Cirurgia Geral › Urologia
A dor que não deixa ficar parado
Litíase urinária e cólica nefrética (conduta)
Aliviar a dor, reconhecer infecção e risco renal, escolher a imagem e decidir entre observação e desobstrução urgente. Obstrução infectada é uma emergência, mas não é a única situação que exige intervenção.
Carvalho M, Matos ACC, Santos DR, Barreto DV, Barreto FC, Rodrigues FG, Pietrobom IG, Luz LG, Constancio NS, Gomes SA, Heilberg IP. Diretrizes Brasileiras para diagnóstico e tratamento clínico da Nefrolitíase: Sociedade Brasileira de Nefrologia. Braz J Nephrol. 2025;47(2):e20240189. DOI 10.1590/2175-8239-JBN-2024-0189pt. Submetida 10/10/2024, aprovada 26/11/2024, publicada em 10/03/2025.
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EAU 2026 — Urolithiasis [Acessar fonte](https://uroweb.org/guidelines/urolithiasis/chapter/guidelines)
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Homem de 41 anos, 78 kg, chega ao pronto-socorro às 3h40 com dor lombar esquerda de início súbito há uma hora e vinte, irradiando para a virilha, com um episódio de vômito. Está no corredor andando, senta e levanta, e não encontra posição. Pressão 148 por 92, frequência 104, temperatura axilar 36,4. Abdome flácido, sem descompressão dolorosa. Nega doença renal e nega cálculo prévio. O tomógrafo depende de técnico de sobreaviso, que chega em cerca de uma hora. Qual é a conduta imediata?
O paciente que você vai ver
Quatro e dez da manhã de uma quarta-feira. O hospital é geral, atende uma região de duzentos mil pessoas e tem o pronto-socorro clínico no térreo, do lado da rampa das ambulâncias; você é o interno escalado para esta noite. Onze pessoas esperam sentadas no corredor e, entre elas, há um homem que não consegue sentar. Ele levanta, anda seis passos, encosta a testa na parede, volta, senta por vinte segundos, levanta de novo. A técnica de enfermagem, a Firmina, aponta com o queixo e diz a frase que resume a noite dela: “esse aí é o da lombar, doutor, já pedi pra ele parar quieto três vezes”.
Odair Catarino tem 41 anos, 78 quilos, é montador de móveis e chegou de carro com o cunhado às três e quarenta. A dor começou em casa, às duas e vinte, do lado esquerdo, nas costas, e ele sabe a hora porque acordou com ela. Não é uma dor que aumenta devagar: em quinze minutos estava insuportável. Desce para a virilha. Ele vomitou uma vez no estacionamento. Nunca teve nada parecido. A triagem escreveu dor lombar, pulseira amarela, e a ficha está na pilha.
Na maca 3, a dois metros de distância, há outro paciente com dor abdominal. Esse não se mexe. Está deitado, com os joelhos dobrados, e quando você encosta a mão na barriga ele segura o seu punho. São duas dores diferentes e a diferença aparece antes de qualquer exame: a dor visceral pura procura posição, a dor peritoneal foge do movimento. Quem tem cólica ureteral anda, senta, deita, vira, ajoelha, e nada resolve. Quem tem peritônio irritado fica imóvel porque o movimento custa caro. Essa observação de corredor vale mais que a primeira meia hora de conversa, e é de graça.
O que a diretriz brasileira de nefrolitíase de 2025 diz sobre essa dor confirma o que o corredor mostra: a dor da cólica ureteral começa súbita, intensa e unilateral, vem em ondas de vinte a sessenta minutos, e não é aliviada pelo repouso nem pela mudança de posição. E acrescenta uma frase que reorganiza a cabeça do interno: a gravidade da dor está mais relacionada à velocidade de instalação da obstrução do que à intensidade dela. Traduzindo: um cálculo pequeno que entope depressa dói mais que um cálculo grande que entope devagar. O tamanho da dor não mede o tamanho do problema, e essa é a primeira armadilha da noite.
Este capítulo é sobre as cinco decisões que o interno toma diante do Odair, nesta ordem: dar analgesia e escolher qual; pedir ou não imagem, e qual; decidir se ele fica ou vai para casa; reconhecer, entre todos os pacientes com cólica, quem precisa de avaliação urológica urgente hoje; e escrever o que ele leva para casa, incluindo uma instrução que quase ninguém dá e que a diretriz brasileira prescreve por escrito. Fecha na prevenção, porque litíase é doença de repetição e a consulta de retorno é onde ela se resolve — ou não.
Nenhuma dessas cinco decisões é de especialista. O interno não escolhe entre nefrostomia e cateter duplo J, não indica litotripsia e não interpreta uma urina de 24 horas — essas coisas são do urologista e do nefrologista, e o capítulo diz onde elas começam. O que é dele, e é dele todas as noites, é a ordem em que as coisas acontecem nas primeiras duas horas: o que se prescreve primeiro, o que se pede, o que se procura, quem se chama e o que se escreve. É por essa ordem que os desfechos ruins deste tema acontecem, e não por falta de conhecimento cirúrgico.
Duas listas antes do resto, e a primeira é a do que sai daqui. Cistite, pielonefrite sem obstrução e bacteriúria sem sintoma pertencem ao capítulo Nem toda bactéria é uma doença, em Nefrologia. Entre os dois capítulos existe um único paciente disputado, o da pielonefrite obstruída, e o corte foi combinado em uma linha: identificar e tratar a bactéria é lá, abrir a saída da urina é aqui. O rim que perde função aguda por causa da obstrução é assunto de Injúria renal aguda, e o rim que perde função ao longo de anos é do capítulo de doença renal crônica — os dois em Nefrologia. A dor de barriga sem nome, com a lista inteira de quem opera e quem investiga, fica com Dor abdominal no pronto-socorro. O aneurisma de aorta abdominal, que produz exatamente esta dor e é o que mais mata sob este rótulo, pertence a Cirurgia Vascular: aqui ele aparece como diferencial obrigatório e nunca é desenvolvido. Quem chegar em choque com foco urinário é de Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora. Dor no testículo é do vizinho de posição 1 desta apostila, Escroto agudo.
A segunda lista é a do que fica, por não ter dono em lugar nenhum do nível — e fica declarado. Qual analgésico usar nesta dor, com a conta do que a rede pública de fato dispensa. Qual imagem pedir na crise e por que a resposta mudou. Quanto tempo é razoável esperar que o cálculo saia sozinho, pergunta para a qual não existe resposta clínica brasileira e existem duas respostas administrativas diferentes. A grávida com cólica, que nem a Obstetrícia nem a Urologia do nível cobrem. E a prevenção da próxima crise, tema de nefrologistas no Brasil, que ficaria órfão se este capítulo o devolvesse.
Um aviso de método. A conferência das contas dos documentos oficiais usados aqui encontrou seis inconsistências aritméticas, duas delas em doses de medicação e uma numa tabela de pronto-socorro publicada em 2025. Todas estão abertas, com a conta refeita, no bloco de critério. Nenhuma invalida os documentos; todas seriam copiadas sem hesitação por um interno com pressa.
Quem adoece disso
A diretriz brasileira de 2025 abre com o número que explica por que este capítulo existe: a nefrolitíase afeta entre 10% e 15% da população, com predomínio masculino na proporção de 2 a 3 homens para cada mulher. Não é doença rara vista uma vez no internato. É doença que você vai atender em todos os plantões de porta que fizer, e cujo pico de incidência cai exatamente na faixa de idade que mais usa pronto-socorro por conta própria.
O que faz dela um problema de saúde pública não é a crise, é a recorrência. A própria diretriz reproduz as taxas acumuladas de um estudo populacional: 11% em dois anos, 20% em cinco, 31% em dez e 39% em quinze anos. Quatro em cada dez pessoas que tiveram um cálculo terão outro dentro de quinze anos. Esse número é a razão de o capítulo não terminar na alta do pronto-socorro: a consulta que evita a próxima crise não acontece no plantão, e se ninguém a marcar ela não acontece nunca.
Os fatores que aumentam a chance de repetir, na lista da mesma diretriz, são idade jovem, sexo masculino, história familiar, cálculos prévios assintomáticos ou não obstrutivos, cálculo renal pélvico ou de polo inferior visto em imagem, hematúria macroscópica e cálculo de ácido úrico. Repare que dois deles — cálculo assintomático e cálculo de polo inferior — só existem se alguém tiver feito uma imagem. É o tipo de fator de risco que o pronto-socorro produz sem saber, ao pedir uma tomografia por outro motivo.
A litíase também tem companhia. A diretriz registra a associação da doença litiásica com doença cardiovascular, diabetes mellitus e obesidade, e recomenda adequação de peso e adesão a padrão de dieta mediterrânea ou do tipo que a literatura de hipertensão consagrou, independentemente do perfil metabólico encontrado. Quem forma cálculo não é só um trato urinário com um problema mecânico; costuma ser uma pessoa com um perfil metabólico que aparece em outros lugares.
Um dado epidemiológico de plantão, e não de população, merece registro aqui porque muda a leitura do exame de urina. Num estudo retrospectivo de mais de 450 pacientes com ureterolitíase documentada por tomografia, citado pela diretriz brasileira, a hematúria estava presente em 95% no primeiro dia, mas caía para 65% a 68% no terceiro e no quarto dia. E a mesma diretriz registra que a hematúria pode simplesmente não ser detectada em 10% a 30% dos pacientes com cólica nefrética. O exame de urina do paciente que chega no quarto dia de dor é um exame com um terço de chance de estar normal com o cálculo lá dentro.
Por fim, a epidemiologia dos sintomas de acompanhamento, que serve para não se assustar com eles: náuseas em 44%, vômitos em 51%, anorexia em 54% e constipação ou diarreia em 10% dos pacientes com cólica. Metade vomita. Vômito, portanto, não é sinal de complicação nem de abdome cirúrgico nesse contexto — é parte do quadro, e é a razão pela qual a analgesia oral costuma falhar antes de ter chance de funcionar.
Há ainda uma epidemiologia da própria doença que muda a leitura do exame de imagem e que o interno raramente ouve: a litíase não é uma doença só. A composição do cálculo divide os pacientes em grupos com prognósticos e tratamentos diferentes, e a diretriz brasileira organiza a escala de densidade tomográfica exatamente nessa ordem crescente — ácido úrico, estruvita, cistina, oxalato de cálcio monoidratado e hidroxiapatita. Os de oxalato de cálcio são a maioria. Os de estruvita nascem de infecção urinária de repetição, sobretudo por bactérias do gênero Proteus, e podem crescer até ocupar o sistema coletor inteiro na forma coraliforme. Os de ácido úrico são radiotransparentes e são os únicos que se dissolvem com alcalinização. Cálculo é substantivo coletivo, e a pergunta de que material ele é feito não é curiosidade acadêmica: é o que decide o remédio que impede o próximo.
A doença também se apresenta calada. A mesma diretriz registra que a nefrolitíase pode ser inteiramente assintomática e diagnosticada por acaso num exame pedido por outro motivo, pode causar apenas uma dor vaga nos flancos, pode se manifestar pela eliminação espontânea de um cálculo sem dor nenhuma, ou pode aparecer como infecção urinária de repetição. Essa variedade explica um fenômeno de plantão: o paciente que chega com a primeira crise da vida frequentemente não está tendo a primeira pedra da vida. Perguntar por episódios prévios de dor no flanco, por infecções urinárias repetidas e por achados incidentais em exames antigos muda a classificação dele de formador único para formador recorrente, e essa classificação decide se ele precisa ou não de investigação metabólica.
Por que acontece o que acontece
O cálculo não dói. O que dói é a obstrução que ele produz, e é por isso que a dor da cólica não guarda proporção com o tamanho do que a causa. A diretriz brasileira descreve a cadeia em três elos: espasmo da musculatura lisa ureteral, edema e inflamação decorrentes da obstrução, e aumento da peristalse com elevação da pressão a montante do cálculo. Quem sente a dor é o ureter e a cápsula renal distendida acima dele, não a pedra.
Esses três elos explicam a escolha da droga, e a explicação é a coisa mais útil deste capítulo. O anti-inflamatório não hormonal age no elo do meio: ao inibir a síntese de prostaglandinas, reduz a inflamação e a hiperatividade muscular do ureter, e reduz também a filtração glomerular do rim obstruído, o que baixa a pressão dentro do sistema coletor. Ele desfaz a causa da dor. O opioide age no cérebro: silencia a percepção da dor sem tocar em nada do que a produz. O anti-inflamatório trata o mecanismo, o opioide trata a queixa — e é daí que sai a recomendação de grau A, e não de uma preferência de escola.
A anatomia decide onde o cálculo para. O ureter tem três estreitamentos naturais, e a esmagadora maioria das impactações acontece num deles: a junção entre a pelve renal e o ureter, o cruzamento com os vasos ilíacos na entrada da pelve, e a junção do ureter com a bexiga, que é o mais estreito dos três. Um cálculo que passou pelo primeiro ainda pode parar no terceiro; um cálculo que chegou ao terceiro está a milímetros de acabar com o problema. Essa geografia é a razão de a posição do cálculo prever a eliminação tão bem quanto o tamanho — e é por isso que as tabelas de eliminação espontânea das duas diretrizes deste capítulo trazem sempre duas entradas, tamanho e posição, e nunca uma só. Um cálculo de 4 mm no ureter distal e um cálculo de 4 mm no ureter proximal têm o mesmo diâmetro e prognósticos diferentes, porque o segundo ainda tem dois estreitamentos pela frente.
A geografia também explica a irradiação, que é a parte da história que o aluno decora sem entender. A inervação do rim e do ureter proximal acompanha os segmentos torácicos baixos e lombares altos, e a dor de um cálculo alto é sentida no flanco e no dorso. À medida que o cálculo desce, a dor migra para a fossa ilíaca e depois para a região inguinal e a genitália externa, porque os segmentos que inervam o ureter distal são os mesmos que inervam a pele do escroto e do grande lábio. Um cálculo na junção com a bexiga acrescenta disúria, urgência e polaciúria, porque irrita o trígono vesical — e é o paciente que chega dizendo que está com infecção urinária, e não com pedra.
A ausência de hematúria não absolve ninguém, e o mecanismo diz por quê. O sangue na urina vem da abrasão do urotélio pelo cálculo em movimento. Cálculo parado, impactado, coberto de edema, deixa de sangrar — e é justamente o cálculo impactado que interessa. Por isso a hematúria some com os dias, como mostram os números do capítulo anterior, e por isso urina limpa em paciente com dor típica é motivo para pedir imagem, não para descartar o diagnóstico.
O rim obstruído perde função de um jeito silencioso e reversível no começo. Com a pelve sob pressão, a filtração cai, e a creatinina do paciente com dois rins costuma continuar normal porque o rim contralateral compensa. A diretriz brasileira lista as exceções, e elas são a lista de quem não pode esperar: cálculo obstrutivo em rim único, obstrução bilateral, cálculo vesical grande e cálculo uretral impactado. Nesses, a creatinina sobe porque não há segundo rim para compensar, e o dado laboratorial que em todos os outros pacientes é acessório vira o dado central.
E há o mecanismo que transforma uma doença benigna numa emergência. Quando existe bactéria acima da obstrução, o sistema coletor vira um abscesso fechado sob pressão. O antibiótico chega ao sangue, mas não chega em concentração ao conteúdo de uma cavidade que não drena; e a mesma pressão que dói força, pelos fórnices, a passagem de material infectado do sistema coletor de volta para o interstício e para a corrente sanguínea. A diretriz brasileira nomeia a combinação de dor lombar, febre, calafrios e sepse como pielonefrite obstrutiva calculosa e a classifica como condição de elevada morbidade e mortalidade. A obstrução com infecção é um problema de drenagem antes de ser um problema de antibiótico, e essa frase é a única coisa deste capítulo que precisa ser sabida de cor.
Por último, o mecanismo da formação, que é o que a prevenção ataca. O cálculo se forma quando a urina fica supersaturada por um soluto — cálcio e oxalato na maioria esmagadora, ácido úrico, estruvita e cistina no resto — e quando faltam os inibidores que mantêm esses solutos em solução, sendo o citrato o principal deles. Daí saem as duas alavancas da prevenção: diluir a urina, aumentando o volume, e devolver o inibidor que falta. Tudo o que aparece na última seção deste capítulo é uma dessas duas coisas, ou a correção de um distúrbio que empurra o sistema para a supersaturação. É também daí que sai a explicação do conselho que parece errado e não é: restringir cálcio da dieta piora a doença, porque o cálcio do alimento se liga ao oxalato ainda no intestino e impede que ele seja absorvido — tirar o cálcio da mesa deixa o oxalato livre para chegar à urina. Por isso a diretriz brasileira mantém a ingestão de cálcio entre 1.000 e 1.200 mg por dia mesmo em formador de cálculo de oxalato de cálcio, e o que ela restringe é o sódio, que arrasta cálcio para a urina, e a proteína de origem animal, que acidifica e reduz o citrato.

Como se apresenta de verdade
Seis leituras à beira do leito, na ordem em que servem: reconhecer a dor, localizar o cálculo pela irradiação, tirar da fila quem não pode esperar, lembrar do que mata disfarçado disso, reconhecer a cólica que exige avaliação/intervenção urgente e saber o que muda quando a paciente está grávida.
A dor que procura posição
A cólica ureteral é uma dor visceral pura, e dor visceral pura tem uma assinatura motora: o paciente não para. Ele anda, senta, deita de bruços, ajoelha, apoia a testa na parede, e nenhuma posição melhora. A diretriz brasileira registra isso em uma frase — não é aliviada pelo repouso nem pela mudança de posição — e é essa frase, e não a intensidade, que separa a cólica da dor peritoneal, em que o paciente fica imóvel porque qualquer movimento piora.
A instalação é a segunda assinatura. Começa em minutos, o paciente consegue dizer a hora, e vem em ondas ou paroxismos que tipicamente duram de vinte a sessenta minutos. Entre as ondas há alívio parcial, nunca alívio completo. Uma dor lombar que começou devagar, ao longo de dias, e que melhora deitado, não é isto — é do capítulo de dor lombar aguda, e a distinção começa na primeira pergunta da anamnese.
No exame físico, o achado mais citado é também o menos útil isoladamente, e a diretriz brasileira publica os números que provam: a dor à palpação do ângulo costovertebral, o sinal de Giordano, tem sensibilidade de 15%, especificidade de 99% e razão de verossimilhança positiva em torno de 30. Leia esses três números juntos. Giordano negativo não afasta nada, porque escapa de 85 em cada 100 pacientes com a doença; Giordano positivo, com história compatível, praticamente fecha, porque só 1 em 100 sem a doença o tem. É um teste para confirmar, jamais para excluir.
O resto do exame é de exclusão: taquicardia, palidez e sudorese, distensão abdominal leve — e, importante, sem sinais de irritação peritoneal. Um paciente com cólica que desenvolve descompressão dolorosa, rigidez ou abdome em tábua deixou de ser um paciente com cólica e passou a ser um paciente de Dor abdominal no pronto-socorro, com a lista inteira de quem opera. A diretriz brasileira menciona ainda um escore de predição clínica, o escore que combina sexo, etnia, duração da dor, náusea ou vômito e hematúria, útil quando há incerteza diagnóstica — grau de recomendação B, nível de evidência 2. É auxílio de decisão sobre pedir imagem, não substituto dela.
Uma observação sobre a história que economiza tempo e evita erro: a diretriz brasileira caracteriza a suspeita pela associação de dor abdominal de início recente, até 12 horas, com sensibilidade em região lombar ou ureteral e presença de hematúria, e classifica a obtenção de história clínica detalhada e de exame físico cuidadoso como grau B, nível de evidência 2. Repare no recorte temporal: até 12 horas. O paciente que dói há cinco dias, com a mesma dor, é outra pergunta — pode ser um cálculo impactado que parou de se mover, pode ser uma dor que nunca foi cólica, e é nele que a urina limpa e a ausência de febre enganam mais.
Onde dói diz onde está
A dor migra com o cálculo, e essa migração é informação clínica gratuita. Cálculo na pelve renal ou no ureter proximal dói no flanco e no dorso, no ângulo costovertebral, e é a dor que mais imita problema de coluna. À medida que desce, a dor caminha para a fossa ilíaca do mesmo lado. Cálculo no ureter distal dói na virilha e na genitália externa, e nesse ponto a queixa costuma ser referida como dor no testículo ou no grande lábio, sem que haja qualquer alteração ao exame local.
O último centímetro tem sintomas próprios. Cálculo na junção ureterovesical irrita o trígono e produz disúria, urgência e polaciúria. Esse paciente chega dizendo que está com infecção urinária, o exame de urina volta com hemácias e alguns leucócitos, e a armadilha é fechar o diagnóstico de cistite e mandar para casa com antibiótico. Duas coisas separam: a cólica prévia, que a cistite não tem, e a intensidade, porque cistite arde e não dobra o paciente ao meio.
O que o exame local não faz é diagnóstico. Dor referida no testículo por cálculo distal cursa com testículo normal à palpação e reflexo cremastérico presente; dor testicular com testículo endurecido, horizontalizado e sem reflexo é torção, e o relógio é outro — está no capítulo Escroto agudo, na posição 1 desta apostila. Todo homem jovem com dor abdominal ou inguinal tem o escroto examinado, e essa regra não é deste capítulo, é do vizinho, mas vale aqui porque o paciente entra pela mesma porta.
Quem sai da fila antes da conversa
A diretriz brasileira de 2025 lista, na figura que resume a investigação da suspeita de cólica renal, os sinais de alerta que mudam a prioridade: primeiro episódio acima dos 50 anos, febre, alterações hemodinâmicas, rim único, disfunção renal e quadro atípico de cólica renal. Seis itens, e cada um deles muda uma coisa diferente.
Primeiro episódio acima dos 50 anos muda o diagnóstico, não a conduta da dor — é a idade em que a chance de o quadro ser outra coisa cresce mais depressa que a chance de ser um primeiro cálculo. Febre muda a urgência, porque abre a possibilidade de obstrução com infecção. Alteração hemodinâmica muda a sala, porque cólica não causa choque e o que causa é o diferencial. Rim único muda o laboratório e o relógio, porque não há compensação contralateral e a creatinina sobe cedo. Disfunção renal muda a droga, porque tira o anti-inflamatório da mesa. Quadro atípico muda o exame, porque exige imagem imediata.
Vale reparar que nenhum desses seis é o tamanho da dor. O paciente que grita não é prioridade sobre o paciente que tem febre baixa e está quieto; é só mais barulhento. A classificação de risco na porta acerta a dor e erra o resto, e é o interno que reabre a ficha.
Há um sétimo item que a lista da diretriz não traz e que este capítulo acrescenta, declarando que acrescenta: primeira crise em homem acima de 60 anos, com tabagismo ou hipertensão, sobretudo com hipotensão que aparece e some. A diretriz coloca a idade de corte em 50 anos para o primeiro episódio e lista a ruptura de aneurisma de aorta entre os diagnósticos alternativos, mas não junta as duas informações num sinal de alerta único. Juntá-las é leitura deste capítulo, e a razão é operacional: quem escreve cólica renal na ficha de um homem de 72 anos com primeira crise reorganiza o atendimento inteiro em torno de uma hipótese, e o serviço passa a esperar um exame de urina enquanto o paciente sangra para o retroperitônio.
O que mata disfarçado de cólica
A mesma figura da diretriz brasileira lista, como diagnósticos alternativos com relevância clínica, uma sequência que vale decorar: ruptura ou dissecção de aneurisma de aorta, malignidade renal ou ovariana, diverticulite, apendicite, colecistite, obstrução intestinal, torção ovariana ou testicular, gestação ectópica, trombose ou infarto renal, hematoma retroperitoneal, embolia pulmonar e pneumonia. Doze entradas, e o primeiro item é o primeiro por um motivo.
O aneurisma de aorta abdominal em ruptura contida produz dor súbita no dorso ou no flanco, que desce para a virilha, e chega a produzir sangue na urina, porque o hematoma do retroperitônio aperta o ureter — ou seja, reproduz este quadro por inteiro, sangramento incluído. O que separa um do outro é o conjunto: sessenta anos ou mais, cigarro, pressão alta, nenhuma crise anterior parecida e nenhuma pedra na história. O assunto inteiro pertence ao capítulo de aneurisma de aorta abdominal, em Cirurgia Vascular, e ao capítulo Dor lombar aguda; a obrigação assumida aqui é uma só, e é não deixar o rótulo fechar a porta antes de alguém ter olhado a aorta.
A gestação ectópica merece a mesma nota, com outro dono. Mulher em idade fértil com dor em fossa ilíaca e hematúria tem teste de gravidez pedido antes de qualquer imagem com radiação, e a conduta a partir do resultado positivo é do capítulo Gravidez ectópica, em Obstetrícia. Apendicite, diverticulite, colecistite e obstrução intestinal têm capítulos próprios em Cirurgia; o que este capítulo faz com elas é uma coisa só, que é lembrar que a tomografia sem contraste pedida por causa do cálculo enxerga todas.
Quando a cólica se torna uma emergência
Existe uma apresentação, e só uma, em que a cólica deixa de ser uma doença dolorosa e benigna e vira uma urgência com cirurgião envolvido: a obstrução com infecção acima dela. A diretriz brasileira a nomeia pielonefrite obstrutiva calculosa e a descreve pela combinação de dor lombar, febre, calafrios e sepse, classificando-a como condição de elevada morbidade e mortalidade. O que ela não diz — e este capítulo diz, porque o vão existe — é o que se faz.
Reconhecer é a parte fácil, desde que se procure. Os quatro elementos são febre com calafrio num paciente com dor em cólica, queda do volume urinário, sinais de resposta sistêmica que não cedem com a analgesia, e urina com nitrito ou bactérias. Nenhum deles é obrigatório, e o mais traiçoeiro é o paciente idoso ou diabético que não faz febre alta e chega apenas confuso e taquicárdico. A diretriz brasileira registra, com grau de recomendação C e nível de evidência 4, que idade acima de 54 anos e proteína C reativa acima de cinco vezes o valor de referência ajudam a decidir a prescrição de antibiótico na suspeita de infecção associada à cólica.
O que muda quando se reconhece está descrito no bloco de conduta e vale antecipar em uma frase, porque é o motivo de a seção existir: antibiótico não resolve cavidade fechada sob pressão. A cólica com infecção precisa que alguém abra a saída — por cateter ureteral ou por nefrostomia percutânea —, e isso é telefonema para a urologia ou para a regulação, na mesma hora, e não pedido de parecer para amanhã.
Existe uma versão diferida deste quadro, e ela aparece na enfermaria e não na porta. É o paciente internado com pielonefrite que não melhora depois de 48 a 72 horas de antibiótico adequado, cuja dor muda de caráter e vira cólica, e cujo volume urinário cai. Diante desses três achados juntos, a hipótese deixa de ser bactéria e passa a ser barreira mecânica, e o que se pede é imagem urgente seguida de desobstrução, jamais um antibiótico diferente. Esse paciente pertence aos dois capítulos ao mesmo tempo: o reconhecimento da falha terapêutica da pielonefrite é do capítulo de infecção urinária, em Nefrologia, e a resposta mecânica é daqui. A fronteira entre os dois não é uma linha no tempo, é uma linha na conduta.
A gestante com cólica
Nenhum capítulo do nível reivindica a litíase na gestação: o capítulo obstétrico de infecção urinária cuida da bactéria, não da pedra, e a Urologia do nível para no escroto agudo. Este capítulo assume o assunto e o declara, limitando-se ao que os documentos brasileiros abertos sustentam.
Três coisas mudam. A primeira é o diagnóstico, porque a gestação produz hidronefrose fisiológica — mais à direita, por compressão e por efeito da progesterona — e a diretriz de imagem da Sociedade Brasileira de Urologia registra explicitamente que essa dilatação pode ser interpretada erroneamente como obstrução. Dilatação na gestante não é obstrução até prova em contrário; é o contrário do que vale fora da gestação.
A segunda é a droga. A mesma diretriz brasileira de nefrolitíase que coloca o anti-inflamatório em primeiro lugar lista a gestação entre as contraindicações absolutas ou relativas da classe, ao lado da insuficiência renal e da doença péptica grave, e manda considerar os opioides nesses casos. A dipirona, que resolveria o problema em qualquer outro paciente do Sistema Único de Saúde, aparece na mesma diretriz com gestantes e lactantes entre as contraindicações relativas. Na gestante com cólica, a analgesia é decisão compartilhada com a obstetrícia, e a prescrição de anti-hipertensivos e analgésicos na gestação tem capítulo próprio em Obstetrícia.
A terceira é o encaminhamento. Gestante com cólica que não cede, com febre ou com suspeita de obstrução não é caso de observação ambulatorial: é caso de maternidade com urologia disponível, e a conversa com o obstetra acontece antes do exame de imagem, não depois.
Como fechar o diagnóstico
Investigar a cólica é responder a três perguntas em ordem, e não uma de cada vez: existe cálculo, ele está obstruindo, e há infecção acima dele. As seções abaixo seguem essa ordem e terminam com o que muda na gestante.
O que se pede na sala
A diretriz brasileira de 2025 é econômica e explícita: no atendimento de emergência, recomenda-se avaliação bioquímica sucinta, com dosagem de creatinina, hemograma e urina tipo I. Três exames. Não há indicação de painel metabólico, de cálcio, de ácido úrico nem de paratormônio na crise — a investigação metabólica existe, é longa, e a mesma diretriz determina que ela só comece de 3 a 8 semanas depois da última eliminação de cálculo, com o trato desobstruído, em dieta habitual e sem infecção comprovada por urocultura. Pedir perfil metabólico no pronto-socorro é gastar exame que vai ter de ser repetido.
A creatinina informa função renal e ajuda a escolher medicamento e conduta, mas pode permanecer normal na obstrução unilateral ou muito recente. Compare ao basal e à diurese. Elevação pode decorrer de obstrução bilateral/rim único, hipovolemia, sepse, fármacos ou doença prévia; não responde apenas se o rim está sozinho.
O hemograma costuma estar inalterado ou mostrar leucocitose discreta sem desvio significativo, o que quer dizer que leucocitose não diagnostica infecção na cólica. A diretriz acrescenta o par que ajuda de verdade em quem tem dúvida: idade acima de 54 anos e proteína C reativa acima de cinco vezes o valor de referência, com grau de recomendação C e nível de evidência 4 — evidência fraca, declarada como fraca pelo próprio documento, e este capítulo não a apresenta como mais do que é.
O exame de urina, e o que ele não responde
A hematúria micro ou macroscópica é comum, mas a diretriz brasileira faz questão de dizer que a ausência dela não exclui o diagnóstico, e os números do capítulo de epidemiologia mostram por quê: presente em 95% no primeiro dia, 65% a 68% no terceiro e no quarto, e simplesmente indetectável em 10% a 30% dos pacientes com cólica. Urina sem sangue no paciente que dói há quatro dias é o esperado, não o tranquilizador.
O que o exame de urina de fato acrescenta é o outro lado: a presença de nitrito positivo e de bactérias no sedimento deve levantar a suspeita de infecção associada, nas palavras da diretriz. Esse é o achado que muda a noite. Leucócitos isolados, não: piúria aparece em cálculo por irritação do urotélio, sem que haja qualquer bactéria, e a leitura de piúria como sinônimo de infecção é o erro que o capítulo Nem toda bactéria é uma doença, em Nefrologia, disseca em detalhe — e para lá este capítulo manda quem quiser o assunto inteiro.
Urocultura na cólica simples não é rotina; urocultura na cólica com febre, calafrio ou urina com nitrito é obrigatória, colhida antes da primeira dose de antibiótico. E há uma segunda coleta que quase ninguém faz: a diretriz europeia de urolitíase recomenda, com força forte, recolher urina para antibiograma novamente depois da descompressão do sistema obstruído — porque a urina da bexiga e a urina represada acima do cálculo podem ter agentes diferentes.
Qual imagem — e a régua brasileira é dupla
Aqui está a pergunta central do capítulo, e a resposta brasileira não é uma, são duas, no mesmo documento e com o mesmo grau. A diretriz de 2025 recomenda, com grau A e nível de evidência 1, que a ultrassonografia em conjunto com a radiografia simples de abdome pode ser considerada a modalidade inicial para a cólica nefrética. E recomenda, com grau A e nível de evidência 1, que a tomografia computadorizada, preferencialmente em protocolo de baixa dose, fornece informações valiosas para confirmação diagnóstica e decisão terapêutica, com vantagem para cálculos ureterais e para determinar se há obstrução.
As duas recomendações não se contradizem, mas convivem mal na cabeça de quem está de plantão. A leitura operacional que este capítulo propõe — e é leitura deste capítulo, não citação — é que o par ultrassonografia e radiografia é a porta de entrada onde a tomografia não está disponível de imediato, e a tomografia sem contraste é o exame que decide quando a resposta precisa incluir tamanho exato, posição exata e diagnóstico diferencial. O que mudou nos últimos vinte anos não foi a acurácia da tomografia, foi a dose: com protocolo de baixa dose, a objeção da radiação encolheu, e é por isso que a diretriz europeia de 2026 recomenda, com força forte, a tomografia sem contraste para confirmar o diagnóstico.
Os números de acurácia estão nas duas diretrizes brasileiras e não batem entre si, o que é informação e não defeito. Para cálculo ureteral, a diretriz de nefrologia de 2025 dá à ultrassonografia sensibilidade de 45% e especificidade de 94%. A diretriz de imagem da urologia, de 2019, dá à ultrassonografia feita no serviço de emergência sensibilidade de 72% e especificidade de 73%. São perguntas diferentes — o exame formal procurando o cálculo contra o exame à beira do leito procurando hidronefrose — e a lição prática é a mesma nas duas: ultrassom que não vê cálculo não afasta cálculo, e ultrassom que vê dilatação já respondeu à pergunta que mais importa na sala.
A radiografia simples tem um papel que não é o de diagnosticar. Cerca de 90% dos cálculos renais são radiopacos, mas o cálculo precisa ter pelo menos 2 mm para aparecer, e a sensibilidade para cálculos ureterais fica abaixo de 50% — a diretriz de urologia de 2019 registra 57% de sensibilidade e 76% de especificidade. O que a radiografia faz bem é acompanhar: um cálculo radiopaco visto uma vez pode ser seguido com radiografias seriadas, e é assim que se responde, semanas depois, se ele andou.
Vale registrar o que saiu de cena, porque o interno ainda encontra o pedido em prontuários antigos: a urografia excretora. A diretriz de urologia de 2011 já concluía que ela não é necessária antes da litotripsia em pacientes diagnosticados por radiografia e ultrassonografia, desde que não haja hidronefrose moderada ou grave, e a de 2019 a admite apenas como alternativa para avaliar a anatomia do sistema coletor, sem substituir a tomografia, porque não mostra os órgãos vizinhos. A ressonância magnética, por sua vez, tem sensibilidade de 66% a 72% e especificidade de 96% a 100% na diretriz de 2019, e permanece reservada a gestantes e crianças — não porque seja ruim, mas porque custa mais que a tomografia e demora muito mais para adquirir a imagem.
Quando a imagem não pode esperar
A diretriz brasileira separa a imagem indicada da imagem imediata, e a lista da segunda é curta: dúvida no diagnóstico diferencial com outras causas de lombalgia, ausência de hematúria, febre ou rim único reportado pelo paciente. A diretriz europeia diz o mesmo em duas palavras e com força forte: febre ou rim solitário pedem imagem imediata.
E há a frase que impede o erro mais comum de sequência, escrita na diretriz brasileira sem espaço para interpretação: o alívio da dor ou qualquer outra medida de emergência não devem ser adiados para a realização de exames de imagem. A analgesia vem antes da imagem, sempre, e o paciente que espera a tomografia com dor 10 está sendo mal atendido por uma inversão de ordem que ninguém defende por escrito e que todo mundo já viu acontecer.
Fora dessas situações, a imagem é indicada mas não é urgente, e essa distinção decide se o paciente fica no corredor às quatro da manhã esperando o técnico ou se volta em horário comercial com um pedido na mão. É uma decisão de fluxo, e ela pertence ao interno tanto quanto a prescrição.
Existe uma imagem de outro tipo, que não é da crise e que quase ninguém solicita: a imagem de controle, para confirmar que o cálculo saiu. A diretriz brasileira a recomenda com grau B e nível de evidência 2, sugerindo radiografia simples e ultrassonografia conforme as características do cálculo, e reserva a tomografia para pacientes sintomáticos ou em avaliação pré-operatória, para minimizar exposição à radiação — grau C, nível de evidência 3. A régua de regulação gaúcha vai na mesma direção por outro caminho: para encaminhar um cálculo de até 10 mm, ela exige dois exames de imagem com no mínimo quatro semanas de intervalo. Em ambos os casos a mensagem é a mesma: um exame só não responde à pergunta que interessa depois da alta, que não é se existe cálculo, e sim se ele andou.
O que a tomografia responde além do cálculo
A tomografia sem contraste é chamada de padrão-ouro pela diretriz brasileira, com uma metanálise de protocolo de baixa dose mostrando sensibilidade de 93,1% e especificidade de 96,6%. A diretriz de urologia de 2019 traz, para tomografia convencional, sensibilidade de aproximadamente 95% e especificidade de aproximadamente 98%. Mas a razão de ela ser o exame que decide não está nesses números; está no que ela responde de quebra.
Ela dá o tamanho no maior eixo, que é a variável de decisão de tudo o que vem depois. Dá a posição — proximal, médio ou distal —, que é a segunda variável. Dá o grau de dilatação a montante, que é o que traduz obstrução. Dá o diagnóstico alternativo, e a lista de doze do bloco anterior é quase inteiramente visível numa tomografia de abdome. E dá a densidade, medida em unidades Hounsfield, que a diretriz brasileira usa para estimar a composição, numa escala crescente que vai do ácido úrico à estruvita, à cistina, ao oxalato de cálcio monoidratado e à hidroxiapatita.
A densidade tem consequência terapêutica registrada: cálculos com densidade acima de 1.000 unidades Hounsfield apresentam difícil fragmentação à litotripsia extracorpórea. Ou seja, a mesma imagem que diagnostica já informa se o tratamento mais comum vai funcionar. O interno não decide litotripsia, mas escrever essa informação no encaminhamento economiza uma consulta inteira do paciente.
Há um uso da tomografia que não é do pronto-socorro e convém não confundir: o planejamento da nefrolitotripsia percutânea, para o qual a diretriz de urologia de 2011 e a de 2019 pedem tomografia detalhando o sistema coletor e o trajeto da punção, com contraste apenas em anatomias complexas. Esse é exame de programação cirúrgica, e quem o pede é o urologista.
Imagem na gestante
A diretriz de imagem da urologia de 2019 responde a essa pergunta primeiro, antes de todas as outras, e a resposta é hierárquica. Na suspeita de ureterolitíase na gestante, o método de escolha é a ultrassonografia, sem efeitos adversos inerentes ao método, com os inconvenientes de baixa sensibilidade na gestação, dependência do operador e a confusão com a hidronefrose fisiológica.
A ressonância magnética entra como segunda opção, embora não tenha a mesma acurácia diagnóstica da tomografia; a diretriz de nefrologia acrescenta que ela ajuda a definir o nível da obstrução e a visualizar o cálculo como defeito de enchimento. A tomografia com baixa dose de radiação fica reservada a casos selecionados. Nenhuma dessas três decisões é do interno sozinho, e a formulação do pedido muda quando o obstetra participa dela.
Fora da gestação, a ressonância tem aplicação limitada na litíase e é reservada a situações especiais — a diretriz de nefrologia cita gestantes e crianças —, entre outros motivos porque custa mais que a tomografia e leva muito mais tempo de aquisição.
Da porta à decisão: tamanho, tempo e a conta que os documentos não fecham
A cólica é um sintoma, não uma garantia de diagnóstico benigno. Analgesia, avaliação de gravidade e investigação devem correr juntas.
- 1Avalie estabilidade e diagnósticos alternativos graves, incluindo doença aórtica, gestação ectópica e abdome agudo. Ofereça analgesia em paralelo, escolhendo AINE apenas quando apropriado ao risco renal, gastrointestinal, cardiovascular e gestacional.
- 2Procure infecção sistêmica e obstrução, anúria, rim único, obstrução bilateral, deterioração renal e dor/vômitos refratários. Esses cenários exigem avaliação urológica urgente; não é necessário esperar a tríade febre-leucocitose-piúria.
- 3Urina, creatinina e hemograma são exames iniciais, com eletrólitos, culturas, lactato e outros conforme o quadro. Creatinina normal não exclui obstrução unilateral nem lesão renal muito precoce.
- 4Imagem urgente quando há gravidade, rim único ou incerteza relevante. TC sem contraste define cálculo em muitos adultos; suspeita de outra doença pode exigir outro protocolo. Na gestação, ultrassom é a primeira escolha e a decisão subsequente é compartilhada.
- 5Obstrução infectada: acione a equipe para drenagem e inicie antibiótico sem demora, colhendo culturas se isso não atrasar. Cateter ureteral ou nefrostomia são opções; tratar a pedra definitivamente costuma aguardar controle da infecção.
- 6Sem infecção, anúria, ameaça à função renal ou dor refratária também podem indicar intervenção. Ausência de febre não basta para alta.
- 7Na observação selecionada, hidratação busca euvolemia, sem forçar litros para expulsar cálculo. Terapia expulsiva é discutida conforme tamanho/localização e risco; não é automática para todo cálculo.
- 8Alta exige dor controlada, tolerância oral, plano de retorno e confirmação de resolução da obstrução/passagem quando indicada. Oriente guardar o cálculo e organize prevenção após a fase aguda.
Obstrução infectada: uma das urgências da cólica
Obstrução com infecção acima dela. Reconhece-se por febre com calafrio, queda do volume urinário, resposta sistêmica que não cede com a analgesia ou urina com nitrito e bactérias. A diretriz brasileira de 2025 nomeia a condição — pielonefrite obstrutiva calculosa — e a classifica como de elevada morbidade e mortalidade, mas não diz o que fazer. Quem diz é a diretriz europeia de urolitíase, edição de 2026, com força forte: descomprimir o sistema coletor com urgência, iniciar antibiótico imediatamente, recolher urina para antibiograma depois da descompressão e adiar o tratamento definitivo do cálculo até a sepse estar resolvida. Cateter ureteral e nefrostomia percutânea são apresentados como igualmente eficazes, com nível de evidência 1b — a escolha entre os dois é do urologista e da disponibilidade do serviço, não do interno. O que é do interno é reconhecer e telefonar.
Chance de o cálculo sair sozinho — as duas fontes, lado a lado
| Cálculo | Diretriz brasileira de nefrolitíase (2025) | Diretriz europeia de urolitíase (2026) |
|---|---|---|
| Menor que 5 mm | Eliminação espontânea em até 80% | Cerca de 75% do total; 89% quando no ureter distal e 71% quando no proximal |
| Maior ou igual a 5 mm | Não informa como faixa única | 62% eliminam espontaneamente |
| Maior que 7 mm, ureter proximal | Cerca de 25% | Por posição, 49% a 52% no ureter superior |
| Maior que 7 mm, ureter médio | Cerca de 45% | Por posição, 58% a 70% no ureter médio |
| Maior que 7 mm, ureter distal | Cerca de 70% | Por posição, 68% a 83% no ureter distal |
| Tempo até a eliminação | Não informa | Tempo médio de cerca de 17 dias, variando de 6 a 29 dias |
| Por quanto tempo observar | Não informa | Não informa; recomenda observar com reavaliação periódica, sem fixar prazo |
O que a Rename 2024 entrega para tratar esta dor
| Fármaco citado pela diretriz brasileira | Consta na Rename 2024? | Apresentação e componente de financiamento |
|---|---|---|
| Dipirona | Sim | 500 mg comprimido, 500 mg/mL solução oral e 500 mg/mL solução injetável — Componente Básico |
| Paracetamol | Sim | 500 mg comprimido e 200 mg/mL solução oral — Componente Básico; não há apresentação injetável |
| Morfina | Sim | 10 mg/mL solução injetável, além de oral e comprimidos — Componente Especializado |
| Cetoprofeno | Não consta | Nenhuma apresentação na lista |
| Cetorolaco | Não consta | Nenhuma apresentação na lista |
| Tramadol | Não consta | Nenhuma apresentação na lista |
| Meperidina | Não consta | Nenhuma apresentação na lista |
| Escopolamina | Não consta | Nenhuma apresentação na lista |
| Tansulosina | Não consta | Nenhum alfabloqueador uroseletivo na lista |
| Ibuprofeno (não citado pela tabela da diretriz) | Sim | 200, 300 e 600 mg comprimido, 600 mg cápsula e 50 mg/mL suspensão — Componente Básico; só via oral |
| Naproxeno (não citado pela tabela da diretriz) | Sim | 250 e 500 mg comprimido — Componente Especializado |
| Doxazosina (alternativa da regulação gaúcha) | Sim | 2 e 4 mg comprimido — Componente Básico |
Duas réguas brasileiras vigentes para o mesmo encaminhamento
| Pergunta | Ministério da Saúde, hospitais federais do Rio de Janeiro (2015) | TelessaúdeRS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (2023) |
|---|---|---|
| A partir de que tamanho o cálculo ureteral vai para a urologia | 0,5 cm — com a mesma linha escrevendo 'maior que 0,5 cm' no motivo e 'maior ou igual a 0,5 cm' no critério | 10 mm |
| Quanto tempo esperar antes de encaminhar | 15 dias sem mudança de posição do cálculo, conforme exame de imagem | 4 semanas de tratamento clínico otimizado sem eliminação |
| Quantos exames de imagem o encaminhamento exige | Não especifica número | Dois exames, com no mínimo 4 semanas de intervalo, para cálculos de até 10 mm |
| O que é tratamento clínico antes de encaminhar | Não define | Analgesia adequada e observação em selecionados. Alfabloqueador não é automático até 10 mm; maior benefício em distal >5 mm. Tansulosina 0,4 mg é exemplo; não iniciar doxazosina 4 mg sem titulação. |
| O que manda para a urgência | Não separa urgência de eletivo nesta linha | Obstrução com hidronefrose, sepse urinária ou dor incontrolável com tratamento otimizado |
| Cálculo renal assintomático | Encaminhar acima de 1 cm | Encaminhar acima de 10 mm — as duas réguas coincidem aqui |
Urgência na litíase: mais que febre
| Cenário | Por que muda a conduta |
|---|---|
| Obstrução e infecção sistêmica | Antibiótico e descompressão urgente para controle do foco. |
| Anúria / obstrução bilateral ou de rim único | Ameaça à função renal; avaliação e desobstrução conforme o caso. |
| Dor refratária apesar de analgesia apropriada | Reavaliação diagnóstica e intervenção/drenagem podem ser necessárias. |
| Vômitos persistentes / impossibilidade de cuidado | Pode exigir internação e tratamento supervisionado. |
| Instabilidade ou apresentação atípica | Excluir diagnósticos graves alternativos antes de rotular como cólica simples. |
Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria da tabela de medicações do pronto-socorro da diretriz brasileira de 2025, item morfina. A tabela prescreve 1 mg/kg por via intramuscular ou intravenosa a cada 4 horas. Num adulto de 70 kg isso dá 70 mg por dose e 420 mg por dia. Com a ampola que a Rename 2024 lista (10 mg/mL, 1 mL), são 7 ampolas por dose; com a ampola que a própria tabela declara (1 mg/mL, 2 mL, ou seja, 2 mg por ampola), seriam 35 ampolas por dose. O texto corrido do mesmo documento, três páginas antes, descreve a dose de morfina do ensaio de 2016 como 0,1 mg/kg por via intravenosa e a qualifica como abaixo da normalmente utilizada. Tabela e texto do mesmo documento divergem por um fator de 10, e o valor que sobrou na tabela é o da linha imediatamente acima, a da meperidina, para a qual 1 mg/kg é a dose correta. Não copie a linha da morfina.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Mesma tabela, item cetorolaco. A célula diz: ampola de 30 mg/mL, 30 mg por via intravenosa ou 360 mg por via intramuscular, com dose máxima intravenosa de 120 mg por dia declarada entre parênteses na mesma linha. Uma dose intramuscular de 360 mg é 12 mL de uma ampola de 30 mg/mL numa única injeção, e é três vezes o teto diário declarado dentro da própria célula. A dose única intramuscular usual dessa droga é uma ordem de grandeza menor.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Mesma tabela, item cetoprofeno. A célula declara a apresentação como cápsulas de 500 a 1.000 mg e, na linha seguinte, a dose como 50 mg de 6 em 6 horas ou 100 mg de 12 em 12 horas. Prescrever 50 mg de uma cápsula de 500 mg exige um décimo da cápsula. A apresentação declarada é dez vezes a dose declarada na mesma célula — e o valor 500 a 1.000 mg é exatamente o que aparece na linha da dipirona, duas células acima.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Mesma tabela, itens paracetamol e escopolamina: doses que estouram o teto declarado entre parênteses na própria linha. Paracetamol, comprimido de 500 a 750 mg, 1 comprimido de 4 a 6 vezes ao dia, máximo declarado de 4.000 mg por dia — 750 mg seis vezes dá 4.500 mg, 500 mg acima do teto. Escopolamina, drágea de 10 mg, 1 a 2 drágeas 4 vezes ao dia, máximo declarado por via oral de 60 mg — 2 drágeas quatro vezes dá 80 mg. E, por via injetável, ampola de 30 mg/mL, 1 a 2 ampolas de 4 a 6 vezes ao dia, máximo declarado de 100 mg por dia — 2 ampolas seis vezes dá 360 mg, três vezes e meia o teto da mesma célula.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Verificações desta mesma tabela que passaram, e elas informam tanto quanto as que falharam. Tramadol: 100 mg de 6 em 6 horas dá exatamente os 400 mg por dia declarados como máximo. Meperidina: 1 mg/kg de 4 em 4 horas num adulto de 70 kg dá 420 mg por dia, dentro dos 500 mg declarados — mas o teto é cruzado a partir de 83,3 kg, e a célula não avisa. Dipirona é o único fármaco da tabela inteira para o qual nenhuma dose máxima diária é declarada, e é justamente o que o mesmo documento descreve como o analgésico não opioide mais usado no Brasil; pelo que a célula autoriza, 2 ampolas de 2 mL da solução de 500 mg/mL quatro vezes ao dia somam 8 g por dia.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria da diretriz de imagem da urologia, de 2019. Ao reproduzir a metanálise de tomografia de baixa dose, o documento escreve valor preditivo positivo de 19,9 e valor preditivo negativo de 0,05. Valor preditivo é proporção e não pode ser 19,9; os números são as razões de verossimilhança positiva e negativa da mesma metanálise, com o rótulo trocado. O mesmo parágrafo declara acurácia de 0,9877 ao lado de sensibilidade de 93,1% e especificidade de 96,6%: acurácia é média ponderada de sensibilidade e especificidade e tem de ficar entre as duas, qualquer que seja a prevalência, de modo que 98,77% é impossível — está 2,17 pontos percentuais acima do maior dos dois valores, e quase certamente é a área sob a curva da mesma metanálise, com outro rótulo.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria da diretriz brasileira de 2025, seção do alopurinol. O texto diz que, no ensaio de 1986, o grupo placebo apresentou 63,4% menos cálculos e o grupo alopurinol teve 81,2% menos cálculos, ambos com p menor que 0,001 — uma frase em que o próprio grupo placebo tem redução altamente significativa sem que se diga em relação a quê. As reduções do estudo original são de cada braço contra o próprio período pré-estudo, e o comparador se perdeu na transcrição. Duas linhas abaixo, o mesmo parágrafo dá as taxas de eventos: 0,26 por paciente por ano no placebo e 0,12 no alopurinol, o que é uma redução de 53,8% entre grupos, e não de 81,2%.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria da recomendação dietética da mesma diretriz. A tabela prescreve ingestão de líquidos de 30 mL/kg por dia mais 400 mL de perdas insensíveis e, na mesma linha, diurese-alvo de 2,5 a 3,0 L por dia. Num adulto de 70 kg a fórmula manda beber 2.500 mL, exatamente o piso da diurese-alvo — e nenhuma pessoa urina tudo o que bebe. Para a ingesta prescrita chegar a 3.000 mL seria preciso pesar 86,7 kg. A conta não fecha para o paciente médio, e a saída prática é prescrever pelo alvo, que é a diurese, e não pela fórmula: o paciente mede o que sai, não o que entra.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Auditoria do documento de regulação de 2015. A linha rotulada litíase ureteral tem como motivo de encaminhamento cálculo renal maior que 0,5 cm, com a palavra renal onde deveria estar ureteral — a linha seguinte, rotulada litíase renal, usa a mesma palavra com o corte de 1 cm. E, dentro da mesma linha ureteral, o motivo diz maior que 0,5 cm enquanto o critério diz maior ou igual a 0,5 cm: um cálculo de exatamente 5 mm não é encaminhável por um dos campos e é encaminhável pelo outro. Cinco milímetros é justamente o corte que separa as duas faixas de eliminação espontânea, de modo que a ambiguidade cai no ponto de maior consequência.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Onde o Brasil não tem régua, e isso é o achado. Para a decisão central deste capítulo — por quanto tempo esperar a eliminação espontânea antes de intervir — não existe documento clínico brasileiro que responda. A diretriz de nefrolitíase de 2025 dá probabilidades de eliminação por tamanho e por posição e não dá tempo; a diretriz de imagem da urologia de 2019 não trata do assunto; a de 2011 trata de litotripsia e de cateter, não de espera. Os únicos prazos brasileiros são de regulação de fila, e divergem entre si por quase o dobro. Quem governa na prática é a diretriz europeia de urolitíase, que registra tempo médio de eliminação de cerca de 17 dias, com variação de 6 a 29 — e que, mesmo ela, não fixa por quanto tempo observar antes de indicar remoção ativa, recomendando apenas, com força forte, observar com reavaliação periódica. O mesmo vale para o rim obstruído e infectado: a conduta que este capítulo ensina é europeia, e é europeia porque não há nacional.
Aprofundamento documental — leitura complementar. Verificações bem-sucedidas contra a Rename 2024, por busca literal no texto do documento, depois de retirar espaços e hifens da extração. A diretriz de 2025 afirma, entre parênteses, que clortalidona e indapamida infelizmente não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde: confere, nenhuma das duas consta. A mesma diretriz diz que a espectroscopia infravermelha e a difração de raios-X, padrão-ouro para análise do cálculo, não constam no rol de exames do serviço público: não há como conferir isso na Rename, que é lista de medicamentos, e o capítulo repete a afirmação atribuída à diretriz, sem verificação própria. Toda a classe dos anti-inflamatórios não hormonais na Rename se resume a dois códigos, o do ibuprofeno e o do naproxeno, e toda a classe dos opioides do grupo N02A se resume a um, o da morfina.
A conduta, hora a hora
Oito marcos, na ordem do relógio do plantão. As linhas de prescrição trazem a conversão de miligramas para mililitros e para ampolas ou comprimidos, calculada sobre a apresentação que a Rename 2024 declara, para um adulto de 70 quilos.
Minuto zero — analgesia, e a escolha da droga não é indiferente
A primeira prescrição sai antes do laboratório, antes da imagem e antes do leito. A diretriz brasileira de 2025 é categórica: os anti-inflamatórios não hormonais são eficazes no tratamento da cólica renal e superiores aos opioides, e o uso de opioides deve ser minimizado — grau de recomendação A, nível de evidência 1. A diretriz europeia de 2026 diz o mesmo com força forte, colocando o anti-inflamatório como primeira droga de escolha e o opioide como segunda linha. O motivo é mecanicista e está no bloco de mecanismo: o anti-inflamatório desfaz a causa da dor, o opioide apenas silencia a percepção dela. Aqui aparece o problema brasileiro deste capítulo, que a tabela do bloco de critério deixa explícito: dos anti-inflamatórios que a diretriz brasileira lista na sua tabela de pronto-socorro, nenhum consta na Rename 2024 — nem cetoprofeno, nem cetorolaco. E os dois anti-inflamatórios que constam na Rename, ibuprofeno e naproxeno, não aparecem naquela tabela, existem só por via oral, e o naproxeno está no Componente Especializado. Não existe anti-inflamatório injetável na Rename 2024. Quem trabalha com o que o Sistema Único de Saúde padroniza começa, na prática, pela dipirona injetável, que é a única analgesia venosa do Componente Básico — e que o próprio documento descreve como o não opioide mais usado no Brasil, com bons resultados, sem lhe atribuir grau de recomendação.
Prescrição- Dipirona 1 g IV lenta, se indicada, com intervalo usual de 6 horas e máximo de 4 g/dia neste exemplo adulto; conferir contraindicações, pressão e apresentação de 500 mg/mL (2 mL). A disponibilidade deve ser verificada localmente, sem presumir acesso universal ou exclusividade.
- Se AINE for apropriado e houver tolerância oral, exemplo adulto de curto curso: ibuprofeno 400 mg por via oral a cada 8 horas, até 1.200 mg/dia nesse esquema, pelo menor tempo necessário, com reavaliação se a dor persistir. Não combinar AINEs; evitar na lesão renal/hipovolemia, sangramento ou doença péptica importante e avaliar risco cardiovascular e gestação. Dor não controlada exige revisão e resgate, não aumento indefinido em casa.
- Antiemético venoso antes de tentar qualquer coisa por via oral, porque metade destes pacientes vomita. A Rename 2024 traz metoclopramida e ondansetrona; a escolha e a dose seguem a padronização do serviço
- Opioide como segunda linha, e não como primeira: morfina intravenosa titulada em doses fracionadas conforme o protocolo de dor do serviço. Solução injetável de 10 mg/mL na Rename 2024, Componente Especializado. Não use a dose de 1 mg/kg impressa na tabela da diretriz brasileira — ver a primeira nota do bloco de critério; a única referência numérica coerente dentro do próprio documento é a dose de 0,1 mg/kg do ensaio que ele cita, que num adulto de 70 kg são 7 mg, ou 0,7 mL da ampola de 10 mg/mL
- Não prescreva antiespasmódico esperando efeito: a diretriz brasileira registra que os antiespasmódicos, como a hioscina, têm efeito controverso e limitado mesmo em associação, e a escopolamina não consta na Rename 2024
Minuto 10 — os seis sinais de alerta, e o teste de gravidez
Enquanto a medicação corre, você percorre a lista que a diretriz brasileira publica na figura de investigação: primeiro episódio acima dos 50 anos, febre, alteração hemodinâmica, rim único, disfunção renal e quadro atípico. Some a isso um item que não está na lista da diretriz e que este capítulo acrescenta por dever de fronteira: primeira crise em homem acima de 60 anos, tabagista ou hipertenso, com hipotensão que aparece e some, é aorta até que alguém olhe a aorta. Em mulher em idade fértil, o teste de gravidez precede qualquer exame com radiação e muda tanto o diferencial quanto a escolha do analgésico.
Prescrição- Temperatura axilar medida por você, não a da triagem de duas horas atrás
- Pressão arterial nos dois braços quando a hipótese de aorta estiver na mesa; palpação de massa abdominal pulsátil e comparação dos pulsos femorais
- Teste rápido de gravidez em toda mulher em idade fértil, antes da imagem
- Pergunta direta e registrada em prontuário: já teve pedra antes, tem rim único, faz hemodiálise, tem doença renal conhecida, usa anti-inflamatório em casa
Minuto 20 — exames iniciais guiados pela gravidade
A diretriz brasileira recomenda avaliação bioquímica sucinta no atendimento de emergência: creatinina, hemograma e urina tipo I. O painel metabólico completo — cálcio, fósforo, ácido úrico, paratormônio, urina de 24 horas — não pertence a este momento, e a mesma diretriz explica por quê ao determinar que o perfil metabólico basal seja colhido de 3 a 8 semanas depois da última eliminação de cálculo, com o trato urinário desobstruído, em dieta habitual e sem infecção comprovada por urocultura. Colhido na crise, ele será colhido de novo.
Prescrição- Creatinina comparada ao basal e à evolução; eletrólitos se risco renal ou gravidade. Valor normal não exclui obstrução unilateral nem dano muito recente.
- Hemograma — leucocitose discreta sem desvio é esperada e não faz diagnóstico de infecção
- Urina tipo I interpretada com sintomas e gravidade. Hematúria pode estar ausente no cálculo; nitrito negativo não exclui infecção, e bacteriúria isolada não prova obstrução infectada.
- Urocultura na suspeita de infecção; hemoculturas quando sistêmica/grave. Colher antes do antimicrobiano quando possível sem atraso relevante. Queda de diurese também exige avaliar obstrução e função renal, não implica infecção por si só.
- Proteína C reativa quando a dúvida for infecção em paciente acima dos 54 anos, com a ressalva de que a própria diretriz classifica essa recomendação como grau C e nível de evidência 4
Minuto 30 — imagem: se, quando e qual
A imagem imediata tem quatro portas na diretriz brasileira: dúvida no diagnóstico diferencial, ausência de hematúria, febre e rim único. A diretriz europeia acrescenta força forte às duas últimas. Fora dessas portas, a imagem é indicada mas não é urgente, e o paciente pode fazê-la em horário comercial com um pedido na mão. A escolha entre os métodos está detalhada no bloco de investigação; o resumo operacional é que a tomografia sem contraste, de baixa dose quando o serviço dispuser, responde tamanho, posição, grau de obstrução e diagnóstico diferencial de uma só vez, e que a ultrassonografia com radiografia simples é a porta de entrada onde ela não está ao alcance no plantão. A frase que ordena tudo isso está escrita na diretriz brasileira: o alívio da dor não deve ser adiado para a realização de exames de imagem.
Prescrição- Tomografia de abdome e pelve sem contraste, protocolo de baixa dose quando disponível, quando a decisão depender de tamanho e posição exatos ou quando houver dúvida diagnóstica
- Ultrassonografia de rins e vias urinárias com radiografia simples de abdome como porta de entrada onde a tomografia não estiver acessível no plantão — a pergunta que a ultrassonografia responde bem é dilatação, não cálculo
- Na gestante: ultrassonografia primeiro, ressonância como segunda opção, tomografia de baixa dose apenas em casos selecionados, e a decisão compartilhada com o obstetra
- Escreva no pedido o que você quer saber: presença de cálculo, tamanho no maior eixo, posição no ureter, grau de hidronefrose e densidade em unidades Hounsfield. Laudo genérico obriga a repetir o exame
A qualquer momento — suspeita de obstrução infectada, mesmo sem febre típica
Aurineide Zamith tem 52 anos e chegou com a mesma dor do Odair, à direita, mas com 38,7 graus de temperatura axilar, calafrio que a fez pedir cobertor, e a informação de que urinou pouquíssimo desde ontem. A urina voltou com nitrito positivo. Este não é o mesmo caso, e não é uma cólica com uma complicação: é uma cavidade fechada e infectada sob pressão. A diretriz brasileira nomeia a condição e a classifica como de elevada morbidade e mortalidade, mas nenhum dos seis documentos brasileiros abertos para este capítulo diz o que fazer diante dela — o que fazer está na diretriz europeia de urolitíase, edição de 2026, com força forte, e o capítulo declara isso em vez de fingir que há régua nacional. Antibiótico e acionamento para drenagem ocorrem imediatamente e em paralelo, com culturas antes da primeira dose se não houver atraso relevante. O antibiótico sozinho não alcança o conteúdo de um sistema que não drena. O esquema antimicrobiano empírico deste paciente é o do capítulo Nem toda bactéria é uma doença, em Nefrologia — este capítulo fica com a desobstrução, aquele fica com a bactéria, e a linha entre os dois é esta.
Prescrição- Colher urocultura e hemoculturas quando indicadas, sem atrasar antimicrobiano e controle do foco em quadro grave.
- Antibiótico venoso imediatamente, pelo esquema empírico do capítulo de infecção urinária em Nefrologia e pela padronização do serviço — não adie a primeira dose esperando a decisão sobre drenagem
- Telefonema, e não pedido de parecer por escrito: urologia do serviço ou regulação de vaga, com a palavra desobstrução dita na primeira frase. Cateter ureteral e nefrostomia percutânea são apresentados como igualmente eficazes pela diretriz europeia, nível de evidência 1b; a escolha é do urologista
- Nova coleta de urina para antibiograma depois da descompressão — recomendação forte da diretriz europeia, porque o agente da urina represada pode não ser o da bexiga
- Tratamento definitivo do cálculo adiado até a sepse estar resolvida — recomendação forte. Ninguém fragmenta pedra em paciente séptico
- Se o serviço não tem urologia: a transferência começa agora, e a hipótese escrita na guia é obstrução urinária infectada, não cólica renal. O rótulo decide a fila do outro lado
Quando o anti-inflamatório está proibido
Genilson Esmeraldo tem 63 anos, é hipertenso, diabético, usa inibidor da enzima conversora e diurético, e a creatinina dele hoje está em 2,1 mg/dL — não se sabe se é a basal. A diretriz brasileira lista as contraindicações absolutas ou relativas da classe: insuficiência renal, doença péptica grave e gestação, e nesses casos manda considerar os opioides. A frase é curta e a consequência é grande: no paciente com função renal comprometida, a droga superior está proibida justamente porque o mecanismo pelo qual ela funciona é o que faz mal. Reduzir a prostaglandina reduz a pressão dentro do sistema coletor e reduz também o fluxo renal de quem já depende dele. É a mesma seta com dois efeitos. O ajuste de dose na disfunção renal tem capítulo próprio, em Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, e é para lá que vai quem precisa da regra geral.
Prescrição- Dipirona intravenosa segue possível, com atenção à hipotensão, que a própria diretriz lista entre os efeitos
- Opioide como analgesia principal, titulado. Evite meperidina: a diretriz registra que ela induz vômitos frequentes e que sua ação pode se prolongar ou ser potencializada na insuficiência renal — e ela não consta na Rename 2024
- Anti-inflamatório suspenso, e escrito no prontuário por que foi suspenso — sem isso o plantão seguinte reintroduz
- Revise o que o paciente usa em casa: inibidor da enzima conversora, bloqueador do receptor de angiotensina e diurético, somados a anti-inflamatório, são a combinação clássica de injúria renal aguda, e a repercussão renal em si é do capítulo Injúria renal aguda, em Nefrologia
- Creatinina seriada, e não uma só. Rim único ou obstrução bilateral mudam o relógio inteiro: aí a desobstrução é a conduta, não a analgesia
A alta — quem vai para casa, e com o que na mão
Odair fica sem dor 40 minutos depois da dipirona, bebe água, não vomita mais, está afebril, com creatinina de 0,9 mg/dL. A tomografia mostrou cálculo de 4 mm no ureter distal esquerdo, com hidronefrose leve. Ele vai para casa, e a alta tem cinco itens. O primeiro é a analgesia que ele leva, porque a dor volta e o pronto-socorro não pode ser o único plano. O segundo é o filtro de urina, e é a instrução que a diretriz brasileira registra sem meias-palavras e que quase ninguém transmite: o paciente deve ser instruído a filtrar a urina nos primeiros dias após a crise e, em caso de eliminação do cálculo ou de fragmentos, manter o material em recipiente seco e limpo até levá-lo para análise. O terceiro são os sinais de retorno. O quarto é a imagem de controle, porque a diretriz é explícita ao dizer que nem a resolução dos sintomas nem o relato do paciente sobre a passagem do cálculo são sempre confirmatórios. O quinto é o retorno marcado.
Prescrição- Analgesia oral com dose, intervalo, máximo diário e duração: exemplo dipirona 500–1.000 mg a cada 6 horas se necessário, máximo 4 g/dia no adulto deste caso; AINE apenas se indicado pelo risco e pelo menor tempo. Plano de resgate e retorno se controle insuficiente.
- Filtro de urina: uma peneira fina, gaze ou filtro de papel sobre um recipiente, em toda micção dos primeiros dias. O que sair vai para um pote seco e limpo e vem na consulta de retorno
- Sinais de retorno imediato escritos no papel, não ditos: febre ou calafrio, vômito que impeça beber, dor que não cede com a medicação prescrita, ausência de urina
- Terapia expulsiva com alfabloqueador tem maior benefício em cálculo ureteral distal >5 mm, em paciente selecionado para observação, com explicação de uso e risco de hipotensão. No cálculo distal de 4 mm de Odair, não é obrigação. Se escolhida, tansulosina 0,4 mg/dia é um exemplo; verificar acesso e contraindicações. Não iniciar doxazosina 4 mg de forma automática em paciente sem uso prévio.
- Imagem de controle solicitada na alta, não deixada para o retorno: radiografia simples ou ultrassonografia, conforme as características do cálculo — grau de recomendação B, nível de evidência 2, na diretriz brasileira
- Consulta de retorno marcada com data. Se o serviço encaminha por regulação, o encaminhamento sai hoje, com laudo de imagem, creatinina e a descrição do tratamento já feito, que é o conteúdo mínimo que a régua gaúcha exige
O retorno — onde a doença de repetição se resolve
Zoraia Furtuoso tem 34 anos e este é o terceiro cálculo em quatro anos. Ela é o motivo de este capítulo não terminar na alta. A prevenção tem duas alavancas, e as duas saem do mecanismo: diluir a urina e devolver o inibidor que falta. A meta que a diretriz brasileira publica é de diurese, e não de ingesta — 2,5 a 3,0 litros por dia, com a ressalva aritmética registrada nas notas do bloco de critério. Dieta: sal abaixo de 6 g por dia, proteína de 0,8 a 1,0 g/kg de peso ideal por dia com redução da proteína de origem animal, e — contra a intuição de todo paciente — cálcio de 1.000 a 1.200 mg por dia, porque restringir cálcio aumenta a absorção de oxalato e piora a doença. A investigação metabólica é indicada a formadores recorrentes, a formadores únicos de alto risco e a quem, tendo tido o primeiro cálculo, se interessa por prevenção; a régua gaúcha a indica a partir de dois episódios sintomáticos, múltiplos cálculos na primeira apresentação ou história familiar fortemente positiva. Um detalhe de encaminhamento que economiza uma volta inteira do paciente pelo sistema: a mesma régua gaúcha separa dois destinos que costumam ser confundidos. Vai para a urologia quem tem cálculo que precisa de intervenção — ureteral maior que 10 mm, ureteral de até 10 mm não eliminado em 4 semanas, renal sintomático, renal assintomático maior que 10 mm, coraliforme de qualquer tamanho, vesical. Vai para a nefrologia quem tem litíase recorrente com causa metabólica identificada e tratamento farmacológico que a atenção primária não consegue conduzir, ou quem não consegue fazer a avaliação metabólica. São perguntas diferentes: uma é sobre a pedra que existe, a outra é sobre a próxima.
Prescrição- Meta de diurese de 2,5 a 3,0 litros por dia, medida pelo paciente com uma garrafa graduada; a fórmula de ingesta da diretriz não alcança essa meta em adultos de peso médio, e o que se persegue é o volume que sai
- Sal abaixo de 6 g por dia; proteína de 0,8 a 1,0 g/kg de peso corporal ideal por dia; cálcio da dieta mantido entre 1.000 e 1.200 mg por dia — não restringir
- Análise do cálculo eliminado. A diretriz recomenda análise morfológica associada a método físico ou cristalográfico, idealmente espectroscopia infravermelha ou difração de raios-X, e registra que a análise química, a mais usada no Brasil, é considerada obsoleta e que os métodos padrão-ouro não constam no rol de exames do serviço público nem dos planos
- Perfil metabólico basal de 3 a 8 semanas após a última eliminação, com o trato desobstruído, dieta habitual e sem infecção comprovada; duas urinas de 24 horas em dias não consecutivos
- Hidroclorotiazida para hipercalciúria com litíase cálcica recorrente — grau B, nível de evidência 2. Comprimidos de 12,5 e 25 mg, Componente Básico. As tiazidas de meia-vida longa que a diretriz preferiria, clortalidona e indapamida, não constam na Rename 2024, e a própria diretriz registra isso
- Citrato de potássio para hipocitratúria com litíase cálcica recorrente — grau A, nível de evidência 1, a recomendação farmacológica preventiva mais forte de toda a diretriz. Não consta na Rename 2024: no Brasil vem de formulação pronta ou de manipulação, em apresentações de liberação lenta de 5, 10 e 15 mEq, para uma dose diária de 20 a 60 mEq. Avise sobre intolerância gástrica e oriente a tomada após as refeições
- Alopurinol como adjuvante no cálculo de ácido úrico com hiperuricemia ou hiperuricosúria — grau B, nível de evidência 2, dose habitual de 100 a 300 mg por dia. Comprimidos de 100 e 300 mg, Componente Básico da Rename 2024
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros, com o intervalo em que cada um responde. O que se procura não é melhora da dor — essa vem —, é o sinal de que o quadro deixou de ser o que você achou que era.
Esperado: Queda importante, com o paciente conseguindo ficar quieto na maca e conversar frases inteiras. É a assinatura motora invertendo.
Se não melhora: Dor que não cede com esquema otimizado é, na régua gaúcha, um dos três motivos de encaminhamento para urgência, ao lado de obstrução com hidronefrose e sepse urinária. Antes de subir a dose, faça três perguntas: a medicação foi de fato administrada, o diagnóstico continua sendo cólica, e há alguma coisa nova no exame. Dor refratária num primeiro episódio de paciente idoso é aorta até prova em contrário; dor que muda de caráter e ganha defesa abdominal deixou de ser visceral pura e passou a ser assunto de Dor abdominal no pronto-socorro.
Esperado: Beber água e mantê-la. Metade destes pacientes vomita, e a analgesia oral prescrita para quem ainda vomita é analgesia que não vai acontecer.
Se não melhora: Vômito incoercível é critério de permanência, não de alta com receita. Sem via oral não há analgesia domiciliar, não há hidratação e não há terapia expulsiva. Aqui a hidratação venosa deixa de ser o gesto desaconselhado e passa a ser o gesto indicado — a diretriz brasileira sustenta a reposição em paciente com náuseas e vômitos significativos, e o que ela recusa é o volume prescrito com o único propósito de forçar a passagem do cálculo. A diferença entre as duas coisas é a razão escrita no prontuário, e é por isso que escrever a indicação importa.
Esperado: Afebril. A cólica não complicada não dá febre.
Se não melhora: Febre com calafrio muda o capítulo: é obstrução com infecção até prova em contrário, e a resposta é culturas, antibiótico imediato e telefonema pedindo drenagem. Não é troca de analgésico, e não é observação por mais duas horas. Cuidado com a versão silenciosa: idoso, diabético ou imunodeprimido pode não fazer febre alta e chegar apenas confuso e taquicárdico — é para esse paciente que a diretriz brasileira registra, ainda que com grau C e nível de evidência 4, que idade acima de 54 anos e proteína C reativa muito elevada ajudam a decidir o antibiótico.
Esperado: Diurese preservada, porque o rim contralateral compensa.
Se não melhora: Queda persistente de diurese ou anúria exige avaliar volume vesical, perfusão e obstrução. Pode indicar urgência urológica mesmo sem febre; não esperar elevação da creatinina ou infecção para agir.
Esperado: Taquicardia e hipertensão pela dor, que cedem junto com ela.
Se não melhora: Taquicardia que persiste depois de a dor ceder, ou hipotensão nova, não é dor: é resposta sistêmica ou é sangramento. A partir daí quem governa é o capítulo de sepse, em Medicina Intensiva; queda de pressão numa primeira crise de homem idoso aponta para a aorta, e quem responde essa pergunta em minutos, sem tirar o paciente da sala, é a ultrassonografia feita à beira do leito — que é assunto de Cirurgia Vascular e de Dor lombar aguda, e não deste capítulo.
Esperado: Normal, porque o rim contralateral compensa a obstrução unilateral.
Se não melhora: Creatinina que sobe muda tudo de uma vez: tira o anti-inflamatório da mesa, adianta a imagem e transforma a desobstrução em conduta, não em encaminhamento. As situações em que ela sobe estão listadas na diretriz — rim único obstruído, obstrução bilateral, cálculo vesical grande, cálculo uretral impactado.
Esperado: Confirmação por imagem. A diretriz brasileira recomenda acompanhamento por imagem para confirmar a passagem, com grau B e nível de evidência 2, e sugere radiografia simples ou ultrassonografia conforme as características do cálculo.
Se não melhora: A mesma diretriz registra, com grau D e nível de evidência 4, que nem a resolução dos sintomas nem o relato do paciente sobre a eliminação são sempre confirmatórios. Paciente sem dor e sem imagem de controle é paciente com cálculo de paradeiro desconhecido — e um cálculo que ficou parado no ureter destrói função sem doer. Se a imagem mostra que o cálculo não andou, a régua de regulação gaúcha considera o tratamento clínico falho a partir de 4 semanas e encaminha à urologia, enquanto a régua federal de 2015 usa 15 dias sem mudança de posição; qual das duas se aplica depende da regulação do seu serviço, e a divergência está registrada no bloco de divergências.
Onde o erro machuca
O dano: O paciente passa uma a três horas com dor de intensidade máxima porque o tomógrafo está ocupado, o técnico está a caminho ou o laudo não saiu. A diretriz brasileira fecha essa porta com uma frase: o alívio da dor ou qualquer outra medida de emergência não devem ser adiados para a realização de exames de imagem. Não existe argumento diagnóstico do outro lado — analgesia não mascara cólica, e nenhuma decisão do capítulo depende de examinar o paciente com dor.
Como pegar a tempo: Prescreva a analgesia na mesma folha em que solicita o exame, e assine as duas ao mesmo tempo. Se a rotina do serviço separa as duas coisas, junte-as você. E desconfie da versão disfarçada do mesmo erro, que é prescrever a analgesia e deixá-la esperando: a prescrição assinada não alivia ninguém enquanto a ampola não sai da farmácia. Confirme com a enfermagem que a dose foi administrada e volte para reavaliar em 30 a 60 minutos — reavaliação também é conduta.
O dano: É a linha por onde escapam o aneurisma de aorta em ruptura contida, a gestação ectópica e o infarto renal. O rótulo escrito na porta não é neutro: ele reorganiza o atendimento inteiro em torno de uma hipótese, define que exame será pedido, quanto tempo o paciente pode esperar e em que fila ele fica. O paciente recebe analgesia, sente-se melhor por causa dela, e a melhora é lida como confirmação do diagnóstico — quando, no aneurisma, ela não significa nada.
Como pegar a tempo: Trate o rótulo da triagem como hipótese alheia, não como diagnóstico. Em primeira crise acima dos 60 anos, com tabagismo ou hipertensão, olhe a aorta antes. O assunto é do capítulo de aneurisma de aorta abdominal, em Cirurgia Vascular, e de Dor lombar aguda; a obrigação daqui é não fechar a porta.
O dano: O antibiótico circula no sangue e não alcança em concentração o conteúdo de uma cavidade que não drena, ao mesmo tempo que a pressão lança material infectado do sistema coletor na corrente sanguínea. O paciente melhora um pouco, a febre cede parcialmente, e o quadro reaparece pior algumas horas depois — ou não reaparece porque evoluiu direto para choque. A diretriz brasileira nomeia a condição e a classifica como de elevada morbidade e mortalidade.
Como pegar a tempo: Diante de febre ou calafrio com cólica, ou de queda da diurese, a primeira ligação é para quem drena, e ela acontece antes de o antibiótico terminar de correr. Antibiótico e drenagem não são alternativas; são as duas metades da mesma conduta. Se o serviço não tem urologia, a palavra escrita na guia de transferência decide a fila do outro lado: escreva obstrução urinária infectada, e não cólica renal, porque o segundo rótulo é lido como caso de dor e o primeiro como caso de sala.
O dano: A tabela de medicações do pronto-socorro da diretriz brasileira de 2025 traz morfina a 1 mg/kg de 4 em 4 horas, que num adulto de 70 kg são 70 mg por dose — dez vezes a dose que o próprio documento cita, no texto corrido, como a do ensaio que o embasa. E traz cetorolaco 360 mg por via intramuscular ao lado de um teto diário declarado de 120 mg, na mesma célula. Um interno com pressa copia a linha.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever a partir de uma tabela, faça duas contas de dez segundos: quantos mililitros e quantas ampolas isso dá na apresentação real, e quanto dá no dia contra o teto declarado ao lado. As duas contas são as mesmas que estão nas notas do bloco de critério — e foram elas que encontraram os erros.
O dano: Dor resolvida não é cálculo eliminado. O cálculo pode ter parado de se mover e permanecido impactado, e o ureter obstruído em silêncio destrói função. A diretriz brasileira diz isso com todas as letras: nem a resolução dos sintomas nem o relato do paciente sobre a passagem bem-sucedida são sempre confirmatórios, e recomenda imagem de controle com grau B.
Como pegar a tempo: Toda alta por cólica sai com imagem de controle solicitada e retorno marcado, e com o filtro de urina explicado. Sem essas três coisas, o paciente saiu do serviço sem diagnóstico de desfecho. Escreva no sumário de alta, com essas palavras, que a resolução da dor não confirma a eliminação do cálculo: é o que impede o plantão seguinte, ou o colega do ambulatório, de tratar o episódio como encerrado por relato.
O dano: É o gesto mais difundido e o menos sustentado. A diretriz brasileira é explícita: embora seja útil reidratar pacientes hipovolêmicos, com náuseas e vômitos significativos, ou com suspeita de lesão renal aguda pré-renal, a hidratação intravenosa com o único propósito de promover a passagem forçada de cálculos não é respaldada pela literatura e deve ser evitada — grau B, nível de evidência 1. Num rim obstruído, aumentar o volume aumenta a pressão a montante, e a pressão é o que dói.
Como pegar a tempo: Prescreva volume por indicação, e escreva a indicação: vômito, desidratação, suspeita de injúria pré-renal. Se nenhuma das três existe, o soro é conforto de prescritor.
O que dizer ao paciente e à família
Sete conversas que este paciente exige, e a maior parte delas acontece com ele já sem dor — que é quando ele para de ouvir. Diga com ele sentado, e escreva o que importa.
Explicar por que não vai dar morfina de entrada
““O senhor não está tendo uma dor de nervo, está tendo uma dor de pressão: o canal que leva a urina do rim para a bexiga entupiu, e o rim continua produzindo urina contra a saída fechada. O anti-inflamatório desfaz o inchaço e baixa essa pressão, então ele age na causa. A morfina só desliga a sensação da dor e deixa a pressão do mesmo tamanho. Por isso ela é a segunda escolha, e não a primeira. Se o anti-inflamatório não der conta, a gente usa o resto.””
Não diga: Não diga que não vai dar opioide por causa de dependência ou de burocracia. É falso no contexto, soa como recusa moral e destrói a confiança de quem está com dor máxima.
Explicar por que a tomografia não vai ser agora
““O exame é indicado e o senhor vai fazer. O que ele não é, no seu caso, é urgente: ele não muda o que eu faço nas próximas horas, que é tirar a dor e ver se o senhor consegue beber água. Se o senhor tivesse febre, ou um rim só, ou se eu estivesse na dúvida do diagnóstico, eu faria agora, de madrugada. Vou deixar o pedido na sua mão com a data.””
Não diga: Não diga que não vai pedir porque não tem técnico. Diga que não é urgente se não for, e diga que está indisponível se estiver — as duas coisas são verdade em serviços diferentes e o paciente merece saber qual delas é a dele.
Ensinar o filtro de urina
““A partir de agora o senhor vai urinar sempre dentro de uma peneira fina, ou com uma gaze, ou com um filtro de papel de café por cima de um pote. Toda vez, nos próximos dias, inclusive de madrugada. Se sair alguma coisa, mesmo do tamanho de um grão de areia, guarda num pote seco e limpo e traz na consulta. Analisar do que essa pedra é feita é o que decide o remédio que vai impedir a próxima.””
Não diga: Não deixe isso para a última frase da alta, dita de pé, na porta. Escreva no papel do paciente. Instrução dada assim é instrução perdida.
Dizer o prazo real da espera
““Pedra desse tamanho costuma sair sozinha, e não é em um ou dois dias. Nos estudos que a gente usa, o tempo médio até a pedra sair é de uns dezessete dias, com casos indo de seis a quase trinta. Ou seja: o senhor pode ter mais crises de dor nesse meio-tempo, e isso não quer dizer que deu errado. O que quer dizer que deu errado é febre, vômito que não deixa beber, ou dor que não passa com o remédio.””
Não diga: Não prometa que sai em dois ou três dias. O paciente que ouve um prazo curto volta ao pronto-socorro na segunda crise achando que fracassou, e é assim que ele acaba com uma tomografia repetida em uma semana.
Entregar os sinais de retorno
““Escrevi aqui quatro coisas. Febre ou tremedeira de frio. Vômito que impeça o senhor de beber água. Dor que não passa com o remédio que prescrevi. E parar de urinar. Qualquer uma dessas quatro, o senhor volta na hora, e mostra este papel na recepção. As outras coisas podem esperar a consulta.””
Não diga: Não diga apenas “se piorar, volte”. Piorar é palavra que cada pessoa define de um jeito, e as quatro que importam não são as que o paciente escolheria.
Explicar a drenagem urgente para o paciente e para a família
““A senhora tem duas coisas ao mesmo tempo: uma pedra entupindo o canal e uma infecção acima dela. Antibiótico sozinho não resolve, porque o remédio chega pelo sangue e a infecção está presa numa bolsa fechada. Antes de tratar a pedra, alguém precisa abrir uma saída para essa urina — ou por dentro, com um cateter, ou por fora, com um dreninho nas costas. A pedra em si fica para depois, quando a infecção estiver controlada. Já liguei para a urologia.””
Não diga: Não chame de “só uma sondinha” nem minimize. E não descreva a escolha entre cateter e nefrostomia como se fosse sua: ela é do urologista, e prometer uma das duas cria conflito quando a outra for feita.
Transformar “beba água” em tratamento
““Beber água, no seu caso, não é conselho de saúde: é o remédio principal, e ele tem dose. A meta não é quanto o senhor bebe, é quanto o senhor urina — dois litros e meio a três litros por dia. Compre uma garrafa graduada, urine dentro dela por um dia inteiro no fim de semana e me diga quanto deu. A partir daí a gente ajusta o quanto o senhor precisa beber para chegar lá.””
Não diga: Não prescreva um número de litros para beber sem explicar a meta de diurese. A fórmula de ingesta da própria diretriz não alcança a meta de urina em adultos de peso médio, e o paciente que cumpre a fórmula acha que cumpriu o tratamento.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
A favor, e com grau A
Vários estudos randomizados, ainda que com poucos pacientes, mostram que os alfabloqueadores aceleram a passagem do cálculo, diminuem a dor e reduzem a necessidade de analgésico, com efeitos colaterais mínimos, sobretudo hipotensão de primeira dose; e uma metanálise recente, só de ensaios randomizados, encontrou chance 44% maior de eliminação de cálculos ureterais distais de 5 a 10 mm com tansulosina. A diretriz brasileira classifica a recomendação como grau A, nível de evidência 1, e a europeia recomenda com força forte para cálculos distais de 5 a 10 mm. A régua de regulação gaúcha vai além e coloca o alfabloqueador dentro da própria definição de tratamento clínico otimizado, para qualquer cálculo ureteral de até 10 mm.
Diretriz Brasileira de Nefrolitíase, Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025; EAU Guidelines on Urolithiasis, edição de 2026; Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto, TelessaúdeRS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, 2023.
Contra, e com o maior estudo
Um estudo multicêntrico com mais de mil pacientes mostrou que a terapia expulsiva se assemelhou ao placebo no número de intervenções necessárias para a eliminação de cálculos ureterais. A própria diretriz brasileira, ao reproduzi-lo, registra a característica que explica o resultado e limita a conclusão: 75% dos cálculos tinham menos de 5 mm e 65% estavam no ureter inferior — ou seja, a maioria sairia sozinha de qualquer jeito. A mesma diretriz chama o papel da terapia expulsiva de controverso, na mesma linha em que lhe dá grau A, e manda discutir vantagens e desvantagens com o paciente em decisão compartilhada.
Estudo multicêntrico de terapia expulsiva citado pela Diretriz Brasileira de Nefrolitíase, Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025 (Lancet, 2015).
Decida pelo tamanho e pela posição do cálculo do paciente à sua frente, e não pela classe. Se o cálculo é distal e mede entre 5 e 10 mm, os dois lados convergem: é a faixa em que a metanálise achou benefício e é exatamente a faixa que a diretriz europeia recomenda com força forte. Se o cálculo tem menos de 5 mm, você está prescrevendo para quem sairia sozinho em três quartos dos casos, e o ganho tende a zero — a decisão passa a ser sobre custo e efeito adverso. Se o cálculo é proximal, a evidência que existe não foi feita ali. No Brasil há um segundo filtro, e ele é material: das duas drogas que a régua gaúcha nomeia, só a doxazosina consta na Rename 2024, no Componente Básico; a tansulosina, que é a droga de todos os ensaios, não consta. Prescrever tansulosina é prescrever o que o paciente vai comprar. Diga isso a ele antes, e não depois.
Não fazer
A hidratação intravenosa com o único propósito de promover a passagem forçada de cálculos não é respaldada pela literatura e deve ser evitada — grau de recomendação B, nível de evidência 1. A justificativa fisiológica é direta: num sistema obstruído, aumentar o volume filtrado aumenta a pressão a montante do cálculo, e é a pressão que produz a dor.
Diretriz Brasileira de Nefrolitíase, Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025.
Hidratar, mas por outra indicação
A mesma diretriz, na mesma frase, sustenta a hidratação venosa em três situações concretas que a cólica produz com frequência: paciente hipovolêmico, paciente com náuseas e vômitos significativos, e paciente com suspeita de lesão renal aguda pré-renal. Como metade dos pacientes com cólica vomita, a fração que tem indicação legítima de volume não é pequena, e o gesto é o mesmo — muda só a razão escrita no prontuário.
Diretriz Brasileira de Nefrolitíase, Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2025, mesma passagem.
Escreva a indicação antes de escrever o volume. Se a razão for vômito, desidratação ou suspeita de injúria pré-renal, prescreva e registre a razão. Se a razão for empurrar a pedra, não prescreva. O teste que resolve à beira do leito é uma pergunta a si mesmo: se este paciente não tivesse cálculo nenhum e estivesse do jeito que está, eu correria soro? Se a resposta é não, o soro é para o cálculo, e é justamente isso que a diretriz desaconselha.
Meio centímetro e quinze dias
O documento de regulação do Ministério da Saúde para os hospitais federais do Rio de Janeiro encaminha à urologia o cálculo ureteral a partir de 0,5 cm, e fixa como critério o cálculo sem mudança de posição ureteral por 15 dias conforme exame de imagem, ou a presença de hidronefrose associada. Prioridade P1. Cálculos menores que 0,5 cm são encaminhados apenas se houver hidronefrose, malformação renal ou estenose de junção pieloureteral.
Ministério da Saúde, Protocolos de Acesso Ambulatorial: Consultas Especializadas — Hospitais Federais no Rio de Janeiro, 2015, linha de cuidado Litíase.
Um centímetro e quatro semanas
A régua de regulação do Rio Grande do Sul encaminha à urologia o cálculo ureteral maior que 10 mm, e o cálculo ureteral de até 10 mm apenas quando não eliminado após 4 semanas de tratamento clínico otimizado; exige, para cálculos de até 10 mm, dois exames de imagem com no mínimo 4 semanas de intervalo entre eles. É o dobro do corte de tamanho e quase o dobro do prazo do documento federal.
TelessaúdeRS-UFRGS e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul, Protocolos de Regulação Ambulatorial — Urologia Adulto, versão digital 2023, Protocolo 5.
Nenhum dos dois documentos é diretriz clínica: os dois são réguas de fila, e a fila que governa o seu paciente é a do serviço em que você está — comece por descobrir qual regulação ele usa, porque é ela que aceita ou devolve o encaminhamento. Para a decisão clínica, use o que os dois documentos não têm e a diretriz europeia tem: o tempo médio até a eliminação espontânea é de cerca de 17 dias, variando de 6 a 29. Esta é leitura deste capítulo, e não citação: um prazo de espera de 15 dias devolve à urologia pacientes que ainda estão dentro da janela normal de eliminação, enquanto um prazo de 4 semanas fica no limite superior dela. O que não muda em régua nenhuma é o que tira o paciente da fila hoje — obstrução com infecção, dor incontrolável e deterioração da função renal.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao Odair Catarino, 41 anos, 78 quilos, montador de móveis, quatro e dez da manhã. Dor lombar esquerda iniciada às duas e vinte, súbita, irradiando para a virilha, um vômito, sem febre. Está no corredor, andando, sem conseguir ficar parado. Pressão 148 por 92, frequência 104, temperatura axilar 36,4. Primeira crise da vida. O tomógrafo funciona e o técnico está de sobreaviso, chegando em cerca de uma hora.
Primeiro: a analgesia sai antes de tudo
Dipirona 1 g por via intravenosa, diluída e lenta — 2 mL da solução injetável de 500 mg/mL, o conteúdo de uma ampola de 2 mL. Antiemético venoso junto, porque ele já vomitou uma vez e vai precisar de via oral depois. A pressão de 148 por 92 e a frequência de 104 são da dor, e a expectativa é que caiam com ela. Nada disso espera a tomografia: a diretriz brasileira determina que o alívio da dor não seja adiado para exame de imagem.
Segundo: os sinais de alerta, percorridos um a um
Tem 41 anos, não é primeiro episódio acima dos 50. Está afebril, medido por você. Pressão alta pela dor, sem instabilidade. Nega rim único e nega doença renal. O quadro é típico: instalação em minutos, dor em ondas, inquietação motora, irradiação inguinal, um vômito. Nenhuma das seis portas de imagem imediata está aberta — o que significa que a imagem é indicada, e não urgente.
Terceiro: três exames, e a leitura correta de cada um
A creatinina de 0,9 mg/dL não mostra disfunção na medida atual, mas não exclui obstrução recente ou unilateral. Leucócitos de 11.200 sem desvio podem acompanhar estresse, sem provar nem excluir infecção. Integro urina, sinais vitais e evolução; se o risco mudar, ampliarei investigação e urgência, sem esperar que todos os exames se alterem.
Quarto: a imagem, e o que se escreve no pedido
Como o técnico chega em uma hora e o paciente já está sem dor, faz sentido esperar e fazer a tomografia sem contraste antes da alta, porque ela responde de uma vez tamanho, posição, grau de obstrução e diferencial. No pedido você escreve o que quer saber, não apenas a hipótese: presença de cálculo, tamanho no maior eixo, posição no ureter, grau de hidronefrose e densidade em unidades Hounsfield. O resultado: cálculo de 4 mm no ureter distal esquerdo, hidronefrose leve, sem outros achados.
Quinto: a leitura do resultado, que é uma leitura de probabilidade
Quatro milímetros no ureter distal é a melhor combinação possível: a diretriz brasileira dá até 80% de eliminação espontânea para cálculos menores que 5 mm, e a diretriz europeia é mais específica ao dar 89% para os menores de 5 mm localizados no ureter distal. Nenhuma das duas dá esse número para o cálculo de 8 mm proximal do paciente da maca ao lado, e é por isso que o mesmo diagnóstico produz duas condutas diferentes. Repare também no que o laudo não diz e você precisa concluir: hidronefrose leve com creatinina normal, num paciente com dois rins, é obstrução parcial compensada, e não é indicação de nada urgente — o que seria indicação urgente é hidronefrose com febre, com creatinina em elevação ou em rim único. A palavra hidronefrose no laudo assusta e não decide sozinha.
Sexto: a alta, com cinco itens e não com um
Analgesia por escrito em horário fixo nos dois primeiros dias. Filtro de urina explicado e escrito no papel, com o pote seco e limpo. Os quatro sinais de retorno impressos: febre ou calafrio, vômito que impeça beber, dor que não cede, ausência de urina. Imagem de controle solicitada hoje. Retorno marcado com data. Sobre a terapia expulsiva, o cálculo de 4 mm cai fora da faixa de 5 a 10 mm em que os dois lados da divergência convergem — a conversa com ele é sobre isso, e não sobre a receita.
Sétimo: o que fica escrito no prontuário
Que a dor cedeu em 40 minutos e ele passou a ficar quieto na maca. Que estava afebril, com nitrito negativo e creatinina normal — achados favoráveis no caso, integrados à ausência de anúria, deterioração renal, dor refratária e suspeita sistêmica de infecção. Que a analgesia precedeu a imagem. Que os quatro sinais de retorno foram entregues por escrito e o filtro de urina foi explicado com o paciente sentado. E que ele saiu com imagem de controle solicitada, porque melhora da dor não é prova de eliminação do cálculo, e essa frase, escrita, é o que impede o plantão seguinte de recomeçar do zero. Um prontuário assim tem duas funções: cuida deste paciente e informa o próximo médico dele, que não será você.
Faça você
Na mesma madrugada, três macas adiante, está Aurineide Zamith, 52 anos, 64 quilos, diarista, hipertensa. Chegou às onze da noite com dor lombar direita em cólica, do tipo que já teve duas vezes na vida. Foi medicada às onze e meia e melhorou. Agora, às quatro e vinte, a técnica chama você porque ela está tremendo. Temperatura axilar 38,7. Pressão 96 por 58, frequência 118. Ela diz que urinou muito pouco desde ontem e que a urina está com cheiro forte. A urina tipo I acabou de voltar: nitrito positivo, bacteriúria, piúria, hematúria microscópica.
O que estes quatro achados formam, quando lidos juntos
Obstrução urinária com suspeita de infecção é emergência que exige antibiótico, avaliação urológica e descompressão quando indicada, sem tratar a retirada definitiva do cálculo como primeiro passo obrigatório. Outras situações também exigem urgência, como anúria, ameaça à função renal e dor ou vômitos refratários. Hipotensão não deve ser atribuída apenas à dor; avaliar perfusão e causas em paralelo à analgesia.
Por que o antibiótico, sozinho, não vai resolver
Pense no mecanismo antes de pensar na droga. Acima do cálculo há um sistema coletor fechado, sob pressão, cheio de urina infectada. O antibiótico chega pelo sangue e não alcança concentração dentro de uma cavidade que não drena, enquanto a pressão empurra bactéria e endotoxina de volta para a circulação. Prescrever antibiótico e reavaliar em 24 horas é a conduta que mata este paciente.
Onde está escrito o que fazer — e onde não está
A diretriz brasileira de nefrolitíase de 2025 nomeia a condição, chama-a de pielonefrite obstrutiva calculosa e a classifica como de elevada morbidade e mortalidade, mas não diz o que fazer com ela; a régua de regulação gaúcha diz para onde mandar, não o que fazer; o documento federal de 2015 não trata do assunto. Quem escreve a conduta, com força forte, é a diretriz europeia de urolitíase. Saber que a régua daqui é estrangeira faz parte da conduta, porque é o que impede você de procurar por horas um documento nacional que não existe.
Continuidade do caso e prática do internato
Compare Odair com Aurineide e com um terceiro paciente afebril com anúria: explicite por que dois deles exigem avaliação urgente por motivos distintos.
Questão integrativa 1
Um paciente afebril com rim único e anúria pode ir para casa após analgesia?
Questão integrativa 2
Nitrito negativo e creatinina normal excluem obstrução infectada?
Questão integrativa 3
Por que antibiótico sozinho pode falhar na obstrução infectada?
Questão integrativa 4
Deve-se forçar litros de água para empurrar a pedra?
Questão integrativa 5
Todo cálculo distal de 4 mm recebe alfabloqueador?
Questão integrativa 6
A dor sumiu; isso confirma que a obstrução resolveu?
Ver como fecharíamos
Primeiro, e ao mesmo tempo: acionamento urológico e suporte, culturas colhidas prontamente quando indicadas e antibiótico venoso imediato, sem atraso por dificuldade de coleta, sem esperar decisão sobre drenagem, e o esquema empírico pelo capítulo Nem toda bactéria é uma doença, em Nefrologia. Segundo, e este é o passo que define o caso: telefonema — não pedido de parecer por escrito — para a urologia do serviço ou para a regulação de vaga, com a palavra desobstrução na primeira frase. A diretriz europeia recomenda com força forte descomprimir o sistema coletor com urgência, e apresenta cateter ureteral e nefrostomia percutânea como igualmente eficazes, com nível de evidência 1b; a escolha entre os dois é do urologista e da disponibilidade do serviço. Terceiro: nova urina para antibiograma depois da descompressão, também recomendação forte, porque o agente da urina represada pode não ser o da bexiga. Quarto: o tratamento definitivo do cálculo fica adiado até a sepse estar resolvida — ninguém fragmenta pedra em paciente séptico. Quinto: se o serviço não tem urologia, a transferência começa agora, e o que se escreve na guia é obstrução urinária infectada, e não cólica renal, porque é o rótulo que decide a fila do outro lado. Sexto: a hipotensão de 96 por 58 com frequência de 118 depois de a dor ter cedido é disfunção circulatória até prova em contrário, e a partir daí quem manda é o capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, em Medicina Intensiva. Sobre a analgesia dela, uma nota: a creatinina precisa ser vista antes de repetir anti-inflamatório, porque obstrução com repercussão renal é uma das contraindicações da classe. Questões integrativas — respostas comentadas 1. Não. Há ameaça à função renal independentemente de infecção. Precisa de avaliação e imagem urgentes com a equipe urológica. 2. Não. Testes isolados têm limitações; integração de exposição, sintomas, sinais vitais, função renal e imagem orienta o diagnóstico e a urgência. 3. O sistema obstruído mantém o foco e a pressão. A drenagem faz parte do tratamento, enquanto o antimicrobiano e o suporte tratam a infecção sistêmica. 4. Não. Corrija desidratação e mantenha euvolemia. Hiper-hidratação forçada não é estratégia de expulsão e pode aumentar desconforto ou sobrecarga. 5. Não. A chance de eliminação espontânea é relevante e o maior benefício da terapia expulsiva aparece nos distais maiores que 5 mm. Discuta benefício, efeitos e plano de acompanhamento. 6. Não. Sintoma e obstrução podem divergir. O seguimento e a imagem quando indicada confirmam resolução e permitem iniciar prevenção.
A analgesia deve começar sem aguardar a tomografia. Na suspeita de cólica renal, AINE é opção de primeira linha se não houver contraindicação, considerando função renal, risco gastrointestinal e outras condições clínicas. Opioide pode ser necessário quando o alívio for insuficiente ou o AINE não puder ser utilizado. Não se recomenda hidratação forçada apenas para expulsar o cálculo; corrigir desidratação quando presente. O caso não fornece urinálise e não demonstra infecção, portanto não justifica antibiótico automático. Entretanto, ausência de febre não exclui ITU: piúria pode ser estéril pela inflamação, mas também deve levantar suspeita de infecção e motivar avaliação, inclusive cultura conforme os achados. Se houver obstrução associada a infecção, a conduta exige antibiótico e avaliação urgente para drenagem, além da analgesia.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Reconstitua analgesia e contraindicações, reconhecimento de obstrução infectada e descompressão, além das outras urgências: anúria, ameaça à função renal e dor refratária. Explique por que sinais de infecção não precisam formar uma tríade completa para acionar a equipe.
Em 30 dias
Prova de retenção a longo prazo: (1) reconstrua sem consultar a tabela de eliminação espontânea por tamanho e posição, e diga o tempo médio até a eliminação e a faixa de variação; (2) diga quais analgésicos citados pela tabela da diretriz brasileira constam na Rename 2024 e quais não constam, e qual é a única analgesia injetável do Componente Básico para esta dor; (3) refaça de cabeça as três contas que a auditoria deste capítulo fez — a dose de morfina em miligramas e em ampolas num adulto de 70 kg, a dose intramuscular de cetorolaco contra o teto declarado na mesma linha, e a ingesta prescrita pela fórmula de líquidos contra a diurese-alvo; (4) escreva, por extenso, os cinco itens da alta de uma cólica não complicada, e explique para um colega por que melhora da dor não é prova de eliminação do cálculo.
Agora atenda
Você é o interno do pronto-socorro clínico às quatro da manhã. Homem de 41 anos, 78 quilos, com dor lombar esquerda iniciada há duas horas, súbita, irradiando para a virilha, um episódio de vômito, andando pelo corredor sem conseguir ficar parado. Colha a história com atenção ao início e à irradiação, examine procurando sinal peritoneal e o ângulo costovertebral, percorra os seis sinais de alerta, prescreva a analgesia na ordem certa, decida se a imagem é urgente e qual, e conduza a conversa da alta — incluindo o prazo real de espera e o filtro de urina.
