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Clínica MédicaCardiologia

IAM com supradesnível de ST

Síndrome coronariana aguda com supradesnível de ST (IAMCSST)

O enunciado quase sempre entrega o eletrocardiograma. O que a prova cobra é o que vem depois: se aquele supra preenche critério, quanto tempo ainda existe e qual reperfusão cabe nesse tempo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, tabagista, procura o pronto-socorro com dor precordial em aperto, de forte intensidade, iniciada há 40 minutos, com irradiação para o membro superior esquerdo, acompanhada de sudorese fria e náuseas. PA 140x90 mmHg, FC 88 bpm, FR 20 ipm, SatO2 96% em ar ambiente. Qual é o exame que DEVE ser realizado imediatamente, dentro dos primeiros 10 minutos de chegada, para orientar a conduta?

02

Como esse tema cai

iamcsst é tema obrigatório em prova de acesso direto, e o formato quase não varia: o enunciado descreve o eletrocardiograma (ou mostra o traçado) e pergunta a conduta. O diagnóstico raramente é o ponto difícil. O ponto é o relógio — e a decisão que o relógio impõe.

Este capítulo cobre três coisas: reconhecer a oclusão no eletrocardiograma (inclusive quando ela não aparece como supra clássico), medir os tempos que definem a estratégia e escolher entre angioplastia primária e fibrinólise — incluindo o que fazer nos 90 minutos seguintes ao lítico. Estratificação de risco na síndrome sem supra, protocolo de troponina de alta sensibilidade e insuficiência cardíaca pós-infarto pertencem a outros capítulos.

A frase de efeito é velha e continua verdadeira: tempo é músculo. A tradução prática dela em números é o que a banca cobra — eletrocardiograma em 10 minutos, agulha em 30, balão em 120.

03

O que muda decisão

O supra que conta é medido no ponto J — e o corte muda em V2-V3

A medida é feita no ponto J (a junção entre o fim do QRS e o início do segmento ST), não no meio do segmento nem no pico da onda T, e precisa aparecer em pelo menos duas derivações contíguas. Os cortes, segundo a Diretriz Brasileira de Dor Torácica de 2025 e o consenso internacional: 2,5 mm ou mais em homens com menos de 40 anos em V2-V3; 2 mm ou mais em homens de 40 anos ou mais em V2-V3; 1,5 mm ou mais em mulheres em V2-V3, independentemente da idade; e 1 mm ou mais em todas as demais derivações, sem distinção de sexo ou idade.

Esses três cortes de V2-V3 existem porque a elevação fisiológica do ponto J nessas derivações varia com sexo e idade: homem jovem tem, normalmente, mais supra basal em V2-V3 do que mulher. Aplicar 1 mm em V2-V3 transforma repolarização precoce em infarto — é exatamente a armadilha que a banca monta com um paciente de 30 e poucos anos.

Contíguas quer dizer mesmo território, não derivações vizinhas no papel: parede inferior (DII, DIII e aVF); anterosseptal (V1-V2); anterior (V3-V4); lateral baixa (V5-V6); lateral alta (DI e aVL). Elevações limítrofes em DI e aVL ganham peso quando há infradesnível recíproco nas derivações inferiores — a imagem em espelho é argumento a favor de oclusão, não um segundo diagnóstico.

Morfologia ajuda: a corrente de lesão costuma dar supra de convexidade superior, acompanhado de imagem recíproca e evoluindo em eletrocardiogramas seriados. Supra difuso, côncavo, sem espelho e com infradesnível de PR fala por pericardite; supra em V1-V3 com QRS alargado pede a leitura de bloqueio de ramo; supra com ondas T apiculadas e QRS largo em paciente renal crônico pede potássio antes de hemodinâmica. Nada disso vence a clínica: dor típica com supra convexo e espelho é infarto até prova em contrário.

Complexo eletrocardiográfico ampliado mostrando a linha de base, o ponto J e a altura do supradesnivelamento do segmento ST.
A altura do supra é medida no ponto J, em relação à linha de base — e não no ponto mais alto do segmento.

As derivações que o eletrocardiograma de 12 não tem

Todo supra inferior pede registro das precordiais direitas. Elevação de 0,5 mm ou mais em V3R-V4R indica comprometimento do ventrículo direito, e a elevação em V4R é o achado de maior valor preditivo nesse cenário. Ele é transitório: em cerca de metade dos pacientes desaparece algumas horas depois do início dos sintomas — quem não registra na chegada perde o dado.

Reconhecer o ventrículo direito muda a prescrição imediatamente. O ventrículo direito infartado depende de pré-carga: nitrato, morfina em excesso e diurético derrubam a pressão. Diante de supra inferior com hipotensão, turgência jugular e pulmões limpos, a conduta é expandir volume e suspender vasodilatador, não tratar como edema agudo. Nitrato também está proibido em uso recente de sildenafila (24 horas) ou tadalafila (48 horas).

O infarto ínfero-lateral, ainda chamado de posterior, é o que mais escapa. No eletrocardiograma convencional ele aparece de cabeça para baixo em V1-V3: infradesnível de ST, onda R proeminente e alargada (mais de 30 ms), com R maior que S em V2, e onda T positiva. A confirmação é o registro de V7-V9 — supra de 0,5 mm ou mais em pelo menos uma dessas derivações fecha iamcsst e indica reperfusão imediata. Tratar esse traçado como síndrome sem supra, mandando para estratificação de risco, é erro de conduta com artéria ocluída.

Registrar derivações extras custa dois minutos e não conta como atraso: o relógio do porta-balão corre a partir do diagnóstico, e o diagnóstico é justamente o que essas derivações fecham.

Três corações em vista anterior, cada um mostrando uma única oclusão — descendente anterior, coronária direita ou circunflexa — e o território miocárdico correspondente.
Cada território do eletrocardiograma corresponde a uma artéria — e é isso que orienta quais derivações extras registrar.

Oclusão sem supra clássico: os padrões que também disparam reperfusão

A diretriz brasileira de 2025 foi explícita: além dos critérios de supra, devem ser procurados os equivalentes de oclusão coronária aguda (recomendação classe I). São padrões em que a artéria está fechada e o traçado não preenche a régua dos milímetros.

De Winter: ondas T altas, simétricas e proeminentes nas precordiais, precedidas de infradesnível ascendente maior que 1 mm no ponto J, com supra de 0,5 a 1 mm em aVR. Traduz oclusão proximal da descendente anterior e deve ser tratado como oclusão aguda. Ondas T hiperagudas — amplas, simétricas e apiculadas — são a fase mais precoce do iamcsst e pedem eletrocardiogramas seriados em intervalos curtos, não observação por seis horas. Padrão de Aslanger: supra em DIII sem supra nas demais inferiores, com infra entre V4 e V6 e supra em V1 maior que em V2. Distorção terminal do QRS: ausência de onda S abaixo da linha de base e ausência de onda J em V2 e/ou V3.

No bloqueio de ramo esquerdo, a regra mudou. Bloqueio de ramo esquerdo novo, isoladamente, não é mais critério diagnóstico de iamcsst — indica risco maior e obriga a correlação clínica. O que fecha o diagnóstico são os critérios de Sgarbossa: supra concordante de 1 mm ou mais em derivação com QRS positivo; infra concordante de 1 mm ou mais em V1-V3; supra discordante de 5 mm ou mais em derivação com QRS negativo, ou desvio do ST correspondendo a pelo menos 25% da amplitude da onda S precedente (critério proporcional). O bloqueio de ramo direito, ao contrário, não impede a leitura do supra — só exige cautela com o infra de V1 a V4, que já é próprio do bloqueio.

Há um padrão que parece oclusão e não é indicação de trombolítico: supra em aVR e/ou V1 acompanhado de infradesnível em seis ou mais derivações. Isso é isquemia subendocárdica circunferencial, tipicamente de tronco de coronária esquerda ou doença triarterial. A conduta é cinecoronariografia precoce, não fibrinólise — a diretriz brasileira classifica esse traçado como síndrome sem supra de altíssimo risco.

Os três relógios

Primeiro relógio, porta-eletrocardiograma: 10 minutos entre a chegada (ou o primeiro contato médico, no pré-hospitalar) e o traçado interpretado. Não é meta de qualidade decorativa — porta-eletrocardiograma acima de 10 minutos se associou a mais infarto recorrente e morte, e apenas cerca de 40% dos pacientes com iamcsst atingem esse alvo na vida real.

Segundo relógio, o do balão: o intervalo primeiro contato médico-balão deve ser de no máximo 120 minutos, idealmente 90 minutos. Esse é o tempo até abrir a artéria, incluindo transporte, e não até o paciente entrar na ambulância. Acima de 120 minutos, a vantagem da angioplastia primária sobre o lítico se perde e a estratégia muda.

Terceiro relógio, o da agulha: quando a angioplastia primária não é factível no prazo, o fibrinolítico deve correr em até 30 minutos da chegada do paciente (porta-agulha), conforme o protocolo do Ministério da Saúde e a V Diretriz da SBC. A diretriz europeia é ainda mais agressiva e pede o bolus em 10 minutos do diagnóstico de iamcsst.

Sobre o relógio do paciente: a fibrinólise tem benefício demonstrado até 12 horas do início dos sintomas, sendo maior nas primeiras 6 horas; depois de 12 horas não há benefício demonstrado. Quem chega entre 12 e 48 horas do início da dor não é candidato a lítico — a estratégia razoável é angioplastia primária (recomendação IIa da ESC 2023). E, independentemente do tempo decorrido, dor persistente, instabilidade hemodinâmica, choque cardiogênico ou arritmia ventricular grave indicam cateterismo imediato.

O custo do atraso é quantificado: cada 30 minutos entre o início dos sintomas e a insuflação do balão aumentam em 7,5% a mortalidade em um ano. É o número que justifica ativar a hemodinâmica pelo telefone e transportar com o eletrocardiograma já transmitido.

A escolha da reperfusão cabe em uma pergunta

A pergunta é: consigo abrir essa artéria com cateter dentro de 120 minutos a partir do diagnóstico? Se a resposta for sim, angioplastia primária — inclusive transferindo o paciente, desde que o tempo previsto até o balão respeite o teto. Se for não, fibrinolítico agora, no hospital em que o paciente está, seguido de transferência imediata. As duas escolhas erradas clássicas são simétricas: transferir sem lisar quando o transporte estoura o teto, e lisar quando a hemodinâmica estava a 40 minutos.

Duas situações furam a lógica do relógio e mandam direto para o cateterismo: choque cardiogênico ou insuficiência cardíaca grave, em que a angioplastia primária é preferida independentemente do tempo; e contraindicação absoluta ao trombolítico. Contraindicação ao lítico não converte o caso em tratamento conservador — converte em transferência para angioplastia primária, mesmo que demore mais que 120 minutos.

Quando a fibrinólise é a escolha, o paciente não fica aguardando o resultado no hospital de origem. A conduta correta é lisar e transferir em seguida, porque o desfecho depende do que se faz nas horas seguintes: resgate se falhar, cateterismo programado se der certo. Na fibrinólise pré-hospitalar do SAMU e das UPAs, o agente de escolha é a tenecteplase, por ser o único aplicado em bolus único.

Também não se espera troponina para reperfundir. O protocolo do Ministério da Saúde diz isso com todas as letras: em iamcsst, o resultado dos marcadores não deve ser aguardado antes da reperfusão. O eletrocardiograma com supra e a clínica compatível bastam.

O lítico: qual, quanto e em quem não

Tenecteplase, bolus único intravenoso ajustado ao peso: 30 mg abaixo de 60 kg; 35 mg entre 60 e menos de 70 kg; 40 mg entre 70 e menos de 80 kg; 45 mg entre 80 e menos de 90 kg; 50 mg acima de 90 kg. Em pacientes com mais de 75 anos, usa-se metade da dose calculada pelo peso — ajuste incorporado depois do estudo STREAM, pelo risco de hemorragia intracraniana.

Alteplase: 15 mg em bolus, seguidos de 0,75 mg/kg em 30 minutos e 0,5 mg/kg em 60 minutos, com dose total máxima de 100 mg. Estreptoquinase: 1,5 milhão de unidades em 100 mL, infundidos em 30 a 60 minutos; pode causar hipotensão (interromper a infusão e repor volume) e não pode ser repetida entre 5 dias e 10 anos da primeira aplicação, por causa dos anticorpos. O protocolo do Ministério da Saúde a prefere em maiores de 75 anos, pelo menor risco de sangramento cerebral.

Contraindicações absolutas: qualquer sangramento intracraniano prévio; acidente vascular cerebral isquêmico nos últimos três meses; lesão ou neoplasia do sistema nervoso central; malformação arteriovenosa cerebral conhecida; trauma significativo de cabeça ou face nos últimos três meses; sangramento ativo ou diátese hemorrágica (exceto menstruação); suspeita de dissecção de aorta. Relativas: acidente vascular isquêmico há mais de três meses, gravidez, uso de antagonista da vitamina K, sangramento interno recente (2 a 4 semanas), ressuscitação prolongada ou traumática e cirurgia há menos de 3 semanas, hipertensão não controlada (sistólica acima de 180 ou diastólica acima de 110 mmHg), punções não compressíveis, úlcera péptica ativa e exposição prévia à estreptoquinase.

Os acompanhantes do lítico têm doses próprias. AAS: 162 a 300 mg mastigados na chegada, manutenção de 81 a 100 mg por dia, independentemente da estratégia de reperfusão. Clopidogrel: 300 mg de ataque em quem tem menos de 75 anos; acima disso, 75 mg por dia sem dose de ataque — o ataque de 300 mg em idoso trombolisado é recomendação classe III. Ticagrelor e prasugrel são classe III junto com fibrinolítico: nunca combinar. Enoxaparina: 30 mg em bolus intravenoso seguidos de 1 mg/kg subcutâneo a cada 12 horas em quem tem menos de 75 anos; com 75 anos ou mais, sem bolus e 0,75 mg/kg a cada 12 horas; com clearance abaixo de 30 mL/min, 1 mg/kg a cada 24 horas.

Quando a estratégia é angioplastia primária, o segundo antiagregante muda: ticagrelor 180 mg, prasugrel 60 mg (contraindicado em quem já teve acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório) ou clopidogrel 600 mg de ataque.

Reperfundiu? A resposta sai entre 60 e 90 minutos

Como não se faz angiografia de rotina logo após a trombólise, o julgamento é clínico e eletrocardiográfico, feito 60 a 90 minutos após o início da infusão. Três sinais de reperfusão eficaz: queda de mais de 50% do supradesnivelamento na derivação que tinha o maior supra; alívio da dor; arritmias de reperfusão, tipicamente o ritmo idioventricular acelerado — que é sinal de artéria aberta e não se trata com antiarrítmico.

Falha de reperfusão é o espelho disso: supra que não reduziu mais que 50%, que persiste ou aumenta, dor torácica intensa mantida (especialmente com sudorese, dispneia) ou instabilidade hemodinâmica. Nesse caso, angioplastia de resgate imediata — a V Diretriz da SBC estabelece que ela deve ser realizada em menos de 180 minutos após o fibrinolítico. Readministrar lítico no lugar do resgate não traz benefício e é desencorajado.

Se reperfundiu, o paciente ainda vai ao cateterismo: é a estratégia fármaco-invasiva. A ESC 2023 recomenda coronariografia com angioplastia da artéria culpada entre 2 e 24 horas após a fibrinólise eficaz (classe I A); a V Diretriz brasileira recomenda o mais precocemente possível dentro das primeiras 24 horas, evitando as primeiras 2 a 3 horas pelo risco de sangramento. Perceba a assimetria que a prova adora: sem critérios de reperfusão, cateterismo agora; com critérios, cateterismo programado nas primeiras 24 horas.

Reoclusão depois de reperfusão inicialmente bem-sucedida (retorno da dor com nova elevação do ST) tem a mesma resposta: cateterismo de urgência. Só se não houver hemodinâmica disponível de forma alguma se considera novo lítico — e, nesse caso, nunca estreptoquinase repetida.

O que anda junto — e o que atrapalha

Oxigênio só com hipoxemia. A V Diretriz da SBC indica oxigenoterapia com saturação abaixo de 94%, congestão pulmonar ou desconforto respiratório; a ESC 2023 usa 90% como corte e classifica o oxigênio de rotina em não hipoxêmico como classe III. As duas concordam no essencial: saturação normal em ar ambiente não recebe oxigênio.

Nitrato serve para dor isquêmica, hipertensão e congestão — e está contraindicado no infarto de ventrículo direito e no uso recente de inibidor de fosfodiesterase. Morfina, 2 a 8 mg intravenosos com doses repetidas a cada 5 a 15 minutos, é para dor que não cede; lembre que ela retarda a absorção dos inibidores de P2Y12. Anti-inflamatórios não hormonais devem ser suspensos.

Betabloqueador oral entra precocemente em quem não tem sinais de insuficiência cardíaca, hipotensão ou bradiarritmia — a via intravenosa de rotina não é recomendada. Estatina de alta intensidade começa na internação. Inibidor da enzima conversora entra em disfunção ventricular, infarto anterior, diabetes ou hipertensão; antagonista da aldosterona quando a fração de ejeção for menor que 40% com insuficiência cardíaca ou diabetes, respeitando função renal e potássio.

Nenhuma dessas medidas justifica atrasar a reperfusão. Radiografia de tórax, por exemplo, só entra antes se a suspeita for de dissecção de aorta — que, aliás, pode se apresentar com supra quando a dissecção compromete um óstio coronário.

04

O eletrocardiograma no tempo: da T hiperaguda à onda Q

O traçado não diz só que há oclusão — ele diz há quanto tempo. Isso não substitui o relato do paciente, mas calibra a suspeita quando o horário informado não fecha com o que se vê. Antes das fases, o caminho da decisão:

  1. 1Dor torácica ou equivalente anginoso: eletrocardiograma de 12 derivações interpretado em até 10 minutos.
  2. 2Preenche o corte de supra no ponto J em duas derivações contíguas? Se não, procure os equivalentes de oclusão (posterior, De Winter, T hiperaguda, Aslanger, Sgarbossa no bloqueio de ramo esquerdo).
  3. 3Supra inferior: registre V3R-V4R. Infra em V1-V3 com R alta e T positiva: registre V7-V9.
  4. 4Diagnóstico fechado: dispare a reperfusão sem esperar troponina, com AAS 162 a 300 mg mastigados.
  5. 5Angioplastia primária em até 120 minutos do diagnóstico? Sim: transfira e leve direto à hemodinâmica. Não: fibrinolítico em até 30 minutos da chegada e transferência imediata em seguida.
  6. 6Reavalie 60 a 90 minutos após o lítico: queda do supra maior que 50%, alívio da dor, arritmia de reperfusão.
  7. 7Falhou: angioplastia de resgate imediata, em menos de 180 minutos do lítico. Deu certo: cateterismo entre 2 e 24 horas.

1

Minutos a poucas horas: onda T hiperaguda — ampla, simétrica e apiculada, às vezes antes de qualquer supra. Pede eletrocardiogramas seriados em intervalo curto, não observação prolongada.

2

Fase aguda: supra de convexidade superior a partir do ponto J, com imagem recíproca em espelho. É a janela em que a reperfusão salva mais músculo.

3

Horas a dias: aparece a onda Q, o supra começa a ceder e a onda T se inverte. Necrose já instalada — mas dor persistente ou instabilidade ainda indicam cateterismo.

4

Semanas depois: onda Q persistente com ST na linha de base. Supra que não normaliza depois de semanas, com Q e sem dor, sugere aneurisma ou discinesia — não é indicação de trombolisar.

TerritórioDerivações com supraArtéria mais provávelO que fazer a mais
InferiorDII, DIII e aVF (supra ≥ 1 mm)Coronária direita (menos comum: circunflexa)Registrar V3R-V4R. Supra ≥ 0,5 mm indica ventrículo direito: volume, sem nitrato nem diurético. Atenção a bradiarritmia e bloqueio atrioventricular.
Anterosseptal / anteriorV1 a V4 (V2-V3 com corte por sexo e idade)Descendente anteriorMaior área em risco: prioridade absoluta de tempo. Vigiar insuficiência cardíaca e choque.
LateralDI, aVL, V5 e V6 (supra ≥ 1 mm)Circunflexa ou diagonalSupra limítrofe em DI e aVL vale mais se houver infra recíproco inferior.
Ínfero-lateral (posterior)V7 a V9 (supra ≥ 0,5 mm em pelo menos uma)CircunflexaSuspeitar quando houver infra em V1-V3 com R alargada (> 30 ms), R/S > 1 em V2 e T positiva. É IAMCSST: reperfundir.
Ventrículo direitoV3R e V4R (supra ≥ 0,5 mm)Coronária direita proximalPré-carga-dependente: expandir volume, evitar nitrato, morfina em excesso e diurético.
Equivalentes de oclusãoSem supra clássico: De Winter, T hiperaguda, Aslanger, Sgarbossa no bloqueio de ramo esquerdoDepende do padrão (De Winter: descendente anterior proximal)Tratar como oclusão aguda e disparar reperfusão, mesmo sem preencher a régua dos milímetros.

Supra em aVR e/ou V1 com infra em seis ou mais derivações não é IAMCSST: é isquemia circunferencial (tronco ou triarterial) e a conduta é cinecoronariografia precoce, nunca trombolítico.

A fase eletrocardiográfica não substitui o horário da dor: quem manda na indicação do lítico é o tempo de sintoma referido pelo paciente, com teto de 12 horas.

Bloqueio de ramo direito não impede a leitura do supra; bloqueio de ramo esquerdo exige os critérios de Sgarbossa, porque o supra discordante faz parte do bloqueio.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quando fazer o cateterismo depois de uma fibrinólise bem-sucedida

ESC 2023

Coronariografia com angioplastia da artéria culpada entre 2 e 24 horas após a fibrinólise eficaz, com recomendação classe I, nível A.

ESC — 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes (Eur Heart J. 2023;44(38):3720-3826)

SBC 2015

O documento brasileiro não fixa um único intervalo: a tabela de recomendações fala em 6 a 24 horas após a fibrinólise, o texto diz para fazer o mais precocemente possível dentro das primeiras 24 horas mas não antes de 2 a 3 horas, e a seção pré-hospitalar registra 3 a 24 horas (classe IIa, B).

SBC — V Diretriz sobre Tratamento do IAM com Supradesnível do Segmento ST (Arq Bras Cardiol. 2015;105(2):1-105)

Na prova

A divergência é menos de conduta e mais de granularidade: a ESC 2023 fixa 2 a 24 horas após a fibrinólise eficaz (Classe I, nível A), enquanto a V Diretriz da SBC, de 2015, não tem um número único — 6 a 24 horas na tabela de recomendações, “o mais precocemente possível dentro das primeiras 24 horas, mas não antes de 2 a 3 horas” no texto, e 3 a 24 horas na seção pré-hospitalar (classe IIa, B). Por isso as próprias alternativas denunciam o documento adotado: 2 a 24 horas espelha a europeia vigente; 6 a 24 horas só existe se a questão foi montada sobre a tabela brasileira de 2015; qualquer opção que ultrapasse 24 horas fica fora das duas. O que não varia entre as fontes é a assimetria, e é ela que costuma estruturar a questão: sem critérios de reperfusão, cateterismo imediato de resgate; com critérios de reperfusão, coronariografia programada dentro das primeiras 24 horas e nunca nas primeiras 2 horas.

Prazo máximo para o bolus do fibrinolítico

Ministério da Saúde e SBC

Porta-agulha de até 30 minutos: pacientes com menos de 12 horas de sintomas devem receber o lítico em até 30 minutos da chegada, quando a angioplastia primária não puder ser feita no prazo.

Ministério da Saúde / CONITEC — Protocolo Clínico Síndromes Coronarianas Agudas; SBC — V Diretriz IAMCSST 2015

ESC 2023

Bolus do fibrinolítico em até 10 minutos do diagnóstico de IAMCSST, tanto no hospital quanto no pré-hospitalar.

ESC — 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes

Na prova

Não são duas condutas, são duas réguas de processo. O Ministério da Saúde e a V Diretriz da SBC medem porta-agulha de até 30 minutos da chegada (com porta-balão de 90 minutos), indicador desenhado para uma rede em que o diagnóstico costuma ser feito já na emergência; a ESC 2023 conta 10 minutos a partir do diagnóstico de IAMCSST, prazo que pressupõe ECG pré-hospitalar e telemedicina disponíveis. Quem infunde em 10 minutos cumpre as duas réguas, e é por isso que os números convivem sem se contradizer. Enunciado que fala de linha de cuidado, indicador de serviço, tempo porta-agulha ou transferência regulada trabalha com os 30 minutos; enunciado que cita nominalmente a ESC, descreve unidade móvel com ECG, ou pergunta o prazo “a partir do diagnóstico”, trabalha com os 10. Alternativa que ofereça prazo maior que 30 minutos, ou que dispense o lítico em serviço sem angioplastia no tempo recomendado, não se apoia em nenhuma das fontes.

A partir de que saturação indicar oxigênio

SBC 2015

Oxigenoterapia indicada com saturação abaixo de 94%, congestão pulmonar ou desconforto respiratório (classe I, nível C).

SBC — V Diretriz IAMCSST 2015

ESC 2023

Oxigênio apenas com saturação abaixo de 90%; uso de rotina em paciente não hipoxêmico é classe III, nível A.

ESC — 2023 Guidelines for the management of acute coronary syndromes

Na prova

Os dois cortes descrevem o mesmo princípio com margens diferentes: a SBC 2015 oferta oxigênio com saturação abaixo de 94%, congestão pulmonar ou desconforto respiratório (classe I, nível C); a ESC 2023 espera saturação abaixo de 90% e classifica o uso de rotina no paciente não hipoxêmico como classe III, nível A, apoiada nos ensaios que mostraram dano potencial da hiperóxia. Menção nominal à ESC, ou o vocabulário de “oxigênio de rotina é classe III”, aponta para 90%; protocolo brasileiro, diretriz da SBC citada, ou critério que soma congestão e desconforto ao valor da saturação, aponta para 94%. É na faixa entre 90 e 94% que as fontes se afastam, e questão bem construída raramente decide ali: com saturação de 96% em ar ambiente, as duas dispensam o oxigênio, e é esse o ponto habitualmente em jogo.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, hipertenso e tabagista, chega a um hospital municipal sem serviço de hemodinâmica com dor precordial em aperto iniciada há 1 hora e 40 minutos, associada a sudorese e náuseas. PA 104 x 68 mmHg, FC 52 bpm, saturação 96% em ar ambiente. Eletrocardiograma feito 6 minutos após a chegada: supradesnivelamento de 3 mm em DII, DIII e aVF, com infradesnivelamento em DI e aVL. O serviço de hemodinâmica de referência fica a 2 horas e 30 minutos de transporte terrestre. Sem histórico de sangramento, acidente vascular cerebral, cirurgia recente ou uso de anticoagulante.
achado
Supra de 3 mm em três derivações contíguas do território inferior, acima do corte de 1 mm, com imagem recíproca em DI e aVL. IAMCSST inferior fechado — não há o que aguardar de troponina.
derivações extras
Supra inferior obriga registrar V3R-V4R. Bradicardia e pressão no limite inferior reforçam a suspeita de comprometimento do ventrículo direito; se houver supra de 0,5 mm ou mais em V4R, nitrato está proibido e a hipotensão se trata com volume.
relógio
Dor com 1 hora e 40 minutos: dentro das 12 horas de janela do lítico e na faixa de maior benefício. Tempo previsto até o balão: 150 minutos de transporte mais o tempo intra-hospitalar, portanto acima do teto de 120 minutos.
decisão
Fibrinólise no hospital de origem, em até 30 minutos da chegada, e transferência imediata em seguida. Transferir sem lisar seria entregar a artéria fechada por mais de duas horas.
prescrição
AAS 300 mg mastigados; clopidogrel 300 mg de ataque (menos de 75 anos); tenecteplase em bolus único ajustado ao peso — 40 mg para 75 kg; enoxaparina 30 mg intravenosos seguidos de 1 mg/kg subcutâneo a cada 12 horas. Sem ticagrelor e sem prasugrel: com lítico, são classe III.
reavaliação
Novo eletrocardiograma 60 a 90 minutos após o bolus. Queda de mais de 50% do supra em DIII (a derivação de maior supra), alívio da dor e eventual ritmo idioventricular acelerado indicam reperfusão eficaz.
destino
Reperfundiu: cateterismo entre 2 e 24 horas, no centro de referência, como estratégia fármaco-invasiva. Não reperfundiu: angioplastia de resgate imediata, em menos de 180 minutos do lítico — e nunca uma segunda dose de trombolítico.
07

Agora feche você

Mulher de 58 anos, diabética, recebeu tenecteplase às 14h10 por IAMCSST anterior com 2 horas de dor, em hospital sem hemodinâmica. Às 15h40 mantém dor precordial de forte intensidade e sudorese. PA 112 x 70 mmHg, FC 96 bpm. Eletrocardiograma de controle: supra que era de 4 mm em V2-V4 está agora em 3 mm, sem outras mudanças. A hemodinâmica de referência fica a 50 minutos de transporte e tem equipe disponível.
achado
Já se passaram 90 minutos do bolus — a janela exata em que se julga a reperfusão.
critérios
A queda do supra foi de 4 mm para 3 mm, ou seja, 25%: abaixo do limiar de 50%. A dor persiste. Nenhum dos três critérios de reperfusão eficaz está presente.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Esperar a troponina para liberar a reperfusão A troponina leva horas para subir e não muda a conduta de quem já tem supra com clínica compatível. O protocolo do Ministério da Saúde é explícito: em IAMCSST o resultado dos marcadores não deve ser aguardado. A alternativa que manda colher e reavaliar é sempre a errada nesse cenário.
  2. 2Aplicar 1 mm em V2-V3 É a armadilha construída com paciente jovem. Em V2-V3 os cortes são 2,5 mm (homem com menos de 40 anos), 2 mm (homem com 40 anos ou mais) e 1,5 mm (mulher). Homem de 32 anos com 2 mm côncavo nessas derivações, sem espelho, provavelmente tem repolarização precoce — não IAMCSST.
  3. 3Chamar infra de V1-V3 de síndrome sem supra Infra em V1-V3 com onda R alargada e dominante e onda T positiva é a imagem em espelho de um infarto ínfero-lateral. Registrar V7-V9 e encontrar 0,5 mm de supra converte o caso em IAMCSST, com indicação de reperfusão imediata. Mandar para estratificação de risco é deixar a artéria fechada.
  4. 4Trombolisar supra em aVR com infra difuso Esse padrão indica isquemia circunferencial por lesão de tronco ou doença triarterial, não oclusão de um vaso. O tratamento é cinecoronariografia precoce; o lítico não abre nada e ainda expõe ao sangramento antes de uma possível cirurgia de revascularização.
  5. 5Tratar bloqueio de ramo esquerdo novo como IAMCSST automático A diretriz brasileira de 2025 retirou o bloqueio de ramo esquerdo novo isolado da lista de critérios diagnósticos. Ele marca risco maior, mas o que fecha o diagnóstico são os critérios de Sgarbossa — supra concordante de 1 mm, infra concordante de 1 mm em V1-V3, ou supra discordante de 5 mm / desvio de pelo menos 25% da onda precedente.
  6. 6Nitrato no infarto inferior com hipotensão O ventrículo direito infartado depende de pré-carga. Nitrato, morfina em excesso e diurético derrubam a pressão de quem já está no limite. A resposta é registrar V3R-V4R e expandir volume — e o enunciado costuma entregar a dica com turgência jugular e ausculta pulmonar limpa.
  7. 7Repetir o trombolítico quando não reperfundiu Falha de reperfusão pede angioplastia de resgate, em menos de 180 minutos do lítico. Uma segunda dose não recupera a artéria e soma risco hemorrágico; a estreptoquinase, especificamente, não pode ser repetida entre 5 dias e 10 anos da primeira aplicação.
  8. 8Transferir para angioplastia primária a qualquer custo Se o tempo previsto até o balão passa de 120 minutos, a transferência sem lítico troca uma reperfusão possível agora por uma reperfusão tardia. O caminho certo é lisar onde o paciente está e transferir em seguida. A exceção é a contraindicação absoluta ao lítico ou o choque cardiogênico — aí se transfere mesmo que demore mais.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em dor torácica sugestiva de síndrome coronariana aguda, o ECG de 12 derivações deve ser realizado e interpretado em até 10 minutos da chegada, pois define STEMI vs não-STEMI e orienta reperfusão. Ecocardiograma é útil como complemento, mas não é o primeiro passo obrigatório. Radiografia de tórax auxilia diferenciais, mas não define conduta imediata. Angiotomografia de coronárias tem papel em dor de baixo/intermediário risco, não na urgência de SCA típica. Teste ergométrico é contraindicado na fase aguda de dor isquêmica.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os cortes do supra medidos no ponto J em duas derivações contíguas — 1 mm nas derivações gerais e 2,5 / 2 / 1,5 mm em V2-V3 conforme sexo e idade — e os três relógios: eletrocardiograma em 10 minutos, agulha em 30 minutos, balão em até 120 minutos do diagnóstico. Junto, os três critérios de reperfusão aos 60 a 90 minutos: queda do supra maior que 50%, alívio da dor e arritmia de reperfusão.

em 30 dias

Os equivalentes de oclusão que não preenchem a régua dos milímetros (posterior confirmado em V7-V9, De Winter, T hiperaguda, Aslanger, Sgarbossa no bloqueio de ramo esquerdo) e o padrão de aVR que não se trombolisa. Mais as doses: tenecteplase de 30 a 50 mg por faixa de peso, com metade da dose acima de 75 anos; clopidogrel 300 mg abaixo de 75 anos e 75 mg sem ataque acima disso; enoxaparina sem bolus nos idosos. E a bifurcação do pós-lítico: resgate imediato se falhou, cateterismo de 2 a 24 horas se deu certo.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Dor precordial há 90 minutos em homem de 62 anos, com supradesnivelamento inferior ao eletrocardiograma — pronto-socorro sem serviço de hemodinâmica. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome coronariana aguda com supradesnível de ST – IAM com supradesnível de ST — Preparatório para provas | OsceLabs