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Coarctação da aorta: três documentos brasileiros mandam procurar o pulso e nenhum escreve qual é

Coarctação da aorta e as obstruções do coração esquerdo na criança

O capítulo das cardiopatias acianóticas tem os três shunts no próprio título e não tem a obstrução — mas responde coarctação nove vezes. Aqui estão os dois números que definem a doença, a razão de a mesma diretriz dizer que a perna é mais alta num capítulo e mais baixa em outro, e o motivo de o teste do coraçãozinho deixar justamente esta lesão na faixa duvidosa.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Recém-nascido a termo apresenta-se com 4 dias de vida em choque: má perfusão periférica, pulsos femorais impalpáveis, pulsos braquiais presentes, PA em membro superior direito 78/45 mmHg e em membro inferior 42/25 mmHg, gradiente pré/pós-ductal de saturação, acidose metabólica e oligúria. A ausculta mostra sopro sistólico interescapular. Qual medida é PRIORITÁRIA para estabilização antes da correção definitiva?

02

Como esse tema cai

O recorte é a obstrução ao fluxo sistêmico na criança, por sua forma mais cobrada, a coarctação da aorta, nas duas idades em que ela se apresenta: o recém-nascido que entra em choque quando o canal arterial fecha e a criança ou o adolescente com hipertensão nos braços e pulsos fracos nas pernas.

Fica de fora a farmacologia do canal arterial, que já mora no capítulo das cardiopatias cianóticas, e fica de fora o protocolo do teste do coraçãozinho, que pertence ao capítulo de triagens neonatais. Deste último o capítulo usa apenas uma consequência aritmética, e ela está medida adiante.

O que entra é o que decide a questão: qual pulso se procura, quais são os dois números que definem a doença, por que a mesma diretriz brasileira descreve a perna como mais alta num capítulo e mais baixa em outro, e o que a correção cirúrgica cobra depois.

03

O que muda decisão

Coarctação: a obstrução que completa o mapa das cardiopatias

Como usar este capítulo: compare pulsos e pressão entre membros, procure gradiente e interprete a apresentação conforme idade e patência do canal arterial. No recém-nascido em choque, prostaglandina e transferência não esperam a confirmação definitiva.

Esta apostila tinha quatro capítulos. Um deles chama-se cardiopatias congênitas acianóticas e o próprio título enumera o que ele cobre: comunicação interventricular, comunicação interatrial e persistência do canal arterial. São os três desvios de sangue da esquerda para a direita. A quarta lesão acianótica — a que não desvia sangue, mas obstrui a saída dele — não está no título nem no texto.

A varredura do acervo inteiro, com 927 capítulos, não encontrou nenhum capítulo cujo rótulo ou título contenha a palavra coarctação. Ela é citada em prosa por vários capítulos, e a soma dessas citações é de vinte e duas menções espalhadas por quatro capítulos: nove no capítulo de sopro cardíaco do preparatório, quatro no capítulo das acianóticas, três no das cianóticas e seis no de triagens neonatais. Citação espalhada não é endereço.

Quatro cartões classificam CIV, CIA e PCA como cardiopatias acianóticas com hiperfluxo pulmonar e a coarctação da aorta como lesão obstrutiva sistêmica.
Entre as cardiopatias acianóticas, CIV, CIA e PCA produzem hiperfluxo pulmonar por shunt da esquerda para a direita. A coarctação ocupa outro grupo fisiopatológico: é uma obstrução ao fluxo sistêmico.

O capítulo de sopro cardíaco existe em duas versões, uma do internato e outra do preparatório, com o mesmo rótulo. A do internato escreve coarctação trinta e duas vezes e a do preparatório escreve nove. O aluno que faz a prova de residência lê a versão que fala menos da doença que a prova mais pergunta.

O nome da lesão também escapa das varreduras. A própria diretriz brasileira de hipertensão escreve coarctação vinte e três vezes e coartação duas, em capítulos diferentes, e uma das duas grafias raras está justamente na instrução de medir a pressão nas pernas. Quem procura o assunto por uma só grafia perde oito por cento das ocorrências, e perde exatamente a frase operacional.

Raciocínio inverso: o que muda em relação aos shunts

Vinte e nove questões do acervo carregam a palavra coarctação no enunciado ou nas alternativas. Vinte e oito delas trazem a palavra apenas nas alternativas: só uma questão a escreve no enunciado. E em doze dessas vinte e nove a coarctação é a resposta certa, ou seja, quarenta e um por cento da demanda é decisão, não distração.

O teste inverso é o que muda a leitura. Vinte e cinco das vinte e nove já têm capítulo com o mesmo rótulo de tema, o que pareceria dizer que o assunto está coberto. Mas das doze decisivas, nove estão sob rótulos cujo capítulo existe — e quatorze das vinte e nove carregam o rótulo do capítulo das acianóticas, aquele cujo título enumera outras três doenças.

Medido pelos termos deste recorte, esse capítulo escreve coarctação quatro vezes e escreve pulsos femorais zero vezes. Também zera em istmo, em recoarctação, em corrosão de costelas e em síndrome de Turner. Ele nomeia a fronteira e não a atravessa: cita a doença como diferencial e não ensina o achado que a encontra.

As vinte e nove questões espalham-se por doze rótulos alheios e por seis subespecialidades diferentes, com vinte e uma delas em cardiologia pediátrica. É a assinatura de um assunto sem endereço: quem monta a prova sabe onde ele fica, e quem monta a apostila ainda não sabia.

Pulsos femorais: o exame que não pode faltar

A coarctação é a cardiopatia que o exame físico entrega. Basta apalpar a virilha. Por isso o achado mais surpreendente desta rodada é aritmético: nas três fontes brasileiras consultadas que tratam da doença, a expressão pulso femoral aparece zero vezes.

O manual da sociedade de pediatria, de 2022, dedica quatorze páginas a sistematizar o atendimento ao recém-nascido com suspeita de cardiopatia. Ele lista a coarctação oito vezes entre as lesões críticas, coloca-a no fluxograma de tratamento e, ao descrever o que examinar, escreve apenas redução da amplitude ou assimetria dos pulsos arteriais. Escreve pulso nove vezes e nunca diz qual. No mesmo documento, a palavra pressão aparece uma única vez em quatorze páginas, e a palavra gradiente, nenhuma.

Infográfico mostra palpação bilateral do pulso femoral em lactente e compara uma onda radial normal com onda femoral fraca e atrasada.
Na suspeita de coarctação, o pulso que precisa ser nomeado e examinado é o femoral. Pulso femoral reduzido ou atrasado em relação ao radial, sobretudo com diferença de pressão entre membros, deve motivar investigação.

A revisão de cardiologia de 2003, sete páginas inteiramente dedicadas à coarctação, escreve pulso cinco vezes, sempre a propósito de perda de pulso como complicação de procedimento, e escreve pressão arterial uma vez. Nela não há sopro interescapular nem corrosão de costelas.

Quem imprime o exame é a diretriz de hipertensão, e ela o faz no capítulo de hipertensão secundária, e não no capítulo da criança. Ali estão o sopro sistólico interescapular, a corrosão de costelas na radiografia e a diminuição dos pulsos em membros inferiores. O texto diz membros inferiores e artéria poplítea, nunca femoral.

É o par que nenhum documento mede inteiro. O manual pediátrico escreve prostaglandina sete vezes e gradiente nenhuma; a diretriz de hipertensão escreve gradiente duas vezes e prostaglandina duas, sem tratar do canal arterial. Cada um domina metade da doença e a outra metade fica com o leitor.

Nada disso significa que os documentos estejam errados. Significa que o gesto que resolve a questão de prova não está escrito em nenhum deles com o nome que o aluno usa, e que a palavra que a banca escolhe na alternativa — pulsos femorais — é um vocabulário de beira de leito, não de norma. Saber disso muda a forma de estudar: procure a norma pelo achado que ela descreve, não pelo termo que você usa.

Por que a obstrução altera pulsos e pressão

Vinte e cinco das vinte e nove questões carregam rótulo de tema cujo capítulo existe. Lido isoladamente, esse número diria que o assunto está atendido e que só faltaria melhorar os capítulos existentes. A distribuição por subespecialidade desfaz a leitura: vinte e uma das vinte e nove estão em cardiologia pediátrica, e as oito restantes se espalham por cinco endereços diferentes, incluindo nefrologia pediátrica e neonatologia.

Quando a demanda se concentra numa subespecialidade e se espalha por muitos rótulos dentro dela, o diagnóstico é de rótulo faltante, não de capítulo ruim. As perguntas sabem a que especialidade pertencem e não encontram um título onde caber, e por isso vão parar sob o rótulo do vizinho mais próximo, que costuma ser o das acianóticas.

Há um sinal adicional na direção contrária que vale reportar. Vinte e oito das vinte e nove trazem a palavra apenas nas alternativas — a demanda vive quase inteiramente na lista de opções, e não no enunciado. Isso é típico de doença usada como diferencial obrigatório: a banca não anuncia o tema, ela o esconde entre as escolhas e cobra que o candidato saiba desmontar cada uma.

A consequência para o estudo é direta. Não adianta procurar questões de coarctação pelo enunciado: elas não existem quase nunca. O treino útil é ler as alternativas de toda questão de cardiopatia congênita e de hipertensão infantil perguntando o que cada distrator exigiria de achado — e é para isso que serve a tabela de números deste capítulo.

Gradiente entre membros: quais números usar

A diretriz de hipertensão de 2020 é o único dos documentos consultados que imprime um limiar. São dois, e vale ler a frase inteira: A definição de coarctação significante requer gradiente de pressão pré e pós-coarctação > 20 mmHg. Esse é o número do laboratório de hemodinâmica e do ecocardiograma.

O outro número é o do consultório, e vem na frase seguinte: hipertensão nos membros superiores com pressão sistólica pelo menos 10 mmHg maior na artéria braquial com relação à artéria poplítea. São 20 mmHg para dizer que a lesão é significativa e 10 mmHg para dizer que se deve suspeitar dela.

Em 143 páginas, a palavra gradiente aparece apenas duas vezes, ambas nessa passagem. Sopro interescapular, duas vezes. Corrosão de costelas, uma vez. O exame inteiro da coarctação cabe em um parágrafo de um documento que não é de cardiologia pediátrica, e é dali que a prova o tira.

Este é o ponto em que a maioria erra, e a culpa é parcialmente do documento. No capítulo da criança e do adolescente, a mesma diretriz manda medir a pressão nos quatro membros na primeira consulta e informa a referência: A PAS em MMII costuma ser 10% a 20% mais elevada do que a PA medida na artéria braquial. Perna normal é mais alta que braço, e a régua ali é percentual.

Três capítulos adiante, no de hipertensão secundária, o limiar da coarctação é o braço estar pelo menos 10 mmHg acima da poplítea. Braço mais alto que perna, em milímetros de mercúrio. As duas afirmações são corretas, uma descreve o normal e a outra o patológico, e o documento nunca as põe lado a lado.

A conta que falta é simples e nunca é impressa. Numa criança com pressão sistólica braquial de 100 mmHg, a perna normal está entre 110 e 120 mmHg. Para bater o critério de suspeita, a poplítea precisa cair a 90 mmHg ou menos. Ou seja, entre o esperado e o suspeito há uma queda de 20 a 30 mmHg na perna, e esse intervalo não aparece em lugar nenhum.

A consequência prática é que a inversão importa mais que a diferença. Uma perna igual ao braço já está dez a vinte por cento abaixo do que deveria e ainda não bate o limiar de dez milímetros. O aluno que memoriza apenas o número perde o caso intermediário; o que entende a direção não perde.

Vale registrar ainda uma armadilha de leitura. A mesma diretriz escreve o nome da doença de duas formas ao longo do documento, e uma das grafias raras está justamente na instrução de medir a pressão nas pernas — de modo que até a busca dentro do próprio texto pode devolver a passagem errada.

A triagem do coraçãozinho pode não detectar coarctação

O manual de 2022 descreve o teste de oximetria de pulso com números precisos e todos verificáveis dentro dele mesmo. Teste negativo é saturação igual ou maior que 95 por cento com diferença de até 3 por cento entre a mão direita e um dos pés. Teste positivo é saturação igual ou menor que 89 por cento. Entre 90 e 94 por cento, ou com diferença de 4 por cento ou mais, o teste é duvidoso e se repete até duas vezes.

No mesmo documento, o quadro das cardiopatias de fluxo sistêmico dependente do canal — que inclui explicitamente a coarctação e a interrupção do arco — traz a faixa de saturação esperada dessas lesões: 85 a 95 por cento.

Essa faixa atravessa os três veredictos do próprio fluxograma. Um recém-nascido com coarctação e saturação de 88 por cento sai positivo; com 92 por cento, sai duvidoso; com 95 por cento, sai negativo e vai para casa. Os dois números estão impressos no mesmo manual, a poucas páginas um do outro, e em nenhum momento são comparados.

O manual também informa o desempenho do teste — sensibilidade de 76 por cento e especificidade de 99 por cento — e, em outro parágrafo, que até 30 por cento dos recém-nascidos com cardiopatia crítica podem receber alta sem suspeita clínica. O complemento da sensibilidade, 24 por cento, é o número que não está escrito, e ele é da mesma ordem de grandeza do trinta por cento que está.

A conclusão não é que o teste não sirva. É que a lesão obstrutiva do lado esquerdo é exatamente aquela em que o teste tem menos a oferecer, porque ela não produz hipoxemia marcada enquanto o canal está aberto. O que sobra é a mão na virilha.

Hipertensão arterial na criança: quando pensar em coarctação

A coarctação também é uma causa corrigível de hipertensão, e o capítulo pediátrico da diretriz de 2020 dá a proporção. As nefropatias e a estenose de artéria renal respondem por 60 a 90 por cento dos casos de hipertensão secundária na criança. Os distúrbios endócrinos, por cerca de 5 por cento. A coarctação, por 2 por cento. Outras etiologias, por 5 por cento.

Somadas, as parcelas impressas vão de 72 a 102 por cento. No limite inferior sobram 28 pontos percentuais sem dono; no superior, o total estoura em dois. O documento nunca faz essa soma, e o leitor que a fizer descobre que a maior parcela é também a mais imprecisa: uma faixa de trinta pontos de largura.

O número que interessa ao raciocínio não é o dois por cento, e sim a posição dele. A coarctação é a menor das causas nomeadas e a única cujo tratamento é mecânico e definitivo. Numa lista em que quase tudo se trata com remédio e seguimento, ela é a que se corta.

Por isso a diretriz manda medir a pressão nos quatro membros na primeira consulta de toda criança, e não apenas nas que já têm hipertensão. Esses dois por cento só aparecem se alguém colocar o manguito na coxa.

Como medir o gradiente sem criar artefato

Em dezembro de 2020, o mesmo número da revista brasileira de cardiologia publicou dois minieditoriais sobre o mesmo artigo, em páginas consecutivas. Os dois partem da mesma incidência de cardiopatia congênita, de 8 a 10 casos por mil nascidos vivos. Daí em diante, divergem.

O primeiro escreve que nascem no Brasil 28.900 crianças com cardiopatia por ano e que cerca de 80 por cento delas, 23.800, precisam de cirurgia cardíaca. O segundo escreve aproximadamente 30.000 nascimentos e que, como pelo menos metade tem boa evolução, sobram 15.000 que precisarão de tratamento.

Uma mesma população de partida se divide em dois métodos de cálculo que produzem barras de estimativa com alturas diferentes.
A mesma população de partida pode produzir estimativas diferentes quando os métodos de cálculo não são equivalentes. Antes de comparar números publicados, é preciso conferir definição, denominador e caminho analítico.

A distância entre as duas contas é de 8.800 crianças por ano, um fator de 1,59 vez, e nenhum dos dois textos cita o outro. Cada um tem ainda o seu próprio resto: oitenta por cento de 28.900 dão 23.120, e não 23.800, uma diferença de 680 crianças; e 23.800 sobre 28.900 são 82,4 por cento, não oitenta.

Antes de acusar, vale ver o que fecha. As duas contas medem coisas diferentes: uma estima quem precisa de cirurgia e a outra quem precisa de algum tratamento depois de excluir os casos de resolução espontânea. Reconciliadas assim, deixam de ser contraditórias e passam a ser complementares. O que não se sustenta é a soma interna de cada uma, e essa é a parte que o leitor tem de refazer.

Tratamento conforme idade e apresentação

O segundo minieditorial traz o dado que fecha o raciocínio de saúde pública. Em 2014 havia pouco mais de três mil leitos de alta complexidade cardiovascular no sistema público, distribuídos em 277 hospitais, e apenas 9,6 por cento deles ofereciam cirurgia cardíaca pediátrica. Estados inteiros não tinham nenhum serviço.

Nove vírgula seis por cento de 277 são cerca de 27 serviços no país. Dividindo por eles as duas estimativas de demanda da seção anterior, chega-se a algo entre 560 e 890 crianças por serviço por ano. A política nacional que credencia esses serviços exige um mínimo de 120 cirurgias cardiovasculares pediátricas por ano.

A demanda por serviço credenciado é, portanto, de 4,7 a 7,4 vezes o mínimo que a política pede. Nenhum dos dois textos faz essa divisão, e é ela que explica por que a fila existe mesmo quando o diagnóstico é feito a tempo.

Isso muda o que o pediatra faz com o achado. Encontrar pulso femoral ausente não é o fim do caminho, é o começo de um encaminhamento que precisa ser dirigido, com telefonema e vaga, e não com um pedido de consulta. Em uma cardiopatia dependente do canal, o intervalo entre a suspeita e o centro de referência é medido em horas.

Como interpretar medidas aparentemente discordantes

A revisão de 2003 reúne os dados de tratamento e mostra uma tensão que continua atual. De um lado, a idade na cirurgia foi o único fator de risco para a recoarctação, hipertensão tardia, ou morte prematura. De outro, o maior preditor de recoarctação foi também a idade, sendo os operados com menos de seis meses os de maior taxa de recorrência.

As duas frases estão no mesmo texto e apontam para lados opostos. Operar tarde deixa hipertensão residual e morte precoce; operar cedo aumenta a chance de a aorta estreitar de novo. A régua é a mesma, a idade, e ela pune nas duas pontas. Um dos trabalhos citados chega a registrar recoarctação de cerca de 3 por cento nos operados aos quinze anos, contra taxas de onze a vinte e sete por cento nas séries de lactentes e neonatos.

A saída não é escolher um lado. É perceber que os dois grupos são diferentes: quem opera no período neonatal opera porque está em choque e não tem alternativa, e a recoarctação é um preço que se paga com um segundo procedimento, geralmente por cateter. Quem opera na criança maior está corrigindo uma hipertensão, e ali o atraso cobra em órgão-alvo. O paradoxo aparente desaparece quando se separa quem opera para sobreviver de quem opera para não adoecer depois.

A mesma revisão reúne os números por técnica em menores de um ano: mortalidade inicial de 13,5 por cento na cirurgia contra 7,0 por cento na angioplastia, e mortalidade tardia de 12,0 contra 4,2 por cento. Somando as parcelas que o texto imprime separadas, a mortalidade total vai a 25,5 contra 11,2 por cento, um fator de 2,28 vezes que o texto nunca escreve.

Se a conta parasse ali, a conclusão seria dilatar em vez de operar. A mesma revisão impede essa leitura ao imprimir a outra metade: a recoarctação foi de 11,4 por cento na cirurgia contra 19,0 por cento na angioplastia nos dados agrupados, e num estudo específico a reinternação por recoarctação chegou a trinta por cento após a dilatação contra dezoito por cento após a cirurgia.

As duas metades juntas formam a frase que nenhum documento escreve: a dilatação por cateter mata menos e estreita mais, e a escolha depende de o serviço poder repetir o procedimento. Onde há hemodinâmica pediátrica disponível, a recoarctação é um problema administrável; onde não há, ela vira uma segunda cirurgia. É por isso que a decisão de técnica pertence ao centro de referência e não à prova.

Há ainda o desfecho que sobrevive à correção bem-sucedida. A revisão registra que o aparecimento de hipertensão ao exercício é um problema frequente, mesmo naqueles casos com excelentes resultados. A aorta foi corrigida e o vaso não voltou a ser normal: a parede permanece rígida acima da correção e o comportamento pressórico continua alterado sob esforço.

É por isso que a diretriz de 2020 inclui o pós-operatório tardio de coarctação entre as indicações de monitorização ambulatorial da pressão, pelo risco de hipertensão mascarada, isto é, pressão normal no consultório e elevada fora dele. A doença muda de forma depois da cirurgia e continua exigindo seguimento — o que corrige a impressão, comum na prova, de que a coarctação é um diagnóstico que se fecha e se encerra.

Coarctação versus sopro inocente no consultório

O sopro da coarctação é sistólico, costuma ser discreto e pode ser mais audível nas costas, entre as escápulas, do que no precórdio. A diretriz de 2020 o registra como sopro sistólico interescapular. Sopro inocente não se ausculta no dorso.

O segundo discriminador é a pressão. Sopro inocente não vem com hipertensão; coarctação em criança maior quase sempre vem, e a hipertensão costuma ser resistente ao tratamento. O terceiro é a queixa que ninguém pergunta: fraqueza nas pernas aos esforços, que a diretriz lista entre os sintomas e que é a claudicação da criança.

O quarto é o pulso, e aqui vale insistir na ordem do gesto. Palpar braquial e femoral ao mesmo tempo, com as duas mãos, e não em sequência: o que se procura é o atraso e a redução de amplitude relativos, e memória de dez segundos não faz comparação confiável.

Na radiografia de tórax, a corrosão das costelas aparece pela circulação colateral pelas artérias intercostais e é achado de criança maior, não de recém-nascido — o colateral leva anos para escavar o osso. Cobrar corrosão de costelas em um lactente é uma armadilha frequente, e o próprio fato de a diretriz citá-la uma única vez indica o quanto ela é tardia.

04

Da virilha ao centro de referência, sem pular degrau

A decisão treinada aqui tem cinco degraus e nenhum deles é pedir ecocardiograma de imediato. Primeiro decida em que idade o paciente está, porque a coarctação tem duas apresentações e elas não se parecem. Depois faça o gesto que fecha ou abre a hipótese. Só então escolha entre estabilizar e investigar.

  1. 1Separe as duas idades antes de qualquer coisa. Recém-nascido nos primeiros dias, com má perfusão, taquipneia e acidose, é obstrução crítica dependente do canal. Criança ou adolescente com hipertensão de consultório é coarctação não crítica. As duas são a mesma lesão e exigem condutas opostas na primeira hora.
  2. 2Palpe braquial e femoral simultaneamente, com as duas mãos. Pulso femoral ausente, reduzido ou atrasado em relação ao braquial muda a probabilidade mais do que qualquer exame disponível no pronto-socorro. Registre o achado por escrito, porque ele será questionado.
  3. 3Meça a pressão nos quatro membros, com manguito adequado para a coxa e o estetoscópio sobre a poplítea. Braço com sistólica pelo menos dez milímetros acima da poplítea sustenta a suspeita. Lembre-se de que a perna normal é dez a vinte por cento mais alta: perna igual ao braço já é anormal.
  4. 4No recém-nascido em choque, inicie prostaglandina antes do ecocardiograma. O manual de 2022 é explícito em que o tratamento inicial não pode ser adiado até o exame, e a lesão de fluxo sistêmico dependente do canal é uma das indicações listadas. Oxigênio em excesso fecha o canal e piora o quadro.
  5. 5Na criança maior, o ecocardiograma é o exame de rastreio e a radiografia de tórax pode mostrar corrosão de costelas. Gradiente pré e pós maior que vinte milímetros define a lesão como significativa. Encaminhe com contato direto ao serviço de cardiologia pediátrica, porque nem toda região tem um.

A faixa da coarctação atravessa os três veredictos

O manual de 2022 fixa o teste da alta em três faixas: positivo até 89 por cento, duvidoso de 90 a 94, negativo a partir de 95 com diferença de até três pontos. No mesmo documento, a saturação esperada das lesões de fluxo sistêmico dependente do canal é de 85 a 95 por cento. A faixa da doença cobre as três respostas do teste, e os dois números nunca são comparados dentro do manual.

A perna cai vinte a trinta antes de bater o limiar

Num paciente com sistólica braquial de 100, a diretriz diz que a perna normal está entre 110 e 120. O limiar de suspeita de coarctação é a perna estar 10 abaixo do braço, ou seja, 90 ou menos. Entre o esperado e o suspeito há uma queda de 20 a 30 milímetros, e esse intervalo não é impresso em nenhum ponto do documento.

Vinte e sete serviços para a demanda de um país

Dos 277 hospitais de alta complexidade cardiovascular do sistema público em 2014, 9,6 por cento ofereciam cirurgia cardíaca pediátrica, o que dá cerca de 27 serviços. Contra as duas estimativas publicadas de demanda anual, entre 15 mil e 23,8 mil crianças, cada serviço responderia por 560 a 890 casos por ano, contra o mínimo de 120 procedimentos que a política nacional exige para credenciar.

As duas apresentações da mesma lesão

O que separaRecém-nascido críticoCriança ou adolescente
Quando apareceDo segundo ao décimo dia, quando o canal arterial fechaAchado de consulta de rotina ou investigação de hipertensão
Quadro clínicoChoque, má perfusão, taquipneia, acidose metabólica, oligúriaHipertensão nos braços, fraqueza nas pernas aos esforços, cefaleia, epistaxe
PulsosFemorais ausentes ou muito reduzidos, braquiais presentesFemorais diminuídos ou atrasados em relação aos braquiais
SaturaçãoEntre 85 e 95 por cento, faixa que atravessa os três veredictos do teste da altaNormal, o teste da alta não tem papel
Primeira condutaProstaglandina antes do ecocardiograma, evitar excesso de oxigênioPressão nos quatro membros, ecocardiograma e encaminhamento programado

Os números que a prova cobra, e de onde cada um vem

NúmeroO que ele defineDocumento que o imprime
Maior que 20 mmHgGradiente pré e pós que torna a coarctação significativaDiretrizes de hipertensão de 2020, capítulo de hipertensão secundária
Pelo menos 10 mmHgSistólica braquial acima da poplítea, limiar de suspeita clínicaDiretrizes de hipertensão de 2020, mesma passagem
10 a 20 por centoQuanto a sistólica da perna normalmente supera a do braçoDiretrizes de hipertensão de 2020, capítulo da criança
2 por centoFatia da coarctação entre as causas de hipertensão secundária na criançaDiretrizes de hipertensão de 2020, capítulo da criança
85 a 95 por centoSaturação esperada nas cardiopatias de fluxo sistêmico dependente do canalManual da sociedade de pediatria de 2022

Sopro alto não é critério. A coarctação costuma dar sopro sistólico discreto, e o achado mais específico é ele ser audível entre as escápulas. O recém-nascido crítico pode não ter sopro nenhum, porque o fluxo através da constrição é pequeno quando o débito está caindo.

Corrosão de costelas é achado de criança maior. Depende de circulação colateral intercostal estabelecida ao longo de anos. Procurá-la em radiografia de recém-nascido é perder tempo e reforçar uma hipótese falsa quando não aparece.

Cianose diferencial existe e é sutil. Com o canal aberto e obstrução do arco, a parte inferior do corpo recebe sangue do canal e pode ficar levemente mais dessaturada que a mão direita. É a razão de o teste da alta medir a mão direita e um dos pés, e é também a razão de a diferença ser pequena demais para ser confiável nesta lesão.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A pressão da perna deve ser maior ou menor que a do braço

Maior, de dez a vinte por cento

No capítulo da criança e do adolescente, a diretriz brasileira de hipertensão de 2020 estabelece a referência normal ao ensinar a medida com manguito de coxa e estetoscópio na poplítea: a sistólica dos membros inferiores costuma ser dez a vinte por cento mais elevada do que a medida na artéria braquial.

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial de 2020, capítulo de hipertensão na criança e no adolescente, seção de métodos de medida.

Menor, e a diferença define a doença

No capítulo de hipertensão secundária, a mesma diretriz define a suspeita de coarctação pela presença de hipertensão nos membros superiores com sistólica pelo menos dez milímetros maior na braquial que na poplítea. Aqui a perna é a mais baixa, e a unidade é absoluta, não percentual.

Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial de 2020, capítulo de hipertensão secundária, seção de coarctação da aorta.

Nenhum limiar, apenas assimetria

O manual da sociedade de pediatria de 2022, que rege o recém-nascido, não usa número nenhum: fala em redução da amplitude ou assimetria dos pulsos arteriais como sinal de baixo débito sistêmico ou de possível coarctação. Em quatorze páginas, escreve pressão uma vez e gradiente nenhuma.

Manual de Orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2022, seção de exame clínico pós-natal.

Na prova

A banca cobra a versão da hipertensão secundária, porque é a que tem número: braço acima da perna sustenta coarctação. A vinheta que fornece as duas pressões está pedindo a comparação, e o candidato precisa lembrar que a perna deveria estar acima. Quando o enunciado descreve apenas o recém-nascido em choque com pulso femoral ausente, nenhum limiar é necessário e a resposta é a conduta, não o número.

Cirurgia ou dilatação por cateter no lactente com coarctação nativa

Cirurgia, pelo resultado a longo prazo

A revisão brasileira de 2003 reúne trabalhos que apontam melhor resultado tardio da correção cirúrgica na coarctação nativa e menor taxa de recoarctação, com 11,4 por cento contra 19,0 por cento da angioplastia nos dados agrupados de menores de um ano.

Revisão de coarctação da aorta dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia de 2003, seção de tratamento cirúrgico.

Cateter, pela mortalidade

A mesma revisão imprime, no mesmo bloco de dados, mortalidade inicial de 13,5 por cento na cirurgia contra 7,0 por cento na angioplastia e mortalidade tardia de 12,0 contra 4,2 por cento. Somadas, 25,5 contra 11,2 por cento. Em outro estudo citado, todos os óbitos ocorreram no grupo cirúrgico.

Revisão de coarctação da aorta dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia de 2003, seção de dilatação com cateter balão.

Na prova

A prova brasileira raramente pede a escolha da técnica, porque ela depende do serviço. O que ela cobra é o princípio: no recém-nascido em choque, a prioridade é abrir e manter o canal e transferir; a via de correção é decisão do centro de referência. Marcar uma técnica como universalmente superior costuma ser o distrator.

Quantas crianças com cardiopatia congênita precisam de cirurgia por ano no Brasil

Cerca de vinte e três mil e oitocentas

O primeiro minieditorial de dezembro de 2020 escreve que nascem 28.900 crianças com cardiopatia por ano e que cerca de oitenta por cento delas, 23.800, necessitam de cirurgia cardíaca, metade no primeiro ano de vida.

Minieditorial sobre mortalidade em doenças cardíacas congênitas, Arquivos Brasileiros de Cardiologia, dezembro de 2020.

Cerca de quinze mil

O segundo minieditorial, publicado duas páginas adiante no mesmo número, parte de aproximadamente 30.000 nascimentos e, descontando pelo menos metade com boa evolução, chega a 15.000 que necessitariam de algum tipo de tratamento.

Minieditorial sobre panorama e estratégias no diagnóstico e tratamento de cardiopatias congênitas, Arquivos Brasileiros de Cardiologia, dezembro de 2020.

Na prova

Nenhuma banca cobra o número absoluto, e é por isso que ele vale para a leitura crítica e não para a memorização. O que a prova cobra é a ordem de grandeza da incidência, de oito a dez por mil nascidos vivos, e o fato de a cardiopatia congênita ser a malformação com maior mortalidade no primeiro ano de vida no Brasil.

06

Caso resolvido

Recém-nascido a termo, 39 semanas, 3.250 g, alta da maternidade com 48 horas de vida após teste de oximetria com saturação de 95 por cento na mão direita e 93 por cento no pé, considerado dentro dos valores de referência pela equipe. Retorna ao pronto-socorro com 5 dias de vida, trazido pela mãe por recusa alimentar e respiração rápida. Ao exame: letárgico, tempo de enchimento capilar de 4 segundos, frequência respiratória de 78, fígado a 3 cm do rebordo, pulsos braquiais palpáveis e pulsos femorais não palpáveis bilateralmente. Saturação de 91 por cento na mão direita. Gasometria com pH 7,18 e lactato elevado.
Passo 1
Leia a alta antes de reabrir o diagnóstico. A diferença de dois pontos entre a mão direita e o pé ficou dentro do limite de três, e a saturação estava em noventa e cinco. Pelo protocolo, o teste foi negativo. Isso não afasta coarctação, porque a saturação esperada da lesão vai até noventa e cinco por cento. O teste cumpriu a regra e a regra não cobre esta doença.
Passo 2
Ancore no achado que separa. Choque em recém-nascido de cinco dias tem dois donos habituais, sepse tardia e cardiopatia obstrutiva. Pulsos braquiais presentes com femorais ausentes é o discriminador, e ele não pertence à sepse. Palpe os dois ao mesmo tempo e registre.
Passo 3
Não espere o ecocardiograma para agir. O manual de 2022 determina que o tratamento inicial não seja postergado até o exame diante de quadro sugestivo de cardiopatia crítica. Acesso venoso profundo e prostaglandina começam agora, porque o débito sistêmico deste bebê depende de um canal que está se fechando.
Passo 4
Cuide do oxigênio como se fosse droga. O alvo é saturação entre oitenta e cinco e noventa por cento neste grupo, e oxigenioterapia liberal deve ser evitada porque acelera o fechamento do canal. É contraintuitivo diante de um bebê hipoxêmico e é o ponto em que a conduta correta parece errada.
Passo 5
Trate a acidose como marcador de perfusão, não como alvo isolado. O lactato alto e o pH baixo aqui traduzem baixo débito sistêmico; corrigem-se abrindo o canal e sustentando a circulação, não com bicarbonato. Mantenha a sepse como hipótese paralela e colha culturas, porque as duas coexistem com frequência.
Passo 6
Transfira com contato direto. Menos de dez por cento dos hospitais de alta complexidade cardiovascular do país oferecem cirurgia cardíaca pediátrica, e estados inteiros não têm nenhum. Encaminhamento em cardiopatia dependente do canal é telefonema com vaga confirmada e transporte acompanhado, não pedido de consulta.
07

Agora feche você

Menina de 11 anos é levada à unidade básica de saúde para consulta de rotina. Assintomática, com bom desempenho escolar. A mãe relata que ela reclama de cansaço nas pernas ao correr na educação física, o que foi atribuído a sedentarismo. Ao exame: pressão arterial de 138 por 84 mmHg no braço direito, índice de massa corporal adequado para a idade, sopro sistólico grau dois audível no precórdio e mais nítido na região interescapular. A enfermeira registrou apenas a pressão do braço.
Passo 1
Complete a medida antes de completar o raciocínio. A diretriz de 2020 determina que a pressão seja avaliada nos quatro membros na primeira consulta, com manguito apropriado para a coxa e o estetoscópio sobre a poplítea. Sem a pressão da perna, essa criança tem hipertensão sem etiologia; com ela, pode ter um diagnóstico.
Passo 2
Saiba o que espera encontrar. Nesta idade, a sistólica da perna costuma ser dez a vinte por cento mais alta que a do braço, o que aqui significaria algo entre 152 e 166 mmHg. Encontrar 138 na perna, um valor igual ao do braço, já é anormal, ainda que não bata o limiar formal.
Passo 3
Aplique o limiar que a diretriz imprime. Sistólica braquial pelo menos dez milímetros acima da poplítea sustenta a suspeita de coarctação. Se a perna vier em 125, o critério está batido. Some ao quadro a hipertensão, o sopro interescapular e a fraqueza nas pernas aos esforços, que a diretriz lista entre os sintomas.
Passo 4
Reinterprete a queixa que já estava na mesa. Cansaço nas pernas ao correr, em criança com hipertensão e sopro no dorso, é claudicação por baixo fluxo distal, não sedentarismo. A anamnese já tinha o dado e a atribuição errada o desativou.
Passo 5
Peça a imagem certa na ordem certa. O ecocardiograma é o exame de rastreio. A radiografia de tórax pode mostrar dilatações pré e pós-estenose e corrosão de costelas, e nesta idade a corrosão já pode existir, ao contrário do lactente. Gradiente pré e pós maior que vinte milímetros define a lesão como significativa.
Passo 6
Programe o seguimento desde já. Mesmo corrigida, a coarctação deixa risco de hipertensão residual e de hipertensão ao exercício, e o pós-operatório tardio é indicação de monitorização ambulatorial da pressão pelo risco de hipertensão mascarada. O encaminhamento é para tratar e acompanhar, não apenas para operar.
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Onde a banca derruba

  1. 1Palpar o pulso femoral depois do braquial, e não junto O achado é comparativo. Palpar um e depois o outro transforma amplitude e tempo em memória, e memória de dez segundos não distingue um femoral discretamente reduzido de um femoral normal. As duas mãos ao mesmo tempo, com o lactente calmo, e a pergunta é se há atraso e queda de amplitude na perna.
  2. 2Achar que perna igual ao braço é normal É o erro que a própria diretriz favorece ao guardar a referência normal em um capítulo e o limiar patológico em outro. A perna deveria estar dez a vinte por cento acima. Perna igual ao braço já perdeu vinte a trinta milímetros do esperado e ainda não bate o limiar de dez, e é exatamente aí que mora o caso intermediário da prova.
  3. 3Confiar no teste da alta para excluir coarctação O manual que padroniza o teste dá sensibilidade de setenta e seis por cento para cardiopatia crítica em geral e, no mesmo documento, coloca as lesões de fluxo sistêmico dependente do canal na faixa de saturação de oitenta e cinco a noventa e cinco por cento. Um valor de noventa e cinco por cento é teste negativo e não exclui a doença. Alta com pulso femoral não palpado é alta sem exame.
  4. 4Dar oxigênio em alta fração ao recém-nascido em choque Na obstrução do lado esquerdo, o débito sistêmico vem pelo canal arterial. Oxigênio em excesso ajuda a fechá-lo e reduz a perfusão sistêmica, e o manual de 2022 orienta evitar oxigenioterapia justamente nesse grupo, mantendo alvo de saturação entre oitenta e cinco e noventa por cento. A conduta que parece proteger é a que piora.
  5. 5Esperar o ecocardiograma para começar a prostaglandina O manual é explícito em que o tratamento inicial do recém-nascido com suspeita de cardiopatia crítica não pode ser postergado até o ecocardiograma, sobretudo no que se refere à prostaglandina. Em uma rede com vinte e sete serviços de cirurgia cardíaca pediátrica no país, esperar o exame pode significar esperar a transferência.
  6. 6Procurar corrosão de costelas no lactente O sinal depende de circulação colateral intercostal desenvolvida ao longo de anos. Ausência dele em uma radiografia de recém-nascido ou de lactente não afasta nada. É achado de criança maior e adolescente, e a diretriz de 2020 o menciona uma única vez em cento e quarenta e três páginas.
  7. 7Dar alta ao caso corrigido A revisão de 2003 registra que hipertensão ao exercício é frequente mesmo nos casos com excelente resultado, e a diretriz de 2020 inclui o pós-operatório tardio de coarctação entre as indicações de monitorização ambulatorial da pressão pelo risco de hipertensão mascarada. Corrigir a aorta não devolve um vaso normal.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é de coartação de aorta crítica dependente de canal arterial: choque neonatal com pulsos femorais ausentes, gradiente de PA entre membros superiores e inferiores e acidose ao fechar o ducto. A prioridade é prostaglandina E1 para reabrir/manter o canal arterial, restaurando o fluxo sistêmico distal, antes da correção cirúrgica. Indometacina fecha o canal e mataria o paciente. Reposição volêmica agressiva não corrige a obstrução e pode piorar a congestão. Betabloqueador na vigência de choque é deletério. Adenosina é para TSV — aqui a taquicardia é compensatória do choque, não uma arritmia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Coarctação da aorta tem duas caras. No recém-nascido é choque quando o canal fecha, com pulsos femorais ausentes, saturação entre oitenta e cinco e noventa e cinco por cento e conduta de prostaglandina antes do ecocardiograma, evitando excesso de oxigênio. Na criança maior é hipertensão nos braços com pulsos fracos nas pernas, sopro sistólico audível entre as escápulas e fraqueza nas pernas aos esforços. O gesto que decide é palpar braquial e femoral ao mesmo tempo e medir a pressão nos quatro membros.

em 30 dias

Os dois números que a prova cobra: gradiente pré e pós maior que vinte milímetros define coarctação significativa, e sistólica braquial pelo menos dez milímetros acima da poplítea sustenta a suspeita clínica. A chave que os documentos não escrevem: a perna normal é dez a vinte por cento mais alta que o braço, de modo que perna igual ao braço já caiu vinte a trinta milímetros do esperado. E o teste da alta não exclui: a faixa de saturação da própria lesão atravessa as três respostas do fluxograma.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Recém-nascido de cinco dias com má perfusão e recusa alimentar após alta da maternidade com teste de oximetria normal. Palpe os pulsos, separe choque séptico de obstrução do lado esquerdo, decida o que começa antes do ecocardiograma e explique à mãe por que o teste da alta não excluiu a doença. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Coarctação da aorta e as obstruções do coração esquerdo na criança – Coarctação da aorta: três documentos brasileiros mandam procurar o pulso e nenhum escreve qual é — Preparatório para provas | OsceLabs