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Cirurgia GeralTrauma

Trauma cranioencefálico

Prevenir lesão cerebral secundária, registrar a evolução neurológica e reconhecer quando imagem, neurocirurgia e transferência são urgentes.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: Suporte Avançado de Vida. 2ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2016

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018, aprovada em 30 de setembro de 2018

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Hospital Estadual Infantil Nossa Senhora da Glória. Protocolo PRT.HINSG.018 — Manejo de Traumatismo Cranioencefálico no Pronto Socorro. Versão 000, emissão inicial em 25 de março de 2026

Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Projeto Diretrizes (Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina): Diagnóstico e Conduta no Paciente com Traumatismo Craniencefálico Leve. Andrade AF, Marino Jr R, Miura FK, Carvalhaes CC, Tarico MA, Lázaro RS, Rodrigues Jr JC. Elaboração final: 31 de agosto de 2001

Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Projeto Diretrizes (Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina): Traumatismo Craniencefálico Moderado. Andrade AF, Marino R Jr, Miura FK, Rodrigues JC Jr. Elaboração final: 11 de janeiro de 2002

01

Responda antes de ler

Mulher de 34 anos, sem comorbidades e sem medicação de uso contínuo, caiu da própria altura na calçada há 3 horas. Perdeu a consciência por segundos, segundo testemunha. Chega orientada, Glasgow 15 desde a admissão, sem déficit, sem vômitos, sem sinais de fratura de base, com cefaleia leve e hematoma frontal. Lembra de tudo até o instante da queda. Há indicação de tomografia de crânio pela regra canadense?

02

O paciente que você vai ver

Uma e cinquenta da manhã de sábado, hospital regional de oitenta leitos no interior, cento e quarenta quilômetros da capital. O tomógrafo existe e funciona: o técnico mora a dez minutos e já foi chamado. O neurocirurgião não existe aqui — o mais próximo está na capital, e a vaga passa pela regulação. Você é o interno do plantão de cirurgia, com um plantonista que está na sala ao lado suturando uma mão.

Josimar tem 37 anos, 82 quilos, é soldador, e colidiu de moto com um carro há quarenta minutos. Chega em prancha longa e colar, com um curativo no couro cabeludo que já encharcou e escorre pela borda da maca. O capacete ficou na pista, partido em dois — o socorrista trouxe as duas metades e as apoiou nos pés da maca, como se aquilo fosse parte do paciente.

Ele abre os olhos quando você chama pelo nome. Diz palavras que não formam frase: repete o nome de uma rua, depois a palavra chave, duas vezes. Quando você comprime o leito ungueal do indicador, ele leva a mão até a sua e tenta afastá-la. Abertura ocular ao chamado, palavras inapropriadas, localiza o estímulo — três, três e cinco.

O oxímetro marca 89% em ar ambiente. Pressão 96 por 58, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 24, glicemia capilar 84, temperatura axilar 35,4 °C. As pupilas têm o mesmo tamanho e as duas reagem à luz. Ele move os quatro membros. O abdome é flácido, o tórax expande simétrico, a bacia não dói. O sangramento visível é um só: o couro cabeludo.

Nada nesse quadro exige neurocirurgião nos próximos minutos. Tudo nesse quadro exige alguém — e o único alguém disponível é você. A saturação, a pressão, a glicemia, a temperatura, a altura da cabeceira e a hora anotada ao lado de cada Glasgow são, todas, coisas que o interno faz sozinho, e são exatamente as que decidem quanto de cérebro vai sobrar quando a vaga sair.

Duas horas depois, quando a regulação confirmar o leito, Josimar vai estar em um de dois estados muito diferentes. Qual dos dois depende quase inteiramente do que acontecer nesta sala.

03

Quem adoece disso

O traumatismo cranioencefálico é rotina de porta, não evento de centro terciário. Só na região Nordeste, entre janeiro de 2009 e dezembro de 2019, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou 299.001 internações com o código de traumatismo intracraniano e 30.257 óbitos — mortalidade hospitalar geral de 10,1%. São vinte e sete mil internações por ano em uma região só, e o gasto somado passou de 389 milhões de reais no período. A consequência prática é de escala: se você faz plantão de porta em qualquer cidade brasileira, este paciente entra, e entra com frequência.

O perfil é estreito e reconhecível. Homens responderam por 78,9% das internações e por 82,6% dos óbitos; a mortalidade masculina foi de 10,5% contra 8,4% na feminina. A terceira e a quarta décadas de vida concentram 22,5% e 17,5% das internações — quem chega é, em regra, um adulto jovem economicamente ativo, e o mecanismo dominante no país é o acidente de trânsito, com destaque para o motociclístico. Isso muda a expectativa clínica: esse paciente tem reserva fisiológica boa, o que significa que ele aguenta muito antes de mostrar, e quando mostra já está tarde.

O número que mais desloca a suspeita, porém, é o das pontas etárias. Na mesma série, a mortalidade foi de 21,5% acima dos 80 anos e de 1,9% entre 1 e 4 anos — mais de dez vezes de diferença dentro do mesmo diagnóstico. O idoso que cai da própria altura e chega andando, orientado e sem déficit não é um caso brando: é o caso com a maior letalidade da série inteira. O limiar para investigar e para observar sobe com a idade, e sobe muito.

A permanência média foi de 6,3 dias. Esse número parece administrativo, mas diz algo clínico: a maior parte desses pacientes não fica internada tempo suficiente para que um erro de conduta se corrija sozinho. O que se faz nas primeiras horas é quase todo o cuidado que a maioria vai receber.

04

Por que acontece o que acontece

O trauma produz duas lesões, e elas têm donos diferentes. A lesão primária é o que rasgou, contundiu ou cisalhou no instante do impacto: a contusão do lobo frontal contra a parede óssea, o hematoma extradural que nasce da artéria meníngea média rompida por uma fratura temporal, o cisalhamento dos axônios na desaceleração. Ela já aconteceu antes de o paciente entrar na sala, e nada do que você fizer a desfaz. A lesão secundária é a que se acrescenta nas horas seguintes, e ela é sua.

O motor da lesão secundária é simples de enunciar: o cérebro lesado perde a capacidade de se defender de variações que o cérebro normal absorve sem esforço. Em condições normais, o fluxo sanguíneo cerebral é mantido constante por autorregulação numa faixa larga de pressão — o vaso se contrai quando a pressão sobe e se dilata quando ela cai, e o encéfalo não percebe. Depois do trauma, essa autorregulação se perde em parte ou por inteiro, e o fluxo passa a acompanhar passivamente a pressão sistêmica. A partir desse momento, cada queda de pressão é uma queda de perfusão, e cada minuto de perfusão insuficiente é neurônio que não volta.

A medida disso é a pressão de perfusão cerebral, que é a pressão arterial média menos a pressão intracraniana. A conta explica por que os dois lados importam. Com pressão intracraniana normal, em torno de 10 mmHg, uma média arterial de 80 entrega perfusão de 70. Com a intracraniana em 30, a mesma média de 80 entrega 50. E se a média cair para 65 com a intracraniana em 30, a perfusão desaba para 35. É a mesma aritmética por dois caminhos — e o caminho que o interno controla na primeira hora não é o denominador, é o numerador.

O crânio é uma caixa rígida de volume fixo ocupada por três conteúdos: parênquima, sangue e líquido cefalorraquidiano. Qualquer volume novo — um hematoma, edema — só cabe se um dos três sair. O líquor é empurrado para o canal medular, o sangue venoso é espremido para fora, e por um tempo a pressão intracraniana quase não muda. Esse é o período em que o paciente conversa. Quando a reserva acaba, a curva vira: incrementos minúsculos de volume passam a produzir saltos grandes de pressão, e quem estava falando rebaixa em minutos. A neurocirurgia brasileira batizou o padrão com um nome que vale guardar, talk and deteriorate, e registrou que ele aparece em 10% a 32% dos traumatismos inicialmente classificados como leves ou moderados.

Daí saem as quatro agressões que o protocolo nacional manda corrigir por nome — hipoxemia, hipotensão, distúrbio glicêmico e alteração de temperatura — e uma quinta que entra assim que o paciente é ventilado. A hipoxemia priva um tecido que já está com oferta limitada. A hipotensão reduz diretamente a perfusão, e a evidência clássica do Traumatic Coma Data Bank mostra o tamanho do estrago: entre 717 pacientes com Glasgow igual ou menor que 8, hipotensão precoce ocorreu em 34,6% e a mortalidade nesses foi de 55% contra 27% de quem não teve nenhum episódio. Um episódio. A hiperglicemia e a hipoglicemia pioram por vias opostas o metabolismo de um tecido isquêmico, e a hipertermia aumenta o consumo cerebral de oxigênio exatamente quando a oferta está no limite.

A quinta agressão é o gás carbônico, e é a mais contraintuitiva porque se parece com cuidado. A PaCO2 é o principal regulador do calibre dos vasos cerebrais: hipercapnia dilata e aumenta o volume sanguíneo intracraniano; hipocapnia contrai e o reduz. Hiperventilar baixa a pressão intracraniana — e é justamente por isso que a manobra é tentadora. Só que ela baixa a pressão contraindo os vasos de um cérebro que já está com perfusão no limite, e o preço é isquemia nas áreas que ainda estavam viáveis. Por isso as recomendações brasileiras de ventilação mecânica proíbem a hiperventilação profilática ou prolongada, fixam a PaCO2 alvo entre 35 e 40 mmHg na fase aguda e reservam a hiperventilação aguda a um único cenário, o resgate da herniação.

Falta um mecanismo que não tem droga nem monitor, e é o mais barato de todos: a drenagem venosa da cabeça. O sangue venoso encefálico sai pelas jugulares, e tudo que as comprime ou dificulta o retorno aumenta o volume sanguíneo intracraniano e, com ele, a pressão. Cabeça baixa, cabeça rodada para o lado, colar cervical apertado demais, cadarço do tubo amarrado sobre o pescoço, tosse, agitação e dor fazem a mesma coisa. É por isso que elevar a cabeceira e manter a cabeça alinhada no eixo — duas manobras que custam trinta segundos e nenhum insumo — aparecem nas mesmas listas em que aparecem o manitol e a salina hipertônica.

Por fim, o mecanismo que explica por que o exame neurológico vale mais do que a tomografia enquanto ela não sai. Quando a pressão vence a reserva, o parênquima se desloca. O uncus do lobo temporal desce sobre a incisura tentorial e comprime o terceiro nervo craniano, que corre ali por baixo: a pupila do mesmo lado dilata e para de reagir. Se o deslocamento avança, o tronco encefálico é comprimido — e ele responde com a única coisa que sabe fazer, que é elevar a pressão arterial para tentar perfundir a si mesmo, com bradicardia reflexa e respiração irregular. Anisocoria nova, hipertensão com bradicardia e queda abrupta do nível de consciência não são sinais genéricos de gravidade: são a descrição anatômica de um cérebro sendo empurrado por um buraco.

Esquema de volumes intracranianos em compartimento rígido acompanhado de curva que se eleva após o esgotamento da reserva compensatória.
A redução do volume de líquor e de sangue venoso pode compensar inicialmente um volume adicional dentro do crânio. Quando essa reserva se esgota, pequenos acréscimos podem elevar muito a pressão intracraniana. O modelo explica o mecanismo, mas não permite deduzir o estado de consciência ou a pressão de um paciente sem avaliação clínica.
05

Como se apresenta de verdade

A apresentação do traumatismo cranioencefálico é uma escala, e o nome dessa escala é o exame neurológico repetido. Não há sinal patognomônico, não há sintoma que separe quem tem hematoma de quem não tem, e a maior parte dos pacientes que vão precisar de cirurgia chega falando. O que separa é a trajetória: dois pontos no tempo, com hora anotada em cada um.

Avaliação neurológica começa na admissão, em paralelo ao tratamento das ameaças vitais. Registrar Glasgow por componentes, pupilas, lateralização e horário, anotando hipóxia, hipotensão, sedação e outros fatores que interferem. Repetir após ressuscitação e a cada alteração; um valor sob interferências continua sendo um dado clínico, que precisa de contexto e não deve ser omitido. Corrigir causas de lesão secundária não espera a anotação, e o registro inicial não espera terminar toda a ressuscitação.

A escala de Glasgow, componente por componente

A escala tem três colunas independentes, e cada uma se avalia sozinha, com a melhor resposta obtida. A abertura ocular vale 4 se é espontânea, 3 se ocorre ao chamado, 2 se ocorre ao estímulo de pressão e 1 se não ocorre. A resposta verbal vale 5 se o paciente responde coerentemente às perguntas, 4 se responde mas está desorientado no tempo e no espaço, 3 se usa palavras soltas fora de contexto, 2 se emite apenas sons e 1 se não emite nada. A resposta motora vale 6 se obedece a um comando simples, 5 se localiza e tenta afastar o estímulo, 4 se apenas retira o membro estimulado, 3 se responde com flexão anormal, 2 com extensão anormal e 1 se não responde.

A técnica do estímulo não é detalhe. O protocolo nacional nomeia três locais: a compressão do leito ungueal, o pinçamento do trapézio e o pinçamento do esternocleidomastóideo. A abordagem estruturada consolidada pelos autores da escala acrescenta a incisura supraorbitária e desaconselha explicitamente a fricção dos nós dos dedos sobre o esterno — machuca, deixa equimose e produz resposta difícil de interpretar. E antes de pontuar qualquer coisa há uma etapa que quase todo mundo pula: checar o que impede a resposta. Olho fechado por edema periorbitário não é abertura ocular ausente; membro fraturado ou imobilizado não é resposta motora ausente; surdez, afasia prévia, língua estrangeira e traqueostomia não são resposta verbal ausente.

Três armadilhas de execução aparecem em todo plantão. A primeira é somar sem examinar: chegar ao leito, ver o paciente de olhos fechados e escrever 8, sem chamar, sem estimular, sem tentar comando. A segunda é pontuar a resposta de um lado e ignorar o outro — a escala usa a melhor resposta motora de qualquer membro, mas a assimetria entre os lados é achado neurológico maior que o próprio somatório e precisa ser descrita à parte. A terceira é confundir flexão normal, que é a retirada do membro estimulado e vale 4, com flexão anormal, que é a postura estereotipada de adução do ombro e flexão de cotovelo, punho e dedos, e vale 3. A diferença entre 4 e 3 é a diferença entre um córtex que responde e um tronco que responde sozinho.

No paciente intubado ou sedado, a resposta verbal deixa de existir. A regra brasileira é pontuar 1 e escrever a justificativa ao lado, na forma que o próprio protocolo nacional exemplifica: resposta verbal 1, entre parênteses, tubo. O mesmo vale para o olho fechado por edema. Isso resolve o registro, mas cria um problema clínico que é preciso enunciar: um Glasgow de paciente sedado e curarizado não mede o paciente, mede a sedação. Depois do bloqueador neuromuscular, o único parâmetro neurológico que sobra à beira do leito é a pupila — diâmetro, reatividade e simetria —, e é por isso que o exame neurológico registrado antes da primeira droga vale ouro. A técnica e as drogas da intubação são do capítulo de manejo de via aérea no trauma.

Um último ponto sobre como se comunica o resultado. Os próprios autores da escala recomendam relatar os três componentes em vez do somatório, e a razão é aritmética: um paciente 4-1-3 e um paciente 1-3-4 somam 8, e são pacientes clinicamente diferentes. Escreva sempre a decomposição, e o somatório depois — "abertura 3, verbal 3, motora 5, total 11".

O paciente que fala e piora

É a apresentação que mais engana e a que mais mata evitavelmente. O paciente chega conversando, orientado ou quase, e horas depois está em coma. O mecanismo já foi dito: enquanto há líquor e sangue venoso para expulsar, o hematoma cresce sem elevar a pressão. O hematoma extradural é o exemplo clássico porque costuma vir de sangramento arterial e cresce rápido, e a neurocirurgia brasileira descreve inclusive o caso extremo — paciente admitido com 15, radiografia de crânio normal, que evolui para coma arreativo e midríase paralítica bilateral, e cuja necrópsia mostra fratura com hematoma intracraniano.

O corolário operacional é duro e simples: nenhum Glasgow inicial autoriza deixar de repetir o Glasgow. Um 15 na admissão informa sobre o momento da admissão e nada mais. É por isso que a régua de reavaliação existe, que a folha de orientação de alta existe, e que a queda de dois pontos vale como gatilho de conduta independentemente do valor de onde ela partiu.

O idoso: pouca energia, muito estrago, e semanas de atraso

O idoso concentra a maior letalidade da série brasileira e chega pelo mecanismo mais banal: a queda da própria altura, dentro de casa. Três coisas conspiram. O encéfalo atrofia e as veias-ponte que atravessam o espaço subdural ficam esticadas, de modo que um movimento de aceleração pequeno as rompe. O espaço extra dentro do crânio dá ao hematoma tempo e volume para crescer antes de comprimir qualquer coisa. E a apresentação, quando aparece, não é cefaleia com vômito: é confusão nova, sonolência, queda de rendimento, desequilíbrio, uma perna que arrasta — sintomas que a família e o próprio serviço atribuem à idade.

Duas consequências práticas. A idade igual ou maior que 65 anos é, por si só, critério de alto risco na régua canadense de tomografia, mesmo com Glasgow 15 e exame normal. E a janela de suspeita não fecha na alta: hematoma subdural do idoso se apresenta dias a semanas depois do trauma, muitas vezes com o trauma já esquecido pelo paciente. Confusão nova em idoso é indicação de perguntar ativamente sobre queda nas últimas semanas — e a investigação do rebaixamento não traumático é do capítulo de alteração do nível de consciência e coma.

Quem usa anticoagulante ou antiagregante

A diretriz estadual capixaba é explícita: usuários de antiagregante plaquetário, de anticoagulante ou com distúrbio de coagulação devem ser avaliados de forma individualizada — o que na prática significa rebaixar muito o limiar de imagem e de observação, mesmo com Glasgow 15 e exame neurológico normal. O guia hospitalar do Einstein coloca alteração de coagulação ou de agregação plaquetária entre os fatores que favorecem a tomografia no adulto. E a régua canadense, que dispensa imagem em parte dos pacientes, não se aplica a quem está anticoagulado: esse paciente está fora do grupo em que a regra foi validada.

Há ainda uma segunda tomografia a considerar. O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia recomenda repetir a tomografia nas primeiras 48 horas em paciente com distúrbio de coagulação mesmo que ele siga assintomático, porque a incidência de hematomas tardios nesse grupo é elevada. Reversão de anticoagulação, quando indicada, é decisão que se toma com o hematologista e o neurocirurgião, não sozinho na porta — mas identificar a medicação e registrá-la no prontuário é tarefa do interno, e é a que mais frequentemente falha, porque o paciente confuso não conta e a família não sabe o nome do remédio. Peça a receita, a caixa, a foto no celular.

Fratura de base de crânio: os sinais que o exame dá de graça

São achados de inspeção, custam vinte segundos e mudam três condutas. Equimose periorbitária bilateral sem trauma direto na órbita, equimose retroauricular sobre a mastoide, hemotímpano, e saída de líquido claro ou sanguinolento pelo nariz ou pela orelha. Qualquer um deles indica fratura de base, e todos entram nas listas nacionais de sinais de gravidade do traumatismo cranioencefálico e de acionamento da neurocirurgia.

O que muda: a via nasal fica proibida — nada de sonda nasogástrica nem de intubação nasotraqueal, pelo risco de o dispositivo seguir a fratura em vez do trajeto; a saída de líquor não se tampona com oclusão, e o protocolo nacional é específico ao mandar tamponar orelha e nariz permitindo vazamento leve, justamente para não elevar a pressão intracraniana; e a suspeita entra no rol de indicação de tomografia, tanto pela régua canadense quanto pelas listas hospitalares brasileiras.

Três ilustrações de equimose periorbitária bilateral, equimose retroauricular e hemotímpano visto por otoscopia.
Equimose periorbitária, equimose retroauricular e hemotímpano aumentam a suspeita de fratura da base do crânio, mas podem ser ausentes ou tardios. O terceiro painel representa otoscopia. Suspeita clínica exige avaliação dirigida e cuidado com instrumentação nasal às cegas; a imagem isolada não confirma a fratura.

A cabeça que sangra por fora

O couro cabeludo é ricamente vascularizado e não colaba, e um ferimento de poucos centímetros pode produzir choque hipovolêmico — no adulto magro, na criança e no idoso, com mais facilidade do que a aparência sugere. Ele é, além disso, um dos poucos sangramentos do traumatizado que respondem à sua mão. O protocolo nacional descreve a técnica: pressão direta nas bordas do ferimento seguida de curativo compressivo. E marca a exceção que importa: diante de deformidade óssea ou fratura aberta, não se aplica pressão sobre a lesão, apenas na região adjacente, com cobertura sem compressão excessiva.

A armadilha é a inversão de prioridade. Um ferimento de couro cabeludo é visualmente dramático e concentra a atenção da sala inteira enquanto a saturação cai. Comprima, cubra, e volte para os números. O manejo do choque hemorrágico em si é do capítulo de choque hemorrágico no trauma.

O que este capítulo não cobre, e onde está

A sequência primária completa, a técnica e as drogas da intubação, incluindo a indicação por Glasgow, são do capítulo de manejo de via aérea no trauma; a ordem do atendimento e os adjuntos de sala, do capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado. Reposição volêmica e transfusão pertencem ao capítulo de choque hemorrágico no trauma, e as lesões torácicas que matam em minutos, ao de trauma torácico.

A coluna cervical anda junto do crânio e entra aqui apenas como cuidado concomitante — colar mantido, alinhamento preservado, retirada decidida com quem avalia a coluna — porque o traumatismo raquimedular é tema próprio. O rebaixamento de consciência sem trauma, incluindo a investigação metabólica e infecciosa, é do capítulo de alteração do nível de consciência e coma; o acidente vascular cerebral isquêmico tem capítulo próprio, e é bom lembrar que ele pode ser a causa da queda que produziu o traumatismo, não a consequência. A hipertensão intracraniana não traumática e a hidrocefalia, assim como a monitorização invasiva da pressão intracraniana e o manejo neurocirúrgico, são de neurocirurgia. E no lactente e na criança pequena, um traumatismo cranioencefálico cuja história não explica o achado obriga a considerar maus-tratos, tema do capítulo de violência e maus-tratos infantis.

06

Como fechar o diagnóstico

O erro do interno no traumatismo cranioencefálico quase nunca é desconhecer a doença. É pedir o exame errado, pedir o exame certo tarde demais, ou — o mais comum no Brasil — parar de tratar enquanto espera o exame. A investigação tem uma ordem, e ela começa antes da imagem.

Primeiro, os exames que respondem em segundos

Antes da tomografia vêm três medidas de beira de leito que podem explicar o rebaixamento inteiro e que se obtêm sem sair da sala. Glicemia capilar: a hipoglicemia devolve o paciente em minutos, e o protocolo nacional trata glicemia abaixo de 60 mg/dL com glicose a 50%, 30 a 50 mL endovenosos. Oximetria de pulso: saturação abaixo de 94% é gatilho de oxigênio suplementar, e a hipoxemia sozinha rebaixa. Pressão arterial, medida e remedida: a hipotensão rebaixa, e o Glasgow medido durante hipotensão não é o Glasgow do paciente.

Só depois de corrigir esses três se reavalia o nível de consciência — e a diretriz capixaba coloca isso como regra escrita, mandando registrar o Glasgow na admissão e reavaliá-lo após a correção dos fatores de confusão. Se o número sobe junto com a correção, a causa tinha componente sistêmico. Se não sobe, ou se cai, a causa é estrutural até prova em contrário.

O laboratório vem junto, na mesma punção do acesso: hemograma, coagulograma com plaquetas, tipagem sanguínea, sódio e gasometria. O coagulograma existe porque muda a conduta em quem usa anticoagulante e porque o traumatizado grave desenvolve coagulopatia. O sódio existe porque será o parâmetro de segurança se houver terapia hiperosmolar depois. A diretriz estadual é direta ao dizer que o traumatismo grave deve ser tratado como lesão sistêmica, com avaliação laboratorial de emergência, e que anormalidades de glicemia, sódio ou gasometria devem ser rapidamente corrigidas para reduzir a injúria secundária.

A tomografia: quem faz, e por quê

A imagem do traumatismo cranioencefálico é a tomografia computadorizada de crânio sem contraste. Ela responde a três perguntas e só a essas: há sangue dentro do crânio, há efeito de massa com desvio das estruturas da linha média, e há fratura. Não responde se o paciente vai piorar, não gradua a lesão axonal difusa — que na fase aguda costuma ter tomografia normal — e não substitui o exame seriado.

A régua brasileira que este capítulo adota é a da diretriz estadual do Espírito Santo, e vale decorá-la porque ela é curta. Traumatismo grave e moderado: tomografia de crânio e de coluna cervical sem contraste, para todos. Glasgow 13 ou 14: tomografia de crânio sem contraste em todos, para excluir lesão cirúrgica. Glasgow 15: indicação conforme os critérios canadenses. Usuário de antiagregante, de anticoagulante ou com distúrbio de coagulação: avaliação individualizada, que na prática é imagem. E em traumatismo grave por mecanismo de alta energia, a mesma diretriz sugere tomografia de corpo inteiro, com a escolha entre corpo inteiro e cortes seletivos definida por protocolo institucional.

A regra canadense se aplica a adulto com Glasgow de 13 a 15 que teve perda de consciência, amnésia do evento ou desorientação presenciada, dentro de 24 horas do trauma, e não se aplica a menores de 16 anos, a quem usa anticoagulante e a quem convulsionou depois do trauma. Nesses, a decisão sai da regra e volta para o julgamento, que na prática significa imagem. Cinco achados são de alto risco, ligados à necessidade de intervenção neurocirúrgica: Glasgow abaixo de 15 duas horas após o trauma, suspeita de fratura aberta ou com afundamento, qualquer sinal de fratura de base de crânio, mais de dois episódios de vômito, e idade igual ou maior que 65 anos. Dois são de risco médio, ligados a lesão clinicamente importante: amnésia retrógrada de 30 minutos ou mais, e mecanismo perigoso — atropelamento de pedestre, ejeção do veículo, queda de mais de um metro ou de mais de cinco degraus.

A escolha por esta régua e não por outra tem motivo. Os critérios canadenses são os que a diretriz brasileira nomeia; a alternativa mais citada, os critérios de Nova Orleans, só se aplica a Glasgow 15 e não cobre 13 e 14, que é exatamente a faixa em que a régua estadual já obriga a imagem sem discussão. Usar uma régua só, e a que o documento nacional referencia, é melhor do que alternar entre duas.

Duas simulações de tomografia axial de crânio sem contraste: coleção extra-axial biconvexa à esquerda e coleção em crescente à direita.
Simulação didática produzida no Gemini: à esquerda, morfologia típica de hematoma extradural biconvexo; à direita, de hematoma subdural em crescente. Não são exames de pacientes reais. A decisão clínica depende também do exame neurológico, da evolução e dos achados do estudo completo, não apenas do formato da coleção.

O que não pedir, e o que custa pedir

Radiografia simples de crânio não é exame de traumatismo cranioencefálico. Ela responde sobre o osso e a pergunta é sobre o parênquima: um crânio radiologicamente íntegro convive com hematoma extradural, e uma fratura linear isolada não determina conduta. A recomendação brasileira de 2001 que a inclui na avaliação inicial é anterior à disponibilidade atual de tomografia e às regras de decisão validadas, e as diretrizes estaduais e hospitalares mais recentes já não a preveem. O custo de pedi-la não é o filme: é o intervalo em que o paciente fica no corredor da radiologia com um resultado que não muda nada.

Ressonância magnética não é exame de emergência no trauma. Ela é mais sensível que a tomografia para lesão axonal difusa e para lesão isquêmica, e as diretrizes brasileiras a preveem para diagnóstico tardio ou para o paciente que piora com tomografia normal. Mas leva tempo, exige colaboração ou sedação prolongada, e coloca o paciente instável dentro de um equipamento onde ninguém o alcança.

Não leve para a tomografia o paciente ainda não estabilizado. A diretriz capixaba condiciona o transporte para imagem à estabilização clínica, e chega a recomendar que ferimentos abertos com sangramento ativo sejam suturados antes. A sala de tomografia é o pior lugar do hospital para uma intercorrência: pouca gente, pouca luz, nenhum material aberto e um paciente dentro de um anel.

E um exame que não é pedido e deveria: glicemia capilar em todo rebaixamento, inclusive naquele que tem explicação óbvia pelo trauma. É o exame mais barato do carrinho e o único que devolve o paciente sozinho.

O diferencial mora aqui dentro

Rebaixamento em vítima de trauma tem pelo menos cinco causas concorrentes, e o exame que confirma uma é o que exclui a outra. Lesão estrutural intracraniana — hematoma, contusão, edema — é o que a tomografia responde. Hipoperfusão por choque é o que a pressão arterial e a resposta à reposição respondem: um Glasgow que sobe quando a pressão sobe estava medindo perfusão, não hematoma. Hipóxia é o que o oxímetro e a gasometria respondem. Hipoglicemia é o que a fita responde em vinte segundos. E intoxicação exógena, sobretudo alcoólica, é o que a evolução responde — a diretriz estadual manda reavaliar o Glasgow depois de corrigir os confundidores, entre eles a intoxicação, e não descartar por atribuição.

A hierarquia prática é esta: corrija o que é reversível em minutos, refaça o exame, e se o número não acompanhar a correção, trate como estrutural e leve à imagem. Uma sexta possibilidade fecha a lista e inverte a história: o evento neurológico que causou o trauma. Um paciente encontrado caído com escoriações pode ter caído por causa de um acidente vascular cerebral, de uma arritmia ou de uma crise convulsiva — o trauma é a consequência, e a investigação disso é do capítulo de alteração do nível de consciência e coma.

O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

A tomografia de crânio está disponível na rede pública brasileira, mas não em toda porta e nem sempre no turno em que o paciente chega. É comum o tomógrafo existir e o técnico estar de sobreaviso; é comum haver tomógrafo e não haver neurocirurgião; e é comum a vaga em serviço com neurocirurgia depender de regulação que leva horas. Um capítulo que só descrevesse a conduta com imagem imediata seria inútil na maior parte do país.

A régua muda de função quando não há tomógrafo na porta. Ela deixa de ser um critério de exame e passa a ser um critério de transferência e de observação: quem preencheria indicação de tomografia e não pode fazê-la aqui precisa ser transferido, ou observado sob exame neurológico seriado com hora anotada e com transporte já acionado. A diretriz estadual organiza isso ao mandar acionar a neurocirurgia — e, na ausência dela, providenciar transferência após a estabilização — para traumatismo grave, moderado e leve de médio e alto risco.

Três coisas ficam sob seu controle e não dependem de nenhum equipamento, e é onde o interno faz a maior diferença em hospital sem recurso: manter os alvos fisiológicos, produzir a série de Glasgow com hora, e acionar cedo. O guia hospitalar do Einstein diz isso de forma que vale copiar: o acionamento da retaguarda de neurocirurgia não deve ser retardado até que o laudo da tomografia esteja disponível, quando já existem fatores que indicam gravidade. Telefone antes do laudo.

07

As réguas do traumatismo cranioencefálico

O exame neurológico começa na chegada e se repete após corrigir fatores que o alteram. Ressuscitação, proteção cerebral e contato com a equipe de referência acontecem em paralelo.

  1. 1Reconhecer ameaças no xABCDE; corrigir hipóxia e hipotensão sem aguardar exame neurológico completo ou tomografia.
  2. 2Registrar Glasgow por componentes, pupilas, lateralização, glicemia e horário antes de sedação, quando possível sem atrasar cuidados vitais; repetir após intervenções.
  3. 3No TCE, evitar hipotensão permissiva. Usar metas de perfusão próprias, individualizadas pela equipe; o percurso ACS 2024 adota PAS ≥110 mmHg quando não há monitorização de pressão intracraniana.
  4. 4Proteger a via aérea quando indicado, com operador habilitado; manter oxigenação e ventilação adequadas e evitar hiperventilação profilática.
  5. 5Classificar TCE pelo Glasgow após ressuscitação: leve 13–15, moderado 9–12, grave 3–8; trajetória e sinais focais podem determinar urgência independentemente da categoria.
  6. 6Selecionar TC e avaliação cervical conforme gravidade e critérios aplicáveis. Regras do TCE leve só devem ser usadas na população para a qual foram validadas.
  7. 7Piora da consciência, anisocoria nova ou déficit progressivo exigem ajuda imediata, medidas de resgate orientadas e acesso urgente à neurocirurgia; não aguardar uma nova rodada de exames para comunicar.
  8. 8Para alta do TCE leve, confirmar estabilidade, acompanhante e instruções compreendidas de retorno; reavaliar sintomas persistentes e orientar retomada gradual de atividades.

Reserva intacta — o volume novo cabe

O hematoma cresce e o líquor sai para o canal medular. A pressão intracraniana quase não muda e o exame neurológico está normal. É aqui que o paciente conversa, pede o celular e a família acha que não foi nada.

Reserva consumindo — o preço começa a aparecer

O sangue venoso é espremido para fora além do líquor. A pressão sobe pouco, mas já sobe. Clinicamente: cefaleia que aumenta, vômitos, sonolência, um ponto a menos no Glasgow. É a última faixa em que tudo ainda é reversível com facilidade.

Reserva esgotada — a curva virou

Não há mais o que expulsar. Cada mililitro novo produz um salto de pressão, a perfusão cerebral cai e o nível de consciência despenca em minutos. É o momento em que o paciente que falava para de falar.

Herniação — o parênquima procura a saída

O uncus temporal desce sobre a incisura e comprime o terceiro nervo: anisocoria. Depois vem o tronco, com hipertensão, bradicardia e respiração irregular. Aqui o tempo se conta em minutos e a conduta é simultânea, não sequencial.

ComponenteResposta observadaPontos
Abertura ocularEspontânea4
Abertura ocularAo chamado3
Abertura ocularAo estímulo de pressão2
Abertura ocularAusente1
Melhor resposta verbalOrientada e coerente5
Melhor resposta verbalConfusa, desorientada no tempo ou no espaço4
Melhor resposta verbalPalavras soltas, fora de contexto3
Melhor resposta verbalApenas sons2
Melhor resposta verbalAusente1
Melhor resposta motoraObedece a comando simples6
Melhor resposta motoraLocaliza o estímulo e tenta afastá-lo5
Melhor resposta motoraRetira o membro estimulado (flexão normal)4
Melhor resposta motoraFlexão anormal, com adução do ombro (decorticação)3
Melhor resposta motoraExtensão anormal (descerebração)2
Melhor resposta motoraAusente1

Quem faz tomografia de crânio, e quando

SituaçãoConduta de imagemRazão
Glasgow de 3 a 8 (grave)Tomografia de crânio e de coluna cervical sem contraste, sempre. Em mecanismo de alta energia, considerar tomografia de corpo inteiro conforme protocolo institucionalA probabilidade de lesão cirúrgica é alta e o exame clínico já não discrimina
Glasgow de 9 a 12 (moderado)Tomografia de crânio e de coluna cervical sem contraste, sempreCerca de 40% têm tomografia anormal e uma parcela precisa de cirurgia
Glasgow 13 ou 14Tomografia de crânio sem contraste, sempreFaixa em que a lesão cirúrgica ainda é frequente e o exame não a exclui
Glasgow 15Aplicar a regra canadense: qualquer critério presente indica tomografiaNem todo traumatismo leve precisa de imagem, e a regra separa quem precisa
Uso de anticoagulante ou antiagregante, ou distúrbio de coagulaçãoFora da regra canadense: avaliação individualizada, que na prática é tomografia — e repetição em 48 horas mesmo sem sintomaA regra não foi validada nesse grupo, e a incidência de hematoma tardio é elevada
Crise convulsiva depois do trauma, ou idade abaixo de 16 anosFora da regra canadense: decisão clínica, em geral com imagem; na criança, usar régua pediátrica própriaSão critérios de exclusão da regra, não de baixo risco
Piora de 2 pontos ou mais no Glasgow, anisocoria nova ou déficit focal novoNova tomografia, mesmo que a primeira tenha sido normal e recenteO sangramento pode estar em formação no momento do primeiro exame

Regra canadense: critérios que indicam tomografia no Glasgow 13 a 15

GrupoCritérioO que o critério prediz
Alto riscoGlasgow abaixo de 15 duas horas após o traumaNecessidade de intervenção neurocirúrgica
Alto riscoSuspeita de fratura aberta ou com afundamento do crânioNecessidade de intervenção neurocirúrgica
Alto riscoQualquer sinal de fratura de base de crânio: hemotímpano, equimose periorbitária bilateral, equimose retroauricular, otorreia ou rinorreia liquóricaNecessidade de intervenção neurocirúrgica
Alto riscoMais de dois episódios de vômitoNecessidade de intervenção neurocirúrgica
Alto riscoIdade igual ou maior que 65 anosNecessidade de intervenção neurocirúrgica
Risco médioAmnésia retrógrada de 30 minutos ou mais antes do impactoLesão cerebral clinicamente importante
Risco médioMecanismo perigoso: atropelamento, ejeção do veículo, queda de mais de um metro ou de mais de cinco degrausLesão cerebral clinicamente importante

As faixas de gravidade, e onde as fontes brasileiras discordam

DocumentoLeveModeradoGrave
Protocolo SAMU 192, procedimento da escala de coma13 a 159 a 123 a 8
Diretrizes clínicas de trauma da Secretaria de Saúde do Espírito Santo13 a 159 a 123 a 8
Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia14 a 1510 a 133 a 9
Guia hospitalar do Einstein13 a 1510 a 123 a 9

Sinais de herniação, e o que cada um obriga

SinalO que está acontecendoO que se faz agora
Anisocoria nova acima de 1 mm, com a pupila maior arreativaO uncus temporal comprime o terceiro nervo craniano do mesmo ladoChamar a neurocirurgia no mesmo minuto; cabeceira a 30 graus e cabeça alinhada; terapia hiperosmolar; reavaliar em 5 minutos
Queda abrupta do Glasgow, com perda da resposta motora localizadoraO deslocamento avançou e o tronco começa a ser comprimidoVia aérea definitiva se ainda não houver; hiperosmolar; imagem imediata se disponível; acionar cirurgia
Postura de flexão anormal ou de extensão anormal, uni ou bilateralA resposta motora agora vem do tronco, não do córtexMesma conduta, e registrar de que lado — a assimetria orienta o lado da lesão
Hipertensão arterial com bradicardia e respiração irregularResposta do tronco encefálico à compressão, tentando manter a própria perfusãoNão tratar a hipertensão como se fosse doença hipertensiva: ela é sintoma. Tratar a pressão intracraniana
Midríase paralítica bilateral com ausência de respostaComprometimento de tronco já estabelecidoConduta máxima e imediata; nesse ponto o prognóstico depende de minutos e da disponibilidade cirúrgica

Os alvos fisiológicos, e por que cada número

ParâmetroAlvoPor que esse número
Saturação de oxigênioIgual ou maior que 94%Abaixo disso o protocolo nacional já manda oxigênio suplementar; a hipoxemia é uma das quatro agressões nomeadas
Pressão arterial sistólicaEvitar hipotensão; em geral PAS ≥110 mmHg no percurso ACS 2024, com individualização por contexto e monitorização. Acima de 90 mmHg não é alvo suficiente como regra atual.Piso do protocolo nacional para o traumatismo cranioencefálico, contra 80 mmHg do choque sem lesão craniana; um único episódio de sistólica abaixo de 90 dobrou a mortalidade na série clássica
Glicemia capilarNem hipoglicemia nem hiperglicemia; corrigir abaixo de 60 mg/dLDistúrbio glicêmico é uma das quatro agressões que o protocolo nacional manda corrigir por nome
TemperaturaNormotermia, entre 36 e 37,5 °CA hipertermia aumenta o consumo cerebral de oxigênio; a hipotermia profilática precoce não demonstrou benefício
PaCO2, no paciente ventiladoEntre 35 e 40 mmHgHiperventilar contrai vasos de um cérebro já mal perfundido; a recomendação brasileira proíbe a hiperventilação profilática ou prolongada
Cabeceira e posição da cabeçaEntre 30 e 45 graus, cabeça no eixoMelhora o retorno venoso encefálico e reduz a influência da pressão positiva sobre a pressão intracraniana
Pressão intracraniana, quando monitorizadaTratar acima de 22 mmHgValores acima desse nível associam-se a aumento de mortalidade; a monitorização em si é decisão neurocirúrgica
Pressão de perfusão cerebral, quando monitorizadaEntre 60 e 70 mmHgFaixa associada a sobrevida e desfecho favorável; abaixo dela há isquemia, acima há risco respiratório com a reposição necessária para sustentá-la

Este capítulo classifica TCE como leve (Glasgow 13–15), moderado (9–12) e grave (3–8), conforme o procedimento da escala do SAMU 192 e a diretriz estadual. Como alguns documentos incluem o escore 9 em outra categoria, comunique o valor e seus componentes, além do rótulo de gravidade.

A tabela usa os termos atualizados “ao estímulo de pressão”, “palavras” e “sons”. Eles refinam a descrição da resposta sem alterar os valores da escala apresentada no protocolo nacional.

O limiar adotado para avaliar via aérea definitiva é Glasgow ≤8, incluindo o paciente com exatamente 8 pontos, associado à proteção da via aérea e à evolução após ressuscitação. Técnica, fármacos e demais indicações estão no capítulo de via aérea no trauma.

A regra canadense auxilia a decisão sobre tomografia em sua população de aplicação. Ela não define alta: sintomas persistentes, condições associadas e ausência de acompanhante confiável podem exigir observação mesmo sem critérios para imagem.

Sem tomógrafo disponível, os critérios de imagem continuam orientando a decisão. Organize transferência quando indicada e mantenha exame neurológico seriado enquanto aguarda o transporte; a observação não deve substituir uma investigação necessária.

08

A conduta, hora a hora

A conduta do traumatismo cranioencefálico tem uma característica que a distingue de quase tudo mais no trauma: a maior parte dela não é procedimento. É manter cinco números dentro de faixas, repetir um exame com hora anotada, posicionar uma cabeça e telefonar cedo. Nenhuma dessas coisas precisa de autorização, e todas elas são feitas pela pessoa que está fisicamente com o paciente.

O relógio abaixo começa depois que a sequência primária foi cumprida e a via aérea está resolvida. Se ela não está, a via aérea vem primeiro, e o assunto é do capítulo de manejo de via aérea no trauma.

  1. Minuto 0 a 5 — enquanto a maca ainda se move

    Três coisas acontecem ao mesmo tempo e nenhuma delas depende de exame: corrigir oxigenação, sustentar pressão e medir a glicemia. Enquanto o monitor é instalado, alguém eleva a cabeceira e alinha a cabeça, e alguém comprime o couro cabeludo se ele sangra. O interno que não tem tarefa atribuída assume duas que ninguém disputa e que valem o plantão inteiro: cronometrar e registrar.

    Prescrição
    • Oxigênio sob máscara não reinalante, 10 a 15 L/min, para manter saturação igual ou maior que 94% (protocolo SAMU 192, AT5 e AT4)
    • Cabeceira elevada entre 30 e 45 graus e cabeça mantida no eixo do corpo (recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Tema 19; protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES)
    • Colar cervical mantido, folgado o suficiente para admitir um dedo entre o colar e o pescoço; nada de cadarço ou fixação comprimindo as jugulares (protocolo SAMU 192, AT5)
    • Medir glicemia imediatamente. Hipoglicemia deve ser tratada sem demora com glicose na dose e concentração do protocolo, seguida de nova medida e exame neurológico. Em desnutrição ou uso crônico de álcool, administrar tiamina parenteral prontamente, sem atrasar a correção da hipoglicemia para aguardá-la.
    • Corrigir hipotensão com fluidos isotônicos aquecidos, sangue quando há hemorragia e controle do foco. Não usar hipotensão permissiva no TCE; adotar meta de perfusão própria, como PAS ≥110 mmHg no percurso ACS 2024, individualizada. Evitar expansão excessiva por inércia.
    • Pressão direta nas bordas do ferimento de couro cabeludo, seguida de curativo compressivo; sem pressão sobre afundamento ou fratura aberta (protocolo SAMU 192, AT5)
    • Manta térmica e ambiente aquecido; alvo de normotermia entre 36 e 37,5 °C (protocolo SAMU 192, AT5; protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES)
  2. Minuto 5 a 15 — o primeiro exame neurológico que vale

    Agora, e só agora, o Glasgow significa alguma coisa: depois de a saturação subir, a pressão sustentar e a glicemia estar conhecida. Registre os três componentes decompostos, as pupilas com diâmetro, reatividade e simetria, e a força nos quatro membros — com a hora. Este é o exame contra o qual todos os seguintes serão comparados, e é o exame que a neurocirurgia vai pedir pelo telefone. Se houver indicação de intubação, ele precisa estar escrito antes da primeira droga, porque depois do bloqueador ele deixa de existir por horas.

    Prescrição
    • Escala de coma de Glasgow com os três componentes anotados separadamente e a hora ao lado; pupilas com diâmetro, fotorreatividade e simetria; assimetria acima de 1 mm manda pesquisar sinais focais (protocolo SAMU 192, AT5 e AP27)
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com coleta na mesma punção: hemograma, coagulograma com plaquetas, tipagem sanguínea, sódio, glicemia e gasometria (diretrizes clínicas de trauma da SESA-ES)
    • Via aérea definitiva se Glasgow igual ou menor que 8, se o paciente não protege a própria via aérea, ou se ventilação e oxigenação não se mantêm — drogas e técnica no capítulo de manejo de via aérea no trauma (recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013; protocolo SAMU 192, AP27)
    • Se o paciente for intubado, alvo de PaCO2 entre 35 e 40 mmHg, sem hiperventilação profilática; capnografia se disponível, e na ausência dela gasometria mais frequente na fase aguda (recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Tema 19)
    • Ácido tranexâmico 1 g diluído em 100 mL de soro fisiológico 0,9% em 10 minutos, seguido de 1 g em 8 horas, se o trauma tem menos de 3 horas — 1 g corresponde a 20 mL, ou 4 ampolas de 250 mg/5 mL (ensaio CRASH-3, Lancet 2019)
    • Antitérmico se temperatura axilar acima de 37,8 °C: dipirona 1 g endovenosa (protocolo SAMU 192)
  3. Minuto 15 a 45 — decidir a imagem e telefonar

    A régua já foi dada e ela é curta: grave e moderado vão para tomografia de crânio e coluna cervical; 13 e 14 vão para tomografia de crânio; 15 entra na regra canadense; anticoagulado sai da regra. O que costuma faltar aqui não é a indicação, é a ordem: o paciente vai para a tomografia depois de estabilizado, e a neurocirurgia é acionada antes do laudo quando já existem fatores de gravidade. Duas ligações e um transporte demoram mais do que o exame — comece pelas ligações.

    Prescrição
    • Tomografia de crânio sem contraste conforme a régua; acrescentar coluna cervical no traumatismo grave e moderado (diretrizes clínicas de trauma da SESA-ES)
    • Transporte para a imagem apenas após estabilização clínica; suturar antes ferimento aberto com sangramento ativo (diretrizes clínicas de trauma da SESA-ES)
    • Acionamento da neurocirurgia ou da regulação sem esperar o laudo, na presença de traumatismo grave, ferimento penetrante, sinais de fratura de base, déficit focal ou rebaixamento (guia hospitalar do Einstein, CPTW159.2)
    • Glasgow e pupilas repetidos a cada 15 minutos enquanto o paciente aguarda, com hora anotada em cada medida (protocolo SAMU 192, AT5)
  4. O minuto da herniação

    Anisocoria nova, queda abrupta de Glasgow, postura anormal ou a tríade de hipertensão com bradicardia e respiração irregular mudam tudo de uma vez. As condutas aqui são simultâneas, não sequenciais: alguém eleva a cabeceira e alinha a cabeça, alguém garante oxigenação e via aérea, alguém pendura o hiperosmolar, alguém liga para a neurocirurgia. Antes de concluir que é o hematoma, cheque em dez segundos pressão, saturação e glicemia — porque a correção dessas três é mais rápida que qualquer droga e às vezes é a resposta inteira.

    Prescrição
    • Manitol 20% (200 mg/mL; frasco de 250 mL contém 50 g), 0,25 a 1 g/kg endovenoso em 20 a 30 minutos, nunca em infusão contínua. Em 0,5 g/kg: 125 mL para 50 kg, 175 mL para 70 kg, 250 mL para 100 kg — respectivamente meio frasco, sete décimos de frasco e um frasco inteiro (protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES; Brain Trauma Foundation, 4ª edição)
    • Solução salina a 3%, 2 a 5 mL/kg endovenosos em 10 a 20 minutos. Em 3 mL/kg: 150 mL para 50 kg, 210 mL para 70 kg, 300 mL para 100 kg (protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES)
    • Preparo da salina a 3% quando não há a solução pronta: a um frasco de 500 mL de soro fisiológico 0,9%, acrescentar 6 ampolas de NaCl 20% de 10 mL. O resultado é 16,5 g de cloreto de sódio em 560 mL, ou seja, 2,9% — e serve para qualquer uma das três doses acima. Para volume menor, 250 mL de soro fisiológico mais 3 ampolas dão 8,25 g em 280 mL, a mesma concentração
    • Sondagem vesical de demora obrigatória em quem recebe manitol, para acompanhar a diurese osmótica; sódio sérico controlado quando se usa salina hipertônica (protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES)
    • Hiperventilação apenas como resgate, com alvo de PaCO2 entre 30 e 35 mmHg e por tempo curto, enquanto a cirurgia ou a imagem é organizada. Nunca profilática, nunca prolongada, nunca com PaCO2 igual ou menor que 25 mmHg (recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Tema 19; Brain Trauma Foundation, 4ª edição)
    • Corticoide não entra. Metilprednisolona em traumatismo cranioencefálico aumentou a mortalidade em 14 dias, 21,1% contra 17,9%, em 10.008 adultos, e a contraindicação é formal (ensaio CRASH, Lancet 2004; Brain Trauma Foundation, 4ª edição)
  5. Hora 1 a 6 — destino

    O destino sai da soma de três coisas: gravidade, achado de imagem e o que este hospital tem. Traumatismo grave é leito de terapia intensiva, com ou sem cirurgia. Moderado é internação com tomografia feita e vigilância neurológica. Leve com tomografia normal pode ser observação, e leve com fatores de risco é internação. O que não existe é destino sem exame neurológico seriado escrito.

    Prescrição
    • Traumatismo grave: terapia intensiva; monitorização da pressão intracraniana é decisão neurocirúrgica, e o Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia a indica nos pacientes graves com tomografia alterada
    • Traumatismo moderado com tomografia normal: internação com observação de pelo menos 48 horas e exame neurológico seriado (Projeto Diretrizes, Traumatismo Craniencefálico Moderado)
    • Traumatismo leve de alto ou médio risco com tomografia normal: observação hospitalar de pelo menos 12 horas antes de considerar alta (Projeto Diretrizes, Traumatismo Craniencefálico Leve)
    • Sem neurocirurgia no serviço: transferência após estabilização, com o exame neurológico seriado e as horas transcritos na guia — e com o valor do Glasgow anterior a qualquer sedação registrado (diretrizes clínicas de trauma da SESA-ES)
    • Nada por via nasal em suspeita de fratura de base: sonda gástrica pela boca (protocolo SAMU 192, AT5 e AP8)
  6. Dia 1 a 3 — o que muda na enfermaria e na terapia intensiva

    Passada a fase de sala, o cuidado vira manutenção dos mesmos alvos por muito mais tempo, e é aí que eles se perdem: a febre do segundo dia, a hiponatremia do terceiro, a cabeceira que baixou quando alguém trocou o lençol. A profilaxia de crise convulsiva entra aqui, com indicação restrita e prazo definido, e a nutrição enteral entra assim que houver estabilidade.

    Prescrição
    • Profilaxia de crise convulsiva precoce quando há contusão cortical, hematoma subdural, extradural ou intracerebral, afundamento de crânio, ferimento penetrante, crise nas primeiras 24 horas ou rebaixamento acentuado do nível de consciência (protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES; Brain Trauma Foundation, 4ª edição)
    • Fenitoína, dose de ataque de 15 a 20 mg/kg endovenosa, diluída em 250 a 500 mL de soro fisiológico 0,9%, em acesso de grosso calibre, a no máximo 50 mg por minuto. A ampola brasileira tem 250 mg em 5 mL, ou 50 mg/mL: em 15 mg/kg, 15 mL (3 ampolas) para 50 kg, 21 mL (4,2 ampolas) para 70 kg e 30 mL (6 ampolas) para 100 kg — com tempo mínimo de infusão de 15, 21 e 30 minutos respectivamente (protocolo SAMU 192, AC26)
    • Manutenção da fenitoína e suspensão em 7 dias: a profilaxia reduz crise precoce e não previne epilepsia tardia, de modo que não há razão para prolongá-la (Brain Trauma Foundation, 4ª edição)
    • Normotermia mantida ativamente, entre 36 e 37,5 °C, com antitérmico para febre; hipotermia profilática precoce não é recomendada (protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES; Brain Trauma Foundation, 4ª edição)
    • Nova tomografia se houver queda de 2 pontos ou mais no Glasgow; e repetição em 48 horas, mesmo sem sintoma, em quem tem distúrbio de coagulação (diretrizes clínicas de trauma da SESA-ES; Projeto Diretrizes, Traumatismo Craniencefálico Leve)
    • Nutrição enteral precoce assim que houver estabilidade hemodinâmica e trânsito; profilaxia de tétano conforme o estado vacinal, sobretudo em ferimentos contaminados (protocolo PRT.HINSG.018 da SESA-ES)
  7. A alta do traumatismo leve

    A alta do paciente com traumatismo leve não é o fim do cuidado, é a transferência do cuidado para um acompanhante. Isso só funciona se o acompanhante existe, entende e leva por escrito o que procurar. O Projeto Diretrizes traz uma folha de orientação pronta, e as primeiras 48 horas são o período crítico que ela nomeia.

    Prescrição
    • Folha de orientação escrita, em duas vias, entregue ao paciente e ao acompanhante, com os sinais de retorno imediato: cefaleia progressiva, sonolência excessiva, confusão ou piora da consciência, vômitos, convulsão, fraqueza ou formigamento, dificuldade de falar, visão dupla, pupilas de tamanhos diferentes, saída de líquido ou sangue pelo ouvido ou nariz, alteração da respiração ou febre (Projeto Diretrizes, Traumatismo Craniencefálico Leve)
    • Permanência com pessoa de confiança por pelo menos 48 horas, sem sedativo, sem indutor do sono e sem álcool no período (Projeto Diretrizes, Traumatismo Craniencefálico Leve)
    • Orientação sobre síndrome pós-concussional: cefaleia, tontura, desequilíbrio, náusea, irritabilidade, dificuldade de concentração e de memória, lentificação, sensibilidade à luz e ao som podem aparecer depois, com tomografia normal, e merecem acompanhamento ambulatorial se persistirem (guia hospitalar do Einstein, CPTW159.2)
    • Orientação para evitar novo traumatismo enquanto os sintomas persistem, pelo risco de um segundo impacto em cérebro ainda vulnerável (guia hospitalar do Einstein, CPTW159.2)
09

Como saber se está funcionando

No traumatismo cranioencefálico, a reavaliação não é conferência do tratamento: ela é o exame diagnóstico. Não existe marcador de sangue que diga que o hematoma cresceu, e a tomografia é uma fotografia de um instante que já passou. O que informa é a série — o mesmo exame, feito do mesmo jeito, em intervalos definidos, com hora ao lado de cada medida.

Duas regras organizam tudo o que vem abaixo. A primeira: a variação vale mais que o valor. Um Glasgow 13 que era 15 há uma hora é mais grave que um 13 estável há seis horas, e a diretriz estadual transforma isso em conduta ao fazer da queda de 2 pontos um gatilho de nova tomografia. A segunda: antes de atribuir qualquer piora ao encéfalo, cheque outra vez pressão, saturação e glicemia — porque essas três são reversíveis em minutos e o hematoma não é.

Escala de coma de Glasgow, com os três componentesA cada 15 minutos na sala de emergência; a cada 30 a 60 minutos na observação do traumatismo leve; a cada hora ou conforme rotina da unidade no internado. Sempre com hora anotada

Esperado: Valor estável ou em ascensão, com os mesmos três componentes registrados separadamente e pelo mesmo método de estímulo

Se não melhora: Queda de 2 pontos ou mais indica nova tomografia, mesmo com exame anterior normal e recente, e reavaliação neurocirúrgica. Antes de concluir que é a lesão, cheque pressão, saturação e glicemia: um Glasgow que cai junto com a pressão pode ser perfusão. Se o número cair para 8 ou menos, o paciente precisa de via aérea definitiva

Pupilas: diâmetro, fotorreatividade e simetriaJunto de cada Glasgow, e a qualquer momento em que a enfermagem relate mudança

Esperado: Isocóricas e fotorreagentes, mantidas assim ao longo da série

Se não melhora: Assimetria nova acima de 1 mm manda pesquisar sinais focais e acionar a neurocirurgia imediatamente; se a pupila maior está arreativa, trate como herniação enquanto se organiza a imagem. Este é o único parâmetro neurológico que sobrevive à sedação e ao bloqueio neuromuscular, e por isso vira o principal no paciente intubado

Pressão arterial sistólicaMonitorização contínua ou medida a cada 5 minutos enquanto instável; a cada 15 a 30 minutos depois

Esperado: Perfusão adequada e ausência de hipotensão, usando meta individualizada; em geral PAS ≥110 mmHg no TCE no percurso ACS 2024.

Se não melhora: Cada episódio de hipotensão é agressão nova ao mesmo cérebro. Repor volume com cristaloide aquecido e procurar o foco de sangramento — quem não para de sangrar não sustenta pressão com soro. Se há trauma abdominal ou torácico associado, o conflito entre o alvo do cérebro e o alvo do sangramento é resolvido no capítulo de choque hemorrágico no trauma

Saturação de oxigênioMonitorização contínua

Esperado: Igual ou maior que 94%, sem quedas transitórias

Se não melhora: Aumentar a oferta e procurar a causa: obstrução, aspiração, pneumotórax, contusão pulmonar. Uma saturação que oscila é tão nociva quanto uma baixa e estável, e o oxímetro que cai por trinta segundos a cada aspiração está registrando trinta segundos de isquemia

Glicemia capilarNa admissão, a cada nova alteração do nível de consciência e conforme rotina no internado

Esperado: Sem hipoglicemia e sem hiperglicemia sustentada

Se não melhora: Hipoglicemia se corrige e o exame se refaz; se o nível de consciência não acompanhar a correção, a causa não era metabólica. Hiperglicemia persistente no traumatizado grave é sinal de estresse e piora o metabolismo do tecido isquêmico — o manejo do paciente internado é do capítulo de hiperglicemia hospitalar

TemperaturaNa admissão e a cada 4 a 6 horas; mais frequentemente no hipotérmico em reaquecimento

Esperado: Entre 36 e 37,5 °C

Se não melhora: Febre em traumatizado cranioencefálico não é achado benigno: aumenta o consumo cerebral de oxigênio. Tratar com antitérmico e procurar foco. Hipotermia não intencional favorece coagulopatia e deve ser corrigida ativamente — e a hipotermia profilática precoce não demonstrou benefício e não é recomendada

PaCO2 ou gás carbônico exalado, no paciente ventiladoCapnografia contínua; na ausência dela, gasometria com maior frequência na fase aguda

Esperado: Entre 35 e 40 mmHg

Se não melhora: Valor abaixo de 35 mmHg sem indicação é hiperventilação inadvertida, e ela contrai vasos de um cérebro já mal perfundido: reduza a frequência ou o volume corrente. Valor acima de 45 mmHg dilata e eleva a pressão intracraniana: procure causa mecânica antes de simplesmente aumentar a frequência

Sódio sérico, quando se usou salina hipertônicaAntes da primeira dose e a cada 4 a 6 horas enquanto a terapia continuar

Esperado: Elevação controlada, sem saltos bruscos

Se não melhora: Sódio sustentadamente muito elevado traz complicações próprias — trombocitopenia, anemia e trombose venosa entre elas —, e a decisão de continuar, espaçar ou suspender a terapia hiperosmolar é da equipe que assume o paciente na terapia intensiva. O interno garante que a coleta aconteça e que o resultado chegue a quem decide

Diurese, quando se usou manitolDébito urinário horário, com sonda vesical de demora instalada antes da infusão

Esperado: Diurese aumentada, sem queda de pressão acompanhando

Se não melhora: O manitol produz diurese osmótica: se a pressão cair junto com a poliúria, o ganho intracraniano foi trocado por perda de perfusão, o que é exatamente o oposto do objetivo. Reponha volume e reconsidere o agente. Uso prolongado tem risco de efeito rebote, e por isso a retirada é gradual

Sintomas do paciente em observação com traumatismo leveReavaliação clínica ao longo das 12 horas de observação, e antes de qualquer decisão de alta

Esperado: Cefaleia que cede, ausência de vômitos novos, paciente acordado e orientado, deambulando sem desequilíbrio

Se não melhora: Cefaleia progressiva, vômitos que continuam, sonolência ou qualquer déficit novo indicam nova imagem e reavaliação, mesmo com tomografia inicial normal — o processo hemorrágico pode ainda estar em formação no momento do primeiro exame. Sintoma persistente com tomografia normal é motivo de internação, não de alta

O acompanhante, nas 48 horas seguintes à altaVerificado antes de assinar a alta

Esperado: Existe uma pessoa de confiança que ficará com o paciente, entendeu a lista de sinais de retorno e a levou por escrito

Se não melhora: Sem acompanhante confiável, sem meio de retornar ao serviço ou sem compreensão da orientação, a alta se transforma em observação hospitalar. A folha de orientação é o instrumento de vigilância domiciliar, e ela só funciona se alguém for capaz de aplicá-la

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Onde o erro machuca

Somar o Glasgow sem examinar

O dano: O número entra no prontuário como se fosse medida, e todas as decisões seguintes se apoiam nele: indicação de imagem, indicação de intubação, prioridade na regulação, comparação da próxima medida. Um 8 escrito sem estimular, num paciente que na verdade localizava a dor, tira do paciente uma via aérea que ele não precisava — ou, na direção contrária, esconde uma queda real.

Como pegar a tempo: Faça o exame na ordem que o protocolo nacional descreve: chame, depois estimule com pressão no leito ungueal ou no trapézio, depois peça um comando simples. Antes de pontuar, cheque o que impede a resposta e escreva a justificativa — olho fechado por edema, tubo, fratura de membro. Registre os três componentes decompostos, nunca só o total.

Esperar a tomografia para começar a tratar

O dano: Todo o tratamento que reduz lesão secundária é anterior à imagem e independe dela: oxigênio, pressão, glicemia, temperatura, cabeceira, cabeça alinhada. O paciente que passa noventa minutos na fila da tomografia com saturação de 90% e sistólica de 85 chega ao exame com uma lesão maior do que tinha quando entrou — e o laudo vai descrever justamente essa lesão maior.

Como pegar a tempo: Separe as duas linhas do tempo. A da imagem depende do serviço; a dos alvos fisiológicos depende de você e começa no minuto zero. Um bom teste mental antes de sair da sala: se a tomografia não saísse nas próximas duas horas, o que eu faria diferente? A resposta honesta é quase sempre nada — e é isso que prova que a espera não justifica a inação.

Hiperventilar para baixar a pressão intracraniana

O dano: Funciona, e é por isso que engana: a pressão realmente cai. Só que ela cai porque os vasos cerebrais se contraem, e contrair vaso num cérebro cuja perfusão já está no limite produz isquemia justamente nas áreas que ainda estavam viáveis. O paciente melhora no monitor e piora no tecido.

Como pegar a tempo: As recomendações brasileiras de ventilação mecânica proíbem a hiperventilação profilática ou prolongada e fixam a PaCO2 alvo entre 35 e 40 mmHg na fase aguda; a hiperventilação aguda existe como resgate da herniação, com alvo de 30 a 35 mmHg e por tempo curto, enquanto a cirurgia é organizada. Se você está ventilando com bolsa, conte as ventilações em voz alta — a ansiedade da sala acelera a mão de quem segura o ambu.

Deixar a cabeceira baixa, a cabeça rodada ou o colar apertado

O dano: Os três fazem a mesma coisa: dificultam a drenagem venosa encefálica e aumentam o volume sanguíneo intracraniano, e portanto a pressão. É o dano mais barato de todos, porque a correção não custa nada e a lesão que ele produz é indistinguível da lesão do hematoma. Acontece o tempo todo: a cabeceira baixa para a troca de lençol, o paciente é rodado para a radiografia, o colar é fixado no último furo.

Como pegar a tempo: Faça da posição um item de checklist, como o balonete do tubo. Cabeceira entre 30 e 45 graus, cabeça no eixo do corpo, um dedo entre o colar e o pescoço, cadarço do tubo sem estrangular. Recheque depois de cada transporte, cada exame e cada procedimento — e diga em voz alta quando encontrar errado.

Passar sonda pela via nasal em quem tem sinais de fratura de base

O dano: A sonda pode seguir o trajeto da fratura em vez do trajeto anatômico e entrar na cavidade craniana. É um evento raro e catastrófico, e é inteiramente evitável por um exame que dura vinte segundos.

Como pegar a tempo: Na suspeita de fístula liquórica ou fratura de base, não realizar tamponamento oclusivo, instrumentação profunda nasal/auricular ou sondagem nasal sem avaliação apropriada. Pode-se proteger externamente com cobertura estéril frouxa, sem bloquear a saída. Acionar equipe e registrar achados.

Tratar a hipertensão da tríade de Cushing como se fosse crise hipertensiva

O dano: A hipertensão com bradicardia e respiração irregular é a resposta do tronco encefálico à própria compressão: ele eleva a pressão sistêmica para conseguir se perfundir. Baixar essa pressão com anti-hipertensivo retira do cérebro exatamente a perfusão que ele estava conseguindo às custas do reflexo, e o paciente pode parar durante a queda.

Como pegar a tempo: Leia a tríade como sinal neurológico, não cardiovascular. A conduta é tratar a pressão intracraniana — posição, oxigenação, terapia hiperosmolar, cirurgia — e chamar a neurocirurgia. Anti-hipertensivo em paciente com sinal de herniação é decisão de quem está manejando a pressão intracraniana, nunca reflexo de quem vê um número alto no monitor.

Pedir radiografia de crânio

O dano: O exame responde sobre o osso e a pergunta é sobre o parênquima. Um crânio radiologicamente normal convive com hematoma extradural em expansão, e uma fratura linear isolada não muda conduta. O prejuízo real não é o custo do filme: é o tempo em que o paciente fica fora da vista da equipe, no corredor da radiologia, com um resultado que não vai alterar nada.

Como pegar a tempo: A pergunta clínica é se há sangue, efeito de massa ou fratura com afundamento, e quem responde é a tomografia sem contraste. Se o serviço não tem tomógrafo, a conduta não é substituir por radiografia: é aplicar a mesma régua para decidir transferência e observação seriada.

Prescrever corticoide

O dano: Não é neutro: aumenta a mortalidade. O ensaio CRASH randomizou 10.008 adultos com traumatismo craniano e Glasgow igual ou menor que 14 para metilprednisolona por 48 horas ou placebo, e encontrou morte em 14 dias de 21,1% contra 17,9%; no seguimento de 6 meses a diferença se manteve, 25,7% contra 22,3%. É uma prescrição que mata mais do que não prescrever nada.

Como pegar a tempo: Corticoide não faz parte do tratamento do traumatismo cranioencefálico, e a contraindicação é formal. Documentos brasileiros anteriores a 2004 ainda o preveem em alguns cenários, e vale saber disso para reconhecer a recomendação vencida quando ela aparecer numa apostila antiga ou num impresso de parede — o edema do trauma não é o edema peritumoral, e não responde ao mesmo remédio.

Achar que Glasgow 15 encerra o assunto

O dano: É a raiz do talk and deteriorate, descrito pela neurocirurgia brasileira. O paciente que chega falando pode ter um hematoma extradural crescendo com pressão intracraniana ainda normal, porque a reserva do crânio ainda não acabou. Quando ela acaba, o intervalo entre 'está bem' e coma se mede em minutos.

Como pegar a tempo: Trate o 15 inicial como o primeiro ponto de uma série, não como um resultado. Aplique a régua canadense; observe quem tem critério; repita o exame; e ao dar alta, entregue a folha escrita com os sinais de retorno e confirme que existe um acompanhante para as primeiras 48 horas.

Registrar sem hora

O dano: Um Glasgow sem hora não pode ser comparado com nada, e comparação é o único uso do Glasgow. Sem a série, a neurocirurgia recebe um número solto, a regulação não consegue priorizar, e a decisão de repetir a tomografia perde o critério — a queda de 2 pontos só existe se houver dois pontos no tempo.

Como pegar a tempo: Escreva a hora ao lado de cada medida, sempre, inclusive quando o valor não mudou. Anote também a hora do trauma, que é o que define a janela de 3 horas do ácido tranexâmico e a leitura do Glasgow abaixo de 15 duas horas depois do evento. Nenhum desses horários se reconstrói depois.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa do traumatismo cranioencefálico tem uma dificuldade própria: quase tudo que a família quer saber é sobre o futuro, e quase tudo que você sabe é sobre o presente. A tentação é preencher o vazio com uma frase tranquilizadora ou com uma frase grave, e as duas são chutes. O que funciona é dizer o que se sabe, dizer o que não se sabe, e dizer quando se vai saber mais.

A comunicação de má notícia estruturada, incluindo o momento em que o prognóstico se torna sombrio, é do capítulo de comunicação de más notícias. As falas abaixo são as do meio do caminho: a sala, a espera, a transferência e a alta.

Primeira conversa com a família, ainda na sala, com o paciente rebaixado

"Ele bateu a cabeça com força e está confuso, sem responder direito às perguntas. Isso pode ser efeito do trauma no cérebro ou pode ser efeito de estar com pouco oxigênio e a pressão baixa, e as duas coisas a gente já está corrigindo agora. Vou examiná-lo de novo daqui a quinze minutos e vou anotar a hora, porque o que mais importa não é o exame de agora: é se ele melhora ou piora entre um exame e outro. Assim que eu tiver o próximo, eu venho falar com vocês."

Não diga: Não diga que "está tudo bem" nem que "foi só uma pancada". Não diga que ele vai ficar bem. E não use o Glasgow como número solto — "ele está 11" não significa nada para quem ouve, e cria uma âncora que vai ser cobrada depois.

Quando o paciente está lúcido e a família pergunta por que ele vai fazer tomografia

"Ele está conversando e o exame que eu fiz está normal, e isso é bom. Mas existe um tipo de sangramento dentro do crânio que demora horas para dar sintoma, e nesse tempo a pessoa parece bem. A tomografia serve exatamente para ver isso antes de o sintoma aparecer. Como ele tem [o critério presente: vomitou mais de duas vezes / tem mais de 65 anos / não lembra do que aconteceu antes da batida], ele entra no grupo que a gente examina por dentro, mesmo estando bem."

Não diga: Não transforme a indicação em urgência dramática — a família ouve "tomografia" e entende "grave". E não prometa o horário do exame se o serviço não controla a fila; diga o que se sabe do prazo e o que se fará enquanto isso.

Quando o paciente está lúcido e a família pede tomografia que não está indicada

"Eu entendo a preocupação, e ela é razoável. Existe uma regra que a gente usa para decidir isso, com sete situações que aumentam o risco de ter sangramento dentro do crânio, e ele não tem nenhuma delas. Nesse caso, a tomografia expõe a radiação sem responder nada de novo. O que eu proponho é melhor do que o exame: ele fica aqui em observação, eu o examino de novo em intervalos, e se qualquer uma daquelas situações aparecer, a gente faz o exame na hora."

Não diga: Não diga que "não precisa" e encerre. Não invoque falta de recurso como motivo, mesmo quando ele existe — se o motivo é a régua, diga a régua; se o motivo é o serviço, diga o serviço e diga o plano alternativo.

Explicando a transferência para outro hospital

"Este hospital não tem neurocirurgião, e o exame dele mostrou algo que precisa ser avaliado por um. Eu já falei com a regulação e estou aguardando a vaga. Enquanto isso, ele não fica parado: a gente está mantendo o oxigênio, a pressão e a temperatura nos valores que protegem o cérebro, e eu continuo examinando de hora em hora. Tudo isso vai escrito e vai junto com ele."

Não diga: Não peça desculpa pela estrutura como se fosse falha sua, e não critique a rede na frente da família — nada disso ajuda o paciente e tudo isso corrói a confiança de quem vai receber o caso do outro lado. Não prometa horário de vaga.

Quando ainda não se sabe o prognóstico

"Eu não sei ainda como ele vai ficar, e prefiro dizer isso a inventar uma resposta. O que eu sei é o seguinte: o exame dele agora é este, o exame de uma hora atrás era este, e essa comparação é o que a gente vai acompanhar. Daqui a [prazo real], eu terei mais informação e volto para conversar. Se qualquer coisa mudar antes disso, eu chamo vocês."

Não diga: Não prometa recuperação, não prometa sequela, não estime porcentagem. E não use a incerteza como escudo para não voltar: a frase só vale se o retorno acontecer no prazo prometido.

Alta do traumatismo leve, com o acompanhante presente

"O exame dele está normal e ele pode ir para casa. Uma coisa é importante e eu vou repetir duas vezes: as próximas 48 horas são o período em que problemas podem aparecer, e por isso ele não pode ficar sozinho. Esta folha tem a lista do que procurar — dor de cabeça que aumenta, vômito, sono demais, confusão, fraqueza, pupilas de tamanhos diferentes, líquido saindo do ouvido ou do nariz. Se qualquer um aparecer, vocês voltam direto, sem marcar. Nada de remédio para dormir e nada de bebida nesses dois dias. Você consegue ficar com ele?"

Não diga: Não entregue a folha sem ler junto, e não deixe a pergunta final de fora — a alta que depende de vigilância domiciliar só é segura se houver alguém disponível para vigiar. Não diga "se piorar, procure um médico": diga onde, e diga que é para voltar aqui.

Quando o paciente ou a família minimiza o trauma

"Você está se sentindo bem agora, e isso é verdade. O que eu preciso te explicar é que sentir-se bem nas primeiras horas não exclui o problema que a gente está procurando — ele leva tempo para dar sintoma, e quando dá é rápido. Por isso eu vou te pedir para ficar aqui até [prazo], e não é excesso de zelo: é o intervalo em que a coisa aparece."

Não diga: Não ceda pela pressa do paciente nem pela lotação da sala. E não assuste com estatística de morte para conseguir adesão — explique o mecanismo do intervalo lúcido, que é verdadeiro e é convincente sem ser ameaça.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O paciente com Glasgow exatamente 9: moderado ou grave?

Grave é de 3 a 8; o 9 é moderado

O procedimento da escala de coma do protocolo nacional classifica o traumatismo cranioencefálico em leve de 13 a 15, moderado de 9 a 12 e grave de 3 a 8 pontos, e a diretriz estadual capixaba repete exatamente a mesma divisão. É também a divisão usada internacionalmente e a que sustenta o corte de via aérea definitiva em Glasgow igual ou menor que 8.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, procedimento AP27, Ministério da Saúde, 2ª edição, 2016; Diretrizes Clínicas de Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2018

Grave vai de 3 a 9; o 9 já é grave

O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia define traumatismo grave como 3 a 9 pontos seis horas após o trauma e moderado como 10 a 13, com o argumento explícito de que a necessidade de segunda tomografia e de craniotomia no paciente com 9 se aproxima mais do comportamento do grave. O guia hospitalar do Einstein também coloca o 9 na faixa grave.

Projeto Diretrizes AMB/CFM, Traumatismo Craniencefálico Grave (2002) e Traumatismo Craniencefálico Moderado (2002), Sociedade Brasileira de Neurocirurgia; Guia do Episódio de Cuidado CPTW159.2, Hospital Israelita Albert Einstein, 2024

Como decidir

Comunique Glasgow e componentes e avalie a função da via aérea. Um paciente com 9 pontos pode precisar de intubação se não protege a via aérea, mesmo sem atingir o limiar ≤8. Se mantém proteção, ventilação e oxigenação, a decisão depende do contexto e da trajetória. Reavalie com frequência: o valor atual não garante estabilidade nos minutos seguintes. Use a classificação adotada pelo serviço para comunicação, sem deixar que o rótulo determine sozinho o tratamento.

Quem faz tomografia com Glasgow 15: régua canadense, critérios de Nova Orleans ou exame em todos?

Régua canadense

É a régua que a diretriz brasileira nomeia para o Glasgow 15. Sete critérios, cinco de alto risco ligados à necessidade de intervenção neurocirúrgica e dois de risco médio ligados a lesão clinicamente importante, com sensibilidade próxima de 100% para o desfecho que ela foi desenhada para prever, ao custo de especificidade baixa. Não se aplica a quem usa anticoagulante, a quem convulsionou após o trauma e a menores de 16 anos.

Diretrizes Clínicas de Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2018, que traz o fluxograma da regra; Stiell IG et al., Lancet, 2001

Lista clínica ampla, com limiar mais baixo

Guias hospitalares brasileiros preferem uma lista de fatores que favorecem a tomografia, mais larga que a régua canadense: Glasgow abaixo de 15, mecanismo perigoso, sinais externos acima da clavícula, perda de consciência, convulsão, náusea ou vômito, déficit neurológico, amnésia, cefaleia intensa, idade igual ou maior que 65 anos, distúrbio de coagulação ou agregação e intoxicação exógena. Ela captura mais pacientes e explicita que a decisão final é do emergencista.

Guia do Episódio de Cuidado CPTW159.2, Hospital Israelita Albert Einstein, 2024

Como decidir

Aplique uma regra adequada à população do paciente e registre qual foi usada. Anticoagulação, idade, intoxicação e condições de alta exigem atenção aos limites da regra. Considere a possibilidade real de observação com exames seriados e acompanhante confiável. Sem imagem disponível, organize o destino capaz de realizá-la quando indicada; trocar de regra ou relaxar critérios por falta de recurso não resolve a necessidade de investigação.

Qual pressão sistólica perseguir: acima de 90 mmHg ou mais alto?

Acima de 90 mmHg

É o piso que o protocolo nacional fixa explicitamente para o traumatismo cranioencefálico, em contraste com os 80 mmHg aceitos no choque hipovolêmico do trauma sem lesão craniana. É um alvo simples, memorizável e alcançável com cristaloide em qualquer sala do país, e é o número que a equipe do transporte e da regulação vai reconhecer.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolos AT4 e AT5, Ministério da Saúde, 2ª edição, 2016

Igual ou maior que 110 mmHg, com faixa por idade

As diretrizes internacionais de traumatismo grave sugerem manter sistólica igual ou maior que 100 mmHg entre 50 e 69 anos, e igual ou maior que 110 mmHg dos 15 aos 49 anos e acima dos 70, para reduzir mortalidade e melhorar desfecho. O argumento é que 90 mmHg foi historicamente um limiar de alarme, não um alvo, e que o dano começa antes de o alarme tocar.

Carney N et al., Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4ª edição, Neurosurgery, 2017

Como decidir

Diferencie limiar histórico de hipotensão e meta de tratamento. PAS abaixo de 90 mmHg marca risco importante, mas valores pouco acima disso não significam perfusão adequada. O percurso deste capítulo trabalha com alvo de 110 mmHg, individualizado pela equipe. No TCE associado à hemorragia, evite hipotensão permissiva, procure o foco e organize hemostasia em paralelo. Persistência de pressão inadequada após reposição exige reavaliação, sem recorrer automaticamente a mais cristaloide.

Terapia hiperosmolar: salina hipertônica ou manitol?

Salina hipertônica como primeira linha

O protocolo estadual capixaba registra que as diretrizes sugerem a salina hipertônica como agente de primeira linha, com três argumentos: ela não causa diurese osmótica e portanto não retira volume de um paciente que muitas vezes já está no limite de pressão; pode reduzir mais a pressão intracraniana; e pode ser mantida em infusão contínua depois do bolus. A dose aguda é de 2 a 5 mL/kg da solução a 3% em 10 a 20 minutos.

Protocolo PRT.HINSG.018, Manejo de Traumatismo Cranioencefálico no Pronto Socorro, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2026

Sem preferência demonstrada entre os dois agentes

As diretrizes internacionais de traumatismo grave concluíram que a evidência disponível é insuficiente para recomendar um agente hiperosmolar sobre o outro, ou para afirmar efeito sobre desfecho clínico, ainda que a redução de pressão intracraniana esteja demonstrada. O manitol permanece com faixa de dose estabelecida, de 0,25 a 1 g/kg, e uso restrito, antes de haver monitorização, aos pacientes com sinais de herniação transtentorial ou deterioração neurológica progressiva sem causa extracraniana.

Carney N et al., Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4ª edição, Neurosurgery, 2017

Como decidir

Considere hemodinâmica e disponibilidade imediata. A diurese osmótica do manitol pode comprometer a perfusão no paciente hipotenso; a salina hipertônica é a alternativa preferida nesse contexto descrito. No paciente adequadamente reposto, ambos são opções da equipe. Em herniação, organize o tratamento de resgate disponível e a monitorização sem atraso. Acompanhe diurese com manitol e sódio com salina hipertônica; manutenção, intervalos e suspensão cabem à terapia intensiva ou neurocirurgia.

Profilaxia de crise convulsiva: fazer em quem, com o quê, e por quanto tempo?

Fenitoína por 7 dias, com indicação restrita

As diretrizes internacionais de traumatismo grave recomendam fenitoína para reduzir a incidência de crise pós-traumática precoce, isto é, nos primeiros 7 dias, e são explícitas em que a profilaxia não previne a epilepsia pós-traumática tardia. O protocolo estadual capixaba lista as indicações: contusão cortical, hematoma subdural, extradural ou intracerebral, afundamento de crânio, ferimento penetrante, crise nas primeiras 24 horas e rebaixamento acentuado do nível de consciência.

Carney N et al., Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4ª edição, Neurosurgery, 2017; Protocolo PRT.HINSG.018, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2026

Qualquer anticonvulsivante disponível, conforme viabilidade

O mesmo protocolo estadual, ao listar as medidas gerais de baixo risco na suspeita de pressão intracraniana elevada, admite fenitoína, fenobarbital ou levetiracetam, dependendo da disponibilidade e da viabilidade de administração — reconhecendo que a escolha do agente, na prática brasileira, é decidida pelo que existe na farmácia e pela facilidade de infusão, e não por superioridade demonstrada.

Protocolo PRT.HINSG.018, Manejo de Traumatismo Cranioencefálico no Pronto Socorro, Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, 2026

Como decidir

Confirme primeiro se há indicação nos achados apresentados no capítulo; profilaxia não se aplica a todo TCE. A fenitoína é a referência do protocolo citado, com dose e velocidade de infusão especificadas. Alternativas dependem da situação clínica, disponibilidade e decisão da equipe. Quando prescrita para prevenção de crises precoces, programe revisão e término em 7 dias: prolongamento automático não previne epilepsia tardia e aumenta exposição a efeitos adversos.

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O raciocínio, em voz alta

Josimar, 37 anos, 82 quilos, soldador, colisão de moto com automóvel há quarenta minutos. Chega em prancha e colar, com ferimento sangrante em couro cabeludo e o capacete partido. Abre os olhos ao chamado, diz palavras soltas, localiza o estímulo doloroso. Saturação 89% em ar ambiente, pressão 96 por 58, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 24, glicemia 84, temperatura axilar 35,4 °C. Pupilas isocóricas e fotorreagentes, move os quatro membros. Hospital regional sem neurocirurgião; tomógrafo disponível, técnico a caminho.

  1. 1h52 — o que penso antes de tocar em qualquer coisa

    Penso em duas listas ao mesmo tempo. A primeira é o que pode estar matando agora: via aérea, ventilação, sangramento. Ele fala, ainda que mal, o tórax expande simétrico e o único sangramento visível é o couro cabeludo — então a lista curta está razoavelmente coberta e a sequência primária é do plantonista que está chegando. A segunda lista é a minha: três números fora do alvo. Saturação 89%, sistólica 96 e temperatura 35,4 °C. Nenhum deles é dramático o bastante para chamar atenção da sala, e os três estão produzindo lesão secundária neste exato minuto.

  2. 1h53 — o que faço com as mãos, antes de qualquer exame

    Máscara com reservatório a 15 L/min. Elevo a cabeceira a 30 graus e alinho a cabeça no eixo — a prancha está com um coxim torto que a rodou para a direita, e eu tiro. Enfio um dedo entre o colar e o pescoço: passa, mas justo, e afrouxo um furo. Comprimo as bordas do ferimento do couro cabeludo com compressa e faço curativo compressivo; palpo antes para ter certeza de que não há afundamento, e não há. Peço manta térmica e digo em voz alta: temperatura 35,4, precisa aquecer. Peço glicemia — 84, sem hipoglicemia. Nada disso precisou de autorização e nada disso levou mais de dois minutos.

  3. 1h58 — o primeiro Glasgow que vale alguma coisa

    Com a saturação já em 96% e a sistólica em 104 depois de 500 mL de cristaloide aquecido, refaço o exame do jeito certo. Chamo pelo nome: abre os olhos — 3. Pergunto o nome dele e onde estamos: diz o nome de uma rua e a palavra chave, palavras soltas fora de contexto — 3. Comprimo o leito ungueal: leva a mão até a minha e afasta — 5. Escrevo: 1h58, abertura ocular 3, verbal 3, motora 5, total 11; pupilas 3 mm bilateralmente, fotorreagentes, isocóricas; move os quatro membros com força simétrica. Faço questão de anotar a decomposição e não só o 11, porque o próximo exame vai ser comparado componente a componente.

  4. 1h59 — o que peço, e o que digo no telefone

    Glasgow 11 é traumatismo moderado, e a régua estadual manda tomografia de crânio e de coluna cervical sem contraste para grave e moderado, sem discussão. Peço, e mando o técnico chamar assim que chegar. Ao mesmo tempo peço dois acessos calibrosos com coleta na mesma punção: hemograma, coagulograma, tipagem, sódio e gasometria. E ligo para a regulação antes do exame, não depois: homem de 37 anos, traumatismo cranioencefálico com Glasgow 11 pós-correção de hipóxia e hipotensão, hospital sem neurocirurgia, tomografia em andamento. O telefonema não espera o laudo — quem espera o laudo perde uma hora de fila que poderia estar correndo em paralelo.

  5. 2h05 — a decisão que quase não tomo

    O trauma tem cinquenta e cinco minutos, portanto ainda estou dentro da janela de três horas do ácido tranexâmico. O ensaio CRASH-3 mostrou redução de morte relacionada ao traumatismo craniano quando a droga é dada nesse prazo, com o benefício concentrado exatamente na faixa de traumatismo leve a moderado, que é a dele. Prescrevo 1 g diluído em 100 mL de soro fisiológico em 10 minutos, seguido de 1 g em 8 horas — 20 mL, ou quatro ampolas de 250 mg em 5 mL. Anoto a hora do trauma no prontuário, porque é ela que justifica a prescrição e é ela que ninguém vai conseguir reconstruir depois.

  6. 2h20 — refaço o exame e o número não é o mesmo

    Abertura ocular só ao estímulo de pressão — 2. Nenhuma palavra, apenas som — 2. Ainda localiza — 5. Total 9, contra 11 há vinte e dois minutos. Antes de concluir qualquer coisa, checo o que é reversível: saturação 97%, sistólica 108, glicemia 91, temperatura 36,1. Os três estão melhores do que estavam quando ele marcava 11, e mesmo assim o número caiu. Isso responde à pergunta: não é perfusão, é estrutural. Queda de dois pontos é gatilho de nova imagem e de reavaliação neurocirúrgica, e ele nem fez a primeira ainda. Aviso o plantonista, ligo de novo para a regulação com o número novo, e o exame passa a ser de quinze em quinze minutos.

  7. 2h34 — a pupila

    A pupila direita está com 5 mm e não reage à luz; a esquerda, 3 mm, reage. Anisocoria nova acima de 1 mm, com a maior arreativa. O Glasgow caiu para 7: não abre os olhos, nenhum som, retira o membro à pressão. Isso é herniação até prova em contrário, e a prova em contrário não vem de exame nenhum a tempo. Aqui as condutas deixam de ser sequenciais.

  8. 2h34 a 2h39 — os cinco minutos

    Digo em voz alta, para a sala inteira, o que está acontecendo e o que preciso: anisocoria à direita, Glasgow 7, herniação. Quatro coisas ao mesmo tempo. A cabeceira sobe para 30 graus e a cabeça é realinhada — checo, porque ela rodou de novo durante o transporte. O plantonista intuba, com sequência rápida e sem hiperventilar, e eu digo antes o valor do exame neurológico das 2h34, para que ele fique registrado antes da primeira droga. Penduro manitol 20%: 0,5 g/kg em 82 quilos são 41 g, ou seja, 205 mL da solução, em 20 a 30 minutos — e peço sondagem vesical no mesmo instante, porque a diurese osmótica vai começar em minutos e a bexiga não vai perguntar. Ligo para a neurocirurgia com a frase mais curta possível: paciente com sinal de herniação, hiperosmolar em curso, preciso de vaga agora.

  9. 2h41 — a tomografia, e o que eu não faço

    A TC mostra hematoma extradural temporal direito com desvio da linha média, coerente com a piora e a pupila dilatada. Aciono resolução neurocirúrgica urgente e mantenho comunicação durante a transferência. Hiperventilação, se necessária por herniação iminente, é resgate breve orientado, com monitorização e alvo de PaCO2 de 30–35 mmHg; não se faz hiperventilação profilática ou apenas ventilação manual mais rápida. Não indicar corticoide para tratar TCE. Mantenho oxigenação adequada, normotermia, alinhamento da cabeça e perfusão cerebral: sistólica apenas acima de 90 não é a meta atual deste percurso; buscar PAS ≥110 mmHg, individualizada pela equipe.

  10. 3h05 — o que vai escrito com ele

    A transferência sai. No papel que acompanha o paciente vai a série inteira, e ela é o produto mais valioso deste plantão: 1h58 — 3, 3, 5, total 11, pupilas isocóricas fotorreagentes; 2h20 — 2, 2, 5, total 9, pupilas isocóricas; 2h34 — 1, 1, 4, total 6 após reavaliação, anisocoria à direita com pupila arreativa; hora da intubação e drogas usadas; hora e dose do manitol e do ácido tranexâmico; hora do trauma. Escrevo também, com todas as letras, que o Glasgow das 2h34 é anterior à sedação. Do outro lado, quem receber vai olhar um paciente sedado e curarizado cujo exame não existe mais — e a única coisa que ele vai ter é este papel.

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Faça você

Outro plantão, outro hospital: unidade de pronto atendimento de município pequeno, 22h40, sem tomógrafo e sem neurocirurgia; o hospital de referência fica a 70 quilômetros e a vaga passa pela regulação. Seu Ademar tem 68 anos, 74 quilos, aposentado, e caiu de uma escada de dois degraus enquanto trocava uma lâmpada, há uma hora e meia. Chegou andando, acompanhado da filha. Está orientado no tempo e no espaço, responde a tudo, obedece a comandos: Glasgow 15. Não lembra do momento em que caiu, mas lembra de tudo do dia inteiro até subir na escada. Vomitou duas vezes desde a queda. Tem hematoma occipital, sem afundamento palpável, sem equimose periorbitária ou retroauricular, sem saída de líquido pelo nariz ou pela orelha. Pressão 148 por 84, frequência cardíaca 76, saturação 97% em ar ambiente, glicemia 108, temperatura 36,4 °C. Sem déficit focal, pupilas isocóricas e fotorreagentes. Usa losartana e sinvastatina, e nenhum anticoagulante ou antiagregante. A filha pergunta se pode levá-lo para casa.

  1. 1. A régua se aplica a ele?

    Adulto com Glasgow de 13 a 15, dentro de 24 horas do trauma, com amnésia do evento presenciada pela família: ele entra no grupo em que a regra canadense foi validada. E não tem nenhum dos três critérios que o tirariam dela — não tem menos de 16 anos, não usa anticoagulante nem antiagregante, e não convulsionou depois da queda. A régua vale aqui.

  2. 2. Ele preenche algum critério?

    Vale conferir os sete um a um, e não parar no primeiro que faltar. Glasgow abaixo de 15 duas horas depois do trauma: não, ele está 15 e já se passou uma hora e meia. Suspeita de fratura aberta ou com afundamento: não, o hematoma é subgaleal e não há degrau ósseo. Sinal de fratura de base: nenhum dos quatro. Mais de dois episódios de vômito: ele vomitou duas vezes, e o critério exige mais de dois — este não fecha. Idade igual ou maior que 65 anos: ele tem 68, e este fecha. Amnésia retrógrada de 30 minutos ou mais: não, ele lembra do dia inteiro até subir na escada; a amnésia é lacunar, do momento do impacto. Mecanismo perigoso: queda de dois degraus não chega ao corte de cinco degraus ou um metro. Um critério de alto risco presente é suficiente.

  3. 3. E o que a epidemiologia diz sobre esse paciente específico

    Ele parece o caso mais brando da noite e é o mais letal da estatística. Na série brasileira do Nordeste, a mortalidade por traumatismo intracraniano foi de 21,5% acima dos 80 anos, contra 10,1% na média geral. O mecanismo é banal, o encéfalo é atrofiado, as veias-ponte estão esticadas, e há espaço de sobra dentro do crânio para um hematoma crescer antes de comprimir qualquer coisa. Um idoso lúcido depois de uma queda em casa não é motivo de alívio: é motivo de imagem.

  4. 4. A conduta — complete você

    Há indicação de tomografia de crânio, e este serviço não tem tomógrafo. Escreva o que se faz: o que muda na conduta pelo fato de o exame não estar disponível aqui, o que se mantém enquanto a decisão de transporte é tomada, o que precisa estar escrito, o que se diz à filha, e em que condições — se houver alguma — ele poderia ficar em observação local em vez de ser transferido.

  5. Continuidade do caso e prática do internato

    Reconstitua a evolução de Josimar de Glasgow 11 a 9 e depois 6. Explique em cada mudança o que você comunica e qual ação não pode esperar.

  6. Questão integrativa 1

    Qual é o Glasgow inicial: abre ao chamado, palavras inadequadas e localiza dor?

  7. Questão integrativa 2

    Uma sistólica de 94 mmHg é tranquilizadora no TCE?

  8. Questão integrativa 3

    É preciso esperar tiamina para tratar hipoglicemia?

  9. Questão integrativa 4

    Por que não hiperventilar preventivamente?

  10. Questão integrativa 5

    Glasgow nove com anisocoria permite esperar porque ainda não é grave pela escala?

  11. Questão integrativa 6

    Que informações acompanham a transferência de Josimar?

Ver como fecharíamos

A ausência de tomógrafo não apaga a indicação: ela muda o destino do critério. Quem preenche indicação de imagem e não pode fazê-la aqui precisa ser transferido ou observado com exame neurológico seriado e transporte já acionado — e a diretriz estadual organiza isso ao mandar providenciar transferência, após estabilização, para as unidades sem retaguarda neurocirúrgica. Então: acionar a regulação agora, com o quadro completo, e não daqui a duas horas se ele piorar. Enquanto a vaga não sai, nada muda no que é responsabilidade sua e é tudo de baixo custo: saturação mantida acima de 94%, pressão sistólica na meta individualizada de proteção cerebral, em geral ≥110 mmHg — ela está alta, e essa hipertensão isolada em paciente lúcido, sem bradicardia e sem alteração respiratória, não é tríade de Cushing e não se trata na porta —, glicemia conhecida, normotermia, cabeceira a 30 graus, cabeça alinhada, jejum e acesso venoso. Antiemético para o vômito, e analgesia titulada com o cuidado de não sedar o paciente que você precisa reavaliar. Nada por via nasal seria a regra se houvesse sinal de fratura de base; ele não tem, mas o exame precisa estar registrado como feito e negativo, sem presumir que exame externo negativo exclua fratura de base; se houver suspeita ou necessidade urgente de descompressão, discutir via orogástrica e avaliação apropriada. O exame neurológico se repete a cada 30 minutos, com os três componentes e a hora, e a série vai por escrito na guia de transferência — junto com a hora da queda, o mecanismo, a lista de medicações em uso e a informação explícita de que ele não usa anticoagulante, porque essa é a primeira pergunta que o serviço receptor vai fazer. À filha: que ele está bem agora, que existe um tipo de sangramento dentro do crânio que demora horas para dar sintoma e que a idade dele aumenta esse risco, que por isso ele precisa de uma tomografia que só existe no hospital de referência, e que o que se faz enquanto a vaga não sai é vigiar de perto e manter oxigênio e pressão nos valores que protegem o cérebro. Observação local em vez de transferência só se sustentaria se a tomografia estivesse disponível aqui em prazo curto e conhecido — o que não é o caso — ou se houvesse leito de observação com equipe capaz de repetir o exame de forma confiável e transporte imediatamente disponível ao primeiro sinal de piora, o que numa unidade de pronto atendimento à noite é uma aposta que se paga com o paciente. Alta para casa não é opção: ele preenche critério de imagem, e mandá-lo para casa transformaria a filha em serviço de vigilância neurológica sem o exame que a régua exigiu. Questões integrativas — respostas comentadas 1. E3 + V3 + M5 = 11, TCE moderado após considerar interferências. Registrar os três componentes e repetir após ressuscitação. 2. Não. Pode comprometer a perfusão cerebral. Procurar e tratar a causa, usando metas específicas do TCE, sem hipotensão permissiva. 3. Não. Corrigir a glicemia imediatamente; oferecer tiamina prontamente quando indicada, sem atrasar glicose. 4. A redução excessiva de CO2 pode diminuir fluxo cerebral e agravar isquemia. Hiperventilação breve é resgate selecionado, orientado e monitorado. 5. Não. Categoria não substitui evolução: anisocoria nova e deterioração exigem avaliação e medidas urgentes. 6. Mecanismo e horários, componentes seriados do Glasgow e pupilas antes de sedação, sinais vitais, intervenções, medicamentos, resposta, imagem e contato com a equipe receptora.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A perda de consciência permite aplicar a regra neste trauma leve, mas não é, sozinha, indicação de TC. Os critérios de alto risco incluem Glasgow abaixo de 15 após duas horas, suspeita de fratura aberta ou com afundamento, sinais de fratura de base, dois ou mais episódios de vômito e idade de pelo menos 65 anos. Os de médio risco são amnésia anterior ao impacto por mais de trinta minutos e mecanismo perigoso, como atropelamento, ejeção de veículo ou queda de altura superior a três pés, aproximadamente 0,9 m, ou cinco degraus. Ela não apresenta esses critérios. A decisão inclui avaliação clínica, observação conforme necessidade e orientações de retorno por sinais de alarme.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar, os três componentes da escala de coma de Glasgow com as respostas e as pontuações, e ao lado de cada componente uma situação em que ele não é avaliável e o que se escreve nesse caso. Depois liste os cinco alvos fisiológicos do traumatismo cranioencefálico com o número de cada um e uma frase dizendo por que aquele número. Por fim, escreva os sete critérios da régua canadense separando os cinco de alto risco dos dois de risco médio — e o corte numérico exato de cada um que tem número.

Em 30 dias

Refaça o caso do Josimar mudando um dado por vez e veja onde a decisão quebra: e se a saturação inicial fosse 97% e a sistólica 130, o Glasgow 11 ainda seria interpretado da mesma forma; e se o trauma tivesse quatro horas em vez de quarenta minutos; e se a anisocoria aparecesse com o hospital sem manitol e sem NaCl 20%; e se o Glasgow tivesse ido de 11 para 9 sem mudança pupilar. Depois faça o mesmo com o seu Ademar: e se ele tomasse rivaroxabana; e se tivesse 54 anos em vez de 68; e se tivesse vomitado quatro vezes. Por último, procure no seu serviço três coisas concretas e anote: qual documento define as faixas de gravidade que a equipe usa, onde fica o manitol e se existe NaCl 20% em ampola na farmácia da porta, e quanto tempo leva, em média, entre acionar a regulação e ter a vaga de neurocirurgia.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 41 anos, atropelado por motocicleta ao atravessar a avenida há trinta minutos, trazido em prancha e colar, com escoriações no ombro e um ferimento no couro cabeludo. Ele responde quando você chama, mas fala pouco e se confunde. Você tem as suas mãos, um monitor, um oxímetro, uma fita de glicemia, o telefone da regulação e um tomógrafo que talvez fique pronto em uma hora. Conduza: mantenha os alvos, produza a série com hora, decida a imagem pela régua, e reconheça a hora em que a conduta muda.

Trauma cranioencefálico — Internato | OsceLabs