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Cirurgia GeralTrauma

Trauma torácico com risco iminente de morte

Distinguir obstrução circulatória, hemorragia e falha respiratória e tratar ameaças torácicas com reavaliação imediata e apoio da equipe.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018, aprovada em 30 de setembro de 2018

Conselho Federal de Enfermagem. Resolução COFEN nº 723, de 10 de agosto de 2023, que normatiza a atuação do enfermeiro na execução do procedimento de descompressão torácica por agulha e outros procedimentos, em pacientes com agravos torácicos em risco de morte, no atendimento pré-hospitalar móvel. Publicada no Diário Oficial da União nº 155, de 15 de agosto de 2023, Seção 1, página 180

Góes Junior AMO, Parreira JG, Kleinsorge GHD, Dalio MB, Alves PHF, Gomes FJSDV, Araujo WJB, Joviliano EE. Diretrizes brasileiras de diagnóstico e tratamento de lesões vasculares traumáticas. Jornal Vascular Brasileiro, volume 22, 2023

Ahmad SJS, Degiannis JR, Head M, et al. Meta-analysis of the optimal needle length and decompression site for tension pneumothorax and consensus recommendations on current ATLS and ETC guidelines. World Journal of Emergency Surgery, volume 20, artigo 39, 2025

01

Responda antes de ler

Você identificou pneumotórax hipertensivo à direita num homem de 38 anos, obeso, e realizou descompressão por agulha no 2º espaço intercostal direito na linha hemiclavicular com o único dispositivo da bandeja: um cateter sobre agulha 14G de 5 cm. Não houve escape de ar audível e, dois minutos depois, a pressão continua 70x46 mmHg com murmúrio ainda ausente à direita e hipertimpanismo mantido. Qual a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e três horas e dez. Homem, 27 anos, ferimento por arma branca em hemitórax esquerdo, trazido por viatura sem médico a bordo. Chega falando, sentado na maca, com a mão sobre um curativo pequeno na região anterior do tórax, um pouco abaixo do mamilo. Pressão 118 por 76, frequência cardíaca 104, saturação 95% em ar ambiente. Ele conta a briga inteira, com detalhes, e reclama que está com sede. Ninguém na sala está preocupado.

Quatro minutos depois ele para de falar no meio da frase. Não desmaia: fica quieto, olhando para o teto, e começa a respirar rápido e raso. A pressão agora é 78 por 62. A frequência cardíaca é 136. Alguém diz "está sangrando" e abre o soro. Você é o interno, está do lado esquerdo da maca, e é a pessoa mais perto do pescoço dele. As jugulares estão cheias.

Daqui saem três caminhos, e eles se parecem tanto nos primeiros dez segundos que a sala inteira vai discutir. Se for pneumotórax hipertensivo, uma agulha resolve agora, e é o único desses procedimentos que você pode fazer sozinho enquanto o cirurgião vem. Se for tamponamento cardíaco, a mesma agulha no mesmo lugar não faz nada além de furar um pulmão — o que resolve é o centro cirúrgico, e o telefone é a intervenção. Se for hemotórax maciço, o tratamento é um dreno grosso e sangue, e abrir o tórax de alguém sem ter sangue reservado é trocar um problema por outro pior.

O que separa os três não é exame de imagem. É onde estão as jugulares, o que a percussão devolve e se o murmúrio sumiu de um lado. Tudo isso leva vinte segundos e nenhum equipamento. A tomografia que decidiria com certeza fica a sessenta metros dali, no fim de um corredor sem monitor, sem equipe e sem sangue — e esse paciente não tem sessenta metros de reserva.

03

Quem adoece disso

Trauma torácico é volume, não raridade: chega quase todo plantão de porta aberta no Brasil, e o perfil é o mesmo do trauma em geral — homem jovem, motocicleta ou violência interpessoal. Em Itajaí, 119 vítimas atendidas em doze meses tinham 70,5% de homens, idade média de 39,98 anos e acidente de motocicleta como causa isolada mais comum, com 35,2%. Em Aracaju, 100 politraumatizados com lesão torácica atendidos em onze meses tinham 85% de homens e idade média de 39,3 anos. Se o seu plantão é de pronto-socorro de adulto, este capítulo descreve o paciente da semana, não o caso raro do semestre.

O que muda de um serviço para outro é o mecanismo, e ele muda muito. Em Itajaí, 89% dos traumas eram contusos e apenas 10,9% penetrantes. Em Aracaju, no mesmo país e na mesma década, foram 54% contusos contra 46% penetrantes, com arma branca em 26% e arma de fogo em 21%. Essa diferença não é curiosidade estatística: ferimento penetrante em precórdio é a origem clássica do tamponamento, e trauma contuso de alta energia é a origem clássica do tórax instável e da contusão pulmonar. A pré-probabilidade das três lesões deste capítulo depende de onde você está de plantão, e vale saber qual é o perfil do seu serviço antes de o primeiro paciente entrar.

A segunda informação que reorganiza a expectativa é o quanto disso se resolve sem cirurgia. Cerca de 80% das vítimas de trauma torácico são tratadas apenas com drenagem pleural fechada, analgesia e fisioterapia respiratória; a toracotomia fica entre 10% e 20%. As duas séries brasileiras confirmam: em Itajaí, 53,8% receberam tratamento conservador, 33 pacientes foram drenados e apenas 2 foram à toracotomia; em Aracaju, 31% conservador, 59% drenados e 10% operados. A mortalidade em Itajaí foi de 5%. Ou seja: a imensa maioria do trauma de tórax é doença de tubo e analgesia — e é justamente por isso que a minoria que mata precisa ser reconhecida em segundos. Ela não se destaca sozinha num serviço acostumado a drenar e mandar para a enfermaria.

Por fim, a lesão mais banal do tórax é também um marcador de gravidade que quase ninguém trata como tal. Fratura de costela é o achado mais frequente do trauma torácico, com 42% em Itajaí e 49% em Aracaju. Mas pacientes com seis ou mais arcos costais fraturados morrem três vezes mais nas primeiras 24 horas de admissão do que pacientes com uma costela só. Contar costelas na radiografia, portanto, não é preciosismo radiológico: é estratificação de risco feita com o exame que já está na sua mão.

04

Por que acontece o que acontece

As lesões torácicas ameaçam a vida por mecanismos diferentes e podem coexistir. Pneumotórax hipertensivo e tamponamento comprometem o enchimento cardíaco e podem causar choque obstrutivo. Hemotórax maciço provoca perda sanguínea e também limita a ventilação. No tórax instável, dor, alteração da mecânica e contusão pulmonar favorecem hipoventilação e hipoxemia; não é o mesmo mecanismo de redução do retorno venoso. Compreender a diferença ajuda a escolher a intervenção e perceber quando uma só não resolveu tudo.

No pneumotórax hipertensivo, o acúmulo de ar sob pressão prejudica ventilação e retorno venoso. Hipoxemia e deterioração respiratória podem preceder hipotensão evidente; hipovolemia pode ocultar turgência jugular. Critérios de protocolos antigos que exigem choque descompensado são restritivos demais como regra clínica geral. A ameaça é reconhecida pelo conjunto e pela trajetória, sem depender da tríade completa ou de imagem antes da descompressão.

No tamponamento cardíaco, o mesmo pinçamento acontece um andar para dentro. O pericárdio é uma bolsa fibrosa pouco complacente na fase aguda; sangue acumulado ali eleva a pressão intrapericárdica e impede o enchimento diastólico das câmaras de parede fina, que são o átrio e o ventrículo direitos. Como o ventrículo não enche, o débito cai, e cai progressivamente, conforme mais sangue entra no saco. O detalhe que decide a conduta é anatômico e simples: a pressão que está esmagando o coração está dentro do pericárdio. Uma agulha no espaço pleural não a alcança. Você pode descomprimir um tórax perfeito e o paciente continuar exatamente igual — não porque a técnica falhou, mas porque a pressão não estava ali.

No tórax instável, o mecanismo que dá nome à lesão é o menos importante dos três. Dois ou mais arcos costais adjacentes fraturados em pelo menos dois pontos cada — três ou mais, em outras réguas — produzem um segmento de parede desconectado do resto, que se move ao contrário: afunda na inspiração e abaula na expiração. O movimento paradoxal é chamativo, mas é sinal tardio, muitas vezes percebido antes pela palpação do gradil do que pelo olho. O que mata embaixo daquele segmento é a contusão pulmonar: hemorragia e edema alveolar no parênquima que recebeu a energia, com queda da complacência e hipoxemia progressiva. E ela tem tempo próprio — a insuficiência respiratória da contusão costuma ser manifestação tardia e pode aparecer ao longo das primeiras 24 horas. Traduzindo: o paciente com tórax instável que está bem agora não está tratado, está no começo.

Duas consequências terapêuticas caem direto desse mecanismo, e as duas são contraintuitivas. A primeira: não se estabiliza o segmento afundado. Enfaixamento, bandagem, atadura circundando o tórax ou peso sobre o retalho reduzem a capacidade vital, favorecem atelectasia e pioram a mecânica respiratória — os protocolos brasileiros proíbem a manobra por escrito. A segunda: volume em excesso piora o quadro. O pulmão contundido é um pulmão com a barreira alvéolo-capilar rompida; cada litro a mais de cristaloide encontra ali um lugar fácil para extravasar, e a reposição no tórax instável só se justifica diante de sinais de choque.

O terceiro personagem do capítulo não é uma lesão, é uma intervenção: a ventilação com pressão positiva. Ela é o que você faz quando o paciente não ventila — e é também o que transforma um pneumotórax simples em hipertensivo, porque a bolsa-valva-máscara e o ventilador empurram ar para dentro em vez de deixá-lo ser aspirado, e cada ciclo acrescenta volume a um espaço pleural que já não devolve o que recebe. Os protocolos registram a advertência em três lugares — pneumotórax simples, pneumotórax aberto e tórax instável. A consequência prática: todo paciente que você começou a ventilar ou a intubar acabou de ganhar um novo diagnóstico diferencial para qualquer deterioração dos minutos seguintes.

Falta o sinal em que todo mundo confia e que engana com frequência. A turgência jugular do pneumotórax hipertensivo e do tamponamento existe porque o sangue represa antes do coração. Ela depende, portanto, de haver sangue para represar. No paciente que também está hipovolêmico — e no trauma isso é a regra, não a exceção —, as jugulares podem estar planas com a pressão intratorácica ou intrapericárdica nas alturas. A diretriz estadual capixaba diz isso explicitamente para os dois diagnósticos, e o protocolo pré-hospitalar lista turgência e desvio de traqueia como sinais tardios do pneumotórax hipertensivo. Some as duas informações e você tem a regra operacional do capítulo: a ausência do sinal tardio não afasta nada, e quem espera a tríade completa está esperando o pior momento possível para agir.

Ilustração anatômica comparativa de ar sob pressão no espaço pleural e de líquido no espaço pericárdico.
Dois compartimentos, dois mecanismos de choque obstrutivo: o pneumotórax hipertensivo compromete a mecânica torácica e o retorno venoso; o tamponamento limita o enchimento cardíaco pelo aumento da pressão pericárdica. A ilustração é esquemática e não corresponde a uma tomografia nem pressupõe que todos os sinais clássicos estejam presentes.
05

Como se apresenta de verdade

As três lesões deste capítulo compartilham a mesma vitrine — trauma de tórax, taquipneia, choque — e o que as separa cabe em quatro achados de exame físico. As formas abaixo são as que mais atrasam a decisão, e as duas primeiras são as que fazem o interno tratar a lesão certa no paciente errado.

Os dois choques obstrutivos, lado a lado

O pneumotórax hipertensivo se apresenta como choque descompensado em quem sofreu trauma torácico, com murmúrio vesicular diminuído ou ausente de um lado e timpanismo aumentado à percussão desse mesmo lado. Esses dois são os sinais precoces. Turgência jugular e desvio de traqueia para o lado contralateral aparecem depois, e o próprio protocolo os classifica como tardios. Some ainda taquipneia, respiração superficial, dor torácica, hipóxia e cianose. O que fecha o diagnóstico não é a lista inteira: é choque mais assimetria de ausculta num tórax traumatizado. Esse é um padrão possível, não uma lista obrigatória: deterioração respiratória pode surgir antes de choque descompensado, e sinais clássicos podem faltar.

O tamponamento cardíaco se apresenta como choque que piora progressivamente em quem sofreu trauma torácico penetrante — mais comum — ou fechado, com turgência jugular, abafamento de bulhas e hipotensão, que juntos formam a tríade de Beck. Acrescente o pulso paradoxal, definido como queda da pressão sistólica acima de 10 mmHg durante a inspiração, com o pulso radial diminuindo ou desaparecendo nesse momento; pressão de pulso reduzida; e baixa voltagem no eletrocardiograma. O achado que decide contra o pneumotórax está na ausculta e na percussão: no tamponamento, o murmúrio é presente e simétrico e a percussão é normal. O protocolo pré-hospitalar oferece um atalho mental que vale decorar inteiro — sinais clínicos de choque na ausência de hipovolemia e de pneumotórax hipertensivo sugerem tamponamento cardíaco.

O terceiro do grupo é o hemotórax maciço, e ele engana pelo lado oposto: também dá choque com murmúrio abolido de um lado, mas a percussão devolve macicez, não timpanismo. É a diferença entre ar e sangue no mesmo espaço, e ela é acessível com os dedos em três segundos. Vale saber o tamanho do continente: cada espaço pleural acomoda de 2.500 a 3.000 mL de sangue — mais da metade da volemia de um adulto de 70 kg, que gira em torno de 4,9 litros. Um hemitórax sozinho, portanto, comporta um choque classe IV inteiro sem que uma gota apareça por fora.

O paciente que você acabou de intubar

Este é o cenário em que a descompressão por agulha mais é feita sem indicação, e o mecanismo do engano é banal. A cânula de intubação migra — durante o transporte, na transferência de maca, na rotação em bloco — e o destino habitual é o brônquio principal direito. O pulmão esquerdo deixa de ser ventilado, e o resultado é murmúrio reduzido à esquerda com expansão assimétrica: exatamente o quadro de um pneumotórax hipertensivo à esquerda. Se o paciente também estiver hipotenso pela sedação ou pela hipovolemia, o critério parece preenchido.

O protocolo de punção do SAMU trata essa confusão como passo obrigatório: no paciente já intubado, é fundamental avaliar por ausculta o posicionamento da cânula antes de descomprimir qualquer tórax. A correção, quando é isso, custa recuar o tubo dois centímetros e reauscultar. O custo do erro é um cateter de 14G atravessando a 90° a parede de um tórax que não precisava, com risco descrito de lesar pulmão, coração ou grandes vasos.

O mesmo paciente carrega o risco inverso, e ele é real. Iniciar ventilação com pressão positiva em quem tem pneumotórax simples é o gatilho clássico para tensionar. A regra, então, é dupla e não se contradiz: no paciente que acabou de ser intubado e deteriorou, cheque o tubo primeiro — e, se o tubo está no lugar e o quadro é de choque com hemitórax silencioso e timpânico, descomprima sem esperar imagem.

O idoso com fratura de costela, que parece o mais leve

Ele chega andando, depois de uma queda em casa ou de uma colisão de baixa energia, com dor localizada num ponto do gradil e radiografia mostrando uma ou duas costelas fraturadas. Ninguém interna. Ele volta em dois dias com pneumonia, e a pneumonia é a via final da dor: quem não consegue inspirar fundo nem tossir não mobiliza secreção, faz atelectasia, e infecta.

Três dados mudam esse plantão. Primeiro, a contagem importa mais que a presença: seis ou mais arcos costais fraturados triplicam a mortalidade nas primeiras 24 horas em relação a uma costela só. Segundo, idade e gravidade do trauma são fatores de risco para pneumonia e para morte em quem tem fratura de costela ou tórax instável — o mesmo número de costelas pesa diferente aos 30 e aos 78 anos. Terceiro, a radiografia simples subestima: há casos descritos em que ela mostrou uma fratura e a tomografia mostrou oito, e casos em que a radiografia foi lida como normal e a tomografia mostrou dez fraturas somando os dois lados.

A régua de internação da diretriz estadual é generosa de propósito: internar diante de três ou mais costelas fraturadas, de fratura da primeira ou da segunda costela, de lesão grave ou complicação associada, e nos casos de comorbidade importante, especialmente em idosos — com observação em terapia intensiva para múltiplas fraturas, sobretudo bilaterais, com comorbidade grave. Fratura da primeira ou da segunda costela obriga ainda a procurar lesão vascular ou neurológica associada, porque a energia necessária para quebrá-las é alta o bastante para ter feito outra coisa no caminho.

O que chega estável e vira em quatro minutos

O ferimento penetrante pequeno em tórax anterior é a apresentação que mais mata por subestimação, e o rapaz da cena é o exemplo: orifício do tamanho de uma moeda, paciente conversando, sinais vitais razoáveis, e um intervalo de minutos a horas até a descompensação — porque o sangue que enche o pericárdio ou o espaço pleural leva tempo para chegar ao volume que importa. Duas coisas transformam esse paciente. A primeira é a topografia: zona precordial e transição toracoabdominal mudam o que se procura, e ferimento que pode ter cruzado o mediastino é indicação de investigação mesmo em assintomático. A segunda é reavaliação de verdade — quem entra estável com ferimento penetrante de tórax não pode ser deixado numa maca de corredor com o rótulo de estável colado.

Existe também o oposto, e ele merece nome: o paciente cuja instabilidade tem duas causas somadas. Choque hipovolêmico associado apaga a turgência jugular do tamponamento e do pneumotórax hipertensivo, e apaga também o pulso paradoxal e o sinal de Kussmaul. É o pior cenário diagnóstico possível — uma lesão que se identifica por sinais de congestão venosa, num paciente sem sangue suficiente para congestionar nada. Nele, o que resta é a assimetria da ausculta, a percussão, o mecanismo e a resposta ao volume.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui o exame de imagem é o inimigo, e a frase precisa de precisão para não virar bravata. Ela não significa que radiografia e tomografia não servem no trauma de tórax — servem, e muito. Significa que, para as três lesões que matam nos primeiros minutos, o exame que faz o diagnóstico já está na sua mão, e qualquer coisa que atrase o gesto seguinte troca informação por tempo num paciente que só tem tempo.

A diretriz estadual capixaba escreve isso sem rodeios para o pneumotórax hipertensivo: o diagnóstico deve ser estabelecido de imediato pela história, pelo mecanismo e pelo exame clínico, e o tratamento deve ser imediato, sem esperar pela confirmação radiológica. O capítulo brasileiro de pneumotórax repete a régua em outras palavras — o quadro deve ser reconhecido clinicamente, sem que se permita atraso por exame complementar. Duas fontes independentes dizendo a mesma coisa não é redundância editorial: é o quanto essa regra é violada na prática.

Os vinte segundos que decidem, e a ordem deles

Exponha o tórax inteiro e olhe o pescoço antes de encostar. Sem a roupa fora, ferimento pequeno em dorso, em axila e em região lateral baixa some debaixo de uma camiseta cortada pela metade. Jugulares cheias apontam para os dois choques obstrutivos; jugulares planas não afastam nada, porque hipovolemia associada as esvazia, e desvio de traqueia é sinal tardio cuja ausência não vale como argumento.

Ausculte os dois hemitórax nas mesmas alturas e percuta o lado silencioso. A primeira pergunta é binária — simétrico ou não? Murmúrio abolido de um lado põe pneumotórax hipertensivo, hemotórax maciço e intubação seletiva na mesa e tira o tamponamento dela, porque ali os pulmões estão intactos. A segunda pergunta é a percussão: timpanismo é ar, macicez é sangue, e são três segundos com dois dedos. Os protocolos descrevem o timpanismo do hipertensivo como aumentado, porém de difícil detecção numa sala barulhenta — então percuta comparando lados, não procurando um som absoluto.

Ausculte o precórdio, cheque o pulso durante a inspiração e palpe o gradil dos dois lados. Bulhas abafadas com murmúrio pulmonar normal e simétrico apontam para o pericárdio, e o pulso paradoxal é aferível sem equipamento: dedo no radial, inspiração profunda, ou a curva do oxímetro — o pulso que some ou enfraquece na inspiração corresponde à queda acima de 10 mmHg na sistólica. Na palpação, procure crepitação óssea, enfisema subcutâneo e um segmento que se mova ao contrário do resto sob os seus dedos, que costuma ser sentido antes de ser visto.

A radiografia de tórax: o que ela responde e onde ela chega tarde

A radiografia de tórax em ântero-posterior feita na própria sala de emergência é o exame inicial do hemotórax e do pneumotórax, e responde a um punhado de perguntas em trinta segundos: há ar, há líquido, o mediastino está alargado, o segmento afundado tem quantos arcos, e a cânula de intubação está onde deveria. É barata, universal e não exige transportar ninguém. Nada disso a torna o exame do pneumotórax hipertensivo — porque ali o problema não é obter a imagem, é o tempo entre pedir e ler enquanto a pressão cai.

Também vale conhecer o limite dela no gradil costal: a radiografia simples não é confiável para contar fraturas de arcos. Há relatos de caso em que ela mostrou uma fratura do 8º arco e a tomografia mostrou do 2º ao 9º, e em que radiografias lidas como normais correspondiam a seis fraturas à direita e quatro à esquerda. Como a contagem estratifica risco, uma radiografia normal no paciente com dor e mecanismo compatível não encerra a discussão.

No tamponamento, a radiografia é quase inútil na fase aguda, por um motivo de física: o pericárdio pouco complacente permite que uma quantidade pequena de sangue eleve muito a pressão, e essa quantidade não alarga silhueta nenhuma. O que a radiografia mostra é a companhia — fratura de esterno, sinal de impacto anterior de alta energia. E companhia importa: entre os que fraturam o esterno, 8% têm contusão cardíaca, 4% têm trauma de aorta torácica e 2,4% têm laceração cardíaca.

O ultrassom, que é o exame de imagem que cabe na sala

A janela subxifoide é a que muda a noite no tamponamento: ela olha o saco pericárdico e responde se há líquido ali. É o mesmo transdutor e a mesma janela que a avaliação do politraumatizado já usa, e por isso o exame não custa deslocamento, nem tempo, nem equipe. Na contusão cardíaca, a diretriz estadual vai além e coloca a ultrassonografia com Doppler como o procedimento diagnóstico de escolha.

Duas travas de leitura evitam o uso errado. A primeira: o exame vale muito quando é positivo e vale pouco quando é negativo — derrame pequeno, janela ruim, paciente obeso, enfisema subcutâneo e ar entre o transdutor e o alvo produzem exames não conclusivos, e não conclusivo não é normal. A segunda: se o quadro clínico é de tamponamento e a máquina não está do seu lado, o exame não é pré-requisito para chamar o cirurgião. Esperar o ultrassonografista é a versão silenciosa de esperar a radiografia.

O ultrassom também tem lugar reconhecido no pneumotórax, e o reconhecimento é normativo: a resolução federal que regula a descompressão por agulha no atendimento pré-hospitalar permite expressamente o uso da ultrassonografia na identificação do agravo torácico, associada aos sinais e sintomas, antes da execução do procedimento. Associada — a palavra está lá. A imagem soma-se à clínica; ela não substitui o critério nem justifica esperar.

Mapa torácico frontal com o segundo espaço intercostal na linha medioclavicular e a região do quarto ao quinto espaço nas linhas axilares anterior ou média.
Os sítios de descompressão precisam ser localizados por espaços intercostais e linhas anatômicas, conforme técnica, dispositivo e protocolo da equipe. O mamilo é uma referência variável. A entrada junto à borda superior da costela inferior ao espaço escolhido reduz o risco de atingir o feixe neurovascular principal; a eficácia da descompressão deve ser reavaliada.

A tomografia, e o corredor que ninguém conta

A tomografia é o melhor exame do tórax traumatizado e o pior pedido possível nas três situações deste capítulo. Ela vê contusão que a radiografia não vê, conta cada fratura, encontra hemotórax oculto e avalia o mediastino — e nada disso acontece dentro da sala de emergência. O paciente sai do monitor, sai de perto do carrinho e do sangue, e passa entre quatro e vinte minutos num lugar onde a equipe não cabe. Enquanto isso, o retorno venoso pinçado continua pinçado, o hemotórax que drena 300 mL por hora perde 900 mL em três horas — cerca de 18% da volemia — sem que ninguém meça, e o tamponamento piora por definição, porque o sangue continua entrando no saco enquanto a tomografia roda.

O critério de entrada da tomografia no trauma de tórax é, portanto, o mesmo do resto do politraumatizado: estabilidade hemodinâmica que se sustenta. Fora disso, ela é o exame certo para as perguntas do dia seguinte — quantos arcos, qual a extensão da contusão, há hemotórax retido, há lesão de aorta —, e para o rastreio do paciente assintomático com mecanismo de alto risco. A diretriz brasileira de lesões vasculares traumáticas é explícita quanto a esse último grupo: ferimento penetrante que cruza o mediastino e trauma fechado com desaceleração significativa ou fraturas de arcos costais merecem investigação por imagem mesmo sem sintoma.

O que separa uma da outra, e o exame que exclui cada uma

O diferencial deste capítulo não é uma lista de doenças parecidas: é uma sequência de perguntas cujas respostas se excluem. Pergunta 1 — o murmúrio está simétrico? Se está, o tórax não é o problema mecânico, e o tamponamento sobe na lista. Pergunta 2 — o lado silencioso é timpânico ou maciço? Timpânico é ar sob tensão; maciço é sangue. Pergunta 3 — o paciente está intubado? Se está, o tubo é o primeiro suspeito, e a ausculta que confirma ou afasta leva dez segundos. Pergunta 4 — o choque responde ao volume? Tamponamento e hipertensivo melhoram pouco e transitoriamente; hemotórax responde e volta a cair, porque o sangue continua saindo.

Duas armadilhas de exclusão fecham o bloco. A primeira: troponina não é exame de triagem de trauma cardíaco — a diretriz capixaba registra baixa sensibilidade nesse cenário, embora valores normais com eletrocardiograma normal tenham alto valor preditivo negativo. A segunda: eletrocardiograma normal não afasta tamponamento; a baixa voltagem soma quando aparece, e a atividade elétrica sem pulso é o extremo do espectro, não o começo dele.

O que existe no SUS, e o que muda quando não existe

As três coisas de que este capítulo mais depende são baratas e existem em qualquer porta de urgência do país: um estetoscópio, um cateter sobre agulha calibroso e comprido, e um kit de drenagem torácica com selo d'água. Faltar cateter longo é falha de reposição de material, não limitação de serviço — e é uma falha que o interno confere no começo do plantão, junto com onde fica o kit de dreno e quem, naquele turno, drena. Onde não há tomógrafo, a decisão do paciente instável não muda em nada, porque ele não iria de qualquer forma; onde não há cirurgião nem centro cirúrgico, o exame que decide o destino é o telefone da regulação.

Há um recurso que muda de valor quando o serviço é pequeno, e é o sangue. Drenar um hemotórax maciço num hospital sem estoque transforma um sangramento contido pelo próprio hemitórax em sangramento pelo dreno — o volume sai, a pressão intrapleural que fazia alguma contenção desaparece, e não há o que repor. Isso não é motivo para não drenar; é motivo para acionar a agência transfusional e a regulação antes de pôr o dreno, e para ter o cirurgião ciente de que o dreno abre a decisão de operar. Reposição de hemocomponente e protocolo de transfusão maciça são assunto do capítulo de choque hemorrágico no trauma; o que pertence a este é a ordem dos telefonemas.

07

Reconhecer em vinte segundos, agir em dois minutos

Escolha a intervenção pelo mecanismo e pela condição do paciente, com atuação de equipe habilitada. Sinais clássicos e ausculta ajudam, mas não formam listas obrigatórias para reconhecer uma ameaça.

  1. 1Expor e examinar rapidamente tórax e sítios de ferimento enquanto mantém suporte e controle de hemorragia.
  2. 2Suspeitar de pneumotórax hipertensivo diante de comprometimento respiratório ou circulatório compatível; não esperar choque descompensado, desvio de traqueia ou radiografia.
  3. 3Descomprimir por profissional habilitado conforme técnica do serviço e organizar drenagem definitiva; o interno aciona e auxilia sob supervisão.
  4. 4Suspeita de tamponamento traumático exige equipe cirúrgica e tratamento definitivo urgente, com medidas de suporte e ultrassom focado quando não atrasar.
  5. 5Hemotórax importante: sangue, drenagem e controle cirúrgico em paralelo; medir débito e avaliar resposta, sem depender exclusivamente de números do dreno.
  6. 6Tórax instável/contusão: analgesia, higiene pulmonar, oxigenação e suporte ventilatório conforme necessidade; não comprimir externamente o segmento.
  7. 7Reavaliar imediatamente após cada gesto e diante de deterioração, incluindo posição do tubo, funcionamento do dreno e lesões associadas.

Cateter de 5 cm — falha prevista de 27%

É o comprimento mínimo que o protocolo pré-hospitalar brasileiro exige no material da punção. Mais de um quarto das tentativas não alcança a cavidade pleural — e a agulha que não chega devolve um paciente rotulado como 'não respondeu à descompressão'.

Cateter de 6 cm — falha prevista de 19%

Um centímetro a mais retira cerca de 8 pontos percentuais de falha. O ganho é grande justamente porque a barreira é anatômica: o que separa a ponta da pleura é tecido, e tecido se atravessa com comprimento.

Cateter de 7 cm — falha prevista de 11%

É o comprimento que a meta-análise mais recente recomenda por consenso. A partir daqui, o ganho por centímetro passa a competir com o risco de atingir o que está do outro lado.

Cateter de 8 cm — o mínimo da norma brasileira de 2023

É o comprimento mínimo exigido pela resolução federal que regula a punção no adulto. Ele quase zera a falha por comprimento insuficiente — e transfere o problema para o outro lado da parede: em sítio lateral à esquerda, agulha mais longa correlaciona-se com mais lesão iatrogênica.

AchadoPneumotórax hipertensivoTamponamento cardíacoHemotórax maciçoIntubação seletiva
Murmúrio vesiculardiminuído ou ausente de um ladopresente e simétricodiminuído ou ausente de um ladodiminuído à esquerda (tubo no brônquio direito)
Percussão do lado silenciosohipertimpanismo (precoce, de difícil detecção)normalmaciceznormal
Jugularestúrgidas — sinal TARDIO; planas se houver hipovolemia associadatúrgidas; planas se houver hipovolemia associadaplanas (o paciente está hipovolêmico)sem alteração atribuível
Bulhas cardíacasaudíveisabafadas; pulso paradoxal acima de 10 mmHg; baixa voltagem no ECGaudíveisaudíveis
Mecanismo mais típicocontuso ou penetrante; qualquer paciente sob ventilação com pressão positivapenetrante em precórdio (mais comum); também fechadopenetrante ou contuso de alta energiaqualquer paciente recém-intubado ou recém-transportado
A ação imediatadescompressão por agulha AGORA, sem radiografia; drenagem pleural na sequênciavolume rápido para ganhar tempo e cirurgião presente; pericardiocentese só como medida transitóriaacesso calibroso, sangue reservado, cirurgião presente e drenagem com medida do volumerecuar a cânula e reauscultar
O erro que mataesperar radiografia, ou esperar turgência e desvio de traqueiapuncionar o tórax achando que é pneumotórax e considerar o caso tratadodrenar sem sangue reservado e sem cirurgião cientepuncionar o tórax de quem só precisava do tubo dois centímetros atrás

Descompressão por agulha: as duas réguas brasileiras vigentes

ItemProtocolos SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida (2016)Resolução COFEN nº 723, de 2023
Local no adulto2º ou 3º espaço intercostal, linha hemiclavicular5º espaço intercostal, linha axilar anterior, ou entre a linha axilar média e a anterior
Local na criançanão diferencia2º espaço intercostal anterior, linha hemiclavicular
Cateter no adultocateter sobre agulha 14G, no mínimo 5 cmcateter sobre agulha de no mínimo 8 cm, preferencialmente 14G, aceitável 16G
Cateter na criançanão especifica18G a 20G
Ângulo e borda90° em relação à pele, pela borda superior da costela inferioracima do arco costal inferior, nas duas abordagens
O que os dois dizem igualconfirmar o lado por ausculta; assepsia; seringa acoplada; fixar o dispositivo; reavaliar o paciente depois; registrar data e horaprotocolo institucional escrito obrigatório; capacitação formal; a punção é medida temporária até a drenagem

Quando o hemotórax deixa de ser dreno e passa a ser toracotomia

RéguaVolume imediato à drenagemDrenagem mantidaIndependentemente do volume
Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018 (narrativa)acima de 1.000 a 1.500 mLacima de 300 mL/hora nas primeiras 3 horasvolumes menores que produzam alteração hemodinâmica
Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018 (quadro de recomendações)acima de 1.500 mLacima de 300 mL/hora nas primeiras 3 horaschoque hipovolêmico ou instabilidade com suspeita de lesão intratorácica grave
Diretrizes brasileiras de lesões vasculares traumáticas, 2023 (grau 1C)acima de 1.200 mL200 mL/hora persistentesinstabilidade hemodinâmica persistente após as medidas iniciais, incluindo o tratamento do pneumotórax hipertensivo

Fratura de costela e tórax instável: quem fica e quem vai para a terapia intensiva

SituaçãoConduta prevista nas diretrizes brasileiras lidas
Três ou mais costelas fraturadas, ou fratura da 1ª ou da 2ª costelaInternação — e, na 1ª ou 2ª costela, exame e estudos dirigidos para descartar lesão vascular ou neurológica associada, porque é marcador de alta energia
Fraturas de costelas inferiores, a partir da 8ªProcurar lesão abdominal associada
Múltiplas fraturas, sobretudo bilaterais, com comorbidade graveObservação em terapia intensiva
Tórax instável sem necessidade de intubaçãoMonitorização, estudos radiológicos e gasometria arterial; nunca estabilizar o segmento por enfaixamento ou compressão
Tórax instável com insuficiência respiratória e sem lesão que obrigue à intubaçãoVentilação mecânica não invasiva como alternativa à intubação
Contusão pulmonarInternação para todos, com medidas gerais, restrição de líquidos e fisioterapia respiratória; antibiótico profilático e corticoide não demonstraram eficácia

Os documentos brasileiros citados usam definições diferentes de tórax instável: o SAMU descreve dois ou mais arcos adjacentes fraturados em dois pontos; a diretriz capixaba, três ou mais arcos contíguos ou comprometimento condrocostal. Essa diferença não deve atrasar analgesia, oxigenação e vigilância da contusão pulmonar. A necessidade de suporte depende da função respiratória e das lesões associadas.

As barras dos cartões reproduzem um modelo de regressão da meta-análise de 2025. Ele estima redução de 7,76 pontos percentuais de falha por centímetro adicional de agulha, com R² de 0,317 e heterogeneidade entre os 51 estudos. Leia os valores como tendência do conjunto estudado, sem tratá-los como previsão individual de sucesso ou como critério isolado para escolher o dispositivo.

A diretriz capixaba apresenta formulações distintas sobre os biomarcadores no trauma cardíaco fechado. O ponto útil à decisão é evitar interpretar troponina isoladamente: o próprio documento descreve alto valor preditivo negativo quando troponina e eletrocardiograma são normais. Na suspeita de tamponamento, a avaliação clínica e o ultrassom focado orientam a abordagem urgente, sem aguardar biomarcadores.

A diretriz capixaba apresenta 1.000–1.500 mL na narrativa e mais de 1.500 mL no quadro de indicações de toracotomia. Use esses volumes como referências associadas à resposta hemodinâmica e ao débito persistente, conforme o fluxo. Instabilidade exige avaliação cirúrgica sem esperar um número específico.

Cada espaço pleural pode acomodar aproximadamente 2.500–3.000 mL de sangue. Em um adulto de 70 kg com volemia estimada em 4,9 L, isso equivale a cerca de 51%–61% do volume circulante. A ausência de sangramento externo não reduz a gravidade potencial do hemotórax.

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A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do rapaz da cena — 27 anos, ferimento por arma branca em hemitórax esquerdo, que entrou conversando e desabou em quatro minutos. Ela se abre em três ramos no minuto 2, porque é ali que o exame físico separa as três lesões. Cada marco traz a prescrição por extenso e a fonte que a sustenta.

O interno auxilia sob supervisão na exposição do tórax, avaliação respiratória, monitorização, oferta de oxigênio, obtenção de acesso e registro do débito do dreno. Deve comunicar imediatamente os achados e acionar a equipe diante de ameaça à vida. Descompressão, drenagem, pericardiocentese e toracotomia cabem ao profissional habilitado, conforme o fluxo e o protocolo do serviço.

  1. Minuto 0 — a porta, e os vinte segundos

    Ferimento penetrante de tórax entra na sala, não na fila, mesmo conversando. Corte a roupa inteira e olhe frente e dorso — orifício de saída em dorso e ferimento em axila são os que somem. Monitor, oxímetro, frequência respiratória contada no relógio, e então a sequência de vinte segundos: jugulares, traqueia, ausculta comparativa, percussão do lado silencioso, precórdio, pulso na inspiração, palpação do gradil. Nada disso pede material que a sala não tenha, e é isso que decide os próximos dez minutos.

    Prescrição
    • Oxigênio em alto fluxo por máscara facial para manter saturação de oxigênio igual ou acima de 94%, em todas as lesões torácicas deste capítulo (SAMU 192, protocolos AT9 a AT15)
    • Monitorização contínua de ritmo cardíaco, oximetria de pulso e pressão arterial, e monitorização cardíaca contínua sempre que houver suspeita de tamponamento ou de trauma cardíaco contuso (SAMU 192, protocolos AT12 e AT15)
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com coleta na mesma punção, incluindo tipagem sanguínea com prova cruzada (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • No ferimento torácico aberto com passagem de ar audível ou visível: curativo oclusivo estéril quadrado, largo o suficiente para cobrir as bordas, fixado em apenas TRÊS lados, produzindo válvula unidirecional — oclui na inspiração e deixa o ar sair na expiração (Resolução COFEN nº 723/2023; SAMU 192, protocolo AT11)
  2. Minuto 2 — ramo A: choque com hemitórax silencioso e timpânico

    Na suspeita clínica consistente de pneumotórax hipertensivo com comprometimento respiratório ou circulatório, a equipe habilitada descomprime imediatamente, sem aguardar radiografia ou choque descompensado. Escolha técnica, sítio e dispositivo conforme competência e protocolo do serviço, prepare drenagem definitiva e reavalie a resposta. Se a melhora não ocorrer, verificar falha da descompressão e outras lesões concomitantes.

    Prescrição
    • Confirmar o lado por ausculta e, se possível, orientar o paciente sobre o procedimento (SAMU 192, protocolo AP11)
    • Antissepsia com PVPI ou clorexidina e, se houver tempo, anestesia local — sem que nada disso atrase a punção em paciente descompensado (SAMU 192, protocolo AP11)
    • Cateter sobre agulha de grosso calibre, 14G, com o maior comprimento disponível na bandeja — no mínimo 5 cm pelo protocolo pré-hospitalar, e no mínimo 8 cm pela norma federal de 2023 para o adulto; 16G é aceitável se não houver 14G (SAMU 192, protocolo AP11; Resolução COFEN nº 723/2023)
    • No adulto: 5º espaço intercostal na linha axilar anterior, ou entre a linha axilar média e a anterior (Resolução COFEN nº 723/2023). Alternativa igualmente prevista em documento brasileiro vigente: 2º ou 3º espaço intercostal na linha hemiclavicular (SAMU 192, protocolo AP11)
    • Na criança: 2º espaço intercostal anterior na linha hemiclavicular, com cateter 18G a 20G (Resolução COFEN nº 723/2023)
    • Inserir a 90° em relação à pele, acoplado a uma seringa vazia ou com solução salina, pela borda SUPERIOR da costela inferior — o feixe vásculo-nervoso corre na borda inferior de cada costela. Ao entrar na cavidade, a seringa se enche de ar; não avançar além desse ponto (SAMU 192, protocolo AP11)
    • Retirar a agulha metálica, manter o cateter plástico no local, fixá-lo sem dobrar, reauscultar, reavaliar respiração, oxigenação e estado hemodinâmico, e registrar data, hora e tipo de dispositivo (SAMU 192, protocolo AP11)
  3. Minuto 5 — o que vem depois da agulha, e por que ela não é tratamento

    A punção converte um pneumotórax hipertensivo em um pneumotórax simples e devolve o retorno venoso. Ela não fecha o vazamento, não expande o pulmão e não dura: o cateter dobra, entope, sai da pele com o movimento da maca, e o quadro volta a tensionar — o protocolo alerta que a perda do cateter acarreta retorno do pneumotórax hipertensivo e necessidade de nova descompressão. Por isso a drenagem pleural, que é o tratamento definitivo, se providencia no mesmo fôlego em que a agulha entra.

    Prescrição
    • Drenagem pleural fechada em selo d'água como tratamento definitivo do pneumotórax hipertensivo e do pneumotórax aberto, que são emergências cirúrgicas imediatas (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Sítio de inserção do dreno: 5º espaço intercostal na linha axilar anterior — o mesmo ponto descrito para drenos finos no capítulo brasileiro de pneumotórax, e o mesmo sítio da punção quando ela foi feita lateralmente (Andrade Filho, Campos e Haddad, J Bras Pneumol, 2006)
    • Calibre pelo que tem de sair: no pneumotórax puro, dreno fino de 12F conectado a selo d'água ou a válvula unidirecional tipo Heimlich é suficiente; no hemotórax, o dreno tem de conduzir coágulo e permitir medir o débito, e portanto é calibroso e dirigido à base (Andrade Filho, Campos e Haddad, J Bras Pneumol, 2006; Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Cobertura antisséptica adequada na inserção do dreno e antibiótico profilático para prevenir empiema pleural (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Drenagem obrigatória, e não conservadora, em todo pneumotórax de paciente que vai receber ou já recebe ventilação com pressão positiva (Andrade Filho, Campos e Haddad, J Bras Pneumol, 2006)
    • Radiografia de tórax APÓS o procedimento, para confirmar posição do dreno e expansão pulmonar — aqui a imagem entra, porque a decisão que ela informa já não é a de tratar (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
  4. Minuto 2 — ramo B: choque com murmúrio simétrico e bulhas abafadas

    Aqui a agulha não é sua e o telefone é a intervenção: a solução definitiva do tamponamento é toracotomia ou esternotomia para exploração cardíaca. O que o interno faz enquanto isso tem efeito — volume rápido mantém algum enchimento das câmaras direitas contra a pressão do pericárdio e compra minutos. Chame pelo nome, diga o que viu com números e peça presença física, não opinião. E não considere o caso tratado por ter puncionado um tórax: se o murmúrio era simétrico e a percussão era normal, a agulha na pleura nunca teve chance de alcançar o problema.

    Prescrição
    • Reposição volêmica rápida com cristaloide, mantida durante todo o tempo até a cirurgia — é a conduta explícita do protocolo para o tamponamento, e a finalidade é ganhar tempo, não tratar (SAMU 192, protocolo AT15)
    • Acionamento imediato e presencial do cirurgião, e comunicação simultânea ao centro cirúrgico — a solução definitiva da lesão cardiopericárdica é a intervenção cirúrgica, e ela deve ser feita imediatamente quando a suspeita é forte (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Pericardiocentese apenas como medida transitória, indicada quando não há resposta às medidas de reanimação e a suspeita é alta, enquanto se aguarda a cirurgia; no ambiente pré-hospitalar, apenas com transporte prolongado, treinamento do profissional e material disponíveis (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018; SAMU 192, protocolo AT15)
    • Ultrassonografia à beira do leito com janela subxifoide, se disponível e sem deslocar o paciente — e sem transformar a sua ausência em motivo para não chamar (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Dobutamina reservada ao paciente hipovolêmico; fora dessa situação, pode agravar o tamponamento (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Toracotomia submamária de emergência na sala é reservada a quem chega com sinais vitais, para controlar a lesão e permitir manobras de reanimação até a transferência ao centro cirúrgico — indicação e execução do cirurgião, nunca do interno (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
  5. Minuto 2 — ramo C: choque com hemitórax silencioso e maciço

    Hemotórax com instabilidade exige ressuscitação com sangue, drenagem indicada e acionamento cirúrgico simultâneos. Preparar equipe, material e registro do débito não deve virar exigência de esperar o cirurgião chegar fisicamente antes de tratar uma ameaça imediata por operador habilitado. Avalie resposta e necessidade de hemostasia operatória; volume inicial ou débito horário são referências importantes, mas não substituem a fisiologia nem afastam sangramento se o dreno estiver obstruído.

    Prescrição
    • Acionar a agência transfusional antes de drenar, com tipagem já colhida — o dreno pode transformar um hemotórax contido em perda ativa mensurável (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Drenagem pleural fechada com dreno calibroso, com o volume inicial medido e registrado, e o débito horário anotado a partir daí (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Reposição volêmica conforme o protocolo de choque; hemocomponente e protocolo de transfusão maciça ficam no capítulo de choque hemorrágico no trauma (SAMU 192, protocolo AT4)
    • Indicação de toracotomia por volume, na régua estadual: sangramento inicial acima de 1.000 a 1.500 mL de imediato, ou drenagem contínua acima de 300 mL/hora nas primeiras três horas (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Indicação de toracotomia por volume, na régua das sociedades brasileiras, com grau de recomendação 1C: hemorragia pelo dreno acima de 1.200 mL, ou drenagem persistente de 200 mL/hora, ou instabilidade hemodinâmica que persiste após as medidas iniciais (Diretrizes brasileiras de lesões vasculares traumáticas, 2023)
    • Descompressão por agulha se houver suspeita de pneumotórax hipertensivo concomitante — hemotórax e pneumotórax coexistem com frequência, sobretudo no trauma penetrante (SAMU 192, protocolo AT13)
    • Videotoracoscopia precoce reservada ao hemotórax retido ou persistente em paciente hemodinamicamente estável, especialmente se a drenagem e a fibrinólise endopleural falharem (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
  6. Hora 0 a 24 — o tórax instável e o pulmão embaixo dele

    O tórax instável não tem gesto salvador. Tem três decisões que se tomam nas primeiras horas: oxigenar, tratar a dor de verdade e não afogar o pulmão contundido. A dor é o eixo, porque é ela que impede a inspiração profunda e a tosse, e da falta das duas vêm a atelectasia e a pneumonia. Nada de enfaixar, comprimir ou pôr peso sobre o segmento — a estabilização externa está proscrita nos protocolos brasileiros por reduzir a capacidade vital e piorar a mecânica. E a insuficiência respiratória da contusão pulmonar aparece tarde: pode surgir ao longo das primeiras 24 horas, num paciente que estava bem quando você o admitiu.

    Prescrição
    • Oxigênio em alto fluxo para manter saturação igual ou acima de 94%, com oximetria contínua (SAMU 192, protocolo AT9)
    • Analgesia sistêmica escalonada pela intensidade: dor leve, de 1 a 4, dipirona sódica 1 g por via endovenosa — 2 mL da solução de 500 mg/mL; dor intensa, de 8 a 10, sulfato de morfina 2 a 10 mg por via endovenosa para 70 kg de peso, em infusão lenta (SAMU 192, protocolo AC37)
    • Analgesia peridural torácica contínua com bupivacaína, superior à infusão intravenosa de opioides para o controle da dor em fratura costal múltipla ou bilateral, e a escolha preferencial nesse grupo quando o serviço dispõe do recurso (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018; Pereira e cols., Arq Bras Ciênc Saúde, 2010)
    • Fisioterapia respiratória para todos os pacientes com fratura costal, e incentivo explícito à inspiração profunda e à tosse apesar da dor, para prevenir atelectasia e pneumonia (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018; SAMU 192, protocolo AT8)
    • Restrição de líquidos na contusão pulmonar, e reposição volêmica no tórax instável apenas se houver sinais de choque — excesso de líquidos piora ventilação e oxigenação (SAMU 192, protocolos AT9 e AT14; Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • NÃO estabilizar o segmento torácico afundado por enfaixamento, bandagem, atadura circundando o tórax ou qualquer outro meio (SAMU 192, protocolos AT8 e AT9)
    • Ventilação mecânica não invasiva em modo CPAP como alternativa à intubação no paciente com tórax instável que desenvolve insuficiência respiratória e não tem lesão que obrigue à via aérea definitiva (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Ventilação mecânica invasiva, chamada de fixação interna, quando a não invasiva não sustenta ventilação e oxigenação — estabiliza a parede até a fibrose perilesional, que se desenvolve em cerca de três semanas (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Monitorização, estudos radiológicos e gasometria arterial em todo tórax instável que não foi intubado (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Antibiótico profilático e corticosteroide NÃO devem ser prescritos para a contusão pulmonar em si — nenhum dos dois demonstrou eficácia (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
  7. Dia 1 a 3 — a fase em que o paciente melhora ou faz pneumonia

    Passadas as primeiras horas, o trauma de tórax vira uma doença de dor e de secreção, e três alavancas seguram o desfecho: analgesia titulada para permitir inspiração profunda, fisioterapia respiratória de verdade e o dreno acompanhado de perto. O dreno cobra o seu preço — numa coorte brasileira de 68 traumatizados drenados, 26,5% tiveram complicação, com reposicionamento necessário em 11,8% e pneumonia em 7,4%, e a drenagem feita no ambiente pré-hospitalar teve risco nove vezes maior de complicação do que a feita no hospital.

    Prescrição
    • Reavaliação diária da dor por escala numérica, com titulação da analgesia pelo objetivo funcional — o alvo é o paciente conseguir inspirar fundo e tossir, não um número de escala (SAMU 192, protocolo AC37)
    • Fisioterapia respiratória diária, com incentivo à expansão pulmonar (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Débito do dreno anotado por turno; ausência de expansão pulmonar completa ou escape de ar mantido é indicação de avaliação cirúrgica, e o escape mantido com enfisema subcutâneo importante obriga a descartar ruptura de via aérea principal por broncoscopia (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Tomografia de tórax na avaliação do hemotórax retido, do hemotórax tardio e da definição de cirurgia nesses casos — é aqui que a tomografia é o exame certo (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Investigação de lesão abdominal associada quando houver fratura de costelas inferiores, a partir da 8ª (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
  8. Alta — e o que o paciente precisa levar escrito

    A alta do trauma de tórax leve não é um formulário: é um plano de dor. O paciente vai para casa com costelas quebradas doendo por semanas, e é a analgesia insuficiente que o traz de volta com pneumonia. Escreva o esquema, escreva os sinais de alarme, e escreva a data do retorno. Vale também lembrar que a fratura costal cicatriza sozinha — o que ele precisa é conseguir respirar fundo enquanto isso acontece.

    Prescrição
    • Analgesia escrita, em horário fixo e não apenas se dor, com dose e intervalo — analgésico simples de base e resgate previsto (SAMU 192, protocolo AC37)
    • Orientação escrita de exercícios de inspiração profunda e tosse, várias vezes ao dia, apesar da dor (SAMU 192, protocolo AT8)
    • Sinais de alarme escritos: falta de ar que piora, febre, dor que deixa de responder à medicação, escarro purulento, e qualquer novo desconforto respiratório súbito (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
    • Retorno agendado e, nos casos de dor residual persistente após trauma torácico, encaminhamento a unidade especializada em dor crônica (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
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Como saber se está funcionando

Neste capítulo, reavaliar tem uma função extra: ela é o teste diagnóstico. As três lesões se parecem no primeiro minuto e se separam pela resposta ao que você fez. O paciente que descomprimiu e melhorou tinha pneumotórax hipertensivo. O que descomprimiu e não mudou nada tem outra coisa, e a lista dessa outra coisa é curta.

Duas regras estruturais valem para tudo o que vem abaixo. A primeira: o protocolo de punção manda avaliar o paciente depois do procedimento — ausculta torácica, respiração, oxigenação e estado hemodinâmico. Não é formalidade, é o passo que fecha o raciocínio. A segunda: toda deterioração em paciente com o tórax traumatizado reabre a possibilidade de pneumotórax hipertensivo, sobretudo se alguma coisa mudou na ventilação nesse intervalo.

A resposta imediata à descompressão por agulhaNos primeiros 30 a 60 segundos após a punção, e de novo em 5 minutos

Esperado: Escape audível de ar ao remover a agulha metálica, pressão subindo, frequência cardíaca caindo, murmúrio voltando do lado puncionado, saturação melhorando. A melhora do choque obstrutivo é rápida porque o retorno venoso volta assim que a pressão cede.

Se não melhora: Três hipóteses, nesta ordem. A agulha não chegou — é a falha mais comum, e a meta-análise de 2025 estima que cerca de um terço das punções não atinge a cavidade pleural, com o comprimento do cateter como principal determinante; repita com o cateter mais longo disponível, ou no outro sítio. O diagnóstico estava errado, e a pressão nunca esteve na pleura — reausculte procurando murmúrio simétrico, reveja bulhas e jugulares, e pense em tamponamento. Ou há mais de uma lesão, e a que sobrou é hemorrágica. Em qualquer das três, o gesto seguinte não é uma quarta punção: é chamar.

O cateter que ficou no tóraxA cada reavaliação, obrigatoriamente antes e depois de qualquer deslocamento do paciente

Esperado: Cateter no lugar, fixo, sem dobras, com o paciente mantendo a melhora obtida. O protocolo é explícito quanto ao cuidado durante o transporte, para evitar a perda do dispositivo.

Se não melhora: Deterioração após uma descompressão que funcionou significa, até prova em contrário, que o alívio acabou: cateter dobrado, obstruído, deslocado ou retirado sem querer. O pneumotórax volta a tensionar e o quadro reaparece igual. Reavalie o sítio, reponha o dispositivo se necessário e cobre a drenagem pleural — a punção comprou minutos, e eles têm prazo de validade.

O débito do dreno de tórax, medido e com horaVolume inicial imediato após a drenagem, depois a cada hora nas primeiras três horas, e por turno a partir daí

Esperado: Volume inicial que estanca e débito horário que cai. De 80% a 90% dos hemotórax se resolvem apenas com o dreno, e esse é o desfecho mais provável.

Se não melhora: Volume inicial acima de 1.000 a 1.500 mL, ou drenagem contínua acima de 300 mL por hora nas primeiras três horas, é indicação de toracotomia pela régua estadual; acima de 1.200 mL de imediato, ou 200 mL por hora persistentes, pela régua das sociedades brasileiras. Faça a conta enquanto acompanha: 300 mL por hora durante três horas são 900 mL, cerca de 18% da volemia de um adulto, saindo por um tubo que ninguém está olhando. E lembre-se de que volumes menores com alteração hemodinâmica também indicam cirurgia — o número é um gatilho, o paciente é o outro.

A simetria do murmúrio depois de qualquer mudança na ventilaçãoObrigatoriamente após iniciar ventilação com pressão positiva, após intubar, após cada transporte e a cada deterioração

Esperado: Murmúrio simétrico e expansão simétrica. A ausculta comparativa custa vinte segundos e é o exame que denuncia as duas complicações que a ventilação produz.

Se não melhora: Murmúrio que sumiu de um lado depois de você começar a ventilar tem duas explicações e as duas exigem ação imediata: pneumotórax simples que virou hipertensivo — os protocolos advertem para isso no pneumotórax simples, no aberto e no tórax instável — ou cânula que migrou para o brônquio principal direito. A ordem de checagem no paciente intubado é a cânula primeiro, e é o próprio protocolo de punção que determina isso. No paciente não intubado, a ordem se inverte, porque não há cânula a checar.

A oxigenação nas primeiras 24 horas do tórax instávelOximetria contínua, gasometria arterial na admissão e repetida conforme a evolução, com reavaliação clínica pelo menos a cada 4 horas no primeiro dia

Esperado: Saturação mantida igual ou acima de 94% com oxigênio suplementar, esforço respiratório que não aumenta, paciente conseguindo inspirar fundo depois de analgesia adequada.

Se não melhora: Piora progressiva ao longo do primeiro dia é a contusão pulmonar declarando-se — ela é manifestação tardia e pode aparecer ao longo das primeiras 24 horas. A escalada tem ordem: revise a analgesia antes de tudo, porque muito do esforço é dor; some fisioterapia respiratória e limpeza da árvore traqueobrônquica; ofereça ventilação não invasiva em CPAP, que na diretriz estadual tem menos complicações e menos mortalidade que a invasiva no paciente estável; e reserve a intubação para quem não sustenta ventilação nem oxigenação com isso. Antes de escalar, reveja também se não há hidratação excessiva contribuindo — no pulmão contundido, o volume é combustível.

A dor, medida com escala e testada com a respiraçãoNa admissão, 30 minutos após cada dose analgésica e pelo menos a cada 4 a 6 horas na internação

Esperado: Dor que permite ao paciente inspirar profundamente e tossir. Esse é o desfecho que interessa; o número da escala é o meio, não o fim.

Se não melhora: Dor que persiste apesar de analgésico simples e opioide sistêmico em paciente com fratura costal múltipla ou bilateral é indicação de escalar para analgesia peridural torácica contínua, que se mostrou superior à infusão intravenosa de opiáceos nesse grupo. Dor que muda de caráter — que passa de localizada a difusa, ou que vem com febre e escarro — não é dor de costela: é complicação, e pede radiografia e reavaliação clínica.

A expansão pulmonar e o escape de ar, no paciente drenadoRadiografia após a drenagem e depois conforme a evolução; inspeção do selo d'água em cada passagem de plantão

Esperado: Pulmão expandido, escape de ar cessando ao longo dos primeiros dias, débito diminuindo.

Se não melhora: Falta de expansão pulmonar total ou escape de ar mantido tem indicação cirúrgica no pneumotórax traumático, e obriga a descartar ruptura de via aérea principal por broncoscopia quando vem com enfisema subcutâneo importante e insuficiência respiratória. Hemotórax que não drena por completo é hemotórax retido, e a videotoracoscopia precoce nesse cenário reduz dias de drenagem, internação e custo, além de prevenir o empiema. Febre com secreção nova e crepitantes localizados a partir do segundo dia é pneumonia — apareceu em 7,4% dos drenados numa coorte brasileira, e antes de tratá-la como infecção isolada vale refazer a pergunta de trás para frente: a dor está controlada, o paciente está tossindo, a fisioterapia aconteceu de verdade ou só foi prescrita?

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Onde o erro machuca

Pedir a imagem que confirmaria

O dano: É o erro que dá nome ao capítulo. O pneumotórax hipertensivo mata por retorno venoso pinçado, e o tempo entre o pedido e o laudo é tempo de débito cardíaco caindo. Levar esse paciente à tomografia é pior ainda: ele sai do monitor, sai de perto da equipe e sai de perto do sangue, e o corredor não tem nada para oferecer quando ele parar. A radiografia chega depois, e o laudo descreve com precisão o tórax de alguém que já morreu.

Como pegar a tempo: Duas fontes brasileiras independentes dizem a mesma frase: o diagnóstico é clínico e o tratamento é imediato, sem esperar confirmação radiológica. Faça a pergunta em voz alta antes de assinar qualquer pedido — o resultado deste exame muda o que eu vou fazer nos próximos cinco minutos? Se o paciente preenche o critério de descompressão, a resposta é não, porque a conduta já está definida. A imagem entra depois do procedimento, para conferir o resultado.

Esperar a tríade completa

O dano: Turgência jugular e desvio de traqueia são sinais TARDIOS do pneumotórax hipertensivo, e a própria turgência falta quando há hipovolemia associada — o que, no trauma, é o mais comum. Quem exige os três achados para agir está exigindo o pior momento fisiológico possível, e num subgrupo grande de pacientes está exigindo um sinal que nunca vai aparecer.

Como pegar a tempo: Reconhecer comprometimento respiratório ou circulatório compatível com pneumotórax hipertensivo, acionar operador habilitado e intervir sem esperar choque descompensado, desvio de traqueia ou radiografia.

Puncionar o tórax de quem tem tamponamento

O dano: Os dois choques obstrutivos se parecem no primeiro olhar, e a agulha é o gesto disponível. Mas no tamponamento a pressão está dentro do pericárdio: o cateter atravessa parede torácica e pulmão sadio sem tocar no problema. O dano é duplo. O direto é a lesão iatrogênica — o protocolo registra risco de lesar pulmão, coração e grandes vasos, e a meta-análise de 2025 encontrou correlação forte entre agulha mais longa e lesão nos sítios laterais à esquerda. O indireto é pior: a equipe considera a hipótese tratada e para de procurar a verdadeira.

Como pegar a tempo: Percuta e ausculte antes de puncionar, sempre, mesmo com pressa. Murmúrio simétrico e percussão normal tiram o pneumotórax da mesa. E, depois de qualquer punção, reavalie: o protocolo manda avaliar ausculta, respiração, oxigenação e hemodinâmica após o procedimento. Punção que não mudou nada é informação, não fracasso — ela devolve o diagnóstico à mesa em vez de encerrar a discussão.

Usar cateter curto e concluir que a descompressão falhou

O dano: O comprimento do cateter é o principal determinante de a agulha chegar ou não à cavidade pleural: cada centímetro a mais reduz a falha em cerca de 7,76 pontos percentuais, e a falha global de penetração é da ordem de um terço das tentativas. Um jelco comum de 5 cm num tórax de parede média falha com frequência — e o paciente que não melhora é então classificado como 'não respondeu', o que empurra a equipe para o diagnóstico errado e para o tratamento errado.

Como pegar a tempo: Confira a bandeja no começo do plantão, não no meio da emergência: existe cateter 14G longo, de 8 cm, no carrinho de trauma? A norma federal de 2023 exige no mínimo 8 cm no adulto, e trocar 5 cm por 8 cm remove cerca de 23 pontos percentuais de falha. Se só houver o curto, use-o — e saiba que uma punção sem melhora, nesse material, é mais provavelmente uma agulha que não chegou do que um diagnóstico errado. Repita com o dispositivo mais longo antes de descartar a hipótese.

Enfaixar o tórax instável

O dano: O gesto parece lógico — o segmento se move ao contrário, então estabilize. Só que enfaixamento, bandagem, atadura circundando o tórax ou peso sobre o retalho reduzem a capacidade vital, favorecem atelectasia e pioram a mecânica respiratória de um paciente que já tem contusão pulmonar embaixo. Os protocolos brasileiros proíbem a manobra por escrito, e a diretriz estadual registra que não há evidência suficiente para métodos de compressão torácica, que podem agravar a situação.

Como pegar a tempo: O tratamento do tórax instável é oxigênio, analgesia agressiva e limpeza da árvore traqueobrônquica — a estabilização, quando necessária, é feita por dentro, com ventilação. Se alguém na sala pedir uma atadura para o tórax, é hora de falar em voz alta: reduz capacidade vital e piora a ventilação. E, no lugar da faixa, ofereça o que funciona — analgesia adequada e um plano de fisioterapia respiratória escrito.

Drenar o hemotórax maciço antes de reservar sangue e chamar o cirurgião

O dano: Enquanto o sangue está no hemitórax, a própria pressão intrapleural faz alguma contenção. Ao abrir o dreno, o volume passa a sair, e a decisão seguinte — operar ou não — precisa ser tomada em minutos, com base no volume drenado. Sem sangue reservado nem cirurgião ciente, você produziu uma hemorragia mensurável num serviço que não pode responder a ela.

Como pegar a tempo: Inverta a ordem: agência transfusional avisada com a tipagem já colhida, cirurgião presente ou a caminho, e só então o dreno. Encarregue explicitamente alguém de medir o volume inicial e o débito horário, com hora anotada — é essa série que aciona a toracotomia. Dreno sem alguém medindo é a informação mais importante do caso indo pelo ralo.

Dar alta ao idoso com duas costelas quebradas e analgesia se dor

O dano: A dor impede inspiração profunda e tosse; sem elas vêm atelectasia e pneumonia, que é a via final de morte nesse grupo. Idade e gravidade do trauma somam-se como fatores de risco, e a radiografia simples ainda por cima subestima a contagem de arcos — que é o que estratifica o risco.

Como pegar a tempo: Use a régua de internação por escrito: três ou mais costelas, fratura da primeira ou da segunda costela, lesão grave ou complicação associada, comorbidade importante — especialmente em idoso. E quem vai para casa vai com analgesia em horário fixo, orientação escrita de inspiração profunda e tosse, sinais de alarme e retorno marcado, não com 'analgésico se dor'.

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O que dizer ao paciente e à família

Neste capítulo, a conversa mais importante não é com o paciente: é com a sala, e ela dura seis segundos. As falas abaixo são para dizer em voz alta, com número e sem pedido de desculpas.

Você reconheceu o critério e precisa anunciar antes de agir

Murmúrio abolido à direita, timpanismo à direita, pressão 76 por 50, frequência 138. Isso preenche critério de pneumotórax hipertensivo. Vou descomprimir agora, quinto espaço, linha axilar anterior direita. Achado, número, conclusão, gesto. Anunciar não é pedir permissão — é dar à sala a chance de discordar em três segundos e garantir que alguém registre a hora.

Não diga: "Será que não vale a pena tirar um raio-X antes, só pra ter certeza?" A frase parece prudente e é a mais perigosa do capítulo. Certeza radiológica em pneumotórax hipertensivo é certeza retrospectiva.

Você suspeita de tamponamento e ainda não tem o cirurgião

Preciso de você aqui agora, na sala de emergência. Homem de 27 anos, ferimento por arma branca em precórdio esquerdo há dez minutos. Pressão 78 por 62, frequência 136, jugulares túrgidas, bulhas abafadas, murmúrio simétrico e percussão normal nos dois lados. Estou repondo volume. Não é pneumotórax. Nome, mecanismo, o que está alterado, o que você já afastou e o pedido explícito de presença física.

Não diga: "Dá uma passada aqui quando puder." Pedido de ajuda sem urgência declarada vira fila, e no tamponamento a fila é a doença. Evite também passar o caso por mensagem escrita — texto não interrompe ninguém.

Você puncionou e o paciente não melhorou

Puncionei o hemitórax direito às 23h18, não houve escape de ar e a pressão não mudou. Ou a agulha não chegou, ou não é pneumotórax. Vou repetir com o cateter longo e reauscultar o precórdio. Dizer isso em voz alta é o que impede a sala inteira de riscar a hipótese e seguir adiante com o paciente errado.

Não diga: Ficar quieto por constrangimento. Punção que não funcionou não é um erro pessoal a ser escondido — é um dado clínico, e é o dado que mais rápido reabre o diagnóstico correto.

O paciente está acordado e você vai enfiar uma agulha no tórax dele

O ar está preso dentro do seu peito e está apertando o seu coração. Eu vou colocar uma agulha fina entre as suas costelas agora para tirar esse ar. Vai doer alguns segundos e a sua respiração deve melhorar logo em seguida. Fica o mais parado que conseguir, eu vou falando o que estou fazendo. Explicação curta, verdade sobre a dor e instrução concreta.

Não diga: Fazer em silêncio porque é rápido. O protocolo prevê orientar o paciente quando possível, e um paciente que entende o que vem se mexe menos — o que, numa punção a 90°, é segurança e não gentileza.

A família pergunta se ele vai precisar de cirurgia

Agora o problema dele é ar e sangue dentro do peito, e a primeira coisa é tirar isso com um tubo. A maioria dos casos como o dele resolve só com o tubo; uma parte precisa de cirurgia, e a gente vai saber isso nas próximas horas, pela quantidade que sair. Eu volto a falar com vocês em trinta minutos, mesmo sem novidade.

Não diga: Prometer que não vai precisar operar. A decisão depende de um volume que ainda não saiu, e uma promessa desfeita em uma hora destrói a confiança justamente na conversa seguinte, que costuma ser pior.

Você é o interno, viu algo, e quem comanda a sala discorda

Entendi. Só registro o que eu medi: murmúrio sumiu à esquerda depois que a gente começou a ventilar, às 23h31. Se você quiser, eu reausculto com você agora. Você não precisa vencer a discussão — precisa que o dado exista, com hora, e que seja fácil para o outro conferir sem perder a cara.

Não diga: Insistir na sua hipótese diagnóstica em vez de no seu achado. Achado objetivo com hora é difícil de descartar; opinião de interno é fácil. Escolha o terreno em que você tem razão.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Onde se descomprime o tórax: 2º ou 3º espaço na linha hemiclavicular, ou 5º espaço na linha axilar anterior?

2º ou 3º espaço intercostal, linha hemiclavicular, cateter 14G de no mínimo 5 cm

É a régua do protocolo pré-hospitalar nacional, que descreve inclusive os dois métodos de encontrar o 2º espaço: pelo ângulo de Louis no esterno, lateralmente ao qual está o espaço, ou palpando a clavícula e contando as costelas abaixo dela. A diretriz estadual capixaba adota o mesmo ponto, com agulha de grande calibre, e o capítulo brasileiro de pneumotórax afirma que uma punção simples com cateter fino no 2º espaço já reverte a gravidade da situação. O ponto é anterior, acessível com o paciente vestido, imobilizado em prancha e com os braços junto ao corpo, e fica longe do coração.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, protocolo AP11; Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018; Andrade Filho, Campos e Haddad, J Bras Pneumol, 2006

5º espaço intercostal, linha axilar anterior, cateter de no mínimo 8 cm

É a régua da norma federal mais recente, publicada no Diário Oficial da União em 2023, que fixa para o adulto o 5º espaço intercostal na linha axilar anterior, ou entre a linha axilar média e a anterior, com cateter sobre agulha de no mínimo 8 cm, preferencialmente 14G e aceitável 16G. Na criança, a mesma norma mantém o 2º espaço anterior na linha hemiclavicular, com cateter 18G a 20G. A justificativa anatômica está medida: a espessura da parede torácica é menor no 5º espaço na linha axilar anterior e na linha axilar média do que no 2º espaço na linha hemiclavicular.

Resolução COFEN nº 723, de 10 de agosto de 2023, publicada no Diário Oficial da União nº 155, Seção 1, página 180; Ahmad e cols., World Journal of Emergency Surgery, 2025

Como decidir

A equipe habilitada escolhe técnica, sítio e dispositivo conforme anatomia, acesso e protocolo institucional, como orienta o fluxo. O comprimento influencia a chance de alcançar a pleura, mas não deve ser escolhido isoladamente nem convertido em regra de usar sempre o maior cateter. Exponha o sítio, identifique os marcos e considere as estruturas profundas. Na técnica por agulha descrita, a inserção ocorre a 90°, pela borda superior da costela inferior, sem avançar após alcançar a cavidade. Reavalie imediatamente: a punção é temporária, pode falhar e exige organização simultânea da drenagem definitiva.

Qual volume drenado indica toracotomia no hemotórax?

Acima de 1.000 a 1.500 mL imediatos, ou acima de 300 mL/hora por três horas

É a régua da diretriz estadual capixaba, que indica toracotomia quando o volume do sangramento inicial é maior que 1.000 a 1.500 mL de imediato, ou quando há drenagem contínua acima de 300 mL por hora nas primeiras três horas, e acrescenta que volumes menores que produzam alteração hemodinâmica também indicam a cirurgia. O quadro de recomendações do mesmo documento é mais estrito e fala em sangramento imediato acima de 1.500 mL. Como referência de magnitude, o próprio texto registra risco de morte três vezes maior com sangramento total de 1.400 mL nas primeiras 24 horas em comparação com 500 mL.

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Diretrizes Clínicas, 2018

Acima de 1.200 mL, ou 200 mL/hora persistentes

É a régua das sociedades brasileiras de cirurgia vascular e de trauma, com grau de recomendação 1C: a toracotomia está indicada diante de instabilidade hemodinâmica persistente após as medidas iniciais de atendimento ao trauma, incluindo o tratamento do pneumotórax hipertensivo, ou de hemorragia significativa pelo dreno de tórax acima de 1.200 mL ou drenagem persistente de 200 mL por hora. É um limiar mais baixo em volume e em ritmo, e opera mais cedo.

Góes Junior e cols., Diretrizes brasileiras de diagnóstico e tratamento de lesões vasculares traumáticas, Jornal Vascular Brasileiro, 2023

Como decidir

Associe volume inicial, débito horário e resposta à ressuscitação. Instabilidade persistente ou resposta apenas transitória com sangramento ativo exige avaliação operatória, mesmo antes dos limiares apresentados nas fontes. Registre cada medida com horário e confira a permeabilidade do dreno. Antecipe contato com cirurgia, sangue e transferência quando esses recursos não estiverem disponíveis; a logística deve acelerar a organização do tratamento.

Tórax instável: intubar para fazer a fixação interna, ou segurar com analgesia e ventilação não invasiva?

Ventilação mecânica invasiva como tratamento padrão — a fixação interna

A diretriz estadual descreve a ventilação mecânica como o tratamento padrão do tórax instável, também conhecida como fixação interna: a parede torácica é estabilizada por dentro, pela pressão positiva, até que se desenvolva a fibrose perilesional, o que ocorre em geral durante as primeiras três semanas após o trauma. É a posição que resolve simultaneamente a mecânica da parede e a hipoxemia da contusão pulmonar, e é a única alternativa em quem tem lesões associadas que já obrigam à via aérea definitiva.

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Diretrizes Clínicas, 2018

Analgesia agressiva e ventilação não invasiva, reservando a intubação para quem falhar

O mesmo documento registra que, em pacientes com tórax instável e estabilidade hemodinâmica, a ventilação mecânica não invasiva em modo CPAP demonstrou ter menos complicações e menos mortalidade do que a ventilação mecânica convencional, e recomenda a não invasiva como alternativa à intubação em quem desenvolve insuficiência respiratória sem lesão pulmonar ou de outro órgão que obrigue à via aérea definitiva. O braço analgésico dessa estratégia tem base própria: a analgesia peridural é superior à infusão intravenosa de opiáceos no controle da dor da fratura costal múltipla ou bilateral.

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, Diretrizes Clínicas, 2018 (Quadro de recomendações); Pereira e cols., Estado atual das fraturas dos arcos costais, Arquivos Brasileiros de Ciências da Saúde, 2010

Como decidir

Defina o suporte pela capacidade de manter ventilação e oxigenação após analgesia adequada. Verifique se o paciente consegue inspirar fundo e tossir e se existe outra indicação de via aérea definitiva. Ventilação não invasiva pode ser considerada quando não houver essa indicação e houver vigilância adequada. Se o suporte falhar ou ocorrer deterioração, a equipe deve estar pronta para intubar. A contusão pode piorar nas primeiras 24 horas; a escolha inicial exige reavaliação e recurso de resgate disponível.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao rapaz da cena. Homem de 27 anos, ferimento por arma branca em hemitórax esquerdo anterior, um pouco abaixo do mamilo, há cerca de quinze minutos. Entrou conversando, com pressão 118 por 76, e quatro minutos depois está em 78 por 62, com frequência cardíaca de 136, respiração rápida e superficial, e jugulares cheias. Acompanhe o raciocínio em voz alta.

  1. o que penso antes de encostar nele

    Ferimento penetrante em tórax anterior esquerdo, na zona precordial, com deterioração em minutos. Isso me dá três hipóteses e nenhuma quarta: pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco e hemotórax maciço. As três dão choque com jugular possivelmente cheia, e as três se separam com estetoscópio e dois dedos. Decido de antemão o que não vou fazer: não vou pedir radiografia antes de examinar, e não vou puncionar nada antes de auscultar e percutir.

  2. o que a ausculta responde primeiro

    Murmúrio simétrico e percussão sem assimetria evidente tornam algumas hipóteses menos prováveis, mas não excluem sozinhos pneumotórax ou hemotórax. No ferimento precordial com choque e jugulares túrgidas, mantenho alta suspeita de tamponamento, faço ultrassom focado se imediatamente disponível e aciono tratamento cirúrgico. Não aguardo exame completo ou imagem quando isso atrasaria a intervenção necessária.

  3. o achado que fecha o diagnóstico

    Bulhas abafadas, jugulares túrgidas e pressão 78/62 após ferimento precordial reforçam suspeita de tamponamento. A variação percebida no pulso ou no oxímetro durante a inspiração não mede, sozinha, queda sistólica >10 mmHg; pulso paradoxal requer medida apropriada. A tríade de Beck pode faltar, portanto sua ausência não exclui o diagnóstico. Priorizar avaliação focada e resolução definitiva sem esperar todos os sinais.

  4. o que faço com as minhas mãos, e o que eu chamo

    O que faço: oxigênio em alto fluxo para manter saturação em pelo menos 94%, monitorização cardíaca contínua, dois acessos calibrosos com tipagem e prova cruzada colhidas na mesma punção, e reposição volêmica rápida — que não trata a doença, mas mantém algum enchimento das câmaras direitas contra a pressão do pericárdio e compra minutos. O que chamo, imediatamente e por telefone, é o cirurgião, pedindo presença física e dizendo o que já afastei: murmúrio simétrico, percussão normal, não é pneumotórax. Se houver ultrassom na sala, faço a janela subxifoide — mas não espero o aparelho para chamar.

  5. o que eu não faço, e por quê

    Não descomprimo o tórax. A pressão que está esmagando esse coração está dentro do pericárdio, e um cateter de 14G no espaço pleural atravessaria pulmão sadio sem alcançá-la — com risco descrito de lesar pulmão, coração ou grandes vasos, e com o dano indireto de a sala considerar o caso tratado. Também não peço tomografia: ele está instável, e o corredor não tem monitor, equipe nem sangue. E não peço troponina para decidir, porque troponina tem baixa sensibilidade no trauma cardíaco e não responde à pergunta que estou fazendo.

  6. como a resposta ao volume muda o que penso

    Depois de 500 mL, a pressão sobe para 92 por 74 e ele volta a falar. Leio essa melhora pelo que ela é: uma janela curta, produzida por enchimento, não pelo tratamento da causa. O sangue continua entrando no pericárdio, e o quadro vai voltar. Se a resposta ao volume tivesse sido nula, a hipótese não mudaria — mudaria a urgência, e a pericardiocentese entraria como medida transitória enquanto a sala de cirurgia se prepara, o que é decisão e execução do cirurgião. O destino dele já está definido: exploração cardíaca por toracotomia ou esternotomia, e o que eu tenho a fazer é garantir que nada atrase a saída da sala.

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Faça você

Agora é outro paciente. Homem de 52 anos, pedreiro, atropelado por caminhonete há quarenta minutos. Chegou intubado pela equipe de resgate, com colar cervical e em prancha. Escoriação extensa em hemitórax direito, com crepitação óssea à palpação do gradil e um segmento da parede lateral direita que se move ao contrário sob os dedos. Na admissão: saturação 96% sob ventilação com bolsa, pressão 126 por 78, frequência cardíaca 98, murmúrio presente nos dois lados, percussão normal. Sete minutos depois, com o paciente já no ventilador da sala: saturação 84%, pressão 82 por 60, frequência cardíaca 134, murmúrio muito diminuído à ESQUERDA, expansão assimétrica.

  1. por que o quadro inicial já pedia vigilância

    Segmento da parede que se move ao contrário sob os dedos, com crepitação óssea, é tórax instável — e o que mata embaixo dele é a contusão pulmonar, cuja insuficiência respiratória é manifestação tardia, podendo aparecer ao longo das primeiras 24 horas. Saturação de 96% na admissão não é alta; é o começo. Além disso, ele chegou intubado, e paciente intubado carrega duas complicações próprias que se apresentam do mesmo jeito.

  2. o que mudou entre a admissão e a deterioração

    Duas coisas: ele foi ligado ao ventilador, e ele foi transferido de maca. A ventilação com pressão positiva agrava o pneumotórax simples e pode transformá-lo em hipertensivo — os protocolos advertem para isso no pneumotórax simples, no aberto e no tórax instável. E o transporte é o momento clássico de migração da cânula para o brônquio principal direito, o que deixa o pulmão ESQUERDO sem ventilação.

  3. por que as duas hipóteses dão o mesmo exame

    Murmúrio muito diminuído à esquerda com expansão assimétrica é o quadro tanto de pneumotórax hipertensivo à esquerda quanto de cânula alojada no brônquio direito. A hipotensão não separa as duas: pode ser choque obstrutivo, e pode ser o efeito hemodinâmico da sedação somado à hipoxemia. O que separa é a percussão do lado silencioso e a posição do tubo.

  4. conduta

    — sua vez —

  5. Continuidade do caso e prática do internato

    No ferimento precordial do rapaz, a equipe deve reconhecer a ameaça e agir antes de transformar o exame em uma demonstração de todos os sinais clássicos.

  6. Questão integrativa 1

    Tórax instável causa o mesmo choque obstrutivo do tamponamento?

  7. Questão integrativa 2

    Murmúrio simétrico exclui pneumotórax?

  8. Questão integrativa 3

    A ausência da tríade de Beck afasta tamponamento?

  9. Questão integrativa 4

    O oxímetro demonstra pulso paradoxal de 12 mmHg?

  10. Questão integrativa 5

    Hemotórax instável exige esperar o cirurgião chegar antes de qualquer drenagem?

  11. Questão integrativa 6

    Pouco débito no dreno exclui sangramento importante?

Ver como fecharíamos

A ordem aqui é fixa e é o protocolo que a fixa: no paciente já intubado, avaliar por ausculta o posicionamento da cânula ANTES de realizar qualquer descompressão torácica. Então: ausculte epigástrio e os dois ápices, cheque a marca do tubo à rima labial e, se houver suspeita de seletividade, tracione a cânula alguns centímetros e reausculte. Se o murmúrio à esquerda voltar e a saturação subir, o problema era o tubo, e o gesto seguinte é fixar de novo e registrar. Se o tubo estiver no lugar e o quadro persistir, percuta o hemitórax esquerdo: timpanismo aumentado com murmúrio abolido e choque descompensado preenche o critério de pneumotórax hipertensivo, e a conduta é descompressão por agulha imediata, sem radiografia — cateter sobre agulha 14G, o mais longo disponível, no 5º espaço intercostal na linha axilar anterior esquerda ou no 2º ou 3º espaço na linha hemiclavicular, inserido a 90° pela borda superior da costela inferior, com seringa acoplada. Retirada a agulha metálica, o cateter fica, é fixado sem dobras, e a hora vai no prontuário. Reavalie logo depois: ausculta, respiração, oxigenação e hemodinâmica. E, no mesmo minuto, encaminhe a drenagem pleural, que é o tratamento definitivo e que, neste paciente, é obrigatória de qualquer forma, porque ele está sob ventilação com pressão positiva. Resolvida a emergência, volte ao tórax instável: analgesia agressiva — analgésico simples de base, opioide titulado, e peridural torácica contínua se a fratura for múltipla ou bilateral e o serviço dispuser do recurso —, fisioterapia respiratória, nada de enfaixar o segmento, restrição de líquidos pela contusão pulmonar, gasometria arterial e vigilância de 24 horas. Não infunda volume por causa da hipotensão sem antes reavaliar: no tórax instável, a reposição só se justifica diante de sinais de choque, e o excesso de líquido piora ventilação e oxigenação de um pulmão contundido. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Dor, mecânica e contusão comprometem sobretudo ventilação e oxigenação; procurar outras causas de choque associado. 2. Não. O exame isolado não exclui; integrar gravidade, mecanismo e avaliação focada. 3. Não. A tríade pode estar incompleta, especialmente em trauma com hemorragia associada. 4. Não. Variação da curva sugere um fenômeno, mas não quantifica pressão sistólica. 5. Não como regra. Ressuscitação, drenagem indicada por operador habilitado e acionamento cirúrgico devem ocorrer em paralelo. 6. Não. Obstrução ou mau posicionamento podem mascarar débito; considerar clínica e imagem apropriada.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Choque persistente com sinais de pneumotórax hipertensivo após uma punção não exclui o diagnóstico. O cateter pode não ter alcançado a pleura, estar obstruído, dobrado ou mal posicionado. Reavaliar rapidamente e descomprimir de forma eficaz, usando dispositivo e acesso adequados ou toracostomia conforme equipe, contexto e protocolo, sem aguardar radiografia no paciente instável. Providenciar drenagem definitiva e investigar causas associadas de choque. Comprimento maior pode melhorar a chance de alcançar a pleura, mas também requer cuidado para evitar lesões; não se deve escolher simplesmente o maior disponível nem converter estimativas populacionais em benefício percentual exato para este paciente.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, os quatro achados de exame físico que separam pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco, hemotórax maciço e intubação seletiva — e, ao lado de cada lesão, o gesto imediato e o erro que mata. Depois escreva os dois sítios de punção previstos em documento brasileiro vigente, com calibre, comprimento mínimo, ângulo e borda da costela. Por fim, confira três coisas que dependem do seu serviço: onde fica o cateter 14G longo, onde fica o kit de drenagem, e quem drena no plantão de hoje.

Em 30 dias

Refaça os dois casos mudando um dado de cada vez e veja onde a decisão quebra: e se o rapaz da facada tivesse murmúrio abolido à esquerda e timpanismo; e se o pedreiro tivesse macicez em vez de timpanismo à esquerda; e se a única agulha da bandeja fosse um jelco de 5 cm; e se o serviço não tivesse cirurgião nem banco de sangue. Depois pegue o último trauma de tórax que você atendeu de verdade e responda em uma frase: quanto tempo passou entre o paciente entrar e alguém percutir o hemitórax dele?

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 34 anos, motociclista, colisão lateral contra automóvel há vinte e cinco minutos, trazido em prancha e colar, acordado, taquipneico, com escoriação extensa em hemitórax direito e dor intensa ao respirar. Você tem as suas mãos, um estetoscópio, monitor, radiografia e ultrassom na sala, um carrinho de trauma e o telefone do cirurgião. Examine antes de pedir, diga em voz alta o que encontrar com número e hora, e chame quem precisa ser chamado antes de ter certeza.

Trauma torácico com risco iminente de morte — Internato | OsceLabs