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Cirurgia GeralTrauma

Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica

Reconhecer hemorragia pélvica, estabilizar corretamente e organizar hemostasia sem perder lesões abdominais, vasculares ou urinárias associadas.

Fontes deste capítulo

Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Atendimento de Urgência ao Paciente Vítima de Trauma — Diretrizes Clínicas. Versão 2018, diretriz clínica aprovada em 30 de setembro de 2018

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: Suporte Avançado de Vida. 2ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2016

Godinho M, Garcia DFV, Parreira JG, Fraga GP, Nascimento B, Rizoli S. Tratamento da hemorragia da fratura pélvica em doente instável hemodinamicamente. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 39, número 3, páginas 238 a 242, 2012

Cordts Filho RM, Parreira JG, Perlingeiro JAG, Soldá SC, Campos T, Assef JC. Fratura de pelve: um marcador de gravidade em trauma. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 38, número 5, páginas 310 a 316, 2011

Moraes JP, Perlingeiro JAG, Parreira JG, Lucarelli-Antunes PS, Rondini GZ, Assef JC. Uso de critérios clínicos para a otimização da indicação de radiografia simples de pelve das vítimas de trauma fechado. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, volume 47, artigo e20202624, 2020

01

Responda antes de ler

Homem de 46 anos, atropelado, chega pálido e sudorético, com pressão 96 por 62 e frequência 122. Tórax limpo, abdome flácido, sem ferimento externo e sem deformidade visível na bacia. Você decide aplicar compressão pélvica externa e o serviço não tem cinta comercial — só lençol. Onde a faixa deve ficar centrada?

02

O paciente que você vai ver

Domingo, 19h50. Hospital regional de porte médio, referência para sete municípios de uma microrregião, a cento e noventa quilômetros do hospital estadual de trauma. O tomógrafo funciona e o técnico mora perto. O ortopedista está de sobreaviso, a vinte minutos de carro. O banco de sangue tem estoque contado e é abastecido de terça e de sexta. Não existe sala de hemodinâmica no município nem nos vizinhos. Você é o interno da escala de cirurgia, e o rádio avisa que o SAMU está a seis minutos.

O que chega é Aparecido Bento, 46 anos, vigia noturno, atropelado por um carro no acostamento da rodovia quando voltava a pé para casa. A equipe do SAMU passa o caso na porta: consciente o tempo todo, sem perda de consciência testemunhada, imobilizado em prancha longa com colar, dois acessos periféricos calibrosos nos antebraços, seiscentos mililitros de cristaloide na estrada. Vem com máscara de oxigênio. Pressão 96 por 62, frequência 122, respiração 24, saturação 95%, Glasgow 15. O enfermeiro do SAMU acrescenta uma frase que você vai lembrar depois: “na cena a gente não mexeu na bacia”.

Aparecido fala com você. Diz o nome, o dia da semana e o nome do prefeito. Está pálido, com a pele fria nas mãos, e sua. Quando você pergunta onde dói, ele leva a mão à virilha e depois à região lombar baixa, e diz que a dor é pior quando tentam virá-lo. Não consegue levantar nenhuma das duas pernas da maca. A direita parece um pouco mais curta e ligeiramente rodada para fora.

O exame do tórax é limpo: murmúrio simétrico, sem crepitação de arcos, sem enfisema. O abdome é flácido, discretamente doloroso de forma difusa, sem defesa e sem descompressão dolorosa. Não há ferimento aberto em lugar nenhum. Não há deformidade visível na bacia. O períneo, quando você abaixa a cueca cortada pela tesoura, tem um hematoma discreto na raiz do escroto e uma gota de sangue seco na ponta do pênis.

A enfermeira da sala vermelha já preparou a bandeja de sondagem vesical, porque é o que se faz no politraumatizado grave, e pergunta se pode passar. O residente de cirurgia, que atende outro paciente na sala ao lado, grita da porta: “vê se a bacia está instável e me fala”. Você põe as duas mãos sobre as cristas ilíacas de Aparecido e para no meio do movimento.

Pare aí com ele. São duas perguntas separadas, e a maioria dos erros que este capítulo descreve nasce de confundi-las. A primeira é o que fazer com essas mãos apoiadas na crista ilíaca — se examinar, quantas vezes, e o que a resposta muda. A segunda é para onde está indo o sangue de um homem pálido, taquicárdico e hipotenso, com abdome flácido, tórax limpo e nenhum ferimento externo.

A segunda pergunta é a que organiza tudo. Aparecido perdeu volume em algum lugar, e os lugares onde um adulto perde volume suficiente para chegar assim são cinco: a rua, o tórax, o abdome, a pelve com o retroperitônio e os ossos longos. A rua foi vista pelo SAMU. O tórax está limpo. O abdome está flácido. As coxas não estão tensas nem deformadas. Sobra a pelve — e a pelve é o único desses cinco compartimentos que pode conter litros sem que nada apareça por fora, sem distender, sem doer no lugar certo e sem alterar o exame do abdome.

Vinte minutos depois, a mesma noite manda um segundo paciente: Rosimeire Tavares, 23 anos, ajudante de obra, queda de andaime de aproximadamente cinco metros, chega falando, com pressão 118 por 76, frequência 96, dor lombar baixa e uma bacia que, ao simples olhar, não tem nada de errado. Ela também tem fratura de anel pélvico, e a conduta com ela vai ser quase toda diferente da conduta com Aparecido.

Este capítulo é sobre por que a fratura do anel pélvico é uma doença hemodinâmica antes de ser uma doença ortopédica, por que o instrumento que mais salva vida aqui é um lençol amarrado no lugar certo, e como se decide para onde mandar Aparecido num país onde a angioembolização, que a literatura recomenda, não existe na maioria dos hospitais que recebem esse paciente. A reposição volêmica e a transfusão maciça são o assunto do capítulo de choque hemorrágico no trauma; aqui o assunto é conter a hemorragia.

03

Quem adoece disso

A fratura de pelve não é rara o suficiente para você poder esquecê-la, e não é comum o suficiente para você aprendê-la por repetição. No registro de trauma do Serviço de Emergência da Santa Casa de São Paulo, entre junho de 2008 e março de 2009, 43 de 2.019 vítimas de trauma fechado tinham fratura de pelve — 2,1%, ou uma a cada quarenta e sete. Num levantamento posterior do mesmo serviço, agora restrito aos 3.055 adultos de trauma fechado que fizeram radiografia de pelve na admissão, 101 tinham fratura visível ao raio X, 3,3%. Considerando só quem já é politraumatizado, a revisão brasileira de duas décadas de literatura coloca a fratura do anel pélvico em cerca de 25% dos casos. Traduzindo para a sua escala: num plantão de vinte atendimentos de trauma fechado, a chance de nenhum ter fratura de pelve é alta; num mês de plantões, a chance de você não ver nenhuma é baixa.

O mecanismo brasileiro é diferente do que os livros descrevem, e isso muda a sua suspeita. Nas duas séries paulistas, o atropelamento é o mecanismo mais frequente entre os doentes com fratura de pelve: 39,5% na casuística de 2011 e 49,5% na de 2020, seguido em ambas pelas quedas de altura. Na série de São José do Rio Preto, os acidentes de trânsito somados responderam por 58% e as quedas por 32%, a maioria destas em trabalhadores da construção civil caindo de andaime. Os próprios autores paulistas registram que a frequência de atropelamento na sua casuística não é a encontrada em países desenvolvidos. A consequência é direta: o pedestre atropelado que chega andando e falando, e que em muitos serviços recebe pulseira amarela, é exatamente o perfil que concentra fratura de pelve no Brasil. Mecanismo de atropelamento é indicação de olhar a pelve, mesmo com o doente conversando.

A idade média gira em torno de 37 a 40 anos nas casuísticas brasileiras, e a revisão de duas décadas mostra tendência de aumento — a média da primeira década estudada era 39,3 anos, com tendência de subir até sete anos na segunda, e a participação feminina subiu de 37,5% para 43,3%. Nenhuma dessas duas tendências alcançou significância estatística no trabalho, o que importa dizer para você não repetir como se fosse fato consolidado. Ainda assim, a direção interessa na sala: a fratura de pelve do idoso vem de mecanismo menor — queda da própria altura —, e a diretriz capixaba registra que a compressão lateral, que costuma não causar hemorragia grave, é exceção justamente no paciente idoso.

A letalidade é o número que justifica o capítulo. Na série de 2011 da Santa Casa, os doentes com fratura de pelve morreram em 27,9% dos casos, contra 1,8% dos demais traumatizados fechados do mesmo período; 51,2% precisaram de leito de terapia intensiva, contra 3,5%. A estimativa consolidada em publicação brasileira mais recente é de 10% a 16% de letalidade na fratura de pelve em geral, que sobe para 30% a 45% na fratura aberta — esta responde por 2% a 4% dos casos. E, restringindo aos doentes que chegam instáveis com fratura pélvica, a revisão do grupo TBE-CiTE registra 25% a 35%. A leitura clínica é uma só: a fratura de pelve, mesmo quando não é ela que mata, marca o doente que vai morrer. Ela indica energia dissipada, e energia dissipada significa lesões em outros segmentos.

O estudo de São José do Rio Preto, que acompanhou 84 doentes por dezenove meses, encontrou letalidade de 7% — mais baixa porque a casuística é ortopédica e inclui muita fratura estável — e registra que todos os seis óbitos tinham lesão associada de tórax, abdome ou crânio. Vale conhecer uma inconsistência do próprio artigo, porque ela ensina a ler tabela: o trabalho declara 84 doentes, mas a distribuição por sexo soma 82 (55 homens e 27 mulheres) e a distribuição por cor soma os mesmos 82 (71 e 11). Os percentuais publicados, 67% e 33% para sexo e 86% e 14% para cor, só fecham se o denominador for 82; sobre 84 dariam 65,5% e 32,1%, 84,5% e 13,1%. Dois doentes ficaram de fora dessas duas contagens sem que o texto diga por quê. Nada disso muda a mensagem epidemiológica — homens jovens, trânsito, fratura estável na maioria —, mas é o tipo de detalhe que separa quem leu o artigo de quem leu o resumo.

04

Por que acontece o que acontece

Quase tudo que você precisa decidir na sala sai de quatro fatos de mecanismo: a pelve é um anel, o retroperitônio é um tanque sem parede, o sangue vem de veia e de osso, e o que estanca esse sangue é pressão externa, não pinça.

A pelve é um anel, e anel não quebra em um ponto só. Os dois ossos ilíacos e o sacro formam uma estrutura fechada, mantida à frente pela sínfise púbica e atrás pelo complexo ligamentar posterior — sacroilíacos, sacroespinhal e sacrotuberal. Um anel rígido submetido a uma força que o deforma tem de ceder em pelo menos dois lugares: se você vê uma solução na frente, procure a de trás. A consequência prática é grande, porque a lesão anterior é a que aparece na radiografia simples e a posterior é a que sangra. Quem olha uma abertura de sínfise e não pergunta pelo sacroilíaco está vendo metade da lesão.

Três modelos do anel pélvico vistos de cima: íntegro, com diástase anterior e aproximado por forças de compressão externa.
Em padrões como a abertura em livro, a compressão pode aproximar segmentos e reduzir movimento e volume do anel. O esquema é qualitativo e não representa todos os tipos de fratura. A estabilização pode favorecer a hemostasia, mas não garante o controle de cada vaso; choque persistente exige reavaliação e medidas adicionais.

O retroperitônio pélvico é um tanque que aceita litros sem avisar. Ele não tem uma parede que distenda e doa, como a parede abdominal, nem um limite rígido que gere sinal precoce, como o crânio. É tecido frouxo, e a única coisa que limita quanto sangue cabe ali é o volume geométrico definido pelo próprio anel ósseo. Quando o anel se abre — sínfise afastada, hemipelve rodada para fora —, o volume disponível cresce muito mais rápido do que a distância que separou os ossos, porque um espaço tridimensional cresce muito mais depressa do que a medida linear que o define. É por isso que a pelve “sangra sem aparecer”: o abdome de Aparecido está flácido porque o sangue não está no peritônio; está atrás dele. O exame do abdome, a ultrassonografia rápida e a lavagem peritoneal olham a cavidade peritoneal, e a diretriz capixaba diz isso com todas as letras ao justificar a tomografia: retroperitônio e pelve não são bem avaliados por exame físico, por ultrassonografia rápida nem por lavagem peritoneal.

O sangue vem de veia e de osso, não de artéria. Este é o fato que reorganiza a conduta inteira. A revisão brasileira do grupo TBE-CiTE registra que, na maioria dos casos, a hemorragia retroperitoneal da fratura pélvica tem origem venosa e óssea, e que em 85% dos doentes o sangramento não é arterial. A diretriz capixaba diz o mesmo: a gravidade imediata se relaciona principalmente com a ruptura do plexo venoso pélvico e com o sangramento das superfícies ósseas, e menos comumente com roturas de ramos arteriais do sistema ilíaco interno. Duas consequências saem daí. A primeira é que o sangramento é difuso e de baixa pressão: não há um vaso para clampear, há uma superfície esponjosa e um plexo de paredes finas. A segunda é que sangramento de baixa pressão para por tamponamento — basta que a pressão do hematoma alcance a pressão da veia. O que impede o tamponamento é o recipiente continuar crescendo.

Daí a cinta. Aproximar mecanicamente as hemipelves faz três coisas ao mesmo tempo: reduz o volume que o hematoma precisa preencher para tamponar, aproxima as superfícies ósseas fraturadas — que são elas mesmas a fonte —, e imobiliza os fragmentos, impedindo que o movimento continue rompendo coágulo recém-formado. Nenhuma dessas três ações depende de saber qual vaso sangra, de ter sangue no banco ou de ter cirurgião na casa. É hemostasia mecânica feita por fora, com o material que existe em qualquer sala de emergência do país. A diretriz capixaba chama o dispositivo de torniquete pélvico, “usualmente lençóis”, e o Fluxo 9 da mesma diretriz nomeia o passo como fixação externa não invasiva, logo depois do ABCDE e antes de qualquer exame.

E daí, também, por que a cirurgia precoce não é a resposta. Abrir o retroperitônio pélvico num trauma fechado desfaz exatamente o tamponamento que estava contendo o sangramento venoso, e o cirurgião encontra do outro lado uma superfície sangrante difusa sem alvo para hemostasia. É a razão de o hematoma pélvico retroperitoneal não ser explorado no trauma contuso, e é a razão de a laparotomia, quando indicada nesse doente, ser indicada por outra coisa — sangue livre na cavidade peritoneal — e não pela fratura. O tamponamento pélvico pré-peritoneal, descrito na revisão brasileira, é uma operação diferente e desenhada para não cair nessa armadilha: uma incisão mediana de 6 a 8 centímetros a partir da sínfise púbica, com compressas colocadas junto ao anel pélvico de cada lado da bexiga, sem abrir o peritônio. Ele soma pressão ao tamponamento em vez de aliviá-lo.

O mesmo mecanismo explica a regra da manobra do anel. Deslocar fragmentos ósseos que já pararam de se mover desmancha coágulo formado sobre superfície esponjosa, e um coágulo desfeito não se reconstrói na mesma velocidade em quem já está frio, diluído e acidótico. O capítulo de trauma abdominal penetrante já explicou por que manipular repetidamente uma lesão que parou de sangrar transforma sangramento contido em hemorragia; aqui a mesma física se aplica a uma superfície muito maior e sem acesso. É por isso que o protocolo AT22 do SAMU 192 é categórico: diante de deformidade visível da pelve, não realizar o exame da estabilidade do anel nem qualquer outra manipulação desnecessária — apenas imobilizar.

Falta entender por que três pacientes com “fratura de pelve” podem ter três doenças diferentes, e isso depende da direção da força. A diretriz capixaba organiza em três vetores. Na compressão anteroposterior — atropelamento, colisão frontal —, a hemipelve roda para fora, a sínfise se rompe e os ligamentos posteriores cedem; a pelve se alarga, e é o padrão com risco de hemorragia grave e fatal. Na compressão lateral, mecanismo mais comum nos acidentes com veículos motorizados, a hemipelve roda para dentro; o volume não aumenta, e por isso usualmente não há hemorragia grave — exceto no idoso —, mas o púbis pode se projetar sobre o conteúdo visceral e lesar bexiga e uretra. No cisalhamento vertical, típico de quedas de altura acima de quatro metros, os ligamentos sacroespinhal e sacrotuberal se rompem e a hemipelve migra no plano vertical; é a instabilidade maior e o sangramento potencialmente fatal.

Guarde a assimetria: no padrão que abre a pelve, o problema é o volume, e a cinta é o tratamento; no padrão que fecha a pelve, o problema é a víscera, e a cinta não tem o que reduzir. Na sala, você não sabe qual dos três é antes da imagem — e essa é justamente a razão de a decisão de aplicar compressão externa ser tomada pela hemodinâmica do doente, e não pelo padrão da fratura.

Por fim, o mecanismo da lesão urinária, que decide se você passa ou não a sonda. A uretra membranosa é fixa ao diafragma urogenital, e a próstata está presa à pelve pelos ligamentos puboprostáticos. Quando o anel se desloca, a próstata acompanha o osso e a uretra membranosa fica ancorada embaixo: o que cede é a junção prostatomembranosa. O capítulo de trauma geniturinário da Sociedade Brasileira de Urologia registra que lesões de uretra são quase sempre associadas a fraturas do anel pélvico e ocorrem em 4% a 14% das fraturas de bacia, com lesão vesical associada em 10% a 20% das lesões de uretra posterior. É frequência suficiente para que a pergunta seja feita em todo doente com fratura de pelve, antes de qualquer sonda.

E há uma quarta doença, que é a fratura exposta de pelve: aquela em que o foco fraturário se comunica com o meio externo por um ferimento perineal, glúteo, vaginal ou retal. Ali o tanque tem um furo, o tamponamento nunca acontece, e o hematoma retroperitoneal está em comunicação com flora fecal. É por isso que ela tem letalidade de 30% a 45% mesmo respondendo por 2% a 4% dos casos, e por isso é tratada mais adiante como outra doença, e não como um grau a mais da mesma.

05

Como se apresenta de verdade

“Fratura de pelve” cobre desde uma fratura de ramo púbico que sai andando até uma hemipelve que migrou quatro centímetros para cima com o doente em choque refratário. Na casuística ortopédica de São José do Rio Preto, 55% eram fraturas estáveis, 30% rotacionalmente instáveis e 15% instáveis nos dois planos; na casuística cirúrgica da Santa Casa, 31,7% das fraturas vistas na radiografia de admissão foram consideradas instáveis. Os números não se contradizem: eles medem populações diferentes, uma que passou pela ortopedia e outra que passou pela sala vermelha. O que muda para você é que a maioria das fraturas de pelve não é a doença deste capítulo, e a minoria que é decide o plantão.

O reconhecimento das formas abaixo importa mais do que classificar a fratura, porque a conduta se decide pela apresentação hemodinâmica muito antes de existir uma classificação.

O estável que anda — e ainda assim é um marcador

Dor na virilha ou no quadril para deambular, marcha antálgica, pressão e frequência normais, sem palidez. É a fratura de ramo, a fratura isolada de asa ilíaca, a fratura por avulsão do adolescente. Não sangra o suficiente para importar, e o tratamento é analgesia, carga conforme dor e seguimento ortopédico.

O erro aqui não é de conduta, é de leitura: mesmo estável, uma fratura de pelve documenta a energia que atravessou aquele corpo. Na série paulista, doentes com fratura de pelve tiveram média de escore de gravidade quase seis vezes maior que os demais traumatizados fechados, e frequências muito maiores de hemotórax, pneumotórax, contusão pulmonar, lesão hepática, esplênica, renal e vesical. Fratura estável não dispensa a busca ativa das lesões associadas — dispensa a cinta.

O compensado — a forma mais perigosa, porque parece bem

É o Aparecido da cena: fala, orienta-se, tem Glasgow 15 e uma pressão que ainda começa com 9. A frequência de 122 e a pele fria são a parte do exame que já mudou. Na série de 2011, a média de pressão sistólica na admissão dos doentes com fratura de pelve foi 107,9 milímetros de mercúrio, com desvio padrão de 48 — ou seja, a média era quase normal e a dispersão enorme; e a média de frequência cardíaca foi 101.

Um adulto jovem mantém a pressão à custa de vasoconstrição e taquicardia até ter perdido volume considerável. Pressão de 96 por 62 com frequência de 122 não descreve um doente estável: descreve um doente que ainda está pagando a conta. A decisão de aplicar compressão pélvica não espera a pressão cair.

O instável desde a porta

Pálido, sudorético, confuso ou agitado, pressão abaixo de 90, frequência acima de 120, tempo de enchimento capilar lento. Se o tórax está limpo, o abdome flácido e não há sangramento externo, a pelve responde por praticamente todo o volume perdido.

Este é o doente de quem trata o Fluxo 9 da diretriz capixaba, e nele a ordem inverte: contenção primeiro, imagem depois. Cerca de 10% dos doentes com radiografia de pelve alterada na casuística paulista chegaram com instabilidade hemodinâmica — é uma minoria dentro de uma minoria, e é a que gasta o plantão inteiro.

O doente com nível de consciência rebaixado — o exame da pelve não vale nada

O exame físico da pelve depende de o paciente relatar dor. Sem isso, sobra só instabilidade grosseira à palpação, que é achado tardio e pouco frequente. O estudo paulista sobre indicação de radiografia definiu exame neurológico normal como Glasgow 15, sem alteração motora ou sensitiva e sem sedativo ou droga que mascare — e usou essa variável como pré-requisito para qualquer decisão de não radiografar.

A leitura para a beira do leito é simples e vale como regra: em doente que não conversa com você, a pelve é investigada por imagem, não por palpação. E hipotensão em doente com traumatismo cranioencefálico não se explica pelo trauma de crânio — na série de 2011, 7% dos doentes com fratura de pelve tinham hemorragia subaracnóidea traumática e 9,3% trauma raquimedular, e essas lesões coexistem com a hemorragia pélvica em vez de substituí-la.

O doente com lesão distratora

Fratura exposta de fêmur, luxação de tornozelo, queimadura extensa. A dor grande rouba a atenção do paciente e a sua. O trabalho paulista tratou isso como variável formal — ausência de lesões distrativas, definidas como escore abreviado de lesão maior que 2 em outro segmento corporal — e mostrou que ela é a que mais muda a probabilidade depois do exame da pelve.

Na prática: se há uma lesão gritando em outro lugar, o exame negativo da pelve não vale como negativo. Radiografe.

O idoso com queda da própria altura

Mecanismo trivial, fratura por compressão lateral, e mesmo assim sangramento significativo. A diretriz capixaba coloca o idoso como a exceção explícita à regra de que a compressão lateral usualmente não causa hemorragia grave. Soma-se a isso o uso frequente de anticoagulante e antiagregante e a reserva cardiovascular menor, que impede a taquicardia compensatória — o idoso hipovolêmico pode chegar com frequência de 80.

A revisão brasileira de duas décadas descreve exatamente essa migração do perfil: aumento da idade média e da participação feminina. A consequência é que “queda da própria altura em idosa” deixou de ser sinônimo de fratura de fêmur e passou a exigir a pergunta sobre a bacia.

A criança e o adolescente

São raros: na casuística de dezenove meses de São José do Rio Preto, apenas três dos 84 doentes eram crianças, e os autores atribuem a raridade à presença dos componentes cartilaginosos — sínfise púbica, cartilagem trirradiada e cartilagens articulares —, que absorvem energia e deformam sem romper.

A leitura clínica é dupla e contraintuitiva: a criança quebra a pelve com menos frequência, mas quando quebra é porque a energia foi enorme, e as lesões associadas dominam o quadro.

A apresentação que só aparece quando você olha

Há sinais que não se manifestam sozinhos e só existem se alguém procurar: sangue no meato uretral, hematoma perineal ou escrotal, hematoma na raiz da coxa, sangramento vaginal, sangue no toque retal, discrepância de comprimento entre os membros, rotação externa de um membro sem fratura de fêmur, e incapacidade de elevar as pernas.

O sangue no meato é o exemplo típico: uma gota seca na ponta do pênis, que some no meio de um politraumatizado sujo de barro e sangue, e que é o sinal mais importante de lesão de uretra segundo o capítulo de trauma geniturinário da Sociedade Brasileira de Urologia. É um achado que custa dez segundos de exame e que impede um procedimento que pode transformar uma lesão parcial de uretra em completa.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui a ordem dos exames tem uma inversão que não existe em nenhum outro capítulo de trauma: no doente instável, a pelve é contida antes de ser investigada. O Fluxo 9 da diretriz capixaba coloca a fixação externa não invasiva como o passo imediatamente seguinte ao ABCDE, antes da ultrassonografia rápida, antes da radiografia e antes de qualquer decisão sobre laparotomia. A razão é a do bloco anterior: a contenção não depende do diagnóstico, e o diagnóstico custa minutos que o hematoma usa para crescer.

As seções abaixo estão na ordem em que as perguntas aparecem à beira do leito, e não na ordem em que os exames aparecem no livro.

1. A primeira pergunta não é qual fratura, é onde está o sangue

Um adulto hipotenso por trauma fechado perdeu volume em um de cinco lugares: no chão (cena e trajeto), no tórax, no peritônio, na pelve com o retroperitônio, ou nos ossos longos e nos tecidos moles das coxas. O sexto lugar — o vaso de grande calibre roto — mata antes de chegar.

Isso organiza a investigação inicial inteira, porque cada compartimento tem um exame de resposta rápida: o chão você pergunta ao SAMU; o tórax responde à radiografia de tórax e ao exame; o peritônio responde à ultrassonografia rápida ou à lavagem peritoneal; os ossos longos respondem ao exame das coxas e à radiografia; e a pelve é a única que não responde a nenhum exame de beira de leito além da radiografia de bacia — porque nem exame do abdome, nem ultrassonografia rápida, nem lavagem peritoneal enxergam o retroperitônio, como a própria diretriz capixaba registra.

Por isso a recomendação final do grupo TBE-CiTE lista, como primeiro item de um protocolo institucional para fratura pélvica, exatamente o trio de identificação rápida da origem do sangramento: radiografia de tórax, radiografia de pelve e ultrassonografia rápida ou lavagem peritoneal.

2. O exame físico da pelve: o que ele responde e, sobretudo, o que ele não responde

O exame descrito nos protocolos brasileiros é o mesmo nos dois documentos: observar a região à procura de sangramentos, contusões e lesões abertas, e palpar as cristas ilíacas em busca de dor e de instabilidade, realizando os dois testes de pressão — látero-medial e ântero-posterior. É o que está no protocolo AT2 do SAMU 192 e na avaliação secundária da diretriz capixaba.

O ponto que muda a sua conduta é o desempenho desse exame. No estudo paulista com 3.055 vítimas de trauma fechado, 101 tinham fratura de pelve à radiografia de admissão, e apenas 28 delas tinham exame físico da pelve alterado — 27,7%. Dito ao contrário: três de cada quatro fraturas de pelve visíveis na radiografia tinham exame físico normal. Os próprios autores escrevem que cerca de dois terços dos doentes com fratura tinham exame normal; a conta sobre os absolutos publicados dá quase três quartos.

O mesmo artigo permite calcular a outra metade do desempenho, e ela é o espelho da primeira. Dos 3.055 doentes, 3.011 tinham exame pélvico normal, e 44 tinham exame alterado. Entre esses 44, 27 tinham fratura — ou seja, exame alterado acerta em 61,4% das vezes, valor que o próprio artigo publica. A especificidade calculada sobre esses mesmos números passa de 99%.

Vale registrar uma inconsistência interna do artigo, porque ela ensina a ler os números com as mãos. A Tabela 1 conta 28 doentes com exame pélvico alterado entre os 101 com fratura; a Tabela 2 registra 74 fraturas entre os 3.011 com exame normal, o que deixa 27, e não 28, no grupo de exame alterado. O valor de 61,4% publicado pelos autores só fecha com 27 — 27 dividido por 44 dá 61,36%, enquanto 28 dividido por 44 daria 63,64%. A diferença é de um caso e não muda nada na cabeceira: o exame da pelve é um teste de altíssima especificidade e de sensibilidade baixa.

Traduzindo para conduta, e esta é a frase que você leva do capítulo: exame alterado decide; exame normal não exclui.

3. A manobra do anel: uma vez, por uma pessoa, e registrada

A manobra existe nos protocolos e tem indicação. O que ela não admite é repetição. Cada compressão desloca fragmentos que já pararam de se mover e desfaz o coágulo formado sobre a superfície esponjosa da fratura — o mesmo mecanismo pelo qual o capítulo de trauma abdominal penetrante proíbe cutucar repetidamente uma ferida que parou de sangrar, aqui aplicado a uma superfície muito maior e sem acesso para hemostasia.

As regras práticas que decorrem disso são quatro. Primeira: quem examina é uma pessoa só, a mais graduada disponível, e o resultado vai escrito no prontuário com a hora, para que o próximo profissional leia em vez de repetir. Segunda: a manobra é feita uma única vez, com pressão suave e simétrica, sem procurar crepitação — a diretriz capixaba diz, sobre extremidades, que não se deve tentar provocar crepitação, e a lógica vale integralmente aqui. Terceira: diante de deformidade visível da pelve, não se examina; o protocolo AT22 do SAMU 192 proíbe expressamente o exame da estabilidade do anel e qualquer outra manipulação desnecessária nessa situação, restando apenas imobilizar. Quarta: se o doente já está instável e a suspeita já existe, a manobra não acrescenta informação que mude conduta — e por isso não se faz.

Há uma consequência de organização de equipe que parece burocrática e não é: o pedido “vê se a bacia está instável e me fala”, gritado da porta, é a receita para que a pelve seja examinada três vezes em vinte minutos, por três pessoas diferentes, cada uma sem saber da anterior. Quem quer o resultado vai ver junto, ou lê o que ficou registrado.

4. O resto do exame que muda conduta

Períneo e genitália, sempre expostos e sempre olhados: sangue no meato uretral, hematoma escrotal, hematoma perineal, hematoma em “asa de borboleta”, sangramento vaginal. O capítulo de trauma geniturinário da Sociedade Brasileira de Urologia lista, como sinais indicativos de lesão de uretra, sangue no meato, hematoma escrotal ou perineal, próstata elevada ou não palpável ao toque retal, retenção urinária com globo vesical palpável e urgência miccional com incapacidade de esvaziar.

Toque retal, aqui com indicação forte e específica: procura sangue — que denuncia lesão retal e transforma a fratura em exposta —, procura a próstata deslocada superiormente e avalia tônus e sensibilidade, que interessam à lesão do plexo sacral. O próprio capítulo da Sociedade Brasileira de Urologia adverte que um hematoma tenso pode simular a próstata ao exame, e que a próstata não se desloca se os ligamentos puboprostáticos e o diafragma urogenital estiverem íntegros — ou seja, toque retal normal não exclui lesão uretral.

Toque vaginal na mulher com fratura de pelve, procurando laceração: a fratura que comunica com a vagina é fratura exposta, com o prognóstico e o tratamento que isso implica.

Membros inferiores: comprimento, rotação, pulsos distais e exame neurológico. O protocolo AT22 inclui a verificação de pulsos distais como passo formal da conduta, e a diferença de comprimento com rotação sem fratura de fêmur aponta para cisalhamento vertical.

Rolamento em bloco: aqui há uma troca de técnica que vale ouro e é pouco lembrada. O protocolo AT22 orienta colocar o paciente sobre a prancha longa utilizando, de preferência, a técnica de elevação à cavaleiro — quatro socorristas erguendo o doente na vertical, com um posicionando a prancha por baixo — em vez do rolamento lateral clássico. O motivo é o mesmo de sempre: rolar um doente com anel instável movimenta os fragmentos.

Diagrama com sangue no meato, dificuldade para urinar e hematoma perineal como sinais de suspeita de lesão uretral.
Sangue no meato, retenção e hematoma perineal aumentam a suspeita de lesão uretral após trauma; a ausência desses sinais não a exclui. Evitar tentativas cegas ou repetidas de sondagem e discutir avaliação dirigida. No homem, a uretrografia retrógrada costuma ser o exame inicial indicado; próstata alta ao toque é um achado pouco confiável.

5. Radiografia de bacia: quando ela é o exame certo

A radiografia anteroposterior de bacia é rápida, portátil e feita com o doente na maca, e é isso que a torna o exame do instável. A regra da diretriz capixaba é explícita e vale decorar pela lógica: se o doente permanece estável com o torniquete aplicado e há tempo hábil, prefira a tomografia à radiografia, por causa da sensibilidade relativamente baixa desta última; se há instabilidade hemodinâmica e evidências clínicas de fratura pélvica instável, prefira a radiografia, por ser rápida e por ter sensibilidade razoável num cenário em que o exame físico já levantou a suspeita. Em uma linha: estável, tomografia; instável, radiografia.

Note o raciocínio embutido: a mesma radiografia é boa ou ruim conforme a probabilidade pré-teste. Em quem já tem exame pélvico alterado e está instável, ela confirma depressa o que se precisa confirmar. Em quem está estável e com exame normal, ela deixa passar fratura demais — o estudo paulista cita literatura em que metade das fraturas pélvicas só apareceu na tomografia.

O que a radiografia de bacia responde, na prática, são três coisas: existe fratura de anel; ela abriu a sínfise ou deslocou a hemipelve; e a lesão é bilateral ou unilateral. O que ela não responde: se há sangramento ativo e de onde ele vem.

6. Quem não precisa da radiografia de bacia de admissão

Este é um dos poucos lugares em que existe evidência brasileira direta sobre reduzir exame. O estudo da Santa Casa sobrepôs cinco critérios clínicos e mediu a frequência de radiografia alterada em cada camada: exame neurológico normal, 2,1%; somando estabilidade hemodinâmica, 1,8%; somando exame da pelve normal, 1,4%; somando idade abaixo de 60 anos, 0,9%; e somando ausência de lesões distrativas, 0,4% — dois casos entre 502 doentes. Os autores calculam que dispensar a radiografia nesse último grupo reduziria em 16,4% o número de exames.

Leia com as limitações que os próprios autores assumem: é retrospectivo, de um único serviço, e a definição de estabilidade hemodinâmica usada é rígida — frequência abaixo de 100 e sistólica acima de 100. E há um detalhe de leitura: o resumo em português e o texto registram 39 radiografias alteradas entre os 1.863 com exame neurológico normal (2,1%), enquanto o resumo em inglês do mesmo artigo registra 38 (2,0%); 39 sobre 1.863 dá 2,09% e 38 dá 2,04%, de modo que cada versão é internamente coerente e as duas discordam entre si por um caso.

A conduta que sai disso não é “deixe de radiografar”. É: a radiografia de bacia é obrigatória em quem tem qualquer um dos cinco critérios ausentes, e é discutível apenas no adulto abaixo de 60 anos, alerta, estável, sem lesão distratora e com exame pélvico normal — que é justamente o doente que quase sempre vai fazer tomografia por outro motivo.

7. Ultrassonografia rápida: ela responde outra pergunta

A ultrassonografia rápida à beira do leito examina saco pericárdico, espaços hepatorrenal e esplenorrenal e a pelve — o recesso de Douglas — e é descrita pela diretriz capixaba como extremamente útil na detecção da causa do choque. O que ela detecta é líquido livre intraperitoneal. Ela não vê o hematoma retroperitoneal da fratura pélvica, e um exame negativo em doente instável com fratura de bacia não é boa notícia: é a confirmação de que a pelve é a fonte.

É exatamente essa a bifurcação do Fluxo 9. Depois do ABCDE e da fixação externa não invasiva, pergunta-se se a ultrassonografia rápida ou a lavagem peritoneal são positivas. Se sim, o doente vai para laparotomia exploradora com fixação externa. Se não, e ele permanece instável, a hemorragia é pélvica e a conduta é a do controle pélvico.

Uma armadilha de interpretação, específica deste capítulo: líquido livre em doente com fratura de pelve nem sempre é sangue de víscera. A ruptura intraperitoneal de bexiga produz líquido livre — e o líquido é urina. É mais uma razão para o exame do períneo e para a pergunta sobre a urina virem antes da sonda.

8. Tomografia: excelente exame, péssimo momento

A tomografia é o exame que responde tudo o que os outros deixaram em aberto: caracteriza o traço da fratura, mede o deslocamento, mostra o hematoma retroperitoneal, identifica extravasamento de contraste sugerindo sangramento arterial e avalia órgãos sólidos e retroperitônio. A diretriz capixaba destaca justamente que retroperitônio e pelve não são bem avaliados pelos outros métodos.

O problema não é o exame, é o doente. Instável não entra em tomógrafo, e a mesma diretriz proíbe realizar tomografia quando ela atrasa a transferência para nível de atenção mais avançado. Um corredor de cinquenta metros com um doente que sangra dentro da pelve consome mais reserva fisiológica do que o exame devolve em informação.

A regra operacional é: tomografia depois que a cinta estabilizou, ou tomografia nunca — se o destino do doente já está definido pela instabilidade.

9. O que não pedir, e o que custa pedir

Não repita o exame da pelve para “conferir”. Custo: coágulo desfeito, dor iatrogênica e um dado que não muda conduta.

Não passe sonda vesical como teste diagnóstico. A tentativa de passar o cateter para ver se passa foi abandonada como método: o documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia registra que este é um procedimento condenável, por poder converter uma lesão parcial em completa. Custo: uma estenose de uretra vitalícia, e às vezes uma cirurgia reconstrutiva a mais.

Não peça tomografia no instável nem tomografia que atrase transferência. Custo: minutos de sangramento ativo e um doente que descompensa longe da sala.

Não espere a angiografia que o seu hospital não tem. Se não existe hemodinâmica no serviço, esperar por ela não é conduta, é adiamento — e a decisão que resta é para onde transferir, e com o quê.

Não peça lavagem peritoneal sem descomprimir estômago e bexiga, como a diretriz capixaba exige; e lembre que sangue de hematoma pélvico pode contaminar o resultado se a punção for infraumbilical — é uma das razões pelas quais a ultrassonografia rápida, quando disponível, é preferível nesse doente.

Não repita hemoglobina esperando que ela decida. Na admissão ela ainda não caiu, e depois de dois litros de cristaloide ela cai por diluição. Os gatilhos de transfusão são assunto do capítulo de choque hemorrágico no trauma.

10. A suspeita de lesão de uretra: a sequência inteira

Se houver sangue no meato, hematoma perineal ou escrotal, próstata elevada ou não palpável, ou incapacidade de urinar com globo vesical, a sequência é: não passar a sonda, comunicar a suspeita e pedir avaliação urológica — é exatamente o que a diretriz capixaba orienta ao tratar dos adjuntos ao exame físico. O exame que responde é a uretrografia retrógrada, e o capítulo da Sociedade Brasileira de Urologia descreve a técnica praticada em serviço: sonda de Foley 14 French introduzida 1 a 2 centímetros na fossa navicular, balão insuflado com 1 a 2 mililitros, contraste iodado a 30% injetado gentilmente em frações de 10 mililitros; extravasamento com contraste chegando à bexiga indica lesão parcial, e extravasamento sem delinear uretra proximal e bexiga indica lesão completa.

Se o doente precisa de drenagem urinária e a uretrografia não é possível ali, a saída é a cistostomia suprapúbica, que o mesmo capítulo descreve como a conduta clássica e mais simples nas rupturas completas de uretra posterior. E o achado negativo também tem valor: ausência de dor pélvica e suprapúbica, ausência de hematoma peniano, escrotal ou perineal e toque retal normal favorecem a integridade da uretra.

Um cuidado de expectativa, para você conversar com a família sem prometer: mesmo com o manejo correto, estenose de uretra, disfunção erétil e incontinência são as complicações mais comuns dessas lesões, e o capítulo brasileiro registra que o doente deve ser orientado sobre a alta probabilidade de múltiplas cirurgias.

11. O diferencial mora aqui dentro

No trauma de pelve o diferencial não é entre doenças, é entre compartimentos, e o exame que confirma um é o que exclui o outro. É por isso que separá-lo em bloco próprio mentiria sobre como se raciocina.

Pelve contra peritônio: confirma-se hemoperitônio pela ultrassonografia rápida positiva ou pela lavagem com aspiração de 10 mililitros ou mais de sangue; exclui-se pela ultrassonografia negativa em doente com fratura de bacia — e aí o retroperitônio assume.

Pelve contra tórax: confirma-se hemotórax pela radiografia de tórax e pelo exame; a radiografia de tórax na sala de choque e a de bacia são pedidas juntas no doente instável de trauma fechado multissistêmico, e a diretriz capixaba recomenda exatamente esse par.

Pelve contra fêmur: confirma-se hemorragia de coxa pelo exame — coxa tensa, encurtamento, deformidade — e pela radiografia. Uma fratura de fêmur fechada acomoda volume considerável e frequentemente coexiste; na série paulista, 14% dos doentes com fratura de pelve tinham fratura de membro inferior e outros 14% fratura exposta de membro inferior.

Fratura de pelve contra fratura de acetábulo isolada: a segunda não rompe o anel e tem outra história natural; na casuística ortopédica brasileira, 17 dos 84 doentes tinham fratura de acetábulo entre as lesões associadas, cerca de um em cada cinco.

Hemorragia venosa e óssea contra hemorragia arterial: a distinção não é feita por exame na primeira hora. Ela é feita pela resposta — o doente que não estabiliza com volume e com o torniquete pélvico aplicado, e que tem fratura desviada do anel, é o que a diretriz capixaba manda presumir arterial e levar à angiografia.

12. O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

Sempre existe: lençol, cinta improvisada, radiografia de bacia, radiografia de tórax, acesso venoso, sonda gástrica, telefone da regulação. Nenhuma das condutas que mais mudam o desfecho depende de tecnologia.

Quase sempre existe: tomógrafo — em muitos serviços com técnico de sobreaviso, o que significa tempo. Vale saber o tempo real do seu plantão antes de contar com ele.

Depende do plantão: ultrassonografia rápida à beira do leito, que exige alguém treinado disponível na hora, e não apenas um aparelho.

Raramente existe: angioembolização. A revisão brasileira registra que poucos hospitais no mundo têm angioembolização disponível 24 horas por dia, e que a angiografia exige transferir um doente instável para a radiologia. O mesmo grupo recomenda, por causa disso, que cirurgiões considerem aprender o tamponamento pélvico pré-peritoneal, técnica simples e rapidamente aprendida, porque pode ser útil em hospitais onde a angiografia não está disponível.

A pergunta que resta, e que o restante do capítulo responde: se o seu hospital não tem hemodinâmica e o doente não estabiliza, a decisão não é qual exame pedir — é com o que e para onde transferir.

07

Do vetor à decisão: três padrões de anel, um algoritmo e as travas do exame

A suspeita de sangramento pélvico exige estabilização e ressuscitação simultâneas. A fratura não explica automaticamente todo choque do politraumatizado.

  1. 1Conduzir xABCDE e procurar focos simultâneos; evitar testes repetidos de abertura da pelve.
  2. 2Aplicar estabilizador pélvico quando indicado sobre os grandes trocânteres, com equipe treinada; registrar horário, posição e pele.
  3. 3No sangramento importante, acionar sangue e equipe capaz de realizar hemostasia. Cristaloide em pequeno volume é ponte, com aquecimento e reavaliação.
  4. 4Usar eFAST e exames compatíveis com a fisiologia. FAST negativo não exclui hemorragia abdominal nem prova que a pelve é a única fonte.
  5. 5Selecionar tamponamento pré-peritoneal, estabilização operatória, angioembolização ou combinação conforme fisiologia, recursos e equipe; não atrasar controle por esperar uma modalidade indisponível.
  6. 6Inspecionar períneo e procurar lesão aberta e sinais de lesão uretral; suspeita uretral exige avaliação antes de passagem de sonda às cegas.
  7. 7Individualizar metas de perfusão. Hipotensão permissiva não se aplica ao TCE ou à lesão medular; integrar as metas dos capítulos correspondentes.
  8. 8Planejar retirada ou substituição do estabilizador, vigilância da pele, prevenção de trombose quando segura, mobilização e seguimento com ortopedia.
Atraco unico

Tipo A — anel preservado

Fratura sem comprometimento do anel ou com solução em um ponto só, sem deslocamento: ramo púbico, asa ilíaca, avulsão. Foi 55% da casuística ortopédica brasileira. O espaço de contenção não mudou de tamanho, e por isso a hemodinâmica costuma ser normal. Tratamento por repouso e analgesia; a cinta não tem o que reduzir.

Bsinfise aberta

Tipo B — instabilidade rotacional

O anel cedeu em pelo menos dois pontos e a hemipelve rodou no plano horizontal. Na compressão anteroposterior, roda para fora, a sínfise se abre e o volume disponível cresce — é o padrão de hemorragia grave. Na compressão lateral, roda para dentro, o volume não cresce, e o risco migra para bexiga e uretra. Foi 30% da casuística.

Chemipelve migrada

Tipo C — instabilidade vertical

Cisalhamento vertical, típico de queda acima de quatro metros: rompem-se os ligamentos sacroespinhal e sacrotuberal e a hemipelve migra no sentido craniocaudal. É a maior instabilidade e o sangramento potencialmente fatal. Foi 15% da casuística ortopédica e é o padrão que mais frequentemente exige fixação externa na urgência.

Vetor da forçaMecanismo típicoO que acontece com o anelRisco hemorrágicoLesão associada a procurar
Compressão anteroposteriorAtropelamento, colisão frontal, queda com impacto anteriorRotação externa da hemipelve, rotura da sínfise púbica e dos ligamentos posteriores; a pelve se alargaAlto — é o padrão descrito com risco de hemorragia grave e fatalHemorragia retroperitoneal; lesão do plexo venoso pélvico
Compressão lateralImpacto lateral em veículo motorizado, atropelamento por veículo que vem de ladoRotação interna da hemipelve; o púbis se projeta sobre o conteúdo visceralUsualmente baixo — com exceção explícita do paciente idosoLesão de bexiga e de uretra pela projeção do púbis; fratura de acetábulo
Cisalhamento verticalQueda de altura, geralmente acima de quatro metrosRotura dos ligamentos sacroespinhal e sacrotuberal, com migração vertical da hemipelveAlto — instabilidade pélvica com sangramento potencialmente fatalLesão do plexo sacral; discrepância de comprimento dos membros; lesão vascular ilíaca

O exame físico da pelve como teste diagnóstico, recalculado sobre os absolutos publicados (3.055 vítimas de trauma fechado, Santa Casa de São Paulo)

PerguntaNúmeroLeitura à beira do leito
Quantos tinham fratura à radiografia de admissão?101 de 3.055 (3,3%)A fratura é incomum na população que chega, e comum na população que chega grave
Quantos dos que tinham fratura apresentavam exame pélvico alterado?28 de 101 (27,7%) pela Tabela 1; 27 de 101 (26,7%) pelo cruzamento da Tabela 2Cerca de três em cada quatro fraturas tinham exame normal
Quantos dos que tinham exame alterado tinham fratura?27 de 44 (61,4%)Exame alterado decide sozinho: mais da metade tem fratura
Quantos dos que não tinham fratura tinham exame normal?2.937 de 2.954 (99,4%)Especificidade altíssima, sensibilidade baixa — o achado positivo vale, o negativo não
Quantos, somando os cinco critérios clínicos, tinham fratura?2 de 502 (0,4%)É o único grupo em que se discute dispensar a radiografia de bacia

Onde o sangue pode estar num adulto hipotenso por trauma fechado, e o exame que responde

CompartimentoExame que respondeO que fazer se positivo
O chão — cena, trajeto e a própria macaInformação do pré-hospitalar e inspeção diretaCompressão direta; torniquete no membro se for o caso
TóraxExame e radiografia de tórax anteroposterior na salaDrenagem torácica; ver o capítulo de trauma torácico com risco iminente de morte
PeritônioUltrassonografia rápida ou lavagem peritoneal diagnósticaLaparotomia; ver o capítulo de trauma abdominal fechado
Pelve e retroperitônioRadiografia de bacia — nenhum exame de beira de leito enxerga o retroperitônioCompressão pélvica externa imediata; este capítulo
Ossos longos e partes moles das coxasExame comparativo e radiografiaAlinhamento e imobilização; tração quando indicada pelo ortopedista

Sinais que contraindicam a sondagem vesical no trauma de pelve

AchadoComo procurarO que fazer
Sangue no meato uretral (uretrorragia)Inspeção direta do meato após exposição; pode ser uma única gota secaNão sondar; uretrografia retrógrada; avaliação urológica
Hematoma escrotal ou perineal, inclusive em asa de borboletaInspeção do períneo e da bolsa escrotal com o doente expostoNão sondar; uretrografia retrógrada
Próstata elevada, deslocada ou não palpávelToque retal no politraumatizado com trauma maiorNão sondar; atenção — toque normal não exclui, se os ligamentos estiverem íntegros
Globo vesical com incapacidade de urinarPalpação e percussão suprapúbicasNão sondar pela uretra; considerar cistostomia suprapúbica
Sangramento vaginal ou laceração ao toque vaginalToque vaginal na mulher com fratura de pelveTratar como fratura exposta; avaliação ginecológica e cirúrgica

Antibiótico na fratura exposta, por grau de exposição (diretriz capixaba, Quadros 36 e 37)

Classificação de Gustilo e AndersonEsquemaObservação
Tipo I — exposição menor que 1 cm, baixa contaminaçãoCefalosporina de primeira geração (cefalotina); clindamicina se alergia a betalactâmicosA antibioticoprofilaxia precoce é o fator isoladamente mais importante na prevenção de infecção
Tipo II — exposição entre 1 e 10 cm, contaminação e lesão de partes moles moderadasCefalotina mais aminoglicosídeo (gentamicina); alternativa com cefalosporina de terceira geraçãoIdealmente iniciada antes de três horas, com esforço para a primeira hora
Tipo III — exposição maior que 10 cm, alto grau de lesão de partes moles e contaminaçãoCefalotina mais aminoglicosídeo (gentamicina); alternativa com cefalosporina de terceira geraçãoSubdividida em IIIA, IIIB e IIIC conforme cobertura primária e lesão arterial
Contaminação fecal ou clostridial potencial — a fratura exposta de pelve com ferimento perineal ou retalConsiderar o acréscimo de penicilina ao esquema de cefalotina com gentamicinaO esquema é adaptável pela comissão de controle de infecção de cada hospital

O Fluxo 9 da diretriz capixaba está apresentado como imagem. Abra a página correspondente para consultar o algoritmo completo; a busca textual pode mostrar apenas o título.

Na diretriz capixaba, o texto inclui angiografia com possível embolização na instabilidade persistente após ressuscitação e contenção pélvica, enquanto o fluxograma não a mostra em todos esses ramos. Por isso, leia o algoritmo junto à narrativa: FAST negativo não encerra a investigação de sangramento pélvico nem exclui necessidade de controle adicional.

A classificação A, B e C corresponde à estabilidade do anel: A estável; B com instabilidade rotacional; C com instabilidade rotacional e vertical. Os percentuais dos cartões vêm de 84 pacientes de uma série ortopédica de São José do Rio Preto e não estimam a distribuição na sala de trauma.

Fratura exposta da pelve com ferimento perineal ou retal exige atenção à possível contaminação fecal, contemplada na quarta linha da tabela de antibióticos. Avalie profilaxia antitetânica em paralelo ao tratamento, conforme histórico vacinal e classificação de alto risco para politraumatismos e fraturas expostas no Guia de Vigilância em Saúde.

Os indicadores de desempenho do exame pélvico foram calculados a partir dos números absolutos do artigo. Há diferença de um caso entre duas tabelas da fonte, indicada na linha correspondente. Essa limitação não modifica a interpretação clínica apresentada.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de Aparecido, o atropelado da cena, e vale para qualquer doente com suspeita de fratura de pelve e comprometimento hemodinâmico. Os marcos estão em minutos porque é assim que a coisa acontece: a decisão que mais muda o desfecho é tomada antes do décimo minuto, com material que custa menos que uma ampola.

Toda dose escrita aqui vem de documento aberto brasileiro, nomeado no próprio marco. A reposição volêmica e a transfusão maciça aparecem só no que este capítulo precisa delas; os gatilhos, as proporções e o protocolo de transfusão maciça são o assunto do capítulo de choque hemorrágico no trauma.

  1. Minuto 0 — avaliação primária, sem exceção para a pelve

    Via aérea com proteção da coluna cervical, ventilação, circulação, estado neurológico, exposição com prevenção de hipotermia. O trauma de pelve não abre exceção ao ABCDE e não antecipa nada: o capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado é onde essa sequência mora. Duas coisas específicas deste capítulo entram já aqui. A primeira é o acesso: dois periféricos calibrosos em veias antecubitais, cateteres 14 a 18 gauge, e nunca acesso em veia infradiafragmática diante de trauma pélvico grave — o que se infunde por uma femoral pode extravasar pelo próprio sistema venoso lesado. A segunda é que o protocolo de choque do SAMU 192 já inclui, dentro da avaliação primária, o controle de sangramento por imobilização de pelve. A cinta não é passo do exame secundário.

    Prescrição
    • Oxigênio sob máscara não reinalante, 10 a 15 litros por minuto, se saturação abaixo de 94% (protocolo AT4 do SAMU 192, 2016)
    • Dois acessos venosos periféricos em veias antecubitais, cateteres 14 a 18 gauge; na impossibilidade de acesso periférico, infusão intraóssea em úmero proximal como ponte (diretriz capixaba, item 13.3.7)
    • Manta térmica, remoção de roupas molhadas e ambiente aquecido desde o primeiro minuto (protocolo AT4 do SAMU 192, 2016)
  2. Minuto 2 — dez segundos de exposição que decidem duas condutas

    Com o doente já exposto, olhe deliberadamente três regiões que o exame de rotina pula: períneo, genitália externa e região glútea. Você está procurando quatro coisas — ferimento aberto que comunique com o foco fraturário, sangue no meato uretral, hematoma perineal ou escrotal e sangramento vaginal. Some o toque retal, que a diretriz capixaba manda realizar em todo politraumatizado com trauma maior, procurando sangue, próstata deslocada e tônus. Esses dez segundos separam três doenças: fratura fechada, fratura exposta e fratura com lesão de uretra.

    Prescrição
    • Suspender a sondagem vesical até que os sinais de lesão uretral estejam afastados; havendo suspeita, evitar a sonda de demora e solicitar avaliação do urologista (diretriz capixaba, Quadro 12)
    • Registrar no prontuário, com a hora, o achado do períneo e do toque retal — é o registro que impede a repetição do exame
  3. Minuto 3 — a cinta pélvica, e o único detalhe que faz ela funcionar

    Este é o marco do capítulo. A compressão externa vai sobre os trocânteres maiores, e não sobre as cristas ilíacas: a diretriz capixaba escreve isso como condição da aplicação correta — pontos de compressão sobre os trocânteres maiores. A razão é geométrica. O que você quer é rodar as hemipelves para dentro em torno de um eixo posterior, fechando a sínfise e reduzindo o volume do recipiente. Aplicada sobre os trocânteres, na altura da raiz das coxas, a faixa gera exatamente esse movimento. Aplicada acima, sobre as cristas, ela comprime a parte mais larga e mais rígida da asa ilíaca, onde a compressão não fecha a sínfise, pode até abrir mais o anel por efeito de alavanca, e no caminho comprime abdome e vasos ilíacos. Errar a altura é o erro mais comum e o mais fácil de corrigir: os trocânteres são palpáveis nas laterais, na altura da prega glútea, um palmo abaixo das cristas. Sem cinta comercial, o lençol funciona e é o que a diretriz nomeia — torniquete pélvico, usualmente lençóis. A técnica: dobre um lençol até formar uma faixa de vinte a trinta centímetros de largura, passe-a por baixo do doente aproveitando a elevação à cavaleiro ou o próprio movimento de colocação na prancha, centre-a nos trocânteres, cruze as pontas à frente e trave com pinças de campo ou com um nó firme, mantendo a tensão. Some a rotação interna dos membros: joelhos e tornozelos aproximados e amarrados juntos com atadura, o que fecha o anel um pouco mais e imobiliza. Não improvise um segundo dispositivo por cima do primeiro, e não retire a cinta para radiografar — ela é radiotransparente o bastante para o que a radiografia precisa responder.

    Dois desenhos anteriores da pelve comparando faixa alta sobre as cristas ilíacas e faixa centrada nos trocânteres maiores, identificados por pontos verdes.
    A cinta deve ser centrada nos trocânteres maiores, conforme o dispositivo e o protocolo, em vez de ficar na cintura. O posicionamento dos membros considera fraturas associadas, sem forçar adução ou rotação. Reavaliar localização, pele, perfusão e resposta hemodinâmica faz parte do uso desse recurso temporário.
    Prescrição
    • Cinta pélvica comercial ou lençol dobrado em faixa de 20 a 30 centímetros, centrado sobre os trocânteres maiores, com tensão firme e simétrica (diretriz capixaba, item 13.3.7; recomendação 3b do grupo TBE-CiTE, 2012)
    • Rotação interna dos membros inferiores com joelhos e tornozelos aproximados e atados
    • Anotar no prontuário a hora da aplicação e o ponto anatômico usado
    • Inspecionar a pele sob a faixa em busca de pontos assimétricos de pressão e de úlcera sobre proeminências ósseas, conforme a própria diretriz exige monitorar
  4. Minuto 5 — as duas radiografias de sala

    Radiografia de tórax anteroposterior e radiografia de bacia anteroposterior, feitas com o doente na maca. São as duas que a diretriz capixaba recomenda no trauma contuso multissistêmico e as duas que o grupo TBE-CiTE lista, junto com a ultrassonografia rápida ou a lavagem peritoneal, como método de identificação rápida da origem do sangramento. A bacia responde se há fratura de anel e se ela deslocou; o tórax responde se há hemotórax competindo pelo mesmo volume perdido.

    Prescrição
    • Radiografia de tórax anteroposterior e radiografia de bacia anteroposterior na sala de choque, sem transportar o doente (diretriz capixaba, Quadro 12)
  5. Minuto 8 — volume, com alvo e com temperatura

    Reposição e controle do foco caminham juntos. No sangramento importante, priorizar sangue conforme protocolo e limitar cristaloide, usando aquecimento apropriado. PAS de 80–90 mmHg pode ser alvo temporário em trauma hemorrágico selecionado sem lesão cerebral ou medular. TCE requer metas próprias, como PAS ≥110 mmHg no percurso ACS 2024; lesão medular exige estratégia específica de perfusão. Não usar 90 mmHg como alvo universal para esses pacientes. A resposta e a necessidade de suporte ajudam a decidir urgência, sem transformar expansão em substituto de hemostasia.

    Prescrição
    • Acesso, coleta e reposição aquecida conforme protocolo; sangue precocemente quando indicado. Titular pela perfusão e pelo tipo de lesão, sem hipotensão permissiva em TCE ou lesão medular; reavaliar após cada intervenção.
    • Tipagem sanguínea e prova cruzada solicitadas no mesmo minuto do acesso, e comunicação ao banco de sangue de que se trata de fratura pélvica com instabilidade
  6. Minuto 10 — analgesia, que não atrapalha o exame

    Tratar dor facilita o exame, ventilação e cuidado. Escolha e titule analgesia pela intensidade e fisiologia, com supervisão e monitorização; opioides podem deprimir ventilação e reduzir pressão, e a administração rápida de alguns agentes aumenta efeitos adversos. Hipotensão pede doses individualizadas e reavaliação, não abandono da analgesia. Antiemético pode ser usado quando indicado no abdome agudo; a suspeita cirúrgica não é proibição genérica. Evite fármacos inadequados ao mecanismo, como procinéticos na obstrução mecânica, e siga investigando a causa dos sintomas.

    Prescrição
    • Dipirona sódica 1 grama por via intravenosa, em qualquer faixa de intensidade (protocolo AC37 do SAMU 192, revisão de março de 2015)
    • Dor moderada: tramadol 100 miligramas por via intravenosa ou intramuscular, lento (protocolo AC37)
    • Dor intensa: sulfato de morfina, 2 a 10 miligramas por via intravenosa para 70 quilos de peso, em infusão lenta, ou fentanil 2 a 4 mililitros da apresentação de 50 microgramas por mililitro (protocolo AC37)
    • Tratar náuseas e vômitos com antiemético apropriado quando indicado. Suspeita de abdome agudo não proíbe analgesia ou antiemético; evitar pró-cinéticos quando houver suspeita de obstrução e acompanhar o exame seriado.
  7. Minuto 15 — a bifurcação: onde está o sangue

    Ultrassom focado ajuda a procurar líquido livre enquanto ocorre ressuscitação. Resultado positivo em paciente instável pode direcionar controle abdominal urgente, junto com estabilização pélvica. Resultado negativo não exclui sangramento abdominal, retroperitoneal ou outros focos; apenas modifica probabilidades. Se a pelve é a fonte provável e a instabilidade persiste, organizar hemostasia pélvica imediatamente, reavaliando tórax, abdome e demais sítios. Lavagem peritoneal é recurso selecionado de equipe habilitada quando pertinente ao cenário; a fratura pélvica pode interferir na interpretação.

    Prescrição
    • Sonda gástrica para descompressão; via orogástrica se houver fratura de face ou suspeita de lesão de base de crânio (diretriz capixaba, Quadro 12)
    • Lavagem peritoneal apenas pela equipe de cirurgia, com descompressão gástrica e vesical prévias; aspiração de conteúdo gástrico, fibras vegetais ou bile, ou de 10 mililitros ou mais de sangue, indica laparotomia (diretriz capixaba, Quadro 12)
  8. Minuto 20 — a decisão de destino, que no Brasil é a decisão principal

    Se o doente estabilizou com cinta e volume, o hospital que tem tomógrafo, cirurgião e ortopedista pode conduzir. Se ele não estabilizou, e a origem é pélvica, a conduta indicada é angiografia com possível embolização — e é aqui que o algoritmo internacional encontra o país real. A revisão brasileira registra que poucos hospitais no mundo têm angioembolização disponível 24 horas por dia e que a angiografia exige transportar um doente instável para a radiologia. Se o seu serviço não tem hemodinâmica, a decisão não é qual exame pedir: é acionar a regulação com um pedido nomeado. O que se pede à regulação, dito com essas palavras: vaga em serviço com cirurgia de trauma, ortopedia e angiografia disponível, para doente com fratura de anel pélvico e instabilidade hemodinâmica, já com compressão pélvica externa aplicada às tantas horas, tendo recebido tanto de cristaloide e tantas unidades de hemácias, com ultrassonografia rápida negativa ou positiva. Peça também transporte com médico a bordo. E não faça tomografia que atrase a transferência — a mesma diretriz proíbe.

    Prescrição
    • Contato com a Regulação Médica para definição do encaminhamento, como passo formal do protocolo AT22 do SAMU 192, 2016
    • Não realizar tomografia quando ela atrasar a transferência para nível de atenção mais avançado (diretriz capixaba)
    • Manter a cinta aplicada durante todo o transporte
  9. Hora 1 — no hospital com recurso: o que a ortopedia faz

    Estabilizado o doente, a fixação externa deixa de ser lençol e passa a ser aparelho. A diretriz capixaba coloca, entre os tratamentos de urgência do ortopedista, a fixação externa imediata na fratura instável da pelve associada à instabilidade hemodinâmica; a instabilidade rotacional é tratada por fixador externo anterior, e a instabilidade vertical, ou a rotacional com rotura completa dos ligamentos posteriores, por clampe em C e cinta. Na casuística cirúrgica paulista, 20,9% dos doentes com fratura de pelve receberam fixação externa da bacia e 11,6% foram a arteriografia diagnóstica ou terapêutica. Se a instabilidade persiste apesar de volume e compressão, e há fratura desviada do anel, presuma sangramento arterial e vá à angiografia. Onde ela não existe e o doente não pode ser transferido a tempo, a alternativa descrita na literatura brasileira é o tamponamento pélvico pré-peritoneal associado à fixação externa: incisão mediana de 6 a 8 centímetros a partir da sínfise púbica, com compressas junto ao anel pélvico de cada lado da bexiga. O grupo TBE-CiTE recomenda que cirurgiões considerem aprender a técnica exatamente por ser simples e útil onde a angiografia não está disponível — e adverte, no mesmo texto, que ela ainda precisa de melhores estudos antes de ser recomendada como padrão.

    Prescrição
    • Acionamento do ortopedista para fixação externa quando houver fratura instável com instabilidade hemodinâmica (diretriz capixaba, tratamento de urgência)
    • Angiografia com possível embolização se volume e compressão não estabilizarem e houver fratura desviada do anel (diretriz capixaba, item 13.3.7)
  10. Hora 1 — a fratura exposta de pelve, que é outra doença

    Comunicação do foco fraturário com períneo, reto, vagina ou pele significa que o tanque tem furo: o tamponamento não acontece, e o hematoma retroperitoneal está em contato com flora fecal. Ela responde por 2% a 4% das fraturas de pelve e tem letalidade de 30% a 45%. A conduta soma quatro coisas ao caminho anterior: antibiótico precoce, profilaxia antitetânica pela situação vacinal, desbridamento cirúrgico com lavagem, e a discussão de derivação fecal com a equipe cirúrgica quando o ferimento comunica com o reto ou o períneo. A diretriz capixaba é explícita quanto à prioridade: a antibioticoprofilaxia precoce é o fator isoladamente mais importante na prevenção de infecção, idealmente iniciada antes de três horas e, se possível, na primeira hora.

    Prescrição
    • Cefalotina 2 gramas por via intravenosa em adultos na indução, com repique a cada 2 horas durante o procedimento e 1 grama a cada 6 horas no pós-operatório (protocolo PRT.CCIRAS.015 do HU-UFGD, versão 06, 2026; a escolha do agente por grau de exposição vem da diretriz capixaba, Quadro 37)
    • Acrescentar gentamicina nos tipos II e III, 240 miligramas por via intravenosa ou 3 a 5 miligramas por quilo (mesmo protocolo)
    • Na alergia relevante a betalactâmicos, escolher alternativa conforme tipo de ferida, contaminação e protocolo institucional. Quando clindamicina integra a profilaxia do adulto, a referência ASHP usa 900 mg IV e redose de 900 mg em seis horas, se indicada; não reduzir automaticamente para 600 mg. Lesão aberta com contaminação intestinal pode exigir cobertura adicional e tratamento, decididos pela equipe.
    • Contaminação fecal ou clostridial potencial: considerar o acréscimo de penicilina ao esquema de cefalotina com gentamicina (diretriz capixaba, Quadro 37)
    • Profilaxia antitetânica pela situação vacinal, tratando o caso como ferimento de alto risco: imunoglobulina humana antitetânica 250 unidades internacionais por via intramuscular, ou soro antitetânico 5.000 unidades internacionais, aplicados em grupo muscular diferente do da vacina (Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição, 2023, Quadros 2 e 4)
  11. Hora 2 — a suspeita de lesão de uretra resolvida

    Uretrografia retrógrada antes de qualquer sonda: sonda de Foley 14 French introduzida 1 a 2 centímetros na fossa navicular, balão insuflado com 1 a 2 mililitros, contraste iodado a 30% injetado em frações de 10 mililitros, com radiografia estática em decúbito lateral ou, melhor, sob fluoroscopia. Contraste que extravasa mas alcança a bexiga é lesão parcial; contraste que extravasa sem delinear uretra proximal e bexiga é lesão completa. Se o doente precisa de drenagem e o exame não é possível ali, a saída clássica e mais simples é a cistostomia suprapúbica, deixando a reconstrução para depois.

    Prescrição
    • Uretrografia retrógrada antes de qualquer tentativa de sondagem em doente com sinal de lesão uretral (capítulo de trauma geniturinário, Sociedade Brasileira de Urologia; Critérios de Adequação traduzidos pelo Colégio Brasileiro de Radiologia)
    • Cistostomia suprapúbica se houver necessidade de drenagem urinária sem via uretral segura
  12. Hora 6 a 24 — quando a cinta sai

    A diretriz capixaba não fixa um prazo em horas: ela amarra a retirada à hemodinâmica. Obtida a estabilização, procede-se à liberação parcimoniosa do garrote; se a instabilidade recorrer e outras causas forem excluídas, reaplica-se o torniquete, radiografa-se a pelve e encaminha-se ao centro cirúrgico para fixação externa por ortopedista. Some a isso a exigência, do mesmo texto, de monitorar constantemente o doente para evitar pontos assimétricos de pressão e úlceras sobre proeminências ósseas. A regra operacional que sai daí, e que resolve a ambiguidade do prazo: a cinta é ponte para fixação definitiva, não tratamento. Documente a hora da aplicação, inspecione a pele a cada troca de turno e a cada reavaliação, solte-a devagar e só depois de estável — e, se a pressão cair quando você soltar, a resposta não é discutir, é reaplicar e chamar o ortopedista.

    Prescrição
    • Liberação parcimoniosa da compressão somente após estabilização hemodinâmica, com reaplicação imediata e radiografia de pelve se a instabilidade recorrer (diretriz capixaba, item 13.3.7)
    • Inspeção programada da pele sob a faixa, com registro
  13. Dia 1 a dia 3 — o que continua depois que o sangramento parou

    Metade da história da fratura de pelve acontece depois que ela parou de sangrar. Na casuística paulista, 51,2% dos doentes com fratura de pelve precisaram de leito de terapia intensiva, e as complicações foram muito mais frequentes que nos demais traumatizados: choque persistente em 30,2%, coagulopatia em 23,3%, insuficiência renal aguda em 20,9%, sepse em 20,9%, síndrome da angústia respiratória aguda em 9,3% e falência de múltiplos órgãos em 16,3%. Na casuística ortopédica, as complicações imediatas registradas incluíram trombose venosa profunda, embolia pulmonar, síndrome compartimental de coxa que terminou em amputação e neuropraxia do nervo ciático. Duas consequências práticas para o interno de enfermaria. Primeira: a profilaxia de tromboembolismo venoso precisa ser decidida ativamente com a equipe cirúrgica e a ortopedia assim que a hemostasia estiver segura, e a decisão tem de aparecer escrita na prescrição — trombose e embolia estão entre as complicações imediatas descritas nessa população. Segunda: dor desproporcional em coxa ou região glútea, com dor à extensão passiva e edema tenso, é síndrome compartimental até prova em contrário, e a diretriz capixaba manda não adiar a fasciotomia quando a suspeita é razoável.

    Prescrição
    • Decisão explícita e registrada sobre profilaxia de tromboembolismo venoso em conjunto com cirurgia e ortopedia, assim que a hemostasia estiver assegurada
    • Avaliação diária de dor desproporcional, dor à extensão passiva, edema hipertensivo e parestesias distais nos compartimentos de coxa e região glútea (diretriz capixaba, Quadros 38 e 39)
  14. Alta — o que o doente leva

    Do lado ortopédico, o plano de carga e o retorno com o cirurgião de quadril e pelve, definidos por quem fixou. Do lado urológico, quando houve lesão de uretra, a conversa mais difícil: estenose de uretra, disfunção erétil e incontinência urinária são as complicações mais comuns, e o próprio capítulo brasileiro orienta que o doente seja avisado da alta probabilidade de múltiplas cirurgias. Do lado clínico, a orientação sobre o que traz o doente de volta ao pronto-socorro — febre, dor que muda de padrão, incapacidade de urinar, edema ou dor em panturrilha, e falta de ar.

    Prescrição
    • Retorno programado com ortopedia, com plano de carga escrito
    • Retorno com urologia quando houve lesão uretral, com a orientação explícita sobre a possibilidade de novas cirurgias (capítulo de trauma geniturinário, Sociedade Brasileira de Urologia)
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Como saber se está funcionando

Na fratura de pelve, a reavaliação tem uma particularidade: você aplicou um tratamento — a compressão externa — cujo efeito não se vê em nenhum exame. Não há sinal local de melhora, não há área que desinche, não há ausculta que mude. O único sensor do efeito da cinta é a hemodinâmica do doente ao longo do tempo.

Por isso a pergunta que organiza este bloco é sempre a mesma, feita em intervalos curtos: o doente está respondendo ao volume, e a resposta se mantém? Um doente que sobe a pressão e fica lá parou de sangrar. Um que sobe e cai de novo continua sangrando e vai precisar de outra coisa. Um que não sobe está perdendo mais rápido do que você repõe.

Uma trava de leitura antes da tabela: nenhuma dessas medidas serve para decidir se a fratura é grave. Elas servem para decidir o próximo passo do doente. Fratura grave com doente que responde vai para a tomografia e para a ortopedia; fratura leve com doente que não responde significa que você está olhando para o compartimento errado.

Pressão arterial sistólica e frequência cardíacaA cada 5 minutos na primeira hora depois da aplicação da cinta; a cada 15 minutos enquanto durar o transporte ou a espera de vaga; a cada hora depois de duas horas estável

Esperado: Perfusão sustentada com suporte ajustado e controle do sangramento; no TCE, meta individualizada de proteção cerebral, em geral PAS ≥110 mmHg, sem hipotensão permissiva.

Se não melhora: Resposta transitória ou ausente com fratura pélvica e sem sangue no peritônio significa hemorragia pélvica não controlada. Confira a posição da cinta antes de qualquer outra coisa, some sangue, e acione angiografia ou transferência. Não repita o exame da pelve nem peça tomografia.

Posição e tensão da cinta pélvicaA cada reavaliação de sinais vitais na primeira hora, a cada mobilização do doente, antes e depois de cada transporte, e em toda passagem de plantão

Esperado: Faixa centrada sobre os trocânteres maiores, simétrica, com tensão firme, sem dobra e sem ter migrado para cima

Se não melhora: Cinta que subiu para as cristas ilíacas deixou de tratar. Reposicione sobre os trocânteres antes de escalonar qualquer conduta — é a intervenção mais barata e mais frequentemente esquecida da lista, e uma queda de pressão inexplicada pede essa verificação antes de qualquer exame.

Perfusão periférica: enchimento capilar, temperatura e cor da peleJunto com cada aferição de sinais vitais

Esperado: Enchimento capilar abaixo de 2 segundos, extremidades aquecendo, pele recuperando cor

Se não melhora: Extremidades que continuam frias com pressão normalizada indicam vasoconstrição mantida, ou seja, o doente ainda está compensando. Não interprete pressão recuperada como sangramento controlado enquanto a perfusão não acompanhar.

Consumo transfusional acumuladoContado e anotado a cada unidade, e revisto formalmente a cada 2 horas nas primeiras 12

Esperado: Consumo que desacelera depois da compressão. Na revisão brasileira, a série de doentes submetidos a tamponamento pré-peritoneal com fixação externa consumiu em média 10 unidades antes do procedimento e 4 nas 24 horas seguintes, e foi essa queda que sustentou a conclusão de que o sangramento havia sido controlado

Se não melhora: Consumo que não desacelera é o sinal mais objetivo de hemorragia não controlada. Na casuística ortopédica brasileira, os dois doentes que precisaram de mais de dez unidades nas primeiras horas eram os dois com lesão de artéria ilíaca. Consumo alto e crescente aponta para origem arterial e para angiografia.

Exame abdominal seriado e ultrassonografia rápida repetidaA cada 30 minutos nas primeiras 2 horas no doente que permanece instável, e sempre que houver deterioração

Esperado: Abdome que permanece flácido e ultrassonografia que permanece negativa, mantendo a pelve como fonte única

Se não melhora: Ultrassonografia que vira positiva muda o destino do doente: ele passa a ter indicação de laparotomia, e a fixação externa se soma a ela. Um exame negativo na admissão não é um resultado permanente.

Diurese e aspecto da urinaHorária, assim que a via urinária estiver definida — sonda vesical se a uretra foi afastada, cistostomia se não

Esperado: Fluxo mantido e urina clara

Se não melhora: Oligúria aponta hipoperfusão antes de a pressão cair. Hematúria macroscópica nova redireciona a investigação para bexiga e trato urinário, e ausência de diurese com globo vesical em doente sem sonda é sinal de lesão uretral que ainda não foi reconhecida.

Temperatura centralNa admissão e a cada hora enquanto houver reposição em curso

Esperado: Temperatura mantida acima de 35 graus, com cristaloide aquecido a 39 graus e manta térmica

Se não melhora: Hipotermia fecha, com acidose e coagulopatia, o círculo que impede o próprio coágulo que a cinta está tentando preservar. Aquecer não é conforto: é parte do controle da hemorragia.

Pulsos distais e exame neurológico dos membros inferioresNa admissão, depois de aplicada a cinta, depois de cada mobilização e a cada 4 horas nas primeiras 24

Esperado: Pulsos simétricos e presentes, sensibilidade e motricidade preservadas e simétricas

Se não melhora: Perda de pulso depois da cinta obriga a checar tensão e posição da faixa antes de pensar em lesão vascular. Déficit motor ou sensitivo novo em território sacral sugere lesão do plexo, e precisa ser documentado antes de qualquer sedação, porque depois não haverá mais exame.

Pele sob a faixa e sobre proeminências ósseasA cada 4 horas e em toda passagem de plantão, enquanto a compressão estiver aplicada

Esperado: Pele íntegra, sem palidez fixa nem marca profunda, sem ponto assimétrico de pressão

Se não melhora: A própria diretriz capixaba exige monitorar constantemente para evitar pontos assimétricos de pressão e úlceras sobre proeminências ósseas. Encontrada lesão, a resposta não é retirar a cinta de um doente instável: é redistribuir a pressão, corrigir a simetria e antecipar a conversa sobre fixação definitiva.

Dor em coxa e região glútea, e tensão dos compartimentosA cada avaliação nas primeiras 48 horas, e sempre que a analgesia parecer insuficiente

Esperado: Dor proporcional à lesão e que responde à analgesia prescrita

Se não melhora: Dor desproporcional ao trauma ou à palpação, dor à extensão passiva, edema hipertensivo e parestesias distais definem a suspeita de síndrome compartimental — e a diretriz capixaba manda não adiar a fasciotomia diante de suspeita razoável. Região glútea e coxa estão entre os locais mais comuns, e a casuística ortopédica brasileira registra um caso que terminou em amputação.

Hemoglobina e hematócritoNa admissão, com 6 e com 12 horas, e a qualquer deterioração clínica

Esperado: Série que se estabiliza, descontada a diluição do volume infundido

Se não melhora: Queda persistente confirma o que a clínica já disse e nunca deve chegar antes dela. Hemoglobina normal na primeira hora não exclui hemorragia — ela ainda não teve tempo de cair; e queda logo após dois litros de cristaloide pode ser só diluição.

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Onde o erro machuca

Aplicar a cinta sobre as cristas ilíacas em vez dos trocânteres maiores

O dano: A compressão na altura das cristas atua sobre a parte mais larga e rígida da asa ilíaca, onde não fecha a sínfise nem reduz o volume do recipiente; em pelve rodada externamente pode agravar a abertura por efeito de alavanca, e ainda comprime abdome e trajeto dos vasos ilíacos. O doente fica com um dispositivo aplicado, o registro de que foi tratado, e nenhum tratamento.

Como pegar a tempo: Palpe os trocânteres nas laterais, na altura da prega glútea, um palmo abaixo das cristas, e centre a faixa neles — é a condição que a diretriz capixaba escreve como aplicação correta. Confira a posição em toda passagem de plantão e depois de cada mobilização, porque a faixa migra para cima com o movimento.

Repetir a manobra do anel para conferir o que outro examinador já achou

O dano: Cada compressão desloca fragmentos que já pararam de se mover e desfaz coágulo formado sobre superfície esponjosa. Em doente frio, diluído e acidótico, esse coágulo não se refaz na mesma velocidade — a manobra transforma sangramento contido em hemorragia, e é a única iatrogenia deste capítulo que o próprio médico produz com as mãos.

Como pegar a tempo: Uma pessoa examina, uma vez, e escreve o resultado no prontuário com a hora. Quem quiser o dado lê o registro ou vai junto. E se o doente já está instável com suspeita estabelecida, a manobra não acrescenta informação que mude conduta: não se faz.

Testar a estabilidade do anel em doente com deformidade visível da pelve

O dano: O diagnóstico já está feito pela inspeção, e o exame só pode piorar o que já se sabe. É a situação em que o risco é máximo e o ganho de informação é zero.

Como pegar a tempo: O protocolo AT22 do SAMU 192 proíbe expressamente: diante de deformidade visível, não realizar o exame da estabilidade do anel nem qualquer outra manipulação desnecessária — apenas imobilizar. Trate deformidade visível como resultado positivo já obtido.

Passar sonda vesical antes de olhar o meato uretral e o períneo

O dano: A sondagem às cegas pode transformar uma lesão parcial de uretra em completa, trocando um cateterismo cuidadoso de sete a catorze dias por cistostomia, reconstrução tardia e risco de estenose. É dano permanente causado por um procedimento de rotina feito na ordem errada.

Como pegar a tempo: Exponha e olhe antes de qualquer bandeja: meato, escroto ou vulva, períneo, mais toque retal. Havendo sinal, a sequência é uretrografia retrógrada e avaliação urológica; o documento traduzido pelo Colégio Brasileiro de Radiologia classifica a tentativa de passar o cateter como teste diagnóstico como procedimento condenável.

Concluir que não há fratura de pelve porque o exame físico da pelve foi normal

O dano: Cerca de três em cada quatro doentes com fratura de pelve visível na radiografia de admissão tinham exame físico normal no maior levantamento brasileiro do tema. Um exame negativo usado como exclusão adia a cinta em quem mais precisa dela — inclusive o compensado, que ainda tem pressão de 9.

Como pegar a tempo: Trate o exame como teste de alta especificidade e baixa sensibilidade: positivo decide, negativo não exclui. Em doente com mecanismo compatível, radiografia de bacia; e, se ele estiver instável, cinta antes da radiografia.

Levar o instável ao tomógrafo, ou pedir tomografia antes de transferir

O dano: O corredor até o tomógrafo é onde a monitorização fica pior, a equipe fica menor e o tempo passa. A diretriz capixaba proíbe realizar tomografia quando isso atrasa a transferência para nível de atenção mais avançado, e o motivo é este.

Como pegar a tempo: Tomografia é exame de doente estabilizado com a cinta e com tempo hábil. Se o destino já está definido pela instabilidade, o exame não muda conduta e custa minutos de sangramento ativo.

Rolar o doente em bloco para o exame do dorso, num anel instável

O dano: O rolamento lateral movimenta as hemipelves uma em relação à outra exatamente como a manobra do anel, e pelo mesmo mecanismo desfaz coágulo. O ganho — inspecionar o dorso — pode ser obtido de outro jeito.

Como pegar a tempo: Use a técnica de elevação à cavaleiro, que o protocolo AT22 do SAMU 192 indica de preferência para colocar o doente na prancha longa: a equipe eleva na vertical e alguém posiciona a prancha por baixo, sem rotação do tronco.

Puncionar veia femoral ou qualquer acesso infradiafragmático no trauma pélvico grave

O dano: O volume infundido abaixo do diafragma pode extravasar pelo próprio sistema venoso lesado, e você repõe para dentro do hematoma que está tentando conter. Além disso, a punção acrescenta um procedimento na região de interesse cirúrgico.

Como pegar a tempo: A diretriz capixaba escreve a regra: não buscar acesso em veia infradiafragmática diante de trauma pélvico grave. Dois periféricos antecubitais 14 a 18 gauge, e infusão intraóssea no úmero proximal como ponte se não houver periférico.

Encher de volume até a pressão normalizar

O dano: Elevar a pressão contra foco de sangramento não controlado desloca coágulo; o cristaloide em excesso dilui fator de coagulação e esfria o doente, fechando o círculo que impede a hemostasia que a cinta está promovendo.

Como pegar a tempo: Titular reposição com controle hemorrágico e resposta. PAS de 80–90 mmHg é estratégia temporária selecionada sem lesão cerebral ou medular; no TCE, evitar hipotensão permissiva e usar meta própria, em geral PAS ≥110 mmHg, individualizada.

Esperar pela angiografia que o seu hospital não tem

O dano: A indicação de angioembolização é correta e o serviço não a executa: o resultado é um doente instável esperando por um recurso ausente, enquanto a única conduta que ainda podia mudar o desfecho — transferir com a hemorragia contida — não é acionada.

Como pegar a tempo: Saiba de antemão qual serviço da sua região tem hemodinâmica. Assim que a instabilidade persistir com ultrassonografia negativa, acione a regulação com o pedido nomeado e transfira com a cinta aplicada, o doente aquecido e médico a bordo.

Abrir o hematoma retroperitoneal pélvico durante uma laparotomia por trauma fechado

O dano: O hematoma contido é o que está fazendo o tamponamento. Aberto, o sangramento venoso e ósseo difuso volta a correr, e não há vaso para clampear: o cirurgião troca uma hemorragia contida por uma hemorragia sem alvo.

Como pegar a tempo: A laparotomia neste doente é indicada por sangue livre no peritônio, e não pela fratura. O controle pélvico é feito por fora — fixação externa — ou pelo tamponamento pré-peritoneal, que é uma operação diferente, sem abrir o peritônio.

Retirar a cinta para radiografar, para transportar ou porque o doente melhorou na primeira hora

O dano: A cinta é o que mantém o tamponamento. Retirada cedo, a pressão volta a cair em minutos, agora com o doente em movimento ou dentro de uma ambulância.

Como pegar a tempo: A diretriz capixaba amarra a retirada à estabilização e manda liberar de forma parcimoniosa, reaplicando o torniquete e radiografando a pelve se a instabilidade recorrer. Documente a hora da aplicação, mantenha a cinta no transporte e trate-a como ponte para a fixação definitiva.

Atribuir a hipotensão ao traumatismo cranioencefálico associado

O dano: Trauma de crânio isolado não causa hipotensão no adulto, e essa atribuição desvia o raciocínio para uma fonte que não sangra em volume enquanto a pelve continua sangrando. Na série paulista, lesões cranianas e raquimedulares foram significativamente mais frequentes nos doentes com fratura de pelve — elas coexistem em vez de substituir.

Como pegar a tempo: Em doente hipotenso com trauma craniano, procure a fonte de sangramento nos cinco compartimentos antes de aceitar qualquer explicação neurológica, e lembre que o doente com Glasgow baixo é justamente aquele em que o exame da pelve não vale nada.

Tratar a fratura exposta de pelve como uma fratura fechada com um corte por perto

O dano: Sem antibiótico precoce, sem profilaxia antitetânica e sem desbridamento, o hematoma retroperitoneal fica em contato com flora fecal — e a infecção retroperitoneal é justamente a causa comum de óbito tardio nesse grupo, cuja letalidade chega a 30% a 45%.

Como pegar a tempo: Ferimento perineal, glúteo, vaginal ou retal em doente com fratura de anel é fratura exposta até prova em contrário. Antibiótico na primeira hora, profilaxia antitetânica pela situação vacinal tratando o caso como ferimento de alto risco, desbridamento cirúrgico e discussão de derivação fecal com a equipe.

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O que dizer ao paciente e à família

Este é um dos poucos quadros de trauma em que o doente costuma estar acordado, lúcido e conversando enquanto sangra — e em que a família chega antes de o desfecho estar definido. Isso muda a conversa: você vai precisar dizer coisas graves para alguém que parece bem, sem assustar a ponto de perder a colaboração e sem tranquilizar a ponto de mentir.

As falas abaixo são para dizer com essas palavras, adaptando o nome e o tratamento. O que não fazer aparece junto de cada uma.

O doente pergunta por que está sendo amarrado com um lençol

Seu Aparecido, o osso da bacia do senhor quebrou, e osso da bacia quebrado sangra por dentro, num lugar onde a gente não consegue chegar com a mão. Esse lençol apertado aqui, na altura do quadril, aproxima os ossos e ajuda o sangramento a parar sozinho. Vai incomodar e vai ficar apertado, e é para ficar assim mesmo. Se ficar muito ruim, o senhor me chama que eu venho ver — mas eu não vou tirar, porque é ele que está segurando o sangramento.

Não diga: Não diga que é “só para imobilizar” nem que é “provisório até o exame”. O doente que entende o lençol como conforto pede para tirar, e a equipe do turno seguinte, que também entendeu assim, tira.

O doente pergunta se vai ficar paralítico porque não consegue levantar as pernas

Nesse momento eu não sei, e vou explicar por quê. Não conseguir levantar a perna pode ser porque o osso quebrado dói demais quando o senhor tenta — e isso melhora quando a fratura for tratada — ou porque algum nervo foi machucado. São coisas diferentes e a gente só distingue com o senhor mais estável e com exame de imagem. Eu vou testar a força e a sensibilidade agora e de novo daqui a pouco, e anotar, para a gente saber se mudou.

Não diga: Não garanta que “é só a dor”. E não deixe de examinar antes de sedar ou intubar: depois disso não haverá mais exame neurológico, e a informação some para sempre.

Você precisa não passar a sonda vesical e a família não entende

A gente normalmente passa uma sondinha na bexiga para medir a urina. No caso dele, tem sinal de que o canal da urina pode ter sido machucado pela fratura. Se a gente passar a sonda por cima de um canal machucado, pode piorar de vez o que ainda está parcial. Então a gente vai fazer um exame de contraste do canal primeiro, ou colocar a sonda direto na bexiga por fora, por baixo do umbigo, que é seguro. Não é descuido: é exatamente o contrário.

Não diga: Não improvise “vou tentar devagar e, se não passar, eu paro”. Essa foi a prática antiga, e é justamente ela que converte lesão parcial em completa.

A família pergunta se ele vai morrer

Eu não sei, e não vou prometer nada que não dependa de mim. O que eu sei dizer é o seguinte: ele quebrou o osso da bacia e está perdendo sangue por dentro. Isso é grave e pode matar. A gente já fez a coisa que mais ajuda, que é apertar o quadril, está repondo sangue e está organizando a transferência para um hospital que tem o recurso que aqui não tem. As próximas duas horas dizem muito. Eu volto aqui a cada vez que houver notícia, mesmo que a notícia seja que nada mudou.

Não diga: Não use “está estável” como se fosse boa notícia definitiva, e não use “vamos fazer o possível” como frase de encerramento. Prometa a periodicidade da informação, que é uma promessa que você pode cumprir.

Você precisa explicar a transferência para outra cidade

Ele precisa de um exame que fecha o vaso que está sangrando por dentro, feito por cateter, e esse recurso não existe aqui nem nas cidades vizinhas. Não é falta de vontade da equipe daqui: é equipamento que este hospital não tem. Enquanto a vaga é liberada, ele continua sendo tratado aqui, com o quadril apertado e com sangue. A ambulância vai com médico. Vocês não podem ir junto na ambulância, e eu vou anotar aqui o nome e o telefone do hospital de destino para vocês irem por conta.

Não diga: Não diga “vamos mandar para um lugar melhor”, que soa como abandono, nem esconda que a família não pode acompanhar — descobrir isso na porta da ambulância é o que produz o conflito.

A família pergunta por que ele não vai direto para a cirurgia

Porque, na maior parte das vezes, esse sangramento não vem de um vaso grande que dá para costurar: vem de veias finas e da própria superfície do osso quebrado, espalhado por uma área grande. Se a gente abrir agora, solta a pressão que está segurando o sangue e piora. Operar entra em cena se houver sangramento dentro da barriga, que é outra coisa, ou depois, para fixar o osso.

Não diga: Não deixe a impressão de que “não operar” é esperar. Diga o que está sendo feito enquanto isso, item por item.

O doente pergunta quanto sangue perdeu

Não dá para medir, e é isso que torna essa fratura perigosa: o sangue fica dentro do quadril, num espaço que não incha por fora. A gente mede pelo efeito — pressão, batimentos, a cor da sua pele, quanta urina o senhor faz. É por isso que a gente vem aqui de cinco em cinco minutos.

Não diga: Não invente número de litros, e não use o exame de sangue da chegada como prova de que perdeu pouco: no começo ele ainda não caiu.

Passagem de plantão ou entrega ao serviço de destino

Homem, 46 anos, atropelamento, chegou às 19h56 com pressão 96 por 62 e frequência 122, Glasgow 15. Fratura de anel pélvico na radiografia, com abertura de sínfise. Compressão pélvica externa aplicada às 20h04, sobre os trocânteres, e não foi retirada. Ultrassonografia rápida negativa às 20h12. Recebeu 1.500 mililitros de Ringer aquecido e duas unidades de hemácias. Sangue no meato: sonda vesical não passada. Manobra do anel feita uma vez, às 20h01, por mim, com dor e instabilidade. Respondeu ao volume e caiu de novo às 20h40. Regulação acionada às 20h20 pedindo serviço com angiografia.

Não diga: Não passe o caso sem a hora e o ponto de aplicação da cinta, e sem dizer que a manobra já foi feita. A informação que falta nessa frase é a que faz a equipe seguinte repetir o exame.

A conversa sobre sequelas urinárias e sexuais, depois da fase aguda

A fratura machucou o canal da urina. Isso costuma exigir mais de uma cirurgia ao longo do tempo, e pode deixar sequelas: estreitamento do canal, dificuldade de segurar a urina e dificuldade de ereção. Não dá para dizer hoje qual vai ser o seu caso. O que dá para dizer é que existe tratamento para cada uma dessas coisas, e que o senhor vai ser acompanhado pela urologia desde já.

Não diga: Não deixe essa conversa para o dia da alta, e não a faça no corredor. O capítulo brasileiro de trauma geniturinário orienta explicitamente que o doente seja avisado da alta probabilidade de múltiplas cirurgias — avisar cedo é parte do tratamento.

O doente estável, com fratura tipo A, quer ir embora

O senhor teve uma fratura no osso da bacia que não desalinhou, e essa em geral trata com repouso e remédio para dor. Mas a mesma pancada que quebra esse osso costuma machucar outras coisas, e algumas delas aparecem só depois de algumas horas. Por isso eu quero o senhor aqui mais um tempo, reavaliado, e com os exames que já pedi. Se estiver tudo certo, a gente combina a alta com o plano de andar e a data do retorno.

Não diga: Não trate a fratura estável como consulta de ambulatório. Ela documenta energia, e energia significa lesão associada até prova em contrário.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Angioembolização primeiro ou tamponamento pélvico pré-peritoneal primeiro, no doente instável

Angioembolização como primeira linha quando há suspeita de sangramento arterial

A revisão sistemática da Eastern Association for the Surgery of Trauma, discutida pelo grupo brasileiro, indica angioembolização com recomendação de nível I para o doente com fratura pélvica que permanece instável depois de excluídas causas extrapélvicas de sangramento, e também de nível I quando há evidência de sangramento arterial em imagem; e com nível II para maiores de 60 anos com fratura pélvica grave, mesmo sem prova de sangramento arterial. O grupo brasileiro conclui que existe evidência sólida de que a angioembolização é eficaz no controle do sangramento arterial no trauma pélvico.

Diretrizes da Eastern Association for the Surgery of Trauma, analisadas na reunião de revista TBE-CiTE, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012

Tamponamento pré-peritoneal com fixação externa como primeiro passo

O mesmo grupo registra que poucos hospitais no mundo têm angioembolização 24 horas por dia, que a angiografia exige transportar um doente instável para a radiologia e que em 85% dos casos o sangramento não é arterial. Na série discutida, o tamponamento com fixação externa reduziu o consumo transfusional de dez para quatro unidades e nenhum doente morreu por sangramento pélvico. A recomendação final do grupo é que cirurgiões considerem aprender a técnica, por ser simples e útil onde a angiografia não está disponível — com a ressalva expressa de que ela ainda precisa de melhores estudos antes de ser recomendada como padrão de cuidado.

Conclusões e recomendações da reunião de revista TBE-CiTE, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012, sobre a série de 75 doentes de centro americano

Como decidir

Defina a sequência de controle hemorrágico pela fisiologia e pelos recursos imediatamente disponíveis. Angioembolização, fixação e tamponamento integram estratégias cuja ordem depende da equipe, do tempo de acesso e do protocolo institucional. Confirme o que pode ser realizado agora e organize transferência quando necessária. A discussão sobre a técnica não deve atrasar contenção e ressuscitação.

Fazer ou não fazer a manobra de estabilidade do anel pélvico

O exame faz parte da avaliação secundária padronizada

Os dois documentos brasileiros de maior alcance prescrevem o exame com a mesma redação: observar a região à procura de sangramentos, contusões e lesões abertas e palpar as cristas ilíacas em busca de dor e de instabilidade, realizando os dois testes de pressão, látero-medial e ântero-posterior. A suspeita clínica de instabilidade da pelve figura, além disso, entre os critérios anatômicos que definem trauma maior na classificação pré-hospitalar — ou seja, o achado tem consequência formal no encaminhamento.

Protocolo AT2 do SAMU 192, 2016, e avaliação secundária e Quadro 05 das Diretrizes Clínicas de Trauma da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, versão 2018

O exame tem sensibilidade baixa e risco próprio, e a imagem decide

No maior levantamento brasileiro sobre o tema, cerca de três em cada quatro doentes com fratura de pelve visível na radiografia de admissão tinham exame físico da pelve normal; e o próprio protocolo pré-hospitalar que prescreve o exame o proíbe diante de deformidade visível da pelve, junto com qualquer outra manipulação desnecessária, restando apenas imobilizar. O risco reconhecido é o de mobilizar fragmentos e desfazer o coágulo que estava contendo a hemorragia.

Levantamento de 3.055 vítimas de trauma fechado, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020, e protocolo AT22 do SAMU 192, 2016

Como decidir

Antes de manipular a pelve, pergunte se o resultado mudará a conduta. Deformidade evidente ou instabilidade hemodinâmica com mecanismo compatível já orientam contenção, sem necessidade de provocar mobilidade. No paciente estável e avaliável, eventual exame deve ser cuidadoso, realizado por uma pessoa e registrado. Evite repetição de manobras por diferentes examinadores.

Radiografia de bacia em todo trauma fechado grave, ou por critério clínico

Radiografia sistemática na admissão

A conduta clássica, que os guias de atendimento inicial preconizam e que a diretriz capixaba reproduz, é a radiografia simples de bacia na sala de choque para o doente de trauma contuso multissistêmico, junto com a de tórax. A vantagem é identificar precocemente quem precisa de alguma forma de hemostasia — fixação externa, tamponamento ou embolização — e o argumento é que o diagnóstico precoce reduz o tempo e a perda sanguínea até o tratamento.

Diretrizes Clínicas de Trauma da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, versão 2018, Quadro 12, e a discussão dos guias reproduzida na Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020

Indicação seletiva por critérios clínicos

O levantamento brasileiro de 3.055 doentes mostrou que, sobrepondo cinco critérios — exame neurológico normal, estabilidade hemodinâmica, exame pélvico normal, idade abaixo de 60 anos e ausência de lesões distrativas —, a frequência de radiografia alterada cai a 0,4%, dois casos em 502 doentes, e que dispensar o exame nesse grupo reduziria o número de radiografias em 16,4%. Os autores concluem que a necessidade da radiografia nesse grupo deve ser revista.

Estudo retrospectivo do registro de trauma da Santa Casa de São Paulo, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2020

Como decidir

Avalie confiabilidade do exame e investigação já planejada. Alteração de consciência ou lesão distratora limita a seleção clínica. Se houver indicação de tomografia de abdome e pelve, considere o que a radiografia acrescentará e se afetará o tempo até o tratamento. Os critérios da série retrospectiva citada precisam ser interpretados com suas limitações e com os recursos do serviço.

Começar o algoritmo pela ultrassonografia rápida ou pela apresentação hemodinâmica

A imagem organiza a decisão

O protocolo do centro de trauma discutido pelo grupo brasileiro inicia o manejo do doente com fratura de bacia pela ultrassonografia rápida: quem tem exame negativo recebe duas unidades de concentrado de hemácias e só então a apresentação hemodinâmica define a conduta, enquanto quem tem exame positivo segue para laparotomia exploradora além do tamponamento e da fixação externa. O Fluxo 9 da diretriz capixaba tem estrutura semelhante, colocando a pergunta sobre ultrassonografia ou lavado logo depois da fixação externa não invasiva.

Protocolo da série de 75 doentes descrito na reunião de revista TBE-CiTE, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012, e Fluxo 9 das Diretrizes Clínicas de Trauma da Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo, versão 2018

A hemodinâmica organiza a decisão

Ao discutir esse mesmo protocolo, o grupo brasileiro registrou que ele inicia o manejo pela ultrassonografia rápida e não pela apresentação hemodinâmica, e que, durante as discussões, ficou claro que a maioria dos presentes não adotaria esse protocolo nos seus hospitais. A objeção é de sequência: a contenção pélvica e a decisão sobre transfusão não deveriam esperar um exame de imagem.

Registro das limitações discutidas na reunião de revista TBE-CiTE, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2012

Como decidir

Faça contenção pélvica e ressuscitação pela suspeita clínica, sem aguardar ultrassom. Use a imagem e a resposta ao tratamento para ajudar a localizar a hemorragia e organizar o destino. Sangramento abdominal e pélvico podem coexistir; FAST negativo não exclui hemorragia retroperitoneal. Se o examinador ainda não chegou, prossiga com a cinta, o pedido de sangue e o acionamento da equipe.

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O raciocínio, em voz alta

19h56 do mesmo domingo. Aparecido Bento, 46 anos, atropelado no acostamento. Chega em prancha longa, com colar, dois acessos antecubitais e 600 mililitros de cristaloide feitos na estrada. Pressão 96 por 62, frequência 122, respiração 24, saturação 95%, Glasgow 15. Pálido, frio nas mãos, sudorético. Refere dor na virilha e na região lombar baixa, não eleva nenhuma das pernas, e a direita está discretamente encurtada e rodada para fora. Tórax limpo. Abdome flácido, dor difusa leve, sem defesa. Nenhum ferimento aberto. No períneo, hematoma discreto na raiz do escroto e uma gota de sangue seco no meato uretral. O hospital tem tomógrafo, cirurgião, ortopedista de sobreaviso e banco de sangue; não tem sala de hemodinâmica, e o serviço com angiografia mais próximo fica a 190 quilômetros.

  1. O que penso ao entrar na sala

    Antes de qualquer coisa sobre a bacia, penso nas causas de morte em minutos e completo a avaliação primária. Feito isso, o que domina é uma conta simples: este homem está perdendo volume e a fonte não está aparecendo. Faço a lista dos cinco compartimentos enquanto examino — chão, tórax, peritônio, pelve com retroperitônio, ossos longos — e vou eliminando. O SAMU não descreve poça na cena; o tórax está limpo; o abdome está flácido; as coxas não estão tensas. Sobra a pelve, e ela é o único compartimento da lista que consegue esconder litros.

  2. O que faço com a informação do períneo

    A gota no meato e o hematoma escrotal mudam duas condutas de uma vez. Primeira: nenhuma sonda vesical, e aviso a enfermeira em voz alta para que a bandeja saia da sala — o risco é transformar uma lesão parcial de uretra em completa. Segunda: eles reforçam a hipótese de fratura de anel, porque lesão de uretra é quase sempre associada a fratura de bacia. Registro o achado no prontuário com a hora, e faço o toque retal procurando sangue e posição prostática.

  3. O que faço com as mãos que já estão na crista ilíaca

    Não há deformidade visível, então a manobra é permitida. Faço uma vez, sozinho, com pressão suave nos dois sentidos. Ele tem dor intensa à compressão látero-medial e sinto discreta mobilidade. Escrevo no prontuário: “20h01, manobra do anel realizada uma única vez por mim, dor intensa e instabilidade — não repetir”. Aviso o residente do lado, com essas palavras, para que ninguém refaça o exame.

  4. O que faço em seguida, e por quê antes do raio X

    Aplico compressão pélvica externa às 20h04. Não temos cinta comercial: dobro um lençol em faixa de vinte e cinco centímetros, passo-o aproveitando a transferência da prancha com elevação à cavaleiro, centro nos trocânteres — palpo os dois, na altura da prega glútea, um palmo abaixo das cristas — cruzo as pontas e travo com pinças de campo. Amarro joelhos e tornozelos juntos com atadura. Anoto a hora e o ponto de aplicação. Isso vem antes da radiografia porque não depende dela: o Fluxo 9 coloca a fixação externa não invasiva logo depois do ABCDE.

  5. Como a imagem muda o que penso

    Radiografia de tórax na maca: normal. Radiografia de bacia: fratura de ramos púbicos à direita com abertura da sínfise e alargamento do lado direito — padrão de compressão anteroposterior, aquele em que a pelve se alarga e o risco hemorrágico é alto. Isso confirma a hipótese e explica a hemodinâmica, mas não muda a próxima ação: a cinta já está aplicada. O que a imagem faz é me dar a frase para a regulação e o argumento para o ortopedista.

  6. A bifurcação

    Ultrassonografia rápida às 20h12, feita pelo cirurgião: negativa nas quatro janelas. Aqui eu não relaxo — eu concluo. Ultrassonografia negativa em doente instável com fratura de anel significa que o sangue está no retroperitônio, e não no peritônio. Ou seja: não há laparotomia a fazer, e a pelve é a fonte única. A conduta passa a ser inteiramente de controle pélvico.

  7. O que peço enquanto isso

    Ringer lactato aquecido a 39 graus, com alvo de sistólica acima de 80. Tipagem e prova cruzada já saíram junto com o primeiro acesso; peço duas unidades de hemácias e aviso o banco de sangue de que é fratura pélvica instável, para que eles não me tratem como pedido de rotina. Dipirona 1 grama intravenosa e morfina intravenosa lenta pela escala de dor, com o cuidado do protocolo por ele estar hipotenso. Manta térmica. Sonda gástrica. Nenhuma tomografia.

  8. A resposta ao volume, que é o exame que decide

    Às 20h25 ele está 108 por 70 com frequência 104: respondeu. Às 20h40 volta a 88 por 54 com frequência 128. Antes de escalonar qualquer coisa, faço a checagem mais barata da lista: a cinta subiu? Está sobre os trocânteres, simétrica e tensa. Está. Então a leitura é a que eu não queria: resposta transitória, com contenção correta, sem sangue no peritônio e com fratura desviada do anel. É o quadro em que a diretriz manda presumir origem arterial e indicar angiografia imediata.

  9. A decisão que o meu hospital realmente tem

    Não temos hemodinâmica. Portanto a indicação correta não é executável aqui, e insistir seria adiar. Aciono a regulação às 20h20 — antes da segunda queda, e é isso que ganha tempo — pedindo vaga em serviço com cirurgia de trauma, ortopedia e angiografia disponível, informando fratura de anel com instabilidade, cinta aplicada às 20h04 sobre os trocânteres, ultrassonografia negativa, volume e hemácias já administrados, e pedindo transporte com médico a bordo. Em paralelo, o ortopedista chega e discutimos fixação externa; e o cirurgião levanta, corretamente, a alternativa do tamponamento pré-peritoneal se a transferência não sair.

  10. O que eu não faço

    Não repito a manobra do anel para “ver se piorou”. Não tiro a cinta para radiografar de novo nem para o transporte. Não peço tomografia, porque ela atrasaria a transferência e não mudaria a conduta. Não passo sonda vesical. Não persigo pressão normal com cristaloide. E não deixo de conversar com a família antes de a ambulância sair, dizendo com todas as letras que é grave, o que já foi feito e para onde ele vai.

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Faça você

Vinte minutos depois de Aparecido sair, a mesma noite entrega o segundo caso. Rosimeire Tavares, 23 anos, ajudante de obra, queda de andaime de aproximadamente cinco metros, amparada em pé e depois sentada. Chega andando com apoio, o que faz a classificação de risco dar pulseira amarela. Pressão 118 por 76, frequência 96, respiração 18, saturação 98%, Glasgow 15. Queixa-se de dor lombar baixa e de dor ao mudar de posição. Tórax limpo, abdome flácido e indolor, períneo sem hematoma, meato limpo, toque retal sem sangue e com tônus preservado. Nenhuma deformidade visível na bacia. Membros com força e sensibilidade preservadas, pulsos presentes e simétricos. Como ela chegou estável e andando, ninguém aplicou compressão pélvica. A radiografia de bacia, feita às 21h10, mostra fratura do sacro à direita com ascensão da hemipelve direita de aproximadamente dois centímetros. Ultrassonografia rápida às 21h20: negativa. Ela recebe 1.500 mililitros de cristaloide por dor e por precaução. Às 21h50, a enfermeira te chama: Rosimeire está pálida, sonolenta, com pressão 84 por 50 e frequência 132.

  1. Primeiro passo — nomeie a doença antes de agir

    Ascensão da hemipelve com fratura do sacro é cisalhamento vertical, o padrão de maior instabilidade e de sangramento potencialmente fatal, típico de queda acima de quatro metros. Ela nunca foi uma paciente leve: foi uma paciente compensada por vinte e três anos de reserva fisiológica.

  2. Segundo passo — recomponha a lista dos cinco compartimentos

    Chão, tórax, peritônio, pelve com retroperitônio, ossos longos. Confira o que já está respondido e o que não está, e diga em voz alta qual é o compartimento que sobra.

  3. Terceiro passo — pergunte o que ainda não foi feito

    Releia a vinheta procurando a intervenção deste capítulo que não aparece em nenhum momento do atendimento dela. Ela custa um lençol e dois minutos.

  4. Quarto passo — decida o que fazer com a ultrassonografia negativa das 21h20

    Um exame negativo às 21h20 é um resultado sobre as 21h20. Decida se ele ainda vale às 21h50, e o que fazer a respeito.

  5. Quinto passo — decida o destino, com o hospital que você tem

    Mesmo hospital de Aparecido: tomógrafo, cirurgião, ortopedista de sobreaviso, banco de sangue, sem hemodinâmica. Diga o que se pede, para quem, e com que informação — e diga também o que você recusa a fazer.

  6. Sexto passo — escreva a passagem de plantão

    Em cinco linhas, com horas, para a equipe de transporte. Se a sua passagem não impedir que a próxima equipe repita alguma coisa, ela está incompleta.

  7. Continuidade do caso e prática do internato

    Apresente o paciente como politraumatizado com provável hemorragia pélvica, informando também o que ainda precisa ser excluído e qual recurso de hemostasia está disponível.

  8. Questão integrativa 1

    Onde deve ficar o estabilizador pélvico?

  9. Questão integrativa 2

    Por que não repetir manobras de abertura da pelve a cada examinador?

  10. Questão integrativa 3

    FAST negativo prova que o choque vem apenas da pelve?

  11. Questão integrativa 4

    O que muda se houver TCE associado?

  12. Questão integrativa 5

    Sangue no meato muda a sondagem?

  13. Questão integrativa 6

    Qual cuidado não deve desaparecer depois de aplicar o estabilizador?

Ver como fecharíamos

A conduta é, nesta ordem: compressão pélvica externa imediata, sangue, repetir a ultrassonografia rápida e acionar a regulação para serviço com angiografia — sem tomografia. A razão de a cinta vir primeiro é a que organiza o capítulo inteiro: ela não depende de diagnóstico, de exame nem de recurso, e é a única intervenção disponível ali que age sobre o mecanismo do sangramento. Rosimeire tem fratura com ascensão de hemipelve, isto é, cisalhamento vertical com o anel rompido atrás; o espaço retroperitoneal está aberto e o hematoma nunca tamponou. Ela não recebeu compressão porque chegou andando, e essa é exatamente a armadilha do doente compensado: o estudo brasileiro que mediu isso mostra que a decisão pela hemodinâmica de admissão engana, porque a média de pressão sistólica dos doentes com fratura de pelve era quase normal com dispersão enorme. Aplique o lençol sobre os trocânteres — não sobre as cristas —, com joelhos e tornozelos atados, anote a hora e o ponto. Em paralelo, e não em seguida: hemácias com aviso ao banco de sangue de que é fratura pélvica instável, cristaloide aquecido com alvo de sistólica acima de 80, manta térmica. O 1.500 mililitros já infundido explica, aliás, por que uma hemoglobina colhida agora vai vir baixa por diluição e não deve ser usada para decidir nada. A ultrassonografia negativa das 21h20 precisa ser repetida, porque um exame negativo é um retrato do momento em que foi feito, e a deterioração das 21h50 é motivo formal de reavaliação. Se virar positiva, o destino muda: laparotomia, com a fixação externa somada a ela. Se permanecer negativa, está confirmado que a fonte é pélvica e a conduta é controle pélvico — e é aqui que o hospital real aparece. Sem hemodinâmica, a indicação de angiografia com embolização existe e não é executável no serviço. Portanto a decisão real é transferir com a hemorragia contida, e ela se aciona agora, não depois. À regulação, com estas palavras: vaga em serviço com cirurgia de trauma, ortopedia e angiografia disponível, para mulher de 23 anos com fratura de anel pélvico por cisalhamento vertical e instabilidade hemodinâmica, com compressão pélvica externa aplicada às tantas horas, tantos mililitros de cristaloide e tantas unidades de hemácias, ultrassonografia rápida repetida e negativa, com pedido de transporte com médico a bordo. Enquanto a vaga não sai, converse com o ortopedista sobre fixação externa e com o cirurgião sobre tamponamento pré-peritoneal — que é a alternativa que a literatura brasileira coloca justamente para o hospital sem angiografia. O que você recusa: tomografia, porque atrasa a transferência e não muda a conduta de uma paciente instável; repetir a manobra do anel, que aqui nem chegou a ser necessária, já que a radiografia respondeu; retirar a cinta para o transporte; e perseguir pressão normal com cristaloide. A passagem de plantão, em cinco linhas, tem de conter: hora e mecanismo; achado da radiografia; hora e ponto de aplicação da cinta, com a frase de que não foi retirada; volume e hemocomponentes com horas; resultado e hora das duas ultrassonografias; e a informação de que a manobra do anel não foi realizada e não precisa ser. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Sobre os grandes trocânteres, conforme técnica; posição alta na cintura não oferece a mesma estabilização. 2. Elas acrescentam pouco e podem mobilizar a lesão. Registrar o exame e transmitir o achado à equipe. 3. Não. Reavaliar focos e reconhecer limitações do exame enquanto organiza hemostasia da fonte provável. 4. Não se adota hipotensão permissiva; a equipe integra metas de perfusão cerebral com reposição e controle hemorrágico. 5. Sim. Suspeitar lesão uretral e solicitar avaliação apropriada antes de instrumentar às cegas. 6. Reavaliar posição, pele, perfusão e resposta; documentar e planejar retirada ou substituição com a equipe, além do tratamento definitivo.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A compressão vai sobre os trocânteres maiores, e a diretriz capixaba escreve isso como condição da aplicação correta do torniquete pélvico. A razão é geométrica: nessa altura a faixa roda as hemipelves para dentro em torno de um eixo posterior, fecha a sínfise e reduz o volume do espaço retroperitoneal que o hematoma precisa preencher para tamponar. Apoiada nas cristas ilíacas, a faixa comprime a parte mais larga e rígida da asa do ilíaco, onde a compressão não fecha a sínfise e pode até favorecer a abertura do anel por efeito de alavanca; nas espinhas ilíacas ântero-superiores vale a mesma objeção, com o agravante de a área de apoio ser mínima e o ponto ser proeminente; e envolver o abdome comprime vísceras e vasos ilíacos sem reduzir nada do anel. Os trocânteres são palpáveis nas laterais, na altura da prega glútea, cerca de um palmo abaixo das cristas.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

No sétimo dia, recupere quatro coisas na ordem em que elas acontecem na sala. Primeira: a lista dos cinco compartimentos onde um adulto de trauma fechado esconde volume, e qual deles nenhum exame de beira de leito enxerga. Segunda: a altura da cinta — trocânteres maiores, não cristas ilíacas — e a razão geométrica disso, que é fechar a sínfise e reduzir o volume do recipiente. Terceira: por que o sangramento ser venoso e ósseo em 85% dos casos explica tanto o funcionamento da compressão quanto o fracasso da abertura cirúrgica precoce. Quarta: a regra da manobra do anel, com as três condições — uma pessoa, uma vez, registrada — e a proibição diante de deformidade visível. Se você conseguir dizer as quatro em voz alta sem consultar, o capítulo está no lugar certo.

Em 30 dias

No trigésimo dia, o que precisa estar automático é o que não é clínico. Saiba de cor qual é o serviço com angiografia mais próximo do seu hospital e quanto tempo leva a ambulância até lá. Saiba onde ficam as cintas pélvicas, se existirem, e qual lençol da rouparia serve. Saiba a frase que se diz à regulação, com os cinco dados que ela precisa ouvir. E recupere os dois números que mudam decisão: cerca de três em cada quatro fraturas de pelve têm exame físico da pelve normal, e a letalidade da fratura de pelve na casuística brasileira foi de 27,9% contra 1,8% dos demais traumatizados fechados do mesmo período. O primeiro impede que você use um exame negativo como alta; o segundo impede que você trate esse doente como mais um do plantão.

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Agora atenda

Agora atenda. O paciente do simulador chega com mecanismo de alta energia e queixa que aponta para a bacia, e a sala é a que você já conhece: sem hemodinâmica, com ortopedista de sobreaviso e com um banco de sangue que precisa ser avisado. Antes de pedir qualquer exame, decida três coisas — se vai examinar o anel e quantas vezes, o que precisa olhar no períneo antes de qualquer sonda, e em que minuto a compressão externa entra. Depois, conduza pela resposta ao volume, e não pelo laudo da radiografia. No fim, verifique se a sua passagem de plantão contém a hora e o ponto de aplicação da cinta: é a linha que impede a próxima equipe de desfazer o que você fez.

Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica — Internato | OsceLabs