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Dismenorreia primária e secundária

A cólica que é doença, a cólica que é aviso — e por que o anti-inflamatório falha por horário, não por dose

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Adolescente de 15 anos, com menarca aos 12 anos, queixa-se de dismenorreia progressiva e incapacitante há 8 meses, que a afasta da escola. Refere dor pélvica cíclica intensa, sem dispareunia (nega atividade sexual). Exame ginecológico externo normal, sem massas palpáveis ao toque retal. Ultrassonografia pélvica sem alterações. Já usou ibuprofeno com resposta parcial. Qual é a conduta de primeira linha mais adequada?

02

Como esse tema cai

Dismenorreia é a queixa ginecológica mais comum da adolescência e, na prova, quase nunca aparece como tema de cabeçalho: ela chega disfarçada de sintoma dentro de uma vinheta de endometriose, de adenomiose, de mioma ou de escolha de método contraceptivo. Por isso o capítulo tem duas tarefas. A primeira é ensinar a separar a cólica que é a própria doença — a dismenorreia primária, sem lesão pélvica — da cólica que é aviso de outra coisa. A segunda é ensinar o único tratamento que a banca cobra de verdade e que o aluno costuma errar: o anti-inflamatório da dismenorreia falha por horário, não por dose.

O que o avaliador quer saber: se você reconhece o retrato da primária (começa 6 a 12 meses depois da menarca, no primeiro dia do fluxo ou 1 a 2 dias antes, dura de 8 a 72 horas, não piora ano a ano); se sabe quais achados obrigam a procurar causa orgânica; se prescreve o anti-inflamatório como esquema com data de início e duração, e não como comprimido de resgate; e se sabe a hora de parar de tratar às cegas e investigar — a essa altura o nome que a banca espera é endometriose.

Há ainda uma armadilha de cenário que só se enxerga cruzando dois documentos do próprio Ministério da Saúde. O protocolo da Atenção Básica de 2016 nomeia quatro anti-inflamatórios para dismenorreia — ibuprofeno, diclofenaco, piroxicam e nimesulida. Passados oito anos, três deles saíram de cena: a Rename 2024 não lista diclofenaco, piroxicam nem nimesulida. Em vinheta de UBS, o anti-inflamatório que existe na farmácia básica é o ibuprofeno.

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O que muda decisão

A doença que mora na própria menstruação

Dismenorreia é dor pélvica ou do baixo ventre, cíclica e ligada à menstruação. A prevalência estimada é de 45% a 93% das mulheres em idade reprodutiva, e as maiores taxas estão entre as adolescentes; cerca de 15% das adolescentes descrevem a dor como grave, com absenteísmo escolar, queda de desempenho e sono ruim. A classificação tem dois eixos independentes que a prova adora embaralhar: por intensidade (leve, moderada, grave) e por etiologia (primária, ou funcional; secundária, ou orgânica). Um eixo não determina o outro — voltaremos a isso.

A primária é a maioria dos casos e é definida por exclusão de doença: cólica menstrual na ausência de qualquer outra doença ou anormalidade pélvica. Seu mecanismo é um efeito colateral do ciclo ovulatório normal. Depois da ovulação, os fosfolipídios se acumulam nas membranas celulares do endométrio; com a regressão do corpo lúteo e a queda da progesterona, esses fosfolipídios são convertidos em ácido araquidônico, que a ciclo-oxigenase transforma em prostaglandinas e a lipoxigenase, em leucotrienos. A PGF2-alfa contrai o músculo liso uterino e produz isquemia — é a dor. A PGE2 dá vasodilatação e desagregação plaquetária, e responde pelo cortejo sistêmico: náusea, vômito, cefaleia, edema. A intensidade da cólica acompanha a quantidade de PGF2-alfa liberada, e o protocolo da FEBRASGO de 2021 registra níveis duas a quatro vezes maiores em mulheres com dismenorreia do que nas sem.

Duas consequências práticas saem direto da fisiopatologia e valem questão inteira. Primeira: como a cascata depende da queda da progesterona pós-ovulatória, a primária só aparece quando os ciclos passam a ser ovulatórios — daí a janela de 6 a 12 meses depois da menarca. Ciclo anovulatório do primeiro ano costuma ser indolor. Segunda: o anti-inflamatório age bloqueando a ciclo-oxigenase, ou seja, impedindo a produção de prostaglandina. Prostaglandina já liberada não volta atrás. É por isso que o remédio tomado no auge da cólica trabalha contra o próprio mecanismo, e o mesmo comprimido, tomado antes, funciona.

Fatores associados que a banca cita como pista de contexto, nunca como diagnóstico: índice de massa corporal baixo, menarca antes dos 12 anos, intervalo e duração menstruais prolongados, fluxo abundante, síndrome pré-menstrual, tabagismo e antecedente de abuso sexual.

Primária ou secundária: a régua que separa

O retrato da dismenorreia primária é um conjunto, não um item isolado. Começa 6 a 12 meses depois da menarca; a dor aparece no início do fluxo menstrual ou 1 a 2 dias antes; localiza-se no baixo ventre e irradia para as coxas ou a região lombossacra; dura de 8 a 72 horas; é de intensidade leve a moderada; e — o adjetivo que mais decide questão — não é progressiva. Cefaleia, náusea e vômito acompanham. O exame físico é normal.

A dismenorreia secundária é a menstruação dolorosa associada a doença ou anormalidade pélvica. Atinge cerca de 10% das adolescentes, costuma se instalar depois de 12 meses do estabelecimento do ciclo e vem acompanhada de dor pélvica crônica, dor no meio do ciclo, dispareunia e sangramento menstrual irregular. As bandeiras que mandam procurar causa orgânica aparecem em três redações diferentes nos documentos da FEBRASGO, e o que sobrevive às três está na tabela adiante: piora progressiva, dor fora do período menstrual ou ligada à atividade sexual, e falha do tratamento empírico bem feito.

Aqui mora o erro conceitual mais caro do tema. Gravidade da dor e etiologia da dor são eixos separados. A edição de 2021 do protocolo pede suspeita de causa secundária diante de 'dismenorreia grave imediatamente após a menarca' — dois requisitos juntos. A edição de 2025 reescreveu a frase e deixou 'na presença de dismenorreia grave', sem a âncora temporal. Lida ao pé da letra, essa redação transforma em suspeita de doença orgânica os mesmos 15% de adolescentes que o próprio documento diz descreverem a dor como grave, numa população em que a primária 'representa a maioria dos casos'. A leitura que fecha a conta: intensidade grave é gatilho para investigar e para não subtratar, nunca critério diagnóstico de secundária.

Um par de achados merece destaque porque cai isolado e resolve a questão sozinho: dor incapacitante desde a primeira menstruação em adolescente que tem também anomalia congênita renal aponta anomalia mülleriana obstrutiva. O rim se forma ao lado do ducto de Müller, e a malformação costuma vir aos pares — por isso 'anomalia renal' está na lista de bandeiras vermelhas de um protocolo de ginecologia. Nessas anomalias com hemivagina obstruída, a menstruação pode ser aparentemente normal (o lado pérvio sangra), e só a dor denuncia o lado bloqueado.

Linha do tempo comparando o início da dor na dismenorreia primária, 6 a 12 meses após a menarca, com o início imediato à menarca típico das causas obstrutivas.
A distância entre a menarca e a primeira cólica é o dado mais barato da anamnese. Dor que só começa 6 a 12 meses depois, quando os ciclos viram ovulatórios, desenha a primária; dor grave desde a primeira menstruação, e que só piora, desenha obstrução ou outra doença.

As causas secundárias e o que cada uma denuncia

O protocolo organiza as causas em três colunas. Intrauterinas: adenomiose, leiomioma, anomalias müllerianas, estenose cervical, dispositivo intrauterino, aborto, sinéquias. Extrauterinas: endometriose, doença inflamatória pélvica, aderências, gravidez ectópica, hímen imperfurado ou microperfurado, septo vaginal transverso, cistos ovarianos. Não ginecológicas: depressão e transtornos psicossomáticos, síndrome do cólon irritável, constipação crônica, doença inflamatória intestinal, dor miofascial, infecção urinária e litíase renal.

A endometriose é a causa mais frequente de dismenorreia secundária na adolescência. Os números que a prova usa: ela é descrita em 25% a 38% das adolescentes com dor pélvica crônica e em 47% daquelas submetidas a laparoscopia por esse motivo — note que o segundo número tem denominador muito mais selecionado que o primeiro, e não deve ser transportado para 'adolescentes com dismenorreia' em geral. O quadro clínico soma dismenorreia, fluxo frequente ou aumentado e sintomas gastrintestinais e geniturinários; a investigação e o tratamento estão no capítulo de Endometriose desta apostila.

Cada uma das outras grandes causas tem um sinal de reconhecimento. Adenomiose: mulher acima dos 35 a 40 anos, sangramento menstrual volumoso progressivo, dismenorreia importante e útero globalmente aumentado, amolecido e doloroso — está detalhada no capítulo de Sangramento uterino anormal e PALM-COEIN. Leiomioma: útero aumentado e nodular, com sangramento aumentado — capítulo de Miomatose uterina. Doença inflamatória pélvica: cólica que passou a existir num ciclo que antes não doía, com dor à mobilização do colo, corrimento e dispareunia. Dispositivo intrauterino de cobre: aumento de fluxo e de cólica, mais intensos nos primeiros três a seis meses — antes de tranquilizar, o protocolo de longa duração manda afastar doença inflamatória pélvica, gestação ectópica, abortamento, perfuração e expulsão parcial.

Vale a inversão útil: o dispositivo intrauterino aparece nas duas pontas da lista. O de cobre é causa de dismenorreia secundária; o de levonorgestrel é tratamento — reduz fluxo e cólica e é a escolha quando a paciente também precisa de contracepção.

O que examinar, o que pedir e o que não pedir

Para o diagnóstico da dismenorreia, história clínica e exame físico bastam na maioria das vezes, e o objetivo dos dois é separar primária de secundária. A anamnese precisa cobrir história menstrual, idade da menarca, localização e duração da dor, grau de comprometimento das atividades — dias de falta à escola ou ao trabalho são o melhor termômetro de gravidade — e os tratamentos já usados, com dose e horário. Investigar relação da dor com atividade sexual, antecedente de infecção sexualmente transmissível e história de abuso físico ou sexual faz parte do roteiro, não é fineza.

O exame físico começa pela inspeção da genitália externa, e ela sozinha resolve as anomalias mais dramáticas: hímen imperfurado ou microperfurado se veem. Septo vaginal transverso se identifica com a introdução de um swab no canal vaginal. Adolescente sexualmente ativa faz exame ginecológico completo e rastreio de infecções sexualmente transmissíveis e de gravidez. Adolescente sem sexarca, com história típica de primária, pode ter o exame ginecológico interno adiado — a alternativa que exige toque vaginal antes de tratar uma cólica típica costuma ser a errada.

Exames complementares entram por indicação, não por rotina: exame de urina para afastar infecção urinária; hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação quando se cogita doença inflamatória pélvica ou outro processo inflamatório; ultrassonografia pélvica, de preferência, ou ressonância magnética, para identificar anormalidades dos órgãos pélvicos. A laparoscopia mudou de lugar entre as duas edições do protocolo: em 2021 era 'considerada quando não houver etiologia identificada e falha do tratamento com medicações de primeira linha'; em 2025 virou 'último recurso, após esgotadas todas as opções de tratamento'.

Uma remissão que evita erro: imagem normal não afasta endometriose, porque a forma peritoneal superficial — a mais comum — praticamente não aparece em ultrassom nem em ressonância. Quem trata dismenorreia refratária com laudo de imagem normal na mão precisa saber disso; o raciocínio completo está no capítulo de Endometriose.

O anti-inflamatório é um esquema, não um comprimido

Anti-inflamatórios não hormonais são a primeira escolha na dismenorreia primária, e o tamanho do efeito é conhecido. A revisão Cochrane de 2015 reuniu 80 ensaios randomizados com 5.820 mulheres comparando 20 anti-inflamatórios diferentes: contra placebo, a razão de chances de alívio moderado ou excelente da dor foi de 4,37 (IC 95% 3,76 a 5,09) em 35 ensaios — em números absolutos, se 18% das mulheres com placebo alcançam esse alívio, entre 45% e 53% das que tomam anti-inflamatório o alcançam. Contra paracetamol, os anti-inflamatórios foram superiores, com razão de chances de 1,89 (IC 95% 1,05 a 3,43), mas o resultado vem de apenas três ensaios. O preço é real: efeitos adversos gerais com razão de chances de 1,29 (IC 95% 1,11 a 1,51), gastrintestinais de 1,58 (1,12 a 2,23) e neurológicos de 2,74 (1,66 a 4,53).

Duas conclusões da mesma revisão desarmam alternativas inteiras. Não há evidência de superioridade de nenhum anti-inflamatório específico sobre os demais — a escolha se faz por disponibilidade, tolerância e custo, não por potência declarada. E os inibidores seletivos da Cox-2 não se mostraram mais eficazes nem mais toleráveis que os anti-inflamatórios não seletivos nos dois estudos que os compararam (etoricoxibe e celecoxibe); em adolescentes, o protocolo da FEBRASGO desaconselha essa classe pelo risco cardiovascular de uso prolongado, e derivados opioides estão fora por dependência.

O ponto que separa quem estudou de quem decorou é o esquema. O anti-inflamatório deve ser iniciado imediatamente ao começo do fluxo menstrual, ou 1 a 2 dias antes, para quem já sente dor antes de menstruar; deve ser tomado com as refeições, para reduzir irritação gástrica; e mantido por 3 a 5 dias — não 'se a dor voltar'. O protocolo do Ministério da Saúde escreve a mesma ideia com outros números: iniciar 2 a 3 dias antes do período menstrual, manter durante a menstruação e evitar uso superior a 7 dias. As três redações do mesmo comando estão comparadas adiante; o que sobrevive a todas é o essencial — começar antes ou no primeiro dia do fluxo e manter por dias seguidos, em horário fixo.

Se falhar uma classe de anti-inflamatório, trocar por outra classe é conduta razoável — a Cochrane não vê superioridade média entre eles, mas a resposta individual varia, e as duas edições do protocolo autorizam a troca antes de escalar. O tratamento hormonal entra em paralelo ou em seguida: contraceptivo combinado (oral, injetável, transdérmico ou vaginal), preferencialmente em regime estendido na adolescente, ou progestágeno isolado quando o estrogênio está contraindicado, sempre pelos critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde. Para quem também precisa de contracepção, o dispositivo intrauterino com levonorgestrel é opção de tratamento. A associação de contraceptivo combinado com anti-inflamatório pode ser eficaz em quem permanece sintomática com uma modalidade só.

Fora da farmácia, exercício e calor local têm dados promissores, embora limitados. Estimulação elétrica nervosa transcutânea, acupuntura, preparações de ervas e ioga melhoraram a dismenorreia em alguns estudos, mas as evidências atuais não as sustentam como terapia complementar de primeira linha. Parar de fumar e modificação da dieta entram como estratégias não farmacológicas na caixa de tratamento empírico do fluxograma.

O que a farmácia da UBS realmente entrega

A régua nacional com esquema posológico nomeado para dismenorreia está nos Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, de 2016, cujo Quadro 8 prescreve, para dismenorreia, ibuprofeno 600 mg ou diclofenaco 50 mg de 8 em 8 horas, ou piroxicam 20 mg ou nimesulida 100 mg de 12 em 12 horas, iniciados 2 a 3 dias antes da menstruação, evitando uso superior a 7 dias; como antiespasmódico e analgésico, escopolamina 10 mg de 6 em 6 horas e dipirona ou paracetamol 500 mg de 6 em 6 horas. O documento marca a linha como atribuição compartilhada de enfermeiro e médico.

Oito anos depois, a Rename 2024 mudou o que existe na prateleira. Dos quatro anti-inflamatórios daquela lista, só o ibuprofeno consta — e consta bem: 200 mg, 300 mg e 600 mg em comprimido, 600 mg em cápsula e suspensão oral de 50 mg/mL, todos no Componente Básico. Diclofenaco, piroxicam e nimesulida não aparecem em nenhuma linha do documento; escopolamina também não. Paracetamol 500 mg e dipirona 500 mg estão lá, no Componente Básico. O naproxeno consta, mas no Componente Especializado — quer dizer, não é o que a unidade básica dispensa para cólica menstrual. Em cenário de UBS, portanto, a resposta é ibuprofeno, com paracetamol ou dipirona como analgésico associado.

Vale carregar dois tetos na cabeça, porque quadro de posologia costuma trazer dose por tomada e intervalo sem trazer o limite diário, e a conta de multiplicar é do prescritor. Paracetamol: a bula registrada na Anvisa fixa dose diária máxima de 4.000 mg, sem exceder 1.000 mg por tomada, em intervalos de 4 a 6 horas. Tomar 1.000 mg a cada 4 horas dá seis tomadas, isto é, 6.000 mg — uma vez e meia o teto; com o comprimido de 500 mg que a Rename padroniza, seriam doze comprimidos por dia. Piroxicam: a bula aprovada adverte que 'o uso de doses diárias acima de 20 mg de piroxicam leva a um aumento do risco de efeitos colaterais gastrintestinais', autoriza na condição aguda 40 mg em dose única nos dois primeiros dias e depois 20 mg/dia por mais 1 a 3 dias — e afirma que piroxicam não deve ser tratamento de primeira escolha de dismenorreia quando um anti-inflamatório está indicado.

A conta do piroxicam explica por que a divergência importa. O esquema de 20 mg de 12 em 12 horas por até 7 dias, do protocolo de 2016, entrega até 280 mg por ciclo; o esquema da bula entrega no máximo 140 mg (dois dias de 40 mg mais três de 20 mg) — o dobro, com um fármaco de meia-vida longa cuja bula pede dose única diária e desaconselha justamente esta indicação como primeira escolha.

A hora de parar de tratar às cegas

Falha terapêutica documentada é o gatilho que muda o raciocínio: não melhorou com anti-inflamatório bem prescrito e com tratamento hormonal, o diagnóstico de dismenorreia secundária — particularmente endometriose — passa a ser o mais provável. As duas edições do protocolo concordam no gatilho e divergem no prazo. A de 2021 cronometra: três meses de anti-inflamatório e, na ausência de melhora, mais três meses de hormonal, antes de investigar; a de 2025 abandonou os prazos e escreve apenas 'caso a dor não melhore com o uso de anti-inflamatório e contraceptivos hormonais'.

Antes de declarar falha, há uma conferência que evita investigação desnecessária e é conduta esperada em questão bem construída: verificar adesão e, sobretudo, verificar o horário. Paciente que toma o comprimido quando a dor aperta não testou o tratamento — testou outra coisa. A frase que resume o capítulo cabe numa linha: dismenorreia primária não responde a analgesia de resgate; responde a bloqueio de síntese começado antes da dor.

Confirmada a falha, a investigação segue por imagem: ultrassonografia pélvica ou transvaginal, conforme a vida sexual, ou ressonância magnética. Achado positivo leva ao tratamento da etiologia; achado negativo mantém a suspeita de endometriose e leva à avaliação multidisciplinar da dor pélvica crônica e, eventualmente, à laparoscopia. Em adolescente com menos de 18 anos, o análogo do hormônio liberador de gonadotrofinas deve ser evitado pelo risco sobre a formação e a densidade mineral óssea; quando usado, é por 6 meses em quem tem diagnóstico definitivo de endometriose, seguido de troca por outro método hormonal, e com terapia de adição hormonal se precisar ser mantido.

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A régua da dismenorreia

Três decisões resolvem quase toda vinheta do tema: encaixar (ou não) o caso no retrato da primária, checar as bandeiras de causa orgânica e prescrever o anti-inflamatório como esquema datado. A escada só sobe depois de a primeira linha ter sido realmente testada.

  1. 1Cólica menstrual cíclica → confrontar com o retrato da primária (6 a 12 meses após a menarca, início no fluxo ou 1 a 2 dias antes, 8 a 72 horas, não progressiva) e varrer as bandeiras de causa orgânica.
  2. 2Retrato compatível → tratamento empírico sem imagem: anti-inflamatório em esquema datado, com refeição, por 3 a 5 dias por ciclo, associado ou não a hormonal; exercício e calor local como adjuvantes.
  3. 3Adolescente sem sexarca e com história típica → exame da genitália externa (hímen imperfurado, microperfurado, septo com swab); exame ginecológico interno pode ser adiado.
  4. 4Respondeu → manter o esquema e reavaliar periodicamente; adolescente que precisa de contracepção pode migrar para combinado em regime estendido ou DIU de levonorgestrel.
  5. 5Não respondeu → antes de declarar falha, checar adesão e HORÁRIO da tomada. Falha real (2021: 3 meses de anti-inflamatório + 3 de hormonal; 2025: sem prazo) → considerar dismenorreia secundária.
  6. 6Investigar por imagem: ultrassonografia pélvica ou transvaginal conforme a vida sexual, ou ressonância. Achado positivo → tratar a etiologia. Achado negativo → manter a suspeita de endometriose, avaliação multidisciplinar da dor pélvica crônica e, em último recurso, laparoscopia.

1º — O retrato da primária

Início 6 a 12 meses após a menarca; dor no primeiro dia do fluxo ou 1 a 2 dias antes; baixo ventre com irradiação para coxas e lombossacra; duração de 8 a 72 horas; leve a moderada e NÃO progressiva; náusea, vômito e cefaleia acompanham; exame físico normal. História e exame bastam.

2º — As bandeiras da secundária

Piora progressiva; dor acíclica ou ligada à atividade sexual (dispareunia); falha do tratamento empírico bem feito; fluxo intenso ou irregular; dor grave já na primeira menstruação; história familiar de endometriose; anomalia congênita renal, vertebral, cardíaca ou gastrintestinal. Gravidade isolada investiga — não diagnostica.

3º — O esquema, não o comprimido

Ibuprofeno (o que a Rename 2024 tem no Componente Básico) começando 1 a 2 dias antes do fluxo ou no primeiro dia, com as refeições, mantido por 3 a 5 dias — o Ministério da Saúde escreve 2 a 3 dias antes e evitar mais de 7 dias. Falhou uma classe: trocar de classe ou somar hormonal (combinado em regime estendido, progestágeno isolado ou DIU de levonorgestrel).

O que o protocolo prescreve e o que a Rename 2024 entrega

Fármaco (Protocolos da Atenção Básica, MS 2016)Esquema publicadoSituação na Rename 2024
Ibuprofeno600 mg de 8/8 h, iniciado 2 a 3 dias antes da menstruação, evitar > 7 diasComponente Básico — 200, 300 e 600 mg comprimido, 600 mg cápsula, 50 mg/mL suspensão
Diclofenaco50 mg de 8/8 hNão consta
Piroxicam20 mg de 12/12 h (= 40 mg/dia)Não consta. A bula aprovada desaconselha primeira escolha em dismenorreia e alerta para doses acima de 20 mg/dia
Nimesulida100 mg de 12/12 hNão consta
Escopolamina (antiespasmódico)10 mg de 6/6 hNão consta
Dipirona500 mg de 6/6 hComponente Básico — 500 mg comprimido, 500 mg/mL solução oral e injetável
Paracetamol500 mg de 6/6 hComponente Básico — 500 mg comprimido, 200 mg/mL solução. Teto de 4.000 mg/dia
Naproxeno (não está no quadro do MS; está no da FEBRASGO)250 mg de 8/8 h ou 500 mg de 12/12 hConsta, mas no Componente Especializado — não é o que a UBS dispensa para cólica

A mesma instrução em três redações — o que sobrevive às três

DocumentoQuando começar e por quanto tempoQuando considerar causa secundária
MS, Protocolos da Atenção Básica (2016)2 a 3 dias antes da menstruação, mantido durante o fluxo; evitar uso superior a 7 diasNão estabelece prazo; manda atentar para a possibilidade de endometriose
FEBRASGO, protocolo de 20211 a 2 dias antes da menstruação, continuado por mais 2 dias durante o fluxo; manter o tratamento por 3 mesesApós 3 meses de anti-inflamatório e mais 3 meses de hormonal sem melhora
FEBRASGO, protocolo de 2025Imediatamente ao início do fluxo, ou 1 a 2 dias antes; mantido por 3 a 5 diasSem prazo: 'caso a dor não melhore com o uso de anti-inflamatório e contraceptivos hormonais'
O que sobrevive às trêsComeçar ANTES ou no primeiro dia do fluxo, em horário fixo, e manter por dias seguidos — nunca sob demandaFalha terapêutica documentada, com adesão e horário conferidos

Intensidade e etiologia são eixos independentes. Dor grave é gatilho para investigar e para não subtratar; não converte a dismenorreia em secundária. Os mesmos documentos que pedem suspeita diante de dor grave registram que 15% das adolescentes descrevem a dor como grave e que a primária é a maioria dos casos.

Quadro de posologia raramente traz o teto diário — a multiplicação é do prescritor. Paracetamol 1.000 mg a cada 4 horas dá 6.000 mg/dia, uma vez e meia o máximo de 4.000 mg da bula registrada na Anvisa; com o comprimido de 500 mg da Rename, são doze comprimidos.

Naproxeno 550 mg é naproxeno sódico e equivale a 500 mg de naproxeno base, conforme a composição declarada na bula. Alternativa que oferece '500 mg ou 550 mg' como se fossem duas doses diferentes está oferecendo a mesma coisa duas vezes.

Inibidores seletivos da COX-2 não foram mais eficazes nem mais toleráveis que os não seletivos nos ensaios que os compararam, e a FEBRASGO os desaconselha na adolescência pelo risco cardiovascular de uso prolongado. Opioide não entra na dismenorreia primária.

Imagem normal não afasta endometriose: a forma peritoneal superficial, a mais comum, não é vista por ultrassom nem por ressonância. Ver o capítulo de Endometriose.

DIU de cobre é causa de dismenorreia secundária; DIU de levonorgestrel é tratamento. Antes de tranquilizar quem tem cólica nova com DIU, afastar doença inflamatória pélvica, gestação ectópica, abortamento, perfuração e expulsão parcial.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Que anti-inflamatório usar: o que o protocolo nacional nomeia e o que a lista nacional entrega

MS 2016: quatro anti-inflamatórios nomeados para dismenorreia

A linha 'Dismenorreia' prescreve ibuprofeno 600 mg ou diclofenaco 50 mg de 8 em 8 horas, ou piroxicam 20 mg ou nimesulida 100 mg de 12 em 12 horas, iniciados 2 a 3 dias antes do período menstrual e mantidos durante a menstruação, evitando uso superior a 7 dias, com escopolamina 10 mg de 6 em 6 horas e dipirona ou paracetamol 500 mg de 6 em 6 horas como antiespasmódico e analgésico.

Brasil. Ministério da Saúde / Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 8

Rename 2024: dos quatro, só o ibuprofeno permanece

Ibuprofeno está no Componente Básico em cinco apresentações (200, 300 e 600 mg comprimido, 600 mg cápsula e suspensão de 50 mg/mL). Diclofenaco, piroxicam, nimesulida e escopolamina não aparecem em nenhuma linha da lista. Paracetamol e dipirona estão no Componente Básico. Naproxeno está listado, porém no Componente Especializado, cuja dispensação segue lógica distinta da farmácia básica.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024)

Na prova

Vinheta ancorada em UBS, farmácia básica ou 'medicamento disponível na rede' quer ibuprofeno — é o único dos quatro que sobreviveu na Rename 2024, e está no Componente Básico. Enunciado que cita nominalmente os Protocolos da Atenção Básica de 2016, ou que oferece um bloco com os quatro fármacos juntos, está reproduzindo a lista de 2016 e aceita diclofenaco, piroxicam ou nimesulida como corretos. Vocabulário entrega o recorte: 'disponível na unidade', 'Componente Básico' e 'Rename' puxam para ibuprofeno; 'conforme o protocolo do Ministério da Saúde' pode puxar para a lista antiga. Cuidado com o naproxeno: ele está na Rename, mas no Componente Especializado — alternativa que o apresenta como opção da farmácia da UBS erra na coluna, não no fármaco.

Piroxicam na dismenorreia: o protocolo indica, a bula desaconselha

MS 2016: piroxicam 20 mg de 12/12 h entre as opções de primeira linha

O quadro oferece piroxicam 20 mg de 12 em 12 horas em pé de igualdade com ibuprofeno, diclofenaco e nimesulida, iniciados 2 a 3 dias antes da menstruação, com a única ressalva de evitar uso superior a 7 dias — o que autoriza até 280 mg de piroxicam por ciclo.

Brasil. Ministério da Saúde / Instituto Sírio-Libanês. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Quadro 8

Bula aprovada: não é primeira escolha, e acima de 20 mg/dia o risco sobe

A bula afirma que piroxicam não deve ser usado como tratamento de primeira escolha de dismenorreia quando um anti-inflamatório é indicado, nem em pacientes com maior risco de eventos gastrintestinais; adverte que doses diárias acima de 20 mg aumentam o risco de efeitos colaterais gastrintestinais; e limita a condição aguda a 40 mg em dose única diária por dois dias, seguidos de 20 mg/dia por mais 1 a 3 dias — no máximo 140 mg por episódio, metade do que o protocolo permite.

Bula profissional de piroxicam cápsula 20 mg (genérico), texto aprovado pela Anvisa

Na prova

Alternativa que prescreve piroxicam para cólica menstrual só é defensável se o enunciado citar expressamente os Protocolos da Atenção Básica de 2016. Em qualquer outro cenário — e sempre que a questão mencionar segurança, risco gastrintestinal, escolha de primeira linha ou disponibilidade no SUS — piroxicam é distrator. Duas pistas denunciam a armadilha: intervalo de 12 em 12 horas num fármaco cuja bula pede dose ÚNICA diária, e ausência de qualquer limite de dias no enunciado.

Quanto tempo tratar antes de investigar: as duas edições do mesmo protocolo

FEBRASGO 2021: três meses de AINE, mais três de hormonal

O texto cronometra as duas etapas: o anti-inflamatório deve ser mantido por três meses e, sem melhora, inicia-se o tratamento hormonal; se a dor não melhorar com três meses de anti-inflamatório e mais três de terapia hormonal, o diagnóstico de dismenorreia secundária, particularmente endometriose, deve ser considerado. A laparoscopia é 'considerada quando não houver etiologia identificada e falha do tratamento com medicações de primeira linha'.

FEBRASGO. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Protocolo FEBRASGO-Ginecologia n. 90, 2021

FEBRASGO 2025: sem prazo, o gatilho é a falha

A edição mais recente retirou os prazos e escreve apenas que, caso a dor não melhore com o uso de anti-inflamatório e contraceptivos hormonais, o diagnóstico de dismenorreia secundária, particularmente endometriose, deve ser considerado. Em compensação, endureceu a indicação cirúrgica: a laparoscopia passa a ser 'considerada como último recurso, após esgotadas todas as opções de tratamento'.

FEBRASGO. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402

Na prova

Enunciado que pede 'após quanto tempo' ou que oferece alternativas com meses espera a edição de 2021: três meses de anti-inflamatório e mais três de hormonal, seis no total, antes de investigar causa secundária. Enunciado que descreve refratariedade sem cronometrar espera a edição de 2025: o gatilho é a falha, não o calendário. Nos dois casos, a alternativa que investiga sem antes conferir adesão e horário da tomada é apressada, e a que insiste indefinidamente na primeira linha é a oposta. O que nunca muda de lado: falhou tratamento bem feito, o nome a lembrar é endometriose.

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Caso resolvido

Adolescente de 16 anos, sem vida sexual, procura a unidade básica acompanhada da mãe por cólica menstrual. Menarca aos 12 anos; a dor começou por volta dos 13, é do baixo ventre, irradia para as coxas, aparece no primeiro dia do sangramento e dura cerca de dois dias, sempre com náusea. Perdeu dois dias de aula no último trimestre. Ciclos regulares de 29 dias, fluxo de 4 dias, sem sangramento entre as menstruações. Usa ibuprofeno 400 mg 'quando a cólica aperta, umas duas vezes no dia pior', sem alívio satisfatório. Nega dispareunia (sem sexarca), disquezia e disúria cíclicas; sem antecedente familiar de endometriose e sem malformações conhecidas. Exame abdominal e inspeção da genitália externa sem alterações.
achado
Dor cíclica iniciada cerca de 12 meses após a menarca, no primeiro dia do fluxo, com duração dentro da faixa de 8 a 72 horas, cortejo sistêmico de náusea, ciclos regulares sem sangramento anormal e exame externo normal — o retrato completo da dismenorreia primária. Nenhuma bandeira de causa orgânica: a dor não é progressiva, não é acíclica, não há sangramento irregular, história familiar nem anomalia congênita.
diagnóstico
Dismenorreia primária. História e exame físico bastam; não há indicação de ultrassonografia, de hemograma com provas inflamatórias nem de exame ginecológico interno — a adolescente não teve sexarca e a história é típica. O que existe é uma falha aparente de tratamento que ainda não foi testado: 400 mg tomados no auge da dor, duas vezes num dia, não é esquema — é resgate.
conduta
Prescrever o anti-inflamatório como esquema datado: ibuprofeno, que é o que a Rename 2024 mantém no Componente Básico, iniciado no primeiro dia do fluxo (ou 1 a 2 dias antes, se a dor costuma anteceder), com as refeições, em horário fixo, mantido por 3 a 5 dias — o protocolo do Ministério da Saúde admite manter durante a menstruação, evitando ultrapassar 7 dias. Somar calor local e exercício, com dados promissores embora limitados. Explicar à paciente por que o horário importa: o comprimido impede a produção de prostaglandina, não desfaz a que já foi liberada.
seguimento
Reavaliar depois de alguns ciclos com o esquema correto. Persistindo a dor, a conduta autorizada é trocar de classe de anti-inflamatório ou associar tratamento hormonal — combinado em regime estendido é a preferência para adolescentes, progestágeno isolado se houver contraindicação ao estrogênio, e o DIU de levonorgestrel entra se ela também quiser contracepção. Só depois de anti-inflamatório e hormonal falharem com adesão e horário conferidos é que a investigação de dismenorreia secundária começa, por imagem, com endometriose no topo da lista.
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Agora feche você

Adolescente de 15 anos, sem vida sexual, é levada à unidade básica por cólica menstrual incapacitante. Menarca aos 12 anos; segundo a mãe, 'a primeira menstruação já veio com dor de dobrar', e a dor piorou a cada ano — nos últimos ciclos foram três dias de cama e ausência escolar. Ciclos regulares, fluxo de 5 dias. Já usou dipirona e ibuprofeno em vários esquemas, incluindo início no dia anterior ao fluxo, sem controle. Em prontuário: agenesia renal esquerda descoberta aos 8 anos em investigação de infecção urinária. Inspeção da genitália externa normal, hímen íntegro e perfurado. A médica de plantão propõe prescrever piroxicam 20 mg de 12 em 12 horas por 7 dias no próximo ciclo, conforme o quadro de dismenorreia dos Protocolos da Atenção Básica, e reavaliar em seis meses.
achado
Três bandeiras vermelhas empilhadas: dor grave já na primeira menstruação (a primária começa 6 a 12 meses depois da menarca, quando os ciclos viram ovulatórios), piora progressiva ano a ano e falha de tratamento empírico bem conduzido — com horário correto, o que exclui a explicação mais comum de falso fracasso. A quarta bandeira está no prontuário: agenesia renal unilateral, que o protocolo lista nominalmente entre as anomalias congênitas que puxam a suspeita para causa secundária.
análise da proposta
A proposta erra duas vezes. Erra o rumo, porque mantém tratamento empírico numa paciente que já preenche critérios para investigar causa orgânica, e ainda adia a reavaliação por seis meses. E erra o fármaco por aritmética: 20 mg de 12 em 12 horas são 40 mg/dia, e por 7 dias somam 280 mg por ciclo — a bula aprovada admite 40 mg/dia apenas nos dois primeiros dias, em dose única, seguidos de 20 mg/dia por mais 1 a 3 dias (no máximo 140 mg), adverte que acima de 20 mg/dia sobe o risco gastrintestinal e afirma que piroxicam não deve ser primeira escolha em dismenorreia. Fora isso, piroxicam não consta da Rename 2024.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1"A dor é forte, logo é dismenorreia secundária" Atrai porque 'grave' aparece na lista de bandeiras vermelhas do protocolo de 2025. Mas a mesma página informa que cerca de 15% das adolescentes descrevem a dor como grave e que a primária representa a maioria dos casos — se gravidade bastasse, a maioria das adolescentes com dor forte teria doença orgânica, o que o documento nega. A edição de 2021 era mais precisa: 'dismenorreia grave imediatamente após a menarca', dois requisitos juntos. Gravidade manda investigar e manda tratar melhor; não fecha diagnóstico.
  2. 2"Ela tem cólica desde a primeira menstruação, então é a clássica primária" É o inverso. A primária depende de ciclo ovulatório, que só se estabelece 6 a 12 meses depois da menarca — o primeiro ano costuma ser indolor. Dor incapacitante desde a primeira menstruação, e que só piora, aponta obstrução do trato genital. Se a vinheta acrescentar anomalia renal (rim único, agenesia, ectopia), a resposta é anomalia mülleriana obstrutiva, e a menstruação pode ser aparentemente normal porque o lado pérvio sangra.
  3. 3"Não melhorou com anti-inflamatório: trocar por opioide ou partir para laparoscopia" Dois saltos indevidos no mesmo movimento. Antes de declarar falha, checa-se adesão e horário: quem toma o comprimido no auge da cólica não testou o esquema, porque a prostaglandina já foi liberada e o bloqueio da ciclo-oxigenase não a desfaz. Falhando de verdade uma classe, a conduta autorizada é trocar de classe de anti-inflamatório ou somar tratamento hormonal. Opioide não é recomendado na adolescência pela dependência, e a laparoscopia é último recurso, depois de imagem e de tratamento esgotados.
  4. 4"Prescrever piroxicam 20 mg de 12/12 h porque está no protocolo do Ministério" O Quadro 8 dos Protocolos da Atenção Básica de 2016 realmente lista esse esquema, e a alternativa fica atraente por citar documento oficial. Duas contas o derrubam: 20 mg duas vezes ao dia são 40 mg/dia, e a bula aprovada adverte que doses diárias acima de 20 mg aumentam o risco gastrintestinal, autorizando 40 mg apenas nos dois primeiros dias de condição aguda, em dose ÚNICA diária; e o protocolo permite manter por até 7 dias, o que dobra a exposição do esquema da bula. Some-se que a mesma bula diz que piroxicam não deve ser primeira escolha em dismenorreia — e que ele não consta da Rename 2024.
  5. 5"Antes de prescrever, exame ginecológico completo em toda adolescente" A alternativa soa zelosa e é a errada quando a história é típica de primária e a adolescente não teve sexarca: nesses casos o exame ginecológico interno pode ser adiado, e o que não se adia é a inspeção da genitália externa — é ela que mostra hímen imperfurado ou microperfurado, e o swab que identifica septo vaginal transverso. Adolescente sexualmente ativa, sim, faz exame completo e rastreio de infecções e de gravidez.
  6. 6"Cólica nova em usuária de DIU é adaptação, é só tranquilizar" Cólica e aumento de fluxo são mesmo esperados nos primeiros três a seis meses com o dispositivo de cobre — mas dor nova em usuária de DIU é sintoma de triagem, não de reasseguramento. Afastar doença inflamatória pélvica, gestação ectópica, abortamento, perfuração uterina e expulsão parcial vem antes da conversa tranquilizadora; depois disso, sim, anti-inflamatório ou antiespasmódico.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na dismenorreia primária de adolescente com exame e USG normais e resposta parcial ao AINE, a próxima etapa é o contraceptivo hormonal combinado (associado ou não a AINE), que suprime a ovulação e reduz a produção endometrial de prostaglandinas. Laparoscopia diagnóstica não é primeira linha antes de tentar tratamento clínico. Análogo de GnRH tem efeitos adversos importantes (hipoestrogenismo/perda óssea) e não é primeira escolha em adolescente. RM/CA-125 não é a investigação inicial. Malformação mülleriana obstrutiva geralmente cursa com alterações ao exame/USG, ausentes aqui.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite de cabeça o retrato da dismenorreia primária (quando começa em relação à menarca, quando começa em relação ao fluxo, quanto dura, que intensidade e o adjetivo que mais importa), as bandeiras que mandam investigar causa orgânica e o esquema do anti-inflamatório — quando iniciar, com o quê tomar e por quantos dias. Depois responda: por que o comprimido tomado no auge da cólica não funciona?

em 30 dias

Monte a conduta de três pacientes: adolescente de 16 anos com dor típica que toma ibuprofeno 'quando aperta' (não é falha de droga, é falha de horário); adolescente de 15 anos com dor grave desde a menarca, progressiva, refratária e com agenesia renal (bandeiras → imagem, anomalia mülleriana obstrutiva e endometriose no topo); e mulher de 44 anos com dismenorreia progressiva, sangramento volumoso e útero aumentado e amolecido (adenomiose — capítulo de PALM-COEIN). Depois liste, de memória, quais dos quatro anti-inflamatórios do Quadro 8 de 2016 continuam na Rename 2024 e por que o naproxeno não serve como resposta de farmácia básica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Adolescente de 16 anos chega à UBS com a mãe por cólica menstrual que a tira da escola. Diz que 'já toma anti-inflamatório e não adianta'. Conduza: caracterize a dor com as perguntas que separam primária de secundária, varra as bandeiras vermelhas, decida se precisa de exame ginecológico interno e de ultrassom — e descubra, antes de trocar o remédio, se o remédio chegou a ser testado. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Dismenorreia primária e secundária — Preparatório para provas | OsceLabs