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Cardiopatias congênitas cianóticas
O país ensina a triagem que procura essas doenças e cala sobre elas: a conta que separa cianose de hipoxemia, o teste cuja palavra positivo significa o contrário, e três documentos que escrevem a mesma dose de prostaglandina de três jeitos
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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Recém-nascido a termo, com 2 dias de vida, apresenta cianose central progressiva sem desconforto respiratório importante. SatO2 pré-ductal e pós-ductal de 72%, que não melhora após oferta de O2 a 100% (teste da hiperóxia sem resposta). Ausculta cardíaca com B2 única e ausência de sopros significativos. Radiografia de tórax com imagem em 'ovo deitado' (coração ovoide, pedículo estreito). Qual é o diagnóstico mais provável?
Como esse tema cai
Este capítulo trata do recém-nascido e do lactente que ficam azuis por causa do coração: as cardiopatias que cursam com mistura de sangue venoso na circulação sistêmica ou com fluxo pulmonar insuficiente. As duas que dão nome ao tema são a tetralogia de Fallot, que costuma se apresentar depois, com crises, e a transposição das grandes artérias, que se apresenta no primeiro dia, sem sopro e sem aviso.
A fronteira com os vizinhos é estreita e vale declarar. O capítulo de triagens neonatais ensina o teste do coraçãozinho inteiro — quem, quando, onde, cortes e repetição —, e o de sopro cardíaco ensina como separar o inocente do patológico e o que o rastreio não pega. O capítulo de cardiopatias acianóticas ensina a comunicação interventricular, a interatrial e o canal arterial, e é lá que mora a diferença entre fechar canal com inibidor de prostaglandina no prematuro e abrir canal com prostaglandina no cardiopata crítico. Aqui a história começa depois: a criança já está sob suspeita, e a pergunta passa a ser de que grupo fisiológico ela é, o que se oferece e o que se evita nas horas seguintes.
O que este capítulo assume como próprio é justamente o que ficou órfão. A triagem que o país incorporou tem alvo declarado — a cardiopatia congênita crítica dependente do canal arterial — e essa doença-alvo não é ensinada em lugar nenhum da trilha. O aluno aprende a fazer o teste, a interpretar os cortes, a repetir em uma hora, e chega no dia seguinte sem saber o que fazer com o bebê cujo teste veio alterado.
Fica de fora a cirurgia propriamente dita, com técnica e complicações tardias, e ficam de fora as cardiopatias de shunt misto que se apresentam como insuficiência cardíaca no segundo mês. Elas entram aqui só como diferencial, porque a faixa de saturação delas é a mesma e a prova usa isso.
O que muda decisão
O rastreio já foi ensinado; a doença que ele procura, não
Como usar este capítulo: diante de cianose, estabilize, avalie resposta ao oxigênio e identifique se a circulação depende de mistura ou de canal arterial. Compare tetralogia de Fallot e transposição pela fisiologia; crise hipoxêmica e cianose neonatal grave exigem conduta antes da confirmação completa.
As cardiopatias congênitas representam cerca de 30% de todas as malformações congênitas e têm incidência em torno de 9,4 casos para cada 1.000 nascidos vivos, com intervalo de confiança de 8,6 a 10,2, segundo o estudo epidemiológico citado pelo manual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria. Dentro desse total, as que se manifestam já no período neonatal são cerca de 3 em cada 1.000, e as críticas — as que precisam de cirurgia ou de cateterismo intervencionista nos primeiros dias ou no primeiro mês — ficam entre 1 e 2 em cada 1.000.
Coloque isso numa maternidade de porte médio, com dois mil partos por ano. São dezenove bebês com alguma cardiopatia congênita, seis que darão sinal ainda no berçário e de dois a quatro com doença crítica. E o número que faz o tema existir: até 30% dos recém-nascidos com cardiopatia crítica recebem alta sem o diagnóstico. Um bebê por ano, nessa maternidade, sai andando pela porta com uma doença que mata em dias.
A resposta brasileira a esse problema foi a triagem por oximetria de pulso, incorporada ao Sistema Único de Saúde em 2014. Ela funciona, e tem dono no capítulo de triagens neonatais. O que ela não faz é ensinar a doença: o documento de 2011 que virou protocolo nomeia o alvo e passa direto para os cortes de saturação.
Há ainda um dado que muda o cenário da vinheta antes de qualquer exame. A maioria das cardiopatias críticas pode ser diagnosticada no período fetal, e a taxa de diagnóstico pré-natal chega a cerca de 80% em países de renda alta; no Brasil, estima-se em torno de 30%. Sete em cada dez desses bebês nascem sem que ninguém saiba, numa maternidade que provavelmente não tem cirurgia cardíaca neonatal — e é por isso que o tema se escreve em cima de estabilização e transporte, não de correção.
Cianose é uma conta, não uma cor
O guia federal do recém-nascido define cianose central com uma frase que é, na verdade, uma equação: ela aparece quando a concentração de hemoglobina reduzida excede 5 g/dL. Repare no que a definição não menciona — a saturação. O limiar é de quantidade absoluta de hemoglobina sem oxigênio, não de porcentagem.
Faça a conta com três bebês. No que tem hemoglobina de 20 g/dL, um valor comum no recém-nascido policitêmico, 5 g/dL de hemoglobina reduzida correspondem a um quarto do total: ele fica visivelmente azul com saturação de 75%. No que tem 15 g/dL, os mesmos 5 g/dL são um terço, e a cianose só aparece por volta de 67%. No anêmico com 10 g/dL, são metade: ele precisa cair a 50% de saturação para que alguém veja a cor mudar.
Três bebês, o mesmo achado clínico, três graus de hipoxemia completamente diferentes — e o mais grave dos três é o que parece melhor. O corolário é duro e cai em prova: em recém-nascido anêmico, a ausência de cianose visível não exclui hipoxemia grave.

O guia federal chega à mesma conclusão pelo lado do observador: registra que o reconhecimento clínico da cianose é fácil abaixo de 80% de saturação, mas nem sempre é fácil entre 80% e 90% — e é por isso que a oximetria importa tanto. Junte as duas afirmações e você tem a régua do capítulo: a cor é sinal tardio, dependente da hemoglobina do paciente e do olho do examinador; o número não é.
Separe ainda cianose central de acrocianose. A periférica, palmar e plantar, é benigna e comum no recém-nascido. A central envolve mucosa oral e obriga a investigar cardiopatia congênita, hipertensão pulmonar persistente e doença grave do parênquima pulmonar.
Cinco famílias fisiológicas, e o grupo decide a conduta antes do nome
Tanto o guia federal quanto o manual de sociedade organizam as cardiopatias neonatais por fisiologia, e não por anatomia. A escolha não é estética: a conduta inicial depende do grupo, e o grupo pode ser deduzido à beira do leito com oxímetro, estetoscópio e uma radiografia de tórax — três recursos que existem em qualquer maternidade. O nome do defeito depende do ecocardiograma, que pode demorar.
No grupo de fluxo pulmonar dependente do canal arterial há obstrução acentuada à saída do ventrículo direito: atresia pulmonar com septo íntegro ou com comunicação interventricular, estenose pulmonar valvar crítica, tetralogia de Fallot com atresia ou estenose crítica, atresia tricúspide, anomalia de Ebstein. O bebê nasce bem, e a cianose surge e progride nas primeiras horas conforme o canal fecha. Não há desconforto respiratório proporcional, e o oxigênio não resolve. A radiografia mostra trama vascular pulmonar diminuída.
No grupo de fluxo sistêmico dependente do canal arterial a obstrução é à esquerda: hipoplasia do coração esquerdo, estenose aórtica crítica, coarctação crítica, interrupção do arco aórtico. Aqui a apresentação não é cianose e sim baixo débito — taquidispneia progressiva que evolui para choque, pulsos reduzidos, palidez, acidose. A cianose clínica é pouco frequente e a saturação costuma ficar entre 90% e 95%. A radiografia mostra cardiomegalia discreta com trama pulmonar bem aumentada, o que atrapalha a diferenciação com doença pulmonar.
No grupo de circulação em paralelo está a transposição das grandes artérias. A cianose é a mais precoce e a mais intensa de todas, já no primeiro dia, com taquipneia, sem sopro significativo e com segunda bulha hiperfonética. A radiografia mostra área cardíaca normal ou pouco aumentada com trama pulmonar aumentada.
Os dois últimos grupos servem de contraste. No shunt misto — conexão anômala total de veias pulmonares, tronco arterial comum, ventrículo único sem estenose pulmonar — há cianose discreta, com saturação entre 85% e 92% no guia federal e entre 85% e 95% no manual de sociedade, insuficiência cardíaca que se acentua depois da segunda semana e nenhuma dependência do canal. No shunt exclusivamente esquerda-direita dos defeitos septais grandes não há cianose alguma e a saturação fica acima de 95%.
Duas frases resumem a triagem mental. Cianose intensa com trama diminuída e sem resposta ao oxigênio é fluxo pulmonar canal-dependente. Choque neonatal com pulsos ruins e trama aumentada é fluxo sistêmico canal-dependente — e o diferencial que rouba esse bebê é a sepse neonatal precoce, cujo quadro é quase igual.
Teste da hiperóxia: a palavra positivo significa o contrário
O teste consiste em ofertar oxigênio a 100% e colher gasometria arterial pré-ductal, no membro superior direito, e pós-ductal, em um dos membros inferiores. O raciocínio é simples: pulmão doente melhora a oxigenação quando você inunda o alvéolo de oxigênio; shunt anatômico direita-esquerda, não.
O guia federal nomeia as faixas assim: teste positivo quando a pressão parcial de oxigênio ultrapassa 250 mmHg, o que exclui as cardiopatias congênitas críticas; teste negativo quando fica abaixo de 100 mmHg, o que aponta cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo. E acrescenta uma terceira faixa que quase ninguém decora: valores entre 100 e 250 mmHg sugerem cardiopatia com shunt misto, do tipo tronco arterial comum, ventrículo único sem estenose pulmonar ou hipoplasia do coração esquerdo.
Guarde a inversão semântica, porque ela é a pegadinha mais barata do tema. No teste de hiperóxia, positivo significa coração sadio. No teste do coraçãozinho, positivo significa suspeita de doença. Os dois testes convivem no mesmo protocolo e no mesmo bebê, com convenções opostas para a mesma palavra.
Há um segundo dado que o guia federal registra e que resolve vinhetas de recém-nascido pós-termo com mecônio: diferença entre a pressão de oxigênio pré e pós-ductal acima de 20 mmHg aponta hipertensão pulmonar persistente, não cardiopatia estrutural.
O manual de sociedade de 2022 escreve o mesmo teste de outro jeito. Mantém 250 mmHg para praticamente excluir e 100 mmHg para probabilidade muito alta, mas acrescenta uma leitura por oximetria — saturação acima de 97% após oxigênio a 100% praticamente exclui; abaixo de 85% torna a cardiopatia muito provável. E, ao acrescentar, deixa cair a faixa intermediária: os valores entre 100 e 250 mmHg, e as saturações entre 85% e 97%, ficam sem leitura atribuída.
Falta ainda, nos dois documentos brasileiros, o tempo. Nenhum dos dois diz por quanto tempo o oxigênio a 100% deve correr antes da coleta. O verbete internacional de doença cardíaca cianótica fixa dez minutos e faz gasometria em ar ambiente e depois em oxigênio a 100% — e adota um corte único de 100 mmHg, sem faixa de exclusão em 250. Três documentos, três desenhos do mesmo teste.
Tetralogia de Fallot: a obstrução manda, e o sopro mede o fluxo que ainda passa
A tetralogia é a cardiopatia cianótica mais comum e responde por 5% a 7% de todas as cardiopatias congênitas, com prevalência em torno de 1 em cada 3.000 nascimentos; a referência clínica aberta trabalha com uma fatia um pouco maior, de 7% a 10%. Nenhuma dessas estimativas decide conduta.
Os quatro componentes clássicos são comunicação interventricular ampla com desalinhamento anterior do septo, aorta cavalgando o septo, obstrução da via de saída do ventrículo direito e hipertrofia ventricular direita. O detalhe que separa quem entendeu de quem decorou: o desalinhamento do septo produz de uma só vez os três primeiros, e a hipertrofia é consequência, resposta do músculo à pressão que ele passou a enfrentar. Não são quatro defeitos independentes.
Duas associações rendem questão. O arco aórtico à direita aparece em 20% a 25% dos casos, e anomalias de artéria coronária em 5% a 10% — estas últimas importam porque mudam a técnica cirúrgica. E há a microdeleção 22q11.2, das síndromes de DiGeorge e velocardiofacial, além de frequência aumentada nas trissomias do 21, do 13 e do 18.
Vale fixar o contraste com a outra doença deste capítulo, porque as duas produzem cianose por mecanismos opostos. Na tetralogia as duas circulações estão conectadas e o sangue escapa para o lado errado porque a via pulmonar resiste: o problema é de obstrução. Na transposição não há obstrução nenhuma, e sim duas alças fechadas correndo em paralelo, ligadas apenas pelo forame oval e pelo canal: o problema é de mistura. Obstrução se alivia; mistura se cria.
A apresentação depende do grau de obstrução, e é isso que espalha a doença por toda a infância. Atresia ou estenose crítica produz recém-nascido canal-dependente, cianótico nas primeiras horas; obstrução moderada produz o lactente que fica azul ao chorar e a criança que se agacha para brincar. A posição de cócoras aumenta a resistência vascular sistêmica ao comprimir as artérias dos membros inferiores, eleva a pós-carga do ventrículo esquerdo e reduz o shunt direita-esquerda pela comunicação.
Na radiografia, coração em forma de bota, com o segmento da artéria pulmonar côncavo e trama vascular pulmonar acentuadamente diminuída.
O achado de exame físico que mais engana está no sopro. O sopro da tetralogia é o da estenose pulmonar — ele mede o fluxo que ainda atravessa a via de saída obstruída. Quanto mais o infundíbulo se fecha, menos sangue passa e mais fraco fica o sopro. Sopro que some durante a crise não é melhora: é a obstrução vencendo.
A crise hipoxêmica, passo a passo, com o que cada passo faz na física do shunt
A crise hipercianótica é a complicação mais temida da tetralogia não corrigida, e ela pode matar. O gatilho costuma ser o que aumenta o tônus adrenérgico e reduz a resistência vascular sistêmica ao mesmo tempo: choro, mamada, dor, banho, despertar. O resultado é espasmo infundibular com aumento do shunt direita-esquerda e queda abrupta do fluxo pulmonar. A criança fica profundamente cianótica, taquipneica e depois letárgica.
Todo o tratamento se resume a dois objetivos mecânicos: aumentar a resistência vascular sistêmica e aliviar o espasmo infundibular. Quem entende essa frase acerta a questão sem decorar a lista.
A sequência começa sem droga nenhuma. Posição genupeitoral, com os joelhos fletidos sobre o tórax — que é a versão passiva das cócoras e aumenta a resistência sistêmica, ao mesmo tempo em que reduz o retorno de sangue muito dessaturado dos membros inferiores. Ambiente calmo, colo, mínima manipulação. Oxigênio suplementar, que aqui atua como vasodilatador pulmonar. Expansão volêmica com cristaloide, para melhorar a pré-carga do ventrículo direito. A tabela de doses da referência clínica quantifica as drogas e deixa o volume sem número.
Persistindo a crise, entram as drogas. Morfina 0,1 mg/kg por via intravenosa, subcutânea ou intradérmica, que seda, quebra a hiperpneia e derruba o tônus adrenérgico. Fenilefrina 5 a 20 mcg/kg a cada 10 a 15 minutos, com bolus máximo de 500 mcg e infusão máxima de 5 mcg/kg/min, para elevar a resistência sistêmica por via farmacológica. Betabloqueador para o infundíbulo: esmolol 100 a 500 mcg/kg em um minuto, seguido de 25 a 100 mcg/kg/min, com teto de 500 mcg/kg/min; ou propranolol 0,015 a 0,02 mg/kg escalonado para efeito, até 0,1 a 0,2 mg/kg. Havendo acidose metabólica, bicarbonato de sódio 1 mEq/kg por via intravenosa. Falhando o conjunto, cetamina 0,5 a 2 mg/kg por via intravenosa ou 2 a 3 mg/kg por via intramuscular, que seda e sustenta a resistência sistêmica. Depois disso, intubação, oxigenação por membrana extracorpórea ou cirurgia de urgência.
A lista do que não se faz é tão cobrada quanto a do que se faz, e sai da mesma física. Inotrópico adrenérgico — dobutamina, adrenalina, digoxina — piora o espasmo, porque aumenta a contratilidade do músculo que estreita a via. Vasodilatador sistêmico como nitroprussiato derruba a resistência sistêmica e escancara o shunt. Diurético tira a pré-carga de um ventrículo direito que precisa de volume. Cada uma piora exatamente a variável que se tenta corrigir.
A correção definitiva é cirúrgica, e o momento é assunto de divergência tratada adiante. No recém-nascido com obstrução grave, a ponte até lá é a prostaglandina, para manter o canal e o fluxo pulmonar; procedimentos paliativos como o shunt de Blalock-Taussig entram quando a correção completa precisa esperar.

Transposição das grandes artérias: duas alças que nunca se cruzam
Na transposição, a aorta sai do ventrículo direito e a artéria pulmonar sai do ventrículo esquerdo. O sangue que volta do corpo vai para o corpo de novo, e o sangue que volta do pulmão volta ao pulmão. São duas circulações fechadas rodando em paralelo, e não em série. Sem alguma comunicação entre elas, a vida é medida em horas.
É por isso que o manual de sociedade classifica a transposição fora do rótulo de canal-dependente e, ainda assim, manda usar prostaglandina. O documento é explícito: apesar de a cardiopatia não ser considerada canal-dependente, manter o canal aberto aumenta o fluxo pulmonar e o retorno venoso ao átrio esquerdo, o que empurra sangue oxigenado do átrio esquerdo para o direito e daí para a aorta. Traduzindo: o canal não sustenta a circulação, sustenta a mistura — e mistura, aqui, é sobrevivência.
O quadro clínico é o mais reconhecível da pediatria. Cianose intensa no primeiro dia de vida, desproporcional ao esforço respiratório, com segunda bulha única e hiperfonética e sem sopro significativo — porque não há estenose nem defeito septal restritivo produzindo turbulência. O teste de hiperóxia não responde. A radiografia mostra a clássica forma de ovo com pedículo vascular estreitado, aspecto afilado no mediastino superior, com trama pulmonar aumentada. A transposição responde por 5% a 7% das anomalias cardíacas congênitas.
O diferencial principal não é outra cardiopatia: é a hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido, cujo quadro clínico é muito semelhante, também sem sopro e também com hiperfonese da segunda bulha. Vale a diferença pré e pós-ductal acima de 20 mmHg e vale o ecocardiograma.
Quando a prostaglandina e o suporte ventilatório não bastam — e na transposição com septo interventricular íntegro isso é frequente —, a saída é ampliar a comunicação interatrial por cateter-balão, a atriosseptostomia de Rashkind. O guia federal a descreve como imprescindível e de indicação emergencial nessa situação, e registra que atresia pulmonar com septo íntegro, hipoplasia do coração esquerdo e conexão anômala total de veias pulmonares com comunicação interatrial restritiva também podem se beneficiar dela.
A correção definitiva é a cerclagem arterial, a operação de Jatene, descrita pelo cirurgião brasileiro Adib Jatene em 1975, em que as grandes artérias voltam a seus ventrículos e as coronárias são translocadas. A referência clínica a situa normalmente na primeira semana de vida, por uma razão implacável: enquanto a artéria pulmonar sai do ventrículo esquerdo, esse ventrículo bombeia contra a resistência pulmonar, que despenca depois do nascimento. Passadas semanas, ele perde massa e não aguenta assumir a circulação sistêmica. O relógio da transposição não é o da cianose; é o do desuso do ventrículo esquerdo.
Prostaglandina E1: a droga que segura a vida, e a dose que ninguém escreve igual
As indicações para começar são clínicas e dispensam confirmação. O guia federal descreve duas situações em que se inicia imediatamente: cianose acentuada não responsiva ao oxigênio, isto é, teste de hiperóxia negativo, e choque sem boa resposta às medidas iniciais. O manual de sociedade acrescenta o diagnóstico fetal de cardiopatia crítica. Os dois são explícitos: o tratamento não pode ser postergado até o ecocardiograma — o guia federal chama o gesto de prova terapêutica.
O mecanismo tem prazo de validade. A droga dilata a musculatura lisa do canal, e essa resposta vai se reduzindo até o final do primeiro mês de vida; além disso, ela age sobre canal com constrição recente, e não sobre canal já totalmente fechado. A régua de tempo importa mais que a de dose.
A via é uma trava de segurança, não um detalhe: acesso venoso profundo, preferencialmente central. Os dois documentos brasileiros desaconselham o periférico com a mesma justificativa — perder o acesso interrompe a infusão, e em poucos minutos o canal se constringe e o quadro recrudesce. A bula acrescenta a via por cateter em artéria umbilical posicionado na abertura ductal.
E aí vem o ponto em que os documentos se separam. O guia federal manda iniciar com 0,01 mcg/kg/min e, sem resposta adequada, subir até 0,1 mcg/kg/min; localiza os efeitos colaterais principalmente acima de 0,05. O manual de sociedade de 2022, escrito pelo mesmo autor do capítulo federal, manda iniciar com os mesmos 0,01 e subir até 0,05 mcg/kg/min; localiza os efeitos colaterais principalmente acima de 0,03. Em oito anos, o teto caiu pela metade e o limiar de efeito adverso desceu junto. A bula do fabricante trabalha em outra escala: iniciar entre 0,05 e 0,1, sendo 0,1 a dose inicial recomendada com base nos estudos clínicos, com redução escalonada depois da resposta e possibilidade de subir até 0,4 — ainda que, em geral, taxas de infusão mais altas não produzam efeito maior.
Converta para o que corre na bomba de um bebê de 3 kg e a distância fica visível. A dose inicial brasileira, 0,01 mcg/kg/min, são 1,8 mcg por hora. O teto do manual de sociedade, 0,05, são 9 mcg por hora. O teto federal, que é também a dose inicial recomendada pela bula, são 18 mcg por hora — dez vezes a dose com que o país começa. O máximo da bula, 0,4, são 72 mcg por hora.
O que ordena esses números não é a miligramagem: é a janela de efeito adverso. Os dois documentos brasileiros dizem que apneia e hipotensão aparecem sobretudo acima de 0,03 e de 0,05 mcg/kg/min. A dose inicial recomendada pela bula é o dobro do maior desses dois limiares. Ou seja, o serviço que seguir a bula ao pé da letra começa o bebê acima do patamar em que as duas fontes brasileiras dizem que os efeitos colaterais se tornam frequentes.
A bula quantifica o risco que os documentos brasileiros descrevem em palavras: apneia em cerca de 10% a 12% dos recém-nascidos com cardiopatia tratados, mais frequente abaixo de 2 kg e geralmente na primeira hora de infusão; febre em cerca de 14%; convulsões em cerca de 4%. Daí a orientação que o guia federal destaca em caixa própria: estar preparado para intubar. Os demais efeitos são irritabilidade, edema de mãos e pés e erupção cutânea.
A resposta clínica é rápida e serve de teste: 15 a 30 minutos no manual de sociedade, 30 a 60 minutos no guia federal, com melhora da saturação ou dos sinais de baixo débito. Ausência de resposta obriga a repensar o diagnóstico ou a suspeitar de comunicação interatrial restritiva.
Oxigênio: aqui ele também é droga, e a faixa que a régua não cobre
Oxigênio é vasodilatador pulmonar e estímulo de fechamento do canal arterial. Nas cardiopatias em que o equilíbrio entre fluxo pulmonar e sistêmico é determinado pela relação entre as duas resistências — hipoplasia do coração esquerdo, ventrículo único sem estenose pulmonar —, oferta generosa de oxigênio dilata o leito pulmonar, aumenta o fluxo para o pulmão e rouba fluxo do corpo, agravando o baixo débito. É por isso que, nesse grupo, oxigênio piora.
O guia federal escreve a régua de maneira quantitativa. Na maioria dos recém-nascidos com cardiopatia congênita, a saturação ideal fica entre 85% e 90%; acima de 95% costuma sinalizar desequilíbrio entre os fluxos, e o primeiro passo é reduzir a fração inspirada até 21%. A frase que resume a conduta está no próprio texto: é preferível manter saturação de 85% com perfusão adequada do que 95% com sinais de choque. Do outro lado, o bebê canal-dependente ou em circulação paralela com saturação abaixo de 80% deve receber oxigênio, em geral com frações de até 60%.
O manual de sociedade condensa isso numa regra prática — e a condensação abre um vão. O texto diz: usar oxigênio nos cardiopatas com saturação menor que 80% e evitar oxigênio se a saturação for maior que 90%. A faixa entre 80% e 90%, e os próprios valores de 80% e 90%, ficam sem instrução. O vão não é acidente: é justamente a faixa-alvo. Entre 80% e 90% o bebê já está onde se quer que ele esteja, e a conduta certa é não mexer — nem acrescentar oxigênio, nem retirar.
O fluxograma do mesmo manual divide os alvos por grupo, e a divisão é contraintuitiva. Fluxo pulmonar canal-dependente e circulação em paralelo: prostaglandina imediata, oxigenioterapia pode ser utilizada, alvo entre 85% e 90%. Fluxo sistêmico canal-dependente: prostaglandina imediata, evitar oxigenioterapia, alvo entre 85% e 95%. O grupo em que o oxigênio é proibido é o que tem o teto mais alto — porque ele já chega ali sozinho, entre 90% e 95%, e a meta não é subir, é não deixar cair.
Note ainda que esse teto de 95% encosta no gatilho de alarme do guia federal, que manda reduzir a fração inspirada quando a saturação passa de 95%. Um bebê com hipoplasia do coração esquerdo saturando exatamente 95% está dentro da meta de um documento e na borda do alarme do outro.
A ventilação mecânica tem aqui função hemodinâmica: reduz o trabalho respiratório e o consumo de oxigênio e permite manipular resistências. A hipercapnia permissiva causa vasoconstrição pulmonar e desloca fluxo para o território sistêmico — útil no bebê que está roubando sangue para o pulmão. O limiar de saturação para indicá-la na criança cianótica é o segundo ponto de discórdia entre os dois documentos brasileiros. Uma vez em ventilação, o alvo é de 85% a 90%, exceto nos defeitos septais de shunt exclusivamente esquerda-direita, em que sobe para acima de 92%.
Da suspeita à transferência: o que o pediatra da maternidade decide sozinho
O tratamento definitivo dessas cardiopatias acontece em centro terciário com cirurgia cardíaca neonatal, quase sempre longe da maternidade onde o bebê nasceu. O papel do pediatra da assistência não é corrigir: é identificar o grupo, estabilizar e entregar vivo. A prova cobra exatamente essa fatia.
A sequência é curta. Reconhecer o cenário clínico — hipoxemia com cianose, baixo débito sistêmico, ou insuficiência cardíaca. Confirmar com oximetria pré e pós-ductal e, havendo dúvida com doença pulmonar, com o teste de hiperóxia. Iniciar prostaglandina diante das duas indicações clínicas, sem esperar ecocardiograma. Ajustar oxigênio pelo grupo, e não pelo reflexo de subir a saturação. Garantir acesso venoso profundo e via aérea. Acionar a transferência.
Os sinais que o manual de sociedade lista como sugestivos valem como filtro rápido: bradicardia abaixo de 90 ou taquicardia acima de 180 batimentos por minuto; frequência respiratória acima de 70; saturação abaixo de 95%; impulsões precordiais palpáveis; hiperfonese de bulhas, sobretudo da segunda em foco pulmonar; sopro sistólico intenso ou contínuo; e redução de amplitude ou assimetria de pulsos.
A taquipneia em repouso merece destaque próprio: o manual registra que frequência respiratória acima de 70 é sinal de alerta de insuficiência cardíaca mesmo na ausência de cianose ou de qualquer outro sinal. É o achado precoce que a vinheta esconde no exame físico e que o candidato lê como pulmonar.
Sobre o transporte, o manual estabelece um prazo e duas travas. A transferência deve ocorrer idealmente em até sete dias, antes de complicações infecciosas, neurológicas ou hemodinâmicas. As travas são acesso venoso e via aérea seguros: prostaglandina e inotrópicos não podem ser descontinuados no trajeto, e a criança com desconforto respiratório costuma ser mais segura transportada já intubada.
O capítulo federal encerra o tema com uma frase que vale como epidemiologia: a mortalidade desse grupo no Brasil ainda é muito elevada e muitos bebês não chegam aos centros especializados. Com 30% de diagnóstico fetal e até 30% de alta sem diagnóstico, boa parte do desfecho se decide antes da cirurgia — na maternidade, com oxímetro, estetoscópio e uma bomba de infusão.
As quatro réguas numéricas do tema, na ordem em que a vinheta as pede
A vinheta de cardiopatia cianótica quase sempre se resolve em duas perguntas encadeadas: de que grupo fisiológico é este bebê, e o que se faz com oxigênio e prostaglandina nesse grupo. Cada pergunta tem documento dono e tabela própria — e em duas delas os documentos brasileiros não coincidem, o que faz o comando do enunciado importar tanto quanto o quadro clínico.
A conta da cianose
Cianose central aparece com hemoglobina reduzida acima de 5 g/dL. Com hemoglobina de 20 g/dL isso acontece a 75% de saturação; com 15, perto de 67%; com 10, só a 50%. Anêmico sem cianose visível pode estar gravemente hipoxêmico.
A inversão da palavra positivo
Hiperóxia positiva, no guia federal, significa pressão de oxigênio acima de 250 mmHg e exclui cardiopatia crítica. Coraçãozinho positivo significa suspeita de doença. Mesma palavra, polaridades opostas, mesmo protocolo.
As duas indicações que dispensam ecocardiograma
Cianose acentuada não responsiva ao oxigênio, e choque sem resposta às medidas iniciais. Nas duas, prostaglandina começa antes do diagnóstico anatômico. O ecocardiograma é obrigatório, mas não é o que libera o tratamento.
O sopro que enfraquece
Na tetralogia, o sopro é da estenose pulmonar e mede o fluxo que ainda passa. Sopro que some durante a crise significa mais obstrução, não melhora. É o sinal que o enunciado usa para separar quem entendeu de quem decorou.
O relógio da transposição
O prazo da cerclagem arterial de Jatene não é ditado pela cianose e sim pelo desuso do ventrículo esquerdo, que perde massa quando bombeia contra a resistência pulmonar em queda. Por isso a correção fica na primeira semana.
O que nunca entra na crise hipoxêmica
Inotrópico adrenérgico, vasodilatador sistêmico e diurético. O primeiro piora o espasmo infundibular, o segundo derruba a resistência sistêmica e escancara o shunt, o terceiro tira a pré-carga de um ventrículo direito que precisa de volume.
As cinco famílias fisiológicas e a assinatura de cada uma
| Grupo | Saturação típica | Radiografia de tórax | Conduta inicial |
|---|---|---|---|
| Fluxo pulmonar canal-dependente (atresia pulmonar, estenose crítica, Fallot grave, atresia tricúspide) | Abaixo de 80%, sem resposta ao oxigênio | Trama vascular pulmonar diminuída, com ou sem cardiomegalia | Prostaglandina imediata; oxigênio pode ser usado; alvo de 85% a 90% |
| Circulação em paralelo (transposição das grandes artérias) | Muito baixa já no primeiro dia, sem resposta ao oxigênio | Área cardíaca normal ou pouco aumentada, pedículo estreito, trama aumentada | Prostaglandina imediata; atriosseptostomia de Rashkind se não bastar; alvo de 85% a 90% |
| Fluxo sistêmico canal-dependente (hipoplasia do coração esquerdo, coarctação crítica, interrupção do arco) | Entre 90% e 95%, com choque progressivo | Cardiomegalia discreta com trama pulmonar bem aumentada | Prostaglandina imediata; evitar oxigênio; alvo de 85% a 95% |
| Shunt misto (conexão anômala total de veias pulmonares, tronco arterial comum) | Entre 85% e 92% no guia federal; 85% a 95% no manual de sociedade | Área cardíaca aumentada e trama pulmonar aumentada | Não é canal-dependente; manejo de insuficiência cardíaca e encaminhamento |
| Shunt exclusivamente esquerda-direita (comunicação interventricular ampla, defeito atrioventricular total) | Acima de 95%, sem cianose | Área cardíaca aumentada e trama pulmonar aumentada | Não é canal-dependente; alvo de saturação acima de 92% em ventilação |
Teste da hiperóxia: o que cada faixa significa, e em que documento
| Resultado após oxigênio a 100% | Leitura | Documento |
|---|---|---|
| Pressão de oxigênio acima de 250 mmHg | Teste positivo: cardiopatias congênitas críticas excluídas | Guia federal do recém-nascido, capítulo 24 |
| Pressão de oxigênio entre 100 e 250 mmHg | Teste negativo: possível cardiopatia com shunt misto | Guia federal do recém-nascido, capítulo 24 |
| Pressão de oxigênio abaixo de 100 mmHg | Teste negativo: provável fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo | Guia federal do recém-nascido, capítulo 24 |
| Saturação acima de 97% (ou pressão de oxigênio acima de 250 mmHg) | Praticamente exclui essas cardiopatias | Manual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022 |
| Saturação abaixo de 85% (ou pressão de oxigênio abaixo de 100 mmHg) | Probabilidade de cardiopatia muito alta | Manual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022 |
| Diferença pré e pós-ductal acima de 20 mmHg | Suspeitar de hipertensão pulmonar persistente, e não de cardiopatia estrutural | Guia federal do recém-nascido, capítulo 24 |
Prostaglandina E1: três documentos, três doses
| Documento | Dose inicial | Teto | Onde diz que o efeito adverso começa |
|---|---|---|---|
| Guia federal do recém-nascido (2014) | 0,01 mcg/kg/min | 0,1 mcg/kg/min | Sobretudo acima de 0,05 mcg/kg/min |
| Manual de sistematização da Sociedade Brasileira de Pediatria (2022) | 0,01 mcg/kg/min | 0,05 mcg/kg/min | Sobretudo acima de 0,03 mcg/kg/min |
| Bula do fabricante (revisão de 2025) | 0,05 a 0,1 mcg/kg/min, sendo 0,1 a recomendada | 0,4 mcg/kg/min | Apneia em 10% a 12%, mais frequente abaixo de 2 kg e na primeira hora |
Alvo de saturação e uso de oxigênio, por situação
| Situação | Oxigênio | Alvo de saturação |
|---|---|---|
| Fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo | Pode ser utilizado; frações em geral até 60% | 85% a 90% |
| Fluxo sistêmico canal-dependente | Evitar | 85% a 95% |
| Qualquer cardiopatia com saturação abaixo de 80% | Ofertar | Subir até a faixa-alvo do grupo |
| Qualquer cardiopatia com saturação acima de 95% | Reduzir fração inspirada, primeiro passo até 21% | Sinal de desequilíbrio entre os fluxos |
| Defeitos septais de shunt exclusivamente esquerda-direita em ventilação | Conforme necessidade respiratória | Acima de 92% |
A faixa entre 80% e 90% de saturação não recebe instrução na regra simplificada do manual de sociedade, que manda ofertar abaixo de 80% e evitar acima de 90%. O silêncio é coerente: essa é a faixa-alvo, e nela a conduta é não mexer. Alternativa que mande subir oxigênio num bebê canal-dependente saturando 87% está tratando a faixa de conforto como problema.
Ecocardiograma com mapeamento de fluxo em cores é o exame de escolha e é obrigatório em todo recém-nascido com suspeita. Isso não o torna pré-requisito do tratamento: os dois documentos brasileiros dizem, com todas as letras, que a prostaglandina não espera pelo exame.
Sensibilidade e especificidade da triagem por oximetria são de 75% a 76% e 99%. O que escapa com mais frequência é a coarctação de aorta, porque enquanto o canal está aberto a diferença entre membro superior direito e membro inferior pode ser pequena. Por isso o exame físico antes da alta não é dispensado por teste normal.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Teto de 0,1, adverso acima de 0,05
A dose inicial é de 0,01 mcg/kg/min e, caso não haja resposta adequada, essa dose pode ser aumentada até 0,1 mcg/kg/min. Os principais efeitos colaterais são apneia e hipotensão, sobretudo quando doses mais elevadas são utilizadas, acima de 0,05 mcg/kg/min.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª edição, 2014, itens 24.4.3.1 e 24.4.3.3
Teto de 0,05, adverso acima de 0,03
A dose inicial é de 0,01 mcg/kg/min, podendo ser aumentada gradativamente até a dose de 0,05 mcg/kg/min, de acordo com a resposta clínica. Apneia e hipotensão são os efeitos colaterais mais frequentes e ocorrem principalmente quando se utilizam doses mais elevadas, acima de 0,03 mcg/kg/min.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 4, 11 de agosto de 2022, seção sobre uso de prostaglandina E1
Início em 0,05 a 0,1, teto de 0,4
Iniciar a infusão com 0,05 a 0,1 mcg/kg/min; a dose inicial recomendada com base nos estudos clínicos é 0,1 mcg/kg/min. Obtida a resposta, reduzir para a menor dose que a mantenha. Se a resposta a 0,05 for inadequada, a dose pode ser aumentada até 0,4 mcg/kg/min, embora em geral taxas mais altas não produzam efeito maior.
Bula do alprostadil (Prostin VR Pediatric), seção de posologia e administração, revisão de 2025
Na prova
Nenhum dos três documentos revogou os outros, e o guia federal e o manual de sociedade têm o mesmo autor. Leia o comando: enunciado que invoca o Ministério da Saúde ou o guia do recém-nascido trabalha com teto de 0,1; enunciado que invoca a Sociedade Brasileira de Pediatria ou o manual de 2022 trabalha com 0,05. Quando o comando não nomeia fonte, o que os três concordam é o que a questão está testando de verdade: começar cedo, sem esperar ecocardiograma, em acesso profundo, com material de intubação ao lado. Se as alternativas oferecerem apenas números, o distrator típico é a dose de manutenção da bula apresentada como dose inicial brasileira.
Duas categorias, uma repetição
Resultado normal é saturação maior ou igual a 95% em ambas as medidas e diferença menor que 3% entre membro superior direito e membro inferior. Resultado anormal é qualquer medida abaixo de 95% ou diferença igual ou maior que 3%: repete-se após 1 hora e, confirmado, faz-se ecocardiograma nas 24 horas seguintes. Aplica-se a recém-nascidos com idade gestacional acima de 34 semanas.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Cardiologia, Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita crítica, 2011 — texto incorporado ao Sistema Único de Saúde em 2014
Três categorias, até duas repetições
Teste negativo é saturação maior ou igual a 95% com diferença menor ou igual a 3%. Teste positivo é saturação menor ou igual a 89% em qualquer dos sítios. Teste duvidoso é saturação entre 90% e 94% ou diferença maior ou igual a 4%: repete-se após uma hora por até duas vezes e, mantendo-se, considera-se positivo. Aplica-se a recém-nascidos com idade gestacional igual ou maior que 35 semanas.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 4, 11 de agosto de 2022, item 1.4 e Figura 2
Na prova
A mesma sociedade escreveu as duas versões, com onze anos de distância, e a de 2011 é a que virou norma no Sistema Único de Saúde. Duas fronteiras ficam órfãs entre elas: diferença de exatamente 3% é normal na versão de 2022 e anormal na de 2011; e o recém-nascido de 34 semanas e alguns dias é rastreado por uma e não pela outra. Enunciado que diga protocolo do Ministério da Saúde ou protocolo brasileiro espera a leitura binária com uma repetição. Enunciado que cite o manual de 2022 e traga saturação de 88% num membro espera teste positivo, sem repetição, com avaliação cardiológica imediata. O protocolo em si tem dono no capítulo de triagens neonatais; o que interessa aqui é que ele decide de quem se vai suspeitar.
Abaixo de 60%
Na cardiopatia com predomínio de cianose, a ventilação mecânica pode não ser necessária se a criança mantiver boa ventilação e débito sistêmico adequado. Em situações de hipoxemia muito acentuada, especialmente quando a saturação periférica ficar abaixo de 60%, a ventilação mecânica deve ser utilizada.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde do Recém-Nascido, volume 3, 2ª edição, 2014, item 24.4.2
Abaixo de 70%
Nas cardiopatias que se manifestam preferencialmente com cianose e que mantêm boa ventilação e débito sistêmico adequado, a ventilação mecânica não traz benefício significativo na oxigenação. Entretanto, em situações em que a saturação periférica estiver persistentemente menor que 70%, a ventilação mecânica poderá ser necessária.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação nº 4, 11 de agosto de 2022, seção sobre ventilação mecânica
Na prova
Dez pontos percentuais separam os dois documentos, e a faixa entre 60% e 70% é onde a divergência decide. O que os dois dizem igual, e é o que a questão costuma cobrar, é o princípio: na cardiopatia predominantemente cianótica com débito preservado, ventilar não melhora oxigenação, porque o problema é shunt anatômico e não troca alveolar. Alternativa que indique intubação por cianose isolada, em criança com débito sistêmico bom, está errada nos dois documentos.
Eletivamente dos 2 aos 6 meses
A cirurgia é quase sempre realizada eletivamente dos 2 aos 6 meses de idade, podendo ser feita a qualquer momento se houver sintomas ou se a obstrução da via de saída do ventrículo direito for grave.
Manuais MSD, edição para profissionais, verbete Tetralogia de Fallot
Entre 6 e 18 meses, com paliação antes
O reparo completo ocorre normalmente entre os 6 e 18 meses. Procedimentos paliativos como o shunt de Blalock-Taussig podem ocorrer antes disso. Reparos posteriores são incomuns e ficam para casos leves de diagnóstico tardio.
orphananesthesia, Recomendações anestésicas para Tetralogia de Fallot, versão em português, seção Cirurgia típica
Sem consenso: neonatal ou depois dos 3 meses
O momento do reparo permanece em debate, com alguns centros defendendo a correção no período neonatal e outros adiando a correção cirúrgica completa para depois dos primeiros 3 meses de vida.
Horenstein MS, Diaz-Frias J, Guillaume M. Tetralogy of Fallot. StatPearls, atualizado em 2 de dezembro de 2024
Na prova
As três janelas se sobrepõem parcialmente e nenhuma é errada; o que muda é o serviço e a gravidade. O que não varia é o gatilho de antecipação: sintoma ou obstrução grave adianta a cirurgia em qualquer das três leituras. Enunciado que descreva lactente com crises hipoxêmicas de repetição não está perguntando a idade eletiva — está perguntando se você reconhece que a indicação deixou de ser eletiva. Marque idade só quando a vinheta descrever criança assintomática em seguimento ambulatorial.
Caso resolvido
- o que o quadro já entrega
- Cianose central intensa no primeiro dia, com taquipneia mas sem desconforto respiratório proporcional, pulsos bons e perfusão adequada. Isso afasta o grupo de baixo débito sistêmico e aponta hipoxemia por shunt. A segunda bulha única e hiperfonética sem sopro é a assinatura da transposição das grandes artérias: não há estenose nem defeito restritivo gerando turbulência. Pré-natal sem alteração não conta contra nada — o diagnóstico fetal no país fica em torno de 30%.
- o teste que separa pulmão de coração
- Ofertar oxigênio a 100% e colher gasometria pré e pós-ductal. A pressão de oxigênio volta em 48 mmHg no membro superior direito. Abaixo de 100 mmHg, o guia federal chama isso de teste negativo e o lê como provável cardiopatia cianótica crítica com fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo. Diferença pré e pós-ductal pequena afasta hipertensão pulmonar persistente como explicação principal.
- a droga que não espera
- Prostaglandina E1 começa agora, sem ecocardiograma. A indicação clínica está preenchida: cianose acentuada não responsiva ao oxigênio. Acesso venoso profundo, de preferência central, porque perder a infusão fecha o canal em minutos. Inicia-se com 0,01 mcg/kg/min — num bebê de 3,2 kg, cerca de 1,9 mcg por hora — com titulação conforme resposta. Material de intubação preparado à beira do leito antes de abrir a bomba, pela apneia.
- o oxigênio, dosado como droga
- Este bebê pertence ao grupo em que o oxigênio pode ser utilizado, mas não é o tratamento. Mantém-se oferta suficiente para o alvo de 85% a 90% do fluxograma da Sociedade Brasileira de Pediatria, sem perseguir 95%. Com 71% de saturação inicial ele está abaixo de 80% e deve receber oxigênio; se subir para 88%, não se acrescenta mais nada — 88% está dentro da faixa-alvo, que é justamente a faixa que a regra simplificada do documento deixa sem instrução.
- a reavaliação que vale por um diagnóstico
- Boa resposta à prostaglandina aparece em 15 a 30 minutos pelo manual de sociedade, ou em 30 a 60 minutos pelo guia federal, com melhora da saturação. Se a saturação não subir, a hipótese não cai: na transposição com septo interventricular íntegro, o canal aberto pode não bastar, porque falta comunicação entre os átrios. A conduta seguinte é atriosseptostomia de Rashkind, emergencial, em centro com hemodinâmica.
- para onde ele vai, e com o quê
- Transferência acionada para centro terciário com cirurgia cardíaca neonatal, idealmente dentro de sete dias, e no caso dele dentro de horas. Acesso venoso e via aérea garantidos antes de sair: a prostaglandina e eventuais inotrópicos não podem ser interrompidos no trajeto, e um bebê com desconforto pode ser mais seguro transportado já intubado. A correção definitiva é a cerclagem arterial de Jatene, normalmente na primeira semana, antes que o ventrículo esquerdo perca massa bombeando contra a resistência pulmonar em queda.
Agora feche você
- primeiro, sem droga nenhuma
- Qual é a posição, e o que ela faz na física do shunt? Que dois cuidados de ambiente valem tanto quanto ela? E o oxigênio, que aqui atua como vasodilatador de qual leito vascular?
- o sopro que sumiu
- O que o desaparecimento do sopro previamente audível está dizendo sobre a via de saída do ventrículo direito? Isso é sinal de melhora ou de agravamento, e por quê?
- a primeira droga
- Qual opioide entra, em que dose por quilo e por quais vias, e quais são os dois efeitos que justificam a escolha — o que ele faz com a hiperpneia e o que faz com o tônus adrenérgico?
- se não ceder
- Cite a droga que eleva a resistência vascular sistêmica, com dose por quilo, intervalo de repetição e teto de bolus. Depois cite as duas opções de betabloqueador com suas doses, e diga o que cada uma faz no infundíbulo.
- o que a gasometria acrescenta
- Com pH de 7,18 e bicarbonato de 13, o que entra e em que dose por quilo? E por que corrigir a acidose importa para a resistência vascular pulmonar?
- as três proibições
- Nomeie três classes que não entram nessa crise e o motivo fisiológico de cada uma. Uma delas piora o espasmo do infundíbulo, outra derruba a resistência sistêmica e a terceira retira a pré-carga de um ventrículo que precisa de volume.
- e depois da crise
- A cirurgia estava marcada para dali a três semanas. O que essa crise faz com a programação, segundo o critério de antecipação que as três referências têm em comum?
Onde a banca derruba
- 1Ler hiperóxia positiva como confirmação de cardiopatia É a troca mais barata do tema e ela vem da língua, não da medicina. No guia federal, teste de hiperóxia positivo é pressão de oxigênio acima de 250 mmHg e significa cardiopatia congênita crítica excluída. Teste negativo é o que aponta a doença. No teste do coraçãozinho, no mesmo protocolo e no mesmo bebê, positivo significa suspeita de doença. Quando o enunciado usar a palavra sem dar o número, procure o número no texto; quando der o número, ignore a palavra.
- 2Comemorar o sopro que enfraqueceu durante a crise Na tetralogia o sopro é o da estenose pulmonar, gerado pelo sangue que atravessa a via de saída obstruída. Espasmo infundibular reduz esse fluxo, e o sopro diminui ou desaparece. A vinheta que diz que o sopro previamente audível está agora mais fraco está descrevendo agravamento, e usa o dado como pista diagnóstica. Alternativa que interprete o achado como resposta ao tratamento inverte a fisiologia.
- 3Oferecer oxigênio a 100% como tratamento definitivo do bebê canal-dependente Oxigênio é vasodilatador pulmonar e estímulo de fechamento do canal. No fluxo pulmonar canal-dependente e na circulação em paralelo ele pode ser usado, mas não resolve: o guia federal registra que a oferta por máscara ou mesmo após intubação não produz melhora significativa da saturação — e é justamente isso que faz o diagnóstico diferencial com doença pulmonar. No fluxo sistêmico canal-dependente ele é ativamente evitado, porque rouba fluxo do corpo para o pulmão. Alternativa que ofereça oxigênio em alto fluxo de forma isolada é distratora nos três grupos.
- 4Usar inotrópico adrenérgico na crise hipoxêmica Dobutamina, adrenalina e digoxina aumentam a contratilidade do músculo que está fechando o infundíbulo, e por isso agravam o espasmo. O documento de anestesia diz isso com todas as letras ao listar os agentes adrenérgicos como capazes de piorar o quadro. Do outro lado do mesmo erro está o vasodilatador sistêmico: nitroprussiato reduz a resistência sistêmica e aumenta o shunt direita-esquerda. Numa crise, sobem-se resistências, não contratilidade.
- 5Infundir prostaglandina em acesso venoso periférico Os dois documentos brasileiros pedem acesso venoso profundo, preferencialmente central, e explicam o motivo: perder o acesso interrompe a infusão e, em poucos minutos, o canal se constringe e o quadro clínico recrudesce. Não é preferência de conforto: é a diferença entre uma troca de punção e uma parada. A bula acrescenta a alternativa por cateter em artéria umbilical posicionado na abertura ductal.
- 6Esperar o ecocardiograma para começar a prostaglandina O ecocardiograma é obrigatório e é o exame de escolha, e nada disso o transforma em pré-requisito. Diante de cianose acentuada não responsiva ao oxigênio ou de choque sem resposta às medidas iniciais, o guia federal manda iniciar imediatamente, chamando o gesto de prova terapêutica. Alternativa que priorize o exame sobre a droga troca a ordem que os dois documentos brasileiros escreveram.
- 7Chamar a transposição de canal-dependente ou achar que a prostaglandina basta O manual de sociedade classifica a transposição fora do rótulo canal-dependente e, ainda assim, indica prostaglandina — porque ali o canal não sustenta uma circulação, sustenta a mistura entre duas circulações paralelas. Quando a mistura ainda é insuficiente, sobretudo com septo interventricular íntegro, a conduta seguinte é ampliar a comunicação interatrial por cateter-balão, a atriosseptostomia de Rashkind, que o guia federal descreve como imprescindível e emergencial nessa situação.
- 8Excluir hipoxemia grave porque o recém-nascido não está azul Cianose central depende de hemoglobina reduzida acima de 5 g/dL, e não de um valor de saturação. O anêmico com hemoglobina de 10 g/dL só fica visivelmente cianótico perto de 50% de saturação. O próprio guia federal registra que a detecção é fácil abaixo de 80% e nem sempre é fácil entre 80% e 90%. A vinheta que descreve recém-nascido pálido, taquipneico e sem cianose evidente pode estar descrevendo o caso mais grave da prova.
- 9Tratar taquipneia isolada no berçário como problema pulmonar Frequência respiratória acima de 70 incursões por minuto em repouso é, no manual de sociedade, sinal de alerta de insuficiência cardíaca mesmo sem cianose e sem qualquer outro achado. No bebê com fluxo sistêmico canal-dependente, a taquidispneia progressiva é a abertura do quadro e antecede o choque, e o diferencial que rouba o caso é a sepse neonatal precoce. Antibiótico e expansão isolados, sem pensar em canal, custam o bebê.
Cianose intensa nas primeiras 48h que não responde à hiperóxia, B2 única, sem sopro, com radiografia em 'ovo deitado' e pedículo estreito é o quadro clássico da transposição das grandes artérias (TGA), a cardiopatia cianótica mais comum no período neonatal imediato. Tetralogia de Fallot costuma ter sopro de estenose pulmonar e cianose que se instala mais tardiamente (coração em 'tamanco'). Atresia tricúspide cursa com desvio de eixo para esquerda no ECG e hipofluxo pulmonar. DATVP mostra coração em 'boneco de neve' (forma supracardíaca). Tronco arterioso tem sopro e sinais de hiperfluxo pulmonar com IC.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Lactente de 5 meses com diagnóstico prévio de tetralogia de Fallot é levado ao PS pela manhã, após episódio de choro intenso, com cianose súbita e acentuada, irritabilidade e hiperpneia. Ao exame: cianose central intensa, FC 170 bpm, FR 60 ipm, e o sopro sistólico previamente audível está agora mais fraco. A mãe instintivamente já o colocou com as pernas fletidas sobre o abdome. Além do posicionamento genupeitoral e oferta de oxigênio, qual das medidas farmacológicas é a MAIS apropriada como próximo passo no manejo da crise?
Na crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot, o objetivo é reduzir o espasmo infundibular e o shunt direita-esquerda. Após posição genupeitoral (aumenta RVS) e O2, a morfina acalma, reduz a hiperpneia e o tônus adrenérgico/espasmo infundibular. O enfraquecimento do sopro reflete a queda do fluxo através da via de saída do VD (mais obstrução). Digoxina (inotrópico) piora o espasmo infundibular dinâmico. Furosemida reduz volemia e agrava a crise. Nitroprussiato é vasodilatador — reduz a RVS e aumenta o shunt D-E, piorando a cianose. Adenosina é para taquiarritmia supraventricular, não é o mecanismo aqui (a taquicardia é sinusal reativa).
Recém-nascido a termo, 2 dias de vida, apresenta cianose progressiva sem desconforto respiratório importante. SatO2 62% em membro superior direito, sem melhora com O2 a 100% (teste da hiperóxia). Ausculta cardíaca com B2 única e hiperfonética, sem sopros significativos. Radiografia de tórax mostra mediastino estreito com aspecto de 'ovo deitado sobre o fio'. Qual é o diagnóstico mais provável?
A TGA é a cardiopatia cianótica que classicamente se apresenta nas primeiras 48h com cianose intensa, teste da hiperóxia negativo, B2 única e imagem radiológica de 'ovo deitado' (mediastino estreito por sobreposição dos grandes vasos). A atresia pulmonar tem hipofluxo pulmonar marcado e frequentemente sopro de canal. O RVPAT infracardíaco cursa com congestão pulmonar grave e desconforto respiratório importante ('boneco de neve' quando supracardíaco). O truncus arteriosus dá hiperfluxo pulmonar e sopro proeminente. A anomalia de Ebstein cursa com cardiomegalia acentuada e sopro de regurgitação tricúspide.
Lactente de 8 meses com tetralogia de Fallot conhecida, ainda não operado, apresenta durante o choro episódio súbito de cianose intensa, irritabilidade e desaparecimento do sopro que antes era audível. FC 180 bpm, taquipneia. A mãe relata que a criança melhora quando dobra os joelhos sobre o tórax. Qual é o mecanismo fisiopatológico da crise e a primeira medida postural indicada?
Na crise hipoxêmica ('tet spell') da tetralogia de Fallot, ocorre espasmo infundibular e/ou queda da resistência vascular sistêmica que aumentam o shunt direita-esquerda, desviando sangue da circulação pulmonar (por isso o sopro de estenose pulmonar desaparece). A posição genupeitoral (joelhos no tórax) aumenta a resistência vascular sistêmica e o retorno venoso, reduzindo o shunt. As demais opções descrevem mecanismos e condutas de outras entidades: shunt esquerda-direita não causa cianose súbita; não há isquemia coronariana, tamponamento ou BAVT no quadro descrito.
Recém-nascido a termo, com 2 dias de vida, é avaliado na maternidade por cianose central que não melhora com a oferta de oxigênio (teste da hiperóxia negativo). A gestação transcorreu sem intercorrências e o parto foi vaginal. Ao exame: cianose generalizada, taquipneia leve sem esforço respiratório importante, ausculta cardíaca com bulha única e hiperfonética, sem sopro significativo. Saturação de O2 de 78% em ar ambiente, mantida com oxigênio suplementar. Radiografia de tórax mostra coração em formato de 'ovo deitado' com pedículo estreito e trama vascular pulmonar aumentada. Qual é o diagnóstico mais provável e a medida farmacológica inicial para estabilização, respectivamente?
Cianose intensa nas primeiras horas/dias de vida, refratária ao oxigênio (hiperóxia negativa), com bulha única, sem sopro relevante e radiografia com coração em 'ovo deitado' e pedículo estreito, é típica de transposição das grandes artérias; a estabilização depende da manutenção do canal arterial com prostaglandina E1, garantindo mistura sanguínea até a correção. Na tetralogia de Fallot há sopro sistólico ejetivo e crises hipoxêmicas, com radiografia em 'bota'. A CIV ampla cursa com sinais de insuficiência cardíaca e hiperfluxo, não cianose refratária precoce. A PCA isolada não causa cianose central refratária ao O2 no recém-nascido; indometacina fecharia o canal, o que seria deletério aqui.
Menino de 3 anos, com diagnóstico prévio de cardiopatia congênita cianótica, é trazido ao pronto-socorro pela mãe após episódio de choro intenso ao acordar, seguido de cianose que se agravou rapidamente, irritabilidade e hiperpneia. A mãe relata que a criança frequentemente se agacha (posição de cócoras) ao ficar cansada durante brincadeiras. Durante a crise, a mãe instintivamente dobrou as pernas da criança sobre o tórax. Ao exame, entre as crises: sopro sistólico ejetivo em foco pulmonar, com segunda bulha única. Durante a crise, o sopro torna-se menos audível. Qual é o diagnóstico de base e a explicação fisiopatológica da posição de cócoras, respectivamente?
Cardiopatia cianótica com crises hipoxêmicas, posição de cócoras habitual, sopro sistólico ejetivo pulmonar e segunda bulha única define tetralogia de Fallot. O agachamento (squatting) aumenta a resistência vascular sistêmica ao comprimir as artérias dos membros inferiores, elevando a pós-carga do ventrículo esquerdo e reduzindo o shunt direita-esquerda pela CIV, o que direciona mais sangue ao pulmão e melhora a oxigenação — daí a redução da cianose. A CIA é acianótica e não gera crises hipoxêmicas. Estenose aórtica e coarctação não produzem cianose central nem crises hipoxêmicas com melhora ao agachar.
Lactente de 8 meses é levado ao pronto-socorro pela mãe após episódio de choro intenso, seguido de cianose progressiva de lábios e extremidades, taquipneia e irritabilidade que durou cerca de 15 minutos. A mãe relata que, quando o episódio piorava, a criança agachava-se espontaneamente e melhorava. Ao exame: FC 160 bpm, FR 55 ipm, SatO2 78% em ar ambiente, cianose central, sopro sistólico ejetivo em borda esternal esquerda alta que ficou MENOS audível durante a crise. Ausculta pulmonar limpa. Considerando o diagnóstico de tetralogia de Fallot em crise hipoxêmica, qual é a conduta inicial mais apropriada?
Correta: na crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot, o objetivo imediato é aumentar a resistência vascular sistêmica e o retorno venoso, reduzindo o shunt direita-esquerda pela estenose infundibular. A posição genupeitoral (que reproduz o agachamento espontâneo relatado), o oxigênio, a sedação/acalmar a criança e evitar estresse são as primeiras medidas; morfina e volume vêm na sequência. O sopro fica MENOS audível na crise porque cai o fluxo pela via de saída do VD — dado que confirma o mecanismo. Erra: não há congestão pulmonar (ausculta limpa, hipofluxo pulmonar); diurético piora, reduzindo pré-carga. Erra: inotrópicos que aumentam a contratilidade infundibular pioram a obstrução dinâmica da via de saída do VD. Erra: não é broncoespasmo — a criança tem hipofluxo pulmonar, não obstrução de vias aéreas. Erra: vasodilatador sistêmico reduz a RVS e AUMENTA o shunt direita-esquerda, agravando a cianose.
Recém-nascido a termo, sexo masculino, com 2 dias de vida, apresenta cianose central intensa e progressiva desde as primeiras horas de vida, sem desconforto respiratório significativo. SatO2 72% em ar ambiente, que não melhora com oferta de oxigênio a 100% (teste da hiperóxia). Ausculta cardíaca sem sopros significativos. Radiografia de tórax mostra mediastino estreito com imagem cardíaca em formato de 'ovo deitado no cordão' e trama vascular pulmonar aumentada. Qual é o diagnóstico mais provável?
Correta: a transposição das grandes artérias (TGA) é a cardiopatia cianótica mais comum no período neonatal imediato e cursa com cianose grave nas primeiras horas, sem desconforto respiratório, teste da hiperóxia negativo (a SatO2 não sobe com O2 a 100%, pois há circulações em paralelo), ausência de sopro (na TGA simples) e a clássica imagem radiológica de coração em 'ovo deitado' com pedículo estreito e trama pulmonar aumentada. Erra: a tetralogia de Fallot costuma dar cianose mais tardia, sopro sistólico proeminente e coração 'em bota' com trama pulmonar DIMINUÍDA. Erra: atresia tricúspide tem desvio de eixo para a esquerda no ECG e geralmente hipofluxo pulmonar. Erra: estenose pulmonar crítica cursa com hipofluxo pulmonar (trama diminuída), não aumentada. Erra PCA isolada não causa cianose central grave nem esse padrão radiológico.
Recém-nascido com 18 horas de vida, diagnóstico ecocardiográfico de transposição das grandes artérias com septo interventricular íntegro. Encontra-se em cianose importante, SatO2 65%, acidose metabólica em piora. O neonatologista suspeita que o canal arterial esteja se fechando. Enquanto se organiza a transferência para centro de referência, qual medida farmacológica é prioritária para estabilizar o paciente?
Correta: na TGA com septo íntegro, a sobrevida depende de mistura entre as circulações sistêmica e pulmonar, que ocorre pelo forame oval e principalmente pelo canal arterial. A prostaglandina E1 (alprostadil) mantém o canal arterial patente, melhorando a mistura e a oxigenação, sendo a medida prioritária até a atriosseptostomia de Rashkind ou a cirurgia de Jatene. Erra: a indometacina FECHA o canal arterial, agravando fatalmente a cianose. Erra: bicarbonato trata a consequência (acidose), não a causa (falta de mistura) — a acidose só reverte restaurando o fluxo/mistura. Erra: furosemida não corrige o defeito de mistura e pode reduzir a pré-carga necessária. Erra na TGA a oxigenoterapia isolada é pouco eficaz (circulações em paralelo) e a oferta de O2 pode inclusive acelerar o fechamento do canal arterial.
Lactente de 10 meses, sexo masculino, é levado à consulta por episódios de cianose de lábios e extremidades durante o choro e as mamadas, que melhoram quando a mãe o coloca de cócoras ou dobra as pernas sobre o tórax. Ao exame: cianose central leve, baqueteamento digital incipiente e sopro sistólico ejetivo rude (3/6) em borda esternal esquerda alta. A radiografia de tórax mostra área cardíaca de tamanho normal, com ponta elevada ("coração em bota") e trama vascular pulmonar reduzida. O diagnóstico mais provável é:
Correta: o quadro é típico de tetralogia de Fallot — cianose que melhora com a posição de cócoras/genupeitoral (o squatting aumenta a resistência vascular sistêmica e reduz o shunt direita-esquerda), sopro ejetivo em foco pulmonar (estenose infundibular/pulmonar) e a tríade radiológica clássica: "coração em bota" (coeur en sabot, por hipertrofia de VD com ponta elevada) e hipofluxo pulmonar. CIV isolada cursa com hiperfluxo pulmonar e insuficiência cardíaca com sopro holossistólico, não com cianose e hipofluxo. TGA manifesta cianose grave neonatal precoce, não episódica aos 10 meses aliviada por squatting, e o RX mostra fluxo pulmonar aumentado ("ovo deitado"). PCA gera shunt esquerda-direita com sopro contínuo em maquinaria e hiperfluxo, sem cianose central. Coarctação cursa com diferença de pulsos/PA entre membros e sinais de IC, não com cianose e coração em bota.
Recém-nascido a termo, sexo masculino, apresenta cianose central intensa e progressiva nas primeiras 12 horas de vida, sem desconforto respiratório significativo. A saturação de oxigênio não melhora com oferta de O2 a 100% (teste da hiperóxia negativo). Ausculta cardíaca com segunda bulha única e hiperfonética, sem sopros audíveis. A radiografia de tórax evidencia mediastino estreito com silhueta cardíaca em "ovo deitado" (egg on a string) e trama vascular pulmonar aumentada. O ecocardiograma confirma discordância ventrículo-arterial com septo interventricular íntegro. Além da confirmação diagnóstica, a conduta inicial mais apropriada para estabilizar o recém-nascido é:
Correta: o quadro é de transposição das grandes artérias (TGA) com septo íntegro: cianose neonatal precoce e grave, refratária ao O2 (hiperóxia negativa), B2 única e RX em "ovo deitado" com hiperfluxo. Como há duas circulações em paralelo, a sobrevida depende de mistura sanguínea; a conduta imediata é manter o canal arterial pérvio com prostaglandina E1, permitindo mistura até a atriosseptostomia de Rashkind e/ou a correção definitiva. O oxigênio isolado não corrige a fisiologia em paralelo e a saturação não sobe. Furosemida reduz pré-carga e não trata o defeito de mistura; pode piorar o débito. A cirurgia de Jatene é o tratamento definitivo, mas eletivo/estabilizado (geralmente nas primeiras 2 semanas), não medida de estabilização inicial de emergência. A indometacina FECHA o canal arterial — exatamente o oposto do necessário, sendo potencialmente fatal aqui.
Lactente de 8 meses, com diagnóstico de tetralogia de Fallot aguardando correção cirúrgica, é levado ao pronto-socorro durante episódio iniciado após choro intenso. Apresenta-se irritado, com hiperpneia e cianose central acentuada. Chama atenção que o sopro sistólico previamente audível tornou-se praticamente inaudível. Foram realizadas posição genupeitoral e oferta de oxigênio, sem melhora significativa. O próximo passo terapêutico mais apropriado é a administração de:
Correta: Trata-se de crise hipoxêmica ("tet spell"): o espasmo infundibular aumenta a obstrução da via de saída do VD, reduz o fluxo pulmonar (por isso o sopro DESAPARECE) e intensifica o shunt direita-esquerda. Após as medidas iniciais (posição genupeitoral e O2), o próximo passo é o sulfato de morfina, que abole a hiperpneia, seda e reduz o tônus adrenérgico/espasmo infundibular. A sequência inclui ainda volume e, se refratário, vasoconstritor sistêmico (fenilefrina) ou betabloqueador. Furosemida reduz a pré-carga, agravando o hipofluxo pulmonar. Digoxina e dobutamina são inotrópicos positivos que AUMENTAM a contração do infundíbulo, piorando a obstrução dinâmica — contraindicados na crise. Nitroprussiato reduz a resistência vascular sistêmica, aumentando o shunt direita-esquerda e agravando a cianose.
Recém-nascido de 38 semanas, adequado para a idade gestacional, com 34 horas de vida, apresenta-se hipoativo e cianótico em alojamento conjunto. Exame físico: FC 160 bpm, FR 68 irpm, discreto batimento de asa nasal, ausculta pulmonar limpa, B2 hiperfonética e única, sem sopros; pulsos periféricos cheios e simétricos. Oximetria de pulso: 86% no membro superior direito e 85% no membro inferior. Radiografia de tórax com área cardíaca discretamente aumentada, pedículo estreito e trama vascular pulmonar normal/aumentada. Instituída oferta de oxigênio a 100% sob capacete por 10 minutos, a PaO2 em gasometria arterial permanece em 38 mmHg. Assinale a conduta imediata mais adequada, enquanto se aguarda o ecocardiograma.
Trata-se de recém-nascido cianótico com teste da hiperóxia negativo (PaO2 < 100-150 mmHg após FiO2 de 100%), B2 única e trama vascular pulmonar preservada — quadro típico de cardiopatia congênita crítica ducto-dependente (p. ex., transposição das grandes artérias, que cursa com pedículo estreito). A conduta imediata é manter a patência do canal arterial com prostaglandina E1 em infusão contínua, sob monitorização (risco de apneia e hipotensão) e com transferência para serviço com cirurgia cardíaca — a droga é iniciada com base na suspeita clínica, sem esperar o ecocardiograma. Insistir em FiO2 alta não corrige a mistura intracardíaca, e o oxigênio ainda favorece o fechamento do canal, podendo piorar as lesões ducto-dependentes. Sepse não explica a hiperóxia negativa com pulmão limpo e não deve substituir a medida que sustenta a circulação. Surfactante/óxido nítrico presume doença parenquimatosa/HPPRN, mas não há desconforto importante, o pulmão está limpo e não há gradiente pré/pós-ductal (86% x 85%), o que fala contra shunt ductal direita-esquerda da HPPRN.
Recém-nascido de 4 dias com síndrome de hipoplasia do coração esquerdo está em prostaglandina E1, com saturação de 92%, pulsos finos e tempo de enchimento capilar de 4 segundos. A equipe considera aumentar a oferta de oxigênio para elevar a saturação acima de 95%. Qual é a conduta correta e por quê?
Nas cardiopatias em que o equilíbrio entre fluxo pulmonar e sistêmico depende da relação entre as resistências, ofertar oxigênio em excesso provoca vasodilatação pulmonar, aumenta o fluxo para o pulmão e reduz o fluxo sistêmico, agravando o baixo débito. O guia federal orienta evitar oxigênio nesse grupo e registra que é preferível manter saturação de 85% com perfusão adequada a manter 95% com sinais de choque; acima de 95% o primeiro passo é reduzir a fração inspirada até ar ambiente. O oxigênio não interage quimicamente com a prostaglandina infundida.
Recém-nascido com 20 horas de vida tem diagnóstico ecocardiográfico de transposição das grandes artérias com septo interventricular íntegro. Está em prostaglandina E1 há duas horas, em acesso central, e mantém saturação de 63% apesar de suporte ventilatório adequado. Qual é a conduta seguinte?
Na transposição, as circulações sistêmica e pulmonar correm em paralelo e a sobrevida depende de mistura entre elas. Com septo interventricular íntegro, manter o canal aberto pode não ser suficiente, porque falta comunicação entre os átrios: o guia federal descreve a ampliação da comunicação interatrial por cateter-balão como imprescindível e de indicação emergencial nessa situação. Suspender a prostaglandina fecha a única mistura existente; oxigênio não corrige shunt anatômico; e inibidor de prostaglandina fecha o canal, que é o oposto do necessário.
Recém-nascido de 2 dias com cianose leve e taquidispneia é submetido ao teste de hiperóxia. A pressão parcial de oxigênio pós-ductal retorna em 168 mmHg. Segundo as faixas descritas no guia federal de atenção à saúde do recém-nascido, o que esse valor sugere?
O guia federal descreve três faixas: acima de 250 mmHg exclui cardiopatia crítica; abaixo de 100 mmHg aponta fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo; e entre 100 e 250 mmHg sugere cardiopatia com shunt misto, citando como exemplos tronco arterial comum, ventrículo único sem estenose pulmonar e hipoplasia do coração esquerdo. Essa faixa intermediária desaparece na versão do manual de sociedade de 2022, que só descreve os dois extremos. A hipertensão pulmonar persistente é sugerida por diferença pré e pós-ductal acima de 20 mmHg, dado que o enunciado não traz.
Ao prescrever prostaglandina E1 para um recém-nascido com cardiopatia canal-dependente, o plantonista dispõe apenas de acesso venoso periférico no dorso da mão. Por que os documentos brasileiros desaconselham essa via?
O guia federal e o manual de sociedade pedem acesso venoso profundo, preferencialmente central, com a mesma justificativa: a perda temporária do acesso interrompe a infusão e, em poucos minutos, ocorre constrição do canal arterial e recrudescimento abrupto do quadro clínico. O problema não é farmacocinético nem de titulação: a droga tem início de ação muito rápido justamente porque o canal responde depressa, e é essa mesma rapidez que torna qualquer interrupção catastrófica. A bula admite ainda a via por cateter em artéria umbilical posicionado na abertura ductal.
Recém-nascido de 1.900 g com cardiopatia canal-dependente terá prostaglandina E1 iniciada em unidade neonatal. Qual cuidado deve estar garantido antes de abrir a infusão, e por qual motivo?
Apneia e hipotensão são os efeitos adversos mais frequentes da prostaglandina E1, e o guia federal destaca em caixa própria que o risco de apneia é elevado e que se deve estar preparado para intubação sempre que a droga for indicada. A bula do fabricante quantifica: apneia em cerca de 10% a 12% dos recém-nascidos com cardiopatia tratados, mais frequente nos que pesam menos de 2 kg ao nascer e geralmente na primeira hora de infusão, além de febre em cerca de 14% e convulsões em cerca de 4%. Hemólise, imunossupressão e retenção hídrica não constam do perfil da droga.
Durante uma crise hipoxêmica, o médico percebe que o sopro sistólico ejetivo que estava registrado no prontuário de um lactente com tetralogia de Fallot tornou-se quase inaudível. Qual é o significado desse achado?
O sopro da tetralogia é o da estenose pulmonar e mede o fluxo que ainda atravessa a via de saída obstruída. O espasmo infundibular da crise reduz esse fluxo, e o sopro enfraquece ou desaparece: quanto mais fraco o sopro durante a crise, pior a obstrução. Interpretar o desaparecimento como melhora inverte a fisiologia. A comunicação interventricular da tetralogia é ampla e não se fecha durante um episódio, e queda da resistência sistêmica é justamente o que aumenta o shunt direita-esquerda e desencadeia a crise.
Recém-nascido de 3 kg com suspeita de cardiopatia congênita crítica canal-dependente terá prostaglandina E1 iniciada. Segundo o manual de orientação de 2022 da Sociedade Brasileira de Pediatria, quais são a dose inicial e a dose máxima de infusão contínua?
O manual de 2022 fixa dose inicial de 0,01 mcg/kg/min com aumento gradativo até 0,05 mcg/kg/min conforme a resposta clínica, e situa apneia e hipotensão sobretudo acima de 0,03 mcg/kg/min. O guia federal de 2014 mantém a mesma dose inicial mas admite teto de 0,1 mcg/kg/min, com efeitos adversos acima de 0,05. A bula do fabricante trabalha em outra escala, com início entre 0,05 e 0,1 e possibilidade de subir até 0,4 — números que são de titulação internacional e aparecem como distratores quando o comando pede a régua brasileira.
Recém-nascido a termo, com 26 horas de vida, apresenta cianose central e taquipneia. Levantada a suspeita de cardiopatia congênita crítica, a equipe realiza o teste de hiperóxia: oferta de oxigênio a 100% seguida de gasometria arterial. A pressão parcial de oxigênio pré-ductal retorna em 284 mmHg. Segundo o guia federal de atenção à saúde do recém-nascido, como esse resultado deve ser lido?
No guia federal, o teste de hiperóxia é chamado de positivo quando a pressão parcial de oxigênio ultrapassa 250 mmHg, e essa resposta exclui as cardiopatias congênitas críticas. A palavra positivo aqui significa coração sadio, ao contrário do que ocorre no teste do coraçãozinho, em que positivo indica suspeita de doença. Valores abaixo de 100 mmHg é que apontam fluxo pulmonar canal-dependente ou circulação em paralelo, e valores entre 100 e 250 mmHg sugerem cardiopatia com shunt misto. Prostaglandina e atriosseptostomia pertencem ao cenário oposto ao descrito.
Recém-nascido com hemoglobina de 10 g/dL apresenta saturação de oxigênio de 72%, taquipneia e palidez, sem cianose visível de mucosas. A equipe cogita afastar cardiopatia pela ausência de cianose. Qual é o erro desse raciocínio?
A definição do guia federal é de quantidade absoluta: a cianose central aparece quando a hemoglobina reduzida ultrapassa 5 g/dL. Com hemoglobina total de 10 g/dL, esse patamar corresponde a metade das hemácias dessaturadas, ou seja, saturação em torno de 50%. Com 20 g/dL bastam 25% de dessaturação, e a cianose aparece já perto de 75%. O anêmico, portanto, precisa estar muito mais hipoxêmico para ficar visivelmente azul, e a ausência de cianose não afasta hipoxemia grave. O próprio guia registra que a detecção clínica é pouco confiável entre 80% e 90%.
Lactente de 7 meses com tetralogia de Fallot chega ao pronto-socorro após choro intenso, com cianose súbita, hiperpneia e irritabilidade. Ainda não há acesso venoso. Qual é a primeira medida?
A crise hipoxêmica se trata elevando a resistência vascular sistêmica e aliviando o espasmo infundibular, e as primeiras medidas não são farmacológicas: posição genupeitoral, que reproduz o agachamento espontâneo e aumenta a resistência sistêmica, ambiente calmo e oxigênio, que atua como vasodilatador pulmonar. Inotrópico adrenérgico aumenta a contratilidade do músculo que está fechando o infundíbulo e agrava o espasmo; vasodilatador sistêmico derruba a resistência e escancara o shunt direita-esquerda; diurético retira a pré-carga de um ventrículo direito que precisa de volume.
Bebê com transposição das grandes artérias e septo interventricular íntegro já passou pela ampliação da comunicação interatrial por cateter-balão em centro de referência e está bem perfundido, sem cianose importante e ganhando peso. A família pergunta por que a operação de troca das grandes artérias não pode ser adiada por alguns meses, já que a criança se encontra estável. Qual é a justificativa para situá-la na primeira semana de vida?
Na transposição, a artéria pulmonar sai do ventrículo esquerdo, e esse ventrículo passa a ejetar contra a resistência pulmonar, que despenca depois do nascimento. Semanas nesse regime de baixa pós-carga fazem o músculo perder massa, e um ventrículo esquerdo destreinado não assume a circulação sistêmica quando as grandes artérias são recolocadas em seus ventrículos. O relógio da transposição não é o da cianose, e sim o do desuso do ventrículo esquerdo — por isso a correção é situada normalmente na primeira semana. A translocação das coronárias é parte técnica da operação e não tem prazo de validade nas primeiras semanas. Policitemia acompanha hipoxemia crônica e não é o que define a data em uma criança que já está bem saturada. A comunicação interatrial ampliada por cateter-balão é justamente o que sustenta a mistura e não se fecha em dias. E a resistência pulmonar cai após o nascimento, em vez de subir de forma fixa nas primeiras semanas.
Feto com diagnóstico pré-natal de transposição das grandes artérias. Qual conduta de planejamento do parto é fundamental?
Na transposição das grandes artérias, a sobrevida depende de mistura entre as circulações, e o recém-nascido pode deteriorar rapidamente ao fechar o canal arterial: por isso o parto deve ocorrer em centro com equipe de cardiologia e cirurgia cardíaca pediátrica, com prostaglandina disponível e possibilidade de atriosseptostomia de Rashkind. Programar parto em serviço sem retaguarda engana quem considera o recém-nascido inicialmente estável, e a transferência tardia custa vidas. Prematuridade eletiva piora o prognóstico.
Recém-nascido com cardiopatia congênita cianótica dependente do canal arterial apresenta piora da cianose após 36 horas de vida. Qual a conduta imediata?
Nas cardiopatias dependentes do canal arterial, o fechamento fisiológico nas primeiras horas ou dias provoca deterioração súbita, e a prostaglandina mantém o canal aberto, servindo de ponte até a intervenção definitiva. Administrar indometacina engana quem confunde com o manejo da persistência do canal arterial em prematuro, cenário oposto, e fecharia justamente a via de que o recém-nascido depende para sobreviver. Oxigênio em alta concentração pode até favorecer o fechamento do canal e piorar o quadro.
Lactente com tetralogia de Fallot em crise hipoxêmica não responde à posição genupeitoral e ao oxigênio. Qual a próxima medida farmacológica?
A morfina interrompe a hiperpneia que alimenta a crise e sedativa o lactente agitado, enquanto o volume melhora o enchimento do ventrículo direito e o fluxo pulmonar; em casos refratários entram fenilefrina, para elevar a resistência sistêmica, e betabloqueador, para relaxar o infundíbulo. Inotrópicos e vasodilatadores fazem o contrário do desejado: aumentar contratilidade agrava o espasmo infundibular e reduzir a pós-carga amplia o shunt direita-esquerda.
Ao iniciar prostaglandina E1 em recém-nascido com cardiopatia cianótica, qual efeito adverso exige vigilância imediata e prontidão para suporte ventilatório?
Apneia é o efeito adverso mais temido da prostaglandina, ocorre com frequência nas primeiras horas de infusão e é a razão pela qual o transporte desses bebês se faz com material de via aérea preparado. Febre, rubor e hipotensão também ocorrem, mas nenhum deles obriga a mesma prontidão. Esperar hipertensão é inverter o efeito vasodilatador da droga.
Sobre o teste de hiperóxia na avaliação do recém-nascido cianótico, assinale a alternativa correta.
O princípio do teste é simples: se o problema for pulmonar, o oxigênio a 100% eleva bastante a pressão arterial de oxigênio; se houver mistura intracardíaca, a subida é pequena. Elevação acima de 250 mmHg aponta justamente para causa pulmonar, e ler esse valor como confirmação de cardiopatia inverte a lógica. Um teste normal também não exclui cardiopatias acianóticas ou obstruções esquerdas.
Recém-nascido com drenagem anômala total de veias pulmonares do tipo infracardíaco apresenta cianose, taquipneia intensa e congestão pulmonar acentuada. Qual característica torna essa forma uma emergência cirúrgica?
No tipo infracardíaco o coletor venoso desce pelo diafragma e sofre obstrução, o sangue pulmonar não consegue retornar e o resultado é edema pulmonar grave que não responde a ventilação — a única solução é cirurgia imediata. É uma das poucas cardiopatias em que a prostaglandina não ajuda e pode piorar, ao aumentar o fluxo pulmonar contra um retorno obstruído.
Criança de 4 anos com cardiopatia cianótica não corrigida apresenta baqueteamento digital. Qual a explicação para esse achado?
O baqueteamento reflete hipoxemia sustentada por meses e é achado tardio, útil para estimar o tempo de doença — não aparece em cianose aguda. Congestão venosa periférica gera edema e hepatomegalia, não hipocratismo digital, e essa confusão é comum. Sua presença em criança pequena deve sempre levantar cardiopatia cianótica ou doença pulmonar supurativa crônica.
Quais são os quatro componentes anatômicos da tetralogia de Fallot?
A tétrade envolve o defeito septal ventricular, a estenose infundibular pulmonar, a aorta cavalgando o septo e a hipertrofia do ventrículo direito — sendo o grau da obstrução da via de saída direita o que determina o quanto a criança fica cianótica. Trocar a comunicação interventricular pela interatrial é o erro mais comum de memorização, e altera completamente a fisiologia do shunt.
Recém-nascido com transposição das grandes artérias e septo interventricular íntegro apresenta hipoxemia refratária apesar da prostaglandina. Qual o procedimento indicado como ponte até a cirurgia definitiva?
Na transposição com septo íntegro, as duas circulações ficam em paralelo e a sobrevida depende de mistura: ampliar a comunicação interatrial com balão é o procedimento que resolve a hipoxemia refratária até a cirurgia de troca arterial. A derivação de Blalock-Taussig serve às lesões com fluxo pulmonar diminuído, o que não é o caso. A bandagem pulmonar trata hiperfluxo em outras lesões e não corrige o problema de mistura.
Recém-nascido de 6 horas de vida, filho de mãe diabética, apresenta cianose central intensa com SpO2 de 65% pré-ductal e 68% pós-ductal, sem desconforto respiratório. O teste de hiperóxia não elevou a pressão de oxigênio. Qual a hipótese mais provável?
Cianose intensa nas primeiras horas de vida, sem desconforto respiratório e sem resposta ao teste de hiperóxia, aponta para lesão com circulações em paralelo — e a associação com filho de mãe diabética reforça a transposição, cuja incidência é maior nesse grupo. A tetralogia raramente é tão cianótica logo ao nascer, porque a obstrução infundibular costuma ser progressiva ao longo dos primeiros meses.
Qual é a cirurgia corretiva atualmente indicada para a transposição das grandes artérias com septo íntegro, e em que período deve ser realizada?
A troca arterial precisa ser feita enquanto o ventrículo esquerdo ainda mantém massa suficiente para assumir a circulação sistêmica, o que ocorre nas primeiras semanas, antes que a queda da resistência pulmonar o descondicione. As cirurgias de correção atrial pertencem ao passado e deixam o ventrículo direito como câmara sistêmica. A cirurgia de Fontan é a via das fisiologias univentriculares, o que não é o caso aqui.
Adolescente com cardiopatia cianótica não corrigida planeja viagem aérea. Qual orientação é a mais pertinente?
A cabine pressurizada equivale a uma altitude de cerca de dois mil metros, e a queda da pressão de oxigênio agrava a hipoxemia de quem já vive dessaturado; hidratação previne o aumento da viscosidade num paciente policitêmico. Restringir líquidos é o oposto do necessário e favorece eventos trombóticos. Sangria não é medida profilática de rotina e pode induzir ferropenia, que piora a hiperviscosidade.
Recém-nascido com atresia pulmonar e septo íntegro tem sua sobrevida inicial dependente de qual estrutura?
Sem via de saída do ventrículo direito, o único caminho para o sangue chegar aos pulmões é o canal arterial — mantê-lo aberto com prostaglandina é o que separa a vida da morte enquanto se planeja a intervenção. O forame oval precisa ser amplo, e não restritivo, para descomprimir o átrio direito; um forame restritivo agrava o quadro em vez de sustentá-lo.
Sobre a transposição das grandes artérias, assinale a alternativa correta quanto à fisiologia.
Na transposição, a aorta sai do ventrículo direito e a artéria pulmonar do esquerdo, criando dois circuitos fechados independentes — sem comunicação interatrial, interventricular ou canal, não há oxigenação sistêmica possível e o recém-nascido morre. Justamente por isso a trama pulmonar está aumentada, e não diminuída, e a cianose é precoce, aparecendo nas primeiras horas de vida.
Sobre a cianose central no recém-nascido, qual afirmação é correta?
A cianose depende da quantidade absoluta de hemoglobina não oxigenada, e não da porcentagem de saturação — por isso o policitêmico fica azul mais cedo e o anêmico pode estar gravemente hipoxêmico com pele ainda rosada. Achar que o anêmico se cianosa antes é inverter esse conceito, e é um erro que atrasa diagnóstico em recém-nascido pálido. Acrocianose é fenômeno periférico e comum em neonato normal.
Sobre a cianose diferencial (saturação maior em membros superiores do que em inferiores) no recém-nascido, qual é a causa clássica?
Quando a pressão pulmonar supera a sistêmica ou existe obstrução do arco, o sangue dessaturado atravessa o canal arterial e vai para a aorta descendente, deixando os membros inferiores menos saturados que o direito superior. Vale conhecer o padrão inverso, chamado cianose diferencial reversa, que ocorre na transposição associada a coarctação ou hipertensão pulmonar e é achado praticamente exclusivo dessa combinação.
Sobre a saturação de oxigênio esperada após correção cirúrgica bem-sucedida da tetralogia de Fallot, e o seguimento a longo prazo, assinale a alternativa correta.
A correção alivia a obstrução e fecha o defeito septal, normalizando a oxigenação, mas o preço frequente é a regurgitação pulmonar crônica, que dilata o ventrículo direito ao longo de décadas e alimenta arritmias ventriculares e morte súbita. Dar alta definitiva é o erro conceitual mais grave nesse acompanhamento: cardiopatia congênita corrigida é cardiopatia acompanhada para o resto da vida.
Criança de 3 anos com tetralogia de Fallot não corrigida apresenta hematócrito de 62%, cefaleia e turvação visual. Qual a interpretação?
A hipoxemia crônica estimula eritropoietina e o hematócrito sobe como adaptação, mas em níveis elevados a viscosidade compromete a microcirculação e produz cefaleia, alterações visuais e risco de acidente vascular cerebral. Nesses pacientes é fundamental manter hidratação e tratar ferropenia, porque hemácias microcíticas são menos deformáveis e agravam a hiperviscosidade mesmo com hematócrito aparentemente aceitável.
Segundo o algoritmo AAP de 2025 apresentado pelo CDC, sobre a triagem neonatal de cardiopatias críticas por oximetria de pulso, assinale a alternativa correta.
No algoritmo AAP de 2025 apresentado pelo CDC, a triagem mede saturação na mão direita e em um pé, após 24 horas de vida ou o mais tarde possível antes de alta mais precoce. Uma medida abaixo de 90% exige avaliação imediata. Valores de 90% a 94% em algum local ou diferença superior a três pontos percentuais exigem repetição após uma hora; persistência caracteriza falha. O resultado passa com pelo menos 95% em ambos os locais e diferença de até três pontos. Esses operadores pertencem a essa referência. O teste é de rastreamento: resultado alterado não confirma cardiopatia, e resultado normal não exclui todas as cardiopatias nem substitui exame físico.
Lactente de 10 meses com tetralogia de Fallot apresenta crises hipoxêmicas cada vez mais frequentes. Qual medida farmacológica de manutenção pode ser usada enquanto se aguarda a correção cirúrgica?
O betabloqueador relaxa o infundíbulo muscular do ventrículo direito e reduz a frequência das crises, funcionando como ponte para a cirurgia. Reduzir a pós-carga sistêmica com inibidor da enzima conversora é justamente o que se deve evitar, pois aumenta o shunt direita-esquerda e agrava a cianose. Digoxina aumenta a contratilidade e pode intensificar o espasmo infundibular, sendo contraproducente.
Recém-nascido a termo, com 36 horas de vida, apresenta cianose central progressiva, SpO2 de 78% que não melhora com oxigênio a 100%, sem desconforto respiratório importante e com ausculta pulmonar limpa. Qual a hipótese mais provável?
Cianose intensa e desproporcional ao esforço respiratório, com pulmões limpos e sem resposta ao oxigênio, é a assinatura do shunt intracardíaco direita-esquerda. As causas pulmonares — taquipneia transitória, pneumonia, aspiração meconial — cursam com desconforto proeminente, ausculta alterada e alguma resposta ao oxigênio. A hipertensão pulmonar persistente é o diferencial mais difícil e costuma trazer história de asfixia ou aspiração.
Recém-nascido com suspeita de cardiopatia congênita cianótica canal-dependente, com SpO2 de 70% e acidose metabólica. Qual a medida terapêutica prioritária enquanto se aguarda o ecocardiograma?
Nas lesões canal-dependentes, a sobrevida imediata depende da patência do canal arterial, e a prostaglandina E1 é a droga que compra tempo até a intervenção — deve ser iniciada na suspeita, sem esperar confirmação. Oferecer oxigênio a 100% é intuitivo, mas em algumas lesões ele acelera o fechamento do canal e piora o quadro. A indometacina faz exatamente o oposto do necessário e seria catastrófica.
Menina de 2 anos com cardiopatia cianótica não corrigida apresenta febre alta, sopro novo e lesões cutâneas puntiformes em polpas digitais. Qual a hipótese e a conduta inicial?
Febre persistente em cardiopata cianótico com sopro novo e fenômenos embólicos periféricos exige investigar endocardite, e a coleta de hemoculturas seriadas antes do antibiótico é o passo que determina o sucesso do tratamento. Kawasaki é o diferencial febril mais lembrado nessa idade, mas não produz fenômenos embólicos digitais nem sopro novo em coração previamente auscultado.
Recém-nascido de 5 dias, previamente bem, chega ao pronto-socorro em choque, com pulsos femorais impalpáveis, acidose metabólica grave e hepatomegalia. Qual a hipótese principal e a conduta imediata?
Colapso circulatório em torno do quinto dia de vida com pulsos femorais ausentes é a apresentação clássica do fechamento do canal em coarctação crítica, interrupção do arco ou síndrome do coração esquerdo hipoplásico — a prostaglandina reabre a via de perfusão sistêmica e precede qualquer outra medida. Tratar apenas como sepse é a armadilha mais comum, porque os dois quadros se parecem: o que separa é palpar os pulsos.
Recém-nascido com cardiopatia cianótica dependente do canal arterial, já em infusão de prostaglandina E1, aguarda transferência para centro de referência. Qual cuidado é essencial durante o transporte?
Na cardiopatia dependente do canal arterial, a prostaglandina E1 deve ser mantida continuamente durante a transferência. A equipe precisa estar preparada para apneia e suporte da via aérea. O oxigênio deve ser titulado à fisiologia e à perfusão; não se recomenda nem proibi-lo indiscriminadamente nem administrar 100% de rotina. Também são essenciais acesso e infusão seguros, normotermia, controle glicêmico e monitorização. Nem toda cardiopatia cianótica necessita de prostaglandina: a indicação decorre da dependência do canal.
Sobre a fisiologia univentricular e a cirurgia de Fontan, assinale a alternativa correta.
Na paliação de Fontan o sangue venoso chega ao pulmão passivamente, sem bomba, o que só é tolerado com resistência pulmonar baixa — e por isso o percurso é feito em etapas, começando por derivações no primeiro ano. As complicações tardias, como enteropatia perdedora de proteínas, disfunção hepática e trombose, tornam o seguimento vitalício obrigatório, e é justamente essa a parte mais subestimada.
Menino de 8 meses, com sopro cardíaco conhecido, apresenta episódio de choro intenso seguido de cianose acentuada, hiperpneia e irritabilidade, com desaparecimento do sopro durante o episódio. Qual a conduta imediata?
A crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot decorre de espasmo infundibular com aumento do shunt direita-esquerda; dobrar as pernas sobre o abdome eleva a resistência sistêmica e redireciona sangue para o pulmão, e acalmar a criança quebra o ciclo. O desaparecimento do sopro durante a crise assusta, mas confirma a redução do fluxo pulmonar. Diurético reduz volume e agrava a crise, sendo exatamente o oposto do necessário.
Menino de 5 anos com tetralogia de Fallot não corrigida adota espontaneamente a posição de cócoras durante brincadeiras. Qual a explicação fisiopatológica?
Ao dobrar as pernas, a criança comprime as artérias femorais e eleva a resistência sistêmica, forçando o sangue do ventrículo direito a atravessar a via de saída obstruída em vez de escapar pelo defeito septal — é a mesma lógica da posição genupeitoral usada na crise. Dizer que reduz a pós-carga inverte completamente o mecanismo e faria a criança piorar.
Recém-nascido cianótico apresenta ao eletrocardiograma desvio do eixo para a esquerda e sobrecarga de ventrículo esquerdo, com radiografia mostrando trama pulmonar diminuída. Qual o diagnóstico mais provável?
Sem valva tricúspide, o ventrículo direito é hipoplásico e todo o trabalho recai sobre o esquerdo, produzindo desvio do eixo para a esquerda em um neonato cianótico — combinação que praticamente nomeia a atresia tricúspide. Na tetralogia, ao contrário, o eixo se desvia para a direita com sobrecarga ventricular direita, e essa é a discriminação que a prova cobra. Trama pulmonar diminuída afasta as lesões com hiperfluxo.
Qual é a cardiopatia congênita cianótica mais comum a partir do primeiro ano de vida?
A tetralogia de Fallot é a cianótica mais prevalente após o período neonatal, enquanto a transposição das grandes artérias é a que mais se manifesta nos primeiros dias de vida — distinguir esses dois recortes temporais é exatamente o que a questão testa. Confundi-los é o erro mais comum, porque ambas as afirmações circulam como 'a cianótica mais comum' sem o qualificador de idade.
Sobre a radiografia de tórax na tetralogia de Fallot, qual achado é característico?
A ponta do ventrículo direito hipertrofiado é levantada e o tronco pulmonar hipoplásico escava o arco médio, produzindo o coração em tamanco; a oligoemia pulmonar reflete a obstrução da via de saída direita. O ovo deitado pertence à transposição, o boneco de neve à drenagem anômala supracardíaca e a moringa à anomalia de Ebstein — cada silhueta remete a uma fisiologia distinta.
Recém-nascido com 12 horas de vida apresenta cianose intensa. A radiografia mostra área cardíaca em 'ovo deitado' com pedículo vascular estreito e trama pulmonar aumentada. Qual o diagnóstico mais provável?
A silhueta em ovo com pedículo estreito reflete a posição anteroposterior dos grandes vasos, e a trama pulmonar aumentada indica hiperfluxo — combinação típica da transposição, a cardiopatia cianótica mais comum no primeiro dia de vida. A tetralogia é o distrator recorrente, mas cursa com trama pulmonar diminuída e coração em tamanco. Ebstein dá cardiomegalia extrema, e a drenagem anômala infracardíaca produz congestão venosa com coração pequeno.
Lactente de 8 meses com tetralogia de Fallot ainda não corrigida apresenta, ao chorar, cianose intensa, irritabilidade e desaparecimento do sopro. Qual a primeira medida?
Na crise hipoxêmica, o espasmo infundibular aumenta o desvio da direita para a esquerda; a posição genupeitoral eleva a resistência vascular sistêmica e reverte parte desse desvio, e acalmar a criança interrompe o ciclo de choro e hipóxia. O desaparecimento do sopro é o sinal de que quase não passa sangue pela via de saída direita — não indica melhora. Inotrópicos como dobutamina são o erro mais grave: aumentam a contratilidade infundibular e agravam a obstrução. Vasodilatadores reduzem a resistência sistêmica e pioram o desvio.
Qual medida preventiva é fundamental em criança com cardiopatia congênita cianótica não corrigida antes de procedimentos odontológicos invasivos?
Cardiopatia cianótica não corrigida está entre as condições de alto risco que mantêm indicação de profilaxia antibiótica antes de procedimentos dentários com manipulação gengival ou de mucosa, junto com prótese valvar, endocardite prévia e material protético recente. Higiene bucal rigorosa e acompanhamento odontológico regular reduzem ainda mais o risco e costumam ser esquecidos na orientação. As demais medidas não têm relação com prevenção de endocardite nesse contexto.
Lactente com tetralogia de Fallot inicia crise hipoxêmica no pronto-socorro: cianose intensa, hiperpneia, choro e irritabilidade. Qual a primeira medida a ser tomada?
A crise se resolve aumentando a resistência vascular sistêmica e reduzindo o consumo de oxigênio: acalmar, colocar em posição genupeitoral (que comprime as artérias femorais e eleva a pós-carga sistêmica) e ofertar oxigênio. Se não ceder, seguem morfina, volume e fenilefrina, com betabloqueador para relaxar o infundíbulo. Inotrópicos como dobutamina e digoxina são o erro grave nesse cenário, porque aumentam a contratilidade infundibular e fecham ainda mais a via de saída, agravando o shunt direita-esquerda.
Qual conduta orientada aos pais de lactente com tetralogia de Fallot ainda aguardando correção cirúrgica está correta?
A família precisa reconhecer a crise e reproduzir em casa o mecanismo que a interrompe: acalmar e flexionar as pernas sobre o abdome, equivalente doméstico da posição genupeitoral, buscando atendimento em seguida. Estender as pernas faz o contrário e reduz a resistência sistêmica. Restringir líquido é especialmente perigoso, porque a desidratação aumenta a viscosidade e precipita crise e trombose. Tratar as crises como benignas ignora que as prolongadas evoluem com convulsão, acidente vascular e óbito.
Recém-nascido com cardiopatia congênita cianótica canal-dependente, em piora da cianose no terceiro dia de vida. Qual a conduta imediata enquanto se aguarda transferência para centro de referência?
Nas cardiopatias canal-dependentes, o fechamento fisiológico do canal arterial nos primeiros dias precipita a deterioração; a prostaglandina reabre e mantém essa comunicação até a intervenção definitiva, e exige monitorização por causa de apneia, hipotensão e febre. A indometacina faz exatamente o oposto e é usada para fechar canal em prematuros com repercussão hemodinâmica. Oxigênio em alta concentração pode ser deletério nessas lesões, porque reduz a resistência pulmonar e favorece o fechamento do canal.
Recém-nascido com 2 dias de vida apresenta cianose central intensa, sem desconforto respiratório importante, e a saturação não melhora significativamente após oferta de oxigênio a 100% por 10 minutos. Qual a interpretação?
No teste da hiperóxia, doenças pulmonares elevam substancialmente a oxigenação com oxigênio a 100%, porque o problema está na troca; nas cardiopatias com shunt direita-esquerda fixo, a mistura venosa continua e a saturação sobe pouco. Cianose intensa com desconforto respiratório desproporcionalmente pequeno é a pista clínica que acompanha esse resultado. Interpretar como doença pulmonar e dar surfactante atrasa o ecocardiograma e, em cardiopatias canal-dependentes, atrasa a prostaglandina que mantém o recém-nascido vivo.
Recém-nascido assintomático realiza o teste de oximetria de pulso (teste do coraçãozinho) com 30 horas de vida: saturação de 92% em membro superior direito e 89% em membro inferior. Qual a conduta?
Uma medida abaixo de 90% em mão direita ou pé já caracteriza falha na triagem e requer avaliação imediata da hipoxemia. Não se deve aguardar uma hora para repetir a triagem antes de avaliar esse recém-nascido. A investigação geralmente inclui ecocardiograma e considera também causas pulmonares, infecciosas e outras. A repetição em uma hora pertence ao fluxo de resultados intermediários, sem saturação abaixo de 90%. Não se libera para alta com base em radiografia normal.
Lactente de 6 meses com tetralogia de Fallot em crise hipoxêmica que não cedeu com posição genupeitoral e oxigênio. Qual medicação atua diretamente no relaxamento do infundíbulo pulmonar?
O betabloqueador relaxa o músculo infundibular espasmado e abre a via de saída do ventrículo direito, reduzindo o shunt direita-esquerda; por isso é usado tanto na crise refratária quanto na profilaxia até a correção cirúrgica. Digoxina, dobutamina e milrinona aumentam a contratilidade e agravam a obstrução dinâmica, sendo os distratores que a banca planta para quem raciocina por reflexo de insuficiência cardíaca. Furosemida reduz a pré-carga e piora o enchimento ventricular direito nesse contexto.
Lactente de 8 meses apresenta episódios de cianose intensa, hiperpneia e irritabilidade, sobretudo ao acordar e durante o choro. Ao exame: sopro sistólico ejetivo em borda esternal esquerda alta que desaparece durante as crises, baqueteamento digital incipiente. Radiografia: coração em tamanho normal com ápice elevado e trama pulmonar reduzida. Qual o diagnóstico?
Crises de cianose com hiperpneia ao esforço ou ao acordar, sopro de estenose pulmonar que some justamente durante a crise e radiografia com coração em bota e trama pulmonar reduzida definem tetralogia de Fallot. O sopro desaparece porque ele vem do fluxo pela via de saída direita, e é esse fluxo que se interrompe pelo espasmo infundibular. Comunicação interventricular ampla e canal arterial produzem hiperfluxo pulmonar e insuficiência cardíaca, não cianose com trama pulmonar reduzida.
Criança de 3 anos com tetralogia de Fallot não corrigida apresenta hemoglobina de 19 g/dL e hematócrito de 58%. Qual a interpretação desse achado?
A hipoxemia crônica estimula eritropoetina e eleva a massa eritrocitária, o que melhora o transporte de oxigênio mas aumenta a viscosidade, favorecendo trombose venosa cerebral e abscesso cerebral. Um cuidado prático decorre daí: essas crianças precisam de reserva de ferro adequada, porque a ferropenia produz hemácias pequenas e rígidas que pioram a viscosidade mesmo com hematócrito alto. Tratar como doença mieloproliferativa e citorreduzir remove a compensação de que o paciente depende.
Recém-nascido de 3 dias, previamente bem no alojamento conjunto, é readmitido com choque, pulsos femorais ausentes, acidose metabólica grave e hepatomegalia. Qual a hipótese e a conduta imediata?
Recém-nascido que vai bem por alguns dias e descompensa em choque quando o canal arterial fecha é o roteiro clássico das cardiopatias canal-dependentes de fluxo sistêmico, e a diferença de pulsos entre membros superiores e inferiores é o sinal que decide. A prostaglandina reabre o canal e restaura a perfusão sistêmica, sendo justificada mesmo antes do ecocardiograma. O erro habitual é rotular como sepse e tratar apenas com antibiótico e volume, sem reabrir o canal que sustenta a circulação.
Qual condição materna aumenta o risco de transposição das grandes artérias e de outras cardiopatias congênitas no recém-nascido?
A hiperglicemia periconcepcional é teratogênica e aumenta a incidência de cardiopatias congênitas, incluindo transposição, comunicação interventricular e miocardiopatia hipertrófica transitória, além de defeitos de tubo neural e da síndrome de regressão caudal. O controle glicêmico antes da concepção é a intervenção que reduz esse risco, e não o controle iniciado no segundo trimestre, quando a organogênese cardíaca já se completou. Ácido fólico é fator protetor, não de risco.
Lactente de 4 meses com cardiopatia congênita cianótica apresenta hemoglobina de 19 g/dL e hematócrito de 58%. Qual é a interpretação?
A hipoxemia crônica estimula a eritropoetina, elevando a massa eritrocitária como forma de compensar a baixa saturação; a contrapartida é o aumento da viscosidade, com risco de trombose, especialmente se houver deficiência de ferro associada, que produz hemácias menos deformáveis. Diagnosticar policitemia vera engana quem vê apenas o número elevado, mas ela é neoplasia mieloproliferativa do adulto, sem relação com hipoxemia.
Qual é a alteração fisiopatológica fundamental da transposição das grandes artérias?
Na transposição a aorta sai do ventrículo direito e a artéria pulmonar do esquerdo, criando dois circuitos paralelos: o sangue dessaturado circula e recircula pelo corpo e o oxigenado, pelos pulmões. A sobrevida depende inteiramente de mistura através de forame oval, canal arterial ou comunicação interventricular, e é isso que explica por que o fechamento fisiológico do canal precipita colapso. A alternativa que descreve a aorta saindo do ventrículo esquerdo descreve o coração normal.
Recém-nascido com transposição das grandes artérias confirmada, com saturação de 60% e acidose progressiva. Qual a conduta imediata em serviço sem cirurgia cardíaca pediátrica?
A prostaglandina mantém o canal arterial aberto e é o que garante mistura enquanto se organiza a transferência; a apneia é o efeito adverso a antecipar, e por isso o transporte deve prever suporte de via aérea. Oxigênio isolado tem efeito limitado, porque o problema não é troca alveolar, e ainda favorece o fechamento do canal. Indometacina faria o oposto do necessário. Betabloqueador pertence à crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot, que tem mecanismo inteiramente diferente.
Recém-nascido com cianose e suspeita de cardiopatia congênita. Qual exame é o padrão para confirmação diagnóstica anatômica?
O ecocardiograma define a anatomia, os shunts, a função ventricular e a dependência do canal arterial, e por isso é o exame que confirma o diagnóstico e orienta a conduta. Radiografia, eletrocardiograma e teste da hiperóxia são ferramentas de triagem e de raciocínio inicial, úteis quando o ecocardiograma não está disponível de imediato, mas nenhum define anatomia. O ponto prático é que a suspeita clínica já autoriza iniciar prostaglandina, sem esperar a confirmação, quando há deterioração.
Recém-nascido de 2 dias apresenta cianose central que não melhora com oferta de oxigênio a 100% por 10 minutos. Ausculta sem sopro significativo, radiografia com área cardíaca em ovo deitado e trama pulmonar aumentada. Qual é a hipótese?
Cianose intensa sem melhora com oxigênio — o teste da hiperóxia positivo para cardiopatia — em recém-nascido com coração em ovo e hiperfluxo pulmonar aponta para transposição das grandes artérias, em que as duas circulações funcionam em paralelo e a sobrevida depende de mistura, mantida com prostaglandina e ampliada por atriosseptostomia. A tetralogia de Fallot engana por ser a cardiopatia cianótica mais lembrada, mas cursa com hipofluxo pulmonar e coração em bota.
Recém-nascido a termo, filho de mãe diabética, apresenta cianose central intensa desde as primeiras horas de vida, sem desconforto respiratório significativo e sem sopro cardíaco audível. Radiografia de tórax: coração com aspecto de 'ovo deitado' e pedículo vascular estreito. Qual o diagnóstico mais provável?
Cianose intensa e precoce, desproporcional ao pouco desconforto respiratório e sem sopro, em filho de mãe diabética, com coração ovoide e pedículo estreito, aponta transposição das grandes artérias. A ausência de sopro é o dado que estranha quem espera cardiopatia ruidosa, mas faz sentido: não há obstrução nem shunt turbulento, e o problema é a disposição das artérias. A tetralogia costuma ter sopro de estenose pulmonar e cianose de instalação mais tardia, com coração em bota.
Menino de 2 anos com tetralogia de Fallot apresenta, durante choro intenso, cianose acentuada, hiperpneia, irritabilidade e desaparecimento do sopro. Qual é a conduta imediata?
Na crise hipoxêmica, o espasmo infundibular aumenta o shunt direita-esquerda e o sopro DESAPARECE, justamente porque quase não passa sangue pela via de saída direita; a posição genupeitoral eleva a resistência sistêmica e reduz o shunt, e a sedação quebra o ciclo de agitação e hiperpneia. Vasodilatador sistêmico engana quem pensa em melhorar a perfusão, mas reduzir a resistência sistêmica aumenta o desvio de sangue e agrava a cianose.
Recém-nascido com transposição das grandes artérias em uso de prostaglandina mantém saturação de 55% e acidose, com forame oval restritivo ao ecocardiograma. Qual o procedimento indicado enquanto se aguarda a correção definitiva?
Quando a mistura pelo canal arterial é insuficiente e o forame oval é restritivo, a atriosseptostomia com balão amplia a comunicação interatrial e melhora imediatamente a saturação, funcionando como ponte até a cirurgia definitiva. A bandagem pulmonar é o distrator de quem confunde com cardiopatias de hiperfluxo, nas quais o objetivo é justamente reduzir o fluxo pulmonar; aqui ela não resolveria o problema de mistura e agravaria o quadro.
Qual é a correção cirúrgica definitiva de escolha para a transposição das grandes artérias e qual o momento ideal?
O switch arterial reposiciona os grandes vasos e reimplanta as coronárias, restabelecendo a circulação em série, e deve ser feito nas primeiras semanas enquanto o ventrículo esquerdo ainda mantém massa suficiente para assumir a carga sistêmica. Adiar é o erro conceitual: com a queda da resistência pulmonar, esse ventrículo se destreina e deixa de suportar a pressão sistêmica, exigindo preparo prévio. A cirurgia de Blalock-Taussig aumenta fluxo pulmonar e pertence a cardiopatias com obstrução pulmonar, como a tetralogia.
Qual achado clínico ajuda a diferenciar cianose de origem cardíaca da cianose de origem pulmonar em um recém-nascido?
A dissociação entre cianose intensa e esforço respiratório discreto é a pista mais útil à beira do leito, porque na doença pulmonar o recém-nascido luta para respirar, com gemência e retrações, e melhora claramente com oxigênio. Na cardiopatia com shunt fixo, ele fica azul sem parecer aflito e responde pouco ao oxigênio, comportamento que o teste da hiperóxia formaliza. Também não se pode esquecer da metemoglobinemia, que produz cianose sem resposta ao oxigênio e com sangue de cor achocolatada.
Lactente de 2 meses com transposição corrigida cirurgicamente pela técnica de switch arterial. Qual complicação tardia deve ser monitorizada no seguimento?
O switch arterial exige reimplante das coronárias, e a estenose desses óstios é a complicação tardia mais temida, podendo causar isquemia, arritmia e morte súbita; a estenose supravalvar pulmonar nas linhas de sutura e a dilatação da neoaorta completam o quadro de vigilância. Por isso o seguimento cardiológico é vitalício, mesmo em criança assintomática e com boa capacidade funcional. As demais condições listadas não têm relação com a técnica cirúrgica.
Menina de 2 anos com tetralogia de Fallot ainda não corrigida vem à consulta ambulatorial. A mãe relata aumento da frequência das crises hipoxêmicas no último mês. Saturação basal de 82%, sem intercorrência infecciosa. Hemograma: hemoglobina 11,8 g/dL, hematócrito 36%, VCM 61 fL, RDW 18%. Qual a interpretação e a conduta?
Com saturação de 82% de forma crônica, o esperado é eritrocitose compensatória, com hemoglobina bem acima da faixa habitual da idade. Uma hemoglobina de 11,8 g/dL nesse contexto é anemia relativa, e a microcitose acentuada com RDW alargado confirma a deficiência de ferro — situação que aumenta a frequência das crises hipoxêmicas e o risco de evento cerebrovascular, porque a hemácia microcítica é menos deformável e a capacidade de transporte de oxigênio fica aquém da demanda. A conduta é repor ferro por via oral e reavaliar. Ler o hemograma como normal para a idade é a armadilha central da questão: nesse paciente a referência é a demanda imposta pela hipoxemia, não a tabela populacional, e por isso a criança sintomatiza com valores que seriam tranquilizadores em qualquer outra. Chamar o quadro de eritrocitose adequada e cogitar flebotomia é o oposto do necessário — a flebotomia só cabe na eritrocitose sintomática com hematócrito muito elevado e ainda agravaria a ferropenia. A transfusão não trata a causa e expõe a riscos evitáveis em quem responde a ferro oral. Investigar sangramento oculto antes de qualquer reposição atrasa uma conduta simples numa criança cuja ferropenia se explica pela eritropoese aumentada.
Gestante de 35 anos, com 22 semanas, tem ultrassonografia morfológica evidenciando malformação cardíaca fetal complexa. Ela chega à consulta ansiosa e pergunta sobre o prognóstico. O serviço dispõe de referência em medicina fetal e de equipe multiprofissional. A gestante está clinicamente bem e a gestação evolui sem outras intercorrências. Assinale a conduta correta da equipe assistente neste momento.
Diante de malformação fetal diagnosticada no pré-natal, a conduta reúne comunicação honesta e acolhedora, encaminhamento à medicina fetal e à especialidade pertinente e planejamento do parto em serviço com estrutura neonatal e cirúrgica adequada, o que melhora o prognóstico. Omitir o diagnóstico viola o dever de informação e a autonomia da gestante. Afirmar incompatibilidade com a vida generaliza indevidamente, pois muitas cardiopatias complexas são corrigíveis. Manter o acompanhamento apenas na Atenção Primária priva o binômio do cuidado especializado necessário.
Lactente de 9 meses, com diagnóstico de tetralogia de Fallot aguardando cirurgia, é levado à Unidade de Pronto Atendimento durante episódio de choro intenso ao acordar. Os pais relatam que ele ficou muito roxo e irritado. Ao exame, cianose intensa de lábios e extremidades, irritabilidade, frequência respiratória de 62 irpm, saturação de 68% em ar ambiente e ausculta em que o sopro habitual está mais fraco que o registrado em consultas anteriores. Frequência cardíaca de 178 bpm. A conduta inicial imediata é:
Na crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot, o espasmo infundibular aumenta o shunt direita-esquerda, o que explica a cianose intensa e o sopro mais fraco; o manejo inicial é acalmar a criança, adotar a posição genupeitoral, que eleva a resistência vascular sistêmica e reduz o shunt, e ofertar oxigênio, seguindo com morfina, expansão volêmica e, se necessário, betabloqueador e vasoconstritor. Diurético reduz a pré-carga e agrava a crise. Broncodilatador não trata obstrução infundibular. Vasodilatador sistêmico diminui a resistência periférica e aumenta o shunt direita-esquerda, piorando gravemente a cianose.
Recém-nascido a termo de 12 horas de vida apresenta cianose central persistente, notada pela equipe de enfermagem durante a amamentação. Ao exame, encontra-se ativo, com frequência respiratória de 58 irpm, sem tiragem importante, ausculta pulmonar limpa, sem sopros cardíacos audíveis, saturação de 78% em ar ambiente. Após ofertar oxigênio a 100% por dez minutos, a saturação sobe apenas para 82% e a pressão parcial de oxigênio arterial permanece abaixo de 100 mmHg. Radiografia de tórax sem infiltrados. A interpretação e a conduta corretas são:
A resposta insuficiente ao oxigênio a 100%, com pressão parcial de oxigênio que não ultrapassa o esperado, caracteriza teste da hiperóxia sugestivo de shunt intracardíaco direita-esquerda, ou seja, cardiopatia congênita cianótica, indicando ecocardiograma urgente e prostaglandina quando houver dependência do canal. Cianose pulmonar costuma responder bem ao oxigênio e vir acompanhada de alterações radiológicas e desconforto respiratório. Acrocianose é periférica, limitada a extremidades, com saturação normal. Metemoglobinemia deve ser considerada, mas cursa com sangue de coloração achocolatada e saturação dissociada, e não se trata empiricamente sem confirmação.
Recém-nascido a termo, com 8 horas de vida, apresenta cianose central progressiva no alojamento conjunto. Está ativo, mama com dificuldade e não tem desconforto respiratório importante. Ao exame, frequência respiratória de 56 irpm, ausculta pulmonar limpa, segunda bulha única e hiperfonética, sem sopros audíveis, saturação de 72% em ar ambiente que sobe pouco com oxigênio. A radiografia de tórax mostra mediastino estreito com coração em formato de ovo e trama pulmonar aumentada. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Cianose intensa e precoce, com pouca resposta ao oxigênio, ausculta pulmonar limpa, segunda bulha única e radiografia com coração em ovo e trama pulmonar aumentada compõem o quadro da transposição das grandes artérias, em que a sobrevida depende de mistura entre as circulações, geralmente mantida com prostaglandina e atriosseptostomia. A tetralogia de Fallot cursa com sopro sistólico de estenose pulmonar e trama pulmonar diminuída, com coração em bota. A taquipneia transitória tem desconforto respiratório com boa resposta ao oxigênio e resolução rápida. A aspiração meconial cursa com infiltrados grosseiros e história de líquido meconial.
Um hospital de pequeno porte, sem serviço de cardiologia pediátrica, atende recém-nascido de 5 dias com diagnóstico ecocardiográfico presumido de cardiopatia congênita crítica canal-dependente, já em uso de prostaglandina. O bebê está em ventilação mecânica, com acesso venoso confiável e razoável estabilidade hemodinâmica após início da medicação. A equipe precisa organizar o encaminhamento a centro terciário localizado a 300 quilômetros. Sobre a condução desse caso na rede de atenção, a medida correta é:
O recém-nascido com cardiopatia canal-dependente depende da prostaglandina para manter a perfusão, de modo que a infusão deve ser mantida ininterruptamente durante o transporte, realizado por equipe capacitada e com suporte avançado, acionado pela central de regulação, que organiza vaga e retaguarda. Suspender a prostaglandina fecha o canal e pode ser fatal; o risco de apneia se maneja com via aérea assegurada, como já ocorre aqui. Transporte sem equipe qualificada em paciente ventilado e em droga contínua é inaceitável. Esperar melhora completa no serviço de origem posterga a única terapia definitiva, que é cirúrgica ou intervencionista.
Lactente de 3 meses é avaliado em ambulatório de referência por cianose leve e sopro sistólico em foco pulmonar. Está com ganho ponderal limítrofe e apresenta episódios de irritabilidade com piora da coloração. Ao exame, saturação de 86% em ar ambiente, ausculta com sopro sistólico ejetivo em borda esternal esquerda alta e segunda bulha única. A radiografia de tórax mostra área cardíaca de tamanho normal, com ápice elevado e concavidade no segmento da artéria pulmonar, além de trama vascular pulmonar diminuída. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Cianose com crises de piora, sopro sistólico ejetivo em borda esternal esquerda alta pela obstrução da via de saída direita, segunda bulha única e radiografia com ápice elevado, concavidade do tronco pulmonar e trama vascular diminuída — a clássica imagem em bota — caracterizam a tetralogia de Fallot. A comunicação interventricular ampla cursa com hiperfluxo, cardiomegalia e trama aumentada, sem cianose. A drenagem anômala total supracardíaca produz a imagem em boneco de neve com trama aumentada. O canal arterial de grande calibre cursa com cardiomegalia, hiperfluxo e sopro contínuo, não com cianose e trama reduzida.
Recém-nascido de 4 dias, que teve alta da maternidade em boas condições, é levado à Unidade de Pronto Atendimento com dificuldade para mamar e cianose progressiva. Ao exame: cianótico, com saturação de oxigênio de 78% em membro superior direito e 76% em membro inferior, sem desconforto respiratório importante, ausculta pulmonar limpa, sopro sistólico em borda esternal esquerda e pulsos femorais palpáveis. A saturação não melhora após oferta de oxigênio a 100%. Qual é a conduta imediata mais adequada?
Cianose neonatal com ausculta pulmonar limpa e ausência de resposta ao oxigênio a 100% caracteriza teste da hiperóxia sugestivo de cardiopatia congênita cianótica canal-dependente, e a conduta é iniciar prostaglandina para manter o canal arterial pérvio enquanto se organiza a transferência para serviço especializado. Tratar apenas como sepse retarda a única medida que sustenta a circulação. Insistir em oxigênio isolado não corrige o defeito estrutural e pode acelerar o fechamento do canal. Diurético não trata a cianose de origem estrutural e pode agravar a instabilidade.
Recém-nascido a termo, com 2 dias de vida, apresenta cianose central progressiva, sem desconforto respiratório importante. Ao exame apresenta FR 52 ipm, FC 156 bpm, saturação de 78% em ar ambiente, que sobe apenas para 82% após oferta de oxigênio a 100% por dez minutos, com ausculta pulmonar limpa, bulhas rítmicas e sem sopros exuberantes. A radiografia de tórax mostra campos pulmonares sem consolidações e área cardíaca com aspecto de ovo deitado. A conduta imediata mais adequada é:
Cianose intensa que não corrige com oxigênio a 100%, ausculta pulmonar limpa e coração com aspecto de ovo deitado sugerem transposição das grandes artérias, cardiopatia canal-dependente em que a prostaglandina mantém o canal arterial pérvio e permite a mistura sanguínea até a correção cirúrgica. Oferecer oxigênio isoladamente não corrige a circulação em paralelo e pode acelerar o fechamento do canal. Antibiótico não trata a cardiopatia estrutural e observar por 48 horas permite deterioração fatal. Furosemida não corrige a fisiologia da transposição e pode agravar a instabilidade.
Gestante de 29 anos, com 24 semanas, realiza ultrassonografia morfológica que identifica cardiopatia congênita fetal complexa, com previsão de necessidade de intervenção nos primeiros dias de vida. A gestação evolui bem, com biometria adequada, e a gestante não apresenta comorbidades. Ela reside em município sem serviço de cardiologia pediátrica e pergunta onde deverá ter o bebê. Está com pressão arterial de 110x68 mmHg, sem sinais de alarme, e o restante da avaliação fetal é normal. A equipe planeja o cuidado até o parto e o momento do nascimento. A conduta correta é
O nascimento de feto com cardiopatia congênita que exigirá intervenção precoce deve ocorrer em maternidade vinculada a serviço com cardiologia e cirurgia cardíaca pediátricas, pois o transporte neonatal após o nascimento aumenta a morbimortalidade, mantendo-se o pré-natal compartilhado até o termo. Parto no município de origem com transferência posterior expõe o recém-nascido a risco evitável. Interrupção não é conduta indicada. Antecipar o parto acrescenta prematuridade sem benefício.
Lactente de 8 meses, com tetralogia de Fallot conhecida, apresenta episódio de choro intenso seguido de cianose acentuada e irritabilidade progressiva, evoluindo com sonolência. FR 60 ipm, FC 170 bpm, SatO2 62%. Durante o episódio, o sopro sistólico previamente audível torna-se mais brando. A mãe relata que a criança costuma agachar-se espontaneamente quando cansa ao brincar. Qual a conduta inicial mais adequada?
Na crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot, a conduta é acalmar a criança, colocá-la em posição genupeitoral para aumentar a resistência vascular sistêmica, ofertar oxigênio e administrar morfina para reduzir o espasmo infundibular e a hiperpneia, expandindo o volume quando necessário. O nitroprussiato reduz a resistência sistêmica e aumenta o shunt direita-esquerda, agravando a cianose. A furosemida reduz a pré-carga necessária para manter o fluxo pulmonar. A digoxina pode aumentar a contratilidade infundibular e piorar a obstrução dinâmica. O broncodilatador não atua sobre o mecanismo da crise, que é obstrução da via de saída do ventrículo direito, e não broncoespasmo.
Recém-nascido a termo, 2 dias de vida, apresenta cianose central progressiva sem desconforto respiratório importante. FR 52 ipm, FC 148 bpm, SatO2 68% em ar ambiente, sem melhora com oxigênio a 100%. Ausculta com B2 única e hiperfonética, sem sopros significativos. Radiografia de tórax mostra coração em formato de ovo com pedículo estreito e trama vascular pulmonar aumentada. Qual a conduta imediata mais adequada?
Cianose intensa sem resposta ao oxigênio, B2 única e coração em ovo com hiperfluxo pulmonar sugerem transposição das grandes artérias, cardiopatia canal-dependente cuja conduta imediata é a prostaglandina E1 para manter o canal arterial pérvio e permitir mistura sanguínea até a atriosseptostomia ou correção cirúrgica. O oxigênio hiperbárico não tem indicação e não corrige o defeito de mistura. Tratar apenas como sepse e observar retarda uma emergência estrutural. A exsanguineotransfusão é conduta de hiperbilirrubinemia grave. A furosemida não corrige a cianose e pode agravar a instabilidade hemodinâmica do recém-nascido.
Recém-nascido com 12 horas de vida apresenta cianose central. FR 58 ipm, FC 150 bpm, SatO2 pré-ductal de 78% e pós-ductal de 76%. Foi submetido a teste de hiperóxia com oxigênio a 100% por 10 minutos, com PaO2 que subiu de 34 para 42 mmHg. Radiografia de tórax sem infiltrados e ausculta pulmonar simétrica, sem sinais de desconforto respiratório importante. Qual a interpretação do teste?
A ausência de elevação significativa da PaO2 após oxigênio a 100%, permanecendo abaixo de 100 mmHg, sugere shunt intracardíaco direita-esquerda, típico de cardiopatia congênita cianótica, e indica ecocardiograma imediato. A pneumonia neonatal costuma responder com aumento expressivo da PaO2 e cursa com infiltrados radiográficos, ausentes. A hipertensão pulmonar persistente pode não responder ao oxigênio, mas caracteriza-se por diferença expressiva entre saturações pré e pós-ductal, aqui mínima. A metemoglobinemia cursa com sangue achocolatado e discrepância entre saturação medida e PaO2, com cianose que não melhora e sem alteração estrutural. Descartar causa cardíaca contraria justamente o resultado do teste.
Homem, 26 anos, submetido a correção total de tetralogia de Fallot na infância, refere fadiga e palpitações há 1 ano. PA 116/72 mmHg, FC 76 bpm; sopro diastólico em foco pulmonar. ECG mostra bloqueio de ramo direito com QRS de 182 ms. Ecocardiograma revela insuficiência pulmonar importante com dilatação progressiva do ventrículo direito, confirmada por ressonância com volume diastólico final indexado muito aumentado. Qual a conduta mais adequada?
A insuficiência pulmonar importante após correção de tetralogia de Fallot leva à dilatação progressiva do ventrículo direito e a arritmias, e a troca valvar pulmonar está indicada quando há sintomas e dilatação significativa, sendo o QRS muito alargado marcador adicional de risco. Manter apenas seguimento anual permite a progressão para disfunção irreversível. O diurético em dose alta alivia congestão sem corrigir a regurgitação. O marca-passo não trata a lesão valvar nem o remodelamento do ventrículo direito. O transplante cardíaco é desproporcional diante de lesão corrigível por cirurgia valvar.
Lactente de 8 meses, com tetralogia de Fallot ainda não corrigida, apresenta crise de choro intenso ao acordar, evoluindo com cianose acentuada e irritabilidade. Exame: cianose central intensa, FR 60 ipm, SatO2 68%, FC 180 bpm, sopro sistólico que se torna menos audível durante a crise, criança agitada e com hiperpneia progressiva, sem febre e sem sinais de infecção. Qual a conduta inicial?
Na crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot há aumento da obstrução da via de saída do ventrículo direito com desvio de sangue da direita para a esquerda, e a conduta inicial combina posição genupeitoral, que aumenta a resistência vascular sistêmica, oxigênio e sedação com morfina, podendo-se usar volume e fenilefrina se necessário. O broncodilatador não atua sobre o mecanismo da crise. O diurético reduz a pré-carga e agrava o desvio direito-esquerdo. A adrenalina aumenta a contratilidade infundibular e piora a obstrução dinâmica. A ventilação com pressão positiva eleva a pressão intratorácica e reduz o retorno venoso, agravando o quadro.
Lactente, 8 meses, com tetralogia de Fallot aguardando correção, apresenta crise de choro intenso seguida de cianose acentuada e irritabilidade há 15 minutos. FC 176 bpm, FR 64 ipm, SatO2 68% em ar ambiente. O sopro sistólico habitual, antes intenso, tornou-se quase inaudível durante o episódio. Está hipotônico e com má perfusão periférica. Qual a sequência inicial de medidas?
Na crise hipoxêmica da tetralogia de Fallot, o espasmo infundibular reduz o fluxo pulmonar e atenua o sopro, e as medidas iniciais visam aumentar a resistência vascular sistêmica e o retorno venoso: posição genupeitoral, oxigênio, morfina para acalmar e expansão volêmica, com betabloqueador e vasoconstritor se necessário. O nitroprussiato reduz a resistência sistêmica e aumenta o desvio direita-esquerda, agravando a cianose. A furosemida reduz a pré-carga e piora o enchimento ventricular. A adenosina trata taquicardia supraventricular, que não é o mecanismo. O isoproterenol aumenta a contratilidade infundibular e intensifica a obstrução.
Recém-nascido de 2 dias de vida apresenta cianose central persistente, sem desconforto respiratório importante. FC 152 bpm, FR 56 ipm, T 36,8 °C. Ausculta pulmonar limpa e radiografia de tórax sem infiltrados. Gasometria em ar ambiente com pO2 de 34 mmHg. Após 10 minutos de oxigênio a 100% em capacete, nova gasometria arterial mostra pO2 de 42 mmHg, sem melhora clínica da cianose. Qual a interpretação?
A ausência de elevação significativa da pressão parcial de oxigênio após oxigênio a 100%, com valor que permanece abaixo de 100 mmHg, caracteriza teste da hiperóxia negativo e aponta desvio intracardíaco direita-esquerda, típico das cardiopatias congênitas cianóticas. Um teste positivo mostraria elevação expressiva, compatível com causa pulmonar. Não há inconclusividade, pois a resposta foi claramente insuficiente. A metemoglobinemia cursaria com pressão parcial de oxigênio elevada e sangue achocolatado. A hipoventilação central produziria hipercapnia e esforço respiratório reduzido, com melhora ao oxigênio.
Recém-nascido de 3 dias de vida com cianose leve e sopro cardíaco. FC 148 bpm, FR 58 ipm, SatO2 88% em ar ambiente. Sopro holossistólico em borda esternal esquerda baixa, que aumenta à inspiração. Radiografia de tórax com cardiomegalia acentuada e trama vascular pulmonar reduzida. Eletrocardiograma com onda P apiculada e alargada, bloqueio de ramo direito e intervalo PR curto com onda delta. Qual o diagnóstico?
A anomalia de Ebstein é indicada pela cardiomegalia acentuada com trama pulmonar reduzida, insuficiência tricúspide com sopro que aumenta à inspiração, onda P de grande amplitude por sobrecarga atrial direita e frequente associação com pré-excitação, evidenciada pelo PR curto com onda delta. A atresia pulmonar com septo íntegro cursa com cianose intensa e dependência de canal, sem esse padrão elétrico. A transposição corrigida congenitamente costuma cursar com bloqueio atrioventricular, não com pré-excitação. A comunicação interventricular ampla aumenta a trama pulmonar. A miocardiopatia dilatada não gera sopro tricúspide inspiratório com onda delta.
Recém-nascido de 5 dias de vida com cianose e desconforto respiratório progressivo há 2 dias. FC 172 bpm, FR 76 ipm, SatO2 78% em ar ambiente, sem melhora com oxigênio. Ausculta com segunda bulha hiperfonética, sem sopros significativos. Radiografia de tórax com área cardíaca normal e padrão de congestão venosa pulmonar difusa, semelhante a edema pulmonar. Ecocardiograma sugere retorno venoso pulmonar anômalo infracardíaco. Qual a conduta?
A drenagem anômala total de veias pulmonares com obstrução, típica da forma infracardíaca, é emergência cirúrgica, pois a congestão venosa pulmonar não responde a medidas clínicas e a mortalidade sem correção é altíssima. A prostaglandina não alivia a obstrução venosa e pode agravar a congestão pulmonar. O tratamento clínico prolongado com diurético não corrige a obstrução anatômica. A atriosseptostomia melhora a mistura na transposição das grandes artérias, sem resolver o retorno venoso obstruído. O óxido nítrico isolado pode piorar o edema ao aumentar o fluxo pulmonar contra uma via de drenagem obstruída.
Menino, 7 anos, com atresia tricúspide corrigida por cirurgia de Fontan aos 4 anos, comparece a consulta de seguimento. Refere cansaço aos esforços moderados. FC 84 bpm, FR 20 ipm, SatO2 93% em ar ambiente. Turgência jugular presente, fígado a 3 cm do rebordo costal e edema maleolar discreto. Ecocardiograma com função ventricular preservada e conduto sem obstrução significativa. Qual mecanismo explica os achados congestivos?
Na circulação de Fontan o retorno venoso sistêmico chega aos pulmões de forma passiva, sem bomba subpulmonar, o que exige pressão venosa sistêmica cronicamente elevada e explica turgência jugular, hepatomegalia e edema mesmo com boa função ventricular. A disfunção sistólica grave é afastada pela função ventricular preservada no ecocardiograma. A insuficiência da valva atrioventricular importante não foi descrita. A estenose residual da via de saída aórtica também não consta do exame. A doença vascular pulmonar avançada é uma complicação possível, mas o achado descrito é a fisiologia esperada dessa circulação.
Recém-nascido de 3 dias de vida, com cardiopatia dependente do canal arterial, inicia infusão de prostaglandina E1 em unidade neonatal. Após 40 minutos, apresenta pausas respiratórias com dessaturação. FC 148 bpm, FR irregular com apneias de 20 segundos, T 37,9 °C, SatO2 oscilando entre 78% e 88%. Rubor cutâneo evidente. Glicemia 68 mg/dL, sem sinais de infecção e com hemograma normal. Qual a conduta?
A apneia, o rubor cutâneo e a febre são efeitos adversos conhecidos e esperados da prostaglandina E1, e a conduta é manter a infusão, pois o canal arterial é vital nessa cardiopatia, garantindo suporte ventilatório e monitorização, com intubação eletiva quando necessário. Suspender a prostaglandina fecha o canal e leva ao colapso circulatório. A antibioticoterapia pode ser considerada em dúvida diagnóstica, mas interromper a infusão é o erro central. A naloxona reverte opioides, sem relação com o mecanismo. Reduzir a temperatura ambiente não trata a apneia induzida pelo fármaco.
Lactente, 6 meses, com cianose progressiva e episódios de agachamento após esforço. FC 132 bpm, FR 40 ipm, SatO2 84% em ar ambiente. Sopro sistólico ejetivo em foco pulmonar e segunda bulha única. Radiografia com coração em forma de tamanco e trama vascular pulmonar reduzida. Ecocardiograma confirma comunicação interventricular ampla, aorta cavalgando o septo e estenose infundibular pulmonar. Qual mecanismo explica a melhora da cianose ao agachar?
O agachamento aumenta a resistência vascular sistêmica ao comprimir as artérias dos membros inferiores, o que eleva a pressão no ventrículo esquerdo e reduz o desvio direita-esquerda pela comunicação interventricular, direcionando mais sangue ao território pulmonar e melhorando a saturação. A resistência vascular pulmonar não é o alvo primário dessa manobra. O retorno venoso sistêmico até aumenta com o agachamento, mas o mecanismo determinante é o aumento da pós-carga sistêmica. A frequência cardíaca não é o fator central. Reduzir a pré-carga do ventrículo direito é justamente o que agrava a crise hipoxêmica.
Lactente, 6 meses, com atresia tricúspide, submetido a anastomose cavopulmonar superior há 3 dias. FC 128 bpm, FR 40 ipm, SatO2 82% em ar ambiente, PA 84x48 mmHg. Apresenta edema facial e ingurgitamento de veias cervicais, com boa perfusão de extremidades. Ecocardiograma com boa função ventricular e anastomose pérvia, sem estenose. Pressão venosa em território de veia cava superior elevada. Qual a explicação para a saturação e os achados?
Após a anastomose cavopulmonar superior, apenas o retorno venoso da metade superior do corpo vai diretamente aos pulmões, resultando em saturação em torno de 75 a 85% e em pressão venosa elevada nesse território, com edema facial e ingurgitamento cervical transitórios, achados esperados dessa fisiologia. A disfunção ventricular grave foi afastada pelo ecocardiograma. A trombose da anastomose cursaria com queda abrupta da saturação e anastomose não pérvia. O tamponamento produziria colapso de câmaras e hipotensão. A infecção de ferida não explica o padrão venoso descrito.
Recém-nascido de 1 dia de vida apresenta cianose intensa e progressiva, sem desconforto respiratório importante. FC 152 bpm, FR 54 ipm, SatO2 68% em ar ambiente, sem melhora com oxigênio a 100%. Ausculta com segunda bulha única e sopro contínuo discreto em região infraclavicular esquerda. Radiografia com trama vascular pulmonar reduzida. Ecocardiograma com valva pulmonar atrésica, septo interventricular íntegro e ventrículo direito hipoplásico. Qual a conduta imediata?
Na atresia pulmonar com septo interventricular íntegro, todo o fluxo pulmonar depende do canal arterial, e a conduta imediata é a infusão de prostaglandina E1 para mantê-lo pérvio até a abordagem cirúrgica ou percutânea. A indometacina fecha o canal e seria fatal nesse contexto. A atriosseptostomia melhora a mistura, podendo ser adjuvante, mas não substitui a manutenção do canal nem é tratamento definitivo. O óxido nítrico não corrige a obstrução anatômica ao fluxo pulmonar. O diurético não tem papel em coração com hipofluxo pulmonar e trama vascular reduzida.
Recém-nascido de 12 dias de vida apresenta cansaço às mamadas, sudorese e taquipneia progressiva. FC 172 bpm, FR 70 ipm, SatO2 90% em ar ambiente, PA 62x28 mmHg com pressão de pulso ampla. Sopro sistólico rude com clique de ejeção e segunda bulha única. Fígado a 3 cm do rebordo costal. Radiografia com cardiomegalia e trama vascular pulmonar aumentada. Ecocardiograma com vaso arterial único cavalgando comunicação interventricular. Qual o diagnóstico?
O tronco arterioso comum é o diagnóstico, com vaso arterial único cavalgando uma comunicação interventricular, segunda bulha única, pressão de pulso ampla por escape diastólico para o leito pulmonar e insuficiência cardíaca precoce com hiperfluxo pulmonar. A tetralogia de Fallot cursa com hipofluxo pulmonar e cianose, sem cardiomegalia com hiperfluxo. A transposição com septo íntegro cursa com cianose intensa e teste da hiperóxia negativo. A atresia tricúspide apresenta trama vascular reduzida. A coarctação cursaria com pulsos femorais reduzidos e gradiente entre membros.
Adolescente, 14 anos, assintomático até então, é avaliado por achado de bradicardia em consulta escolar. PA 108x66 mmHg, FC 44 bpm. Ausculta com segunda bulha hiperfonética e sopro sistólico discreto. Eletrocardiograma com bloqueio atrioventricular total e ondas Q ausentes em derivações precordiais esquerdas. Ecocardiograma com discordância atrioventricular e ventriculoarterial simultâneas, sem outros defeitos associados. Qual o diagnóstico?
A transposição corrigida congenitamente é o diagnóstico, definida pela dupla discordância, atrioventricular e ventriculoarterial, que mantém a circulação fisiologicamente corrigida, e associa-se caracteristicamente a distúrbios progressivos de condução, incluindo bloqueio atrioventricular total. A transposição clássica cursa com cianose grave desde o nascimento. A anomalia de Ebstein apresenta insuficiência tricúspide e frequentemente pré-excitação, e não dupla discordância. O bloqueio congênito isolado por anticorpo materno não teria discordância anatômica. A cardiomiopatia hipertrófica não altera as conexões cardíacas.
Lactente, 2 meses, com ventrículo único e fluxo pulmonar dependente de desvio esquerda-direita, internado para preparo cirúrgico. FC 158 bpm, FR 58 ipm, SatO2 85% em ar ambiente, PA 68x36 mmHg. Ao receber oxigênio suplementar em alta concentração, a saturação sobe para 95%, porém a criança evolui com piora da perfusão periférica, acidose metabólica e queda do débito urinário nas horas seguintes. Qual a explicação para a piora?
Na fisiologia de ventrículo único, os circuitos pulmonar e sistêmico competem pelo mesmo débito, e o oxigênio em alta concentração reduz a resistência vascular pulmonar, aumentando o fluxo aos pulmões às custas da perfusão sistêmica, o que explica a queda de perfusão, a acidose e a oligúria apesar da saturação maior. O oxigênio é vasodilatador pulmonar, e não vasoconstritor. Uma infecção concomitante não explicaria a relação temporal direta com o oxigênio. A saturação mais alta, nesse contexto, sinaliza desequilíbrio e não melhora. E o fechamento do canal não ocorre de forma imediata nesse cenário.
Adolescente, 17 anos, com tetralogia de Fallot corrigida na infância, mantém seguimento cardiológico pediátrico regular. Assintomático, com boa capacidade funcional. FC 76 bpm, PA 112x68 mmHg. Ausculta com sopro protodiastólico discreto em foco pulmonar. Ecocardiograma com insuficiência pulmonar moderada e ventrículo direito discretamente dilatado, com função preservada. A família pergunta sobre o seguimento após a maioridade. Sobre a transição, assinale a alternativa INCORRETA.
A afirmação incorreta é a que encerra o seguimento após a maioridade: portadores de cardiopatia congênita corrigida necessitam de acompanhamento vitalício, pois complicações tardias como insuficiência pulmonar, disfunção ventricular direita e arritmias são frequentes. É correto que a insuficiência pulmonar residual exige vigilância do ventrículo direito. A transição planejada para o serviço de adultos reduz a perda de seguimento, problema bem documentado. A orientação sobre sinais de alerta e atividade física é parte do cuidado. E a ressonância cardíaca é o método de referência para quantificar volumes do ventrículo direito.
Recém-nascido a termo, com 12 horas de vida, apresenta cianose e será transferido para serviço terciário com suspeita de cardiopatia congênita ducto-dependente. FC 158 bpm, FR 62 ipm, SatO2 76% em oxigênio suplementar, T 36,4 °C; acesso venoso periférico obtido e prostaglandina E1 iniciada. A equipe organiza o transporte em ambulância com incubadora e monitorização completa. Assinale a alternativa que NÃO corresponde a um cuidado adequado no transporte.
Elevar sistematicamente o oxigênio para 100% em cardiopatia ducto-dependente é prejudicial, pois o oxigênio favorece o fechamento do canal arterial e pode reduzir o fluxo sistêmico em lesões dependentes do ducto, mantendo-se saturações-alvo mais baixas. A infusão contínua de prostaglandina com bomba é essencial para manter o ducto pérvio. O controle térmico com incubadora previne hipotermia e acidose. Ter material de intubação disponível é obrigatório, pois a prostaglandina causa apneia. A comunicação prévia com o serviço de destino garante a continuidade do cuidado.
Recém-nascido a termo apresenta cianose intensa desde as primeiras horas, sem desconforto respiratório importante. FC 158 bpm, FR 52 ipm, SatO2 68% que não melhora com oxigênio a 100%; ausculta cardíaca com segunda bulha única e sem sopros significativos. A radiografia mostra coração em ovo deitado com pedículo estreito; a gasometria revela hipoxemia grave sem hipercapnia. Qual a conduta imediata?
Cianose intensa sem resposta ao oxigênio, segunda bulha única e coração em ovo com pedículo estreito indicam transposição das grandes artérias, cuja sobrevida depende de mistura entre as circulações, obtida com prostaglandina E1 para manter o canal arterial e com atriosseptostomia por balão de Rashkind. A ventilação com oxigênio a 100% não corrige a hipoxemia por circulação em paralelo e ainda favorece o fechamento do ducto. A furosemida não trata o defeito anatômico. A correção cirúrgica exige estabilização prévia. O antibiótico não corrige o problema estrutural e apenas retarda a conduta específica.
Recém-nascido a termo, com 10 horas de vida, apresenta cianose central persistente sem desconforto respiratório importante. FC 148 bpm, FR 56 ipm, T 36,8 °C. Ausculta pulmonar limpa e radiografia de tórax sem infiltrados. Em ar ambiente, a pressão parcial de oxigênio arterial é de 38 mmHg. Após 10 minutos com oxigênio a 100% por capacete, nova gasometria arterial mostra pressão parcial de oxigênio de 52 mmHg. Qual a interpretação do teste?
O resultado sugere cardiopatia congênita cianótica, pois a pressão parcial de oxigênio permaneceu abaixo de 100 mmHg mesmo com oxigênio a 100%, indicando shunt intracardíaco direita-esquerda que não se corrige com aumento da fração inspirada, devendo-se prosseguir com ecocardiograma. A doença pulmonar parenquimatosa costuma elevar a pressão parcial de oxigênio acima de 150 mmHg no teste, além de cursar com alterações à ausculta e à radiografia. Cianose periférica isolada não reduz a pressão parcial de oxigênio arterial. O teste não é inconclusivo, pois a resposta foi claramente insuficiente. A metemoglobinemia cursa com saturação baixa e pressão parcial de oxigênio normal, com sangue de cor achocolatada.
Recém-nascido a termo, com 4 dias de vida, teve diagnóstico ecocardiográfico de atresia pulmonar com septo interventricular íntegro e iniciou infusão contínua de prostaglandina E1. Estava com FC 156 bpm, FR 52 ipm, SatO2 78% em ar ambiente antes da droga. Após 40 minutos de infusão, a saturação subiu para 88%, mas a equipe observa episódios de pausa respiratória com necessidade de estímulo tátil. Qual a explicação mais provável para o novo achado?
A apneia é efeito adverso clássico e dose-dependente da prostaglandina E1, ocorrendo geralmente na primeira hora de infusão, o que torna obrigatórias a monitorização contínua e a disponibilidade imediata de suporte ventilatório; febre, rubor e hipotensão completam o perfil de eventos. A sepse tardia cursaria com instabilidade térmica, alteração de perfusão e leucograma alterado, sem essa relação temporal precisa. A hipoglicemia exigiria glicemia documentada e responde à oferta de glicose. A hemorragia intracraniana é rara no recém-nascido a termo sem asfixia e cursaria com convulsões ou abaulamento de fontanela. Não há intoxicação por oxigênio, já que a saturação-alvo é justamente limitada nesses pacientes.
Lactente apresenta cianose e episódios de piora ao chorar. Ecocardiograma identifica comunicação interventricular, obstrução da via de saída direita, aorta cavalgante e hipertrofia ventricular direita. Qual intervenção dirigida à causa é a mais adequada entre as opções?
Crises exigem estabilização imediata; a correção anatômica é conduzida por cardiologia e cirurgia pediátrica. Referência: https://www.nhlbi.nih.gov/health/congenital-heart-defects/types
Lactente apresenta cianose e episódios de piora ao chorar. Ecocardiograma identifica comunicação interventricular, obstrução da via de saída direita, aorta cavalgante e hipertrofia ventricular direita. Qual mecanismo explica melhor o quadro?
A intensidade da obstrução influencia cianose e crises hipercianóticas. Referência: https://www.nhlbi.nih.gov/health/congenital-heart-defects/types
Lactente apresenta cianose e episódios de piora ao chorar. Ecocardiograma identifica comunicação interventricular, obstrução da via de saída direita, aorta cavalgante e hipertrofia ventricular direita. Qual é o diagnóstico mais provável?
A combinação anatômica descrita caracteriza Fallot. Referência: https://www.nhlbi.nih.gov/health/congenital-heart-defects/types
Lactente apresenta cianose e episódios de piora ao chorar. Ecocardiograma identifica comunicação interventricular, obstrução da via de saída direita, aorta cavalgante e hipertrofia ventricular direita. Qual achado complementar favorece especificamente essa hipótese?
O conjunto anatômico diferencia Fallot de defeitos simples com hiperfluxo. Referência: https://www.nhlbi.nih.gov/health/congenital-heart-defects/types
Nas cardiopatias congênitas com fluxo pulmonar insuficiente, pode-se indicar uma derivação sistêmico-pulmonar antes do reparo definitivo. Qual é o objetivo fisiológico dessa intervenção?
A derivação conduz sangue arterial sistêmico às artérias pulmonares para ampliar o fluxo pulmonar. Trata-se de uma estratégia paliativa, cujo uso depende da anatomia e do planejamento cirúrgico. Referência: NHLBI/NIH. Congenital Heart Defects: Treatment. https://www.nhlbi.nih.gov/health/congenital-heart-defects/treatment
Na drenagem venosa pulmonar anômala total, sem outras comunicações capazes de sustentar o débito sistêmico, qual é a função hemodinâmica da comunicação interatrial antes da correção?
Todo o retorno venoso pulmonar desemboca anormalmente no lado direito. A passagem interatrial fornece sangue ao lado esquerdo e possibilita o débito sistêmico. Referência: CDC. Total Anomalous Pulmonary Venous Return (2026). https://www.cdc.gov/heart-defects/about/tapvr.html
Na classificação anatômica das anomalias do retorno venoso pulmonar, qual característica distingue a forma parcial da forma total, independentemente do local de conexão anômala?
Na forma total, nenhuma veia pulmonar se conecta normalmente ao átrio esquerdo. Na parcial, parte do retorno preserva essa conexão, enquanto outra parte apresenta drenagem anômala. Referência: CDC. Total Anomalous Pulmonary Venous Return (2026). https://www.cdc.gov/heart-defects/about/tapvr.html
As operações de Mustard e Senning redirecionam o retorno venoso no nível atrial em pacientes com dextrotransposição. Qual consequência anatômica explica parte das complicações tardias desses pacientes?
Os túneis atriais redirecionam os fluxos sem trocar as conexões dos grandes vasos. O ventrículo direito continua ligado à aorta e submetido ao trabalho sistêmico. Referência: CDC. Dextro-Transposition of the Great Arteries (2026). https://www.cdc.gov/heart-defects/about/d-tga.html
A correção anatômica da dextrotransposição das grandes artérias pela operação de Jatene envolve mais que a troca das conexões dos grandes vasos. Qual etapa é essencial nessa operação?
Na operação de troca arterial, a aorta passa a se conectar ao ventrículo esquerdo. A transferência das coronárias preserva a perfusão miocárdica a partir da nova raiz aórtica. Referência: CDC. Dextro-Transposition of the Great Arteries (2026). https://www.cdc.gov/heart-defects/about/d-tga.html
Na dextrotransposição das grandes artérias com concordância atrioventricular, por que a existência de comunicações entre as circulações pode ser necessária à oxigenação sistêmica antes da correção?
A aorta nasce do ventrículo direito e a artéria pulmonar do esquerdo. Sem mistura efetiva, o sangue venoso retorna ao corpo e o oxigenado retorna aos pulmões, em circuitos paralelos. Referência: CDC. Dextro-Transposition of the Great Arteries (2026). https://www.cdc.gov/heart-defects/about/d-tga.html
No acompanhamento de crianças com cardiopatia congênita complexa, por que a avaliação do desenvolvimento e da aprendizagem deve integrar o cuidado mesmo após boa recuperação hemodinâmica?
O seguimento não se limita à função cardíaca. Crianças com cardiopatias congênitas têm maior risco de dificuldades do desenvolvimento e aprendizagem, que devem ser identificadas e abordadas. Referência: NHLBI/NIH. Congenital Heart Defects: Living With. https://www.nhlbi.nih.gov/health/congenital-heart-defects/living-with
Qual variável expressa a proporção de sítios de hemoglobina ocupados por oxigênio?

Saturação indica ocupação relativa da hemoglobina pelo oxigênio.
Por que ausência de cianose não deve encerrar a avaliação de dispneia em A?

Avaliação exige saturação, hemoglobina e perfusão; inspeção isolada tem limitações.
Por que A pode ter menos cianose visível apesar da mesma saturação baixa?

A visibilidade da cianose depende de hemoglobina desoxigenada e outros fatores; anemia pode mascará-la.
Qual criança tem menor concentração total de hemoglobina?

A apresenta 8 g/dL, contra 20 g/dL em B.
Usando apenas a parcela 1,34 × Hb × saturação em fração, como o oxigênio ligado à Hb se compara?

Conteúdo ligado à hemoglobina depende de concentração e saturação; A tem cerca de 8,6 contra 21,4 mL/dL em B.
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em 7 dias
Escreva de memória a tabela das cinco famílias fisiológicas com as quatro colunas — grupo, saturação típica, radiografia e conduta inicial — e depois cubra a coluna do nome e tente deduzir o grupo só pelas outras três. Em seguida refaça a conta da cianose para hemoglobina de 10, 15 e 20 g/dL e diga em que saturação cada um desses bebês fica visivelmente azul. Por fim, escreva as três faixas do teste de hiperóxia do guia federal e diga em voz alta o que a palavra positivo significa ali.
em 30 dias
Reconstrua a tabela das três doses de prostaglandina, com dose inicial, teto e limiar de efeito adverso de cada documento, e converta as quatro doses para microgramas por hora num bebê de 3 kg. Depois recite a sequência inteira da crise hipoxêmica, do posicionamento à cetamina, com as doses, e a lista das três classes proibidas com o motivo fisiológico de cada uma. Termine dizendo, sem consultar, os dois alvos de saturação do fluxograma da Sociedade Brasileira de Pediatria e por que o grupo em que o oxigênio é evitado tem o teto mais alto.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Você é o pediatra de plantão numa maternidade do interior, sem cardiologia pediátrica e sem ecocardiograma à noite. A enfermagem chama porque um recém-nascido de 28 horas, que estava bem no alojamento conjunto, ficou azul. Conduza: colha o que muda a decisão com a mãe, examine o bebê, decida o que pedir e o que não vale a pena pedir agora, defina a conduta que não pode esperar exame, ajuste o oxigênio como se ajusta uma droga e explique à mãe, sem jargão, o que está acontecendo com o coração do filho dela, o que você vai fazer nas próximas horas e por que ele precisa sair desta maternidade. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
