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Cirurgia GeralTrauma

Via aérea no trauma

Antecipar falha da via aérea, preparar a primeira tentativa e o resgate, confirmar posição e garantir analgesia e sedação após intubação.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. 2ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2016

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. 1ª edição. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2012. 20 p. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde)

Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013. Parte I. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. 2014;26(2):89-121. DOI 10.5935/0103-507X.20140017

Associação de Medicina Intensiva Brasileira; Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013. Parte 2. Revista Brasileira de Terapia Intensiva. 2014;26(3):215-239. DOI 10.5935/0103-507X.20140034

Martins MP, Ortenzi AV, Perin D, Quintas GCS, Malito ML, Carvalho VH. Recommendations from the Brazilian Society of Anesthesiology (SBA) for difficult airway management in adults. Brazilian Journal of Anesthesiology. 2024;74(1):744477. DOI 10.1016/j.bjane.2023.12.001

01

Responda antes de ler

Homem de 38 anos, 70 kg, resgatado de um galpão fechado em chamas há quarenta minutos. Chega andando, senta sozinho e fala frases inteiras. Saturação 97% em ar ambiente, pressão 132 por 78 mmHg, frequência cardíaca 104 bpm, frequência respiratória 20 irpm, Glasgow 15. Sobrancelhas e vibrissas chamuscadas, fuligem na saliva e voz rouca, que segundo o colega que o acompanha mudou nos últimos dez minutos. Não há estridor. A queixa dele é dor no punho esquerdo. Qual é a conduta correta neste momento?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e uma e dez de um sábado. O galpão de solda pegou fogo com o portão fechado, e Josimar ficou lá dentro entre quatro e cinco minutos, pelo que os colegas contam — dois deles arrombaram a porta lateral e o tiraram andando. Ele chega ao pronto-socorro de carro, pelo próprio pé, com 38 anos e 70 quilos, sentado na maca antes que alguém peça.

Ele fala. É a primeira coisa que a equipe registra, e é a que mais engana: quem fala tem via aérea pérvia agora. A saturação no oxímetro é 97% em ar ambiente, a pressão é 132 por 78, a frequência cardíaca 104. Ele reclama do punho esquerdo, que torceu ao pular de uma bancada, e é do punho que ele quer falar.

O que está no rosto dele não entra na queixa. As sobrancelhas estão chamuscadas, os pelos do nariz sumiram na ponta e há fuligem na saliva quando ele cospe na cuba. A voz tem um ressalto rouco que ele atribui à fumaça. Nos últimos dez minutos, segundo o colega que veio junto, ele começou a limpar a garganta com mais frequência. Não há estridor. Ainda.

Existe uma versão deste plantão em que Josimar é medicado para dor, radiografado do punho e reavaliado em uma hora. Nessa versão, a hora seguinte tem duas partes: nos primeiros quarenta minutos ele fica igual, e nos vinte últimos a voz vira um sopro, a saturação cai de 96 para 84, e a laringe que aceitaria um tubo às nove e vinte não aceita mais nenhum. A diferença entre as duas versões não é um exame. É a hora em que alguém decide.

03

Quem adoece disso

A via aérea que o interno vai ser chamado a proteger no trauma brasileiro é, na maioria das vezes, a de um homem jovem com traumatismo cranioencefálico. Entre janeiro de 2010 e dezembro de 2019, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou 1.045.070 internações por traumatismo intracraniano, das quais 796.748 em homens — 76,23% do total. A faixa de 20 a 29 anos concentra 17,65% das internações e é a maior; somada às de 30 a 39 e 40 a 49 anos, passa de 45%. São mais de cem mil internações por ano, quase trezentas por dia no país. A consequência prática é de escala: o rebaixamento de consciência por trauma não é evento raro de hospital terciário, é rotina de porta de pronto-socorro geral, e a competência de manter uma via aérea aberta enquanto alguém mais experiente chega é rotina do interno, não especialização.

A mesma série mostra mortalidade de 10,06% entre os homens internados e permanência média de 6,2 dias. Um em cada dez não sai, e o que decide parte desse desfecho acontece nos primeiros minutos: hipóxia e hipotensão são as duas agressões que transformam lesão cerebral primária em lesão secundária, e as duas passam pela via aérea. Nenhuma tomografia reverte um período de saturação de 70% enquanto o paciente esperava por ela.

O oposto vale para a via aérea cirúrgica. Uma revisão sistemática brasileira reuniu nove estudos retrospectivos publicados entre 1982 e 2012 e encontrou 316 cricotireoidostomias de emergência ao todo — de 10 a 95 por estudo, média de 35 em séries que cobrem anos de atendimento. A idade média das vítimas foi de 41 anos e o trauma foi o evento predominante. O número diz duas coisas ao mesmo tempo: o procedimento é raro o bastante para que quase ninguém o faça com frequência, e frequente o bastante para que o serviço precise tê-lo pronto. Habilidade que se usa uma vez a cada dois anos não se improvisa na hora — ela se decide antes, e mora no material aberto sobre a mesa.

O terceiro grupo é o queimado. A cartilha de emergência do Ministério da Saúde descreve um perfil brasileiro em que a maior parte das queimaduras acontece na residência da vítima, quase metade envolve crianças, e as lesões por álcool líquido e outros inflamáveis predominam na população geral; entre homens adultos, o cenário mais comum é o de trabalho. Para a via aérea, o que interessa desse perfil é o ambiente: fogo em espaço fechado, com fumaça, é o que produz lesão inalatória — e é exatamente a situação doméstica e a de oficina, não a fogueira ao ar livre.

04

Por que acontece o que acontece

A oximetria pode permanecer satisfatória no início de uma obstrução e cair rapidamente quando a reserva se esgota; por isso, não se espera dessaturação para reconhecer uma via aérea que piora. Ao mesmo tempo, SpO2 baixa é um sinal de urgência e deve ser levada a sério. No incêndio em ambiente fechado há outra limitação: o oxímetro convencional não distingue adequadamente carboxiemoglobina de oxiemoglobina. Um valor de 97% não exclui intoxicação por monóxido de carbono, que exige contexto e co-oximetria.

Curva sigmoide esquemática da saturação da hemoglobina em função da pressão parcial de oxigênio, com regiões de platô e queda acentuada.
No trecho íngreme da curva, pequenas reduções da pressão de oxigênio podem produzir quedas importantes de saturação. O traçado é um modelo fisiológico ilustrativo, não uma medida de paciente. A oximetria não mede ventilação, e o formato da curva varia com fatores como pH, temperatura e afinidade da hemoglobina.

O segundo mecanismo é o do edema que fecha. O calor e a fumaça agridem a mucosa supraglótica, e a resposta inflamatória local leva minutos a horas para se instalar: o paciente da porta não tem o edema que o paciente da UTI vai ter. A laringe é o ponto mais estreito da via aérea do adulto, e num tubo o fluxo laminar sofre resistência inversamente proporcional à quarta potência do raio. Reduzir o raio à metade multiplica a resistência por dezesseis, e no fluxo turbulento da via aérea superior a penalidade é ainda maior. É por isso que a piora do queimado não é linear e não avisa: durante muito tempo o estreitamento não produz sintoma nenhum, e depois produz tudo de uma vez. O estridor audível já é obstrução avançada, não obstrução inicial.

O terceiro mecanismo explica por que a apneia dura menos no traumatizado. A reserva de oxigênio de quem para de respirar não está no sangue, está na capacidade residual funcional — o ar que sobra no pulmão ao fim de uma expiração normal. O politraumatizado está deitado em decúbito dorsal e imobilizado, o que reduz essa reserva; respira superficialmente por dor torácica, o que a reduz de novo; consome mais oxigênio por agitação, dor e tremor; e, se sangrou, carrega menos hemoglobina para transportar o pouco que tem. O tempo de apneia segura de um adulto saudável pré-oxigenado é medido em minutos; o do traumatizado hipoxêmico e agitado é medido em segundos. Toda a lógica da pré-oxigenação — e da oxigenação apneica que continua durante a laringoscopia — existe para comprar esses segundos de volta.

O quarto mecanismo é o que faz a indução matar. No sangramento compensado, a pressão arterial normal não é sinal de que está tudo bem: é sinal de que o sistema nervoso simpático está segurando a pressão às custas de vasoconstrição e taquicardia. Todo hipnótico usado na indução derruba esse tônus, e a ventilação com pressão positiva que vem logo depois aumenta a pressão intratorácica e reduz o retorno venoso ao coração. São duas agressões somadas ao mesmo mecanismo compensatório, e num paciente que já perdeu volume elas produzem hipotensão profunda e, às vezes, parada. A escolha e a dose da droga de indução não são preferência de escola: são a diferença entre um paciente intubado e um paciente intubado em atividade elétrica sem pulso.

O quinto explica a escolha do bloqueador. A succinilcolina é despolarizante: liga-se ao receptor da junção neuromuscular e o mantém aberto, produzindo fasciculação seguida de paralisia em torno de 45 a 60 segundos, e efeito curto. A abertura do canal deixa potássio sair da célula. Em músculo normal isso eleva o potássio sérico de forma discreta; em músculo que multiplicou seus receptores — o do grande queimado depois das primeiras horas, o do denervado, o do esmagamento antigo —, a saída é maciça e pode causar parada por hipercalemia. É o motivo pelo qual o protocolo do SAMU 192 lista, entre as situações a evitar, queimadura grave há mais de 24 horas, miopatia espástica, neuropatia crônica e esmagamento muscular há mais de três dias. O rocurônio, não despolarizante, não faz isso — em troca, dura muito mais, e o preço de errar com ele é um paciente que não volta a respirar sozinho por bem mais de uma hora.

O sexto mecanismo é anatômico e explica a única manobra que o interno realmente executa sozinho. Na inconsciência, a musculatura da base da língua relaxa e a língua cai contra a parede posterior da faringe — a obstrução mais comum e mais reversível de todas. A manobra que a resolve no paciente clínico é inclinar a cabeça e elevar o mento, e ela está proibida aqui: o traumatizado tem coluna cervical instável até prova em contrário. A manobra do trauma é a tração da mandíbula, que empurra o ângulo mandibular para a frente e leva a língua junto, sem mover o pescoço. Duas mãos espalmadas na face mantêm o alinhamento neutro enquanto os dedos elevam a mandíbula. É pouco elegante, cansa o braço e resolve mais obstrução do que qualquer droga deste capítulo.

05

Como se apresenta de verdade

Existem quatro estados de via aérea, e o erro de classificação — não o erro de técnica — é o que mais custa. A via aérea pode estar pérvia e estável, pérvia e ameaçada, em falência, ou perdida. As duas pontas quase ninguém erra. O meio é onde mora o capítulo.

O paciente que fala e ainda assim precisa de tubo

É a apresentação que dá nome a este capítulo. O queimado de ambiente fechado, o trauma de face com fratura de mandíbula, o ferimento cervical com hematoma que cresce: os três chegam conversando e os três podem fechar. Os sinais que mudam a decisão não são de gravidade respiratória, são de trajetória. A cartilha de emergência das queimaduras do Ministério da Saúde lista, como suspeita de lesão inalatória, a queimadura em ambiente fechado com acometimento da face, a rouquidão, o estridor, o escarro carbonáceo, a dispneia, a queimadura das vibrissas e a insuficiência respiratória. O protocolo do SAMU 192 chama a mesma coisa de sinais evidentes de queimadura de vias aéreas e detalha: queimadura de cílios, sobrancelhas e pelos do nariz, mudança do caráter da voz até a afonia, estridor laríngeo, sialorreia e escarro com fuligem.

Repare no que essas duas listas têm em comum: nenhum item é um número. Voz, fuligem, pelo chamuscado, saliva. São achados de inspeção e de conversa, disponíveis em qualquer sala, na primeira olhada, sem esperar nada. E são, nesse paciente, mais confiáveis do que a oximetria — porque descrevem a lesão que está em curso, enquanto a oximetria descreve a consequência que ainda não chegou.

Quatro vistas superiores esquemáticas da entrada da laringe, com edema supraglótico progressivamente maior e redução do espaço central.
O edema supraglótico pode reduzir a passagem de ar e tornar o acesso à via aérea mais difícil. Os quatro painéis ilustram esse mecanismo; não são exames endoscópicos reais, uma escala de gravidade ou uma sequência com duração fixa. A evolução clínica orienta o momento de agir e de mobilizar ajuda especializada.

O agitado, que quase sempre está hipóxico

Agitação em traumatizado é hipóxia até que se prove o contrário. A ordem de probabilidade é hipóxia, choque, hipoglicemia, lesão encefálica, e só depois álcool e drogas — mesmo quando o hálito etílico está evidente e o paciente é conhecido do serviço. O erro clássico e caro é sedar esse paciente para conseguir examiná-lo: a sedação remove o esforço respiratório que estava compensando a hipóxia, e o agitado vira um apneico em três minutos. Se a agitação impede o cuidado e é preciso removê-la, a decisão é intubar com a sequência completa e com o material aberto, não sedar 'só um pouco'.

O hipotenso: a indicação existe, o risco também

O traumatizado em choque hemorrágico frequentemente preenche indicação de via aérea definitiva — rebaixamento, esforço respiratório, necessidade de transporte. E é nele que a intubação mais mata. O manejo do choque em si é do capítulo de choque hemorrágico no trauma; o que pertence a este é a ordem: sempre que a espera for possível, o volume e o sangue começam antes da indução, não depois. O paciente que chega com pressão sistólica de 80 mmHg e recebe indução em dose cheia costuma ter, no minuto seguinte, pressão sistólica de 40.

Quando a espera não é possível — via aérea perdida, apneia, obstrução — a resposta não é adiar a intubação, é mudar a droga e a dose, e ter vasopressor e volume correndo antes de empurrar o hipnótico. O detalhe está na conduta.

O idoso, o obeso, a gestante e a criança

O idoso desatura mais rápido, tem menos reserva cardiovascular para tolerar a indução e quase sempre tem artrose cervical que limita o posicionamento; se usa anticoagulante, o hematoma cervical de um trauma banal cresce mais e mais rápido. O obeso perde reserva pulmonar deitado e ganha tempo de apneia segura quando pré-oxigenado com o tronco elevado — as recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia registram que a posição com a cabeceira elevada em torno de 25 graus retarda a dessaturação na população geral, e mais ainda no obeso. A gestante tem menos reserva funcional, mais edema de via aérea e maior risco de aspiração: pré-oxigenar por mais tempo e planejar tubo de calibre menor. A criança tem anatomia própria, e a via aérea cirúrgica que este capítulo descreve é contraindicada abaixo de 12 anos pelo protocolo do SAMU 192 — o manejo pediátrico é tema próprio.

O edema de via aérea da anafilaxia obedece à mesma lógica de trajetória descrita aqui — decidir antes do estridor —, mas o tratamento é outro, começa com adrenalina intramuscular e está no capítulo de anafilaxia.

06

Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco em que a pergunta do capítulo se inverte. Em quase todo tema, investigar é escolher o exame certo. Aqui, investigar é reconhecer que a decisão já podia ter sido tomada e que o exame chega depois dela. O interno que aprende a pedir bem os exames da via aérea e não aprende a decidir sem eles vai perder exatamente os pacientes que este capítulo existe para salvar.

O exame da via aérea no trauma tem quatro perguntas, nesta ordem: ela está aberta agora? Vai continuar aberta? A ventilação está adequada? E o paciente consegue proteger essa via de si mesmo — do sangue, do vômito, da língua? Um paciente pode responder sim à primeira e não à segunda, e é ele quem se intuba. A sequência primária inteira, com as demais letras e a técnica dos procedimentos torácicos, é do capítulo de atendimento inicial ao politraumatizado.

O primeiro exame é a voz, e ele é gratuito

Peça o nome e o que aconteceu. A resposta faz, numa frase, três exames ao mesmo tempo: quem fala frase inteira tem via aérea pérvia, tem fluxo suficiente para vibrar as cordas e tem perfusão cerebral que sustenta uma sentença. Um paciente que respondia com frases e passa a responder com palavras soltas está piorando, mesmo com a mesma saturação. Um que responde com voz diferente daquela que tinha há dez minutos — rouca, abafada, com esforço para engolir a saliva — está com a laringe estreitando.

Por isso o registro da voz precisa ser feito por escrito e com hora. A frase 'voz levemente rouca, sem estridor, 21h12' é o exame de base contra o qual as próximas avaliações vão significar alguma coisa. Sem esse registro, a piora de 21h40 vira discussão de impressão entre dois plantonistas.

Depois da voz, três olhares de dois segundos cada. Rosto e narinas, à procura de chamuscado e fuligem. Boca aberta, à procura de sangue, dente solto, corpo estranho e edema de língua. Pescoço, à procura de assimetria, hematoma que abaula, enfisema subcutâneo e desvio de traqueia. Nada disso precisa de aparelho e nada disso pode ser delegado ao exame de imagem.

O que a oximetria e a capnografia respondem, e o que não respondem

A oximetria de pulso responde 'quanto oxigênio há ligado à hemoglobina neste dedo, agora'. Ela não responde se há ventilação: um paciente respirando oxigênio a alto fluxo pode manter saturação de 98% enquanto retém gás carbônico e caminha para apneia. Ela também mente quando a perfusão periférica é ruim, que é a regra no choque e na hipotermia do traumatizado exposto. O protocolo do SAMU 192 usa a saturação abaixo de 94% como gatilho para oferecer oxigênio a 10 a 12 L/min por máscara facial na avaliação primária — gatilho para oferecer oxigênio, não gatilho para decidir a via aérea.

A capnografia responde outra pergunta, e é a única que confirma a posição do tubo. Uma curva de gás carbônico expirado com formato quadrado, persistindo por várias ventilações, prova que o ar está saindo do pulmão. A ausculta prova bem menos do que se acredita: em sala barulhenta, com paciente obeso ou com hemotórax, epigástrio e base esquerda soam parecidos, e a intubação esofágica não reconhecida mata sem que ninguém perceba o erro. O protocolo brasileiro lista a capnografia entre os métodos de confirmação e a qualifica com um 'se disponível' que descreve a realidade do país — mas onde ela existe, ela decide, e a ausculta vira conferência complementar.

Nenhum dos dois responde a segunda pergunta do bloco anterior. Não há oxímetro, capnógrafo, gasometria ou tomografia que diga se a via aérea vai continuar aberta daqui a quarenta minutos. Essa resposta vem do mecanismo do trauma e da trajetória dos sinais — e é por isso que ela é clínica por natureza, não por preferência.

O que não pedir, e o que custa pedir

Não peça gasometria para decidir se intuba o queimado que já tem sinais de lesão inalatória. A própria cartilha do Ministério da Saúde, que lista PaO2 abaixo de 60 mmHg e PaCO2 acima de 55 mmHg entre os gatilhos de intubação no queimado, coloca ao lado deles o edema importante de face e orofaringe e o Glasgow abaixo de 8. Os dois primeiros são critérios de falência já instalada; os dois últimos são clínicos. Um paciente que espera trinta minutos por uma gasometria para provar o que a voz dele já disse não ganha informação: perde a janela em que a laringoscopia ainda era possível.

Não leve para a tomografia o paciente cuja via aérea está ameaçada e não protegida. A sala de tomografia é o pior lugar do hospital para uma intubação de emergência: pouca gente, pouca luz, nenhum material aberto, o paciente dentro de um anel de metal e a cabeça longe de quem pode alcançá-la. Se a indicação de tubo existe e a de imagem também, a ordem é tubo primeiro. O manejo do traumatismo cranioencefálico depois da via aérea, incluindo o que a tomografia muda, é tema próprio desta apostila.

Não peça radiografia de coluna cervical para liberar o pescoço antes de intubar. A conduta com o colar e o alinhamento é a mesma com radiografia ou sem ela: mantém-se a estabilização manual em posição neutra, e a coluna segue presumidamente instável até que alguém a libere formalmente, o que não acontece na sala de emergência e é assunto do capítulo de trauma raquimedular.

E não peça a via nasal quando há sangramento nasal, fratura de face grave ou suspeita de fratura de base de crânio — rinorreia clara, equimose periorbitária, hematoma retroauricular. O protocolo do SAMU 192 contraindica a intubação nasotraqueal nessas situações, e a mesma lógica vale para a sonda gástrica, que deve ir pela boca.

O diferencial se resolve aqui, com os mesmos achados

Um traumatizado com saturação de 86% tem, na prática, quatro causas em disputa, e o exame que confirma uma exclui a outra. Se o problema é obstrução alta, há estridor, esforço inspiratório visível, retração e ruído que melhora com a tração da mandíbula ou com a aspiração — e a resposta a essa manobra é o próprio teste diagnóstico. Se é problema de ventilação — pneumotórax, hemotórax, tórax instável —, o murmúrio está assimétrico, o hemitórax não expande e a tração da mandíbula não muda nada; o reconhecimento e a descompressão pertencem ao capítulo de trauma torácico. Se é problema de perfusão, a pele está fria e o pulso radial some antes da saturação cair; o oxímetro pode simplesmente parar de ler. E se é rebaixamento neurológico, o paciente não protege a via, ronca com a língua caída e melhora com a manobra manual, mas volta a obstruir assim que a mão sai.

A consequência prática é que a manobra manual de abertura, feita nos primeiros dez segundos, não é só tratamento: é o exame que separa metade do diferencial. Se a obstrução resolve com a mandíbula tracionada, o problema é a língua e o paciente precisa de proteção de via aérea; se não resolve, o problema está abaixo e o oxigênio sozinho não vai resolvê-lo.

O que existe no SUS, e o que fazer com o que existe

Laringoscópio com lâmina curva e reta em vários tamanhos, tubos de vários calibres, fio-guia, seringa, aspirador com ponta rígida, cânula orofaríngea, bolsa-valva-máscara com reservatório e oxímetro estão na lista de material obrigatória do protocolo nacional e existem em qualquer serviço que receba trauma. Capnografia e videolaringoscópio aparecem no protocolo com a ressalva de disponibilidade, e essa ressalva é honesta: em boa parte do país eles não estão na sala.

Duas peças baratas mudam desfecho e são subutilizadas. A primeira é o introdutor tipo bougie, que resolve a laringoscopia em que se enxerga a epiglote mas não a fenda vocal, e que as recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia colocam no centro da técnica cirúrgica de resgate, na sequência bisturi, bougie e tubo. A segunda é o cateter nasal comum: mantido a 10 a 15 L/min sob a máscara durante a pré-oxigenação e deixado no lugar durante a laringoscopia, ele fornece oxigenação apneica e adia a dessaturação, com custo próximo de zero.

Onde não há capnógrafo de onda, existe o detector colorimétrico de gás carbônico, e onde não há nenhum dos dois a confirmação passa a depender de vários sinais somados: visualização direta do tubo passando pelas cordas, ausculta em cinco pontos começando pelo epigástrio, expansão simétrica, condensação no tubo e estabilidade da oximetria depois de um minuto. Nenhum deles sozinho é suficiente. Se restar dúvida sobre a posição, retire o tubo e ventile com a máscara: um tubo no esôfago com dúvida é um tubo no esôfago.

07

Decidir, preparar, executar

O fluxo organiza os passos da avaliação da via aérea à fixação do tubo. Os cartões indicam a urgência; as tabelas reúnem indicações, fármacos e cálculos para três pesos de referência. A equipe deve adaptar a sequência à fisiologia e à resposta do paciente.

  1. 1Avaliar via aérea atual e trajetória: obstrução, incapacidade de proteger, falha de ventilação/oxigenação ou progressão de edema justificam abordagem antecipada por operador habilitado. Incerteza isolada não equivale a intubar todos; considerar exame, evolução, transporte e capacidade de resgate.
  2. 2Chamar. Diga em voz alta quem você quer na sala: o médico mais experiente disponível para conduzir, um segundo profissional para a estabilização cervical manual, um para as drogas e um para a aspiração. Se você é o interno, este é o seu gesto mais importante do capítulo, e ele acontece antes de qualquer outro.
  3. 3Preparar e conferir em voz alta: aspirador ligado e testado com ponta rígida ao alcance da mão direita de quem intuba; dois laringoscópios com lâmina testada e acesa; tubos de três calibres, com balonete testado, o do meio montado com fio-guia; bougie aberto; cânula orofaríngea; bolsa-valva-máscara conectada ao oxigênio com reservatório; dispositivo supraglótico do tamanho certo, fora do pacote; kit de via aérea cirúrgica aberto sobre a mesa, não no armário; monitor, oxímetro e capnógrafo ligados; dois acessos venosos funcionando e volume conectado.
  4. 4Anunciar o plano em três frases, para a sala inteira ouvir: quem intuba, o que se faz se a primeira tentativa falhar, e quem executa a via cirúrgica se chegarmos lá. Plano dito em voz alta é plano que a equipe pode cobrar.
  5. 5Registrar o exame neurológico antes de sedar: Glasgow, pupilas e motricidade dos quatro membros, com hora. Depois do bloqueador, esse exame deixa de existir por horas, e ele é que define conduta neurocirúrgica.
  6. 6Pré-oxigenar por 3 a 5 minutos com máscara com reservatório em fluxo alto, ou com bolsa-valva-máscara com reservatório se a ventilação estiver insuficiente, com o tronco elevado em torno de 25 graus quando a maca e a coluna permitirem. Instale o cateter nasal a 10 a 15 L/min por baixo da máscara e deixe-o no lugar.
  7. 7Posicionar mantendo o alinhamento: um profissional segura a cabeça em posição neutra com as mãos espalmadas na face, a parte anterior do colar é aberta, e ela só volta depois do tubo fixado.
  8. 8Induzir e bloquear em sequência, sem interromper a oxigenação, e aguardar a paralisia completa antes de encostar a lâmina — cerca de 45 a 60 segundos com succinilcolina. Laringoscopar tentando ver a fenda vocal; se ela não aparecer, otimize primeiro (manobra laríngea externa, ajuste de cabeça, aspiração) e só depois troque de dispositivo.
  9. 9Confirmar com capnografia mantida por várias ventilações e com ausculta em cinco pontos. Insuflar o balonete, fixar o tubo, anotar a marca em centímetros na arcada dentária e recolocar o colar.
  10. 10Sedar em infusão contínua imediatamente, antes que o bloqueador passe, e reavaliar pressão, saturação, capnografia e simetria a cada mudança de posição do paciente.

Pérvia e estável

Fala frases inteiras, sem estridor, sem esforço, voz igual à de dez minutos atrás, sem fuligem nem chamuscado, sem hematoma cervical em crescimento. Conduta: oxigênio se saturação abaixo de 94%, reavaliação com hora marcada e registro do achado de base.

Pérvia e ameaçada

Voz mudou, rouquidão nova, dificuldade para engolir saliva, fuligem no escarro, hematoma cervical que abaula, edema de língua ou de face em progressão. Saturação costuma estar normal. Conduta: intubar eletivamente agora, com a equipe completa e o material aberto.

Em falência

Estridor audível, tiragem, esforço que cansa, saturação caindo apesar do oxigênio, gás carbônico subindo, frequência respiratória abaixo de 8. Conduta: intubar imediatamente; se a primeira tentativa falhar, o plano B já tem de estar sobre a mesa.

Perdida

Apneia, obstrução completa, não se consegue ventilar com máscara nem intubar. Conduta: dispositivo supraglótico enquanto se prepara a via cirúrgica, e cricotireoidostomia sem novo adiamento — a decisão de descer para o pescoço é o único gesto que ainda resolve.

DrogaDoseApresentaçãoVolume em 70 kgO que faz na pressão
Fentanil (pré-indução, opcional)1 a 3 microgramas/kg endovenoso50 microgramas/mL1,4 a 4,2 mLReduz a resposta simpática à laringoscopia; pode derrubar a pressão. Omitir no instável.
Quetamina, também grafada cetamina (hipnótico de escolha no trauma)1 a 2 mg/kg endovenoso; 1 mg/kg se hipotenso50 mg/mL1,4 a 2,8 mL (1,4 mL na dose reduzida)Preserva ou eleva a pressão pela liberação de catecolaminas; no choque profundo, com reserva simpática esgotada, pode deprimir o miocárdio.
Etomidato (alternativa)0,2 a 0,3 mg/kg endovenoso2 mg/mL, ampola de 10 mL com 20 mg7 a 10,5 mLÉ o mais neutro dos hipnóticos sobre a pressão; suprime o cortisol por horas, o que pesa se houver choque séptico associado.
Midazolam (última escolha no trauma)0,1 a 0,3 mg/kg endovenoso5 mg/mL1,4 a 4,2 mLVasodilata e deprime o miocárdio; é a via mais rápida para hipotensão pós-indução.
Succinilcolina (bloqueador de escolha)1 a 1,5 mg/kg endovenosofrasco de 100 mg reconstituído em 10 mL = 10 mg/mL7 a 10,5 mLEfeito hemodinâmico próprio desprezível; paralisia em 45 a 60 segundos e duração curta.
Rocurônio (quando a succinilcolina é proibida)0,9 a 1,2 mg/kg endovenoso10 mg/mL, ampola de 5 mL com 50 mg6,3 a 8,4 mLSem efeito hemodinâmico relevante; dura mais de uma hora, e por isso exige sedação contínua garantida.
Lidocaína (opcional, sem consenso)1,5 mg/kg endovenoso 3 minutos antes2% = 20 mg/mL5,25 mLAtenua o reflexo simpático da laringoscopia; a recomendação brasileira existe para a crise asmática, não para o trauma.

Quando a via aérea definitiva está indicada no traumatizado

SituaçãoO que a sustentaObservação prática
Impossibilidade de ventilar com máscara ou bolsa-valva-máscaraProtocolo SAMU 192, manejo de vias aéreasIndicação absoluta e imediata; não há espera possível.
Incapacidade de proteger a própria via aérea, ou risco de aspiraçãoProtocolo SAMU 192, manejo de vias aéreasSangue na boca, vômito, reflexo de tosse ausente.
Escala de coma de Glasgow igual ou menor que 8Protocolo SAMU 192; recomendações da AMIB e da SBPTAs recomendações da AMIB acrescentam a abolição do reflexo de tosse; um Glasgow isolado em paciente que tosse e protege exige julgamento, não automatismo.
Sinais de queimadura de via aérea: cílios, sobrancelhas e pelos do nariz queimados, mudança da voz até afonia, estridor laríngeo, sialorreia, escarro com fuligemProtocolo SAMU 192; cartilha de queimaduras do Ministério da SaúdeÉ a indicação que exige antecipar: intubar enquanto ainda é fácil.
Edema importante de face e orofaringe no queimadoCartilha de queimaduras do Ministério da SaúdeCritério clínico, não gasométrico.
Insuficiência respiratória aguda; frequência respiratória abaixo de 8Protocolo SAMU 192, avaliação primária no traumaVentilação assistida com bolsa-valva-máscara enquanto se prepara o tubo.
Transporte de longa distância com necessidade de via aérea definitivaProtocolo SAMU 192, manejo de vias aéreasVale para a transferência inter-hospitalar: o que é discutível na sala vira obrigatório dentro da ambulância.

Aritmética das doses em três pesos (dose única de indução e bloqueio)

Droga e dose50 kg70 kg100 kg
Quetamina 1,5 mg/kg (50 mg/mL)75 mg = 1,5 mL105 mg = 2,1 mL150 mg = 3 mL
Quetamina 1 mg/kg, hipotenso (50 mg/mL)50 mg = 1 mL70 mg = 1,4 mL100 mg = 2 mL
Etomidato 0,3 mg/kg (2 mg/mL)15 mg = 7,5 mL21 mg = 10,5 mL30 mg = 15 mL
Succinilcolina 1,5 mg/kg (10 mg/mL)75 mg = 7,5 mL105 mg = 10,5 mL150 mg = 15 mL
Rocurônio 1,2 mg/kg (10 mg/mL)60 mg = 6 mL84 mg = 8,4 mL120 mg = 12 mL
Fentanil 3 microgramas/kg (50 microgramas/mL)150 mcg = 3 mL210 mcg = 4,2 mL300 mcg = 6 mL

O plano, em quatro degraus, decidido antes da primeira tentativa

DegrauO que se fazQuando se passa ao próximo
Plano A — laringoscopiaMelhor operador, melhor posicionamento, aspiração pronta, manobra laríngea externa e bougie disponíveis. Cada tentativa dura até 20 segundos.Falhou a tentativa: otimize algo concreto antes de repetir. Sem otimização nova, não repita — troque.
Plano B — outro dispositivoVideolaringoscópio se houver, ou lâmina diferente, ou bougie, ou outro operador. Reoxigene com bolsa-valva-máscara entre as tentativas.Duas ou três tentativas sem sucesso, ou saturação caindo: pare de tentar intubar.
Plano C — supraglóticoMáscara laríngea, de preferência de segunda geração com canal de drenagem gástrica. Objetivo é oxigenar, não é intubar.Se oxigena, você comprou tempo e chama ajuda. Se não oxigena, desça imediatamente.
Plano D — via cirúrgicaCricotireoidostomia cirúrgica: identificar a membrana, incisar, dilatar, passar a cânula, insuflar o balonete, confirmar e fixar.É o degrau final. O erro aqui quase nunca é técnico — é ter demorado a chegar.

Quando a succinilcolina é a droga errada

SituaçãoPor quêO que usar
Queimadura grave há mais de 24 horasReceptores multiplicados liberam potássio em massa; risco de parada por hipercalemia.Rocurônio 1,2 mg/kg
Denervação: miopatia espástica, neuropatia crônica, lesão medular antigaMesmo mecanismo de hipercalemia.Rocurônio 1,2 mg/kg
Esmagamento muscular há mais de três diasMesmo mecanismo, somado à rabdomiólise.Rocurônio 1,2 mg/kg
Nefropatia dialítica descompensadaPotássio já elevado na linha de base.Rocurônio 1,2 mg/kg
História familiar de hipertermia malignaGatilho conhecido da crise.Rocurônio 1,2 mg/kg
Via aérea provavelmente difícil, com ventilação de resgate incertaA duração curta da succinilcolina deixou de ser rede de proteção: ninguém volta a respirar a tempo de escapar da hipóxia.Decisão de equipe: acordado, supraglótico ou via cirúrgica planejada

As quatro faixas de ameaça descrevem uma evolução possível. O paciente pode mudar rapidamente de faixa; use-as para definir a urgência e reavalie após cada intervenção.

As doses da tabela correspondem à indução em bolus, em dose única, para adultos. Quetamina e etomidato seguem as recomendações AMIB/SBPT; succinilcolina, fentanil e midazolam constam do protocolo SAMU 192. Para rocurônio, a tabela apresenta a dose de 0,9 mg/kg dessas recomendações e a faixa de até 1,2 mg/kg usada para encurtar o início de ação na sequência rápida. A escolha e o ajuste cabem à equipe habilitada.

Para quetamina, o SAMU 192 apresenta 2–3 mg/kg, enquanto as recomendações AMIB/SBPT apresentam 1–2 mg/kg. A tabela adota a segunda faixa. A seção de divergências discute como considerar a fisiologia e as contraindicações na escolha.

Confira se o material separado contém a dose calculada. Em um adulto de 100 kg, etomidato a 0,3 mg/kg corresponde a 30 mg, exigindo mais de uma ampola de 20 mg; succinilcolina a 1,5 mg/kg corresponde a 150 mg, acima de um frasco de 100 mg. Prepare o segundo frasco antes de iniciar.

A dose intramuscular de succinilcolina de 3–4 mg/kg prevista no protocolo nacional corresponde a 210–280 mg em um adulto de 70 kg. Na apresentação reconstituída descrita, são 21–28 mL, distribuídos em dois a três frascos. O volume e a absorção dificultam essa alternativa no adulto; organize acesso, inclusive intraósseo quando indicado.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de Josimar: 38 anos, 70 quilos, incêndio em galpão fechado há cerca de quarenta minutos, acordado, falando, saturando 97% em ar ambiente, com sobrancelhas e vibrissas chamuscadas, fuligem na saliva e rouquidão nova. Ele não tem nenhum critério gasométrico e nenhum critério de saturação. Ele tem indicação de tubo.

  1. Minuto 0 — a decisão

    A primeira coisa que acontece não é um procedimento, é uma frase dita em voz alta: 'este paciente vai ser intubado agora, e não daqui a uma hora'. Ela muda o estado da sala inteira e é o gesto que separa o plantão bom do plantão que vai correr atrás. O que a sustenta é a soma de mecanismo (fogo em ambiente fechado), achados de trajetória (voz que mudou, pigarro que aumentou) e sinais diretos de queimadura de via aérea (vibrissas, fuligem no escarro). O oxímetro não participa desta decisão. Enquanto isso, oxigênio a alto fluxo por máscara com reservatório, cabeceira elevada a 30 graus, monitor, dois acessos venosos periféricos calibrosos e glicemia capilar.

    Prescrição
    • Oxigênio 100% sob máscara facial com reservatório, 10 a 15 L/min, mantido até a intubação (protocolo SAMU 192, avaliação primária no trauma e manejo de vias aéreas)
    • Cabeceira elevada a 30 graus (cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos, preferencialmente em área não queimada (protocolo SAMU 192; cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde)
    • Monitorização contínua: oximetria, cardioscopia, pressão arterial não invasiva e capnografia se disponível (protocolo SAMU 192)
  2. Minuto 1 — chamar, e dizer para quem

    Chame o médico mais experiente disponível pelo nome e diga o motivo em uma frase: 'queimado de ambiente fechado com rouquidão e fuligem, preciso de você para intubar'. Se o hospital tem anestesiologista ou cirurgião de plantão, este é o momento. Peça, junto, que alguém do centro cirúrgico traga o videolaringoscópio, se existir. Chamar cedo não é fraqueza: é o único gesto que ainda tem efeito depois que a via aérea fecha, e ele perde valor a cada minuto de atraso. A composição mínima da sala é de quatro pessoas — quem intuba, quem estabiliza a cabeça, quem administra as drogas e quem aspira.

    Prescrição
    • Nenhuma droga neste marco. O que se prescreve aqui é gente.
  3. Minuto 3 — preparar, com o kit cirúrgico aberto

    O material se abre sobre a mesa, não se confere no armário. Aspirador ligado e testado com ponta rígida à direita de quem intuba; dois laringoscópios acesos, lâmina curva do número 3 e do 4; tubos 7,0, 7,5 e 8,0 com balonete testado — no queimado, prefira o maior que passar, porque o edema só cresce e porque um tubo estreito inviabiliza a broncoscopia depois; fio-guia montado; bougie aberto; cânula orofaríngea; máscara laríngea fora do pacote; kit de cricotireoidostomia aberto e visível. Enquanto isso, palpe e marque a membrana cricotireóidea no pescoço dele com caneta, agora, com o paciente acordado e o pescoço ainda anatômico. Anuncie o plano nas três frases combinadas.

    Material de via aérea organizado sobre uma mesa, com laringoscópio, tubos, introdutores, dispositivo supraglótico, cânula orofaríngea, aspiração e material de resgate.
    Preparar a via aérea inclui conferir o equipamento, a aspiração, os tamanhos dos dispositivos e as opções de resgate. A organização deve acompanhar um plano compartilhado pela equipe, com funções definidas e critérios para mudar de estratégia. A disponibilidade do material não substitui treinamento ou avaliação contínua da oxigenação.
    Prescrição
    • Material conferido em voz alta, item a item, pela pessoa que vai usá-lo
    • Membrana cricotireóidea localizada por inspeção e palpação e marcada; se a palpação falhar, localizar por ultrassom (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
    • Exame neurológico registrado com hora antes de qualquer droga: Glasgow, pupilas, motricidade dos quatro membros
  4. Minuto 5 a 10 — pré-oxigenar de verdade

    São cinco minutos que parecem desperdício e são o que compra a segurança das próximas duas tentativas. Máscara com reservatório em fluxo alto, tronco elevado, cateter nasal por baixo da máscara mantido durante toda a laringoscopia — a oxigenação apneica. Se a ventilação espontânea é insuficiente, assista com bolsa-valva-máscara com reservatório, com pressão baixa e volume pequeno: o protocolo nacional limita a pressão de ventilação a 20 cmH2O para evitar insuflar o estômago, e estômago cheio de ar é vômito na laringoscopia. Ventile devagar, seis a oito vezes por minuto, com a mão inteira e não com o punho. Este é, junto com a tração da mandíbula, o gesto do interno que mais muda desfecho neste capítulo.

    Prescrição
    • Pré-oxigenação por 3 a 5 minutos com máscara com reservatório ou bolsa-valva-máscara com reservatório (protocolo SAMU 192, sequência rápida de intubação)
    • Pressão máxima de ventilação de 20 cmH2O durante a ventilação assistida (protocolo SAMU 192)
    • Cateter nasal a 10 a 15 L/min sob a máscara, mantido durante a laringoscopia (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
    • Tronco elevado em torno de 25 graus quando a coluna e a maca permitirem (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
  5. Minuto 10 — induzir e bloquear

    Josimar tem progressão de rouquidão e desconforto após fumaça em ambiente fechado; a equipe prepara intubação com resgate. Quetamina é uma opção de indução, com dose ajustada à condição hemodinâmica: não garante manutenção da pressão em paciente depletado de catecolaminas, nem hipertensão crônica é uma proibição automática. A escolha do bloqueador deve conferir hipercalemia, doenças neuromusculares e outros riscos; queimadura muito recente não produz ainda o risco tardio típico da succinilcolina, mas isso não torna a droga universalmente segura. Rotular, conferir doses e garantir sedação e analgesia após o bloqueio.

    Prescrição
    • Quetamina 1,5 mg/kg endovenosa em bolus = 105 mg = 2,1 mL da solução de 50 mg/mL (recomendações da AMIB e da SBPT: 1 a 2 mg/kg; protocolo SAMU 192 traz 2 a 3 mg/kg)
    • Succinilcolina 1,5 mg/kg endovenosa em bolus = 105 mg = 10,5 mL da solução reconstituída a 10 mg/mL, ou seja, um frasco de 100 mg mais 5 mg do segundo (recomendações da AMIB e da SBPT; protocolo SAMU 192 traz 1 a 1,5 mg/kg)
    • Alternativa ao hipnótico, se a quetamina não estiver disponível: etomidato 0,3 mg/kg endovenoso = 21 mg = 10,5 mL da solução de 2 mg/mL, uma ampola inteira mais meia (recomendações da AMIB e da SBPT)
    • Alternativa ao bloqueador, se a succinilcolina for proibida: rocurônio 1,2 mg/kg endovenoso = 84 mg = 8,4 mL da solução de 10 mg/mL
  6. Minuto 11 — laringoscopar, uma vez, bem

    A parte anterior do colar é aberta e um segundo profissional segura a cabeça com as mãos espalmadas na face, em posição neutra — o protocolo nacional autoriza essa retirada temporária desde que a estabilização manual esteja garantida, e a recolocação vem depois da fixação. A tentativa dura até 20 segundos e a ventilação não fica interrompida por mais de 30. Se a fenda vocal não aparece, otimize algo concreto antes de repetir: manobra laríngea externa com a mão direita, aspirar de novo, ajustar a altura da maca, trocar a lâmina, passar o bougie sob a epiglote. Repetir o mesmo gesto na esperança de outro resultado é a definição operacional de erro de fixação, e cada repetição machuca a via aérea e piora a ventilação de resgate.

    Prescrição
    • Colar cervical aberto na parte anterior com estabilização manual mantida; recolocado após a fixação do tubo (protocolo SAMU 192, manejo de vias aéreas)
    • Tentativa de até 20 segundos; ventilação nunca interrompida por mais de 30 segundos (protocolo SAMU 192)
    • Reoxigenar com bolsa-valva-máscara entre as tentativas; máximo de três tentativas com o mesmo dispositivo (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
  7. Minuto 12 — confirmar antes de comemorar

    Após passagem, insufle o balonete o suficiente para vedar e ajuste por manometria, em geral a 20–30 cmH2O, conforme dispositivo e protocolo, sem volume fixo universal de ar. Confirme posição com capnografia contínua com curva, além de visualização da passagem, ausculta e expansão. Ausência de curva exige investigação imediata, considerando perfusão e equipamento, sem presumir que o tubo está correto. Fixe e registre profundidade, tentativas, operador e método de confirmação; reavalie após movimentação.

    Prescrição
    • Ajustar pressão do balonete com manômetro, usualmente 20–30 cmH2O conforme dispositivo; não insuflar automaticamente 8–10 mL em todo adulto.
    • Confirmação por capnografia mantida e ausculta em cinco pontos, começando pelo epigástrio (protocolo SAMU 192)
    • Sonda gástrica por via oral — a via nasal está contraindicada diante de trauma de face grave ou suspeita de fratura de base de crânio (protocolo SAMU 192)
  8. Minuto 13 — o plano B, se a laringoscopia falhou

    Duas tentativas otimizadas sem sucesso, ou a saturação caindo antes disso, encerram o plano A. Diga em voz alta que o plano inicial falhou — a recomendação da Sociedade Brasileira de Anestesiologia é explícita quanto a anunciar isso à equipe, e o motivo é que ninguém interrompe um colega que não sabe que está atrasado. Reoxigene com bolsa-valva-máscara a quatro mãos, com cânula orofaríngea. Se não melhorar, passe o dispositivo supraglótico. Se ele oxigena, você comprou tempo e espera ajuda. Se não oxigena e não se intuba, o degrau seguinte é o pescoço, e ele é do médico mais capacitado presente — não do interno. Neste ponto, o papel de quem está aprendendo é manter a ventilação a quatro mãos, cronometrar em voz alta e entregar o material aberto.

    Prescrição
    • Ventilação a quatro mãos com cânula orofaríngea e bolsa-valva-máscara com reservatório (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
    • Dispositivo supraglótico de segunda geração, com canal de drenagem gástrica, se disponível (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
    • Cricotireoidostomia cirúrgica: incisão transversal de cerca de 1,5 cm na pele e na membrana, ou incisão vertical de 2 cm na linha média se o referencial não for palpável, dilatação com instrumento rombo e cânula de traqueostomia ou tubo endotraqueal número 5 ou 6 (protocolo SAMU 192). Contraindicada abaixo de 12 anos.
    • Cânula com diâmetro interno acima de 4,0 mm, para permitir ventilação com bolsa-valva ou com ventilador convencional (recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, 2024)
  9. Minuto 15 — o perigo que vem depois do tubo

    Os cinco minutos seguintes à intubação concentram a hipotensão. Três coisas acontecem juntas: o hipnótico está no pico, o tônus simpático da dor e do medo acabou de ser removido, e a ventilação com pressão positiva reduz o retorno venoso. Meça a pressão logo depois da fixação, e de novo em três e em cinco minutos. E comece a sedação contínua imediatamente: a succinilcolina passa em minutos, o rocurônio não passa em uma hora, e um paciente bloqueado sem sedação está acordado, sentindo tudo e sem conseguir avisar. É a complicação mais silenciosa e mais cruel do procedimento inteiro.

    Prescrição
    • Sedação contínua iniciada imediatamente após a confirmação do tubo, com titulação por escala de sedação
    • Analgesia contínua associada — o tubo dói, e sedação sem analgesia não trata dor
    • Ventilação com volume corrente de 6 mL/kg de peso predito e fração inspirada de oxigênio suficiente para saturação igual ou maior que 92% (recomendações da AMIB e da SBPT)
    • Sem hiperventilação profilática: alvo de PaCO2 entre 35 e 40 mmHg (recomendações da AMIB e da SBPT; protocolo SAMU 192 no traumatismo cranioencefálico)
    • Cabeceira entre 30 e 45 graus (recomendações da AMIB e da SBPT)
  10. Hora 1 — destino e transferência

    Josimar tem via aérea protegida e agora é um queimado com lesão inalatória provável, que precisa de leito de terapia intensiva e de centro de referência em queimados. O cálculo da superfície corporal queimada, a classificação de profundidade e a reposição volêmica são do capítulo de queimaduras. O que pertence à via aérea na transferência é o seguinte: tubo fixado e marcado, sedação em infusão contínua correndo pela bomba, aspiração disponível na ambulância, material de reintubação junto do paciente, capnografia se houver, e a marca do tubo anotada no papel que vai junto. Transferência é o momento clássico de extubação acidental, e ela acontece na transposição da maca.

    Prescrição
    • Contato com a regulação médica para definição do destino (protocolo SAMU 192)
    • Na suspeita de intoxicação por monóxido de carbono, manter oxigênio em alta concentração e investigar com co-oximetria e avaliação clínica; duração e necessidade de terapia hiperbárica dependem da evolução e gravidade, não de interrupção automática após três horas.
    • Registro escrito que acompanha o paciente: calibre e marca do tubo, número de tentativas, drogas e doses administradas com horário, Glasgow anterior à sedação, pupilas e motricidade
  11. Dia 1 em diante — o que deixa de ser seu

    A partir daqui o paciente é da terapia intensiva e do centro de queimados: broncoscopia para avaliar a extensão da lesão inalatória, decisão sobre traqueostomia, desmame. Vale conhecer um número: as recomendações da AMIB e da SBPT sugerem traqueostomia precoce, em até sete dias, no traumatizado com estimativa de suporte ventilatório prolongado, e especificamente no traumatismo cranioencefálico grave com Glasgow abaixo de 8, ressalvando que não há evidência de redução de mortalidade. O interno não decide isso; o interno precisa saber que a pergunta existe e chega por volta do quinto dia.

    Prescrição
    • Sem prescrição nova de via aérea neste marco: reavaliação diária da indicação de traqueostomia pela equipe assistente (recomendações da AMIB e da SBPT)
09

Como saber se está funcionando

A via aérea é o único sistema em que a reavaliação muda de natureza no meio do caminho. Antes do tubo, você acompanha uma trajetória para decidir o momento de agir. Depois do tubo, você acompanha um dispositivo que pode sair do lugar, entupir ou estar no lugar errado desde o início. São dois conjuntos diferentes de parâmetros e dois relógios diferentes.

A regra que atravessa os dois é a mesma: toda vez que o paciente muda de posição — da maca para a prancha, da prancha para o tomógrafo, do tomógrafo para a ambulância —, reconfirme tudo. A maioria das extubações acidentais acontece em transposição, e a maioria das intubações seletivas do brônquio direito aparece depois de alguém puxar o tubo sem querer.

A voz, no paciente que ainda não foi intubadoA cada 10 minutos no queimado de ambiente fechado, no trauma de face e no ferimento cervical; imediatamente a qualquer queixa nova de garganta.

Esperado: A mesma voz do registro de base, sem rouquidão nova, sem esforço para engolir, sem estridor.

Se não melhora: Voz mais rouca, abafada, sialorreia, pigarro que aumenta ou dificuldade nova para engolir são deterioração, mesmo com saturação de 98%. Isso não é motivo para reavaliar em mais dez minutos: é motivo para chamar quem intuba e intubar agora.

O pescoço, no ferimento cervical e no trauma fechado de pescoçoA cada 10 minutos, com inspeção e palpação comparativa; medindo o contorno com fita se houver dúvida.

Esperado: Contorno estável, sem abaulamento novo, sem desvio de traqueia, sem enfisema subcutâneo que se estenda.

Se não melhora: Hematoma que cresce comprime e desloca a laringe, e transforma uma intubação de rotina em impossível em minutos. Crescimento visível é indicação de via aérea definitiva imediata, com o kit cirúrgico aberto e a membrana já marcada, antes que o pescoço perca as referências anatômicas.

Saturação durante a pré-oxigenaçãoContinuamente nos 3 a 5 minutos que antecedem a indução.

Esperado: Subida até 96% ou mais e estabilização nesse patamar antes de empurrar as drogas.

Se não melhora: Paciente que não passa de 90% com máscara com reservatório em fluxo alto tem pouquíssimo tempo de apneia segura, e vai dessaturar durante a laringoscopia. Avalie ventilação assistida suave com bolsa-valva-máscara antes da indução, garanta a oxigenação apneica por cateter nasal e reveja se há causa torácica associada — o que remete ao capítulo de trauma torácico.

Capnografia logo após a intubaçãoNas primeiras seis ventilações após a passagem do tubo, e continuamente depois.

Esperado: Curva de gás carbônico expirado presente, com formato regular, mantida ventilação após ventilação.

Se não melhora: Curva ausente ou que aparece nas duas primeiras ventilações e some indica tubo no esôfago até prova em contrário: retire, ventile com máscara, reoxigene e reavalie. Em parada cardiorrespiratória, o gás carbônico expirado pode estar muito baixo por débito nulo, e aí a confirmação depende de visualização direta e dos demais sinais somados.

Pressão arterial nos cinco minutos após a induçãoImediatamente após a fixação do tubo, aos 3 e aos 5 minutos, e depois a cada 5 minutos na primeira meia hora.

Esperado: Manutenção da pressão prévia, ou queda pequena e que se recupera com volume.

Se não melhora: Reavaliar causas de hipotensão e suporte em paralelo. No TCE, evitar hipotensão permissiva e individualizar meta, em geral PAS ≥110 mmHg no percurso ACS 2024; ajustar indução, ventilação, reposição e vasopressor à fisiologia.

Simetria e marca do tuboApós a fixação, após cada transposição de maca e ao chegar em cada novo setor.

Esperado: Mesma marca em centímetros na arcada dentária, murmúrio simétrico, expansão simétrica.

Se não melhora: Murmúrio abolido à esquerda com marca aumentada é intubação seletiva do brônquio direito: desinsufle o balonete, tracione um a dois centímetros, reinsufle e reausculte. Se a marca está igual e o murmúrio sumiu, a hipótese muda para pneumotórax.

Pressão de pico e resistência à ventilaçãoContinuamente, e a cada piora súbita da saturação em paciente já intubado.

Esperado: Ventilação fácil, com pressões estáveis.

Se não melhora: Diante de deterioração súbita em paciente intubado, verifique nesta ordem: deslocamento do tubo, obstrução por secreção ou mordedura, pneumotórax, e falha de equipamento ou de fonte de oxigênio. Desconectar do ventilador e ventilar manualmente com a bolsa separa o problema do paciente do problema da máquina em dez segundos.

Sedação e bloqueio residualNos primeiros 10 minutos após o bloqueador, e continuamente depois.

Esperado: Paciente sedado em infusão contínua, com analgesia associada, antes que o efeito do bloqueador termine.

Se não melhora: Rever analgesia e sedação, administração real das drogas, oxigenação, ventilação e hemodinâmica. Não interpretar imobilidade como ausência de dor nem sinais autonômicos isolados como prova de consciência.

O exame neurológico que você não tem maisUma única vez, antes da sedação, e depois a cada oportunidade em que a sedação for aliviada com segurança pela equipe assistente.

Esperado: Glasgow, pupilas e motricidade registrados com hora no prontuário antes de qualquer droga.

Se não melhora: Se o registro não foi feito, diga isso explicitamente na passagem de plantão e no papel — 'Glasgow não avaliado antes da sedação'. Inventar um valor retrospectivo é pior do que a lacuna, porque contamina a decisão neurocirúrgica seguinte. Pupilas continuam avaliáveis sob sedação e viram o principal parâmetro disponível.

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Onde o erro machuca

Esperar a saturação cair para decidir

O dano: A curva de dissociação da hemoglobina é plana acima de uma pressão parcial de oxigênio de 60 mmHg: a saturação só começa a cair quando a reserva já acabou, e a partir daí ela despenca. No queimado e no trauma de face, somam-se dois relógios — o da oxigenação e o do edema. Quando a saturação cai, a laringe já está estreita, e a tentativa que teria sido fácil vira a tentativa que fracassa.

Como pegar a tempo: Trate o oxímetro como monitor de consequência, não como gatilho de decisão. O gatilho é a soma de mecanismo (fogo em ambiente fechado, trauma direto de face ou pescoço) com sinais de trajetória (voz que muda, pigarro que aumenta, hematoma que cresce). Registre a voz de base com hora e reavalie a cada 10 minutos: a comparação é que revela a trajetória.

Sedar o traumatizado agitado para conseguir examiná-lo

O dano: Agitação em traumatizado é hipóxia até prova em contrário, e o esforço respiratório é o que está compensando. Uma dose de benzodiazepínico remove esse esforço sem remover a causa: o paciente para de brigar e passa a hipoventilar, e o próximo sinal é a dessaturação. É um dos poucos erros deste capítulo que fabrica a emergência que se pretendia evitar.

Como pegar a tempo: Antes de qualquer sedativo, ofereça oxigênio, meça glicemia, procure choque e reavalie. Se a agitação impede o cuidado necessário, a resposta é intubar com sequência completa, com equipe e material prontos — não sedar parcialmente.

Dar dose cheia de hipnótico no paciente que está sangrando

O dano: A pressão normal do sangramento compensado é sustentada por tônus simpático. O hipnótico o abole e a ventilação com pressão positiva reduz o retorno venoso: as duas agressões chegam juntas em quem já perdeu volume, e o resultado pode ser hipotensão profunda ou parada em atividade elétrica sem pulso, um a três minutos depois do tubo.

Como pegar a tempo: Ressuscite antes de induzir sempre que houver segundos para isso: volume e sangue correndo, vasopressor preparado. Escolha quetamina ou etomidato, que as recomendações da AMIB e da SBPT indicam particularmente no hipotenso, e reduza a dose do hipnótico — no choque, cerca de metade. A dose do bloqueador neuromuscular não se reduz: ele não mexe na pressão, e uma paralisia incompleta piora a laringoscopia.

Bloquear e não manter a sedação

O dano: O bloqueador paralisa, não sedou nem analgesiou. Depois do rocurônio, que ultrapassa uma hora, o paciente pode ficar acordado, com tubo na traqueia, sentindo dor e sem qualquer meio de avisar. Além do sofrimento, há consequência tardia documentada em memória traumática e transtorno de estresse pós-traumático.

Como pegar a tempo: Garantir analgesia e sedação após a intubação, mesmo durante bloqueio neuromuscular. Taquicardia, hipertensão, sudorese ou lacrimejamento exigem avaliar sedação inadequada, dor, hipóxia e outras causas; não demonstram consciência por si sós. Conferir acesso, bomba, doses e monitorização com a equipe.

Repetir a mesma tentativa, com a mesma lâmina, pelo mesmo operador

O dano: Cada tentativa sangra, edemacia e piora a ventilação de resgate. O que era 'difícil de intubar mas fácil de ventilar' vira 'não intubo, não ventilo' — e essa conversão quase sempre é iatrogênica, produzida pela terceira e pela quarta tentativa. O mecanismo cognitivo tem nome: erro de fixação, em que o operador se prende a um aspecto e perde o quadro.

Como pegar a tempo: Cada nova tentativa exige uma mudança concreta: outro operador, outra lâmina, bougie, videolaringoscópio, manobra laríngea externa, reposicionamento. As recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia limitam a três as tentativas com o mesmo dispositivo e mandam otimizar a oxigenação a cada nova tentativa. Alguém da sala fica com a função explícita de cronometrar e dizer os números em voz alta.

Laringoscopar com o colar fechado, ou hiperextender o pescoço para melhorar a vista

O dano: O colar limita a abertura da boca e a mobilidade da mandíbula: com ele fechado, a laringoscopia fica pior e a tentativa se prolonga. Hiperextender resolve a vista e arrisca a medula em coluna presumidamente instável — e a lesão medular alta produz dano permanente que nenhuma via aérea compensa.

Como pegar a tempo: Abra a parte anterior do colar e mantenha a estabilização manual em posição neutra, com um segundo profissional dedicado apenas a isso; o protocolo nacional autoriza essa retirada temporária desde que a estabilização esteja garantida, e a recolocação vem depois da fixação. A vista se melhora com manobra laríngea externa e com bougie, não com o pescoço.

Confiar só na ausculta para confirmar o tubo

O dano: A intubação esofágica não reconhecida mata em minutos e é silenciosa: o paciente já estava mal, a saturação demora a cair porque foi pré-oxigenado, e a equipe atribui a piora à doença de base. Em sala barulhenta, com obeso, com hemotórax ou com estômago insuflado, o epigástrio e a base esquerda soam parecidos.

Como pegar a tempo: Capnografia mantida por várias ventilações sempre que existir; onde não existe, some visualização direta do tubo passando pelas cordas, ausculta em cinco pontos começando pelo epigástrio, expansão simétrica e condensação. Diante de dúvida que não se resolve, retire o tubo e ventile com máscara.

Hiperventilar o traumatizado cranioencefálico logo depois de intubar

O dano: A vontade de 'ajudar o cérebro' faz a equipe ventilar rápido. A hipocapnia produz vasoconstrição cerebral e reduz o fluxo justamente na área de penumbra, convertendo tecido em risco em tecido infartado. É dano por excesso de zelo, e acontece com a bolsa na mão de quem está ansioso.

Como pegar a tempo: As recomendações da AMIB e da SBPT proíbem a hiperventilação profilática ou prolongada e fixam a PaCO2 alvo entre 35 e 40 mmHg; a hiperventilação aguda fica reservada ao resgate da herniação. O protocolo nacional repete a mesma proibição no traumatismo cranioencefálico. Ventile contando: seis a oito por minuto com a bolsa, e monitorize o gás carbônico.

Passar sonda ou tubo pelo nariz no trauma de face grave

O dano: Diante de fratura de base de crânio, o trajeto nasal pode levar o dispositivo para dentro da cavidade craniana. É complicação rara e catastrófica, e as pistas estavam no exame: rinorreia clara, equimose periorbitária bilateral, hematoma retroauricular, sangramento nasal persistente.

Como pegar a tempo: O protocolo nacional contraindica a intubação nasotraqueal na suspeita de fratura de base de crânio e no trauma de face grave. A regra prática é simples: no traumatizado de face, tudo entra pela boca — tubo e sonda gástrica.

Levar para a tomografia quem tem via aérea ameaçada e não protegida

O dano: A sala de imagem é o pior lugar do hospital para uma emergência de via aérea: poucas pessoas, nenhum material aberto, o paciente dentro do anel e a cabeça fora do alcance. O trajeto e a transposição de maca ainda adicionam risco de extubação e de vômito.

Como pegar a tempo: Quando as duas indicações coexistem, a ordem é tubo primeiro, imagem depois. Se a imagem for imprescindível antes, ela vai com a equipe completa, com o material aberto acompanhando o paciente e com alguém dedicado exclusivamente à via aérea.

Anotar o Glasgow depois de sedar

O dano: O exame neurológico registrado sob efeito de hipnótico e bloqueador não descreve o paciente, descreve as drogas. Esse número vai para a folha, atravessa a transferência e chega ao neurocirurgião como se fosse achado clínico — e pode indicar ou contraindicar uma craniotomia com base em nada.

Como pegar a tempo: Glasgow, pupilas e motricidade dos quatro membros ficam registrados com hora antes da primeira droga; é um item do preparo, como testar o balonete. Se não foi possível, escreva que não foi avaliado e diga isso na passagem — a lacuna honesta é utilizável, o número inventado não.

Não localizar a membrana cricotireóidea antes de começar

O dano: Procurar o referencial anatômico no momento em que o paciente está dessaturando e o pescoço já foi manipulado é a receita da via cirúrgica tardia e mal posicionada. No obeso, no pescoço curto e no hematoma cervical, a palpação já era difícil antes; depois de cinco minutos de tentativas, é pior.

Como pegar a tempo: Palpe e marque com caneta durante o preparo, com o paciente ainda acordado. Se a palpação não identifica, as recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia indicam a identificação por ultrassom, com técnica de aprendizado rápido e retenção duradoura.

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O que dizer ao paciente e à família

Há três interlocutores na sala de via aérea e os três precisam de frases diferentes. O paciente, que ainda ouve e ainda tem medo; a família, que está do outro lado da porta e vai receber a notícia de que ele 'está entubado'; e a equipe, que precisa saber o plano antes de ele falhar. A conversa com a equipe é a que mais salva vida e a que menos se ensina.

Ao paciente que ainda fala, antes de induzir

'Josimar, você respirou fumaça e sua garganta está começando a inchar por dentro. Ela ainda está aberta, e é por isso que a gente vai agir agora, enquanto é seguro. Vou te dar um remédio que faz você dormir e colocar um tubo para respirar por você. Você não vai sentir e não vai lembrar. Quando acordar, o tubo pode ainda estar aí e você não vai conseguir falar — vai ser assim por um tempo, e é esperado. Tem alguém que você quer que a gente avise agora?'

Não diga: 'Fica calmo que é rapidinho.' Diminuir o procedimento nunca acalma e sempre custa confiança depois. Também evite decidir sem contar: o paciente consciente que é sedado sem explicação acorda com a sensação de ter sido atropelado pelo próprio tratamento.

Quando a decisão é intubar alguém que 'parece bem'

'Eu sei que ele está falando com a senhora e que parece bem. O problema é que a fumaça queimou a garganta por dentro, e esse inchaço piora nas próximas horas. Se a gente esperar ele piorar, colocar o tubo fica muito mais perigoso. A gente está agindo cedo de propósito.'

Não diga: Aceitar a discussão sobre 'esperar mais um pouco para ver'. A família tem direito a entender e a fazer perguntas; a decisão de proteger a via aérea não é negociável nesse ponto, e fingir que é gera um conflito pior quando a piora vier.

Você é o interno e viu algo que a equipe não viu

'A voz dele mudou desde as nove e doze — eu anotei. Está mais rouca agora, e ele está limpando a garganta a cada minuto.' Dado, hora e comparação. Nada mais.

Não diga: 'Acho que talvez ele esteja um pouco pior, mas não sei, posso estar enganado.' A hesitação faz o interlocutor descartar a informação junto com a insegurança. Diga o dado; a interpretação é de quem conduz.

Anunciar à sala que o plano A falhou

'Segunda tentativa sem sucesso, saturação 91 e caindo, tempo de dois minutos e quarenta. Vou parar de tentar intubar e ventilar com máscara. Alguém abre a máscara laríngea e alguém traz o kit cirúrgico para a mesa.'

Não diga: Continuar em silêncio na terceira tentativa. O silêncio faz a equipe supor que está tudo dentro do plano, e ninguém interrompe quem parece no controle. Anunciar a falha é o que autoriza a sala a mudar de plano.

Pedir para alguém assumir

'Não estou conseguindo. Assume comigo, por favor.' Dito no primeiro momento em que a dúvida aparece, não no último.

Não diga: Insistir por vergonha. O custo de admitir cedo é o seu constrangimento; o custo de admitir tarde é hipóxia cerebral do paciente. A troca é óbvia quando escrita, e difícil quando se está de pé com o laringoscópio na mão — por isso vale combinar antes, em voz alta, quem assume se a coisa não sair.

À família, quando o paciente já está intubado

'Ele está com um tubo que respira por ele e com remédio para dormir, para não sentir dor e não brigar com o aparelho. Ele não está em coma por causa de uma piora do cérebro; está dormindo por causa do remédio. A gente vai reduzir esse remédio quando a garganta desinchar, e aí vamos ver como ele está.'

Não diga: 'Ele está em coma.' A família ouve prognóstico onde havia farmacologia, e essa confusão persiste por dias. Distinguir sedação de rebaixamento é a informação mais útil que se pode dar nesse momento.

Quando não foi possível garantir a via aérea e o paciente morreu

'A garganta dele fechou por dentro por causa da queimadura. A gente tentou colocar o tubo, tentou por fora do pescoço, e não conseguiu passar ar a tempo. Ele morreu por isso. Eu sinto muito. Vou ficar aqui e responder o que a senhora quiser perguntar, agora ou depois.'

Não diga: Explicar com termos técnicos encadeados para amortecer a notícia, e prometer que 'foi feito tudo' antes de dizer o que aconteceu. Diga o fato, faça silêncio, e depois responda. A técnica passo a passo dessa conversa é de um capítulo próprio, sobre comunicação de más notícias.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quetamina no traumatizado cranioencefálico: proibida ou preferida?

Evitar em pressão intracraniana elevada

A tabela farmacológica da sequência rápida do protocolo nacional lista, entre as observações da cetamina, evitar em pressão intracraniana elevada e na iminência de herniação de tronco. É a posição clássica, apoiada na hipótese de que a droga aumentaria a pressão intracraniana, e é a que o interno encontra impressa na parede de muitas salas de emergência no país.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo de sequência rápida de intubação

Usar justamente no neurológico hipotenso

As recomendações brasileiras de ventilação mecânica sugerem sequência rápida no paciente com suspeita ou confirmação de hipertensão intracraniana usando sedativo de baixo efeito cardiodepressor, e nomeiam a cetamina em 1 a 2 mg/kg endovenosa como uma das duas opções, ao lado do etomidato, particularmente nos hipotensos ou sob risco de hipotensão. A justificativa é hemodinâmica: manter a pressão de perfusão cerebral pesa mais do que uma variação de pressão intracraniana que os estudos recentes não confirmam.

Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Parte 2, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2014;26(3):215-239

Como decidir

A escolha atual deve considerar fisiologia e contraindicações reais, com equipe habilitada. Quetamina não é proibida universalmente no TCE ou pela presença de hipertensão crônica, mas também pode causar hipotensão em pacientes graves. Não equiparar ressalva de protocolo antigo a veto universal; ajustar dose e ter plano para deterioração hemodinâmica.

A dose da quetamina: 1 a 2 mg/kg ou 2 a 3 mg/kg?

2 a 3 mg/kg endovenosa

O protocolo nacional traz a cetamina em 2 a 3 mg/kg endovenosa como opção de hipnótico na sequência rápida, com apresentação de 50 mg/mL. Num adulto de 70 kg, o teto dessa faixa corresponde a 210 mg, ou 4,2 mL.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo de sequência rápida de intubação

1 a 2 mg/kg endovenosa

As recomendações brasileiras de ventilação mecânica trazem a cetamina em 1 a 2 mg/kg endovenosa, tanto na seção de intubação do paciente neurológico quanto na de crise asmática. No mesmo adulto de 70 kg, o teto dessa faixa corresponde a 140 mg, ou 2,8 mL.

Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Partes I e 2, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2014;26(2):89-121 e 26(3):215-239

Como decidir

Use a faixa de quetamina adotada na tabela como referência e ajuste a dose à fisiologia, com a equipe habilitada. Mesmo esse fármaco pode causar hipotensão no paciente grave; prepare suporte hemodinâmico e acompanhe a resposta. A diferença entre protocolos não dispensa avaliação individual.

Ventilar ou não entre a indução e a laringoscopia

Não ventilar, e comprimir a cricoide

A sequência rápida clássica existe para minimizar o intervalo entre a abolição dos reflexos protetores e a colocação do tubo, evitando insuflar o estômago e reduzindo o risco de broncoaspiração; o protocolo nacional descreve esse objetivo explicitamente e inclui a compressão da cartilagem cricoide entre os passos do procedimento. As recomendações brasileiras de ventilação mecânica também mencionam a manobra como opção para minimizar o risco.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016; Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Parte I

Ventilar com suavidade, e questionar a compressão

As recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia registram que a ventilação suave sob máscara entre a indução e a laringoscopia reduziu a incidência de hipoxemia sem aumentar a taxa de aspiração pulmonar em estudo multicêntrico extenso, e apresentam a oxigenação apneica como estratégia adicional. As próprias recomendações brasileiras de ventilação mecânica sugerem não usar a compressão cricoide na intubação do paciente com crise asmática.

Recommendations from the Brazilian Society of Anesthesiology (SBA) for difficult airway management in adults, Brazilian Journal of Anesthesiology, 2024;74(1):744477; Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013

Como decidir

Avalie a reserva de oxigênio e a eficácia da pré-oxigenação. Hipoxemia persistente, obesidade, gestação e choque reduzem a tolerância à apneia e podem exigir ventilação suave com pressão limitada, conforme a técnica descrita. Considere simultaneamente o risco de insuflação gástrica e aspiração. Se a compressão da cricoide dificultar a visualização ou a ventilação, peça sua liberação e reavalie antes de repetir a tentativa.

Quantas tentativas antes de mudar de plano

Três tentativas por médico experiente definem via aérea difícil

As recomendações brasileiras de ventilação mecânica estabelecem que, após três tentativas de intubação sem sucesso por médico experiente, considera-se via aérea difícil, devendo-se seguir as normatizações próprias. O protocolo nacional acrescenta o limite de tempo: cada tentativa dura até 20 segundos e a ventilação não fica interrompida por mais de 30.

Recomendações brasileiras de ventilação mecânica 2013, Parte I, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2014;26(2):89-121; Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016

Três é o teto por dispositivo, e trocar cedo é melhor que repetir

As recomendações da Sociedade Brasileira de Anestesiologia limitam a três o número máximo de tentativas com o mesmo dispositivo, mandam otimizar a oferta de oxigênio a cada nova tentativa e alertam que múltiplas tentativas com o mesmo dispositivo causam trauma de via aérea, pioram a ventilação sob máscara e conduzem ao cenário de não intubar e não ventilar.

Recommendations from the Brazilian Society of Anesthesiology (SBA) for difficult airway management in adults, Brazilian Journal of Anesthesiology, 2024;74(1):744477

Como decidir

Nomeie uma mudança concreta antes de cada nova tentativa, como posição, dispositivo ou operador. O percurso deste capítulo prevê no máximo duas tentativas antes do dispositivo de resgate. A oxigenação tem prioridade sobre a contagem: interrompa a tentativa diante de deterioração e retome a ventilação. Repetir a mesma abordagem sem ajuste acrescenta trauma e reduz a chance de sucesso.

Cricotireoidostomia: via aérea definitiva ou ponte para a traqueostomia?

Converter, porque a evidência não sustenta mantê-la

A revisão sistemática brasileira sobre cricotireoidostomia de emergência reuniu nove estudos retrospectivos e 316 procedimentos, encontrou complicações precoces de zero a 31,6% e tardias de zero a 7,86%, com estenose subglótica em 2,9% a 5%, e concluiu que o baixo nível de evidência não permite recomendar o procedimento como via aérea definitiva segura de rotina.

Macêdo MB e colaboradores, Cricotireoidostomia de emergência: medida contemporizadora ou via aérea definitiva? Uma revisão sistemática, Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 2016;43(6):493-499

Não converter por rotina, porque a conversão também tem custo

A mesma revisão mostra que a conversão para traqueostomia variou de zero a 100% entre os serviços e foi feita entre 1 e 17 dias, sem que a heterogeneidade permitisse identificar vantagem de uma conduta sobre a outra. O protocolo nacional trata a cricotireoidostomia como técnica de resgate e como técnica de escolha para a via aérea cirúrgica no adulto, sem impor conversão programada.

Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, 2ª edição, 2016, protocolo de cricotireoidostomia cirúrgica

Como decidir

A discussão sobre conversão posterior não deve atrasar a via aérea cirúrgica no cenário de falha de intubação e oxigenação. Após estabilizar, a equipe avalia duração prevista da ventilação, posição e funcionamento da cânula e condições para traqueostomia eletiva. Cânula funcionante e suporte breve podem permitir observação; ventilação prolongada ou funcionamento inadequado exigem planejamento específico. Evite conversão precipitada apenas para cumprir um prazo.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao Josimar. Homem de 38 anos, 70 quilos, resgatado de um galpão de solda em chamas com o portão fechado, cerca de quarenta minutos atrás. Chegou andando, senta sozinho, fala frases inteiras. Saturação 97% em ar ambiente, pressão 132 por 78, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 20. Sobrancelhas e vibrissas chamuscadas, fuligem na saliva, voz rouca que ele atribui à fumaça. Queixa principal: dor no punho esquerdo. O hospital tem laringoscópio, tubos, aspirador, máscara laríngea e kit de pequena cirurgia; não tem videolaringoscópio e o capnógrafo está no centro cirúrgico.

  1. o que penso antes de encostar nele

    Duas coisas competem pela minha atenção e uma delas é falsa. A queixa é o punho; o problema é o pescoço por dentro. O mecanismo — fogo em ambiente fechado — já basta para colocar lesão inalatória no topo da lista, e os achados de inspeção confirmam: vibrissas chamuscadas e fuligem na saliva. A saturação de 97% não me tranquiliza, porque ela mede consequência e o que eu preciso saber é trajetória. A pergunta que estou respondendo não é 'ele está bem?', é 'ele vai continuar assim pelas próximas duas horas?'.

  2. o que peço

    Peço que ele diga o nome, a idade e o que aconteceu — e ouço a voz, não só a resposta. Peço que abra a boca, e olho língua, orofaringe e dentes. Olho o pescoço e palpo. Pergunto ao colega que veio junto se a voz dele mudou desde o resgate. Anoto tudo com hora. Não peço gasometria, não peço radiografia e não peço tomografia neste momento: nenhum deles responde a pergunta da trajetória, e todos consomem os minutos em que a laringoscopia ainda é fácil.

  3. como a resposta muda o que penso

    A voz sai rouca e ele engole com desconforto. O colega diz que ele começou a limpar a garganta há uns dez minutos e que antes não fazia isso. Isso transforma o quadro: não é uma via aérea pérvia e estável, é uma via aérea pérvia e ameaçada, com trajetória de piora documentada em dez minutos. A decisão sai do campo do 'observar' e entra no campo do 'agora'. Digo em voz alta: este paciente vai ser intubado agora.

  4. o que faço enquanto a ajuda não chega

    Chamo pelo nome o médico mais experiente do plantão e digo o motivo em uma frase. Coloco máscara com reservatório a 15 L/min e elevo a cabeceira a 30 graus. Peço dois acessos periféricos calibrosos e glicemia capilar. Registro Glasgow 15, pupilas isocóricas e fotorreagentes, força preservada nos quatro membros, com hora — porque em dez minutos esse exame vai deixar de existir. E começo a abrir o material sobre a mesa, incluindo o kit cirúrgico.

  5. por que a escolha das drogas é esta

    Com o operador responsável, confiro as opções e contraindicações. Para o exemplo de 70 kg, quetamina 1,5 mg/kg corresponde a 105 mg ou 2,1 mL de 50 mg/mL; a dose real depende da fisiologia. Succinilcolina 1,5 mg/kg corresponde a 105 mg ou 10,5 mL de 10 mg/mL, após conferir riscos; rocurônio é alternativa conforme o caso. Não interpreto taquicardia como necessariamente ansiedade nem a queimadura recente como garantia de segurança. Preparo analgesia e sedação pós-intubação antes de começar.

  6. como preparo a falha antes de ela acontecer

    Anuncio operador, estratégia de primeira tentativa e resgate, com oxigenação, aspiração e material conferidos. A equipe procura capnografia imediatamente; visualização, ausculta e condensação não têm desempenho equivalente. Se a ameaça não permitir aguardar o aparelho, o operador decide o manejo urgente, documenta as limitações e obtém confirmação adequada assim que possível. O interno auxilia sob supervisão, sem assumir sozinho uma via aérea difícil.

  7. o que faço nos cinco minutos seguintes ao tubo

    Pré-oxigenei cinco minutos com máscara com reservatório e cateter nasal a 15 L/min por baixo, que fica no lugar durante a laringoscopia. Depois do tubo confirmado e fixado, anoto a marca na arcada e recoloco o colar — que aqui nem existe, porque não houve mecanismo de coluna, mas existiria num acidente de trânsito. Começo sedação e analgesia contínuas imediatamente, antes que a succinilcolina passe. Meço a pressão na fixação, aos três e aos cinco minutos. E só então volto ao punho esquerdo, que continua quebrado e continua sendo o problema menos importante da noite.

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Faça você

Outro paciente, outra noite. Homem de 24 anos, 100 quilos, motociclista, colisão frontal com automóvel há vinte minutos, veio de ambulância em prancha e colar. Está acordado e agitado, com Glasgow 13. Fratura evidente de mandíbula, sangue escorrendo pela boca, e ele se recusa a ficar deitado — quando o deitam, engasga e senta de novo. Pressão 88 por 60, frequência cardíaca 128, frequência respiratória 28, saturação 93% com máscara. Abdome doloroso à palpação. O plantão tem dois médicos, laringoscópio, tubos, bougie, aspirador, máscara laríngea e kit de pequena cirurgia. Sem videolaringoscópio, sem capnógrafo.

  1. por que ele tem indicação de via aérea definitiva

    Ele preenche três indicações independentes, e nenhuma delas é o Glasgow. Primeira: não consegue proteger a própria via aérea, porque há sangue na boca e ele engasga em decúbito dorsal. Segunda: a fratura de mandíbula com perda de sustentação da língua produz obstrução na posição supina — e é exatamente por isso que ele senta. Terceira: está em choque e vai precisar de exames, de sala e provavelmente de cirurgia, e a via aérea não vai ficar disponível para ser resolvida no meio disso.

  2. por que ele é, ao mesmo tempo, o pior candidato à indução

    Pressão de 88 por 60 com frequência de 128 é choque compensado por tônus simpático. O hipnótico abole esse tônus e a ventilação com pressão positiva reduz o retorno venoso; as duas coisas juntas, num paciente que está sangrando no abdome, produzem hipotensão profunda nos primeiros minutos depois do tubo. O manejo do sangramento em si é do capítulo de choque hemorrágico no trauma; aqui, o que importa é que a hemodinâmica muda a droga e a dose.

  3. por que a agitação não pede sedação isolada

    Ele está agitado por hipóxia e por choque, não por temperamento. Uma dose de benzodiazepínico para 'facilitar o exame' removeria o esforço respiratório que sustenta a saturação de 93% e o transformaria em apneico com a boca cheia de sangue. A agitação aqui é indicação de intubar com sequência completa, não de sedar um pouco.

  4. o que se prepara antes da primeira tentativa

    Aspirador de ponta rígida testado e na mão de quem intuba, porque a boca está cheia de sangue e a laringoscopia vai depender disso mais do que da lâmina. Bougie aberto. Máscara laríngea fora do pacote, sabendo que ela protege mal contra aspiração e que aqui é só ponte. Kit cirúrgico aberto e membrana cricotireóidea palpada e marcada, o que num pescoço de 100 quilos vale ainda mais. Volume correndo e vasopressor preparado antes de qualquer droga. Um profissional dedicado só à estabilização manual da cabeça, com a parte anterior do colar aberta.

  5. quais drogas, em que dose, e em quantos mililitros

    — sua vez —

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Siga Josimar desde a mudança da voz até o transporte com tubo confirmado, sedação, analgesia e vigilância da pressão e ventilação.

  7. Questão integrativa 1

    SpO2 de 97% exclui lesão inalatória ou intoxicação por CO?

  8. Questão integrativa 2

    Toda dúvida sobre edema obriga intubação?

  9. Questão integrativa 3

    Quetamina garante pressão estável?

  10. Questão integrativa 4

    O balonete deve receber sempre dez mililitros?

  11. Questão integrativa 5

    Condensação no tubo equivale à capnografia?

  12. Questão integrativa 6

    Bloqueio neuromuscular substitui sedação e analgesia?

Ver como fecharíamos

A resposta do último passo é a de um paciente de 100 quilos em choque, e ela tem três decisões dentro. Hipnótico: quetamina em dose reduzida, 1 mg/kg, que dá 100 mg ou 2 mL da solução de 50 mg/mL — metade da dose habitual, porque a reserva simpática dele já está gasta e a droga que 'sustenta a pressão' faz isso liberando catecolaminas que talvez não existam mais. Se o serviço prefere etomidato, a dose é 0,3 mg/kg, ou 30 mg, ou 15 mL da solução de 2 mg/mL — e repare que isso é mais que a ampola inteira de 20 mg, então são duas ampolas. Bloqueador: succinilcolina em dose plena, 1,5 mg/kg, ou 150 mg, ou 15 mL da solução reconstituída a 10 mg/mL, o que também exige um segundo frasco, já que cada um tem 100 mg. A dose do bloqueador não se reduz: ele não mexe na pressão, e paralisia incompleta piora a laringoscopia justamente no paciente em que ela já é difícil. Se houvesse contraindicação à succinilcolina, seria rocurônio 1,2 mg/kg, ou 120 mg, ou 12 mL da solução de 10 mg/mL — duas ampolas e meia de 50 mg. E há uma quarta decisão, que não é farmacológica: com trauma de face, sangue na boca, obesidade e choque, este é um paciente de via aérea previsivelmente difícil, e a primeira tentativa deve ser do operador mais experiente presente, com o segundo médico livre e ao lado, não conduzindo outra coisa. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. A via aérea pode estar piorando e o oxímetro convencional é limitado na presença de carboxiemoglobina. 2. Não isoladamente. A equipe avalia progressão, exame, risco de transporte e possibilidade de resgate, agindo antes de obstrução estabelecida quando indicado. 3. Não. A resposta depende da fisiologia, especialmente da reserva catecolaminérgica; ajustar dose e preparar suporte. 4. Não. Ajustar vedação e pressão com manômetro conforme dispositivo; volume fixo pode causar lesão ou vazamento. 5. Não. A confirmação deve incluir capnografia com curva e avaliação clínica; sinais isolados não garantem posição. 6. Não. Ele impede movimento, mas não trata consciência ou dor; manter analgesia e sedação adequadas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A soma de mecanismo (fogo em ambiente fechado), sinais diretos de queimadura de via aérea (vibrissas chamuscadas, fuligem no escarro) e trajetória de piora documentada (voz que mudou em dez minutos) já preenche indicação de via aérea definitiva pelo protocolo nacional e pela cartilha de queimaduras do Ministério da Saúde. A saturação de 97% não afasta nada: a curva de dissociação da hemoglobina é plana acima de uma PaO2 de 60 mmHg, e por isso a oximetria só cai quando a reserva acabou. Esperar gasometria, imagem ou o aparecimento de estridor troca uma laringoscopia factível por uma via aérea que já não aceita tubo, e a nebulização não reverte edema térmico instalado.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar nada, escreva as sete indicações de via aérea definitiva no traumatizado e, ao lado de cada uma, se ela permite esperar ou não. Depois escreva os quatro estados de via aérea e o achado que faz o paciente passar do segundo para o terceiro. Por fim, calcule de cabeça e confira na calculadora: quetamina 1,5 mg/kg e succinilcolina 1,5 mg/kg para 60, 80 e 95 quilos, em miligramas e em mililitros, com as apresentações de 50 mg/mL e de 100 mg reconstituídos em 10 mL. Anote quantos frascos de cada um você precisaria abrir.

Em 30 dias

Pegue os dois casos deste capítulo e mude um dado de cada vez, observando onde a decisão quebra. E se Josimar tivesse chegado com saturação de 88%, em vez de 97% — o que muda na pressa, na pré-oxigenação e na escolha do bloqueador? E se a queimadura dele fosse de três dias atrás, em vez de quarenta minutos? E se o motociclista tivesse pressão de 140 por 90 em vez de 88 por 60 — a dose do hipnótico muda, e a do bloqueador? E se o serviço não tivesse máscara laríngea: em que ponto do plano isso muda a conduta, e quem executa o degrau seguinte?

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 31 anos resgatado de um incêndio em residência com portas fechadas há cerca de uma hora, trazido pelos bombeiros, acordado, falando, saturando 96% em ar ambiente, com fuligem ao redor das narinas e rouquidão. Ele quer ir embora porque precisa avisar a família. Decida o que fazer com a via aérea dele, diga em voz alta o que pede à equipe e explique a ele por que a espera não é opção.

Via aérea no trauma — Internato | OsceLabs