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Clínica MédicaCardiologia

Insuficiência cardíaca com FE reduzida

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida (ICFEr)

A prova quase nunca pergunta se o paciente tem insuficiência cardíaca — isso vem pronto no enunciado, com a fração de ejeção. Ela pergunta o que você acrescenta hoje que faz esse paciente viver mais.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 68 anos, com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida (FEVE 30%), sintomático em classe funcional II mesmo em uso de IECA e betabloqueador em doses otimizadas. Ritmo sinusal, PA 118x74 mmHg, FC 70 bpm, potássio 4,2 mEq/L e função renal preservada. Qual medicação deve ser acrescentada para reduzir mortalidade?

02

Como esse tema cai

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida é um dos temas mais previsíveis das provas de acesso direto, do ENAMED e do Revalida — e a previsibilidade está no formato. O enunciado quase sempre já entrega o diagnóstico: dá a dispneia, dá o ecocardiograma com a fração de ejeção, às vezes dá até a classe funcional. O que ele cobra é a decisão seguinte. Que droga entra agora. Que droga sai. Se cabe dispositivo. Se aquele número de fração de ejeção ainda é ICFEr.

Este capítulo trata da insuficiência cardíaca crônica com fração de ejeção reduzida: como se define, como se classifica, e qual é o tratamento que muda mortalidade. A insuficiência cardíaca aguda descompensada — o paciente que chega ao pronto-socorro congesto, hipoperfundido ou em edema agudo — é outro capítulo, e a fronteira é explicitada no final. O infarto com supra e a síndrome coronariana sem supra também têm capítulos próprios; aqui a doença isquêmica aparece só como a principal etiologia e como critério para indicar cardiodesfibrilador.

Há um segundo motivo para este tema render questão: no Brasil existem dois documentos oficiais com recomendações que não coincidem. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia diz uma coisa sobre quem deve receber sacubitril-valsartana; o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde, que rege o acesso pelo SUS, diz outra bem mais estreita. Bancas de prova pública adoram essa fenda. Ela está mapeada no bloco de divergências.

03

O que muda decisão

O número 40 decide o capítulo inteiro

Insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica: sinais e sintomas de congestão ou de baixo débito causados por uma anormalidade estrutural ou funcional do coração. O diagnóstico da síndrome é clínico. A fração de ejeção do ventrículo esquerdo não faz o diagnóstico — ela decide o tratamento. É por isso que o ecocardiograma é obrigatório em todo paciente com IC recém-diagnosticada, e é por isso que o enunciado sempre entrega esse número.

Adote FEVE ≤ 40% como definição de ICFEr. Entre 41 e 49% é insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida (ICFElr, nomenclatura adotada pela atualização da SBC de 2021 em substituição a 'intermediária'). Com 50% ou mais é ICFEp, fração de ejeção preservada. O corte ≤ 40% é o da definição universal de 2021, o da diretriz europeia de 2021 e o que a própria atualização brasileira de 2021 usa ao se referir à ICFEr. Ele tem a vantagem prática de não deixar buraco: 40% cai em algum lugar.

Guarde que a diretriz brasileira de 2018 e o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde escrevem 'FE menor que 40%'. Na prática assistencial isso importa (define quem recebe medicação pelo SUS); numa vinheta de prova, uma fração de ejeção de exatos 40% é rara justamente porque é ambígua. Quando aparecer, marque ICFEr. A divergência está detalhada adiante.

Por que a régua da fração de ejeção manda tanto? Porque quase todo o arsenal que reduz mortalidade em insuficiência cardíaca foi testado e provado em população com fração reduzida. A diretriz brasileira é explícita: até agora, somente pacientes com ICFEr demonstraram redução consistente de morbimortalidade com o tratamento farmacológico. Ao ler 'FE 28%', você não está lendo um dado descritivo — está lendo a autorização para usar quatro classes de droga.

O ventrículo que dilata: por que as quatro drogas funcionam

Uma agressão inicial reduz o débito — um infarto que mata miocárdio, uma sobrecarga pressórica crônica, uma miocardite. O organismo responde como responderia a uma hemorragia: ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona e o sistema nervoso simpático. Retém sódio e água, vasoconstringe, acelera a frequência cardíaca. No curto prazo, mantém a pressão. No longo prazo, é essa resposta que mata o paciente.

A angiotensina II e a aldosterona promovem hipertrofia de miócitos e fibrose intersticial. A noradrenalina cronicamente elevada é tóxica para o miócito e arritmogênica. O ventrículo dilata, perde a geometria elíptica e vira esférico. Ao esferificar, o anel mitral se alarga e as cordoalhas tracionam os folhetos: aparece insuficiência mitral funcional, que sobrecarrega ainda mais o ventrículo. Esse ciclo tem nome — remodelamento — e é a doença de verdade.

Daí a lógica inteira do tratamento. Diurético alivia congestão e faz o paciente se sentir melhor, mas não interrompe o remodelamento e não prolonga vida. As drogas que prolongam vida são as que bloqueiam o eixo neuro-humoral: inibidor da enzima conversora (ou o inibidor da neprilisina e do receptor de angiotensina), betabloqueador, antagonista do receptor mineralocorticoide. O quarto pilar, o inibidor de SGLT2, entrou por outra porta — foi descoberto em estudos cardiovasculares de diabetes — mas produz o mesmo tipo de benefício, com ou sem diabetes.

Guarde essa distinção porque ela é o gabarito de uma família inteira de questões: 'qual das condutas abaixo reduz mortalidade?'. Furosemida, não. Digoxina, não. Os quatro pilares, sim.

Dois cortes de coração lado a lado: à esquerda, ventrículo esquerdo normal, com cavidade pequena e parede espessa; à direita, ventrículo esquerdo dilatado e esférico, com parede afinada e folhetos mitrais afastados.
O remodelamento é a doença. Conforme o ventrículo dilata e perde a forma elíptica, a parede afina e o anel mitral se alarga — surge regurgitação funcional, que sobrecarrega ainda mais a câmara. Os quatro pilares agem exatamente sobre esse ciclo; o diurético, não.

Etiologia no Brasil: isquêmica lidera, mas Chagas está no enunciado

O registro brasileiro breathe, citado pela diretriz da SBC, descreve o perfil etiológico dos pacientes internados por insuficiência cardíaca no país: isquêmica 30%, hipertensiva 20%, dilatada idiopática 15%, valvar 12% e doença de Chagas 11%. Duas leituras interessam à prova. A primeira: cardiopatia isquêmica é a causa mais comum, o que justifica investigar doença coronariana em todo paciente com ICFEr de início recente. A segunda: Chagas responde por um em cada nove casos internados, uma proporção que não existe em nenhuma diretriz internacional. Quando a vinheta cita procedência de área endêmica, sorologia positiva ou alterações de condução no eletrocardiograma, é disso que ela está falando.

A doença de Chagas tem particularidades que rendem questão. Só produz ICFEr — não existe ICFEp chagásica. A mortalidade da IC chagásica chega a 20% ao ano, pior do que a das etiologias isquêmica e não isquêmica, com evolução comparável ou até mais desfavorável que a de pacientes na fila de transplante. E o tratamento farmacológico de base é o mesmo das outras etiologias: inibidor da ECA ou bloqueador do receptor, betabloqueador, antagonista da aldosterona e diurético, todos em doses convencionais.

Três detalhes específicos de Chagas: benznidazol não traz benefício ao paciente que já tem disfunção ventricular estabelecida; amiodarona está associada a maior mortalidade e à indução de arritmias no estudo eletrofisiológico, devendo ser reservada para arritmia ventricular complexa, sintomática e refratária a betabloqueador; e a anticoagulação não é rotineira — reserva-se a tromboembolismo prévio, fibrilação atrial, aneurisma de ponta do ventrículo esquerdo e trombo mural. Para cardiodesfibrilador, há suporte em prevenção secundária; em prevenção primária faltam ensaios clínicos randomizados na população chagásica.

O diagnóstico é clínico — e os escores estão no protocolo oficial

O Protocolo Clínico do Ministério da Saúde é direto: o diagnóstico de insuficiência cardíaca é clínico, baseado em sinais e sintomas sugestivos, alteração estrutural ou funcional cardíaca, evidência inequívoca de congestão de origem cardiogênica ou peptídeos natriuréticos elevados. Em muitos cenários basta anamnese, exame físico, eletrocardiograma e radiografia de tórax. Peptídeo e ecocardiograma entram quando há dúvida.

O exame físico não é sensível, é específico. Dispneia é o sintoma mais frequente, e é o menos discriminante — está em asma, DPOC, embolia, anemia, ansiedade. Os achados que realmente movem a probabilidade são turgência venosa jugular, refluxo hepatojugular e terceira bulha (ritmo de galope). O próprio protocolo registra o paradoxo: são achados de elevada suspeição que, na maioria dos pacientes com a doença, não estão presentes. Traduzindo para a prova: a ausência não afasta; a presença praticamente fecha. Quando o enunciado se dá ao trabalho de descrever B3, ela está lá para ser usada.

O Ministério da Saúde reproduz dois escores clínicos. Os critérios de Framingham exigem, para o diagnóstico, dois critérios maiores ou um maior mais dois menores. São maiores: dispneia paroxística noturna, turgência jugular, cardiomegalia à radiografia, edema agudo de pulmão, terceira bulha, pressão venosa central acima de 16 cmH2O, refluxo hepatojugular e perda de mais de 4,5 kg em cinco dias em resposta ao tratamento. São menores: edema bilateral de tornozelos, tosse noturna, dispneia aos esforços ordinários, hepatomegalia, derrame pleural, queda de um terço na capacidade funcional e taquicardia acima de 120 bpm.

Os critérios de Boston somam pontos em três categorias — história, exame físico e radiografia — com no máximo quatro pontos por categoria: até 4 pontos o diagnóstico é improvável, de 5 a 7 é possível, de 8 a 12 é definitivo. É a faixa de 5 a 7 que dispara a investigação com peptídeo ou ecocardiograma. Vale decorar os itens de maior peso, que valem 4 pontos cada: dispneia em repouso, ortopneia e edema pulmonar alveolar na radiografia.

Três vinhetas do exame de congestão: pressão venosa jugular interna elevada a 45 graus, refluxo abdominojugular e edema maleolar com fóvea.
Turgência jugular, refluxo hepatojugular e terceira bulha são pouco sensíveis e muito específicos. Não afastam a doença quando ausentes, mas quando o enunciado os descreve, estão lá para fechar o diagnóstico.

Peptídeos natriuréticos: o exame que serve para descartar

BNP e NT-proBNP têm desempenho diagnóstico equivalente e são intercambiáveis. A força deles está no valor preditivo negativo: peptídeo baixo em paciente com dispneia praticamente descarta insuficiência cardíaca e manda procurar outro diagnóstico. Peptídeo alto não fecha nada sozinho — obriga a confirmar com ecocardiograma.

No ambulatório, os cortes que descartam são BNP abaixo de 35 pg/mL e NT-proBNP abaixo de 125 pg/mL. O Ministério da Saúde adota exatamente esses dois números. A diretriz da SBC discute a faixa de 35 a 50 pg/mL para o BNP: 35 pg/mL privilegia sensibilidade e reduz falso-negativos; 50 pg/mL privilegia especificidade e reduz investigações desnecessárias. Para prova, use 35 pg/mL — é o valor do protocolo oficial brasileiro.

Na emergência os cortes são outros, mais altos, porque a pré-teste é maior e a congestão aguda eleva mais o peptídeo. Para o BNP: abaixo de 100 pg/mL torna IC improvável, acima de 400 pg/mL torna muito provável, e a faixa de 100 a 400 é a zona cinzenta. Para o NT-proBNP a régua é estratificada por idade: improvável abaixo de 300 pg/mL em qualquer idade; muito provável acima de 450 pg/mL abaixo dos 50 anos, acima de 900 pg/mL entre 50 e 75 anos, e acima de 1.800 pg/mL após os 75 anos. O número que quase todo mundo esquece é o único que serve para descartar em qualquer faixa etária: 300.

Peptídeo elevado tem muitas causas que não são insuficiência cardíaca. De origem cardíaca: síndrome coronariana aguda, embolia pulmonar, miocardite, hipertrofia ventricular esquerda, cardiomiopatia hipertrófica ou restritiva, doença valvar, cardiopatia congênita, taquiarritmias, contusão cardíaca, cardioversão e choque de desfibrilador, cirurgia cardíaca, hipertensão pulmonar. De origem não cardíaca: AVC isquêmico, hemorragia subaracnoide, disfunção renal moderada a grave, disfunção hepática moderada a grave, infecções graves e sepse, queimaduras extensas, anemia e distúrbios metabólicos ou hormonais graves. Fibrilação atrial eleva o peptídeo e exige cortes mais altos; obesidade faz o contrário, reduz os níveis e pode gerar falso-negativo.

Uma pegadinha de mecanismo: em quem usa sacubitril-valsartana, o monitoramento deve ser feito com NT-proBNP, não com BNP. O sacubitril inibe a neprilisina, que é justamente a enzima que degrada o BNP — o BNP sobe por efeito da droga, sem que o paciente tenha piorado. O NT-proBNP não é substrato da neprilisina e continua interpretável. E, de modo geral, não se titula tratamento perseguindo um alvo de peptídeo: a estratégia guiada por biomarcador não está indicada.

Os quatro pilares — e por que a ordem antiga caiu

Quatro classes reduzem mortalidade na ICFEr e formam o esqueleto do tratamento: bloqueio do eixo renina-angiotensina (IECA, ou BRA se houver tosse, ou sacubitril-valsartana), betabloqueador com evidência específica em IC, antagonista do receptor mineralocorticoide e inibidor de SGLT2. Todo paciente com ICFEr sintomático deve terminar com as quatro, salvo contraindicação ou intolerância.

O bloqueio do eixo renina-angiotensina é a base. Enalapril começa com 2,5 mg de 12 em 12 horas e vai até 10-20 mg de 12 em 12 horas; captopril começa com 6,25 mg de 8 em 8 horas e vai até 50 mg de 8 em 8 horas. Se houver tosse — efeito da bradicinina, não alergia —, troque por bloqueador do receptor: losartana de 25 mg/dia até 150 mg/dia. Tosse não contraindica BRA. Angioedema prévio com IECA, sim, é motivo para cautela e contraindica sacubitril-valsartana.

Betabloqueador na insuficiência cardíaca não é efeito de classe. Só três têm evidência de redução de mortalidade e são os que a diretriz nomeia: carvedilol, succinato de metoprolol e bisoprolol. Atenolol e propranolol não entram. Carvedilol começa com 3,125 mg de 12 em 12 horas; succinato de metoprolol com 12,5 a 25 mg/dia até 200 mg/dia; bisoprolol com 1,25 mg/dia até 10 mg/dia. Duas regras práticas: nunca inicie betabloqueador em paciente congesto — estabilize primeiro; e o benefício pode demorar meses a aparecer, chegando a se manifestar apenas depois de doze meses de uso. Se houver piora sintomática ao titular, ajuste diurético e vasodilatador antes de cogitar reduzir ou suspender o betabloqueador.

O antagonista mineralocorticoide disponível é a espironolactona, de 12,5-25 mg/dia até 25-50 mg/dia. É a classe que mais exige vigilância laboratorial: dosar potássio e creatinina antes de iniciar e a cada aumento de dose. Não iniciar com potássio acima de 5,0 mEq/L ou com filtração glomerular abaixo de 30 mL/min/1,73 m². Ginecomastia dolorosa é o efeito adverso que costuma motivar a troca por eplerenona.

O inibidor de SGLT2 é o pilar mais novo e o mais fácil de prescrever: dapagliflozina 10 mg uma vez ao dia, sem titulação — a dose inicial é a dose-alvo. A recomendação brasileira é Classe I, nível de evidência A, para pacientes sintomáticos, diabéticos ou não. No DAPA-HF, 4.744 pacientes com ICFEr, a dapagliflozina reduziu em 26% o desfecho combinado de morte cardiovascular ou piora da IC, com redução isolada de 18% em morte cardiovascular e 30% em piora da IC. No emperor-Reduced, com empagliflozina e 3.730 pacientes mais graves, houve redução de 25% no combinado, mas sem redução isolada de morte cardiovascular. A metanálise dos dois, com 8.474 pacientes, mostrou 13% de redução de morte por todas as causas. O benefício independe de diabetes e se mantém com filtração glomerular reduzida.

Sacubitril-valsartana entra no lugar do IECA ou do BRA — nunca junto. No paradigm-HF, em pacientes ambulatoriais sintomáticos com FEVE ≤ 40%, peptídeos elevados e clearance de creatinina ≥ 30 mL/min/1,73 m², foi superior ao enalapril em internação por piora da IC, mortalidade cardiovascular, morte súbita e mortalidade geral. Três cuidados que viram questão: é obrigatório um intervalo de 36 horas sem IECA antes da primeira dose (se o paciente vinha de BRA, não há washout); a associação simultânea com IECA é Classe III, contraindicada, pelo risco de angioedema; e história prévia de angioedema também é Classe III. A dose inicial é 49/51 mg de 12 em 12 horas em quem tolera doses altas de IECA/BRA e tem pressão sistólica acima de 100 mmHg, ou 24/26 mg de 12 em 12 horas em idosos, hipotensos ou em quem só tolera doses baixas; o alvo é 97/103 mg de 12 em 12 horas, dobrando a cada 2 a 4 semanas. Atenção à nomenclatura da caixa, que confunde: o comprimido de 50 mg é o 24/26, o de 100 mg é o 49/51 e o de 200 mg é o 97/103.

Sobre a ordem de introdução, decida pela versão atual: comece as quatro classes cedo, em doses baixas, e titule depois — não espere três a seis meses entre uma e outra. O algoritmo de 2018 da diretriz brasileira prescrevia terapia tripla com reavaliação a cada 3 a 6 meses antes de acrescentar qualquer coisa; a diretriz europeia de 2021 abandonou essa sequência rígida e passou a listar as quatro classes como recomendação Classe I para todo paciente com ICFEr. A lógica é aritmética: cada pilar tem benefício independente e aditivo, e o paciente que morre no quarto mês nunca chegou ao quarto pilar. O inibidor de SGLT2 favorece essa estratégia por não precisar de titulação. Titule cada droga a cada 2 semanas, com pressão, potássio e creatinina em mãos, até a dose-alvo ou a máxima tolerada.

O que entra depois dos quatro pilares

Diurético de alça é sintomático e obrigatório em quem tem congestão — furosemida 20-40 mg/dia, com faixa usual de 40 a 240 mg/dia conforme a volemia. A regra é a menor dose necessária para manter o paciente seco: dose alta demais desidrata, ativa ainda mais o eixo renina-angiotensina e atrapalha a titulação dos pilares. Diurético não prolonga vida e nunca é a resposta de uma questão que pergunta o que reduz mortalidade.

Ivabradina inibe seletivamente a corrente If no nó sinoatrial e reduz a frequência sem efeito inotrópico negativo. Indicação: paciente sintomático em terapia otimizada, em ritmo sinusal, com FEVE ≤ 35% e frequência cardíaca ≥ 70 bpm apesar de betabloqueador na dose máxima tolerada. É recomendação Classe IIa, com redução de hospitalização e de morte por IC no estudo SHIFT, sem impacto significativo na mortalidade por qualquer causa. Não serve em fibrilação atrial — a droga age no nó sinusal, que na FA não comanda. Detalhe brasileiro que rende questão de política de saúde: a ivabradina não foi incorporada ao SUS, decisão da Conitec de 2016 registrada no próprio protocolo do Ministério.

Hidralazina associada a nitrato tem duas indicações distintas, e a prova confunde as duas. Em paciente com contraindicação a IECA e a BRA — por exemplo, insuficiência renal avançada ou angioedema prévio —, a associação é Classe I, de qualquer etnia. Em paciente afrodescendente autodeclarado que permanece sintomático apesar da terapia otimizada, ela entra como acréscimo. Doses: hidralazina de 25 mg até 100 mg de 8 em 8 horas, e dinitrato de isossorbida de 20 mg até 40 mg de 8 em 8 horas.

Digoxina não reduz mortalidade. No estudo DIG, com 6.800 pacientes sintomáticos, FE ≤ 45% e ritmo sinusal, não houve diferença em mortalidade total após 37 meses — o que houve foi redução de hospitalização. Serve para paciente que persiste sintomático apesar de tudo, e para controle de frequência na fibrilação atrial quando o betabloqueador não basta. Dose de 0,125 mg em dias alternados até 0,25 mg/dia, com janela terapêutica estreita: nível sérico acima de 1,2 ng/mL associou-se a maior risco de morte em pacientes com IC e fibrilação atrial.

Reposição de ferro intravenoso com carboximaltose férrica é Classe IIa em paciente com ICFEr e deficiência de ferro, mesmo sem anemia, para melhorar capacidade de exercício e qualidade de vida e reduzir hospitalização. Os critérios são numéricos e caem em prova: ferritina abaixo de 100 ng/mL, ou ferritina entre 100 e 299 ng/mL com saturação de transferrina abaixo de 20%. Vale também após estabilização de uma descompensação, para reduzir readmissão (estudo AFFIRM-AHF, redução de hospitalização por IC, sem impacto em morte cardiovascular). Ferro oral não substitui — a absorção intestinal está prejudicada pela inflamação crônica.

Duas medidas simples que a diretriz recomenda com Classe I e que o aluno esquece: vacinação anual contra influenza e vacinação periódica contra pneumococo, e reabilitação cardiovascular com exercício aeróbico supervisionado. O protocolo do Ministério detalha o alvo de treino: 25 a 60 minutos por dia, ao menos três vezes por semana, contraindicado em arritmia não controlada, valvopatia grave, IC descompensada e classe funcional IV.

Dispositivos: quem ganha CDI e quem ganha ressincronizador

Morte súbita responde por 30 a 50% dos óbitos em insuficiência cardíaca, e cerca de 80% delas decorrem de taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular. O cardiodesfibrilador implantável ataca esse mecanismo específico; ele não trata a insuficiência cardíaca, previne a arritmia fatal.

Em prevenção secundária a indicação é Classe I e quase automática: sobrevivente de parada cardíaca por fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sustentada com instabilidade hemodinâmica grave, excluída causa totalmente reversível; ou doença cardíaca estrutural com taquicardia ventricular sustentada espontânea documentada, estável ou instável.

Em prevenção primária a combinação que a prova cobra é: cardiomiopatia isquêmica, FEVE ≤ 35%, classe funcional NYHA II-III, mais de 40 dias após o infarto e sob terapia clínica otimizada — Classe I na diretriz brasileira. Os dois números são armadilhas clássicas: 35%, não 40%; e 40 dias, não 40 horas. Implantar antes disso não reduz mortalidade, porque nesse intervalo a fração de ejeção ainda pode recuperar com revascularização e otimização clínica. Some a exigência de ao menos 3 meses de terapia otimizada antes de reavaliar a FEVE, como a diretriz europeia explicita.

Em cardiomiopatia não isquêmica a indicação é mais frágil. O estudo DANISH não demonstrou redução de mortalidade total com o CDI nessa população; metanálises posteriores mostraram benefício, sobretudo em pacientes com menos de 70 anos e naqueles que também receberam ressincronização. A leitura prática: a indicação existe, mas exige estratificação adicional de risco. Não se indica CDI para prevenção primária em paciente com baixa expectativa de vida, infarto recente, isquemia tratável por revascularização, comorbidade grave (neoplasia, doença renal crônica avançada, DPOC grave) ou em tempestade elétrica — nesses cenários a recomendação é Classe III.

A terapia de ressincronização cardíaca resolve outro problema: a dissincronia. No bloqueio de ramo esquerdo, os ventrículos se contraem fora de fase, e o eletrodo adicional no ventrículo esquerdo restaura a coordenação. O quarteto de Classe I é: IC sintomática, FEVE ≤ 35%, ritmo sinusal, morfologia de bloqueio completo de ramo esquerdo e QRS ≥ 150 ms, apesar de terapia otimizada. Com BRE e QRS entre 130 e 150 ms, cai para Classe IIa. Sem padrão de bloqueio de ramo esquerdo e com QRS ≤ 160 ms, é Classe III — não implante. A regra que resume: quanto mais largo o QRS e mais típico o bloqueio de ramo esquerdo, maior o benefício.

Note que o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde declara explicitamente que dispositivos como a ressincronização estão fora do seu escopo. Numa questão sobre indicação de TRC ou CDI, a fonte a usar é a diretriz da SBC ou a europeia, não o PCDT.

A fronteira com a descompensação aguda

Este capítulo trata da IC crônica estável. O paciente que chega ao pronto-socorro com dispneia de início abrupto, congestão pulmonar franca ou sinais de baixo débito — hipoperfusão, hipotensão, choque — está em insuficiência cardíaca aguda ou em descompensação aguda de IC crônica, e é assunto de outro capítulo. O Protocolo Clínico do Ministério exclui esses pacientes do seu escopo de forma explícita, o que é uma boa pista de que se trata de outro raciocínio.

Três pontos de contato entre os dois territórios merecem ficar aqui. Primeiro: todo paciente que descompensa deve ser investigado quanto ao gatilho — síndrome coronariana aguda, miocardite, doença valvar, fibrilação atrial de alta resposta, má adesão, infecção, anti-inflamatório não hormonal. Segundo: betabloqueador não se inicia durante a congestão, mas em quem já usava, ele não deve ser suspenso automaticamente na descompensação — ajusta-se diurético primeiro. Terceiro: a alta hospitalar por descompensação é o melhor momento para reforçar os quatro pilares e repor ferro, porque a internação recente é justamente o marcador de maior risco de reinternação e óbito.

Encaminhe ao especialista, conforme o próprio protocolo: paciente descompensado agudamente, paciente em NYHA III-IV apesar de tratamento otimizado, paciente com internação recente por IC e paciente com disfunção grave que possa ser candidato a dispositivo ou transplante.

04

Da suspeita ao quarto pilar

O caminho completo, do primeiro sintoma até o tratamento que muda mortalidade. Os cards abaixo destrincham a classificação funcional da NYHA — a régua que a vinheta usa para dizer o quanto o paciente está limitado — e a tabela fecha com as quatro classes que precisam estar prescritas ao final.

  1. 1Sintoma sugestivo (dispneia aos esforços, ortopneia, dispneia paroxística noturna, edema) mais exame físico dirigido a turgência jugular, refluxo hepatojugular e terceira bulha. Eletrocardiograma e radiografia de tórax entram já nesta etapa.
  2. 2Probabilidade clínica baixa ou moderada: dosar BNP ou NT-proBNP. Abaixo de 35 pg/mL (BNP) ou 125 pg/mL (NT-proBNP) no ambulatório, o diagnóstico é improvável — procure outra causa para a dispneia.
  3. 3Peptídeo elevado ou probabilidade alta: ecocardiograma transtorácico. Ele confirma a síndrome e, sobretudo, entrega a fração de ejeção, que decide o tratamento.
  4. 4FEVE ≤ 40% define ICFEr. Classifique a gravidade pela NYHA e investigue a etiologia — isquêmica em primeiro lugar, sorologia para Chagas conforme a procedência.
  5. 5Inicie os quatro pilares em doses baixas nas primeiras semanas: IECA (ou BRA se houver tosse), betabloqueador com evidência (carvedilol, succinato de metoprolol ou bisoprolol), espironolactona e dapagliflozina. Diurético de alça só para congestão, na menor dose necessária.
  6. 6Titule a cada 2 semanas com pressão arterial, potássio e creatinina até a dose-alvo ou a máxima tolerada. Persistindo sintomático, troque o IECA por sacubitril-valsartana, respeitando 36 horas sem IECA.
  7. 7Reavalie a FEVE após pelo menos 3 meses de terapia otimizada. Se permanecer ≤ 35%, avalie dispositivo: CDI conforme etiologia e classe funcional, TRC se houver bloqueio de ramo esquerdo com QRS ≥ 150 ms.

NYHA I

Ausência de sintomas. Nenhuma limitação para atividade física: as atividades habituais não causam dispneia, cansaço ou palpitações. Já há doença estrutural — e o tratamento é o mesmo.

NYHA II

Limitação leve. As atividades físicas habituais causam dispneia, cansaço ou palpitações; em repouso está confortável. É a classe da maioria das vinhetas ambulatoriais — e a única contemplada pelo SUS para sacubitril-valsartana.

NYHA III

Limitação importante. Atividades menos intensas que as habituais já causam sintomas, mas o repouso ainda é confortável. Junto com a classe IV, marca risco progressivamente maior de internação e óbito.

NYHA IV

Sintomas em repouso. Incapacidade de realizar qualquer atividade sem desconforto. Contraindica exercício aeróbico e é critério para encaminhamento a serviço especializado, mesmo com tratamento otimizado.

PilarFármaco e dose inicialDose-alvoCuidado que decide a questão
Bloqueio do eixo renina-angiotensinaEnalapril 2,5 mg 12/12h · Captopril 6,25 mg 8/8h · Losartana 25 mg/diaEnalapril 10-20 mg 12/12h · Captopril 50 mg 8/8h · Losartana 150 mg/diaTosse pede troca por BRA, não suspensão do bloqueio. Angioedema prévio é outra história.
BetabloqueadorCarvedilol 3,125 mg 12/12h · Succinato de metoprolol 12,5-25 mg/dia · Bisoprolol 1,25 mg/diaCarvedilol 25 mg 12/12h · Succinato de metoprolol 200 mg/dia · Bisoprolol 10 mg/diaSó estes três têm evidência. Não iniciar em paciente congesto; o benefício pode levar meses.
Antagonista mineralocorticoideEspironolactona 12,5-25 mg/diaEspironolactona 25-50 mg/diaPotássio e creatinina antes e a cada aumento. Evitar com K acima de 5,0 ou TFG abaixo de 30.
Inibidor de SGLT2Dapagliflozina 10 mg/diaDapagliflozina 10 mg/dia (sem titulação)Classe I A, com ou sem diabetes. Dose inicial já é a dose-alvo.
Substituição: INRA no lugar do IECA/BRASacubitril-valsartana 24/26 mg 12/12h (ou 49/51 se PAS acima de 100 mmHg e dose alta prévia de IECA/BRA)Sacubitril-valsartana 97/103 mg 12/12h36 horas sem IECA antes da 1ª dose. Uso simultâneo com IECA e angioedema prévio são Classe III.

A dose-alvo do carvedilol diverge entre as duas fontes brasileiras: a tabela da diretriz da SBC de 2018 registra 50 mg de 12 em 12 horas; o Protocolo Clínico do Ministério da Saúde de 2024 registra 25 mg de 12 em 12 horas. Para prova, use 25 mg de 12 em 12 horas — é o número do documento oficial mais recente. Nas demais drogas as duas tabelas coincidem.

O comprimido de sacubitril-valsartana é rotulado pela soma dos dois componentes, o que gera confusão: 50 mg equivale a 24/26 mg, 100 mg a 49/51 mg e 200 mg a 97/103 mg. O Protocolo do Ministério usa a nomenclatura da soma (início 50 mg 12/12h, alvo 200 mg 12/12h); a diretriz da SBC usa a fracionada. É a mesma prescrição.

A reavaliação da fração de ejeção para decidir dispositivo só faz sentido após terapia clínica realmente otimizada e por tempo suficiente — ao menos 3 meses. Muitos pacientes saem da faixa de indicação de CDI apenas com os quatro pilares titulados.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O corte de fração de ejeção que define ICFEr: menor que 40% ou menor ou igual a 40%?

Documentos brasileiros oficiais dizem FE menor que 40%

O Quadro 1.1 da diretriz da SBC de 2018 define ICFEr como FEVE < 40% e reserva a faixa de 40 a 49% para a fração de ejeção intermediária. O Protocolo Clínico do Ministério da Saúde de 2024 repete esse corte e o usa como critério de inclusão: só entra no protocolo o paciente com fração de ejeção reduzida definida como < 40%, ficando excluído quem tem FE > 40%.

SBC, Diretriz Brasileira de IC Crônica e Aguda 2018, Quadro 1.1; Ministério da Saúde, PCDT da ICFEr, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 10/2024, itens 4 e 5

A definição atual diz FE menor ou igual a 40%

A definição universal de insuficiência cardíaca de 2021, adotada pela diretriz europeia do mesmo ano e refletida na atualização brasileira de 2021, estabelece ICFEr como FEVE ≤ 40%, ICFElr (levemente reduzida) entre 41 e 49% e ICFEp com 50% ou mais. É a única partição que não deixa nenhum valor órfão.

ESC 2021 Guidelines for acute and chronic heart failure (resumo oficial de pontos-chave do ACC); SBC, Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de IC 2021, item sobre ICFElr

Na prova

O tipo de pergunta define a régua. Questão de definição, classificação ou fisiopatologia trabalha a partição universal de 2021 (ESC e Atualização da SBC): ICFEr com FEVE ≤ 40%, levemente reduzida de 41 a 49%, preservada de 50% para cima — a única divisão que não deixa valor órfão, e na qual o paciente com FEVE exatamente 40% cai na ICFEr. Questão que cite nominalmente o PCDT do Ministério ou trate de acesso a medicamento, dispensação e elegibilidade no SUS usa o corte administrativo do protocolo, herdado do Quadro 1.1 da SBC 2018: FE < 40% como critério de inclusão — uma régua de acesso ao recurso público, não uma discordância sobre o que a doença é; repare que essa questão será sobre elegibilidade, não sobre fisiopatologia. O vocabulário denuncia o documento: 'levemente reduzida (ICFElr)' só existe nos textos de 2021; 'fração de ejeção intermediária (40 a 49%)' pertence à SBC 2018. Prova oficial do MEC tende à conduta SUS; nas demais bancas, o valor exato de 40% na vinheta e a faixa 41-49% presente (ou não) nas alternativas revelam a partição em jogo.

Quatro pilares simultâneos ou terapia tripla sequencial?

Sequencial: terapia tripla primeiro, o resto depois

O algoritmo da Figura 7.1 da diretriz brasileira de 2018 monta terapia tripla — IECA (ou BRA), betabloqueador e antagonista mineralocorticoide — e só reavalia para acrescentar outras estratégias a cada 3 a 6 meses. O Protocolo do Ministério mantém a mesma arquitetura: define 'tratamento padrão' como IECA, betabloqueador, BRA e antagonista de aldosterona, com ou sem diurético, e coloca dapagliflozina e sacubitril-valsartana como acréscimo ou substituição em quem permanece sintomático, com reavaliação 4 semanas após a otimização da dose do último fármaco.

SBC 2018, Figura 7.1; Ministério da Saúde, PCDT da ICFEr 2024, item 6.2 e Figura 2

Simultâneo: as quatro classes cedo, em dose baixa

A diretriz europeia de 2021 lista as quatro classes como recomendação Classe I para o paciente com ICFEr sem exigir ordem entre elas, e a atualização brasileira de 2021 já classifica o inibidor de SGLT2 como Classe I, nível A. Como cada pilar tem efeito independente e aditivo, esperar meses entre um e outro deixa o paciente exposto no intervalo — e o inibidor de SGLT2 nem precisa de titulação.

ESC 2021 Guidelines (resumo oficial de pontos-chave do ACC); SBC, Atualização 2021, Tabela 7.3 (iSGLT2, Classe I, nível A)

Na prova

O recorte típico: questão de conduta contemporânea, citando a ESC 2021 ou a Atualização brasileira de 2021, trabalha os quatro pilares como Classe I sem ordem obrigatória — início precoce, em doses baixas, com titulação, e com o detalhe de que o inibidor de SGLT2 nem exige titulação; questão amarrada ao PCDT do Ministério ou à Figura 7.1 da SBC 2018 segue a arquitetura sequencial: terapia tripla primeiro, reavaliação (a cada 3 a 6 meses na diretriz de 2018; 4 semanas após otimizar a dose do último fármaco, no protocolo) e só então acréscimo ou substituição. O desenho sequencial do protocolo público reflete cronologia e a lógica de dispensação escalonada do SUS — não uma negação do efeito independente e aditivo de cada classe. Há uma zona de convergência útil: no paciente já em terapia tripla otimizada e ainda sintomático, o acréscimo do inibidor de SGLT2 é sustentado pelos dois corpos (Classe I, nível A na Atualização; acréscimo previsto no próprio PCDT). Ivabradina, digoxina ou aumento de diurético como 'próximo passo que reduz mortalidade' não encontram apoio em nenhum dos documentos.

Quem pode receber sacubitril-valsartana

Diretriz: qualquer ICFEr sintomática em terapia otimizada

A recomendação é Classe I para substituir o IECA (ou BRA) por sacubitril-valsartana em todo paciente com disfunção ventricular sintomática que persista assim apesar de doses otimizadas dos bloqueadores neuro-hormonais. Sem teto de idade, sem exigir classe funcional específica, sem exigir dosagem de peptídeo — o PARADIGM-HF incluiu pacientes com FEVE ≤ 40%.

SBC, Diretriz Brasileira de IC 2018, item 7.4 e tabela de recomendações (Classe I, nível B, PARADIGM-HF)

SUS: cinco critérios cumulativos e estreitos

O Protocolo do Ministério só libera sacubitril-valsartana para quem preencher, ao mesmo tempo: idade abaixo de 75 anos; classe funcional NYHA II; FEVE ≤ 35%; BNP acima de 150 pg/mL ou NT-proBNP acima de 600 pg/mL; e estar em doses máximas toleradas de IECA ou BRA, betabloqueador e espironolactona, com diurético adequado se houver congestão, ainda sintomático. É o único cenário em que o protocolo autoriza dosar peptídeo em paciente já diagnosticado.

Ministério da Saúde, PCDT da ICFEr, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 10/2024, item 4 (Critérios de inclusão)

Na prova

Leia o enunciado antes de escolher a régua. Questão de conduta clínica trabalha a diretriz da SBC (Classe I): sacubitril-valsartana no lugar do IECA ou BRA em qualquer ICFEr que permaneça sintomática apesar de doses otimizadas — sem teto de idade, sem classe funcional específica, sem exigência de peptídeo (o PARADIGM-HF incluiu FEVE ≤ 40%). Questão de saúde pública, prova oficial do MEC (ENAMED, Revalida) ou enunciado que mencione SUS, APS ou dispensação trabalha o PCDT, que exige cinco critérios cumulativos: menos de 75 anos, NYHA II, FEVE ≤ 35%, BNP acima de 150 pg/mL ou NT-proBNP acima de 600 pg/mL, e doses máximas toleradas de IECA/BRA, betabloqueador e espironolactona — uma régua de acesso ao recurso público, típica de incorporação de medicamento de custo alto, e não uma contestação clínica do ensaio. A pegadinha habitual mora na fresta entre os dois mundos: o paciente de 78 anos ou em NYHA III, que a diretriz trataria e o protocolo não contempla — o vocabulário da vinheta diz qual régua está em jogo. Para não cruzar os fios: os critérios da dapagliflozina no SUS são amplos — 18 anos ou mais, NYHA II a IV, FE < 40% e sintomas.

06

Caso resolvido

Homem de 61 anos, hipertenso e ex-tabagista, com infarto anterior há três anos. Vem ao ambulatório referindo que há seis meses cansa ao subir um lance de escada e ao caminhar rápido, mas fica confortável em repouso. Nega dispneia paroxística noturna. Ao exame: PA 118/74 mmHg, FC 76 bpm, ritmo regular, turgência jugular a 45 graus, terceira bulha, estertores em bases e edema depressível ++/4 em tornozelos. Ecocardiograma de duas semanas atrás: ventrículo esquerdo dilatado, FEVE 29%, insuficiência mitral moderada. Eletrocardiograma: ritmo sinusal, área inativa anterior, QRS de 98 ms. Está em uso de enalapril 10 mg de 12 em 12 horas, carvedilol 25 mg de 12 em 12 horas, espironolactona 25 mg/dia e furosemida 40 mg/dia. Potássio 4,3 mEq/L, creatinina 1,1 mg/dL.
achado
FEVE 29% em paciente sintomático: é ICFEr, e o tratamento inteiro que reduz mortalidade está liberado. O ecocardiograma de duas semanas dispensa repetir o exame agora.
achado
Sintomas às atividades habituais, conforto em repouso: NYHA II. Não é uma descrição decorativa — é a classe que a diretriz e o protocolo usam para decidir droga e para autorizar dispensação.
achado
Infarto anterior há três anos e área inativa no eletrocardiograma: etiologia isquêmica. Isso importa duas vezes — reforça a indicação de CDI mais adiante e obriga a garantir que não há isquemia tratável pendente.
raciocínio
Confira quais pilares já estão de pé. Enalapril 10 mg de 12 em 12 horas está na faixa-alvo; carvedilol 25 mg de 12 em 12 horas está na dose-alvo do PCDT; espironolactona 25 mg/dia está na faixa-alvo. Três pilares otimizados. Falta um: o inibidor de SGLT2.
conduta
Iniciar dapagliflozina 10 mg uma vez ao dia. Sem titulação, sem depender de diabetes, recomendação Classe I nível A. É a única droga do caso que acrescenta redução de mortalidade cardiovascular e de hospitalização a quem já está em terapia tripla otimizada.
raciocínio
E sacubitril-valsartana, já que ele segue sintomático? Pela diretriz, sim, está indicado no lugar do enalapril. Pelo Protocolo do Ministério, ele preenche idade (61 anos), classe (NYHA II) e terapia otimizada, mas a FEVE de 29% cumpre o ≤ 35% e falta apenas dosar BNP ou NT-proBNP para completar os critérios. Solicite o peptídeo — é a única situação em que o protocolo autoriza dosá-lo em paciente já diagnosticado.
conduta
Congestão ainda presente (turgência, estertores, edema): mantenha ou ajuste a furosemida pelo peso e pelos sinais, na menor dose que mantenha o paciente seco. Diurético alivia, não prolonga vida — não conte com ele como resposta a nada.
conduta
Dispositivo: QRS de 98 ms afasta ressincronizador (o corte é 130 ms, e o benefício maior está acima de 150 ms com bloqueio de ramo esquerdo). Já o CDI para prevenção primária é candidato forte — etiologia isquêmica, FEVE ≤ 35%, NYHA II, mais de 40 dias pós-infarto. Otimize os quatro pilares, reavalie a FEVE após ao menos 3 meses e, se permanecer ≤ 35%, encaminhe para implante.
07

Agora feche você

Mulher de 68 anos, natural do norte de Minas Gerais, chega ao ambulatório de referência com dispneia aos médios esforços há um ano, hoje limitando atividades menos intensas que as habituais, e duas internações por descompensação nos últimos oito meses. Sorologia para doença de Chagas positiva em duas técnicas. Exame: PA 104/68 mmHg, FC 64 bpm, ritmo regular, turgência jugular, hepatomegalia dolorosa, edema ++/4. Eletrocardiograma: ritmo sinusal, bloqueio completo de ramo direito com hemibloqueio anterior esquerdo, QRS de 148 ms. Ecocardiograma: FEVE 26%, aneurisma de ponta do ventrículo esquerdo, sem trombo. Em uso de enalapril 20 mg de 12 em 12 horas, carvedilol 25 mg de 12 em 12 horas, espironolactona 25 mg/dia, dapagliflozina 10 mg/dia e furosemida 40 mg de 12 em 12 horas há seis meses, com boa adesão. Holter sem taquicardia ventricular sustentada. Ferritina 78 ng/mL, hemoglobina 12,9 g/dL, potássio 4,6 mEq/L, creatinina 1,0 mg/dL.
achado
FEVE 26% com sorologia positiva e aneurisma apical: cardiomiopatia chagásica com ICFEr. É a etiologia de pior prognóstico entre as causas de IC no Brasil, com mortalidade que pode chegar a 20% ao ano.
achado
Sintomas a esforços menores que os habituais, com conforto em repouso: NYHA III. Somado a duas internações em oito meses, é perfil de alto risco de reinternação e óbito.
achado
Os quatro pilares já estão prescritos e em doses-alvo há seis meses, com adesão. O que sobra é o que vem depois dos pilares — e a decisão sobre dispositivo.
achado
Bloqueio de ramo direito com QRS de 148 ms. O padrão eletrocardiográfico importa tanto quanto a largura: o benefício demonstrado da ressincronização está no bloqueio de ramo esquerdo.
achado
Ferritina 78 ng/mL sem anemia relevante. Esse número, isolado, já preenche um critério objetivo de tratamento.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Marcar furosemida ou digoxina como conduta que reduz mortalidade É o erro mais comum do tema. Diurético alivia congestão e melhora sintoma; digoxina reduz hospitalização mas não mudou mortalidade total no estudo DIG, com 6.800 pacientes e 37 meses de seguimento. Quando a pergunta diz 'reduz mortalidade', só valem os quatro pilares, sacubitril-valsartana no lugar do IECA, hidralazina com nitrato no cenário certo, e os dispositivos.
  2. 2Prescrever atenolol ou propranolol Betabloqueador em insuficiência cardíaca não é efeito de classe. Só carvedilol, succinato de metoprolol e bisoprolol têm evidência de redução de mortalidade e são os três que a diretriz nomeia. Uma alternativa que traga atenolol está errada por definição. Cuidado também com o tartarato de metoprolol: a evidência é do succinato, a formulação de liberação prolongada.
  3. 3Associar sacubitril-valsartana ao IECA que o paciente já usa Não é acréscimo, é substituição. A associação simultânea é Classe III pelo risco de angioedema, e é obrigatório um intervalo de 36 horas sem IECA antes da primeira dose. Quem vinha de BRA não precisa de washout. História prévia de angioedema também contraindica.
  4. 4Iniciar betabloqueador no paciente congesto Betabloqueador entra com o paciente compensado, em dose baixa, com titulação lenta. No paciente congesto, primeiro descongestione. E o inverso também cai em prova: em quem já usava betabloqueador e descompensou, não se suspende a droga automaticamente — ajusta-se o diurético primeiro.
  5. 5Confundir os pontos de corte de peptídeo do ambulatório com os da emergência Ambulatório: BNP abaixo de 35 pg/mL e NT-proBNP abaixo de 125 pg/mL descartam. Emergência: BNP abaixo de 100 pg/mL e NT-proBNP abaixo de 300 pg/mL descartam, e o valor que confirma no NT-proBNP varia com a idade (450, 900 e 1.800 pg/mL para menos de 50, 50 a 75 e mais de 75 anos). Trocar as réguas transforma um paciente descartável em investigado e vice-versa.
  6. 6Achar que peptídeo alto fecha o diagnóstico A força do BNP e do NT-proBNP está em descartar. Elevam-se em embolia pulmonar, síndrome coronariana aguda, miocardite, fibrilação atrial, doença renal, sepse, AVC, anemia. Peptídeo alto manda fazer ecocardiograma; não autoriza começar a tratar como insuficiência cardíaca sem confirmar.
  7. 7Indicar CDI antes dos 40 dias pós-infarto ou com FEVE entre 35 e 40% Os dois números são precisos e são o alvo da pegadinha: prevenção primária na cardiopatia isquêmica exige FEVE ≤ 35% (não ≤ 40%), NYHA II-III e mais de 40 dias do infarto, com terapia otimizada. Antes disso a fração ainda pode recuperar com revascularização e otimização clínica, e o implante precoce não reduz mortalidade.
  8. 8Indicar ressincronizador olhando só a largura do QRS A morfologia manda tanto quanto a duração. O Classe I é bloqueio completo de ramo esquerdo com QRS ≥ 150 ms, FEVE ≤ 35% e ritmo sinusal. Com bloqueio de ramo esquerdo e QRS de 130 a 150 ms, cai para IIa. Sem padrão de ramo esquerdo e com QRS ≤ 160 ms, é Classe III — a diretriz manda não implantar.
  9. 9Prescrever ivabradina em fibrilação atrial ou sem checar a frequência A ivabradina age na corrente If do nó sinoatrial: exige ritmo sinusal para funcionar. Os critérios são FEVE ≤ 35%, ritmo sinusal e frequência ≥ 70 bpm apesar de betabloqueador na dose máxima tolerada. Ela reduz hospitalização e morte por IC, não mortalidade por todas as causas — e não está incorporada ao SUS.
  10. 10Interpretar BNP elevado em quem usa sacubitril-valsartana como piora O sacubitril inibe a neprilisina, a enzima que degrada o BNP. O BNP sobe por efeito farmacológico, sem que o paciente tenha piorado. Nesses pacientes, o marcador a acompanhar é o NT-proBNP, que não é substrato da neprilisina.
  11. 11Suspender o inibidor da ECA porque o paciente tossiu Tosse por IECA é mediada por bradicinina e não é reação alérgica. A conduta é trocar por um bloqueador do receptor de angiotensina, mantendo o bloqueio do eixo — nunca ficar sem ele. Suspender e não repor deixa o paciente sem um pilar que reduz mortalidade.
  12. 12Pedir ferro oral para o paciente com ICFEr e ferritina baixa Os critérios são ferritina abaixo de 100 ng/mL, ou entre 100 e 299 ng/mL com saturação de transferrina abaixo de 20% — e valem mesmo sem anemia. A reposição validada é intravenosa, com carboximaltose férrica; a absorção oral está prejudicada pela inflamação crônica.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na IC com fração de ejeção reduzida sintomática apesar de IECA e betabloqueador otimizados, o antagonista de receptor mineralocorticoide (espironolactona) reduz mortalidade e deve ser adicionado, desde que potássio e função renal permitam. A digoxina reduz internações, mas não mortalidade. A furosemida controla congestão sintomática, sem impacto em sobrevida. O amlodipino é neutro na IC e não reduz mortalidade. O nifedipino de liberação rápida é deletério na IC pela ativação simpática reflexa.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

As três réguas numéricas: FEVE ≤ 40% define ICFEr (41-49% levemente reduzida, ≥ 50% preservada); BNP abaixo de 35 e NT-proBNP abaixo de 125 pg/mL descartam no ambulatório, 100 e 300 pg/mL descartam na emergência; FEVE ≤ 35% é o limiar de dispositivo, com QRS ≥ 150 ms e bloqueio de ramo esquerdo para TRC e mais de 40 dias pós-infarto para CDI isquêmico. E os quatro pilares com suas doses-alvo, incluindo os três betabloqueadores que valem.

em 30 dias

As três divergências e o que fazer com cada uma: o corte de fração de ejeção (≤ 40% na clínica, < 40% quando a questão for sobre SUS); a ordem dos pilares (simultâneos e cedo, não a sequência de 3 a 6 meses de 2018); e os cinco critérios cumulativos que o PCDT exige para liberar sacubitril-valsartana — menos de 75 anos, NYHA II, FEVE ≤ 35%, BNP acima de 150 ou NT-proBNP acima de 600 pg/mL, e terapia otimizada. Revise junto o pacote pós-pilares: ivabradina (ritmo sinusal, FC ≥ 70), ferro intravenoso (ferritina abaixo de 100), hidralazina com nitrato e as particularidades da IC chagásica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 61 anos com dispneia progressiva aos esforços e edema de membros inferiores, ecocardiograma com FEVE 29% — ambulatório de clínica médica — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida – Insuficiência cardíaca com FE reduzida — Preparatório para provas | OsceLabs