Cirurgia Geral › Trauma
Trauma abdominal penetrante
Reconhecer indicação imediata de operação e compreender a seleção, os recursos e os limites da observação no trauma penetrante.
Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018, diretriz clínica aprovada em 30 de setembro de 2018
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Responda antes de ler
Mulher de 33 anos é atendida com ferimento por arma branca em flanco esquerdo, superficial, e relata que foi o companheiro. Está estável e a exploração mostrou aponeurose íntegra. A delegacia liga pedindo o relatório médico com a descrição das lesões e cópia do prontuário. O que o serviço deve fazer?
O paciente que você vai ver
Vinte e três e cinquenta de uma sexta-feira. Hospital municipal de sessenta leitos, cento e trinta quilômetros da capital, referência para mais quatro municípios pequenos. Você é o interno da escala noturna de cirurgia. O tomógrafo existe e funciona, mas o técnico está em casa e leva quarenta minutos para chegar depois de chamado. O aparelho de ultrassom é portátil, fica na sala vermelha e você já usou duas vezes. O cirurgião geral está de sobreaviso, a vinte e cinco minutos de carro. A agência transfusional tem quatro bolsas de concentrado de hemácias O negativo e nenhuma de plasma descongelado.
Um Fiat Uno prata para em cima da rampa e três pessoas descem. A do meio anda sozinha. Chama-se Adenilson Prates da Rocha, tem 24 anos, é ajudante de pedreiro, e chega com a mão esquerda apertada contra a camisa. A camisa é branca, tem duas aberturas e está encharcada de vermelho do mamilo até a cintura. Ele fala, e o que fala primeiro é que está bem. Diz que foi na rua, que foi uma discussão, que não quer confusão. Não diz quem.
Você deita ele na maca da sala vermelha e a técnica de enfermagem, a Zélia, já está com a tesoura na mão para cortar a camisa. Você pede que ela pare por dois segundos — não porque a camisa importe agora, mas porque a camisa vai importar depois, e há um jeito certo de tirá-la. Voltaremos a isso. Descoberto o tórax e o abdome, aparecem dois ferimentos. O primeiro é uma fenda de aproximadamente três centímetros, de bordas lineares e regulares, no hemitórax esquerdo, logo abaixo do mamilo, na linha hemiclavicular. O segundo tem uns dois centímetros e fica no flanco esquerdo, entre as linhas axilares, na altura do umbigo. Os dois sangram pouco, em babação venosa. Não há terceiro.
Os números da monitorização são bons e é isso que torna a noite difícil. Pressão arterial 118 por 76. Frequência cardíaca 96. Frequência respiratória 18. Saturação 97% em ar ambiente. Glasgow 15, e ele responde tudo, inclusive o que você não perguntou. A pele está quente e o enchimento capilar volta em menos de dois segundos. O abdome é plano, move com a respiração e dói só em volta dos dois buracos — não dói no quadrante oposto, não tem defesa, não tem descompressão dolorosa. A ausculta pulmonar tem murmúrio nos dois lados, talvez um pouco mais fraco na base esquerda, e você não tem certeza se ouviu isso ou se esperava ouvir.
Ele conta que bebeu quatro latas de cerveja ao longo da noite. Não parece embriagado: sabe onde está, que dia é, o nome da mãe e o telefone dela de cor. Jantou às oito. Não usa medicação, não tem cirurgia prévia, não sabe dizer quando tomou vacina pela última vez — a carteirinha está na casa da mãe, no bairro de cima. Pergunta duas vezes se vai precisar operar. Você ainda não sabe. É honesto dizer que ainda não sabe.
A pergunta que a sala inteira está fazendo, sem dizer em voz alta, não é qual órgão está lesado. É se a faca entrou. Um ferimento por arma branca no abdome tem três destinos possíveis e o exame que você acabou de fazer não separa nenhum deles: pode ter parado no subcutâneo, pode ter parado na musculatura, ou pode ter atravessado a aponeurose e o peritônio e estar, neste minuto, ao lado de um cólon que ainda não avisou. Adenilson está bem porque nada ainda vazou o bastante. Estar bem, no penetrante, é uma informação sobre o agora e uma promessa sobre coisa nenhuma.
Às zero e quarenta, quando você ainda está decidindo o que fazer com o flanco dele, a ambulância do resgate encosta com o segundo. Wanderson Alves Ribeiro, 31 anos, mototaxista, ferimento por projétil de arma de fogo. Um orifício só, com dois centímetros e meio, bordas irregulares e halo escurecido, no epigástrio, um pouco à esquerda da linha média. Você vira o paciente com a equipe, procura orifício de saída no dorso e nas nádegas, e não encontra. Ele fala, está pálido, sudorético, pressão 104 por 78, frequência 118. O abdome está doloroso inteiro, não só perto do buraco, e a musculatura resiste quando você encosta.
São dois pacientes, duas paredes abdominais furadas e duas conversas completamente diferentes. Com Adenilson, a conversa é sobre o que exige alguém de plantão para observar por vinte e quatro horas. Com Wanderson, a conversa é sobre em qual carro ele vai, para qual cidade, com quem dentro, e em quantos minutos. Este capítulo é sobre como se decide isso.
Quem adoece disso
O trauma penetrante de abdome no Brasil é, quase sempre, violência interpessoal — e a estatística que descreve isso não está em livro de cirurgia, está no Atlas da Violência, que o Ipea publica com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública a partir dos sistemas de informação do Ministério da Saúde. Em 2023, o país registrou 32.749 homicídios por arma de fogo, uma taxa de 15,2 por 100 mil habitantes, e a arma de fogo respondeu por 71,6% de todos os homicídios do ano. A consequência clínica dessa proporção é direta: quando a ficha diz agressão, o instrumento mais provável é o projétil, e o projétil é justamente o mecanismo em que a decisão de operar é mais frequentemente sim.
A série mostra queda — os mesmos homicídios por arma de fogo eram 40.870 em 2013 e 42.908 em 2018, o que dá uma redução de 19,9% em dez anos e de 23,7% em cinco. É queda real e é bom que você saiba dela, mas ela não muda a sua noite: um pronto-socorro de porta aberta em cidade média continua recebendo esse paciente, e o que mudou foi o volume, não o problema.
O que chega vivo ao hospital é outra conta, e ela vem da Tabela 9.11 do mesmo Atlas, montada sobre o Sistema de Informações Hospitalares. Entre 2013 e 2024 foram 560.748 internações por violência no país. O projétil de arma de fogo foi o instrumento em 168.869 delas, 30,1% do total, e o instrumento perfurante — a faca, o estilete, o caco de vidro — em 126.089, 22,5%. Somados, dão 294.958 internações, 52,6% de tudo. Metade do peso hospitalar da violência no Brasil é penetrante, e diluído por doze anos isso dá cerca de catorze mil internações por projétil e dez mil e meia por perfurante, todo ano. Você vai atender esse paciente, e vai atender mais de um.
Dentro do hospital, a proporção entre os dois agentes se inverte de lugar para lugar, e vale conhecer um número brasileiro em vez de um americano. No Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, entre julho de 2011 e fevereiro de 2015, foram atendidas 547 vítimas de trauma abdominal penetrante, das quais 246 por arma branca — 45%. Ou seja, num centro de trauma de capital do Sul, a faca é quase metade da demanda. No Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, a casuística publicada de ferimento por arma de fogo na transição toracoabdominal direita reuniu 115 pacientes em sete anos, com 95,6% de homens e idade média de 25,8 anos. A consequência de saber isso é de triagem mental: o penetrante abdominal, no Brasil, é um homem jovem, e a suspeita não precisa esperar história de risco para ser levantada.
Há um número desse mesmo estudo mineiro que não é sobre cirurgia e que você deveria carregar. Dos 115 pacientes tratados sem operação, 45 compareceram ao controle de dois anos. Nesse mesmo intervalo, as famílias informaram que dez pacientes da série haviam sido vítimas de nova agressão por arma de fogo, e morreram. O tratamento foi bem-sucedido e o paciente morreu do mesmo mecanismo depois. Isso reposiciona o que a alta significa: quando você libera esse rapaz de 24 anos, o desfecho que mais ameaça a vida dele não é a lesão hepática que você acompanhou — é a próxima vez. É por isso que notificação, encaminhamento e conversa não são burocracia pendurada no fim do capítulo. São parte do tratamento, e as únicas partes que atuam sobre a causa.
Por que acontece o que acontece
Trauma abdominal penetrante tem uma definição curta e uma consequência longa. A diretriz estadual capixaba define trauma abdominal penetrante como a solução de descontinuidade da pele que ultrapassa o peritônio, e separa isso do trauma contuso, em que não há solução de continuidade e a lesão vem de compressão, esmagamento, cisalhamento e desaceleração. A definição parece burocrática até você perceber que ela contém uma condição — ultrapassar o peritônio — que ninguém consegue ver de fora. Toda a investigação deste capítulo existe para responder se essa condição foi cumprida.
A diferença entre a faca e o projétil não é de gravidade, é de física, e a física explica quase tudo o que vem depois. A energia cinética de um corpo em movimento é metade da massa vezes o quadrado da velocidade. Numa arma branca, a massa é pequena e a velocidade é a do braço de quem golpeia: a energia é baixa, e o comprimento do trajeto é essencialmente o comprimento da lâmina somado à profundidade que a força do golpe empurrou. O tecido lesado é o tecido que a lâmina tocou, e nada mais. É por isso que a exploração local da ferida faz sentido na arma branca: se você prova que a lâmina não passou da aponeurose, provou também que não há nada lesado do outro lado, porque não existe do outro lado energia nenhuma que a lâmina tenha transmitido à distância.
No projétil de arma de fogo, o termo da velocidade está elevado ao quadrado, e é ele que domina a conta. O projétil não corta: ele empurra o tecido para os lados enquanto passa, cria uma cavidade temporária muito maior que o seu diâmetro, e essa cavidade colapsa deixando uma cavidade permanente e um cilindro de tecido contundido em volta. Um projétil pode cambalear no eixo, pode se fragmentar, pode bater numa costela ou numa vértebra e mudar de direção, e pode transformar o osso que atingiu em projétil secundário. A consequência clínica é uma frase que você precisa dizer para si mesmo toda vez: a linha reta entre o orifício de entrada e o orifício de saída é uma hipótese, não um achado. E quando não há orifício de saída, além de o projétil estar dentro, toda a energia que ele carregava foi entregue lá dentro.
Daí decorre a assimetria de conduta que estrutura o capítulo inteiro. A revisão brasileira sobre conservadorismo seletivo no projétil registra que o tratamento não operatório das lesões por arma branca vem sendo difundido em grandes centros desde os anos 1960 e é amplamente aceito, enquanto os ferimentos por projétil na cavidade abdominal ainda são tratados com exploração cirúrgica obrigatória na maioria dos hospitais — porque se acredita, com razão, que a incidência de lesão intra-abdominal ali é alta. E a série do Hospital João XXIII registra a outra metade da verdade, que a maioria dos serviços prefere ignorar: muitas publicações mostram que 20% a 30% dos pacientes com projétil abdominal foram submetidos a laparotomias desnecessárias. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e conviver com elas é o que faz um cirurgião de trauma.

A segunda coisa que o mecanismo explica é por que a região da parede muda a pergunta. A cavidade peritoneal não termina na reborda costal: o diafragma é uma cúpula que sobe e desce com a respiração, e na expiração profunda ele alcança o quarto espaço intercostal. Um ferimento que na inspiração acertaria só o tórax, na expiração acerta fígado ou baço. É por isso que existe o conceito de transição toracoabdominal — a faixa da parede em que o mesmo furo pode ser torácico, abdominal ou os dois. O artigo brasileiro sobre lesão diafragmática penetrante delimita essa zona anteriormente pelo quarto espaço intercostal, lateralmente pelo sexto, posteriormente pela ponta da escápula, tendo como limites inferiores a região epigástrica e os rebordos costais, e registra que ferimentos dessa faixa cursam com lesão diafragmática em 20% a 40% dos casos, chegando a 48% em algumas séries.
O diafragma é um músculo fino que separa duas cavidades com pressões diferentes, e essa diferença é o motor da complicação tardia. O gradiente pleuroperitoneal fica entre 7 e 20 centímetros de água na respiração normal e chega a 100 centímetros de água na inspiração profunda. Uma abertura no diafragma que não cicatrize funciona, ao longo de meses ou anos, como um sifão: a víscera abdominal é aspirada para o tórax, e o que era um furo de dois centímetros vira uma hérnia com alça encarcerada. A mortalidade relatada nessa fase é de 16% a 20% na obstrução e chega a 80% no estrangulamento. Guarde esse par de números — ele é o argumento de quem defende operar todo ferimento toracoabdominal esquerdo, e você vai encontrá-lo de novo no bloco das divergências.
Lado direito e lado esquerdo do diafragma não são simétricos, e a razão é o fígado. À direita, a massa hepática fica encostada na face inferior da cúpula e faz um tampão anatômico: mesmo que o músculo se rompa, não há alça livre para subir. À esquerda, o que está debaixo do diafragma é estômago, baço, cólon e alça delgada, todos móveis. A consequência prática é assimétrica e é uma das poucas assimetrias anatômicas que muda conduta de verdade: um ferimento penetrante na transição toracoabdominal esquerda é a indicação clássica de videolaparoscopia para inspecionar o diafragma, enquanto à direita a mesma lesão é a que mais admite ser deixada em paz.
O terceiro território é o retroperitônio, e ele explica por que o exame de abdome pode ser normal com o paciente gravemente lesado. Cólon ascendente e descendente, duodeno em boa parte do seu trajeto, pâncreas, rins, ureteres, aorta e veia cava inferior estão atrás do peritônio parietal. Sangue e conteúdo intestinal que se acumulam nesse espaço não banham a serosa que dói: o peritônio parietal, ricamente inervado por nervos somáticos, é quem produz a defesa e a descompressão dolorosa que você procura. Sem ele irritado, o abdome permanece flácido enquanto o hematoma cresce. Por isso um ferimento no dorso ou no flanco é um problema diferente de um ferimento na parede anterior, e por isso, nessa topografia, o exame seriado perde justamente a sensibilidade que o justifica.
O quarto mecanismo é o do tempo, e é ele que dá licença para observar. Uma perfuração de víscera oca não produz peritonite no instante em que acontece. É preciso que conteúdo suficiente atravesse a solução de continuidade, se espalhe pela cavidade e alcance o peritônio parietal para que a dor deixe de ser local e passe a ser difusa, com defesa involuntária. Esse tempo é de horas, não de minutos, e ele tem tradução numérica: o ensaio randomizado de Porto Alegre encontrou média de doze horas entre a chegada e o momento em que o exame clínico seriado indicou a operação, e a revisão de literatura brasileira registra que os sintomas das lesões que exigem tratamento cirúrgico geralmente se manifestam nas doze horas iniciais. Observar não é esperar acontecer: é usar uma janela biológica conhecida, com alguém examinando dentro dela.
O quinto mecanismo é o da evisceração, e ele é o mais simples de todos. A pressão dentro do abdome é maior que a atmosférica, e sobe muito a cada tosse, esforço ou choro. Se a aponeurose se rompeu num ponto, o conteúdo mais móvel e mais próximo — o omento, e às vezes alça — é empurrado por essa diferença de pressão e sai pelo defeito. Uma alça ou um epíplon aparecendo na ferida, portanto, não é só um achado dramático: é a prova física, dispensando qualquer exame, de que a parede está aberta até a cavidade. A pergunta que organiza este capítulo já está respondida nesse paciente, e é por isso que evisceração figura entre as indicações de laparotomia de emergência.
Por fim, um mecanismo que quase não se ensina e que decide condutas: o sangramento no penetrante obedece a regras diferentes do sangramento no contuso. No trauma fechado, o que sangra costuma ser parênquima roto, e boa parte estanca sozinha porque o próprio órgão se tampona. No penetrante, o que sangra pode ser uma artéria seccionada de forma limpa, e artéria seccionada não se tamponar sozinha com a mesma frequência. É por isso que o paciente com ferimento penetrante e hipotensão não ganha as mesmas chances de responder a volume — e por que, na hipotensão com ferida que penetra a fáscia anterior, a diretriz capixaba não pede exame nenhum antes da laparotomia.
Como se apresenta de verdade
O trauma penetrante tem uma apresentação típica que engana e várias atípicas que matam. A típica é a que você vai ver mais: um homem jovem, acordado, conversando, hemodinamicamente normal, com um ou dois furos e um abdome que dói só no lugar do furo. Ele não parece grave porque, naquele minuto, não está. O espectro abaixo existe para você aprender a reconhecer as outras formas antes que elas se anunciem sozinhas.
Uma advertência que vale para todas: no penetrante, a apresentação inicial não é o quadro, é o primeiro quadro. Um paciente que chega estável e sem sinais peritoneais tem, por definição, uma apresentação que ainda vai evoluir — para nada ou para peritonite. Descrever esse paciente no prontuário como assintomático e ir embora é o erro que a espinha inteira deste capítulo tenta impedir.
O estável que conversa — a forma mais comum e a mais traiçoeira
É o Adenilson da cena. Pressão normal, frequência normal, Glasgow 15, dor apenas periférica ao ferimento. No estudo randomizado de Porto Alegre, esse perfil era exatamente o critério de inclusão: ferimento único por arma branca em parede anterior, estabilidade hemodinâmica, sem irritação peritoneal difusa, Glasgow de pelo menos 12, aceitando inclusive o paciente com sinais clínicos de alcoolismo desde que a escala de coma estivesse preenchida. Dos 66 pacientes assim, seis acabaram operados — 9,1%. Ou seja: nove em cada dez desse perfil não precisam de cirurgia, e um precisa. O trabalho do plantão é achar esse um sem operar os outros nove.
A armadilha desse quadro é que ele melhora sozinho nas primeiras horas. A dor da própria ferida cede com analgesia e com o tempo, o paciente relaxa, pede comida, quer ir embora. Se você tomar essa melhora como notícia boa, vai confundir a melhora da parede com a ausência de lesão dentro. São coisas diferentes e o exame que as separa é o exame do abdome longe do ferimento — o quadrante oposto, a descompressão, a resistência voluntária que vira involuntária.
O que já chegou com peritonite
Abdome doloroso difusamente, rígido, com defesa involuntária, com o paciente respirando curto para não mexer a parede, e frequentemente febril se já passaram horas. Aqui a apresentação é o diagnóstico e não há investigação a fazer: peritonite é uma das nove indicações de laparotomia de emergência da diretriz capixaba, e é um dos três pontos em que a revisão brasileira de 2014 registra haver consenso — instabilidade hemodinâmica, sinais de peritonite ou evisceração indicam laparotomia, ponto.
Preste atenção a uma diferença fina: dor difusa não é o mesmo que dor intensa. Um ferimento superficial pode doer muito e ficar restrito; uma perfuração de delgado pode doer moderadamente e estar em todo o abdome. O que qualifica é a distribuição e a defesa, não a nota de zero a dez.
O hipotenso
Pele fria, pulso fino e rápido, pressão caindo, ansiedade ou sonolência. No penetrante, hipotensão com ferida abdominal que penetra a fáscia anterior é indicação de laparotomia por si só, sem qualquer imagem. Se este paciente estiver no seu hospital e não houver cirurgião, ele não é candidato a investigação: é candidato a acesso, sangue e transporte, e você vai ler no bloco de conduta como esses três se organizam.
Uma advertência sobre normalidade aparente: o jovem de vinte anos mantém a pressão à custa de vasoconstrição até perder muito volume. Frequência de 118 com pressão de 104 por 78, como a do Wanderson da cena, não é um paciente estável — é um paciente compensado, o que é uma descrição de reserva, não de segurança.
A evisceração
Omento ou alça exteriorizados pela ferida. O aspecto assusta e por isso o erro é sempre o mesmo: alguém tenta recolocar. O protocolo AT16 do SAMU 192 é explícito — não tentar recolocar os órgãos de volta na cavidade abdominal, e cobri-los com compressas estéreis umedecidas com soro fisiológico, usando plástico próprio para evisceração quando disponível. Recolocar contamina a cavidade com o que estava do lado de fora, pode estrangular a alça no anel aponeurótico e apaga a informação anatômica que o cirurgião vai querer ver.
Do ponto de vista diagnóstico, a evisceração é uma boa notícia disfarçada: ela responde a pergunta central sem custo. A parede está aberta, o caso é cirúrgico, e o tempo que seria gasto explorando ou tomografando é tempo que vai para o transporte.
O objeto encravado e o empalamento
A faca que ficou, a barra de ferro, o pedaço de grade, o cabo de guarda-sol. A regra do protocolo AT16 é curta e não admite exceção no ambiente que não é o centro cirúrgico: objetos encravados ou empalados não devem ser movidos nem removidos, devem ser fixados e imobilizados para evitar movimentação durante o transporte, e se houver sangramento ao redor faz-se pressão direta no ferimento em volta do objeto, com a mão ou com compressas. O mesmo protocolo acrescenta que não se deve palpar o abdome nesse cenário, para não provocar maior laceração de vísceras.
O mecanismo por trás da regra é simples: o objeto pode estar tamponando o vaso que ele mesmo lesou. Removê-lo na sala vermelha transforma um sangramento contido em hemorragia exsanguinante sem que ninguém tenha a cavidade aberta para controlar. Retira-se sob visão direta, no centro cirúrgico, com o campo pronto e o cirurgião com a mão perto da lesão.
O incômodo prático é logístico e vale antecipar: uma barra longa não entra na ambulância nem passa pela porta do tomógrafo. O corte do objeto — quando é possível fazê-lo sem transmitir vibração ou calor ao paciente — é decisão conjunta com o bombeiro ou com quem tiver a ferramenta, e a parte que fica no corpo continua imóvel.
A transição toracoabdominal — quando a queixa é o tórax e o problema é o abdome
O paciente chega com dor no peito, dispneia, às vezes hipoventilação de uma base, e o ferimento está sobre as costelas. Todo mundo olha para o hemotórax e ninguém olha para baixo. O protocolo AT16 do SAMU manda o contrário: atentar para as lesões torácicas que podem cursar com lesões de órgãos intra-abdominais, definindo como área de risco o tórax anterior abaixo da linha mamária e, no dorso, abaixo da linha infraescapular, além do flanco entre as linhas axilares anterior e posterior, do sexto espaço intercostal até a crista ilíaca.
A casuística mineira dá a medida do quanto essas duas cavidades andam juntas: dos 115 pacientes com projétil na transição toracoabdominal direita, 72 (62,6%) tinham hemotórax junto com lesão intra-abdominal, e os autores inferem que nesse grupo a lesão frênica estava presente — porque o projétil que produziu as duas coisas necessariamente atravessou o diafragma no caminho.
A tradução para a beira do leito: em qualquer ferimento entre a linha mamilar e o rebordo costal, você tem duas cavidades para responder, não uma. Drenar o tórax não encerra o caso.
O dorso e o flanco — o abdome que não dói
Ferimento posterior à linha axilar, entre a ponta da escápula e a crista ilíaca. O paciente pode ter rim, cólon retroperitoneal, duodeno, pâncreas ou grandes vasos lesados com o abdome anterior perfeitamente flácido, pelo motivo anatômico já explicado. A apresentação, aqui, costuma ser pobre demais para o tamanho do risco.
Dois achados mudam esse quadro de pobre para grave e você precisa procurá-los ativamente: hematúria — macroscópica ou detectada na fita — e sangramento pelo reto. O sangramento pelo estômago, reto ou trato geniturinário após trauma penetrante é uma das nove indicações de laparotomia de emergência da diretriz capixaba, e é uma das três situações em que o toque retal muda conduta no trauma.
Os múltiplos orifícios e o tangencial
Quando há três, quatro, cinco orifícios, a tentação é parear entrada com saída. Não pareie: numere. A conduta do protocolo AT16 já orienta a considerar, quando possível, o tipo de arma, a distância do agressor e a posição do paciente, e lembra que nesse mecanismo são esperados múltiplos ferimentos. Numerar e desenhar no prontuário — com referência a linhas anatômicas e à cicatriz umbilical, não a impressões — é o que permite ao cirurgião do centro de referência reconstruir o que aconteceu.
O tangencial é o projétil que aparentemente correu junto à parede sem entrar. Aparentemente é a palavra crítica: a diretriz capixaba coloca justamente essa dúvida como indicação de laparoscopia diagnóstica no paciente estável — avaliar trauma penetrante com possível lesão tangencial e sem indicação de laparotomia de emergência, sendo o método útil para detectar lesão diafragmática ou avaliar penetração peritoneal.
O que muda em quem não pode ser examinado
Rebaixamento de consciência por traumatismo cranioencefálico, lesão raquimedular, intoxicação exógena, sedação ou intubação: em todos, o exame abdominal deixa de ser um instrumento confiável, e o tratamento não operatório perde o seu único sensor. A revisão brasileira do projétil abdominal é direta ao classificar esse grupo — nele o tratamento não operatório está contraindicado e a laparotomia deve ser realizada.
Repare que embriaguez e rebaixamento não são a mesma coisa. O protocolo do ensaio gaúcho aceitava o paciente com sinais clínicos de alcoolismo desde que o Glasgow estivesse preenchido. O que exclui não é o hálito etílico: é a incapacidade de localizar dor e de colaborar com a repetição do exame.
O idoso, a gestante, a criança e o obeso
No idoso, a parede é menos musculosa e a defesa involuntária aparece tarde ou não aparece; a reserva cardiovascular é menor e a taquicardia compensatória pode estar bloqueada por betabloqueador. Considere sempre que o quadro clínico subestima a lesão, e lembre que, na profilaxia antitetânica, o idoso está entre os que recebem imunização passiva mesmo já tendo esquema vacinal completo com reforço.
Na gestante, o útero ocupa o andar inferior e sobe: a víscera mais provável de ser atingida por um ferimento abdominal baixo passa a ser o próprio útero, e o intestino é empurrado para cima, o que muda o alvo de um ferimento em epigástrio. O trauma abdominal na gestante Rh negativo não sensibilizada é evento sensibilizante e indica imunoglobulina anti-D — o capítulo de trauma abdominal fechado desta mesma apostila trata da dose e do prazo, e não os repetimos aqui.
Na criança, o mesmo comprimento de lâmina atravessa proporcionalmente mais cavidade, e o cálculo de dose de tudo passa a ser por quilo. Guarde essa frase para o bloco de conduta: o Quadro 3 do capítulo de tétano acidental do Guia de Vigilância em Saúde tem um problema de unidade exatamente aí, e você vai precisar saber disso antes de prescrever.
No obeso, a espessura do subcutâneo faz duas coisas ruins: torna a exploração local da ferida tecnicamente difícil ou impossível, e distancia a mão que examina do peritônio que dói. É um dos poucos cenários em que a decisão pode legitimamente pular a exploração e ir direto para observação com exame seriado, ou para o método de imagem disponível.
A lesão autoprovocada
Ferimentos por arma branca em parede anterior, múltiplos, superficiais, paralelos, frequentemente em face anterior do antebraço junto — e uma história que não fecha. Também há o oposto: a lesão autoprovocada única e profunda, sob intenção clara, contada como assalto. A apresentação clínica do abdome é a mesma; o que muda é tudo o que vem depois da alta.
Do ponto de vista prático, três coisas mudam de imediato quando você suspeita. A ficha de notificação de violência interpessoal e autoprovocada passa a ser obrigatória com prazo curto — a nota recomendatória capixaba pede notificação imediata, com a ficha em posse da vigilância epidemiológica municipal em no máximo vinte e quatro horas nos traumas por lesão autoprovocada e por violência sexual. A avaliação de risco de nova tentativa precisa ser feita antes da alta, e não pelo cirurgião sozinho. E o próprio ferimento deixa de ser o problema principal do caso.
Como fechar o diagnóstico
Investigar trauma penetrante de abdome é responder três perguntas em ordem, e a ordem é o que separa quem conduz de quem pede exame. A primeira é se este paciente já tem indicação de operar agora — e ela se responde sem nenhum exame complementar. A segunda é se o agente entrou na cavidade. A terceira é o que ele fez lá dentro. Quem pula direto para a terceira pede tomografia em quem devia estar na sala de cirurgia, e pede tomografia em quem devia estar apenas deitado, sendo examinado de seis em seis horas.
O capítulo de trauma abdominal fechado desta apostila já organizou o outro lado da moeda — o quadrado da estabilidade contra o líquido livre, o que a ultrassonografia rápida responde e o que ela não responde, e como se faz um exame seriado que preste. Aqui a lógica é diferente porque o gatilho é diferente: no contuso, você procura sangue; no penetrante, você procura passagem. Vamos usar aquilo como base e não repeti-lo.
1. As três situações que dispensam investigação
Antes de escolher qualquer exame, teste o paciente contra três achados. Instabilidade hemodinâmica. Sinais de peritonite. Evisceração. A reunião de revista brasileira de 2014 sobre ferimentos por arma branca em parede anterior conclui que esse é o único ponto de consenso na literatura: com qualquer um dos três, a laparotomia está indicada. Não há exame que melhore essa decisão, e todo exame a piora, porque consome tempo.
Vale dizer o que cada um significa na prática de plantão. Instabilidade não é apenas pressão sistólica abaixo de 90: é também o paciente que sobe a pressão com volume e volta a cair, o que o capítulo do trauma fechado descreve como resposta transitória. Peritonite é dor difusa com defesa involuntária — a parede que se contrai sem que o paciente decida —, não dor intensa localizada. Evisceração é víscera ou omento visíveis fora da parede, e não a gordura subcutânea que aparece na borda de um corte, que engana muito residente de primeiro ano.
A diretriz capixaba abre a lista de nove indicações de laparotomia de emergência com uma frase que convém ler inteira: um julgamento cirúrgico é sempre necessário para determinar a necessidade e o melhor momento da laparotomia, e as indicações servem para facilitar a tomada de decisão. Elas são um piso, não um teto — nenhuma lista impede você de operar um paciente que está piorando na sua frente.
2. A pergunta central: entrou?
Se nenhuma das três situações acima está presente, tudo o que você faz nas próximas horas serve para responder se o agente ultrapassou o peritônio. A definição da diretriz capixaba é exatamente essa, e o motivo de ela ser operacional está na física do bloco anterior: numa arma branca, se não entrou, não há nada lá dentro para procurar.
A resposta muda de método conforme a região da parede, e por isso a primeira coisa a fazer é localizar o ferimento com precisão anatômica — não com adjetivos. O ensaio de Porto Alegre define parede anterior do abdome como a área delimitada superiormente pela borda inferior do último arco costal dos dois lados, inferiormente pelos ligamentos inguinais e pela sínfise púbica, e lateralmente pelas linhas axilares médias direita e esquerda. Fora desses limites, você está em outra conversa.
Acima daquela borda costal e abaixo da linha mamilar começa a transição toracoabdominal, com os limites que o bloco anterior já descreveu. Atrás da linha axilar média está o dorso e o flanco, com o retroperitônio embaixo. E abaixo dos ligamentos inguinais, na região glútea e no períneo, você está sobre reto, bexiga, vasos ilíacos e sacro — a diretriz capixaba lembra que lesões penetrantes do tronco e do dorso entre o mamilo e o períneo devem ser consideradas como potenciais causas de lesão intraperitoneal.
Escreva a topografia no prontuário como coordenada, não como impressão: quantos centímetros acima ou abaixo da cicatriz umbilical, em relação a qual linha vertical, em que espaço intercostal. É esse texto que o cirurgião do hospital de referência vai ler ao telefone quando decidir se aceita o paciente e o que vai preparar antes de ele chegar.
3. A exploração local da ferida — o que ela responde
Na ferida por arma branca em parede anterior, a exploração local é o exame que responde a pergunta central, e ela é um procedimento cirúrgico pequeno, não uma manobra de beira de leito. O ensaio gaúcho descreve o passo a passo: antissepsia do local, colocação de campos esterilizados, anestesia local e exploração digital ou com pinça anatômica. O marco é único e anatômico — conceitua-se como penetração na cavidade a violação da aponeurose.
A reunião de revista de 2014 acrescenta o que a técnica exige e o que ela custa: a exploração da lesão requer anestesia local, ampliação da ferida e hemostasia rigorosa, e os próprios autores registram que nem todas as salas de emergência oferecem condições ideais para isso. Isso é uma advertência sobre você: se não há campo estéril, boa iluminação, anestésico, afastador e capacidade de fazer hemostasia, você não está fazendo exploração local — está cutucando uma ferida.
O resultado tem duas leituras e as duas são úteis. Se a aponeurose está íntegra sob visão direta, a pergunta está respondida em definitivo e o caso vira um caso de cuidado com o ferimento. O estudo multicêntrico americano discutido pelo grupo brasileiro mostrou que a exploração local permitiu alta domiciliar em 41% dos casos. Se a aponeurose está violada, você não sabe o que foi lesado — sabe apenas que agora é preciso observar, e o paciente entra em exame clínico seriado.
O grupo brasileiro descreve, no mesmo estudo, o que acontece quando se pula o protocolo: entre os pacientes com exploração positiva que foram levados direto à laparotomia sem período de exame seriado, 53% tiveram laparotomia não terapêutica ou negativa. E entre os 81 pacientes conduzidos exatamente conforme o protocolo — alta com exploração negativa, exame seriado com exploração positiva —, onze acabaram operados, e apenas dois desses onze tiveram laparotomia não terapêutica. Praticamente todas as laparotomias aconteceram nas primeiras quatro horas de observação.

4. Por que sondar às cegas é errado
A tentação de enfiar um cotonete, uma sonda ou a ponta de uma pinça fechada no orifício e ver até onde vai é grande, porque é rápido e não exige campo estéril. Ela está errada por quatro motivos independentes, e basta um para condenar a manobra.
O primeiro é que o instrumento não segue o trajeto real: segue o plano de menor resistência. O trajeto de uma facada muda de direção porque a parede se move — a posição do abdome no momento do golpe não é a posição em que o paciente está deitado agora, e as camadas deslizaram umas sobre as outras desde então. O que o cotonete percorre é um caminho que ele mesmo abre.
O segundo é que a resposta vem no formato errado. O que decide conduta é a integridade da aponeurose vista, não uma estimativa de centímetros sentida na mão. Um trajeto que corre paralelo à parede pode dar sensação de profundidade sem ter entrado; uma perfuração pequena e oblíqua pode dar sensação de fundo cego e ter atravessado.
O terceiro é que a manobra transforma o achado. Empurrar contamina para dentro o que estava na pele, pode completar uma laceração aponeurótica parcial e pode deslocar o coágulo que estava tamponando um vaso da parede — sangramentos de artéria epigástrica inferior que só apareceram depois da sondagem já custaram cirurgia a mais de um paciente.
O quarto é que a manobra doe e não anestesia. Um paciente que teve a ferida cutucada sem anestesia passa a ter dor abdominal de causa iatrogênica, e a dor iatrogênica contamina exatamente o sensor de que a observação depende: o exame seriado. Você acabou de estragar o seu próprio instrumento de acompanhamento.
E há uma regra de contexto: no ferimento com objeto encravado e no paciente com evidência franca de lesão, nem sequer se palpa. O protocolo AT16 do SAMU manda não palpar o abdome nesse cenário, para evitar maior laceração de vísceras.
5. Quem não deve ser explorado
A exploração local resolve a parede anterior e pouco mais. Não a use — ou não confie nela — nas seguintes situações, cada uma por um motivo próprio.
No dorso e no flanco, porque a musculatura é espessa e em várias camadas, o trajeto raramente é acompanhável sob visão, e o alvo é o retroperitônio, que não fica atrás de uma aponeurose explorável. Na transição toracoabdominal, porque a aponeurose não é o limite relevante: o limite é o diafragma, e você não vai vê-lo por um furo entre costelas. No obeso, porque a espessura do subcutâneo torna a visão direta impraticável. Nos ferimentos múltiplos, porque explorar cinco trajetos é mais agressivo e menos informativo do que observar o paciente. E em qualquer paciente que já tenha indicação de laparotomia, porque a pergunta já está respondida.
Em todos esses, a alternativa não é o cotonete: é observação com exame seriado, imagem quando ela responde alguma coisa, ou laparoscopia diagnóstica onde ela existe.
6. O exame clínico seriado — o que é, de verdade
Exame clínico seriado não é anotar que o paciente está bem. É um protocolo com hora marcada, conteúdo definido e, de preferência, o mesmo examinador. O ensaio de Porto Alegre define o seu: exame físico com ênfase no exame completo do abdome, mucosas e sinais vitais de seis em seis horas, preferencialmente pelo mesmo examinador, por vinte e quatro horas, com o paciente em jejum. A revisão narrativa brasileira do projétil abdominal acrescenta a camada de enfermagem: os sinais vitais devem ser reavaliados a cada quatro horas por equipe treinada, trabalhando junto com a equipe cirúrgica, com registro preciso de pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, diurese, avaliação da dor abdominal, aparecimento de febre e alteração do nível de consciência. O intervalo descrito pertence ao estudo/protocolo citado. Para a prática atual, adotar seleção e observação apropriadas ao risco, incluindo pelo menos 48 horas no percurso WSES 2022 para manejo não operatório de trauma penetrante com risco intestinal; piora não espera completar o intervalo.
O ensaio também diz o que autoriza romper o protocolo antes da hora: irritação peritoneal, instabilidade hemodinâmica, taquicardia, taquipneia ou temperatura axilar a partir de 37,8 graus autorizavam a equipe a operar ou a pedir tomografia e exames laboratoriais. Ou seja, o exame seriado não é uma vigília passiva de vinte e quatro horas — é uma vigília com gatilhos escritos. O intervalo descrito pertence ao estudo/protocolo citado. Para a prática atual, adotar seleção e observação apropriadas ao risco, incluindo pelo menos 48 horas no percurso WSES 2022 para manejo não operatório de trauma penetrante com risco intestinal; piora não espera completar o intervalo.
O desempenho desse método, medido contra a laparotomia como padrão, é o argumento que sustenta a conduta. No mesmo ensaio, o exame clínico seriado isolado teve sensibilidade e especificidade de 100%, valores preditivos positivo e negativo de 100% e acurácia de 100% — em 33 pacientes, com três operados, todos com lesão, e trinta liberados sem complicação. É um número pequeno e um intervalo de confiança largo; não é um número mágico. É, porém, coerente com o estudo prospectivo americano discutido pelo grupo brasileiro, em que a sensibilidade e a especificidade do exame físico seriado foram de 100% e 98,7%.
Três detalhes práticos que fazem esse protocolo funcionar ou fracassar. Jejum, porque um paciente que comeu e vomita confunde o quadro e porque ele pode ir para a sala a qualquer momento. Analgesia sim, e voltaremos a isso no bloco de conduta — dor não controlada não protege o exame, atrapalha. E registro comparável: escreva o abdome em quatro quadrantes, com a mesma linguagem, todas as vezes, porque a comparação entre exames é o dado, e comparação exige que os textos sejam comparáveis.
7. A ultrassonografia rápida no penetrante — por que serve pouco
No trauma fechado, a ultrassonografia rápida à beira do leito é o exame de triagem que o capítulo vizinho detalha. No penetrante estável ela quase não ajuda, e o número que prova isso está na reunião de revista brasileira de 2014: em pacientes estáveis com lesão penetrante por arma branca na parede anterior, a ultrassonografia rápida não serviu como método diagnóstico útil, com sensibilidade de apenas 36%, valor preditivo positivo de 67% e valor preditivo negativo de 86%.
A explicação é mecanística. O exame procura líquido livre em quantidade suficiente para formar lâmina em recessos. A lesão de víscera oca que você está tentando não perder não produz líquido livre volumoso nas primeiras horas — produz contaminação, que é invisível ao ultrassom. E a lesão diafragmática, que é o outro medo, não produz líquido nenhum.
Isso não significa desligar o aparelho. No penetrante ele continua útil em duas perguntas específicas e ambas urgentes: derrame pericárdico no ferimento toracoabdominal ou precordial, e líquido livre volumoso no paciente instável, quando confirmar a cavidade abdominal como sítio provável de sangramento muda o destino imediato do paciente. Um exame positivo no instável é informação; um exame negativo no estável não é.
Um erro de leitura para evitar: no penetrante, um exame positivo tem valor, mas o exame negativo não libera ninguém. Se você pretende usar a ultrassonografia rápida para dar alta a um paciente com ferida penetrante, você está pedindo ao exame uma resposta que ele não dá.
8. A tomografia — quando ajuda, quando atrapalha
A tomografia é o exame que mais varia de valor conforme o mecanismo e a região, e por isso é onde mais se erra. Comece pela regra de segurança, que é a mesma para todos: a diretriz capixaba diz que a tomografia demanda tempo, só deve ser realizada em pacientes hemodinamicamente estáveis nos quais não há indicação aparente de laparotomia de emergência, e que nunca se deve realizar tomografia se isso for causar atraso na transferência do paciente para um nível de atenção mais avançado.
Na arma branca de parede anterior, o desempenho é ruim e há dois trabalhos brasileiros dizendo isso. O grupo do TBE-CiTE recomenda explicitamente que a tomografia de abdome não é necessária nessa situação, devido à baixa acurácia, e resume um estudo prospectivo em que a tomografia identificou apenas 5% das lesões significativas, com sensibilidade de 31,3% e especificidade de 84,2% contra 100% e 98,7% do exame seriado. O motivo é físico: a arma branca produz pouca alteração tecidual e o trajeto simplesmente não aparece.
O ensaio randomizado de Porto Alegre chegou a números melhores para a tomografia — sensibilidade 100%, especificidade 96,7%, valor preditivo positivo de 67%, valor preditivo negativo de 100% —, e mesmo assim concluiu contra o seu uso rotineiro, porque não abreviou a internação, não reduziu morbidade e produziu a única laparotomia não terapêutica da série. Vale um aviso de leitura: os autores relatam acurácia de 96% para a tomografia, mas os próprios absolutos publicados dão 32 acertos em 33 pacientes, ou seja, 96,97%, que se arredonda para 97%. É uma diferença de um ponto percentual e não muda conduta nenhuma — mas serve para lembrar que os números dos artigos são recalculáveis, e que recalcular é hábito de quem lê fonte primária.
No projétil, a história é outra. O protocolo mineiro de tratamento não operatório do ferimento por arma de fogo na transição toracoabdominal direita coloca a tomografia entre os critérios de inclusão: é exame imprescindível para enquadrar o paciente no protocolo. Aqui a tomografia não serve para achar o trajeto, e sim para graduar a lesão hepática e renal, mostrar ar retroperitoneal, hematoma de mesentério e descontinuidade de alça — os achados que a diretriz capixaba lista como indicação de laparotomia quando presentes.
Traduzindo em regra de bolso: na arma branca de parede anterior, tomografia não decide e o exame seriado decide. No projétil, tomografia é a condição de você ter direito a não operar — e se você não tem tomografia disponível, você não tem direito a essa conduta.
9. A radiografia simples — barata e subutilizada
A diretriz capixaba recomenda radiografia de tórax ântero-posterior e radiografia de bacia na sala de choque para o paciente estável, e no penetrante essas duas chapas respondem coisas que a tomografia responderia mais caro e mais tarde.
A radiografia de tórax mostra hemotórax, pneumotórax, e ar livre subdiafragmático quando o paciente pode ficar sentado — e ar livre na cavidade, ar no retroperitônio ou sinais de ruptura de hemidiafragma são, os três, indicações de laparotomia de emergência na lista capixaba.
Há um uso mais fino, que quase ninguém ensina e que custa dois clipes: marcar cada orifício cutâneo com um marcador radiopaco antes da chapa. Com os orifícios marcados e o projétil visível, você tem uma primeira reconstrução grosseira do trajeto e, sobretudo, uma conta de paridade. Cada projétil que entrou ou saiu, ou está no corpo. Se há três orifícios e nenhum projétil visível, ou há saídas que você não achou, ou a chapa não cobriu o segmento certo. Se há um orifício e nenhum projétil na chapa, procure em outro segmento — projéteis migram e embolizam.
A radiografia também documenta. Num caso que vai virar processo criminal, uma chapa com marcadores e um desenho no prontuário valem mais do que qualquer descrição, e o laudo de imagem não pertence à polícia — pertence ao prontuário, e o bloco de conversa deste capítulo trata do que sai e do que não sai dele.
10. A lavagem peritoneal diagnóstica — onde ela ainda vive
A lavagem peritoneal diagnóstica quase desapareceu dos centros com ultrassom e tomografia, e o grupo brasileiro do TBE-CiTE registra que ela vem sendo abandonada pela maioria dos serviços. Ainda assim ela sobrevive por um motivo que interessa muito a quem trabalha longe: ela não depende de aparelho.
A diretriz capixaba define suas melhores indicações e uma delas é exatamente penetrante: paciente hemodinamicamente instável com trauma abdominal contuso, ou paciente com trauma abdominal penetrante com múltiplos orifícios ou trajetórias aparentemente tangenciais, quando não houver ultrassonografia rápida disponível. E dá dois critérios que decidem sozinhos: a aspiração de conteúdo gástrico, fibras vegetais ou bile durante o procedimento já indica laparotomia urgente, e a aspiração de 10 mililitros ou mais de sangue também.
O procedimento é da equipe de cirurgia, e a mesma diretriz lembra que exige descompressão gástrica e vesical prévias para prevenir complicações — é por isso que a sondagem gástrica e a vesical aparecem na lista de adjuntos do exame físico. No penetrante há uma ressalva óbvia e importante: não se passa sonda vesical antes de afastar lesão de uretra, e o ferimento perineal, escrotal ou pélvico é justamente onde essa lesão mora.
Uma advertência sobre desempenho, para você não a superestimar: no cenário de arma branca de parede anterior, o estudo americano discutido pelo grupo brasileiro registrou 57% de laparotomias não terapêuticas entre os pacientes operados com base no resultado do lavado. O lavado responde se há sangue, e sangue de parede também é sangue.
11. A videolaparoscopia — a resposta para o diafragma
A diretriz capixaba coloca laparoscopia e toracoscopia diagnósticas para avaliar pacientes hemodinamicamente estáveis com trauma penetrante e possível lesão tangencial, sem indicação de laparotomia de emergência, sendo úteis na detecção de lesões diafragmáticas ou para avaliar penetração peritoneal. A recomendação brasileira de 2014 é mais específica ainda: a videolaparoscopia, quando disponível e com cirurgião experiente, está bem indicada na dúvida sobre lesão intracavitária — principalmente se houver possibilidade de tratamento pela mesma via — e nos ferimentos da transição toracoabdominal à esquerda.
O motivo do lado esquerdo já está no bloco de mecanismo: é a única lesão diafragmática que evolui para hérnia com regularidade, e é a única que nenhum exame de imagem exclui com segurança. O artigo brasileiro sobre o tema é explícito ao dizer que exame físico, radiografia de tórax, ultrassonografia, tomografia e lavado peritoneal, juntos, não têm sensibilidade nem especificidade boas para lesão diafragmática, com índices de 10% a 30% de lesões não diagnosticadas, sobretudo quando isoladas.
O custo é real e o grupo brasileiro o registra: os custos de uma laparoscopia negativa são semelhantes aos de uma laparotomia negativa, e ambos muito superiores aos do exame seriado. Numa série citada, das 70 laparoscopias diagnósticas realizadas, 38 foram negativas, e metade desses pacientes teve alta imediata. Ou seja, a laparoscopia compra alta precoce; não compra menos laparotomia não terapêutica com diferença estatística.
Para o interno, a tradução é: a laparoscopia é uma opção do serviço, não sua, e ela pressupõe centro cirúrgico, anestesia, torre de vídeo e cirurgião habituado. Se o seu hospital não tem os quatro às três da manhã, ela não é uma alternativa à transferência — ela é um dos motivos da transferência.
12. O laboratório e o toque retal — o que muda conduta
Do laboratório, três exames mudam conduta e o resto acompanha. Tipagem sanguínea com prova cruzada, porque é a única coisa que você não consegue improvisar depois. Hemoglobina e hematócrito seriados, porque a queda persistente é um dos critérios de falha do tratamento não operatório em ambos os protocolos brasileiros que estruturam este capítulo — o mineiro e o gaúcho. E beta-hCG em toda mulher em idade fértil, porque muda a decisão sobre radiação e sobre a própria conduta.
Um valor isolado de hemoglobina na admissão não exclui hemorragia: o paciente que sangrou há vinte minutos ainda não diluiu. O que informa é a série. E lembre-se de que hemoglobina que cai em quem recebeu dois litros de cristaloide caiu por diluição, o que é outra conversa.
O toque retal, no trauma penetrante, muda conduta em situações contadas, e é bom conhecê-las porque a diretriz capixaba manda realizar toque retal e vaginal em todos os politraumatizados com trauma maior, o que na prática nem sempre se sustenta. As situações em que o exame muda o que você vai fazer são: sangramento pelo reto após trauma penetrante, que é uma das nove indicações de laparotomia de emergência; suspeita de lesão de uretra antes de passar sonda vesical; e avaliação de tônus e sensibilidade perineal na suspeita de lesão medular. No ferimento perineal, glúteo ou pélvico, essas três se somam, e aí o exame é obrigatório.
13. O diferencial, que mora aqui dentro
No penetrante, o diferencial não é entre doenças: é entre profundidades e entre cavidades. O exame que confirma uma hipótese é o mesmo que exclui a outra, e por isso separá-los em blocos mentiria sobre como se raciocina.
O primeiro diferencial é ferimento de parede contra ferimento cavitário. Confirma-se ferimento de parede pela exploração local com aponeurose íntegra sob visão; exclui-se pela mesma manobra com aponeurose violada. É o diferencial mais frequente e o mais barato de resolver.
O segundo é hematoma de bainha do reto contra hemoperitônio. O hematoma de bainha dói localmente, produz massa palpável que não cruza a linha média e que fica mais evidente quando o paciente contrai a musculatura abdominal — o sinal de Fothergill. O hemoperitônio dói difusamente e não é palpável. Quando há dúvida, a imagem que responde é a tomografia com contraste, se o paciente for candidato a ela.
O terceiro é lesão torácica contra lesão abdominal na transição toracoabdominal. A radiografia de tórax e a ultrassonografia rápida confirmam hemotórax ou derrame pericárdico, mas nenhum exame exclui a passagem pelo diafragma; a única coisa que exclui é a inspeção, e à esquerda ela é laparoscópica. Uma drenagem torácica que resolve a insuficiência respiratória não resolve o diagnóstico.
O quarto é retroperitônio contra cavidade. Hematúria e sangramento retal apontam para o retroperitônio e para o trato geniturinário; um abdome flácido com ferimento em dorso não exclui coisa alguma. A imagem que responde é a tomografia com contraste, e a ausência dela é justamente o que faz o ferimento dorsal ser um bom candidato à transferência.
O quinto é a dor iatrogênica ou não traumática. Um paciente que teve a ferida manipulada, que está em abstinência alcoólica, ou que chegou com uma dor abdominal que já existia antes da facada, pode ter abdome doloroso por motivo que não é a lesão. Isso não autoriza a descartar: autoriza a observar melhor, e a não assumir que a dor tem uma causa só.
14. O que existe no Sistema Único de Saúde — e o que fazer com o que não existe
Nada do que está escrito acima é conduta se o seu serviço não tiver. O grupo brasileiro do TBE-CiTE fecha as recomendações com uma frase que deveria estar escrita na parede de toda sala vermelha do interior: essas recomendações não se aplicam aos serviços que não dispõem de protocolo bem estabelecido para realizar tratamento seletivo dos casos ou que não tenham estrutura adequada para observação clínica seriada. E acrescenta que cada serviço deve estabelecer o seu protocolo conforme os recursos humanos e materiais disponíveis nas vinte e quatro horas do dia.
Escreva a lista do seu plantão, hoje, antes de precisar dela. Existe cirurgião no hospital ou de sobreaviso, e em quanto tempo ele chega? Existe centro cirúrgico com anestesista disponível de imediato, ou ele é acionado? Existe agência transfusional com estoque, ou o sangue vem de outra cidade? Existe tomógrafo e existe técnico às três da manhã? Existe leito de observação em que alguém vai examinar o paciente de seis em seis horas, ou o paciente vai ficar num corredor sem examinador?
A conta que importa é esta: tratamento não operatório e exame clínico seriado não são condutas de menor recurso — são condutas de maior recurso. Elas exigem alguém acordado examinando, sangue à mão e sala pronta para o caso de a observação falhar. Um serviço que não pode operar não pode observar. O protocolo mineiro diz isso com todas as letras ao afirmar que, para realizar tratamento não operatório com segurança, é mais importante que a instituição seja bem aparelhada e disponha de equipe experiente do que ter grande volume de pacientes atendidos.
Quando a lista dá negativo em qualquer item essencial, a investigação acaba ali e a conduta passa a ser outra: estabilizar e transferir. Isso não é fracasso do plantão nem falta de coragem — é a aplicação correta da regra capixaba de nunca realizar tomografia se isso atrasar a transferência para nível de atenção mais avançado. O paciente não precisa do seu diagnóstico. Precisa do cirurgião, e ele está em outra cidade.
Do furo à decisão: profundidade, zona e as nove indicações
Mecanismo, fisiologia, peritonite e trajetória da lesão orientam a decisão. Conduta seletiva exige equipe experiente e capacidade de operar rapidamente; não é simples espera.
- 1Controlar hemorragia externa ameaçadora e conduzir xABCDE em paralelo à identificação de orifícios, sem sondar trajetos às cegas.
- 2Instabilidade atribuível ao trauma, peritonite ou outras indicações inequívocas exigem cirurgia urgente; a imagem não deve atrasar essa decisão.
- 3Em paciente estável e examinável, discutir investigação dirigida com a cirurgia; localização e tipo de arma ajudam, mas não demonstram sozinhos o trajeto real.
- 4Exploração local de ferida por arma branca, quando apropriada, deve ser realizada por profissional treinado; não extrapolar seus critérios para ferimentos por projétil ou sítios em que o método não se aplica.
- 5Tratamento não operatório de casos selecionados requer exames seriados por equipe experiente, monitorização, acesso a TC quando indicada e cirurgia imediata se houver falha.
- 6Definir duração e frequência da observação pelo risco e protocolo. Estudos com 24 horas não justificam alta universal; a WSES recomenda pelo menos 48 horas na estratégia seletiva de trauma penetrante abordada em sua diretriz de lesão intestinal.
- 7Piora da dor, peritonismo, taquicardia persistente, má perfusão, febre ou queda relevante de hemoglobina exigem reavaliação imediata, sem aguardar o próximo horário prescrito.
- 8A alta exige evolução favorável sustentada, avaliação cirúrgica, orientações compreendidas e acesso ao retorno; integrar serviço social e prevenção de nova violência.
Parou no músculo
Trajeto que não alcança a aponeurose. Na arma branca, isso responde a pergunta em definitivo: sem energia transmitida à distância, não há lesão além do trajeto. Conduta de ferimento de partes moles, profilaxia antitetânica e alta com orientação.
Atravessou a aponeurose
O marco operacional da penetração. Você sabe que a parede foi vencida e não sabe o que há do outro lado. Não é indicação de operar: é indicação de internar em jejum e iniciar exame clínico seriado com gatilhos escritos.
Atravessou o peritônio
Trajeto transperitoneal comprovado — por evisceração, por visão direta, por laparoscopia ou pelo trajeto de um projétil que cruzou a cavidade. Ferimento penetrante que atravessa a cavidade peritoneal é indicação de laparotomia de emergência na diretriz capixaba.
| Pergunta do plantão | Arma branca | Projétil de arma de fogo |
|---|---|---|
| Como o dano é produzido | Só o que a lâmina tocou; energia baixa, sem transmissão à distância | Trajeto mais cavitação temporária; energia proporcional ao quadrado da velocidade |
| O trajeto é previsível? | Aproximadamente, pelo comprimento da lâmina e pela direção do golpe | Não. Pode cambalear, fragmentar-se e desviar em osso, gerando projétil secundário |
| Se não entrou, acabou? | Sim. Aponeurose íntegra sob visão direta encerra o caso | A pergunta raramente se aplica: o tangencial verdadeiro é exceção e exige prova |
| Regra dominante nos serviços brasileiros | Tratamento seletivo não operatório, amplamente aceito desde os anos 1960 | Exploração cirúrgica obrigatória na maioria dos hospitais |
| Papel da exploração local da ferida | Central, na parede anterior; permitiu alta em 41% dos casos numa série multicêntrica | Não se aplica: o orifício não informa sobre o trajeto |
| Papel da tomografia | Baixa acurácia; a recomendação brasileira de 2014 diz que ela não é necessária | Condição de entrada nos protocolos de tratamento não operatório, para graduar lesão e ver ar livre |
| Papel do exame clínico seriado | É o método que decide; sensibilidade de 100% nas séries brasileira e americana | Complementar, e só dentro de protocolo com cirurgião e sala disponíveis |
| Laparoscopia diagnóstica | Indicada na dúvida de lesão intracavitária e no ferimento toracoabdominal esquerdo | Indicada na suspeita de trajeto tangencial em paciente estável |
As nove indicações de laparotomia de emergência (diretriz capixaba, Quadro 13)
| Nº | Indicação | O que ela cobra de você no plantão |
|---|---|---|
| 1 | Trauma abdominal contuso com hipotensão, ultrassonografia rápida positiva ou evidência clínica de sangramento intraperitoneal, ou sem outra fonte de sangramento | É a indicação do capítulo vizinho; aparece aqui porque o mesmo paciente pode ter os dois mecanismos |
| 2 | Hipotensão com ferida abdominal que penetra a fáscia anterior | Hipotensão mais parede vencida dispensa qualquer imagem |
| 3 | Ferimento penetrante que atravessa a cavidade peritoneal | É a regra que faz o projétil transperitoneal operar |
| 4 | Evisceração | Achado que dispensa exame; não recolocar, cobrir com compressa úmida |
| 5 | Sangramento do estômago, reto ou trato geniturinário após trauma penetrante | Justifica o toque retal e a pesquisa de hematúria nesse cenário |
| 6 | Peritonite | Difusa e com defesa involuntária, não dor local intensa |
| 7 | Ar livre na cavidade, ar no retroperitônio ou sinais de ruptura de hemidiafragma | Faz a radiografia simples valer o que custa |
| 8 | Tomografia contrastada mostrando ruptura do trato gastrointestinal, lesão do pedículo renal ou lesão grave de parênquima visceral, após trauma contuso ou penetrante | É por isso que a tomografia entra nos protocolos de tratamento não operatório do projétil |
| 9 | Aspiração de conteúdo gastrointestinal, fibras vegetais ou bile durante a lavagem peritoneal, ou aspiração de 10 mililitros de sangue em paciente hemodinamicamente instável | Mantém a lavagem peritoneal viva onde não há ultrassom nem tomografia |
Zonas da parede e o que cada uma pede
| Zona | Limites | Estruturas em risco | Método que responde |
|---|---|---|---|
| Parede anterior | Da borda inferior do último arco costal aos ligamentos inguinais e sínfise púbica, entre as linhas axilares médias | Delgado, cólon transverso, estômago, mesentério, grandes vasos na linha média | Exames seriados em ambiente capaz de intervir. Estudos brasileiros citados observaram 24 horas em grupos selecionados; no percurso WSES 2022 para manejo não operatório de trauma penetrante com risco intestinal, observar por pelo menos 48 horas. |
| Transição toracoabdominal | Do quarto espaço intercostal anterior, sexto lateral e ponta da escápula posterior até os rebordos costais e o epigástrio | Diafragma, fígado, baço, estômago, pulmão, pericárdio | Radiografia e ultrassonografia rápida para o tórax; à esquerda, laparoscopia para o diafragma |
| Dorso e flanco | Atrás da linha axilar média, da ponta da escápula à crista ilíaca | Rim, ureter, cólon retroperitoneal, duodeno, pâncreas, aorta e veia cava | Tomografia com contraste; o exame do abdome perde sensibilidade aqui |
| Glútea, perineal e pélvica | Abaixo dos ligamentos inguinais e da crista ilíaca | Reto, bexiga, uretra, vasos ilíacos, plexo sacral | Toque retal obrigatório; cuidado com sondagem vesical antes de afastar lesão de uretra |
Limites da transição toracoabdominal em três fontes brasileiras
| Fonte | Anterior | Lateral | Posterior |
|---|---|---|---|
| Saad Júnior e Gonçalves, 2012 | Quarto espaço intercostal | Sexto espaço intercostal | Ponta da escápula |
| Starling e colaboradores, 2012 (à direita) | Quarto espaço intercostal direito | Sexto espaço intercostal direito | Sétimo espaço intercostal direito |
| Protocolo AT16 do SAMU 192, 2016 | Abaixo da linha mamilar | Flanco, entre as linhas axilares anterior e posterior, do sexto espaço intercostal à crista ilíaca | Abaixo da linha infraescapular |
Desempenho dos métodos no ferimento por arma branca de parede anterior
| Método | Sensibilidade | Especificidade | O que a série mostrou |
|---|---|---|---|
| Exame clínico seriado | 100% | 98,7% a 100% | Acurácia de 100% em 33 pacientes no ensaio gaúcho; nenhuma laparotomia não terapêutica nesse braço |
| Tomografia de abdome | 31,3% num estudo prospectivo, 100% no ensaio gaúcho | 84,2% e 96,7% | Valor preditivo positivo de 67% no ensaio gaúcho; produziu a única laparotomia não terapêutica da série |
| Ultrassonografia rápida | 36% | Não relatada | Valor preditivo positivo de 67% e negativo de 86%; não serviu como método diagnóstico útil no estável |
| Lavagem peritoneal diagnóstica | Não relatada | Não relatada | 57% de laparotomias não terapêuticas entre os operados com base no resultado |
| Exploração local da ferida | Não se aplica | Não se aplica | Permitiu alta domiciliar em 41% dos casos quando negativa |
Profilaxia antitetânica no ferimento por arma branca ou de fogo (alto risco)
| História vacinal | Vacina | Soro ou imunoglobulina |
|---|---|---|
| Incerta ou menos de três doses | Sim, e aprazar as próximas para completar o esquema | Sim |
| Três doses ou mais, última há menos de cinco anos | Não | Não |
| Três ou mais doses, última entre cinco e dez anos | Sim, um reforço | Não, exceto imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso |
| Três ou mais doses, última há dez anos ou mais | Sim, um reforço | Não, exceto imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso |
| Três ou mais doses, última há dez anos ou mais, em situações especiais | Sim, um reforço | Sim |
O Guia de Vigilância em Saúde inclui ferimentos por arma branca e arma de fogo entre os de alto risco de tétano. Use essa classificação e o histórico vacinal para aplicar a tabela de profilaxia.
A lista de indicações desta seção se apoia na versão de 2018 da diretriz capixaba. Ao consultar o documento, confira sua data e o contexto das recomendações.
A tabela reúne estudos com populações e denominadores distintos: a sensibilidade da tomografia foi de 31,3% na série de 177 pacientes e de 100% no ensaio com 33. Esses resultados não devem ser comparados como se viessem da mesma população. Interprete a imagem no contexto da seleção clínica e mantenha o exame seriado no tratamento seletivo.
A escala de profundidade dos cartões aplica-se à arma branca. No ferimento por projétil, a aparência superficial do orifício não define a trajetória nem exclui penetração. A caracterização de trajeto tangencial exige a investigação descrita no percurso.
Deterioração clínica exige reavaliação cirúrgica imediata, mesmo que nenhum item da lista esteja completo. O julgamento da equipe define a necessidade e o momento da laparotomia.
Marque os orifícios com material radiopaco antes da radiografia e confronte ferimentos, possíveis trajetórias e projéteis identificados. Uma relação não esclarecida exige revisão da investigação, incluindo outros segmentos quando indicado.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo tem duas trilhas que se separam por volta do minuto vinte: a do paciente que fica e a do paciente que vai. As duas primeiras meias horas são iguais para todos, e é nelas que o interno faz a maior parte do que lhe cabe. Toda dose aqui vem com a fonte que a sustenta, e toda fonte é brasileira e aberta.
Uma convenção de escrita antes de começar. O protocolo de segurança na prescrição do Ministério da Saúde com a Anvisa recomenda abolir as abreviaturas de unidade e de unidade internacional, escrevendo a palavra por extenso, porque são consideradas as abreviaturas mais perigosas de todas e podem levar à administração de dose dez ou cem vezes maior que a prescrita. Vai fazer diferença justamente na profilaxia antitetânica, e por isso os números abaixo estão escritos assim.
Minuto 0 — antes de olhar o buraco
A avaliação primária vem primeiro e não é formalidade: no penetrante de tronco você está procurando as causas de morte em minutos, que são a via aérea, o pneumotórax hipertensivo, o tamponamento e a hemorragia. Só depois disso o ferimento abdominal ganha atenção. Exponha o paciente inteiro, e exponha as costas — orifício de dorso e de região glútea é o que mais escapa, porque ninguém vira o paciente. Enquanto expõe, previna hipotermia: manta térmica, ambiente aquecido, e solução aquecida quando houver reposição. Há um detalhe na hora de tirar a roupa que quase ninguém ensina e que o protocolo PE17 do SAMU escreve com todas as letras: em caso de ferimento penetrante, durante a retirada das vestes e a exposição do paciente, preserve a área perfurada da veste, não fazendo cortes no local da perfuração. O furo da camisa é vestígio, e o corte da tesoura destrói informação sobre distância e sobre o agente. Corte ao lado, nunca em cima.
Prescrição- Oxigênio sob máscara não reinalante, 10 a 15 litros por minuto, se saturação abaixo de 94% (protocolo AT4 do SAMU 192, 2ª edição, 2016).
- Dois acessos venosos periféricos calibrosos. Após duas tentativas sem sucesso, considerar punção intraóssea; na impossibilidade, dissecção venosa (preferir a safena) ou punção de jugular externa (AT4).
- Coleta imediata de tipagem sanguínea com prova cruzada, hemograma e beta-hCG em mulher em idade fértil.
- Compressão direta de sangramento externo com a mão ou compressas; se houver objeto encravado, compressão ao redor do objeto, jamais sobre ele (protocolo AT16 do SAMU 192).
- Manta térmica e prevenção ativa de hipotermia desde a exposição.
Minuto 0 a 10 — a decisão que não espera exame
Teste o paciente contra as três situações que dispensam investigação: instabilidade hemodinâmica, peritonite difusa, evisceração. Se qualquer uma estiver presente, o relógio muda de dono. Acione o cirurgião e o centro cirúrgico no mesmo minuto; se não houver cirurgião no hospital, acione a regulação médica agora, e não depois de tentar um exame. Na evisceração, a conduta da mão é específica e vem do protocolo AT16: não tentar recolocar os órgãos na cavidade abdominal e cobri-los com compressas estéreis umedecidas com soro fisiológico, usando plástico próprio para evisceração quando disponível. As compressas secam rápido sob foco de luz; reumedeça, não troque. No objeto encravado ou empalado, também do AT16: não mover nem remover, fixar e imobilizar para evitar movimentação durante o transporte, e não palpar o abdome, para evitar maior laceração de vísceras.

Da esquerda para a direita: proteger as vísceras expostas com cobertura estéril umedecida, sem tentar reduzi-las; estabilizar um objeto encravado sem removê-lo ou pressioná-lo no eixo; e retirar a roupa preservando o orifício quando possível. São modelos de treino, e esses cuidados acompanham a avaliação inicial e o controle das ameaças imediatas. Prescrição- Jejum absoluto assim que a suspeita de abdome cirúrgico se estabelece.
- Compressas estéreis umedecidas com soro fisiológico sobre a víscera exteriorizada, reumedecidas conforme secarem; plástico de evisceração por cima quando disponível (AT16).
- Objeto encravado: coxim de compressas ao redor e fixação com atadura, sem tração e sem rotação (AT16).
Minuto 10 a 20 — o que se prescreve sem saber o diagnóstico
Volume no penetrante não é o mesmo volume do choque séptico. O protocolo AT4 do SAMU manda repor com solução cristaloide isotônica com o objetivo de manter pressão sistólica acima de 80 milímetros de mercúrio, e o protocolo AT16, específico do trauma abdominal aberto, é ainda mais explícito: na ausência de traumatismo cranioencefálico, a restauração da pressão arterial por meio da reposição volêmica deve alcançar entre 80 e 90 milímetros de mercúrio, para evitar novos sangramentos. Se houver traumatismo cranioencefálico associado, o alvo sobe para acima de 90. A razão do alvo baixo é mecanística e vale entender para não sabotá-la: subir a pressão num foco de sangramento não controlado desaloja coágulo, e o cristaloide dilui fator de coagulação e esfria o paciente. Volume aqui é ponte para o centro cirúrgico, não tratamento. Analgesia não atrapalha o exame seriado: dor não controlada é que atrapalha, porque o paciente enrijece a parede voluntariamente e você deixa de distinguir defesa de proteção. O protocolo AC37 do SAMU organiza a escolha por intensidade medida em escala numérica. Um cuidado do próprio protocolo é decisivo aqui: não usar antieméticos na suspeita de abdome agudo cirúrgico.
Prescrição- Ringer lactato aquecido a 39 graus como cristaloide de primeira escolha, seguido de solução salina a 0,9%; alvo de pressão sistólica entre 80 e 90 milímetros de mercúrio na ausência de traumatismo cranioencefálico, e acima de 90 se houver (protocolos AT4 e AT16 do SAMU 192).
- Dipirona sódica 500 miligramas por mililitro, 1 grama endovenoso — ou seja, 2 mililitros da apresentação injetável (protocolo AC37 do SAMU 192).
- Dor intensa: sulfato de morfina 2 a 10 miligramas endovenosos para 70 quilos, em infusão lenta. Confira a ampola: existe apresentação de 1 miligrama por mililitro e de 10 miligramas por mililitro, e 2 miligramas são 2 mililitros de uma e 0,2 mililitro da outra (AC37).
- Alternativa em dor intensa: fentanil 50 microgramas por mililitro, 2 a 4 mililitros, o que equivale a 100 a 200 microgramas, em infusão lenta — a infusão rápida pode provocar rigidez da caixa torácica ou laringoespasmo (AC37).
- Não prescrever antiemético enquanto a hipótese de abdome agudo cirúrgico estiver de pé (AC37).
- Analgesia criteriosa e reavaliada em quem está com pressão sistólica abaixo de 90 (AC37).
Minuto 20 a 40 — a bifurcação
Com o paciente estável, sem peritonite e sem evisceração, a decisão agora depende de duas coisas que não são clínicas: o agente e o seu hospital. Na arma branca de parede anterior, a exploração local sob anestesia local responde a pergunta. Aponeurose íntegra sob visão direta encerra o caso; aponeurose violada interna o paciente. No projétil que atravessa a parede anterior, a regra dominante nos serviços brasileiros é a laparotomia, e tratamento não operatório aqui só existe dentro de protocolo escrito, com tomografia, cirurgião presente e leito de observação. E então vem a pergunta que decide a noite inteira: o seu hospital consegue sustentar a alternativa? Se em qualquer momento das próximas vinte e quatro horas faltar cirurgião, centro cirúrgico, sangue ou examinador, a observação deixa de ser conduta e a transferência passa a ser. A diretriz capixaba fecha o raciocínio pelo lado do exame: nunca realizar tomografia se isso for causar atraso na transferência do paciente para um nível de atenção mais avançado. Um alerta sobre o documento que você vai abrir para prescrever a profilaxia, e ele é o trecho mais importante deste marco. O capítulo de tétano acidental do Guia de Vigilância em Saúde traz, além do quadro de conduta profilática, um Quadro 3 com os antibióticos para eliminação do Clostridium tetani no caso já instalado. Nesse quadro, a linha da penicilina G cristalina registra a dose pediátrica como 50.000 a 100.000 unidades internacionais por quilo por dia — com o por quilo. A linha do metronidazol, logo abaixo, registra a coluna de adultos como 500 miligramas e a de crianças como 7,5 miligramas, de oito em oito horas, sem o por quilo. A dose pediátrica pretendida é 7,5 miligramas por quilo por dose, o que dá 22,5 miligramas por quilo por dia — coerente com a edição anterior do próprio guia, que trazia 30 miligramas por quilo por dia para o tétano neonatal, também com o por quilo. Faça a conta e veja o tamanho do problema. Numa criança de 10 quilos, a dose correta é 75 miligramas por dose; a impressa, 7,5 — dez vezes menos. Numa de 20 quilos, 150 contra 7,5, vinte vezes menos. O fator do erro é o próprio peso da criança em quilos. Lido ao pé da letra, o quadro prescreve uma dose subterapêutica para todo mundo, e quanto maior a criança, pior. Isso não é motivo para desconfiar do documento inteiro, que é a régua brasileira da profilaxia antitetânica e é boa; é motivo para uma regra permanente de leitura: toda dose pediátrica sem o por quilo, ao lado de uma dose adulta em miligramas absolutos, é suspeita até você conferir em outra fonte. Confira antes de assinar. O intervalo descrito pertence ao estudo/protocolo citado. Para a prática atual, adotar seleção e observação apropriadas ao risco, incluindo pelo menos 48 horas no percurso WSES 2022 para manejo não operatório de trauma penetrante com risco intestinal; piora não espera completar o intervalo.
Prescrição- Exploração local da ferida, quando indicada: antissepsia, campos estéreis, anestesia local, ampliação da ferida sob visão, hemostasia rigorosa e inspeção da aponeurose — nunca sondagem às cegas com cotonete, sonda ou pinça fechada.
- Profilaxia antitetânica conforme situação vacinal, lembrando que ferida por arma branca ou de fogo é ferimento de alto risco de tétano no Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, 2023.
- Vacina dupla adulto por via intramuscular profunda quando indicada pelo quadro de conduta profilática.
- Imunização passiva, quando o quadro a indicar: soro antitetânico, dose profilática de 5.000 unidades internacionais, por via intramuscular ou endovenosa, em massa muscular diferente da vacina. Atenção à ampola: o Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, 2023, registra apresentações de 2 mililitros com 5.000 unidades internacionais, de 5 mililitros com 5.000 e de 10 mililitros com 10.000 ou 20.000 — a mesma quantidade de mililitros carrega conteúdos diferentes. Prescreva em unidades internacionais escritas por extenso, nunca em mililitros.
- Imunoglobulina humana antitetânica no lugar do soro, dose profilática de 250 unidades internacionais, por via intramuscular, nas situações que o próprio guia lista: quem já teve hipersensibilidade a qualquer soro heterólogo e quem é imunodeprimido, que deve sempre receber a imunoglobulina em vez do soro pela meia-vida maior dos anticorpos. A apresentação é frasco-ampola de 1 ou 2 mililitros contendo 250 unidades internacionais, ou seja, prescreve-se o frasco inteiro (Quadro 2 do Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, 2023).
Hora 1 — quando a conduta é transferir
Transferir é uma conduta ativa, com prescrição e com técnica, e é provavelmente a mais frequente na vida do interno do interior. Ela não é o que se faz quando não se sabe o que fazer: é o que se faz quando se sabe exatamente o que o paciente precisa e o hospital não tem. O contato é com a regulação médica, e ele é feito com um roteiro. Diga, nesta ordem: mecanismo e agente; topografia e número de orifícios com referências anatômicas; sinais vitais atuais e a série deles desde a chegada; resposta ao volume administrado, com o quanto foi infundido; achado abdominal; o que o seu hospital já fez e o que ele não tem. A última frase é a mais importante e precisa ser dita em voz alta: este hospital não tem cirurgião disponível nas próximas horas. Antes de o paciente entrar na ambulância, três coisas precisam estar resolvidas. O acesso venoso funcionando e fixado, porque puncionar veia em maca de ambulância em movimento é outra medicina. O aquecimento, porque o trajeto é longo e a hipotermia piora a coagulação. E o registro escrito, porque quem recebe vai reconstruir tudo pelo papel. Sobre exames antes de transferir, a régua é única: só faça o que muda o que a outra equipe vai fazer nos primeiros minutos. Radiografia de tórax com marcadores radiopacos costuma passar nesse teste. Tomografia, quase nunca.
Prescrição- Manter reposição com cristaloide aquecido durante o transporte, com o mesmo alvo pressórico de 80 a 90 milímetros de mercúrio de sistólica na ausência de traumatismo cranioencefálico (AT16).
- Manter jejum e não iniciar antibiótico de tratamento sem discussão com a equipe que vai receber; a antibioticoprofilaxia cirúrgica tem hora marcada, e ela é 30 a 60 minutos antes da incisão (protocolo de profilaxia antimicrobiana em cirurgias do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados, versão 06, 2026).
- Enviar cópia integral do prontuário, das imagens e da ficha de notificação preenchida junto com o paciente.
- Registrar na ficha: horários exatos, volume infundido, drogas administradas com dose e horário, e a descrição de cada orifício com sua referência anatômica.
Hora 1 a 24 — quando a conduta é observar
Observação é um plano ativo, com cirurgião responsável, local adequado, exames seriados, sinais de alarme e acesso rápido à operação. O estudo de Porto Alegre utilizou exame de seis em seis horas por 24 horas, e séries brasileiras acrescentam monitorização de enfermagem. Esses intervalos descrevem os estudos; não autorizam deixar um paciente que piora esperando a próxima visita. A frequência deve ser ajustada à fisiologia e ao risco. Na diretriz WSES de lesão intestinal, o tratamento seletivo não operatório de trauma penetrante exige pelo menos 48 horas de observação com equipe experiente. Protocolos e populações diferem, especialmente arma branca versus projétil; a duração deve ser decidida pelo responsável e pelas condições do serviço. Registre gatilhos claros: piora da dor ou peritonismo, taquicardia persistente, taquipneia, febre, má perfusão e alteração laboratorial relevante exigem avaliação imediata. A vigilância não termina porque transcorreu a janela em que a maioria das falhas ocorreu numa série.
Prescrição- Jejum absoluto; hidratação de manutenção com cristaloide conforme peso.
- Exame físico completo do abdome de seis em seis horas, com registro em quatro quadrantes e a mesma linguagem em todos os exames, preferencialmente pelo mesmo examinador (ensaio do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, 2017).
- Sinais vitais de quatro em quatro horas, com registro de diurese, dor abdominal, temperatura e nível de consciência (revisão da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020).
- Hemograma na admissão, com 6 e com 12 horas; queda persistente de hemoglobina ou hematócrito é critério de falha do tratamento não operatório nos protocolos brasileiros.
- Chamar o plantonista imediatamente diante de: dor que se difunde, defesa involuntária, queda de pressão, frequência cardíaca acima de 100, frequência respiratória acima de 24, temperatura axilar a partir de 37,8 graus, sangramento pelo reto ou pela sonda, ou vômito.
- Analgesia prescrita em horário, e não apenas se necessário — dor descontrolada estraga o exame seriado.
Se for operar — o que é do interno na hora da indução
A cirurgia é do cirurgião; a antibioticoprofilaxia e o registro são frequentemente do interno, e é onde mais se erra por atraso. A classificação importa: o protocolo de profilaxia antimicrobiana do hospital universitário de Dourados classifica como cirurgia contaminada aquela realizada em tecidos recentemente traumatizados e abertos, com trauma penetrante de menos de quatro horas. E faz uma distinção que decide a duração do esquema: profilaxia é uma coisa; tratamento preventivo, feito quando há grande contaminação do sítio cirúrgico ainda sem infecção, é outra. Uma perfuração de cólon achada na laparotomia cai na segunda categoria, e quem decide isso é o cirurgião, com o infectologista quando houver. Duas regras do mesmo protocolo que o interno costuma desconhecer: doses adicionais devem ser feitas quando o sangramento intraoperatório passa de 1,5 litro no adulto; e prolongar a profilaxia porque o paciente ficou com dreno, sonda vesical, cateter venoso ou cânula orotraqueal não é recomendado, porque a profilaxia não é eficaz nessas situações.
Prescrição- Cefazolina 2 gramas endovenosos para peso até 120 quilos, ou 3 gramas para 120 quilos ou mais, administrada 30 a 60 minutos antes da incisão de pele, com repique intraoperatório de 1 grama de 4 em 4 horas (protocolo do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados, versão 06, 2026).
- Quando a abordagem envolve trato digestivo baixo, cavidade colonizada por anaeróbios: cefoxitina 2 gramas endovenosos na indução, repique de 1 grama de 2 em 2 horas, e 1 grama de 6 em 6 horas no pós-operatório, por 24 horas (mesmo protocolo).
- Alergia a betalactâmicos: clindamicina 900 miligramas na indução e 600 miligramas no repique; na substituição da cefoxitina, clindamicina com gentamicina 240 miligramas, ou metronidazol 500 miligramas endovenosos com ciprofloxacino 400 miligramas endovenosos (mesmo protocolo).
- Dose adicional do antimicrobiano quando o sangramento intraoperatório ultrapassar 1,5 litro no adulto ou 25 mililitros por quilo na criança (mesmo protocolo).
- Não prolongar a profilaxia por causa de dreno, sonda vesical, cateter venoso ou cânula orotraqueal (mesmo protocolo).
Antes de qualquer alta ou transferência — a parte que o interno esquece
Três obrigações não clínicas se resolvem antes de o paciente sair do seu campo de visão, e as três costumam ser lembradas tarde demais. A primeira é a cadeia de custódia. O protocolo PE17 do SAMU orienta agrupar e colocar em saco plástico todos os objetos e roupas retirados do paciente e entregá-los ao policial, anotando na ficha o nome do policial para quem foram entregues as vestes ou os objetos, ou para quem foram passadas as informações. O protocolo PE18 acrescenta o arrolamento dos pertences em duas vias, item a item, com identificação do paciente, data, horário e número da ocorrência. Roupa ensanguentada jogada no hamper é prova destruída. A segunda é a notificação. A nota recomendatória da diretriz capixaba determina que todos os traumas gerados por situação sugestiva ou confirmada de qualquer tipo de violência contra criança, adolescente, mulher, idoso, população indígena, pessoas com deficiência e outros grupos ali listados, e todos os traumas por violência doméstica, tortura, lesão autoprovocada, violência sexual, tráfico de pessoas, trabalho infantil e intervenção legal, em toda a população, devem ser notificados na ficha de violência interpessoal e autoprovocada para a vigilância epidemiológica municipal, conservando uma cópia no prontuário. Nos traumas por lesão autoprovocada e violência sexual, a notificação é imediata e a ficha deve estar em posse da vigilância municipal em no máximo vinte e quatro horas. A terceira é a comunicação à autoridade policial quando a vítima é mulher, e ela tem regra própria. O parecer do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais transcreve o parágrafo acrescentado pela Lei 13.931 de 2019 ao artigo 1º da Lei 10.778 de 2003: os casos em que houver indícios ou confirmação de violência contra a mulher serão obrigatoriamente comunicados à autoridade policial no prazo de vinte e quatro horas. E conclui o que se comunica: informar à mulher que a polícia civil será notificada, e notificar o fato sem informar dados específicos do atendimento, preservando o sigilo profissional, transmitindo apenas as informações imprescindíveis sobre o ocorrido e os dados cadastrais da vítima.
Prescrição- Roupas e objetos retirados: agrupar em saco plástico, sem cortar sobre as perfurações, arrolar em duas vias com identificação, data, horário e número da ocorrência, e entregar ao policial anotando o nome dele na ficha (protocolos PE17 e PE18 do SAMU 192).
- Ficha de notificação de violência interpessoal e autoprovocada preenchida, com cópia arquivada no prontuário; imediata, com ficha na vigilância municipal em até 24 horas, quando houver lesão autoprovocada ou violência sexual (nota recomendatória da diretriz capixaba, 2018).
- Vítima mulher: informar a ela que a autoridade policial será comunicada e comunicar o fato em até 24 horas, sem enviar prontuário, laudos ou dados clínicos (Parecer CRM-MG nº 128/2020).
- Criança ou adolescente: além da notificação, relatório circunstanciado ao Conselho Tutelar; pessoa idosa: relatório ao conselho respectivo, vara ou delegacia do idoso (nota recomendatória da diretriz capixaba).
- Adulto lúcido e orientado: orientar e sensibilizar sobre a necessidade de fazer boletim de ocorrência, sem fazê-lo por ele. Se houver risco de vida atual, acionar o 190 imediatamente (mesma nota).
- Na ficha de notificação, a assinatura pessoal não é obrigatória; a assinatura institucional do serviço é (mesma nota) — e isso protege quem preenche.
Alta após observação e reavaliação cirúrgica
A alta depende de estabilidade sustentada, exame abdominal favorável, evolução da dor, tolerância alimentar quando liberada, ausência de sinais de complicação e avaliação cirúrgica. A permanência mínima de 24 horas de uma série não é regra para toda lesão penetrante; respeite a estratégia selecionada, o risco e o protocolo, incluindo observação mais prolongada quando indicada. Entregue orientações escritas e confirme compreensão: retornar imediatamente por dor crescente, distensão, vômitos persistentes, febre, sangramento, tontura ou desmaio. Providencie contato e retorno; a falta de seguimento em um estudo é uma limitação da evidência, não motivo para oferecer apenas um papel. Integre serviço social, rede de atenção psicossocial quando indicada e prevenção de nova violência, de acordo com necessidades e consentimento aplicáveis. Comparecer a essas redes faz parte da continuidade do cuidado.
Prescrição- Alta somente após completar o período de observação selecionado pela equipe e manter critérios clínicos, acesso a retorno e investigação necessária. No manejo não operatório de ferimento penetrante com risco de lesão intestinal, a WSES 2022 recomenda pelo menos 48 horas de avaliações seriadas; um protocolo histórico de 24 horas não serve de prazo universal.
- Analgesia oral por escrito, com dose, intervalo e duração.
- Cuidados com a ferida e data de retorno para revisão do curativo e retirada de pontos.
- Orientação escrita de retorno imediato diante de: dor abdominal que aumenta ou se espalha, febre, vômitos, parada da eliminação de gases e fezes, saída de secreção pela ferida ou sangramento.
- Encaminhamento nominal para unidade básica de referência e, conforme o caso, para saúde mental e serviço social.
Dia 7 a 60 — o retorno, quando houve lesão tratada sem operação
Quem foi conduzido sem operação com lesão de víscera maciça precisa de um plano que dure mais que a internação, e o protocolo mineiro do Hospital João XXIII é o modelo brasileiro escrito disso. Nele, os pacientes com lesão hepática de grau quatro ou maior, ou lesão renal de grau três ou maior, permanecem internados até o sétimo dia após o trauma, quando é realizada nova tomografia para analisar a evolução da lesão. O seguimento ambulatorial é com 15, 30 e 60 dias, e na última avaliação são solicitadas radiografia de tórax e tomografia de abdome para verificar se a víscera lesada já cicatrizou completamente; depois disso, controles com 6, 12, 18 e 24 meses. Na série, dos 67 pacientes que retornaram aos dois meses, 58 (86,5%) tinham lesão cicatrizada e tórax sem alterações. Marque essas consultas antes de o paciente sair, com data e papel na mão. Retorno que depende de o paciente ligar para agendar é retorno que não acontece.
Prescrição- Lesão hepática de grau 4 ou maior, ou renal de grau 3 ou maior, conduzidas sem operação: internação até o sétimo dia e nova tomografia nessa data (protocolo do Hospital João XXIII, 2012).
- Retornos agendados e anotados para 15, 30 e 60 dias, com radiografia de tórax e tomografia de abdome no retorno de 60 dias (mesmo protocolo).
- Orientação de evitar esforço físico e esporte de contato até liberação no retorno, e de procurar atendimento imediato diante de dor abdominal nova.
- Verificar, no retorno de 15 dias, se a segunda dose da vacina antitetânica foi aprazada e se o paciente sabe quando tomá-la.
Como saber se está funcionando
No penetrante, reavaliar não é conferir se o tratamento está funcionando — é conferir se a decisão de não operar continua certa. Essa é uma diferença de natureza: você não está esperando uma droga agir, está vigiando uma hipótese. Por isso os parâmetros abaixo têm gatilho, e não meta.
A palavra que os protocolos brasileiros usam é falha, e ela tem definição escrita. No protocolo do Hospital João XXIII, falha do tratamento não operatório é a necessidade de intervenção cirúrgica para tratar a lesão ou a sua complicação, e ela aconteceu em 4 dos 115 pacientes da série — 3,5%. Nos quatro, havia lesão hepática, e a indicação cirúrgica estava diretamente relacionada a ela. Complicações de qualquer natureza ocorreram em 12 pacientes: as quatro falhas, três pneumonias, dois biliotórax, um hemotórax retido, um empiema e uma infecção urinária. A permanência hospitalar média foi de 9,4 dias, sendo seis dias em quem evoluiu sem complicação e 12,5 dias em quem teve alguma.
Leia essa lista de novo e repare no que ela ensina: metade das complicações da série não é abdominal. Pneumonia, biliotórax, hemotórax retido e empiema são do tórax, porque o ferimento atravessou o diafragma. Vigiar esse paciente só pelo abdome é vigiar metade dele.
Um aviso de leitura sobre a mesma série, e ele vale como lição de método. A Tabela 1 do artigo distribui as lesões por combinação de órgãos, e somando as linhas que contêm fígado chega-se a 110 pacientes, enquanto o texto e a Tabela 2 falam em 109; somando as que contêm rim chega-se a 30, enquanto o texto e a Tabela 3 falam em 28. As tabelas de um mesmo artigo podem não fechar entre si, e conferir soma de tabela é hábito barato. Nenhuma dessas diferenças muda a conduta que o protocolo ensina — mas quem cita um número sem somar a coluna acaba citando o número errado.
Esperado: Dor que permanece restrita à vizinhança do ferimento e tende a diminuir; parede depressível; sem defesa involuntária; sem descompressão dolorosa longe da ferida
Se não melhora: Dor que se difunde, defesa involuntária ou descompressão positiva encerram a observação. Chame o cirurgião; se não houver cirurgião no hospital, acione a regulação no mesmo minuto. Não peça exame para confirmar o que o exame físico já disse.
Esperado: Estabilidade ou queda gradual à medida que a dor é controlada e a ansiedade cede
Se não melhora: Taquicardia acima de 100 que não cede com analgesia é gatilho de reavaliação médica imediata. Antes de atribuí-la à dor, exclua sangramento e, no toracoabdominal, exclua o tórax.
Esperado: Manutenção sem necessidade de novos bolus; no paciente ainda em reposição, alvo de 80 a 90 milímetros de mercúrio na ausência de traumatismo cranioencefálico
Se não melhora: Queda, ou necessidade repetida de volume para manter o alvo, é resposta transitória e significa sangramento ativo agora. É indicação cirúrgica, não indicação de tomografia.
Esperado: Abaixo de 37,8 graus nas primeiras vinte e quatro horas
Se não melhora: A partir de 37,8 graus, o protocolo do ensaio gaúcho autorizava a equipe a operar ou a solicitar tomografia e exames laboratoriais. Febre precoce no penetrante abdominal é contaminação até prova em contrário.
Esperado: Estabilidade da série, descontada a diluição do volume infundido
Se não melhora: Queda persistente é critério escrito de falha nos dois protocolos brasileiros e interrompe o tratamento não operatório. Antes de operar, confirme que a queda não é diluicional e procure a outra fonte: tórax, pelve, retroperitônio e o chão da sala.
Esperado: Fluxo mantido e urina clara
Se não melhora: Oligúria aponta para hipoperfusão antes de a pressão cair. Hematúria nova, macroscópica ou detectada em fita, muda o alvo da investigação para o retroperitônio e para o trato urinário.
Esperado: Frequência abaixo de 24 e saturação acima de 94% em ar ambiente
Se não melhora: Taquipneia era gatilho de reavaliação no protocolo gaúcho. No ferimento toracoabdominal, pense em hemotórax que cresceu, pneumotórax tardio e derrame — a radiografia de tórax repetida custa pouco e responde rápido.
Esperado: Redução progressiva do débito e líquido que clareia
Se não melhora: Débito que não cai indica sangramento ativo. Líquido esverdeado ou francamente biliar é biliotórax, complicação registrada na série mineira, e significa comunicação entre a lesão hepática e a cavidade pleural pelo diafragma. Débito que cessa com o pulmão não expandido é hemotórax retido, e ele evolui para empiema.
Esperado: Aceita dieta líquida sem dor e sem vômito; elimina gases
Se não melhora: Vômito ou distensão após reintrodução da dieta reabre a suspeita de lesão de víscera oca. Suspenda a dieta, não prescreva antiemético e reavalie com o cirurgião.
Esperado: Bordas limpas, sem secreção, sem eritema que se expande
Se não melhora: Secreção purulenta, celulite expansiva, crepitação ou dor desproporcional exigem reabertura e avaliação cirúrgica imediata. Ferida de trauma penetrante é ferida contaminada, e ela pode infectar mesmo com a cavidade intacta.
Esperado: Paciente lúcido, colaborativo e capaz de localizar a própria dor
Se não melhora: Alteração do nível de consciência tira do ar o único sensor da observação. Se o paciente deixa de ser examinável — por rebaixamento, agitação, abstinência ou sedação —, a conduta não operatória perde o seu fundamento e a decisão precisa ser refeita com o cirurgião.
Esperado: Tomografia de controle mostrando lesão em cicatrização e, aos dois meses, cicatrizada — foi o que ocorreu em 58 dos 67 pacientes que retornaram na série mineira
Se não melhora: Lesão que não regride, coleção que aparece ou dor persistente pedem reavaliação por imagem e discussão cirúrgica. Cistos hepáticos residuais foram descritos e podem persistir por dois anos com regressão lenta, sem exigir intervenção.
Onde o erro machuca
O dano: O instrumento segue o plano de menor resistência, e não o trajeto real, o que produz falso negativo. Pode completar uma laceração aponeurótica parcial, empurrar contaminação da pele para dentro e deslocar coágulo de vaso da parede, transformando um sangramento contido em hemorragia. E a dor iatrogênica que ele provoca contamina o exame seriado, que é o instrumento do qual a conduta depende.
Como pegar a tempo: Se a exploração local está indicada, faça-a como o procedimento cirúrgico que ela é: antissepsia, campos, anestesia local, ampliação da ferida, hemostasia rigorosa e visão direta da aponeurose. Se a sala não permite isso, não improvise uma versão pior — interne e observe.
O dano: Leva para dentro do abdome a contaminação da pele e do ambiente, pode estrangular a alça no anel aponeurótico e apaga a informação anatômica que o cirurgião usaria. E é desnecessário: a evisceração já é indicação de laparotomia por si só.
Como pegar a tempo: Cubra com compressas estéreis umedecidas com soro fisiológico e reumedeça conforme secarem, usando plástico de evisceração quando houver, como manda o protocolo AT16. Acione o cirurgião ou a regulação no mesmo minuto.
O dano: O objeto pode estar tamponando o vaso que ele mesmo lesou. Removido fora do centro cirúrgico, o sangramento se torna incontrolável exatamente onde ninguém pode abrir o abdome.
Como pegar a tempo: Não mover, não remover, fixar e imobilizar o objeto, fazer pressão direta ao redor se houver sangramento, e não palpar o abdome, conforme o protocolo AT16 do SAMU. A retirada acontece sob visão direta, no centro cirúrgico.
O dano: Destrói vestígio pericial que informa distância e agente, e não há como refazê-lo. Numa lesão que quase sempre gera processo criminal, a informação perdida pode ser a que decidiria a versão dos fatos, com consequências para a vítima e para terceiros.
Como pegar a tempo: O protocolo PE17 manda preservar a área perfurada da veste, não fazendo cortes no local da perfuração. Corte em linha lateral, longe do furo; agrupe a roupa em saco plástico, arrole em duas vias e entregue ao policial, anotando o nome dele na ficha.
O dano: Escreve como fato uma hipótese. Um projétil pode cambalear, fragmentar-se e desviar ao atingir osso, e a linha reta que você traçou pode não corresponder a nada. Pior: um trajeto declarado tranquiliza a equipe seguinte sobre um território que talvez não tenha sido percorrido.
Como pegar a tempo: Numere os orifícios e descreva cada um com referência anatômica precisa, sem afirmar qual é entrada e qual é saída quando não for inequívoco. Marque-os com material radiopaco antes da radiografia e confira a paridade: cada projétil ou saiu, ou está no corpo.
O dano: A recomendação brasileira de 2014 diz que a tomografia não é necessária nessa situação por baixa acurácia, e o estudo prospectivo que ela resume mostrou que a tomografia identificou apenas 5% das lesões significativas — usada como critério único para liberar, deixaria passar 68% das lesões. O paciente vai embora com uma perfuração que ainda não doeu.
Como pegar a tempo: Definir observação pelo risco, trajetória e protocolo atual do serviço. Não copiar as 24 horas de uma série histórica para todo ferimento penetrante; a WSES 2022 propõe pelo menos 48 horas no manejo não operatório com risco intestinal. Qualquer deterioração antecipa a reavaliação e possível cirurgia.
O dano: No penetrante estável, a sensibilidade da ultrassonografia rápida foi de 36%, com valor preditivo negativo de 86%. Ela procura líquido livre, e a lesão que você mais teme — perfuração de víscera oca e lesão diafragmática — não produz líquido livre precoce.
Como pegar a tempo: Use o exame para responder o que ele responde: derrame pericárdico e líquido livre volumoso no instável. Um resultado positivo informa; um resultado negativo não libera ninguém.
O dano: Observação sem hora marcada, sem conteúdo definido e sem gatilhos escritos vira paciente esquecido num corredor. As lesões que exigem cirurgia se manifestam nas primeiras doze horas, e praticamente todas as laparotomias de uma série multicêntrica ocorreram nas primeiras quatro horas de observação — exatamente as horas em que ninguém está olhando se o regime não foi prescrito.
Como pegar a tempo: Escreva na prescrição: exame do abdome de seis em seis horas pelo mesmo examinador, sinais vitais de quatro em quatro horas, jejum, hemograma seriado e a lista nominal de gatilhos para chamar o médico. E deixe combinado quem examina em cada turno.
O dano: Orifícios em dorso, região glútea, períneo, axila e couro cabeludo são os que mais escapam, e são justamente os que apontam para retroperitônio, reto e vasos ilíacos. Um orifício não encontrado é um trajeto não considerado e uma conta de paridade que ninguém fez.
Como pegar a tempo: Exposição completa com rolamento em bloco, inspeção de dorso, nádegas, períneo, axilas e couro cabeludo, e registro do número total de orifícios encontrados. Faça isso antes de cobrir o paciente.
O dano: Cada exame consome minutos de um paciente cujo tratamento está em outra cidade. A diretriz capixaba é explícita ao dizer que nunca se deve realizar tomografia se isso causar atraso na transferência para nível de atenção mais avançado. O exame que você fez não muda o que a outra equipe vai fazer; o atraso muda.
Como pegar a tempo: Antes de pedir qualquer exame no paciente que vai ser transferido, pergunte: isto muda o que a equipe de destino fará nos primeiros minutos? Se a resposta for não, não peça. Ligue para a regulação primeiro e peça o exame enquanto a vaga é buscada, nunca antes de buscá-la.
O dano: Mascara justamente o sinal que anunciaria a lesão de víscera oca ou a obstrução, e retarda a decisão cirúrgica. O protocolo AC37 do SAMU proíbe antiemético na suspeita de abdome agudo cirúrgico, e o motivo é esse.
Como pegar a tempo: Vômito no penetrante abdominal é achado, não sintoma a suprimir. Suspenda a dieta, mantenha o jejum, passe sonda gástrica se houver indicação e reavalie o abdome.
O dano: Em foco de sangramento não controlado, elevar a pressão desaloja coágulo; o cristaloide em excesso dilui fator de coagulação e esfria o paciente, fechando a tríade que piora a hemorragia. O protocolo AT16 fixa o alvo entre 80 e 90 milímetros de mercúrio de sistólica na ausência de traumatismo cranioencefálico exatamente para evitar novos sangramentos.
Como pegar a tempo: Trabalhe com o alvo pressórico do protocolo, use cristaloide aquecido, peça sangue cedo em vez de mais cristaloide, e trate o volume como ponte para o centro cirúrgico.
O dano: A comunicação obrigatória à autoridade policial não libera o sigilo profissional. O parecer do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais conclui que a Lei 13.931 de 2019 alterou apenas o artigo 1º da Lei 10.778 de 2003, sem tratar do sigilo, que continua definido no artigo 3º, e que o envio de dados relativos ao atendimento pode configurar quebra de sigilo — com as consequências éticas e penais que isso carrega para quem assinou.
Como pegar a tempo: Informe à paciente que a polícia civil será comunicada. Comunique o fato dentro de vinte e quatro horas, transmitindo apenas as informações imprescindíveis sobre o ocorrido e os dados cadastrais. Documento clínico só sai por requisição judicial, e a decisão de responder a ela é da direção técnica, não do interno.
O dano: O Guia de Vigilância em Saúde registra ampolas de 2 mililitros com 5.000 unidades internacionais, de 5 mililitros com 5.000 e de 10 mililitros com 10.000 ou 20.000. Divida e veja: a concentração varia de 1.000 a 2.500 unidades internacionais por mililitro entre as apresentações. Prescrever 2 mililitros entrega 5.000 unidades numa ampola e 2.000 em outra; prescrever 5 mililitros entrega 5.000 numa e 10.000 em outra. O erro chega a duas vezes e meia, para mais ou para menos, sem que ninguém tenha escrito um número errado.
Como pegar a tempo: Prescreva sempre em unidades internacionais e escreva a palavra por extenso, como recomenda o protocolo de segurança na prescrição do Ministério da Saúde com a Anvisa — que classifica as abreviaturas de unidade como as mais perigosas de todas. Deixe a conversão para mililitros com quem confere a ampola na mão.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa no trauma penetrante tem uma dificuldade que a do trauma fechado não tem: quase sempre há um crime no meio, e quase sempre há alguém na sala que não quer falar. O paciente pode ter medo de represália, pode conhecer o agressor, pode ser o agressor de outra história, pode ter causado o ferimento em si mesmo. Você não é investigador e não precisa saber quem fez. Precisa saber o que entrou, quando, e se ele corre risco ao sair daqui.
As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear. Quando a notícia for de morte ou de risco iminente de morte, o capítulo de comunicação de más notícias desta plataforma tem o passo a passo, e este aqui não o repete.
O paciente pergunta se vai precisar operar e você ainda não sabe
“Ainda não sei, e vou te explicar por quê. A faca pode ter parado na musculatura ou pode ter entrado na barriga. As duas coisas parecem iguais por fora e são muito diferentes por dentro. Eu tenho jeito de descobrir, e é isso que vou fazer nas próximas horas. Enquanto isso você fica aqui em jejum, e eu volto de seis em seis horas para examinar sua barriga. Se alguma coisa mudar, a gente decide na hora.”
Não diga: Não diga que está tudo bem porque os exames estão normais. Estar bem agora é uma informação sobre agora, e prometer o que você não sabe destrói a confiança na hora em que você mais vai precisar dela.
Explicar a exploração da ferida antes de fazê-la
“Vou anestesiar a região do corte e abrir um pouco mais a ferida, com material estéril, para conseguir enxergar até onde a lâmina foi. Não vou mexer dentro da barriga. É rápido, dói na hora da anestesia e depois não dói. Se eu vir que ela parou antes de furar a camada que fecha a barriga, você pode ir para casa hoje. Se eu vir que passou, você fica internado para a gente acompanhar. Posso fazer?”
Não diga: Não faça sem explicar e sem anestesia. E não descreva como um curativo: é um procedimento, o paciente tem direito de saber o que é e para que serve.
Explicar por que vai ficar internado sem ser operado
“A gente sabe que a barriga foi aberta e não sabe se alguma coisa lá dentro foi machucada. Operar todo mundo nessa situação significa abrir muita gente à toa, e abrir à toa também faz mal. Então a gente faz o contrário: você fica aqui, em jejum, e eu examino sua barriga de tempos em tempos. Se aparecer sinal de que tem alguma coisa, a gente opera na mesma hora. Na maior parte das vezes não aparece, e amanhã você come e vai para casa.”
Não diga: Não chame isso de estar em observação e sair da sala. E não prometa vinte e quatro horas exatas — o relógio serve à decisão, não o contrário.
Dizer à família que este hospital não vai operar o paciente
“O que ele tem precisa de cirurgião, e este hospital não tem cirurgião disponível agora. Isso não é uma questão de esperar mais um pouco: quanto antes ele chegar a um serviço que tenha, melhor. Eu já falei com a central de regulação, ele está com soro, oxigênio e remédio para dor, e vai numa ambulância com equipe. Assim que eu tiver o nome do hospital e a previsão de saída, eu venho aqui e digo para vocês.”
Não diga: Não peça desculpas pelo hospital nem culpe a rede na frente da família — isso desloca a conversa para a raiva e rouba o tempo dela. E não prometa hospital nem horário antes de a vaga estar confirmada.
A família pergunta por que não fizeram tomografia antes de mandar embora
“A tomografia diz o que está machucado, mas quem vai tratar isso é o cirurgião, e ele está lá. Se a gente parasse para fazer o exame aqui, o exame ficaria pronto e ele estaria meia hora mais longe do tratamento. O hospital que vai recebê-lo faz o exame lá, na hora, com a equipe pronta ao lado.”
Não diga: Não use a palavra protocolo como resposta. Explique a troca: exame aqui contra minutos até o cirurgião.
O paciente pergunta se a polícia vai saber
“O que eu preciso fazer, e faço em todo caso desse tipo, é uma ficha de notificação que vai para a vigilância em saúde. Ela não é boletim de ocorrência, não é denúncia e serve para a saúde saber o que está acontecendo com as pessoas e para você entrar numa rede de acompanhamento. Registrar uma queixa na polícia é uma decisão sua, e eu posso te explicar como se faz, se você quiser.”
Não diga: Não diga que nada será comunicado — em algumas situações há comunicação obrigatória. Não prometa sigilo absoluto que você não pode garantir, e não force o paciente a fazer boletim de ocorrência.
A paciente é mulher e o agressor é o companheiro
“Preciso te contar uma coisa antes que você saiba por outra pessoa. A lei obriga o serviço de saúde a comunicar a polícia quando atende uma mulher em situação de violência, e esse aviso vai sair em até vinte e quatro horas. O que vai na comunicação é o fato e os seus dados de identificação — o que a gente conversou aqui, o exame e o seu prontuário não vão. Se você quiser fazer a queixa e falar com a delegacia, eu chamo o serviço social para te acompanhar.”
Não diga: Não envie relatório médico, laudo nem prontuário junto com a comunicação. Não comunique sem avisá-la antes: descobrir por terceiros que o médico chamou a polícia é o que faz a paciente não voltar da próxima vez.
Você suspeita que o ferimento foi autoprovocado
“Vou te fazer uma pergunta direta, e faço em todo mundo que chega com um machucado assim. Você se machucou de propósito? Se sim, isso não muda o cuidado que você vai receber aqui, e não é motivo de julgamento. Só muda uma coisa: eu vou chamar mais alguém da equipe para conversar com você antes de você ir embora, porque isso costuma ter tratamento e costuma melhorar.”
Não diga: Não pergunte na frente da família, do acompanhante ou do policial. Não use rodeios: pergunta indireta recebe resposta indireta, e a informação que você não obtém é a que decidiria o encaminhamento.
A alta, e como fazer o paciente voltar se precisar
“Você está indo para casa porque examinei sua barriga várias vezes e ela está bem. Mas quero que você guarde este papel. Se aparecer dor que aumenta ou se espalha, febre, vômito, ou se parar de soltar gases, volte para cá na hora, em qualquer horário, sem esperar consulta. Não é para tomar remédio e ver se passa. E traga este papel com você.”
Não diga: Não dê a orientação apenas de boca. Não escreva sinais de alarme em linguagem técnica: escreva o que a pessoa vai sentir, com as palavras dela.
O acompanhante quer saber o que aconteceu, e o paciente não quer contar
“Eu entendo a preocupação, e eu vou explicar o estado de saúde dele para vocês. O que ele me contou sobre como aconteceu é uma conversa que pertence a ele, e ele é quem decide o que contar. O que eu posso dizer é o que ele tem, o que a gente vai fazer e como ele está.”
Não diga: Não repasse à família, à polícia ou a conhecidos o relato do paciente sobre a agressão. E não deixe o interrogatório da família acontecer com você na sala em silêncio: a presença do médico legitima a pressão.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Laparotomia obrigatória
A exploração cirúrgica obrigatória continua sendo o padrão na maioria dos hospitais, e os argumentos são três: a frequência de lesão intra-abdominal que exige tratamento cirúrgico é alta nesse mecanismo; o exame clínico não seria confiável para excluir lesão abdominal; e a demora em operar um paciente assintomático com lesão está associada a aumento de morbidade. Nesse raciocínio, a laparotomia não terapêutica é um preço aceitável.
Revisão narrativa da Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020, que descreve essa como a conduta ainda dominante e sistematiza os argumentos de quem a defende
Conservadorismo seletivo
A mesma revisão contrapõe: estudos prospectivos mostraram sensibilidade de 100% e especificidade de 95,3% para o exame clínico seriado num deles, e sensibilidade de 97,1% em outro; muitas lesões causadas por ferimento penetrante não têm repercussão clínica e podem ser tratadas sem operação, como as renais e as hepáticas à direita; e a laparotomia não terapêutica não é benigna, podendo causar infecção intra-abdominal e de ferida, obstrução intestinal precoce, complicações respiratórias e até óbito, além de hérnia incisional e obstrução tardias.
Mesma revisão de 2020, e a série brasileira do Hospital João XXIII publicada em 2012, com 115 pacientes conduzidos sem operação e 3,5% de falha
Tratamento seletivo exige protocolo, tomografia, cirurgião disponível, exames seriados, sangue e capacidade de operar rapidamente. Confirme esses recursos no plantão antes de escolher a observação. Se a estrutura for insuficiente, organize transferência ou tratamento definitivo conforme a situação clínica. O risco de laparotomia não terapêutica deve ser ponderado junto ao risco de diagnóstico tardio; a decisão cabe à equipe cirúrgica.
Toda lesão diafragmática diagnosticada deve ser suturada
A história natural descrita desde Carter e Giuseffi prevê três fases — aguda, de latência e tardia —, e a fase tardia é a das complicações da hérnia: o encarceramento leva a quadro obstrutivo que em até 20% dos casos evolui para necrose e estrangulamento, com mortalidade relatada de 16% a 20% na obstrução e de até 80% no estrangulamento. Como nenhum exame exclui a lesão com segurança, e como a alta hospitalar não significa cura, os autores concluem que no estágio atual do conhecimento não é recomendável o tratamento não operatório das lesões diafragmáticas.
Artigo de revisão da Santa Casa de São Paulo, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012
Há espaço para não operar, sobretudo à direita
Os mesmos autores registram os estudos experimentais em murinos que mostraram cicatrização espontânea do diafragma em 91,1% das lesões de pequena extensão — 100% à direita e 83% à esquerda —, com prazo de cicatrização em torno de 21 dias, e em 54% das lesões maiores à direita. Argumentam ainda que, se nenhuma lesão cicatrizasse, haveria muito mais hérnias do que se observa, já que o número de lesões potenciais não operadas é muito maior que o de hérnias. Na prática clínica, o protocolo mineiro conduziu sem operação 115 ferimentos por projétil na transição toracoabdominal direita, com lesão frênica inferida em 62,6% deles, e as radiografias de tórax dos 45 pacientes que retornaram aos 24 meses não mostraram alterações diretas ou indiretas de lesão frênica.
Mesmo artigo de 2012, na seção de história natural, e série do Hospital João XXIII, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012
Considere o lado e a suspeita de lesão diafragmática. O tratamento não operatório à direita descrito no protocolo mineiro depende de seleção e estrutura. À esquerda, a mobilidade das vísceras e o risco de herniação sustentam a investigação por videolaparoscopia apresentada na recomendação de 2014. Sem equipe ou recurso para essa avaliação, organize transferência conforme o quadro.
Exame seriado isolado basta
A recomendação brasileira é direta ao afirmar que a tomografia de abdome não é necessária no ferimento por arma branca em parede anterior, devido à baixa acurácia, e que a exploração local seguida ou não de exame seriado conduz o caso de forma eficaz e segura. O ensaio randomizado de Porto Alegre conclui que o exame clínico seriado isolado pode ser realizado sem tomografia, sem aumento do tempo de internação nem da morbidade, reduzindo custos, exposição à radiação e laparotomias não terapêuticas.
Reunião de revista TBE-CiTE, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2014, e ensaio clínico randomizado do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, 2017
A imagem tem lugar no algoritmo
A diretriz estadual capixaba mantém a tomografia entre os adjuntos do exame físico no trauma abdominal, indicada ao paciente hemodinamicamente estável sem indicação aparente de laparotomia de emergência, e destaca sua vantagem de informar sobre órgãos específicos, sobre a extensão das lesões e sobre o retroperitônio e a pelve, que não são bem avaliados por exame físico, ultrassonografia rápida ou lavagem peritoneal. No próprio ensaio gaúcho, a tomografia teve valor preditivo negativo de 100%.
Diretrizes Clínicas de Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, versão 2018, Quadro 12
Defina a pergunta antes de escolher o exame. No ferimento anterior selecionado, o protocolo de exame seriado pode orientar a conduta; no dorso, flanco e transição toracoabdominal, a tomografia avalia estruturas menos acessíveis ao exame físico. O percurso sem imagem pressupõe avaliações a cada 6 horas por 24 horas e capacidade imediata de operar se houver mudança.
Aposentada
O grupo brasileiro de 2014 registra que a lavagem peritoneal já vem sendo abandonada pela maioria dos centros, e que no ferimento por arma branca de parede anterior o índice de laparotomias não terapêuticas entre os pacientes operados com base no seu resultado foi de 57%. Um método que manda mais da metade dos operados para uma cirurgia que não trata nada é um método que produz dano.
Reunião de revista TBE-CiTE, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2014
Viva onde não há aparelho
A diretriz capixaba mantém a lavagem entre os adjuntos, com indicações delimitadas: paciente hemodinamicamente instável com trauma contuso, ou trauma penetrante com múltiplos orifícios ou trajetórias aparentemente tangenciais, quando não houver ultrassonografia rápida disponível. E lhe atribui dois critérios que decidem sozinhos, sem depender de energia elétrica nem de radiologista: aspiração de conteúdo gástrico, fibras vegetais ou bile, e aspiração de 10 mililitros ou mais de sangue no instável.
Diretrizes Clínicas da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, versão 2018, Quadro 12 e Quadro 13
A disponibilidade de imagem e a condição do paciente delimitam o papel do lavado. Ele aparece nos documentos para cenários sem ultrassom ou tomografia, quando o resultado pode orientar tratamento urgente. Interprete o achado junto à clínica: resultado negativo isolado não autoriza alta, e a investigação não deve atrasar uma indicação operatória já estabelecida.
O relatório médico completo
A leitura que motivou a consulta ao conselho, feita por autoridade policial, foi a de que a Lei 13.931 de 2019 obriga hospitais públicos e privados, prontos-atendimentos e unidades básicas a encaminhar à delegacia o relatório de atendimento médico com as lesões, o relatório ginecológico em caso de violência sexual e o relatório psicológico quando houver, sob o argumento de que a ação penal por lesão corporal e violência sexual é pública incondicionada e não depende da manifestação da vítima.
Teor da consulta reproduzido no Parecer CRM-MG nº 128/2020
Só o fato e os dados cadastrais
O conselho responde que a Lei 13.931 de 2019 alterou apenas o artigo 1º da Lei 10.778 de 2003, tornando compulsória a comunicação à autoridade policial para as providências cabíveis e para fins estatísticos, sem tratar da liberação do sigilo profissional, que permanece definido no artigo 3º da mesma lei. Conclui que a equipe deve informar à mulher que a polícia civil será notificada e notificar o fato sem informar dados específicos do atendimento, transmitindo apenas as informações imprescindíveis sobre o ocorrido e os dados cadastrais da vítima, cabendo à autoridade policial tomar as providências de investigação.
Parecer CRM-MG nº 128/2020, aprovado em sessão plenária de 10 de julho de 2020
A seção distingue comunicação do fato e divulgação de documentos clínicos. No prazo de 24 horas apresentado nas fontes, a equipe deve seguir o fluxo institucional de comunicação e orientar a paciente. Pedidos de prontuário ou relatório devem ser encaminhados à direção técnica, considerando sigilo e fundamento da requisição. O interno comunica a demanda ao responsável e não decide sozinho sobre a liberação.
O raciocínio, em voz alta
Zero e quarenta, o mesmo plantão da cena. Wanderson Alves Ribeiro, 31 anos, mototaxista, trazido pelo resgate com ferimento por projétil de arma de fogo. Um orifício de dois centímetros e meio no epigástrio, à esquerda da linha média, bordas irregulares, halo escurecido. Nenhum orifício de saída encontrado na primeira inspeção. Pressão 104 por 78, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 24, saturação 96%, Glasgow 15, pele fria e úmida. Ele fala. O abdome dói inteiro e a parede resiste quando você encosta. O cirurgião de sobreaviso está sendo chamado. O tomógrafo tem técnico a quarenta minutos daqui.
O que penso ao entrar na sala
Antes de olhar o buraco, penso nas causas de morte em minutos: via aérea, pneumotórax hipertensivo, tamponamento e hemorragia. Ele fala, então a via aérea está pérvia neste segundo. A frequência respiratória de 24 com saturação de 96% não é normal e pode ser dor, pode ser acidose, pode ser tórax. Pele fria e úmida com frequência de 118 e pressão de 104 é um paciente compensado por vasoconstrição — não é um paciente estável, é um paciente que ainda está segurando. E o abdome com defesa difusa já me deu, sozinho, uma das três situações que dispensam investigação.
O que faço nos primeiros três minutos
Dois acessos calibrosos, tipagem com prova cruzada, hemograma, monitorização. Oxigênio sob máscara não reinalante porque a saturação está em 96% com taquipneia e eu não vou apostar. Exposição completa com rolamento em bloco, procurando orifício em dorso, nádegas, períneo e axilas, porque a conta de paridade precisa fechar: um projétil que entrou ou saiu, ou está dentro. Manta térmica assim que a inspeção termina. E antes de a técnica cortar a camisa, eu peço que ela corte ao lado do furo, não em cima dele.
O que a segunda inspeção muda
Com o paciente rolado, aparece um segundo orifício, menor e de bordas evertidas, na região lombar esquerda, abaixo da última costela. Isso muda duas coisas. Primeiro, a conta fecha: um projétil entrou pelo epigástrio e saiu pelo flanco esquerdo, e agora eu tenho dois orifícios e nenhum projétil dentro do corpo. Segundo, e mais importante, a linha entre esses dois pontos atravessa o andar superior do abdome e o retroperitônio esquerdo — o que existe nesse caminho é estômago, cólon transverso, pâncreas, rim esquerdo, alças e grandes vasos. Escrevo isso no prontuário como trajeto possível, não como trajeto.
O que peço agora — e o que não peço
Não peço tomografia. Ele já preenche indicação de laparotomia por dois critérios independentes da lista capixaba: ferimento penetrante que atravessa a cavidade peritoneal e peritonite. Um terceiro está a caminho, porque a hipotensão relativa com resposta transitória seria o segundo item da lista. Peço radiografia de tórax com marcadores radiopacos sobre os dois orifícios, porque ela leva dois minutos, mostra hemotórax e ar livre subdiafragmático, e vai junto com o paciente. E peço quatro bolsas reservadas.
O que a resposta ao volume me diz
Infundo Ringer lactato aquecido com alvo de sistólica entre 80 e 90, porque não há traumatismo cranioencefálico. Depois de 500 mililitros a sistólica sobe para 118 e a frequência cai para 104. Vinte minutos depois a sistólica está em 96 e a frequência voltou a 116. Isso é resposta transitória, e resposta transitória significa hemorragia ativa neste minuto. Não é indicação de mais cristaloide — é indicação de sangue e de sala.
A decisão que a noite realmente pede
O cirurgião atende o telefone e diz que sai de casa agora, vinte e cinco minutos. Vinte e cinco minutos de deslocamento, mais chamar anestesista e circulante, mais montar a sala, e este paciente está sangrando agora. Eu ligo para a regulação em paralelo, sem desligar da cirurgia, e digo a frase que decide: mecanismo, trajeto transperitoneal com dois orifícios, peritonite, resposta transitória ao volume, e este hospital não tem equipe cirúrgica pronta neste momento. A regulação começa a buscar vaga enquanto o cirurgião está no carro. Se a sala ficar pronta antes da vaga, opera-se aqui; se a vaga sair antes, ele vai. Nenhuma das duas trilhas espera a outra para começar.
O que preparo enquanto as duas trilhas correm
Sangue tipado e reservado. Sonda gástrica, porque haverá indução anestésica e porque o débito pode informar. Sonda vesical — e aqui eu paro, examino o períneo e faço toque retal, porque o orifício está no flanco e o trajeto passa perto do retroperitônio: sangramento pelo reto seria mais uma indicação de laparotomia, e lesão de uretra contraindicaria a sonda. Não há sangue no dedo de luva e não há sangue no meato. Passo a sonda. Antibiótico eu não prescrevo agora: a profilaxia cirúrgica tem hora, e ela é 30 a 60 minutos antes da incisão — quem indicar a incisão indica o antibiótico.
O que fica pronto antes de ele sair da sala
A ficha de notificação de violência interpessoal preenchida, com cópia no prontuário. As roupas em saco plástico, arroladas em duas vias, com o furo da camisa preservado, entregues ao policial cujo nome eu anoto. O prontuário com horários exatos, volume infundido, drogas com dose e horário, os dois orifícios descritos por coordenada anatômica e a série de sinais vitais. Se ele for transferido, tudo isso vai com ele. Se ele for operado aqui, tudo isso é o que o cirurgião lê enquanto escova as mãos.
O desfecho, e o que ele ensina
A sala fica pronta em trinta e dois minutos e o cirurgião opera aqui. Há duas perfurações de estômago e uma laceração de cólon transverso, tratadas na mesma cirurgia. Ele fica seis dias internado e vai para casa. O que este caso ensina não é o achado cirúrgico — é que a decisão certa às zero e cinquenta foi acionar duas trilhas ao mesmo tempo em vez de escolher uma. Quem espera o cirurgião chegar para só então ligar para a regulação perdeu vinte e cinco minutos que não voltam, e quem manda embora sem avisar a cirurgia pode ter mandado um paciente para a estrada quando a sala ficaria pronta antes.
Faça você
Outro plantão, outro hospital: um pronto-socorro de cidade média, com cirurgião geral na casa, tomógrafo funcionando e torre de videolaparoscopia que a equipe usa em colecistectomias eletivas. Chega Marilda Fontes de Araújo, 28 anos, atendente de loja, com um ferimento por arma branca no hemitórax esquerdo, na linha axilar anterior, no sexto espaço intercostal. Ferida linear de dois centímetros e meio. Ela chegou andando, está lúcida, orientada e assustada. Pressão 122 por 78, frequência 92, frequência respiratória 20, saturação 97% em ar ambiente. Refere dor local que piora ao respirar fundo. O abdome é plano, indolor à palpação em todos os quadrantes, sem defesa e sem descompressão dolorosa. A ausculta pulmonar tem murmúrio nos dois lados, discretamente reduzido na base esquerda.
Primeiro passo — a triagem que não usa exame
Teste contra as três situações que dispensam investigação: instabilidade hemodinâmica, peritonite difusa, evisceração. Ela não tem nenhuma das três. A pressão está normal, o abdome está indolor fora da ferida e não há víscera exteriorizada. Isso significa que há tempo — e que a decisão será tomada por raciocínio, não por reflexo.
Segundo passo — em que zona da parede este ferimento está
Sexto espaço intercostal, linha axilar anterior, à esquerda. Isso não é parede anterior do abdome, cujo limite superior é a borda inferior do último arco costal. É a transição toracoabdominal, cujo limite lateral é justamente o sexto espaço intercostal. Duas cavidades estão em jogo, e uma estrutura fina entre elas.
Terceiro passo — o que fazer pelo tórax
Radiografia de tórax em incidência ântero-posterior, com marcador radiopaco sobre o orifício, e ultrassonografia rápida à beira do leito com atenção ao saco pericárdico. A radiografia mostra um velamento discreto do seio costofrênico esquerdo, compatível com hemotórax de pequeno volume, sem pneumotórax e sem ar subdiafragmático. O pericárdio não tem líquido. A base do pulmão explica o murmúrio reduzido e explica a dor à inspiração profunda.
Quarto passo — o que a normalidade do abdome permite concluir
Nada sobre o diafragma. O artigo brasileiro de revisão sobre lesão diafragmática penetrante registra que exame físico, radiografia de tórax, ultrassonografia, tomografia e lavagem peritoneal, juntos, não têm sensibilidade nem especificidade boas para essa lesão, com 10% a 30% de lesões não diagnosticadas, sobretudo quando isoladas. E lembra que ferimentos dessa zona cursam com lesão diafragmática em 20% a 40% dos casos, chegando a 48%.
Quinto passo — o que a história natural cobra se a lesão passar despercebida
Do lado esquerdo, abaixo do diafragma, há estômago, cólon e delgado, todos móveis, sem o tampão hepático que protege a direita. O gradiente de pressão entre as duas cavidades vai de 7 a 20 centímetros de água na respiração normal e chega a 100 na inspiração profunda. Meses ou anos depois, o furo pode virar hérnia; a hérnia pode encarcerar, e o encarceramento tem mortalidade relatada de 16% a 20%, chegando a 80% no estrangulamento.
Sexto passo — a sua vez
O tórax já tem conduta definida: hemotórax de pequeno volume, com o pulmão expandido, e a decisão de drenar ou de acompanhar com radiografia é do cirurgião do plantão. Falta a conduta sobre o abdome e sobre o diafragma nesta paciente estável, sem peritonite, com ferimento na transição toracoabdominal esquerda, num hospital que tem cirurgião, tomógrafo e torre de vídeo. Escreva o que você faz, com a justificativa — e escreva também o que você faria se este hospital não tivesse a torre nem cirurgião habituado a usá-la.
Continuidade do caso e prática do internato
Explique ao supervisor quais achados do caso indicam urgência e quais recursos seriam necessários se a decisão fosse observação seletiva.
Questão integrativa 1
Por que Wanderson não deve esperar a chegada do técnico da TC se houver peritonite?
Questão integrativa 2
É seguro explorar o trajeto com o dedo para decidir profundidade?
Questão integrativa 3
Estabilidade inicial basta para observação de projétil abdominal?
Questão integrativa 4
Pode aguardar seis horas para reexaminar quem piorou?
Questão integrativa 5
Uma série com alta após 24 horas autoriza liberar todo trauma penetrante nesse prazo?
Questão integrativa 6
Qual é o produto da participação do interno na alta?
Ver como fecharíamos
A conduta é indicar videolaparoscopia diagnóstica, e a razão é a única estrutura que nenhum exame do arsenal exclui: o diafragma esquerdo. A recomendação brasileira de 2014 coloca a videolaparoscopia como bem indicada, quando disponível e com cirurgião experiente, na dúvida sobre lesão intracavitária e nos ferimentos da transição toracoabdominal à esquerda; a diretriz capixaba a lista entre os adjuntos para avaliar o paciente estável com trauma penetrante e possível lesão tangencial sem indicação de laparotomia de emergência, sendo útil na detecção de lesões diafragmáticas ou para avaliar penetração peritoneal. Repare no que não é conduta aqui. Exploração local da ferida não serve, porque o marco relevante não é a aponeurose e sim o diafragma, e ele não se enxerga por um furo entre costelas. Tomografia normal não exclui, pelos números do próprio artigo brasileiro de revisão. Exame clínico seriado por vinte e quatro horas com abdome normal não exclui, porque a lesão diafragmática isolada é oligossintomática por definição — em 8% a 10% dos casos as lesões diafragmáticas são isoladas e evoluem com poucos ou nenhum sintoma. Observar e dar alta é exatamente o caminho que produz a hérnia de anos depois. Antes da laparoscopia, faça o que já estava pendente: profilaxia antitetânica conforme situação vacinal, lembrando que ferimento por arma branca é ferimento de alto risco de tétano; analgesia prescrita em horário; jejum; e a ficha de notificação de violência interpessoal, que nesta paciente tem regra própria — informe a ela que a polícia civil será comunicada em até vinte e quatro horas e comunique o fato sem enviar prontuário nem laudo. E a segunda pergunta, a que decide a vida do interno do interior: num hospital sem torre de vídeo e sem cirurgião habituado, esse ferimento não vira observação prolongada. Vira transferência. A alternativa ao diagnóstico do diafragma esquerdo não é esperar mais tempo — é levar a paciente a quem consegue olhar. Vale registrar que há posição contrária sustentada por autores brasileiros, e o bloco de divergências deste capítulo a apresenta: os estudos experimentais de cicatrização espontânea e a série mineira de tratamento não operatório à direita sugerem que nem toda lesão diafragmática precisa ser suturada. À esquerda, no estágio atual do conhecimento, essa não é a aposta a fazer com uma paciente de 28 anos. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Porque a indicação de controle cirúrgico já pode estar estabelecida clinicamente; imagem não deve atrasar tratamento necessário. 2. Não às cegas. Exploração local é técnica selecionada e realizada por profissional treinado; não se aplica indistintamente a qualquer ferida. 3. Não. São necessários critérios de seleção, exame confiável, equipe experiente e capacidade de intervenção rápida. 4. Não. O intervalo programado cede à mudança clínica, que exige avaliação imediata. 5. Não. Populações e protocolos diferem; considerar o risco e recomendações atuais, que podem exigir observação maior. 6. Registro claro da evolução, revisão supervisionada do plano, instruções compreendidas, sinais de retorno e ligação com a rede de cuidado.
A Lei 13.931 de 2019 acrescentou à Lei 10.778 de 2003 a obrigação de comunicar à autoridade policial, em até vinte e quatro horas, os casos com indícios ou confirmação de violência contra a mulher. O parecer do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais conclui que essa lei alterou apenas o artigo 1º e não tratou do sigilo profissional, que permanece no artigo 3º: comunica-se o fato e os dados cadastrais, informando antes à paciente, e não se enviam prontuário nem laudos, sob risco de quebra de sigilo. Condicionar a comunicação à autorização da paciente ou ao boletim de ocorrência descumpre o prazo legal; enviar o prontuário expõe quem assina.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstrua a seleção para manejo não operatório: paciente avaliável, estabilidade sustentada, ausência de indicação cirúrgica imediata, recursos para exames e intervenção e observação seriada apropriada. Explique por que deterioração exige agir antes do prazo e por que completar um relógio não exclui lesão diafragmática.
Em 30 dias
No trigésimo dia, o que precisa estar automático é o que não é clínico e por isso escapa. A camisa se corta ao lado do furo, não em cima. As roupas vão em saco plástico, arroladas em duas vias, entregues ao policial cujo nome se anota na ficha. A ficha de notificação de violência interpessoal e autoprovocada é preenchida com cópia no prontuário, e é imediata quando há lesão autoprovocada ou violência sexual. Na mulher, o fato vai à autoridade policial em até vinte e quatro horas, sem prontuário e sem laudo. Recupere também as três frases de conduta que não têm exceção: víscera eviscerada não volta para dentro, objeto encravado não sai da sala vermelha, e nenhum exame se faz se ele atrasar a transferência para onde há cirurgião.
Agora atenda
Agora atenda. O paciente do simulador chega com ferimento penetrante de abdome e o exame físico dele vai parecer tranquilizador — como o de nove em cada dez pacientes assim. Treine a sequência inteira: exposição completa com rolamento em bloco à procura do orifício que ninguém vira para ver, topografia descrita por coordenada anatômica, teste contra as três situações que dispensam investigação, e a escolha entre explorar, observar e transferir feita em voz alta, com o motivo. Preste atenção especial ao que você prescreve como observação: se a sua prescrição não disser quem examina, de quanto em quanto tempo e o que faz chamar o médico, você não prescreveu observação — prescreveu espera.
