Cirurgia Geral › Urologia
Escroto agudo
A emergência em que o relógio é curto, o exame é decisivo e o atraso quase sempre nasce de constrangimento — do adolescente que demora a contar, do médico que demora a examinar, da fila que trata dor testicular como queixa menor. Suspeita de torção é indicação cirúrgica; exame de imagem não pode atrasar a cirurgia.
Sociedade Brasileira de Urologia; Colégio Brasileiro de Radiologia. Escroto Agudo: Diagnóstico e Tratamento. Projeto Diretrizes — Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. Elaboração final: 27 de junho de 2006. Participantes: Dénes FT, Souza NCLB, Souza AS.
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Menino de 13 anos, dor escrotal esquerda há 8 horas. Escroto esquerdo aumentado, testículo elevado, reflexo cremastérico ausente à esquerda; consistência testicular preservada, sem náusea ou vômito. A ultrassonografia com Doppler pode ser feita em 20 minutos no próprio serviço. Somando o TWIST, qual a conduta?
O paciente que você vai ver
Sábado, 9h20, pronto-socorro de hospital geral. Na ficha: "Kauê, 15 anos, dor abdominal". Classificação de risco às 7h48, pulseira verde, dor referida como 7 em 10. Ele está sentado na maca com a mãe ao lado, encolhido, pálido, mudando de posição a cada meio minuto. Já vomitou duas vezes no corredor. Enquanto você lê a ficha, a técnica comenta de passagem que o menino "não quis nem deitar direito na triagem".
O abdome que você palpa não explica nada. Está flácido, sem defesa, sem descompressão dolorosa, sem sinal de Blumberg. Ruídos presentes. A dor que ele mostra com a mão fica no hipogástrio, difusa, e não reproduz à palpação. Nada disso combina com o rosto dele, que é de dor forte. Quando você pergunta se dói em algum outro lugar, ele responde que não, olha para a mãe e cala.
É aqui que o caso se decide, e não é por conhecimento — é por conduta. Você pede à mãe que espere lá fora um minuto, fecha a cortina e refaz a pergunta olhando para ele: "a dor começou onde mesmo?". Ele demora e responde: no saco, do lado esquerdo. Começou às quatro da manhã, acordou ele do sono, forte de uma vez. Achou que ia passar. Não contou porque a mãe estava dormindo, e porque não sabia como dizer.
São 9h30. Quatro da manhã foram cinco horas e meia atrás. Você pede que ele deite, tira o lençol, abaixa a roupa até o meio da coxa — o escroto inteiro à mostra, os dois lados, com a luz do quarto acesa — e olha antes de tocar. A bolsa esquerda está aumentada, avermelhada, e o testículo esquerdo está mais alto que o direito, deitado na horizontal. A palpação suave dói muito e o testículo está duro. Você passa a mão na face medial da coxa esquerda: nada acontece — do lado direito, o testículo sobe. Elevar a bolsa não alivia.
Nada do que você acabou de fazer exigiu equipamento, exame ou consultoria — exigiu expor a região e olhar, com quatro gestos que somam noventa segundos. E a soma deles já é um diagnóstico: torção do cordão espermático até prova em contrário, a hipótese que, na frente de um escroto agudo, é obrigatória antes de qualquer outra.
A partir daqui o capítulo é sobre relógio. O testículo torcido perde irrigação no momento em que o cordão gira, e dali em diante a sobrevida do órgão cai de forma medida e previsível a cada hora. Kauê está na sexta. Se ele for para o centro cirúrgico agora, a chance de salvar é alta; se alguém decidir "pedir um ultrassom para confirmar" num serviço cujo ultrassonografista está de sobreaviso e chega em três horas, essa chance despenca — não porque o exame seja ruim, mas porque foi pedido no lugar errado da linha do tempo.
Guarde também o que este caso ensina sobre a porta de entrada. Kauê entrou como dor abdominal, foi classificado como verde e esperou uma hora e quarenta. Adolescente com dor abdominal baixa, náusea e vômito é uma das apresentações clássicas da torção testicular, e é a que mais atrasa — a armadilha aparece de novo no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, do outro lado da mesma moeda. O trabalho do interno começa antes de qualquer conduta: examinar o escroto de todo menino e todo homem jovem com dor abdominal baixa, com privacidade e exposição adequada, sem esperar que ele tenha coragem de dizer onde dói.
Quem adoece disso
O retrato mais honesto do problema no Brasil vem de uma série de base populacional do Distrito Federal, que reuniu todos os casos de torção testicular operados na rede pública entre 2012 e 2018: 505 pacientes em seis anos, cerca de oitenta e quatro por ano numa única unidade federativa. A idade mediana foi de 16,1 anos. O testículo foi salvo em 46,1% dos casos — 233 dos 505. Dito ao contrário, que é como interessa ao plantão: mais da metade dos meninos e homens jovens operados por torção no sistema público de uma capital brasileira perdeu o testículo. Torção testicular não é doença rara de prova; é uma emergência que acontece toda semana e que, do jeito como o sistema a atende hoje, termina em orquiectomia na maioria das vezes.
A causa desse desfecho está medida no mesmo estudo, e não é falta de cirurgião. O tempo mediano entre o início da dor e a chegada ao serviço foi de 8,7 horas, e 59% dos pacientes chegaram depois da sexta hora — a demora do paciente, que na faixa dos 12 aos 25 anos é quase sempre demora de constrangimento. Depois vem a demora do sistema: a hipótese registrada no primeiro atendimento foi torção em 68,3% dos casos, epididimite em 11,1% e outro diagnóstico em 20,6%. Quando o primeiro médico escreveu "torção", a mediana até a transferência para o serviço com centro cirúrgico foi de 2,8 horas. Quando escreveu "epididimite", foi de 37,9 horas. O rótulo errado não apenas erra o diagnóstico: ele reclassifica a urgência e coloca o paciente numa fila de outra velocidade.
O terceiro atraso é o que este capítulo mais insiste em desmontar, porque é o único inteiramente sob controle de quem atende. Ultrassonografia foi solicitada em 25% dos casos, com distribuição reveladora: 34,2% nas unidades secundárias e 23,9% nas primárias, contra 4,5% na unidade terciária. Os pacientes que fizeram o exame tiveram atraso mediano de 24,3 horas até o tratamento, contra 7,6 horas dos que não fizeram. E o desfecho acompanhou: no serviço terciário, entre os que chegaram com menos de seis horas de dor, o testículo foi salvo em 94,6% — 35 de 37 —, e entre os que chegaram com menos de três horas, em 11 de 11. O exame não estragou nenhum testículo; a espera por ele, sim.
Quem adoece disso tem endereço etário duplo. A torção do cordão espermático concentra-se em dois períodos da vida: o perinatal, com a forma extravaginal do recém-nascido, e a puberdade, com a forma intravaginal, cujo pico de incidência a Sociedade Brasileira de Urologia situa entre 12 e 25 anos. Entre todos os quadros de escroto agudo, a torção responde por cerca de um terço dos casos. Nas outras faixas ela não desaparece — existe torção aos 40 e aos 60 anos, e as taxas de preservação são piores acima dos 21 anos —, apenas fica menos provável, o que é uma informação sobre probabilidade, não uma licença para não pensar nela.
A epididimite tem outra demografia, e é aqui que o interno erra de dois jeitos opostos. No menino pré-púbere ela é incomum, com incidência estimada em cerca de 1,2 por 1.000 crianças ao ano e etiologia que na maioria das vezes permanece obscura — doença sexualmente transmissível nessa idade é rara, e a bactéria na urina é exceção. Já no adolescente sexualmente ativo e no adulto jovem, epididimite é frequentemente uma infecção sexualmente transmissível, com gonococo e clamídia à frente; o Ministério da Saúde descreve a orquiepididimite justamente como complicação da infecção ascendente a partir da uretra. Os fatores associados às uretrites no Brasil desenham o mesmo paciente: idade jovem, parcerias novas ou múltiplas, história prévia de outra infecção sexualmente transmissível e uso irregular de preservativo.
A consequência clínica cabe em uma frase: diante de dor escrotal aguda em menino ou homem jovem no Brasil, a probabilidade de torção é alta o bastante para que a hipótese governe a conduta desde o primeiro minuto, e os atrasos que se somam — do paciente, do encaminhamento e do exame de imagem — são a explicação medida de uma taxa nacional de salvamento inferior a 50%.
Por que acontece o que acontece
O testículo normal não gira porque está preso de dois jeitos. A túnica vaginal — o saco seroso que o envolve — recobre só a face anterior e as laterais, deixando uma faixa posterior nua, colada à parede escrotal, e o epidídimo fica aderido a essa face de trás. É uma dobradiça: o órgão balança, mas não roda em torno do próprio cordão. Numa parcela da população essa anatomia é outra. A túnica vaginal se insere alto, acima do cordão, e envolve testículo e epidídimo por inteiro — o testículo passa a pender livre dentro da cavidade vaginal, como o badalo dentro de um sino. É a deformidade em badalo de sino, e é ela que permite a torção intravaginal, a forma do adolescente e do adulto. Como o defeito de fixação é anatômico e costuma ser bilateral, a fixação do testículo contralateral no mesmo ato cirúrgico deixa de ser zelo e vira parte da operação — está assim na diretriz nacional de escroto agudo desde 2006.
O recém-nascido torce por outro motivo, e isso muda tudo no manejo dele. Nos últimos dias de vida intrauterina e nos primeiros de vida, a túnica vaginal ainda não aderiu ao dartos: gira o conjunto inteiro — túnica, cordão e testículo —, acima do nível da vaginal. É a torção extravaginal, perinatal, quase sempre já consumada quando o bebê nasce, indolor, e responsável por boa parte dos testículos atróficos que se descobrem depois. O ponto que decide a conduta é que o mecanismo é de fixação incompleta dos dois lados, e a torção metacrônica contralateral existe — por isso a recomendação europeia de explorar e fixar ambos os testículos, precocemente, ainda que não em caráter agudo.
O que desencadeia a rotação no púbere é banal: o cremáster tem fibras em espiral, e sua contração — pelo frio, pelo esforço, por reflexo — imprime movimento rotatório. Por isso a torção não precisa de trauma nem de exercício, e por isso acontece tanto durante o sono: dor testicular súbita que tira o paciente da cama não é coincidência, é a apresentação típica.
A sequência isquêmica explica quase todos os sinais do exame. Dentro do cordão correm a artéria testicular, a artéria deferencial e o plexo pampiniforme. Ao girar, o cordão fecha primeiro o que tem menos pressão: o retorno venoso. O sangue entra e não sai — congestão, edema e aumento da pressão dentro da túnica albugínea, que é fibrosa e não distende —, e essa síndrome compartimental em miniatura é que finalmente estrangula o fluxo arterial. Daí três consequências. O testículo incha e endurece, e não por acaso esses são os dois itens de maior peso do escore clínico. A dor é desproporcional ao que se vê e vem com reação vagal, porque a inervação testicular é visceral e acompanha o próprio pedículo. E, o mais importante: nas fases iniciais ainda existe fluxo arterial — em estudo multicêntrico com 208 meninos com torção confirmada, 24% tinham vascularização normal ou aumentada ao Doppler. Fluxo presente não afasta torção.
O grau da volta importa tanto quanto o relógio, e essa é a razão de a mesma doença ter desfechos tão diferentes com o mesmo número de horas. Voltas incompletas, entre 180 e 360 graus, podem cursar sem atrofia mesmo com doze horas de sintomas, porque sobra algum fluxo. Acima de 360 graus, quatro horas já bastam para atrofia grave, e acima de vinte e quatro horas o testículo está ausente ou gravemente atrófico em todos os casos. Como não há como medir o grau da torção pelo lado de fora, a decisão à beira do leito não pode ser tomada pelo tempo isoladamente: a duração dos sintomas informa a probabilidade, não a sentença.
A perda não é toda ou nada, e a distinção sustenta a conversa com a família. As células germinativas, que produzem espermatozoides, são muito mais sensíveis à isquemia do que as células de Leydig, que fazem testosterona: testosterona, hormônio luteinizante e folículo-estimulante permanecem na faixa normal depois de uma torção, enquanto a espermatogênese sai prejudicada com frequência — a subfertilidade aparece em 36% a 39% no seguimento. Puberdade, voz, pelos e ereção não dependem do testículo perdido; a fertilidade pode depender.
Existe ainda um segundo tempo de lesão, depois de o cirurgião consertar o problema. Ao desfazer a torção, o sangue volta de uma vez a um tecido isquêmico, e a reperfusão gera radicais livres que circulam rapidamente pelo parênquima. É a explicação de um fato que assusta quando ninguém avisa: até metade dos testículos destorcidos e fixados, inclusive alguns avaliados como viáveis na mesa, atrofia depois. Operar cedo não é garantia — é a única variável que se pode mudar.
Dois sinais clássicos do exame também têm mecanismo, e conhecê-lo é o que impede de usá-los como verdades absolutas. O reflexo cremastérico é um arco simples: estímulo tátil na face medial proximal da coxa, aferência e eferência pelo nervo genitofemoral (L1 e L2), contração do cremáster e elevação do testículo. O cordão torcido comprime essas fibras e o reflexo some — daí a alta sensibilidade; mas qualquer escroto muito inflamado pode aboli-lo e crianças pequenas podem não tê-lo, o que derruba a especificidade. O sinal de Prehn tem lógica hidráulica: elevar a bolsa reduz a congestão venosa do epidídimo inflamado e alivia; na torção, a obstrução está no cordão, acima disso. Bom mecanismo, desempenho clínico fraco.
Falta o impostor mais comum e mais benigno. O apêndice testicular, ou hidátide de Morgagni, é um resquício mülleriano do tamanho de um grão de arroz preso ao polo superior do testículo por um pedículo próprio e minúsculo. Ele torce, necrosa e dói muito — mas a irrigação do testículo permanece intacta, porque o pedículo dele não é o cordão. Daí toda a apresentação: dor forte porém restrita ao polo superior, testículo de posição e consistência normais, reflexo presente e, em 10% a 23% dos casos, o nódulo escuro visível pela pele — o sinal do ponto azul. É por isso que se trata com analgesia, e não com bisturi.
A epididimite fecha o mecanismo pelo lado oposto: é inflamação, não isquemia. No jovem sexualmente ativo, a rota é ascendente a partir da uretra — gonococo e clamídia sobem pelo ducto deferente até a cauda do epidídimo —, e é por isso que o quadro é gradual, começa por trás e por baixo do testículo, tem sintoma urinário e responde a antimicrobiano. No pré-púbere essa rota é rara: predominam o refluxo de urina estéril pelos ductos ejaculatórios e a origem pós-infecciosa, com urina e cultura normais na maioria — motivo pelo qual antibiótico não é regra nessa idade — e uma parte tem anomalia urogenital por baixo, achada em 29,1% em série dedicada.

Como se apresenta de verdade
Escroto agudo é o nome da síndrome: aumento súbito do volume escrotal acompanhado de dor, com náusea, sudorese, inquietação e às vezes febre. Dentro dele cabem seis ou sete doenças, e a diferença entre elas é o intervalo entre uma noite ruim e um órgão perdido. O espectro abaixo está organizado por quem entra pela porta, porque é assim que a decisão se apresenta — não por ordem de raridade.
A forma típica da torção — e o que ela dispensa
O quadro clássico é curto de descrever: dor testicular unilateral de início súbito e grande intensidade, frequentemente acordando o paciente de madrugada, sem relação com trauma ou exercício, acompanhada de náusea e vômito. Ao exame, o testículo está aumentado, endurecido, elevado e horizontalizado — a elevação e a horizontalização compõem o sinal de Angell —, o epidídimo pode estar palpável em posição medial, o reflexo cremastérico ipsilateral está ausente e elevar a bolsa não alivia. Febre é incomum; sintoma urinário é incomum; o outro testículo é normal.
Esse conjunto é suficiente. Diante dele, a Sociedade Brasileira de Urologia é explícita: na forte suspeita clínica, a cirurgia deve ser realizada imediatamente, e não deve ser adiada para a realização de exames de imagem. Não há exame que acrescente informação capaz de mudar essa conduta, e há exame que consome a janela. O erro que se comete aqui não é diagnóstico — é de sequência.
Um detalhe da história merece pergunta ativa, porque quase ninguém a faz: episódios anteriores de dor testicular forte que passaram sozinhos. A torção intermitente tem o mesmo defeito anatômico por baixo e antecede a definitiva com frequência — quem conta episódios prévios, mesmo chegando sem dor hoje, é candidato a orquidopexia eletiva, uma das poucas oportunidades de prevenir a doença deste capítulo.
As três apresentações que atrasam — e onde o testículo se perde
A primeira é a dor abdominal. A Sociedade Brasileira de Urologia registra que, nas crianças menores e antes da puberdade, os sintomas podem ser inespecíficos — dor abdominal, dor suprapúbica, náusea e vômito — e orienta examinar a região testicular diante dessas queixas. Abdome flácido, sem irritação peritoneal, em menino com dor no baixo ventre e vômito: a queixa é abdominal e a doença é escrotal. Do outro lado do mesmo problema, o capítulo de dor abdominal no pronto-socorro traz esta armadilha vista pela porta da clínica.
A segunda é a dor que passou. Torção que se resolve espontaneamente, ou em parte, alivia — e a equipe relaxa junto com o paciente. Alívio não é alta: torção parcial persiste mesmo com melhora franca, e quem melhorou sozinho sai do pronto-socorro com avaliação urológica marcada, não com dipirona e orientação de retorno.
A terceira é a dor que já dura dias. O paciente chega no terceiro dia com escroto muito inflamado e febrícula, e a impressão fácil é de infecção — mas torção antiga produz exatamente essa cara, e o exame perde nitidez com o passar das horas. A segunda armadilha é o nihilismo: passadas 24 horas, a exploração continua indicada em caráter semieletivo, para definir viabilidade, retirar um testículo necrótico e fixar o lado contralateral.
O recém-nascido: a torção que não dói
No período neonatal a apresentação é muda. A dor está ausente, e o que se encontra é bolsa escrotal aumentada e endurecida, com pele arroxeada, e testículo duro e sem mobilidade — em geral já no primeiro exame do berçário. Muitas dessas torções são pré-natais e vêm consumadas; parte responde pelos testículos atróficos que só se descobrem anos depois. A torção bilateral compõe de 11% a 21% dos casos perinatais, o que muda a urgência quando os dois lados estão alterados.
A conduta se separa da do adolescente em dois pontos. A exploração é feita, mas o momento é ditado pelo achado clínico — torção pré-natal consumada não se recupera com pressa. E a fixação do testículo contralateral é recomendada, porque a torção metacrônica do outro lado é risco real nesse mecanismo. Qualquer massa escrotal endurecida em recém-nascido é avaliação urológica no mesmo dia. Vale ainda uma nota de segurança para toda a pediatria: lesão genital sem mecanismo compatível, história que muda a cada narrador ou atraso inexplicado na busca de atendimento pedem a conduta do capítulo de violência e maus-tratos infantis.
O pré-púbere: o apêndice testicular e a epididimite que não é IST
Nessa faixa, a causa mais frequente de escroto agudo em muitas séries não é a torção do cordão, e sim a torção de apêndice testicular. O quadro se parece, mas em intensidade menor e com localização diferente: dor que começa e se mantém no polo superior, instalação mais arrastada, testículo de consistência e posição normais, reflexo cremastérico presente e, em 10% a 23%, o ponto azul visível pela pele. É o oposto de uma emergência cirúrgica — maneja-se com anti-inflamatório e analgesia, e o seguimento de seis semanas não mostra atrofia; a exploração fica para os casos duvidosos e a dor persistente. O engano perigoso é o inverso: torção do cordão rotulada como "deve ser o apêndice" e mandada para casa com ibuprofeno.
A epididimite do pré-púbere é a terceira personagem. Instala-se gradualmente, com dor atrás e abaixo do testículo e febre em parte dos casos, e o exame mostra epidídimo doloroso com testículo pouco alterado. Mas a etiologia costuma permanecer obscura, doença sexualmente transmissível nessa idade é muito rara, e urina e cultura podem ser normais — por isso antibiótico aqui é exceção, indicada quando a urina demonstra infecção bacteriana. O que esse menino precisa depois é de investigação urológica: anomalias urogenitais subjacentes foram encontradas em 29,1% dos pré-púberes com epididimite aguda.
O adolescente e o adulto jovem: a epididimite que é infecção sexualmente transmissível
A partir da atividade sexual, o mapa vira. A epididimite do jovem é frequentemente uma infecção sexualmente transmissível ascendente, com Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis à frente — no material do Ministério da Saúde, a orquiepididimite aparece nominalmente como complicação da infecção gonocócica ascendente a partir da uretra, e as uretrites por clamídia são descritas como capazes de evoluir para epididimite. A apresentação segue a inflamação: dor instalada em horas a dias, começando no epidídimo, escroto edemaciado e quente, às vezes febre, e alívio ao elevar a bolsa. Corrimento uretral pode estar presente ou não, e a ausência não afasta nada — a uretrite subaguda é a forma de apresentação em cerca de metade dos casos por clamídia.
A anamnese sexual, aqui, é exame complementar — e é a que o interno mais pula. Precisa ser feita sem a família na sala, sem julgamento e com perguntas concretas: quando foi a última relação, com quantas parcerias nos últimos meses, se usa preservativo, qual a prática (a relação anal insertiva muda o agente provável para enterobactérias e muda o antimicrobiano), se houve corrimento, ardência ao urinar ou lesão genital, e se alguma parceria teve sintoma. É essa conversa que separa dois esquemas de tratamento completamente diferentes.
Duas consequências que o bloco de conduta detalha. A primeira: epididimite por infecção sexualmente transmissível não termina no antimicrobiano do paciente — exige tratar as parcerias dos últimos 60 dias, oferecer testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C e notificar quando indicado; o rastreio e os esquemas das demais infecções sexualmente transmissíveis são do capítulo próprio de sífilis e outras IST. A segunda: a lógica é a da doença inflamatória pélvica no capítulo dela — trata-se na suspeita, porque a sequela é irreversível.
Acima dos 35 anos e no homem com uropatia obstrutiva, o agente provável muda para enterobactérias, com o quadro secundário a infecção urinária em paciente com obstrução infravesical, congênita ou adquirida — o cenário em que o capítulo de hiperplasia prostática benigna e retenção urinária aguda encontra este aqui. O tratamento antimicrobiano é outro, e a investigação da causa obstrutiva deixa de ser opcional.
O resto do escroto agudo — e o que não pode passar
Hérnia inguinoescrotal encarcerada dói e aumenta a bolsa: procure o pedículo indo até o canal inguinal, a impossibilidade de reduzir e sinais de obstrução intestinal. Hidrocele comunicante cresce rápido na criança com infecção respiratória ou constipação, e a transiluminação resolve em segundos. Púrpura de Henoch-Schönlein compromete o cordão com dor e edema, e as manifestações sistêmicas dão o diagnóstico. O edema escrotal idiopático acomete a parede sem afetar o conteúdo e evolui bem. Orquite por caxumba aparece dias depois da parotidite, muitas vezes bilateral, em quem não completou o esquema vacinal. Trauma escrotal exige ultrassonografia para avaliar a integridade da albugínea — rotura testicular é cirúrgica.
Dois quadros não podem passar despercebidos porque são as outras emergências reais desta bolsa. Gangrena de Fournier é fasciíte necrosante do períneo e do escroto, doença do diabético, do etilista e do imunossuprimido: dor desproporcional ao exame nas primeiras horas, evoluindo com eritema mal delimitado, crepitação, odor fétido, necrose cutânea e toxemia — antibiótico de amplo espectro, ressuscitação e desbridamento imediato, com o mesmo relógio da torção. E massa testicular indolor de crescimento progressivo, que ocasionalmente inflama e chega como escroto agudo, é tumor de testículo até prova em contrário no adulto jovem: nódulo endurecido que não some depois da fase aguda é encaminhamento urológico, não alta.
Por fim, a dor que não nasce no escroto. Cálculo em ureter distal irradia para o testículo com bolsa normal ao exame — o manejo está no capítulo de litíase urinária e cólica nefrética. A regra é sempre a mesma: dor referida não deixa achado local.
Como fechar o diagnóstico
A investigação do escroto agudo tem uma peculiaridade que desorganiza o hábito do interno: o primeiro exame não se pede, se faz. História e exame físico cuidadosos são fundamentais, e o tempo é fator vital tanto pela duração dos sintomas quanto pelas condutas na investigação — a diretriz nacional coloca as duas coisas na mesma frase de propósito. A pergunta que organiza este bloco não é "que exame confirma?", e sim "o que eu preciso saber para decidir entre chamar a urologia agora e investigar com calma?".
A anamnese que decide: três perguntas e um horário
Quando começou, exatamente? Não "de madrugada", não "faz um tempo": a hora. Esse dado governa a decisão, entra na conversa com o centro cirúrgico e precisa estar escrito no prontuário como horário, com o cálculo feito — "início às 4h; no exame, 5h30 de evolução". Registre também a hora do seu exame, para que a equipe seguinte saiba em que ponto da curva o paciente está.
Como começou? Súbito, forte de uma vez, acordando do sono e sem relação com trauma ou esforço aponta para torção; gradual, ao longo de um ou dois dias, aponta para inflamação. Náusea e vômito acompanham a torção com frequência; febre acompanha mais a epididimite, presente em 11% a 19% dos casos. Já aconteceu antes? Episódios prévios de dor forte que passaram sozinhos sugerem torção intermitente e mudam o encaminhamento mesmo de quem hoje está sem dor. E, no adolescente e no adulto, a quarta pergunta, sem a família na sala: história sexual, corrimento, ardência ao urinar, parceria com sintoma, prática sexual anal insertiva — ela não muda a conduta da suspeita de torção, muda o antimicrobiano quando o diagnóstico for epididimite.
O exame que separa: sete gestos, dois minutos
Exponha os dois lados. Retire a roupa até o meio da coxa, com o paciente deitado, sob boa luz, com privacidade garantida e alguém de referência presente quando for menor de idade. Exame de escroto feito por baixo do lençol, às pressas, é o mecanismo mais comum de erro deste capítulo — o constrangimento de quem examina custa tanto testículo quanto o do paciente que demorou a contar.
Inspecione antes de tocar: volume, cor, posição e eixo de cada testículo. Testículo elevado e horizontalizado do lado da dor é o sinal de Angell. Procure também o nódulo escuro de poucos milímetros no polo superior visto pela pele — o ponto azul, presente em uma minoria mas quase específico quando aparece.
Palpe o lado sadio primeiro, para calibrar a mão na consistência normal daquele paciente. Depois, no lado doloroso, procure onde exatamente dói: epidídimo doloroso com testículo pouco sensível aponta para epididimite; testículo inteiro doloroso e endurecido aponta para torção; dor restrita ao polo superior, com o restante indolor, aponta para apêndice testicular. Em seguida, pesquise o reflexo cremastérico nos dois lados, com estímulo tátil na face medial e proximal da coxa. Ausência ipsilateral é o achado mais sensível de torção; presença reduz a probabilidade, mas — e este é o ponto que a diretriz brasileira de 2006 afirma de forma categórica demais para o que se sabe hoje — não exclui torção. Nenhum sinal isolado exclui.
Eleve a bolsa: alívio sugere epididimite (sinal de Prehn), ausência de alívio sugere torção — teste de baixa eficácia, que entra na descrição e nunca na decisão. Palpe o cordão e o canal inguinal, porque massa que se prolonga pelo canal e não reduz é hérnia encarcerada, e transilumine se houver aumento mole e pouco doloroso. Feche com abdome, flancos e pele: dor lombar com Giordano positivo e testículo normal aponta para o trato urinário alto, e crepitação, eritema mal delimitado que ultrapassa o escroto, necrose cutânea ou odor fétido mudam o capítulo — é gangrena de Fournier, cirúrgica no mesmo minuto.

O escore que organiza a decisão — e o que ele não faz
O escore TWIST foi desenvolvido e validado por um grupo com autores brasileiros e é reproduzido pela Sociedade Brasileira de Urologia em material próprio. Ele soma cinco achados de exame e história: inchaço testicular vale 2 pontos, testículo endurecido vale 2, testículo alto vale 1, reflexo cremastérico ausente vale 1 e náusea ou vômito vale 1 — máximo de 7. As faixas são baixo risco de 0 a 2, risco intermediário de 3 a 4 e alto risco de 5 a 7.
Vale calcular em pacientes concretos, porque é assim que o escore vira conduta. Kauê, do início do capítulo: escroto aumentado (2) mais testículo duro (2) mais testículo alto (1) mais reflexo ausente (1) mais vômito (1) somam 7 — alto risco, cirurgia. Um segundo paciente, 13 anos, com 8 horas de dor, escroto aumentado (2), testículo alto (1) e reflexo ausente (1), mas consistência preservada e sem vômito: total de 4 — risco intermediário, e é exatamente essa faixa que o ultrassom serve.
O que o escore não faz precisa estar tão claro quanto o que ele faz. Na soma de cinco estudos prospectivos com 1.060 meninos, a proporção de torção foi de 2,2% na faixa de baixo risco (15 de 691), 22,3% na intermediária (47 de 211) e 86,7% na alta (137 de 158). Ou seja: alto risco praticamente decide a cirurgia, e baixo risco reduz muito a probabilidade — mas não a zera. A recomendação europeia é literal nesse ponto: os escores não provam nem refutam conclusivamente a torção e não devem ser a única base da decisão. Use o TWIST para organizar a conversa com o urologista e para justificar por escrito por que você não pediu imagem; nunca para mandar para casa um paciente cuja história continua sendo de torção.
Quando a ultrassonografia ajuda, quando ela custa e o que ela não afasta
O exame que fecha o diagnóstico de torção por imagem é a ultrassonografia do escroto com Doppler colorido, que mostra a anatomia do cordão e o fluxo, reduzido ou ausente na torção. O desempenho é bom — sensibilidade descrita entre 63,6% e 100% e especificidade entre 97% e 100% — e melhora muito quando o operador visualiza diretamente a torção do cordão em aparelho de alta resolução, com sensibilidade de 97,3% e especificidade de 99%.
Duas limitações mudam a conduta. Fluxo arterial presente não exclui torção — num estudo multicêntrico, 24% dos 208 meninos com torção confirmada tinham vascularização testicular normal ou aumentada, e laudo de "fluxo preservado" em paciente com história e exame típicos não cancela a cirurgia. E o desempenho é operador-dependente e mais difícil no pré-púbere, além de o exame só valer o que vale se estiver disponível agora.
Daí a régua deste capítulo, que segue a posição da Sociedade Brasileira de Urologia e a recomendação forte da EAU: a ultrassonografia é útil, mas não deve atrasar a intervenção. Alto risco clínico vai para o centro cirúrgico com o urologista acionado, sem imagem; risco intermediário faz o exame se ele estiver disponível de imediato e não empurrar o paciente para a próxima faixa de horas; baixo risco investiga com calma. Sem exame em tempo hábil, a dúvida se resolve na exploração — a diretriz nacional afirma que, havendo dúvida e não havendo recursos propedêuticos que esclareçam o caso, a exploração está indicada. Escroto explorado sem torção custa uma anestesia; escroto não explorado com torção custa o testículo.
O exame não é o vilão — o vilão é pedi-lo para confirmar o que o exame físico já disse, e os números brasileiros do bloco de erros dão a dimensão desse custo.
O que não pedir, e o que pedir quando é epididimite
Não peça cintilografia escrotal: demonstra a irrigação com precisão, mas demanda mais tempo e não está disponível na maioria dos serviços de urgência — a diretriz nacional registra as duas coisas. Não segure a decisão esperando hemograma, proteína C reativa ou exame de urina: leucocitose e urina alterada ocorrem nos dois quadros. E não peça imagem "para documentar" um caso que você já vai operar.
Quando o diagnóstico é epididimite, a investigação muda de finalidade: deixa de responder "é torção?" e passa a responder "qual o agente e o que há por baixo?". No adolescente e no adulto jovem, o método de escolha incorporado ao SUS é a detecção de clamídia e gonococo por biologia molecular; onde não houver, a bacterioscopia pelo Gram do corrimento uretral tem bom desempenho para gonorreia no homem sintomático, e a cultura em meio seletivo permite vigilância de resistência. A esterase leucocitária positiva ou mais de dez leucócitos por campo no sedimento da urina de primeiro jato sugerem infecção sem definir o agente, e servem na ausência dos outros métodos. Exame de urina com urocultura completa o quadro, sobretudo acima dos 35 anos e no suspeito de origem entérica ou obstrutiva. Some a oferta de testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C. Nada disso atrasa o tratamento: o antimicrobiano da epididimite presumida é iniciado na consulta, e no pré-púbere a investigação de anomalia urogenital é agendada para depois da fase aguda.
Duas providências fecham a investigação e não são exames. Se o seu serviço não tem centro cirúrgico ou urologista, o telefonema sai antes de qualquer pedido, e a hipótese escrita na guia é "torção testicular" quando é isso que você suspeita — o rótulo é uma variável de tempo, como o bloco de erros detalha. E comunique o jejum e a hora do início da dor a quem vai receber o paciente: são as duas informações que organizam a fila do centro cirúrgico.
O fluxo da porta ao centro cirúrgico — e as tabelas da decisão
A prioridade é reconhecer torção e reduzir atrasos sem perder analgesia, privacidade e comunicação. O escore apoia o exame; a suspeita clínica continua decisiva.
- 1Examine o escroto e a região inguinal no jovem com dor local ou abdominal sem explicação, com privacidade e consentimento apropriado. Registre início e evolução.
- 2Na suspeita importante, acione imediatamente supervisor e urologia/cirurgia, enquanto oferece analgesia, acesso e jejum. Não esperar terminar a medicação para telefonar.
- 3Examine ambos os lados, posição, consistência, reflexo e estruturas adjacentes. TWIST ajuda a estratificar, mas baixo escore ou sinal isolado não exclui todas as apresentações.
- 4Doppler ajuda quando disponível prontamente e quando a dúvida justifica. Fluxo preservado pode ocorrer em torção parcial/intermitente; imagem não deve atrasar exploração clinicamente indicada.
- 5Sem equipe operatória local, organize transferência imediata. Detorção manual pode ser tentada por profissional experiente como ponte, sem esperar um corte de duas horas e sem retardar a cirurgia.
- 6Alívio após manobra não exclui torção residual. Mantenha exploração e fixação conforme a equipe; duração longa reduz chance de salvamento, mas não permite alta sem avaliação cirúrgica.
- 7Epididimite: escolher antimicrobiano por risco de IST, agente entérico, cultura e gravidade, não pela idade isolada. Alergia relevante exige esquema discutido, sem copiar tratamento de uretrite.
- 8Acompanhe dor, ferida e achados após tratamento. Oriente retorno por piora e seguimento da viabilidade, função e fertilidade conforme o procedimento.
Suspeita típica não espera imagem
Na forte suspeita clínica, a cirurgia deve ser realizada imediatamente e não deve ser adiada para exame de imagem — é a posição da Sociedade Brasileira de Urologia e a recomendação forte da EAU. O ultrassom serve à dúvida, não à confirmação do óbvio.
Fluxo presente não exclui torção
Em 24% de 208 meninos com torção confirmada, a vascularização testicular ao Doppler era normal ou aumentada, porque a obstrução venosa precede a arterial. Laudo tranquilizador em paciente com história e exame típicos não cancela a exploração.
O horário, não 'faz um tempo'
A hora exata do início da dor é o dado que governa a prioridade no centro cirúrgico e a conversa com a família. Anote como horário e calcule a evolução; refazer essa conta é a primeira coisa que quem recebe o paciente vai querer.
O rótulo da guia é tempo
Na série brasileira, a transferência levou 2,8 horas em mediana quando a hipótese registrada era torção e 37,9 horas quando era epididimite. Escrever 'epididimite' por prudência ou por dúvida rebaixa a fila do paciente sem nenhum ganho diagnóstico.
| Achado | Torção do cordão | Torção de apêndice testicular | Epididimite |
|---|---|---|---|
| Início da dor | Súbito, intenso, acorda do sono | Súbito ou em horas, intensidade menor | Gradual, ao longo de 1 a 2 dias |
| Idade típica | Neonato e 12 a 25 anos (pico) | Pré-púbere, faixa etária ampla | Menor de 1 ano e 12 a 15 anos; e adulto sexualmente ativo |
| Ponto de dor máxima | Testículo inteiro | Polo superior, restante indolor | Epidídimo (posterior e inferior) |
| Consistência do testículo | Endurecido | Preservada | Preservada, com epidídimo espessado |
| Posição / eixo | Elevado e horizontalizado (sinal de Angell) | Normal | Normal |
| Reflexo cremastérico | Ausente do lado acometido | Presente | Presente |
| Elevar a bolsa (Prehn) | Não alivia | Sem alívio característico | Costuma aliviar |
| Náusea e vômito | Frequentes | Incomuns | Incomuns |
| Febre | Incomum | Incomum | Mais comum (11% a 19%) |
| Sinal do ponto azul | Ausente | Presente em 10% a 23% | Ausente |
| Sintoma urinário / corrimento | Ausente | Ausente | Pode estar presente |
| Conduta imediata | Exploração cirúrgica de urgência | Anti-inflamatório, analgesia e retorno | Antimicrobiano empírico conforme faixa etária e risco |
Escore TWIST — some, classifique, escreva no prontuário
| Achado | Pontos | Faixa e conduta |
|---|---|---|
| Inchaço testicular | 2 | 0 a 2 — baixo risco: torção em 2,2% (15/691); investigar o diferencial |
| Testículo endurecido | 2 | 3 a 4 — intermediário: torção em 22,3% (47/211); Doppler SE imediato |
| Testículo alto | 1 | 5 a 7 — alto risco: torção em 86,7% (137/158); operar sem imagem |
| Reflexo cremastérico ausente | 1 | Máximo possível: 7 pontos |
| Náusea ou vômito | 1 | Agregado de 5 estudos prospectivos, 1.060 meninos |
O que cada faixa de horas custa — sobrevida testicular após a torção
| Tempo desde o início da dor | Testículo sobrevive em | O que isso muda na conduta |
|---|---|---|
| 0 a 6 horas | 97,2% | Janela de ouro: tudo o que atrasa aqui é caro; nenhuma imagem justifica espera |
| 7 a 12 horas | 79,3% | Ainda alta: correr continua valendo muito a pena |
| 13 a 18 horas | 61,3% | Metade do caminho perdida; a cirurgia segue urgente |
| 19 a 24 horas | 42,5% | Menos da metade; explorar ainda salva parte dos casos |
| 25 a 48 horas | 24,4% | Explorar para definir viabilidade, retirar o inviável e fixar o contralateral |
| Acima de 48 horas | 7,4% | Exploração semieletiva — inviável não é sinônimo de dispensável |
| Entre a 6ª e a 24ª hora | Não há taxa linear individual validada de perda por hora; intervir urgentemente diante de suspeita forte. | É a conta que faz a equipe e a família se mexerem |
Aprofundamento documental — leitura complementar. Revisões de séries clínicas apresentam taxas agregadas de salvamento por intervalos de tempo. Esses grupos diferem em gravidade, grau de torção e outros fatores; não se deve converter suas médias em uma taxa linear de perda por hora para um paciente. O uso clínico da evidência é reconhecer a urgência, inclusive quando já se ultrapassou uma janela frequentemente citada.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Tempo informa probabilidade, não sentença: voltas de 180 a 360 graus podem cursar sem atrofia até 12 horas, enquanto voltas acima de 360 graus produzem atrofia grave já com 4 horas. Como o grau não é medido pelo lado de fora, ninguém deixa de explorar por causa do relógio.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A exploração cirúrgica é o padrão que confirma e o que exclui: a diretriz nacional indica a exploração quando há dúvida e não há recursos propedêuticos que a esclareçam.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Analgesia adequada é parte do exame, não inimiga dele — nenhuma decisão deste capítulo depende de manter alguém com dor.
Aprofundamento documental — leitura complementar. A bilateralidade do defeito de fixação torna a orquidopexia contralateral parte da operação, inclusive quando o testículo acometido é retirado; no recém-nascido, o gesto é o mesmo e o momento é ditado pelos achados clínicos.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo tem duas vias que se separam no primeiro marco: a do paciente que vai para a mesa e a do paciente que vai para casa com receita. As doses vêm das fontes que as sustentam — o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para IST do Ministério da Saúde para os antimicrobianos das infecções sexualmente transmissíveis, a resposta de teleconsultoria do TelessaúdeRS-UFRGS para o esquema empírico da epididimite e a Segunda Opinião Formativa do Telessaúde de Santa Catarina para a analgesia pediátrica —, e as apresentações foram conferidas na RENAME 2024, porque medicamento que o serviço não tem não é conduta.
Minuto zero — analgesia e acionamento da equipe em paralelo
Dois gestos precedem qualquer exame complementar. Prescrever analgesia de verdade, porque dor não é dado diagnóstico a preservar. E, na suspeita típica ou no escore de alto risco, acionar a urologia ou o cirurgião de plantão pelo telefone — antes de solicitar imagem, antes de pedir parecer por escrito, antes de completar a evolução. Jejum a partir do momento em que a hipótese é torção. Se o serviço não opera, o telefonema é para a regulação, e a hipótese escrita na guia é torção testicular.
Prescrição- Dipirona 20 mg/kg por dose, até 4 vezes ao dia, com intervalo mínimo de 6 horas — em adolescente de 50 kg, 1.000 mg por dose, equivalente a 2 mL da solução de 500 mg/mL (apresentações oral e injetável na RENAME 2024; dose pediátrica pela Segunda Opinião Formativa do Telessaúde de Santa Catarina, 2022). Prefira a apresentação em mililitros à prescrição em gotas, que é imprecisa
- Jejum absoluto a partir da suspeita de torção; acesso venoso periférico
- Dor que não cede ao esquema acima em paciente que vai para o centro cirúrgico: opioide intravenoso titulado conforme o protocolo de dor do serviço — titulação em adolescente se faz à beira do leito, com reavaliação, não por tabela
- NÃO prescrever antimicrobiano na suspeita de torção: não há infecção a tratar e a prescrição empurra o raciocínio para o rótulo errado
Primeira hora — o pré-operatório, e a distorção manual quando a mesa demora
Enquanto o centro cirúrgico se organiza, o interno faz o pré-operatório e a conversa. O preparo segue o capítulo de avaliação pré-operatória, com a diferença de ser cirurgia de urgência: nenhum exame de rotina justifica adiar. Se a equipe experiente julgar útil enquanto organiza a cirurgia, a detorção manual pode servir de ponte sem aguardar duas horas: com analgesia adequada, gira-se o testículo no sentido medial para lateral, em direção à coxa ipsilateral, porque a maior parte das torções ocorre no sentido medial. Sucesso é alívio imediato, retorno à posição vertical e não elevada e, havendo Doppler, retorno do fluxo. Cerca de um terço gira no sentido oposto: se a manobra piorar a dor ou encontrar resistência óbvia, tente o outro sentido — e pare. A manobra nunca substitui a cirurgia: em uma série, 17 de 53 pacientes tinham torção residual na exploração, 11 deles após referirem alívio.
Prescrição- Pré-operatório de urgência conforme o capítulo de avaliação pré-operatória; consentimento informado com menção explícita à possibilidade de orquiectomia e à fixação do testículo contralateral
- Detorção manual por médico experiente pode ser ponte enquanto se organiza exploração, sem limiar obrigatório de duas horas e sem atrasar transferência/cirurgia. Registrar hora e resposta; não repetir manobras forçadas nem permitir que o interno as execute sozinho.
- Manter o paciente no serviço e a cirurgia agendada mesmo com alívio completo após a manobra
No centro cirúrgico — o que é feito, e o que o interno precisa entender para conversar depois
A exploração é feita por incisão escrotal, e a diretriz nacional descreve a via pela rafe, que permite acesso aos dois compartimentos. Desfeita a torção, avalia-se a viabilidade: o testículo viável é fixado à parede por pontos e o inviável é removido. A orquidopexia contralateral é recomendada pela mesma incisão, porque o defeito de fixação costuma ser bilateral — e acontece mesmo quando o lado doente foi retirado. Torção em testículo criptorquídico é abordada por via inguinal; nos casos de mais de 24 horas há controvérsia real entre preservar e retirar, tratada no bloco de divergências.
Prescrição- Exploração cirúrgica com avaliação de viabilidade, orquidopexia do lado acometido quando viável e orquiectomia quando inviável
- Orquidopexia contralateral no mesmo ato, inclusive nos casos de orquiectomia
- No recém-nascido: exploração com fixação bilateral, em momento ditado pelos achados clínicos
Pós-operatório imediato e primeiras 24 horas
O pós-operatório é simples, e o trabalho do interno é de vigilância e de palavra. Analgesia por horário, e não conforme necessário; suspensório escrotal; gelo local intermitente; deambulação assim que tolerar. Hematoma escrotal em expansão, febre e dor crescente são as três razões de reabordagem precoce. E resolva ainda na internação a conversa que ninguém quer ter: o que foi encontrado, o que foi feito, o que ainda pode acontecer com o testículo preservado e o que dizer sobre fertilidade.
Prescrição- Analgesia por horário nas primeiras 48 horas: dipirona 20 mg/kg por dose até 4 vezes ao dia (máximo prático de 1 g por dose no adolescente e no adulto), reavaliando a necessidade a cada turno
- Suspensório escrotal, gelo local intermitente nas primeiras 24 horas e repouso relativo por 7 a 10 dias, com abstinência de esporte de contato por 4 semanas
- Não há indicação de antimicrobiano profilático de rotina na exploração escrotal sem infecção
A outra via — quando o diagnóstico é epididimite
Aqui o tratamento começa na consulta, sem esperar resultado, pela mesma lógica de tratar na suspeita que rege a doença inflamatória pélvica. O esquema depende de duas perguntas: o paciente é sexualmente ativo, e qual é a prática sexual. O protocolo nacional de infecções sexualmente transmissíveis define o tratamento das uretrites — ceftriaxona 500 mg intramuscular em dose única com azitromicina 1 g por via oral em dose única, tendo doxiciclina por 7 dias como segunda opção — e descreve a orquiepididimite como complicação ascendente dessas uretrites. Este capítulo adota a doxiciclina por 10 dias no lugar da azitromicina em dose única quando o alvo é o epidídimo, pela diferença entre tratar mucosa uretral e tratar um órgão inflamado e edemaciado, que pede penetração tecidual sustentada por vários dias — é o esquema que a teleconsultoria nacional recomenda. O esquema de uretrite não deve ser copiado automaticamente para epididimite. A síndrome, os patógenos prováveis e as recomendações específicas determinam a duração.
Prescrição- Risco de gonococo/clamídia, independentemente de corte rígido de idade, sem indicação adicional de cobertura entérica — Ceftriaxona 500 mg, por via intramuscular, dose única (frasco-ampola de 500 mg da RENAME 2024; ou 2 mL do frasco de 1 g reconstituído a 250 mg/mL) MAIS Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, por via oral, a cada 12 horas, por 10 dias — 20 comprimidos ao todo (TelessaúdeRS-UFRGS, 2023) Na referência CDC, peso ≥150 kg utiliza ceftriaxona 1 g. Conferir via, reconstituição e concentração final do produto; solução com lidocaína para IM não pode ser usada IV.
- Com prática sexual anal insertiva ou suspeita de agente entérico — Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS Levofloxacino 500 mg, por via oral, 1 vez ao dia, por 10 dias — 10 comprimidos (TelessaúdeRS-UFRGS, 2023)
- Agente entérico provável, com gonorreia afastada e esquema orientado por cultura/resistência, especialmente na uropatia ou após instrumentação — Levofloxacino 500 mg, por via oral, 1 vez ao dia, por 10 dias; segunda opção, sulfametoxazol 400 mg + trimetoprima 80 mg, 2 comprimidos, por via oral, a cada 12 horas, por 10 dias (TelessaúdeRS-UFRGS, 2023)
- Alergia grave à ceftriaxona/cefalosporina: esclarecer a reação e discutir alternativa com infectologia/urologia. Não usar azitromicina 2 g isolada para substituir a cobertura gonocócica na epididimite; esquemas alternativos para essa síndrome têm evidência limitada.
- Sintomáticos — paracetamol 500 a 1.000 mg por via oral até a cada 6 horas OU ibuprofeno 600 mg por via oral até a cada 8 horas, mais elevação escrotal, gelo e repouso (TelessaúdeRS-UFRGS, 2023)
- Parcerias sexuais dos últimos 60 dias — Ceftriaxona 500 mg, IM, dose única MAIS Azitromicina 1 g, por via oral, dose única, com atendimento preferencialmente presencial
- Abstinência sexual até o término do tratamento de todos os envolvidos; oferta de testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C; vacinação quando indicada; notificação conforme a norma — o rastreio e os esquemas das demais infecções sexualmente transmissíveis estão no capítulo próprio
- Menino pré-púbere — antimicrobiano NÃO é regra: indicado apenas quando a urina e a cultura demonstrarem infecção bacteriana; caso contrário, tratamento de suporte, e investigação urológica de anomalia urogenital agendada depois da fase aguda
A via mais simples — torção de apêndice testicular
Confirmada a torção de apêndice testicular pelo exame (dor seletiva do polo superior, testículo de consistência e posição normais, reflexo presente, eventualmente o ponto azul) e, quando necessário, pelo Doppler que mostra fluxo testicular normal, o tratamento é conservador. A recomendação europeia é forte nesse ponto, e o seguimento de seis semanas não mostra atrofia testicular. A exploração fica reservada aos casos duvidosos e à dor persistente. O retorno programado não é formalidade: é ele que pega o diagnóstico errado antes de virar dano.
Prescrição- Analgesia e anti-inflamatório, se apropriado, conforme idade, peso e contraindicações. Os esquemas de ibuprofeno 600 mg e paracetamol 500–1.000 mg são de adulto e não devem ser copiados para menino pequeno. Usar protocolo pediátrico quando aplicável; elevação, repouso relativo e frio protegido conforme tolerância.
- Sem antimicrobiano e sem cirurgia; retorno em 48 a 72 horas, e antes disso se a dor piorar, o testículo endurecer ou surgirem náusea e vômito
Como saber se está funcionando
Reavaliar aqui tem dois horizontes. Nas primeiras horas, o parâmetro é a dor, e ela responde rápido quando o problema foi resolvido — dor que não cede depois de destorcer ou depois de 72 horas de antimicrobiano é diagnóstico errado até prova em contrário. No longo prazo, o parâmetro é o testículo que sobrou: volume, consistência e, mais tarde, fertilidade. Nenhum dos dois se acompanha por exame de rotina; acompanham-se por consulta marcada e por um paciente que sabe o que observar.
Esperado: Alívio imediato e franco, testículo voltando à posição vertical e não elevada, fluxo retornando ao Doppler quando disponível
Se não melhora: Piora ou resistência óbvia indicam que o sentido estava errado — tente o oposto uma vez e pare. E o essencial: alívio completo não cancela a cirurgia; torção residual foi encontrada em 17 de 53 pacientes explorados, incluindo 11 que tinham referido alívio após a manobra.
Esperado: Dor decrescente com analgesia por horário, escroto edemaciado mas amolecendo, ferida limpa, sem febre
Se não melhora: Dor crescente, hematoma escrotal em expansão ou febre são as três razões de reabordagem precoce — comunique a urologia no mesmo turno, não na visita do dia seguinte. Endurecimento progressivo do testículo preservado, com dor, pode ser necrose evoluindo apesar da fixação.
Esperado: Testículo mantendo volume próximo ao contralateral
Se não melhora: Atrofia depois de destorção e fixação adequadas acontece em até metade dos pacientes, inclusive nos avaliados como viáveis na mesa, por lesão de reperfusão. O manejo é urológico e a informação é ética: o paciente e a família precisam ter sido avisados disso antes, porque descobrir sozinho parece erro médico.
Esperado: Dor e edema em queda clara já no segundo ou terceiro dia; resolução completa pode demorar semanas
Se não melhora: Reveja a hipótese antes de trocar a droga: sem melhora em 72 horas, pense em torção não diagnosticada, abscesso escrotal, piocele, tumor testicular e tuberculose geniturinária — e peça ultrassonografia agora, que aqui ela não atrasa nada. Confirmada a hipótese infecciosa, os fatores de persistência estão no protocolo nacional: reexposição a parceria não tratada, tratamento incompleto, outro patógeno ou resistência antimicrobiana.
Esperado: Ausência de febre alta, calafrio, flutuação escrotal, necrose de pele ou crepitação
Se não melhora: Flutuação sugere abscesso e é avaliação urológica com imagem. Crepitação, eritema mal delimitado, odor fétido ou toxemia em diabético, etilista ou imunossuprimido são gangrena de Fournier: antibiótico de amplo espectro, ressuscitação e desbridamento cirúrgico imediato, com o mesmo relógio da torção.
Esperado: Melhora progressiva da dor, retomada das atividades conforme orientado, adesão completa aos 10 dias de antimicrobiano quando prescrito
Se não melhora: Retorno imediato se a dor voltar de forma súbita e intensa, se o testículo endurecer, se surgirem náusea e vômito ou febre. E a orientação que fecha o ciclo: quem já teve episódios de dor testicular forte que passaram sozinhos leva encaminhamento urológico para discutir orquidopexia eletiva — é a única chance de prevenir a próxima torção.
Onde o erro machuca
O dano: Dor testicular pode ser apresentada como dor abdominal, especialmente quando o adolescente sente constrangimento. Se a queixa escrotal não for investigada, a triagem pode atrasar o reconhecimento de torção. O tempo de isquemia e o grau de torção influenciam o salvamento, sem perda linear previsível por hora. Perguntar com privacidade e examinar quando indicado pode evitar espera perigosa.
Como pegar a tempo: Regra fixa: menino ou homem jovem com dor abdominal baixa, inguinal ou com náusea e vômito sem causa clara tem o escroto examinado no primeiro atendimento. Peça o acompanhante para fora por um minuto, refaça a pergunta olhando para o paciente e exponha os dois lados com privacidade e boa luz.
O dano: O exame não estraga testículo; a espera por ele, sim. Na série do Distrito Federal, quem fez ultrassonografia esperou 24,3 horas em mediana até o tratamento contra 7,6 horas de quem não fez, e o serviço que menos pediu imagem foi o que mais salvou testículo — 94,6% entre os que chegaram antes da sexta hora. O dano é silencioso porque o laudo chega bonito e o testículo já foi.
Como pegar a tempo: Estratifique antes de pedir. Alto risco clínico vai para o centro cirúrgico sem imagem — é a posição da Sociedade Brasileira de Urologia e a recomendação forte da EAU. Risco intermediário faz o exame se ele estiver disponível de imediato; se houver previsão de espera, o exame perde a indicação e a urologia é acionada. E, quando não houver recurso propedêutico que esclareça a dúvida, a própria diretriz nacional manda explorar.
O dano: A obstrução venosa precede a arterial, então nas primeiras horas o fluxo pode estar normal ou aumentado: isso aconteceu em 24% de 208 meninos com torção confirmada. O laudo tranquiliza a equipe, o paciente vai para casa com anti-inflamatório e volta 30 horas depois para orquiectomia — com um exame no prontuário que parece justificar a decisão.
Como pegar a tempo: Trate o Doppler como teste que confirma bem e exclui mal na fase inicial: história e exame típicos com laudo normal mantêm a indicação cirúrgica, e essa frase precisa estar escrita na evolução. Onde houver aparelho de alta resolução e operador que visualize diretamente a torção do cordão, o desempenho é outro — mas isso é característica do serviço, não do laudo genérico.
O dano: O rótulo reclassifica a urgência. Na série brasileira, a mediana até a transferência foi de 2,8 horas quando o encaminhamento dizia torção e de 37,9 horas quando dizia epididimite — mais de treze vezes mais tempo, sem nenhum ganho diagnóstico. O paciente entra numa fila de outra velocidade por causa de uma palavra escolhida por prudência mal aplicada.
Como pegar a tempo: Escreva a hipótese que justifica a pressa que você está pedindo, e escreva também o horário de início da dor e as horas de evolução. Dúvida entre os dois diagnósticos se registra como "escroto agudo, torção a descartar" — nunca como o diagnóstico benigno. Telefone antes de escrever: regulação por telefone corre mais que guia por sistema.
O dano: Torção que se resolve espontaneamente costuma voltar, e torção parcial persiste mesmo com alívio franco — em uma série, 17 de 53 pacientes explorados tinham torção residual, 11 deles depois de referirem alívio completo. O paciente sai aliviado, a equipe também, e o testículo se perde na madrugada seguinte, dessa vez com o quadro completo e horas a mais.
Como pegar a tempo: Alívio não é alta. Pergunte ativamente por episódios anteriores de dor testicular forte que passaram sozinhos — a resposta positiva define torção intermitente e indica encaminhamento urológico para orquidopexia eletiva. Quem melhorou após distorção manual permanece internado e vai para a mesa do mesmo jeito.
O dano: Nenhum achado tem esse poder. A diretriz brasileira de 2006 afirma que a presença do reflexo cremastérico exclui a hipótese de torção, apoiada em evidência de série de casos; a leitura agregada de hoje não sustenta a categoria — na soma de cinco estudos prospectivos com 1.060 meninos, mesmo a faixa de baixo risco teve 2,2% de torção. O sinal de Prehn tem baixa eficácia na prática clínica.
Como pegar a tempo: Some os achados em vez de eleger um: calcule o escore, escreva-o no prontuário e trate-o como organizador da decisão, nunca como veredicto — a recomendação europeia diz que os escores não provam nem refutam a torção e não devem ser a única base da conduta. Baixo risco não é alta automática: é reavaliação pessoal antes de liberar.
O dano: Quem recebe só o antibiótico do paciente índice recidiva, mantém a cadeia de transmissão e deixa passar coinfecções. A anamnese sexual pulada por constrangimento também erra o agente: prática anal insertiva muda o provável para enterobactérias e muda a droga.
Como pegar a tempo: Faça a anamnese sexual sem a família na sala, com perguntas concretas. Trate as parcerias dos últimos 60 dias, ofereça testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, oriente abstinência até o fim do tratamento de todos e notifique quando indicado — o rastreio e os esquemas das demais infecções sexualmente transmissíveis estão no capítulo próprio. No pré-púbere, o oposto: antibiótico não é regra, e o que fica pendente é a investigação urológica depois da fase aguda.
O dano: O nihilismo custa o testículo que ainda dava para salvar, custa a fixação do lado contralateral e deixa no escroto um órgão necrótico. A sobrevida é significativa além da sexta e da oitava hora, e mesmo entre 25 e 48 horas há 24,4% de testículos viáveis — a advertência contra o nihilismo está no comentário editorial ao próprio estudo brasileiro.
Como pegar a tempo: Explore mesmo tarde, em caráter semieletivo quando o quadro passa de 24 horas: define viabilidade, retira o inviável e fixa o testículo contralateral, que é o que vai sustentar a fertilidade e a função hormonal desse paciente pelo resto da vida.
O que dizer ao paciente e à família
Quase todo atraso deste capítulo é feito de silêncio: o do adolescente que não sabe nomear onde dói, o do médico que não pergunta, o da família que não entende por que a pressa. As falas abaixo são as que desmontam cada um desses silêncios.
Ao adolescente, com o acompanhante fora da sala, quando a queixa é dor abdominal
“Kauê, vou pedir para a sua mãe esperar lá fora um minuto, porque a próxima pergunta é sua. Dor forte de barriga em quem tem a sua idade muitas vezes na verdade começa no saco, no testículo, e é uma coisa que a gente resolve rápido se souber logo. Não tem nada de errado nem de vergonhoso em falar disso comigo — é do pescoço para baixo, é medicina, e eu pergunto isso o dia inteiro. Começou onde e a que horas? Vou precisar olhar, com a porta fechada, e leva menos de dois minutos.”
Não diga: Examinar por baixo do lençol para "poupar" o paciente — a exposição adequada dos dois lados é o que faz o diagnóstico, e o constrangimento de quem examina custa testículo. Perguntar com a mãe na sala e aceitar o primeiro "não". E não brinque com o assunto: humor aqui fecha o adolescente de vez.
À família, explicando por que vai direto para a cirurgia sem exame de imagem
“O que eu encontrei no exame é muito compatível com torção do testículo: o cordão que leva o sangue girou e o testículo está sem circulação. É uma emergência de relógio — cada hora diminui a chance de salvar. Existe um ultrassom que ajuda quando há dúvida, mas aqui o exame já deu a resposta, e esperar por ele só gastaria a hora de que a gente precisa. Já chamei a urologia, ele está em jejum e vamos para o centro cirúrgico.”
Não diga: Prometer que o testículo será salvo — não há como saber antes de abrir. Dizer "é só uma olhadinha" sobre uma cirurgia que pode terminar em retirada do testículo: o consentimento precisa incluir essa possibilidade e a fixação do outro lado. E não culpe ninguém pela demora, nem o menino nem a mãe.
Depois da cirurgia, quando foi preciso retirar o testículo
“Vou ser direto com vocês, porque merecem clareza. Quando abrimos, o testículo esquerdo já não tinha circulação recuperável e precisou ser retirado. O direito estava normal e foi fixado no mesmo tempo cirúrgico, justamente para que isso não aconteça do outro lado — essa fixação é a parte mais importante da cirurgia de hoje para o futuro dele. O que eu posso dizer com segurança: um testículo saudável sustenta a produção de hormônio, então puberdade, voz, pelos e vida sexual seguem normalmente. Sobre fertilidade, não dá para prometer nada agora; a maioria dos homens com um testículo tem filhos, e existe acompanhamento para isso. Existe também prótese testicular, que a urologia discute com vocês mais adiante, sem pressa nenhuma.”
Não diga: Encerrar no "deu tudo certo". Prometer fertilidade preservada — ou, no extremo oposto, anunciar infertilidade, que não é verdade. Falar de prótese no mesmo minuto da notícia, antes de o paciente absorver a perda. E não use "perdemos o testículo" repetidamente: nomeie uma vez, com clareza, e depois fale do que resta e do que se faz.
Ao adolescente com epididimite por infecção sexualmente transmissível, sem a família na sala
“O que você tem é uma inflamação do epidídimo, que fica atrás do testículo, e a causa mais comum na sua idade é uma infecção que se pega em relação sexual. Isso tem tratamento e melhora bem — uma injeção hoje e um comprimido de doze em doze horas por dez dias, e você precisa tomar todos, mesmo quando a dor sumir no terceiro dia. Duas coisas dependem de você: nada de relação até todo mundo terminar o tratamento, e as pessoas com quem você teve relação nos últimos dois meses precisam se tratar também, senão você se reinfecta. Vou te oferecer exames de HIV, sífilis e hepatites, que é rotina para todo mundo nessa situação. E, se quiser, a gente combina o que dizer em casa — eu não conto nada sem você.”
Não diga: Dar sermão, moralizar ou perguntar em tom de interrogatório: o adolescente que se sente julgado omite a informação que muda o antibiótico. Contar à família sem combinar com ele — a confidencialidade do adolescente é regra, e a exceção é risco à vida. E não deixe as parcerias por conta do acaso: sem esse combinado, o tratamento falha.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Imagem primeiro, com a cirurgia reservada à torção confirmada e à dúvida
A diretriz nacional de escroto agudo desenha um fluxo em que o atendimento imediato é seguido de ultrassonografia com Doppler, e dela saem dois caminhos para a cirurgia: torção confirmada e dúvida diagnóstica. O argumento é o desempenho do método — pouco invasivo, de custo acessível, mostrando a anatomia do cordão e o fluxo — e a consequência de operar escrotos que não precisavam ser abertos, num diagnóstico em que dois terços dos casos de escroto agudo não são torção.
Sociedade Brasileira de Urologia e Colégio Brasileiro de Radiologia — Escroto Agudo: Diagnóstico e Tratamento, Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2006
Cirurgia primeiro na suspeita forte; imagem só para a dúvida e só se imediata
A própria Sociedade Brasileira de Urologia, em material de campanha de 2024, afirma que a cirurgia não deve ser adiada para exames de imagem e que, na forte suspeita clínica, deve-se operar imediatamente; a recomendação europeia é de força forte no mesmo sentido — basear o diagnóstico no exame físico, com o Doppler útil desde que não atrase a intervenção. Os dados brasileiros sustentam a preocupação: quem fez ultrassonografia esperou 24,3 horas contra 7,6 horas, e o serviço que menos pediu imagem foi o que mais salvou testículo.
Sociedade Brasileira de Urologia — folheto da campanha Novembrinho Azul, 2024; EAU Guidelines on Paediatric Urology, Acute Scrotum, 2025; Dias Filho et al., Int Braz J Urol, 2020
A divergência é menos entre médicos e mais entre dois momentos da mesma sociedade, e o que mudou entre eles foi a medida do custo da espera. Decida por disponibilidade e por reversibilidade do erro. Ultrassom disponível em minutos, com operador experiente, agrega em qualquer faixa de risco e não custa nada. Havendo previsão de espera — sobreaviso, transporte, fila —, o exame vira atraso, e o alto risco vai para a mesa sem ele. Explorar um escroto que não tinha torção custa uma anestesia e uma cicatriz; o erro inverso custa o órgão, e é irreversível.
Sim, nos extremos: o escore substitui o exame nas duas pontas
Na validação original, com 338 pacientes menores de 18 anos, o ponto de corte de 2 alcançou valor preditivo negativo e sensibilidade de 100%, e o ponto de corte de 5 alcançou valor preditivo positivo e especificidade de 100% — o que sustentaria afastar torção sem imagem no baixo risco e indicar exploração direta no alto risco, reservando a ultrassonografia à faixa intermediária. É essa lógica que torna o escore atraente no pronto-socorro sobrecarregado, e é ela que a Sociedade Brasileira de Urologia divulga em material próprio.
Barbosa JA et al., J Urol, 2013; Sociedade Brasileira de Urologia — folheto da campanha Novembrinho Azul, 2024
Só na ponta de cima: baixo risco reduz, mas não zera
Na soma de cinco estudos prospectivos com 1.060 meninos, a faixa de baixo risco teve 2,2% de torção — 15 pacientes em 691. A recomendação europeia diz de forma direta que os escores não provam nem refutam conclusivamente o diagnóstico e não devem ser a única base da decisão, e mantém como recomendação forte que o diagnóstico se baseie no exame físico. Sob essa leitura, o escore prioriza e organiza, mas não dá alta.
American Academy of Family Physicians — Point-of-Care Guides, Am Fam Physician, 2022; EAU Guidelines on Paediatric Urology, Acute Scrotum, 2025
As duas posições concordam no alto risco, e é por isso que ali a conduta é firme: opere. A discordância real está embaixo, e ela se decide pela gravidade do que se deixa passar. Dois em cada cem é uma taxa pequena para um resfriado e enorme para um órgão perdido, então baixo risco não vira alta: vira reavaliação pessoal antes de liberar, orientação explícita de retorno imediato se a dor mudar de caráter, e retorno programado em 24 a 48 horas. Se a história é típica de torção e o escore ficou baixo, acredite na história — o escore mede o exame de agora, e a doença tem horas.
Retirar o inviável
A diretriz nacional é objetiva: testículos inviáveis devem ser removidos devido aos efeitos deletérios sobre o testículo normal — lesão imunológica e inflamatória a partir do tecido necrótico, que colocaria em risco o órgão remanescente. Há ainda o dado de morfologia espermática melhor após orquiectomia.
Sociedade Brasileira de Urologia e Colégio Brasileiro de Radiologia — Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2006; dados de qualidade seminal citados no capítulo de escroto agudo da EAU, 2025
Preservar salvo necrose inequívoca
A leitura europeia reconhece a controvérsia e inclina-se para a preservação: a qualidade seminal foi preservada tanto após orquiectomia quanto após orquidopexia em comparação com controles normais, e volumes testiculares maiores associaram-se a melhor função testicular — o que sugere abordagem conservadora, mantendo o testículo acometido a menos que esteja inequivocamente necrótico, inclusive pela contribuição endócrina residual.
EAU Guidelines on Paediatric Urology, Acute Scrotum, edição de 2025
A decisão é do cirurgião na mesa, mas entender os eixos muda o consentimento e o seguimento. Pesa para preservar: paciente jovem, testículo que recupera cor e sangramento após a destorção, dúvida genuína. Pesa para retirar: necrose franca e inequívoca, tecido que não responde após observação, preferência do paciente esclarecida antes. O que não muda em nenhuma das posições — e por isso precisa estar no consentimento e na descrição cirúrgica — é a fixação do testículo contralateral, a única parte da operação que protege o futuro reprodutivo desse paciente.
O raciocínio, em voz alta
Domingo, 2h10, pronto-socorro. Vitor, 16 anos, dor no testículo direito desde as 16h de ontem — dez horas. Refere ardência para urinar há uns três dias e diz, quando a mãe sai, que teve relação sem preservativo há duas semanas. Está afebril. O escroto direito está aumentado e avermelhado; o testículo dói difusamente, tem consistência que você acha preservada e está em posição vertical; o reflexo cremastérico não responde à direita e responde à esquerda; vomitou uma vez. A ultrassonografia com Doppler está disponível — o técnico chega em trinta minutos.
O que penso antes de encostar no paciente
A história tem dois vetores em direções opostas. Dor de instalação relativamente rápida com vômito e dez horas de evolução puxa para torção; ardência urinária e relação desprotegida recente puxam para epididimite por infecção sexualmente transmissível. O reflexo natural é deixar o segundo vetor ganhar, porque ele explica tudo com uma história 'que faz sentido'. Guardo a regra dura: escroto agudo é torção do cordão até que se prove o contrário — sintoma urinário não é prova de nada.
O que procuro no exame, e o que encontro
Procuro os quatro discriminadores. Ponto de dor máxima: difuso pelo testículo, não isolado no epidídimo — ponto para torção. Consistência: eu acho preservada, e registro assim, porque escroto muito edemaciado engana a palpação. Posição e eixo: vertical, sem sinal de Angell — ponto contra torção. Reflexo cremastérico: ausente à direita — ponto para torção. Elevo a bolsa: sem alívio claro. Somo o escore: inchaço 2, reflexo ausente 1, vômito 1, sem testículo duro e sem testículo alto — total 4, risco intermediário.
O que o escore muda — e o que ele não resolve
Quatro pontos me colocam na faixa em que cerca de um em cada cinco pacientes tem torção. Não é a faixa de operar direto, e também não é a faixa de mandar para casa com antibiótico. É exatamente a faixa em que a imagem foi feita para servir. Como ela está disponível em trinta minutos e não empurra o paciente para a próxima faixa de horas, ela vale a pena aqui — a régua não é 'nunca pedir ultrassom', é 'nunca esperar por ele'.
O que faço enquanto o exame não sai
Nada disso é tempo morto: prescrevo dipirona, deixo o paciente em jejum, aviso o cirurgião de plantão que há um caso de risco intermediário que pode ser chamado em uma hora, e faço a anamnese sexual com a mãe fora da sala. Se o técnico atrasar, a conduta muda sozinha — passa a valer o mesmo que alto risco.
Como a resposta muda o que eu penso
O laudo descreve testículo direito aumentado, epidídimo espessado e fluxo arterial presente, porém reduzido em relação ao contralateral. Aqui está a armadilha fina: fluxo presente não exclui torção, e epidídimo espessado é achado inflamatório secundário, que pode acompanhar torção. Peço ao radiologista o que realmente decide: ele consegue ver o cordão? Ele descreve rotação do cordão espermático acima do testículo.
A decisão
Torção do cordão espermático com dez horas de evolução, agora com imagem compatível. Chamo a urologia com essas palavras e com o horário: início às 16h, exame às 2h30, dez horas e meia. Deixo escrito o escore e o achado do cordão. Vitor vai para a mesa às 4h, com onze horas e meia — dentro da faixa em que cerca de quatro em cada cinco testículos ainda sobrevivem. Na exploração, o cordão está girado uma volta e meia; destorcido, o testículo recupera cor, é fixado, e o esquerdo é fixado pela mesma incisão.
O que fica pendente
A ardência urinária continua existindo, e a torção não a explica. Com relação desprotegida recente, colho biologia molecular para clamídia e gonococo, ofereço testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C, e trato conforme o resultado e o quadro uretral — a suspeita de uma doença não anula a outra. Registro a orquidopexia bilateral, oriento retorno em 7 a 10 dias e consultas de seguimento em 1, 3 e 6 meses para acompanhar o volume testicular, avisando desde já que atrofia tardia pode acontecer mesmo com cirurgia bem-sucedida.
Faça você
Terça-feira, 11h, unidade de pronto atendimento sem centro cirúrgico. Ian, 15 anos, com dor no testículo esquerdo que começou anteontem à noite, por volta das 22h — trinta e sete horas. Passou por outro serviço ontem de manhã, saiu com diagnóstico de epididimite e ibuprofeno, e piorou. Temperatura axilar de 37,8 °C. O escroto esquerdo está muito aumentado, quente, avermelhado e endurecido; a palpação é difusamente dolorosa e não permite distinguir testículo de epidídimo; o reflexo cremastérico não responde à esquerda; elevar a bolsa não alivia. Sem sintoma urinário, sem corrimento, sem atividade sexual. O médico que o atendeu ontem anotou 'quadro infeccioso, manter anti-inflamatório'.
achado
Adolescente de 15 anos com 37 horas de dor escrotal unilateral de início súbito noturno, escroto inflamado e endurecido, reflexo cremastérico ausente do lado acometido, Prehn sem alívio, febrícula, sem sintoma urinário e sem atividade sexual. Diagnóstico prévio de epididimite feito sem exploração e sem imagem, com piora sob anti-inflamatório.
interpretação
Três leituras independentes. Primeira: nada aqui aponta para epididimite — a idade não é a de infecção sexualmente transmissível, não há sintoma urinário nem corrimento, e febrícula com escroto muito inflamado é o que a torção antiga produz. Segunda: o escore não ajuda a afastar nada, porque com 37 horas o exame já perdeu nitidez, e o que resta são inchaço, endurecimento e reflexo ausente — todos compatíveis com torção. Terceira: o tempo não é motivo para desistir, e sim para não perder mais nenhuma hora.
conduta
— sua vez —
Continuidade do caso e prática do internato
Reapresente o caso tardio com os horários e as prioridades, explicando à família o objetivo da cirurgia sem garantir viabilidade ou atribuir culpa.
Questão integrativa 1
É necessário esperar a analgesia fazer efeito antes de chamar a equipe?
Questão integrativa 2
Fluxo no Doppler exclui torção?
Questão integrativa 3
A dor já tem 37 horas. A urgência acabou?
Questão integrativa 4
A manobra aliviou completamente a dor. Pode dar alta?
Questão integrativa 5
Um homem de 50 anos pode ter epididimite por IST?
Questão integrativa 6
Por que não substituir ceftriaxona por azitromicina em alta dose por conta própria?
Ver como fecharíamos
Analgesia imediata e jejum; telefonar à regulação antes de qualquer exame, com a hipótese escrita como torção testicular — nunca como epididimite, o rótulo que já custou um dia a este paciente —, informando o horário de início, as horas de evolução e o jejum. Não solicitar ultrassonografia se ela implicar espera: em 37 horas a exploração está indicada de qualquer modo, para definir viabilidade, retirar o testículo se necrótico e fixar o contralateral. Não prescrever antimicrobiano, que não trata isquemia. Explicar à família, sem culpar o serviço anterior, que a chance de salvar nesta faixa é baixa (24,4% entre 25 e 48 horas) e por que a cirurgia continua indicada. Registrar objetivamente os achados e todos os horários. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Analgesia e contato são simultâneos. O alívio da dor não prejudica a decisão clínica e não deve criar uma etapa de espera. 2. Não em todas as formas. Torção parcial ou intermitente pode preservar fluxo. A discordância com história/exame exige discussão cirúrgica imediata. 3. Não. O salvamento é menos provável, mas a exploração e a avaliação de viabilidade continuam indicadas conforme a equipe, além da proteção contralateral. 4. Não. Pode haver torção residual, e a fixação continua necessária. A manobra é ponte feita por profissional experiente, nunca substituto de tratamento definitivo. 5. Sim. História e exposição importam mais que o corte etário. Investigue gonococo/clamídia e agentes entéricos conforme o contexto. 6. A cobertura e a evidência não são equivalentes para epididimite. Esclareça alergia e discuta alternativa com especialista, mantendo o diagnóstico diferencial de torção.
O escore soma inchaço 2, testículo endurecido 2, testículo alto 1, reflexo ausente 1 e náusea ou vômito 1. Aqui há inchaço (2), testículo alto (1) e reflexo ausente (1): total 4, faixa intermediária, com cerca de 22% de torção — nem alta, nem cirurgia direta. É a faixa para a qual a imagem existe, e ela está disponível sem empurrar o paciente para a próxima faixa de horas. Se o exame atrasasse, a conduta passaria a ser a do alto risco.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo: (1) recite os cinco itens do escore TWIST com a pontuação de cada um, as três faixas e o que fazer em cada uma; (2) descreva os sete gestos do exame do escroto e diga, para cada achado, o que ele sugere e o que ele NÃO exclui; (3) no seu próximo plantão, examine o escroto de todo menino e todo homem jovem que chegar com dor abdominal baixa — e conte quantos deles tinham sido classificados apenas como 'dor abdominal' na triagem.
Em 30 dias
Teste de retenção de longo prazo: (1) monte de memória a tabela do diferencial entre torção do cordão, torção de apêndice testicular e epididimite, com início, ponto de dor máxima, consistência, posição, reflexo, Prehn e conduta; (2) explique como tempo de isquemia e grau de torção influenciam o salvamento, e por que taxas agregadas não permitem prever perda linear por hora em um indivíduo; (3) escreva por extenso o esquema antimicrobiano da epididimite do menor de 35 anos sexualmente ativo, com dose, via, frequência e duração, e diga o que muda na prática anal insertiva, acima dos 35 anos e no menino pré-púbere; (4) explique por que fluxo arterial presente ao Doppler não exclui torção, e por que escrever 'epididimite' numa guia de transferência é uma decisão sobre tempo.
Agora atenda
Você é o interno do pronto-socorro num domingo de manhã. Adolescente de 15 anos trazido pela mãe com queixa registrada na triagem como dor abdominal desde a madrugada, com dois episódios de vômito. Está inquieto, muda de posição na maca e o abdome não explica a dor. Colha a história, examine com a exposição adequada, calcule o tempo de evolução, decida se pede imagem ou aciona a urologia, prescreva analgesia e conduza a conversa com o paciente e com a mãe.
