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Cardiopatias congênitas cianóticas

O país ensina a triagem que procura essas doenças e cala sobre elas: a conta que separa cianose de hipoxemia, o teste cuja palavra positivo significa o contrário, e três documentos que escrevem a mesma dose de prostaglandina de três jeitos

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo, com 2 dias de vida, apresenta cianose central progressiva sem desconforto respiratório importante. SatO2 pré-ductal e pós-ductal de 72%, que não melhora após oferta de O2 a 100% (teste da hiperóxia sem resposta). Ausculta cardíaca com B2 única e ausência de sopros significativos. Radiografia de tórax com imagem em 'ovo deitado' (coração ovoide, pedículo estreito). Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do recém-nascido e do lactente que ficam azuis por causa do coração: as cardiopatias que cursam com mistura de sangue venoso na circulação sistêmica ou com fluxo pulmonar insuficiente. As duas que dão nome ao tema são a tetralogia de Fallot, que costuma se apresentar depois, com crises, e a transposição das grandes artérias, que se apresenta no primeiro dia, sem sopro e sem aviso.

A fronteira com os vizinhos é estreita e vale declarar. O capítulo de triagens neonatais ensina o teste do coraçãozinho inteiro — quem, quando, onde, cortes e repetição —, e o de sopro cardíaco ensina como separar o inocente do patológico e o que o rastreio não pega. O capítulo de cardiopatias acianóticas ensina a comunicação interventricular, a interatrial e o canal arterial, e é lá que mora a diferença entre fechar canal com inibidor de prostaglandina no prematuro e abrir canal com prostaglandina no cardiopata crítico. Aqui a história começa depois: a criança já está sob suspeita, e a pergunta passa a ser de que grupo fisiológico ela é, o que se oferece e o que se evita nas horas seguintes.

O que este capítulo assume como próprio é justamente o que ficou órfão. A triagem que o país incorporou tem alvo declarado — a cardiopatia congênita crítica dependente do canal arterial — e essa doença-alvo não é ensinada em lugar nenhum da trilha. O aluno aprende a fazer o teste, a interpretar os cortes, a repetir em uma hora, e chega no dia seguinte sem saber o que fazer com o bebê cujo teste veio alterado.

Fica de fora a cirurgia propriamente dita, com técnica e complicações tardias, e ficam de fora as cardiopatias de shunt misto que se apresentam como insuficiência cardíaca no segundo mês. Elas entram aqui só como diferencial, porque a faixa de saturação delas é a mesma e a prova usa isso.

03

O que muda decisão

O rastreio já foi ensinado; a doença que ele procura, não

Como usar este capítulo: diante de cianose, estabilize, avalie resposta ao oxigênio e identifique se a circulação depende de mistura ou de canal arterial. Compare tetralogia de Fallot e transposição pela fisiologia; crise hipoxêmica e cianose neonatal grave exigem conduta antes da confirmação completa.

As cardiopatias congênitas representam cerca de 30% de todas as malformações congênitas e têm incidência em torno de 9,4 casos para cada 1.000 nascidos vivos, com intervalo de confiança de 8,6 a 10,2, segundo o estudo epidemiológico citado pelo manual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria. Dentro desse total, as que se manifestam já no período neonatal são cerca de 3 em cada 1.000, e as críticas — as que precisam de cirurgia ou de cateterismo intervencionista nos primeiros dias ou no primeiro mês — ficam entre 1 e 2 em cada 1.000.

Coloque isso numa maternidade de porte médio, com dois mil partos por ano. São dezenove bebês com alguma cardiopatia congênita, seis que darão sinal ainda no berçário e de dois a quatro com doença crítica. E o número que faz o tema existir: até 30% dos recém-nascidos com cardiopatia crítica recebem alta sem o diagnóstico. Um bebê por ano, nessa maternidade, sai andando pela porta com uma doença que mata em dias.

A resposta brasileira a esse problema foi a triagem por oximetria de pulso, incorporada ao Sistema Único de Saúde em 2014. Ela funciona, e tem dono no capítulo de triagens neonatais. O que ela não faz é ensinar a doença: o documento de 2011 que virou protocolo nomeia o alvo e passa direto para os cortes de saturação.

Há ainda um dado que muda o cenário da vinheta antes de qualquer exame. A maioria das cardiopatias críticas pode ser diagnosticada no período fetal, e a taxa de diagnóstico pré-natal chega a cerca de 80% em países de renda alta; no Brasil, estima-se em torno de 30%. Sete em cada dez desses bebês nascem sem que ninguém saiba, numa maternidade que provavelmente não tem cirurgia cardíaca neonatal — e é por isso que o tema se escreve em cima de estabilização e transporte, não de correção.

Cianose é uma conta, não uma cor

O guia federal do recém-nascido define cianose central com uma frase que é, na verdade, uma equação: ela aparece quando a concentração de hemoglobina reduzida excede 5 g/dL. Repare no que a definição não menciona — a saturação. O limiar é de quantidade absoluta de hemoglobina sem oxigênio, não de porcentagem.

Faça a conta com três bebês. No que tem hemoglobina de 20 g/dL, um valor comum no recém-nascido policitêmico, 5 g/dL de hemoglobina reduzida correspondem a um quarto do total: ele fica visivelmente azul com saturação de 75%. No que tem 15 g/dL, os mesmos 5 g/dL são um terço, e a cianose só aparece por volta de 67%. No anêmico com 10 g/dL, são metade: ele precisa cair a 50% de saturação para que alguém veja a cor mudar.

Três bebês, o mesmo achado clínico, três graus de hipoxemia completamente diferentes — e o mais grave dos três é o que parece melhor. O corolário é duro e cai em prova: em recém-nascido anêmico, a ausência de cianose visível não exclui hipoxemia grave.

Três barras horizontais de comprimentos diferentes representando hemoglobina total de 20, 15 e 10 g/dL. Em todas, um segmento hachurado de mesmo tamanho marca 5 g/dL de hemoglobina reduzida, ocupando fração crescente da barra. Ao lado de cada uma, a saturação em que a cianose aparece: 75%, 67% e 50%.
Os mesmos 5 g/dL de hemoglobina reduzida que tornam a cianose visível são um quarto, um terço e metade do total — e por isso o recém-nascido anêmico só fica azul aos 50% de saturação.

O guia federal chega à mesma conclusão pelo lado do observador: registra que o reconhecimento clínico da cianose é fácil abaixo de 80% de saturação, mas nem sempre é fácil entre 80% e 90% — e é por isso que a oximetria importa tanto. Junte as duas afirmações e você tem a régua do capítulo: a cor é sinal tardio, dependente da hemoglobina do paciente e do olho do examinador; o número não é.

Separe ainda cianose central de acrocianose. A periférica, palmar e plantar, é benigna e comum no recém-nascido. A central envolve mucosa oral e obriga a investigar cardiopatia congênita, hipertensão pulmonar persistente e doença grave do parênquima pulmonar.

Cinco famílias fisiológicas, e o grupo decide a conduta antes do nome

Tanto o guia federal quanto o manual de sociedade organizam as cardiopatias neonatais por fisiologia, e não por anatomia. A escolha não é estética: a conduta inicial depende do grupo, e o grupo pode ser deduzido à beira do leito com oxímetro, estetoscópio e uma radiografia de tórax — três recursos que existem em qualquer maternidade. O nome do defeito depende do ecocardiograma, que pode demorar.

No grupo de fluxo pulmonar dependente do canal arterial há obstrução acentuada à saída do ventrículo direito: atresia pulmonar com septo íntegro ou com comunicação interventricular, estenose pulmonar valvar crítica, tetralogia de Fallot com atresia ou estenose crítica, atresia tricúspide, anomalia de Ebstein. O bebê nasce bem, e a cianose surge e progride nas primeiras horas conforme o canal fecha. Não há desconforto respiratório proporcional, e o oxigênio não resolve. A radiografia mostra trama vascular pulmonar diminuída.

No grupo de fluxo sistêmico dependente do canal arterial a obstrução é à esquerda: hipoplasia do coração esquerdo, estenose aórtica crítica, coarctação crítica, interrupção do arco aórtico. Aqui a apresentação não é cianose e sim baixo débito — taquidispneia progressiva que evolui para choque, pulsos reduzidos, palidez, acidose. A cianose clínica é pouco frequente e a saturação costuma ficar entre 90% e 95%. A radiografia mostra cardiomegalia discreta com trama pulmonar bem aumentada, o que atrapalha a diferenciação com doença pulmonar.

No grupo de circulação em paralelo está a transposição das grandes artérias. A cianose é a mais precoce e a mais intensa de todas, já no primeiro dia, com taquipneia, sem sopro significativo e com segunda bulha hiperfonética. A radiografia mostra área cardíaca normal ou pouco aumentada com trama pulmonar aumentada.

Os dois últimos grupos servem de contraste. No shunt misto — conexão anômala total de veias pulmonares, tronco arterial comum, ventrículo único sem estenose pulmonar — há cianose discreta, com saturação entre 85% e 92% no guia federal e entre 85% e 95% no manual de sociedade, insuficiência cardíaca que se acentua depois da segunda semana e nenhuma dependência do canal. No shunt exclusivamente esquerda-direita dos defeitos septais grandes não há cianose alguma e a saturação fica acima de 95%.

Duas frases resumem a triagem mental. Cianose intensa com trama diminuída e sem resposta ao oxigênio é fluxo pulmonar canal-dependente. Choque neonatal com pulsos ruins e trama aumentada é fluxo sistêmico canal-dependente — e o diferencial que rouba esse bebê é a sepse neonatal precoce, cujo quadro é quase igual.

Teste da hiperóxia: a palavra positivo significa o contrário

O teste consiste em ofertar oxigênio a 100% e colher gasometria arterial pré-ductal, no membro superior direito, e pós-ductal, em um dos membros inferiores. O raciocínio é simples: pulmão doente melhora a oxigenação quando você inunda o alvéolo de oxigênio; shunt anatômico direita-esquerda, não.

O guia federal nomeia as faixas assim: teste positivo quando a pressão parcial de oxigênio ultrapassa 250 mmHg, o que exclui as cardiopatias congênitas críticas; teste negativo quando fica abaixo de 100 mmHg, o que aponta cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo. E acrescenta uma terceira faixa que quase ninguém decora: valores entre 100 e 250 mmHg sugerem cardiopatia com shunt misto, do tipo tronco arterial comum, ventrículo único sem estenose pulmonar ou hipoplasia do coração esquerdo.

Guarde a inversão semântica, porque ela é a pegadinha mais barata do tema. No teste de hiperóxia, positivo significa coração sadio. No teste do coraçãozinho, positivo significa suspeita de doença. Os dois testes convivem no mesmo protocolo e no mesmo bebê, com convenções opostas para a mesma palavra.

Há um segundo dado que o guia federal registra e que resolve vinhetas de recém-nascido pós-termo com mecônio: diferença entre a pressão de oxigênio pré e pós-ductal acima de 20 mmHg aponta hipertensão pulmonar persistente, não cardiopatia estrutural.

O manual de sociedade de 2022 escreve o mesmo teste de outro jeito. Mantém 250 mmHg para praticamente excluir e 100 mmHg para probabilidade muito alta, mas acrescenta uma leitura por oximetria — saturação acima de 97% após oxigênio a 100% praticamente exclui; abaixo de 85% torna a cardiopatia muito provável. E, ao acrescentar, deixa cair a faixa intermediária: os valores entre 100 e 250 mmHg, e as saturações entre 85% e 97%, ficam sem leitura atribuída.

Falta ainda, nos dois documentos brasileiros, o tempo. Nenhum dos dois diz por quanto tempo o oxigênio a 100% deve correr antes da coleta. O verbete internacional de doença cardíaca cianótica fixa dez minutos e faz gasometria em ar ambiente e depois em oxigênio a 100% — e adota um corte único de 100 mmHg, sem faixa de exclusão em 250. Três documentos, três desenhos do mesmo teste.

Tetralogia de Fallot: a obstrução manda, e o sopro mede o fluxo que ainda passa

A tetralogia é a cardiopatia cianótica mais comum e responde por 5% a 7% de todas as cardiopatias congênitas, com prevalência em torno de 1 em cada 3.000 nascimentos; a referência clínica aberta trabalha com uma fatia um pouco maior, de 7% a 10%. Nenhuma dessas estimativas decide conduta.

Os quatro componentes clássicos são comunicação interventricular ampla com desalinhamento anterior do septo, aorta cavalgando o septo, obstrução da via de saída do ventrículo direito e hipertrofia ventricular direita. O detalhe que separa quem entendeu de quem decorou: o desalinhamento do septo produz de uma só vez os três primeiros, e a hipertrofia é consequência, resposta do músculo à pressão que ele passou a enfrentar. Não são quatro defeitos independentes.

Duas associações rendem questão. O arco aórtico à direita aparece em 20% a 25% dos casos, e anomalias de artéria coronária em 5% a 10% — estas últimas importam porque mudam a técnica cirúrgica. E há a microdeleção 22q11.2, das síndromes de DiGeorge e velocardiofacial, além de frequência aumentada nas trissomias do 21, do 13 e do 18.

Vale fixar o contraste com a outra doença deste capítulo, porque as duas produzem cianose por mecanismos opostos. Na tetralogia as duas circulações estão conectadas e o sangue escapa para o lado errado porque a via pulmonar resiste: o problema é de obstrução. Na transposição não há obstrução nenhuma, e sim duas alças fechadas correndo em paralelo, ligadas apenas pelo forame oval e pelo canal: o problema é de mistura. Obstrução se alivia; mistura se cria.

A apresentação depende do grau de obstrução, e é isso que espalha a doença por toda a infância. Atresia ou estenose crítica produz recém-nascido canal-dependente, cianótico nas primeiras horas; obstrução moderada produz o lactente que fica azul ao chorar e a criança que se agacha para brincar. A posição de cócoras aumenta a resistência vascular sistêmica ao comprimir as artérias dos membros inferiores, eleva a pós-carga do ventrículo esquerdo e reduz o shunt direita-esquerda pela comunicação.

Na radiografia, coração em forma de bota, com o segmento da artéria pulmonar côncavo e trama vascular pulmonar acentuadamente diminuída.

O achado de exame físico que mais engana está no sopro. O sopro da tetralogia é o da estenose pulmonar — ele mede o fluxo que ainda atravessa a via de saída obstruída. Quanto mais o infundíbulo se fecha, menos sangue passa e mais fraco fica o sopro. Sopro que some durante a crise não é melhora: é a obstrução vencendo.

A crise hipoxêmica, passo a passo, com o que cada passo faz na física do shunt

A crise hipercianótica é a complicação mais temida da tetralogia não corrigida, e ela pode matar. O gatilho costuma ser o que aumenta o tônus adrenérgico e reduz a resistência vascular sistêmica ao mesmo tempo: choro, mamada, dor, banho, despertar. O resultado é espasmo infundibular com aumento do shunt direita-esquerda e queda abrupta do fluxo pulmonar. A criança fica profundamente cianótica, taquipneica e depois letárgica.

Todo o tratamento se resume a dois objetivos mecânicos: aumentar a resistência vascular sistêmica e aliviar o espasmo infundibular. Quem entende essa frase acerta a questão sem decorar a lista.

A sequência começa sem droga nenhuma. Posição genupeitoral, com os joelhos fletidos sobre o tórax — que é a versão passiva das cócoras e aumenta a resistência sistêmica, ao mesmo tempo em que reduz o retorno de sangue muito dessaturado dos membros inferiores. Ambiente calmo, colo, mínima manipulação. Oxigênio suplementar, que aqui atua como vasodilatador pulmonar. Expansão volêmica com cristaloide, para melhorar a pré-carga do ventrículo direito. A tabela de doses da referência clínica quantifica as drogas e deixa o volume sem número.

Persistindo a crise, entram as drogas. Morfina 0,1 mg/kg por via intravenosa, subcutânea ou intradérmica, que seda, quebra a hiperpneia e derruba o tônus adrenérgico. Fenilefrina 5 a 20 mcg/kg a cada 10 a 15 minutos, com bolus máximo de 500 mcg e infusão máxima de 5 mcg/kg/min, para elevar a resistência sistêmica por via farmacológica. Betabloqueador para o infundíbulo: esmolol 100 a 500 mcg/kg em um minuto, seguido de 25 a 100 mcg/kg/min, com teto de 500 mcg/kg/min; ou propranolol 0,015 a 0,02 mg/kg escalonado para efeito, até 0,1 a 0,2 mg/kg. Havendo acidose metabólica, bicarbonato de sódio 1 mEq/kg por via intravenosa. Falhando o conjunto, cetamina 0,5 a 2 mg/kg por via intravenosa ou 2 a 3 mg/kg por via intramuscular, que seda e sustenta a resistência sistêmica. Depois disso, intubação, oxigenação por membrana extracorpórea ou cirurgia de urgência.

A lista do que não se faz é tão cobrada quanto a do que se faz, e sai da mesma física. Inotrópico adrenérgico — dobutamina, adrenalina, digoxina — piora o espasmo, porque aumenta a contratilidade do músculo que estreita a via. Vasodilatador sistêmico como nitroprussiato derruba a resistência sistêmica e escancara o shunt. Diurético tira a pré-carga de um ventrículo direito que precisa de volume. Cada uma piora exatamente a variável que se tenta corrigir.

A correção definitiva é cirúrgica, e o momento é assunto de divergência tratada adiante. No recém-nascido com obstrução grave, a ponte até lá é a prostaglandina, para manter o canal e o fluxo pulmonar; procedimentos paliativos como o shunt de Blalock-Taussig entram quando a correção completa precisa esperar.

Comparação anatômica da tetralogia de Fallot e da transposição das grandes artérias, com trajetos do sangue, direção do shunt e pontos de mistura.
Na tetralogia de Fallot, a intensidade da obstrução da via de saída direita controla o shunt e a cianose. Na transposição, as circulações ficam em paralelo e a sobrevida depende de mistura entre elas; essa diferença explica a abordagem inicial.

Transposição das grandes artérias: duas alças que nunca se cruzam

Na transposição, a aorta sai do ventrículo direito e a artéria pulmonar sai do ventrículo esquerdo. O sangue que volta do corpo vai para o corpo de novo, e o sangue que volta do pulmão volta ao pulmão. São duas circulações fechadas rodando em paralelo, e não em série. Sem alguma comunicação entre elas, a vida é medida em horas.

É por isso que o manual de sociedade classifica a transposição fora do rótulo de canal-dependente e, ainda assim, manda usar prostaglandina. O documento é explícito: apesar de a cardiopatia não ser considerada canal-dependente, manter o canal aberto aumenta o fluxo pulmonar e o retorno venoso ao átrio esquerdo, o que empurra sangue oxigenado do átrio esquerdo para o direito e daí para a aorta. Traduzindo: o canal não sustenta a circulação, sustenta a mistura — e mistura, aqui, é sobrevivência.

O quadro clínico é o mais reconhecível da pediatria. Cianose intensa no primeiro dia de vida, desproporcional ao esforço respiratório, com segunda bulha única e hiperfonética e sem sopro significativo — porque não há estenose nem defeito septal restritivo produzindo turbulência. O teste de hiperóxia não responde. A radiografia mostra a clássica forma de ovo com pedículo vascular estreitado, aspecto afilado no mediastino superior, com trama pulmonar aumentada. A transposição responde por 5% a 7% das anomalias cardíacas congênitas.

O diferencial principal não é outra cardiopatia: é a hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido, cujo quadro clínico é muito semelhante, também sem sopro e também com hiperfonese da segunda bulha. Vale a diferença pré e pós-ductal acima de 20 mmHg e vale o ecocardiograma.

Quando a prostaglandina e o suporte ventilatório não bastam — e na transposição com septo interventricular íntegro isso é frequente —, a saída é ampliar a comunicação interatrial por cateter-balão, a atriosseptostomia de Rashkind. O guia federal a descreve como imprescindível e de indicação emergencial nessa situação, e registra que atresia pulmonar com septo íntegro, hipoplasia do coração esquerdo e conexão anômala total de veias pulmonares com comunicação interatrial restritiva também podem se beneficiar dela.

A correção definitiva é a cerclagem arterial, a operação de Jatene, descrita pelo cirurgião brasileiro Adib Jatene em 1975, em que as grandes artérias voltam a seus ventrículos e as coronárias são translocadas. A referência clínica a situa normalmente na primeira semana de vida, por uma razão implacável: enquanto a artéria pulmonar sai do ventrículo esquerdo, esse ventrículo bombeia contra a resistência pulmonar, que despenca depois do nascimento. Passadas semanas, ele perde massa e não aguenta assumir a circulação sistêmica. O relógio da transposição não é o da cianose; é o do desuso do ventrículo esquerdo.

Prostaglandina E1: a droga que segura a vida, e a dose que ninguém escreve igual

As indicações para começar são clínicas e dispensam confirmação. O guia federal descreve duas situações em que se inicia imediatamente: cianose acentuada não responsiva ao oxigênio, isto é, teste de hiperóxia negativo, e choque sem boa resposta às medidas iniciais. O manual de sociedade acrescenta o diagnóstico fetal de cardiopatia crítica. Os dois são explícitos: o tratamento não pode ser postergado até o ecocardiograma — o guia federal chama o gesto de prova terapêutica.

O mecanismo tem prazo de validade. A droga dilata a musculatura lisa do canal, e essa resposta vai se reduzindo até o final do primeiro mês de vida; além disso, ela age sobre canal com constrição recente, e não sobre canal já totalmente fechado. A régua de tempo importa mais que a de dose.

A via é uma trava de segurança, não um detalhe: acesso venoso profundo, preferencialmente central. Os dois documentos brasileiros desaconselham o periférico com a mesma justificativa — perder o acesso interrompe a infusão, e em poucos minutos o canal se constringe e o quadro recrudesce. A bula acrescenta a via por cateter em artéria umbilical posicionado na abertura ductal.

E aí vem o ponto em que os documentos se separam. O guia federal manda iniciar com 0,01 mcg/kg/min e, sem resposta adequada, subir até 0,1 mcg/kg/min; localiza os efeitos colaterais principalmente acima de 0,05. O manual de sociedade de 2022, escrito pelo mesmo autor do capítulo federal, manda iniciar com os mesmos 0,01 e subir até 0,05 mcg/kg/min; localiza os efeitos colaterais principalmente acima de 0,03. Em oito anos, o teto caiu pela metade e o limiar de efeito adverso desceu junto. A bula do fabricante trabalha em outra escala: iniciar entre 0,05 e 0,1, sendo 0,1 a dose inicial recomendada com base nos estudos clínicos, com redução escalonada depois da resposta e possibilidade de subir até 0,4 — ainda que, em geral, taxas de infusão mais altas não produzam efeito maior.

Converta para o que corre na bomba de um bebê de 3 kg e a distância fica visível. A dose inicial brasileira, 0,01 mcg/kg/min, são 1,8 mcg por hora. O teto do manual de sociedade, 0,05, são 9 mcg por hora. O teto federal, que é também a dose inicial recomendada pela bula, são 18 mcg por hora — dez vezes a dose com que o país começa. O máximo da bula, 0,4, são 72 mcg por hora.

O que ordena esses números não é a miligramagem: é a janela de efeito adverso. Os dois documentos brasileiros dizem que apneia e hipotensão aparecem sobretudo acima de 0,03 e de 0,05 mcg/kg/min. A dose inicial recomendada pela bula é o dobro do maior desses dois limiares. Ou seja, o serviço que seguir a bula ao pé da letra começa o bebê acima do patamar em que as duas fontes brasileiras dizem que os efeitos colaterais se tornam frequentes.

A bula quantifica o risco que os documentos brasileiros descrevem em palavras: apneia em cerca de 10% a 12% dos recém-nascidos com cardiopatia tratados, mais frequente abaixo de 2 kg e geralmente na primeira hora de infusão; febre em cerca de 14%; convulsões em cerca de 4%. Daí a orientação que o guia federal destaca em caixa própria: estar preparado para intubar. Os demais efeitos são irritabilidade, edema de mãos e pés e erupção cutânea.

A resposta clínica é rápida e serve de teste: 15 a 30 minutos no manual de sociedade, 30 a 60 minutos no guia federal, com melhora da saturação ou dos sinais de baixo débito. Ausência de resposta obriga a repensar o diagnóstico ou a suspeitar de comunicação interatrial restritiva.

Oxigênio: aqui ele também é droga, e a faixa que a régua não cobre

Oxigênio é vasodilatador pulmonar e estímulo de fechamento do canal arterial. Nas cardiopatias em que o equilíbrio entre fluxo pulmonar e sistêmico é determinado pela relação entre as duas resistências — hipoplasia do coração esquerdo, ventrículo único sem estenose pulmonar —, oferta generosa de oxigênio dilata o leito pulmonar, aumenta o fluxo para o pulmão e rouba fluxo do corpo, agravando o baixo débito. É por isso que, nesse grupo, oxigênio piora.

O guia federal escreve a régua de maneira quantitativa. Na maioria dos recém-nascidos com cardiopatia congênita, a saturação ideal fica entre 85% e 90%; acima de 95% costuma sinalizar desequilíbrio entre os fluxos, e o primeiro passo é reduzir a fração inspirada até 21%. A frase que resume a conduta está no próprio texto: é preferível manter saturação de 85% com perfusão adequada do que 95% com sinais de choque. Do outro lado, o bebê canal-dependente ou em circulação paralela com saturação abaixo de 80% deve receber oxigênio, em geral com frações de até 60%.

O manual de sociedade condensa isso numa regra prática — e a condensação abre um vão. O texto diz: usar oxigênio nos cardiopatas com saturação menor que 80% e evitar oxigênio se a saturação for maior que 90%. A faixa entre 80% e 90%, e os próprios valores de 80% e 90%, ficam sem instrução. O vão não é acidente: é justamente a faixa-alvo. Entre 80% e 90% o bebê já está onde se quer que ele esteja, e a conduta certa é não mexer — nem acrescentar oxigênio, nem retirar.

O fluxograma do mesmo manual divide os alvos por grupo, e a divisão é contraintuitiva. Fluxo pulmonar canal-dependente e circulação em paralelo: prostaglandina imediata, oxigenioterapia pode ser utilizada, alvo entre 85% e 90%. Fluxo sistêmico canal-dependente: prostaglandina imediata, evitar oxigenioterapia, alvo entre 85% e 95%. O grupo em que o oxigênio é proibido é o que tem o teto mais alto — porque ele já chega ali sozinho, entre 90% e 95%, e a meta não é subir, é não deixar cair.

Note ainda que esse teto de 95% encosta no gatilho de alarme do guia federal, que manda reduzir a fração inspirada quando a saturação passa de 95%. Um bebê com hipoplasia do coração esquerdo saturando exatamente 95% está dentro da meta de um documento e na borda do alarme do outro.

A ventilação mecânica tem aqui função hemodinâmica: reduz o trabalho respiratório e o consumo de oxigênio e permite manipular resistências. A hipercapnia permissiva causa vasoconstrição pulmonar e desloca fluxo para o território sistêmico — útil no bebê que está roubando sangue para o pulmão. O limiar de saturação para indicá-la na criança cianótica é o segundo ponto de discórdia entre os dois documentos brasileiros. Uma vez em ventilação, o alvo é de 85% a 90%, exceto nos defeitos septais de shunt exclusivamente esquerda-direita, em que sobe para acima de 92%.

Da suspeita à transferência: o que o pediatra da maternidade decide sozinho

O tratamento definitivo dessas cardiopatias acontece em centro terciário com cirurgia cardíaca neonatal, quase sempre longe da maternidade onde o bebê nasceu. O papel do pediatra da assistência não é corrigir: é identificar o grupo, estabilizar e entregar vivo. A prova cobra exatamente essa fatia.

A sequência é curta. Reconhecer o cenário clínico — hipoxemia com cianose, baixo débito sistêmico, ou insuficiência cardíaca. Confirmar com oximetria pré e pós-ductal e, havendo dúvida com doença pulmonar, com o teste de hiperóxia. Iniciar prostaglandina diante das duas indicações clínicas, sem esperar ecocardiograma. Ajustar oxigênio pelo grupo, e não pelo reflexo de subir a saturação. Garantir acesso venoso profundo e via aérea. Acionar a transferência.

Os sinais que o manual de sociedade lista como sugestivos valem como filtro rápido: bradicardia abaixo de 90 ou taquicardia acima de 180 batimentos por minuto; frequência respiratória acima de 70; saturação abaixo de 95%; impulsões precordiais palpáveis; hiperfonese de bulhas, sobretudo da segunda em foco pulmonar; sopro sistólico intenso ou contínuo; e redução de amplitude ou assimetria de pulsos.

A taquipneia em repouso merece destaque próprio: o manual registra que frequência respiratória acima de 70 é sinal de alerta de insuficiência cardíaca mesmo na ausência de cianose ou de qualquer outro sinal. É o achado precoce que a vinheta esconde no exame físico e que o candidato lê como pulmonar.

Sobre o transporte, o manual estabelece um prazo e duas travas. A transferência deve ocorrer idealmente em até sete dias, antes de complicações infecciosas, neurológicas ou hemodinâmicas. As travas são acesso venoso e via aérea seguros: prostaglandina e inotrópicos não podem ser descontinuados no trajeto, e a criança com desconforto respiratório costuma ser mais segura transportada já intubada.

O capítulo federal encerra o tema com uma frase que vale como epidemiologia: a mortalidade desse grupo no Brasil ainda é muito elevada e muitos bebês não chegam aos centros especializados. Com 30% de diagnóstico fetal e até 30% de alta sem diagnóstico, boa parte do desfecho se decide antes da cirurgia — na maternidade, com oxímetro, estetoscópio e uma bomba de infusão.

04

As quatro réguas numéricas do tema, na ordem em que a vinheta as pede

A vinheta de cardiopatia cianótica quase sempre se resolve em duas perguntas encadeadas: de que grupo fisiológico é este bebê, e o que se faz com oxigênio e prostaglandina nesse grupo. Cada pergunta tem documento dono e tabela própria — e em duas delas os documentos brasileiros não coincidem, o que faz o comando do enunciado importar tanto quanto o quadro clínico.

A conta da cianose

Cianose central aparece com hemoglobina reduzida acima de 5 g/dL. Com hemoglobina de 20 g/dL isso acontece a 75% de saturação; com 15, perto de 67%; com 10, só a 50%. Anêmico sem cianose visível pode estar gravemente hipoxêmico.

A inversão da palavra positivo

Hiperóxia positiva, no guia federal, significa pressão de oxigênio acima de 250 mmHg e exclui cardiopatia crítica. Coraçãozinho positivo significa suspeita de doença. Mesma palavra, polaridades opostas, mesmo protocolo.

As duas indicações que dispensam ecocardiograma

Cianose acentuada não responsiva ao oxigênio, e choque sem resposta às medidas iniciais. Nas duas, prostaglandina começa antes do diagnóstico anatômico. O ecocardiograma é obrigatório, mas não é o que libera o tratamento.

O sopro que enfraquece

Na tetralogia, o sopro é da estenose pulmonar e mede o fluxo que ainda passa. Sopro que some durante a crise significa mais obstrução, não melhora. É o sinal que o enunciado usa para separar quem entendeu de quem decorou.

O relógio da transposição

O prazo da cerclagem arterial de Jatene não é ditado pela cianose e sim pelo desuso do ventrículo esquerdo, que perde massa quando bombeia contra a resistência pulmonar em queda. Por isso a correção fica na primeira semana.

O que nunca entra na crise hipoxêmica

Inotrópico adrenérgico, vasodilatador sistêmico e diurético. O primeiro piora o espasmo infundibular, o segundo derruba a resistência sistêmica e escancara o shunt, o terceiro tira a pré-carga de um ventrículo direito que precisa de volume.

As cinco famílias fisiológicas e a assinatura de cada uma

GrupoSaturação típicaRadiografia de tóraxConduta inicial
Fluxo pulmonar canal-dependente (atresia pulmonar, estenose crítica, Fallot grave, atresia tricúspide)Abaixo de 80%, sem resposta ao oxigênioTrama vascular pulmonar diminuída, com ou sem cardiomegaliaProstaglandina imediata; oxigênio pode ser usado; alvo de 85% a 90%
Circulação em paralelo (transposição das grandes artérias)Muito baixa já no primeiro dia, sem resposta ao oxigênioÁrea cardíaca normal ou pouco aumentada, pedículo estreito, trama aumentadaProstaglandina imediata; atriosseptostomia de Rashkind se não bastar; alvo de 85% a 90%
Fluxo sistêmico canal-dependente (hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica, interrupção do arco)Entre 90% e 95%, com choque progressivoCardiomegalia discreta com trama pulmonar bem aumentadaProstaglandina imediata; evitar oxigênio; alvo de 85% a 95%
Shunt misto (conexão anômala total de veias pulmonares, tronco arterial comum)Entre 85% e 92% no guia federal; 85% a 95% no manual de sociedadeÁrea cardíaca aumentada e trama pulmonar aumentadaNão é canal-dependente; manejo de insuficiência cardíaca e encaminhamento
Shunt exclusivamente esquerda-direita (comunicação interventricular ampla, defeito atrioventricular total)Acima de 95%, sem cianoseÁrea cardíaca aumentada e trama pulmonar aumentadaNão é canal-dependente; alvo de saturação acima de 92% em ventilação

Teste da hiperóxia: o que cada faixa significa, e em que documento

Resultado após oxigênio a 100%LeituraDocumento
Pressão de oxigênio acima de 250 mmHgTeste positivo: cardiopatias congênitas críticas excluídasGuia federal do recém-nascido, capítulo 24
Pressão de oxigênio entre 100 e 250 mmHgTeste negativo: possível cardiopatia com shunt mistoGuia federal do recém-nascido, capítulo 24
Pressão de oxigênio abaixo de 100 mmHgTeste negativo: provável fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paraleloGuia federal do recém-nascido, capítulo 24
Saturação acima de 97% (ou pressão de oxigênio acima de 250 mmHg)Praticamente exclui essas cardiopatiasManual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022
Saturação abaixo de 85% (ou pressão de oxigênio abaixo de 100 mmHg)Probabilidade de cardiopatia muito altaManual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022
Diferença pré e pós-ductal acima de 20 mmHgSuspeitar de hipertensão pulmonar persistente, e não de cardiopatia estruturalGuia federal do recém-nascido, capítulo 24

Prostaglandina E1: três documentos, três doses

DocumentoDose inicialTetoOnde diz que o efeito adverso começa
Guia federal do recém-nascido (2014)0,01 mcg/kg/min0,1 mcg/kg/minSobretudo acima de 0,05 mcg/kg/min
Manual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria (2022)0,01 mcg/kg/min0,05 mcg/kg/minSobretudo acima de 0,03 mcg/kg/min
Bula do fabricante (revisão de 2025)0,05 a 0,1 mcg/kg/min, sendo 0,1 a recomendada0,4 mcg/kg/minApneia em 10% a 12%, mais frequente abaixo de 2 kg e na primeira hora

Alvo de saturação e uso de oxigênio, por situação

SituaçãoOxigênioAlvo de saturação
Fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paraleloPode ser utilizado; frações em geral até 60%85% a 90%
Fluxo sistêmico canal-dependenteEvitar85% a 95%
Qualquer cardiopatia com saturação abaixo de 80%OfertarSubir até a faixa-alvo do grupo
Qualquer cardiopatia com saturação acima de 95%Reduzir fração inspirada, primeiro passo até 21%Sinal de desequilíbrio entre os fluxos
Defeitos septais de shunt exclusivamente esquerda-direita em ventilaçãoConforme necessidade respiratóriaAcima de 92%

A faixa entre 80% e 90% de saturação não recebe instrução na regra simplificada do manual de sociedade, que manda ofertar abaixo de 80% e evitar acima de 90%. O silêncio é coerente: essa é a faixa-alvo, e nela a conduta é não mexer. Alternativa que mande subir oxigênio num bebê canal-dependente saturando 87% está tratando a faixa de conforto como problema.

Ecocardiograma com mapeamento de fluxo em cores é o exame de escolha e é obrigatório em todo recém-nascido com suspeita. Isso não o torna pré-requisito do tratamento: os dois documentos brasileiros dizem, com todas as letras, que a prostaglandina não espera pelo exame.

Sensibilidade e especificidade da triagem por oximetria são de 75% a 76% e 99%. O que escapa com mais frequência é a coarctação de aorta, porque enquanto o canal está aberto a diferença entre membro superior direito e membro inferior pode ser pequena. Por isso o exame físico antes da alta não é dispensado por teste normal.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Até onde se pode subir a prostaglandina E1, e onde começa o efeito adverso

Teto de 0,1, adverso acima de 0,05

A dose inicial é de 0,01 mcg/kg/min e, caso não haja resposta adequada, essa dose pode ser aumentada até 0,1 mcg/kg/min. Os principais efeitos colaterais são apneia e hipotensão, sobretudo quando doses mais elevadas são utilizadas, acima de 0,05 mcg/kg/min.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª edição, 2014, itens 24.4.3.1 e 24.4.3.3

Teto de 0,05, adverso acima de 0,03

A dose inicial é de 0,01 mcg/kg/min, podendo ser aumentada gradativamente até a dose de 0,05 mcg/kg/min, de acordo com a resposta clínica. Apneia e hipotensão são os efeitos colaterais mais frequentes e ocorrem principalmente quando se utilizam doses mais elevadas, acima de 0,03 mcg/kg/min.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 4, 11 de agosto de 2022, seção sobre uso de prostaglandina E1

Início em 0,05 a 0,1, teto de 0,4

Iniciar a infusão com 0,05 a 0,1 mcg/kg/min; a dose inicial recomendada com base nos estudos clínicos é 0,1 mcg/kg/min. Obtida a resposta, reduzir para a menor dose que a mantenha. Se a resposta a 0,05 for inadequada, a dose pode ser aumentada até 0,4 mcg/kg/min, embora em geral taxas mais altas não produzam efeito maior.

Bula do alprostadil (Prostin VR Pediatric), seção de posologia e administração, revisão de 2025

Na prova

Nenhum dos três documentos revogou os outros, e o guia federal e o manual de sociedade têm o mesmo autor. Leia o comando: enunciado que invoca o Ministério da Saúde ou o guia do recém-nascido trabalha com teto de 0,1; enunciado que invoca a Sociedade Brasileira de Pediatria ou o manual de 2022 trabalha com 0,05. Quando o comando não nomeia fonte, o que os três concordam é o que a questão está testando de verdade: começar cedo, sem esperar ecocardiograma, em acesso profundo, com material de intubação ao lado. Se as alternativas oferecerem apenas números, o distrator típico é a dose de manutenção da bula apresentada como dose inicial brasileira.

Como classificar o resultado do teste do coraçãozinho na faixa intermediária

Duas categorias, uma repetição

Resultado normal é saturação maior ou igual a 95% em ambas as medidas e diferença menor que 3% entre membro superior direito e membro inferior. Resultado anormal é qualquer medida abaixo de 95% ou diferença igual ou maior que 3%: repete-se após 1 hora e, confirmado, faz-se ecocardiograma nas 24 horas seguintes. Aplica-se a recém-nascidos com idade gestacional acima de 34 semanas.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Cardiologia, Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita crítica, 2011 — texto incorporado ao Sistema Único de Saúde em 2014

Três categorias, até duas repetições

Teste negativo é saturação maior ou igual a 95% com diferença menor ou igual a 3%. Teste positivo é saturação menor ou igual a 89% em qualquer dos sítios. Teste duvidoso é saturação entre 90% e 94% ou diferença maior ou igual a 4%: repete-se após uma hora por até duas vezes e, mantendo-se, considera-se positivo. Aplica-se a recém-nascidos com idade gestacional igual ou maior que 35 semanas.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 4, 11 de agosto de 2022, item 1.4 e Figura 2

Na prova

A mesma sociedade escreveu as duas versões, com onze anos de distância, e a de 2011 é a que virou norma no Sistema Único de Saúde. Duas fronteiras ficam órfãs entre elas: diferença de exatamente 3% é normal na versão de 2022 e anormal na de 2011; e o recém-nascido de 34 semanas e alguns dias é rastreado por uma e não pela outra. Enunciado que diga protocolo do Ministério da Saúde ou protocolo brasileiro espera a leitura binária com uma repetição. Enunciado que cite o manual de 2022 e traga saturação de 88% num membro espera teste positivo, sem repetição, com avaliação cardiológica imediata. O protocolo em si tem dono no capítulo de triagens neonatais; o que interessa aqui é que ele decide de quem se vai suspeitar.

Em que saturação a criança predominantemente cianótica vai para ventilação mecânica

Abaixo de 60%

Na cardiopatia com predomínio de cianose, a ventilação mecânica pode não ser necessária se a criança mantiver boa ventilação e débito sistêmico adequado. Em situações de hipoxemia muito acentuada, especialmente quando a saturação periférica ficar abaixo de 60%, a ventilação mecânica deve ser utilizada.

Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª edição, 2014, item 24.4.2

Abaixo de 70%

Nas cardiopatias que se manifestam preferencialmente com cianose e que mantêm boa ventilação e débito sistêmico adequado, a ventilação mecânica não traz benefício significativo na oxigenação. Entretanto, em situações em que a saturação periférica estiver persistentemente menor que 70%, a ventilação mecânica poderá ser necessária.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 4, 11 de agosto de 2022, seção sobre ventilação mecânica

Na prova

Dez pontos percentuais separam os dois documentos, e a faixa entre 60% e 70% é onde a divergência decide. O que os dois dizem igual, e é o que a questão costuma cobrar, é o princípio: na cardiopatia predominantemente cianótica com débito preservado, ventilar não melhora oxigenação, porque o problema é shunt anatômico e não troca alveolar. Alternativa que indique intubação por cianose isolada, em criança com débito sistêmico bom, está errada nos dois documentos.

Quando corrigir a tetralogia de Fallot no paciente sem crise

Eletivamente dos 2 aos 6 meses

A cirurgia é quase sempre realizada eletivamente dos 2 aos 6 meses de idade, podendo ser feita a qualquer momento se houver sintomas ou se a obstrução da via de saída do ventrículo direito for grave.

Manuais MSD, edição para profissionais, verbete Tetralogia de Fallot

Entre 6 e 18 meses, com paliação antes

O reparo completo ocorre normalmente entre os 6 e 18 meses. Procedimentos paliativos como o shunt de Blalock-Taussig podem ocorrer antes disso. Reparos posteriores são incomuns e ficam para casos leves de diagnóstico tardio.

orphananesthesia, Recomendações anestésicas para Tetralogia de Fallot, versão em português, seção Cirurgia típica

Sem consenso: neonatal ou depois dos 3 meses

O momento do reparo permanece em debate, com alguns centros defendendo a correção no período neonatal e outros adiando a correção cirúrgica completa para depois dos primeiros 3 meses de vida.

Horenstein MS, Diaz-Frias J, Guillaume M. Tetralogy of Fallot. StatPearls, atualizado em 2 de dezembro de 2024

Na prova

As três janelas se sobrepõem parcialmente e nenhuma é errada; o que muda é o serviço e a gravidade. O que não varia é o gatilho de antecipação: sintoma ou obstrução grave adianta a cirurgia em qualquer das três leituras. Enunciado que descreva lactente com crises hipoxêmicas de repetição não está perguntando a idade eletiva — está perguntando se você reconhece que a indicação deixou de ser eletiva. Marque idade só quando a vinheta descrever criança assintomática em seguimento ambulatorial.

06

Caso resolvido

Recém-nascido a termo, 39 semanas, adequado para a idade gestacional, parto vaginal sem intercorrências, Apgar 9 e 10. Com 30 horas de vida, ainda em alojamento conjunto, a equipe nota cianose de lábios e língua, sem gemido e sem retrações. Frequência cardíaca de 158 batimentos por minuto, frequência respiratória de 66 incursões por minuto, pulsos cheios e simétricos nos quatro membros, tempo de enchimento capilar de 2 segundos. Ausculta cardíaca com segunda bulha única e hiperfonética, sem sopro audível. Saturação de 71% no membro superior direito e 70% no membro inferior. Pré-natal com quatro consultas e ultrassonografia morfológica descrita como sem alterações. A maternidade não tem cardiologia pediátrica nem ecocardiograma disponível à noite.
o que o quadro já entrega
Cianose central intensa no primeiro dia, com taquipneia mas sem desconforto respiratório proporcional, pulsos bons e perfusão adequada. Isso afasta o grupo de baixo débito sistêmico e aponta hipoxemia por shunt. A segunda bulha única e hiperfonética sem sopro é a assinatura da transposição das grandes artérias: não há estenose nem defeito restritivo gerando turbulência. Pré-natal sem alteração não conta contra nada — o diagnóstico fetal no país fica em torno de 30%.
o teste que separa pulmão de coração
Ofertar oxigênio a 100% e colher gasometria pré e pós-ductal. A pressão de oxigênio volta em 48 mmHg no membro superior direito. Abaixo de 100 mmHg, o guia federal chama isso de teste negativo e o lê como provável cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo. Diferença pré e pós-ductal pequena afasta hipertensão pulmonar persistente como explicação principal.
a droga que não espera
Prostaglandina E1 começa agora, sem ecocardiograma. A indicação clínica está preenchida: cianose acentuada não responsiva ao oxigênio. Acesso venoso profundo, de preferência central, porque perder a infusão fecha o canal em minutos. Inicia-se com 0,01 mcg/kg/min — num bebê de 3,2 kg, cerca de 1,9 mcg por hora — com titulação conforme resposta. Material de intubação preparado à beira do leito antes de abrir a bomba, pela apneia.
o oxigênio, dosado como droga
Este bebê pertence ao grupo em que o oxigênio pode ser utilizado, mas não é o tratamento. Mantém-se oferta suficiente para o alvo de 85% a 90% do fluxograma da Sociedade Brasileira de Pediatria, sem perseguir 95%. Com 71% de saturação inicial ele está abaixo de 80% e deve receber oxigênio; se subir para 88%, não se acrescenta mais nada — 88% está dentro da faixa-alvo, que é justamente a faixa que a regra simplificada do documento deixa sem instrução.
a reavaliação que vale por um diagnóstico
Boa resposta à prostaglandina aparece em 15 a 30 minutos pelo manual de sociedade, ou em 30 a 60 minutos pelo guia federal, com melhora da saturação. Se a saturação não subir, a hipótese não cai: na transposição com septo interventricular íntegro, o canal aberto pode não bastar, porque falta comunicação entre os átrios. A conduta seguinte é atriosseptostomia de Rashkind, emergencial, em centro com hemodinâmica.
para onde ele vai, e com o quê
Transferência acionada para centro terciário com cirurgia cardíaca neonatal, idealmente dentro de sete dias, e no caso dele dentro de horas. Acesso venoso e via aérea garantidos antes de sair: a prostaglandina e eventuais inotrópicos não podem ser interrompidos no trajeto, e um bebê com desconforto pode ser mais seguro transportado já intubado. A correção definitiva é a cerclagem arterial de Jatene, normalmente na primeira semana, antes que o ventrículo esquerdo perca massa bombeando contra a resistência pulmonar em queda.
07

Agora feche você

Lactente de 6 meses, 7,1 kg, com diagnóstico de tetralogia de Fallot feito aos 2 meses e cirurgia programada para dali a três semanas, é trazido ao pronto-socorro pela mãe. De manhã, ao acordar e chorar, ficou intensamente azul, respirando rápido e fundo, e depois ficou molinho. A mãe conta que ele costuma se acocorar quando cansa e que hoje ela dobrou as pernas dele contra o peito, o que ajudou um pouco. À chegada: cianose central intensa, frequência cardíaca de 176 batimentos por minuto, frequência respiratória de 62 incursões por minuto, saturação de 66% em ar ambiente, sonolento mas responsivo. Na ausculta, o sopro sistólico ejetivo que estava registrado no prontuário como grau 3 está agora quase inaudível. Gasometria com pH de 7,18 e bicarbonato de 13 mEq/L.
primeiro, sem droga nenhuma
Qual é a posição, e o que ela faz na física do shunt? Que dois cuidados de ambiente valem tanto quanto ela? E o oxigênio, que aqui atua como vasodilatador de qual leito vascular?
o sopro que sumiu
O que o desaparecimento do sopro previamente audível está dizendo sobre a via de saída do ventrículo direito? Isso é sinal de melhora ou de agravamento, e por quê?
a primeira droga
Qual opioide entra, em que dose por quilo e por quais vias, e quais são os dois efeitos que justificam a escolha — o que ele faz com a hiperpneia e o que faz com o tônus adrenérgico?
se não ceder
Cite a droga que eleva a resistência vascular sistêmica, com dose por quilo, intervalo de repetição e teto de bolus. Depois cite as duas opções de betabloqueador com suas doses, e diga o que cada uma faz no infundíbulo.
o que a gasometria acrescenta
Com pH de 7,18 e bicarbonato de 13, o que entra e em que dose por quilo? E por que corrigir a acidose importa para a resistência vascular pulmonar?
as três proibições
Nomeie três classes que não entram nessa crise e o motivo fisiológico de cada uma. Uma delas piora o espasmo do infundíbulo, outra derruba a resistência sistêmica e a terceira retira a pré-carga de um ventrículo que precisa de volume.
e depois da crise
A cirurgia estava marcada para dali a três semanas. O que essa crise faz com a programação, segundo o critério de antecipação que as três referências têm em comum?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler hiperóxia positiva como confirmação de cardiopatia É a troca mais barata do tema e ela vem da língua, não da medicina. No guia federal, teste de hiperóxia positivo é pressão de oxigênio acima de 250 mmHg e significa cardiopatia congênita crítica excluída. Teste negativo é o que aponta a doença. No teste do coraçãozinho, no mesmo protocolo e no mesmo bebê, positivo significa suspeita de doença. Quando o enunciado usar a palavra sem dar o número, procure o número no texto; quando der o número, ignore a palavra.
  2. 2Comemorar o sopro que enfraqueceu durante a crise Na tetralogia o sopro é o da estenose pulmonar, gerado pelo sangue que atravessa a via de saída obstruída. Espasmo infundibular reduz esse fluxo, e o sopro diminui ou desaparece. A vinheta que diz que o sopro previamente audível está agora mais fraco está descrevendo agravamento, e usa o dado como pista diagnóstica. Alternativa que interprete o achado como resposta ao tratamento inverte a fisiologia.
  3. 3Oferecer oxigênio a 100% como tratamento definitivo do bebê canal-dependente Oxigênio é vasodilatador pulmonar e estímulo de fechamento do canal. No fluxo pulmonar canal-dependente e na circulação em paralelo ele pode ser usado, mas não resolve: o guia federal registra que a oferta por máscara ou mesmo após intubação não produz melhora significativa da saturação — e é justamente isso que faz o diagnóstico diferencial com doença pulmonar. No fluxo sistêmico canal-dependente ele é ativamente evitado, porque rouba fluxo do corpo para o pulmão. Alternativa que ofereça oxigênio em alto fluxo de forma isolada é distratora nos três grupos.
  4. 4Usar inotrópico adrenérgico na crise hipoxêmica Dobutamina, adrenalina e digoxina aumentam a contratilidade do músculo que está fechando o infundíbulo, e por isso agravam o espasmo. O documento de anestesia diz isso com todas as letras ao listar os agentes adrenérgicos como capazes de piorar o quadro. Do outro lado do mesmo erro está o vasodilatador sistêmico: nitroprussiato reduz a resistência sistêmica e aumenta o shunt direita-esquerda. Numa crise, sobem-se resistências, não contratilidade.
  5. 5Infundir prostaglandina em acesso venoso periférico Os dois documentos brasileiros pedem acesso venoso profundo, preferencialmente central, e explicam o motivo: perder o acesso interrompe a infusão e, em poucos minutos, o canal se constringe e o quadro clínico recrudesce. Não é preferência de conforto: é a diferença entre uma troca de punção e uma parada. A bula acrescenta a alternativa por cateter em artéria umbilical posicionado na abertura ductal.
  6. 6Esperar o ecocardiograma para começar a prostaglandina O ecocardiograma é obrigatório e é o exame de escolha, e nada disso o transforma em pré-requisito. Diante de cianose acentuada não responsiva ao oxigênio ou de choque sem resposta às medidas iniciais, o guia federal manda iniciar imediatamente, chamando o gesto de prova terapêutica. Alternativa que priorize o exame sobre a droga troca a ordem que os dois documentos brasileiros escreveram.
  7. 7Chamar a transposição de canal-dependente ou achar que a prostaglandina basta O manual de sociedade classifica a transposição fora do rótulo canal-dependente e, ainda assim, indica prostaglandina — porque ali o canal não sustenta uma circulação, sustenta a mistura entre duas circulações paralelas. Quando a mistura ainda é insuficiente, sobretudo com septo interventricular íntegro, a conduta seguinte é ampliar a comunicação interatrial por cateter-balão, a atriosseptostomia de Rashkind, que o guia federal descreve como imprescindível e emergencial nessa situação.
  8. 8Excluir hipoxemia grave porque o recém-nascido não está azul Cianose central depende de hemoglobina reduzida acima de 5 g/dL, e não de um valor de saturação. O anêmico com hemoglobina de 10 g/dL só fica visivelmente cianótico perto de 50% de saturação. O próprio guia federal registra que a detecção é fácil abaixo de 80% e nem sempre é fácil entre 80% e 90%. A vinheta que descreve recém-nascido pálido, taquipneico e sem cianose evidente pode estar descrevendo o caso mais grave da prova.
  9. 9Tratar taquipneia isolada no berçário como problema pulmonar Frequência respiratória acima de 70 incursões por minuto em repouso é, no manual de sociedade, sinal de alerta de insuficiência cardíaca mesmo sem cianose e sem qualquer outro achado. No bebê com fluxo sistêmico canal-dependente, a taquidispneia progressiva é a abertura do quadro e antecede o choque, e o diferencial que rouba o caso é a sepse neonatal precoce. Antibiótico e expansão isolados, sem pensar em canal, custam o bebê.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Cianose intensa nas primeiras 48h que não responde à hiperóxia, B2 única, sem sopro, com radiografia em 'ovo deitado' e pedículo estreito é o quadro clássico da transposição das grandes artérias (TGA), a cardiopatia cianótica mais comum no período neonatal imediato. Tetralogia de Fallot costuma ter sopro de estenose pulmonar e cianose que se instala mais tardiamente (coração em 'tamanco'). Atresia tricúspide cursa com desvio de eixo para esquerda no ECG e hipofluxo pulmonar. DATVP mostra coração em 'boneco de neve' (forma supracardíaca). Tronco arterioso tem sopro e sinais de hiperfluxo pulmonar com IC.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória a tabela das cinco famílias fisiológicas com as quatro colunas — grupo, saturação típica, radiografia e conduta inicial — e depois cubra a coluna do nome e tente deduzir o grupo só pelas outras três. Em seguida refaça a conta da cianose para hemoglobina de 10, 15 e 20 g/dL e diga em que saturação cada um desses bebês fica visivelmente azul. Por fim, escreva as três faixas do teste de hiperóxia do guia federal e diga em voz alta o que a palavra positivo significa ali.

em 30 dias

Reconstrua a tabela das três doses de prostaglandina, com dose inicial, teto e limiar de efeito adverso de cada documento, e converta as quatro doses para microgramas por hora num bebê de 3 kg. Depois recite a sequência inteira da crise hipoxêmica, do posicionamento à cetamina, com as doses, e a lista das três classes proibidas com o motivo fisiológico de cada uma. Termine dizendo, sem consultar, os dois alvos de saturação do fluxograma da Sociedade Brasileira de Pediatria e por que o grupo em que o oxigênio é evitado tem o teto mais alto.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Você é o pediatra de plantão numa maternidade do interior, sem cardiologia pediátrica e sem ecocardiograma à noite. A enfermagem chama porque um recém-nascido de 28 horas, que estava bem no alojamento conjunto, ficou azul. Conduza: colha o que muda a decisão com a mãe, examine o bebê, decida o que pedir e o que não vale a pena pedir agora, defina a conduta que não pode esperar exame, ajuste o oxigênio como se ajusta uma droga e explique à mãe, sem jargão, o que está acontecendo com o coração do filho dela, o que você vai fazer nas próximas horas e por que ele precisa sair desta maternidade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Cardiopatias congênitas cianóticas — Preparatório para provas | OsceLabs