pelo uso de oxigênio suplementar, com a saturação de oxigênio dentro do escore e uma escala alternativa para o retentor de CO2. Traz uma resposta graduada explícita — quatro faixas, cada uma com frequência mínima de monitorização e com a competência exigida de quem responde — e foi validado em pronto-socorro e no atendimento pré-hospitalar, além da enfermaria. O relatório também registra que a variação entre escores locais, com pesos diferentes para o mesmo desvio fisiológico, era em si um risco: profissionais que circulam entre setores deixavam de falar a mesma língua.
Royal College of Physicians — National Early Warning Score (NEWS) 2, relatório atualizado do grupo de trabalho, 2017
MEWS, adotado nos protocolos públicos brasileiros
Cinco parâmetros — pressão sistólica, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura axilar e nível de consciência — sem saturação e sem pontuação pelo uso de oxigênio. É o escore que a rede pública do Distrito Federal adotou no protocolo de prevenção de deterioração clínica e o que o Hospital Universitário Walter Cantídio usa para acionar o time de resposta rápida, com estratos que definem tempo de reavaliação e resposta. Tem validação nacional: estudo brasileiro com 300 pacientes hospitalizados mostrou relevância estatística do MEWS como preditor de transferência para UTI e de parada cardiorrespiratória. Sua vantagem prática é dispensar oxímetro.
SES-DF — Protocolo de Prevenção da Deterioração Clínica em Pacientes Adultos em Serviço Hospitalar; e HUWC/Ebserh — PRO.GAS.002, Protocolo Time de Resposta Rápida, 2020
Na enfermaria em que você está de plantão, a decisão já foi tomada: o escore que vale é o que está impresso na folha do seu serviço, porque escore que ninguém calcula tem desempenho zero e escore calculado com os cortes de outro sistema produz decisão errada. O que muda com a diferença entre eles é a sua vigilância. O MEWS não enxerga saturação nem uso de oxigênio — um paciente com 91% em ar ambiente pode somar 6 no MEWS e 10 no NEWS2, e no primeiro escore ele vira avaliação médica de hora em hora, no segundo vira emergência com equipe de cuidados críticos. Se o seu serviço usa MEWS, trate a saturação e o dispositivo de oxigênio como parâmetros que você acrescenta com a cabeça, fora do papel. Se você está participando da escolha institucional, o argumento a favor do NEWS2 é a deterioração respiratória, que é a mais precoce; o argumento a favor do MEWS é funcionar em setor sem oxímetro para todos os leitos. Em qualquer dos dois, o número que muda a sua noite não é o escore absoluto, é a diferença em relação ao cálculo anterior.
Abaixo de 94%, na régua do atendimento de urgência do Ministério da Saúde
Os protocolos de suporte avançado de vida do SAMU 192 prescrevem oxigênio por máscara não reinalante a 10 a 15 L/min quando a saturação de pulso estiver abaixo de 94%, tanto no protocolo de hipoglicemia quanto no de anafilaxia. É uma régua construída para a cena: paciente sem diagnóstico, sem exames, sem histórico disponível e sem possibilidade de titulação fina, em que a margem de segurança é deliberadamente generosa.
Ministério da Saúde — Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolos AC29 e AC33
Abaixo de 92%, com alvo de 92% a 96%, na régua das sociedades de intensiva e pneumologia
O documento conjunto da Associação de Medicina Intensiva Brasileira e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia registra que não há na literatura um limiar inferior exato de SpO2 para iniciar oxigenoterapia, sendo comum adotar-se 92%, e fixa o alvo de titulação entre 92% e 96%, com limite superior de 96%. Acrescenta duas travas: não iniciar oxigênio em paciente com saturação acima de 92% no infarto agudo do miocárdio e no acidente vascular cerebral, e usar alvo de 88% a 92% na suspeita de retenção de CO2.
AMIB e SBPT — Orientações Práticas de Ventilação Mecânica, tema 2
Os dois números respondem a perguntas diferentes, e é isso que resolve o impasse à beira do leito. O corte de 94% é do primeiro contato, quando não se sabe nada: nesse momento a hipoxemia não reconhecida é o risco maior e a hiperóxia por alguns minutos é o risco menor. O corte de 92% com teto em 96% é da fase seguinte, quando já existe oxímetro confiável, história e uma hipótese. Decida por três perguntas. Você tem oximetria contínua e conhece o paciente? Então titule para 92% a 96% e não deixe passar de 96%. Na SCA, oxigênio não é rotina sem hipoxemia, usualmente com corte <90%; no AVC, siga meta específica, frequentemente mantendo SpO2 >94%. Não usar um corte único de 92% para proibir oxigênio nas duas situações. Há suspeita de retenção crônica de CO2? Então o alvo cai para 88% a 92% enquanto a troca para a escala 2 do NEWS2 exige insuficiência respiratória hipercápnica confirmada e indicação documentada. E na dúvida do primeiro minuto, com o paciente crítico e sem oxímetro na mão, a máscara com reservatório a 10 a 15 L/min é o começo — desde que alguém volte para titular assim que o número aparecer.
O escore agregado, com um gatilho adicional para desvio extremo isolado
A arquitetura do NEWS2 é a soma dos desvios: quatro faixas de escore total definem urgência, frequência de reavaliação e competência do respondedor, e a única exceção à soma é o escore 3 em um único parâmetro, que dispara revisão urgente por si só. O relatório justifica a escolha por sensibilidade e especificidade — um sistema sensível demais soterra as equipes de alarme e cai em descrédito, um insensível demais perde a janela de intervenção.
Royal College of Physicians — National Early Warning Score (NEWS) 2, 2017
Uma lista nominal de situações clínicas, agrupada por urgência
O protocolo de time de resposta rápida do Hospital Universitário Walter Cantídio usa o MEWS associado a um código de cores, e é explícito ao dizer que, quando os critérios de acionamento não forem contemplados pelo escore, o código de cores entra de forma complementar. Cada cor tem um tempo máximo de chegada do médico — 1 hora, 30 minutos, 7 minutos, imediato — e uma lista concreta de situações, de saturação abaixo de 90% a crise convulsiva, sangramento ativo e abertura de protocolo de sepse.
HUWC/Ebserh — PRO.GAS.002, Protocolo Time de Resposta Rápida, versão 1, 2020
A preocupação clínica da equipe, acima de qualquer número
O mesmo protocolo do Hospital Universitário Walter Cantídio inclui "preocupação da equipe com o estado clínico do paciente" como critério formal de acionamento, com meta de chegada de uma hora. E o relatório do NEWS2 estabelece, entre suas recomendações, que a preocupação com a condição clínica do paciente deve sempre se sobrepor ao escore quando o profissional presente julgar necessário escalonar — assim como determina que a razão para não agir diante de um escore alto seja registrada no prontuário.
HUWC/Ebserh — PRO.GAS.002, 2020; e Royal College of Physicians — NEWS2, 2017, recomendações 4 e 19
Os três desenhos existem porque erram em direções opostas, e o custo do erro depende de onde você está. Escore agregado sozinho perde o paciente cuja gravidade não é fisiológica ainda — sangramento que acabou de começar, crise convulsiva, reação transfusional, dor torácica típica com sinais vitais normais. Lista de gatilhos sozinha perde o paciente que não se encaixa em nenhuma linha e mesmo assim está afundando devagar em todos os parâmetros. Preocupação sozinha é subjetiva e, sem estrutura, não sobrevive a uma equipe cansada nem produz auditoria. Para o paciente à sua frente, a decisão é aditiva e não excludente: calcule o escore, olhe a lista de gatilhos do seu serviço, e chame também quando nenhum dos dois disparar mas você estiver preocupado — anotando o motivo no prontuário, porque anotação é o que transforma intuição em dado. Se você estiver participando do desenho institucional, o parâmetro de calibração é a taxa de acionamento que a sua equipe consegue absorver: um gatilho tão sensível que ninguém responde é pior do que gatilho nenhum, porque cria a ilusão de que existe rede.
O raciocínio, em voz alta
Volte à mulher de 62 anos do leito 4, às 3h20. Trazida pela filha há uma hora e meia por "mal-estar", responde ao nome mas está desorientada, e a filha diz que ela é lúcida. Respiração curta e rápida, mão fria até o antebraço, pulso fino e taquicárdico. Sem monitor, sem acesso, sem glicemia. Acompanhe o raciocínio em voz alta.
o que penso no primeiro olhar, antes de qualquer número
Três coisas já estão decididas sem exame nenhum: ela é grave, eu não sei por quê, e o tempo dela é curto. Confusão nova mais taquipneia mais má perfusão é um tripé de gravidade que independe de diagnóstico. O que eu não vou fazer agora é a anamnese — ela é o exame mais caro dos próximos cinco minutos. O que eu vou fazer é chamar em voz alta a técnica e a enfermeira, pelo nome, e começar.
o que peço primeiro, em paralelo
Monitor multiparâmetros, oximetria e pressão em ciclo curto para uma pessoa; glicemia capilar e termômetro para outra. Enquanto isso eu abro a boca dela, confiro que a via aérea está livre e conto a frequência respiratória por sessenta segundos, com o relógio, com a mão no punho dela. Contei 30. Esse número, sozinho, vale 3 pontos no NEWS2 — o mesmo peso da hipotensão grave.
o que os primeiros números dizem
Saturação 92% em ar ambiente, pressão 96 por 58, frequência cardíaca 124, temperatura axilar 35,2, glicemia capilar 138. A glicemia normal fecha a porta que eu mais queria que estivesse aberta: não é hipoglicemia, e o rebaixamento continua sem explicação. A temperatura de 35,2 não é tranquilizadora, é o contrário — no idoso, hipotermia com taquipneia e má perfusão é apresentação de infecção grave, e no NEWS2 ela pontua 1, enquanto no MEWS a faixa de 35 a 38,4 não pontuaria nada.
o que eu somo, e o que a soma obriga
NEWS2: respiração 30 vale 3, saturação 92% em ar ambiente vale 2, ar ambiente vale 0, sistólica 96 vale 2, frequência cardíaca 124 vale 2, confusão nova vale 3, temperatura 35,2 vale 1. Treze pontos. Isso está muito acima do limiar de emergência, que é 7. A faixa não me pede opinião: monitorização contínua, avaliação de emergência por equipe com competência em cuidados críticos, e considerar transferência para leito de maior dependência. Eu não preciso do diagnóstico para acionar isso.
o que faço com o oxigênio
Ela está com 92% em ar ambiente, exatamente no limiar. Não há história de doença pulmonar obstrutiva crônica que a filha conheça, então uso o alvo padrão de 92% a 96%. Começo com cânula nasal a 3 L/min e reavalio: se não subir, subo de dispositivo em vez de aumentar o fluxo de um cateter que já está perto do teto de conforto. Não vou colocar máscara com reservatório numa paciente que talvez precise de 3 litros — oxigênio tem dose.
os acessos, e o que sai deles
Dois acessos periféricos, cateter 18, um em cada fossa antecubital, e da mesma punção sai tudo: gasometria e lactato arteriais, hemograma, creatinina, ureia, sódio, potássio, bilirrubinas e coagulograma. Dois pares de hemocultura de sítios distintos, porque há hipotermia e suspeita de infecção. O lactato eu marco na requisição como prioritário: a meta é ter o resultado em trinta minutos.
a decisão que não espera o lactato
Confusão, extremidades frias e pressão baixa exigem avaliar choque e tratar hipoperfusão. Na hipótese séptica, iniciar cristaloide em alíquotas com reavaliação; 30 mL/kg nas primeiras três horas é referência individualizada (1.800 mL em 60 kg), não ordem para correr todo volume na primeira hora. Se houver hipotensão ameaçadora ou intolerância a fluidos, vasopressor pode entrar cedo. Rever mecanismo se resposta inadequada.
como a resposta muda o que penso
O lactato volta em 4,2 mmol/L, mais que o dobro da referência do serviço. O resultado reforça a gravidade, mas não confirma sozinho hipoperfusão nem sepse; a hipótese se sustenta no conjunto clínico: disfunção orgânica com foco infeccioso presumível. Nesse momento a filha, que já estava mais calma, se lembra de que a mãe reclamava de ardência para urinar desde quinta-feira. O foco aparece — e aparece depois da estabilização, que é exatamente a ordem correta. Antibiótico empírico para foco urinário, em dose plena, o mais rápido possível.
o que eu reavalio, e quando
Trinta minutos depois: frequência respiratória caiu para 24, saturação 95% com 3 L/min, pressão 108 por 64, frequência cardíaca 104, temperatura 35,8, extremidades aquecendo, e ela sabe dizer o próprio nome e onde está. NEWS2 recalculado: 2 pela respiração, 1 pela saturação, 2 pelo uso de oxigênio suplementar, 1 pela sistólica, 1 pela frequência cardíaca, 0 pela consciência alerta, 1 pela temperatura — 8 pontos. Ainda faixa de emergência, mas caiu de 13 para 8 em meia hora, e a consciência voltou. Novo lactato antes de completar 4 horas da abertura do protocolo, para ver se caiu. Se a pressão média tivesse ficado abaixo de 65 mmHg, eu não esperaria mais de 30 a 40 minutos para começar noradrenalina, e começaria em veia periférica enquanto o acesso central não vem.
o telefonema, em quatro passos
Situação: leito 4, mulher de 62 anos, confusão nova há uma hora, NEWS2 de 13 na admissão, agora 8. Background: trazida por mal-estar, basal lúcido segundo a filha, disúria há três dias, sem acompanhamento recente. Avaliação: sepse de foco urinário com hipoperfusão, lactato 4,2, respondendo parcialmente à expansão. Recomendação: preciso de você no leito em dez minutos, já solicitei vaga de UTI e quero decidir contigo se ela vai precisar de vasopressor antes de subir.
Faça você
Enfermaria de cirurgia, 5h40. Primeiro dia de pós-operatório de apendicectomia videolaparoscópica. Homem de 24 anos, previamente hígido. A enfermeira te chama porque "ele está respirando rápido". Ele está alerta, orientado, queixa-se de dor no ombro esquerdo e diz que não conseguiu dormir. Frequência respiratória 26 irpm contada em um minuto, saturação 91% em ar ambiente, pressão arterial 106 por 64, frequência cardíaca 118, temperatura axilar 38,6 °C. Ele não parece grave: está sentado na cama, falando frases inteiras e sorrindo para a namorada. A folha da enfermaria usa MEWS.
o que o MEWS da folha diz
Pressão sistólica 106 não pontua. Frequência cardíaca 118 vale 2. Frequência respiratória 26 vale 2. Temperatura 38,6 vale 2. Consciência alerta não pontua. Total: 6 pontos — estrato de 4 a 6, que manda reavaliar de hora em hora e determina que avaliação médica é necessária.
o que o NEWS2 diria do mesmo paciente
Frequência respiratória 26 vale 3. Saturação 91% em ar ambiente vale 3. Ar ambiente vale 0. Sistólica 106 vale 1. Frequência cardíaca 118 vale 2. Alerta vale 0. Temperatura 38,6 vale 1. Total: 10 pontos — faixa de 7 ou mais, limiar de emergência, monitorização contínua e avaliação por equipe com competência em cuidados críticos. A diferença resulta da saturação e também das faixas distintas de frequência respiratória, pressão e temperatura; não é atribuída só à saturação.
por que a aparência engana
Ele é jovem e compensa bem: a pressão de 106 por 64 é o produto de uma vasoconstrição que ainda está funcionando, e por isso ele consegue estar sentado e falando. Compensação em paciente jovem não é sinal de estabilidade, é o que precede a queda abrupta. E há um detalhe que não pontua em escore nenhum: dor no ombro esquerdo no pós-operatório abdominal pode ser dor referida diafragmática.
conduta
Organize a avaliação e o suporte imediatos. Explique como os dados mudam o risco, o que fará enquanto chama o supervisor e como decidirá se há indicação de fluidos, imagem ou avaliação cirúrgica urgente.
Ver como fecharíamos
Trate-o como paciente do limiar de emergência, e não como paciente de reavaliação horária. Nos primeiros cinco minutos: monitorização multiparâmetros contínua, oxigênio titulado para alvo de 92% a 96% — ele está em 91% em ar ambiente, portanto abaixo do limiar de início —, dois acessos periféricos com cateter 18 ou maior, e glicemia capilar. Colha na mesma punção gasometria e lactato arteriais, hemograma, creatinina, ureia, eletrólitos, bilirrubinas e coagulograma, mais dois pares de hemocultura de sítios distintos, já que há febre acima de 38 °C e ele não está em antimicrobiano prescrito. Eletrocardiograma de 12 derivações. Se houver hipotensão ou sinais de hipoperfusão — e a taquicardia de 118 com taquipneia de 26 no primeiro dia de pós-operatório é sinal de alerta suficiente para reavaliar a perfusão de perto —, cristaloide conforme mecanismo e tolerância, em alíquotas reavaliadas; se hipoperfusão por sepse, usar 30 mL/kg nas primeiras três horas como referência individualizada, sem impor esse volume ao TEP ou a todo pós-operatório. E acione ajuda agora, não depois do resultado: a combinação de febre, taquipneia, hipoxemia nova e dor referida em ombro no primeiro dia de pós-operatório abdominal levanta duas hipóteses que competem pelo mesmo relógio, complicação intra-abdominal com sepse e tromboembolismo pulmonar, e as duas exigem alguém mais experiente no leito antes que o escore piore. O ponto do caso não é acertar a hipótese: é reconhecer que monitorização, suporte e ajuda imediata são comuns, mas fluidos e tratamento específico dependem do mecanismo, e que ela não depende de saber qual das duas é.
No NEWS2: frequência respiratória 22 = 2; SpO2 93% = 2; ar ambiente = 0; sistólica 112 = 0; frequência cardíaca 96 = 1; alerta = 0; temperatura 38,4 = 1. Total: 6. A faixa 5–6 exige avaliação urgente e monitorização ao menos horária, com antecipação conforme gravidade. A frequência de 21–24 vale 2, não 1 ponto.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, conduza os primeiros minutos de uma paciente confusa e mal perfundida: reconhecer parada, pedir ajuda, avaliar ABC, medir glicemia, indicar oxigênio e acesso e reavaliar. Explique por que história dirigida e tratamento acontecem em paralelo e por que lactato isolado não determina um volume fixo.
Em 30 dias
Simule com um colega uma mudança de plantão: a paciente melhorou a pressão, mas ficou mais sonolenta e precisa de mais oxigênio. Refaça a avaliação, escolha o suporte necessário, confira o NEWS2 na tabela e comunique situação, intervenções, resposta e pedido. Compare seu plano com o do supervisor.
Agora atenda
Agora atenda: a enfermeira te chama à enfermaria porque uma paciente de 71 anos, internada há dois dias para investigação de dor abdominal, está "diferente". Você tem cinco minutos, um monitor, um carrinho de emergência e uma técnica de enfermagem. Conduza a avaliação inicial na ordem, prescreva em voz alta e nominalmente, calcule o escore, decida quem chamar — e diga à filha da paciente, que está no corredor, o que está acontecendo.
