Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Tirar o pus e contar os dias

Peritonite secundária e abscesso intra-abdominal

Identificar a fonte da infecção, escolher como controlá-la e reavaliar a resposta para definir duração antimicrobiana e segurança da alta.

Fontes deste capítulo

Huston JM, Barie PS, Dellinger EP, et al.; Therapeutics and Guidelines Committee. The Surgical Infection Society Guidelines on the Management of Intra-Abdominal Infection: 2024 Update. Surg Infect (Larchmt). 2024;25(6):419-435. doi:10.1089/sur.2024.137

Coccolini F, Sartelli M, Sawyer R, et al. Source control in emergency general surgery: WSES, GAIS, SIS-E, SIS-A guidelines. World J Emerg Surg. 2023;18:41. doi:10.1186/s13017-023-00509-4

Prescott HC, Antonelli M, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026. Intensive Care Med. 2026;52:863-936. doi:10.1007/s00134-026-08361-1

Instituto Latino Americano de Sepse. Implementação de protocolo gerenciado de sepse. Protocolo clínico: atendimento ao paciente adulto com sepse/choque séptico. São Paulo: Instituto Latino Americano de Sepse; revisado em julho de 2026

Instituto Latino Americano de Sepse. Guia prático de terapia antimicrobiana na sepse. 3. ed. São Paulo: Instituto Latino Americano de Sepse; 2024. ISBN 978-65-992258-3-3

01

Responda antes de ler

Homem de 49 anos, sem comorbidades, nunca operado, chega no quinto dia de dor em fossa ilíaca direita que melhorou no terceiro dia e piorou com febre. Está lúcido, com temperatura de 38,3 °C, frequência cardíaca de 102 e pressão de 130 por 82, massa dolorosa e defesa localizadas em fossa ilíaca direita e restante do abdome depressível. Lactato de 1,2 mmol/L. A tomografia com contraste mostra coleção única de 6 cm com gás e apendicolito, acessível por via anterior, sem líquido livre no restante da cavidade. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, vinte e uma e quarenta. O hospital é regional, tem cento e cinquenta leitos e recebe gente de seis municípios. O tomógrafo funciona a noite inteira, e o laudo noturno chega por telerradiologia em cerca de quarenta minutos. A punção guiada por imagem existe, mas tem horário: o radiologista intervencionista, o Dr. Toríbio Manso, atende de segunda a sexta, das sete às dezenove. O centro cirúrgico tem duas salas, e a unidade de terapia intensiva, dez leitos, com dois vagos hoje. Você é o interno do pronto-socorro cirúrgico. O residente, Leandro Marcondes, está na sala 1 com uma hérnia encarcerada, e a cirurgiã de plantão, a Dra. Marcolina Lacerda, está no hospital, no andar da enfermaria.

Na maca 3 está Emetério Tabosa, 47 anos, 82 quilos, motorista de caminhão de leite, hipertenso com a pressão controlada. A dor começou há cinco dias em volta do umbigo e em algumas horas desceu para o lado direito, embaixo. No terceiro dia ele foi à unidade básica, saiu com dipirona e com a palavra virose, e de fato achou que melhorou naquela tarde. No quarto dia piorou, e à noite teve febre com calafrio. Hoje ele está lúcido, com temperatura axilar de 38,4 °C, frequência cardíaca de 104, pressão de 132 por 80, frequência respiratória de 20 e saturação de 97%. Na fossa ilíaca direita há uma resistência dolorosa, mal delimitada, que você consegue desenhar com a mão espalmada; ali a parede defende. O resto do abdome está depressível, e a descompressão só dói em cima da massa.

Os exames voltam antes da imagem: leucócitos de 17.900, creatinina de 1,0 mg/dL e lactato de 1,4 mmol/L. A tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso sai às 22h35. Mostra uma coleção de 6,2 por 4,8 centímetros na fossa ilíaca direita, com gás dentro e parede que capta contraste, um apendicolito no meio dela e alças coladas em volta. Não há líquido livre no restante da cavidade nem ar longe da coleção. Leandro sai da sala por dois minutos, olha a tela e resume: é abscesso de apêndice, começa antibiótico e amanhã a gente vê. A frase está metade certa, e a metade que falta é o assunto deste capítulo.

No box 1 da sala vermelha está Hermínia Malheiros, 71 anos, 74 quilos, diabética em uso de metformina, trazida pela filha. Faz três dias que ela sente dor embaixo, do lado esquerdo, com o intestino preso. Hoje, perto das quatro da tarde, a dor tomou a barriga inteira. Às 21h50 ela está confusa, com pele fria e úmida, frequência cardíaca de 124, pressão de 82 por 46, frequência respiratória de 28, temperatura de 37,6 °C e saturação de 93% em ar ambiente. O abdome está distendido, defende em todos os quadrantes e dói quando você encosta, quando ela tosse e quando a maca balança. O lactato volta em 5,1 mmol/L. A enfermeira já abriu o protocolo de sepse, colheu as hemoculturas e está instalando o segundo acesso.

Os dois têm, com enorme probabilidade, a mesma família de bactérias — a flora do intestino, aeróbios e anaeróbios juntos —, e os dois vão receber antimicrobiano da mesma classe nas próximas horas. Nenhum dos dois vai ser curado por ele. A diferença entre eles não está no germe nem no remédio: está em onde o pus está e em como ele vai sair. Em Emetério, a infecção ficou cercada por alças e epíplon, e uma agulha atravessando a pele pela manhã provavelmente resolve. Em Hermínia, o conteúdo do intestino se espalhou pela cavidade, e o que resolve é uma incisão, nas próximas horas, com a pressão sustentada no caminho. Depois disso, os dois vão dividir a segunda pergunta, que é a que mais se erra nas enfermarias: quantos dias de antimicrobiano vêm depois que o foco saiu, e a partir de que dia se conta.

Este capítulo trata do abdome que nunca foi operado e infectou. A fronteira com o capítulo de choque séptico e manejo da sepse cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório, é escrita com as mesmas palavras nos dois textos: o abdome que ainda não foi operado é da Urgência; o abdome operado que infecta é do Pré e Pós-operatório. Deiscência de anastomose, abscesso pós-operatório e reabordagem são de lá. Também não se reensina aqui nenhuma das doenças que perfuram — apendicite, diverticulite, úlcera péptica perfurada, colecistite e colangite têm capítulo próprio nesta apostila —, nem a síndrome do abdome agudo, nem o pacote da primeira hora da sepse, que pertence à apostila de Medicina Intensiva e Emergências, nem a peritonite bacteriana espontânea do cirrótico, que é da Gastroenterologia e do capítulo de paracentese.

O capítulo faz quatro coisas, na ordem em que o plantão precisa delas. Separa a peritonite primária, a secundária e a terciária, e mostra por que o nome muda a conduta. Ensina a imagem que decide e o relógio de cada caminho — a agulha, que pode esperar a manhã num paciente como Emetério, e a sala, que não pode esperar num paciente como Hermínia. Monta o esquema empírico com o que o elenco nacional de medicamentos de fato entrega, que é menos do que as diretrizes supõem. E termina na conta que mais se erra: o curso de antimicrobiano depois do controle do foco é curto, tem data para acabar, e essa data se escreve no dia em que o pus saiu.

03

Quem adoece disso

A infecção intra-abdominal é uma das duas maiores fábricas de sepse do mundo, e é a que menos se entende. A diretriz de controle do foco publicada em 2023 pela World Society of Emergency Surgery, com a Global Alliance for Infections in Surgery e as sociedades europeia e americana de infecção cirúrgica, parte de uma carga global estimada em 50 milhões de casos de sepse e 11 milhões de mortes por ano, coloca a sepse de origem abdominal como a segunda causa entre elas e registra que ela parece ser, entre todos os tipos de sepse, a mais mal compreendida pelos médicos. O mesmo texto escreve a frase que justifica este capítulo inteiro: a sepse de fora do abdome pode ser tratada com sucesso só com antibiótico; a abdominal, não.

O que cresce na cavidade depende de como a bactéria chegou lá, e essa diferença de flora é o primeiro número que separa as três peritonites. O protocolo de infecção intra-abdominal de um hospital estadual do Espírito Santo, revisado em 2023 e apoiado no manual de microbiologia clínica da Anvisa, lista para a peritonite bacteriana espontânea do cirrótico enterobactérias em cerca de dois terços dos casos, pneumococo em 15%, enterococo em 6% a 10% e anaeróbios em menos de 1%. Para a peritonite que vem de víscera oca e para o abscesso, a lista é outra: enterobactérias, pseudomonas, estafilococo, enterococo e uma coleção de anaeróbios — Bacteroides, Fusobacterium, Peptostreptococcus, Clostridium — que praticamente não existe na espontânea. Na peritonite da diálise peritoneal a lista muda de novo — Staphylococcus aureus e epidermidis, pseudomonas e enterobactérias —, e em 20% dos episódios a cultura não cresce nada.

Menos de um em cada cem episódios de peritonite espontânea tem anaeróbio. Por isso uma cultura de líquido ascítico que devolve vários germes, com anaeróbio no meio, não é peritonite espontânea com azar: é o intestino se comunicando com a cavidade. A régua que manda desconfiar disso diante de uma cultura polimicrobiana está no capítulo de paracentese, e o que se faz a partir da desconfiança é assunto deste capítulo.

O relógio do controle do foco tem número, e ele é curto. A atualização de 2024 das diretrizes da Surgical Infection Society, a principal sociedade norte-americana do tema, apoia a recomendação de prazo numa metanálise de nove estudos observacionais com 3.373 pacientes operados por diverticulite, perfuração gastrointestinal, apendicite complicada ou peritonite de outras vísceras ocas: operar antes de doze horas associou-se a menor mortalidade, menos complicações do procedimento e internação mais curta, e dentro de seis horas a sobrevida foi ainda maior. No subgrupo em choque séptico por perfuração gastrointestinal, a sobrevida caiu a cada hora de atraso e foi zero quando a operação passou de seis horas.

A mesma diretriz cita uma análise secundária de um ensaio randomizado por conglomerados com 4.792 adultos internados em terapia intensiva por sepse com pelo menos uma disfunção orgânica nova. Atrasar o controle cirúrgico do foco aumentou significativamente o risco de morte no choque séptico, e atrasar o antimicrobiano além de seis horas aumentou a mortalidade e a progressão para choque. A própria diretriz anota a ressalva que impede ler isso como prova limpa: quem foi operado nas primeiras seis horas tinha, com mais frequência, infecção adquirida na comunidade do que quem esperou. As Diretrizes Internacionais do Surviving Sepsis Campaign, na edição de 2026, reuniram onze estudos observacionais e encontraram risco relativo de morte de curto prazo de 0,70 com o controle precoce, com intervalo de confiança de 95% entre 0,51 e 0,95 — e classificaram a certeza da evidência como muito baixa.

Há uma medida por hora que vale conhecer, porque ela aparece em dois capítulos desta apostila com números diferentes e os dois estão certos. A diretriz de controle do foco de 2023 cita uma coorte nacional de úlcera péptica perfurada em que cada hora de atraso até a sala aumentou em 6% o risco de morte. O capítulo de úlcera péptica perfurada usa outra coorte, dinamarquesa, em que cada hora custou 2,4% de probabilidade de sobrevida. São populações diferentes e medidas diferentes — aumento de risco num caso, perda de probabilidade de sobreviver no outro —, e as duas apontam para o mesmo lugar.

A outra metade do problema é quanto antimicrobiano vem depois, e ela também tem preço medido. O Guia Prático de Terapia Antimicrobiana na Sepse do Instituto Latino Americano de Sepse, na terceira edição, de 2024, cita uma revisão de 2022 em que cada dia de terapia antimicrobiana se associou a aumento de 4% na chance de evento adverso, e cada dia adicional de exposição, a aumento de 9% na probabilidade de evento adverso grave. Do lado da eficácia, a diretriz norte-americana de 2024 reúne as análises de subgrupo de um único ensaio randomizado multicêntrico de 518 pacientes com infecção intra-abdominal e controle adequado do foco, que comparou um curso curto com um curso longo depois do controle adequado do foco, e cujo braço curto sustenta a recomendação de quatro dias: o curso curto não perdeu na análise de 129 pacientes sobre drenagem percutânea, na de 112 com critério de resposta inflamatória sistêmica, nem na de 152 obesos, 64 diabéticos e 83 com escore de gravidade mais alto.

A peritonite que nasce fora do hospital não é, por definição, infecção relacionada à assistência à saúde, e por isso fica fora da vigilância nacional obrigatória que conta a infecção de órgão e cavidade depois de uma cirurgia. Nenhum dos documentos brasileiros que governam este capítulo traz número nacional de incidência, de mortalidade ou de duração de tratamento para ela. A peritonite terciária, por sua vez, não tem número de incidência em nenhum deles, e a diretriz de controle do foco de 2023 a descreve como categoria mal definida, mal compreendida e possivelmente histórica. Na prática, o interno brasileiro vai aprender a duração do antimicrobiano pelo protocolo da comissão de controle de infecção do hospital em que está — e o bloco de critérios mostra o que um desses protocolos, de 2023, manda fazer e onde ele se desencontra das diretrizes.

04

Por que acontece o que acontece

O peritônio não é uma parede passiva. É uma superfície do tamanho aproximado da pele, lisa, úmida e com três maneiras de lidar com o que cai nela. A primeira é remover: o líquido da cavidade circula em direção ao diafragma, e pequenas aberturas na face inferior dele drenam líquido, partículas e bactérias para os linfáticos. A segunda é matar: macrófagos residentes e neutrófilos que chegam em horas fagocitam o que encontram. A terceira é cercar: a superfície inflamada exsuda fibrina, que cola alças, e o epíplon migra até a área agredida e se prende a ela. Peritonite é o nome do que acontece quando o que caiu na cavidade vence as duas primeiras defesas; e a terceira decide se o paciente vai ter uma coleção ou uma cavidade inteira contaminada.

A peritonite primária é a infecção que chega sem buraco. A bactéria alcança a cavidade por translocação ou pelo sangue e encontra um meio de cultura pronto — a ascite do cirrótico ou o líquido de diálise peritoneal, que é exatamente a condição que a diretriz de controle do foco de 2023 exige na definição. O inóculo é pequeno, quase sempre de um germe só, e não há reservatório nenhum para tirar: o foco é o próprio líquido, e o que o trata é o antimicrobiano. Operar uma peritonite primária é abrir um abdome em que não há nada para retirar.

A peritonite secundária é a que vem de uma ruptura da integridade do tubo digestivo, física ou funcional — uma víscera que perfurou, uma parede que necrosou, uma inflamação que atravessou a serosa. O que cai na cavidade não é um germe: é o conteúdo do intestino, com a sua população inteira de aeróbios facultativos e anaeróbios estritos. Os dois grupos se ajudam. Os facultativos consomem o oxigênio do meio e baixam o potencial de oxirredução, e é nesse meio empobrecido que os anaeróbios proliferam; alguns deles, como o Bacteroides, têm cápsula que favorece a organização em abscesso. Por isso a peritonite secundária é polimicrobiana por natureza, e é por isso que todo esquema empírico para ela cobre anaeróbio.

O caminho se bifurca na terceira defesa. Quando o vazamento é pequeno, lento ou já parou, e quando há epíplon e tempo, a fibrina e as alças vizinhas cercam a contaminação num espaço só: forma-se um abscesso, que tem parede, tem endereço e tem tamanho. Quando o vazamento é grande, continua aberto ou chega rápido demais — ou quando o doente não tem com o que cercar, como o idoso, o imunossuprimido e a criança pequena de epíplon curto —, o conteúdo se espalha pela cavidade e produz peritonite difusa. Emetério e Hermínia estão nos dois lados dessa bifurcação, e ela explica, sozinha, por que um vai ser puncionado e a outra vai ser operada.

O abscesso tem uma propriedade que decide o capítulo: o antibiótico não o esteriliza. O pus é um espaço morto. Não tem circulação dentro dele, tem pH baixo, tem densidade de bactérias muito maior do que a de qualquer tecido e boa parte delas crescendo devagar, que é a condição em que os betalactâmicos perdem eficácia; e tem restos de neutrófilos e de proteína que prendem fármaco. O antimicrobiano chega à cápsula e ao tecido em volta, trata a celulite ao redor da coleção e a bacteriemia que escapa dela — e deixa o centro intacto. O controle do foco é o conjunto de medidas que retira o reservatório e interrompe a contaminação: drenar, desbridar, descomprimir, restaurar a anatomia. A diretriz de 2023 acrescenta a esse núcleo o antimicrobiano e o suporte da fisiologia, mas o núcleo continua sendo tirar.

Esse mesmo mecanismo explica por que o curso depois do controle do foco pode ser curto. Enquanto o pus está lá, antimicrobiano nenhum basta, por mais dias que corra. Quando ele sai, o que resta é contaminação residual em tecido bem perfundido, com carga bacteriana pequena, que o antimicrobiano e as defesas do peritônio resolvem juntos em poucos dias. Prolongar o curso não acrescenta nada contra um alvo que foi embora junto com o pus; acrescenta pressão seletiva sobre a flora do intestino e os eventos adversos que cada dia a mais carrega. A peritonite difusa mata por outro lado da mesma moeda: a superfície enorme absorve toxinas bacterianas e mediadores inflamatórios para o sangue, o líquido sequestrado na cavidade e na parede das alças faz subir a pressão dentro de um abdome que é um recipiente semirrígido, e a hipertensão intra-abdominal reduz a perfusão das vísceras que deveriam estar se recuperando.

A peritonite terciária é o que se chama a peritonite que persiste ou volta 48 horas ou mais depois de um manejo aparentemente adequado da primária ou da secundária. A definição é de um consenso de 2005, e a própria diretriz de controle do foco de 2023 chama a categoria de mal definida, mal compreendida e possivelmente histórica. O que ela tem de característico é a flora: sai o germe entérico da doença original e entram populações de hospital — e o protocolo capixaba de 2023 responde a ela com cobertura de enterococo e de Candida. A diretriz de 2023 lê isso à luz do que hoje se sabe sobre o microbioma do doente grave, que sob choque perde diversidade e se converte numa flora patológica. Duas consequências práticas saem daí. A primeira: antes de chamar alguma coisa de terciária, é preciso provar que o controle do foco foi mesmo adequado, porque pus que ficou para trás produz exatamente o mesmo quadro. A segunda: quase toda peritonite terciária acontece num abdome que já foi operado, e o manejo dela pertence ao capítulo de choque séptico e manejo da sepse cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório.

Cortes axiais esquemáticos com coleção delimitada drenada por cateter e, ao lado, contaminação peritoneal difusa.
Uma coleção acessível pode permitir drenagem percutânea quando indicada. Na contaminação difusa, o controle do foco depende da causa e da repercussão clínica, frequentemente com abordagem cirúrgica. Não há indicação universal de drenar toda coleção ou de usar cirurgia aberta.
05

Como se apresenta de verdade

Reconhecer que um abdome está inflamado é o que o capítulo de abdome agudo em cinco síndromes, nesta apostila, ensina a fazer, e a triagem da dor abdominal indiferenciada pertence ao capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência. O que interessa aqui começa um passo depois: diante de um abdome que infectou, qual das peritonites é esta, onde está o pus, e quão doente está a pessoa que carrega esse pus. As três perguntas mudam a conduta, e o exame físico responde bem à primeira metade delas.

As seis seções seguem a bifurcação do bloco anterior. As duas primeiras separam a contaminação que se espalhou da que foi cercada; as três do meio tratam dos pacientes em quem o exame engana e das duas peritonites que se confundem com a secundária; a última classifica o risco, que decide o esquema empírico e o prazo do controle do foco. A apresentação de cada doença que perfura — o apêndice, o divertículo, a úlcera, a vesícula — está no capítulo dela.

Localizada ou difusa: a pergunta que o exame físico responde

A diretriz de controle do foco de 2023 separa a peritonite pela extensão, e a separação tem consequência imediata. A peritonite localizada fica restrita a um setor do abdome; a peritonite difusa envolve todos. O texto registra que, com raríssimas exceções, quem chega com peritonite difusa precisa de exploração cirúrgica imediata, enquanto quem tem sinais localizados pode seguir para avaliação complementar. É por isso que a palpação precisa percorrer os quatro quadrantes, e não parar onde o paciente aponta: é ela que decide o caminho.

A peritonite difusa se reconhece pela soma, não por um sinal isolado. A defesa é involuntária e aparece em todos os quadrantes; a dor surge quando você encosta longe do lugar em que o paciente aponta, quando ele tosse e quando a maca balança; o paciente não quer se mexer; o abdome distende e os ruídos somem à medida que as alças param. Hermínia tem tudo isso, e tem junto a instabilidade que costuma acompanhar a contaminação difusa: taquicardia, hipotensão, taquipneia e confusão.

A peritonite localizada tem a defesa e a dor à descompressão confinadas a um território, com o restante do abdome depressível. Quando existe massa, ela quase sempre é um bloqueio — alças, epíplon e às vezes uma coleção no meio —, e a mão não consegue dizer qual dos três. Emetério está aqui: a resistência dolorosa da fossa ilíaca direita é real, e ela não diz sozinha se há 6 centímetros de pus ou só alças coladas. Quem responde isso é a imagem, e é para pedi-la bem que o exame serve.

O abscesso tem uma história própria: melhorou, e depois piorou

A coleção se forma devagar, e a história conta essa lentidão. Quase sempre há dias de sintoma, e não horas. É comum uma fase em que o paciente melhora — é quando a contaminação está sendo cercada, e a dor, antes difusa ou migratória, se fixa e diminui —, seguida de piora com febre em picos, calafrio, falta de apetite, mal-estar e dor que volta a crescer no mesmo lugar. Emetério melhorou no terceiro dia e piorou no quarto; a unidade básica o viu justamente na fase boa, e a palavra virose descreveu a fotografia daquela tarde, não a doença.

O exame acrescenta dados que dependem do endereço da coleção. Na fossa ilíaca e nas goteiras, a massa dolorosa e a defesa localizada são o achado mais comum, e a dor à extensão do quadril aparece quando a coleção encosta no músculo psoas. Na pelve, o abdome pode ser pobre e os sintomas migram para os vizinhos: puxo, diarreia com muco, urgência urinária, e dor ao toque retal ou vaginal, que muitas vezes é o único exame que encontra a coleção. Embaixo do diafragma, a queixa pode ser a dor no ombro, a respiração curta e o soluço, com macicez e murmúrio diminuído na base do pulmão pelo derrame que acompanha a coleção. Entre as alças, o que aparece é o íleo que não resolve, sem ponto doloroso claro.

A febre sozinha não é critério de gravidade e a ausência dela não é critério de nada. O que caracteriza o abscesso é a combinação de tempo de doença, febre que vai e volta e um território que dói sempre no mesmo lugar. Um paciente com essa história e um exame pobre precisa de imagem, e não de mais um dia de observação.

O abdome que não conta a história

Os pacientes em quem a peritonite não produz os sinais clássicos são os mesmos em qualquer abdome agudo — o idoso, o imunossuprimido, o usuário crônico de corticoide, o obeso, o sedado, a gestante —, e o mecanismo de cada disfarce já foi desenvolvido nos capítulos de abdome agudo em cinco síndromes e de úlcera péptica perfurada, nesta apostila. O que muda neste capítulo é o que se procura no lugar do sinal que falta, porque o abscesso nesses pacientes raramente chega como dor abdominal.

Ele chega como febre sem foco, como confusão nova num idoso, como glicemia que dispara num diabético sem mudança de dieta, como taquicardia que não se explica, como um íleo que não cede ou simplesmente como um paciente que não melhora. A diretriz de controle do foco de 2023 inclui a imunossupressão entre os determinantes da classe do paciente e lista, como população de risco alto, os que têm albumina baixa, idade avançada, obesidade, tabagismo, diabetes e isquemia por doença vascular ou radioterapia. Nessas pessoas o limiar para pedir imagem abdominal é baixo, e a pergunta escrita no pedido é se existe coleção.

No cirrótico com ascite há um disfarce a mais: o líquido afasta as vísceras da parede e dilui o sinal peritoneal, e a infecção da cavidade — primária ou secundária — pode doer pouco. Nesse paciente, a peritonite não se exclui pelo exame; exclui-se puncionando, e a punção pertence ao capítulo de paracentese.

Primária ou secundária: o cirrótico que não responde

A peritonite bacteriana espontânea e a secundária podem ter a mesma contagem de polimorfonucleares no líquido, e é essa coincidência que atrasa a cirurgia de quem perfurou. O capítulo de paracentese, na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, é dono da punção, das alíquotas e da bioquímica que separa as duas, e lista os quatro sinais que mandam desconfiar: dor abdominal localizada, cultura com vários germes, contagem muito alta com proteína do líquido alta e resposta inadequada ao tratamento, medida por uma segunda punção em 48 horas. O capítulo de cirrose hepática, na apostila de Gastroenterologia, diz com todas as letras que, quando essa desconfiança aparece, o problema passa a ser de imagem e de cirurgia e deixa de ser dele.

Este capítulo assume o que vem a partir daí, e declara que assume. A partir do momento em que a suspeita existe, o paciente sai do protocolo da espontânea e entra na lógica da secundária: tomografia sem demora, cirurgião chamado junto e não depois, procura ativa do foco — uma úlcera, um divertículo, uma vesícula, uma alça isquêmica — e esquema empírico que cubra anaeróbio. A razão desse último item está na flora: menos de 1% das espontâneas têm anaeróbio, e o esquema pensado para ela não foi desenhado para o conteúdo do intestino. Operar uma espontânea é abrir um abdome sem nada para retirar; tratar uma secundária como espontânea é dar antibiótico a um paciente que precisa de alguém que tire o foco.

Terciária: o paciente que não melhora depois de tratado

A terceira peritonite não se apresenta como uma dor nova. Apresenta-se como uma recuperação que não acontece: febre baixa que persiste ou volta, taquicardia que não cede, disfunção orgânica que se arrasta, íleo prolongado, dependência de suporte na terapia intensiva, e culturas que passam a crescer germes de hospital — enterococo, Candida, estafilococo, bacilos gram-negativos não fermentadores. A definição exige 48 horas ou mais depois de um manejo que parecia adequado, e é essa palavra, parecia, que concentra o erro.

Quase sempre a peritonite que persiste tem uma explicação mais simples do que a terciária, e a explicação mais simples é pus que ficou: uma segunda coleção que a primeira imagem não mostrou, um cateter de drenagem deslocado ou entupido, uma loja multiloculada drenada pela metade, uma comunicação com o intestino que continua aberta. Depois dessas, vêm os focos de fora do abdome que qualquer internado prolongado acumula — cateter venoso, pulmão, urina, colite por Clostridioides difficile —, cuja busca sistemática é o assunto do capítulo de febre no paciente internado e no pós-operatório, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. Chamar de terciária o que é pus não drenado tem um custo previsível: troca-se o antibiótico por um de espectro maior, acrescenta-se antifúngico, e a coleção continua lá.

No abdome que nunca foi operado, a terciária verdadeira é rara, porque a definição supõe um tratamento anterior considerado adequado, e esse tratamento quase sempre foi uma operação. Quando ela aparece, o abdome já passou para a outra metade da fronteira, e o manejo — reabordagem sob demanda, abdome deixado aberto, cobertura de germe hospitalar — é do capítulo de choque séptico e manejo da sepse cirúrgica, na apostila de Pré e Pós-operatório.

Quem é de alto risco, e por que isso decide o esquema e o relógio

Depois de saber qual é a peritonite e onde está o pus, falta saber quão doente está o paciente, e duas classificações respondem isso de ângulos diferentes. A atualização de 2024 da diretriz norte-americana classifica como de alto risco quem tem sepse ou choque séptico, escore de gravidade APACHE II acima de 10, controle do foco inicial atrasado ou inadequado, infecção pós-operatória, peritonite difusa ou comorbidades múltiplas — idade avançada, câncer, disfunção cardiovascular, hepática ou renal, albumina baixa. Somam-se os que provavelmente carregam germe resistente: quem foi tratado em serviço de saúde ou já recebeu antimicrobiano. O protocolo capixaba de 2023 usa a mesma lógica para a enterobactéria produtora de betalactamase de espectro estendido, listando antibiótico recente, sobretudo cefalosporina de terceira geração, comorbidade com exposição repetida a antibióticos e infecção hospitalar.

A diretriz de controle do foco de 2023 olha para o hospedeiro e propõe três classes. Na classe A estão os saudáveis ou com comorbidade controlada, sem imunossupressão, em quem a infecção é o problema principal. Na B, quem tem comorbidade importante ou imunossupressão moderada mas está clinicamente estável, e em quem a infecção pode piorar o prognóstico depressa. Na C, quem tem comorbidade avançada ou imunossupressão grave, e em quem a infecção agrava uma condição que já era séria. As figuras do documento acrescentam, em cada doença, uma linha para o doente criticamente enfermo, que atravessa as três classes.

Emetério é de baixo risco pela régua norte-americana e da classe A pela de 2023: hipertensão controlada, infecção comunitária, nenhum antibiótico recente, nenhuma disfunção orgânica, peritonite localizada. Hermínia é de alto risco por quatro caminhos ao mesmo tempo — choque séptico, peritonite difusa, idade e diabetes — e ocupa a linha do criticamente enfermo. As duas classificações não são enfeite de prontuário: são elas que decidem se o esquema empírico pode ser estreito, se o foco pode esperar até doze horas ou precisa sair em seis, e quanto cuidado cabe no plano de quem vai operar.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui não serve para dar nome à doença, que o exame e a história quase sempre já deram. Serve para responder quatro perguntas que mudam o que acontece nas próximas horas: existe coleção, e onde; ela sai por agulha ou por incisão; quão grave está o paciente; e vale a pena saber o germe. A ordem das perguntas importa, porque para uma parte dos pacientes a resposta da segunda chega antes de qualquer exame.

O caminho do exame muda com a bifurcação do mecanismo. No paciente estável com peritonite localizada, a imagem é o centro da investigação e decide o caminho. No instável com peritonite difusa, a imagem sai da frente e o laboratório acompanha o paciente até a sala. As seções abaixo seguem essa separação.

O paciente que não vai à tomografia

Hermínia não vai à tomografia, e a razão não é a falta de tomógrafo. Peritonite difusa com choque já tem a decisão tomada: a diretriz de controle do foco de 2023 registra que quem chega com peritonite difusa precisa, com raríssimas exceções, de exploração cirúrgica imediata, e o capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, adverte contra mandar à tomografia o paciente que ainda não foi ressuscitado. A imagem, nesse doente, só diria o nome do que vai ser encontrado, e custaria o tempo que o relógio do controle do foco não tem.

Isso não quer dizer que a imagem nunca tenha lugar na peritonite difusa. Num paciente estável, idoso, sem hipótese de origem, uma tomografia que não atrasa a sala pode escolher a incisão e evitar uma laparotomia às cegas — é uma discussão real, desenvolvida no capítulo de abdome agudo em cinco síndromes, nesta apostila, com os dois lados. O critério que decide, e que o interno pode sustentar, é o do relógio: se o exame atrasa a sala num paciente que precisa dela em horas, ele não se faz.

O que acompanha Hermínia até o centro cirúrgico é laboratório que mede gravidade e prepara a anestesia: gasometria com lactato, creatinina, eletrólitos, bilirrubinas, hemograma com plaquetas, coagulograma, glicemia, tipagem com prova cruzada, e as duas amostras de hemocultura colhidas antes do antimicrobiano, sem que a coleta atrase a primeira dose. A sequência completa da primeira hora é do capítulo de sepse; o que é deste capítulo é não trocar a sala pela sala de exame.

A tomografia que decide o caminho

No paciente estável com peritonite localizada, quem separa os três destinos possíveis — tratar só com antimicrobiano, drenar por agulha ou operar — é a tomografia de abdome e pelve com contraste endovenoso. Ela faz isso respondendo a perguntas que nenhum outro exame responde juntas: se há coleção ou só inflamação sólida dos tecidos, quantas coleções são, onde estão, que tamanho têm, se têm gás e parede, se há líquido livre espalhado pela cavidade ou ar longe do órgão doente, se a coleção encosta numa alça que pode estar comunicando com ela, e se existe um caminho seguro da pele até ela sem atravessar intestino, bexiga ou vaso.

O pedido escrito decide metade da qualidade da resposta. Uma requisição que diz só tomografia de abdome devolve um laudo descritivo; uma que diz suspeita de abscesso periapendicular no quinto dia de dor, avaliar tamanho, loculação e janela para drenagem percutânea devolve um laudo que responde à conduta. No caso de Emetério, a imagem das 22h35 já trouxe o essencial: coleção única, com gás, apendicolito, sem contaminação difusa. O que ainda falta saber, e que se pergunta ao radiologista, é se há janela para a agulha.

A tomografia tem limites que precisam ser ditos para não pesarem na decisão errada. Ela mostra coleção, mas não diz se o líquido está infectado: coleção estéril e abscesso podem ter a mesma imagem, e quem separa os dois é a aspiração. E ela fotografa um momento: uma imagem precoce pode não mostrar a coleção que ainda está se formando, e a repetição, quando o paciente não evolui como deveria, é conduta e não desperdício.

Ultrassonografia: onde ajuda e onde cega

A ultrassonografia vai até o leito, pode ser repetida quantas vezes for preciso e não usa contraste nem radiação. Ela encontra bem coleções que encostam na parede, as da pelve vistas pela bexiga cheia ou pela via transvaginal, as do espaço embaixo do fígado e do baço e as do próprio fígado, e é a ferramenta que guia a punção de muitas delas. No cirrótico, é ela que escolhe o bolsão da paracentese.

Ela cega onde o gás domina. O paciente com íleo, a coleção entre alças, a coleção retroperitoneal e o abdome do obeso são justamente os cenários em que o ultrassom devolve um exame sem coleção visível que não exclui coleção nenhuma. Nesses pacientes, um ultrassom negativo não fecha a pergunta, e a tomografia continua indicada.

O tamanho e a janela: quem decide se a agulha entra

A decisão entre antimicrobiano isolado, drenagem percutânea e cirurgia não é do interno, e não se resolve com um número de bolso. A diretriz norte-americana de 2024 manteve como recomendação forte usar o caminho menos invasivo capaz de controlar o foco, e a diretriz de 2023 põe o procedimento guiado por imagem ao lado da cirurgia aberta e da laparoscópica como uma das três vias do controle do foco. O tamanho da coleção entra na decisão, mas não é o único dado, e o único corte numérico dos documentos que governam este capítulo é o do abscesso diverticular: a mesma diretriz de 2023 fala em antibiótico isolado para abscessos pequenos, de menos de 4 a 5 centímetros, e drenagem para os maiores — e escreve o corte de três maneiras diferentes em três lugares do mesmo texto, como o bloco de critérios mostra.

Os outros dados que decidem são os da imagem e os do paciente. A coleção precisa ser alcançável por um trajeto seguro. Uma coleção única, bem delimitada e de conteúdo líquido drena melhor que uma multiloculada, de conteúdo espesso ou com tecido necrótico. Coleção que comunica com uma alça aberta pode esvaziar e voltar a encher, porque a fonte continua ativa. E o paciente precisa estar respondendo: quem piora com o foco dentro, ou evolui para peritonite difusa, deixa de ser candidato à agulha. A aspiração com agulha fina, sem deixar cateter, serve para outra pergunta — se o líquido está infectado — e não substitui a drenagem de uma coleção grande.

Em Emetério há um dado a mais, e ele não pertence a este capítulo. O capítulo de apendicite aguda, nesta apostila, registra que a partir dos 35 anos a diretriz de apendicite de 2025 sugere não operar o abscesso periapendicular na fase aguda, pelo risco de uma neoplasia do apêndice estar por trás dele, e programa a apendicectomia de intervalo com tomografia e colonoscopia antes. Com 47 anos, coleção de 6 centímetros, única, acessível, num paciente estável, a combinação de drenagem percutânea com antimicrobiano é o caminho que as duas réguas apontam. A decisão sobre o apêndice fica com aquele capítulo; o que se faz com a coleção é deste.

O que se colhe, e de quem

Hemocultura se colhe em quem tem sinais sistêmicos de infecção ou imunossupressão, sempre antes do antimicrobiano e sem atrasá-lo. O protocolo capixaba de 2023 pede duas amostras, para aeróbios e anaeróbios, nesses pacientes; a diretriz norte-americana de 2024 recomenda iniciar o antimicrobiano em até uma hora no paciente de alto risco com sepse. Hermínia tem as duas indicações. Emetério, com febre e sem disfunção orgânica, não tem prejuízo nenhum com a coleta, e a decisão de colher é da rotina do serviço.

Cultura do líquido peritoneal ou do pus é outra conversa, e a régua depende do risco. A diretriz norte-americana recomenda contra a cultura de rotina do líquido peritoneal para guiar o tratamento no paciente de baixo risco com infecção comunitária, e recomenda também não trocar o esquema pelo resultado da cultura quando esse paciente responde bem ao controle do foco e ao esquema empírico. A razão é que a flora da secundária comunitária é previsível, o esquema empírico já a cobre, e a cultura de quem melhora só produz a tentação de mudar o que está funcionando.

No paciente de alto risco, a coleta é regra e tem técnica. O protocolo capixaba de 2023 pede ao menos duas amostras do sítio infectado, cada uma com pelo menos 1 mL de líquido ou 0,5 g de tecido, uma para aeróbios e outra para anaeróbios; mais 1 a 10 mL inoculados em frasco de hemocultura logo depois da coleta, para aumentar o rendimento; 0,5 mL para a coloração de Gram; e mais 0,5 mL para fungos se houver suspeita. É a cultura dessa paciente, colhida na sala, que vai permitir estreitar o esquema de Hermínia nos próximos dias — e a de germe hospitalar, se um dia aparecer, que vai mudar a leitura do caso.

Laboratório que mede gravidade, e não diagnostica

Leucocitose, proteína C-reativa alta e febre dizem que há inflamação, e não dizem onde. Nenhum desses marcadores diagnostica abscesso nem separa a secundária da primária; o que eles fazem bem é mostrar a trajetória quando medidos da mesma forma ao longo dos dias. O que mede gravidade é outra coisa: lactato, creatinina e débito urinário, bilirrubina, plaquetas, gasometria e nível de consciência — as disfunções orgânicas que colocam o paciente na faixa de alto risco e mudam o esquema e o prazo.

Antes da punção, coagulograma e plaquetas precisam estar no prontuário, porque a radiologia vai perguntar por eles, e o paciente em uso de anticoagulante ou antiagregante precisa dessa informação escrita na hora do pedido. A decisão de suspender ou reverter é do serviço que vai puncionar, e o que se exige do interno é que ela não seja descoberta na maca da radiologia.

Procalcitonina tem um lugar estreito aqui. O Surviving Sepsis Campaign de 2026 manteve a sugestão de usar procalcitonina junto com a avaliação clínica para decidir quando parar o antimicrobiano no paciente com sepse e controle adequado do foco em quem a duração ideal não está clara. Na infecção intra-abdominal com controle adequado, a duração tem régua própria, e esta apostila lê a recomendação como útil para quem sai dessa régua — o doente que continua grave no quarto dia —, e não como exame de rotina para quem já tem data escrita para terminar.

07

Quem manda contar os dias, e onde as contas se desencontram

O cuidado combina controle do foco, antimicrobiano e reavaliação. Primeiro, identifique a extensão e a repercussão da infecção; depois, escolha com a equipe a via e a prioridade do procedimento. As tabelas organizam os esquemas e a duração após controle adequado. Registre a data do controle, a evolução e o plano de revisão para que a prescrição tenha uma justificativa e um término definidos.

  1. 11. Identifique a origem e o contexto: doença comunitária ou pós-operatória, exposição a antibióticos e dispositivos. Controle do foco e suporte valem para ambas; o capítulo de sepse cirúrgica aprofunda as particularidades do pós-operatório.
  2. 22. Primária, secundária ou terciária. No cirrótico com ascite, dor localizada, cultura polimicrobiana, contagem e proteína altas ou falha em 48 horas tiram o paciente do protocolo da espontânea.
  3. 33. Examine o abdome inteiro: peritonite difusa ou localizada. Difusa, com raríssimas exceções, é exploração cirúrgica.
  4. 44. Classifique o risco: sepse ou choque, APACHE II acima de 10, peritonite difusa, controle do foco atrasado, comorbidades múltiplas, passagem por serviço de saúde ou antibiótico prévio.
  5. 55. Difusa e instável: pacote de sepse em paralelo, cirurgião agora, sala em até 6 horas, nenhuma tomografia que atrase a sala.
  6. 66. Localizada e estável: tomografia com contraste endovenoso de abdome e pelve, e o pedido dizendo o que se quer saber — coleção, número, tamanho, gás, janela para agulha.
  7. 77. Antimicrobiano: baixo risco comunitário, ceftriaxona com metronidazol, sem cobertura extra; alto risco, esquema amplo da padronização do hospital. Confira o que o elenco nacional entrega antes de prescrever.
  8. 88. Caminho: o menos invasivo que controle o foco. Coleção única e acessível em paciente estável vai à drenagem percutânea; difusa, inacessível ou que falha vai à sala. Baixo risco em até 12 horas; choque em até 6.
  9. 99. Após controle adequado do foco, programar curso curto, em geral cerca de quatro dias na infecção intra-abdominal, com reavaliação clínica. Instabilidade persistente, foco não controlado ou outras infecções exigem plano individualizado; a data prevista não substitui essa avaliação.
  10. 1010. Sem melhora em 48 a 72 horas: imagem nova antes de antimicrobiano novo — cateter, loja não drenada, multiloculação, comunicação com o intestino.
  11. 1111. Cumprir a duração planejada quando o foco estiver controlado e a evolução for compatível; se houver deterioração, reavaliar a causa. Permanência de dreno isoladamente não prolonga antibiótico. Registrar tratamento da doença de origem e seguimento na alta.

Três peritonites, três condutas

PeritoniteComo a bactéria chegaFlora esperadaO que resolveQuem é dono no nível
Primária do cirrótico (espontânea)Sem ruptura do tubo digestivo; a ascite serve de meio de culturaUm germe só; enterobactérias em cerca de dois terços, pneumococo em 15%, enterococo em 6% a 10%, anaeróbio em menos de 1%Antimicrobiano; não há reservatório para retirarCapítulos de cirrose hepática (Gastroenterologia) e de paracentese (Procedimentos e Vias de Acesso)
Primária da diálise peritonealPelo cateter e pelo dialisato, sem ruptura do tubo digestivoStaphylococcus aureus e epidermidis, pseudomonas e enterobactérias; cultura estéril em 20%Régua própria da nefrologiaÉ de Indicações de diálise e manejo da uremia, na apostila de Nefrologia
Secundária localizada, com abscessoRuptura física ou funcional do tubo digestivo, com a contaminação cercada por fibrina, alças e epíplonPolimicrobiana, com aeróbios facultativos e anaeróbiosControle do foco pela via menos invasiva possível, em geral drenagem percutânea, com curso curto de antimicrobianoEste capítulo; a doença de origem, no capítulo dela
Secundária difusaA mesma ruptura, sem contençãoPolimicrobiana, com aeróbios facultativos e anaeróbiosExploração cirúrgica, com raríssimas exceções, e curso curto depois do controle adequadoEste capítulo, até o controle do foco e a contagem dos dias
TerciáriaPersiste ou volta 48 horas ou mais depois de manejo aparentemente adequadoDesvio para germes de hospital: enterococo, Candida, estafilococo, bacilos não fermentadoresProvar antes que não há pus não drenado; o manejo do abdome operado que continua infectadoCapítulo de choque séptico e manejo da sepse cirúrgica (Pré e Pós-operatório)

O relógio e o caminho do controle do foco

SituaçãoPrazoVia provávelDocumento e força
Peritonite difusa com choque sépticoAté 6 horas, e antes quando possívelSala; controle de danos se a fisiologia não permitir maisDiretriz norte-americana 2024, recomendação forte (1-B); Surviving Sepsis 2026, recomendação condicional, certeza muito baixa; protocolo brasileiro de sepse de julho de 2026, idealmente nas primeiras 6 horas; diretriz de 2023: emergente, independentemente da classe
Sepse sem choque, com foco que exige controleIdealmente até 6 horasConforme o focoSurviving Sepsis 2026, recomendação condicional; protocolo brasileiro de sepse de julho de 2026; a diretriz norte-americana não traz prazo para o alto risco sem choque
Paciente de baixo risco, peritonite localizada ou abscessoAté 12 horasDrenagem percutânea se a coleção for acessível; cirurgia se não forDiretriz norte-americana 2024, recomendação forte (1-B); diretriz de 2023: urgente, com espera de 1 a 24 horas aceitável sob antimicrobiano e hidratação
Abscesso diverticular pequeno, paciente estávelSem procedimento imediatoAntimicrobiano isolado abaixo de 4 a 5 cm; drenagem acimaDiretriz de 2023, que escreve o corte de três maneiras diferentes (ver notas); o estadiamento é do capítulo de diverticulite aguda
Qualquer foco, qualquer viaO menor possívelA menos invasiva capaz de controlar o focoDiretriz norte-americana, recomendação forte (1-B), mantida de 2017
Necrose infectada da pancreatiteTardio, depois da delimitaçãoEscalonamento progressivo, de drenagem a necrosectomiaDiretriz de 2023 e diretriz brasileira de 2011; o manejo é do capítulo de pancreatite aguda

Quantos dias depois do controle do foco: o que cada documento manda

Documento, natureza e dataPara quem escreveDuraçãoDe onde se conta
Surgical Infection Society, diretriz, 2024Infecção intra-abdominal complicada do adultoAté 4 dias (96 h) após controle adequado (1-A); 4 dias com drenagem percutânea (1-B), com sepse (1-B) e com diabetes, obesidade ou gravidade maior (1-B); 8 dias no criticamente enfermo (2-B); 24 h no trauma operado em até 12 h e na apendicite ou colecistite sem perfuração (1-A); 24 a 48 h na apendicite complicada operada (2-B)Do controle do foco
World Society of Emergency Surgery e parceiras, diretriz, 2023Controle do foco, por doença e por classe do pacienteApendicite complicada, classes A e B: 4 dias, prorrogáveis a 7; perfuração de delgado, classe A: 3 a 5 dias; abscesso diverticular drenado: 3 a 5 dias; colecistite complicada: 1 a 4 dias; colangite: 3 a 5 dias; classe C: pela clínicaDo controle do foco
Surviving Sepsis Campaign, diretriz, 2026Adulto com sepse ou choque séptico e controle adequado do focoMais curta em vez de mais longa, sem número (condicional, certeza muito baixa)Não especifica
Instituto Latino Americano de Sepse, protocolo clínico brasileiro, revisão de julho de 2026Adulto com sepse ou choque sépticoIndividualizada pela resposta clínica, pelo sítio da infecção, pelo agente e pela adequação do controle do foco, sem númeroNão especifica
Instituto Latino Americano de Sepse, guia brasileiro, 2024Sepse e choque sépticoMais curta com controle adequado do foco, sem número; mais longa com resposta arrastada, imunodeficiência, foco não controlado, bacteriemia por S. aureus ou infecção fúngicaNão especifica
Associação Médica Brasileira e Agência Nacional de Saúde Suplementar, diretriz, 2011Sepse grave e choque sépticoGeralmente de 7 a 10 dias, atribuídos ao Surviving Sepsis de 2008, com a ressalva de que tempos menores podem ser segurosNão especifica
Protocolo de comissão de controle de infecção de hospital estadual do Espírito Santo, 2023Pacientes daquele hospitalFases 1 e 2 (edema, transudato): 24 h; fase 3 (abscesso drenado): 3 a 5 dias; fase 4 (peritonite): 7 dias e reavaliarNão especifica, e as fases não são definidas
Bula da ceftriaxona aprovada pela AnvisaTodas as indicações do fármacoMínimo de 48 a 72 h depois do desaparecimento da febre ou da evidência de erradicaçãoDa febre
Bula do metronidazol comprimidoInfecção por anaeróbio7 dias ou a critério médicoNão especifica
Bula do ciprofloxacino aprovada pela AnvisaTodas as indicações do fármacoPelo menos 3 dias depois do desaparecimento da febre e dos sintomas; até 7 dias na cavidade abdominalDa febre

Da dose ao frasco: o esquema num homem de 82 kg e numa mulher de 74 kg

Fármaco e para quemDose da fonteO que a Rename 2024 ofereceA contaO que trava
Ceftriaxona — baixo risco comunitário (Emetério)2 g por via endovenosa a cada 24 h (protocolo capixaba 2023); a bula traz 1 a 2 g ao diaPó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, Componente Básico2 frascos de 1 g por dia; 1 g em 10 mL de água dá 10,72 mL, cerca de 93,3 mg/mL; 2 g somam 21,44 mL; quatro dias depois do controle do foco usam 8 frascosNão pode correr na mesma linha que solução com cálcio; a bula amarra a duração à febre
Metronidazol injetável — baixo e alto risco500 mg por via endovenosa a cada 8 h (protocolo capixaba 2023)Não consta em forma injetávelSem conta possível pela via do SUS: 1.500 mg por dia dependem da padronização do hospitalÉ o antianaeróbico que a diretriz norte-americana prefere nas associações, com recomendação forte (1-A)
Metronidazol comprimido — descalonamento oral400 mg três vezes ao dia, após as refeições (bula, infecção por anaeróbio)Comprimidos de 250 mg e de 400 mg, Componente Básico3 comprimidos de 400 mg por dia; 12 no curso de quatro dias; 1.200 mg por dia, 80% da dose diária endovenosa do protocoloExige dieta tolerada; a bula fala em 7 dias
Ciprofloxacino comprimido — alergia grave a betalactâmico ou descalonamento500 mg duas vezes ao dia (outras infecções, que a bula estende à cavidade abdominal) ou 750 mg duas vezes ao dia (peritonite, na mesma tabela)Comprimidos de 250 mg e de 500 mg, Componente Básico; sem forma injetável750 mg por tomada = 1 comprimido de 500 mg mais 1 de 250 mg, ou 3 de 250 mg; 1.000 mg contra 1.500 mg por diaO guia brasileiro de 2024 desencoraja quinolona empírica onde a resistência de E. coli ao ciprofloxacino passa de 10%
Piperacilina-tazobactam, cefepima, ertapenem, meropenem, imipenem — alto risco (Hermínia)Piperacilina-tazobactam 4,5 g a cada 6 h sem risco de ESBL; meropenem 1 g a cada 8 h com risco (protocolo capixaba 2023); a diretriz norte-americana recomenda piperacilina-tazobactam, cefepima com metronidazol, imipenem ou meropenem (1-A)Nenhum constaPiperacilina-tazobactam: 18 g por dia, sem ajuste pelos 74 kg na dose do protocoloTodo o esquema de alto risco depende da farmácia do hospital, não do elenco nacional
Fluconazol — só com Candida isolada ou peritonite terciária (protocolo capixaba)600 mg de ataque e 400 mg ao dia (protocolo capixaba 2023) contra 800 mg (12 mg/kg) de ataque e 400 mg (6 mg/kg) (diretriz brasileira de 2011, citando a sociedade norte-americana de infectologia)Solução injetável de 2 mg/mL, Componente Estratégico; cápsulas e suspensão no Básico600 mg = 300 mL; 800 mg = 400 mL; 400 mg = 200 mL; 12 mg/kg em 74 kg = 888 mgA diretriz norte-americana recomenda contra antifúngico empírico na infecção comunitária de alto risco (1-B)

Risco e valores de fronteira. Ao usar um escore, identifique o limiar e o operador da tabela adotada. Um resultado exatamente no ponto de corte não deve ser classificado de modos diferentes em partes do mesmo registro. O risco também depende da apresentação clínica e das comorbidades.

Controle do foco e duração. Os estudos de cursos de quatro e oito dias não examinaram populações idênticas. O fluxo e o bloco de decisão orientam como relacionar a duração ao controle obtido e à evolução. Não transforme o número de dias em uma ordem isolada de suspensão ou prorrogação.

Prioridade do procedimento. Choque, sepse, peritonite difusa e infecção localizada representam situações diferentes. A categoria de risco não substitui a avaliação do foco e de sua repercussão. Registre a justificativa do prazo proposto e os achados que exigiriam antecipá-lo.

Empírico e dirigido. Risco de infecção por Candida e isolamento microbiológico de Candida são informações diferentes. Ao ler uma recomendação de antifúngico, confira a população e a condição a que ela se aplica, evitando transformar resultado de tratamento dirigido em indicação universal de terapia empírica.

Tamanho do abscesso. As referências citadas usam faixas diferentes ao discutir drenagem de abscesso diverticular. O tamanho deve ser relacionado ao contexto apresentado no capítulo de diverticulite; uma medida isolada não substitui a decisão sobre acessibilidade, repercussão e resposta ao tratamento.

Estatísticas de atraso. Percentuais de aumento de risco e de redução de mortalidade dependem da medida e da janela comparada. Não use uma frase de urgência como fórmula para calcular a mortalidade individual. O próximo passo é organizar o controle do foco e registrar os obstáculos que precisam ser resolvidos.

Protocolos locais. Rótulos como “fase” só são úteis quando sua definição é conhecida. Ao discutir a prescrição, descreva o foco, a extensão, a repercussão e o controle realizado; essas informações permitem compreender o caso mesmo quando os serviços usam nomenclaturas diferentes.

Dose e peso. Uma dose por quilo precisa ser convertida para a quantidade por tomada e por dia, incluindo eventual limite e ajuste previstos no esquema. Nos exemplos do capítulo, diferenças de peso modificam o total de vancomicina e fluconazol. Não copie uma dose fixa como se fosse equivalente a mg/kg em qualquer paciente.

Marco de contagem. A data de controle do foco, a data de admissão e o desaparecimento da febre são marcos diferentes. Escreva qual deles orienta o plano adotado. Uma instrução genérica de bula não deve ser combinada inadvertidamente com o prazo de um protocolo para formar um terceiro esquema.

Reconstituição da ceftriaxona. O volume final inclui o deslocamento do pó. No exemplo de 1 g com 10 mL de diluente, o volume final é aproximadamente 10,72 mL, correspondendo a cerca de 93,3 mg/mL. Confira a apresentação usada antes de transformar dose em volume.

Via de administração e acesso. A lista nacional citada oferece apresentações orais e algumas injetáveis; o hospital pode adquirir outros medicamentos por sua própria padronização. Confirme o esquema completo e a possibilidade de transição de via, sem deduzir disponibilidade apenas pelo nome do fármaco.

Continuidade da decisão. Registre controle do foco, resultado de culturas, resposta clínica e data prevista de revisão. Essa organização permite que a equipe seguinte entenda por que manter, direcionar ou encerrar o tratamento, sem repetir toda a discussão entre documentos.

Apresentações orais. O elenco citado inclui metronidazol em comprimidos de 250 e 400 mg, ciprofloxacino em comprimidos de 250 e 500 mg e amoxicilina com clavulanato em comprimido de 500 mg com 125 mg e em suspensão. Ao planejar o descalonamento, confira a apresentação realmente disponível. Dose prescrita, quantidade por unidade e possibilidade de obtenção são informações diferentes que precisam coincidir no plano de alta. Para a terapia venosa, o elenco também cita ceftriaxona e cefotaxima injetáveis; confira o estoque institucional.

08

A conduta, hora a hora

As prescrições desta seção estão calculadas para Emetério Tabosa, 82 quilos, creatinina de 1,0 mg/dL, sem alergia conhecida, sem anticoagulante nem antiagregante: um paciente de baixo risco com abscesso periapendicular num abdome nunca operado. A decisão de drenar e a de operar são da cirurgiã e do radiologista intervencionista, e a padronização do antimicrobiano é da comissão de controle de infecção do hospital. O trabalho do interno é outro, e não é pequeno: dar nome ao quadro, cobrir a flora certa sem exagerar o espectro, chamar quem decide com os dados que decidem, deixar o paciente pronto para a agulha e escrever, no dia em que o pus sair, a data em que o antimicrobiano termina.

Duas regras atravessam os oito marcos. A primeira: o antimicrobiano que começa antes da drenagem é ponte, e o relógio da duração não começa nele — começa no controle do foco. A segunda: o esquema de Emetério é o do paciente de baixo risco, e cada item que se acrescenta a ele por insegurança, e não por critério, é espectro que a diretriz desaconselha e dia de exposição que o paciente paga.

  1. 22h35 — dar nome ao quadro antes de prescrever

    Escreva a hipótese inteira na evolução, porque cada palavra dela escolhe uma parte da conduta: peritonite secundária localizada, com abscesso periapendicular de 6,2 por 4,8 centímetros, em abdome nunca operado, infecção adquirida na comunidade, paciente de baixo risco e sem disfunção orgânica. Essa frase diz que o esquema empírico pode ser estreito, que o foco precisa sair mas não precisa sair agora, e que a via provável é a agulha. A diretriz norte-americana de 2024 recomenda controlar o foco em até doze horas no paciente de baixo risco, com recomendação forte; o diagnóstico foi feito às 22h35, e a punção às sete da manhã cabe nesse prazo. Registre o horário do diagnóstico, porque é contra ele que o prazo se mede.

    Prescrição
    • Evolução com a hipótese completa: peritonite secundária localizada, abscesso periapendicular, abdome não operado, infecção comunitária, baixo risco
    • Horário do diagnóstico por imagem registrado (22h35) e prazo-alvo do controle do foco escrito: até 10h35
    • Sinais vitais a cada 2 horas, com temperatura, frequência cardíaca, pressão, frequência respiratória e nível de consciência
  2. 22h40 — o antimicrobiano de baixo risco, e o que o elenco nacional entrega

    A diretriz norte-americana recomenda, com grau forte, cefotaxima ou ceftriaxona associadas a metronidazol, ou ertapenem, para o paciente de baixo risco com infecção comunitária, e recomenda contra acrescentar cobertura de pseudomonas ou de enterococo nesse paciente. O guia de terapia antimicrobiana do instituto brasileiro de sepse, de 2024, aponta a mesma dupla — cefalosporina de terceira geração com metronidazol — como a opção mais adequada para a maioria dos casos. O protocolo capixaba de 2023 escreve as doses: ceftriaxona 2 g uma vez ao dia e metronidazol 500 mg de 8 em 8 horas, ambos por via endovenosa. O problema é a segunda metade da dupla. A Rename 2024 traz ceftriaxona em pó de 1 g no Componente Básico e não traz metronidazol injetável: o metronidazol do elenco nacional é comprimido de 250 e de 400 mg. Onde o hospital padroniza a forma injetável, ela entra; onde não padroniza, a cobertura de anaeróbio vai por boca assim que o paciente puder engolir, na dose que a bula do comprimido traz para infecção por anaeróbio.

    Prescrição
    • Ceftriaxona 2 g por via endovenosa a cada 24 horas: 2 frascos-ampola de 1 g, cada um reconstituído em 10 mL de água para injetáveis (volume final de 10,72 mL, cerca de 93 mg/mL), em injeção lenta de 2 a 4 minutos, ou os 2 g dissolvidos em 40 mL de solução sem cálcio em infusão de pelo menos 30 minutos
    • Metronidazol 500 mg por via endovenosa a cada 8 horas, se padronizado no hospital — a forma injetável não consta da Rename 2024
    • Sem metronidazol injetável e com via oral liberada: metronidazol 400 mg por via oral a cada 8 horas, 1 comprimido de 400 mg após as refeições
    • Alergia grave a betalactâmico: ciprofloxacino associado a metronidazol, conferindo antes com a comissão de controle de infecção o perfil local de resistência de Escherichia coli ao ciprofloxacino
    • Nenhuma cobertura adicional de pseudomonas, de enterococo ou de fungo: paciente de baixo risco com infecção comunitária
  3. 22h50 — o telefonema, e o pedido que a radiologia vai ler

    Ligue para a cirurgiã com a conduta pronta para ser discutida, e não com a tomografia para ser interpretada. A frase tem seis partes: idade, hipótese nomeada, o achado de imagem que a sustenta, os sinais vitais, a classe de risco e o que já foi feito. Para Emetério: homem de 47 anos, quinto dia de dor, abscesso periapendicular de 6,2 centímetros, único, com gás e apendicolito, sem contaminação difusa, estável, baixo risco, ceftriaxona iniciada às 22h40. A pergunta que você leva é sobre o caminho, e a cirurgiã tem dois dados para decidir que não são do interno: a janela para a agulha, que o radiologista confirma, e a idade, que no capítulo de apendicite aguda desloca a apendicectomia para depois da fase aguda a partir dos 35 anos. O pedido de drenagem escrito na mesma noite economiza a primeira hora da manhã.

    Prescrição
    • Comunicação à cirurgiã de plantão com idade, hipótese, achado de imagem, sinais vitais, classe de risco e antimicrobiano iniciado, com horário registrado
    • Pedido de drenagem percutânea guiada por imagem com a pergunta escrita: abscesso periapendicular de 6,2 por 4,8 cm, avaliar janela e colocação de cateter
    • Coagulograma, plaquetas e creatinina no prontuário antes do procedimento; uso de anticoagulante ou antiagregante perguntado e anotado
    • Jejum para o procedimento conforme a orientação do serviço de radiologia, com horário de início anotado
  4. Madrugada — o que permite esperar a manhã, e o que cancela a espera

    Esperar a manhã só é seguro se a espera tem régua escrita. Emetério pode esperar porque está estável, a peritonite é localizada e o prazo de doze horas fecha às 10h35. O que transforma a espera em erro é a mudança de categoria: peritonite que deixa de ser localizada e passa a difusa, pressão que cai, frequência que sobe apesar de analgesia e volume, confusão nova, diurese que some, lactato que sobe. A diretriz norte-americana, com grau forte, manda ler a inflamação sistêmica e a disfunção orgânica que pioram como sinal de que o controle do foco está falhando. Escreva essas medidas como gatilhos na prescrição de enfermagem, e não como impressão na sua memória. A analgesia da noite segue a tabela de doses do capítulo de abdome agudo em cinco síndromes, que monta os analgésicos sobre o elenco nacional, e a profilaxia de tromboembolismo segue a avaliação de risco do capítulo próprio, na apostila de Pré e Pós-operatório.

    Prescrição
    • Gatilhos para chamar o plantão imediatamente: pressão arterial média abaixo de 65 mmHg, frequência cardíaca acima de 120, confusão nova, dor que se espalha para o abdome inteiro, diurese abaixo de 0,5 mL/kg/h, o que para 82 kg significa menos de 41 mL por hora
    • Hidratação venosa de manutenção enquanto em jejum, com balanço anotado
    • Analgesia titulada com dose e horário registrados, sem usar a resposta à analgesia como argumento diagnóstico
    • Avaliação de risco de tromboembolismo venoso registrada, com a profilaxia decidida pela equipe cirúrgica em função do procedimento
  5. 07h20 — a drenagem, e o que se registra dela

    O Dr. Toríbio puncionou por um trajeto anterior, aspirou 58 mL de pus espesso e fétido e deixou um cateter fino de drenagem com a ponta enrolada dentro da cavidade, que colabou na imagem de controle. Esse é o controle do foco de Emetério, e o horário dele é o número mais importante do prontuário a partir de agora. Registre volume e aspecto do material, posição do cateter, intercorrências e o horário. A cultura do pus não é obrigatória num paciente de baixo risco com infecção comunitária, e a diretriz norte-americana recomenda contra fazê-la de rotina para guiar o esquema; se o serviço colher, o resultado não muda o tratamento de quem estiver respondendo. A rotina de fixação, de lavagem e de troca de bolsa do cateter é do serviço que o colocou.

    Prescrição
    • Registro do controle do foco: horário (07h20), volume aspirado (58 mL), aspecto, posição do cateter e colabamento da cavidade na imagem de controle
    • Cateter em drenagem por gravidade, com débito e aspecto anotados a cada turno
    • Cultura do pus opcional, segundo a rotina do serviço; resultado não altera o esquema de paciente de baixo risco que responde
    • Dieta liberada após a recuperação da sedação, conforme orientação do serviço de radiologia
  6. D0, manhã — escrever a data em que o antimicrobiano termina

    Hoje é o dia zero, e é hoje que a duração se decide. A diretriz norte-americana de 2024 recomenda, com grau forte, limitar a terapia antimicrobiana a quatro dias quando o controle do foco foi obtido por drenagem percutânea, e mantém a recomendação anterior de não passar de 96 horas depois do controle adequado do foco. As doses da noite anterior foram ponte e não entram na conta. Quatro dias contados das 07h20 de sexta-feira terminam às 07h20 de terça-feira: essa é a data que vai escrita na prescrição e na evolução, com a frase que a justifica. A troca para a via oral ajuda o paciente que come e, no elenco nacional, ajuda sobretudo a metade anaeróbia do esquema: a ceftriaxona de uma dose diária pode seguir endovenosa até o fim do curso, e o metronidazol passa para o comprimido que a Rename oferece. A troca da ceftriaxona por ciprofloxacino oral é uma das divergências deste capítulo e depende do perfil local de resistência.

    Prescrição
    • Registrar término previsto em 96 horas após o controle adequado para este paciente de baixo risco, confirmando a evolução na avaliação diária. Não prolongar por rotina; deterioração exige rever o diagnóstico e o controle do foco.
    • Frase de justificativa na evolução: quatro dias após controle do foco por drenagem percutânea, paciente de baixo risco
    • Metronidazol 400 mg por via oral a cada 8 horas assim que a dieta for tolerada, substituindo a forma injetável: 3 comprimidos por dia, 12 no curso de quatro dias
    • Ceftriaxona 2 g por via endovenosa uma vez ao dia até a data de término
  7. D2 a D3 — a reavaliação que diz se o controle foi adequado

    A pergunta dos dias seguintes não é se o antimicrobiano está funcionando: é se o controle do foco funcionou. O paciente que responde fica sem febre, com frequência cardíaca em queda, dor menor, massa menos palpável, apetite de volta e débito do cateter diminuindo e clareando. O paciente que não responde em 48 a 72 horas precisa de imagem de novo, e não de antimicrobiano novo: o cateter pode ter saído do lugar ou entupido, pode haver outra loja que a punção não alcançou, a coleção pode ser multiloculada, o débito que aumenta e muda de aspecto pode denunciar comunicação com o intestino. Cada uma dessas respostas tem conduta própria — reposicionar, puncionar de novo, operar —, e nenhuma delas é trocar ceftriaxona por carbapenêmico.

    Prescrição
    • Curva de temperatura e de frequência cardíaca por turno, comparada com a da admissão
    • Débito e aspecto do cateter por turno; aumento de volume ou aspecto fecaloide comunicados no mesmo turno
    • Hemograma e proteína C-reativa no D2 para comparação com a admissão, lidos como trajetória
    • Sem melhora clínica em 48 a 72 horas: nova tomografia com a pergunta escrita, antes de qualquer mudança de esquema
  8. Terça-feira, 07h20 — parar, e decidir o cateter por outro critério

    Na terça-feira Emetério está sem febre desde domingo, comendo, com dor leve no local da punção e débito de 15 mL de aspecto seroso nas últimas 24 horas. O antimicrobiano para no horário escrito. O cateter continuar no lugar não é indicação de manter antibiótico: dispositivo não é diagnóstico, e a separação entre as duas decisões é o assunto do capítulo de antibioticoterapia na enfermaria, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. A retirada do cateter é decisão do serviço que o colocou, pela clínica, pelo débito e, se houver dúvida, pela imagem. Antes da alta, a pendência do apêndice sai escrita: com 47 anos e abscesso tratado sem cirurgia, o capítulo de apendicite aguda indica a apendicectomia de intervalo, precedida de tomografia e colonoscopia, e esse encaminhamento não pode depender da memória de ninguém.

    Prescrição
    • Suspensão do antimicrobiano no horário escrito no dia zero, com o curso completo registrado: fármacos, doses, via, quatro dias após o controle do foco
    • Decisão sobre a retirada do cateter registrada separadamente, pelo serviço de radiologia intervencionista
    • Orientação escrita de retorno imediato se voltar febre, dor crescente, vômitos ou saída de secreção pelo local da punção
    • Encaminhamento escrito para avaliação de apendicectomia de intervalo, com tomografia e colonoscopia antes, conforme o capítulo de apendicite aguda
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Como saber se está funcionando

Reavaliar um abdome infectado depois do controle do foco é responder uma pergunta só, com vários instrumentos: o foco foi mesmo controlado? A tentação é trocar a pergunta por outra, mais cômoda — o antibiótico está funcionando? —, e é essa troca que produz os esquemas que escalam de ceftriaxona para carbapenêmico e de carbapenêmico para antifúngico enquanto a coleção continua no mesmo lugar.

Os parâmetros abaixo valem para Emetério depois da punção e para Hermínia depois da operação, com uma diferença de peso: no paciente de baixo risco a febre, a dor e o cateter dizem quase tudo; no de alto risco, quem fala primeiro são o lactato, a diurese e a necessidade de vasopressor. Em qualquer dos dois, a janela que decide é a de 48 a 72 horas, e o ponto de checagem da duração é o quarto dia contado do controle do foco.

Curva de temperatura e de frequência cardíacaA cada turno, com os valores lidos contra os da admissão e os do dia anterior

Esperado: Queda da febre e da frequência cardíaca nas primeiras 48 a 72 horas depois da drenagem ou da operação

Se não melhora: Febre que persiste ou volta depois de 72 horas não é pedido de antibiótico novo: é pedido de imagem nova. Procure, nesta ordem, cateter deslocado ou entupido, loja não drenada, coleção multiloculada, comunicação com o intestino e, só depois, foco fora do abdome. Taquicardia que não cede sem febre também conta, e no pós-operatório abdominal tem leitura própria no capítulo de complicações pós-operatórias, na apostila de Pré e Pós-operatório.

Dor e exame do abdome, pelo mesmo examinador e sempre na mesma posiçãoUma vez por turno e a qualquer queixa nova

Esperado: Dor que diminui e se restringe ao local da punção ou da incisão; massa menos palpável; abdome sem defesa fora do território inicial

Se não melhora: Dor que passa de localizada a difusa, defesa nova em outros quadrantes e distensão com parada de eliminação são peritonite que se espalhou: o paciente que era da agulha passou a ser da sala, e a cirurgiã é chamada no mesmo turno. Num paciente que não produz sinais — idoso, imunossuprimido, sedado —, a ausência de piora ao exame não tranquiliza, e os parâmetros sistêmicos mandam.

Débito e aspecto do cateter de drenagemVolume e aspecto anotados a cada turno, somados em 24 horas

Esperado: Débito que cai dia a dia e muda de purulento para seroso

Se não melhora: Débito que zera cedo num paciente que continua febril sugere cateter entupido ou fora do lugar, e a conversa é com o serviço que o colocou. Débito que aumenta, ou que muda para aspecto fecaloide ou bilioso, sugere comunicação com uma víscera, e a conversa passa a ser com a cirurgiã. Débito baixo e seroso num paciente bem é critério para a decisão sobre o cateter, e nunca para a decisão sobre o antimicrobiano.

Lactato, diurese e creatininaNo paciente de alto risco, lactato a cada 2 a 4 horas enquanto alterado e diurese horária; creatinina diária

Esperado: Lactato em queda e normalizando, diurese de pelo menos 0,5 mL/kg/h — 37 mL por hora para os 74 kg de Hermínia — e creatinina voltando à basal

Se não melhora: Hipoperfusão que persiste depois de ressuscitação adequada e de controle do foco levanta duas hipóteses que não se resolvem com prescrição: ressuscitação insuficiente, cujo manejo é do capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências, e foco que não foi controlado. A diretriz norte-americana recomenda usar justamente essas medidas de disfunção orgânica que progridem para prever falha do controle do foco. No abdome que foi operado para controlar o foco e continua produzindo disfunção, a decisão sobre reabordagem é do capítulo de choque séptico e manejo da sepse cirúrgica.

Leucograma e proteína C-reativaNa admissão e no segundo ou terceiro dia, com repetição só se a clínica pedir

Esperado: Trajetória de queda acompanhando a melhora clínica

Se não melhora: Marcador que sobe junto com febre e piora clínica reforça a busca de pus não drenado. Leucocitose isolada num paciente que melhorou em todo o resto é dado a investigar, e não motivo para prolongar o curso por conta própria: a recomendação de quatro dias da diretriz norte-americana foi escrita para o controle adequado do foco e não condiciona a suspensão à normalização do leucograma.

Aceitação da dieta e retorno do trânsito intestinalDiariamente, perguntando o que comeu, se eliminou flatos e se evacuou

Esperado: Dieta tolerada nas primeiras 24 a 48 horas depois da drenagem, o que libera a troca do metronidazol injetável pelo comprimido

Se não melhora: Íleo que não cede num paciente sem causa na prescrição — opioide em dose alta, potássio baixo, excesso de volume — é sinal de inflamação que continua ao lado das alças, e entra na lista das perguntas da imagem nova. O paciente que não tolera a via oral mantém a via endovenosa, e a data de término não muda por isso.

Contagem dos dias de antimicrobianoNa evolução de todos os dias, com a data de término copiada da prescrição do dia zero

Esperado: Curso encerrado no horário escrito, quatro dias depois do controle do foco, sem doses programadas além dele

Se não melhora: Prorrogação só com motivo nomeado e escrito. O guia brasileiro de terapia antimicrobiana na sepse, de 2024, lista as situações em que um curso mais longo pode ser necessário: resposta clínica arrastada, imunodeficiência, foco não controlado, bacteriemia por Staphylococcus aureus e infecção fúngica. Fora dessa lista, a prorrogação é hábito — e foco não controlado se resolve controlando o foco, não prorrogando o curso.

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Onde o erro machuca

Tratar a coleção só com antimicrobiano e esperar a febre ceder

O dano: O pus fica onde está, e o antimicrobiano trata a celulite em volta dele. O paciente passa dias com febre que oscila, o esquema é trocado por outro de espectro maior no terceiro ou quarto dia, a coleção cresce, pode romper para a cavidade e transformar uma peritonite localizada, que se resolvia com uma agulha, numa peritonite difusa que precisa de laparotomia. O prontuário registra muita conduta e nenhum controle do foco.

Como pegar a tempo: Assim que a imagem mostra coleção, a pergunta seguinte é por onde ela sai, e ela vai escrita na evolução com o prazo: até doze horas no paciente de baixo risco. Antibiótico isolado é decisão de quem estadiou a coleção como pequena — no abscesso diverticular, abaixo de 4 a 5 centímetros —, e não o que acontece por falta de decisão.

Levar para a tomografia o paciente com peritonite difusa e choque

O dano: A imagem só confirma o que o exame já disse e custa as horas que o paciente não tem. Na metanálise citada pela diretriz norte-americana de 2024, a sobrevida dos pacientes em choque séptico por perfuração gastrointestinal caiu a cada hora de atraso e foi zero quando a operação passou de seis horas. Some-se o transporte de um doente instável para a sala do hospital com menos recurso para reanimá-lo.

Como pegar a tempo: Peritonite difusa com instabilidade é telefonema ao cirurgião agora e sala em até seis horas, com o pacote de sepse correndo em paralelo. O relógio começa na hora do diagnóstico, e essa hora vai escrita. Tomografia só entra se não atrasar a sala, e nunca num paciente que precisa de reanimação.

Contar os dias de antimicrobiano a partir da internação, da primeira dose ou da última febre

O dano: Quem conta da internação estica o curso pelos dias em que o foco ainda estava lá; quem conta da febre, como mandam as bulas da ceftriaxona e do ciprofloxacino, empurra o fim para depois do quarto dia em qualquer paciente que demora a esfriar; e quem não conta de lugar nenhum termina o tratamento no dia em que alguém se lembra, que é sempre tarde. Cada dia a mais aumenta a chance de evento adverso sem acrescentar cura.

Como pegar a tempo: O dia zero é o do controle do foco — a hora da drenagem ou da operação. As doses que vieram antes foram ponte. No mesmo dia, escreva na prescrição a data e a hora do fim, quatro dias, 96 horas depois, e a frase que justifica. Prorrogação só com motivo nomeado.

Trocar ou somar antimicrobiano quando o paciente não melhora depois da drenagem

O dano: A troca de ceftriaxona por carbapenêmico, a soma de vancomicina e depois de antifúngico produzem uma escada de espectro que seleciona germe resistente, favorece colite por Clostridioides difficile e, sobretudo, não toca no motivo da falha, que quase sempre é mecânico: cateter deslocado ou entupido, loja que a punção não alcançou, coleção multiloculada, comunicação com uma alça. O rótulo de peritonite terciária aparece cedo demais e justifica a escada.

Como pegar a tempo: Sem melhora em 48 a 72 horas, peça imagem nova antes de antimicrobiano novo, com a pergunta escrita. Converse com o serviço que colocou o cateter e com a cirurgiã. Mudança de esquema, quando vier, vem apoiada numa cultura que a justifica, e não na curva de temperatura.

Manter no protocolo da peritonite espontânea o cirrótico que tem foco abdominal

O dano: A contagem de polimorfonucleares é igual nas duas, o exame dói pouco nas duas, e o paciente com uma víscera perfurada recebe dias de um esquema pensado para um germe só, sem cobertura de anaeróbio e sem ninguém procurando o buraco. Quando a segunda punção mostra que a contagem não caiu, a peritonite já ficou mais grave e o paciente mais frágil para a sala.

Como pegar a tempo: Os quatro sinais do capítulo de paracentese — dor localizada, cultura com vários germes, contagem e proteína muito altas, falha em 48 horas — tiram o paciente da espontânea e o colocam neste capítulo: tomografia sem demora, cirurgião chamado junto, busca do foco e esquema que cubra o conteúdo do intestino.

Engordar o esquema do paciente de baixo risco com cobertura que ele não precisa

O dano: Acrescentar cobertura de pseudomonas, de enterococo, de estafilococo resistente ou de fungo a uma infecção comunitária de baixo risco multiplica espectro, toxicidade e custo sem melhorar desfecho. A diretriz norte-americana recomenda contra essas coberturas adicionais no paciente de baixo risco, com grau forte, recomenda contra vancomicina empírica na infecção intra-abdominal de qualquer risco e contra antifúngico empírico na infecção comunitária mesmo de alto risco.

Como pegar a tempo: Classifique o risco antes de escolher o esquema e registre a classificação. Baixo risco comunitário recebe cefalosporina de terceira geração com metronidazol e nada mais. Alto risco recebe o esquema amplo da padronização do hospital, com culturas colhidas para permitir descalonar quando o resultado chegar.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm duas dificuldades que se repetem. A primeira é explicar por que um tratamento menor — uma agulha em vez de uma cirurgia, quatro dias em vez de catorze — não é tratamento pela metade. A segunda é explicar a pressa de uma família cuja mãe está na sala vermelha, sem prometer desfecho e sem esconder que a operação pode terminar com uma bolsa de colostomia.

As falas abaixo são com Emetério Tabosa e com a esposa dele, Jacira Loureiro, com a filha de Hermínia Malheiros e com o residente. Todas cabem em menos de um minuto, usam as palavras que o paciente usa e deixam escrito no prontuário o que foi dito.

Emetério pergunta se vai precisar ser operado ainda esta noite

Hoje à noite, não. O exame mostrou que a inflamação do apêndice furou e formou uma bolsa de pus do lado direito da barriga, e o seu corpo conseguiu cercar essa bolsa. Isso é bom, porque dá para tirar o pus sem abrir a barriga: amanhã cedo o radiologista coloca uma agulha pela pele, guiada pela tomografia, esvazia a bolsa e deixa um tubinho fino para continuar drenando. Até lá o senhor fica com antibiótico na veia e sem comer, e se a dor se espalhar pela barriga ou o senhor piorar, a cirurgiã vem na hora.

Não diga: Dizer que é uma cirurgia menor ou que é só um furinho. O paciente vai acordar com um cateter saindo da barriga, e quem não sabe disso antes lê o cateter como complicação.

Jacira pergunta quanto tempo o tubo vai ficar e se ele vai para casa com aquilo

Quem decide a hora de tirar é o médico que colocou, olhando quanto sai por dia, a cor do que sai e como ele está. Normalmente o que sai vai diminuindo e clareando. Uma coisa importante: o tubo e o antibiótico são decisões separadas. O antibiótico tem data para acabar, e pode acabar antes de o tubo sair. Se isso acontecer, não quer dizer que esqueceram dele. Quer dizer que o pus já saiu, e o tubo está terminando de drenar o resto.

Não diga: Prometer um número de dias para a retirada, ou deixar a família descobrir sozinha que o antibiótico parou com o tubo ainda no lugar.

Emetério quer saber por que não tiram logo o apêndice, se ele é que causou tudo

É uma boa pergunta, e a resposta tem duas partes. A primeira é que agora a região está muito inflamada, e operar nesse tecido é mais arriscado do que tirar o pus pela agulha e esperar a inflamação passar. A segunda é a idade: a partir dos trinta e cinco anos, numa parte das pessoas que fazem esse tipo de abscesso existe um tumor pequeno no apêndice por trás da obstrução. Por isso, depois que tudo esfriar, o senhor vai fazer uma tomografia e uma colonoscopia e conversar sobre tirar o apêndice com calma, em algumas semanas. Isso vai sair escrito no papel da alta.

Não diga: Esconder a razão da colonoscopia por medo de assustar, ou falar em tumor sem dizer que é uma possibilidade minoritária que se investiga justamente para não ser perdida.

A filha de Hermínia pergunta se não dá para esperar amanhecer e operar com a equipe completa

Eu entendo a pergunta, e a equipe que está aqui agora é a que opera. A sua mãe tem uma infecção espalhada dentro da barriga, provavelmente porque um pedaço do intestino furou, e a pressão dela já caiu. Nesse quadro, o que resolve é tirar a sujeira de dentro da barriga, e isso precisa acontecer nas próximas horas: quanto mais se espera, menor a chance de ela sair bem. O remédio na veia ajuda, mas sozinho não resolve. A cirurgiã vai conversar com a senhora antes de subir, e é possível que ela precise sair da cirurgia com o intestino desviado para uma bolsa na barriga, pelo menos por um tempo.

Não diga: Apresentar a espera como opção equivalente, ou omitir a possibilidade de colostomia para facilitar o consentimento. A família que descobre a bolsa depois da operação sente que foi enganada, mesmo quando a conduta foi a certa.

No quarto dia, a filha de Hermínia pergunta por que pararam o antibiótico se a mãe é diabética

A gente parou porque a parte que o antibiótico não resolvia, que era o intestino furado e a sujeira na barriga, foi resolvida na cirurgia de quinta para sexta. Depois disso, o antibiótico serve para limpar o que sobrou, e os estudos mostraram que quatro dias fazem isso tão bem quanto um tratamento longo — inclusive em quem tem diabetes. Mais dias não trazem proteção e trazem efeito colateral, como diarreia grave. Ela continua sendo vista todos os dias, e se voltar febre ou dor, a gente investiga de novo, e a primeira coisa não é voltar o antibiótico: é procurar onde está o problema.

Não diga: Justificar a suspensão com economia ou com protocolo do hospital. A família precisa ouvir o motivo clínico, e a frase sobre o diabetes tem de ser dita, porque é a dúvida real.

Emetério, no quarto dia, pergunta por que o dele foi só quatro dias se o cunhado tomou catorze

Cada infecção tem a sua conta. No seu caso, o problema era o pus preso, e o pus saiu na sexta de manhã pela agulha. O antibiótico desses quatro dias foi para limpar o pouco que ficou, e o senhor está sem febre, comendo e com pouca dor. Tomar mais dias não protegeria o senhor de nada e aumentaria a chance de efeito ruim do remédio. Se a febre voltar, ou a dor aumentar, ou sair secreção pelo lugar do tubo, o senhor volta aqui no mesmo dia.

Não diga: Comparar com o tratamento do cunhado dizendo que aquele estava errado. O paciente não sabe o que o cunhado tinha, e você também não.

O residente propõe manter a ceftriaxona até retirar o cateter, por segurança

Leandro, eu escrevi a data no dia da drenagem: terça, sete e vinte, quatro dias depois do controle do foco, que é o que a diretriz de infecção intra-abdominal recomenda para drenagem percutânea. Ele está sem febre desde domingo, comendo, e o dreno está com quinze mililitros serosos. O cateter continuar não é indicação de antibiótico, e se for para prolongar eu preciso de um motivo para escrever: foco não controlado, bacteriemia, imunossupressão. Nenhum dos três está presente. Se você concorda, eu suspendo agora e deixo escrito o que faz a gente reavaliar.

Não diga: Transformar a conversa em disputa de hierarquia ou suspender sem avisar. A decisão é da equipe, e o que o interno leva para ela é a data escrita, o critério e o dado do dia.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quantos dias de antimicrobiano depois do controle adequado do foco na peritonite secundária comunitária

Quatro dias contados do controle do foco, sem depender da febre

A diretriz norte-americana recomenda, com grau forte, não passar de quatro dias de antimicrobiano depois do controle adequado do foco, e reforça a mesma duração, também com grau forte, para os subgrupos em que a tentação de prolongar é maior: quem teve o foco controlado por agulha, quem chegou com critérios de sepse, quem é diabético, obeso ou mais grave. O relógio começa no controle do foco, e nenhuma dessas recomendações condiciona a suspensão à febre ou à normalização do leucograma. A diretriz de 2023 escreve durações por doença que caem na mesma faixa curta — 3 a 5 dias na perfuração de delgado e no abscesso diverticular drenado, 4 dias prorrogáveis a 7 na apendicite complicada.

Surgical Infection Society, diretriz de infecção intra-abdominal, atualização de 2024: até 96 horas após controle adequado (1-A) e quatro dias com drenagem percutânea, com sepse e com diabetes, obesidade ou gravidade maior (1-B cada); World Society of Emergency Surgery e parceiras, diretriz de controle do foco de 2023, com cursos de 3 a 5 dias ou de 4 dias prorrogáveis a 7 conforme a doença

Sete dias na peritonite, sete a dez na sepse, ou até a febre ceder

O protocolo capixaba dá 3 a 5 dias ao abscesso drenado e 7 dias, com reavaliação depois, à peritonite, graduando os casos por fases que o documento não define. A diretriz brasileira de 2011 fala em cobertura geralmente de 7 a 10 dias na sepse, atribuída ao Surviving Sepsis de 2008. As bulas amarram o fim do tratamento à febre ou a sete dias: a da ceftriaxona manda manter no mínimo 48 a 72 horas depois do desaparecimento da febre, a do metronidazol comprimido dá 7 dias para infecção por anaeróbio, e a do ciprofloxacino pede pelo menos 3 dias depois da febre e dá até 7 dias para a cavidade abdominal.

Protocolo de infecção intra-abdominal de hospital estadual do Espírito Santo, 2023; Associação Médica Brasileira com Agência Nacional de Saúde Suplementar, Sepse: Controle do Foco e Tratamento Antimicrobiano, 2011; bulas de ceftriaxona, metronidazol e ciprofloxacino

Mais curto, sem número

O guia brasileiro de 2024 recomenda duração mais curta em vez de mais longa no adulto com sepse e controle adequado do foco, lista as situações que podem exigir curso mais longo — resposta clínica arrastada, imunodeficiência, foco não controlado, bacteriemia por Staphylococcus aureus e infecção fúngica — e não fixa número. O protocolo clínico do mesmo instituto, revisado em julho de 2026, manda individualizar a duração pela resposta clínica, pelo sítio da infecção, pelo agente e pela adequação do controle do foco, também sem número. O Surviving Sepsis de 2026 manteve a sugestão de duração mais curta, sem número, e acrescentou em apoio um ensaio que mostrou não inferioridade de 7 dias contra 14 na bacteriemia.

Instituto Latino Americano de Sepse, protocolo clínico de atendimento ao adulto com sepse, revisão de julho de 2026, e Guia Prático de Terapia Antimicrobiana na Sepse, 3ª edição, 2024; Surviving Sepsis Campaign, diretrizes de 2026, recomendação condicional com certeza muito baixa

Como decidir

A conduta de referência é curso curto após controle adequado do foco. No paciente com boa resposta, não prolongar automaticamente por dreno ou por hábito. Diante de febre persistente ou deterioração, investigar foco residual, outro foco, resistência ou causa não infecciosa; não apenas somar dias. A duração é consequência da avaliação clínica e do controle obtido, não de uma hierarquia entre datas de documentos.

O doente grave depois do controle do foco: quatro dias ou oito

Quatro dias também no paciente de alto risco com sepse

A recomendação de grau forte se apoia em 112 pacientes com infecção intra-abdominal que preenchiam critérios de resposta inflamatória sistêmica e em 83 com escore de gravidade mais alto, tratados com curso curto ou longo depois do controle adequado do foco. Nos dois subgrupos não houve diferença em infecção de sítio cirúrgico, infecção intra-abdominal recorrente, infecção fora do abdome, colite por Clostridioides difficile nem mortalidade. A mensagem é que ter chegado grave não é, por si, motivo para prolongar o curso quando o foco foi controlado.

Surgical Infection Society, atualização de 2024: quatro dias após o controle do foco no paciente de alto risco com sepse (1-B) e no de maior gravidade pelo escore APACHE II (1-B), com base em análises de subgrupo de um ensaio randomizado multicêntrico

Oito dias no paciente criticamente enfermo

A sugestão de grau fraco se apoia em 489 doentes críticos com infecção intra-abdominal pós-operatória, tratados com oito contra quinze dias ou cinco contra dez. Os cursos mais curtos tiveram desfechos semelhantes em mortalidade, tempo de terapia intensiva e de internação, emergência de bactéria multirresistente e taxa de reoperação, e os tratados por oito dias tiveram mais dias livres de antibiótico. O número oito, portanto, nasceu como a alternativa mais curta aos quinze dias do braço comparador — e numa população de abdome já operado.

Surgical Infection Society, atualização de 2024: limitar a oito dias no paciente criticamente enfermo após controle adequado do foco (2-B), com base num ensaio randomizado multicêntrico e numa revisão sistemática com metanálise

Como decidir

No paciente crítico, interpretar as evidências conforme o contexto e a qualidade do controle do foco. Quatro dias não constituem ordem automática para suspender diante de choque persistente. Discutir diariamente com cirurgia e equipe intensiva: foco controlado, evolução, culturas e presença de outras infecções. Prolongar sem buscar falha de controle também é inadequado. A decisão deve ser explícita e acompanhada de plano de reavaliação.

Ciprofloxacino como alternativa empírica e como descalonamento por via oral

Ciprofloxacino com metronidazol como opção de primeira linha no baixo risco, e para completar o curso por boca

A diretriz norte-americana apoia a recomendação numa metanálise de sete ensaios multicêntricos com 4.125 pacientes, em que os esquemas com fluoroquinolona não diferiram dos baseados em betalactâmico em sucesso de tratamento, mortalidade e eventos adversos — com a ressalva de que a moxifloxacina foi menos eficaz no subgrupo. A mesma diretriz recomenda o ciprofloxacino oral associado a metronidazol para completar o curso curto quando o trânsito volta. O protocolo capixaba de 2023 escreve o ciprofloxacino endovenoso de 400 mg a cada 12 horas com metronidazol como alternativa equivalente à ceftriaxona com metronidazol na infecção comunitária do paciente não crítico.

Surgical Infection Society, atualização de 2024: ciprofloxacino com metronidazol para terapia empírica de pacientes de baixo risco (1-A), para alergia grave a betalactâmico (1-A) e por via oral para completar curso curto (1-B); protocolo capixaba de 2023, que o lista ao lado da ceftriaxona para o paciente não crítico sem risco de ESBL

Quinolona empírica desencorajada onde a resistência de E. coli passa de 10%

O guia brasileiro registra que o aumento progressivo da resistência das enterobactérias às quinolonas nas infecções comunitárias tornou essa classe desencorajada no tratamento empírico das infecções urinárias e intra-abdominais, principalmente em centros onde mais de 10% das Escherichia coli são resistentes ao ciprofloxacino, e aponta a cefalosporina de terceira geração com metronidazol como opção mais adequada para a maioria dos casos.

Instituto Latino Americano de Sepse, Guia Prático de Terapia Antimicrobiana na Sepse, 3ª edição, 2024; e a própria diretriz norte-americana de 2024, que recomenda contra a maioria dos esquemas baseados em fluoroquinolona onde a prevalência de enterobactéria produtora de ESBL é alta (1-B)

Como decidir

Os dois documentos brasileiros discordam, e a régua resolve no primeiro e no segundo degraus. Pelo escopo, o protocolo capixaba vale para os pacientes do hospital que o escreveu, enquanto o guia de 2024 fala da infecção intra-abdominal comunitária em geral; pela data, o guia é o mais novo. Esta apostila adota, portanto, ceftriaxona com metronidazol como primeira linha, e reserva o ciprofloxacino com metronidazol para a alergia grave a betalactâmico, depois de conferir com a comissão de controle de infecção o perfil local de resistência de Escherichia coli; se o perfil não for conhecido, o ciprofloxacino não entra como empírico. No descalonamento, a metade que importa no Sistema Único de Saúde é a do anaeróbio: o metronidazol passa para o comprimido que a Rename oferece, e a ceftriaxona de dose única diária segue endovenosa até o quarto dia. O ciprofloxacino oral só substitui a ceftriaxona quando uma cultura mostrar sensibilidade ou quando o perfil local estiver abaixo do corte. Se entrar, a dose de peritonite que a bula traz é de 750 mg duas vezes ao dia, que se monta com um comprimido de 500 mg e um de 250 mg por tomada.

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O raciocínio, em voz alta

Hermínia Malheiros, 71 anos, 74 quilos, diabética em uso de metformina, três dias de dor em fossa ilíaca esquerda com intestino preso; hoje, perto das 16h, a dor tomou o abdome inteiro. Às 21h50: confusa, pele fria, frequência cardíaca de 124, pressão de 82 por 46, frequência respiratória de 28, temperatura de 37,6 °C, saturação de 93%. Abdome distendido, com defesa involuntária nos quatro quadrantes e dor à tosse. Lactato de 5,1 mmol/L, creatinina de 1,9 mg/dL, leucócitos de 21.300. Nenhum antibiótico nos últimos seis meses, nenhuma internação recente. Hemoculturas colhidas pela enfermagem às 21h45.

  1. O nome inteiro do quadro, antes de qualquer prescrição

    Peritonite secundária difusa, em abdome nunca operado, adquirida na comunidade, com choque séptico. Cada palavra decide uma coisa. Difusa quer dizer que a via é a sala e que a tomografia não entra. Choque séptico quer dizer que o relógio do controle do foco é de seis horas e que o pacote da primeira hora corre em paralelo. Comunidade e ausência de antibiótico e de internação recentes querem dizer que não há fator de risco para enterobactéria produtora de ESBL. E alto risco — por quatro caminhos: choque, peritonite difusa, idade e diabetes — quer dizer que o esquema empírico é amplo.

  2. O relógio, escrito com a hora em que vence

    O diagnóstico foi feito às 21h50. A diretriz norte-americana de 2024 recomenda, com grau forte, controlar o foco em até seis horas no paciente de alto risco em choque séptico, o Surviving Sepsis de 2026 sugere o mesmo prazo, dizendo que mais cedo é melhor quando possível, e o protocolo brasileiro do Instituto Latino Americano de Sepse, revisado em julho de 2026, manda controlar o foco o mais rapidamente possível, idealmente nas primeiras seis horas. O prazo vence às 03h50, e essa hora vai escrita na evolução. A cirurgiã está no hospital: o telefonema acontece agora, antes de qualquer resultado, com idade, hipótese, sinais vitais, lactato e o que já foi feito. A anestesia e a terapia intensiva são avisadas no mesmo minuto, porque o tempo de preparar a sala corre junto com o da ressuscitação, e não depois dela.

  3. O que corre em paralelo, e o que não é deste capítulo

    Hemoculturas já colhidas, antimicrobiano dentro da primeira hora — a diretriz norte-americana recomenda iniciá-lo em até uma hora no paciente de alto risco com sepse —, volume, noradrenalina se a pressão não sustentar, segundo lactato, sonda vesical e diurese horária: a sequência e as doses do pacote pertencem ao capítulo de sepse e choque séptico, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências. O que é deste capítulo é não deixar que a ressuscitação vire motivo de adiar a sala. A diretriz de 2023 registra que, nos casos mais graves, pode ser apropriado seguir para o controle invasivo do foco com a ressuscitação ainda em andamento, porque o risco é o paciente morrer antes de ficar otimizado para a operação.

  4. O esquema de alto risco, e o que o elenco nacional não entrega

    Para o paciente de alto risco com infecção comunitária, a diretriz norte-americana recomenda, com grau forte, piperacilina-tazobactam, cefepima com metronidazol, imipenem ou meropenem; o protocolo capixaba de 2023 escolhe piperacilina-tazobactam 4,5 g a cada 6 horas no choque sem fator de risco para ESBL. Nenhum desses fármacos consta da Rename 2024: o esquema depende da padronização do hospital, e a dose se ajusta à função renal pela tabela da farmácia. O que não entra também decide: nada de antifúngico empírico, contra o qual a diretriz recomenda na infecção comunitária mesmo de alto risco, e nada de vancomicina empírica. A cobertura de enterococo, que a diretriz sugere com grau fraco no alto risco, se confere com a comissão de controle de infecção contra o esquema escolhido. A primeira dose corre às 22h20.

  5. Sem tomografia, e com o que vai junto para a sala

    Peritonite difusa com choque não vai à tomografia: a imagem só diria o nome do achado e custaria horas que o prazo não tem. Vão com Hermínia para a sala a gasometria com lactato, a creatinina, as plaquetas e o coagulograma, a tipagem com prova cruzada, o consentimento conversado com a filha — incluindo a possibilidade de colostomia — e a prescrição do antimicrobiano com o horário da próxima dose, para que o anestesista a repita na sala se a operação se estender. A incisão acontece às 23h40, uma hora e cinquenta minutos depois do diagnóstico.

  6. O controle do foco, e o que se colhe dele

    A cirurgiã encontra perfuração do sigmoide por diverticulite, com peritonite fecal nos quatro quadrantes. Faz a ressecção do segmento perfurado com colostomia terminal, a operação em dois tempos cuja indicação é assunto do capítulo de diverticulite aguda, e lava a cavidade. Na sala, como paciente de alto risco, colhe líquido peritoneal para cultura de aeróbios e de anaeróbios. O foco está controlado à 01h10 de sexta-feira. Essa é a hora do dia zero, e ela vai escrita na evolução com a palavra controle — a peritonite que Hermínia trouxe de casa terminou de ser um foco ali.

  7. A data de término, escrita na madrugada

    Depois do controle do foco à 01h10 de sexta-feira, programo inicialmente um curso curto e registro o marco. A suspensão prevista para terça-feira depende de a avaliação confirmar controle adequado e evolução compatível. Como a paciente foi crítica, a equipe revê diariamente perfusão, disfunção, abdome e culturas; não aplica um prazo por transferência automática da população de menor risco.

  8. Os dias seguintes: descalonar sem mexer na data

    A noradrenalina sai com 30 horas e a extubação acontece no primeiro dia. No segundo dia a cultura do líquido peritoneal cresce Escherichia coli sensível à ceftriaxona e Bacteroides fragilis. A diretriz norte-americana recomenda descalonar de rotina o paciente de alto risco para o espectro mais estreito ativo contra o que cresceu, com grau forte, e sugere manter a cobertura de anaeróbio no descalonamento: a piperacilina-tazobactam dá lugar à ceftriaxona com metronidazol. A data de término não se move por causa da troca. No terceiro dia Hermínia está sem febre, com lactato normal, creatinina voltando para 1,2 mg/dL e a colostomia funcionando.

  9. Terça-feira, 01h10: parar, e o que fica escrito

    Com controle do foco confirmado e evolução favorável, a equipe encerra o curso curto no prazo definido. Diabetes, peritonite fecal ou permanência de dreno, isoladamente, não exigem duração maior. Se houvesse deterioração ou dúvida de controle, o caminho seria reavaliar o foco e o tratamento, não suspender ou prolongar por calendário. Os sinais de retorno ficam documentados.

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Faça você

Olegário Moura, 63 anos, 70 quilos, sem comorbidades conhecidas, internado por diverticulite do sigmoide com abscesso pélvico de 7 centímetros, drenado por punção guiada por tomografia na segunda-feira às 10h, com ceftriaxona e metronidazol desde a véspera. A data de término escrita no dia da drenagem é sexta-feira, 10h. Na quarta-feira à noite, terceiro dia depois da punção, ele tem temperatura de 38,7 °C, frequência cardíaca de 112, pressão de 124 por 76, dor em baixo ventre maior que ontem e puxo. O cateter drenou 90 mL no primeiro dia, 30 mL no segundo e 5 mL nas últimas 24 horas. Os leucócitos, que tinham caído de 16.800 para 14.100, subiram para 17.400. O residente de plantão escreve: febre persistente apesar de antibiótico, provável peritonite terciária; trocar para meropenem e vancomicina e acrescentar fluconazol.

  1. Por que isto não é peritonite terciária

    A definição exige que a peritonite persista ou volte 48 horas ou mais depois de um manejo aparentemente adequado. O manejo de Olegário não parece adequado: um cateter que drenou 90 mL, depois 30 e agora 5 num paciente que voltou a ter febre, dor e leucocitose não descreve uma coleção que secou — descreve um cateter que parou de drenar o que ainda existe. Chamar isso de terciária é dar nome de doença do hospedeiro a um problema mecânico.

  2. As explicações prováveis, na ordem em que se procuram

    Cateter entupido por pus espesso ou por fibrina; cateter que se deslocou para fora da cavidade; coleção multiloculada, em que a punção esvaziou uma loja e deixou outra; segunda coleção que a primeira imagem não mostrou; comunicação com o sigmoide que continua enchendo a cavidade. O puxo e a dor maior no baixo ventre apontam para a pelve, e o toque retal pode encontrar a coleção antes da imagem.

  3. O que se pede hoje, e para quem

    Tomografia com contraste endovenoso, de abdome e pelve, com o que se procura escrito no pedido: posição do cateter, coleção residual ou nova, loculação, comunicação com o cólon. E a conversa com o serviço que colocou o cateter e com a cirurgiã no mesmo turno, porque as respostas possíveis — lavar, reposicionar, puncionar outra loja, operar — são deles.

  4. O que não se prescreve

    Pela diretriz norte-americana de 2024, vancomicina empírica não se usa na infecção intra-abdominal, seja qual for o risco, e antifúngico empírico também não se usa na infecção comunitária, e o esquema em uso já cobre a flora de um abscesso diverticular. Trocar para meropenem, vancomicina e fluconazol hoje não trata a coleção, amplia pressão seletiva e apaga a leitura da resposta ao esquema atual. A escada de espectro fica suspensa até a imagem responder.

  5. Continuidade do caso e prática do internato

    Compare Emetério, de menor risco, com a paciente crítica do caso resolvido. Explique por que o controle do foco é comum, mas a reavaliação precisa considerar o contexto.

  6. Questão integrativa 1

    A coleção de Emetério precisa ser tratada apenas com antibiótico?

  7. Questão integrativa 2

    De qual momento se conta o curso curto?

  8. Questão integrativa 3

    Cateter fora da coleção muda a contagem?

  9. Questão integrativa 4

    Dreno ainda presente obriga antibiótico?

  10. Questão integrativa 5

    Paciente em choque no quarto dia deve ter antibiótico suspenso automaticamente?

  11. Questão integrativa 6

    Qual é a tarefa prática do interno na visita?

Ver como fecharíamos

A tomografia mostra o cateter com a ponta fora da cavidade e uma coleção pélvica residual de 5 centímetros, com gás. O radiologista reposiciona o cateter na quinta-feira às 9h e aspira 70 mL de pus. O passo que o completa é recontar os dias: o controle do foco que a data de sexta-feira supunha não tinha sido obtido, e ele só foi obtido na quinta-feira às 9h. Pela diretriz norte-americana, os quatro dias contam a partir do controle adequado, e a nova data de término é segunda-feira às 9h, escrita com a frase que explica a mudança. Como o controle foi atrasado e inadequado, Olegário passou à faixa de alto risco pela mesma diretriz, e o pus aspirado agora vai para cultura de aeróbios e anaeróbios, para orientar o esquema se a evolução não for boa. O esquema de ceftriaxona com metronidazol continua. Na alta, a pendência da doença diverticular — colonoscopia e discussão de cirurgia eletiva depois de uma crise complicada — segue o capítulo de diverticulite aguda. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Depende de tamanho, anatomia e quadro. Coleção que exige controle deve ser drenada pela via efetiva e menos invasiva apropriada; antibiótico não substitui essa intervenção. 2. Do controle adequado do foco, não simplesmente da primeira dose ou de uma tentativa de drenagem que falhou. 3. Sim. É falha de controle; corrigir a drenagem e redefinir o plano conforme o controle realmente alcançado e a evolução. 4. Não. O dreno tem critérios próprios de manutenção e retirada. Sua presença isolada não demonstra infecção persistente. 5. Não. Reavaliar urgentemente foco, outras infecções, resistência e causas não infecciosas com a equipe; o calendário não substitui julgamento. 6. Conferir sinais vitais, dor e abdome, função orgânica, débito/aspecto do dreno, culturas, data do controle e duração prevista; apresentar mudanças e pendências ao supervisor.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de peritonite secundária localizada com abscesso num paciente estável e de baixo risco: a contaminação foi cercada, a coleção é única e tem janela para agulha. Antimicrobiano não esteriliza pus, e por isso a coleção precisa sair — pela via menos invasiva capaz de controlar o foco, que aqui é a drenagem percutânea, dentro do prazo de até doze horas que a diretriz norte-americana recomenda para o baixo risco. O esquema é o de baixo risco comunitário, cefalosporina de terceira geração com metronidazol, sem cobertura adicional. Com 49 anos, a apendicectomia fica para depois da fase aguda, precedida de tomografia e colonoscopia, como ensina o capítulo de apendicite aguda.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o capítulo, escreva de memória: a definição de peritonite primária, secundária e terciária e o que resolve cada uma; a flora que separa a espontânea da secundária, com a fração de anaeróbios na espontânea; a frase da diretriz de 2023 sobre quem chega com peritonite difusa; os critérios de alto risco da diretriz norte-americana de 2024 e o ponto em que ela usa dois cortes diferentes para o mesmo escore; os dois prazos de controle do foco, com a população de cada um e a que ficou sem prazo; a duração depois do controle adequado do foco e o momento exato em que o relógio começa; e o que o elenco nacional entrega de cobertura de anaeróbio por via venosa e por via oral. Depois confira com as tabelas e marque o que faltou.

Em 30 dias

Retome Emetério e altere uma variável de cada vez, respondendo em voz alta o que se desloca e em que hora da linha do tempo. Ele tem 29 anos em vez de 47. A coleção tem 2,5 centímetros em vez de 6. A tomografia mostra ar longe da coleção e líquido espalhado pela pelve. Ele é alérgico grave a penicilina e o hospital não conhece o perfil de resistência de Escherichia coli. O cateter drena 200 mL por dia de aspecto fecaloide no terceiro dia. Na terça-feira ele está sem febre, mas o cateter segue com 40 mL por dia. Depois faça o mesmo com Hermínia: no quarto dia ela ainda está com noradrenalina; a cultura cresce enterococo e Candida no sexto dia; ela usava prednisona há um ano; e, por fim, ela é cirrótica com ascite e a primeira punção mostrou contagem alta de polimorfonucleares. Para cada mudança, responda três coisas: o que se faz primeiro, quem decide e qual capítulo passa a mandar.

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Agora atenda

Agora atenda: mulher de 52 anos trazida ao pronto-socorro no sexto dia de dor na fossa ilíaca direita, que no terceiro dia melhorou e voltou a piorar com febre e calafrio. Ela nunca foi operada. Ao exame, temperatura de 38,5 °C, frequência cardíaca de 106, pressão de 128 por 78, frequência respiratória de 20, saturação de 97%, lúcida, com massa dolorosa e defesa localizadas na fossa ilíaca direita e o restante do abdome depressível. Os leucócitos voltaram em 18.200 e o lactato em 1,3 mmol/L. A tomografia com contraste mostra uma coleção de 5,8 centímetros com gás na fossa ilíaca direita, sem líquido livre no restante da cavidade.

Peritonite secundária e abscesso intra-abdominal – Tirar o pus e contar os dias — Internato | OsceLabs