Clínica MédicaSíndromes do Paciente na Emergência

Dor torácica no pronto-socorro

Chega um homem de 55 anos com dor no peito há uma hora e você não sabe o que ele tem. Este capítulo é sobre a ordem em que se exclui o que mata — e sobre o relógio que já começou a correr quando ele passou pela porta.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Cardiologia — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência – 2025 (Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250620)

Ministério da Saúde / CONITEC — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS)

Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular – Regional São Paulo — Consenso e Atualização na Profilaxia e no Tratamento do Tromboembolismo Venoso. Burihan MC, Campos Júnior W (eds.). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019

Gulati M, Levy PD, Mukherjee D, et al. — 2021 AHA/ACC/ASE/CHEST/SAEM/SCCT/SCMR Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain (Circulation. 2021;144(22):e368-e454)

Isselbacher EM, Preventza O, Black JH 3rd, et al. — 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease (Circulation. 2022;146(24):e334-e482)

01

Responda antes de ler

Mulher de 68 anos, diabética, chega à triagem acompanhada da filha às 3h da manhã. Nega dor torácica. Refere mal-estar, náusea e suor frio há duas horas. A enfermeira da triagem pergunta se abre o protocolo de dor torácica. O que você responde?

02

O paciente que você vai ver

São 21h40 de uma terça-feira. Um homem de 55 anos entra no pronto-socorro pelas próprias pernas, com a esposa. Ele não está gritando de dor nem pálido no chão — não é a cena do filme. Está de pé, com a mão espalmada sobre o esterno, dizendo à recepcionista que sente um aperto no peito desde umas oito da noite e que achou que fosse a comida.

Enquanto ele fala, você repara em coisas que não estão na ficha: a camisa colada nas costas de suor, num dia que não está quente; a mão que ele usa para mostrar onde dói, que é a mão inteira e não a ponta do dedo; a mulher que responde por ele quando a pergunta é sobre remédios, porque ela é quem sabe. Pressão 148 por 92, frequência 92, saturação 97%. Hipertenso, fuma há trinta anos, não vê um médico desde a pandemia. Você não sabe o que ele tem — e essa é a única coisa que você sabe com certeza. Pode ser o coração, a aorta, o pulmão, o esôfago, e pode ser nada: mais da metade das dores torácicas que entram por essa porta não são cardíacas. O que organiza a noite é que a chance de ser nada é alta e a chance de ser fatal é baixa, mas as fatais têm pressa e as outras não. Você vai passar a próxima hora provando o que ele não tem.

Na mesma sala de espera, naquela noite, há mais três dores torácicas: uma mulher de 31 anos que voltou de avião há dois dias e sente uma fisgada quando respira fundo; um rapaz de 22, alto e magro, que sentiu uma pontada súbita jogando bola; e uma senhora de 78 anos, diabética, que não fala em dor nenhuma — a filha a trouxe porque ela está estranha, enjoada e suando frio. As quatro histórias começam com a mesma frase na ficha da triagem. Só uma delas parece com o livro.

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Quem adoece disso

No pronto-socorro, apenas 5 a 20% dos pacientes com dor torácica têm síndrome coronariana aguda, e mais da metade dos casos não tem causa cardíaca; somados, os diagnósticos potencialmente fatais respondem por menos de 10 a 20% dos atendimentos. A consequência prática é que o seu trabalho não é achar a doença — é excluir, rápido e com segurança, a minoria letal, e só depois estreitar. Quem inverte a ordem passa a noite procurando gastrite em alguém que está infartando.

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, e a síndrome coronariana aguda é a principal causa específica de óbito cardiovascular. Dentro dela, o registro brasileiro ACCEPT encontrou distribuição quase igual entre as três formas: 30% de angina instável, 34% de infarto sem supradesnivelamento e 36% com supradesnivelamento. Guarde esse número: praticamente dois em cada três pacientes com síndrome coronariana aguda não entregam o diagnóstico no primeiro eletrocardiograma. Quem só sabe reconhecer supradesnivelamento perde a maioria.

A dissecção aguda de aorta aparece um caso para cada 20 a 90 infartos, mas mata 1 a 2% dos pacientes por hora nas primeiras 48 horas, com letalidade estimada de 50% em dois dias. O detalhe que transforma esse número em regra de conduta está na própria diretriz brasileira: se o diagnóstico não for considerado, ele nunca será feito — a dissecção não aparece sozinha em nenhum exame de rotina. E se for confundida com síndrome coronariana, a antiagregação e a anticoagulação que você prescreveria por reflexo pioram o desfecho. O erro na direção oposta também tem tamanho medido: historicamente, de 1 a 10% dos pacientes que estavam de fato infartando foram liberados inadvertidamente da sala de emergência, com mortalidade maior — e a taxa é mais alta justamente onde há menos recursos e menos preparo.

Por fim, o número que mais dói. Numa análise de mais de 7.500 pacientes, apenas 40% dos infartos com supradesnivelamento receberam eletrocardiograma dentro de 10 minutos, com mediana de 14 minutos; tempo porta-eletrocardiograma acima de 10 minutos se associou a risco aumentado de infarto recorrente ou morte, com odds ratio de 3,95. E o atraso não é sorteado: foi mais frequente em mulheres, em pessoas negras, em quem não falava o idioma com fluência, em diabéticos e em quem relatava dor no peito com menos frequência. O paciente que menos se parece com o livro é o que mais espera — e a correção disso não é um exame novo, é uma decisão de quem está na triagem.

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Por que acontece o que acontece

Coração, aorta, esôfago e as estruturas do mediastino compartilham a mesma via aferente simpática, que entra na medula entre T1 e T5. Dor visceral que sobe por esse cabo não tem endereço: é referida a todo o território dos dermátomos correspondentes — retroesternal, ombros, braços, mandíbula, epigástrio, dorso. Daí o paciente mostrar a dor com a mão espalmada e não com a ponta do dedo, e daí nenhum desses órgãos conseguir dizer o próprio nome. A localização quase não separa. O que separa é o tempo e o caráter — e cada um é consequência direta do mecanismo.

Na isquemia miocárdica, o desequilíbrio entre oferta e consumo joga o miócito no metabolismo anaeróbio. Acumulam-se lactato, adenosina, bradicinina e potássio, e são esses metabólitos que estimulam as fibras C. O acúmulo leva tempo, e a dor acompanha: constrói-se em minutos, tem qualidade de peso ou aperto, e cede quando o desequilíbrio é corrigido, com repouso ou nitrato. O mesmo mecanismo explica os equivalentes: a disfunção diastólica aguda eleva a pressão de enchimento e aparece como dispneia sem dor nenhuma; e a parede inferior, rica em aferentes vagais, produz náusea, vômito e bradicardia. Não é apresentação atípica — é o mesmo mecanismo em outro território.

Na dissecção de aorta o que dói não é isquemia, é rasgo. O sangue entra na média e a cliva sob pressão sistêmica, distendendo de repente a adventícia, que é a camada ricamente inervada. Daí as duas assinaturas: a dor é máxima desde o primeiro segundo, sem construção, e migra, porque a dissecção avança. Todo o resto do quadro é geografia. Quando o falso lúmen alcança o óstio de um ramo, surgem assimetria de pulso ou de pressão e déficit neurológico focal; quando alcança a raiz, surgem sopro de insuficiência aórtica novo, derrame pericárdico e tamponamento; quando alcança o óstio coronário, surge supradesnivelamento no eletrocardiograma. É por isso que a diretriz brasileira faz questão de lembrar que um infarto com supra pode ser causado por dissecção tipo A — e por que antiagregante e anticoagulante ficam suspensos enquanto a hipótese estiver de pé.

Na embolia pulmonar, a dor pleurítica pode decorrer de acometimento periférico junto à pleura; obstrução mais extensa pode produzir sobrecarga do ventrículo direito, dispneia, síncope ou choque. Intensidade e localização da dor não medem a carga embólica. Taquicardia sinusal ou mesmo ECG normal não excluem embolia. A gravidade depende principalmente da repercussão hemodinâmica e respiratória, das comorbidades e dos sinais de disfunção ventricular, avaliados em conjunto.

Junte tudo e você tem uma régua que dispensa decorar listas. Dor que já nasce no máximo significa que alguma coisa rasgou ou obstruiu de uma vez — dissecção, embolia, pneumotórax. Dor que se constrói em minutos e tem peso significa desequilíbrio metabólico progressivo — isquemia. Dor que muda com a respiração ou com a posição significa origem pleural ou pericárdica. Só que a régua orienta a suspeita e não fecha nada: a diretriz de 2025 avisa que não existem sinais patognomônicos dessas doenças, e que ancorar numa única hipótese, mesmo na mais prevalente, leva a erro de conduta. O mecanismo serve para montar a lista, não para riscar itens dela sem exame.

Quatro painéis anatômicos ilustram placa coronariana com trombo, dissecção da aorta, embolia pulmonar e inflamação pericárdica.
Mecanismos diferentes podem produzir dor torácica: obstrução coronariana, dissecção aórtica, obstrução vascular pulmonar e inflamação pericárdica. Os desenhos organizam hipóteses; localização ou intensidade da dor não estabelecem sozinhas o diagnóstico.
05

Como se apresenta de verdade

O livro descreve dor retroesternal em aperto, com irradiação para o membro superior esquerdo, sudorese e náusea, num homem de meia-idade com fatores de risco. Esse paciente existe e é o mais fácil da sua noite. O problema é o resto da fila.

Percurso de aprendizagem

Comece pelas ameaças imediatas: estabilidade, ECG em até 10 minutos e diagnósticos em que o tratamento não pode esperar exames demorados. Depois explique quais dados favorecem cada hipótese.

Use a troponina como marcador de injúria e aplique o algoritmo específico do ensaio. Diferencie descarte de infarto, exclusão das demais emergências e decisão de alta: são decisões relacionadas, com critérios próprios.

Nos casos, calcule os componentes dos escores e confronte o resultado com a história. Um escore mal pontuado ou aplicado à população errada pode oferecer falsa segurança.

A dor que não é dor

De 10 a 30% dos pacientes com síndrome coronariana aguda não apresentam dor torácica, e a concentração desse grupo é conhecida: idosos e portadores de comorbidades, com destaque para o diabetes. Nesses pacientes o quadro chega como equivalente isquêmico — dispneia, diaforese, náusea e vômito inexplicados, indigestão, fraqueza, síncope, confusão mental aguda.

A diretriz de 2025 transformou isso em critério objetivo de triagem, e vale saber a régua exata porque é ela que autoriza a enfermagem a abrir o protocolo sem esperar avaliação médica. Critério rotineiro (classe I): qualquer dor atual entre a cicatriz umbilical e a mandíbula, e qualquer dor torácica que tenha durado mais de 10 minutos, mesmo já ausente na chegada. Critério adicional (classe IIa): o paciente assintomático que relata desconforto epigástrico ou dor em braços ou mandíbula antes de entrar, e os equivalentes isquêmicos — dispneia, diaforese, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg — em pessoas acima de 50 anos ou com diabetes ou doença cardiovascular conhecida. Repare que a régua é deliberadamente sensível: aceita incluir gente demais para não deixar ninguém de fora.

A senhora de 78 anos da sala de espera, que a filha trouxe porque estava estranha, enjoada e suando frio, preenche critério de abertura de protocolo de dor torácica sem ter dor torácica nenhuma.

Por que sumiram as palavras típica e atípica

A diretriz brasileira de 2025 abandonou a classificação em típica e atípica e recomenda três grupos: sintoma altamente suspeito, moderadamente suspeito e pouco ou nada suspeito. O motivo é operacional, não estético — atípica vinha sendo lida, no plantão e no prontuário, como sinônimo de não é o coração. A diretriz americana de 2021 chegou à mesma conclusão e propõe cardíaca, possivelmente cardíaca ou não cardíaca. A troca resolve um segundo problema: quando você não chama tudo de dor, os equivalentes cabem na mesma escala — dispneia isolada num diabético de 70 anos é sintoma altamente suspeito, e a nomenclatura antiga não tinha onde colocá-la.

Consequência imediata: apague dor atípica do seu vocabulário de prontuário. Escreva o que achou e o quanto isso levanta a suspeita. A palavra que você escreve é lida pelo plantonista seguinte como conclusão, não como descrição.

Idoso, diabético, mulher, renal crônico, jovem

O idoso e o diabético subnotificam dor, e nesses dois grupos o quadro entra como dispneia, queda, delirium ou mal-estar — o eletrocardiograma é a única coisa que separa isso de um dia ruim. Nas mulheres, a diferença é mais sutil do que se conta por aí: a dor torácica ocorre com frequência semelhante à dos homens durante o infarto, e o que muda é a presença mais frequente de três ou mais sintomas associados. O dado grave é outro — elas demoram mais entre perceber o sintoma e acionar o serviço pré-hospitalar, e têm maior mortalidade intra-hospitalar. Somado ao achado de que o atraso no porta-eletrocardiograma também é mais frequente em mulheres, são duas demoras sobre a mesma pessoa.

A doença renal crônica pode acompanhar troponina persistentemente elevada. Compare com resultados prévios e interprete o valor, a variação e a história: um delta pequeno também pode ocorrer no platô de um infarto. No jovem, considere pneumotórax, embolia, miopericardite e outras causas conforme a apresentação. Juventude reduz a probabilidade de aterosclerose, mas não exclui síndrome coronariana, dissecção coronária ou vasoespasmo. Cada hipótese deve ser investigada conforme os achados, sem transformar um perfil típico em diagnóstico confirmado.

As apresentações que já vêm com a resposta

Uma parte pequena dos pacientes entrega o diagnóstico no exame físico, e aí esperar exame é o erro. Hipotensão com turgência jugular, murmúrio abolido de um lado e hipertimpanismo é pneumotórax hipertensivo, diagnóstico clínico. Choque com turgência jugular e bulhas abafadas é tamponamento — com a ressalva de que a tríade de Beck tem sensibilidade baixa por componente (hipotensão 26%, bulhas abafadas 28%, pressão venosa jugular elevada 76%), de modo que serve para confirmar e não para excluir: todo paciente em choque com qualquer grau de derrame pericárdico é tratado como possível tamponamento. Dor rasgante súbita com assimetria de pulso e déficit neurológico focal é dissecção. Vômitos forçados seguidos de dor intensa, febre e enfisema subcutâneo é rotura de esôfago.

Fora esses, o que sinaliza gravidade é a lista de critérios de instabilidade, e vale de cor porque ela muda o ritmo do atendimento inteiro: dor torácica persistente, hipotensão, taquiarritmia ou bradiarritmia, dispneia intensa ou edema agudo de pulmão, diaforese, extremidades frias, pulsos distais reduzidos, rebaixamento do nível de consciência ou confusão mental, redução do débito urinário e tempo de enchimento capilar acima de 3 segundos. Qualquer um deles, ou um eletrocardiograma limítrofe, muda três coisas de uma vez: o traçado passa a ser repetido a cada 10 a 20 minutos, entra imagem à beira do leito, e você chama um segundo par de olhos experiente. Não é excesso de zelo — é a diferença entre descobrir a alteração dinâmica e descobrir o desfecho.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco que decide o capítulo. O interno raramente erra por desconhecer o infarto; erra por pedir o exame certo na hora errada, ou o exame errado e acreditar no resultado.

A investigação tem quatro passos, e o que define cada um é qual pergunta ainda está aberta. Passo 1, os primeiros 10 minutos: avaliação clínica dirigida mais eletrocardiograma, para responder se existe oclusão coronária que precise de reperfusão agora. Passo 2: definir se o paciente está instável ou se o traçado é preocupante, porque isso acelera tudo. Passo 3: exames conforme a hipótese e a probabilidade pré-teste — troponina para síndrome coronariana, D-dímero ou angiotomografia para dissecção e embolia. Passo 4, numa minoria: investigação anatômica ou funcional antes de liberar quem sobrou na zona cinzenta.

O eletrocardiograma em 10 minutos, e o que ele de fato responde

Recomendação classe I, nível B: todo paciente com critério de abertura faz eletrocardiograma de 12 derivações avaliado por um médico em até 10 minutos, contados do primeiro contato com o serviço de saúde — não da chegada ao consultório do plantonista. O traçado precede a anamnese detalhada; a avaliação clínica corre em paralelo e não pode atrasá-lo. Junto vai o move: monitorização com desfibrilador à mão, checagem da saturação (oxigênio só abaixo de 90%), acesso venoso com coleta aproveitando a punção, e o eletrocardiograma.

A pergunta que esse primeiro traçado responde é uma só: há oclusão coronária aguda? E responder isso exige ler além dos milímetros de supra. A diretriz de 2025 tornou classe I a busca ativa pelos equivalentes de oclusão: onda T hiperaguda, padrão de De Winter (T altas e simétricas precedidas de infra ascendente maior que 1 mm no ponto J nas precordiais), padrão de Aslanger, distorção terminal do QRS, e o infarto posterior — infra de V1 a V3 com onda R proeminente e T positiva, confirmado por supra de pelo menos 0,5 mm em V7 a V9. No bloqueio de ramo esquerdo valem os critérios de Sgarbossa, e o bloqueio novo isolado deixou de ser, por si só, critério diagnóstico. Fora da rota do supra, dois padrões mudam o destino do paciente: supra em aVR ou V1 com infra em seis ou mais derivações sugere lesão de tronco ou multiarterial; e a síndrome de Wellens (T bifásicas ou profundamente invertidas em V2 e V3, tipicamente com o paciente sem dor) traduz estenose crítica proximal da descendente anterior — esse paciente não faz teste de esforço.

O que esse traçado não responde é praticamente todo o resto. Em menos de 5% dos protocolos de dor torácica ele tem critério diagnóstico inequívoco; em mais de 90% é não diagnóstico. E, mesmo entre os casos de síndrome coronariana confirmada, cerca de metade tem traçado não diagnóstico. Um eletrocardiograma normal com dor típica não descarta nada.

Por isso ele é sempre no plural. Repita imediatamente na recorrência da dor ou em qualquer piora clínica; a cada 10 a 20 minutos enquanto os sintomas persistirem ou o traçado for limítrofe; quando a troponina voltar acima do percentil 99; e mesmo com troponina negativa se a suspeita clínica continuar de pé. Acrescente derivações complementares por rotina: V3R e V4R em todo supra inferior, V7 a V9 diante de infra de V1 a V3 com R proeminente. Alteração dinâmica de ST ou de onda T — inclusive a pseudonormalização, quando uma T negativa vira positiva — é dos achados mais valiosos que existem para identificar alto risco, e só aparece para quem repetiu. Uma última armadilha: um traçado que fecha outro diagnóstico não exclui síndrome coronariana. Fibrilação atrial de alta resposta é diagnóstico eletrocardiográfico e, ao mesmo tempo, traçado não diagnóstico para isquemia — que pode ser causa ou consequência da arritmia.

Troponina: o que ela responde, e o que ela não responde

A troponina cardíaca é o marcador de escolha para investigação de infarto (classe I, nível B), e a de alta sensibilidade é a preferencial. Onde existe troponina quantitativa, pedir CK-MB é recomendação classe III, nível B — não é conservadorismo, é ruído.

Injúria miocárdica significa troponina acima do percentil 99 do ensaio. Uma elevação ou queda ao longo do tempo sugere injúria aguda; valores estáveis podem representar injúria crônica, mas também um platô de infarto dependendo da cronologia. Não existe um delta relativo de 20% que resolva universalmente essa distinção: os deltas absolutos, a concentração inicial, o intervalo entre amostras e o ensaio importam. Para diagnosticar infarto, é preciso integrar a injúria aguda com evidência de isquemia, como sintomas, alterações eletrocardiográficas ou imagem compatível.

O que ela não responde é qual foi a causa. Troponina é marcador de injúria miocárdica, sem identificar isoladamente mecanismo ou necrose irreversível: sobe em sepse, embolia pulmonar, insuficiência cardíaca descompensada, miocardite, taquiarritmia sustentada, doença renal crônica, acidente vascular cerebral e Takotsubo. Para chamar de infarto, a injúria aguda precisa vir com pelo menos um destes: sintomas de isquemia aguda, nova alteração isquêmica ao eletrocardiograma (inclusive onda Q nova), imagem mostrando nova perda de miocárdio viável ou nova alteração segmentar de padrão isquêmico, ou evidência angiográfica. Troponina elevada isolada não é diagnóstico; é uma pergunta nova. E há um falso-tranquilizador que derruba muita gente: valor alterado sem variação pode ser injúria crônica, mas também pode ser o platô de um infarto — quando o valor absoluto é muito alto isso deixa de importar, porque um valor isolado muito elevado já classifica como admissão independentemente do delta.

O algoritmo 0/1 hora, com os números na mão

A primeira dosagem é colhida na admissão, independentemente do tempo de sintoma. O que vem depois obedece a uma hierarquia explícita: 0/1 hora é o algoritmo de escolha; 0/2 horas é a alternativa para quem não consegue a coleta em uma hora; e o 0/3 horas, padrão anterior, só entra na impossibilidade dos dois primeiros, porque descarta menos pacientes e mais tarde (a preferência por 0/1 h e 0/2 h é classe IIa, nível B).

Existe um atalho, com duas condições que precisam ser satisfeitas ao mesmo tempo: em paciente com dor iniciada há mais de 3 horas, uma única dosagem abaixo do limite de detecção do ensaio pode bastar para descartar infarto, desde que associada a escore clínico de baixo risco, eletrocardiograma sem isquemia e ausência de dor recorrente ou persistente (classe IIa, nível B). Se o paciente chegou com 40 minutos de dor, o atalho não existe para ele — e essa é uma das confusões mais comuns do plantão.

Os cortes são específicos de cada ensaio e não se transportam entre kits; estão na tabela do bloco seguinte. O que importa entender é a estrutura, igual para todos: um valor de muito baixo (descarte com amostra única), um valor de baixo na admissão combinado com um delta mínimo em 1 hora (descarte com duas amostras), e um valor de elevado ou um delta grande (admissão). Tudo que não cai em nenhum extremo é zona de observação. Os pontos de corte valem independentemente de idade, sexo e função renal — cortes otimizados para maiores de 75 anos e para disfunção renal foram testados e não mostraram, de forma consistente, melhor equilíbrio entre segurança e eficácia.

O rendimento é o argumento a favor. No 0/1 hora, 60 a 75% dos pacientes caem no descarte, com probabilidade de infarto abaixo de 1%; 15 a 25% ficam em observação, com probabilidade de 5 a 20%; e 8 a 20% vão para admissão, com 50 a 75%. De 75 a 85% têm destino definido dentro de uma hora. Duas ressalvas fecham o tópico. O algoritmo isoladamente não basta em paciente com doença coronária conhecida — nesse grupo a probabilidade permanece acima de 1% mesmo quando classificado como descarte. E, a que mais faz estrago: se a troponina for pedida indiscriminadamente, para pacientes de baixa suspeita, o valor preditivo positivo do resultado alterado cai abaixo de 50%. Mais da metade das troponinas positivas nessa população não representa o que você pensou, e cada uma puxa uma cascata de internação, exames e riscos.

E quando não há troponina de alta sensibilidade

Esta é a realidade de boa parte dos serviços brasileiros, e a régua muda por completo — não porque a medicina seja outra, mas porque o ensaio demora mais para subir. Com troponina convencional quantitativa, colhe-se na admissão e repete-se a cada 3 horas até se ter amostra em tempo hábil, o que na maioria dos kits significa mais de 6 a 12 horas do início dos sintomas. O protocolo do Ministério da Saúde escreve a mesma coisa com outros números: admissão e nova dosagem após 9 a 12 horas do início dos sintomas nos casos de alta suspeita. Na ausência também da troponina entra a CK-MB, de preferência massa, na admissão e após 6 a 9 horas, com terceira amostra em 12 horas se a suspeita for alta.

O que muda na prática é o tempo de observação e, portanto, a logística inteira do plantão: o paciente fica de 9 a 12 horas, com eletrocardiograma seriado a cada 3 horas e a qualquer mudança clínica, e ao final desse período pode ser liberado se a troponina permanecer negativa, o escore for de baixo risco e o traçado não tiver isquemia. A conclusão é desconfortável e verdadeira: o seu tempo de observação é ditado pelo kit que o seu laboratório usa, e você precisa saber qual é antes do plantão começar.

As outras que matam: como cada uma entra e sai da lista

Dissecção aguda de aorta. Começa com o ADD-RS, de três categorias — condição predisponente, característica da dor e achado do exame físico. Cada categoria em que houver qualquer item vale 1 ponto, máximo de 3. Até 1 ponto é baixa probabilidade; 2 ou 3 é alta. Em baixa probabilidade e sem sinal sugestivo no ultrassom à beira do leito ou na radiografia, dosa-se D-dímero: abaixo de 500 ng/mL descarta e manda procurar outro diagnóstico; igual ou acima, vai para imagem. Em alta probabilidade, ou com alargamento de mediastino na radiografia, vai direto para angiotomografia de aorta torácica e abdominal, sem D-dímero.

Três ressalvas valem mais que o escore. O alargamento do mediastino superior aparece em 60 a 90% dos casos, mas radiografia normal não exclui. O ecocardiograma transtorácico tem acurácia limitada para fechar dissecção — ajuda mostrando insuficiência aórtica, derrame ou dilatação, e a janela supraesternal pode mostrar o flap, mas a ausência dele não descarta; o transesofágico, com acurácia acima de 90% e valor preditivo negativo próximo de 100%, é a alternativa quando a angiotomografia é impossível, sobretudo no instável. E a terceira, que é recomendação classe III: ADD-RS e aorta não devem ser usados isoladamente para excluir ou confirmar. Eles definem qual exame você pede, não o diagnóstico.

Tromboembolismo pulmonar. Aplique Wells ou Genebra — usar um escore de probabilidade pré-teste é classe I, nível A. Na leitura em dois níveis, Wells acima de 4 significa provável (cerca de 28% de probabilidade) e até 4 significa improvável (cerca de 3%). Em probabilidade baixa existe o PERC, uma regra de saída: se todos os oito itens estiverem ausentes — idade de 50 anos ou mais, frequência de 100 bpm ou mais, saturação abaixo de 95% em ar ambiente, edema assimétrico de membros inferiores, hemoptise, cirurgia ou trauma nas últimas 4 semanas, trombose venosa profunda ou embolia prévias, e uso de tratamento hormonal —, o diagnóstico pode ser afastado sem D-dímero (classe IIa, nível B). Em probabilidade baixa com algum item do PERC presente, ou em qualquer outro TEP improvável (Wells até 4), dosa-se D-dímero com corte de 500 ng/mL, ou ajustado pela idade (idade multiplicada por 10) a partir dos 50 anos. Em TEP provável (Wells acima de 4) não se dosa D-dímero: vai direto para angiotomografia de tórax. Duas situações fogem do fluxo: no instável sem condições de tomografia, sobrecarga de ventrículo direito ao ecocardiograma (relação VD/VE igual ou maior que 1,0, TAPSE abaixo de 16 mm), afastadas outras causas, serve como evidência indireta para tratar; e em probabilidade média ou alta sem sangramento, a primeira dose da anticoagulação plena pode ser dada antes da confirmação por imagem.

Pneumotórax hipertensivo, tamponamento e rotura de esôfago. Os dois primeiros são diagnósticos clínicos, e esperar exame é o erro — no pneumotórax, o ultrassom mostra ausência de deslizamento pleural quando o caso é duvidoso, mas o caso típico não é duvidoso; no tamponamento, o ecocardiograma quantifica o derrame e mostra restrição ao enchimento, lembrando que a velocidade de instalação pesa mais que o volume. Na rotura de esôfago, a chave é enfisema subcutâneo e pneumomediastino na radiografia ou tomografia, com a história certa: vômitos forçados, dor súbita, febre, hipotensão. E a pericardite se define por dois de quatro critérios: dor característica (fásica com a respiração, melhora com a flexão anterior do tórax), atrito pericárdico, eletrocardiograma característico e achado de imagem. O que a separa do infarto no traçado é a concavidade superior do supra, a distribuição difusa que não respeita território coronário e costuma poupar V1 e aVR, a ausência de imagem em espelho e o infra do segmento PR; e a razão entre a amplitude do ST e a da onda T em 0,25 é o que separa pericardite (0,25 ou mais) de repolarização precoce (abaixo de 0,25).

O que não pedir, e quanto custa pedir

CK-MB e mioglobina quando há troponina quantitativa: classe III, nível B. O dano real não é o custo, é decisório — um CK-MB normal ao lado de uma troponina alterada produz hesitação em quem deveria estar admitindo o paciente.

Troponina disparada para todo mundo: derruba o valor preditivo positivo abaixo de 50% e alimenta uma cascata que termina em cateterismo desnecessário, com as complicações que ele tem, em quem só tinha injúria crônica. D-dímero em quem já tem probabilidade alta de TEP ou de dissecção: não muda a conduta, porque a tomografia será feita de qualquer forma, e um valor abaixo do corte nesse contexto é exatamente o falso alívio que manda o paciente embora. Radiografia que atrasa a reperfusão: o protocolo do Ministério da Saúde é explícito ao dizer que ela não deve atrasar, exceto quando há suspeita de dissecção — que é justamente o caso em que responde alguma coisa. E teste ergométrico em paciente com padrão de Wellens ou com dor em curso: você está propondo esforço a quem tem estenose crítica proximal ou isquemia ativa.

O que existe no SUS, e o que isso muda

O eletrocardiograma é o exame mais disponível, mais barato e o que mais muda conduta — e é também o que mais se perde por processo, não por falta de aparelho. As causas conhecidas de atraso são burocracia de triagem antes do exame e falha em reconhecer o sintoma; as soluções que funcionaram em serviços reais são banais e replicáveis: aparelho dedicado na triagem com técnico habilitado, treinamento da equipe para reconhecer equivalentes isquêmicos, e retorno contínuo dos tempos para quem executa. Num serviço, a mediana caiu de 16 para 5 minutos só com aparelho e técnico exclusivos na triagem.

A troponina quantitativa está amplamente disponível; a de alta sensibilidade, não em todo lugar — e isso define se o seu paciente tem destino em uma hora ou em doze. A angiotomografia decide dissecção e embolia, e a disponibilidade dela define a rede, não a sua preferência: se a sua unidade não tem tomógrafo e você tem um ADD-RS de 2 pontos na sua frente, a decisão não é qual exame pedir, é transferir agora, com o paciente monitorizado e com pressão e frequência controladas no caminho. A mesma lógica vale para o infarto com supra em serviço sem hemodinâmica. E há o pré-hospitalar, que no Brasil tem nome e portaria: o eletrocardiograma feito na ambulância e interpretado remotamente reduz em 34% o tempo porta-agulha e em 18% o porta-balão — enquanto cada 30 minutos de atraso na reperfusão aumenta a mortalidade em 7,5%.

07

O caminho, em quatro passos

Ao final, você deve investigar dor torácica com prioridade clínica, interpretar ECG e troponinas na cronologia correta e justificar observação, tratamento ou alta.

  1. 1Porta. Qualquer dor atual entre a cicatriz umbilical e a mandíbula, ou qualquer dor torácica que tenha durado mais de 10 minutos mesmo já ausente, abre o protocolo — prioridade vermelha ou laranja na triagem.
  2. 2Dez minutos. Eletrocardiograma de 12 derivações realizado e interpretado por um médico, contando do primeiro contato com o serviço. Em paralelo, MOVE: monitorização com desfibrilador à mão, saturação (oxigênio só abaixo de 90%), acesso venoso com coleta na mesma punção.
  3. 3ECG com critérios de oclusão coronária ou isquemia de alto risco → avaliação especializada e tratamento imediato conforme o padrão e a estabilidade. Supra em aVR com infra difuso pode indicar isquemia subendocárdica extensa, mas não comprova sozinho oclusão do tronco nem constitui indicação automática de fibrinólise.
  4. 4Traçado diagnóstico? Saia desta rota para a de tratamento. Antes da dose de ataque, cheque os dois pulsos e as duas pressões e pergunte se a dor foi máxima desde o primeiro segundo: dissecção tipo A pode se apresentar como supradesnivelamento.
  5. 5Traçado não diagnóstico, o cenário em mais de 90% dos casos. Há critério de instabilidade ou o traçado é limítrofe? Se sim, repita o eletrocardiograma a cada 10 a 20 minutos, chame um segundo médico experiente, faça imagem à beira do leito e busque ativamente as seis causas fatais.
  6. 6Estável e sem traçado diagnóstico. Calcule o HEART e colha a primeira troponina. Em paralelo, decida se dissecção e embolia entram na lista: ADD-RS e Wells ou PERC custam zero e definem qual exame vem a seguir.
  7. 7Uma hora. Segunda troponina. Descarte, observação ou admissão — o destino sai daí somado ao escore e ao exame físico, nunca da impressão de que o paciente parece bem.

Descarte — 60 a 75% dos pacientes

Probabilidade de infarto abaixo de 1%. Considere alta para investigação ambulatorial precoce, sobretudo com HEART até 3 e sem doença coronária conhecida.

Observação — 15 a 25%

Probabilidade de 5 a 20%. Não interna por rotina e não vai para casa: terceira troponina, ecocardiograma, busca ativa de diferencial e, se persistir, teste não invasivo.

Admissão — 8 a 20%

Probabilidade de 50 a 75%. Cheque ativamente os critérios de infarto espontâneo e, se não houver, procure a causa da injúria. Abordagem intra-hospitalar.

DiagnósticoO que levanta a suspeitaO exame que decideO que não pode ser feito antes
SCADor em peso ou aperto que se constrói em minutos, irradiação, sudorese; ou equivalente (dispneia, náusea, síncope) no idoso e no diabéticoEletrocardiograma em 10 minutos, repetido; troponina seriada pelo algoritmo do seu kitNão descarte por eletrocardiograma normal nem por troponina única em quem chegou cedo
Dissecção de aortaDor máxima desde o primeiro segundo, rasgante, migratória; assimetria de pulso ou de pressão; déficit neurológico focal; sopro de insuficiência aórtica novoAngiotomografia de aorta torácica e abdominal; transesofágico se a tomografia for impossívelAntiagregante e anticoagulante ficam adiados até confirmar ou descartar
TEPDor pleurítica de início súbito com dispneia; imobilização, cirurgia recente, câncer, trombose prévia, hormônioAngiotomografia de tórax; D-dímero só serve para descartar em probabilidade baixa ou intermediáriaNão dose D-dímero se a probabilidade já é alta — a tomografia será feita de qualquer forma
Pneumotórax hipertensivoDispneia súbita com hipotensão, murmúrio vesicular abolido de um lado, hipertimpanismo, turgência jugularDiagnóstico clínico quando há tensão e instabilidade: descomprimir sem aguardar imagem. No paciente estável, integrar radiografia ou ultrassom; ausência isolada de deslizamento pleural não confirma pneumotórax.Não espere a radiografia para descomprimir
TamponamentoChoque com turgência jugular e bulhas abafadas; pulso paradoxalEcocardiograma à beira do leitoNão use a tríade de Beck para excluir: a sensibilidade de cada componente é baixa
Rotura de esôfagoVômitos forçados e então dor torácica intensa, febre, enfisema subcutâneoTC de tórax dirigida à suspeita, com estratégia de contraste definida com radiologia; sinais indiretos na radiografia não confirmam nem excluem. Acionar cirurgia precocemente.Não rotule como dispepsia a dor que começou depois do vômito

Escore HEART — os cinco domínios

Domínio0 ponto1 ponto2 pontos
HistóriaPouco ou nada suspeitaModeradamente suspeitaAltamente suspeita
ECGNormalDistúrbio de repolarização inespecíficoDepressão significativa do segmento ST
IdadeMenos de 45 anosDe 45 a 64 anos65 anos ou mais
RiscoNenhum fator1 ou 2 fatores3 ou mais fatores, ou doença aterosclerótica conhecida
TroponinaAté o limite superiorDe 1 a 3 vezes o limite superior3 vezes o limite superior ou mais

Troponina de alta sensibilidade — cortes do algoritmo 0/1 hora, em ng/L

EnsaioMuito baixoBaixo em 0 hSem delta em 1 hElevadoDelta em 1 h
hs-cTnT (Roche)menor que 5menor que 12menor que 352 ou mais5 ou mais
hs-cTnI (Abbott)menor que 4menor que 5menor que 264 ou mais6 ou mais
hs-cTnI (Siemens)menor que 3menor que 6menor que 3120 ou mais12 ou mais
hs-cTnI (Beckman)menor que 4menor que 5menor que 450 ou mais15 ou mais

ADD-RS — 1 ponto por categoria em que houver qualquer item

CategoriaO que conta
CondiçãoSíndrome de Marfan ou outra doença do tecido conjuntivo; história familiar de aortopatia; valvopatia aórtica conhecida; manipulação recente da aorta; aneurisma de aorta torácica conhecido
DorInício súbito; intensidade severa; caráter rasgante
ExameDéficit de pulso ou de pressão arterial; déficit neurológico focal associado à dor; sopro de regurgitação aórtica novo associado à dor; hipotensão ou choque

Escore de Wells para tromboembolismo pulmonar

PontosCritério
3Sinais clínicos de trombose venosa profunda
3Ausência de diagnóstico alternativo mais provável que embolia pulmonar
1,5Trombose venosa profunda ou embolia pulmonar prévias
1,5Frequência cardíaca acima de 100 bpm
1,5Imobilização por mais de 2 dias ou cirurgia nas últimas 4 semanas
1Hemoptise
1Câncer tratado nos últimos 6 meses, ou paciente em cuidados paliativos

Contam no domínio Risco do HEART: hipertensão, hipercolesterolemia, diabetes, obesidade com índice de massa corporal acima de 30, tabagismo atual ou cessado há até 3 meses, e história familiar precoce em parente de primeiro grau. Leitura: de 0 a 3 pontos, risco baixo de evento cardiovascular maior em 6 semanas; de 4 a 6, médio; de 7 a 10, elevado. Escore abaixo de 4 com troponinas normais tem valor preditivo negativo em torno de 99%. E vale a regra que economiza tempo: paciente com eletrocardiograma ou troponina já diagnósticos, somados a quadro compatível, não precisa de HEART — ele já tem diagnóstico e segue para a rota de tratamento.

Os cortes de troponina valem independentemente de idade, sexo e função renal, e são específicos do ensaio. A tabela traz os quatro mais frequentes no Brasil, mas a lista original é maior e o seu laboratório pode usar outro — confirme antes. No algoritmo 0/2 horas, os valores de muito baixo e de elevado são os mesmos; mudam o baixo e o delta.

Leitura do ADD-RS: até 1 ponto é baixa probabilidade, e aí um D-dímero abaixo de 500 ng/mL descarta e manda procurar outro diagnóstico; 2 ou 3 pontos é alta probabilidade, com angiotomografia direto. Radiografia com alargamento de mediastino coloca o paciente no fluxo de alta probabilidade independentemente do escore. Leitura do Wells em dois níveis: até 4 pontos, embolia improvável (cerca de 3%); acima de 4, provável (cerca de 28%).

08

A conduta, hora a hora

A prescrição acompanha as hipóteses e a estabilidade enquanto a investigação prossegue. Ofereça analgesia e suporte indicados sem esperar certeza etiológica. AAS pode ser administrado na suspeita consistente de síndrome coronariana após avaliar contraindicações; dupla antiagregação e anticoagulação exigem definição da estratégia. Antes de nitrato, verifique pressão, possível infarto de ventrículo direito e uso recente de inibidores de PDE5 ou riociguate. Morfina fica para dor intensa refratária, titulada e monitorizada por seus efeitos respiratórios e hemodinâmicos e pela interação com absorção de antiagregantes orais.

  1. Minuto 0 — a porta

    A triagem abre o protocolo pelo critério objetivo (dor atual entre a cicatriz umbilical e a mandíbula) e classifica como vermelho ou laranja. O paciente vai para uma sala com desfibrilador, não para a fila. A avaliação detalhada da dor corre em paralelo e não pode atrasar o eletrocardiograma.

    Prescrição
    • Monitorização cardíaca contínua, com desfibrilador prontamente disponível (SBC 2025, acrônimo MOVE)
    • Oxigênio suplementar apenas se SpO2 abaixo de 90% — o protocolo do Ministério da Saúde acrescenta congestão pulmonar, dispneia ou cianose (PCDT Síndromes Coronarianas Agudas, MS/CONITEC)
    • Acesso venoso calibroso com coleta na mesma punção: troponina, hemograma, ureia, creatinina, sódio, potássio, magnésio, glicemia, coagulograma (PCDT MS/CONITEC)
  2. Minuto 10 — o traçado na sua mão

    Eletrocardiograma interpretado por um médico. Três saídas: traçado diagnóstico de oclusão coronária, e o paciente sai desta rota para a de reperfusão; traçado que fecha outra coisa (pericardite, arritmia), e você segue investigando síndrome coronariana em paralelo se a suspeita continua; ou traçado não diagnóstico, o cenário de mais de 90%, e começa a rota diagnóstica. Antes de qualquer dose de ataque, palpe os dois pulsos radiais, meça a pressão nos dois braços e pergunte se a dor foi máxima desde o primeiro segundo.

    Prescrição
    • AAS, ataque de 150–300 mg por via oral, mastigado, quando a síndrome coronariana aguda for provável e não houver alergia relevante, sangramento ativo ou suspeita clínica importante de síndrome aórtica. Um ECG sem supra não impede seu uso. A triagem de risco aórtico é clínica inicialmente; não se exige angiotomografia de todo paciente antes do AAS.
    • A escolha e a dose de outro antiagregante dependem da estratégia de reperfusão, do risco de sangramento e das contraindicações. Se houver contraindicação ao AAS, discuta a alternativa com a equipe responsável; não substitua automaticamente por uma dose única de clopidogrel em qualquer cenário.
    • Derivações complementares por rotina: V3R e V4R em todo supradesnivelamento inferior; V7 a V9 diante de infradesnivelamento de V1 a V3 com onda R proeminente (SBC 2025)
  3. Minuto 10 a 30 — a analgesia que não apaga o quadro

    Nitrato sublingual primeiro, depois de checar as contraindicações. Morfina só depois, e só se a dor persistir, porque a dor é o principal parâmetro de reavaliação que você tem nas próximas horas — apagá-la cedo cega o resto do plantão. E nada aqui tem valor diagnóstico: melhora com nitrato não confirma isquemia, e melhora com antiácido não exclui.

    Prescrição
    • Dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual, repetível até 3 vezes a cada 5 minutos se a dor persistir (PCDT MS/CONITEC)
    • Contraindicações ao nitrato: frequência abaixo de 50 bpm, pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, infarto de ventrículo direito, sildenafila nas últimas 24 horas ou tadalafila nas últimas 48 horas (PCDT MS/CONITEC)
    • Morfina 2 a 4 mg por via endovenosa a cada 5 a 15 minutos, se a dor não cedeu com o nitrato (PCDT MS/CONITEC)
  4. Minuto 10 a 60 — se a hipótese virar aorta

    Enquanto a dissecção estiver na lista, antiagregante e anticoagulante ficam adiados até confirmar ou descartar. Com ADD-RS de 2 ou 3 pontos, ou alargamento de mediastino, o caminho é angiotomografia de aorta torácica e abdominal — e o tratamento começa antes do resultado: reduzir a força de cisalhamento sobre a parede, o que significa baixar frequência antes de baixar pressão.

    Prescrição
    • Meta hemodinâmica: pressão sistólica abaixo de 120 mmHg, ou a menor que mantenha perfusão de órgão-alvo, e frequência cardíaca entre 60 e 80 bpm (2022 ACC/AHA Aortic Disease)
    • Betabloqueador endovenoso como primeira droga, titulado até a meta de frequência; vasodilatador apenas depois do bloqueio, para não produzir taquicardia reflexa e piorar o cisalhamento (2022 ACC/AHA Aortic Disease)
    • Analgesia plena: a dor da dissecção é ela própria um estímulo adrenérgico que sobe pressão e frequência
  5. Minuto 10 a 60 — se a hipótese virar pulmão

    Com probabilidade pré-teste média ou alta de embolia e sem sangramento, a primeira dose da anticoagulação plena pode ser dada antes da tomografia. O gatilho é a probabilidade, não a confirmação; a escolha do anticoagulante e a duração pertencem a Tromboembolismo pulmonar: diagnóstico e manejo, da apostila de Pneumologia.

    Prescrição
    • Enoxaparina 1 mg/kg por via subcutânea a cada 12 horas, ou 1,5 mg/kg a cada 24 horas (Consenso SBACV-SP de Tromboembolismo Venoso, 2019)
    • Alternativa com heparina não fracionada: bolus endovenoso de 5.000 UI (ou 80 UI/kg), seguido de infusão titulada para manter o TTPa entre 1,5 e 2,5 vezes o valor de referência (Consenso SBACV-SP, 2019)
    • Ajuste renal: com clearance de creatinina abaixo de 30 mL/min, a enoxaparina em dose plena passa a 1 mg/kg a cada 24 horas (PCDT MS/CONITEC)
  6. Hora 1 — a segunda troponina e o segundo traçado

    Colhe a segunda troponina e repete o eletrocardiograma. Aqui você tem, para 75 a 85% dos pacientes, o destino definido: descarte, observação ou admissão — e a leitura é o par valor de admissão mais delta, nunca o valor sozinho. Se houve dor de novo nesse intervalo, o traçado sai na hora da dor, não na hora do relógio.

    Prescrição
    • Repetir o eletrocardiograma imediatamente na recorrência da dor ou em qualquer piora clínica; a cada 10 a 20 minutos se os sintomas persistirem ou o traçado for limítrofe; e sempre que a troponina voltar acima do percentil 99 (SBC 2025)
  7. Hora 3 — o destino

    Três saídas. Admissão, para quem tem critério de infarto ou troponina em rule-in: rota de síndrome coronariana, com a prescrição inteira que está no capítulo correspondente. Observação, para a zona intermediária: terceira troponina, ecocardiograma, busca ativa de diferencial e, se a suspeita persistir, teste não invasivo antes de liberar. Alta, para o descarte: sem outro diagnóstico de risco em aberto, com HEART abaixo de 4 e sem doença coronária conhecida, o paciente vai para casa com investigação ambulatorial precoce — e com a conversa do bloco 11 feita.

    Prescrição
    • Alta com data de retorno marcada, não com a orientação de procurar um médico
    • Alta com gatilhos escritos de retorno imediato: dor de novo, dor mais forte, falta de ar, desmaio, suor frio
    • Alta com a lista do que foi excluído registrada no prontuário e dita ao paciente
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Como saber se está funcionando

Este é o bloco em que a maioria dos internos trava, porque ele não tem fluxograma. A dor melhorou, o segundo eletrocardiograma está igual, a troponina não subiu — e agora?

Comece desarmando a armadilha mais frequente do plantão: a resposta ao tratamento não é teste diagnóstico. Dor que melhorou com nitrato não confirma isquemia (nitrato relaxa musculatura lisa em qualquer lugar, inclusive no esôfago). Dor que melhorou com antiácido não exclui infarto. Dor que sumiu sozinha não exclui nada, e o padrão de Wellens costuma aparecer exatamente no paciente que está sem dor no momento do traçado. A decisão vem do eletrocardiograma, da troponina e do escore — nessa combinação, e não da impressão de que o paciente melhorou.

A dor — presença, não intensidadeA cada 10 a 20 minutos enquanto persistir, registrada com hora

Esperado: Que você saiba, a qualquer momento do plantão, se a dor está presente. A recorrência é gatilho de eletrocardiograma imediato, e não apenas de analgesia adicional.

Se não melhora: Dor que persiste apesar de terapia anti-isquêmica otimizada é critério de instabilidade: acelere a rota. Eletrocardiograma a cada 10 a 20 minutos, segundo médico experiente no traçado, imagem à beira do leito e reabertura da lista das seis causas fatais — dor refratária num paciente já rotulado como não cardíaco costuma ser rótulo errado, não dor rebelde.

O eletrocardiogramaImediatamente na recorrência da dor ou piora clínica; a cada 10 a 20 minutos se sintomas persistentes ou traçado limítrofe; quando a troponina voltar acima do percentil 99; e mesmo com troponina negativa se a suspeita persistir

Esperado: Traçado estável, sem alteração dinâmica de ST ou de onda T em relação ao anterior. Compare com traçado prévio do paciente sempre que existir, sem que a busca atrase a conduta.

Se não melhora: Alteração dinâmica é achado de alto risco por definição, e conta nos dois sentidos: uma onda T negativa que vira positiva (pseudonormalização) é tão significativa quanto o inverso. Diante dela, o paciente saiu da rota diagnóstica e entrou na de tratamento, independentemente de a troponina ainda não ter subido.

A troponina — valor, variação e contextoAdmissão e 1 hora (ou 2 horas, conforme o kit); terceira coleta se caiu na zona intermediária. Serviço sem alta sensibilidade: admissão e 9 a 12 horas do início dos sintomas

Esperado: Aplique os pontos de corte e deltas próprios do ensaio e do intervalo escolhido. Descarte de infarto pelo algoritmo não equivale a alta automática nem exclui angina instável. Valores elevados exigem explicar a injúria; na zona intermediária, continue a investigação. O tempo desde o início dos sintomas orienta a interpretação, e o intervalo entre coletas deve respeitar o protocolo.

Se não melhora: Valor alto e estável não é sinônimo de injúria crônica: pode ser o platô de um infarto, e um valor isolado muito elevado já classifica como admissão independentemente do delta. Se o valor é intermediário e estável, procure troponina prévia do paciente e integre com eletrocardiograma e imagem — a troponina define injúria e não mecanismo, e sepse, embolia, insuficiência cardíaca descompensada, miocardite, taquiarritmia, doença renal crônica e acidente vascular cerebral elevam troponina sem infarto nenhum.

A hemodinâmicaMonitorização contínua durante toda a permanência

Esperado: Pressão, frequência, saturação e perfusão estáveis. Reavalie pulsos e pressão nos dois braços pelo menos uma vez depois da avaliação inicial — assimetria pode surgir com a progressão de uma dissecção.

Se não melhora: Instabilidade durante a observação exige suporte imediato e investigação da causa do choque. Use ultrassom cardíaco e pulmonar dirigido à pergunta, por operador capacitado: função ventricular, derrame com repercussão, congestão e sinais de pneumotórax. Ventrículo direito dilatado não confirma embolia; cava dilatada não determina sozinha a necessidade de volume. Ausência de deslizamento pleural também ocorre em apneia, aderências e intubação seletiva. Integre lung point, linhas B e pulso pulmonar quando avaliáveis, sem atrasar descompressão de pneumotórax hipertensivo clinicamente evidente.

A hipóteseA cada resultado que volta

Esperado: Que cada exame tenha mudado a lista de hipóteses. Um exame que não muda a lista, qualquer que fosse o resultado, não deveria ter sido pedido.

Se não melhora: Se depois de traçados seriados, troponina seriada, escores aplicados e imagem à beira do leito nada fechou, e o paciente está estável e sem dor, isso é um resultado e não um fracasso. Quem ficou na zona intermediária não tem indicação formal de internação de rotina nem segurança para ir para casa: prossiga com nova dosagem de troponina, ecocardiograma e busca ativa de diferencial, e considere teste não invasivo antes da alta ou em regime ambulatorial precoce. Se a suspeita de isquemia continuar alta com exames inconclusivos, ou se aparecer critério de instabilidade durante a observação, a cineangiocoronariografia pode ser considerada. O que não se faz é dar alta sem ter excluído as que matam, nem internar por não saber o que fazer.

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Onde o erro machuca

O eletrocardiograma que ficou pronto e não foi visto

O dano: Tempo porta-eletrocardiograma acima de 10 minutos se associou a risco aumentado de infarto recorrente ou morte, com odds ratio de 3,95 — e apenas 40% dos infartos com supradesnivelamento atingem a meta na vida real. Não existe benefício algum quando o traçado é feito nos primeiros 10 minutos e fica meia hora sobre o balcão.

Como pegar a tempo: O relógio que conta é o da interpretação, não o da impressão do papel. Combine com a equipe que o traçado vai direto para a mão de um médico, e não para a pasta. Nos serviços que resolveram isso, a solução foi banal: aparelho dedicado na triagem com técnico habilitado e retorno contínuo dos tempos.

O eletrocardiograma único

O dano: Mais de 90% dos traçados iniciais são não diagnósticos, e cerca de metade dos pacientes com síndrome coronariana confirmada tem primeiro traçado não diagnóstico. A oclusão evolui: a onda T hiperaguda de agora é o supradesnivelamento de daqui a vinte minutos. Quem fez um traçado só documentou o minuto errado.

Como pegar a tempo: Trate o eletrocardiograma como série, não como foto. Repita imediatamente na recorrência da dor, a cada 10 a 20 minutos se sintomas persistem ou o traçado é limítrofe, e sempre que a troponina voltar alterada.

A troponina única no paciente que chegou cedo

O dano: Uma troponina negativa colhida com 40 minutos de dor não exclui nada, porque o marcador ainda não teve tempo de subir. O descarte com amostra única exige duas condições simultâneas — mais de 3 horas do início dos sintomas e valor abaixo do limite de detecção — somadas a escore de baixo risco, traçado sem isquemia e ausência de dor recorrente. Um paciente liberado com esse raciocínio é o caso clássico de infarto não reconhecido, e esse grupo tem mortalidade maior.

Como pegar a tempo: Ancore a coleta no horário de início dos sintomas e escreva esse horário no prontuário na primeira linha. A pergunta que precede a interpretação da troponina não é qual o valor, é há quanto tempo começou a dor.

A dor que melhorou com sintomático

O dano: A resposta ao nitrato, ao antiácido ou ao analgésico não tem valor diagnóstico, e transformá-la em teste terapêutico produz altas erradas nas duas direções: o paciente com espasmo esofágico que melhora com nitrato vira infarto, e o paciente com isquemia que melhora com antiácido vira gastrite e vai para casa. O padrão de Wellens, que traduz estenose crítica proximal da descendente anterior, tipicamente aparece com o paciente sem dor.

Como pegar a tempo: Anote a melhora como evolução, nunca como argumento. A decisão de destino sai do eletrocardiograma seriado, da troponina seriada e do escore — e o paciente sem dor merece o mesmo traçado atento que o paciente com dor.

O jovem descartado pela idade

O dano: O HEART dá zero ponto abaixo de 45 anos, e zero ponto num domínio não é risco zero no paciente. Dissecção acontece em doença do tecido conjuntivo, em uso de cocaína e no periparto; dissecção espontânea de coronária acomete sobretudo mulheres jovens; embolia pulmonar segue voo longo, contraceptivo, pós-operatório e puerpério; pneumotórax espontâneo é doença do jovem alto e magro. O paciente jovem liberado por engano é também aquele com mais anos de vida em jogo.

Como pegar a tempo: Use o escore para estratificar risco de evento coronariano, não para excluir as outras cinco. A pergunta que protege é qual das seis eu ainda não endereço neste paciente — e ela precisa ser feita mesmo com HEART de 1.

A antiagregação prescrita antes de pensar na aorta

O dano: Se o diagnóstico não for considerado, a dissecção nunca será feita — e se ela for confundida com síndrome coronariana, a antiagregação e a anticoagulação são deletérias. Vale lembrar que dissecção tipo A pode comprometer o óstio coronário e se apresentar como infarto com supradesnivelamento: o traçado que parece resolver o caso pode ser justamente o do paciente que você não pode antiagregar.

Como pegar a tempo: Antes da dose de ataque, três gestos que somados levam quinze segundos: palpar os dois pulsos radiais, medir a pressão nos dois braços, e perguntar se a dor foi máxima desde o primeiro segundo. Se qualquer um acender a luz, o antiagregante espera a imagem.

A troponina pedida para todo mundo

O dano: Em pacientes de baixa suspeita clínica, o valor preditivo positivo de uma troponina alterada cai abaixo de 50%. Mais da metade dos resultados positivos nessa população vai desencadear internação, investigação e eventualmente cateterismo — com as complicações do procedimento — em quem tinha injúria crônica ou nenhuma doença coronária.

Como pegar a tempo: Antes de assinar o pedido, responda: se este exame vier alterado, o que eu faço? Se a resposta for eu não sei, o exame não é para este paciente.

A alta sem palavra de retorno

O dano: O paciente de baixo risco liberado é, por definição, alguém com probabilidade baixa e não nula. A rede de segurança dele é saber exatamente o que o traria de volta. Com um genérico procure um médico se piorar, essa rede não existe, e o paciente que volta a doer às três da manhã interpreta que já foi avaliado e que não era nada.

Como pegar a tempo: A alta tem três partes escritas: o que foi excluído, o que não foi, e os gatilhos objetivos de retorno imediato — dor de novo, dor mais forte, falta de ar, desmaio, suor frio. Com data de retorno marcada, não com a instrução de procurar.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa da dor torácica é difícil por um motivo específico: durante quase toda ela você não sabe a resposta, e o paciente quer a resposta. A tentação é preencher o silêncio com uma tranquilização que você ainda não pode dar. As falas abaixo são para dizer em voz alta.

Ele pergunta, ainda na maca, se é infarto

Eu ainda não sei, e é por isso que o senhor está aqui monitorizado. Existem algumas causas de dor no peito que são graves e precisam ser descartadas rápido, e é isso que eu vou fazer na próxima hora: já fiz um exame do coração, vou repetir esse exame, e vou colher um exame de sangue agora e outro daqui a uma hora. Assim que eu tiver o segundo resultado, eu volto aqui e converso com o senhor e com a sua esposa.

Não diga: Fica tranquilo que não é nada, deve ser gastrite ou ansiedade. É a frase que fecha a porta: se o segundo exame vier alterado, você perdeu a credibilidade de que precisa para a conversa seguinte.

A investigação não fechou nada e ele vai para casa

A avaliação de hoje encontrou baixo risco e permite continuar a investigação fora do hospital. Isso não explica necessariamente toda a dor nem impede que o quadro mude. Vamos combinar o retorno e a consulta. Procure atendimento imediatamente se a dor voltar ou piorar, ou se houver falta de ar, desmaio ou suor frio. Antes de sair, quero que o senhor me diga com suas palavras quando deve voltar.

Não diga: Deu tudo normal, o senhor não tem nada. O exame normal de hoje descreve hoje, e o paciente que ouve não tem nada não volta amanhã.

É infarto, e você precisa dizer

Os exames confirmaram que o senhor está tendo um infarto: uma artéria do coração entupiu e parte do músculo está sofrendo. A boa notícia é que o senhor chegou cedo e a gente tem tratamento para isso agora. Eu vou explicar o que vai acontecer nos próximos minutos e o senhor pode me interromper a qualquer momento.

Não diga: O senhor teve um infartinho, foi coisa pequena. O diminutivo não conforta ninguém e produz um paciente que abandona a medicação em três meses porque foi coisa pequena.

A suspeita é dissecção e ele vai agora para a tomografia

Eu estou preocupado com a possibilidade de um problema na aorta, que é a maior artéria do corpo. Não é o mais provável, mas é o mais grave, e é o tipo de coisa que a gente não pode deixar para depois. Por isso o senhor vai fazer uma tomografia agora, com contraste, e por isso eu não vou dar o remédio para afinar o sangue enquanto esse exame não sair — se for esse o problema, esse remédio piora.

Não diga: Prometer que provavelmente não é nada enquanto pede um exame de urgência: a urgência do seu gesto desmente a sua fala, e o paciente confia no gesto.

A família pergunta se dava para ter evitado

Não dá para responder isso com honestidade agora, e eu prefiro não chutar. O que eu posso dizer é o que a gente sabe até este momento e o que vai acontecer a seguir. Quando o quadro estiver definido, eu sento com vocês e conto tudo o que a gente souber, inclusive o que não deu certo.

Não diga: Se ele tivesse vindo antes, teria sido diferente. Mesmo quando é verdade, dita nesse momento a frase só transfere culpa e não muda nada do que vem pela frente.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Escore clínico, algoritmo de troponina, ou os dois somados?

Escore clínico como ferramenta preferencial

O HEART é o escore preferencial na avaliação de dor torácica em investigação de síndrome coronariana aguda (classe I, nível B), por melhor acurácia e validação que TIMI e GRACE nesse cenário, inclusive em estudo nacional. A própria diretriz, porém, registra que o ganho incremental de somar escores clínicos aos algoritmos de troponina de alta sensibilidade é controverso.

SBC — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025

Algoritmo de troponina como estrutura do descarte

O corpo europeu constrói o descarte sobre o próprio algoritmo de troponina de alta sensibilidade: 0h/1h e 0h/2h como estratégias preferenciais, com o antigo 0h/3h rebaixado a alternativa. Os algoritmos 0/1 hora foram validados sem exigir a aplicação adicional de escore clínico.

ESC — 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes

Via estruturada de decisão, que combina os dois

O corpo americano recomenda o uso rotineiro de vias estruturadas de decisão clínica, que integram história, eletrocardiograma e troponina num mesmo instrumento, por reduzirem exames e internações desnecessários mantendo alta sensibilidade para injúria miocárdica aguda e eventos em 30 dias.

AHA/ACC — 2021 Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain

Como decidir

Os três documentos concordam no essencial e discordam sobre o que é redundante. Existe um grupo em que a divergência some: a própria diretriz brasileira registra que o algoritmo de troponina isoladamente não basta em quem tem doença coronária conhecida — ali a probabilidade de infarto permanece acima de 1% mesmo classificado como descarte, e o escore somado é o que dá segurança para liberar. Fora dele, três coisas empurram para o conservador: reversibilidade do erro (mandar para casa é a decisão menos reversível da noite), acesso do paciente ao retorno (quem mora longe e não tem consulta garantida perde a rede de segurança que o descarte pressupõe), e o quanto a história incomodou você. Escore custa zero e demora um minuto; num serviço que não vai reavaliar esse paciente em 72 horas, calcular os dois é a decisão barata.

Troponina convencional com observação de 9 a 12 horas, ou algoritmo 0/1 hora

Régua do protocolo nacional do SUS

Marcadores de necrose miocárdica dosados na admissão e repetidos com 9 a 12 horas do início dos sintomas nos casos de alta suspeita; CK-MB massa como alternativa à troponina, e CK-MB atividade com CK total na ausência das duas; observação com eletrocardiograma seriado a cada 3 horas nas primeiras 9 a 12 horas.

Ministério da Saúde / CONITEC — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas

Régua da diretriz da sociedade brasileira, de 2025

Troponina de alta sensibilidade como marcador de escolha (classe I, nível B), com algoritmos 0/1 hora e 0/2 horas preferíveis ao 0/3 horas (classe IIa, nível B), e proibição de solicitar CK-MB quando há troponina quantitativa disponível (classe III, nível B). De 60 a 75% dos pacientes são descartados na primeira hora, com probabilidade de infarto abaixo de 1%.

SBC — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025

Como decidir

Aqui a diferença não é de opinião clínica: é de data de documento e de disponibilidade de ensaio. A régua de 9 a 12 horas é a régua correta para um serviço cujo laboratório roda troponina convencional — não é atraso, é o tempo que aquele ensaio leva para subir, e antecipar a alta nesse cenário é que seria erro. A régua de 0/1 hora exige um kit de alta sensibilidade com cortes validados para o algoritmo, e usá-la com ensaio convencional produz descartes falsos. Logo, o que decide não é qual documento você prefere: é qual ensaio o seu laboratório roda, e essa é informação que você precisa ter antes do plantão começar. O caso em que a decisão volta a ser sua é o do serviço que tem alta sensibilidade e mantém a rotina antiga por hábito — aí você está segurando por doze horas um paciente que poderia ter destino em uma, ocupando um leito de que outro precisa.

Quem sobra na zona intermediária: teste anatômico ou teste funcional antes da alta?

Preferência anatômica para risco intermediário a alto

Em pacientes de risco intermediário a alto sem doença coronária conhecida, a angiotomografia de coronárias é útil para o diagnóstico de doença coronária e para a estratificação de risco. Pacientes de baixo risco, definidos por via estruturada de decisão ou por troponina de alta sensibilidade negativa, com menos de 1% de eventos em 30 dias, não precisam de teste adicional.

AHA/ACC — 2021 Guideline for the Evaluation and Diagnosis of Chest Pain

Escolha guiada por disponibilidade e experiência local

A escolha do teste não invasivo deve se basear principalmente na disponibilidade e na experiência de cada centro, com o histórico de doença coronária prévia influenciando a decisão. Onde o acesso a exames de imagem é mais limitado, o teste ergométrico, na ausência de contraindicações, pode refinar a probabilidade diagnóstica e direcionar o recurso.

SBC — Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência, 2025

Como decidir

A distância entre as duas posições é econômica e de disponibilidade, não de mérito: a angiotomografia de coronárias tem excelente valor preditivo negativo e resolve a dúvida anatômica de uma vez, e é por isso que o corpo internacional a coloca à frente. No Brasil ela não está disponível na madrugada da maior parte das emergências, e um teste que você não consegue fazer não é conduta. Três perguntas orientam a escolha concreta: o paciente tem doença coronária conhecida (se sim, a pergunta deixa de ser existe placa e passa a ser existe isquemia, e o teste funcional responde melhor); existe exame recente que já respondeu a pergunta anatômica (se sim, repetir é gasto de radiação e contraste sem ganho); e o teste está disponível agora, com quem saiba interpretá-lo. E há uma trava que independe da escolha: se o paciente ainda tem dor, ou se o traçado tem isquemia ativa, nenhum dos dois testes é o próximo passo.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao homem de 55 anos da sala de espera. Hipertenso, tabagista de trinta anos, sem acompanhamento desde a pandemia. Dor retroesternal em aperto iniciada há 1 hora, ainda presente, com sudorese. Pressão 148 por 92, frequência 92, saturação 97% em ar ambiente. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso na porta

    Ele preenche critério rotineiro de abertura de protocolo: dor atual entre a cicatriz umbilical e a mandíbula. Isso decide a próxima ação sem que eu precise de mais nenhum dado — prioridade laranja e eletrocardiograma em 10 minutos, com a anamnese correndo em paralelo. Não estou diagnosticando nada ainda; estou comprando tempo.

  2. o que peço primeiro, e o que pergunto enquanto espero

    MOVE: monitorização com desfibrilador à mão, saturação de 97% (então sem oxigênio), acesso venoso com coleta na mesma punção, e eletrocardiograma. Enquanto o técnico posiciona os eletrodos, eu palpo os dois pulsos radiais e peço pressão nos dois braços — simétricos, 148 por 92 e 144 por 90. E faço a única pergunta que preciso agora sobre a dor: começou forte assim ou foi aumentando? Ele diz que foi aumentando, devagar, e que piorou quando subiu a escada de casa.

  3. como a resposta muda o que penso

    Dor que se constrói e piora ao esforço é o padrão da isquemia, não o do rasgo. Somado a pulsos e pressões simétricos, sem déficit neurológico e sem sopro novo, o ADD-RS dele é zero: nenhuma das três categorias pontua. Dissecção continua na lista, mas em probabilidade baixa — e num ADD-RS zero, sem sinal sugestivo na radiografia, o D-dímero não é obrigatório para eu seguir. Embolia também caiu: sem imobilização, sem cirurgia, sem câncer, sem trombose prévia, sem hemoptise, frequência 92 — Wells de zero, improvável. Isso não é otimismo, é o que os escores dizem, e é o que me autoriza a concentrar a próxima hora no coração.

  4. o traçado, aos 8 minutos

    Ritmo sinusal, sem supra, sem infra, sem inversão de onda T. Procuro os equivalentes de oclusão antes de chamar o traçado de normal: não há T hiperaguda, não há De Winter, não há distorção terminal do QRS, não há infra de V1 a V3 com R proeminente, e o supra em aVR está ausente. Traçado não diagnóstico — o esperado, porque mais de 90% deles são. Ele continua com dor, então esse traçado é o primeiro de uma série.

  5. o que calculo, e a primeira troponina

    A troponina de admissão é 9 ng/L. Uma primeira amostra abaixo do percentil 99, colhida tão cedo, não exclui infarto em evolução. Como o início dos sintomas ocorreu há apenas uma hora, mantenha monitorização, repita o ECG se a dor persistir ou mudar e colha a segunda troponina no intervalo de uma hora previsto para esse ensaio. O relógio do algoritmo começa na primeira coleta; o tempo desde o início dos sintomas continua relevante para interpretar a primeira amostra.

  6. o que faço com a dor

    Dinitrato de isossorbida 5 mg sublingual, depois de conferir que a pressão é 148 por 92, a frequência é 92, não há infarto de ventrículo direito no traçado e ele não usou inibidor de fosfodiesterase. Vinte minutos depois a dor caiu bastante. Registro como evolução e não como argumento: alívio com nitrato não confirma nem exclui isquemia. Ele segue monitorizado.

  7. a segunda troponina, e a decisão

    A segunda hs-cTnT é 11 ng/L: valor inicial inferior a 12 e delta absoluto de 2 ng/L satisfazem a faixa de descarte de infarto do algoritmo 0/1 hora desse ensaio. Isso não exclui angina instável nem substitui a avaliação clínica. A história de aperto retroesternal agudo, relacionado a esforço e acompanhado de sudorese é fortemente suspeita: história 2, ECG 0, idade 1, hipertensão e tabagismo 1, troponina 0, total HEART 4. A pontuação da história exige julgamento, mas não deve ser reduzida para produzir uma alta. Mantenha observação e discuta avaliação cardiológica e eventual teste anatômico ou funcional conforme persistência dos sintomas, exames anteriores e recursos. Uma dor nova com essas características não deve ser rotulada de doença coronária estável e encaminhada simplesmente para consulta em algumas semanas.

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Faça você

Agora é a senhora de 78 anos, diabética há vinte anos, que a filha trouxe às 22h30 porque ela estava estranha, enjoada e suando frio. Ela nega dor no peito quando você pergunta diretamente; refere mal-estar e um peso no estômago que começou há umas quatro horas. Pressão 122 por 70 nos dois braços, frequência 88, saturação 95%, glicemia capilar 214. Pulsos simétricos, sem sopro novo, sem turgência jugular, murmúrio vesicular presente bilateralmente. O eletrocardiograma feito aos 9 minutos mostra ritmo sinusal com alterações inespecíficas da repolarização, sem supra, sem infra significativo e sem padrão de oclusão. Laboratório com hs-cTnT (Roche).

  1. por que ela entrou no protocolo

    Ela não tem dor torácica, mas tem equivalente isquêmico (diaforese, náusea, mal-estar) somado a idade acima de 50 anos e diabetes — critério adicional de abertura, classe IIa. De 10 a 30% dos pacientes com síndrome coronariana aguda não têm dor torácica, e a concentração desse grupo é exatamente idoso e diabético.

  2. Como o exame modifica as probabilidades

    Não há instabilidade, assimetria de pulso ou achados respiratórios focais. ADD-RS e Wells baixos tornam algumas alternativas menos prováveis, mas não encerram sua investigação quando a história ou a evolução as sustentarem. Exame físico sem alterações não exclui isoladamente tamponamento, embolia ou pneumotórax. Procure equivalentes isquêmicos e integre ECG, troponinas seriadas e, quando indicado, ultrassom à beira do leito.

  3. o HEART dela

    História moderadamente suspeita 1, eletrocardiograma com distúrbio inespecífico de repolarização 1, idade 78 anos 2, diabetes como único fator de risco registrado 1. Antes da troponina, ela já tem 4 pontos.

  4. as duas troponinas

    hs-cTnT de 18 ng/L na admissão e 21 ng/L em 1 hora. Delta de 3. Percentil 99 do kit: 14.

  5. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Ela não é descarte e não é admissão: caiu na zona intermediária, e reconhecer isso é metade da resposta. Pelo kit da Roche no algoritmo 0/1 hora, descarte exigiria valor de admissão abaixo de 12 (ela tem 18) e delta abaixo de 3 (ela tem exatamente 3, que não é menor que 3); admissão exigiria valor de 52 ou mais, ou delta de 5 ou mais — ela não preenche nenhum dos dois. Está na faixa em que a probabilidade de infarto é de 5 a 20%, e nela não há indicação formal de internação de rotina nem segurança para liberar. O que se faz: rechecar ativamente os critérios de infarto espontâneo (ela tem sintoma de isquemia e tem injúria miocárdica, com um valor acima do percentil 99 — falta integrar evolução pelo ensaio e intervalo, sem delta universal de 20%, além de evidências de isquemia); solicitar terceira dosagem de troponina; repetir o eletrocardiograma procurando alteração dinâmica, que nela vale ouro porque o traçado basal já é alterado; fazer ecocardiograma procurando alteração segmentar nova; e manter a busca ativa de diferencial, lembrando que troponina elevada define injúria e não mecanismo — sepse, insuficiência cardíaca descompensada, taquiarritmia e doença renal crônica são causas comuns nessa faixa etária. O HEART de 5 (4 mais 1 pela troponina entre 1 e 3 vezes o limite superior) a coloca em risco médio, o que reforça a investigação adicional antes de qualquer decisão de alta. E se em algum momento ela apresentar dor recorrente, alteração dinâmica do segmento ST ou instabilidade, ela sai da rota diagnóstica e entra na de tratamento imediatamente. A zona de observação do algoritmo de troponina não determina, sozinha, o setor ou a necessidade de internação. O valor de 18 para 21 ng/L deve ser interpretado com o ensaio, a cronologia e a suspeita clínica, sem exigir uma variação universal acima de 20%. Persistência dos equivalentes isquêmicos, achados novos ou risco clínico justificam avaliação cardiológica e investigação adicional mesmo sem nova alteração de ECG.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

De 10 a 30% dos pacientes com síndrome coronariana aguda não apresentam dor torácica, e a concentração desse grupo é idoso e diabético. Por isso a diretriz brasileira de 2025 inclui como critério adicional de abertura do protocolo os equivalentes isquêmicos (dispneia, diaforese, hipotensão) em pacientes acima de 50 anos ou com diabetes ou doença cardiovascular conhecida. O eletrocardiograma tem que sair e ser interpretado em até 10 minutos, e a avaliação clínica detalhada corre em paralelo, sem atrasar o exame. Esperar anamnese completa para decidir é exatamente o mecanismo de atraso identificado nos estudos de tempo porta-eletrocardiograma, e esse atraso é mais frequente justamente em mulheres, diabéticos e em quem não relata dor no peito como queixa principal.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Refaça o caso com hs-cTnT de 9 para 11 ng/L e explique por que o descarte de infarto não transforma uma história fortemente isquêmica em baixo risco. Recalcule o Wells da mulher com FC 104 e embolia mais provável.

Em 30 dias

Conduza uma dor torácica com ECG inicial normal: escolha a primeira ação, os exames seriados e o destino. Depois repita o raciocínio se surgirem hipotensão, assimetria de pulsos ou alterações dinâmicas do ECG.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 58 anos chega ao pronto-socorro com desconforto torácico iniciado há duas horas, ainda presente, com sudorese. Você tem o eletrocardiograma, a troponina do seu serviço e o relógio. Conduza da porta ao destino — e diga em voz alta, para o paciente, o que você sabe e o que ainda não sabe.