Cirurgia Geral › Trauma
Trauma abdominal fechado
Usar fisiologia e evolução para escolher investigação, tratamento não operatório e controle urgente de hemorragia ou contaminação.
Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018, diretriz clínica aprovada em 30 de setembro de 2018
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: Suporte Avançado de Vida. 2ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2016
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Farrath S, Parreira JG, Olliari CB, Silva MA, Perlingeiro JAG, Soldá SC, Assef JC. Identificação de lesões abdominais graves na avaliação inicial das vítimas de trauma fechado. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 40, número 4, páginas 305 a 311, 2013
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American Association for the Surgery of Trauma. Organ Injury Scale — página institucional com as revisões vigentes da escala de lesão de órgão
Bula profissional de imunoglobulina humana anti-D 300 microgramas, seringa preenchida com 2 mL a 150 microgramas por mL (Rhophylac), aprovada pela Anvisa em 23 de agosto de 2024
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Responda antes de ler
Mulher de 44 anos, colisão frontal com sinal do cinto de segurança, permaneceu estável e fez tomografia de abdome e pelve com contraste na admissão, sem alterações. Ficou internada em observação. Trinta horas depois apresenta temperatura de 38,4 °C, leucócitos de 19.400, dor abdominal difusa com defesa involuntária e frequência de 112. Qual é a hipótese e a conduta?
O paciente que você vai ver
Duas e dez da manhã. A mesma colisão manda dois pacientes para a sua sala: o motorista e a passageira do carro que rodou e bateu de lado contra a defensa metálica. Chegam na mesma ambulância, com o mesmo mecanismo e a mesma hora de trauma anotada na ficha, e o socorrista descreve os dois com a mesma frase — cinto colocado, air bag disparado, desencarceramento demorado.
O motorista tem 41 anos e está sentado na maca, falando. Pressão 128 por 78, frequência 96, saturação de 97%. Reclama de dor no ombro esquerdo, que ele mesmo atribui ao cinto, e não quer que ninguém encoste na barriga. Tem uma faixa avermelhada atravessando o abdome na diagonal, do ombro esquerdo ao quadril direito.
A passageira tem 36 anos e fala pouco. Pressão 92 por 70, frequência 124, pele fria, enchimento capilar de três segundos. O abdome dela está distendido e ela geme quando você apoia a mão. Não há sangramento externo em lugar nenhum. Nos primeiros trezentos mililitros de cristaloide a pressão sobe para 106, e nos vinte minutos seguintes volta para 88.
Nos próximos quarenta minutos os dois vão para lugares diferentes do hospital, e nenhum exame de imagem terá decidido isso. A passageira vai para o centro cirúrgico. O motorista vai para o tomógrafo e, depois, para um leito monitorizado onde é bem possível que seja tratado de uma laceração de baço sem que ninguém abra o abdome dele — o que era impensável há trinta anos e ainda não chegou a muito plantão do país.
Este capítulo é sobre o que separa esses dois caminhos, e sobre por que a separação acontece antes do exame de imagem, e não depois dele.
Quem adoece disso
Lesão intra-abdominal é rara no trauma fechado em geral e muito frequente no trauma fechado grave — e confundir essas duas frases é o começo de quase todo erro deste capítulo. Numa série de 3.783 vítimas de trauma fechado atendidas na Santa Casa de São Paulo, lesões abdominais apareceram em 130 doentes, isto é 3,4%. Numa segunda série do mesmo serviço, com 5.536 vítimas, foram 172 lesões (3,1%), das quais 144 acima de trivialidade na escala de gravidade (2,6%). Mas quando a amostra é recortada pela gravidade — apenas os 331 doentes que precisaram de tomografia de abdome ou de laparotomia exploradora —, a frequência de lesão abdominal salta para 42,3%, e a de lesão abdominal grave, para 30,5%.
A leitura prática é esta: a probabilidade de o abdome estar lesado não é uma propriedade da doença, é uma propriedade do paciente que está na sua frente. Um pedestre atropelado, hipotenso, com fratura de bacia, tem chance de lesão abdominal uma ordem de grandeza maior que a do rapaz que caiu da própria altura, e a conduta muda junto. Nessa mesma amostra de 331 casos, os mecanismos foram atropelamento em 108 (32,6%), acidente de motocicleta em 71 (21,5%), queda de nível em 63 (19,0%), acidente com automóvel em 41 (12,4%) e agressão física em 36 (10,9%). É o retrato do trauma fechado brasileiro, e ele tem duas rodas e um pedestre no centro, não a colisão frontal do manual.
Quando há lesão, ela é quase sempre de órgão sólido. Na série de 144 lesões, o baço apareceu em 54 casos (37,5%), o fígado em 50 (34,7%), o rim em 21 (14,6%), o intestino delgado em 10 (6,9%), a bexiga em 8 (5,6%) e o cólon em 1 (0,7%). Baço e fígado somam 72% do que se encontra. O dado importa porque a maior parte do que se encontra é justamente aquilo que pode ser tratado sem operar — e a minoria, a víscera oca, é o que não pode e é o mais difícil de enxergar.
O que transforma esses números em urgência é o desfecho de quem passa despercebido. A lesão abdominal não diagnosticada é descrita na literatura cirúrgica brasileira como uma das principais causas de morte evitável no traumatizado: são pacientes que chegaram vivos, foram examinados e morreram de uma coisa que tinha tratamento. E a razão de passar despercebida está medida — até 40% dos hemoperitônios não produzem sintoma nem sinal significativo na avaliação inicial. Quarenta por cento é quase metade. Abdome normal, nas primeiras horas, é dado fraco.
A contrapartida existe, e é a boa notícia. Quando se somam estabilidade hemodinâmica, exame neurológico normal, exame torácico normal, exame abdominal e pélvico normais e ausência de lesões distrativas, a frequência de lesão intra-abdominal cai para uma faixa entre 0,1% e 0,2% — e nos 693 doentes desse grupo que ainda fizeram ultrassonografia abdominal completa normal, nenhuma lesão apareceu depois. Selecionar bem não é questão de exame caro; é questão de somar informação clínica antes de decidir qual exame pedir.
Por que acontece o que acontece
O abdome tem uma propriedade que nenhum outro compartimento do corpo tem na mesma medida: ele acomoda sangue sem avisar. A cavidade peritoneal é complacente — aceita litros com aumento pequeno de pressão — e, ao contrário do pericárdio, não tampona. No pericárdio, duzentos mililitros já param o coração e o paciente grita a lesão pelo estado hemodinâmico. No abdome, os mesmos duzentos mililitros não fazem nada, e a hemorragia só se manifesta quando o volume perdido é grande o bastante para vencer a compensação cardiovascular. Essa é a razão física de o abdome ser o esconderijo: não é que o exame seja mal feito, é que a cavidade não devolve sinal proporcional ao sangue que contém.
As lesões nascem de três mecanismos, e cada um produz um tipo de dano. Compressão e esmagamento: o órgão é prensado entre o agente externo e a coluna ou o gradil costal — é o guidão da moto contra o epigástrio, o cinto contra a coluna lombar, o pneu sobre o flanco. Cisalhamento por desaceleração: o corpo para e as vísceras continuam, e o que rasga é o ponto onde o órgão está preso — pedículo esplênico, ligamento de Treitz, junção de mesentério fixo com alça móvel, hilo renal. Aumento súbito de pressão dentro de víscera oca: a alça cheia é comprimida com as duas extremidades fechadas e estoura, como um saco de papel. As diretrizes capixabas descrevem o trauma contuso exatamente nesses termos — compressão e esmagamento, cisalhamento e desaceleração, com hemorragia e rotura de órgãos e vasos.
Órgão sólido e víscera oca falham de maneiras diferentes, e é isso que decide o que acontece depois. O baço e o fígado são parênquimas vascularizados dentro de uma cápsula: quando rompem, sangram, e o sangue vai para a cavidade. Muitos param de sangrar sozinhos, porque a pressão arterial baixa, o coágulo se forma e a cápsula contém — e é exatamente por isso que existe tratamento sem operação. A víscera oca, quando rompe, derrama conteúdo com bactéria e enzima digestiva no peritônio; isso não para sozinho, não melhora com observação e a demora custa peritonite e sepse. A regra que decorre dos dois mecanismos é a espinha deste capítulo: sangue de órgão sólido às vezes se observa; conteúdo de víscera oca sempre se opera.
Há um terceiro território que muda a conta e quase nunca é lembrado pelo interno: o retroperitônio. Rim, pâncreas, duodeno, aorta e veia cava estão atrás do peritônio, e sangue que se acumula ali não entra na cavidade — logo, não é visto pelo ultrassom de trauma, não é alcançado pela lavagem peritoneal e não produz irritação peritoneal precoce. A pelve é outro compartimento, contíguo e igualmente silencioso ao exame das mãos. Um paciente pode estar exsanguinando no retroperitônio com um abdome mole e um ultrassom limpo. Só a tomografia enxerga esses dois espaços — e é essa, e não a graduação da lesão, a maior vantagem dela.
O exame físico mente por razões que também são mecânicas. A dor peritoneal depende de irritação química ou bacteriana do peritônio parietal, e sangue puro é um irritante fraco e lento: a defesa muscular pode levar horas para aparecer, e um hemoperitônio de meio litro pode cursar com abdome depressível. Some a isso o que compete pela atenção do paciente e do médico — uma fratura exposta de fêmur dói mais, e mais alto, do que um baço lacerado — e o resultado é o que a literatura chama de lesão distrativa: não é que o paciente não tenha o sinal, é que ele não o refere e você não o procura.
E há o grupo em que o exame não mente: simplesmente não existe. Traumatismo cranioencefálico com rebaixamento, intoxicação alcoólica ou por outras drogas, lesão medular que abole a sensibilidade abaixo do nível, sedação e bloqueio neuromuscular para intubação, idade muito avançada com resposta atenuada. Nesses pacientes o abdome é um compartimento cego, e o interno precisa trocar de instrumento em vez de insistir na palpação. É por isso que o rebaixamento de consciência não é apenas um problema neurológico: ele é, para o abdome, uma indicação de imagem.
Um detalhe anatômico fecha o mecanismo e explica um sintoma que o aluno costuma achar folclórico. O diafragma é inervado pelo nervo frênico, cujas raízes vêm de C3 a C5 — as mesmas raízes que inervam a pele do ombro. Sangue em contato com a face inferior do hemidiafragma irrita o frênico, e o córtex interpreta o estímulo no dermátomo correspondente: dor no ombro, do lado do sangue, tipicamente pior quando o paciente deita ou inspira fundo. É referido, não irradiado, e num traumatizado com abdome pouco impressionante é um dos poucos sinais que apontam para dentro da cavidade.
O último elo é hemodinâmico e é o que organiza toda a conduta. O organismo compensa a perda de sangue com taquicardia e vasoconstrição, e mantém a pressão arterial quase normal até perder algo em torno de um terço da volemia. Quer dizer: a pressão é o último parâmetro a cair e o primeiro em que todo mundo repara. Quando ela cai num traumatizado sem sangramento externo, sem lesão torácica e sem fratura de bacia, a hipótese não é ainda mais exame — é sangue no abdome agora. A reposição de volume, nesse cenário, não trata: ela empresta tempo. Como esse tempo é comprado, com o quê e por quanto, pertence ao capítulo de choque hemorrágico no trauma; aqui o que interessa é o que fazer com o tempo comprado.

Como se apresenta de verdade
O trauma abdominal fechado não tem um quadro clínico; tem quatro apresentações que exigem condutas diferentes, e a primeira tarefa da sala é dizer em qual delas o paciente está. Elas não se separam pelo achado do abdome — separam-se pela resposta do paciente ao volume que já correu.
As quatro apresentações, e o que cada uma manda fazer
O instável que não responde chega hipotenso e continua hipotenso depois do volume inicial. É o paciente que menos precisa de exame e mais precisa de sala. Se não há sangramento externo, se o tórax não explica e se a bacia está íntegra, o sangue está no abdome ou no retroperitônio até prova em contrário, e a prova se faz no centro cirúrgico.
O respondedor transitório melhora com volume e piora de novo em minutos. É a apresentação mais perigosa do capítulo, porque ela engana duas vezes: engana quem viu a pressão subir e relaxou, e engana quem vê a pressão cair e acha que o volume foi insuficiente. Melhorar e piorar significa que o sangramento continua, e continuar sangrando com foco intracavitário é indicação cirúrgica, não indicação de mais soro.
O respondedor sustentado normaliza com volume e assim permanece. Aqui a pressa acaba e começa a investigação — e é neste grupo que a tomografia tem lugar, que a graduação da lesão passa a fazer sentido e que o tratamento sem operação se torna possível.
O estável desde a chegada nunca teve alteração hemodinâmica. É a maioria absoluta dos atendimentos, é onde mora a chance de alta indevida e é o grupo em que a decisão não é operar ou não operar, e sim investigar ou observar. A pergunta que vale, aqui, não é 'ele tem lesão?', mas 'quanto risco eu aceito de mandar para casa uma lesão que ainda não deu sinal?'.
O que o mecanismo já diz antes de você encostar
O protocolo AT17 do SAMU 192 lista o que faz suspeitar de trauma abdominal fechado, e a lista serve de gatilho mental à beira da maca: equimoses, contusões, escoriações e outras lesões no abdome; equimose linear transversal na parede abdominal, o sinal do cinto de segurança; dor e sensibilidade à palpação; rigidez ou distensão; e sinais de choque sem causa aparente ou mais graves do que o explicado pelas outras lesões. Esse último item é o de maior rendimento e o menos citado — choque desproporcional ao que se vê é, sozinho, motivo para procurar o abdome.
O sinal do cinto de segurança merece parágrafo próprio porque muda a régua. Ele é a marca da energia que foi transmitida ao abdome numa desaceleração súbita, e a faixa na pele é a assinatura do vetor: onde o cinto prensou a parede contra a coluna. O sinal não diz que há lesão e a ausência dele não diz que não há; o que ele faz é mudar a probabilidade a ponto de tirar o paciente da categoria 'observação simples'. Um abdome doloroso com marca de cinto, em quem desacelerou forte, é candidato a imagem mesmo com hemodinâmica intacta, porque a lesão que esse mecanismo produz — víscera oca e mesentério — é justamente a que demora a se manifestar.
A transição toracoabdominal é o segundo engano de mapa. O diafragma sobe até o quarto espaço intercostal na expiração, de modo que trauma sobre a base do tórax é trauma sobre o abdome. O SAMU delimita a região com precisão útil: no tórax anterior, tudo abaixo da linha mamária; no dorso, tudo abaixo da linha infraescapular; e o flanco, entre as linhas axilares anterior e posterior, do sexto espaço intercostal até a crista ilíaca. Fratura dos arcos costais inferiores — a partir do oitavo — obriga a procurar lesão de baço à esquerda e de fígado à direita, e as diretrizes capixabas dizem isso com todas as letras.

Os pacientes em que o exame do abdome não vale
Existe um grupo em que a frase 'abdome normal' não carrega informação nenhuma, e reconhecê-lo é a competência mais transferível deste capítulo. São os pacientes com traumatismo cranioencefálico e rebaixamento do nível de consciência; os intoxicados por álcool ou outras drogas; os com lesão medular abolindo a sensibilidade abdominal; os sedados e curarizados para intubação; e os que têm uma lesão distrativa — uma fratura exposta, uma luxação, uma queimadura — que dói mais alto e monopoliza a queixa. A literatura brasileira registra os três primeiros como causas conhecidas de perda de confiabilidade do exame físico abdominal.
Não é uma lista acadêmica: ela tem consequência aritmética. Na série de 5.536 traumatizados fechados, exigir apenas estabilidade hemodinâmica deixava 2,0% de lesão intra-abdominal residual; acrescentar exame neurológico normal baixava para 1,8%; acrescentar exame torácico normal, para 1,5%; acrescentar exame abdominal e pélvico normais, para 0,5%; e acrescentar ausência de lesões distrativas levava a uma faixa entre 0,1% e 0,2%. Cada critério que o paciente não preenche recoloca risco, e o paciente inconsciente não preenche o principal.
Nesse grupo, a decisão prática é simples de enunciar e difícil de sustentar num plantão cheio: quem não pode ser examinado precisa ser fotografado. Trauma de mecanismo relevante com rebaixamento de consciência é indicação de imagem abdominal, e não de reavaliação seriada — porque a reavaliação seriada de um paciente que não responde mede só o que a hemodinâmica deixa transparecer, e a hemodinâmica é o parâmetro que cai por último.
Há ainda um cuidado de sequência que se perde todo dia e não custa nada: examine o abdome antes de sedar. O paciente que vai ser intubado tem, nos segundos anteriores à indução, o último exame abdominal confiável que alguém vai conseguir nas próximas horas. Vale registrar por escrito o que se achou, com hora, porque depois da indução a informação não é recuperável.
Idoso, anticoagulado, gestante, obeso, criança
O idoso engana pela normalidade. A resposta cronotrópica é atenuada, medicamentos de uso contínuo travam a taquicardia, e a pressão que parece boa pode ser hipotensão relativa em quem vive com sistólica de 160. A conclusão operacional é rebaixar o limiar: no idoso, mecanismo relevante já basta para imagem, e uma frequência de 90 com pele fria vale mais que o número da pressão. O uso de anticoagulante ou de antiagregante muda a magnitude do sangramento que uma mesma laceração produz, e muda a chance de o tratamento sem operação dar certo — a idade acima de 55 anos aparece nas revisões como preditor independente de falha do tratamento não operatório do baço.
Na gestante, dois princípios se somam. O primeiro é que a melhor coisa que se faz pelo feto é ressuscitar a mãe; o segundo é que o útero gravídico cria uma lesão específica que o abdome não denuncia. O Manual de gestação de alto risco do Ministério da Saúde lista o trauma entre os fatores de risco de descolamento prematuro de placenta na gestação atual, e essa é a lesão a procurar mesmo quando o exame abdominal materno é tranquilizador: sangramento vaginal, contração, hipertonia uterina e alteração da vitalidade fetal. O mesmo manual lista o trauma abdominal entre os eventos que sensibilizam a gestante Rh negativo — o que transforma a tipagem sanguínea da gestante traumatizada num exame com consequência de prescrição, e não apenas de banco de sangue.
No obeso, a parede espessa piora a sensibilidade do exame e piora a janela do ultrassom; a interposição gasosa e a obesidade estão entre as causas registradas de resultado ultrassonográfico comprometido. É o paciente em que a tomografia sobe de posição mais cedo. Na criança, a parede é fina, o gradil costal é elástico e os órgãos sólidos são proporcionalmente maiores e menos protegidos, o que muda a probabilidade de lesão para um mesmo golpe — e o manejo pediátrico tem particularidades que pertencem a outro capítulo.
Por fim, um grupo que não é anatômico: o paciente que chega por agressão física. Ele foi 10,9% da amostra brasileira citada, costuma ser jovem, muitas vezes está alcoolizado, e traz junto uma obrigação legal — o trauma decorrente de situação de violência, sugestiva ou confirmada, deve ser notificado na ficha de violência interpessoal e autoprovocada à vigilância epidemiológica local, com cópia conservada no prontuário. A notificação é parte do atendimento, não papelada posterior.
Como fechar o diagnóstico
No trauma abdominal fechado a investigação tem uma ordem que não é a intuitiva. A primeira pergunta não é qual exame pedir; é se o paciente pode sair da sala. Todo o resto — ultrassom, tomografia, lavado, laboratório — está subordinado a essa resposta, e o erro mais caro do capítulo é inverter a ordem: pedir a imagem primeiro e classificar o paciente depois do resultado.
A sequência primária, os cinco lugares onde o sangue se esconde e o papel de cada adjunto na sala de choque pertencem ao capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado. Aqui a pergunta é mais estreita e mais difícil: dado que a fonte pode ser o abdome, o que se pede, em que ordem, e o que fazer com cada resposta.
Estável quer dizer o quê, exatamente
A palavra que governa o fluxograma inteiro é a menos definida de todas. A diretriz estadual capixaba abre o fluxo do trauma abdominal fechado com a pergunta 'apresenta instabilidade hemodinâmica?' e não a define; os serviços que publicaram protocolo definem cada um do seu jeito. O protocolo de tratamento não operatório da Unicamp exige, para incluir o doente, estabilidade hemodinâmica após a reanimação inicial com cristaloide, com sistólica acima de 90 mmHg e sem necessidade de transfusão na sala de urgência. O grupo da Santa Casa de São Paulo, ao estudar exclusão de lesão, usou um critério mais rígido: sistólica acima de 100 mmHg e frequência abaixo de 100 bpm.
As duas definições não são contraditórias porque servem a perguntas diferentes, e entender isso resolve o problema. Quando se pergunta 'posso deixar de operar?', o critério é a resposta ao volume, e por isso a Unicamp mede depois da reanimação. Quando se pergunta 'posso deixar de investigar?', o critério é conservador, e por isso a Santa Casa exige margem. Um mesmo paciente pode ser estável o bastante para não ir à sala cirúrgica e instável o bastante para não ir para casa.
A régua adotada aqui, e que serve à beira do leito, tem três partes. Instável é quem mantém sistólica abaixo de 90 mmHg, ou sinais de má perfusão persistentes, depois do volume inicial. Respondedor transitório é quem melhora e volta a piorar — e para efeito de decisão cirúrgica ele conta como instável, porque significa hemorragia ativa. Estável é quem normaliza e permanece normal sem necessidade de novas cargas. E há uma trava que vale mais que o número: no paciente jovem a pressão só cai tarde, e no idoso ela pode estar 'normal' e ser baixa para ele — sinal de má perfusão com pressão normal, num traumatizado, é instabilidade em fase inicial, não é paciente estável.
Uma advertência sobre a meta pressórica. Os protocolos do SAMU orientam, na ausência de traumatismo cranioencefálico, restaurar a pressão para uma faixa de 80 a 90 mmHg de sistólica, para não desalojar coágulo. Não confunda meta de reposição com critério de estabilidade: um paciente mantido deliberadamente em 85 mmHg com foco não controlado não é um paciente estável — é um paciente instável sendo transportado para a sala. Como e com o que se repõe está no capítulo de choque hemorrágico no trauma; aqui só importa que a decisão de operar não se toma pelo número da meta.
O ultrassom de trauma responde uma pergunta só
O FAST é uma ultrassonografia dirigida, feita à beira do leito, sem tirar o paciente de lugar nenhum, e as diretrizes capixabas descrevem seu conteúdo com exatidão: avaliação da presença de fluidos intra-abdominais, em quatro regiões — saco pericárdico, espaço hepatorrenal, espaço esplenorrenal e pelve, no recesso de Douglas. A frase seguinte do documento é a que importa: ele é extremamente útil na detecção da causa do choque.
Repare no que essa definição não contém. O exame não diz de onde vem o líquido, não diz qual órgão está lesado, não gradua a lesão, não vê o retroperitônio, não vê a pelve óssea e não distingue sangue de urina, bile ou ascite prévia. Ele responde uma pergunta binária — há líquido livre? — e é medido pela capacidade de responder essa pergunta, não outra. O interno pede o exame esperando um laudo de órgão e recebe um sim ou não; a frustração é do pedido, não do exame.
E responde essa pergunta de forma assimétrica, que é o ponto que mais custa paciente. Positivo, decide. Negativo, não afasta. A literatura brasileira mede a acurácia do método entre 60% e 80%, e registra que, em média, cerca de 25% das lesões intra-abdominais não são identificadas por ele. Um em cada quatro. Os falso-negativos têm causas conhecidas e todas elas ocorrem no paciente comum da porta: pequeno volume de líquido na cavidade no momento em que o exame foi feito, lesão retroperitoneal, interposição gasosa, obesidade, bexiga vazia e dependência do examinador.
Da primeira dessas causas decorre diretamente quando repetir. Se o exame falha porque o líquido ainda não se acumulou, então o exame feito cedo demais tem prazo de validade curto — e a conduta correta não é confiar nele por mais tempo, é refazê-lo. A régua deste capítulo: repita diante de qualquer deterioração hemodinâmica, e repita rotineiramente em torno de vinte a trinta minutos no paciente de mecanismo relevante cujo primeiro exame foi normal e que ainda não foi para a tomografia. Comparar dois exames com hora anotada informa mais que qualquer um deles isolado. O que não vale é repetir para adiar decisão: no instável, esperar o segundo exame consome exatamente o tempo que falta.
Duas notas de escopo. A janela pericárdica pertence ao capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte, e o exame estendido, que acrescenta as janelas pleurais para pesquisa de pneumotórax, também. E o resultado do FAST não é do ultrassonografista: quem pediu precisa saber ler a informação, porque ela vale por minutos.

As quatro combinações, e o que fazer com cada uma
Cruzar duas informações binárias — estável ou não, líquido livre ou não — gera quatro situações, e o fluxo de trauma abdominal fechado da diretriz capixaba percorre exatamente essas quatro. Vale decorá-las nessa forma, porque é assim que a decisão aparece na sala.
Instável com líquido livre. Laparotomia. É a primeira das nove indicações de laparotomia de emergência da diretriz estadual: trauma abdominal contuso com hipotensão, com ultrassom de trauma positivo ou evidência clínica de sangramento intraperitoneal sem outra fonte. Não há exame que acrescente. Levar esse paciente ao tomógrafo é tirá-lo do único lugar do hospital onde há gente, material e sangue para ressuscitá-lo, e o corredor não tem monitor.
Instável sem líquido livre. É a combinação que separa quem pensa de quem segue receita. O fluxo capixaba manda uma coisa só: procurar outra causa para a instabilidade. Tórax, bacia, sangramento externo perdido no dorso, choque neurogênico, choque obstrutivo — a lista e o modo de reconhecer cada um estão no capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado. Duas ressalvas que salvam paciente: o ultrassom negativo pode ser precoce demais, então repita; e o retroperitônio não aparece nele, de modo que sangramento retroperitoneal e fratura instável de bacia produzem exatamente esse quadro. A bacia como fonte concomitante tem capítulo próprio, ainda não escrito, e o que interessa aqui é a regra de ouro de não a manipular repetidamente à procura de instabilidade do anel.
Estável com líquido livre. Tomografia. O paciente que tolera o corredor ganha, com ela, três coisas que mudam conduta: qual órgão, qual a extensão da lesão, e se há extravasamento de contraste. É a partir daqui que existe a escolha entre operar e não operar.
Estável sem líquido livre. É a única casa em que a diretriz permite parar, e ela não escreve 'alta': escreve observar. A diferença entre observar e liberar é o assunto do bloco de reavaliação, e é onde o interno mais erra.
A tomografia: o melhor exame, com um critério de entrada
A régua da diretriz capixaba é curta e vale decorar inteira: a tomografia demanda tempo, portanto só deve ser realizada em pacientes hemodinamicamente estáveis nos quais não haja indicação aparente de laparotomia de emergência — e nunca deve ser realizada se isso causar atraso na transferência do paciente para um nível de atenção mais avançado. Duas travas, e a segunda protege mais paciente que a primeira em hospital sem cirurgião.
O que ela acrescenta é real. Informa sobre órgãos específicos e sobre a extensão das lesões, e diagnostica lesões retroperitoneais e pélvicas, que não são bem avaliadas pelo exame físico, pelo ultrassom de trauma nem pela lavagem peritoneal. Traduzindo para conduta: a tomografia é o exame que permite graduar a lesão de órgão sólido e, portanto, é o exame que autoriza o tratamento sem operação. Sem ela, conservador é aposta.
A graduação usada no mundo inteiro é a escala de lesão de órgão da associação americana de cirurgia do trauma — régua de sociedade estrangeira, cuja revisão vigente de baço e fígado é a de 2018, com rim revisto em 2025. A tabela não se reproduz aqui, e não é o que o interno precisa. O que muda conduta são três informações que a tomografia devolve: o grau da lesão, porque lesões de baixo grau raramente falham no tratamento conservador e as de alto grau falham com frequência crescente; o volume do hemoperitônio, porque hemoperitônio extenso é preditor de falha; e o extravasamento de contraste, o chamado sinal do rubor, que indica sangramento arterial ativo no momento do exame. A mudança principal trazida pela revisão de 2018 foi justamente incorporar os achados vasculares da tomografia — pseudoaneurisma e fístula arteriovenosa — à graduação, o que aproximou a escala do que efetivamente decide entre observar, embolizar e operar.
E o que ela perde precisa ser dito com a mesma clareza, porque é aqui que nasce o falso conforto. A tomografia nem sempre detecta lesões pancreáticas e intestinais; os sinais de lesão de víscera oca podem ser muito sutis ou ausentes, mesmo nos melhores equipamentos, e há lesões de víscera oca sem pneumoperitônio e sem ar no retroperitônio. Uma tomografia normal em quem tem sinal do cinto e dor abdominal não encerra o caso — encerra o turno da imagem e devolve o caso ao exame seriado.
O ultrassom abdominal completo, e a saída brasileira
Existe um exame intermediário que o ensino brasileiro subutiliza e que resolve boa parte do problema de acesso: a ultrassonografia abdominal completa, feita por radiologista, que além de líquido livre procura lesão visceral. Comparado ao ultrassom de trauma, exige curva de aprendizado maior e um profissional que nem sempre está no plantão; comparado à tomografia, tem baixo custo, é portátil, dispensa contraste e radiação e permite reexaminar o doente quantas vezes for preciso.
O desempenho está medido em população brasileira. Entre os doentes com lesão intra-abdominal submetidos ao exame conforme protocolo, ele identificou 71 das 75 lesões, ou 94,6%. Por órgão, acertou 32 de 33 lesões de baço, 27 de 28 de fígado, 8 de 9 de rim e 2 de 3 de intestino delgado — repare que o único órgão em que a taxa desaba é justamente a víscera oca.
O achado que muda a prática é a combinação. No grupo que preenchia todos os critérios clínicos — estabilidade hemodinâmica, exame neurológico normal, exame torácico normal, exame abdominal e pélvico normais e ausência de lesões distrativas — havia 693 doentes com ultrassonografia abdominal completa normal, e nenhum deles teve lesão intra-abdominal identificada depois. Isso desenha um caminho concreto para o hospital brasileiro sem tomógrafo de plantão: critérios clínicos somados a um ultrassom completo normal selecionam um grupo de risco muito baixo, e o preço de admissão desse caminho é honestidade no exame clínico, não tecnologia.
Duas honestidades sobre esse número. A série é retrospectiva e de um único serviço com protocolo estabelecido, o que significa que ela mede o método nas mãos de quem o pratica todo dia. E os critérios clínicos são cumulativos e implacáveis: basta o paciente ter uma fratura de fêmur para deixar de preenchê-los. O caminho não é um atalho para dispensar imagem em quem está grave — é um método para não tomografar quem não precisa.
A lavagem peritoneal ainda existe, e você precisa saber para quê
A lavagem peritoneal diagnóstica é um procedimento cirúrgico à beira do leito que detecta hemorragia intracavitária. Exige descompressão gástrica e vesical antes, para prevenir complicações, e é por isso que a sondagem gástrica e a vesical aparecem nos adjuntos: a diretriz capixaba as descreve, entre outras funções, como preparo para o lavado. As melhores indicações, segundo o mesmo documento, são o paciente hemodinamicamente instável com trauma abdominal contuso, ou o trauma penetrante com múltiplos orifícios e trajetórias aparentemente tangenciais, quando não houver ultrassonografia rápida disponível.
Os resultados que decidem são dois, e são categóricos. A aspiração de conteúdo gástrico, fibras vegetais ou bile durante o procedimento já indica laparotomia urgente — e note que esse achado diagnostica o que a tomografia mais perde, que é a víscera oca rota. A aspiração de 10 mL ou mais de sangue também requer laparotomia; a nona indicação de laparotomia da diretriz estadual delimita esse critério ao doente hemodinamicamente instável.
Na prática brasileira de hoje o exame é raro, e há razão para isso: é invasivo, tem complicações, não gradua nada e sua sensibilidade excessiva para sangue produz laparotomias não terapêuticas — em quem seria candidato a tratamento conservador, encontrar sangue não muda nada. A decisão deste capítulo é a seguinte: onde há ultrassom, o lavado não tem lugar no trauma fechado; onde não há ultrassom e não há tomógrafo, num paciente instável, ele continua sendo a única forma de responder à pergunta que decide a próxima porta, e a diretriz estadual o mantém por essa exata razão. Conhecer o critério de 10 mL e o significado do conteúdo entérico é obrigação do interno, mesmo que ele nunca faça o procedimento.
O laboratório: o que ele acrescenta, e o que ele nunca vai fazer
Nenhum exame de sangue diagnostica lesão abdominal. O que eles fazem é levantar suspeita em quem tem imagem inicialmente tranquilizadora, e o protocolo do serviço da Santa Casa é explícito quanto a isso: leucograma, amilase sérica e gasometria arterial são solicitados conforme a gravidade, e leucocitose, hiperamilasemia e acidose metabólica sugerem lesões que eventualmente não tenham sido identificadas pelos exames de imagem. O limiar que esse mesmo protocolo usa para a acidose é um déficit de base a partir de 6 mEq/L.
A hemoglobina da admissão é o exame mais mal interpretado da lista. Ela não cai proporcionalmente ao sangue perdido nas primeiras horas, porque o paciente perde sangue inteiro e ainda não se hemodiluiu: um valor normal na chegada não afasta hemorragia. O valor da hemoglobina não está no número isolado, e sim na série — o que interessa é a curva, e ela é o instrumento central do tratamento sem operação.
Um exame precisa entrar na primeira punção e quase sempre não entra: tipagem sanguínea com prova cruzada. O tempo entre decidir transfundir e ter a bolsa na mão é gasto quase todo em tipagem, e esse tempo pode ser pago adiantado. Na gestante, a tipagem tem uma consequência a mais, que é a indicação de imunoglobulina anti-D. E o coagulograma como gatilho para tratar a coagulopatia do trauma é engano de raciocínio, pelas razões expostas no capítulo de choque hemorrágico no trauma.
O que não pedir, e quanto custa pedir
Tomografia no instável é o erro caro deste capítulo, e é caro em minutos. O trajeto tira o paciente do monitor, da equipe e do carrinho de ressuscitação, e nenhuma imagem compensa uma deterioração no corredor. Quando a vontade de tomografar aparecer num paciente que já preenche indicação de laparotomia, o que ela está pedindo não é informação: é adiamento.
Radiografia de abdome no trauma fechado é quase sempre exame perdido. Ela não vê órgão sólido, não vê líquido livre com confiabilidade, e o pneumoperitônio que ela poderia mostrar é achado tardio e pouco sensível na perfuração traumática. As radiografias que têm lugar na sala são a de tórax e a de bacia, e o que cada uma responde pertence ao capítulo de atendimento inicial.
Ausculta abdominal para decidir conduta é tempo gasto sem retorno: o protocolo do SAMU diz, em uma linha, que a ausculta de ruídos hidroaéreos não é útil no trauma abdominal fechado. Isso não significa não examinar — significa que a informação está na inspeção, na percussão e na palpação, e no que muda entre um exame e o seguinte.
Palpação profunda repetida diante de evidência franca de lesão é erro com dano: o mesmo protocolo orienta evitá-la, porque pode aumentar hemorragias e piorar outras lesões. A mesma lógica vale, com mais força, para a manobra de estabilidade do anel pélvico. Informação que já foi obtida não precisa ser obtida de novo; o dano, sim, se repete.
Toque retal e vaginal de rotina merece uma decisão explícita, porque a diretriz estadual que estrutura este capítulo manda realizá-los em todos os politraumatizados com trauma maior. A régua adotada aqui é mais estreita, e o critério é o mesmo que vale para qualquer exame: ele muda o que eu vou fazer? Muda em três situações — sangramento pelo reto após trauma penetrante, que é uma das indicações de laparotomia; suspeita de lesão de uretra antes de passar a sonda vesical; e avaliação do tônus e da sensibilidade perineal na suspeita de lesão medular. Fora delas, o exame não altera conduta no trauma fechado, é desconfortável, é invasivo para um paciente que muitas vezes não pode consentir, e produz um achado difícil de reproduzir entre examinadores. Quando indicado, faça uma vez, com quem acompanhe, e registre.
Antiemético na suspeita de abdome agudo cirúrgico está expressamente vedado pelo protocolo de manejo da dor do SAMU, junto com choque, rebaixamento de consciência e suspeita de hipertensão intracraniana. É um daqueles itens que ninguém decorou e que aparece na prescrição por reflexo.
O que existe no SUS, e o que muda quando não existe
Ultrassom existe em praticamente toda porta de urgência do país; ultrassonografista treinado em plantão, tomógrafo funcionando de madrugada, cirurgião de sobreaviso, banco de sangue com estoque e leito monitorizado, não. Isso não diminui a responsabilidade do interno: desloca a pergunta.
Onde não há tomógrafo, o tratamento sem operação de lesão de órgão sólido não deve ser iniciado, porque falta a informação que o torna seguro e falta a estrutura que o sustenta. O critério publicado é claro: o tratamento não operatório é factível em serviços que disponham de cirurgião em tempo integral, banco de sangue, acesso fácil a métodos de imagem — obrigatoriamente tomografia — e terapia intensiva; e não é recomendado se a instituição for incapaz de acompanhar o paciente de forma seriada e de oferecer laparotomia de emergência nas vinte e quatro horas do dia. Um hospital que não tem isso não tem 'conduta conservadora': tem paciente aguardando transferência.
Onde não há cirurgião nem centro cirúrgico, o exame que decide o destino é o telefone, e o acionamento da regulação é a intervenção, não a burocracia. A regra da diretriz estadual é a mesma para todos os cenários: estabilizar primeiro, transferir depois, e não gastar tempo com imagem que atrase o transporte.
A pergunta que fecha o bloco, e que deve preceder qualquer pedido: este exame muda o que eu vou fazer nos próximos trinta minutos, aqui, com o que este hospital tem? Se muda, peça agora. Se não muda, ele não é urgente — e se ele não pode ser feito aqui, o que muda a conduta não é o exame, é a transferência.
Duas trilhas, quatro casas, uma pergunta por vez
Estabilidade é uma condição clínica sustentada, não um valor isolado de pressão ou hemoglobina. O tratamento não operatório exige estrutura para reconhecer e tratar falha.
- 1Avaliar e tratar ameaças pelo xABCDE; colher exame abdominal inicial quando isso não atrasar intervenções. Procurar má perfusão mesmo com PAS acima de 90.
- 2No paciente instável, ressuscitar e procurar foco em paralelo. eFAST pode orientar rapidamente, mas exame negativo não exclui sangramento abdominal, retroperitoneal ou lesão intestinal.
- 3Instabilidade com evidência de hemorragia abdominal ou peritonite exige avaliação cirúrgica e controle urgente; não transportar para TC se isso comprometer a ressuscitação ou atrasar hemostasia.
- 4Com estabilidade sustentada, realizar TC com contraste quando indicada e integrar mecanismo, exame e achados, incluindo sinais do cinto e suspeita de lesão mesentérica.
- 5Distinguir sinais tomográficos mais específicos de lesão intestinal, como defeito de parede ou extravasamento de conteúdo/contraste, de sinais indiretos, como líquido livre e espessamento. Os indiretos exigem vigilância e avaliação conjunta, não laparotomia automática.
- 6Se achados forem equívocos, manter observação cirúrgica e considerar TC repetida conforme evolução, sem esperar o prazo planejado diante de piora ou peritonite.
- 7Só manter tratamento não operatório com monitorização, exames seriados, sangue, equipe e acesso rápido a intervenção ou transferência acordada.
- 8Preparar alta com restrições individualizadas, sinais de retorno, seguimento e compreensão do paciente; não usar uma queda pequena da hemoglobina como definição isolada de segurança.
Sem líquido livre
O recesso entre fígado e rim está colabado. Não afasta lesão: um em cada quatro hemoperitônios escapa deste exame, e o volume pode ainda não ter se acumulado. No estável, manda observar e reexaminar; no instável, manda procurar outra fonte e repetir.
Lâmina de líquido
Uma faixa fina anecoica separando as duas superfícies. No instável, já basta para decidir a sala. No estável, é indicação de tomografia — porque a partir daqui a pergunta deixa de ser 'tem sangue?' e passa a ser 'de qual órgão, e quanto?'.
Volume moderado
Coleção evidente, que costuma aparecer em mais de uma janela. No paciente que ainda está estável, muda o tom da vigilância: hemoperitônio maior é preditor conhecido de falha do tratamento não operatório, e desloca o leito para a terapia intensiva.
Volume grande
Sangue nas goteiras parietocólicas e na pelve, além do recesso hepatorrenal. Associado a lesão de alto grau, o risco de ressangramento sobe muito, e o tratamento sem operação passa a exigir angiografia disponível e a discussão franca sobre operar de uma vez.
| Situação | O que ela significa | Próxima ação | O que não fazer |
|---|---|---|---|
| Instável, líquido livre presente | Hemorragia intraperitoneal ativa; é a primeira das indicações de laparotomia de emergência da diretriz estadual | Centro cirúrgico agora, com sangue acionado no mesmo minuto | Tomografia, segundo ultrassom, ou mais uma carga de cristaloide antes de acionar a sala |
| Instável, sem líquido livre | A instabilidade tem outra fonte, ou o exame foi feito cedo demais; o retroperitônio e a bacia não aparecem no ultrassom | Procurar outro diagnóstico para a instabilidade e repetir o ultrassom com hora anotada | Assumir que o abdome está descartado e parar de procurar |
| Estável, líquido livre presente | Há sangue e há tempo; a pergunta passa a ser qual órgão, qual extensão e se há sangramento arterial ativo | Tomografia de abdome e pelve com contraste, e decisão de conservador ou operação a partir dela | Ir direto à laparotomia por causa do líquido; ficar só observando sem imagem |
| Estável, sem líquido livre | Grupo de risco baixo, não risco zero — sobretudo se o mecanismo foi de desaceleração | Observar com exame seriado e hora anotada; imagem se o mecanismo for relevante ou o exame não for confiável | Dar alta pelo resultado do ultrassom; confundir observar com liberar |
Gatilhos de laparotomia que aparecem no trauma fechado
| Gatilho | De onde vem a informação | O que ele reconhece |
|---|---|---|
| Hipotensão com ultrassom de trauma positivo, ou evidência clínica de sangramento intraperitoneal sem outra fonte | Beira do leito: monitor mais ultrassom | Hemorragia intracavitária que não vai parar sozinha |
| Peritonite | Exame físico seriado | Conteúdo entérico ou bile no peritônio; costuma demorar horas a aparecer |
| Ar livre na cavidade ou ar no retroperitônio | Tomografia | Perfuração de víscera oca — quando presente, é específico; quando ausente, não afasta |
| Sinais de rotura de hemidiafragma | Tomografia, radiografia de tórax | Solução de continuidade que não fecha sozinha e estrangula víscera depois |
| Rotura do trato gastrointestinal, lesão de pedículo renal ou lesão grave de parênquima visceral na tomografia contrastada | Tomografia | O que a imagem já resolveu: não há o que observar |
| Aspiração de conteúdo gastrointestinal, fibras vegetais ou bile na lavagem peritoneal | Lavagem peritoneal | Víscera oca rota — o achado que a tomografia mais perde |
| Aspiração de 10 mL ou mais de sangue na lavagem peritoneal em paciente instável | Lavagem peritoneal | Hemoperitônio significativo onde não há ultrassom |
| Falha do tratamento não operatório | Reavaliação seriada | Sangramento que continuou apesar da escolha inicial de observar |
O que cada exame responde — e o que ele nunca vai responder
| Exame | Responde | Não responde | Quando pedir |
|---|---|---|---|
| Ultrassom de trauma, à beira do leito | Há líquido livre nas quatro janelas? | De qual órgão, qual grau, o retroperitônio, a pelve óssea; e negativo não afasta lesão | Em todo instável, na própria sala; e como triagem no estável, sabendo que ele não encerra o caso |
| Ultrassonografia abdominal completa, por radiologista | Há líquido livre e há lesão visceral? | Lesão de víscera oca com confiabilidade; retroperitônio com a mesma acurácia da tomografia | No estável, sobretudo onde a tomografia é escassa, somada aos critérios clínicos |
| Tomografia de abdome e pelve com contraste | Qual órgão, qual grau, quanto sangue, há extravasamento de contraste, o retroperitônio e a bacia | Lesão de pâncreas e de intestino com segurança; sinais podem ser sutis ou ausentes | Somente no estável, e nunca quando atrasar a transferência |
| Lavagem peritoneal diagnóstica | Há sangue, ou há conteúdo entérico e bile, na cavidade? | Qual órgão, qual grau, o retroperitônio; e é sensível demais para quem seria candidato a conservador | No instável, onde não há ultrassom nem tomógrafo |
| Radiografia de abdome | Quase nada, no trauma fechado | Órgão sólido, líquido livre com confiabilidade; e o pneumoperitônio é achado tardio e pouco sensível | Não pedir por causa do abdome; tórax e bacia têm indicação própria na sala |
Tratamento não operatório: o que o serviço precisa ter, e o que o paciente precisa ser
| Exigência | O que significa na prática | Se não houver |
|---|---|---|
| Cirurgião disponível em tempo integral | Alguém que possa indicar e realizar laparotomia a qualquer hora do dia ou da noite | Não iniciar conservador; acionar regulação e transferir |
| Centro cirúrgico disponível nas 24 horas | Sala que possa ser aberta em minutos, sem depender de escala eletiva | Não iniciar conservador |
| Banco de sangue com estoque | Hemocomponente que chegue no tempo em que a falha acontece | Não iniciar conservador |
| Tomografia acessível | Obrigatória para graduar a lesão e ver extravasamento de contraste | Sem grau, conservador é aposta; transferir |
| Terapia intensiva ou leito monitorizado | Onde o paciente fica nas primeiras 24 a 48 horas, com reavaliação seriada de verdade | Não iniciar conservador |
| Estabilidade hemodinâmica após a reanimação inicial | Sistólica acima de 90 mmHg e sem necessidade de transfusão na sala de urgência | É indicação cirúrgica, não candidato a observação |
| Ausência de peritonite | Exame abdominal sem defesa involuntária nem descompressão dolorosa | Laparotomia |
| Ausência de sinal de lesão de víscera oca na tomografia | Sem pneumoperitônio, sem ar retroperitoneal, sem achado sugestivo de lesão intestinal | Laparotomia |
Preditores de falha do tratamento não operatório do baço
| Preditor | Força da evidência | O que fazer com a informação |
|---|---|---|
| Grau da lesão de III a V na escala da associação americana | Preditor independente, com evidência forte nas guias internacionais | Não contraindica observar; obriga a monitorizar de perto e a ter angiografia em mente |
| Idade acima de 55 anos | Preditor independente, com evidência forte | Rebaixar o limiar para intervir; discutir precocemente com o cirurgião |
| Escore de gravidade da lesão igual ou acima de 25 | Preditor independente | Paciente politraumatizado — vigilância em terapia intensiva |
| Hemoperitônio volumoso | Preditor consistente, sem definição de volume na literatura | Sinal de alerta; leito monitorizado e reavaliação mais frequente |
| Extravasamento de contraste na admissão | Preditor consistente | É o achado que mais aproxima da angioembolização; ver as divergências |
| Hipotensão sistólica na admissão | Preditor consistente | Rever se este paciente é mesmo candidato a observação |
| Transfusão de mais de um concentrado de hemácias | Preditor consistente | Contar as bolsas: sangue que sai é sangue que ainda está saindo |
| Lesão hepática associada e lesão cerebral traumática | Preditor descrito em revisões | Risco somado; a lesão cerebral também tira do paciente o exame abdominal |
Ultrassom normal deve ser interpretado junto ao exame, mecanismo e evolução. O grupo de risco muito baixo descrito nas séries exige todos os critérios clínicos apresentados e ultrassonografia completa normal. Quem não preenche o conjunto precisa de avaliação própria, mesmo com exame de imagem inicial sem alterações.
Na série de exclusão de lesões, o texto e o resumo relatam duas lesões em 2.031 pacientes, enquanto a tabela registra quatro. Isso corresponde a 0,1%–0,2%, faixa adotada neste capítulo. A diferença não altera a mensagem: o risco é baixo no grupo selecionado, mas não é zero.
No estudo de lesões abdominais graves, o resumo e a tabela divergem quanto à significância estatística da frequência cardíaca na análise univariada. Essa inconsistência limita a interpretação do achado isolado. Para o atendimento, integre a frequência cardíaca à perfusão, à pressão e à resposta à ressuscitação.
Leia os valores de hemoglobina das séries citadas em g/dL. Há erros de unidade nos textos originais: o limiar de 8 e a variação de 0,5 são expressos em g/dL neste capítulo. Confira sempre valor e unidade antes de transportar um critério de uma tabela para o atendimento.
Na diretriz capixaba, o algoritmo de trauma abdominal fechado está no Fluxo 02, página 22, como imagem. Consulte a página para visualizar a sequência completa.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a dos dois pacientes da colisão: a passageira de 36 anos, respondedora transitória com abdome distendido, e o motorista de 41 anos, estável, com marca de cinto e dor no ombro esquerdo. Os dois entram no mesmo minuto zero e se separam no minuto cinco. A partir daí, cada marco traz o que se faz e por quê — e quando há dose, ela vem com a fonte que a sustenta.
Minuto 0 a 5 — a bifurcação
Durante a avaliação primária, exponha o abdome e avalie fisiologia e resposta às intervenções. Pressão abaixo de 90 é sinal de alerta, mas má perfusão com pressão maior, necessidade crescente de suporte e melhora apenas transitória também indicam risco. Não é necessário administrar um volume fixo antes de reconhecer instabilidade. Procure equimoses, sinal do cinto, distensão e dor e registre o exame e o horário, antes de sedação quando possível sem atrasar cuidados vitais. A decisão combina xABCDE, mecanismo e procura simultânea de focos de hemorragia.
Prescrição- Oxigênio suplementar por máscara facial para manter saturação igual ou acima de 94% (SAMU 192, protocolo AT17)
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com coleta na mesma punção: tipagem sanguínea com prova cruzada, hemograma, amilase, função renal, eletrólitos e gasometria arterial (SAMU 192, protocolo AT17; protocolo de avaliação objetiva do abdome da Santa Casa de São Paulo)
- Exposição completa com manta térmica em seguida, e registro escrito do exame abdominal com a hora — inspeção, percussão e palpação única (SAMU 192, protocolos AT1 e AT17)
- Evitar palpação profunda repetida diante de evidência franca de lesão: ela pode aumentar hemorragias e piorar outras lesões (SAMU 192, protocolo AT17)
- Não auscultar para decidir: a ausculta de ruídos hidroaéreos não é útil no trauma abdominal fechado (SAMU 192, protocolo AT17)
Trilha do instável · minuto 5 a 20 — a sala, não o corredor
A passageira responde ao volume e volta a cair: é respondedora transitória, e isso significa sangramento ativo agora. O ultrassom à beira do leito mostra líquido livre no espaço hepatorrenal. Está fechada a primeira das indicações de laparotomia de emergência da diretriz capixaba — trauma abdominal contuso com hipotensão e ultrassom positivo, sem outra fonte. Daqui em diante o interno tem três tarefas e nenhuma delas é pedir exame: dizer em voz alta a frase que muda o plano, acionar quem precisa ser acionado e não deixar o paciente sair da sala. Como se repõe volume e sangue, o gatilho transfusional e o protocolo de transfusão maciça são do capítulo de choque hemorrágico no trauma; a decisão de operar é deste.
Prescrição- Encaminhamento imediato ao centro cirúrgico pela combinação de trauma abdominal contuso, ultrassom de trauma positivo e instabilidade hemodinâmica com resposta transitória ao volume (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018, Quadro 13)
- Acionamento simultâneo, e não sequencial, do cirurgião de sobreaviso, do centro cirúrgico e da agência transfusional
- Reposição volêmica conforme o protocolo de choque, com meta de sistólica entre 80 e 90 mmHg na ausência de traumatismo cranioencefálico, para não desalojar coágulo (SAMU 192, protocolos AT4 e AT17)
- Nenhuma tomografia antes da sala: a diretriz estadual reserva a tomografia ao paciente hemodinamicamente estável em quem não haja indicação aparente de laparotomia (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Sonda vesical de demora para medir diurese e sonda gástrica quando indicadas — evitar a sondagem vesical na suspeita de lesão de uretra e usar a via orogástrica na suspeita de fratura de base de crânio (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018, Quadro 12)
Trilha do estável · minuto 5 a 40 — a imagem, com analgesia
O motorista está estável e assim permanece. Ele tem marca de cinto, dor à palpação e dor referida no ombro esquerdo — três coisas que, somadas ao mecanismo de desaceleração, tiram esse paciente da observação simples. A conduta é tomografia de abdome e pelve com contraste, e ela é permitida porque ele tolera o corredor. Analgesia entra antes da imagem, e não depois: o medo de que o analgésico apague o abdome não sobrevive ao que o exame seriado realmente acompanha, que não é a nota da dor e sim o aparecimento de defesa localizada, a mudança do perímetro e a curva hemodinâmica. Paciente com dor não colabora com o exame, e exame sem colaboração é exame perdido.
Prescrição- Tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso, no paciente hemodinamicamente estável sem indicação aparente de laparotomia, desde que não atrase transferência (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Dor leve, de 1 a 4 na escala numérica: dipirona sódica 1 g por via endovenosa — 2 mL da solução de 500 mg/mL — ou paracetamol 500 mg por via oral (SAMU 192, protocolo AC37)
- Dor moderada, de 5 a 7: analgésico simples associado a tramadol 100 mg por via endovenosa lenta — 2 mL da solução de 50 mg/mL (SAMU 192, protocolo AC37)
- Dor intensa, de 8 a 10: analgésico simples associado a sulfato de morfina 2 a 10 mg por via endovenosa para 70 kg, ou fentanil 100 a 200 microgramas por via endovenosa — 2 a 4 mL da solução de 50 mcg/mL. Confira a apresentação da morfina antes de aspirar: existem ampolas de 1 mg/mL e de 10 mg/mL, e 1 mL da segunda é a dose máxima inteira (SAMU 192, protocolo AC37)
- Analgesia criteriosa se sistólica abaixo de 90 mmHg, e opioide sempre em infusão lenta, porque a infusão rápida provoca rigidez torácica e laringoespasmo (SAMU 192, protocolo AC37)
- Nenhum antiemético enquanto houver suspeita de abdome agudo cirúrgico — a vedação é expressa, e vale junto com choque, rebaixamento de consciência e suspeita de hipertensão intracraniana (SAMU 192, protocolo AC37)
- Cautela com dipirona no paciente alcoolizado, situação frequente neste cenário, e no portador de deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (SAMU 192, observações dos protocolos de manejo da dor)
Hora 1 — a decisão de não operar, e o que ela obriga
A tomografia do motorista mostra laceração esplênica com hemoperitônio moderado, sem extravasamento de contraste, sem pneumoperitônio e sem sinal de lesão intestinal. Ele preenche os critérios para tratamento não operatório — e agora vem a parte que quase ninguém ensina: essa decisão não é 'deixar quieto'. É assumir um regime de vigilância cujo objetivo é detectar a falha antes que ela vire instabilidade. Antes de prometer conservador ao paciente e à família, faça a checagem institucional: este hospital tem cirurgião, centro cirúrgico, sangue, tomógrafo e leito monitorizado nas vinte e quatro horas? Se a resposta a qualquer uma for não, a conduta correta não é observar aqui — é acionar a regulação. Prometer conservador sem ter a estrutura é pior que operar.
Prescrição- Internação em terapia intensiva ou leito monitorizado, com o cirurgião ciente e nominalmente responsável (protocolo de tratamento não operatório da Disciplina de Cirurgia do Trauma da Unicamp)
- Jejum mantido enquanto a laparotomia for possibilidade real nas próximas horas
- Hemoglobina e hematócrito a cada 6 horas nas primeiras 24 horas, ou mais frequentemente diante de qualquer sinal de piora clínica (protocolo da Unicamp)
- Gasometria arterial a cada 12 horas nas primeiras 24 horas nas lesões acima do grau II, ou com maior frequência diante de deterioração (protocolo da Unicamp)
- Exame abdominal seriado registrado com hora, de 4 em 4 a 6 em 6 horas, de preferência pelo mesmo examinador
- Nada de arteriografia por reflexo: o extravasamento de contraste isolado é indicação controversa e a decisão é do cirurgião com o radiologista intervencionista, caso a caso (ver as divergências)
Em paralelo — o que muda em quem não é o paciente padrão
Três situações mudam a prescrição sem mudar o fluxo, e as três são esquecidas justamente porque não pertencem ao raciocínio cirúrgico. A gestante traumatizada tem uma lesão a mais para procurar e uma medicação a mais para prescrever. O paciente trazido por agressão tem uma obrigação legal que faz parte do atendimento. E o paciente que precisa de transferência tem uma única conduta correta, que não envolve nenhum exame novo.
Prescrição- Gestante com trauma abdominal: procurar descolamento prematuro de placenta mesmo com exame materno tranquilizador — sangramento vaginal, contração, hipertonia uterina e alteração da vitalidade fetal. O trauma consta entre os fatores de risco de descolamento na gestação atual (Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022)
- Gestante Rh negativo não sensibilizada, com trauma abdominal: imunoglobulina humana anti-D 300 microgramas, dose única, por via intramuscular — 2 mL da seringa preenchida de 150 microgramas por mL —, o mais cedo possível e dentro de 72 horas do evento. Passado esse prazo o produto não deve ser negado, e sim administrado o quanto antes. Mantenha a paciente em observação por pelo menos 20 minutos após a aplicação. A via passa a ser intravenosa quando há distúrbio hemorrágico, situação em que a injeção intramuscular é contraindicada, e deve ser considerada quando o índice de massa corporal é igual ou maior que 30 (bula profissional aprovada pela Anvisa em 2024; Ministério da Saúde, Manual de gestação de alto risco, 2022)
- Trauma decorrente de situação de violência, sugestiva ou confirmada: notificação na ficha de violência interpessoal e autoprovocada à vigilância epidemiológica local, com cópia conservada no prontuário (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
- Serviço sem cirurgião, sem centro cirúrgico ou sem tomógrafo: estabilizar e acionar a regulação, sem gastar tempo com imagem que atrase o transporte (Diretrizes Clínicas do Espírito Santo, 2018)
Hora 4 a 24 — a janela em que a falha mais acontece
É agora que o tratamento não operatório se prova ou se desfaz, e o dado que organiza a vigilância é este: cerca de 40% das falhas ocorrem entre a quarta e a oitava hora após a admissão. Não é uma curva plana — é uma janela concentrada, e ela cai justamente no intervalo em que a sala esvazia, o plantão troca e o paciente 'estável' desce de prioridade. Quem passa o caso precisa passar a janela junto. O que se procura é a curva, não o valor isolado: hemoglobina que cai de forma progressiva, taquicardia que se instala, dor que muda de caráter ou de lugar, abdome que endurece, diurese que despenca.
Prescrição- Passagem de plantão nomeando o diagnóstico, o grau da lesão, a decisão tomada, os critérios de falha e o telefone do cirurgião responsável
- Hemoglobina seriada em frequência definida pela gravidade e evolução, interpretada com perfusão, exame, necessidade de reposição e imagem. Duas medidas próximas não provam hemostasia nem estabilidade para alta.
- Contar as bolsas transfundidas e escrever o número na evolução: transfusão de mais de um concentrado de hemácias é preditor reconhecido de falha (revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021)
- Reabrir o fluxo na primeira pergunta diante de instabilidade hemodinâmica, queda progressiva de hemoglobina com transfusão recorrente ou sinais clínicos de peritonite — são os três critérios de falha do protocolo publicado (protocolo da Unicamp)
Dia 2 a 3 — o grosso da falha já passou
Entre 85% e 95% das falhas do tratamento não operatório ocorrem nos três primeiros dias de observação, e monitorizar por dois dias adicionais acrescenta pouco mais de um ponto percentual de detecção. Traduzindo: o terceiro dia é o divisor. A partir dele, o paciente que se manteve estável, com hematimetria estável e abdome que não endurece, pode sair da vigilância intensiva. É também quando se começa a desfazer o que foi imposto pela cautela — dieta, mobilização, profilaxia de trombose.
Prescrição- Reintrodução de dieta quando o abdome estiver benigno e a laparotomia tiver deixado de ser possibilidade próxima
- Deambulação precoce guiada pela estabilidade hematimétrica, e não por um número fixo de dias de repouso: o regime baseado em estabilidade reduziu o tempo de internação sem aumentar a falha (revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021)
- Profilaxia farmacológica de tromboembolismo venoso iniciada entre 48 e 72 horas da admissão, sem aumento demonstrado de falha do tratamento não operatório e com redução de trombose venosa profunda e de embolia pulmonar quando introduzida em até 48 horas (revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021)
- Agente e dose seguem o protocolo institucional de tromboprofilaxia; no adulto sem contraindicação, o esquema padrão é enoxaparina sódica 40 mg por via subcutânea, uma vez ao dia — a estratificação de risco e o ajuste por função renal seguem o capítulo de prescrição de internação
- Nenhuma tomografia de controle de rotina: a indicação de nova imagem deve nascer de piora clínica, e o seguimento por imagem de rotina tem vantagem terapêutica limitada (revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021)
Dia 3 a 5 — a alta, e o que ela precisa levar escrito
A alta hospitalar não tem número consagrado na literatura, e o intervalo praticado deriva do momento em que a falha ocorre: observar de três a cinco dias identifica até 97% delas. Na série brasileira de lesões esplênicas de grau IV conduzidas sem operação, a média de internação foi de 7,1 dias. O que precisa estar resolvido antes da alta não é o calendário, e sim três coisas: a hematimetria estabilizada, o abdome benigno em exames seriados e a garantia de que o paciente consegue voltar. Esse último item é o mais frágil no Brasil, e é onde a orientação escrita vale mais que o dia de internação.
Prescrição- Alta com orientação escrita de retorno imediato diante de dor abdominal que piora, dor no ombro, tontura ao levantar, palidez, febre ou desmaio
- Restrição de esforço físico e de atividade de contato, com prazo definido por escrito e combinado com o cirurgião que acompanhou o caso
- Retorno ambulatorial marcado, com o nome do serviço e a data no papel — não 'procure sua unidade'
- Vacinação após esplenectomia, quando ela tiver ocorrido: pneumococo, Haemophilus influenzae tipo b e meningococo, além da vacinação anual contra influenza, aplicadas em geral duas semanas após o procedimento. Após angioembolização isolada não há hoje evidência para recomendar vacinação de rotina, porque a função esplênica se mostrou preservada na maioria dos estudos (revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021)
Como saber se está funcionando
Tratamento não operatório não é ausência de tratamento; é um regime de vigilância com parâmetro, frequência e critério de saída escritos antes de começar. A diferença entre observar e abandonar é exatamente esta tabela, e ela é a parte do capítulo que o interno executa sozinho de madrugada.
Duas regras governam a leitura de tudo o que vem abaixo. A primeira é que o que informa é a série, não o valor: uma hemoglobina de 11 g/dL não diz nada, e uma hemoglobina que foi de 13 para 11 e depois para 9,4 em doze horas diz tudo. A segunda é o instrumento herdado do capítulo de apendicite aguda — o exame seriado só funciona quando alguém registra, com hora, o que examinou; sem registro, a segunda medida não tem com o que ser comparada e a vigilância vira acaso.
Esperado: Estabilidade sem novas cargas de volume: sistólica mantida acima de 90 mmHg e frequência sem tendência de subida ao longo das medidas
Se não melhora: Instabilidade hemodinâmica é critério publicado de falha. Reabra o fluxo na primeira pergunta: ultrassom à beira do leito agora, cirurgião chamado agora, sangue acionado agora. Não é hora de nova tomografia.
Esperado: Tendência hematimétrica compatível com evolução favorável, sem deterioração clínica ou necessidade crescente de suporte; pequenas diferenças entre duas dosagens não definem estabilidade isoladamente.
Se não melhora: Queda progressiva com necessidade recorrente de transfusão é critério de falha. Conte as bolsas e escreva o número: mais de um concentrado de hemácias já é preditor reconhecido de falha, e transfundir para manter a conduta é trocar o problema de nome.
Esperado: Abdome que permanece depressível, com dor estável ou em queda e sem defesa involuntária nova
Se não melhora: Sinal clínico de peritonite é critério de falha e indicação de laparotomia — e é o sinal que mais tarda a aparecer na lesão de víscera oca. Dor que muda de caráter, migra ou se generaliza vale como piora, mesmo com hemodinâmica intacta.
Esperado: Perímetro estável; distensão que não progride
Se não melhora: Aumento progressivo do perímetro com queda de hemoglobina é acúmulo de sangue em curso. Não espere a pressão cair para agir: no jovem ela cai por último.
Esperado: Débito urinário mantido, sem tendência de queda ao longo das horas
Se não melhora: Queda do débito com taquicardia é hipoperfusão, e no paciente em observação ela costuma preceder a queda de pressão. Hematúria macroscópica nova pede reavaliação da lesão renal e conversa com o cirurgião.
Esperado: Correção progressiva da acidose metabólica; déficit de base voltando em direção ao normal
Se não melhora: Acidose metabólica que não corrige, ou piora, sugere hipoperfusão mantida ou lesão não identificada — um déficit de base a partir de 6 mEq/L é usado como sinalizador de lesão que a imagem não pegou.
Esperado: Sem febre nas primeiras 48 horas; leucocitose que não escala
Se não melhora: Febre nova depois de 24 a 48 horas, com leucocitose em subida e abdome mais doloroso, é a apresentação da lesão de víscera oca que passou pela tomografia. Hiperamilasemia sugere lesão pancreática ou duodenal — reavaliar com imagem e com o cirurgião, não observar mais um turno.
Esperado: Dor controlada com o esquema prescrito, com necessidade decrescente de resgate
Se não melhora: Necessidade crescente de analgésico é sinal de piora, não de subdosagem — anote a dose e o horário justamente para poder ler essa curva. Dor referida no ombro que aparece ou se intensifica sugere sangue novo em contato com o diafragma.
Esperado: Vigilância mais densa exatamente nesse intervalo, e passagem de plantão que transmita a janela junto com o diagnóstico
Se não melhora: Cerca de 40% das falhas ocorrem entre a quarta e a oitava hora, e de 85% a 95% até o terceiro dia. Se o plantão trocou nesse intervalo sem transmitir a janela, o risco não sumiu — só ficou sem dono.
Onde o erro machuca
O dano: O trajeto tira o doente do monitor, da equipe e do carrinho de ressuscitação, e a informação que ele traz não muda a conduta: quem já preenche indicação de laparotomia vai operar independentemente do órgão. O tempo gasto é subtraído da única janela em que a hemorragia ainda podia ser contida.
Como pegar a tempo: Fixe a regra de entrada da diretriz estadual: tomografia só no hemodinamicamente estável em quem não haja indicação aparente de laparotomia. E treine a frase que resolve o impasse na hora — este paciente tem indicação de laparotomia, não de tomografia.
O dano: Um em cada quatro hemoperitônios escapa do exame, e a acurácia medida fica entre 60% e 80%. O falso-negativo tem causas banais e presentes na porta: pouco líquido no momento do exame, lesão retroperitoneal, gás, obesidade, bexiga vazia. Alta indevida com lesão em curso é a origem clássica da morte evitável por lesão abdominal.
Como pegar a tempo: Trate o exame como assimétrico: positivo decide, negativo não afasta. No instável, repita e procure outra fonte. No estável de mecanismo relevante, o negativo autoriza observar, nunca liberar — e a decisão de liberar exige critérios clínicos somados, não um exame.
O dano: Nesses pacientes o exame não é um exame: é um dado ausente com aparência de dado normal. Até 40% dos hemoperitônios já não produzem sinal significativo em paciente lúcido; no paciente que não responde, a taxa de sinal é ainda menor, e a lesão só se anuncia quando a hemodinâmica cede.
Como pegar a tempo: Faça a lista mental sempre que escrever 'abdome sem alterações': ele está lúcido, sóbrio, sem lesão medular, sem sedação e sem lesão distrativa? Se faltar qualquer item, quem não pode ser examinado precisa ser fotografado.
O dano: Os sinais de lesão de víscera oca podem ser sutis ou ausentes mesmo em bons aparelhos, e há lesão de víscera oca sem pneumoperitônio e sem ar retroperitoneal. A perfuração intestinal que passa se apresenta 12 a 48 horas depois como febre, leucocitose e peritonite — e aí já custou.
Como pegar a tempo: Deixe explícito na evolução que a imagem foi normal e que o paciente segue em exame seriado por mecanismo de desaceleração. Imagem normal não encerra o caso; devolve o caso ao exame físico.
O dano: Sem leito monitorizado, sem hemograma seriado, sem exame abdominal registrado e sem cirurgião nominalmente responsável, a falha do tratamento não operatório não é detectada — é sofrida. E a falha detectada tarde tem mortalidade maior que a operação feita no tempo certo.
Como pegar a tempo: Antes de dizer a palavra conservador ao paciente, responda por escrito: onde ele fica, o que se mede, de quanto em quanto tempo, quem é o cirurgião e quais são os três critérios de falha. Se o serviço não tem cirurgião, sala, sangue, tomógrafo e leito monitorizado nas 24 horas, a conduta é acionar a regulação.
O dano: O protocolo do SAMU orienta evitar a palpação profunda diante de evidência franca de lesão porque ela pode aumentar hemorragias e piorar outras lesões; na bacia, cada compressão desfaz o coágulo em formação no foco de fratura. A informação que a manobra dá uma vez não se repete; o dano, sim.
Como pegar a tempo: Palpe com intenção, uma vez, e anote. Se o achado já está registrado, o próximo examinador lê — não repete. Diante de deformidade visível da bacia, imobilize e não teste.
O dano: O protocolo de manejo da dor do SAMU veda expressamente o antiemético na suspeita de abdome agudo cirúrgico, junto com choque, rebaixamento de consciência e suspeita de hipertensão intracraniana. E qualquer sedação apaga o único instrumento que ainda restava para acompanhar o abdome.
Como pegar a tempo: Analgesia sim, com dose e escala; antiemético não, enquanto a hipótese cirúrgica estiver aberta. E se a sedação for inevitável, examine e registre o abdome nos segundos anteriores à indução.
O dano: Existem apresentações de 1 mg/mL e de 10 mg/mL. Aspirar 1 mL da ampola concentrada acreditando estar dando 1 mg entrega 10 mg — a dose máxima da faixa endovenosa inteira de uma vez, num paciente que pode estar hipovolêmico e cuja hipotensão será atribuída ao sangramento.
Como pegar a tempo: Leia a ampola em voz alta antes de aspirar, converta a dose em mililitros na própria prescrição e faça analgesia criteriosa quando a sistólica estiver abaixo de 90 mmHg, com opioide sempre em infusão lenta.
O dano: A falha do tratamento não operatório acontece majoritariamente nos três primeiros dias, mas não integralmente: observar de três a cinco dias identifica até 97% delas, o que significa que uma parcela se manifesta depois da alta. Um paciente que não sabe o que procurar, ou que não consegue voltar, é um paciente sem rede de segurança.
Como pegar a tempo: Entregue no papel o que obriga a voltar imediatamente — dor que piora, dor no ombro, tontura ao levantar, palidez, febre, desmaio — com a data do retorno e o nome do serviço. E confirme se ele tem como chegar.
O dano: A tipagem não colhida na primeira punção custa minutos exatamente quando eles faltam. Na gestante Rh negativo, o trauma abdominal é evento sensibilizante e a janela da imunoglobulina anti-D é de 72 horas — perdida, não volta. E o trauma por violência não notificado tira a vítima da linha de cuidado e mantém o risco de recidiva.
Como pegar a tempo: Três perguntas na admissão de todo trauma abdominal fechado: colhi tipagem com prova cruzada; ela está grávida e qual o fator Rh; e a causa foi violência interpessoal. As três geram item de prescrição ou documento, e nenhuma delas depende de exame de imagem.
O que dizer ao paciente e à família
Este capítulo tem uma conversa difícil que os outros de trauma não têm: explicar a alguém que a conduta é não operar, e que isso não é descaso. Some a isso a incerteza real das primeiras horas e o fato de que quem escuta acabou de sair de uma colisão, e o resultado é que as palavras precisam ser escolhidas antes, não improvisadas no corredor.
Explicar por que ele vai ficar internado mesmo com os exames 'normais'
“Seus exames de agora não mostraram sangramento, e isso é uma boa notícia. Mas o exame de hoje mostra o momento de hoje: uma lesão pequena pode levar algumas horas para aparecer. Por isso o senhor vai ficar internado, sendo examinado e com exames de sangue repetidos. Não é que a gente ache que tem algo errado; é que o jeito seguro de responder a essa pergunta é com o tempo, e não com mais um exame agora.”
Não diga: Dizer 'deu tudo normal, o senhor está liberado' antes do período de observação. É a frase que produz a alta indevida, e ela costuma ser dita com boa intenção.
Contar que há uma lesão no baço e que o plano é não operar
“A tomografia mostrou uma lesão no baço, com sangue na barriga. Na maior parte das vezes esse tipo de lesão para de sangrar sozinho, e hoje a gente sabe que operar sem necessidade traz mais risco do que benefício. Então o plano é não operar agora — mas isso não quer dizer esperar de braços cruzados. O senhor vai ficar num leito monitorizado, vai colher sangue de seis em seis horas, vai ser examinado de quatro em quatro, e o cirurgião está avisado. Se em algum momento a coisa mudar, a gente opera. A decisão de hoje pode ser revista amanhã, e isso faz parte do plano.”
Não diga: Prometer que não vai operar. O compromisso possível é o de vigiar e decidir junto, não o de um desfecho.
Responder à família quando ainda não se sabe
“Neste momento eu não sei dizer se ele vai precisar de cirurgia. Sei o que já descartei, sei o que estou vigiando e sei quais sinais vão me dizer que a coisa mudou. Vou reavaliar dentro de duas horas e volto a falar com vocês, mesmo que nada tenha mudado — se eu não aparecer, podem me chamar.”
Não diga: Preencher a incerteza com um prognóstico inventado, e prometer um retorno em tempo que você não vai conseguir cumprir.
Consentimento para a laparotomia de urgência
“Ele está perdendo sangue dentro da barriga e a pressão não está se mantendo. A única forma de parar isso é abrir para achar e controlar o ponto que sangra. Não dá para saber com certeza qual órgão é antes de abrir, e existe a possibilidade de precisarmos retirar o baço. Sem a cirurgia o risco de morte é alto, e é agora. Vocês têm alguma pergunta que eu possa responder em dois minutos?”
Não diga: Listar todas as complicações possíveis para se proteger. O consentimento em urgência precisa ser verdadeiro e curto; o detalhamento cabe depois, e a família não vai reter nada agora.
Depois da esplenectomia, o que a pessoa precisa saber para o resto da vida
“Precisamos retirar o baço. O senhor vive bem sem ele, mas o baço ajuda a defender o corpo de alguns tipos de bactéria, e por isso o senhor vai precisar de um conjunto de vacinas, em geral cerca de duas semanas depois da cirurgia, e da vacina da gripe todo ano. E há uma regra que vale para sempre: febre em quem não tem baço é motivo para procurar atendimento no mesmo dia, não para esperar passar.”
Não diga: Entregar a orientação só de boca, no dia da alta. Ela precisa estar escrita, com as vacinas nomeadas e a data da primeira.
Quando a causa foi agressão
“Pelo que o senhor descreveu, essa lesão veio de uma agressão. Isso é um problema de saúde, e a gente registra na ficha própria e informa à vigilância, como é feito com qualquer causa de adoecimento. Não é denúncia à polícia, e o boletim de ocorrência é uma escolha sua — se quiser fazer, eu explico como. O que eu preciso saber agora é se o senhor tem para onde ir com segurança quando sair daqui.”
Não diga: Tratar a notificação como assunto de secretaria, ou informar o paciente de que 'a polícia vai ser chamada'. A notificação epidemiológica é obrigatória e não é boletim de ocorrência; confundir as duas cala o paciente.
A alta, com o que obriga a voltar
“O senhor vai para casa, e vou escrever aqui o que obriga a voltar imediatamente, para o senhor ou para quem estiver junto ler: dor na barriga que piora, dor no ombro, tontura ao levantar, ficar pálido, febre ou desmaio. Não espere o dia seguinte com nenhuma dessas. Este é o dia do retorno e este é o nome do serviço — o senhor consegue chegar aqui?”
Não diga: Dizer 'qualquer coisa procure um serviço de saúde'. Sem nomear o sinal e sem confirmar como a pessoa volta, a orientação não é orientação.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Um número, aferido depois da reanimação inicial
O protocolo publicado de tratamento não operatório de lesão esplênica define estabilidade como sistólica acima de 90 mmHg após a reanimação inicial com cristaloide, somada à ausência de necessidade de transfusão na sala de urgência. A vantagem é a operacionalidade: dá para escrever no prontuário e dá para auditar, e o momento da aferição — depois do volume — já embute a resposta.
Protocolo de tratamento não operatório de lesões de baço da Disciplina de Cirurgia do Trauma da Unicamp, publicado na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2013
Um número mais folgado, quando a pergunta é deixar de investigar
O grupo que estudou exclusão de lesão intra-abdominal por critérios clínicos exigiu sistólica acima de 100 mmHg somada a frequência cardíaca abaixo de 100 bpm. É um corte deliberadamente conservador, porque a decisão que ele apoia não é operar ou não operar, e sim investigar ou não investigar — e o custo de errar para menos é uma lesão que vai para casa.
Série de 5.536 vítimas de trauma fechado da Santa Casa de São Paulo, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2017
Não é número nenhum: é a trajetória
O fluxo estadual de trauma abdominal fechado pergunta simplesmente se há instabilidade hemodinâmica, sem fixar corte. Quem sustenta essa formulação argumenta que qualquer número trai o paciente nos extremos — o jovem mantém pressão até perder quase um terço da volemia, e o hipertenso de longa data está hipotenso em 110 mmHg —, e que o dado que decide é o comportamento ao longo do tempo, não a foto.
Diretrizes Clínicas de Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2018, Fluxo 02
Estabilidade exige resposta sustentada, e respondedor transitório continua sob suspeita de sangramento ativo. Interprete sinais vitais em relação a idade, medicamentos e valores habituais: pressão preservada não exclui perda importante no jovem, e betabloqueadores podem atenuar a taquicardia. Registre valores, intervenção e resposta com horário, em vez de apenas escrever “estável”. Para alta da observação, confirme os critérios clínicos e a evolução previstos no percurso.
Indica, e é forte o bastante para mudar a conduta na lesão de grau III
As guias da Western Trauma Association, dos Estados Unidos, dão grande importância ao achado e o usam para indicar angioembolização nas lesões de grau III. O raciocínio é que o extravasamento é a imagem do sangramento arterial acontecendo naquele momento, e que embolizar cedo converte em sucesso um caso que iria falhar.
Western Trauma Association, conforme sistematizado na revisão sobre tratamento não operatório do trauma esplênico do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021
Não indica sozinho: é um dado dentro do quadro
As guias da Eastern Association for the Surgery of Trauma sustentam que a presença de extravasamento, isoladamente, não deve ser encarada como indicação de angioembolização, e que o quadro clínico inteiro precisa ser considerado. O argumento é que a arteriografia com embolização é invasiva e tem complicações — infarto esplênico, abscesso, hipertermia e dor podem ocorrer em até 47% dos casos.
Eastern Association for the Surgery of Trauma, conforme sistematizado na mesma revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021
Indica, mas só nos graus baixos e intermediários
As guias da World Society of Emergency Surgery usam o extravasamento para indicar arteriografia apenas nos traumas de grau I a III. A lógica é inversa à intuitiva: nas lesões de alto grau a ausência de extravasamento não exclui sangramento ativo, de modo que o achado perde poder discriminante justamente onde a lesão é maior. Uma revisão sugere ainda que extravasamentos menores que 1,0 a 1,5 cm podem não exigir intervenção.
World Society of Emergency Surgery e revisões de Olthof, conforme sistematizados na mesma revisão do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021
Confirme a disponibilidade imediata de radiologia intervencionista. Extravasamento de contraste deve ser comunicado ao cirurgião e interpretado com grau da lesão, hemoperitônio, estabilidade e tendência hematimétrica. Onde há embolização, a equipe decide sua necessidade a partir desse conjunto. Sem o recurso, organize tratamento operatório ou transferência conforme o quadro, sem aguardar uma intervenção indisponível. O interno reconhece e comunica o achado e ajuda a organizar o próximo passo.
Duas ou mais unidades já são falha
Há autores que sustentam que a transfusão de dois ou mais concentrados de hemácias já caracteriza falha do tratamento não operatório, devendo a conduta ser mantida apenas se a necessidade transfusional puder ser atribuída a outras lesões. A vantagem é ter um gatilho objetivo, que não depende de quem está de plantão e que impede a deriva de ir transfundindo para sustentar uma decisão já vencida.
Posição de Fodor e colaboradores, sistematizada na revisão sobre tratamento não operatório do trauma esplênico do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, 2021
Nenhum número: a decisão é clínica e laboratorial
A mesma revisão registra que não há consenso sobre esse valor, que poucos trabalhos o estudaram e que a mudança de conduta não deve se basear em número arbitrário de bolsas — e declara que, no serviço dos autores, a decisão se apoia em outros aspectos clínicos e laboratoriais, muitas vezes com apoio de imagem. O argumento é prático: quando há mais de um foco possível de sangramento, é difícil atribuir a transfusão ao baço.
Revisão do Departamento de Cirurgia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2021
A necessidade de transfusão é um sinal de alerta para reavaliar o tratamento não operatório. Ao indicar nova unidade, registre o foco provável da perda e a evidência que o sustenta. Sangramento atribuído ao órgão em observação exige comunicação imediata ao cirurgião; perdas por outras lesões também devem ser explicitadas. Evite transfusões sucessivas sem revisão do foco e da estratégia.
Tem, e a diretriz estadual a mantém
As diretrizes capixabas listam a lavagem peritoneal entre os adjuntos do exame físico e definem suas melhores indicações: o paciente hemodinamicamente instável com trauma abdominal contuso, ou o trauma penetrante com múltiplos orifícios e trajetórias tangenciais, quando não houver ultrassonografia rápida disponível. E lhe dão dois critérios que decidem sozinhos — aspiração de conteúdo gástrico, fibras vegetais ou bile indica laparotomia urgente, e aspiração de 10 mL ou mais de sangue, em instável, também.
Diretrizes Clínicas de Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2018, Quadros 12 e 13
Não tem, onde há ultrassom
A prática contemporânea deslocou o exame para fora do fluxo, e as razões são de conteúdo: é invasivo, tem complicações, exige descompressão gástrica e vesical prévias, não gradua lesão nenhuma e é sensível demais para a era do tratamento não operatório — encontrar sangue não distingue o hemoperitônio que precisa de operação daquele que pararia sozinho, de modo que ele produz laparotomias não terapêuticas justamente no paciente que hoje se observa. As séries brasileiras recentes de avaliação abdominal já organizam o protocolo em torno de ultrassom de trauma, ultrassom completo e tomografia, sem lavado.
Protocolos de avaliação objetiva do abdome descritos nas séries do Serviço de Emergência da Santa Casa de São Paulo, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012, 2013 e 2017
O recurso disponível orienta a investigação, sem atrasar o tratamento do instável. Ultrassom realizado por examinador habilitado é a opção do percurso quando disponível; o lavado mantém papel em cenários selecionados sem esse recurso. Na interpretação descrita, conteúdo entérico ou bile indicam lesão de víscera oca, e 10 mL de sangue na aspiração do instável indicam hemoperitônio relevante. Comunique o resultado e organize a decisão cirúrgica ou a transferência.
O raciocínio, em voz alta
Motorista, 41 anos, colisão lateral contra defensa metálica às 2h10, cinto colocado, air bag disparado, desencarceramento demorado. Chega andando, orientado. Pressão 128 por 78, frequência 96, saturação de 97%, enchimento capilar de 2 segundos. Faixa avermelhada transversal na parede abdominal, dor à palpação difusa sem defesa, dor referida no ombro esquerdo que piora quando ele deita. Sem sangramento externo. Hospital com tomógrafo, cirurgião de sobreaviso, banco de sangue e dois leitos de terapia intensiva livres.
o que penso na chegada, antes de pedir qualquer coisa
Ele está estável e continua estável — não é respondedor transitório, porque não precisou de volume para chegar aqui assim. Isso já me tira da trilha da sala cirúrgica e me coloca na trilha da investigação. Mas três coisas me impedem de chamar isso de trauma leve: o mecanismo foi desaceleração com desencarceramento demorado, há sinal do cinto de segurança, e há dor referida no ombro esquerdo. A dor no ombro num traumatizado sem lesão no ombro é sangue em contato com o hemidiafragma irritando o frênico — é um dos poucos sinais que apontam para dentro da cavidade num abdome pouco impressionante.
o exame que faço primeiro, e o que espero dele
Ultrassom de trauma nas quatro janelas, à beira do leito, porque ele custa dois minutos e responde uma pergunta que muda o próximo passo. Peço sabendo o que ele não vai me dar: não vai dizer qual órgão, não vai graduar nada e não vai ver o retroperitônio. Enquanto isso, dois acessos com coleta na mesma punção — e a tipagem com prova cruzada vai junto, porque o tempo entre decidir transfundir e ter a bolsa é gasto quase todo em tipagem. Anoto o exame abdominal com a hora: 2h26, abdome depressível, doloroso difusamente, sem defesa, sem descompressão dolorosa.
a primeira resposta, e como ela muda o que penso
O ultrassom mostra lâmina de líquido no espaço esplenorrenal. Num instável isso encerraria a discussão e abriria a sala. Neste paciente ele faz outra coisa: confirma que há sangue e transfere a pergunta. A partir daqui não me interessa mais 'tem sangue?', e sim 'de qual órgão, quanto, e está sangrando agora?'. Só a tomografia responde as três, e ele tolera o corredor. Antes de mandá-lo, faço analgesia — dipirona 1 g endovenosa, 2 mL da solução de 500 mg/mL — porque paciente com dor não colabora com exame seriado, e o que eu vou acompanhar não é a nota da dor, é o aparecimento de defesa localizada e a curva hemodinâmica. Não prescrevo antiemético: com hipótese de abdome agudo cirúrgico aberta, isso está vedado.
o que a tomografia devolve
Laceração esplênica com hemoperitônio moderado, sem extravasamento de contraste, sem pneumoperitônio, sem ar retroperitoneal e sem espessamento de alça ou borramento de mesentério. Rim, fígado e pâncreas sem alterações. Leio isso como três informações separadas: há lesão de órgão sólido, não há sinal de sangramento arterial ativo neste momento, e não há sinal de lesão de víscera oca. As duas primeiras abrem a porta do tratamento não operatório; a terceira é a que mais me preocupa, porque a tomografia é justamente o exame que perde víscera oca — sinais sutis ou ausentes, e perfuração sem pneumoperitônio existe.
a decisão, e a checagem que vem antes dela
Antes de dizer a palavra conservador para o paciente, faço a pergunta institucional: este hospital tem cirurgião em tempo integral, centro cirúrgico nas 24 horas, banco de sangue, tomografia e leito monitorizado? Tem. Então a decisão é tratamento não operatório, e ela vem com regime escrito, não com boa vontade: terapia intensiva, jejum, hemoglobina e hematócrito de 6 em 6 horas nas primeiras 24, gasometria de 12 em 12, exame abdominal de 4 em 4 com hora anotada, cirurgião ciente e nominalmente responsável. E escrevo os três critérios de falha no prontuário: instabilidade hemodinâmica, queda progressiva de hemoglobina com transfusão recorrente, sinais de peritonite.
a hora 6, que é onde o caso quase vira outro
Às 8h20, frequência de 112, maior necessidade de analgesia, hemoglobina de 13,4 para 12,6 e 11,8 e aumento da distensão exigem reavaliação cirúrgica imediata. Nenhum achado isolado define a causa, mas o conjunto pode indicar sangramento ou lesão não reconhecida. Comunico os horários e a tendência, repito avaliação de perfusão e exame abdominal e discuto investigação ou intervenção. Antecipar hemograma pode ajudar, mas não substitui avaliação à beira do leito nem justifica esperar duas horas se houver deterioração.
como o caso termina, e o que ele ensina
Às 10h20, a hemoglobina de 11,5 representa queda adicional de 0,3 g/dL; a frequência voltou a 96 após analgesia e não houve transfusão. Essa pequena variação não define, sozinha, estabilidade hematimétrica ou sucesso do tratamento. A equipe interpreta a evolução com perfusão, exames abdominais seriados, necessidade de suporte e investigação dirigida. No desfecho favorável apresentado, a estabilidade se sustenta: ele deixa a terapia intensiva no terceiro dia e recebe alta no quinto, com restrições, sinais de retorno e consulta marcada. Esses dias pertencem ao caso, não são um calendário obrigatório para todas as lesões.
Faça você
Pedestre, 62 anos, atropelado por automóvel em via urbana às 21h40. Usa varfarina por fibrilação atrial. Chega imobilizado, sonolento mas despertável, Glasgow 13, com escoriação em flanco direito e deformidade em coxa esquerda. Pressão 118 por 76, frequência 88, saturação de 96%. Refere dor na perna e responde 'ruim' quando você pergunta da barriga. Hospital de porte médio: tem ultrassom e ultrassonografista de plantão, tem tomógrafo com técnico em casa a vinte minutos, tem banco de sangue pequeno, tem cirurgião de sobreaviso e tem dois leitos de observação sem monitor multiparamétrico.
o que já está resolvido antes de qualquer exame
A pressão de 118 e a frequência de 88 dizem 'estável' — e é aqui que este paciente engana. Ele tem 62 anos, e nessa faixa a resposta cronotrópica é atenuada; se a pressão habitual dele for 150, 118 é hipotensão relativa. Além disso ele tem duas condições que retiram o valor do exame abdominal: Glasgow 13, portanto rebaixamento, e uma fratura de coxa, que é lesão distrativa clássica. A frase 'refere dor difusa' nesse paciente carrega pouca informação.
o que o anticoagulante muda
A varfarina não cria a lesão, mas muda a magnitude do sangramento que uma mesma laceração produz e muda a chance de o tratamento sem operação dar certo. Some a isso a idade acima de 55 anos, que aparece nas revisões como preditor independente de falha do tratamento não operatório do baço, e o perfil de risco desse paciente já está desenhado antes do primeiro exame.
o exame que se pede primeiro, e por quê
Ultrassom de trauma à beira do leito, porque ele não exige mover o paciente e porque um resultado positivo já mudaria a próxima ação. O resultado volta assim: sem líquido livre nas quatro janelas. Em quem tem exame abdominal confiável isso permitiria observar; neste paciente, não permite — o exame que eu usaria para complementar o ultrassom é justamente o que a lesão distrativa e o rebaixamento tornaram inútil.
o que fazer agora
É a sua vez. Diga, nesta ordem: qual é o próximo exame e por que ele é obrigatório neste paciente e não seria em outro; onde este paciente fica enquanto espera; o que você mede e de quanto em quanto tempo; qual pergunta institucional você precisa responder antes de prometer qualquer conduta conservadora; e o que você faz se a pressão cair para 88 enquanto o técnico do tomógrafo ainda está a caminho.
Continuidade do caso e prática do internato
Reveja a mudança das 8h20: apresente a tendência ao supervisor e diga quais condições precisam estar disponíveis para continuar observando.
Questão integrativa 1
FAST negativo afasta hemorragia abdominal?
Questão integrativa 2
Qual a diferença entre resposta transitória e estabilidade sustentada?
Questão integrativa 3
Todo espessamento de alça na TC exige laparotomia?
Questão integrativa 4
No caso, basta repetir hemograma em duas horas às 8h20?
Questão integrativa 5
Queda de 0,3 g/dL prova que o sangramento cessou?
Questão integrativa 6
Por que recursos do hospital fazem parte da indicação de observação?
Ver como fecharíamos
O próximo exame é a tomografia de abdome e pelve com contraste, e ela é obrigatória aqui porque o paciente reúne três condições que retiram valor tanto do exame físico quanto do ultrassom negativo — rebaixamento de consciência, lesão distrativa e anticoagulação. Quem não pode ser examinado precisa ser fotografado, e o ultrassom negativo neste paciente não é tranquilizador: ele não vê o retroperitônio, e um em cada quatro hemoperitônios lhe escapa. Enquanto o técnico vem, o paciente fica no lugar mais monitorizado que o serviço tiver, e não no leito de observação sem monitor: pressão e frequência registradas a cada 15 minutos, dois acessos, coleta com tipagem e prova cruzada, hemograma seriado, e o ultrassom repetido em 20 a 30 minutos, porque a causa mais comum de falso-negativo é pouco líquido no momento do exame. A pergunta institucional vem antes de qualquer promessa: este hospital tem cirurgião, centro cirúrgico nas 24 horas, banco de sangue com estoque, tomografia e leito monitorizado? Sem os cinco, o serviço não conduz tratamento não operatório — e a conduta correta passa a ser estabilizar e acionar a regulação, sem gastar tempo com imagem que atrase o transporte. Se a pressão cair para 88 antes da tomografia, o paciente deixa de ser candidato ao corredor: refaz-se o ultrassom onde ele está, aciona-se o cirurgião e o banco de sangue no mesmo minuto, e a decisão passa a ser cirúrgica ou de transferência — nunca esperar o técnico chegar. A reversão da anticoagulação e a reposição pertencem ao capítulo de choque hemorrágico no trauma; o que este capítulo decide é que ele não vai para o tomógrafo instável. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. O exame tem limitações e também não exclui lesão retroperitoneal ou intestinal. Reavaliar contexto e outros focos. 2. A primeira se perde após melhora inicial e sugere problema persistente; a segunda precisa se manter em avaliações sucessivas, sem suporte crescente. 3. Não isoladamente. É sinal indireto que se interpreta com mecanismo, outros achados e evolução; peritonite ou deterioração muda a urgência. 4. Não. Taquicardia, dor crescente e distensão pedem avaliação cirúrgica imediata; exames complementam a decisão. 5. Não. Hemoglobina varia com tempo e fluidos e não mede sozinha sangramento em curso. 6. Porque segurança depende de reconhecer falha e oferecer intervenção rápida. Quando isso não é garantido, discutir transferência precocemente.
Peritonite instalada com febre e leucocitose entre 12 e 48 horas do trauma, em quem sofreu desaceleração e tem sinal do cinto de segurança, é a apresentação clássica da perfuração de víscera oca que escapou da imagem inicial. A literatura brasileira registra que os sinais tomográficos de lesão de víscera oca podem ser muito sutis ou ausentes mesmo nos melhores equipamentos, e que existem lesões sem pneumoperitônio e sem ar retroperitoneal. O mecanismo explica a assimetria de conduta deste capítulo: sangue de órgão sólido às vezes para sozinho, mas conteúdo entérico no peritônio não para, não melhora com observação e cobra peritonite e sepse pela demora. Peritonite é indicação de laparotomia listada nas diretrizes estaduais, e tomografia normal não encerra o caso: devolve o caso ao exame seriado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reescreva de memória, sem consultar: as quatro combinações de estabilidade e líquido livre, com a ação de cada uma; as quatro janelas do ultrassom de trauma e a única pergunta que ele responde; e os três critérios de falha do tratamento não operatório. Depois liste as cinco condições que tornam o exame abdominal não confiável, e confira quatro coisas que dependem só do seu serviço: quem faz o ultrassom de trauma às três da manhã, quanto tempo leva para o tomógrafo ficar pronto, qual é o telefone do cirurgião de sobreaviso e se existe leito monitorizado disponível hoje. Se a resposta a qualquer uma delas for ruim, você já sabe que aqui não se inicia tratamento conservador.
Em 30 dias
Refaça o caso do motorista mudando um dado por vez e veja onde a decisão quebra: e se ele tivesse 68 anos e tomasse rivaroxabana; e se a tomografia mostrasse extravasamento de contraste; e se o hospital não tivesse tomógrafo; e se ele tivesse chegado com Glasgow 9 por traumatismo cranioencefálico; e se fosse uma gestante de 28 semanas com fator Rh negativo. Depois pegue o último traumatizado que você viu ser observado e responda por escrito: em que hora foi feito o primeiro exame abdominal, quem fez o segundo, quantas horas separaram os dois, e o que estava escrito no prontuário sobre os critérios de falha. Se não houver nada escrito, você acabou de encontrar o problema do seu serviço.
Agora atenda
Agora atenda: homem de 34 anos, motociclista, colisão contra automóvel em via de trânsito rápido, capacete no lugar. Chega falando, com escoriação extensa em flanco esquerdo e dor à palpação do hipocôndrio esquerdo, pressão 104 por 68 e frequência 108, sem sangramento externo. Você tem monitor, ultrassom, laboratório, um tomógrafo que precisa do técnico e um cirurgião de sobreaviso em casa. Conduza da porta ao destino: classifique a apresentação, decida qual exame pede e em que ordem, diga em voz alta o que faria mudar sua conduta, e escreva o regime de vigilância se optar por não operar.
