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Cardiopatias congênitas acianóticas

CIV, CIA e PCA compartilham a mesma física — sangue oxigenado que volta ao pulmão. A prova cobra qual sopro pertence a qual defeito, por que o lactente só passa mal depois da segunda semana e qual dos três fecha sozinho.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Lactente de 4 meses é avaliado em consulta de puericultura. A mãe relata cansaço às mamadas, sudorese e ganho ponderal insuficiente. Ao exame, ausculta-se sopro holossistólico rude em borda esternal esquerda baixa (região paraesternal), grau 3/6, com frêmito. Sem cianose. É a cardiopatia congênita acianótica mais comum. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Três defeitos respondem pela maior parte das cardiopatias congênitas que chegam vivas ao consultório: comunicação interventricular (CIV), comunicação interatrial (CIA) e persistência do canal arterial (PCA). Todas as três têm shunt da esquerda para a direita — sangue já oxigenado que atravessa o defeito e volta ao pulmão. Como nenhuma parcela de sangue venoso chega à aorta, não há cianose, e a saturação periférica é normal.

A prova cobra quase sempre a mesma sequência: um lactente com taquipneia, sudorese às mamadas e ganho de peso ruim, ou uma criança assintomática cujo sopro apareceu numa consulta de rotina. A pergunta é qual é o defeito — e a resposta está na ausculta, não no exame de imagem. Sopro holossistólico em borda esternal esquerda baixa, sopro sistólico suave em foco pulmonar com segunda bulha desdobrada fixa e sopro contínuo infraclavicular esquerdo são três frases que valem cada uma um diagnóstico.

O segundo eixo cobrado é temporal: por que a criança nasce bem e só piora depois da segunda semana, quando fechar, e o que acontece com quem não fecha a tempo. Cardiopatia congênita responde por cerca de 30% de todas as malformações e por 10% a 15% dos óbitos infantis, com incidência estimada em 9,4 casos por 1.000 nascidos vivos (intervalo de confiança de 95%: 8,6 a 10,2) — números que a Sociedade Brasileira de Pediatria adota, ao lado do dado de que anomalias extracardíacas acompanham cerca de 25% dos bebês cardiopatas. As que se manifestam já no período neonatal, quase sempre graves, respondem por cerca de 3 casos em cada 1.000 nascidos vivos.

03

O que muda decisão

Por que o bebê nasce bem e piora na segunda semana

Como usar este capítulo: pense primeiro na direção e no volume do shunt, porque isso explica o momento dos sintomas, o sopro e a sobrecarga das câmaras. Depois compare comunicação interventricular, comunicação interatrial e canal arterial e reconheça insuficiência cardíaca e hipertensão pulmonar.

No feto, a resistência vascular pulmonar é altíssima: o pulmão não ventila e suas arteríolas ficam contraídas. Ao nascer, a insuflação pulmonar e a oxigenação derrubam essa resistência, mas a queda não é instantânea — leva semanas. Enquanto a resistência pulmonar ainda é alta, a diferença de pressão entre as câmaras esquerdas e direitas é pequena e o shunt através do defeito é modesto. À medida que a resistência despenca, o sangue passa a preferir cada vez mais o circuito pulmonar, o shunt cresce e o hiperfluxo se instala.

Essa é a razão de o quadro clínico ter data marcada. A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve o grupo de shunt esquerda-direita exclusivo exatamente assim: taquidispneia e insuficiência cardíaca que se tornam mais exuberantes a partir da segunda semana de vida, à medida que a resistência vascular pulmonar se reduz e o fluxo pulmonar aumenta rapidamente. Um recém-nascido com CIV grande pode receber alta da maternidade sem sopro nenhum e voltar aos vinte dias em franca insuficiência cardíaca.

O corolário mais cobrado e menos intuitivo é o do sopro. O sopro nasce da turbulência através do orifício, e turbulência exige gradiente de pressão. Defeito pequeno e restritivo mantém gradiente alto e produz sopro intenso, muitas vezes com frêmito, numa criança que come bem e cresce normalmente. Defeito grande equaliza as pressões dos dois ventrículos, o gradiente cai e o sopro fica menos impressionante — na criança que está internando com insuficiência cardíaca. Intensidade do sopro não mede gravidade; se algo mede, é a segunda bulha.

Não havendo mistura de sangue venoso na circulação sistêmica, a saturação periférica permanece acima de 95%, e é isso que separa esse grupo das cardiopatias cianóticas e das de shunt misto — nestas a saturação costuma ficar entre 85% e 95%. A radiografia de tórax das três acianóticas com repercussão mostra o mesmo par de achados: área cardíaca aumentada e trama vascular pulmonar aumentada.

Três cortes esquemáticos do coração de um lactente lado a lado: defeito no septo entre os ventrículos, defeito no septo entre os átrios e vaso ligando a aorta à artéria pulmonar, com setas indicando o desvio do lado esquerdo para o direito.
As três compartilham a mesma física: sangue já oxigenado que volta ao pulmão. Muda o andar do coração onde o desvio acontece — e é isso que a ausculta denuncia.

Comunicação interventricular: a mais comum de todas

A CIV é o defeito congênito isolado mais frequente. A localização importa porque muda a história natural e o risco: a perimembranosa é de longe a mais comum; a muscular (ou trabecular) é a que mais fecha sozinha; a de via de entrada aparece no defeito do septo atrioventricular e puxa a suspeita de síndrome de Down; e a subarterial/infundibular, logo abaixo das valvas arteriais, é a que ameaça a cúspide aórtica, que pode prolapsar para dentro do defeito e produzir insuficiência aórtica.

A ausculta é a assinatura: sopro holossistólico, rude, de timbre regurgitativo, mais audível na borda esternal esquerda baixa (terceiro a quarto espaço intercostal), com irradiação em barra para a direita. Frêmito palpável indica sopro de grande intensidade. Quando o defeito é grande e o hiperfluxo é importante, soma-se um ruflar diastólico no ápice — é o volume aumentado atravessando a valva mitral, não uma estenose mitral.

A CIV pequena e restritiva é a situação mais frequente do consultório: sopro alto numa criança rigorosamente assintomática, com crescimento normal, radiografia e eletrocardiograma normais. A conduta é acompanhamento, sem restrição de atividade e sem antibiótico profilático de rotina. A maioria das musculares pequenas fecha espontaneamente, quase sempre nos dois primeiros anos de vida; parte das perimembranosas pequenas também se fecha por aposição do tecido tricúspide.

A CIV grande é outra doença. A partir da segunda semana instala-se insuficiência cardíaca com taquipneia, sudorese e cansaço às mamadas, mamadas fracionadas, infecções respiratórias de repetição e curva de peso que estaciona antes da estatura. O eletrocardiograma mostra sobrecarga biventricular e a radiografia, cardiomegalia com trama pulmonar aumentada. Aqui o tratamento clínico apenas ganha tempo: a correção cirúrgica é feita ainda no primeiro ano, porque a janela de operabilidade se fecha com a doença vascular pulmonar.

Comunicação interatrial: o desdobramento fixo da segunda bulha

A CIA é a cardiopatia que mais escapa da infância sem diagnóstico, e o motivo é hemodinâmico: a diferença de pressão entre os átrios é pequena, o shunt é lento e o defeito quase nunca produz sopro próprio. O sopro que se ausculta não vem do buraco — vem do hiperfluxo atravessando a valva pulmonar: um sopro sistólico ejetivo suave, de intensidade discreta, em foco pulmonar. Quando o shunt é grande, aparece também um ruflar diastólico em foco tricúspide, pelo volume excessivo que cruza a tricúspide.

O sinal patognomônico é o desdobramento fixo da segunda bulha. Em condições normais, a inspiração aumenta o retorno venoso ao ventrículo direito e atrasa o fechamento da valva pulmonar, alargando o desdobramento; na expiração ele se estreita. Na CIA, o ventrículo direito já recebe um volume extra constante vindo do átrio esquerdo, e a respiração deixa de modular esse enchimento: o desdobramento fica largo e imóvel ao longo de todo o ciclo respiratório.

O eletrocardiograma resolve o subtipo, e essa é uma discriminação clássica de prova. Na CIA ostium secundum, a mais comum, há desvio do eixo para a direita com padrão rSR' em V1, isto é, bloqueio incompleto do ramo direito por sobrecarga de volume do ventrículo direito. Na CIA ostium primum, que é a forma parcial do defeito do septo atrioventricular e vem associada à síndrome de Down, o eixo desvia para a esquerda, com bloqueio divisional anterossuperior — eixo à esquerda numa criança com sobrecarga direita é ostium primum até prova em contrário. O terceiro tipo, seio venoso, costuma vir acompanhado de drenagem anômala parcial de veias pulmonares.

A criança com CIA é, na maioria das vezes, assintomática e cresce bem; quando há repercussão, o que aparece é cansaço aos esforços e infecções respiratórias de repetição, não insuficiência cardíaca do lactente. O que decide o fechamento é a sobrecarga de volume das câmaras direitas ao ecocardiograma, e não o tamanho do sopro. Defeitos pequenos, sobretudo abaixo de 5 mm, fecham espontaneamente com frequência no primeiro ano de vida, o que justifica esperar. O ostium secundum com bordas adequadas é fechado por cateterismo com dispositivo oclusor; primum e seio venoso são cirúrgicos.

Persistência do canal arterial: sopro contínuo e pulsos amplos

O canal arterial é uma estrutura fetal: liga a artéria pulmonar à aorta descendente e desvia do pulmão o sangue que o feto não precisa oxigenar ali. Depois do nascimento, a alta do oxigênio e a queda das prostaglandinas circulantes fecham o canal — funcionalmente nas primeiras 24 a 48 horas, anatomicamente ao longo das primeiras semanas. No recém-nascido a termo cujo canal não fechou, o defeito é estrutural e não se resolve com o tempo. No prematuro é diferente: o canal está imaturo e responde mal ao estímulo de fechamento, e o problema é de maturação, não de má-formação.

Fora do período neonatal, a ausculta é inconfundível: sopro contínuo, em maquinaria, que atravessa a segunda bulha sem interrupção, mais audível na região infraclavicular esquerda e no segundo espaço intercostal esquerdo. O achado periférico que acompanha vale tanto quanto o sopro: pressão de pulso alargada e pulsos amplos, em martelo d'água, porque a aorta perde sangue para o território pulmonar durante a diástole. Precórdio hiperdinâmico completa o quadro. Quando a hipertensão pulmonar avança, o componente diastólico se apaga e o sopro contínuo vira apenas sistólico — e isso é piora, não melhora.

No prematuro, o canal hemodinamicamente significativo se manifesta como deterioração respiratória, dificuldade de desmame da ventilação, hipotensão diastólica e aumento do risco de hemorragia pulmonar, enterocolite necrosante e hemorragia intracraniana. O tratamento farmacológico se faz por inibição da síntese de prostaglandinas — ibuprofeno, indometacina ou paracetamol —, ficando a ligadura cirúrgica ou o fechamento percutâneo para os casos refratários com repercussão persistente. Na criança maior e no adulto, o fechamento percutâneo é o padrão.

Existe uma armadilha de sinal trocado, e ela é grave. Em um subgrupo de cardiopatias, o canal aberto é o que mantém o bebê vivo: são as canal-dependentes, em que o fluxo pulmonar ou o fluxo sistêmico só existe através do canal — atresia pulmonar, síndrome de hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica, interrupção do arco aórtico. Nessas, o recém-nascido descompensa justamente quando o canal fecha, e o tratamento é infusão de prostaglandina E1 para mantê-lo aberto. Fechar canal e abrir canal são condutas opostas para doenças opostas; o que define de que lado se está é a presença de obstrução ao fluxo pulmonar ou sistêmico.

Quadro comparativo de CIV, CIA e persistência do canal arterial, com direção do shunt, câmaras sobrecarregadas e achado auscultatório característico.
Nos três defeitos o shunt inicial costuma ser da esquerda para a direita, mas o local da comunicação determina sopro, repercussão e câmaras sobrecarregadas. A comparação reduz a dependência de memorização isolada.

A insuficiência cardíaca do lactente tem cara de pneumonia

Insuficiência cardíaca em lactente não se parece com insuficiência cardíaca de adulto. Não há dispneia paroxística noturna nem turgência jugular relatada; há taquipneia em repouso, tiragem, cansaço e sudorese durante as mamadas — o lactente mama pouco, para para respirar, adormece exausto e volta a chorar de fome logo depois. A curva de peso é o marcador mais sensível: estaciona antes que a estatura seja atingida. A Sociedade Brasileira de Pediatria coloca a frequência respiratória acima de 70 incursões por minuto como sinal de alerta no recém-nascido, mesmo sem cianose e sem outros sinais de insuficiência cardíaca.

O sinal de congestão do lactente é a hepatomegalia, não o edema de membros. Some-se taquicardia, precórdio hiperdinâmico com impulsões visíveis ou palpáveis e hiperfonese da segunda bulha em foco pulmonar, que traduz hipertensão pulmonar. Um lactente com quadros respiratórios de repetição, sibilância recorrente e ganho de peso ruim merece exame cardiovascular antes de receber o quarto diagnóstico de broncoespasmo do semestre.

O tratamento clínico do hiperfluxo é sintomático e serve para levar a criança em condições melhores até a correção: diurético de alça para descongestionar, inibidor da enzima conversora de angiotensina para reduzir a pós-carga sistêmica e favorecer o fluxo anterógrado, e suporte nutricional com aumento de densidade calórica, às vezes por sonda, porque a criança gasta mais e ingere menos. Nada disso fecha o defeito: a correção cirúrgica ou percutânea é o que resolve, e o tempo de espera compete com a doença vascular pulmonar.

A janela que fecha: hipertensão pulmonar e síndrome de Eisenmenger

O hiperfluxo mantido agride o leito arteriolar pulmonar. Ao longo de meses a anos, as arteríolas hipertrofiam e depois se obliteram: a resistência vascular pulmonar, que havia caído após o nascimento, volta a subir, agora de forma fixa e irreversível. Quando ela se iguala e ultrapassa a resistência sistêmica, o shunt reduz, equilibra-se e por fim inverte — é a síndrome de Eisenmenger, e a partir dela a criança fica cianótica.

A evolução é traiçoeira porque parece melhora. A criança que vivia internando passa a comer melhor, a taquipneia diminui e o sopro encurta ou desaparece — porque o gradiente que o produzia acabou. Ao mesmo tempo, a segunda bulha fica cada vez mais hiperfonética em foco pulmonar, aparece cianose progressiva e, mais tarde, baqueteamento digital e policitemia. Sopro que some em criança com CIV grande não é alta: é indicação de reavaliação urgente.

Consumada a doença vascular pulmonar, fechar o defeito é contraindicado — o shunt passou a ser a válvula de escape do ventrículo direito, e ocluí-lo condena esse ventrículo a ejetar contra uma resistência fixa. O corte quantitativo mais citado vem da diretriz de cardiopatias congênitas do adulto da AHA/ACC de 2018: fecha-se o defeito quando há sobrecarga de volume com Qp:Qs de pelo menos 1,5:1, pressão sistólica pulmonar abaixo de 50% da sistêmica e resistência vascular pulmonar abaixo de um terço da sistêmica; não se fecha quando a resistência pulmonar supera dois terços da sistêmica ou o shunt líquido já é direita-esquerda.

O risco não se distribui igual entre os três defeitos. CIV grande e PCA grande expõem o leito pulmonar à pressão sistêmica desde os primeiros meses e podem produzir doença vascular pulmonar ainda no primeiro ou segundo ano — por isso se opera cedo. A CIA transmite volume, não pressão: o regime é de baixa pressão e a hipertensão pulmonar, quando ocorre, costuma levar décadas. Daí a assimetria de urgência: CIV grande e PCA grande são problema de lactente; CIA é problema de pré-escolar eletivo, e sua complicação típica na vida adulta é arritmia atrial.

Investigação: o que pedir, o que não pedir e o que o rastreio não pega

O ecocardiograma com mapeamento de fluxo em cores é o exame que define anatomia, tamanho do shunt, função ventricular e estimativa de pressão pulmonar. O posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020 gradua a indicação: sopro patológico ou qualquer outra evidência de anormalidade cardíaca é classe I, nível C; sopro presumivelmente inocente acompanhado de sinais ou sintomas de doença cardíaca também é classe I; sopro funcional em paciente assintomático fica em classe IIb. O mesmo documento coloca em classe III os exames periódicos em pacientes operados de PCA, CIA ou CIV sem defeito residual e sem mudança na condição clínica — pós-operatório bem-sucedido e estável não pede ecocardiograma de rotina.

Radiografia de tórax e eletrocardiograma continuam úteis, mas para dimensionar repercussão, não para fechar diagnóstico. A radiografia mostra o par cardiomegalia e trama vascular pulmonar aumentada nos defeitos com hiperfluxo significativo, e é normal nos pequenos. O eletrocardiograma orienta quais câmaras estão sobrecarregadas e, na CIA, aponta o subtipo pelo eixo.

O teste do coraçãozinho não rastreia cardiopatia acianótica, e essa confusão custa questão. O teste mede oximetria de pulso na mão direita e em um dos pés, entre 24 e 48 horas de vida, em recém-nascidos com 35 semanas ou mais e assintomáticos: é negativo com SpO2 de pelo menos 95% e diferença de até 3% entre os sítios; positivo com SpO2 de 89% ou menos; e duvidoso entre 90% e 94% ou com diferença de 4% ou mais, situação em que se repete após uma hora, até duas vezes. Ele foi desenhado para achar cardiopatia congênita crítica pela hipoxemia — e a CIV, a CIA e o PCA isolados não cursam com hipoxemia. A própria Sociedade Brasileira de Pediatria adverte que teste negativo não exclui cardiopatia congênita: diante de diagnóstico fetal ou de sinais clínicos, a avaliação cardiológica é feita de qualquer forma.

Ausência de sopro na maternidade também não exclui nada. Nas primeiras 48 horas a resistência pulmonar ainda é alta, o shunt é pequeno e o sopro pode simplesmente não existir. A consulta de puericultura das primeiras semanas é onde esses sopros aparecem, e a taquipneia em repouso é o achado que muda o encaminhamento de eletivo para prioritário.

O que o pediatra faz enquanto a criança espera a correção

Criança com cardiopatia com repercussão hemodinâmica é criança de risco respiratório. Calendário vacinal completo e em dia, com atenção à vacina influenza anual e às pneumocócicas, é conduta de rotina. E há um benefício que depende de o pediatra lembrar dele: doença cardíaca congênita com repercussão hemodinâmica demonstrada em menor de 2 anos é, desde 2018, um dos grupos com direito a quimioprofilaxia contra o vírus sincicial respiratório no SUS — a mesma lista que inclui os prematuros e a displasia broncopulmonar. Não é o defeito que dá o direito, é a repercussão: CIV pequena com sopro alto e criança bem não entra; CIV grande em uso de diurético entra.

Profilaxia antibiótica para endocardite infecciosa não é indicada para CIV, CIA ou PCA isolados e não corrigidos. A indicação existe nos seis meses seguintes à correção com material protético — dispositivo oclusor ou patch —, enquanto a endotelização não se completa, e permanece indefinidamente quando resta defeito residual junto ao material implantado. Higiene bucal e acompanhamento odontológico regular pesam mais na prevenção do que a dose pré-procedimento.

Nutrição é tratamento nessa população: a criança com hiperfluxo gasta mais energia e ingere menos, e o ganho ponderal é um dos parâmetros que definem a urgência cirúrgica. Aleitamento materno é mantido, com fracionamento das mamadas e, quando necessário, aumento de densidade calórica ou complementação por sonda. Não há restrição de atividade física para defeitos pequenos sem repercussão, e restringir por precaução tem custo — a criança perde condicionamento e ganha o rótulo de doente sem que isso lhe traga proteção alguma.

O encaminhamento ao cardiologista pediátrico é imediato diante de sopro com características patológicas, taquipneia em repouso, sudorese às mamadas, ganho ponderal insuficiente ou pulsos alterados. Os procedimentos cirúrgicos e hemodinâmicos são feitos em centros habilitados em cirurgia cardiovascular pediátrica, e a distância entre a maternidade e o centro de referência é parte real do problema no Brasil — o que reforça o valor do diagnóstico fetal e do encaminhamento precoce.

04

Lendo a ausculta: qual das três está na frente

Nas três há shunt esquerda-direita e saturação normal. O que separa uma da outra é o tempo do sopro dentro do ciclo cardíaco, o comportamento da segunda bulha e o pulso periférico. A sequência abaixo funciona à beira do leito e resolve a maioria das vinhetas.

  1. 1Confirme que é acianótica: saturação de pulso acima de 95%, sem cianose e sem baqueteamento.
  2. 2Cronometre o sopro. Se ele atravessa a segunda bulha e continua na diástole, é sopro contínuo — pense em PCA e vá conferir o pulso.
  3. 3Se o sopro ocupa toda a sístole, é holossistólico e a borda esternal esquerda baixa é o foco de maior intensidade, pense em CIV.
  4. 4Se o sopro é sistólico ejetivo, suave, em foco pulmonar, escute a segunda bulha por vários ciclos respiratórios: desdobramento largo e imóvel é CIA.
  5. 5Palpe os pulsos e meça a pressão: pulsos amplos com pressão de pulso alargada reforçam PCA; pulsos reduzidos ou assimétricos tiram o caso deste capítulo e apontam obstrução ao fluxo sistêmico.
  6. 6Some a repercussão: taquipneia em repouso, hepatomegalia e curva de peso estacionada indicam defeito grande e encaminhamento prioritário, não importa qual dos três seja.

CIV

Sopro holossistólico rude em borda esternal esquerda baixa, com irradiação em barra e frêmito quando intenso; ruflar diastólico no ápice se o hiperfluxo for grande. Defeito mais comum; a maioria das pequenas musculares fecha sozinha. A grande dá insuficiência cardíaca a partir da segunda semana e é corrigida ainda no primeiro ano.

CIA

Sopro sistólico ejetivo suave em foco pulmonar — gerado pelo hiperfluxo na valva pulmonar, não pelo defeito — com desdobramento fixo da segunda bulha. Criança em geral assintomática. Ostium secundum: eixo à direita e rSR' em V1, fechamento por cateterismo. Ostium primum: eixo à esquerda, associação com síndrome de Down, correção cirúrgica.

PCA

Sopro contínuo em maquinaria infraclavicular esquerdo, pressão de pulso alargada e pulsos em martelo d'água. No prematuro, fechamento farmacológico com inibidor de prostaglandinas; no nascido a termo e na criança maior, fechamento percutâneo. Sopro que perde o componente diastólico sinaliza hipertensão pulmonar.

DefeitoSoproSegunda bulhaPulsos e pressãoECGHistória natural
CIVHolossistólico, rude, borda esternal esquerda baixa, irradiação em barraHiperfonética em foco pulmonar quando há hipertensão pulmonarNormaisSobrecarga de ventrículo esquerdo na moderada; biventricular na grandePequenas e musculares fecham sozinhas; grandes evoluem para insuficiência cardíaca e doença vascular pulmonar
CIASistólico ejetivo suave em foco pulmonar; ruflar tricúspide se shunt grandeDesdobramento largo e fixo, sem variação respiratóriaNormaisEixo à direita com rSR' em V1 (secundum); eixo à esquerda com bloqueio divisional anterossuperior (primum)Defeitos pequenos fecham no primeiro ano; os grandes chegam à vida adulta com arritmia atrial
PCAContínuo, em maquinaria, infraclavicular esquerdoEncoberta pelo sopro; hiperfonética se hipertensão pulmonarAmplos, em martelo d'água, com pressão de pulso alargadaSobrecarga de ventrículo esquerdo e átrio esquerdoNo prematuro pode fechar com fármaco; no nascido a termo não fecha espontaneamente

Quando cada defeito costuma dar sintoma

MomentoO que aconteceAchado que denuncia
Primeiras 48 horas de vidaResistência pulmonar ainda alta: shunt pequeno, sopro pode não existirExame normal na maternidade não exclui nenhum dos três defeitos
Segunda a oitava semanaResistência pulmonar cai e o shunt cresceTaquipneia em repouso, sudorese às mamadas, sopro que apareceu ou ficou mais alto
Lactente e pré-escolarHiperfluxo mantido, infecções respiratórias de repetiçãoCurva de peso estacionada, hepatomegalia, precórdio hiperdinâmico
Escolar e adolescenteCIA não diagnosticada segue silenciosa; defeitos grandes já remodelaram o leito pulmonarCansaço aos esforços; segunda bulha hiperfonética com sopro que encurtou
Doença vascular estabelecidaResistência pulmonar fixa, shunt inverteCianose, baqueteamento e desaparecimento do sopro — fechamento contraindicado

Canal arterial: prematuro × nascido a termo

AspectoPrematuroNascido a termo e criança maior
MecanismoImaturidade do tecido ductal e maior sensibilidade às prostaglandinasDefeito estrutural da parede do canal
Chance de fechar sozinhoExiste e aumenta com a idade pós-natalPraticamente nula
Repercussão típicaPiora respiratória, dificuldade de desmame da ventilação, hipotensão diastólicaSopro contínuo, pulsos amplos, insuficiência cardíaca se o canal for grande
TratamentoInibidor de prostaglandinas (ibuprofeno, indometacina ou paracetamol); ligadura ou oclusão nos refratáriosFechamento percutâneo com dispositivo; cirurgia em anatomia desfavorável
Quando NÃO fecharCardiopatia canal-dependente associadaCardiopatia canal-dependente associada ou doença vascular pulmonar estabelecida

Intensidade do sopro não mede tamanho do defeito: quanto menor o orifício, maior o gradiente e mais alto o sopro.

A segunda bulha é o que carrega informação prognóstica — hiperfonese em foco pulmonar significa hipertensão pulmonar, e desdobramento fixo significa CIA.

Pulso reduzido, assimétrico ou com diferença entre membros superiores e inferiores tira o caso do grupo acianótico simples e levanta coarctação de aorta.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Fechamento do canal arterial do prematuro: tratar cedo ou esperar

Tratamento farmacológico do canal hemodinamicamente significativo

Diante de canal com repercussão — piora respiratória, dificuldade de desmame da ventilação, hipotensão diastólica —, indica-se inibidor da síntese de prostaglandinas (ibuprofeno, indometacina ou paracetamol), reservando ligadura cirúrgica ou oclusão percutânea para os refratários. A lógica é interromper o roubo diastólico antes que ele contribua para hemorragia pulmonar, enterocolite necrosante e hemorragia intracraniana.

Prática neonatal consolidada nos serviços brasileiros e descrita na literatura de neonatologia; a Sociedade Brasileira de Pediatria trata o canal do prematuro como condição distinta da persistência do canal no nascido a termo (Manual de Orientação nº 4, 2022).

Manejo expectante como opção equivalente em boa parte dos casos

Ensaios clínicos randomizados recentes em prematuros extremos com canal hemodinamicamente significativo não demonstraram vantagem do tratamento farmacológico precoce sobre a conduta expectante em desfechos como displasia broncopulmonar e mortalidade, o que sustenta observar antes de medicar em parte dos casos.

Hundscheid T et al. Expectant Management or Early Ibuprofen for Patent Ductus Arteriosus. N Engl J Med. 2023;388(11):980-990 (ensaio BeNeDuctus).

Na prova

O recorte aparece no enunciado. Vinheta que descreve prematuro extremo em UTI neonatal, com dados de ensaio clínico ou linguagem de desfecho populacional, está no terreno da discussão sobre expectante. Vinheta de prova brasileira que descreve o canal com repercussão e pergunta a conduta medicamentosa espera o inibidor de prostaglandinas, e as alternativas denunciam isso quando trazem ibuprofeno, indometacina e paracetamol lado a lado. Enunciado que fala em recém-nascido a termo ou criança maior sai da discussão: nesse grupo o fechamento é mecânico, não farmacológico.

Ecocardiograma no seguimento de quem já foi operado e está bem

Exame periódico não indicado no pós-operatório estável sem defeito residual

Exames ecocardiográficos periódicos em pacientes operados de PCA, CIA, CIV, coarctação de aorta ou valva aórtica bicúspide, sem defeito residual e sem mudança na condição clínica, recebem classe III — ou seja, a recomendação é de não realizar. O gatilho para repetir o exame é clínico.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Posicionamento sobre Indicações da Ecocardiografia em Cardiologia Fetal, Pediátrica e Cardiopatias Congênitas do Adulto – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(5):987-1005, tabela de recomendações em cardiopatias congênitas do adulto.

Vigilância por imagem em intervalos definidos ao longo da vida

Diretrizes de cardiopatias congênitas do adulto estruturam o seguimento em centros especializados com reavaliação por imagem em intervalos que dependem da complexidade da lesão e da presença de material protético, mesmo em pacientes assintomáticos, porque defeito residual, disfunção ventricular tardia e arritmia podem preceder sintoma.

Stout KK et al. 2018 AHA/ACC Guideline for the Management of Adults With Congenital Heart Disease. Circulation. 2019;139(14):e698-e800.

Na prova

O cenário revela o corpo doutrinário adotado. Enunciado de ambulatório do SUS, com pergunta sobre pedir ou não exame de rotina em criança assistida em unidade básica após correção sem defeito residual, conversa com o documento brasileiro. Enunciado ambientado em serviço terciário de cardiopatia congênita do adulto, ou que cita material protético, defeito residual e complexidade da lesão, conversa com o corpo internacional. Alternativa que oferece intervalo fixo em anos costuma denunciar o segundo recorte.

Quimioprofilaxia contra o vírus sincicial respiratório na cardiopatia com repercussão hemodinâmica: palivizumabe ou nirsevimabe

Palivizumabe, em aplicações mensais, para os grupos do protocolo de 2018

O protocolo nacional contempla prematuros nascidos com idade gestacional de até 28 semanas e 6 dias e menores de 1 ano, e menores de 2 anos (até 1 ano, 11 meses e 29 dias) com displasia broncopulmonar ou doença cardíaca congênita com repercussão hemodinâmica demonstrada. A proteção depende de aplicações mensais ao longo da sazonalidade do vírus. Na sazonalidade de 2026, as crianças que já haviam iniciado o palivizumabe em 2025 e as nascidas até o fim de janeiro de 2026 concluem a quimioprofilaxia com esse mesmo anticorpo.

Ministério da Saúde. Protocolo de uso de palivizumabe para prevenção da infecção pelo vírus sincicial respiratório, aprovado pela Portaria Conjunta nº 23, de 3 de outubro de 2018, com as regras de transição do Ofício Conjunto nº 85/2025/CGAFME/DAF/SECTICS/MS, de 7 de novembro de 2025.

Nirsevimabe, em dose única, com grupos ampliados desde 2025

A modificação estrutural do anticorpo aumentou sua meia-vida e permitiu uma única aplicação por sazonalidade. Os grupos foram alargados: prematuros com menos de 37 semanas — e não apenas os de até 28 semanas e 6 dias — e menores de 2 anos com as comorbidades do protocolo clínico, entre elas a cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica. Crianças nascidas a partir de fevereiro de 2026 iniciam a quimioprofilaxia já com o nirsevimabe.

Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 15, de 28 de fevereiro de 2025 (incorporação do nirsevimabe ao SUS), operacionalizada pelo Ofício Conjunto nº 85/2025/CGAFME/DAF/SECTICS/MS, de 7 de novembro de 2025.

Na prova

Os dois documentos são brasileiros e federais, e por isso a divergência aqui é de data, não de escola: o de 2018 rege quem já estava em uso e o de 2025 rege quem entra a partir de 2026. O enunciado costuma denunciar a régua pelo esquema que descreve nas alternativas — aplicações mensais durante a sazonalidade apontam o documento antigo, aplicação única aponta o novo. O corte de idade gestacional é o segundo marcador: 28 semanas e 6 dias pertence ao protocolo de 2018; 37 semanas, à incorporação de 2025. Cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica em menor de 2 anos está nos dois, e portanto não separa nada — quem separa é a idade gestacional citada e o número de doses.

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Caso resolvido

Lactente de 5 semanas, nascido a termo, sem intercorrências na maternidade e com teste do coraçãozinho negativo, é levado à unidade básica porque "cansa para mamar". A mãe conta que ele interrompe a mamada várias vezes, sua na testa enquanto mama e voltou a acordar de fome pouco depois. O peso está 200 g abaixo do registrado há duas semanas. Ao exame: frequência respiratória de 68 incursões por minuto em repouso, tiragem subcostal discreta, frequência cardíaca de 168 bpm, saturação de pulso de 98% em ar ambiente, sem cianose. Precórdio hiperdinâmico, sopro holossistólico rude 4/6 em borda esternal esquerda baixa com frêmito, segunda bulha hiperfonética em foco pulmonar, fígado a 3 cm do rebordo costal direito. Pulsos simétricos e de amplitude normal nos quatro membros.
achado
Saturação de 98% sem cianose fecha o grupo: é cardiopatia acianótica com shunt esquerda-direita. Isso já exclui as cianóticas e explica por que o teste do coraçãozinho, que rastreia hipoxemia, saiu negativo.
achado
Sopro holossistólico rude com frêmito em borda esternal esquerda baixa é a assinatura da comunicação interventricular. O ruflar apical, quando presente, viria do hiperfluxo mitral, e não de estenose.
achado
A cronologia bate: quadro que começa entre a segunda e a oitava semana, quando a resistência vascular pulmonar cai e o shunt cresce. Alta sem sopro na maternidade não contradiz o diagnóstico.
achado
Taquipneia em repouso, sudorese às mamadas, hepatomegalia e perda ponderal compõem insuficiência cardíaca do lactente. A segunda bulha hiperfonética em foco pulmonar acrescenta hipertensão pulmonar — o defeito é grande.
conduta
Encaminhamento prioritário à cardiologia pediátrica com ecocardiograma: sopro patológico em criança sintomática é indicação classe I no posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2020. Radiografia de tórax e eletrocardiograma dimensionam a repercussão, mas não substituem o eco.
conduta
Enquanto aguarda: diurético de alça e inibidor da enzima conversora para descongestionar e reduzir a pós-carga, otimização calórica com mamadas fracionadas, vacinação em dia e vigilância do ganho de peso. A correção cirúrgica é feita ainda no primeiro ano, antes que a doença vascular pulmonar feche a janela de operabilidade.
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Agora feche você

Menina de 4 anos, assintomática, trazida para consulta de rotina. Cresce e ganha peso nas faixas esperadas, frequenta a pré-escola e brinca sem limitação. A mãe relata resfriados frequentes no último inverno. Ao exame: saturação de 99%, sem cianose, sopro sistólico ejetivo 2/6 em foco pulmonar e segunda bulha desdobrada de forma ampla, sem variação com a respiração ao longo de vários ciclos. Fígado no rebordo, pulsos normais e simétricos. O eletrocardiograma mostra desvio do eixo para a direita e padrão rSR' em V1.
achado
Desdobramento fixo da segunda bulha em criança assintomática com sopro sistólico ejetivo suave em foco pulmonar: o sopro vem do hiperfluxo através da valva pulmonar, não do defeito atrial, cuja diferença de pressão é pequena demais para gerar turbulência audível.
achado
Eixo desviado para a direita com rSR' em V1 traduz sobrecarga de volume do ventrículo direito e aponta o subtipo ostium secundum. Eixo à esquerda com bloqueio divisional anterossuperior apontaria ostium primum, que se associa à síndrome de Down.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Achar que sopro alto significa defeito grande A intensidade do sopro depende do gradiente através do orifício, e o gradiente é maior quanto menor o defeito. A CIV pequena faz sopro 4/6 com frêmito numa criança que cresce bem; a CIV grande equaliza as pressões, o sopro fica discreto e a criança é a que interna. Quem gradua gravidade é a repercussão clínica e a segunda bulha.
  2. 2Usar o teste do coraçãozinho negativo para excluir cardiopatia O teste rastreia cardiopatia congênita crítica pela hipoxemia. CIV, CIA e PCA isolados não causam hipoxemia e passam ilesos pelo rastreio. A própria Sociedade Brasileira de Pediatria registra que teste negativo não exclui cardiopatia congênita — diante de sinais clínicos, a avaliação cardiológica é feita do mesmo jeito.
  3. 3Interpretar a melhora clínica na CIV grande como evolução favorável Criança com CIV grande que passa a comer melhor, deixa de ter taquipneia e cujo sopro encurtou pode estar desenvolvendo doença vascular pulmonar: o gradiente que produzia o sopro está desaparecendo porque a resistência pulmonar subiu. Segunda bulha cada vez mais hiperfonética e depois cianose completam a síndrome de Eisenmenger, situação em que fechar o defeito passa a ser contraindicado.
  4. 4Tratar todo canal arterial como coisa a fechar Nas cardiopatias canal-dependentes — atresia pulmonar, hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica, interrupção do arco —, o canal é o que mantém o fluxo pulmonar ou sistêmico, e o recém-nascido descompensa quando ele fecha. Nesses casos a conduta é prostaglandina E1 para manter o canal aberto. Fechar ou abrir depende de haver obstrução ao fluxo, não do nome do vaso.
  5. 5Confundir o desdobramento fisiológico com o desdobramento fixo Desdobramento da segunda bulha que aumenta na inspiração e some na expiração é fisiológico e comum em crianças. O que caracteriza a CIA é o desdobramento que permanece largo e imóvel ao longo de todo o ciclo respiratório, porque o enchimento extra do ventrículo direito já é constante. A ausculta precisa acompanhar vários ciclos respiratórios para essa distinção.
  6. 6Atribuir a sibilância de repetição só à via aérea Lactente com quadros respiratórios recorrentes, sibilância e ganho de peso ruim pode estar congesto por hiperfluxo pulmonar. Taquipneia em repouso fora das crises, sudorese às mamadas e hepatomegalia mudam a hipótese, e o exame cardiovascular custa menos que o quarto ciclo de broncodilatador.
  7. 7Prescrever profilaxia de endocardite para todo defeito septal CIV, CIA e PCA isolados e não corrigidos não têm indicação de antibiótico profilático antes de procedimento odontológico. A indicação existe nos seis meses seguintes à correção com dispositivo ou patch e enquanto houver defeito residual junto ao material protético. Fora disso, o que protege é higiene bucal e acompanhamento odontológico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sopro holossistólico rude em borda esternal esquerda baixa com frêmito, em lactente com sinais de insuficiência cardíaca (cansaço às mamadas, sudorese, baixo ganho de peso) e SEM cianose é o quadro típico da comunicação interventricular, a cardiopatia congênita mais comum (correta). Tetralogia de Fallot e transposição das grandes artérias são cianóticas. Estenose pulmonar gera sopro sistólico ejetivo em foco pulmonar, não holossistólico em BEE baixa. Coarctação da aorta cursa com diferença de pulsos/PA entre membros e sopro no dorso, não com sopro holossistólico paraesternal com frêmito.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Diga em voz alta o sopro de cada uma das três: holossistólico em borda esternal esquerda baixa (CIV), sistólico ejetivo suave em foco pulmonar com desdobramento fixo de B2 (CIA), contínuo em maquinaria infraclavicular esquerdo com pulsos amplos (PCA). Depois responda: por que o quadro só aparece na segunda semana, e por que sopro alto costuma significar defeito pequeno.

em 30 dias

Reconstrua a linha do tempo da CIV grande não operada: hiperfluxo, insuficiência cardíaca do lactente, doença vascular pulmonar, queda do sopro, hiperfonese de B2, cianose e contraindicação ao fechamento. Em seguida, explique por que o teste do coraçãozinho não detecta nenhum dos três defeitos e por que o eletrocardiograma separa ostium secundum de ostium primum.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Lactente de 6 semanas trazido à unidade básica por cansaço às mamadas e ganho de peso insuficiente desde a alta da maternidade. Está eupneico ao colo, mas a frequência respiratória em repouso é de 66 incursões por minuto, a saturação é de 98% em ar ambiente e há sopro holossistólico rude em borda esternal esquerda baixa com frêmito, segunda bulha hiperfonética e fígado palpável a 3 cm do rebordo. Conduza a consulta: caracterize o sopro, defina a repercussão, decida os exames e a prioridade do encaminhamento. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cardiopatias congênitas acianóticas — Preparatório para provas | OsceLabs