Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Pancreatite aguda

Confirmar o diagnóstico, reconhecer disfunção orgânica desde a chegada, oferecer suporte individualizado e tratar a causa para prevenir novos episódios.

Fontes deste capítulo

Leppäniemi A, Tolonen M, Tarasconi A, et al. 2019 WSES guidelines for the management of severe acute pancreatitis. World J Emerg Surg. 2019;14:27. doi:10.1186/s13017-019-0247-0

Banks PA, Bollen TL, Dervenis C, et al. Classification of acute pancreatitis—2012: revision of the Atlanta classification and definitions by international consensus. Gut. 2013;62(1):102-111. doi:10.1136/gutjnl-2012-302779

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia: prevenção de eventos cardiovasculares e pancreatite. Brasília: Ministério da Saúde; 2020. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 8, de 30 de julho de 2019

Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados, Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. Protocolo PRT.UCG.002 — Pancreatite Aguda. Versão 01, emissão em 18 de novembro de 2021. Publicado pela Resolução nº 63, de 18 de novembro de 2021, Boletim de Serviço nº 276, de 1º de dezembro de 2021

01

Responda antes de ler

Segundo dia de internação por pancreatite aguda. O paciente está sem dor há doze horas, parou de vomitar e pede para comer. A amilase, que estava em 900 U/L, ainda está em 520 U/L. Qual é a conduta correta quanto à nutrição?

02

O paciente que você vai ver

Vinte e uma e quarenta de uma quarta-feira. O hospital é municipal, tem noventa leitos, atende uma cidade de setenta mil habitantes e é referência para mais quatro municípios da microrregião. A unidade de terapia intensiva tem quatro leitos e dois estão ocupados. O tomógrafo funciona e o técnico está na escala. O ultrassonografista é de sobreaviso, mora a quinze minutos e atende quando chamado. O cirurgião de sobreaviso também. Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica não existe aqui: a mais próxima fica no hospital estadual, a cento e cinquenta quilômetros, e a vaga se pede por telefone de manhã.

Você é o interno da escala noturna. O laboratório do plantão faz hemograma, glicemia, ureia, creatinina, eletrólitos, transaminases, bilirrubinas e amilase. A lipase existe no cardápio do laboratório de apoio, é coletada aqui e o resultado sai na tarde do dia seguinte. A proteína C reativa segue o mesmo caminho. A gasometria arterial funciona, com o aparelho na sala de emergência. Isso não é uma limitação a lamentar: é o desenho da unidade, e o capítulo inteiro é sobre decidir dentro dele.

Severina Roldão tem 54 anos, 78 quilos, é cozinheira de uma escola municipal e chegou andando, apoiada no braço do filho. Está sentada na cadeira do consultório inclinada para a frente, com os antebraços apoiados nas coxas e a testa quase na altura dos joelhos. Quando você pede que ela se deite na maca para o exame, ela senta de novo antes de você terminar a frase, e pede desculpa. A postura não é manha: é o único jeito de a dor ficar suportável, e ela já é informação.

A dor começou por volta de uma da tarde, umas três horas depois do almoço, e não parou desde então. Ela aponta o epigástrio com a mão aberta, faz um movimento de cinta em volta do tronco e diz que a dor sai pelas costas. Vomitou quatro vezes. Não melhorou depois de nenhum vômito, e é isso que a assustou — porque em outras vezes melhorava. Tomou dois comprimidos de escopolamina que a vizinha deu e não mudou nada.

No prontuário eletrônico há duas passagens pelo mesmo pronto-socorro nos últimos dois anos, as duas com dor em andar superior do abdome depois de comida gordurosa, as duas com o diagnóstico anotado de gastrite e alta com omeprazol. Nas duas, ninguém pediu ultrassonografia. Severina não bebe, não fuma, é hipertensa e toma losartana todo dia. A última refeição foi o almoço.

Sinais vitais: pressão arterial 138 por 86, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 22 contada com relógio, saturação 96 por cento em ar ambiente, temperatura axilar 37,6 graus, glicemia capilar 214. O abdome está distendido, doloroso à palpação no andar superior, sem defesa e sem descompressão dolorosa, com ruídos hidroaéreos diminuídos. Ela responde tudo, sabe onde está, e a dor não cede quando você tira a mão. Essa é a cena. O que se decide nas próximas doze horas define as quarenta e oito seguintes, e a decisão mais importante da noite não é a que separa grave de leve: é a que descobre por que isso aconteceu.

03

Quem adoece disso

A pancreatite aguda não é rara e não é comum: ela é frequente o bastante para você ver várias no internato e escassa o bastante para que nenhum serviço brasileiro tenha uma série grande. Os números que existem para o Brasil são antigos e vêm do mesmo lugar. A pesquisa nacional do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, de 2008, cita incidência brasileira de 15,9 casos por 100 mil habitantes ao ano, a partir de dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2006, e a contrasta com os 50 a 80 por 100 mil ao ano da literatura norte-americana que ela mesma cita. A diferença de mais de três vezes entre os dois números é grande demais para ser só biologia, e o artigo não a explica.

O mesmo artigo traz a estatística que mais explica o que você vai encontrar no plantão. Em 2006, na cidade de São Paulo, foram registrados 1.999 casos de pancreatite aguda, vindos de 201 estabelecimentos com capacidade de internação — uma média de 2,5 casos graves por estabelecimento por ano. Não é um detalhe metodológico: é a razão pela qual o cirurgião que você vai chamar às três da manhã pode ter tratado meia dúzia de casos graves na carreira inteira, e a razão pela qual a conduta varia tanto de serviço para serviço. Dos 618 cirurgiões que responderam, 182 disseram tratar até cinco casos por ano e 147, de seis a dez.

A distribuição da gravidade é o que muda a rotina. A diretriz de 2019 registra que 80 a 85 por cento dos pacientes têm curso leve, autolimitado, com mortalidade abaixo de 1 a 3 por cento, e que cerca de 20 por cento têm episódio moderado ou grave, com mortalidade de 13 a 35 por cento. A mesma diretriz diz, no resumo, que 20 a 30 por cento desenvolvem a forma grave, com mortalidade hospitalar em torno de 15 por cento. E a infecção da necrose pancreática e peripancreática ocorre em 20 a 40 por cento das pancreatites graves. Guarde a proporção que interessa hoje: quatro em cada cinco pacientes que entram pela porta com esse diagnóstico vão para casa em uma semana, e o trabalho da noite é descobrir qual é o quinto.

As causas se repartem em duas grandes e uma cauda longa. Cálculo biliar e álcool respondem pela maioria; a hipertrigliceridemia responde por 1,3 a 3,8 por cento dos casos, segundo o protocolo federal de dislipidemia; e sobram trauma, hipercalcemia, medicamentos, causas pós-procedimento, autoimunes, hereditárias e infecciosas. Essa aritmética é a que sustenta o eixo do capítulo: se metade das suas pancreatites é biliar, e se a conduta biliar muda a internação inteira, então descobrir a causa não é uma tarefa de retaguarda a ser feita na enfermaria — é uma tarefa da primeira noite.

04

Por que acontece o que acontece

Qualquer que seja a causa, o evento final é o mesmo, e o protocolo brasileiro em uso o escreve numa frase: as enzimas pancreáticas se ativam dentro das células acinares. O pâncreas produz e armazena zimogênios — enzimas inativas que só deveriam encontrar o gatilho da ativação depois de chegar ao duodeno. Quando a tripsina se forma dentro do ácino, ela ativa as demais em cascata, e a glândula passa a digerir a si mesma e ao tecido gorduroso em volta.

O cálculo faz isso pela mecânica. A vesícula solta uma pedra pequena, ela desce pelo colédoco e encrava, ainda que por minutos, no ponto em que o ducto pancreático e a via biliar se encontram para desembocar na papila. A obstrução transitória basta. É por isso que a maior parte dos cálculos que causam pancreatite já não está lá quando a tomografia é feita — o cálculo passou, e o estrago ficou. E é por isso que, na história, a dor costuma vir horas depois de uma refeição gordurosa, que é o estímulo que faz a vesícula se contrair.

O álcool chega ao mesmo lugar por outro caminho, e num tempo diferente: a lesão se instala em quem bebe há anos, e o episódio agudo costuma aparecer sobre um pâncreas que já vinha sendo agredido. Isso tem uma consequência prática que aparece no capítulo mais adiante: no paciente que já teve episódios, as enzimas séricas podem subir menos do que a intensidade da doença faria esperar, porque há menos parênquima para liberá-las.

O que transforma uma inflamação de órgão em doença de corpo inteiro é a resposta do hospedeiro. A classificação internacional de 2012 organiza isso em duas fases. A fase precoce, que costuma durar a primeira semana e pode se estender pela segunda, é dominada pelas cascatas de citocinas que se manifestam como síndrome da resposta inflamatória sistêmica; quando essa resposta persiste, cresce o risco de falência de órgão. A fase tardia, que pode se arrastar por semanas ou meses, é dominada pelas complicações locais e pela infecção — e, por definição, só existe em quem teve doença moderadamente grave ou grave.

Duas fases significam duas curvas de mortalidade, e o protocolo brasileiro registra a proporção: cerca de metade dos óbitos ocorre nos primeiros catorze dias, por resposta inflamatória sistêmica secundária à necrose, e a outra metade ocorre tardiamente, por complicações infecciosas da mesma necrose. As duas metades pedem coisas opostas do interno. Na primeira, o inimigo é a hipoperfusão e a falência de órgão, e o antibiótico não tem papel. Na segunda, o inimigo é a infecção, e é dela que o antibiótico trata.

A necrose não aparece na imagem no mesmo dia em que se instala. A classificação de 2012 é explícita: nos primeiros dias pode não ser confiável determinar a extensão da necrose, e é depois da primeira semana que uma área de parênquima que não realça deve ser considerada necrose parenquimatosa. A diretriz de 2019 quantifica o mesmo fenômeno pelo outro lado: a tomografia com contraste tem detecção precoce global de 90 por cento e sensibilidade próxima de 100 por cento a partir do quarto dia. A imagem feita cedo demais não é apenas inútil — ela devolve um resultado tranquilizador que não corresponde ao que está acontecendo.

A classificação de 2012 divide a doença em duas formas morfológicas: a pancreatite edematosa intersticial, em que o parênquima realça de maneira relativamente homogênea e a gordura em volta mostra apenas alterações inflamatórias, e a pancreatite necrosante, em que há necrose do parênquima, do tecido peripancreático ou dos dois. E nomeia quatro coleções, cada uma com um tempo próprio: a coleção líquida peripancreática aguda, que só recebe esse nome nas primeiras quatro semanas e ocorre na forma edematosa; o pseudocisto, encapsulado, que costuma levar mais de quatro semanas para amadurecer; a coleção necrótica aguda, heterogênea, com componente não líquido; e a necrose encapsulada. O nome no laudo carrega o relógio — e o relógio é o que decide se cabe intervenção ou espera.

Falta a peça que explica por que essa paciente parece desidratada com a barriga cheia de líquido. A inflamação retroperitoneal sequestra volume para fora do leito vascular, e o que sobra no compartimento intravascular é sangue mais concentrado. Por isso a diretriz de 2019 manda monitorar hematócrito, ureia, creatinina e lactato como marcadores laboratoriais de volemia e de perfusão tecidual, e registra o hematócrito acima de 44 por cento como fator de risco independente de necrose pancreática. O hematócrito alto na admissão não é policitemia: é a medida do que já saiu do vaso.

Mulher sentada na maca, com tronco inclinado para a frente e antebraços apoiados nas coxas.
A inclinação anterior pode aliviar a dor em algumas pessoas com pancreatite. A postura é uma pista clínica inespecífica e deve ser interpretada com a história, o exame e os critérios diagnósticos. Cena clínica sintética.
05

Como se apresenta de verdade

O que segue é o que se colhe e o que se examina numa suspeita de pancreatite aguda no pronto-socorro. O mapa geral da dor abdominal indiferenciada — quem opera, quem investiga, quem vai para casa — é do capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, e este entra já na suspeita: dor em andar superior do abdome, contínua, com irradiação dorsal, num paciente com fator de risco identificável ou sem nenhum.

A fossa ilíaca direita é do capítulo de apendicite aguda, primeiro desta apostila. A parada de eliminação de gases e fezes com distensão e vômitos fecaloides é da obstrução intestinal, e a dor em fossa ilíaca esquerda no paciente acima dos cinquenta é da diverticulite — as duas ainda não escritas nesta apostila. A inflamação da vesícula em si, com os critérios de Tóquio, é do capítulo de colecistite e colelitíase, também desta apostila e ainda não escrito: aqui a vesícula entra só como causa da pancreatite e como a decisão que a pancreatite obriga a tomar.

A dor que o paciente descreve antes de você perguntar

A dor da pancreatite aguda tem quatro marcas que aparecem juntas com frequência suficiente para valerem uma pergunta cada. É epigástrica ou em andar superior, e o paciente a localiza com a mão aberta, não com um dedo. É contínua desde que começou, sem os picos e vales da cólica. Irradia para o dorso, e muitos pacientes descrevem espontaneamente um movimento de cinta em volta do tronco. E tem posição: piora deitado, melhora sentado inclinado para a frente.

A quarta marca é a que mais se perde no registro. Um paciente que se recusa a deitar na maca e senta de novo assim que você termina o exame não está sendo difícil, e um paciente que chega já naquela posição está lhe entregando um dado. Anote a postura na evolução com as suas palavras, porque na reavaliação de amanhã ela vai ser um dos parâmetros que dizem se está melhorando.

A relação com a refeição vale a pergunta explícita, porque ela orienta a etiologia antes de qualquer exame. Dor que começa algumas horas depois de uma refeição gordurosa, em quem já teve episódios parecidos que passaram sozinhos, empurra a hipótese para o lado biliar. Dor que aparece depois de uma libação, em quem bebe há anos, empurra para o outro lado. Nenhuma das duas fecha nada — mas as duas mudam o que você vai pedir na primeira coleta.

O que não é típico também informa. Dor de início súbito e máximo desde o primeiro segundo, dor que irradia para o ombro, dor que muda de lugar, dor que melhora completamente entre os episódios: nenhuma dessas afasta pancreatite, mas todas devem manter aberta a lista de diagnósticos que matam mais depressa. A síntese disso está no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro.

O vômito que não alivia

Vômito é quase regra na pancreatite aguda, e o detalhe que vale ouvir é o que acontece depois dele. Na gastroenterite e na dispepsia, vomitar costuma aliviar por algum tempo. Na pancreatite, não alivia — e o paciente costuma dizer isso espontaneamente, porque contraria a experiência dele.

Vômito repetido tem duas consequências que a prescrição precisa endereçar na mesma hora. A primeira é perda de volume e de cloreto, somada ao jejum desde a última refeição, num paciente que já está sequestrando líquido para o retroperitônio. A segunda é que ele impede a via oral — e a via oral é o caminho pelo qual a maior parte desses pacientes vai receber analgesia, hidratação e comida nas próximas quarenta e oito horas.

O antiemético entra aqui, e a Rename 2024 impõe uma escolha que vale conhecer antes de precisar dela: a metoclopramida está na lista como solução injetável de 5 mg por mL, no Componente Básico, enquanto a ondansetrona consta apenas como comprimido e comprimido orodispersível de 4 e 8 mg. O antiemético que a diretriz brasileira mais recomendaria para quem não retém nada por via oral é justamente o que a lista nacional não oferece em ampola.

Distensão abdominal com ruídos hidroaéreos diminuídos, num paciente que vomita, é achado esperado na pancreatite: é íleo adinâmico secundário à inflamação retroperitoneal. Não é obstrução mecânica, e a diferença entre as duas se faz pela história, pela eliminação de gases e pela radiografia — assunto do capítulo de obstrução intestinal, ainda não escrito nesta apostila.

O abdome que mostra menos do que dói

O exame abdominal da pancreatite aguda costuma decepcionar quem espera um abdome cirúrgico. Há dor à palpação em andar superior, muitas vezes intensa, e com frequência não há defesa, não há descompressão dolorosa e não há rigidez. A desproporção entre a dor referida e o que a mão encontra é característica, e é exatamente ela que faz o interno duvidar do próprio exame.

Ausência de defesa não afasta pancreatite grave. O pâncreas é retroperitoneal, e a inflamação pode estar destruindo tecido sem irritar o peritônio parietal anterior o suficiente para produzir os sinais que o exame procura. Quem decide gravidade neste capítulo é o comportamento dos órgãos ao longo das horas, não a consistência da parede abdominal na primeira palpação.

O que se examina, então, é o resto. Frequência respiratória contada com relógio, porque taquipneia é o primeiro órgão a falhar e o mais barato de medir. Perfusão periférica e enchimento capilar. Nível de consciência, que entra em escore. Ausculta pulmonar, procurando abolição em base — derrame pleural é achado frequente e pontua. E o abdome inteiro, incluindo as regiões inguinais, porque a suspeita não impede que exista outra coisa junto.

Registre o exame com localização, com horário e com o que você não encontrou. O valor do primeiro exame físico da noite é quase todo comparativo: ele existe para que o exame das seis da manhã signifique alguma coisa.

Os sinais que mudam a sala antes de mudarem o diagnóstico

Quatro achados tiram o paciente da fila de observação e o levam para a sala de emergência, independentemente do que a amilase venha a mostrar: taquipneia mantida, taquicardia que não cede à analgesia e ao volume inicial, oligúria, e qualquer alteração do nível de consciência. Os três primeiros são os três sistemas que a classificação de 2012 avalia para definir falência de órgão — respiratório, cardiovascular e renal. O quarto entra no escore de beira de leito que a diretriz de 2019 recomenda pela simplicidade.

Hipovolemia e inflamação sistêmica estéril podem causar disfunção orgânica na pancreatite. Instabilidade exige atendimento imediato. Sepse pressupõe infecção suspeita ou demonstrada: procure colangite, necrose infectada ou outro foco, sem classificar automaticamente o choque como séptico.

Febre nas primeiras quarenta e oito horas é armadilha de interpretação. A resposta inflamatória sistêmica da fase precoce produz febre sem que haja infecção, e a infecção da necrose, quando ocorre, tem pico entre a segunda e a quarta semana, segundo a diretriz de 2019. Febre no primeiro dia não é indicação de antibiótico; febre no décimo quinto dia, num paciente com necrose, é outra conversa inteiramente.

Icterícia visível muda a urgência da via biliar, e não a da pancreatite. Um paciente ictérico, febril e com dor no hipocôndrio direito tem uma pergunta a mais a responder na mesma noite, e ela aparece no bloco de conduta.

As três perguntas que decidem a causa na primeira noite

Primeira: há cálculo? Investigue a história de dor pós-prandial recorrente, de episódios prévios rotulados como gastrite, de cirurgia biliar prévia, e peça a ultrassonografia de abdome superior nesta internação, hoje se possível. A diretriz de 2019 recomenda ultrassonografia na admissão para determinar a etiologia biliar, com grau 1C, e registra que quase todas as diretrizes do mundo mandam fazê-la na admissão ou nas primeiras quarenta e oito horas.

Segunda: há álcool? A pergunta precisa ser feita de forma que possa ser respondida — quanto, com que frequência, desde quando, e quando foi a última vez. Perguntar se o paciente bebe é convite ao não. Perguntar quantas latas por dia, num tom que não julga, costuma trazer um número. Álcool não é diagnóstico de exclusão nem carimbo: é uma causa que exige exclusão das outras, sobretudo no primeiro episódio.

Terceira: se não é cálculo nem álcool, o que é? A diretriz de 2019 é direta: na ausência de cálculos e de história significativa de uso de álcool, devem ser dosados triglicerídeos e cálcio séricos, e triglicerídeos acima de 1.000 mg por dL, ou 11,3 mmol por L, indicam essa etiologia, com grau 2C. Some a essa lista os medicamentos em uso, o procedimento endoscópico recente sobre a via biliar, o trauma abdominal das últimas semanas e a cirurgia recente.

A resposta a essas três perguntas precisa estar escrita no prontuário antes do fim do seu plantão, com o nome da hipótese e o que a sustenta. Se ela ficar para a enfermaria, duas coisas acontecem com regularidade: a ultrassonografia é pedida no terceiro dia, quando o paciente já melhorou e ninguém tem pressa, e o paciente vai para casa sem que a causa tenha sido tratada — o que é a definição de recidiva programada.

Quem não parece e é

O paciente que chega tarde. Amilase sobe entre 6 e 24 horas do início, tem pico em 48 horas e volta ao normal ou perto disso nos 3 a 7 dias seguintes, segundo a diretriz de 2019; a lipase sobe entre 4 e 8 horas, tem pico em 24 horas e leva de 8 a 14 dias para normalizar. Quem chega no quinto dia de dor pode ter amilase normal e ainda ter pancreatite aguda — e é para esse paciente que existe o terceiro critério diagnóstico, o de imagem.

O paciente com episódios prévios. Em quem já perdeu parênquima, a elevação enzimática pode ficar abaixo de três vezes o limite superior sem que a doença seja mais leve. Enzima pouco elevada não gradua gravidade em nenhum paciente: ela participa do diagnóstico e sai de cena.

O idoso e o diabético com dor vaga. A apresentação pode ser dominada por vômito, mal-estar e confusão, com pouca dor localizada. Nos dois grupos, a primeira medida de gravidade útil não é o abdome: é a frequência respiratória e a diurese das últimas horas.

O paciente que já estava internado. Pancreatite pós-operatória, pós-procedimento endoscópico sobre a via biliar e por medicamento aparecem em quem já está no hospital por outro motivo, e por isso passam despercebidas mais tempo. Dor abdominal alta nova em paciente internado, com vômito e íleo, merece amilase ou lipase antes de ser atribuída à dieta.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar pancreatite aguda no pronto-socorro tem dois objetivos separados, e confundi-los é a origem de quase todo exame desperdiçado nesta doença. O primeiro objetivo é fechar o diagnóstico, e ele se resolve com duas coisas em três. O segundo é descobrir a causa e medir a repercussão, e ele se resolve com um painel pequeno e uma ultrassonografia. Nenhum dos dois exige tomografia na primeira noite.

A interpretação da amilase e da lipase não tem capítulo próprio neste nível, e por isso ela é assumida aqui, com a cinética e os números da diretriz de 2019. O manejo da injúria renal aguda que aparecer é do capítulo de injúria renal aguda; o da hiperglicemia do internado é do capítulo de hiperglicemia hospitalar; e o da hipertrigliceridemia depois da alta é do capítulo de dislipidemias e risco cardiovascular global. Aqui, esses três entram só como achado da primeira noite.

Dois em três, e a consequência que quase ninguém tira

A classificação internacional de 2012 define que o diagnóstico de pancreatite aguda exige dois dos três achados seguintes: dor abdominal compatível, isto é, dor epigástrica intensa, persistente, de início agudo, frequentemente irradiada para o dorso; atividade sérica de lipase ou de amilase pelo menos três vezes acima do limite superior da normalidade; e achados característicos na tomografia com contraste ou, menos comumente, na ressonância ou na ultrassonografia transabdominal.

A consequência prática é a que muda o seu plantão: com dor típica e enzima três vezes acima do limite, o diagnóstico está feito, e o mesmo documento diz que a tomografia não costuma ser necessária no pronto-socorro nem na admissão. Severina tem dor típica e amilase 780 U/L num laboratório cujo limite superior é 100 — sete vírgula oito vezes. O diagnóstico está fechado às 22h30, sem tomógrafo, e a partir daí a pergunta muda de qual é a doença para qual é a causa.

A recíproca também vale, e é ela que salva o paciente que chega tarde. Se a dor sugere fortemente pancreatite e a enzima está abaixo de três vezes, a mesma classificação diz que a imagem é necessária para confirmar o diagnóstico — porque a apresentação tardia derruba a enzima sem derrubar a doença. Esse é o paciente que sai carimbado de gastrite.

E o limiar de três vezes vale para o diagnóstico, não para a gravidade. Nem a amilase nem a lipase graduam a doença, e nenhuma das duas serve para acompanhar a evolução. Repetir amilase todo dia é o exame mais pedido e mais inútil desta doença: o número vai cair sozinho enquanto o paciente piora, porque a curva da enzima é biológica e não clínica.

Amilase ou lipase, e o que fazer quando o plantão só tem uma

As duas enzimas são liberadas ao mesmo tempo e desaparecem em ritmos diferentes, e é a diferença de ritmo que decide qual serve em cada momento. A amilase sobe entre 6 e 24 horas do início, tem pico em 48 horas e retorna ao normal ou perto disso nos 3 a 7 dias seguintes. A lipase sobe entre 4 e 8 horas, tem pico em 24 horas e leva de 8 a 14 dias para normalizar. A janela diagnóstica da lipase é, portanto, o dobro da janela da amilase, e é essa a razão principal de a diretriz de 2019 preferir a lipase.

A outra razão que a diretriz dá é a sensibilidade, e aqui vale ler o número que ela mesma cita. Numa revisão Cochrane, a amilase sérica teve sensibilidade de 72 por cento e especificidade de 93 por cento; a lipase, sensibilidade de 79 por cento e especificidade de 89 por cento. A lipase ganha em sensibilidade por sete pontos e perde em especificidade por quatro. O texto da diretriz cita a sensibilidade maior e a janela maior como razões da preferência, e não menciona que a especificidade anda no sentido contrário — o que não invalida a preferência, mas muda o que você faz com uma lipase isolada e alta.

Porque a lipase alta não é sinônimo de pancreatite. A própria diretriz lista doença renal, apendicite, colecistite aguda, pancreatite crônica e obstrução intestinal entre as causas não pancreáticas de lipase elevada. Uma lipase de duas vezes o limite num paciente com dor em fossa ilíaca direita e defesa não transforma apendicite em pancreatite: transforma o pedido num falso positivo caro.

No hospital de Severina, o plantão dosa amilase e a lipase sai na tarde seguinte. A conduta correta é dosar a amilase agora e, na presença de dor típica com valor três vezes acima do limite, tratar como pancreatite aguda desde já, sem esperar a lipase. A lipase colhida junto tem valor para o dia seguinte, sobretudo se o quadro se complicar e alguém quiser reconstruir o começo. Deixar o paciente sem diagnóstico até a tarde é o oposto do que a régua permite.

A ultrassonografia da primeira noite serve para a vesícula, não para o pâncreas

A diretriz de 2019 recomenda, com grau 1C, que a ultrassonografia seja realizada na admissão para determinar a etiologia biliar, e registra que quase todas as diretrizes de pancreatite do mundo mandam fazê-la na admissão ou nas primeiras 48 horas. O alvo é o que a ultrassonografia faz bem: cálculo dentro da vesícula, espessamento de parede, calibre da via biliar. O pâncreas, coberto por alças cheias de gás num paciente com íleo, costuma ser mal visto — e isso não é falha do exame nem motivo para trocá-lo por tomografia.

Um laudo que diz cálculos na vesícula muda a internação inteira: a partir dele, o paciente tem uma doença que se resolve com uma operação e uma que não. Um laudo que diz vesícula sem cálculos não encerra a investigação biliar, porque microcálculos e barro biliar escapam da ultrassonografia; ele apenas empurra a pergunta para o segundo exame, quando o quadro tiver acalmado.

Quando a etiologia permanece desconhecida, a diretriz de 2019 recomenda colangiorressonância ou ultrassonografia endoscópica para rastrear cálculo oculto no colédoco, com grau 1C, e cita uma casuística de 221 pacientes em que a colangiorressonância teve sensibilidade de 97,98 por cento e especificidade de 84,4 por cento para coledocolitíase, evitando exame invasivo na maioria. Nenhum dos dois existe no hospital desta noite, e os dois são coisas para se pedir com o paciente estável, não às onze da noite.

O que a ultrassonografia da primeira noite não decide é a gravidade. Não existe achado ultrassonográfico que classifique pancreatite aguda, e não é para isso que o exame está sendo pedido.

A tomografia, e o relógio que conta a partir da dor

A diretriz de 2019 é específica: todos os pacientes com pancreatite aguda grave precisam ser avaliados com tomografia com contraste ou ressonância, e o momento ideal da primeira tomografia com contraste é 72 a 96 horas após o início dos sintomas, com grau 1C. Note as duas condições. A primeira é a gravidade — não é todo paciente com pancreatite que precisa de tomografia. A segunda é o relógio, e ele conta a partir do início dos sintomas.

Essa segunda condição não é detalhe. A classificação de 2012 define o início da pancreatite aguda como o momento em que a dor abdominal começou, e não o momento da admissão hospitalar, e pede explicitamente que o intervalo entre um e outro seja anotado. Severina começou a doer à uma da tarde e chegou às nove e quarenta da noite: são quase nove horas de diferença. Uma tomografia marcada para 72 horas depois da admissão seria feita a 81 horas do início da dor; uma marcada para 48 horas depois da admissão, a 57 horas — ainda dentro da janela em que a extensão da necrose não é confiável.

O protocolo brasileiro em uso escreve, na sua rotina de abdome agudo, tomografia em 48 a 72 horas para o paciente classificado como grave, e não diz a partir de quando esse relógio conta. Como a maior parte dos pacientes chega horas depois do começo da dor, a leitura mais provável — 48 horas a partir da admissão — coloca boa parte dos exames antes da janela recomendada pela diretriz internacional. Anotar a hora do início da dor na primeira evolução resolve a ambiguidade dentro do seu serviço, sem depender de nenhuma revisão de protocolo.

Há uma exceção que não é sobre pancreatite: quando o diagnóstico é incerto, a diretriz de 2019 diz que a tomografia deve ser considerada, sobretudo para excluir peritonite por perfuração e isquemia mesentérica. Essa tomografia não está sendo pedida para ver o pâncreas — está sendo pedida para não deixar passar outra catástrofe, e a indicação dela é o abdome que não fecha, não o pâncreas que dói.

A primeira coleta, item por item

Amilase, lipase quando disponível, hemograma completo, glicemia, ureia, creatinina, sódio, potássio, cálcio total, transaminases, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, bilirrubinas totais e frações, desidrogenase láctica, proteína C reativa e gasometria arterial com lactato quando houver qualquer sinal de hipoperfusão. Radiografia de tórax, que serve a dois propósitos: procurar derrame pleural, que é item do escore de beira de leito, e ter uma imagem basal de um paciente que pode desenvolver insuficiência respiratória em 48 horas.

As transaminases, a fosfatase alcalina, a gama-glutamiltransferase e as bilirrubinas não estão nessa lista por hábito: elas são a metade laboratorial da pergunta biliar. Um padrão de colestase com bilirrubina direta elevada, numa paciente com cálculos na vesícula, é o que separa quem precisa da via biliar desobstruída nesta internação de quem só precisa da vesícula retirada.

O hematócrito e a ureia da primeira coleta valem por dois motivos. O primeiro é imediato: a diretriz de 2019 registra o hematócrito acima de 44 por cento como fator de risco independente de necrose pancreática, com grau 1B, e lista o nitrogênio ureico acima de 20 mg por dL, ou em ascensão, entre os achados que caracterizam um episódio grave. O segundo é comparativo: sem o valor de hoje, a queda de hematócrito e a subida de ureia das próximas 48 horas não podem ser medidas, e metade das variáveis do escore de Ranson depende exatamente dessa comparação.

O que não pedir na primeira noite: tomografia para confirmar o diagnóstico que a clínica e a enzima já fecharam; amilase seriada; procalcitonina, que a diretriz de 2019 posiciona como o teste laboratorial mais sensível para detectar infecção pancreática, e portanto uma pergunta da segunda ou terceira semana, não da primeira noite; e punção aspirativa guiada por tomografia, que a mesma diretriz registra como fora do uso de rotina.

Quando não é cálculo nem álcool

Triglicerídeos e cálcio séricos, diz a diretriz de 2019, devem ser dosados na ausência de cálculos e de história significativa de álcool, e triglicerídeos acima de 1.000 mg por dL indicam essa etiologia. O detalhe que muda a coleta é o momento: o valor cai rápido com o jejum e com a hidratação, de modo que uma dosagem colhida no terceiro dia pode voltar normal num paciente cuja pancreatite foi causada por triglicerídeo. A amostra útil é a da primeira coleta.

O tratamento da hipertrigliceridemia depois da alta é do capítulo de dislipidemias e risco cardiovascular global. O que este capítulo assume é a régua federal, porque ela existe e quase ninguém a associa a esta doença: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dislipidemia, aprovado pela Portaria Conjunta nº 8, de 30 de julho de 2019, tem no próprio título a prevenção de pancreatite, atribui à hipertrigliceridemia de 1,3 a 3,8 por cento das pancreatites agudas e inclui para tratamento com fibrato os pacientes sem indicação de estatina e com triglicerídeos acima de 500 mg por dL, objetivando prevenção de pancreatite. O ciprofibrato de 100 mg está na Rename 2024, no Componente Básico, tendo esse mesmo protocolo como documento norteador.

A hipercalcemia tem capítulo próprio — Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências —, e aqui fica só o mínimo que a pancreatite exige: o cálcio total da primeira coleta serve a duas leituras opostas. Alto, levanta a hipótese de hiperparatireoidismo ou de neoplasia como causa do episódio. Baixo, entra como uma das variáveis de 48 horas do escore de Ranson e sinaliza saponificação da gordura peripancreática — o que é consequência, não causa.

Complete a lista com o que é barato perguntar: medicamentos iniciados nas últimas semanas, procedimento endoscópico sobre a via biliar nos últimos dias, trauma abdominal, cirurgia recente, e episódios prévios na família. Um primeiro episódio sem causa identificada é motivo para o segundo exame de imagem depois da fase aguda, e não para alta com o rótulo de idiopática escrito no primeiro dia.

07

Três relógios, e nenhum marca a hora que você precisa agora

Na admissão, avalie função orgânica, registre os achados e acompanhe sua evolução. A duração da falência orgânica define a classificação posterior, enquanto alguns escores só se completam em 48 horas. O fluxo organiza o que precisa ser decidido agora e o que será revisto nas próximas avaliações.

  1. 1Feche o diagnóstico pelo critério de dois em três: dor compatível, enzima três vezes acima do limite superior, imagem característica. Com os dois primeiros, o diagnóstico está feito e a tomografia não é necessária.
  2. 2Meça os três sistemas que definem falência de órgão na régua de 2012 — respiratório, cardiovascular e renal — e registre o valor de cada um com horário. Frequência respiratória contada, pressão arterial, resposta a volume, creatinina, e saturação ou gasometria se houver taquipneia.
  3. 3Aplique o escore de beira de leito da diretriz de 2019, que fecha em minutos: nitrogênio ureico acima de 8,9 mmol por L, alteração do estado mental, síndrome da resposta inflamatória sistêmica presente, idade acima de 60 anos, derrame pleural na radiografia. Um ponto cada.
  4. 4Peça a ultrassonografia de abdome para a etiologia biliar e colhe o painel hepático junto com o resto. Escreva no prontuário a causa provável e o que a sustenta, antes de passar o plantão.
  5. 5Ranson pode ser estudado como ferramenta prognóstica complementar. No atendimento, priorize identificação e tendência da disfunção orgânica; nenhuma coleta futura adia suporte ou transferência.
  6. 6Decida a sala pelo que você mediu, não pelo que o escore previu. Falência de órgão presente, ou taquipneia mantida, ou oligúria, ou alteração de consciência: sala de emergência ou terapia intensiva, com a régua de 2012 dizendo que pacientes com falência de órgão devem ser internados em unidade de terapia intensiva sempre que possível.
  7. 7Marque a reavaliação com hora escrita e diga o que será medido nela. É a comparação entre duas medidas que classifica o paciente — a segunda medida isolada não classifica nada.

As três classes da revisão de 2012 e o que o protocolo brasileiro em uso põe no lugar

CategoriaRevisão internacional de 2012Protocolo brasileiro PRT.UCG.002, de 2021
LeveSem falência de órgão e sem complicação local ou sistêmica; costuma resolver na primeira semanaChamada de branda; melhora com reposição de líquidos e eletrólitos e pode ser tratada em enfermaria de medicina interna
Moderadamente graveFalência de órgão transitória, com duração menor que 48 horas, ou complicação local ou sistêmica sem falência persistenteCategoria ausente: a classificação é binária, e este paciente cai em grave
GraveFalência de órgão persistente, com duração maior que 48 horas, em um ou mais órgãos, medida pelo escore de Marshall modificadoChoque com sistólica abaixo de 90 mmHg, pO2 abaixo de 60 mmHg, creatinina acima de 2 mg/dL ou hemorragia digestiva acima de 500 mL em 24 horas
Definição de falência de órgãoEscore igual ou maior que 2 em respiratório, cardiovascular ou renal, pelo Marshall modificado, aplicável na admissão e repetível todo diaValores de corte fixos, sem escore e sem a distinção entre falência transitória e persistente
Complicações locaisColeção líquida peripancreática aguda, pseudocisto, coleção necrótica aguda e necrose encapsuladaNecrose, abscesso e pseudocisto
Fatores prognósticosNão fazem parte da definição de gravidadeTrês ou mais critérios de Ranson, ou escore APACHE II acima de 8, listados dentro da própria tabela de gravidade

As onze variáveis de Ranson como o protocolo brasileiro as imprime, e quando cada uma existe

VariávelMomentoO que o laudo brasileiro entrega
Idade acima de 55 anosAdmissãoFicha de identificação
Leucometria acima de 16.000 por mLAdmissãoHemograma em células por mm³; a unidade impressa no protocolo é mil vezes menor que a do laudo
Glicose acima de 200 mg/dLAdmissãoGlicemia, em mg/dL
Desidrogenase láctica acima de 350 UI/LAdmissãoEm U/L; com frequência não sai no plantão noturno
Aspartato aminotransferase acima de 250 U/dLAdmissãoEm U/L; a unidade impressa no protocolo é dez vezes maior que a do laudo
Queda do hematócrito acima de 10 por centoPrimeiras 48 horasExige a segunda coleta e o valor da primeira
Aumento do nitrogênio ureico acima de 5 mg/dLPrimeiras 48 horasO laudo imprime ureia; 5 mg/dL de nitrogênio ureico equivalem a 10,7 mg/dL de ureia
Cálcio sérico abaixo de 8 mg/dLPrimeiras 48 horasCálcio total, em mg/dL
Pressão parcial de oxigênio abaixo de 60 mmHgPrimeiras 48 horasGasometria arterial
Déficit de base acima de 4 mEq/LPrimeiras 48 horasGasometria arterial
Sequestro líquido estimado de 6.000 mLPrimeiras 48 horasBalanço hídrico acumulado, se ele tiver sido anotado hora a hora

Tabela de conversão: o número que o documento escreve e o número que o laudo imprime

No documentoA contaNo laudo brasileiro
Nitrogênio ureico acima de 20 mg/dL, preditor independente de mortalidade20 × 2,14Ureia acima de 42,9 mg/dL
Nitrogênio ureico acima de 8,9 mmol/L, item do escore de beira de leito8,9 × 6,006 para ureia; 8,9 × 2,80 para nitrogênio ureicoUreia acima de 53,5 mg/dL, equivalente a nitrogênio ureico de 24,9 mg/dL
Aumento do nitrogênio ureico acima de 5 mg/dL em 48 horas5 × 2,14Aumento da ureia acima de 10,7 mg/dL
Triglicerídeos acima de 11,3 mmol/L11,3 × 88,6Triglicerídeos acima de 1.000 mg/dL
Proteína C reativa igual ou acima de 150 mg/L no terceiro dia150 ÷ 1015 mg/dL, quando o laudo vem em mg/dL
Creatinina de 170 a 310 µmol/L, escore 2 do Marshall modificado÷ 88,41,92 a 3,51 mg/dL; a linha em mg/dL da mesma tabela diz 1,9 a 3,6
Leucometria acima de 16.000 por mL× 1.00016.000 por mm³
Aspartato aminotransferase acima de 250 U/dL× 102.500 U/L pela leitura literal da unidade impressa

O que a Rename 2024 fornece para esta noite, e a conta numa adulta de 78 quilos

ItemApresentação na Rename 2024A conta
Solução de Ringer com lactatoLactato de sódio 3 mg/mL, cloreto de sódio 6 mg/mL, cloreto de potássio 0,3 mg/mL e cloreto de cálcio 0,2 mg/mL, solução injetável, Componente BásicoA 1,5 mL/kg/h são 117 mL/h, uma bolsa de 500 mL a cada 4 h 16 min; a 3 mL/kg/h são 234 mL/h, uma bolsa a cada 2 h 8 min; a 5 mL/kg/h são 390 mL/h, uma bolsa a cada 1 h 17 min
Cloreto de sódio 0,9 por cento9 mg/mL, equivalente a 0,154 mEq/mL, solução injetável, Componente BásicoBolus de 10 mL/kg são 780 mL; de 20 mL/kg, 1.560 mL
Dipirona500 mg/mL solução injetável; 500 mg comprimido; 500 mg/mL solução oral, Componente Básico1 g são 2 mL, uma ampola de 2 mL
Sulfato de morfina10 mg/mL solução injetável; solução oral de 10 mg/mL; comprimidos de 10 e 30 mg, Componente Especializado, norteado pelo protocolo da dor crônicaUma ampola de 1 mL diluída até 10 mL dá 1 mg/mL; 2 mg são 2 mL dessa diluição
Metoclopramida5 mg/mL solução injetável; 10 mg comprimido; 4 mg/mL solução oral, Componente Básico10 mg são 2 mL, uma ampola de 2 mL
OndansetronaComprimido e comprimido orodispersível de 4 e 8 mg, Componente BásicoSem apresentação injetável no elenco nacional
CeftriaxonaPó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, Componente Básico, classificação AWaRe de alerta2 g por dia são dois frascos de 1 g
MetronidazolComprimidos de 250 e 400 mg, Componente Básico, classificação AWaRe de acessoSem apresentação injetável sistêmica no elenco nacional
CiprofloxacinoComprimidos de 250 e 500 mg, Componente Básico, classificação AWaRe de alertaSem apresentação injetável no elenco nacional
TramadolFora do elenco nacionalO degrau intermediário de analgesia não tem apresentação na Rename 2024
Meropenem, imipenem e piperacilina com tazobactamFora do elenco nacionalSão a classe que a diretriz aponta como de penetração adequada na necrose pancreática
Fórmula para nutrição enteralFora do elenco nacionalA via que a diretriz recomenda com grau 1A não tem produto no elenco
Acetato de octreotida0,1 mg/mL solução injetável e pó para suspensão injetável de 10 mg, Componente Especializado, norteado pelo protocolo da acromegaliaExiste no elenco por outra indicação; não tem papel no tratamento da pancreatite aguda
CiprofibratoComprimido de 100 mg, Componente Básico, norteado pelo protocolo da dislipidemiaÉ a linha do elenco que trata da prevenção de pancreatite por hipertrigliceridemia

Classificação da gravidade. Diferencie falência orgânica transitória de persistente e identifique a edição da classificação utilizada. O termo “abscesso pancreático” pertence à nomenclatura anterior; interpretar uma tabela antiga como se fosse a classificação revisada mistura categorias diferentes.

Ranson na admissão. Cinco variáveis são iniciais e seis dependem das primeiras 48 horas. Queda do hematócrito e aumento do nitrogênio ureico exigem comparação com a primeira coleta. Portanto, um escore parcial não encerra a avaliação de gravidade e não substitui a avaliação imediata de função orgânica.

Ureia e nitrogênio ureico. Não são o mesmo número. O fator de conversão é 2,14: nitrogênio ureico de 20 mg/dL corresponde a ureia de aproximadamente 42,9 mg/dL. No exemplo do capítulo, ureia de 58 mg/dL corresponde a nitrogênio ureico de 27,1 mg/dL. Confira o analito e a unidade antes de aplicar um limiar.

Unidades de Ranson. A contagem de leucócitos do hemograma é habitualmente apresentada por mm³ ou µL, e a AST, em U/L. As transcrições citadas contêm diferenças de unidade; não copie o número sem conferir como ele está expresso no exame do paciente.

Limites de faixa no Marshall modificado. As tabelas citadas apresentam sobreposição ou lacuna em valores de fronteira, como creatinina de 3,6 mg/dL e pressão sistólica de 90 mmHg. A conversão entre mg/dL e µmol/L também pode deslocar valores arredondados entre faixas. Registre a unidade e a tabela usada, interpretando o resultado junto da avaliação clínica.

Índice tomográfico. Não misture pontos de versões diferentes. Os documentos citados usam cortes distintos para a extensão da necrose e agrupam de modo diferente as faixas de desfecho. Identifique a referência do índice antes de comparar pontuações ou comunicar prognóstico.

Diagnóstico. Os critérios de entrada de um protocolo local não substituem os critérios diagnósticos da doença. Uma pequena elevação enzimática isolada não confirma pancreatite; enzimas normalizadas em apresentação tardia não a excluem quando os demais critérios são atendidos.

Leitura da mortalidade. Percentuais provenientes de grupos, períodos e classificações diferentes não devem ser somados nem convertidos em previsão individual. Relacione o prognóstico à gravidade e à evolução do paciente, sem usar uma média global para descrever todos os casos.

Conversões de referência. Triglicerídeos de 11,3 mmol/L correspondem a aproximadamente 1.000 mg/dL. Nitrogênio ureico de 8,9 mmol/L corresponde a aproximadamente 24,9 mg/dL. Essas equivalências ajudam a reconhecer o limiar quando a fonte e o laboratório usam unidades diferentes.

Pesquisas de prática clínica. Em questionários, o denominador pode variar entre perguntas porque nem todos respondem a todos os itens. Ao interpretar percentuais de uso de antibiótico ou de indicação cirúrgica, confira quantos participantes responderam àquela pergunta; frequência de uma prática não equivale a recomendação.

08

A conduta, hora a hora

Pancreatite pode causar hipovolemia e inflamação sistêmica estéril com disfunção orgânica. Instabilidade exige atendimento imediato, monitorização e suporte intensivo conforme necessidade, sem aguardar 48 horas. Sepse pressupõe infecção suspeita ou demonstrada; procure colangite, necrose infectada ou outro foco sem presumir que todo choque seja séptico. A reposição deve ser guiada pela resposta e pelos sinais de congestão, com a equipe responsável à beira do leito.

As apresentações e concentrações abaixo são as da Rename 2024. A diretriz de 2019 registra que não há evidência nem recomendação de restrição de analgésico na pancreatite aguda e não fixa dose de nenhum fármaco; as doses aqui são as usuais do adulto e não estão sendo atribuídas a ela. As decisões que têm grau de recomendação — antibiótico, nutrição, momento da colangiopancreatografia retrógrada endoscópica e da colecistectomia, momento da intervenção sobre a necrose — vêm dela, com o grau anotado.

  1. Hora 0 a 1 — a sala, o acesso e o primeiro volume

    Avalie perfusão, respiração, consciência e diurese desde a chegada. A ACG 2024 sugere hidratação moderadamente agressiva e preferência por Ringer com lactato, com cautela na cardiopatia e na doença renal. Bólus é dirigido à hipovolemia, não administrado automaticamente a todos. Reavalie em poucas horas e após cada intervenção: pressão, pulso, enchimento capilar, diurese, ureia/hematócrito, ausculta, oxigenação e balanço. Reduza ou interrompa a expansão diante de sobrecarga e reconsidere a causa da instabilidade.

    Prescrição
    • Acesso venoso periférico calibroso, dois se houver hipotensão ou vômito incoercível
    • Ringer com lactato IV preferencialmente, com taxa individualizada e registrada. Na hipovolemia, discutir bólus com o supervisor e reavaliar imediatamente; sem hipovolemia, evitar expansão automática. Ajustar à resposta e ao risco de sobrecarga.
    • Diurese medida de hora em hora, com sonda vesical apenas se não houver outro jeito de medir
    • Oxigênio suplementar para manter saturação adequada, com o valor alvo escrito
    • Monitorização contínua e gasometria arterial com lactato se houver taquipneia, hipotensão ou alteração de consciência
  2. Hora 0 a 1 — a dor, sem o mito que ainda circula

    A dor é o sintoma cardinal e o alívio dela é prioridade clínica: a diretriz de 2019 diz que todos os pacientes com pancreatite aguda devem receber alguma forma de analgesia nas primeiras 24 horas de internação, para não comprometer a qualidade de vida do paciente. Diz também, com todas as letras, que não há evidência nem recomendação de restrição de medicação analgésica — o que sepulta a ideia de que opioide estaria contraindicado por espasmo do esfíncter da via biliar. As duas ressalvas que ela faz são outras: anti-inflamatório não hormonal deve ser evitado na injúria renal aguda, e a analgesia peridural pode ser considerada em quem precisa de doses altas de opioide por período prolongado.

    Prescrição
    • Dipirona 1 g intravenosa, diluída e lenta — 2 mL da solução injetável de 500 mg/mL
    • Opioide titulado por via intravenosa quando a dipirona não bastar: morfina, uma ampola de 10 mg/mL diluída até 10 mL, administrada em incrementos com reavaliação a cada 5 a 10 minutos
    • Anti-inflamatório não hormonal evitado enquanto houver desidratação, oligúria ou creatinina alterada
    • Metoclopramida 10 mg intravenosa — 2 mL da solução de 5 mg/mL — para o vômito que impede a via oral
    • Prescrição de horário fixo mais dose de resgate, com a dor registrada por escala numérica antes e depois
  3. Hora 1 a 3 — a coleta que só existe se for feita agora

    Obtenha dados basais para acompanhar perfusão, função renal, eletrólitos e etiologia. A tendência de ureia e hematócrito ajuda a reavaliar o suporte, mas nenhum número isolado determina volume. Ranson é instrumento complementar e retrospectivo; não deve organizar sozinho as coletas ou atrasar cuidados. Priorize lipase quando disponível e interprete enzimas com a clínica; não é necessário repetir amilase e lipase para decidir alimentação ou alta.

    Prescrição
    • Hemograma, glicemia, ureia, creatinina, sódio, potássio e cálcio total
    • Transaminases, fosfatase alcalina, gama-glutamiltransferase, bilirrubinas totais e frações, desidrogenase láctica
    • Amilase agora; lipase colhida junto ainda que o resultado só saia amanhã
    • Triglicerídeos e cálcio na primeira amostra quando não houver cálculo nem história significativa de álcool
    • Radiografia de tórax conforme sintomas respiratórios ou dúvida clínica; não expor todo paciente à radiação apenas para completar um escore.
    • Gasometria arterial com lactato apenas se houver sinal de hipoperfusão
  4. Hora 2 a 8 — a causa escrita no prontuário antes de passar o plantão

    A ultrassonografia de abdome na admissão é recomendação 1C da diretriz de 2019, e o alvo dela é a etiologia biliar. Combine o resultado da imagem com o painel hepático e escreva no prontuário a causa provável e o que a sustenta, porque essa frase é a que vai governar as próximas 48 horas. Se a vesícula tem cálculos, o paciente tem duas doenças: a pancreatite, que se resolve com suporte, e a litíase, que se resolve com uma operação — e a segunda tem prazo. Se não tem cálculos e não há álcool, a causa continua em aberto e a investigação segue.

    Prescrição
    • Ultrassonografia de abdome superior nesta internação, chamando o plantonista de sobreaviso quando houver icterícia, febre ou dor no hipocôndrio direito
    • Registro da etiologia provável na evolução, com o achado que a sustenta
    • Registro do horário de início da dor, e não apenas do horário da admissão — é dele que conta o relógio da imagem
    • Colangiorressonância ou ultrassonografia endoscópica programadas, e não pedidas de madrugada, quando a etiologia permanecer desconhecida
  5. Hora 3 a 24 — a via biliar, quando ela não pode esperar

    Aqui está a única decisão urgente sobre a via biliar, e ela é estreita. A diretriz de 2019 tem quatro recomendações sobre colangiopancreatografia retrógrada endoscópica de urgência na pancreatite biliar, e três delas são para não fazer. O procedimento de rotina não é indicado, com grau 1A. É indicado quando há colangite associada, com grau 1B, e quando há obstrução da via biliar principal, com grau 2B. E não pode ser recomendado, no estado atual da evidência, no paciente com pancreatite biliar grave prevista, sem colangite e sem obstrução, com grau 2B. Gravidade prevista não é indicação de desobstruir.

    Prescrição
    • Suspeita de colangite exige antibiótico e organização de CPRE precoce, em geral dentro de 24 horas na pancreatite associada, com maior urgência na instabilidade. A tríade de dor, febre e icterícia não precisa estar completa.
    • Obstrução da via biliar documentada, com bilirrubina direta em ascensão e via dilatada na ultrassonografia, é indicação de drenagem, com prazo de horas e não de dias
    • Bilirrubina que cai e via biliar de calibre normal, sem febre: o procedimento não está indicado, e insistir nele acrescenta o risco do próprio exame
    • Antibiótico quando houver infecção suspeita ou confirmada, como colangite, necrose infectada ou outro foco; não usar profilaxia para pancreatite ou necrose estéril.
  6. Hora 6 a 48 — o que entra e o que não entra na prescrição

    Este é o marco em que se erra por excesso. A diretriz de 2019 recomenda nutrição enteral para prevenir falência intestinal e complicações infecciosas, diz que a nutrição parenteral total deve ser evitada e que tanto a via gástrica quanto a jejunal são seguras, com grau 1A. Registra ainda o ensaio multicêntrico que comparou sonda nasoentérica precoce, nas primeiras 24 horas, com dieta oral iniciada 72 horas depois da chegada em pancreatite necrosante: a alimentação nasoentérica precoce não reduziu infecção nem óbito, e no grupo de dieta oral 69 por cento dos pacientes toleraram a via oral. Sobre antibiótico, a recomendação é 1A e é negativa — o antibiótico profilático de rotina não é mais recomendado para todos os pacientes com pancreatite aguda.

    Prescrição
    • Dieta por via oral assim que a dor estiver controlada e o vômito tiver cedido, sem esperar a amilase normalizar
    • Sonda enteral quando a via oral não for tolerada; nutrição parenteral apenas como complemento, se a via enteral não atingir a meta
    • Sem antibiótico profilático na necrose estéril, e sem antibiótico por febre isolada nas primeiras 48 horas
    • Sem octreotida, sem inibidor de protease e sem antissecretor com finalidade de tratar a pancreatite
    • Profilaxia de tromboembolismo venoso conforme o capítulo das três profilaxias da prescrição, salvo contraindicação
    • Balanço hídrico fechado a cada 6 horas, com entradas e saídas somadas e o número escrito
  7. Hora 48 a 96 — a classe que se define e a imagem, se ela for necessária

    A gravidade é acompanhada desde a admissão. Falência orgânica transitória, resolvida até 48 horas, integra a forma moderadamente grave; persistência por mais de 48 horas define a forma grave. Isso classifica o curso, não cria uma espera para tratar. TC contrastada é indicada quando há dúvida diagnóstica, piora ou ausência de melhora esperada; para caracterizar necrose, o rendimento aumenta após cerca de 72 horas do início. Suspeita de outro abdome cirúrgico pode exigir imagem antes. Quem melhora clinicamente não precisa de TC apenas pelo calendário.

    Prescrição
    • Segunda coleta com hemograma, ureia, creatinina, cálcio, gasometria e proteína C reativa
    • Registrar função orgânica e sua duração; usar escore prognóstico como apoio, sem exigir Ranson completo para decidir monitorização ou terapia intensiva.
    • Tomografia com contraste entre 72 e 96 horas do início da dor, apenas na doença grave ou quando o curso não corresponder ao esperado
    • Função renal conferida antes do contraste, com o manejo da injúria renal aguda conforme o capítulo próprio
  8. Antes da alta — a operação que impede o próximo episódio

    Na pancreatite biliar leve, a colecistectomia laparoscópica na internação-índice é recomendação 1A da diretriz de 2019, e a discussão do mesmo documento acrescenta que ela pode ser feita já no segundo dia de internação desde que o paciente esteja melhorando clinicamente, e que a colangiografia intraoperatória de rotina parece desnecessária quando a bilirrubina está normalizando. Quando houve procedimento endoscópico com papilotomia nesta internação, o risco de nova pancreatite cai, mas a colecistectomia na mesma internação continua aconselhada, com grau 1B, porque persiste o risco de outras complicações biliares. E quando há coleções líquidas peripancreáticas, a operação deve ser adiada até que as coleções se resolvam ou se estabilizem e a inflamação aguda cesse, com grau 2C.

    Prescrição
    • Pancreatite biliar leve: colecistectomia programada nesta internação, com o pedido feito e a data anotada antes da alta
    • Pancreatite biliar com coleções peripancreáticas: colecistectomia adiada, com a razão do adiamento escrita e o retorno marcado
    • Alta sem vesícula retirada e sem data de cirurgia é alta com recidiva programada — se o serviço não opera, a transferência ou o encaminhamento com vaga precisa constar do relatório
    • Causa alcoólica: terapia de suporte e interrupção do uso, com encaminhamento escrito e não apenas verbal
    • Triglicerídeos acima de 500 mg/dL: encaminhamento para o tratamento previsto no protocolo federal da dislipidemia, que tem a prevenção de pancreatite no próprio título
    • Relatório de alta com a etiologia, os quatro sinais de retorno imediato e a data do retorno, conforme o capítulo de alta hospitalar
09

Como saber se está funcionando

A régua internacional classifica a gravidade da pancreatite aguda pela duração da falência de órgão, e duração só se mede repetindo a medida. Isso transforma a reavaliação de tarefa administrativa em instrumento diagnóstico: os parâmetros abaixo não são para acompanhar, são para classificar. Cada um deles tem um horário de conferência e um número que você escreve; a comparação entre dois horários é o que decide se este paciente é o de cada cinco que fica.

Amilase e lipase não estão na lista, de propósito. As duas fazem parte do diagnóstico e saem de cena; a curva delas cai por biologia própria e não acompanha o paciente. Repetir enzima pancreática todo dia produz um número que desce enquanto o doente piora, e é assim que se produz falsa tranquilidade.

Diurese, em mL por horaDe hora em hora nas primeiras 12 horas, depois a cada 4 horas

Esperado: Recuperação progressiva no paciente que estava seco, com o volume horário subindo à medida que o cristaloide corre

Se não melhora: Oligúria mantida apesar do volume é o parâmetro mais precoce e mais barato de falência renal iminente. Recheque perfusão, colha creatinina, e leve o caso para a sala de emergência antes de esperar a creatinina do dia seguinte.

Frequência respiratória, contada com relógioA cada 4 horas, e sempre que a enfermagem chamar

Esperado: Queda junto com o controle da dor; taquipneia só por dor deve ceder quando a dor cede

Se não melhora: Taquipneia que persiste com a dor controlada é o sistema respiratório falhando, e é o primeiro dos três da régua de 2012 a dar sinal. Peça gasometria, calcule a relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada, e reveja se o volume infundido não virou sobrecarga.

Pressão arterial e resposta a volumeA cada 2 horas nas primeiras 12, depois a cada 6

Esperado: Sistólica que sobe e se mantém depois do volume inicial, com frequência cardíaca caindo

Se não melhora: Reavalie imediatamente com a equipe responsável, ajuste a reposição pela resposta e pelos sinais de congestão e providencie suporte intensivo conforme a necessidade. Investigue infecção sem presumir que todo choque seja séptico; não aguarde 48 horas para agir.

Nível de consciênciaA cada passagem da enfermagem e em toda reavaliação médica

Esperado: Paciente orientado, com sonolência atribuível ao opioide e reversível ao estímulo

Se não melhora: Alteração do estado mental é item do escore de beira de leito que a diretriz de 2019 recomenda. Confusão nova pede glicemia, gasometria e sódio na mesma hora, e não pode ser atribuída à morfina sem que as três voltem normais.

HematócritoNa admissão, em 24 horas e em 48 horas

Esperado: Queda gradual a partir do valor de admissão, refletindo reposição adequada do que estava sequestrado

Se não melhora: Ureia e hematócrito elevados ou ascendentes podem sugerir hipovolemia, mas precisam ser integrados à perfusão, diurese e congestão. Queda do hematócrito pode refletir hemodiluição ou sangramento. Não aumentar líquidos para corrigir um valor isolado; reavaliar resposta e segurança com o supervisor.

Ureia e creatininaNa admissão, em 24 horas e em 48 horas

Esperado: Ureia estável ou em queda com a hidratação; creatinina estável

Se não melhora: Ureia em ascensão é um dos achados que a diretriz de 2019 lista para caracterizar episódio grave. Traduza para o laudo antes de decidir: um aumento de 5 mg/dL de nitrogênio ureico corresponde a um aumento de 10,7 mg/dL de ureia. Creatinina que sobe cruza a régua de falência de órgão e muda a classe do paciente.

Dor e tolerância à dietaAntes e depois de cada dose de analgésico, e a cada oferta de dieta

Esperado: Dor caindo na escala numérica com dose fixa, e primeira oferta de dieta oral tolerada quando o vômito cessou

Se não melhora: Dor que volta ao patamar inicial depois de 48 horas de controle, ou intolerância nova à dieta em quem já comia, é sinal de complicação local se instalando e é uma das poucas indicações de reavaliação por imagem fora da janela programada.

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Onde o erro machuca

Pedir tomografia na primeira noite para confirmar o diagnóstico

O dano: Contraste e radiação num paciente que já tinha o diagnóstico fechado por dois critérios em três, num momento em que a tomografia ainda não mostra necrose. O laudo tranquilizador de uma tomografia feita às 12 horas do início da dor produz a decisão errada duas vezes: agora, porque dispensa vigilância; e depois, porque ninguém repete um exame que já foi feito.

Como pegar a tempo: Diagnóstico por dor típica mais enzima três vezes acima do limite. Tomografia com contraste entre 72 e 96 horas do início dos sintomas, e apenas na doença grave — ou de imediato, quando a dúvida for outra catástrofe abdominal, e não o pâncreas.

Prescrever antibiótico profilático porque o paciente parece grave

O dano: A recomendação da diretriz de 2019 contra o antibiótico profilático de rotina é grau 1A, o mais forte que existe naquele documento. O antibiótico não reduz mortalidade nem morbidade nessa situação, seleciona resistência num paciente que talvez precise de antibiótico de verdade na terceira semana, e mascara a febre que teria valor diagnóstico depois.

Como pegar a tempo: Não prescrever antibiótico para prevenir infecção de necrose estéril. Necrose infectada e colangite são indicações importantes, mas outras infecções concomitantes também devem ser tratadas. Febre precoce pode decorrer de inflamação estéril; não prova infecção nem a exclui. Avaliar foco e evolução, em vez de decidir só pelo dia da doença.

Manter dieta zero até a amilase normalizar

O dano: Jejum prolongado sem indicação, com atrofia da barreira intestinal justamente na doença em que a translocação bacteriana semeia a necrose. A enzima leva de 3 a 7 dias, no caso da amilase, e de 8 a 14 dias, no caso da lipase, para normalizar — prazos biológicos que não têm relação nenhuma com a capacidade de comer.

Como pegar a tempo: Ofereça dieta oral quando a dor estiver controlada e o vômito tiver cedido. A diretriz de 2019 registra que, no braço de dieta oral iniciada em 72 horas de um ensaio em pancreatite necrosante, 69 por cento dos pacientes toleraram a via oral. Nutrição enteral é recomendação 1A; nutrição parenteral total deve ser evitada.

Repetir amilase e lipase todo dia para acompanhar

O dano: Produz uma curva descendente que não corresponde ao estado do paciente e que é lida como melhora. Um paciente com necrose em formação tem amilase caindo no terceiro dia, porque a curva da enzima é a curva da liberação, não a da doença.

Como pegar a tempo: Enzima pancreática entra uma vez, no diagnóstico. O que se repete é hematócrito, ureia, creatinina, cálcio, gasometria, proteína C reativa e, acima de tudo, os três sistemas de órgão da régua de 2012.

Dar alta na pancreatite biliar leve sem definir a vesícula

O dano: Recidiva programada. O paciente melhora em uma semana, sai com orientação de dieta e volta com o episódio seguinte, que pode ser o grave. A colecistectomia na internação-índice é recomendação 1A da diretriz de 2019 na pancreatite biliar leve, e continua aconselhada, com grau 1B, mesmo quando houve papilotomia endoscópica nesta internação.

Como pegar a tempo: Antes de escrever a alta, responda por escrito: a vesícula sai nesta internação? Se não sai, por qual razão — coleção peripancreática, condição clínica, ausência de vaga cirúrgica — e com que data marcada. A razão e a data vão no relatório de alta.

Fechar a causa como alcoólica sem ter feito a ultrassonografia

O dano: Um paciente que bebe também pode ter cálculo, e a proporção de pancreatite biliar não cai porque a história tem álcool. Rotular o episódio pela história e pular a imagem faz o paciente perder a única intervenção que impede a recorrência, e o rótulo colado no primeiro dia raramente é revisto depois.

Como pegar a tempo: Ultrassonografia na admissão para todos, com grau 1C, inclusive em quem bebe. Álcool é causa de exclusão parcial: exige que a via biliar tenha sido olhada e que triglicerídeos e cálcio tenham sido dosados quando não há cálculo.

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O que dizer ao paciente e à família

Três conversas se repetem nesta doença, e as três acontecem no seu turno: explicar um diagnóstico cujo nome assusta mais do que o prognóstico, explicar por que um exame que a família espera não vai ser feito hoje, e perguntar sobre álcool de um jeito que possa ser respondido. As falas abaixo são as que funcionam nas três, e o que evitar em cada uma.

Vale uma regra que atravessa todas: nomear o prazo. Pancreatite aguda é uma doença cujo desfecho se define em dias, e a família que sabe que a próxima resposta vem em 48 horas espera melhor do que a família que ouve que está tudo sob controle.

Contando o diagnóstico a uma paciente que chegou achando que era gastrite

A senhora tem uma inflamação do pâncreas. É uma doença séria, e é também a mais comum das doenças sérias do abdome que se resolvem sem operação: quatro em cada cinco pacientes melhoram em uma semana com soro, remédio para dor e comida quando o estômago aceitar. Os próximos dois dias é que dizem em qual dos dois grupos a senhora está, e é por isso que eu vou vir aqui várias vezes medir as mesmas coisas.

Não diga: Dizer que é uma inflamaçãozinha, e dizer que vai ficar tudo bem. As duas frases se pagam caro se o paciente for o quinto.

Explicando por que a tomografia não vai ser feita hoje

A tomografia hoje me daria uma imagem que ainda não mostra o que eu preciso ver. O pâncreas leva uns três dias para mostrar na imagem o que está acontecendo com ele. Se eu fizer agora e vier normal, isso não me tranquiliza, e eu ia ter de repetir. O que decide o tratamento nas próximas horas é a pressão, a respiração e o xixi da senhora, e essas três coisas eu meço aqui do lado da cama.

Não diga: Dizer que o tomógrafo está ocupado ou que o convênio não autorizou, quando a razão é clínica. A razão clínica é melhor, é verdadeira e ensina a família a entender a espera.

Respondendo ao filho que quer saber por que não tem antibiótico na prescrição

Nesta fase, a febre da sua mãe é da inflamação, não de infecção. Antibiótico agora não diminui o risco de nada e atrapalha depois: se ela vier a precisar de antibiótico daqui a duas ou três semanas, é melhor que as bactérias dela não tenham convivido com um antibiótico à toa. Se aparecer infecção, e existe esse risco, o antibiótico entra na hora, e a gente vai estar olhando para isso todo dia.

Não diga: Ceder e prescrever para acalmar a família. O pedido é legítimo e a resposta é a explicação, não a receita.

Perguntando sobre álcool a um paciente no terceiro episódio

Eu preciso entender uma coisa para tratar o senhor direito, e não é para julgar: quantas doses o senhor toma num dia comum, e quando foi a última? Pergunto porque, se for isso, o tratamento inclui uma coisa que remédio nenhum resolve, e eu preciso saber com o que estou lidando para não mandar o senhor embora com a metade do problema.

Não diga: Perguntar se bebe, que é convite ao não; e perguntar diante de familiares sem antes ter perguntado a sós.

Dizendo à paciente que a vesícula vai precisar sair nesta internação

O que causou isso foi uma pedra da vesícula que desceu e entupiu por alguns minutos a saída do pâncreas. A pedra passou, mas a vesícula continua fabricando pedra. Se a senhora for para casa com ela, existe uma chance real de voltar com o mesmo quadro, e da próxima vez pode ser pior. Por isso a operação é para esta internação, não é para daqui a três meses.

Não diga: Deixar a operação como uma sugestão a ser conversada no ambulatório. A internação-índice é a recomendação, e a alta sem data é a recidiva marcada.

Comunicando à família que a paciente piorou e vai para a terapia intensiva

A dona Severina piorou nas últimas horas: a respiração dela está mais rápida e ela está urinando menos, e isso significa que o organismo está sofrendo além do pâncreas. Ela vai para a terapia intensiva, onde é possível medir e corrigir essas coisas de hora em hora. Não é uma decisão de fim de linha — é o lugar certo para as próximas 48 horas, que são as que vão dizer para onde isso vai.

Não diga: Anunciar a terapia intensiva sem dizer o que mudou e sem dar o prazo. A palavra sozinha soa como sentença.

Dando alta com os sinais de retorno

A senhora vai para casa, e eu preciso que a senhora decore quatro coisas que trazem de volta na hora, sem esperar o retorno: dor forte de novo, febre, vômito que não para e a pele ou o olho ficarem amarelos. A cirurgia da vesícula está marcada para o dia que está escrito aqui, e essa data faz parte do tratamento — não é opcional.

Não diga: Entregar o relatório sem ler em voz alta. O que não foi dito e repetido não foi combinado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Antibiótico profilático na pancreatite aguda grave com necrose estéril

A diretriz internacional de urgência, 2019

Evidências recentes mostraram que o antibiótico profilático em pacientes com pancreatite aguda não se associa a redução significativa de mortalidade ou morbidade; por isso o antibiótico profilático de rotina não é mais recomendado para todos os pacientes com pancreatite aguda. A recomendação recebe grau 1A. O antibiótico fica reservado para tratar a pancreatite aguda grave infectada, cujo diagnóstico o próprio documento reconhece como difícil.

2019 WSES guidelines for the management of severe acute pancreatitis, World Journal of Emergency Surgery 2019;14:27, declaração sobre antibiótico profilático

A prática declarada pelos cirurgiões brasileiros, 2008

Na pesquisa nacional enviada aos membros do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 371 de 541 respondentes que responderam a esse item, ou 68,6 por cento, declararam usar antibiótico no tratamento da pancreatite aguda grave. Os autores concluem que os resultados demonstram ampla variação no tratamento no Brasil, atribuem essa variação à pouca experiência individual e aos temas controversos, e defendem a realização de um consenso nacional.

De Campos T, Parreira JG, Utiyama E, Rasslan S. Pesquisa nacional sobre condutas na pancreatite aguda. Rev Col Bras Cir. 2008;35(5):304-310

Como decidir

Distinguir inflamação estéril de infecção exige avaliação clínica; febre precoce não prova nem exclui infecção. Na necrose estéril, não usar antibiótico profilático. Se houver suspeita de colangite, necrose infectada ou outro foco, investigar e tratar o foco correspondente. Documentar a justificativa e reavaliar diariamente permite suspender ou direcionar o tratamento.

Momento da colecistectomia na pancreatite biliar leve

A diretriz internacional de urgência, 2019

Colecistectomia laparoscópica durante a internação-índice é recomendada na pancreatite biliar aguda leve, com grau 1A. Quando houve colangiopancreatografia retrógrada endoscópica com papilotomia na mesma internação, o risco de pancreatite recorrente diminui, mas a colecistectomia na mesma internação continua aconselhada, com grau 1B, por causa do risco aumentado de outras complicações biliares. Havendo coleções líquidas peripancreáticas, a operação deve ser adiada até que as coleções se resolvam ou se estabilizem e a inflamação aguda cesse, com grau 2C.

2019 WSES guidelines for the management of severe acute pancreatitis, World Journal of Emergency Surgery 2019;14:27, declarações sobre momento da colecistectomia

O protocolo brasileiro em uso, 2021, e a prática declarada em 2008

O fluxograma de condutas na pancreatite aguda biliar do protocolo PRT.UCG.002 do Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados prevê colecistectomia após a resolução da pancreatite ou com a amilasemia normalizada, sem fixar que ela ocorra na mesma internação; uma das saídas do mesmo fluxograma marca a operação para 12 a 24 horas depois, e outra a deixa para depois da resolução do quadro. Na pesquisa nacional de 2008, 382 de 534 cirurgiões que responderam ao item, ou 71,5 por cento, indicavam a colecistectomia na mesma internação na forma leve — o que deixa quase três em cada dez indicando depois.

Protocolo PRT.UCG.002 — Pancreatite Aguda, Resolução nº 63, de 18 de novembro de 2021; e De Campos T et al., Rev Col Bras Cir. 2008;35(5):304-310

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a pergunta prática não é qual documento seguir, e sim se este paciente é o da recomendação 1A. Ele é, se a pancreatite for leve, se ele estiver comendo, sem dor, sem falência de órgão e sem coleção peripancreática na imagem. Nesse caso, marque a cirurgia para esta internação, e escreva a data. Se houver coleção, se o paciente ainda estiver em suporte, ou se o serviço não tiver como operar, o adiamento é legítimo — mas então a data e a razão do adiamento vão no relatório de alta, com o retorno agendado. O que não se sustenta em documento nenhum é a alta sem vesícula, sem data e sem razão escrita.

O que classifica gravidade à beira do leito: escore de admissão ou duração da falência de órgão

A classificação internacional, revisão de 2012

A gravidade é definida pela presença e pela duração da falência de órgão, medida pelo escore de Marshall modificado, com escore igual ou maior que 2 em qualquer dos três sistemas definindo falência. Falência com menos de 48 horas é transitória e classifica a doença como moderadamente grave; com mais de 48 horas é persistente e classifica como grave. Escores prognósticos não fazem parte da definição de gravidade, e o próprio documento observa que o escore de Marshall pode ser aplicado na apresentação e repetido diariamente.

Banks PA et al. Classification of acute pancreatitis—2012. Gut. 2013;62(1):102-111

A diretriz internacional de urgência, 2019

Não existe escore prognóstico padrão-ouro para prever pancreatite aguda grave; o escore de beira de leito é provavelmente um dos mais acurados e aplicáveis na prática diária, pela simplicidade e pela capacidade de prever gravidade, óbito e falência de órgão tão bem quanto o escore de terapia intensiva, que é muito complexo. A recomendação recebe grau 1B. O mesmo documento cita um estudo de 161 pacientes em que os cortes significativos para prever doença grave foram três ou mais critérios de Ranson, dois ou mais no escore de beira de leito, oito ou mais no escore de terapia intensiva e três ou mais no índice tomográfico.

2019 WSES guidelines for the management of severe acute pancreatitis, World Journal of Emergency Surgery 2019;14:27, declaração sobre escores de risco

O protocolo brasileiro em uso, 2021

O fluxograma manda aplicar o escore de Ranson logo após a confirmação diagnóstica e usa, dentro da própria tabela de gravidade, três ou mais critérios de Ranson e escore de terapia intensiva acima de 8 como fatores prognósticos desfavoráveis. Não grave recebe reavaliação diária; grave recebe internação em terapia intensiva com tomografia em 48 a 72 horas.

Protocolo PRT.UCG.002 — Pancreatite Aguda, Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados, versão 01, emissão em 18 de novembro de 2021

Como decidir

O percurso principal é avaliação seriada de função orgânica, perfusão e resposta ao suporte. BISAP pode ajudar na admissão; Marshall modificado caracteriza falência orgânica; Ranson é complementar. Não é necessário aplicar todos em todo paciente, nem pedir radiografia apenas para somar um ponto. O aluno precisa explicar o que o instrumento acrescenta à decisão.

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O raciocínio, em voz alta

Severina Roldão, 54 anos, 78 quilos, cozinheira. Dor epigástrica em faixa há nove horas, iniciada três horas após o almoço, com quatro episódios de vômito sem alívio. Duas passagens prévias pelo mesmo pronto-socorro com dor pós-prandial rotulada como gastrite, sem imagem em nenhuma delas. Não bebe. Pressão 138 por 86, frequência cardíaca 104, frequência respiratória 22, saturação 96 por cento em ar ambiente, temperatura 37,6 graus. Abdome distendido, doloroso em andar superior, sem defesa. Amilase 780 U/L, com limite superior de 100 no laboratório da casa. Leucócitos 15.400 por mm³, glicose 212 mg/dL, desidrogenase láctica 380 U/L, aspartato aminotransferase 210 U/L, alanina aminotransferase 260 U/L, fosfatase alcalina 340 U/L, gama-glutamiltransferase 410 U/L, bilirrubina total 2,1 mg/dL com direta de 1,4 mg/dL, ureia 58 mg/dL, creatinina 1,0 mg/dL, hematócrito 47 por cento. Radiografia de tórax com pequeno derrame pleural à esquerda.

  1. 22h30 — o diagnóstico fecha sem tomógrafo

    Dor compatível mais amilase 7,8 vezes acima do limite superior são dois dos três critérios da revisão de 2012. O diagnóstico de pancreatite aguda está feito, e a mesma classificação diz que a tomografia com contraste não costuma ser necessária no pronto-socorro nem na admissão quando o quadro é fechado por dor e enzima. A lipase foi colhida e sai amanhã; a conduta não espera por ela.

  2. 22h40 — a gravidade que se mede agora

    Os três sistemas da régua de 2012: sistólica 138, portanto escore 0; creatinina 1,0, escore 0; saturação 96 por cento em ar ambiente, sem taquipneia grave, sem falência respiratória documentada. Escore de Marshall 0 — sem falência de órgão neste momento. No escore de beira de leito, ela pontua em três dos cinco itens: ureia 58 mg/dL, equivalente a nitrogênio ureico de 27,1 mg/dL, acima do corte de 24,9; resposta inflamatória sistêmica presente, com frequência cardíaca 104, frequência respiratória 22 e leucócitos 15.400; e derrame pleural na radiografia. Não pontua por idade nem por alteração de consciência. Três pontos num escore cujo corte citado é dois: alto risco, sem falência de órgão instalada. Ranson de admissão: glicose 212 e desidrogenase láctica 380 marcam dois de cinco; leucometria, idade e transaminase não marcam; as outras seis variáveis só existem depois de amanhã.

  3. 22h45 — a prescrição da primeira hora

    Cristaloide isotônico com taxa escrita em mL por hora e reavaliação horária; diurese medida de hora em hora; dipirona 1 g intravenosa, que são 2 mL da solução de 500 mg/mL; metoclopramida 10 mg, que são 2 mL da solução de 5 mg/mL, para permitir a via oral mais tarde; morfina diluída disponível como resgate, sem restrição por causa da via biliar. Sem antibiótico. Sem tomografia. Sem octreotida.

  4. 23h20 — a causa, e a razão de não esperar

    O padrão hepático já aponta: alanina aminotransferase acima da aspartato, fosfatase alcalina e gama-glutamiltransferase elevadas, bilirrubina total 2,1 com direta 1,4. O ultrassonografista de sobreaviso é chamado e chega às 23h40: múltiplos cálculos na vesícula, parede sem espessamento, colédoco de 6 milímetros, pâncreas mal visualizado por gás. Etiologia biliar escrita na evolução, com o achado que a sustenta e com o horário de início da dor anotado — uma da tarde, e não a hora da admissão.

  5. 23h50 — a via biliar não corre esta noite

    Ela tem colestase, mas não tem colangite: sem febre alta com calafrio, sem dor em hipocôndrio direito com sinal de irritação, e o colédoco não está dilatado. Pela diretriz de 2019, o procedimento endoscópico de rotina não é indicado, com grau 1A; ele seria indicado com colangite, com grau 1B, ou com obstrução da via biliar principal, com grau 2B. A conduta é acompanhar a bilirrubina. A ligação para o hospital estadual não é feita.

  6. Segundo dia — a dieta e o escore que fecha

    A dor cedeu com dose fixa, o vômito parou às seis da manhã, e a dieta oral é ofertada ao meio-dia e tolerada. A bilirrubina cai para 1,3, com direta de 0,7. Na coleta de 48 horas: hematócrito 40 por cento, queda de 7 pontos, portanto abaixo dos 10 por cento do critério; ureia 41; cálcio 8,6; gasometria com pressão parcial de oxigênio de 84 e déficit de base de 2. Ranson fecha em 2 de 11. Não houve falência de órgão em nenhum momento: pela revisão de 2012, a classe é leve. Tomografia não é pedida.

  7. Terceiro dia — a operação que impede o próximo episódio

    Paciente comendo, sem dor, sem falência de órgão, sem coleção peripancreática — é exatamente o paciente da recomendação 1A. A colecistectomia laparoscópica é programada para esta internação e realizada no quarto dia. A discussão da diretriz de 2019 registra que a operação pode ser feita já no segundo dia de internação, desde que o paciente esteja melhorando clinicamente, e que a colangiografia intraoperatória de rotina parece desnecessária quando a bilirrubina está normalizando.

  8. O que teria dado errado

    Três caminhos plausíveis, todos vistos na prática. Tomografia às 23 horas, com laudo de pâncreas aumentado e sem necrose, lido como tranquilizador. Antibiótico prescrito no primeiro dia por causa dos 37,6 graus e dos 15.400 leucócitos. E, o mais frequente e o mais caro, alta no quinto dia com omeprazol e encaminhamento ambulatorial para avaliar a vesícula — que é a mesma decisão que já havia sido tomada nas duas passagens anteriores dela pelo mesmo pronto-socorro.

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Faça você

Quatro e dez da manhã, mesmo hospital, dois meses depois. Ubaldino Seixas tem 41 anos, 66 quilos, é vigilante noturno e chega pela terceira vez em dezoito meses com o mesmo quadro: dor epigástrica contínua com irradiação dorsal, vômitos, iniciada seis horas antes. Bebe todos os dias, e diz que ontem foi aniversário de um colega. Nas duas internações anteriores, a ultrassonografia mostrou vesícula sem cálculos. Pressão 104 por 62, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 26, saturação 93 por cento em ar ambiente, temperatura 37,2 graus, confuso e sonolento, responde ao chamado. Abdome distendido, doloroso difusamente, sem defesa. Amilase 240 U/L, com limite superior de 100. Leucócitos 18.900 por mm³, glicose 244 mg/dL, ureia 71 mg/dL, creatinina 1,9 mg/dL, hematócrito 51 por cento, cálcio 7,6 mg/dL, triglicerídeos 1.480 mg/dL. Radiografia de tórax com derrame pleural bilateral pequeno.

  1. Passo 1 — a enzima está abaixo de três vezes. Isso afasta o diagnóstico?

    Some os critérios que ele preenche e decida se falta algum exame para fechar o diagnóstico, e qual.

  2. Passo 2 — qual é a gravidade agora, e por qual régua

    Aplique os três sistemas da régua de 2012 com os números que estão na vinheta, e o escore de beira de leito com os cinco itens. Diga qual classe é possível afirmar às quatro da manhã e qual só será possível afirmar depois.

  3. Passo 3 — a causa é álcool?

    Duas ultrassonografias prévias sem cálculo, uso diário de álcool, e um triglicerídeo de 1.480 mg/dL na primeira amostra. Decida o que você escreve na evolução como etiologia, e o que ainda precisa ser pedido nesta internação.

  4. Passo 4 — a prescrição das primeiras quatro horas

    Escreva o que entra e, principalmente, o que não entra. Diga qual parâmetro você vai usar para titular o volume e de quanto em quanto tempo você vai olhar para ele.

  5. Passo 5 — a decisão de sala

    Ele fica na enfermaria com reavaliação de 6 em 6 horas, vai para a sala de emergência ou vai para a terapia intensiva? Diga o que sustenta a sua escolha e em que momento ela seria revista.

  6. Continuidade do caso e prática do internato

    Retome Severina e explique em cada etapa o problema que a intervenção pretende resolver. Os escores ajudam a compreender o risco, mas não conduzem o atendimento sozinhos.

  7. Questão integrativa 1

    Severina precisa esperar 48 horas para receber suporte intensivo?

  8. Questão integrativa 2

    Por que nem todo choque na pancreatite é sepse?

  9. Questão integrativa 3

    Que achados fazem reduzir a reposição hídrica?

  10. Questão integrativa 4

    Amilase ainda alta impede alimentação?

  11. Questão integrativa 5

    Quando uma pancreatite biliar precisa de CPRE urgente?

  12. Questão integrativa 6

    O que precisa estar resolvido antes da alta de Severina?

Ver como fecharíamos

Passo 1: ele preenche dor abdominal compatível, e a amilase de 240 é 2,4 vezes o limite — abaixo das três vezes. Falta um critério, e a classificação de 2012 diz exatamente o que fazer nessa situação: quando a dor sugere fortemente pancreatite e a enzima está abaixo de três vezes, como pode ocorrer na apresentação tardia, a imagem é necessária para confirmar. Neste paciente, com terceiro episódio e provável perda de parênquima, a enzima baixa não é tranquilizadora — a tomografia aqui não está sendo pedida para ver necrose e sim para fechar o segundo critério, e essa é a exceção legítima à regra de não tomografar na primeira noite. A lipase, se saísse hoje, também poderia fechar, porque a janela dela é maior. Passo 2: pelos três sistemas da régua de 2012, a creatinina de 1,9 mg/dL cai no escore 2 pela linha em mg/dL, o que já define falência renal — e essa é exatamente a faixa em que as duas linhas de unidade da tabela discordam, porque 1,9 mg/dL convertido dá 168 µmol/L, que valeria escore 1. A sistólica de 104 não pontua. A saturação de 93 por cento com frequência respiratória de 26 pede gasometria para calcular a relação entre pressão parcial de oxigênio e fração inspirada antes de afirmar falência respiratória. No escore de beira de leito ele soma quatro dos cinco pontos: ureia 71 mg/dL, equivalente a nitrogênio ureico de 33,1 mg/dL, acima do corte; alteração do estado mental; resposta inflamatória sistêmica presente; derrame pleural na radiografia; e não pontua por idade, com 41 anos. Às quatro da manhã é possível afirmar que há falência de órgão. O que só se saberá depois de 48 horas é se ela é transitória, e portanto doença moderadamente grave, ou persistente, e portanto grave — a classe é retrospectiva, e escrever grave agora é escrever o que ainda não se sabe. Passo 3: álcool é a causa provável, e não é a única resposta possível. Um triglicerídeo de 1.480 mg/dL está acima dos 1.000 mg/dL que a diretriz de 2019 aponta como indicativos dessa etiologia, com grau 2C, e o valor foi colhido na primeira amostra, que é a única confiável — depois de jejum e hidratação ele cai. O cálcio de 7,6 é baixo, e cálcio baixo às 48 horas é variável de gravidade, não causa. A conduta correta é escrever as duas etiologias possíveis na evolução, pedir de novo a ultrassonografia nesta internação apesar das duas prévias negativas, porque microcálculo escapa, e encaminhar o tratamento do triglicerídeo depois da alta pelo protocolo federal da dislipidemia, que inclui fibrato acima de 500 mg/dL objetivando prevenção de pancreatite. Passo 4: entra cristaloide isotônico com taxa escrita e reavaliação horária, diurese medida de hora em hora, oxigênio suplementar, analgesia em dose cheia com dipirona e opioide titulado, antiemético parenteral, glicemia capilar seriada e gasometria com lactato. Não entra antibiótico profilático, que é contraindicação com grau 1A na ausência de infecção documentada; não entra octreotida; não entra nutrição parenteral; e não entra tomografia para estadiar necrose, que a essa altura ainda não apareceria — a tomografia deste paciente, se for feita agora, é a do passo 1, com outra finalidade. Os parâmetros de titulação do volume são diurese horária, frequência cardíaca, pressão arterial e, em 12 e 24 horas, hematócrito e ureia; o hematócrito de 51 por cento na admissão é o número que diz o tamanho do que já saiu do vaso. Passo 5: terapia intensiva. Ele tem falência de órgão documentada agora, alteração de consciência e taquipneia, e a classificação de 2012 diz que pacientes com falência de órgão devem ser internados em unidade de terapia intensiva sempre que possível. A decisão seria revista em 24 a 48 horas: se a creatinina normalizar, a consciência clarear e a respiração se acomodar dentro de 48 horas, a falência foi transitória, a classe é moderadamente grave e ele volta para a enfermaria. Se persistir além de 48 horas, a classe é grave, e o que muda a partir daí é a vigilância da segunda fase — a da infecção da necrose, cujo pico é entre a segunda e a quarta semana. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Disfunção orgânica ou deterioração exige ação imediata. A persistência além de 48 horas define a classificação grave retrospectivamente. 2. Hipovolemia e inflamação estéril podem causar choque. Sepse requer suspeita ou confirmação de infecção associada à disfunção orgânica. 3. Piora de oxigenação, congestão pulmonar, aumento de necessidade de oxigênio e outros sinais de sobrecarga, interpretados com perfusão e balanço. Não continuar volume apenas para normalizar hematócrito. 4. Não. Na forma leve, oferecer alimentação oral precocemente conforme tolerância, sem esperar normalização das enzimas. Se a via oral falha, avaliar suporte enteral. 5. Principalmente com colangite associada. Obstrução persistente exige avaliação dirigida; gravidade prevista isoladamente não indica CPRE de rotina. 6. Controle clínico e plano etiológico. Na forma biliar leve, colecistectomia na mesma internação quando possível; adiar exige razão clínica e continuidade efetiva do cuidado.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A recomendação de nutrição enteral para prevenir falência intestinal e complicações infecciosas tem o grau mais forte da diretriz, que também diz que a nutrição parenteral total deve ser evitada e que tanto a via gástrica quanto a jejunal podem ser usadas com segurança — não há obrigatoriedade de sonda pós-pilórica. O valor da enzima não governa a dieta: a amilase leva de 3 a 7 dias para normalizar e a lipase, de 8 a 14, prazos biológicos sem relação com a capacidade de se alimentar. O que governa é a clínica, dor controlada e vômito cessado. A mesma diretriz descreve um ensaio multicêntrico em pancreatite necrosante no qual a alimentação nasoentérica precoce, nas primeiras 24 horas, não reduziu infecção nem óbito em comparação com dieta oral iniciada 72 horas após a chegada, e no grupo de dieta oral 69 por cento dos pacientes toleraram a via oral. A parenteral fica como complemento, quando a via enteral não atinge a meta calórica e proteica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique os dois de três critérios diagnósticos, reconheça disfunção orgânica sem esperar 48 horas e justifique hidratação, alimentação, imagem e investigação etiológica. Compare inflamação estéril com infecção. Reconstrua o plano que impede Severina de receber alta com a causa biliar sem encaminhamento efetivo.

Em 30 dias

Trinta dias depois, pegue o prontuário de um paciente com pancreatite aguda que passou pelo seu serviço e confira quatro coisas. Se a hora do início da dor foi anotada, e não só a hora da admissão. Se a ultrassonografia foi pedida na admissão ou no terceiro dia. Se houve antibiótico sem infecção documentada, e por quantos dias. E se o paciente com pancreatite biliar leve saiu com a vesícula retirada, com data marcada, ou sem nenhuma das duas coisas. Esses quatro itens medem, juntos, quase tudo que este capítulo ensina — e todos eles estão no prontuário, sem depender de memória de ninguém.

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Agora atenda

Atenda uma dor abdominal alta com irradiação dorsal no pronto-socorro: feche o diagnóstico com o que a unidade tem, descubra a causa antes de passar o plantão e conduza as primeiras horas sem pedir o que não muda decisão.