Cirurgia Geral › Urgência e Emergência Cirúrgica
Apendicite aguda
Da suspeita inicial ao tratamento: integrar história, exame seriado e imagem, reconhecer complicações e acompanhar a recuperação sob supervisão.
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Menina de 5 anos com dor abdominal e vômitos há dois dias, febre de 38,3 °C e fezes amolecidas. Foi atendida ontem em outro serviço e liberada com o diagnóstico de virose. Chega andando encurvada, chora à palpação do abdome e resiste ao exame. Ultrassonografia de abdome: apêndice não caracterizado, discreta quantidade de líquido livre em fossa ilíaca direita. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Uma e vinte da manhã de sábado, hospital de médio porte no interior. O tomógrafo existe e está desligado: o técnico entra às sete. O ultrassonografista de plantão atende sob demanda para obstetrícia e responde que abdome só de manhã. O cirurgião de sobreaviso está em casa, a vinte minutos, e pede que você ligue quando tiver algo.
Tiago Neri, 19 anos, jogador de futebol amador, chegou andando com a mãe. A dor começou às 19h de sexta-feira, em volta do umbigo, e ele perdeu o apetite. Vomitou uma vez às 23h. Agora, à 01h20 de sábado, ainda não consegue dizer com segurança se a dor mudou de lugar. Pressão 124 por 72, frequência cardíaca 88, temperatura axilar 37,1 °C. São cerca de seis horas de evolução, e essa cronologia precisa acompanhar o exame.
Você examina: abdome flácido, dor discreta à palpação da fossa ilíaca direita, sem defesa, sem descompressão dolorosa, ruídos hidroaéreos presentes. Ele conversa, ri de alguma coisa que a mãe fala, muda de posição na maca sem se proteger. Hemograma: 9.800 leucócitos, 66% de neutrófilos. Proteína C reativa de 18 mg/L. Exame de urina com algumas hemácias e sem leucócitos.
Com migração ainda não confirmada, Alvarado soma 4: anorexia 1, vômito 1 e dor à palpação da fossa ilíaca direita 2. O número organiza a probabilidade, mas não autoriza alta isoladamente. A localização da dor, a evolução curta e a imagem indisponível pedem discussão com o supervisor e um plano de observação ativa ou obtenção de imagem conforme a evolução.
A decisão é compartilhada com o cirurgião: manter Tiago em observação, oferecer analgesia, documentar o primeiro exame e marcar reavaliação em poucas horas. Se aparecerem sinais de gravidade, o horário marcado deixa de valer e a avaliação é imediata. Quando a imagem puder esclarecer uma dúvida relevante, sua obtenção deve ser organizada; exame seriado não transforma a indisponibilidade do tomógrafo em vantagem clínica.
A terceira é a conduta deste capítulo. A apendicite é uma doença que se revela no tempo, e o instrumento que mais muda decisão nela não custa nada e não depende de agenda: é o segundo exame físico, comparado com o primeiro.
Quem adoece disso
Entre 2008 e 2021 o Brasil internou 1.539.536 pessoas por doenças do apêndice, com 5.676 óbitos no período — série do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. São cerca de 110 mil internações por ano e uma letalidade global de 0,37%. A consequência prática desses dois números juntos é a régua deste capítulo: é a urgência cirúrgica abdominal mais comum do país, e quem morre dela é a minoria que chegou tarde ou foi liberada cedo. Você vai ver muitas, e o erro raro é o que mata.
A curva de idade explica quem você vai atender. A doença concentra-se no adulto jovem, com a maior parte das internações entre a segunda e a terceira décadas, e a tendência nacional de mortalidade é de estabilidade, com queda justamente na faixa de 20 a 29 anos e estabilidade nos extremos de idade. Traduzindo para o plantão: o jovem com apendicite quase sempre sobrevive ao seu erro; a criança pequena e o idoso, não. É por isso que os dois blocos mais longos deste capítulo tratam deles.
O que o SUS entrega importa tanto quanto o que a doença faz. Numa série de 53.024 apendicectomias da rede pública da Bahia entre 2008 e 2019, 94,9% foram abertas e apenas 5,1% laparoscópicas. O tempo de internação foi de 2,7 dias na via laparoscópica contra 4,15 dias na aberta, e a mortalidade, de 1,1 por mil contra 4,9 por mil. A leitura honesta desses números é dupla: a via laparoscópica é melhor, e ela não é a realidade da maior parte dos serviços onde você vai trabalhar. Discutir técnica cirúrgica que o seu hospital não oferece consome atenção que faria mais falta na decisão de quem opera hoje.
E há o número que descreve o atraso. Numa série de 300 crianças operadas em dois hospitais quaternários de São Paulo, o diagnóstico levou mais de 24 horas em 57,4% dos casos, a hipótese de apendicite foi levantada no primeiro atendimento em apenas 63%, e metade delas — 50,3% — já tinha coleção purulenta na cavidade quando o abdome foi aberto. Num complexo hospitalar terciário de Porto Alegre, a proporção de apendicite já complicada entre os adultos operados foi de 74,4% antes da pandemia e 77,4% durante, sem diferença entre os períodos, e nenhum laudo anatomopatológico da série descreveu apêndice normal. Serviço de referência recebe o que já passou por outra porta. O paciente que se apresenta cedo, com quadro incompleto e exame duvidoso, é o seu — e é ele que este capítulo trata.
Por que acontece o que acontece
A apendicite é uma doença de tubo entupido, e quase tudo que o paciente sente, tudo que você palpa e tudo que o antibiótico consegue ou não consegue fazer deriva dessa única frase. O apêndice é um divertículo cecal de luz estreita e fundo cego. Quando a saída fecha — por hiperplasia linfoide na criança e no adolescente, por um apendicolito endurecido, mais raramente por tumor no adulto mais velho —, a secreção da mucosa continua sendo produzida e não tem para onde ir.
A primeira consequência é pressão. A luz distende, e a distensão de víscera oca é o estímulo que aciona as fibras C viscerais, que sobem pelo simpático e entram na medula por vários segmentos e pelos dois lados. Uma via dessas não sabe dizer onde dói: a dor sai mal localizada, na linha média, no território embriológico do órgão. O apêndice é intestino médio, e intestino médio dói em volta do umbigo. É por isso que a apendicite começa como um mal-estar periumbilical que o paciente não consegue apontar com o dedo, acompanhado de náusea, anorexia e às vezes um vômito — sintomas autonômicos que vêm de carona na mesma via.
A segunda consequência é multiplicação bacteriana atrás da obstrução, e a terceira é isquemia. A pressão intraluminal sobe até vencer a pressão venosa da parede; o retorno venoso para, a parede congestiona, a arteríola termina comprometida. O apêndice inflama de dentro para fora, e a serosa é a última camada a ser alcançada — o que importa não é a sequência anatômica, mas a hora em que ela produz o sinal que você procura.
Porque quando a serosa inflamada encosta no peritônio parietal da fossa ilíaca direita, a doença troca de nervo. O peritônio parietal é inervado por fibras A-delta somáticas segmentares, e a dor muda de qualidade e de endereço ao mesmo tempo: passa a ser bem localizada, o paciente aponta com a ponta de um dedo, piora com a tosse e com o solavanco da maca, e ele começa a ficar imóvel de propósito. Essa transição costuma acontecer entre 6 e 12 horas depois do início, e é ela que o livro chama de migração da dor. A migração não é um sintoma pitoresco: é o relógio da doença dentro do paciente, visível de graça, e é a razão de o exame repetido valer mais do que o exame único.
A quarta consequência é a perfuração, e ela abre dois caminhos que exigem condutas diferentes. Se o omento e as alças vizinhas conseguem bloquear a área, forma-se um plastrão ou um abscesso — doença contida, que pode ser tratada com antibiótico e drenagem percutânea, sem abrir o abdome no mesmo dia. Se não conseguem, o conteúdo entérico se espalha e vira peritonite difusa, que é doença de centro cirúrgico agora. A capacidade de bloquear depende de omento, e é aqui que a criança pequena entra em desvantagem anatômica que nenhuma esperteza clínica compensa: antes dos cinco anos o omento é curto e fino, bloqueia mal, e a perfuração vira peritonite difusa com muito mais frequência.
O apendicolito merece um parágrafo próprio porque muda decisão. Ele é uma rolha sólida, e rolha sólida não sai com antibiótico: a obstrução permanece depois de a infecção ser tratada, e a doença volta. É por isso que a edição de 2025 da diretriz da WSES registra o apendicolito como fator de risco conhecido para perfuração e para falha do tratamento não operatório — sem torná-lo, por si só, critério de doença complicada, porque a presença dele não significa necessariamente perfuração, abscesso ou peritonite. Quem entende o mecanismo não precisa decorar essa ressalva: ela é a única conclusão possível, e é ela que pesa na conversa em que o paciente escolhe entre operar e tentar o antibiótico.
Falta explicar por que os sinais que o interno mais espera chegam atrasados. Febre e leucocitose são respostas sistêmicas e dependem de a inflamação alcançar volume suficiente para produzir resposta de fase aguda. Nas primeiras horas, quando a doença ainda é obstrução e distensão, o hemograma é normal com frequência — e um leucograma normal em paciente com dor há oito horas não é notícia tranquilizadora, é notícia esperada. A proteína C reativa sobe mais tarde ainda, com pico entre 24 e 48 horas: confirma quem já está evidente e inocenta quem chegou cedo. A consequência atravessa o capítulo inteiro: exame de sangue normal reduz a probabilidade, nunca fecha a porta.
Falta, por fim, a variabilidade anatômica. A base do apêndice é fixa no ceco, mas a ponta passeia. Na posição retrocecal ele fica protegido da parede abdominal anterior, e o paciente pode ter apenas dor no flanco ou lombar com sinal do psoas positivo. Na posição pélvica ele encosta no reto e na bexiga, e o quadro sai como diarreia, tenesmo ou disúria. Na gestante, a partir do segundo trimestre, o útero empurra o ceco para cima e o ponto de dor sobe. Em todas essas variantes a doença é a mesma; o que mudou foi a distância entre o apêndice e a sua mão.

Como se apresenta de verdade
A apendicite tem uma apresentação de livro, e ela existe: aparece em boa parte dos homens jovens e é a razão de o diagnóstico parecer fácil quando se estuda. O problema é que a forma de livro é a que qualquer pessoa acerta. O capítulo existe para as três situações em que a doença mente por construção — a criança pequena, o idoso e a gestante — e para a mulher jovem, em que ela compete com diagnósticos que se parecem com ela por fora.
Antes das exceções, uma exigência que quase ninguém cumpre: a ordem dos sintomas importa mais do que a lista deles.
A ordem certa dos sintomas, e o que ela exclui
A sequência é dor primeiro, depois anorexia e náusea, depois migração da dor para a fossa ilíaca direita, e só então febre baixa. Perguntar "o que veio primeiro, a dor ou o vômito?" separa mais casos do que qualquer exame de sangue e leva quatro segundos. Vômito abundante que precede a dor, com diarreia franca e outras pessoas da casa doentes, é linguagem de gastroenterite; dor que vem antes e vômito que vem depois, uma ou duas vezes, é linguagem de abdome cirúrgico.
Anorexia é achado tão constante no adolescente que o acompanhante costuma trazê-la espontaneamente. Ela não confirma nada isoladamente, mas o paciente que come com apetite normal na sua frente empurra a hipótese para baixo — anote isso como dado, não como impressão.
Febre alta com calafrio nas primeiras horas não é a linguagem desta doença. A apendicite não complicada cursa com febrícula, tipicamente entre 37,3 e 38 °C. Temperatura acima de 38,5 °C nas primeiras 24 horas aponta para outra coisa — pielonefrite, pneumonia de base, doença inflamatória pélvica — ou para apendicite que já perfurou. Nos dois casos a conduta muda, e por isso a temperatura merece ser medida e escrita, não estimada pela mão na testa.
O tempo de evolução organiza o resto. Dor típica com menos de 24 horas costuma ser doença não complicada; a partir de 48 a 72 horas cresce a chance de perfuração, plastrão ou abscesso, e o paciente que chega no terceiro dia com dor localizada, febre e massa palpável tem outro problema e outra conduta, tratados no capítulo de peritonite secundária e abscesso intra-abdominal.
O exame físico que importa, e as manobras que só machucam
Comece pedindo que o paciente aponte com um dedo onde dói mais. Dedo apontando um ponto fixo na fossa ilíaca direita é peritônio parietal envolvido; mão espalmada girando sobre o abdome é dor visceral. A informação é a mesma que você buscaria com manobras, e chega sem tocar em ninguém.
Depois peça que ele tussa e observe o rosto. Dor à tosse localizada tem o mesmo significado da descompressão brusca, é reprodutível, pode ser repetida na reavaliação e não impõe dor deliberada. A percussão suave da fossa ilíaca direita cumpre o mesmo papel. Faça a descompressão brusca quando ela ainda for necessária depois disso, sabendo que é a manobra menos reprodutível entre examinadores e a que mais faz o paciente se retrair na segunda avaliação — justamente aquela em que você mais precisa dele colaborando.
As manobras dirigidas ganham valor quando o apêndice não está na frente. O sinal do psoas, dor à extensão passiva da coxa direita, sugere apêndice retrocecal encostado no músculo. O sinal do obturador, dor à rotação interna passiva do quadril direito fletido, sugere apêndice pélvico. O sinal de Rovsing, dor referida à fossa ilíaca direita quando se palpa a esquerda, é pouco sensível e razoavelmente específico. Nenhuma delas isolada confirma nem exclui: somam a uma hipótese, não a criam.
Duas regras fecham o exame. Despir o paciente e examinar as regiões inguinais e a bolsa escrotal, porque hérnia encarcerada e torção testicular entram pela porta como dor abdominal baixa e custam órgão quando o exame para na cintura. E prescrever analgesia adequada antes de reexaminar: a crença de que o analgésico apaga o abdome agudo foi derrubada, e o assunto está desenvolvido no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro. Reexaminar alguém com dor 9 de 10 não produz exame melhor; produz o exame de quem se defende de você.
A criança pequena: a que mais perfura e a que menos conta
Abaixo dos cinco anos a apendicite é menos frequente e mais grave, e a razão é anatômica antes de ser clínica: o omento curto bloqueia mal, e o que no adulto vira abscesso contido na criança vira peritonite difusa. Some a história indireta — quem conta o sintoma é o acompanhante — e o resultado aparece nos números brasileiros: numa série de 300 crianças operadas em serviços quaternários de São Paulo, o diagnóstico levou mais de 24 horas em 57,4% dos casos, a hipótese foi levantada no primeiro atendimento em apenas 63%, e metade já tinha coleção purulenta na cavidade.
O quadro que engana é o de doença inespecífica: febre, vômitos, recusa alimentar, irritabilidade e diarreia — que aparece quando o apêndice pélvico irrita o reto. É clinicamente idêntico a gastroenterite, e o rótulo de virose dado a uma criança cuja dor piorou é uma das formas mais comuns de perder apendicite no Brasil.
No exame, três coisas mudam. Choro antecipatório e proteção com as mãos são informação legítima de defesa, não birra. A criança em posição antálgica, andando encurvada ou recusando pular num pé só, entrega irritação peritoneal sem que você toque nela. E o abdome examinado no colo da mãe, com a criança distraída, produz achado muito mais fiel do que o abdome examinado com ela chorando na maca.
Alvarado e PAS não exigem PCR. No adulto, AIR e AAS são outras opções, conforme a validação e os recursos do serviço. O escore organiza a probabilidade; a decisão incorpora história, exame e evolução.
O idoso e o imunossuprimido: sinal apagado não é doença branda
Acima dos 65 anos a apendicite chega tarde, dói pouco e perfura mais, por três mecanismos que se somam. A resposta inflamatória é atenuada, e febre e leucocitose faltam com mais frequência. A parede abdominal tem menos massa muscular, e a defesa involuntária exige músculo para existir. E a farmácia de casa apaga sinal: corticoide bloqueia a inflamação, anti-inflamatório mascara dor e febre, betabloqueador segura a taquicardia que seria o primeiro aviso.
A mesma lógica, mais dura, vale para o transplantado, o paciente em quimioterapia e quem usa corticoide crônico: sem neutrófilo não se monta peritonite exuberante, e o abdome pode permanecer flácido com o apêndice já perfurado. No obeso o problema é mecânico — a distância até o peritônio é maior, a defesa é filtrada pelo panículo e a ultrassonografia perde qualidade justamente onde seria mais útil.
A consequência operacional dos três é a mesma inversão de limiar. No jovem, exame pobre com laboratório normal autoriza observar. Neles, exame pobre com laboratório normal autoriza observar internado, com vigilância maior e limiar de imagem mais baixo — porque o exame perdeu resolução, e o substituto dele passou a valer mais. A edição de 2025 da diretriz vai na mesma direção e sugere, no idoso, a tomografia — de preferência com protocolo de baixa dose — em vez da ultrassonografia como imagem primária, com sugestão condicional e certeza muito baixa. Na doença não complicada dessa faixa ela sugere a apendicectomia como tratamento preferido, deixando o antibiótico isolado para quem tem comorbidade importante e risco cirúrgico alto, também com sugestão condicional e certeza muito baixa. E escore baixo aqui não tranquiliza como tranquilizaria aos vinte anos.
A reavaliação pode mudar a interpretação do escore inicial. Piora ou quadro clínico convincente exige avaliação cirúrgica; no risco intermediário, observação ativa e imagem ajudam a esclarecer o diagnóstico.
A gestante: o ponto de dor sobe e o laboratório mente
A apendicite é a causa mais comum de abdome agudo cirúrgico não obstétrico na gestação, e é nela que o atraso custa dois pacientes. Três coisas mudam juntas, e as três empurram na direção do erro. O útero desloca o ceco para cima e lateralmente a partir do segundo trimestre, e o ponto de maior dor sobe — dor em flanco ou hipocôndrio direito numa gestante de 28 semanas não afasta apêndice, e frequentemente é ele. A parede distendida transmite mal a defesa. E a leucocitose fisiológica da gestação torna o leucograma um exame que não decide nada.
Náusea e vômito, que fora da gestação ajudam a ordenar a história, aqui competem com a própria gravidez. Nenhum sinal ou sintoma isolado separa com segurança a apendicite da gestação sintomática, e é por isso que a decisão nessa paciente passa obrigatoriamente pela imagem — não pela impressão clínica.
A imagem segue ordem própria: ultrassonografia transabdominal com compressão gradual primeiro e, quando ela vier negativa ou inconclusiva e a suspeita clínica persistir, ressonância magnética — sugestão condicional, certeza moderada na edição de 2025. Onde não há ressonância, a decisão passa a ser entre observar internada, com reexames e ultrassonografias repetidos, ou aceitar a tomografia. Observação aqui significa internada, não em casa.
Uma coisa mudou de 2020 para 2025 e precisa ser dita com clareza. A apendicectomia laparoscópica segue sendo o tratamento preferido da apendicite não complicada na gestante, mas agora como sugestão condicional apoiada em certeza muito baixa; e o tratamento não operatório com antibiótico, que a edição anterior contraindicava de forma explícita, passou a ser admitido como alternativa quando a cirurgia oferece risco aumentado ou não está imediatamente disponível — com a ressalva, escrita na diretriz, de que a evidência que sustenta essa alternativa é muito incerta. No plantão isso não vira permissão para adiar: feito o diagnóstico, a operação não espera, porque o que faz a gestante perder o feto é a apendicite que perfurou, não a anestesia. E antes de tudo isso, em qualquer mulher em idade fértil, o teste de gravidez entra no primeiro tubo: a gravidez ectópica tem capítulo próprio e aqui é exclusão obrigatória, não diferencial opcional.
A mulher jovem: onde o apêndice compete, e quem paga a conta
Numa série de 101 pacientes publicada pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões, a taxa de apendicectomia negativa foi de 7,9%, e 75% dessas pacientes eram mulheres. Apêndice normal retirado não é evento neutro — é anestesia geral, incisão, risco de infecção de sítio cirúrgico e aderência futura —, e ele se concentra num grupo em que outras doenças produzem dor no baixo-ventre direito.
A régua que separa cabe em poucas linhas. A favor do apêndice: dor que começou periumbilical e migrou para um ponto, náusea e vômito na maioria, anorexia, dor unilateral que não muda de lado, febrícula tardia. A favor de doença inflamatória pélvica: dor tipicamente bilateral e de instalação mais lenta, corrimento vaginal novo, dispareunia de profundidade, sangramento fora da data e dor à mobilização do colo — sabendo que esse último achado aparece em cerca de uma em cada quatro mulheres com apendicite e, portanto, não é exclusivo. O diagnóstico e o tratamento da doença inflamatória pélvica têm capítulo próprio; o que interessa aqui é que a presença dela não dispensa pensar no apêndice.
A favor de cisto ovariano roto ou torção anexial: instalação em segundos, com a paciente sabendo o minuto, dor desproporcional ao exame e vômitos precoces. Torção é urgência de imagem com Doppler e não tolera observação de quatro horas.
A consequência prática vale mais que qualquer manobra: na mulher jovem com quadro ambíguo, a imagem entra mais cedo do que entraria num homem com o mesmo escore. Não por diferença de gravidade, mas porque a probabilidade pré-teste está diluída entre mais doenças — e é exatamente aí que operar às cegas produz o apêndice normal.

Como fechar o diagnóstico
O interno erra pouco por desconhecer a apendicite e muito por pedir o exame errado na hora errada. O erro tem duas formas simétricas e igualmente caras: tomografar todo mundo que tem dor na fossa ilíaca direita, e pedir uma reavaliação em quatro horas para quem já tinha indicação de operar. Entre as duas existe uma ordem de perguntas, e cada exame só entra quando responde a uma delas e muda o que você vai fazer nas próximas horas.
A ordem abaixo tem um pressuposto que atravessa o capítulo: nenhum exame deste bloco substitui o segundo exame físico. Eles encurtam a observação; não a dispensam.
O escore é porteiro, não juiz
O escore de Alvarado tem oito itens e soma 10 pontos: migração da dor para a fossa ilíaca direita, 1; anorexia, 1; náusea ou vômito, 1; dor à palpação da fossa ilíaca direita, 2; descompressão dolorosa, 1; temperatura elevada, 1; leucocitose acima de 10.000, 2; neutrófilos em 75% ou mais, 1. Custa uma anamnese, um exame e um hemograma, e é por isso que continua sendo o escore utilizável em qualquer serviço brasileiro, inclusive onde não há proteína C reativa de madrugada — condição que os escores mais modernos exigem.
Alvarado ajuda a organizar a probabilidade e pode ser calculado sem PCR; o PAS pediátrico também não utiliza esse marcador. No adulto, AIR e AAS oferecem outras opções, conforme a validação e os recursos do serviço. Calcule corretamente os itens e integre a história, o exame e a evolução. Em risco intermediário, observação ativa e imagem resolvem a incerteza; quadro convincente ou piora exige avaliação cirúrgica mesmo com escore baixo. A escolha deve servir à decisão clínica do aluno e ser discutida com o supervisor.
Faça a conta em dois pacientes para ver a régua funcionando. A mulher de 24 anos com dor que migrou, anorexia, náusea e dor à palpação da fossa ilíaca direita, sem descompressão, temperatura de 37,0 °C e 9.200 leucócitos com 54% de neutrófilos, soma 1 mais 1 mais 1 mais 2 e para em 5. O homem de 19 anos com todos os itens presentes — migração, anorexia, vômito, dor à palpação, descompressão, 37,8 °C, 14.600 leucócitos e 82% de neutrófilos — soma 10. O primeiro não autoriza alta nem cirurgia: autoriza observar e reexaminar, ou pedir imagem. O segundo autoriza chamar a cirurgia agora, sem que isso dispense a imagem — a permissão de ir à laparoscopia sem tomografia prévia abaixo dos 40 anos era da edição de 2020 e não se repete na de 2025.
Um detalhe metodológico muda a leitura de qualquer escore: ele só vale o que vale a população em que é aplicado. Na série brasileira de 101 pacientes já selecionados para cirurgia, com corte em 6 pontos, o valor preditivo positivo foi de 98,53% e o negativo, de 21,21% — num grupo em que quase todos tinham a doença, o escore alto não acrescentou nada e o escore baixo não protegeu ninguém. No corredor do pronto-socorro, onde a maioria não tem apendicite, acontece o inverso. A regra final é a que salva paciente: escore baixo em alguém com quadro convincente não autoriza alta.
Sangue e urina: o que respondem, e por que chegam atrasados
Peça hemograma com contagem diferencial e proteína C reativa em todo paciente que vai ficar. Os dois se comportam como marcadores de tempo, não de doença: o leucograma sobe nas primeiras 12 a 24 horas e a proteína C reativa alcança o pico entre 24 e 48. Quem chega com seis horas de dor tem grande chance de ter os dois normais, e isso é exatamente o que o mecanismo prevê.
A leitura útil é a combinação. Ambos normais, em paciente com mais de 24 horas de dor e exame pobre, reduzem bastante a probabilidade — não a zeram. Ambos alterados, com quadro compatível, sinalizam doença mais avançada. E o par discordante, com leucograma normal e proteína C reativa alta, costuma indicar doença de mais de um dia, o que empurra a hipótese para o lado da apendicite já complicada. Nenhum dos dois é critério de alta: leucograma normal não exclui apendicite, e essa frase vale em dobro no idoso, no imunossuprimido e em toda gestante.
Teste de gravidez em toda mulher entre a menarca e a menopausa, no primeiro tubo, sem depender da história referida. Não é etapa do diagnóstico de apendicite: é a trava que impede que uma gravidez ectópica seja liberada como cólica, e é o dado que reorganiza toda a estratégia de imagem se vier positivo. A regra não admite exceção por laqueadura, dispositivo intrauterino, anticoncepcional ou negativa de atividade sexual.
Urina alterada não fecha automaticamente infecção urinária. Um apêndice próximo do ureter ou da bexiga pode causar hematúria ou piúria discretas. Para hipótese urinária, integre sintomas, exame, urina e cultura quando indicada; a ausência de febre alta ou calafrios não a exclui. Se o conjunto não explicar a dor localizada, mantenha apendicite e outras causas na investigação.
Complete com ureia, creatinina, sódio e potássio em quem vai operar ou está desidratado, e com gasometria com lactato apenas quando houver sinais vitais alterados ou suspeita de hipoperfusão — este último não para diagnosticar apendicite, e sim para identificar quem já está a caminho da sepse, assunto de capítulo próprio.
Imagem: a tomografia de baixa dose passou à frente
Aqui a diretriz virou de lado, e vale ler devagar. Na edição de 2025, onde houver tomografia com protocolo de baixa dose — abaixo de 2 a 3 mSv —, ela é a modalidade de imagem preferida no adulto com suspeita de apendicite aguda. A combinação de escore de risco com ultrassonografia deixou de ser o primeiro degrau e passou a ser a alternativa, para os serviços em que a tomografia não está prontamente disponível ou quando minimizar a radiação é prioridade. É sugestão condicional, com certeza moderada. No Brasil a alternativa é a regra na maior parte dos plantões, o que não a torna errada: a própria diretriz a escreveu como caminho legítimo.
O que se procura é apêndice não compressível com diâmetro aumentado, dor à compressão exatamente sobre ele, com ou sem apendicolito e líquido periapendicular. O ponto que precisa ficar é o valor assimétrico do resultado: ultrassonografia que visualiza o apêndice inflamado tem alto poder de confirmação; ultrassonografia que não o visualiza não exclui nada. "Apêndice não visualizado" é laudo equívoco, não negativo, e tratá-lo como negativo é uma das maneiras mais silenciosas de mandar para casa quem tinha.
Quando é a ultrassonografia que você tem, continuam valendo as quatro situações em que ela precisa ser sucedida pela tomografia. Quando foi equívoca e a suspeita permanece. Quando o exame físico perdeu resolução — e aqui a diretriz já decidiu por você em dois grupos: no adulto com obesidade e no idoso ela sugere a tomografia, de preferência de baixa dose, em vez da ultrassonografia como imagem primária, com sugestão condicional e certeza baixa no primeiro e muito baixa no segundo. Quando há suspeita de doença já complicada, porque a distinção entre plastrão, abscesso drenável e peritonite difusa muda a conduta e não se faz com a mão. E quando o diferencial no adulto mais velho inclui diverticulite, obstrução ou isquemia.
Na gestante, ultrassonografia transabdominal com compressão gradual primeiro e ressonância magnética sempre que ela vier negativa ou inconclusiva e a suspeita clínica persistir — sugestão condicional, certeza moderada. Na criança e no adolescente, a ordem não mudou: ultrassonografia como exame de primeira linha, com a tomografia de baixa dose reservada para quando ela não for diagnóstica ou a suspeita clínica se mantiver alta — também sugestão condicional, com certeza moderada. A razão continua sendo o que a radiação faz a um organismo com muitos anos pela frente, e é por isso que a diretriz insiste no protocolo de baixa dose toda vez que a tomografia entra.
A disponibilidade real muda a pergunta, não a régua. Ultrassonografia existe em quase toda rede, mas some à noite em boa parte dos serviços; tomografia costuma ter técnico de sobreaviso; ressonância é exceção. Se a imagem que decidiria só existe daqui a seis horas, a pergunta deixa de ser "tem exame?" e passa a ser "este paciente aguenta seis horas com reavaliação escrita a cada duas, ou precisa ser transferido agora?". As duas respostas são condutas legítimas; a que não é legítima é liberar para casa porque o exame não estava disponível. E enquanto se espera — a imagem ou a sala —, a decisão sobre o antibiótico se parte em duas, e é a inversão que mais confunde. Na apendicite não complicada, nada de antibiótico durante a espera além da dose única profilática pré-operatória, desde que a cirurgia saia em até 24 horas: aqui a diretriz é forte, com certeza moderada, e a justificativa é que não se demonstrou benefício adicional em reduzir perfuração nem infecção de sítio cirúrgico. Na apendicite complicada, o oposto: antibiótico terapêutico começa já, enquanto o paciente aguarda a apendicectomia, com mais razão quando a cirurgia não é imediata — recomendação forte, e a única da diretriz apoiada em evidência de certeza alta no adulto.
O que não pedir, e o que custa pedir
Radiografia simples de abdome não faz parte da investigação da apendicite: não confirma, não exclui e consome tempo de sala e de transporte. O achado de apendicolito radiopaco é raro e nunca é o que decide. Peça-a quando a pergunta for outra — obstrução com níveis, pneumoperitônio franco —, sabendo que mesmo nessas a tomografia responde melhor.
Não peça tomografia como primeiro exame na criança e no adolescente magro em que a ultrassonografia responderia, e não peça tomografia sem antes escrever a hipótese que ela vai testar: pedido sem hipótese devolve laudo que não pesa nem a favor nem contra, e "apêndice não caracterizado" numa tomografia pedida por reflexo cria a ilusão de investigação feita.
Não repita proteína C reativa de quatro em quatro horas esperando que ela decida. Ela é lenta por natureza, e o intervalo em que ela muda é maior que o intervalo em que o abdome muda. Nesse intervalo, o exame que informa é o seu.
E não peça laparoscopia diagnóstica como primeiro passo em paciente estável com quadro duvidoso. Ela é o padrão-ouro justamente por ser cirurgia, e padrão-ouro que exige centro cirúrgico e anestesia geral não é exame de triagem. Ela entra quando o quadro persiste com imagem normal e a dor não cede — e, quando entra e encontra um apêndice macroscopicamente normal sem nenhuma outra doença intra-abdominal que explique o quadro, a diretriz sugere retirá-lo mesmo assim, com sugestão condicional e certeza muito baixa.
O diferencial mora aqui dentro
Separar apendicite das outras causas de dor na fossa ilíaca direita não é etapa posterior à investigação: é a própria investigação, porque o exame que confirma uma é o que exclui a outra. Adenite mesentérica e ileíte terminal produzem quadro quase idêntico no adolescente e aparecem na tomografia com apêndice normal e linfonodos aumentados — é o achado que mais frequentemente ocupa o lugar da apendicite quando a imagem é feita.
Na mulher, a competição é com doença inflamatória pélvica, cisto ovariano roto, torção anexial e gravidez ectópica; as duas últimas com urgência maior que a do apêndice, e a última com exclusão obrigatória. No homem jovem, torção testicular e hérnia encarcerada, perdidas por exame que para na cintura. No idoso, a lista muda de dono: diverticulite, obstrução, isquemia mesentérica e neoplasia de ceco, com a diferenciação entre abdome agudo inflamatório e obstrutivo tratada em capítulo próprio.
Duas fronteiras merecem frase própria. A apendicite que já perfurou e formou coleção deixa de ser este capítulo e passa a ser o de peritonite secundária e abscesso intra-abdominal, com conduta diferente. E a apendicite que produz disfunção orgânica — hipotensão, oligúria, confusão, lactato elevado — passa a ser sepse antes de ser apendicite, e o pacote inicial está no capítulo de sepse e choque séptico.
As três faixas e as três portas
O escore organiza a probabilidade, mas a decisão combina história, exame e evolução. O fluxo orienta a escolha entre alta com retorno, observação com reexame em horário registrado e avaliação cirúrgica. Compare os exames sucessivos: a mudança do quadro pode modificar a conduta.
- 1Avalie perfusão e disfunção orgânica e chame ajuda diante de instabilidade. Suporte, investigação do foco e controle cirúrgico avançam em paralelo; lactato elevado ou taquicardia isolados não bastam para definir sepse.
- 2História com a ordem dos sintomas: o que veio primeiro, dor ou vômito; a dor mudou de lugar; há quantas horas começou. Em toda mulher entre a menarca e a menopausa, teste de gravidez entra junto com a primeira coleta.
- 3Exame abdominal completo com o paciente despido, incluindo regiões inguinais e bolsa escrotal. Peça que ele aponte com um dedo e que tussa antes de qualquer manobra de descompressão.
- 4Integre o escore à avaliação clínica. No risco intermediário, use observação ativa e imagem para resolver a incerteza; diante de quadro convincente ou piora, solicite avaliação cirúrgica mesmo com pontuação baixa.
- 5Escore de 0 a 4 com exame pobre e paciente comendo e bebendo: faixa baixa. Alta possível, com reexame antes de assinar, orientação escrita de retorno e retorno marcado em 24 horas — nunca sem os quatro.
- 6Escore de 5 a 8, ou qualquer escore em grupo que engana — criança pequena, idoso, gestante, imunossuprimido, obeso: faixa intermediária. Maca, jejum, analgesia com horário, imagem conforme disponibilidade e um horário anotado para o reexame em 2 a 4 horas.
- 7Escore de 9 a 10, ou dor localizada com defesa, dor à tosse e febre: faixa alta. Chame a cirurgia agora, mantenha jejum e não gaste a janela esperando exame que não vai mudar a decisão. O antibiótico depende de qual das duas doenças você tem na frente: na não complicada, dose única nos 60 minutos que antecedem a incisão e nada durante a espera, se a cirurgia sair em até 24 horas — recomendação forte; na complicada, antibiótico terapêutico começa já, ainda na espera — também recomendação forte, e com a evidência mais sólida da diretriz.
0 a 4 — faixa baixa
Probabilidade baixa. O escore é bom nesta ponta: abaixo de 5 ele é sensível o suficiente para afastar. Alta só depois do segundo exame, com retorno marcado em 24 horas e critérios de retorno imediato ditos em voz alta e escritos.
5 a 8 — faixa intermediária
A faixa em que quase todo mundo cai, e a única em que o escore não responde nada. É aqui que a imagem entra e, onde ela não existe, é aqui que a observação seriada substitui a imagem — com reexame em 2 a 4 horas e os dois exames escritos.
9 a 10 — faixa alta
Probabilidade alta. O escore alto chama a cirurgia; ele não substitui a avaliação do cirurgião nem autoriza operar sem exame. E a permissão de ir à laparoscopia sem imagem prévia, que a edição de 2020 dava abaixo dos 40 anos, não se repete na de 2025: na apresentação pouco clara a tomografia segue sendo o padrão diagnóstico, pela sensibilidade maior.
O escore de Alvarado item a item
| Item | Como se verifica | Pontos |
|---|---|---|
| Migração da dor para a fossa ilíaca direita | Pergunta direta: a dor começou em outro lugar e mudou? | 1 |
| Anorexia | Deixou de comer, ou recusou comida que aceitaria | 1 |
| Náusea ou vômito | Depois do início da dor, não antes | 1 |
| Dor à palpação da fossa ilíaca direita | Palpação, com o paciente apontando o ponto | 2 |
| Descompressão dolorosa | Dor à tosse ou à percussão suave cumpre o mesmo papel | 1 |
| Temperatura elevada | Medida, não estimada | 1 |
| Leucocitose acima de 10.000/mm³ | Hemograma | 2 |
| Neutrófilos em 75% ou mais | Contagem diferencial do mesmo hemograma | 1 |
| Total possível | — | 10 |
O diferencial e o exame que responde
| Hipótese | O que a distingue da apendicite | O exame que responde |
|---|---|---|
| Gravidez ectópica | Pode não ter nenhum dado típico; a tuba íntegra engana | Teste de gravidez — exclusão obrigatória, sem exceção |
| Doença inflamatória pélvica | Dor tipicamente bilateral, corrimento novo, dispareunia de profundidade, sangramento fora de data | Clínico, com critérios próprios; a dor à mobilização do colo também aparece em uma em cada quatro apendicites |
| Torção anexial ou de cisto | Instalação em segundos, dor desproporcional, vômitos precoces | Ultrassonografia com Doppler, sem demora |
| Adenite mesentérica e ileíte terminal | Adolescente, quadro viral prévio, dor menos localizada | Tomografia com apêndice normal e linfonodos aumentados |
| Infecção urinária alta | Dor lombar, sintomas urinários e febre são pistas possíveis; podem estar incompletos. Interpretar urina e cultura com o quadro clínico. | Urina com piúria franca e bacteriúria — piúria discreta é compatível com apêndice pélvico |
| Torção testicular ou hérnia encarcerada | Dor irradiada para a bolsa, massa inguinal irredutível | Exame com o paciente despido; ultrassonografia com Doppler |
| Diverticulite e obstrução intestinal | Idade maior, episódios prévios, distensão com parada de eliminação | Tomografia; ambas com capítulo próprio |
O que muda nos quatro grupos que enganam
| Grupo | O que engana | O que muda na sua conduta |
|---|---|---|
| Criança abaixo de 5 anos | História indireta, quadro de gastroenterite, omento que bloqueia mal | Ultrassonografia como primeira imagem, com tomografia de baixa dose reservada ao exame não diagnóstico ou à suspeita que persiste; examinar no colo; reavaliar em intervalo curto; nunca dar alta com o rótulo de virose sem segundo exame |
| Idoso acima de 65 anos | Menos dor, menos febre, menos leucocitose; medicações que apagam sinal | Tomografia, de preferência de baixa dose, em vez da ultrassonografia como imagem primária — sugestão condicional, certeza muito baixa; internar para observar em vez de observar em corredor; com 35 anos ou mais e abscesso tratado sem cirurgia, apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas, precedida de tomografia e colonoscopia |
| Gestante | Ponto de dor mais alto, parede distendida, leucocitose fisiológica | Ultrassonografia primeiro e ressonância quando ela vier negativa ou inconclusiva — sugestão condicional, certeza moderada; observar internada; apendicectomia laparoscópica como tratamento preferido, com o antibiótico isolado apenas como alternativa de exceção; cirurgia sem adiar |
| Imunossuprimido e usuário de corticoide | Abdome pode ficar flácido com apêndice perfurado; febre e leucocitose podem faltar | A queixa vale mais que o exame; imagem por decisão, não por insegurança |
Antibiótico: qual pergunta cada esquema responde
| Situação | Esquema | Duração |
|---|---|---|
| Antes de operar, doença não complicada | Dose única nos 60 minutos que antecedem a incisão | Uma dose; repique se a cirurgia passar de duas meias-vidas do fármaco. Nada de antibiótico durante a espera, se a cirurgia sair em até 24 horas — recomendação forte, certeza moderada |
| Apendicite não complicada operada | Nada depois da cirurgia | Zero — sugestão condicional, certeza baixa |
| Apendicite complicada com controle de foco adequado | Antibiótico terapêutico já enquanto aguarda a cirurgia — recomendação forte, certeza alta no adulto, a mais bem apoiada da diretriz; depois de operar, ceftriaxona com metronidazol ou o esquema padronizado do serviço | Curso curto, de 2 a 3 dias em vez de 5 a 7 — sugestão condicional, certeza moderada |
| Peritonite difusa ou sepse | Amplo espectro pela padronização local, com reavaliação em 48 a 72 horas | Guiada por evolução e cultura; curso curto após controle adequado do foco; prolongar apenas conforme evolução/controle inadequado |
| Tratamento não operatório eleito | Intravenoso no início, com troca para via oral conforme melhora | Definida no serviço, com reavaliação obrigatória e plano escrito; sem apendicectomia de intervalo de rotina depois — sugestão condicional, certeza baixa |
Nenhuma alta por dor na fossa ilíaca direita sai com um exame físico só. São dois exames escritos, com horário e pelo menos duas horas de intervalo, e é a comparação entre eles que decide — não o segundo isolado.
"Apêndice não visualizado" na ultrassonografia é laudo equívoco, não laudo negativo. Lido como negativo, ele produz alta em quem tinha a doença.
A apendicectomia da doença não complicada pode ser feita dentro de 24 horas da admissão sem piorar o desfecho, e é essa margem que torna a observação seriada segura. Cuidado com a leitura preguiçosa: a recomendação de 2025 é forte, com certeza moderada, e manda operar em até 24 horas — o número é um teto, não uma autorização para adiar. E ele não se estende à apendicite já complicada nem à gestante com diagnóstico feito.
A conduta, hora a hora
O roteiro acompanha o paciente estável. Instabilidade ou disfunção orgânica exige suporte imediato e avaliação cirúrgica em paralelo. Suspeita de infecção com disfunção orgânica pede abordagem de sepse, mas taquicardia ou lactato isolados não fecham esse diagnóstico. Reconhecer o foco e organizar seu controle continuam parte do cuidado, inclusive durante a estabilização.
As doses de analgésico e antiemético são as dos protocolos AC37 e AC34 do SAMU 192, do Ministério da Saúde. As doses de profilaxia e a regra do repique vêm do protocolo de antibioticoprofilaxia cirúrgica do Hospital Universitário Júlio Bandeira de Mello, da Universidade Federal de Campina Grande, e do protocolo de prevenção de infecção de sítio cirúrgico da Anvisa. Os esquemas de tratamento do adulto são os do protocolo de infecção intra-abdominal do Hospital Estadual Antônio Bezerra de Faria, e os pediátricos, os do protocolo de síndromes infecciosas em pediatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. As durações e as indicações operatórias seguem a edição de 2025 da diretriz da WSES. Confira função renal, alergia e peso antes de prescrever qualquer uma delas.
Minuto 0 a 10 — a porta se decide antes da hipótese
Sinais vitais completos, com temperatura medida e frequência respiratória contada com relógio. O protocolo AC30 do SAMU trata como potencial de gravidade pulso acima de 100, sistólica abaixo de 90 ou acima de 220, diastólica abaixo de 60 ou acima de 120, hipertermia e mau estado geral. Qualquer um deles muda a sala antes de mudar a hipótese.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso; dois se houver suspeita de sepse ou peritonite difusa
- Jejum absoluto a partir de agora, com o horário anotado
- Soro fisiológico 0,9% 500 mL intravenoso, reavaliando perfusão e ausculta, se houver desidratação por vômitos ou jejum prolongado
- Teste de gravidez em toda mulher entre a menarca e a menopausa, junto com a primeira coleta
Minuto 10 a 40 — analgesia em dose cheia, porque ela é etapa da avaliação
Analgesia adequada não apaga o abdome agudo, e o assunto está desenvolvido no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro. Escolha o degrau pela escala numérica, prescreva a dose cheia e reavalie a resposta — a resposta é dado clínico. Dor que não cede a dose adequada de opioide é sinal de alarme por si só.
Prescrição- Dipirona sódica 1 g intravenosa, diluída e lenta — em qualquer faixa de dor (AC37)
- Dor leve, 1 a 4: acrescentar anti-inflamatório se não houver desidratação, disfunção renal nem cirurgia iminente — cetoprofeno 100 mg intravenoso, ou tenoxicam 20 a 40 mg, ou cetorolaco 30 mg (AC37)
- Dor moderada, 5 a 7: tramadol 100 mg intravenoso lento e diluído (AC37)
- Dor intensa, 8 a 10: morfina 2 a 10 mg intravenosa para 70 kg, titulada em incrementos de 2 mg a cada 5 a 10 minutos; ou fentanil 100 a 200 mcg, que são 2 a 4 mL da solução de 50 mcg/mL, intravenoso lento (AC37)
- Opioide sempre em infusão lenta: o AC37 registra que a infusão rápida pode provocar rigidez torácica e laringoespasmo
- Náusea e vômito: ondansetrona 4 mg intravenosa, uma ampola de 2 mL diluída em pelo menos 100 mL de soro fisiológico e infundida em 2 a 5 minutos (AC34) — o protocolo pré-hospitalar desaconselha antiemético na suspeita de abdome agudo cirúrgico, e a razão é o transporte sem reavaliação; dentro do hospital, com reexame marcado, controlar o vômito faz parte de preparar o paciente para operar
Minuto 20 a 60 — a coleta, e a imagem com hipótese escrita
Colha os exames que respondem à hipótese e registre horário e evolução. O escore auxilia a estratificação; a escolha entre observação e imagem depende também da idade, gestação, exame e recursos. No adulto, TC com protocolo apropriado, preferindo baixa dose quando validada, esclarece quadros duvidosos; na criança e na gestante, ultrassom costuma iniciar a investigação, com complementação quando não diagnóstico. Nenhum exame isolado substitui a reavaliação.
Prescrição- Hemograma com contagem diferencial, proteína C reativa, ureia, creatinina, sódio e potássio
- Exame de urina, lendo piúria discreta como achado compatível com apêndice pélvico
- Gasometria com lactato apenas se sinais vitais alterados ou suspeita de hipoperfusão
- Adulto: tomografia de baixa dose como imagem preferida onde ela existir; onde não existir de pronto, escore de risco associado à ultrassonografia como alternativa, com tomografia quando a ultrassonografia for equívoca e a suspeita permanecer, quando o exame físico tiver perdido resolução ou quando houver suspeita de doença complicada
- Gestante: ultrassonografia transabdominal com compressão gradual e ressonância magnética quando ela vier negativa ou inconclusiva e a suspeita persistir — sugestão condicional, certeza moderada. Criança: ultrassonografia como primeira imagem, com tomografia de baixa dose reservada ao exame não diagnóstico ou à suspeita que se mantém alta. Obeso e idoso: tomografia, de preferência de baixa dose, em vez da ultrassonografia — sugestão condicional, com certeza baixa no obeso e muito baixa no idoso
Hora 2 a 4 — a observação, que é conduta e não espera
Este é o marco que distingue quem conduz de quem preenche pedido. Reexamine o mesmo abdome com a sua mão, no horário que você marcou, e escreva os dois exames. A comparação entre eles decide mais do que qualquer laudo, e a margem que torna essa observação segura é a de que a apendicectomia da doença não complicada pode ser feita dentro de 24 horas sem piorar o desfecho. Leia a regra pelo lado certo: a edição de 2025 recomenda, de forma forte e com certeza moderada, operar em até 24 horas da admissão o paciente com apendicite não complicada já selecionado para cirurgia — no adulto e na criança. Vinte e quatro horas é o teto, não o prazo.
Prescrição- Prescrever o reexame como item: "reavaliação médica às 05h00, com registro de localização da dor, dor à tosse, defesa e sinais vitais"
- Manter jejum e analgesia com horário fixo e dose de resgate, para que o reexame não seja feito num paciente que se defende de você
- Repetir hemograma apenas se houver mudança clínica ou se tiverem passado ao menos 6 a 8 horas da primeira coleta
- Comunicar a cirurgia com hipótese escrita quando aparecer defesa nova, dor à tosse nova, febre nova ou piora da dor — sem esperar a próxima janela
Antes da incisão — e a pergunta que inverte tudo: complicada ou não complicada
A profilaxia deve produzir concentração adequada na incisão e durante o procedimento. Registre horário, dose e eventual redose. A necessidade de repetir depende do fármaco, tempo e perdas, não de uma afirmação genérica de que toda dose dada duas horas antes perdeu o efeito. Na apendicite complicada, antimicrobiano terapêutico começa prontamente e acompanha o controle do foco; não se espera a indução anestésica.
Prescrição- Profilaxia no adulto: cefazolina 2 g IV; usar 3 g se peso ≥120 kg, associada à cobertura anaeróbia abaixo, nos 60 minutos antes da incisão. Não reduzir rotineiramente para 1 g no adulto abaixo de 70 kg.
- Metronidazol 500 mg intravenoso associado, uma bolsa de 100 mL a 5 mg/mL, para cobrir os anaeróbios do cólon
- Apendicite não complicada com cirurgia prevista para as próximas 24 horas: não prescrever antibiótico para o intervalo de espera — a diretriz sugere contra, porque não se demonstrou benefício adicional em reduzir perfuração nem infecção de sítio cirúrgico
- Apendicite complicada: antibiótico terapêutico iniciado já enquanto o paciente aguarda a cirurgia, e não apenas na indução — recomendação forte, certeza alta no adulto; use o esquema de infecção intra-abdominal comunitária do seu serviço, por exemplo ceftriaxona 2 g intravenosa ao dia associada a metronidazol 500 mg intravenoso a cada 8 horas
- Criança: cefazolina 30 mg/kg — 360 mg para 12 kg, 750 mg para 25 kg, 1,2 g para 40 kg
- Alternativa para alergia grave que contraindique o esquema habitual: clindamicina 900 mg IV + gentamicina 5 mg/kg IV em dose profilática única, conforme protocolo e avaliação de peso de dose, função renal e resistência local.
- Redose de cefazolina a cada 4 horas contadas da administração, durante cirurgia prolongada, ou antes diante de perda sanguínea importante e hemodiluição. O limiar de perda maciça frequentemente usado no adulto é cerca de 1.500 mL; não adotar 500 mL como regra universal. A equipe de anestesia individualiza conforme contexto e protocolo.
- Registrar o horário exato da administração e o da incisão — sem os dois horários escritos, a profilaxia não pode ser auditada nem corrigida
- Confira a farmácia do seu serviço antes de escrever: a Rename 2024 traz ceftriaxona injetável no Componente Básico, mas não lista cefazolina nem metronidazol injetável, que dependem da padronização do hospital
No centro cirúrgico — o que o interno acompanha e anota
A apendicectomia laparoscópica é a via em que a edição de 2025 escreve todas as suas recomendações cirúrgicas, e na gestante ela aparece nomeada como tratamento preferido — ainda que como sugestão condicional e com certeza muito baixa. Na realidade brasileira ela é minoria: numa série de 53.024 apendicectomias públicas da Bahia, 94,9% foram abertas. Isso não muda o que você indica; muda o que você espera do pós-operatório.
Prescrição- Anotar o achado intraoperatório com a graduação usada no serviço — edematoso, flegmonoso, gangrenoso, perfurado com abscesso localizado ou com peritonite difusa: é essa palavra que define a duração do antibiótico depois
- Na doença complicada, aspirar o líquido contaminado em vez de lavar e aspirar a cavidade — sugestão condicional, certeza moderada, no adulto e na criança; e evitar o dreno abdominal de rotina, com sugestão condicional e certeza baixa no adulto e muito baixa na criança. As duas condutas vinham como recomendação forte na edição anterior e foram rebaixadas em 2025: a prática continua a mesma, o que caiu foi o peso formal
- Encaminhar a peça para exame anatomopatológico de rotina — é o que identifica tumor de apêndice, e o risco de neoplasia é o eixo em torno do qual a edição de 2025 reorganizou o manejo do abscesso periapendicular. Quando a laparoscopia é diagnóstica e encontra apêndice macroscopicamente normal, sem outra doença intra-abdominal que explique o quadro, a diretriz sugere retirá-lo mesmo assim — sugestão condicional, certeza muito baixa
Dia 0 a 2 — o pós-operatório, e o antibiótico que não deve continuar
A regra que mais economiza dano continua sendo negativa: na apendicite não complicada, nada de antibiótico depois da cirurgia. Mudou o peso dela — o que era recomendação forte virou, em 2025, sugestão condicional com certeza baixa, e isso significa que a evidência enfraqueceu, não que a prática mudou: nada apareceu a favor de manter. Manter cefazolina por três dias porque "foi apendicite" produz resistência, diarreia por Clostridioides difficile e um dia a mais de internação sem benefício. Na doença complicada a ordem é a oposta e mais firme: dar antibiótico depois de operar é recomendação forte, com certeza moderada, no adulto. A duração é definida pelo achado intraoperatório, não pelo hábito do serviço.
Prescrição- Apendicite não complicada: suspender o antimicrobiano ao fim da cirurgia; a profilaxia não passa de 24 horas em nenhuma hipótese, e não se mantém até a retirada de dreno
- Apendicite complicada com controle de foco adequado: ceftriaxona 2 g intravenosa uma vez ao dia associada a metronidazol 500 mg intravenoso a cada 8 horas, em curso curto de 2 a 3 dias em vez dos 5 a 7 dias antigos — sugestão condicional, certeza moderada
- Peritonite difusa ou disfunção orgânica: tratar prontamente e ajustar o espectro ao risco e às culturas. Reavaliar controle do foco e resposta diariamente. Depois de controle adequado, usar curso curto; não fixar sete dias nem esperar o fim do esquema para reexaminar quem piora.
- Criança: gentamicina 5 a 7,5 mg/kg/dia associada a metronidazol 22,5 a 40 mg/kg/dia dividido a cada 8 horas; ou ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia com teto de 2 g ao dia, associada a metronidazol — sem cobertura empírica de enterococo. Na criança, manter antibiótico depois de operar a doença complicada é sugestão condicional, com certeza baixa
- Criança com atraso na cirurgia: manter o antimicrobiano até 24 horas sem febre e com dieta oral tolerada, e então completar 3 a 4 dias por via oral com amoxicilina-clavulanato
- Dieta liberada precocemente conforme tolerância, deambulação no mesmo dia e analgesia com horário, não "se necessário"
- Não prescrever antibiótico por dreno, por cateter ou por febre isolada no primeiro dia — a investigação da febre pós-operatória tem capítulo próprio
As rotas do abscesso, e a que não passa pelo bisturi hoje
Apendicite perfurada bloqueada em plastrão ou abscesso é a parte do capítulo que mais mudou, e a idade virou a chave: abaixo de 35 anos a edição de 2025 sugere a apendicectomia laparoscópica precoce, e com 35 anos ou mais sugere contra operar no agudo, porque até 14,3% desses pacientes têm uma neoplasia do apêndice por trás da obstrução — as duas com sugestão condicional e certeza moderada. O manejo detalhado da coleção está no capítulo de peritonite secundária e abscesso intra-abdominal. Já na doença não complicada, o antibiótico é alternativa à cirurgia no adulto e na criança, com sugestão condicional e certeza moderada, desde que haja monitorização clínica adequada e decisão compartilhada.
Prescrição- Abscesso: antimicrobiano pelo esquema de infecção intra-abdominal comunitária por 3 a 5 dias após a drenagem, com drenagem percutânea guiada por imagem quando a coleção for acessível
- Abscesso periapendicular abaixo de 35 anos: apendicectomia laparoscópica precoce, com sugestão condicional e certeza moderada; onde faltar experiência ou recurso de laparoscopia de urgência, a alternativa é tratar sem operar e programar a apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas
- Abscesso periapendicular com 35 anos ou mais: sugestão contra operar no agudo, pelo risco de neoplasia apendicular de até 14,3%; tratado sem cirurgia, esse paciente tem indicação de apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas — recomendação forte, certeza moderada —, e a avaliação que a precede inclui tomografia para confirmar a resolução do abscesso e colonoscopia para afastar tumor do cólon direito
- Criança com abscesso periapendicular tratado sem cirurgia: sem apendicectomia de intervalo de rotina — sugestão condicional, certeza baixa, e a razão é o inverso do adulto, a incidência de neoplasia nessa faixa é de 0,5%
- Tratamento não operatório eleito na doença não complicada: antibiótico como alternativa à apendicectomia, com monitorização clínica e decisão compartilhada, e sem apendicectomia de intervalo de rotina depois, se não houver sintoma persistente ou recorrente — sugestão condicional nas duas pontas, com certeza moderada na primeira e baixa na segunda. O manejo ambulatorial com antibiótico é opção onde houver seguimento garantido e acesso ao serviço em caso de piora, também com sugestão condicional e certeza moderada
- Consentimento registrado, com o número dito em voz alta: a edição de 2020 registrava risco de recorrência de até 39% em cinco anos, e a de 2025 mantém o apendicolito como fator de risco conhecido para perfuração e para falha do tratamento não operatório — sem que ele seja, por si só, critério de doença complicada
- Não oferecer a opção quando não houver imagem que caracterize a doença, ou quando o paciente não tiver como retornar. Na gestante, a apendicectomia laparoscópica é o tratamento preferido, e o antibiótico isolado só entra como alternativa quando a cirurgia oferece risco aumentado ou não está imediatamente disponível — com a ressalva, escrita na própria diretriz, de que a evidência que sustenta essa alternativa é muito incerta
A alta — o que precisa estar escrito para ela ser segura
A alta de quem não foi operado é a decisão mais frequente deste capítulo e a única que ninguém revisa, porque o paciente some do seu campo de visão. Ela só é segura com cinco itens cumpridos — todos, não a maioria — e com o retorno marcado, não sugerido.
Prescrição- Dois exames abdominais escritos, com horário e pelo menos duas horas de intervalo, e o segundo sem piora
- Paciente aceitando líquidos por via oral e com dor controlada sem opioide
- Sinais vitais normais no momento da alta, e não apenas na chegada
- Retorno marcado em 24 horas no mesmo serviço, com data e hora escritas na receita
- Quatro critérios de retorno imediato ditos em voz alta e escritos: dor que se concentra num ponto, dor que piora, febre, ou vômitos que impedem beber água
- Analgesia domiciliar por horário nas primeiras 24 horas — dipirona 1 g por via oral a cada 6 horas no adulto sem contraindicação —, com a orientação explícita de que o remédio não serve para adiar o retorno
Como saber se está funcionando
Depois da decisão inicial, a pergunta muda: não é apenas “qual é o diagnóstico?”, mas “a evolução está seguindo o caminho esperado?”. O valor do reexame está na comparação com o que foi documentado antes.
Esperado: Redução progressiva da dor e da febre, melhora do estado geral e ausência de novos sinais de irritação peritoneal.
Se não melhora: Dor crescente, febre persistente, vômitos, defesa ou piora clínica sugerem falha. Reavaliar o diagnóstico, repetir imagem quando indicado e reconsiderar controle cirúrgico do foco.
Esperado: Dor progressivamente menor, mobilização, tolerância à dieta, recuperação do trânsito intestinal e ausência de febre persistente.
Se não melhora: Febre persistente ou recorrente, dor crescente, íleo prolongado, taquicardia ou piora clínica devem levantar suspeita de complicação, especialmente coleção ou abscesso intra-abdominal.
Esperado: Dor em melhora, sem nova localização, febre, defesa ou deterioração do estado geral.
Se não melhora: Comparar com o exame anterior: a dor migrou? aumentou? apareceu defesa ou febre? Reabrir a investigação e repetir exames laboratoriais ou imagem quando necessário. Reavaliar não é repetir o exame: é comparar duas fotografias da doença em momentos diferentes.
Onde o erro machuca
O dano: Leucocitose é resposta sistêmica e depende de tempo: quem chega com seis horas de dor tem grande chance de hemograma normal, e isso é o que o mecanismo prevê. O paciente liberado com esse argumento volta em 48 horas com apêndice perfurado, e a próxima entrada é pela porta da peritonite.
Como pegar a tempo: Trate o hemograma como marcador de tempo, não de doença. Escreva no prontuário há quantas horas a dor começou junto com o resultado — os dois números lidos juntos mudam a interpretação. E nunca deixe um exame de sangue revogar um exame físico convincente.
O dano: O poder da ultrassonografia na apendicite está no positivo. Quando o apêndice não é visualizado, o exame não informa nada, e tratar esse laudo como exclusão produz alta em quem tinha a doença — com a agravante de que agora existe um exame de imagem no prontuário que dá segurança falsa a quem receber o paciente depois.
Como pegar a tempo: Escreva no prontuário a palavra equívoco e o que você vai fazer por causa dela: observar com reexame marcado, ou pedir tomografia. Um laudo que não responde não encerra investigação; ele apenas transfere a decisão de volta para o exame físico.
O dano: O escore de Alvarado exclui bem e confirma mal, e num pronto-socorro onde a maioria não tem apendicite ele perde ainda mais poder de confirmação. Usar um escore de 4 para liberar alguém com dor localizada e defesa é usar um instrumento fora da função para a qual ele tem evidência.
Como pegar a tempo: Calcule cada item do escore corretamente e interprete o resultado junto com história, exame e evolução. Escore baixo não afasta avaliação cirúrgica diante de quadro convincente ou piora; discuta a decisão com o supervisor.
O dano: O apêndice pélvico ou retrocecal encosta no ureter e na bexiga e produz piúria e hematúria leves. O rótulo de infecção urinária fecha o caso, gera receita de antibiótico oral e manda a paciente para casa; o antibiótico ainda atenua parcialmente o quadro, o que atrasa mais o retorno.
Como pegar a tempo: Pesquisar sintomas urinários, dor lombar, febre e achados do exame de urina, usando cultura quando indicada. Pielonefrite não exige febre alta, calafrio e disúria simultaneamente. Piúria ou hematúria discretas também podem acompanhar apendicite; interpretar o conjunto e reexaminar antes de trocar a hipótese.
O dano: A profilaxia só funciona se o fármaco estiver no tecido no momento em que ele é aberto. Dose administrada depois da incisão não previne infecção de sítio cirúrgico e ainda seleciona resistência. Do outro lado, manter cefazolina por três dias numa apendicite não complicada expõe o paciente a diarreia por Clostridioides difficile sem nenhum ganho.
Como pegar a tempo: Prescreva com horário-alvo explícito, ligado à incisão e não ao relógio da enfermaria, e registre os dois horários. Na apendicite não complicada, escreva no prontuário que o antimicrobiano termina ao fim da cirurgia — deixar o item em aberto é o que faz a prescrição correr sozinha por dias. A recomendação 15.1 da edição de 2025, forte e com certeza moderada, prescreve a dose única pré-operatória e sugere contra manter antibiótico enquanto o paciente aguarda, quando a cirurgia sai em até 24 horas. Na apendicite complicada a ordem se inverte, e isso está no bloco da conduta.
O dano: Observação sem horário vira esquecimento com outro nome. O paciente atravessa a troca de plantão como "em observação", o médico que assume não tem com o que comparar, e o segundo exame — que era o instrumento mais valioso do caso — deixa de existir. É assim que a maioria das apendicites perdidas se perde.
Como pegar a tempo: Prescreva a reavaliação como item, com hora. Escreva o primeiro exame com todos os achados, inclusive os negativos, porque é a ausência de defesa às 22h que dá valor à defesa das 2h. E passe o plantão dizendo o horário do próximo reexame, não apenas a hipótese.
O dano: Menos dor, menos febre e menos leucocitose no idoso não significam doença mais branda: significam sinal apagado. O escore não distingue complicada de não complicada nessa faixa, e a mesma foto clínica que autorizaria observar aos 20 anos esconde perfuração aos 75.
Como pegar a tempo: Baixe o limiar de imagem e de internar para observar, em vez de observar em corredor — no idoso a edição de 2025 sugere a tomografia, de preferência com protocolo de baixa dose, em vez da ultrassonografia como imagem primária, com sugestão condicional e certeza muito baixa. E não termine o caso na alta cirúrgica: com 35 anos ou mais, quem teve abscesso periapendicular tratado sem cirurgia tem indicação de apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas — recomendação forte, certeza moderada —, e a avaliação que precede essa operação inclui tomografia para confirmar a resolução do abscesso e colonoscopia para afastar tumor do cólon direito. Note o corte: 35 anos, não os 40 da edição anterior.
O dano: O paciente ouve que não tem nada e entende que voltar é incomodar. Numa doença que se declara pela progressão, o retorno é parte do tratamento, e a frase genérica transfere para quem não tem formação a tarefa de decidir o que é piora relevante.
Como pegar a tempo: Marque o retorno com data e hora escritas na receita, diga os quatro critérios de retorno imediato em voz alta e peça que o paciente os repita de volta. Se o serviço não consegue garantir retorno em 24 horas, a decisão honesta é manter em observação, não abreviar o critério.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa que mais decide desfecho neste capítulo não é a do diagnóstico feito: é a da incerteza. Você vai dizer dezenas de vezes por mês que ainda não sabe, e a qualidade dessa frase determina se o paciente volta a tempo.
O erro de linguagem que mais custa é transformar "hoje não há sinal de urgência" em "você não tem nada". Quem ouve a segunda frase entende que voltar é incomodar — e o retorno é o que torna a alta segura.
Alta sem diagnóstico fechado, com retorno marcado
“Eu examinei sua barriga duas vezes, com três horas de diferença, e comparei os dois exames. Nesse tempo nada piorou, e os exames que pedi não mostraram sinal de urgência. Isso quer dizer que hoje eu afastei o que exigiria cirurgia agora. O que eu ainda não tenho é o nome da causa da dor, e isso é comum: em boa parte das pessoas a dor melhora sozinha em um ou dois dias. Por isso você vai para casa, mas com hora marcada para voltar amanhã às dez, aqui mesmo, para eu examinar de novo. E tem quatro coisas que fazem você voltar antes, a qualquer hora da noite: se a dor se juntar num ponto só, principalmente do lado direito embaixo; se ela ficar mais forte do que está agora; se aparecer febre; ou se você vomitar e não conseguir beber água. Pode me repetir essas quatro, para eu ter certeza de que ficou claro?”
Não diga: Você não tem nada. Foi só gases. Os exames deram tudo normal, pode ficar tranquilo. Se piorar, procure um médico.
Ao paciente que vai ficar em observação, e à família que quer ir embora
“Eu vou pedir que vocês fiquem mais algumas horas, e quero explicar por quê, porque não é fila nem castigo. Doença de apêndice muda com o tempo, e o exame de agora é uma fotografia. Eu preciso de duas fotografias para saber para onde isso está indo, e a segunda vale mais do que qualquer exame de sangue. Vou passar aqui de novo às cinco horas e examinar exatamente o mesmo lugar. Enquanto isso ele fica sem comer e sem beber, porque, se a decisão for operar, ele precisa estar preparado. Se nesse tempo alguma coisa piorar, avise a enfermagem sem esperar a minha hora.”
Não diga: Vamos observar. Depois a gente vê. Fica aí que daqui a pouco alguém passa.
Quando a decisão foi errada — o apêndice saiu normal
“Preciso contar uma coisa e prefiro contar agora. O exame do material mostrou que o apêndice não estava inflamado. Eu indiquei a cirurgia porque a dor, o exame da barriga e os exames de sangue apontavam para apendicite, e esperar mais tinha risco de o apêndice furar. Diante do que eu sabia naquela hora, eu tomaria a mesma decisão. Isso não me livra de dizer que a senhora passou por uma cirurgia de que não precisava, e sinto muito por isso. Agora duas coisas importam: a recuperação segue igual, e a dor precisa de explicação, então vou pedir avaliação para investigar a causa antes da alta.”
Não diga: Deu tudo certo, estava um pouco inflamado sim. Melhor tirar do que arriscar, não se preocupe.
Oferecendo o tratamento com antibiótico sem cirurgia
“Existe hoje uma segunda opção para casos como o seu, em que a tomografia mostra que o apêndice está inflamado mas ainda não complicou, e não há aquela pedrinha dentro dele. É tratar com antibiótico, sem operar. Preciso ser honesto sobre o preço: de cada dez pessoas que escolhem esse caminho, cerca de quatro acabam precisando operar em algum momento nos cinco anos seguintes, porque a doença volta. Se você escolher o antibiótico, o combinado inclui voltar aqui nas datas que eu marcar, e voltar imediatamente se a dor aumentar ou a febre voltar. Quer que eu explique as duas opções de novo antes de você decidir?”
Não diga: Dá para tratar só com antibiótico, é mais fácil e você evita a cirurgia.
À gestante com suspeita de apendicite
“A senhora está com um quadro que pode ser apendicite, e na gravidez isso exige que a gente seja mais rápido, não mais cauteloso. Vou explicar por quê: o que faz mal ao bebê é o apêndice inflamar até furar, e não a anestesia nem a cirurgia. Por isso a senhora vai ficar internada enquanto eu esclareço isso, com ultrassom e exames, e não vai para casa esperar. Se a conclusão for apendicite, a gente opera, com a obstetrícia acompanhando junto. Enquanto isso a senhora fica sem comer, porque a decisão pode sair a qualquer momento.”
Não diga: Como a senhora está grávida, vamos evitar exames e cirurgia. Vou tentar antibiótico primeiro e a gente reavalia amanhã.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
AIR, AAS e, na criança, PAS — os escores que a diretriz atual nomeia
A edição de 2025 sugere o uso de escores de estratificação de risco baseados em achados clínicos e laboratoriais — o Appendicitis Inflammatory Response, o Adult Appendicitis Score e, na criança, o Pediatric Appendicitis Score — para conduzir a investigação inicial de quem chega com dor na fossa ilíaca direita: afastar a doença em quem é de baixo risco e identificar quem é de risco intermediário e precisa de imagem ou de observação ativa. É sugestão condicional, com certeza moderada na recomendação 1 e baixa na recomendação 2. A mesma recomendação registra que, na apresentação pouco clara, a tomografia permanece o padrão diagnóstico, pela sensibilidade maior. O escore de Alvarado não é nomeado.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025 das diretrizes de Jerusalém, recomendações 1 e 2 (JAMA Surg. 2026;161(3):283-295)
Alvarado, porque é o que se calcula às três da manhã — e é o que a prova cobra
As duas validações brasileiras disponíveis foram feitas com o escore de Alvarado, que exige apenas anamnese, exame físico e hemograma. Na série adulta do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, com corte em 6 pontos, sensibilidade de 72% e especificidade de 87,5%; na validação pediátrica do IMIP, com corte acima de 5 pontos, sensibilidade de 92,6% e valor preditivo negativo de 77,8%. Os escores nomeados pela diretriz dependem de proteína C reativa, que boa parte dos serviços não libera de madrugada — e o Alvarado continua sendo o escore que as bancas brasileiras cobram.
Nascimento RR et al., Rev Col Bras Cir, 2018;45(5):e20181901; e Borges PSGN et al., Rev Bras Saude Mater Infant, 2003;3(4):385-393
Escolha o instrumento validado e disponível no serviço e calcule seus itens corretamente. Alvarado e PAS dispensam PCR; AIR e AAS são opções no adulto. Discuta com o supervisor como o resultado se integra ao exame e à evolução, sem deixar que uma pontuação baixa atrase a avaliação cirúrgica necessária.
Tomografia de baixa dose como imagem preferida onde ela existir
Onde estiver disponível, a tomografia com protocolo de baixa dose — abaixo de 2 a 3 mSv — deve ser considerada a modalidade de imagem preferida no adulto com suspeita de apendicite aguda. É a inversão em relação à edição anterior, que abria a investigação pela ultrassonografia. A diretriz estende a preferência pela tomografia de baixa dose, em vez da ultrassonografia, ao adulto com obesidade e ao idoso — sugestão condicional, com certeza baixa no primeiro e muito baixa no segundo.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendações 3.1, 3.3 e 3.4
Escore mais ultrassonografia como alternativa, onde a tomografia não está à mão
A mesma recomendação 3.1 sugere o uso de escores de risco — AIR e Adult Appendicitis Score — combinados com ultrassonografia como alternativa à tomografia de baixa dose na investigação inicial do adulto, nos serviços em que a tomografia não está prontamente disponível ou quando minimizar a exposição à radiação é prioridade. É sugestão condicional, com certeza moderada. Na criança e no adolescente a ordem não mudou: ultrassonografia primeiro, com a tomografia de baixa dose reservada ao exame não diagnóstico ou à suspeita clínica que se mantém alta.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendações 3.1 e 3.2
A escolha da imagem considera o exame físico, a idade e a possibilidade de reavaliação. Em obesos, idosos e imunossuprimidos, a menor resolução do exame clínico aumenta a importância da imagem. Na criança e no adolescente, a radiação favorece a primeira tentativa com ultrassonografia; no idoso, a tomografia também esclarece diagnósticos alternativos. Considere ainda a disponibilidade real de observação e retorno: morar longe ou não conseguir voltar modifica a segurança do plano. Discuta essa combinação com o supervisor.
Oferecer como alternativa, com monitorização e decisão compartilhada
A diretriz sugere o antibiótico como alternativa à apendicectomia no tratamento da apendicite não complicada, no adulto e na criança, desde que haja monitorização clínica adequada e decisão compartilhada — sugestão condicional, certeza moderada nas duas. A recomendação 6 vai além e admite o manejo ambulatorial com antibiótico como opção, também com sugestão condicional e certeza moderada, desde que existam seguimento adequado e acesso ao serviço em caso de piora. E a recomendação 8 fecha o ciclo: não fazer apendicectomia de intervalo de rotina em quem foi tratado sem cirurgia e não tem sintoma persistente ou recorrente — sugestão condicional, certeza baixa.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendações 5.1, 5.2, 6 e 8
Cirurgia como padrão, pela recorrência e pelo que o antibiótico não resolve
Escolhida a cirurgia, a edição de 2025 recomenda de forma forte, com certeza moderada, que a apendicectomia laparoscópica aconteça em até 24 horas da admissão, no adulto e na criança. No idoso ela vai adiante e sugere a apendicectomia como tratamento preferido da doença não complicada, deixando o antibiótico isolado para quem tem comorbidade importante e risco cirúrgico alto — sugestão condicional, certeza muito baixa. E há o que o tratamento clínico não produz: o exame anatomopatológico da peça, que é o que identifica tumor de apêndice. A edição de 2020 registrava risco de recorrência de até 39% em cinco anos, e o apendicolito segue descrito como fator de risco conhecido para perfuração e para falha do tratamento não operatório.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendações 9.1, 9.2 e 5.4; e edição de 2020 para o risco de recorrência
Na gestante, a cirurgia é o preferido — e a exceção ficou mais frouxa
A edição de 2020 era explicitamente contrária ao tratamento não operatório na gestação. A de 2025 mudou o tom: sugere a apendicectomia laparoscópica como tratamento preferido da apendicite não complicada na gestante, com sugestão condicional e certeza muito baixa, e admite o manejo não operatório com antibiótico como alternativa quando a cirurgia oferece risco aumentado ou não está imediatamente disponível — deixando escrito que a evidência que sustenta essa alternativa é muito incerta.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendação 5.3
O tratamento não operatório exige caracterização da doença não complicada por imagem, reavaliação garantida e decisão compartilhada após explicar o risco de recorrência. Confira essas condições antes de apresentar a opção ao paciente. Se alguma faltar, a proposta precisa ser revista com a equipe cirúrgica. Na gestante, diferencie indisponibilidade de cirurgia de um adiamento por conveniência do serviço.
Abaixo de 35 anos, operar cedo
No adulto com menos de 35 anos e apendicite complicada com abscesso periapendicular, a diretriz sugere a apendicectomia laparoscópica precoce — sugestão condicional, certeza moderada. O manejo não operatório seguido de apendicectomia de intervalo, entre 6 e 12 semanas, aparece como alternativa nos serviços sem experiência ou sem recurso de laparoscopia de urgência. Na criança, a recomendação 13.2 diz o mesmo, com a mesma força e a mesma alternativa.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendações 13.1 e 13.2
Com 35 anos ou mais, não operar no agudo — e operar de intervalo depois
A partir dos 35 anos a diretriz sugere contra a apendicectomia precoce, e a razão está escrita: até 14,3% desses pacientes têm uma neoplasia do apêndice por trás do quadro. Quem é tratado sem cirurgia não fica sem operação — a recomendação 14.1 é forte, com certeza moderada, e determina a apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas depois do manejo não operatório, justamente para não deixar passar essa neoplasia. A avaliação pré-operatória dessa cirurgia inclui tomografia, para confirmar que o abscesso se resolveu, e colonoscopia, para afastar tumor do cólon direito.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendações 13.1 e 14.1
Na criança, apendicectomia de intervalo de rotina não
Na criança com apendicite complicada e abscesso periapendicular tratado sem cirurgia, a diretriz sugere contra a apendicectomia de intervalo de rotina — sugestão condicional, certeza baixa. O motivo é o inverso do que vale no adulto: a incidência de neoplasia nessa faixa é de 0,5%, e a morbidade da operação pesa mais do que aquilo que ela procura.
World Society of Emergency Surgery, edição de 2025, recomendação 14.2
As recomendações citadas mudaram entre as edições de 2020 e 2025; identifique a edição ao interpretar uma conduta registrada. Na discussão do abscesso periapendicular, a idade importa pela possibilidade de tumor associado. Relacione essa preocupação ao plano descrito no fluxo e registre, no sumário de alta, a investigação e o tratamento programados, com prazo e responsável. A comparação histórica não deve esconder o próximo passo do paciente.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao Tiago Neri, 19 anos, 01h20 de sábado. Dor periumbilical desde o jantar de ontem, sem apetite hoje, um vômito de manhã. Pressão 124 por 72, frequência cardíaca 88, temperatura 37,1 °C. Abdome flácido, dor discreta à palpação da fossa ilíaca direita, sem defesa, sem descompressão. Leucócitos 9.800 com 66% de neutrófilos, proteína C reativa 18 mg/L, urina com algumas hemácias. Tomógrafo desligado até as sete, ultrassom só de manhã.
o que penso agora
À 01h20, Tiago está estável. Migração ainda não confirmada: anorexia 1, vômito 1, dor em fossa ilíaca direita 2; demais itens ausentes. Alvarado 4. São cerca de seis horas de dor, e leucograma normal não exclui doença inicial. A decisão precisa integrar a localização e a possibilidade de reavaliação segura.
o que peço à história antes de qualquer exame
Retomo a cronologia com Tiago: início às 19h, vômito às 23h e, desde meia-noite, dor mais localizada em fossa ilíaca direita. A informação dirigida confirma migração, inicialmente incerta. O registro deve mostrar o dado novo, sem contar duas vezes o mesmo achado.
como a resposta muda o que penso
Migração acrescenta um ponto: Alvarado 5. A combinação de anorexia, vômito e dor focal torna a observação ativa e a discussão de imagem pertinentes. A inflamação parietal explica a localização, mas não informa sozinha se existe perfuração. Documentar a evolução é mais útil que atribuir gravidade a uma duração fixa.
o que examino de novo, e a decisão que sai daqui
À 01h40 confirmo dor focal e à tosse, sem defesa involuntária ou rigidez. Apresento ao supervisor a cronologia, os achados e a indisponibilidade momentânea de imagem. Com Tiago estável, combinamos observação, analgesia e reexame às 05h, com avaliação antes disso se piorar. A escolha de obter imagem permanece aberta se ela puder modificar a conduta; não se afirma que o exame seria inútil.
o segundo exame, e o que ele revelou
Às 05h05 há dor mais intensa, defesa e temperatura 37,9 °C, com frequência cardíaca 104. Sem atribuir ponto de descompressão à defesa ou à tosse, o Alvarado passa de 5 para 6 pelo acréscimo da temperatura. O agravamento clínico importa mais que a categoria numérica. Aciono o cirurgião: cerca de dez horas de evolução, migração documentada, dor focal progressiva e novos sinais peritoneais. A avaliação define necessidade de imagem e oportunidade de operar.
o que se prescreve antes de ele descer
Mantenho o jejum, garanto acesso e hidratação, e prescrevo a profilaxia com horário-alvo, não com horário de enfermaria: cefazolina 2 g intravenosa associada a metronidazol 500 mg intravenoso, para serem administrados nos 60 minutos que antecedem a incisão. Anoto o horário previsto da cirurgia e deixo escrito, no mesmo item, que a dose deve ser registrada com hora. O que eu não prescrevo é antibiótico para o intervalo de espera: com doença não complicada e cirurgia prevista para dentro das 24 horas da admissão, a diretriz sugere contra — e a recomendação de operar nessas 24 horas é forte, com certeza moderada. Se a cirurgia atrasar mais de quatro horas depois da primeira dose, o repique de cefazolina está prescrito.
o desfecho, e a lição que fica
Apendicectomia às 08h20, apêndice flegmonoso, sem perfuração, cavidade limpa. Antimicrobiano suspenso ao fim da cirurgia — doença não complicada não recebe antibiótico depois. Essa regra perdeu peso formal na edição de 2025: virou sugestão condicional, com certeza baixa, onde antes era recomendação forte. Perdeu peso a evidência, não a prática — nada apareceu a favor de manter. Alta no dia seguinte, peça encaminhada para exame anatomopatológico. Nada nesse caso dependeu de tecnologia: dependeu de perguntar a ordem dos sintomas, de escrever o primeiro exame com hora e de voltar à mesma barriga quatro horas depois.
Faça você
Quinta-feira, 16h. Priscila Amaral, 27 anos, gestante de 27 semanas, primeira gestação, pré-natal em dia. Dor abdominal há 14 horas, começou difusa e agora se concentra no flanco direito, um pouco acima da cicatriz umbilical. Náusea, um episódio de vômito, sem diarreia, sem sintomas urinários, sem perda de líquido nem sangramento. Pressão 108 por 66, frequência cardíaca 102, temperatura axilar 37,6 °C. Abdome gravídico, doloroso à palpação do flanco direito, sem defesa evidente, útero sem contrações, batimentos cardíacos fetais presentes e normais. Leucócitos 15.200 com 78% de neutrófilos, proteína C reativa 46 mg/L, urina sem alterações. Ultrassonografia obstétrica normal; ultrassonografia de abdome com apêndice não visualizado, sem líquido livre. O hospital não tem ressonância magnética, e a cirurgia pergunta se dá para reavaliar amanhã.
leitura da história
Dor de instalação difusa que se concentrou à direita em 14 horas é a linha do tempo da apendicite, e a localização alta é esperada: a partir do segundo trimestre o útero desloca o ceco para cima e lateralmente. Dor em flanco direito numa gestante de 27 semanas não afasta apêndice — é onde ele está.
leitura do exame físico
A ausência de defesa evidente vale pouco aqui. A parede abdominal distendida pelo útero transmite mal a contração muscular, e o peritônio pode estar irritado com o abdome parecendo aceitável à palpação. A taquicardia de 102 com temperatura de 37,6 °C, em paciente sem dor intensa no momento, é um dado que pesa mais do que pesaria fora da gestação.
leitura dos exames
O leucograma de 15.200 não informa nada: leucocitose é fisiológica na gestação. A proteína C reativa de 46 mg/L é compatível com processo inflamatório de mais de 12 horas, mas também não é específica. E a ultrassonografia com apêndice não visualizado é laudo equívoco, não negativo — o poder desse exame está no positivo.
o que a ausência de ressonância muda
Ela muda a lista de opções, não a urgência. Sem ressonância, restam três caminhos: observar internada com reexames e ultrassonografias repetidas, aceitar a tomografia, ou transferir para serviço com ressonância e cirurgia. O que não é opção é o quarto caminho, que foi o oferecido pela cirurgia.
a decisão
— sua vez —
Continuidade do caso e prática do internato
Acompanhe Tiago da história dirigida ao pós-operatório. Os demais casos exercitam situações diferentes e não substituem a reavaliação do paciente da cena.
Questão integrativa 1
Por que a primeira soma de Tiago é 4 e a segunda é 5?
Questão integrativa 2
Às 05h há defesa, tosse dolorosa e febrícula. Isso autoriza somar descompressão dolorosa?
Questão integrativa 3
Leucograma normal permite excluir apendicite?
Questão integrativa 4
Qual a profilaxia de referência para um adulto de 65 kg sem alergia?
Questão integrativa 5
O que muda se for encontrada perfuração?
Questão integrativa 6
Que informação precisa acompanhar uma alta após dor em fossa ilíaca direita?
Ver como fecharíamos
Não é reavaliar amanhã, e não é reavaliar em casa. A gestante com suspeita de apendicite fica internada. Concretamente: interne, mantenha jejum, prescreva analgesia com horário e resgate, hidratação intravenosa e antiemético se houver vômitos, comunique a obstetrícia e escreva a reavaliação médica como item da prescrição, em 3 a 4 horas, com registro de localização da dor, dor à tosse, defesa, sinais vitais e batimentos fetais. Repita a ultrassonografia com o pedido explícito de avaliar a fossa ilíaca direita e o flanco direito com compressão gradual — não o pedido genérico de abdome total. E note o que a edição de 2025 da diretriz diz sobre este exato ponto: com ultrassonografia negativa ou inconclusiva e suspeita clínica que persiste, a imagem indicada é a ressonância magnética, com sugestão condicional e certeza moderada. Como o hospital não tem ressonância, a decisão sobe assim que houver piora, ou se a dor persistir com proteína C reativa em elevação: aceitar a tomografia ou transferir para serviço com ressonância e retaguarda cirúrgica, o que for mais rápido. Feito o diagnóstico, a operação não espera, e a apendicectomia laparoscópica é o tratamento preferido na gestante — sugestão condicional com certeza muito baixa, o que descreve a evidência disponível, não a urgência da indicação. A edição de 2025 passou a admitir o antibiótico isolado como alternativa na gestação, coisa que a de 2020 contraindicava, mas apenas quando a cirurgia oferece risco aumentado ou não está imediatamente disponível, e com a ressalva expressa de que a evidência é muito incerta — nada disso descreve esta paciente, que tem centro cirúrgico do outro lado do corredor. E a frase que precisa ser dita à paciente e ao cirurgião é a mesma: o que faz essa gestação terminar mal é o apêndice que fura, não a anestesia. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Anorexia 1, vômito 1 e dor focal 2 somam 4. A história dirigida confirma migração e acrescenta 1; não se pontua um dado ainda desconhecido. 2. Não. São achados relacionados, mas não idênticos ao item do escore. A piora justifica avaliação cirúrgica independentemente da soma. 3. Não. O resultado modifica a probabilidade e deve ser interpretado com tempo de evolução, exame e imagem quando indicada. 4. Cefazolina 2 g IV mais metronidazol 500 mg IV antes da incisão, conforme o protocolo. A faixa abaixo de 70 kg não exige redução automática para 1 g. 5. Passa a existir indicação de tratamento antimicrobiano e controle do foco. Duração e espectro dependem do controle alcançado e da resposta, com preferência por curso curto quando adequado. 6. Evolução e reexame favoráveis, tolerância oral, avaliação de risco e plano acessível de retorno. Explicar sinais de piora e confirmar compreensão; escore baixo isolado não é critério de alta.
Abaixo dos cinco anos a apendicite é menos frequente e mais grave: o omento curto bloqueia mal a perfuração, e o que no adulto vira abscesso contido na criança vira peritonite difusa. O quadro de febre, vômitos e fezes amolecidas é clinicamente idêntico ao da gastroenterite, e o rótulo de virose dado a uma criança cuja dor piorou é uma das formas mais comuns de perder o diagnóstico no Brasil — numa série de 300 crianças operadas em serviços quaternários, o diagnóstico levou mais de 24 horas em 57,4% dos casos e metade já tinha coleção purulenta na cirurgia. A postura antálgica e a resistência ao exame são sinais legítimos de irritação peritoneal, e o líquido livre em fossa ilíaca direita reforça a suspeita. A ultrassonografia é a imagem de primeira linha na criança, com recomendação contrária ao uso rotineiro de tomografia como primeiro exame, e o que resolve a dúvida aqui é avaliação cirúrgica com reexame em intervalo curto — dentro do hospital.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstitua a cronologia de Tiago, confira a soma de cada item do Alvarado e explique por que a piora do exame muda a decisão. Compare profilaxia e tratamento da apendicite complicada. No próximo plantão, verifique se o registro informa hipótese, reavaliação e responsável por agir diante de piora.
Em 30 dias
Refaça o caso do Gustavo mudando um dado de cada vez e diga em voz alta o que muda na conduta: se ele tivesse 4 anos em vez de 19; se tivesse 78 anos e usasse prednisona; se fosse uma mulher de 24 anos com corrimento novo e dispareunia; se a tomografia mostrasse abscesso de 5 cm bloqueado. Depois responda três perguntas sobre a sua própria prática: em que horário exato o antibiótico profilático foi administrado na última apendicectomia que você acompanhou, quanto tempo antes da incisão, e o antimicrobiano foi suspenso ao fim da cirurgia?
Agora atenda
Agora atenda: menino de 6 anos trazido pela mãe ao pronto-socorro com dor abdominal e vômitos há dois dias, febre de 38,2 °C e três episódios de fezes amolecidas hoje. Foi atendido ontem noutro serviço, saiu com o diagnóstico de virose e soro de reidratação oral. Ele chora quando você encosta na barriga e anda encurvado até a maca. Decida a que faixa ele pertence, defenda a decisão para a mãe — que já ouviu ontem que não era nada — e diga em voz alta o que vai reexaminar, e a que horas.
