Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

A pele é a última a saber

Infecções necrosantes de partes moles

Reconhecer a infecção profunda antes da necrose visível, iniciar suporte e antimicrobianos e organizar desbridamento cirúrgico imediato.

Fontes deste capítulo

Sartelli M, Coccolini F, Kluger Y, et al. WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections. World J Emerg Surg. 2022;17:3. doi:10.1186/s13017-022-00406-2

Stevens DL, Bisno AL, Chambers HF, et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2014;59(2):147-159. doi:10.1093/cid/ciu444. Correção: Clin Infect Dis. 2015;60(9):1448. doi:10.1093/cid/civ114

European Association of Urology. EAU Guidelines on Urological Infections. Bonkat G, Kranz J, Cai T, et al. Arnhem: EAU Guidelines Office; 2026 (atualização limitada de março de 2026), seção 3.13, gangrena de Fournier. Compilação 2026: ISBN 978-94-92671-32-5

Instituto Latino Americano de Sepse. Guia prático de terapia antimicrobiana na sepse. 3. ed. São Paulo: ILAS; 2024. ISBN 978-65-992258-3-3

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. ISBN 978-65-5993-710-3

01

Responda antes de ler

Um tratorista com mionecrose por Clostridium perfringens confirmada em cultura, já desbridado e estável, está internado num hospital com terapia intensiva. A equipe discute o esquema definitivo e a transferência para outro serviço, que tem câmara hiperbárica, antes da próxima reabordagem. Qual combinação está de acordo com as diretrizes usadas nesta apostila?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e três e quarenta de um domingo. O hospital é geral, tem cento e quarenta leitos e é a porta cirúrgica de uma cidade de noventa mil habitantes e de mais quatro municípios em volta. O centro cirúrgico mantém duas salas abertas à noite, a unidade de terapia intensiva tem dez leitos e um deles está vago desde as nove. O tomógrafo funciona e o técnico dorme no plantão. O cirurgião de plantão, Fenelon Medeiros, entrou na sala 1 às onze com uma apendicite; a sala 2 está montada e vazia. O interno da noite no pronto-socorro é você, e a próxima ficha acabou de ser chamada.

Gilvan Fragoso tem 58 anos, 104 quilos, dirige ônibus intermunicipal e passa nove horas por dia sentado. Tem diabetes há nove anos e toma metformina e dapagliflozina, que retira na unidade básica. A classificação de risco escreveu dor anal e deu pulseira amarela. Ele não está na cadeira do corredor: está de pé, encostado na parede, com uma das mãos apoiada numa maca vazia, porque sentar dói. A mulher, Alexandrina, segura uma sacola plástica com duas receitas dobradas.

A primeira receita é de quinta-feira, de uma unidade de pronto atendimento: hemorroida, pomada e dipirona. A segunda é de sábado de manhã, da unidade básica: furúnculo na nádega, cefalexina de seis em seis horas. O resto ele conta agora. Desde as quatro da tarde de hoje o saco começou a inchar, e às oito apareceu uma mancha escura embaixo, perto do ânus. Ele diz que a dor é dez, e diz isso sem drama, com a voz baixa de quem está economizando força. Alexandrina acrescenta, quase como detalhe, que no carro ele errou o caminho de casa, que faz há vinte anos.

A folha da triagem, de uma hora antes, registra frequência cardíaca de 112, pressão de 118 por 70, temperatura axilar de 37,4 graus e glicemia capilar de 356. Você refaz os sinais: a frequência agora é 122, a pressão 104 por 62, a frequência respiratória 24, a saturação 95 por cento em ar ambiente. A temperatura continua em 37,4. Ninguém nesta porta chamou isso de sepse, e o motivo é o número que falta — não há febre.

Você pede licença, fecha a cortina e despe o paciente inteiro, que é o gesto que as duas consultas anteriores não fizeram. A bolsa escrotal está aumentada, tensa, de pele brilhante e só discretamente avermelhada. Na nádega esquerda, junto à borda anal, há um abaulamento endurecido do tamanho de uma ameixa. Entre os dois, no períneo, uma mancha de três centímetros, acinzentada, não empalidece quando você aperta. A pele em volta dela está fria, e quando você a toca com a ponta de uma gaze Gilvan não sente. Crepitação você não palpa. O cheiro é discreto, e é ruim.

É o que há de mais traiçoeiro nesta cena: a pele mostra pouco. Três centímetros de cor estranha e um escroto inchado não explicam a dor de dez, a frequência de 122, a confusão no caminho de casa e a pressão que caiu catorze pontos em uma hora. Quando o que se vê não dá conta do que o paciente sente, a pergunta que presta não é o que há na pele. É o que há embaixo dela.

Às 23h55 o clínico de plantão passa pelo corredor, lê a ficha por cima do seu ombro e propõe o caminho que parece prudente: internar, começar antibiótico venoso, pedir tomografia de pelve e reavaliar de manhã com a cirurgia. É uma conduta razoável para um abscesso perianal extenso. Para o que Gilvan provavelmente tem, cada parte dela custa tempo que não volta — e o que decide o destino de Gilvan não é o exame que confirma a suspeita: é quanto tempo falta até a primeira incisão.

Gilvan tem, até prova em contrário, e a prova se faz dentro do centro cirúrgico, uma gangrena de Fournier: uma infecção necrosante que nasceu, muito provavelmente, de um abscesso perianal tratado com pomada e com cefalexina, e que caminhou pelos planos do períneo até a bolsa escrotal. O que o salva é tirar o tecido morto, e tirar cedo. O antimicrobiano é necessário e não basta; a tomografia é possível e não decide. O interno que liga para o cirurgião antes da meia-noite dizendo o nome da suspeita muda mais o desfecho desta noite do que qualquer exame que ele consiga pedir.

Este é o último capítulo da apostila e trata de uma doença que muitos capítulos deste nível já avistaram de passagem, sempre como aquilo que não pode passar. O abscesso perianal e a drenagem que o teria interrompido pertencem a Doença anorretal benigna: hemorroidas, fissura, abscesso e fístula, na apostila de Coloproctologia, que reconhece a gangrena de Fournier e manda o paciente para a sala; o que acontece dentro da sala, e depois dela, é daqui. A torção e a epididimite são de Escroto agudo (torção testicular x epididimite), na apostila de Urologia; a bartholinite, de Bartholinite e abscesso de glândula de Bartholin, na de Ginecologia; a erisipela e a celulite, de Escabiose, pediculose e infecções bacterianas cutâneas (impetigo, erisipela), na de Dermatologia. Os três capítulos descrevem a forma necrosante, assumem o reconhecimento dela e param aí. O pacote da primeira hora da sepse é de Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências.

Outros vizinhos ficam com pedaços de pacientes parecidos. A infecção necrosante que nasce numa incisão é reconhecida, na primeira hora, em Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida, na apostila de Pré e Pós-operatório; a do puerpério, em Infecção puerperal (endometrite) e mastite lactacional, na apostila de Parto; o pé do diabético que infecta, com a classificação que decide o destino do membro, é de Pé diabético e úlceras de membros inferiores, na apostila de Cirurgia Vascular; e o controle do foco no abdome já operado é de Choque séptico e manejo da sepse cirúrgica (Surviving Sepsis), na apostila de Pré e Pós-operatório. O enxerto e o retalho que fecham a ferida depois são de Retalhos e enxertos de pele (princípios), na apostila de Cirurgia Plástica, e a profilaxia do tétano no ferimento, de Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, na apostila de Infectologia. A enterocolite necrosante do recém-nascido só divide o adjetivo com este capítulo e é de Cirurgia Pediátrica.

O que sobra não tinha dono no nível, e este capítulo o assume e declara que assumiu: a infecção necrosante de partes moles como doença — celulite necrosante, fasciíte necrosante e miosite necrosante —, a gangrena de Fournier inteira, a gangrena gasosa, o desbridamento e a reabordagem, o esquema antimicrobiano com a droga que se soma pelo efeito sobre a toxina, e as terapias adjuvantes que disputam espaço com o bisturi. Quando a infecção nasce na incisão, no puerpério ou no pé, o reconhecimento continua com os vizinhos acima, e o que se faz com a fáscia depois de reconhecida é o que se ensina aqui, para qualquer porta de entrada.

O percurso de Gilvan exige reconhecer a suspeita, acionar a equipe, organizar cirurgia e suporte em paralelo e planejar a reavaliação. As seções seguintes conectam os achados clínicos a essas decisões e à leitura da prescrição.

03

Quem adoece disso

A infecção necrosante de partes moles é rara no plantão e não é rara no obituário. A via clínica das sociedades de cirurgia de emergência e de infecção cirúrgica, publicada em 2022, registra que 20 a 30 por cento dos pacientes morrem durante a internação, e cita uma revisão sistemática sobre o tempo da cirurgia que reuniu 109 estudos e 6.051 pacientes, dos quais 1.277 morreram. A conta fecha: 1.277 divididos por 6.051 dão 21,1 por cento. O mesmo texto anota que a mortalidade média ficou em torno de 20 por cento ao longo de duas décadas — tudo o que a terapia intensiva e os antimicrobianos ganharam nesse período não moveu o número de modo visível.

O que move o número é o relógio. Na parte quantitativa daquela revisão — 33 estudos e 2.123 pacientes —, a cirurgia feita nas primeiras seis horas depois da chegada teve mortalidade de 19 por cento, contra 32 por cento quando passou de seis horas. É a diferença entre perder um paciente em cada cinco e perder um em cada três. A via clínica resume o achado dizendo que o desbridamento precoce reduz a mortalidade em quase 50 por cento; as duas taxas dão uma redução relativa de 40,6 por cento, e o capítulo volta a esse arredondamento nas notas do bloco de critérios. Nenhuma das duas leituras autoriza esperar.

Sobreviver também não é voltar para a vida de antes. Num dos estudos citados pela via clínica, só metade dos pacientes pôde ir direto para casa na alta; os demais precisaram de outra internação ou de unidade de reabilitação. O desbridamento que salva deixa ferida extensa, articulação rígida, dor que persiste e, às vezes, um membro a menos — e a conversa com o paciente precisa dizer isso antes da primeira ida à sala, não depois.

Quem adoece tem perfil conhecido, e o diabetes está no centro dele: é a comorbidade mais comum, presente em até 44,5 por cento dos pacientes, que tendem a ter infecção polimicrobiana e evolução pior. A lista de condições associadas segue com insuficiência renal, doença arterial obstrutiva, uso de droga injetável, índice de massa corporal acima de 30, doença do fígado, imunossupressão, cirurgia recente e qualquer solução de continuidade da pele, inclusive picada de inseto e local de injeção. A forma causada por um germe só é, na maior parte, adquirida na comunidade e dos membros: cerca de dois terços desses casos estão nas pernas.

O dado que explica a mortalidade antes de todos os outros é de reconhecimento. A via clínica afirma que a maioria dos casos recebe primeiro o diagnóstico de celulite. Foi o que aconteceu duas vezes com Gilvan, e é o que acontece com a mulher da perna inchada que sai da unidade de pronto atendimento com cefalexina e volta no dia seguinte em choque. O erro raramente é de desconhecimento da doença: é de ordem do raciocínio, e o bloco de apresentação trata dele.

Os sinais que o interno costuma esperar são exatamente os menos frequentes. Numa revisão sistemática de achados clínicos citada pela via clínica, o edema estava presente em 81 por cento dos casos, a dor ou o dolorimento em 79, o eritema em 71 e o calor local em 44 — sinais que qualquer celulite também tem. As bolhas apareceram em 26 por cento, a necrose de pele em 24 e a crepitação em 20. A febre, em 40 por cento; a hipotensão, em 21. Quem espera crepitação para chamar o cirurgião deixa de chamá-lo em quatro de cada cinco pacientes.

A gangrena de Fournier tem números próprios. A diretriz europeia de infecções urológicas resume três registros dos Estados Unidos, com mortalidade de 10 por cento em 650 casos, de 7,5 por cento em 1.641 e de 5 por cento em 9.249, e associa idade avançada, diabetes e índice de massa corporal alto a risco maior. Registra também que em até 40 por cento dos casos o começo é insidioso, com dor sem diagnóstico que atrasa o tratamento — a descrição exata das duas consultas de Gilvan antes desta noite.

No Brasil, uma série muito citada vem de um hospital universitário do oeste do Paraná: 40 pacientes tratados entre janeiro de 2012 e novembro de 2016. Vinte e nove eram homens e onze, mulheres; a idade média foi de 51,7 anos; 70 por cento tinham diabetes tipo 2; e em 75 por cento a origem provável foi um abscesso perianal. Entre o primeiro sintoma e a internação passaram-se, em média, 10,5 dias. Só 15 por cento chegaram com febre, e 12,5 por cento com necrose visível. Morreram nove, 22,5 por cento — mais que o dobro do maior dos três registros americanos. O próprio artigo situa a mortalidade brasileira da doença entre 13 e 30,8 por cento.

Os números paranaenses dizem duas coisas ao interno. A primeira: a gangrena de Fournier brasileira começa, na maior parte, num abscesso perianal que ninguém drenou a tempo, e é por isso que o capítulo de doença anorretal benigna é o lugar onde ela se previne. A segunda: quem espera febre ou necrose para suspeitar perde a maioria dos pacientes, porque só um em cada sete chegou febril. Dado nacional de incidência ou de mortalidade não aparece em nenhuma das fontes deste capítulo; o que se sabe do Brasil vem de séries de serviço, com o viés de quem sobreviveu até chegar a um hospital universitário.

A gangrena gasosa é a mais rara e a mais rápida das três formas. O Clostridium perfringens responde por 80 a 90 por cento dos casos, e a infecção nasce em geral em tecido traumatizado, embora possa surgir sem trauma. A via clínica de 2022 a descreve como a infecção de disseminação mais rápida e mais letal do ser humano, mediada por exotoxinas potentes. A frase é forte, e é dela.

04

Por que acontece o que acontece

A pele vive do que sobe até ela. Os vasos que a nutrem nascem em planos mais profundos e atravessam a fáscia e o tecido subcutâneo antes de chegar à derme, e os nervos que dão a ela a sensibilidade fazem o mesmo trajeto. Entre o subcutâneo e a fáscia existe um espaço contínuo, pouco irrigado, sem septo que detenha nada. Quando a infecção se instala ali, ela encontra uma avenida — e todos os vasos e nervos que sobem para a pele cruzam essa avenida. É esse desenho que explica, de uma vez, a velocidade, a dor e o atraso da pele.

O que acontece no plano profundo é um ciclo que se alimenta. A bactéria se multiplica e produz toxina; a toxina e a resposta inflamatória ativam citocinas; os pequenos vasos da região trombosam; o tecido sem fluxo fica isquêmico e morre; e o tecido morto, sem defesa e sem irrigação, oferece meio ainda melhor para a bactéria avançar. A via clínica de 2022 descreve exatamente essa espiral como o que separa a infecção necrosante das outras infecções de pele. Uma celulite inflama o tecido e deixa-o vivo. A infecção necrosante mata o tecido e usa o cadáver para seguir em frente.

A dor chega primeiro porque vem de onde a destruição acontece. O tecido profundo que morre dói muito, e dói de modo que não combina com o aspecto externo, porque a pele por cima continua recebendo sangue dos vasos que ainda não trombosaram. Quando esses vasos finalmente se fecham, a pele passa a contar a história na ordem da isquemia: primeiro fica acinzentada ou violácea, depois faz bolha, muitas vezes de conteúdo hemorrágico, e por fim necrosa. Os nervos cutâneos que cruzavam o mesmo plano morrem junto, e a área que doía fica anestesiada. A diretriz europeia diz o mesmo sobre o períneo com outras palavras: a necrose interna costuma ser muito maior do que os sinais externos sugerem.

Daí sai a consequência terapêutica que governa o capítulo. O antimicrobiano viaja no sangue e só chega aonde o sangue chega; no tecido de vasos trombosados ele não entra, e o tecido morto continua servindo de reservatório. O paciente grave piora ainda a farmacologia. A via clínica registra que metade dos pacientes com infecção necrosante evolui com choque séptico, com vasodilatação e extravasamento de líquido para o interstício, e que o volume da ressuscitação dilui os antimicrobianos que se distribuem na água extracelular — betalactâmicos, aminoglicosídeos e glicopeptídeos —, enquanto a albumina baixa aumenta a fração livre. Num estudo pequeno com onze pacientes obesos com infecção grave de partes moles, nove deles necrosantes, a linezolida na dose padrão de 600 mg a cada 12 horas atingiu o alvo farmacológico com baixa probabilidade. Por isso a remoção cirúrgica é o tratamento, e o antimicrobiano protege a margem e o sangue.

A toxina é o segundo motor. O Streptococcus pyogenes e o Staphylococcus aureus produzem toxinas proteicas, entre elas superantígenos, que amplificam a inflamação muito além do que o número de bactérias explicaria e que podem produzir a síndrome do choque tóxico. Os antimicrobianos que inibem a síntese proteica bacteriana, como a clindamicina e a linezolida, reduzem a produção dessas exotoxinas — e é esse o motivo de se somarem ao esquema mesmo quando o betalactâmico já cobre o germe. Na gangrena gasosa, a toxina alfa do Clostridium perfringens, uma fosfolipase com atividade de esfingomielinase, é o principal fator de necrose muscular e de hemólise, e a toxina teta abre poros nas membranas celulares.

A forma polimicrobiana tem outra lógica. Germes aeróbios e anaeróbios do intestino, do trato urinário e da pele entram juntos, e o conjunto destrói mais do que cada um faria sozinho; esse tipo de infecção costuma formar gás no tecido, a ponto de ser difícil distingui-lo da gangrena gasosa. No períneo, o ponto de partida é quase sempre identificável — anorretal, geniturinário ou cutâneo —, e a infecção caminha pelos planos de fáscia para o escroto, o pênis, a região inguinal e a parede abdominal, podendo chegar ao tórax. É a anatomia que transforma, em poucos dias, um abscesso de nádega em necrose da parede do abdome.

O terreno decide a velocidade. O diabetes prejudica a cicatrização e aumenta a suscetibilidade à infecção, e o paciente diabético tende a ter a forma polimicrobiana e a pior evolução. A obesidade soma dois problemas: é fator de risco e esconde o períneo do examinador, e a diretriz europeia pede exame cuidadoso justamente no paciente obeso. O protocolo brasileiro de diabetes tipo 2, de 2026, lista a fasciíte necrotizante perineal entre os eventos adversos potenciais dos inibidores do cotransportador sódio-glicose 2, a classe da dapagliflozina que Gilvan retira na unidade básica, sem discutir o mecanismo.

A velocidade da gangrena gasosa depende da tensão de oxigênio do tecido e do tamanho do inóculo: ela pode se arrastar por semanas ou se instalar em horas. E a mesma lógica explica por que um único desbridamento raramente basta. A trombose avança pela margem depois da primeira cirurgia, e o tecido que parecia viável à meia-noite pode estar morto de manhã; por isso a reabordagem é programada, e não apenas reativa. A mesma anatomia oferece uma boa notícia: como a pele sobrevive enquanto seus vasos estiverem abertos, o cirurgião pode, em muitos casos, retirar o plano profundo necrosado e preservar a pele e o subcutâneo que ainda estão vivos, o que muda o tamanho da ferida que o paciente vai carregar.

Perna discretamente avermelhada com pequena bolha violácea, em paciente com expressão de dor intensa.
Dor desproporcional aos achados cutâneos deve levantar suspeita de infecção profunda e motivar reavaliação urgente. A pele pode mudar tardiamente; esse contraste é um sinal de alerta, não um diagnóstico isolado. Cena clínica sintética.
05

Como se apresenta de verdade

A apresentação da infecção necrosante é uma corrida entre dois relógios. O do plano profundo anda em horas; o da pele só começa a andar quando o primeiro já correu boa parte do caminho. Quem examina enquanto o primeiro relógio está na frente vê pouco e precisa decidir com pouco. Quem examina depois vê bolha, necrose e crepitação, e decide tarde. As seis seções abaixo percorrem essa corrida e as formas que ela assume conforme o lugar do corpo, o germe e o paciente.

Uma regra de método atravessa as seis. Examine o paciente despido, compare a dor com o que se vê, compare a frequência cardíaca com a temperatura, e escreva a hora de cada achado. Quando a dúvida vem acompanhada de instabilidade ou de progressão entre dois exames, ela não se resolve na maca: resolve-se com incisão, e a incisão é do cirurgião, que precisa ser chamado com o nome da suspeita.

A desproporção é o sinal, e ela vem antes de tudo

A via clínica de 2022 põe numa frase o achado que abre a doença: dor intensa, fora de proporção com o exame físico. Junto dela, edema e eritema formam a tríade que deve levantar a suspeita — e os três são justamente os achados que uma celulite comum também produz. A diferença não está na lista, está na medida. A celulite dói do tamanho do que se vê. A infecção necrosante dói muito além disso e dói em crescendo.

Medir desproporção é técnica, e dá para fazer à beira do leito. Pergunte a intensidade da dor e olhe a área ao mesmo tempo; observe como o paciente se move, se consegue apoiar o membro, se aceita o toque leve; e procure o edema que ultrapassa a borda do eritema, sinal de que o que incha está mais fundo do que o que avermelha. Some a isso o sistêmico: a taquicardia que não combina com a temperatura, a respiração acelerada, a confusão que a família relata como um detalhe. Gilvan tinha 122 batimentos com 37,4 graus.

O segundo critério é o tempo. A mesma via clínica pede que a infecção de partes moles que progride rapidamente seja tratada como necrosante desde o começo, porque o quadro pode piorar muito em poucas horas. Na prática, isso significa que a evolução contada pelo paciente — o saco que começou a inchar às quatro e estava escuro às oito — tem valor diagnóstico maior que qualquer exame que o laboratório devolverá antes da meia-noite. Escreva as horas na evolução, com as palavras do paciente.

E a pele, no começo, pode parecer normal. A diretriz europeia registra que a necrose interna costuma ser muito maior do que os sinais externos sugerem, e a série paranaense mostrou necrose visível na admissão em só 12,5 por cento dos pacientes. O exame que procura a doença na pele procura no lugar em que ela chega por último.

Os sinais tardios: o que valem quando aparecem, e o que custa esperá-los

Bolha, necrose de pele e crepitação são os sinais que a memória associa à doença, e são os mais raros no momento em que ainda dá tempo. Na revisão de achados citada pela via clínica, as bolhas estavam presentes em 26 por cento dos casos, a necrose de pele em 24 e a crepitação em 20. A bolha hemorrágica tem especificidade alta, de 95,8 por cento, e sensibilidade de 25,2 por cento, segundo a metanálise de 23 estudos e 5.982 pacientes que a via clínica resume.

Os números sistêmicos seguem o mesmo padrão. A hipotensão teve sensibilidade de 21,0 por cento e especificidade de 97,7 por cento; a febre, sensibilidade de 46,0 por cento e especificidade de 77,0 por cento. Na série paranaense de Fournier, só 15 por cento dos pacientes chegaram febris. A leitura correta dessas cifras é assimétrica: quando o sinal está presente, ele aproxima muito o diagnóstico; quando está ausente, não afasta nada.

A área anestesiada merece lugar próprio porque inverte a queixa. O paciente que dizia que a dor era insuportável passa a dizer que naquele ponto não sente mais, e a família lê isso como melhora. É nervo cutâneo que morreu. Teste com a ponta de uma gaze ou com o toque de um dedo, comparando com a pele vizinha, e registre: anestesia sobre área que doía é sinal de necrose, e não de alívio.

O que custa esperar os sinais tardios está na conta do capítulo de epidemiologia. Se a crepitação aparece em um de cada cinco pacientes, quem condiciona o telefonema a ela deixa de telefonar para os outros quatro, e cada hora de atraso empurra o paciente do grupo das seis horas para o grupo que morreu em 32 por cento.

Gangrena de Fournier: o períneo que ninguém despe

A diretriz europeia define a gangrena de Fournier como uma infecção de partes moles polimicrobiana, agressiva e frequentemente fatal, do períneo, da região perianal e dos genitais externos, e a trata como uma subcategoria anatômica da fasciíte necrosante, com a mesma etiologia e o mesmo caminho de manejo. O quadro típico é o edema doloroso do escroto ou do períneo, com pequenas áreas de necrose de pele cercadas de eritema e edema; a crepitação e o exsudato fétido vêm com a doença mais avançada.

O ponto de partida quase sempre se encontra, e procurá-lo muda o que se faz na sala. A origem é anorretal, geniturinária ou cutânea. Na série do oeste do Paraná, 30 dos 40 pacientes tinham história e exame de abscesso perianal; quatro vieram de trauma, três de cirurgia perineal, dois de doença urológica e um de mordedura de animal — a soma fecha nos 40. A diretriz europeia acrescenta à lista de risco a imunossupressão, sobretudo por diabetes ou desnutrição, a cirurgia uretral ou perineal recente e o índice de massa corporal alto.

O exame tem uma exigência que a pressa desobedece: o períneo não se examina por cima da roupa nem com o paciente sentado. Deite, afaste as nádegas, olhe a borda anal, a rafe, a raiz do escroto, a região inguinal e a parede abdominal baixa, palpe procurando crepitação e teste a sensibilidade sobre as áreas de cor alterada. O toque retal, cuja técnica está em Doença anorretal benigna: hemorroidas, fissura, abscesso e fístula, localiza o abscesso que não abaula a pele. A diretriz europeia pede exame especialmente cuidadoso no obeso, em quem o períneo fica escondido.

Em até 40 por cento dos casos o começo é insidioso, com dor que atravessa consultas sem diagnóstico. Na mulher, que foi 27,5 por cento da série paranaense, o ponto de partida pode ser vulvar ou inguinal, e a bartholinite complicada entra na lista — o reconhecimento dela está em Bartholinite e abscesso de glândula de Bartholin. No homem, a confusão mais cara é com o escroto agudo: a epididimite não explica dor perineal desproporcional, pele fria e anestesiada nem crepitação, e a separação entre torção e epididimite é de Escroto agudo (torção testicular x epididimite).

Pergunte sempre pelos remédios do diabetes. O protocolo brasileiro de diabetes tipo 2 lista a fasciíte necrotizante perineal entre os eventos adversos potenciais da classe da dapagliflozina, que o sistema público fornece. A informação não muda o diagnóstico nem o prazo, mas entra na prescrição da primeira hora e na notificação do evento adverso.

O membro: a ferida banal, o germe único e o paciente que parecia saudável

A forma causada por um germe só é outra doença no mesmo espectro. Os agentes mais comuns são o estreptococo e o Staphylococcus aureus, às vezes juntos; a maioria dos casos é adquirida na comunidade e fica nos membros, dois terços deles nos membros inferiores. A porta de entrada costuma ser trivial a ponto de ser esquecida: uma escoriação, uma picada de inseto, o local de uma injeção. O paciente pode ser jovem e não ter comorbidade nenhuma — e é exatamente o paciente que ninguém imagina morrendo de uma ferida na canela.

O percurso típico passa pela unidade de pronto atendimento. A dor começa desproporcional, o eritema é discreto, recebe o nome de celulite e sai com antibiótico oral. Doze ou vinte e quatro horas depois o paciente volta com dor maior, edema que sobe pelo membro, taquicardia, às vezes hipotensão já na porta, e com uma pele que ainda não justifica nada disso. Quem avalia essa segunda visita precisa ler a primeira receita como parte do diagnóstico: celulite que piora em horas com antibiótico adequado não é falha de antibiótico.

Pergunte pela água. A via clínica lembra que a Aeromonas hydrophila infecta feridas expostas a água doce ou salobra, solo ou madeira, inclusive em pessoas saudáveis e depois de desastres naturais, e que o Vibrio vulnificus entra por contato de ferida com água do mar ou pela ingestão de pescado e frutos do mar contaminados, e acomete sobretudo quem tem doença crônica do fígado. As duas podem evoluir para infecção necrosante, e a história de exposição é o que faz alguém pensar nelas antes da cultura.

Hipotensão precoce e disfunção de órgãos desproporcionais à extensão local levantam a suspeita de síndrome do choque tóxico, e é nesse cenário, diz a via clínica, que a droga que inibe a produção de toxina mais ajuda — o motivo está no bloco de mecanismo e a prescrição, na primeira hora da conduta.

Gangrena gasosa: o músculo que morre em horas

A mionecrose clostridiana é a forma mais rápida. O Clostridium perfringens causa 80 a 90 por cento dos casos, e outras espécies do gênero respondem pelo restante. A infecção nasce em geral em tecido traumatizado, embora possa surgir sem trauma aparente, e acomete o tecido profundo, como o músculo, espalhando-se rapidamente pelos planos.

A via clínica descreve a sequência na ordem em que o examinador a encontra. O primeiro sintoma confiável é a dor que aumenta no local da lesão ainda nas primeiras 24 horas. A pele pode estar pálida no começo e passa rapidamente a bronzeada e depois a vermelho-arroxeada; a região fica tensa e dolorosa, e surgem bolhas de conteúdo avermelhado ou azulado. Quando o gás aparece, na palpação ou na imagem, a doença costuma já estar em fase tardia. A toxicidade sistêmica — taquicardia, febre, sudorese — se instala depressa e evolui para choque e falência de múltiplos órgãos em horas.

A diretriz americana de 2014 recomenda exploração cirúrgica urgente do local suspeito, com desbridamento do tecido acometido, e esquema amplo enquanto não se conhece o germe; confirmada a mionecrose clostridiana, recomenda penicilina com clindamicina. A mesma diretriz recomenda não usar oxigenoterapia hiperbárica, por falta de benefício demonstrado e porque ela pode atrasar a ressuscitação e o desbridamento — tema da terceira divergência do capítulo.

A profilaxia do tétano no ferimento que originou tudo isso não é deste capítulo e não pode ser esquecida: a conduta vacinal e a imunoglobulina estão em Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, na apostila de Infectologia.

Quem chega disfarçado: o operado, a puérpera, o pé diabético e o imunossuprimido

O paciente operado pode fazer infecção necrosante da incisão nas primeiras horas ou nos primeiros dias, quando ninguém espera infecção de ferida. O reconhecimento dessa forma, e a primeira hora dela, estão em Infecção de sítio cirúrgico e deiscência de ferida. Quando o cirurgião assume a ferida, o desbridamento, a reabordagem e o esquema com antitoxina seguem as regras deste capítulo.

A puérpera com febre que não cede, dor perineal ou abdominal desproporcional e pele ainda íntegra entra no fluxo de Infecção puerperal (endometrite) e mastite lactacional, que lista a fasciíte necrosante entre as causas cirúrgicas de febre persistente e manda desbridar. A infecção uterina e a indicação de histerectomia são daquele capítulo.

No diabético com ferida no pé, a classificação da infecção, a osteomielite e o destino do membro são de Pé diabético e úlceras de membros inferiores, que já trata a infecção grave do pé como indicação de drenagem e desbridamento de urgência. Este capítulo recebe o paciente quando a necrose sobe pela perna em horas, ou quando a ferida do pé é só a porta de entrada de uma fasciíte que já não é do pé.

No imunossuprimido, os sinais inflamatórios são mais pobres e o espectro é mais largo. A via clínica lembra que, ocasionalmente, fungos causam a infecção necrosante nesses pacientes, com cobertura antifúngica empírica nos de alto risco, e a diretriz americana sugere considerar biópsia e desbridamento cirúrgico precoces no manejo das infecções de partes moles do paciente com imunidade comprometida. Em quem usa droga injetável, o local de injeção é porta clássica.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da infecção necrosante tem uma particularidade que a separa da maioria dos capítulos desta apostila: o diagnóstico definitivo não sai de um exame de sangue nem de uma imagem. Ele sai da sala de cirurgia, quando a fáscia é exposta. Tudo o que se pede antes serve a três perguntas diferentes — o paciente precisa de exploração agora, qual é a gravidade sistêmica, e o que colher para ajustar o antimicrobiano depois —, e nenhum pedido deste bloco tem precedência sobre o telefonema ao cirurgião.

A regra de ordem, portanto, é a mesma do bloco anterior. Colha o sangue enquanto liga, não em vez de ligar. Peça imagem só quando a dúvida é real e o paciente está estável, e nunca para o paciente cuja suspeita é alta. E escreva, ao lado de cada resultado, a hora em que ele chegou, porque numa doença que se mede em horas o horário do exame é parte do exame.

O escore de laboratório: seis exames, uma soma, e o que ela não autoriza

O LRINEC, sigla em inglês para indicador laboratorial de risco de fasciíte necrosante, soma pontos de seis exames que qualquer pronto-socorro faz. A proteína C reativa igual ou acima de 150 miligramas por litro vale 4 pontos. A leucometria vale 1 ponto entre 15.000 e 25.000 por milímetro cúbico e 2 pontos acima de 25.000. A hemoglobina vale 1 ponto entre 11 e 13,5 gramas por decilitro e 2 abaixo de 11. O sódio abaixo de 135 milimoles por litro vale 2 pontos; a creatinina acima de 1,6 miligrama por decilitro, 2 pontos; e a glicose acima de 180 miligramas por decilitro, 1 ponto. O total vai de 0 a 13, e a via clínica associa a pontuação de 8 ou mais a um risco de 75 por cento de infecção necrosante.

A metanálise que a via clínica resume mediu o escore contra o diagnóstico cirúrgico. Com o corte de 6, a sensibilidade foi de 68,2 por cento e a especificidade de 84,8 por cento; com o corte de 8, a sensibilidade caiu para 40,8 por cento e a especificidade subiu para 94,9 por cento. Leia isso de trás para a frente, que é como o plantão precisa ler: de cada 100 pacientes que têm infecção necrosante, cerca de 32 somam menos de 6 pontos e cerca de 59 somam menos de 8. Um escore baixo deixa passar um terço dos doentes.

A conta do valor preditivo mostra o tamanho do problema, e ela depende de quantos pacientes realmente têm a doença entre os que você está examinando. Suponha que, entre os pacientes em quem a dúvida surgiu, três em cada dez tenham infecção necrosante. Com a sensibilidade e a especificidade do corte de 6, 13,8 por cento dos que somam menos de 6 pontos têm a doença — um em cada sete. Se forem um em cada dez, ainda sobram 4 por cento, um em cada vinte e cinco. Para uma doença que mata um em cada três quando a cirurgia atrasa, nenhuma dessas proporções autoriza mandar para casa ou marcar a sala para a manhã. A via clínica diz isso sem conta: o escore tem acurácia pobre, e pontuação baixa não afasta o diagnóstico.

Isso não torna o escore inútil; muda para que ele serve. Ele organiza exames que você pediria de qualquer modo, documenta a gravidade no prontuário e, quando vem alto num paciente que não parecia grave, obriga a reexaminar. O que ele não faz é abrir ou fechar a porta da sala. Gilvan, com proteína C reativa de 280 miligramas por litro, leucometria de 21.400, hemoglobina de 12,1, sódio de 131, creatinina de 1,9 e glicemia de 356, soma 4 mais 1 mais 1 mais 2 mais 2 mais 1: 11 pontos. O número acerta, e chega uma hora depois do diagnóstico que o exame físico já tinha feito.

Um cuidado de unidade vale ouro no Brasil, onde muitos laboratórios entregam a proteína C reativa em miligramas por decilitro. O corte de 150 miligramas por litro é 15 miligramas por decilitro. Quem compara o resultado de 18 miligramas por decilitro com o número 150 lê zero ponto onde há quatro. As conversões das seis variáveis estão na segunda tabela do bloco de critérios, e as falhas de unidade e de faixa da tabela publicada na via clínica, nas notas do mesmo bloco.

Radiografia, tomografia, ressonância e ultrassom: o que cada uma vê, e quando nenhuma tem vez

A radiografia simples procura gás no tecido e acha pouco. Na metanálise, a sensibilidade foi de 48,9 por cento e a especificidade de 94,0 por cento, e a via clínica é explícita: a radiografia não deve ser usada para afastar a doença. Uma radiografia sem gás é o achado esperado em metade dos pacientes com infecção necrosante.

A tomografia vê mais cedo e mais longe. A sensibilidade medida foi de 88,5 por cento e a especificidade de 93,3 por cento. Os achados que sugerem necrose são o borramento da gordura, as coleções de líquido e de gás que dissecam os planos de fáscia, o gás no tecido, o espessamento da fáscia e a fáscia que não realça depois do contraste. Na gangrena de Fournier, a diretriz europeia acrescenta que tomografia ou ressonância podem definir o acometimento ao redor do reto, dado que sugere a necessidade de derivação fecal.

A ressonância já foi chamada de exame de escolha, mas é difícil de fazer na urgência e a via clínica não a recomenda como primeira imagem. O ultrassom à beira do leito tem a vantagem de ser rápido e de poder ser comparado com o membro do outro lado: perda da arquitetura normal com aspecto em paralelepípedo, fáscia espessada e irregular, líquido ao longo da fáscia e, na doença avançada, focos de ar com sombra suja. Não é considerado exame definitivo, e serve ainda para guiar drenagem de coleção e para afastar trombose venosa profunda.

A regra que governa as quatro é uma só, e a via clínica a escreve com todas as letras: quando a suspeita clínica é alta, a imagem não pode atrasar nem dissuadir a cirurgia. A tomografia tem lugar no paciente estável em quem a dúvida é genuína, e no planejamento do cirurgião quando não custa tempo. No paciente de Gilvan, com instabilidade e anestesia cutânea, ela disputaria a mesma hora que a sala.

O diagnóstico que se faz com incisão

Quando a dúvida persiste, o exame que decide é cirúrgico. A via clínica descreve o teste do dedo: sob anestesia local, uma incisão de 2 centímetros até a fáscia profunda. Se o dedo disseca os planos quase sem resistência, se não há sangramento, se aparece tecido necrótico ou se sai um líquido turvo e acinzentado, com aspecto de água de lavar louça, o diagnóstico está feito, e o procedimento se converte em desbridamento.

A biópsia de fáscia com exame de congelação foi proposta para antecipar o diagnóstico, e a mesma via clínica registra por que ela quase não se usa: exige patologista disponível e experiente, e o tempo gasto em colher, processar e laudar é tempo que poderia estar sendo usado para desbridar. A decisão de explorar é do cirurgião, e o papel do interno é levá-lo até essa decisão com os achados escritos.

Culturas: o que colher, de onde e quando

Duas coletas identificam o germe na maioria dos casos, segundo a via clínica: hemoculturas e amostras profundas de tecido colhidas na interface entre o tecido saudável e o necrótico durante o primeiro desbridamento. As hemoculturas se colhem antes da primeira dose do antimicrobiano quando isso não o atrasa. A amostra de tecido é colhida pelo cirurgião, e cabe ao interno garantir que ela chegue ao laboratório identificada e sem demora.

O swab da superfície da ferida não é a amostra que a via clínica pede, e na infecção necrosante ele devolve a flora da pele e do períneo misturada com o que de fato está matando o tecido. Na gangrena de Fournier, a mesma fonte manda colher líquido e tecido infectados no primeiro desbridamento e usar o resultado para ajustar o esquema. É o resultado dessas amostras, com os testes rápidos onde existirem, que permite descalonar sem perder cobertura.

O laboratório que entra pela gravidade, e o escore de Fournier

Lactato, gasometria, função renal, coagulação e plaquetas entram porque o paciente com infecção necrosante é, muitas vezes, um paciente com sepse, e o painel e as metas da primeira hora são de Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais. Dois pontos são próprios deste capítulo. A creatinina e o sódio já pontuam no escore de laboratório. E a glicemia alta de um diabético descompensado se corrige durante a preparação para a cirurgia, e não antes dela; a insulina do internado está em Hiperglicemia hospitalar e esquema de insulina de correção.

No paciente em uso de dapagliflozina, o protocolo brasileiro de diabetes lista a cetoacidose com glicemia pouco elevada entre os eventos adversos potenciais da classe. A leitura prática deste capítulo é olhar o bicarbonato da gasometria desse paciente mesmo quando a glicemia não assusta.

Para a gangrena de Fournier existe um índice de gravidade próprio, que combina temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, sódio, potássio, creatinina, hematócrito, leucometria e bicarbonato; a via clínica registra que uma pontuação acima de 9 prediz mortalidade com boa sensibilidade e especificidade. A diretriz europeia acrescenta um dado que põe o índice no lugar certo: num estudo prospectivo, os escores específicos da doença previram o desfecho, mas não foram superiores aos escores genéricos de terapia intensiva. O índice serve para conversar sobre prognóstico. Não serve para decidir se opera, nem quando — e a tabela dele publicada na via clínica tem faixas sobrepostas e lacunas que o capítulo mostra nas notas.

O diferencial, com o endereço de quem trata cada um

A celulite e a erisipela são o diferencial de todo dia, e a separação entre as duas, com a conduta, é de Escabiose, pediculose e infecções bacterianas cutâneas (impetigo, erisipela). O abscesso simples e o perianal, com a drenagem, são de Doença anorretal benigna: hemorroidas, fissura, abscesso e fístula. A torção e a epididimite, de Escroto agudo (torção testicular x epididimite). A trombose venosa profunda, que o ultrassom afasta, é de Trombose venosa profunda e diagnóstico (escore de Wells), e a artrite séptica, de Monoartrite aguda e artrite séptica, na apostila de Reumatologia.

Duas entidades ficam na borda. A piomiosite, abscesso dentro do músculo, tem na diretriz americana a ressonância como imagem recomendada, cultura de sangue e do material do abscesso e drenagem precoce; ela não é necrosante, mas pode ser confundida com a miosite necrosante quando o paciente está grave. E o pé de Charcot agudo, vermelho e quente sem infecção, é de Pé diabético e úlceras de membros inferiores.

O diferencial serve para não operar quem não precisa, e não para adiar quem precisa. Diante de dor desproporcional com instabilidade, anestesia cutânea, bolha hemorrágica ou progressão em horas, o diferencial se resolve na exploração, e a lista acima volta a ter utilidade só se a fáscia estiver viva.

07

Suspeitar pela clínica, somar sem deixar a soma decidir, e prescrever o que existe

A sequência principal é suspeitar, chamar a equipe cirúrgica, organizar o suporte, prescrever o esquema indicado e programar a reavaliação. Os números apoiam essas decisões. As tabelas reúnem sinais, escore, microbiologia e apresentações; as notas esclarecem sua leitura sem substituir o percurso de atendimento.

  1. 1Examine o paciente despido e compare a dor com o que se vê. Dor desproporcional, edema além do eritema, progressão em horas, anestesia, bolha ou crepitação: suspeita de infecção necrosante.
  2. 2Some o sistêmico: taquicardia que não combina com a temperatura, hipotensão, confusão, pouca urina. Havendo, o pacote da primeira hora da sepse corre em paralelo, pelo capítulo de sepse.
  3. 3Ligue para o cirurgião antes de qualquer imagem, com o nome da suspeita, a hora de início e os achados, e anote a hora da ligação.
  4. 4Colher culturas e exames de gravidade sem atrasar tratamento. LRINEC pode ser discutido como apoio, mas cálculo não é etapa obrigatória antes da cirurgia e resultado baixo não exclui infecção necrosante.
  5. 5Inicie o esquema empírico amplo com antitoxina, depois das hemoculturas e sem esperar resultado; confirme na farmácia qual antitoxina o hospital tem.
  6. 6Imagem só no paciente estável com dúvida genuína, e só se não disputar horário com a sala. Suspeita alta ou instabilidade vão direto para a exploração.
  7. 7Exploração e desbridamento o mais cedo possível. A referência de seis horas é teto operacional usado em estudos e vias clínicas, nunca autorização para esperar; suporte, antibiótico e preparo cirúrgico ocorrem em paralelo.
  8. 8Programar revisão cirúrgica precoce, frequentemente em 12–24 horas conforme extensão e protocolo, antecipando diante de piora. Repetir até não haver tecido necrótico residual que exija novo desbridamento.
  9. 9Descalone pela cultura e pela evolução, mantenha o antimicrobiano enquanto houver necessidade de desbridar, e planeje o fechamento da ferida quando a infecção estiver controlada.

Os sinais pela ordem em que costumam aparecer, e o que cada um vale

SinalQuando apareceO que se mediuO que muda na decisão
Dor desproporcional ao que se vê, em crescendoPrimeiro, com a pele ainda quase normalDor ou dolorimento em 79 por cento dos casos; forma, com edema e eritema, a tríade de suspeita da via clínica de 2022Com qualquer sinal sistêmico, chame o cirurgião dizendo o nome da suspeita
Edema, eritema e calorCedo, e também em qualquer celuliteEdema em 81, eritema em 71 e calor em 44 por cento dos casosNão separam da celulite; separam a desproporção e a velocidade
Progressão em horasEntre dois exames, ou no relato do pacienteSem medida isolada; a via clínica manda tratar como necrosante a infecção que progride rapidamenteEscreva as horas; progressão documentada vale mais que exame pendente
FebreInconstanteSensibilidade de 46,0 e especificidade de 77,0 por cento; febre em 15 por cento da série brasileira de FournierAusência não afasta; taquicardia sem febre é alarme, não alívio
HipotensãoQuando a doença já é sistêmicaSensibilidade de 21,0 e especificidade de 97,7 por centoPresente, aproxima muito o diagnóstico e antecipa a sala, com o pacote de sepse em paralelo
Bolha, sobretudo hemorrágicaTarde: a pele já está isquêmicaBolhas em 26 por cento; bolha hemorrágica com sensibilidade de 25,2 e especificidade de 95,8 por centoPresente, indica exploração sem esperar imagem
Necrose de pele e anestesia sobre a áreaTarde: trombose dos vasos e morte dos nervos que sobem para a peleNecrose de pele em 24 por cento; necrose visível na admissão em 12,5 por cento da série brasileira; anestesia sem medida nas fontesAnestesia onde doía é necrose, e não melhora
Crepitação ou gás na radiografiaTarde; mais cedo na gangrena gasosa e na forma polimicrobianaCrepitação em 20 por cento; radiografia com sensibilidade de 48,9 e especificidade de 94,0 por centoPresente, confirma a urgência; ausente, não afasta nada
Achados na tomografiaMais cedo que a radiografia, se o paciente puder esperar a imagemSensibilidade de 88,5 e especificidade de 93,3 por centoSó no estável com dúvida genuína; nunca atrasa a sala na suspeita alta

O escore de laboratório: faixas, a unidade em que o laboratório costuma entregar, e a observação de plantão

VariávelFaixas e pontosNa outra unidadeObservação de plantão
Proteína C reativaAbaixo de 150 mg/L: 0. Igual ou acima de 150 mg/L: 4150 mg/L são 15 mg/dLLaudo em mg/dL comparado com o número 150 zera a variável de maior peso
LeucometriaAbaixo de 15.000 por mm³: 0. De 15.000 a 25.000: 1. Acima de 25.000: 215.000 por mm³ são 15 mil por microlitro, ou 15 × 10⁹ por litroA tabela publicada escreve 15 e 25 por mm³, sem o fator de milhar
HemoglobinaAcima de 13,5 g/dL: 0. De 11 a 13,5: 1. Abaixo de 11: 2g/dL é a unidade usual dos laudos brasileirosNa tabela publicada, 13,6 e 10,9 não cabem em classe nenhuma; aqui as lacunas se fecham pela classe do meio
SódioIgual ou acima de 135 mmol/L: 0. Abaixo de 135: 2Para o sódio, mmol/L e mEq/L são o mesmo númeroEntra o valor medido, como vem no laudo
CreatininaAté 1,6 mg/dL: 0. Acima de 1,6: 21,6 mg/dL são 141 µmol/LA tabela publicada converte para 142 mmol/L, unidade mil vezes maior
GlicoseAté 180 mg/dL: 0. Acima de 180: 1180 mg/dL são 10,0 mmol/LA conversão publicada confere
TotalDe 0 a 13. Seis ou mais: sensibilidade de 68,2 e especificidade de 84,8 por cento. Oito ou mais: sensibilidade de 40,8 e especificidade de 94,9 por cento, com risco de 75 por centoPontuação baixa não afasta: cerca de um terço dos doentes soma menos de 6

Os tipos pelo germe, e o que cada um exige da prescrição

TipoGermesOnde e em quemO que a prescrição precisa cobrir
I — polimicrobianaAeróbios e anaeróbios associados, gram-positivos e gram-negativosCirurgia de intestino, trauma abdominal penetrante, úlcera de pressão, mordedura, local de injeção, abscesso perianal, prostático ou vulvovaginal; gangrena de Fournier; o diabéticoGram-positivos, inclusive resistentes à meticilina, gram-negativos e anaeróbios, com antitoxina desde a primeira dose; derivação urinária e, quando indicado, fecal
II — um germeEstreptococo e Staphylococcus aureus, isolados ou juntos; entre os gram-negativos, Vibrio vulnificus e Aeromonas hydrophilaComunitária, nos membros, dois terços nos inferiores; ferida banal; paciente muitas vezes saudável; exposição a água do mar, doce ou salobraBetalactâmico com antitoxina; penicilina com clindamicina no estreptococo documentado; doxiciclina com ceftriaxona ou cefotaxima no Vibrio, e com ciprofloxacino ou ceftriaxona na Aeromonas
III — gangrena gasosaClostridium perfringens em 80 a 90 por cento; outras espécies de ClostridiumTecido traumatizado ou, mais raramente, sem trauma aparente; músculoEsquema amplo até identificar o germe; penicilina com clindamicina na mionecrose clostridiana; nenhuma terapia adjuvante que atrase a sala
FúngicaFungos, ocasionalmenteImunossuprimidosCobertura antifúngica empírica no paciente de alto risco

Conversão para a prescrição num adulto de 104 quilos, contra a apresentação real e contra a Rename 2024

Fármaco e apresentaçãoDose de referênciaContaSituação na Rename 2024
Piperacilina + tazobactam, frasco-ampola de 4,5 g4,5 g a cada 6 horas no paciente instável, via clínica de 2022Um frasco por dose, reconstituído em 20 mL; quatro frascos e 18 g por diaNão consta
Meropeném, frasco-ampola de 1 g1 g a cada 8 horas, via clínica de 2022Um frasco reconstituído em 20 mL e infundido em 100 mL de solução fisiológica; três frascos por diaNão consta
Linezolida, solução para infusão de 2 mg/mL600 mg a cada 12 horas, via clínica de 2022600 mg são 300 mL da solução; 1.200 mg e 600 mL por diaConsta, componente Estratégico, em solução para infusão e em comprimido de 600 mg, classificação de reserva
Fosfato de clindamicina, 150 mg/mL, ampola de 4 mL600 a 900 mg a cada 8 horas, via clínica de 2022 e diretriz americana de 2014600 mg são 4 mL, uma ampola; 900 mg são 6 mL, uma ampola e meia, diluídos a no máximo 18 mg/mL, em 50 a 100 mL, correndo em pelo menos 30 minutos; 2.700 mg por dia no teto do intervaloInjetável não consta; excluído do componente Estratégico, onde entrava para malária, pelo relatório de recomendação 696. Restam cápsulas de 150 e 300 mg e formas tópicas
Benzilpenicilina potássica, frasco-ampola de 5.000.000 UI2 a 4 milhões de UI a cada 4 a 6 horas no estreptococo e no clostrídio documentados, diretriz americana de 20144.000.000 UI são quatro quintos de um frasco; a cada 4 horas, 24.000.000 UI por dia, ou 4,8 frascos; o volume depende da reconstituição indicada pelo fabricanteConsta, componentes Básico e Estratégico
Cloridrato de vancomicina, frasco-ampola de 500 mgAtaque de 25 a 30 mg/kg e manutenção de 15 a 20 mg/kg a cada 12 horas, via clínica de 2022Dose de ataque individualizada pelo peso real, com teto de 3 g no adulto obeso conforme consenso de referência. Não aplicar automaticamente 3.120 mg nem calcular manutenção somente por peso; avaliar função renal, infusão e monitorização farmacocinética.Não consta
Ceftriaxona, frasco-ampola de 1 g2 g a cada 24 horas, com metronidazol, no paciente estável, via clínica de 2022Dois frascos por doseConsta, componente Básico, classificação de alerta
Metronidazol injetável500 mg a cada 8 horas, via clínica de 2022Três doses, 1.500 mg por diaNão consta em forma injetável; só comprimidos de 250 e 400 mg e gel vaginal
Doxiciclina, pó para solução injetável de 100 mg100 mg a cada 12 horas no Vibrio e na Aeromonas, diretriz americana de 2014Um frasco por dose, dois por diaConsta, componente Estratégico

Papel dos escores. O diagnóstico e a prioridade cirúrgica não dependem de atingir um número. Use o escore para organizar informações, mantendo a suspeita clínica, a avaliação especializada e a evolução no centro da decisão.

Faixas e unidades. No escore apresentado, leia a hemoglobina com os intervalos da tabela e mantenha o operador de cada limite. A PCR de 150 mg/L pontua conforme o critério descrito. A contagem de leucócitos em milhares não deve ser lida como número absoluto de células.

Creatinina. O valor de 1,6 mg/dL corresponde a aproximadamente 141,4 µmol/L. Micromol e milimol diferem por um fator de mil. Preserve a unidade ao copiar o exame para a avaliação.

Benefício da cirurgia precoce. A comparação citada de mortalidade de 19% e 32% descreve uma diferença importante, mas redução relativa de risco e razão de chances não são a mesma medida. A mensagem para o atendimento é organizar a intervenção urgente, sem extrapolar a estatística para uma previsão individual.

Dose por tomada e por dia. Para um paciente de 104 kg, mudar uma manutenção de vancomicina de 12 em 12 horas para oito em oito horas aumenta o total diário. Identifique o intervalo e o plano de ajuste descritos na prescrição; não combine doses de linhas diferentes de uma tabela.

Índice de Fournier. As transcrições discutidas apresentam lacunas e sobreposições de faixas. O capítulo usa o índice como contexto de prognóstico, preservando a avaliação clínica como base da urgência. Um número não deve ser somado a partir de faixas que não classificam o valor disponível.

Vasopressor. Miligrama e micrograma não são intercambiáveis. A unidade, a concentração final e a velocidade de infusão precisam estar explícitas. O manejo detalhado está no capítulo de sepse e choque séptico; não copie uma unidade isolada de uma tabela para a prescrição.

Versão corrigida de uma tabela. As erratas citadas alteram doses de ceftriaxona para Vibrio e de ciprofloxacino para Aeromonas. Ao consultar a referência, identifique a versão corrigida; a apresentação de uma tabela antiga não é suficiente para reconstruir o esquema.

Clindamicina. A quantidade diária não pode ser lida como dose de cada tomada. Confira também concentração após diluição e velocidade: aumentar a dose sem rever volume e tempo pode ultrapassar os limites descritos para infusão.

Piperacilina/tazobactam. A apresentação citada de 4,5 g contém 4 g de piperacilina e 500 mg de tazobactam. Não a registre como 4,5 mg. Na conferência da prescrição, leia nome, dose, unidade, intervalo e apresentação juntos.

Precauções. Infecção extensa de pele, doença invasiva e choque tóxico podem se sobrepor no mesmo paciente. Registre as precauções adotadas conforme o quadro e o plano descrito, para que a passagem de cuidado não dependa de escolher apenas um rótulo.

Farmácia hospitalar. A ausência de uma apresentação na Rename não demonstra ausência no hospital. Confira a padronização local, incluindo os fármacos com ação antitoxina, e comunique dificuldades de acesso em tempo de resolvê-las. O suporte e o controle cirúrgico não podem ficar sem organização enquanto se discute a lista.

08

A conduta, hora a hora

O que segue é a noite de Gilvan Fragoso, hora a hora, num hospital que tem cirurgião, sala e terapia intensiva — o cenário em que o desfecho depende quase só de tempo e de ordem. Onde não há cirurgião de plantão, a sequência é a mesma até o telefonema, e o telefonema passa a ser para a regulação, com o prazo da primeira incisão contado a partir da chegada ao primeiro hospital, e não da chegada ao segundo.

Duas regras organizam a linha do tempo. A primeira: nenhum exame tem precedência sobre o telefonema ao cirurgião, e o antimicrobiano, o volume e a preparação para a sala correm em paralelo, não em fila. A segunda: o tratamento não termina na primeira cirurgia — a volta à sala é marcada antes de o paciente sair dela.

  1. 23h45 — o exame que decide, antes de qualquer pedido

    Despido, Gilvan mostra o que as duas consultas anteriores não viram: escroto tenso, abaulamento perianal esquerdo, uma mancha acinzentada de três centímetros no períneo, fria e anestesiada, e uma dor de dez que nada disso explica, com frequência de 122 e pressão em queda. É suspeita de gangrena de Fournier, e a suspeita basta. Às 23h50 você liga para o centro cirúrgico e pede que avisem o cirurgião na sala 1, dizendo o nome da suspeita e a instabilidade, e avisa o clínico de plantão de que o pacote de sepse começa agora. A metformina sai da prescrição, como o protocolo brasileiro de diabetes orienta na maioria das internações; a dapagliflozina também, e esta é leitura deste capítulo, porque o mesmo protocolo lista entre os eventos adversos da classe a fasciíte perineal e a cetoacidose com glicemia pouco elevada.

    Prescrição
    • Monitorização contínua, dois acessos venosos calibrosos e oxigênio conforme a meta do capítulo de sepse
    • Jejum a partir de agora, para não atrasar a anestesia
    • Suspender metformina e dapagliflozina
    • Registrar na evolução as horas contadas pelo paciente e pela família: dor desde quinta-feira, escroto inchando às 16h, mancha escura às 20h, confusão no carro, chegada às 23h40
  2. 23h55 a 00h20 — hemoculturas, painel e o pacote da primeira hora

    O sangue se colhe enquanto o telefone toca, e não em vez dele. O painel pedido serve a três perguntas ao mesmo tempo: a gravidade da sepse, o escore de laboratório e o preparo anestésico. O clínico sugere de novo a tomografia de pelve antes de qualquer decisão. Você explica, com os números, por que ela não entra agora: a suspeita é alta, o paciente está instável, e a regra das diretrizes é que a imagem não atrasa nem dissuade a cirurgia nesse cenário. Se o cirurgião quiser saber do acometimento ao redor do reto para planejar a derivação, ele decide se a imagem cabe sem custar horário de sala. A glicemia de 356 se corrige durante o preparo, e não antes dele.

    Prescrição
    • Hemoculturas, dois pares, antes da primeira dose do antimicrobiano, sem atrasá-la
    • Hemograma, proteína C reativa, sódio, potássio, creatinina, glicose, lactato, gasometria e coagulograma
    • Ressuscitação volêmica, lactato e metas hemodinâmicas pelo capítulo de sepse e choque séptico
    • Insulina pelo esquema do capítulo de hiperglicemia hospitalar, sem adiar a cirurgia por causa da glicemia
  3. 00h10 — o esquema empírico, com a droga que se soma pela toxina

    O paciente é instável, e o esquema segue a via clínica de 2022 para esse paciente: um betalactâmico de largo espectro, uma droga contra estafilococo resistente e a antitoxina. A farmácia do hospital tem piperacilina com tazobactam, vancomicina e clindamicina injetável, e não tem linezolida venosa. A clindamicina não está na relação nacional de medicamentos em forma injetável, e o hospital a compra por conta própria. Se ela faltasse, a linezolida resolveria sozinha as duas funções, contra o estafilococo resistente e contra a toxina; se faltassem as duas, o betalactâmico não esperaria a busca pela antitoxina, porque quem retira a fonte da toxina é o cirurgião. A dose de ataque da vancomicina, em 104 quilos, leva horas para correr, e ela pode correr durante a cirurgia.

    Prescrição
    • Piperacilina com tazobactam 4,5 g por via venosa a cada 6 horas: um frasco-ampola reconstituído em 20 mL, diluído conforme a padronização do hospital
    • Clindamicina 900 mg por via venosa a cada 8 horas: 6 mL da solução de 150 mg/mL em 100 mL, correndo em pelo menos 30 minutos
    • Vancomicina IV com ataque calculado pelo peso real e contexto, respeitando o teto de 3 g nas recomendações de referência para obesidade; para 104 kg, discutir dose prática com farmácia clínica. Infusão lenta, função renal e manutenção ajustadas por monitorização, preferencialmente AUC quando disponível.
    • Na falta de clindamicina e de vancomicina, linezolida 600 mg por via venosa a cada 12 horas: 300 mL da solução de 2 mg/mL
    • Horário exato da primeira dose de cada droga anotado na prescrição
  4. 00h40 — o laboratório chega, e o escore não muda nada

    Proteína C reativa de 280 miligramas por litro, leucometria de 21.400, hemoglobina de 12,1, sódio de 131, creatinina de 1,9, glicose de 356 e lactato de 3,4 milimoles por litro. O escore de laboratório soma 11 pontos. O cirurgião Fenelon Medeiros saiu da sala 1 às 00h25, examinou o períneo, palpou uma crepitação discreta junto à mancha que meia hora antes não estava lá, e marcou a sala 2 para 01h15. O número acerta o que o exame já tinha decidido. Ele serve para documentar a gravidade, e o índice de gravidade de Fournier, que o cirurgião não calcula agora, servirá para a conversa sobre prognóstico, não para decidir a sala. O leito de terapia intensiva é reservado e a anestesia é chamada.

    Prescrição
    • Registrar o escore com as parcelas: 4 pela proteína C reativa, 1 pela leucometria, 1 pela hemoglobina, 2 pelo sódio, 2 pela creatinina e 1 pela glicose, total de 11
    • Comunicar o lactato ao clínico que conduz o pacote de sepse
    • Consentimento conduzido pelo cirurgião, com a possibilidade de novas cirurgias, de derivação urinária e de derivação fecal dita antes da primeira
  5. 01h20 a 03h00 — a primeira incisão, uma hora e quarenta minutos depois da chegada

    Na sala 2, a incisão sobre a mancha encontra fáscia sem sangramento, que se descola sem resistência, e um líquido acinzentado de odor fétido. A necrose do plano profundo é muito maior que a da pele: sobe pela raiz do escroto e chega à região inguinal esquerda. O cirurgião retira todo o tecido morto até encontrar tecido que sangra, preserva a pele que ainda está viva sobre os planos retirados, drena o abscesso perianal que deu origem a tudo e deixa a ferida aberta. O reto e o esfíncter estão preservados. A diretriz europeia pede derivação urinária por cateter suprapúbico no desbridamento da gangrena de Fournier, e ela é feita. A decisão sobre derivação fecal fica para a reabordagem, com a ferida à vista.

    Prescrição
    • Tecido profundo da interface entre o necrosado e o viável, em frasco estéril identificado, para Gram e cultura; nada de swab de superfície
    • Cateter suprapúbico para derivação urinária
    • Descrição cirúrgica com a extensão retirada, os limites alcançados e a condição do reto e do esfíncter
    • Reabordagem marcada para dentro de 12 a 24 horas, antes de o paciente sair da sala
  6. 03h10 — terapia intensiva, e o que se vigia até a volta à sala

    Gilvan chega à unidade de terapia intensiva com noradrenalina em dose baixa, iniciada na sala pelo anestesista. O que se vigia a partir de agora são sinais de que o controle da fonte funcionou ou falhou: o vasopressor que diminui ou aumenta, o lactato que cai ou não cai, a urina que volta ou não volta pela cistostomia, a ferida que não progride ou progride. A via clínica de 2022 manda antecipar a reabordagem se houver piora local, piora sistêmica ou piora dos marcadores — leucometria, proteína C reativa e procalcitonina. Enquanto o Gram não aponta o germe, a precaução é a padrão; estreptococo do grupo A mudaria isso.

    Prescrição
    • Diurese horária pela cistostomia, lactato repetido e metas hemodinâmicas pelo capítulo de sepse
    • Analgesia regular com resgate, e registro da dor e do aspecto da ferida a cada troca de curativo
    • Precaução padrão; contato e gotículas até 24 horas de terapia eficaz se o Gram ou a cultura mostrarem estreptococo do grupo A
    • Glicemia capilar e insulina pelo esquema do capítulo de hiperglicemia hospitalar
  7. Dia 1, 15h00 — a segunda ida à sala, doze horas depois do fim da primeira

    A reabordagem marcada encontra a margem inguinal esquerda necrosada em mais três centímetros, que à meia-noite pareciam viáveis, e o cirurgião retira esse tecido. A ferida perianal está suja de fezes desde a madrugada. A via clínica de 2022 registra que a colostomia de derivação melhora desfechos em estudos pouco controlados, que não reduz o número de desbridamentos, que deve ser evitada quando outro método protege a ferida, e que dispositivos de desvio fecal cumprem essa função; quando indicada, prefere-se a colostomia em alça no transverso, acima do umbigo, porque a infecção de Fournier costuma alcançar a parede abdominal baixa. Com o esfíncter preservado, o cirurgião opta pelo dispositivo. O Gram do tecido da primeira cirurgia mostra bacilos gram-negativos e cocos gram-positivos, sem bacilos gram-positivos grandes.

    Prescrição
    • Novo desbridamento da margem inguinal esquerda, com tecido da nova margem para cultura
    • Dispositivo de desvio fecal, com a colostomia em alça no transverso reservada para quando o dispositivo não mantiver a ferida limpa
    • Terceira reabordagem marcada para as 12 a 24 horas seguintes
  8. Dia 3 a dia 10 — a cultura, o descalonamento, a ferida e a saída da terapia intensiva

    No terceiro dia, a cultura do tecido identifica Escherichia coli sensível à ceftriaxona, Enterococcus faecalis sensível à ampicilina e anaeróbios mistos; as hemoculturas são negativas; não cresce estafilococo resistente, estreptococo nem clostrídio. A terceira reabordagem retirou pouco tecido e a quarta não precisou retirar nada, que é o ponto em que a via clínica manda parar de voltar à sala. A antitoxina e a droga contra estafilococo resistente perdem a razão de ser quando a cultura afasta os germes que elas miravam e o paciente está estável, e saem da prescrição; o betalactâmico segue cobrindo os germes isolados, e a duração passa a ser contada pela evolução e pelo fim da necessidade de desbridar. Com a ferida limpa, a via clínica sugere terapia por pressão negativa e a diretriz europeia registra que não encontrou evidência de benefício dela na gangrena de Fournier — a escolha é do cirurgião, e a reconstrução segue os princípios de Retalhos e enxertos de pele (princípios).

    Prescrição
    • Suspender vancomicina e clindamicina, mantendo o betalactâmico ativo contra os germes isolados
    • Escrever na evolução a data da última reabordagem que precisou retirar tecido e, ao lado, a data prevista de suspensão do antimicrobiano
    • Planejamento do fechamento da ferida com a cirurgia plástica quando a infecção estiver controlada
    • Notificar a suspeita de evento adverso da dapagliflozina no sistema de notificação da Anvisa e registrar a suspensão no resumo de alta, para que não seja reiniciada sem reavaliação
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Como saber se está funcionando

Reavaliar infecção necrosante é, antes de tudo, reavaliar se o controle da fonte funcionou. O antimicrobiano certo e o volume adequado não compensam tecido morto que ficou para trás, e os sinais de que ficou costumam ser sistêmicos antes de serem locais: o vasopressor que não sai, o lactato que não cai, a urina que não volta. A via clínica de 2022 converte isso em regra de agenda — reabordagem a cada 12 a 24 horas, antecipada se houver piora local, sistêmica ou dos marcadores — e em regra de término: voltar à sala até que quase nada precise ser retirado.

A lista abaixo é para quem acompanha o paciente entre uma cirurgia e outra. Cada parâmetro tem um responsável diferente pelo que se faz quando falha — o cirurgião, o intensivista, a farmácia clínica —, mas quem percebe primeiro, quase sempre, é quem está ao lado do leito, e a obrigação do interno é dizer o que viu, com a hora, a quem decide.

Dor, cor e extensão da ferida e da pele ao redorA cada troca de curativo, e sempre que a enfermagem relatar mudança

Esperado: Margem estável, com tecido que sangra e tem cor viva, sem nova área escura, bolha ou anestesia na pele vizinha

Se não melhora: Nova área acinzentada, bolha, crepitação ou anestesia além da margem é necrose em progressão. Comunique o cirurgião na hora: a reabordagem se antecipa, não espera o horário marcado

Pressão arterial, frequência cardíaca e dose de vasopressorDe hora em hora nas primeiras 24 horas depois de cada cirurgia

Esperado: Queda progressiva da dose de noradrenalina depois do desbridamento, com frequência cardíaca em queda

Se não melhora: Vasopressor que sobe, ou que não sai, sugere fonte não controlada. É pergunta para o cirurgião antes de ser pergunta para o antimicrobiano

LactatoPela periodicidade do protocolo de sepse, até normalizar

Esperado: Queda consistente depois do controle da fonte e da ressuscitação

Se não melhora: Lactato que não cai com volume e pressão adequados soma-se aos outros sinais de tecido morto remanescente e reforça a antecipação da reabordagem

Diurese e creatininaDiurese horária pela cistostomia ou pela sonda; creatinina diária

Esperado: Débito urinário recuperado e creatinina estável ou em queda

Se não melhora: Diurese em queda ou creatinina em alta pesam contra esperar: a via clínica cita estudo em que o atraso na reabordagem se associou a sobrevida pior e a mais lesão renal aguda. Revise também as drogas nefrotóxicas, a vancomicina à frente, com o nível sérico

Leucometria, proteína C reativa e procalcitoninaDiariamente

Esperado: Tendência de queda depois do controle da fonte

Se não melhora: A piora dos marcadores está na lista de motivos para antecipar a reabordagem. Isolada, nunca é motivo para trocar o antimicrobiano sem rever a ferida

Gram, cultura de tecido e hemoculturasGram assim que liberado; culturas e hemoculturas quando saírem

Esperado: Germes identificados, com perfil de sensibilidade que permite descalonar

Se não melhora: Estreptococo do grupo A mantém a antitoxina e pede precaução de contato e gotículas até 24 horas de terapia eficaz; clostrídio pede penicilina com clindamicina; cultura sem germe produtor de toxina, em paciente estável, permite retirar a antitoxina e a droga contra estafilococo resistente

Glicemia e equilíbrio ácido-baseGlicemia capilar pelo esquema do capítulo de hiperglicemia hospitalar; gasometria conforme a gravidade

Esperado: Glicemia controlada sem hipoglicemia, bicarbonato normal

Se não melhora: Hiperglicemia que resiste ao esquema pode acompanhar infecção não controlada. No paciente que usava dapagliflozina, bicarbonato baixo com glicemia pouco elevada levanta a suspeita de cetoacidose, evento adverso listado para a classe

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Onde o erro machuca

Chamar de celulite a dor que não cabe no que se vê, e mandar para casa com antibiótico oral

O dano: É o erro de entrada da maioria dos casos: a via clínica de 2022 afirma que a infecção necrosante costuma receber primeiro o diagnóstico de celulite. O paciente volta horas ou dias depois, já com a pele contando a história, e cada hora que passou sem cirurgia o empurra do grupo que morreu em 19 por cento para o que morreu em 32.

Como pegar a tempo: Antes de escrever celulite, responda por escrito a três perguntas: a dor é do tamanho do que eu vejo; o edema passa da borda do eritema; isto mudou em horas. Uma resposta positiva com qualquer sinal sistêmico muda o diagnóstico de trabalho e o destino do paciente. E leia a receita anterior como parte do exame: celulite que piora em horas com antibiótico adequado não é falha de antibiótico.

Usar escore baixo, febre ausente ou radiografia sem gás para afastar o diagnóstico

O dano: O escore de laboratório com corte de 6 deixa passar cerca de um terço dos doentes; a febre falta em mais da metade; a radiografia sem gás é o achado esperado em metade dos casos. Cada negativo parece tranquilizar, e nenhum tem valor preditivo negativo que sustente alta ou espera. Na série brasileira de Fournier, só 15 por cento dos pacientes chegaram febris.

Como pegar a tempo: Use os três como informação que só soma: positivo ajuda, negativo não tira nada. Registre o escore com as parcelas, mas não o escreva como justificativa de conduta, e nunca deixe um resultado pendente decidir o horário da sala.

Pedir tomografia para confirmar, com a suspeita já alta ou com o paciente instável

O dano: A tomografia tem boa acurácia, e por isso tenta. Mas o preparo, o transporte, o contraste e o laudo consomem exatamente as horas que separam quem é operado em até seis horas de quem é operado depois, e uma imagem sem gás ainda não afasta nada. O paciente instável que vai para o tomógrafo não está indo para a sala.

Como pegar a tempo: Guarde a imagem para o paciente estável com dúvida genuína, e deixe o cirurgião decidir se ela cabe no planejamento sem custar horário de sala. Na suspeita alta, o exame é a exploração.

Trocar ou ampliar o antimicrobiano diante da piora, em vez de chamar o cirurgião

O dano: O antimicrobiano não chega ao tecido cujos vasos trombosaram, e nenhuma droga de espectro maior muda isso. A troca dá a sensação de que algo foi feito, gasta horas esperando efeito e adia a única medida que retira a fonte. Na infecção necrosante, piora com esquema adequado quase sempre é tecido morto que ficou.

Como pegar a tempo: Diante de piora local ou sistêmica, a primeira ligação é para o cirurgião, com os achados e a hora. A revisão do esquema vem depois, com o Gram e a cultura do tecido na mão.

Tratar o primeiro desbridamento como o último

O dano: A trombose avança pela margem depois da cirurgia, e o tecido que parecia viável à noite pode estar morto de manhã. Esperar sinal de piora para voltar à sala desperdiça as horas em que a necrose residual ainda é pequena; a via clínica cita estudo em que o atraso na reabordagem se associou a sobrevida pior e a mais lesão renal aguda.

Como pegar a tempo: O paciente sai da primeira cirurgia com a volta marcada para dentro de 12 a 24 horas, antecipada se houver piora. Repete-se até que quase nada precise ser retirado, e a evolução registra a data da última reabordagem que precisou retirar tecido.

No períneo, examinar vestido, sentado, ou só o escroto

O dano: A gangrena de Fournier brasileira começa, na maior parte das vezes, num abscesso perianal, e o escroto inchado de um paciente examinado por cima da roupa vira epididimite, furúnculo ou hemorroida — foram duas consultas assim antes da noite de Gilvan. No obeso, o períneo esconde a área necrosada até ela alcançar a parede do abdome.

Como pegar a tempo: Deite, desnude, afaste as nádegas e examine borda anal, períneo, raiz do escroto, virilhas e parede abdominal baixa, com toque retal e teste de sensibilidade sobre toda área de cor alterada. E pergunte pelos remédios do diabetes, a dapagliflozina entre eles.

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O que dizer ao paciente e à família

Quatro conversas acontecem na noite de Gilvan, e três delas com gente que ainda não acredita na gravidade: o clínico que propõe a tomografia, o próprio paciente, que anda e conversa, e a mulher dele, que chegou achando que era hemorroida. A quarta é com o cirurgião, e é a mais curta e a mais decisiva. Depois vêm as conversas do dia seguinte, que decidem a amostra, a vigilância e o que a unidade básica vai saber.

Um princípio vale para todas. Nesta doença, o que convence é a desproporção dita com números e o tempo dito com horas: dor de dez com pele que mostra três centímetros, 122 batimentos sem febre, escroto que inchou em quatro horas. Adjetivo não abre sala.

Ao telefone com o centro cirúrgico, pedindo que o cirurgião seja avisado na sala

Aqui é o interno do pronto-socorro. Preciso que avisem o doutor Fenelon assim que ele puder falar: suspeita de gangrena de Fournier, com instabilidade. Homem de 58 anos, diabético, dor perianal desde quinta, escroto inchando desde as quatro da tarde, mancha acinzentada no períneo, fria e sem sensibilidade. Frequência de 122, pressão de 104 por 62, confuso, sem febre. Estou colhendo hemoculturas e começando antibiótico. Não pedi imagem. Ele vai precisar da sala 2 hoje.

Não diga: Evite o pedido vago de avaliação e evite abrir pelo abscesso perianal: dito assim, o caso vai para o fim da fila da manhã. O nome da suspeita e a instabilidade vão na primeira frase.

Com o clínico de plantão, que propõe internar, pedir tomografia e reavaliar de manhã

Concordo que ele tem um abscesso perianal, e é por isso que me preocupo: a dor é muito maior do que a pele mostra, a área no períneo está anestesiada e ele está taquicárdico e com a pressão caindo, sem febre. Com suspeita alta e instabilidade, as diretrizes dizem que a imagem não pode atrasar a cirurgia, e passar de seis horas aumenta a mortalidade de cerca de um em cinco para um em três. Já liguei para o cirurgião. O que eu preciso agora é da sua ajuda com o pacote de sepse até ele sair da sala.

Não diga: Evite transformar a conversa em disputa de hierarquia ou de diagnóstico. O clínico não está errado sobre o abscesso; está errado sobre o relógio, e o que o convence é a desproporção e o prazo, não a insistência.

Com Gilvan, explicando por que a cirurgia é hoje, quando ele ainda anda e conversa

Seu Gilvan, o que o senhor tem não é hemorroida nem furúnculo. É uma infecção que começou naquele caroço perto do ânus e está andando por baixo da pele, nas camadas que ficam por cima do músculo, destruindo o tecido por onde passa. É por isso que dói tanto e a pele ainda parece pouca coisa. Antibiótico sozinho não resolve, porque não chega no tecido que já morreu. O tratamento é tirar esse tecido numa cirurgia, e é hoje à noite. Pode ser que precise voltar à sala mais vezes nos próximos dias. O antibiótico já começou, e o cirurgião vem examinar o senhor agora.

Não diga: Evite minimizar para acalmar e evite despejar mortalidade sem dizer o que já está sendo feito. E não prometa uma cirurgia só: a volta à sala faz parte do tratamento, e o paciente que ouviu isso antes não a recebe como fracasso.

Com Alexandrina, a mulher dele, sobre a gravidade e o que pode ser necessário

Dona Alexandrina, é uma infecção grave, que se espalha rápido por baixo da pele, e a pressão dele está caindo por causa dela. Por isso ele vai para a cirurgia ainda esta noite e depois para a terapia intensiva. A cirurgia tira o tecido que a infecção destruiu, e ninguém consegue saber o tamanho antes de abrir. Pode ser preciso colocar uma sonda pela barriga para a urina e, às vezes, desviar as fezes para proteger a ferida. É comum voltar à sala mais de uma vez. O que mais me ajuda agora é a senhora me dizer a que horas o inchaço começou e quando ele ficou confuso.

Não diga: Evite dizer que agora está tudo sob controle, e evite descrever a ferida antes que ela exista. A família precisa de três informações — é grave, a cirurgia é o tratamento, pode haver mais de uma — e de uma tarefa que a ajude a esperar.

Na sala, ao receber do cirurgião o tecido para cultura

Doutor, este é o tecido da borda entre o que morreu e o que está vivo? Vou identificar como tecido profundo de períneo, colhido à 01h40, e levar agora ao laboratório, com pedido de Gram e de cultura para aeróbios e anaeróbios. As hemoculturas foram colhidas às 00h05, antes da primeira dose.

Não diga: Evite aceitar swab de superfície como amostra, e evite deixar o frasco na bancada até o fim da cirurgia. Amostra sem hora e sem sítio vira resultado que ninguém consegue usar para descalonar.

Com a enfermagem da terapia intensiva, na passagem do paciente

Ele volta para a sala a partir das três da tarde, e isso já está marcado com o cirurgião. Se antes disso a pele em volta da ferida escurecer, fizer bolha, estalar ao toque ou perder a sensibilidade, ou se a noradrenalina precisar subir, me chame na hora, mesmo que o curativo pareça limpo. Precaução padrão por enquanto; se o Gram mostrar estreptococo do grupo A, passa a contato e gotículas até completar 24 horas de antibiótico eficaz.

Não diga: Evite passar só os números do monitor. O que a enfermagem precisa saber é o que antecipa a sala, e que a pele ao redor da ferida faz parte da monitorização.

Com Gilvan, no terceiro dia, sobre a dapagliflozina

Seu Gilvan, o remédio do diabetes que o senhor pegava no posto, a dapagliflozina, faz o açúcar sair pela urina, e é indicado para quem tem diabetes e risco no coração. O protocolo do Ministério lista entre os efeitos raros dele uma infecção como a sua. Não dá para afirmar que foi ele que causou; dá para afirmar que ele não deve voltar sem que o seu médico reavalie. Eu escrevi isso no resumo da alta e vou notificar, que é o registro que a vigilância usa para acompanhar esses casos. Por enquanto, aqui no hospital, o açúcar fica por conta da insulina.

Não diga: Evite culpar o remédio ou quem o prescreveu, e evite deixar a informação só no prontuário do hospital: a unidade básica que renova a receita não lê a evolução da terapia intensiva, lê o resumo de alta.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quanto a primeira incisão pode esperar: seis horas ou vinte e quatro

Via clínica das sociedades de cirurgia de emergência e de infecção cirúrgica (2022) — seis horas

O controle cirúrgico da fonte deve ser feito o mais cedo possível e, ao menos, nas primeiras seis horas depois da admissão; o atraso aumenta a mortalidade. A recomendação se apoia numa revisão sistemática em que a cirurgia em até seis horas teve mortalidade de 19 por cento, contra 32 por cento depois disso. Na seção própria da gangrena de Fournier, o documento pede controle da fonte o mais cedo possível e repetição das reabordagens até que quase nada precise ser retirado.

Sartelli M, et al. WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections. World J Emerg Surg. 2022;17:3

Diretriz europeia de infecções urológicas (edição de 2026; texto sobre Fournier com busca até 2017) — vinte e quatro horas

Recomendação forte de iniciar o desbridamento cirúrgico repetido da gangrena de Fournier em até 24 horas da apresentação. O texto registra que o consenso de séries de casos sugere desbridamento precoce, abaixo de 24 horas, e completo, porque a cirurgia atrasada ou inadequada pode resultar em mortalidade maior. A mesma seção define a gangrena de Fournier como subcategoria anatômica da fasciíte necrosante, com a mesma etiologia e o mesmo caminho de manejo.

European Association of Urology. EAU Guidelines on Urological Infections, 2026, seção 3.13

Como decidir

O ensino central é cirurgia imediata após reconhecimento e organização do suporte necessário, com intervenções em paralelo. Comparar metas de seis, doze ou vinte e quatro horas não cria uma janela segura de espera. Registre a suspeita, acione a equipe e resolva atrasos de acesso; nova piora torna a necessidade ainda mais urgente.

A antitoxina: desde a primeira dose em toda suspeita, ou só quando o germe ou o choque tóxico aparecem

Via clínica das sociedades cirúrgicas (2022) — sempre, já no esquema empírico

O esquema empírico inicial deve ser de largo espectro, com cobertura para estafilococo resistente à meticilina e para gram-negativos, e deve incluir um antimicrobiano com ação contra a toxina, como a clindamicina ou a linezolida. A orientação se repete, com as mesmas palavras, na seção da gangrena de Fournier. A droga que inibe a produção de toxina ajuda sobretudo quando há evidência de síndrome do choque tóxico.

Sartelli M, et al. WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections. World J Emerg Surg. 2022;17:3

Diretriz americana de doenças infecciosas (2014) — esquema amplo; penicilina com clindamicina no germe documentado

O tratamento empírico deve ser amplo — por exemplo, vancomicina ou linezolida associada a piperacilina com tazobactam ou a um carbapenêmico, ou a ceftriaxona com metronidazol. Penicilina com clindamicina é recomendada na fasciíte necrosante por estreptococo do grupo A documentada e, como terapia definitiva, na mionecrose clostridiana. A antitoxina é exigida no germe documentado, e fica opcional no esquema empírico.

Stevens DL, et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the IDSA. Clin Infect Dis. 2014;59(2):147-159

Guia brasileiro de terapia antimicrobiana na sepse (ILAS, 2024) — com sinais evidentes de toxina

Na infecção complicada de pele e partes moles do paciente séptico, o guia registra que revisões recentes recomendam um betalactâmico ativo contra estafilococo sensível à meticilina, associado a terapia antitoxina como a clindamicina, em pacientes com sinais evidentes de toxinas. No trecho sobre crianças, afirma que, na suspeita de síndrome do choque tóxico ou de fasciíte necrosante, o tratamento empírico deve incluir clindamicina para limitar a produção de toxinas.

Instituto Latino Americano de Sepse. Guia prático de terapia antimicrobiana na sepse. 3. ed. 2024

Protocolo de sepse de rede municipal (RioSaúde, 2025) e diretriz europeia (edição de 2026) — esquemas de Fournier sem antitoxina obrigatória

O protocolo municipal escreve, para a síndrome de Fournier, vancomicina com piperacilina e tazobactam, sem antitoxina. A diretriz europeia sugere penicilina de largo espectro ou cefalosporina de terceira geração com gentamicina e metronidazol ou clindamicina — a clindamicina como alternativa ao metronidazol na cobertura de anaeróbios —, e os esquemas da tabela dela aparecem com e sem essa droga.

RioSaúde. Protocolo de sepse, PTC.DEA.001, 5ª versão, 2025; European Association of Urology. EAU Guidelines on Urological Infections, 2026, seção 3.13

Como decidir

Para o paciente à sua frente, esta apostila adota a antitoxina desde a primeira dose em toda suspeita de infecção necrosante, inclusive na gangrena de Fournier, e a retira quando a cultura do tecido afastar estreptococo, Staphylococcus aureus e clostrídio e o paciente estiver estável. Pelo escopo, a via clínica e a diretriz americana têm seção escrita para a infecção necrosante; o guia brasileiro trata da infecção complicada de pele e partes moles da sepse, que inclui celulite e abscesso, e o protocolo municipal governa as unidades da rede que o adota. Entre os dois documentos de escopo exato, a data decide pela via clínica de 2022. Na gangrena de Fournier, a via clínica mantém a antitoxina na seção própria, e o texto europeu em disputa é o da revisão com busca até 2017, pelo mesmo critério de data da primeira divergência. Quem trabalha numa unidade que adota o protocolo municipal segue a padronização dele, e deve saber que a linha de Fournier traz a piperacilina com tazobactam em miligramas em vez de gramas e não traz antitoxina — dois pontos a levar à comissão de controle de infecção. O limite prático está na farmácia: a clindamicina injetável não consta da relação nacional, e a linezolida venosa consta só no componente Estratégico. Pergunte na primeira hora qual das duas o hospital tem; se não houver nenhuma, o betalactâmico não espera, porque quem retira a fonte da toxina é o cirurgião.

A câmara hiperbárica: aplicação reconhecida por norma brasileira, ou adjuvante sem prova que não pode atrasar nada

Conselho Federal de Medicina (Resolução nº 1.457, de 1995) — aplicação clínica reconhecida

A resolução lista as aplicações clínicas então reconhecidas da oxigenoterapia hiperbárica, entre elas a gangrena gasosa, a síndrome de Fournier e as outras infecções necrotizantes de tecidos moles — celulites, fasciítes e miosites. Estabelece que a indicação é de competência exclusiva do médico e que a aplicação se faz pelo médico ou sob sua supervisão.

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.457/1995. Diário Oficial da União, 30 nov. 1995, seção I, p. 19829

Diretriz americana de doenças infecciosas (2014) — não recomendada na gangrena gasosa

A oxigenoterapia hiperbárica não é recomendada na mionecrose clostridiana, porque não teve benefício comprovado e pode atrasar a ressuscitação e o desbridamento cirúrgico. Recomendação forte, com qualidade de evidência baixa.

Stevens DL, et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the IDSA. Clin Infect Dis. 2014;59(2):147-159

Diretriz europeia de infecções urológicas (edição de 2026) — não usar fora de ensaio clínico

Na gangrena de Fournier, a revisão sistemática sobre a câmara reuniu só séries de casos retrospectivas e não encontrou evidência consistente de benefício; uma série comparativa mais recente, com 16 pacientes tratados e 12 sem a terapia, sugeriu menor mortalidade e menos desbridamentos, com evidência de baixa qualidade. A recomendação, fraca, é não usar tratamentos adjuvantes fora de ensaios clínicos.

European Association of Urology. EAU Guidelines on Urological Infections, 2026, seção 3.13

Via clínica das sociedades cirúrgicas (2022) — considerar onde houver, sem atrasar e sem transferir

O papel da câmara é debatido, e não há ensaio clínico randomizado publicado. Ela pode ser considerada onde estiver disponível, mas não deve interferir no tratamento padrão nem atrasá-lo, inclusive no suporte de terapia intensiva, e o paciente não deve ser transferido para fazer a sessão, porque isso atrasa o cuidado crítico.

Sartelli M, et al. WSES/GAIS/WSIS/SIS-E/AAST global clinical pathways for patients with skin and soft tissue infections. World J Emerg Surg. 2022;17:3

Como decidir

A câmara hiperbárica não deve atrasar a primeira incisão ou a reabordagem, nem orientar a transferência inicial. Num serviço que dispõe do recurso, a equipe pode discutir seu uso adjuvante depois do desbridamento, em paciente estável e sem reabordagem pendente. A decisão não substitui o controle cirúrgico nem os cuidados intensivos necessários.

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O raciocínio, em voz alta

Idalio Veloso, 46 anos, 78 quilos, é tratorista numa usina de cana e chega às 02h10 de uma quinta-feira ao pronto-socorro de um hospital de oitenta leitos, que tem centro cirúrgico com uma sala à noite e cirurgião geral de sobreaviso a quinze minutos, e não tem terapia intensiva — a mais próxima fica a cento e vinte quilômetros, num hospital que tem também câmara hiperbárica. Há trinta horas ele cortou a coxa direita num engate de ferro da carreta, no meio do canavial; lavou a ferida na usina, fez curativo numa unidade de pronto atendimento, recebeu uma dose de vacina contra o tétano e voltou ao serviço. Desde o fim da tarde a dor na coxa só aumentou. Agora está confuso e suado, com pressão de 86 por 50, frequência cardíaca de 136, frequência respiratória de 28 e temperatura de 37,8 graus. A ferida, de quatro centímetros, drena um líquido ralo e acastanhado; a pele em volta está bronzeada, com áreas vermelho-arroxeadas que sobem em direção à virilha e duas bolhas de conteúdo avermelhado; a coxa inteira está tensa, e há crepitação à palpação a quinze centímetros da ferida.

  1. 02h15 — o nome certo, antes de qualquer exame

    Dor crescente que começou ainda nas primeiras 24 horas no local de uma ferida traumática, pele que passou a bronzeada e depois a vermelho-arroxeada, bolhas de conteúdo avermelhado, secreção rala, crepitação e toxicidade sistêmica: é a sequência que a via clínica de 2022 descreve para a gangrena gasosa, e o gás já palpável dispensa radiografia para confirmar. O cirurgião de sobreaviso é chamado às 02h15 com o nome da suspeita e a pressão, e o pacote de sepse começa no mesmo minuto, pelo capítulo de sepse.

  2. 02h20 — hemoculturas, e o esquema de quem ainda não tem germe

    Hemoculturas antes da primeira dose, sem atrasá-la. Enquanto o germe é desconhecido, a diretriz americana recomenda esquema amplo — vancomicina com piperacilina e tazobactam, com ampicilina e sulbactam ou com carbapenêmico —, e a via clínica pede antitoxina já no esquema empírico. A farmácia deste hospital tem ceftriaxona, metronidazol, benzilpenicilina potássica e clindamicina, e não tem piperacilina com tazobactam, carbapenêmico, vancomicina nem linezolida. O esquema possível, decidido com o cirurgião e registrado como adaptação à farmácia disponível, é ceftriaxona 2 g a cada 24 horas com metronidazol 500 mg a cada 8 horas e clindamicina 900 mg a cada 8 horas, somando benzilpenicilina potássica 4.000.000 UI a cada 4 horas pela suspeita de clostrídio — a dupla de penicilina com clindamicina que a diretriz americana recomenda como terapia definitiva da mionecrose clostridiana.

  3. 02h40 — a pergunta da transferência

    A regulação oferece vaga no hospital de referência, a cento e vinte quilômetros, com terapia intensiva e câmara hiperbárica, e a tentação é mandar o paciente em choque para onde há tudo. Mas a primeira incisão é possível aqui, com cirurgião a quinze minutos e sala livre, e duas horas de estrada, somadas ao preparo da remoção e à nova admissão, empurrariam o desbridamento para a quinta ou a sexta hora desde a chegada, com o paciente piorando na ambulância. A via clínica é explícita em que o paciente não deve ser transferido para fazer a câmara. A decisão, tomada com o cirurgião e combinada com a regulação, é operar aqui e transferir depois, com a vaga garantida.

  4. 03h05 — a primeira incisão, cinquenta e cinco minutos depois da chegada

    O cirurgião abre a ferida e estende a incisão pela coxa. O subcutâneo tem líquido acastanhado e ralo, e o músculo da loja anterior está pálido, não contrai ao estímulo e não sangra ao corte. O desbridamento retira todo o músculo que não sangra nem contrai, até tecido viável, e desta vez a amputação não é necessária; a via clínica registra que o desbridamento completo pode incluir amputação maior quando é ela que remove a necrose, e essa possibilidade foi dita a Idalio e à família antes da sala, e não depois. Fragmentos de músculo da borda vão para Gram e cultura, identificados com sítio e hora.

  5. 04h30 — o Gram, a ferida aberta e a volta marcada

    O Gram do músculo mostra bacilos gram-positivos. A suspeita se reforça, e a penicilina com clindamicina fica como eixo do esquema. A ferida permanece aberta, e a reabordagem é marcada para dentro de 12 a 24 horas no hospital de destino, com a descrição cirúrgica e o horário combinados por telefone entre os dois cirurgiões. A coxa não é fechada para facilitar o transporte.

  6. 05h00 — precaução, tétano e a passagem para a transferência

    Para a gangrena gasosa, o protocolo de precauções da Anvisa pede precaução padrão, com contato quando a drenagem da ferida é extensa, e a desta coxa é. A situação vacinal do tétano é conferida no cartão, e a conduta sobre imunoglobulina segue Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina. A ficha de transferência leva a hora da chegada, a hora da primeira dose de cada antimicrobiano, a hora da incisão, a descrição cirúrgica, o Gram e a hora marcada para a reabordagem.

  7. Dia 1, hospital de destino — a câmara e a segunda sala

    No hospital de destino, alguém sugere levar Idalio à câmara hiperbárica antes da reabordagem. A resolução do Conselho Federal de Medicina reconhece a gangrena gasosa entre as aplicações da técnica; a diretriz americana recomenda não usá-la na mionecrose clostridiana; e a via clínica aceita considerá-la apenas onde houver e sem atrasar nada. A reabordagem das 14h encontra mais músculo necrosado na loja anterior e o retira. A câmara não entra antes da sala, pela posição da terceira divergência deste capítulo.

  8. Dia 3 — a cultura, o que sai e o que fica

    A cultura do músculo identifica Clostridium perfringens. A ceftriaxona e o metronidazol saem; ficam a benzilpenicilina potássica e a clindamicina. A terceira reabordagem não precisa retirar tecido, o ponto em que a via clínica manda parar de voltar à sala. A ferida da coxa segue para cuidado local e para o planejamento da cobertura, com os princípios de Retalhos e enxertos de pele (princípios), e a duração do antimicrobiano passa a ser contada pela evolução e pelo fim da necessidade de desbridar.

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Faça você

Jovelina Vilaça tem 41 anos, 63 quilos, é diarista e não tem doença conhecida. Às 16h20 de uma segunda-feira chega ao mesmo pronto-socorro em que Gilvan foi atendido, amparada pela filha. Há três dias raspou a canela esquerda na quina de um degrau de cimento, na casa em que trabalha. Ontem à noite a perna começou a doer e a inchar; às 22h foi a uma unidade de pronto atendimento, saiu com o diagnóstico de celulite e uma receita de cefalexina 500 mg de seis em seis horas, e tomou três doses. Hoje não consegue apoiar o pé e diz que a dor é nove, maior que a do parto. Pressão arterial de 94 por 56, frequência cardíaca de 128, frequência respiratória de 24, temperatura de 38,9 graus. A escoriação, de dois centímetros, está seca. A pele da perna está só levemente rosada, do tornozelo à metade da canela, mas a panturrilha está tensa, o edema passa do joelho e há uma bolha arroxeada de um centímetro na face anterior da perna que, segundo a filha, não estava lá de manhã. A sensibilidade ao toque de uma gaze está preservada. Os exames colhidos às 16h40 voltam às 17h30: proteína C reativa de 9,2 miligramas por decilitro, leucometria de 14.200, hemoglobina de 13,6, sódio de 136, creatinina de 1,3 e glicose de 104. O plantonista que está saindo escreveu na evolução: escore de laboratório zero, celulite que não respondeu, trocar antibiótico e pedir tomografia amanhã.

  1. Passo 1

    Liste os achados que falam contra celulite e os que falam a favor, e diga o que a receita de ontem acrescenta ao diagnóstico.

  2. Passo 2

    Calcule o escore de laboratório com os resultados, convertendo a unidade que precisar, e diga o que fazer com a hemoglobina de 13,6 diante da tabela publicada na via clínica de 2022.

  3. Passo 3

    Explique, com os números de acurácia, por que o total que você encontrou não autoriza trocar o antibiótico e pedir a tomografia para amanhã.

  4. Passo 4

    Escreva a primeira hora: quem você chama e com que frase, o que prescreve — com a antitoxina e a conta de cada dose para 63 quilos — e que precaução pede à enfermagem.

  5. Passo 5

    Diga que pergunta sobre exposição falta nesta história, e o que mudaria no esquema se a resposta fosse positiva.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome Gilvan e acompanhe a cadeia dor profunda, suspeita, suporte, controle cirúrgico e reavaliação. A atuação do interno é supervisionada e comunicada a cada mudança.

  7. Questão integrativa 1

    A pele pouco alterada de Gilvan exclui infecção necrosante?

  8. Questão integrativa 2

    LRINEC baixo permite aguardar?

  9. Questão integrativa 3

    A meta de seis horas permite esperar a sala seguinte?

  10. Questão integrativa 4

    Antibiótico amplo sozinho resolve?

  11. Questão integrativa 5

    Por que a dose de vancomicina não deve ser copiada apenas pelo peso?

  12. Questão integrativa 6

    O que observar entre os desbridamentos?

Ver como fecharíamos

Passo 1: contra celulite pesam a dor de nove que impede o apoio, desproporcional a uma pele só levemente rosada; o edema que passa do joelho, muito além do eritema; a progressão em horas, com uma bolha arroxeada que não existia de manhã; e a hipotensão com taquicardia de 128. A favor de celulite, só a febre e o eritema, que as duas doenças têm, e a sensibilidade preservada, que não afasta nada porque a anestesia é sinal tardio. A receita de ontem é parte do diagnóstico: uma celulite tratada que piora em menos de 24 horas não é falha da cefalexina, é outra doença. O perfil — mulher jovem, sem comorbidade, escoriação banal na perna — é o da forma causada por um germe só, estreptococo ou Staphylococcus aureus, a dos membros inferiores. Passo 2: a proteína C reativa de 9,2 miligramas por decilitro são 92 miligramas por litro, abaixo de 150: zero. Leucometria de 14.200, abaixo de 15.000: zero. Sódio de 136: zero. Creatinina de 1,3: zero. Glicose de 104: zero. A hemoglobina de 13,6 não cabe em classe nenhuma da tabela publicada, que dá zero só acima de 13,6 e 1 ponto de 11 a 13,5; fechando a lacuna pela classe do meio, como este capítulo faz, 13,6 está acima de 13,5 e vale zero. O total é zero — e, se alguém contasse a hemoglobina como 1 ponto, seria 1, sem mudar nada. Passo 3: com o corte de 6, o escore tem sensibilidade de 68,2 por cento, o que quer dizer que cerca de 32 em cada 100 pacientes com infecção necrosante somam menos de 6 — e a via clínica diz que pontuação baixa não afasta o diagnóstico. Do outro lado estão dois achados de especificidade alta: hipotensão, 97,7 por cento, e bolha hemorrágica, 95,8 por cento. Quando a suspeita é alta, a imagem não pode atrasar nem dissuadir a cirurgia, e a tomografia de amanhã poria a primeira incisão muito além das seis horas contadas desde as 16h20 — a fronteira entre 19 e 32 por cento de mortalidade. Trocar a cefalexina por um antibiótico maior não trata tecido que já não recebe sangue. Passo 4: ligue para o cirurgião agora, e a primeira frase é suspeita de fasciíte necrosante na perna esquerda, com hipotensão, bolha nova e dor desproporcional, em paciente que piorou em 18 horas de cefalexina. O pacote de sepse corre em paralelo, pelo capítulo de sepse. Hemoculturas antes da primeira dose. A cefalexina sai. Com instabilidade, o esquema da via clínica para o paciente instável: piperacilina com tazobactam 4,5 g a cada 6 horas, um frasco-ampola reconstituído em 20 mL; clindamicina 900 mg a cada 8 horas, 6 mL da solução de 150 mg/mL em 100 mL, correndo em pelo menos 30 minutos; e vancomicina com ataque de 25 a 30 mg/kg, que em 63 quilos são de 1.575 a 1.890 mg, diluídos a no máximo 5 mg/mL — de 315 a 378 mL — e correndo a no máximo 10 mg/min, de 2 horas e 38 minutos a 3 horas e 9 minutos, com a manutenção pela farmácia clínica. Se o hospital tiver linezolida venosa e não tiver clindamicina, 600 mg a cada 12 horas, 300 mL da solução de 2 mg/mL, fazem as vezes da vancomicina e da clindamicina. Para a enfermagem, a suspeita de estreptococo do grupo A invasivo em ferida extensa pede, pela leitura deste capítulo das três linhas do protocolo da Anvisa, contato e gotículas até completar 24 horas de terapia eficaz. A situação vacinal do tétano é conferida e conduzida pelo capítulo de tétano. Passo 5: falta perguntar se a ferida teve contato com água do mar, com pescado ou frutos do mar, ou com água doce ou salobra, lama e madeira. Contato com o mar ou com pescado aproxima o Vibrio vulnificus, e contato com água doce, solo ou madeira, a Aeromonas hydrophila; a diretriz americana indica doxiciclina com ceftriaxona ou cefotaxima no primeiro e doxiciclina com ciprofloxacino ou ceftriaxona na segunda — lembrando que a errata corrigiu a ceftriaxona do Vibrio para 1 grama uma vez ao dia e o ciprofloxacino venoso para 400 miligramas. A doxiciclina injetável consta da relação nacional, no componente Estratégico. Na história de Jovelina, uma quina de cimento dentro de casa, a resposta é negativa e o esquema não muda. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Infecção profunda pode preceder alterações cutâneas exuberantes; dor e progressão desproporcionais são sinais de alerta. 2. Não. Tem limitações diagnósticas e não revoga suspeita clínica consistente. 3. Não. O objetivo é desbridar o mais cedo possível. Metas de serviço não funcionam como período seguro de observação. 4. Não. É indispensável junto ao suporte, mas tecido necrótico exige controle cirúrgico; perfusão local prejudicada limita ação do medicamento. 5. Obesidade, função renal e exposição farmacocinética exigem limite e monitorização. Dose aritmética não substitui validação clínica e farmacêutica. 6. Perfusão, disfunção orgânica, dor, extensão local, débito e aspecto da ferida. Piora exige reavaliação imediata, antes do horário programado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Para a mionecrose clostridiana, a diretriz americana de 2014 recomenda exploração e desbridamento urgentes, esquema amplo enquanto o germe é desconhecido e, confirmado o clostrídio, penicilina com clindamicina como terapia definitiva; recomenda também não usar oxigenoterapia hiperbárica, porque o benefício não foi comprovado e ela pode atrasar a ressuscitação e o desbridamento. A via clínica de 2022 aceita considerar a câmara onde ela existir, desde que não interfira no tratamento padrão nem o atrase, e afirma que o paciente não deve ser transferido para fazer a sessão. A resolução do Conselho Federal de Medicina de 1995 lista a gangrena gasosa entre as aplicações reconhecidas da técnica, o que torna a indicação lícita, mas não resolve a pergunta clínica, que é das diretrizes. A posição da apostila é que a câmara nunca atrasa a sala nem justifica transferência.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

A infecção necrosante mata o tecido embaixo da pele antes de a pele mudar, e por isso se reconhece pela dor que não cabe no que se vê, pelo edema que passa do eritema, pela progressão em horas e pela taquicardia que não combina com a temperatura. Bolha, necrose, anestesia e crepitação são tardias e raras no momento em que ainda dá tempo. O escore de laboratório baixo não afasta, a radiografia sem gás também não, e a tomografia não pode atrasar a sala quando a suspeita é alta. O tratamento é o desbridamento, o mais cedo possível e em até seis horas desde a chegada, repetido a cada 12 a 24 horas até que quase nada precise sair, com antimicrobiano amplo e antitoxina desde a primeira dose. A gangrena de Fournier começa, no Brasil, sobretudo num abscesso perianal que ninguém drenou a tempo, e só se encontra com o paciente despido.

Em 30 dias

Recupere os números que decidem: mortalidade de 19 por cento com cirurgia em até seis horas e de 32 por cento depois; escore de laboratório com sensibilidade de 68,2 por cento no corte de 6 e de 40,8 no de 8; bolha hemorrágica e hipotensão com especificidade acima de 95 por cento e sensibilidade de 25,2 e 21,0; crepitação em um de cada cinco pacientes; febre em só 15 por cento da série brasileira de Fournier, que teve 22,5 por cento de mortalidade e 75 por cento de origem perianal. Recupere as conversões: proteína C reativa de 150 miligramas por litro são 15 por decilitro, e creatinina de 1,6 miligrama por decilitro são 141 micromoles por litro. Recupere o que a farmácia muda: a clindamicina injetável não está na relação nacional, a linezolida venosa está no componente Estratégico, a benzilpenicilina potássica está no Básico e no Estratégico. E recupere as três posições que esta apostila tomou — seis horas e não vinte e quatro; antitoxina desde a primeira dose, também na gangrena de Fournier; câmara hiperbárica que nunca atrasa a sala nem justifica transferência — e os erros das fontes que apareceram no caminho, do escore publicado com unidades trocadas à clindamicina do guia brasileiro escrita como dose diária em cada tomada.

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Agora atenda

Atenda um paciente diabético com dor perianal que já passou por duas consultas: dispa-o, compare a dor com o que a pele mostra, conte a frequência cardíaca contra a temperatura, ligue para o cirurgião dizendo o nome da suspeita e a instabilidade, prescreva o esquema com antitoxina e explique ao paciente e à família por que a cirurgia é esta noite e pode não ser a única.

Infecções necrosantes de partes moles – A pele é a última a saber — Internato | OsceLabs